Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás 1- A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas I. “ (…) foi encontrada na galeria Poente e na parede Nascente, uma pedra com armas reais.”” Relatório dos SMAS, 1958 “Quarta-feira, 11 de Agosto de 1999 Ex.mo Senhor [Arqt.º Tomás Allen], Obrigado pelo interessante desafio… A pedra de armas que me enviou é, obviamente, um escudo das armas de Portugal …(…) posterior a 1485, data da reforma das armas reais por D. João II [mas] inclino-me para uma datação mais recente, provavelmente, D. Sebastião - S. Pedro II. (…) A coroa seria um elemento fundamental para poder datar mais precisamente a pedra de armas, pois sofreu algumas variações durante o período em causa. (…) Tenho uma dúvida em relação ao chefe, (…); a foto deixa-me dúvidas sobre se o chefe é em bico, ou se se trata de uma imperfeição ou desgaste da pedra. Se tivermos um chefe em bico, então poderemos estar perante uma pedra de armas ainda do tempo do reinado de D. Manuel I. (…) Com os meus melhores cumprimentos, Luís Belard da Fonseca”2 ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 1/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas II. “ A pequena distância do dito cruzeiro, na linha do Norte, já no século XVII, havia uma grande arca de pedra, (…) abaixo do Nível do Campo. O brazão régio nela fixado permitiu julgar-se que pertencia ao burgo do Porto.” Carlos dos Passos, 1955 “ Querendo a Câmara trazer para a Cidade e Chafariz da rua Cham aagoa da Fonte das Velhas, que estava metida na Arca com Armas Reaes em cima na mesma Arca por entenderem os Officiaes della ser pertença da dita cidade oppo-se o dito Frei Pedro com embargos.” João Evangelista Gomes Leite, 1836 “Este manancial de Mijavelhas, fonte e tanques (…) foi tudo aterrado e desappareceu e hoje esta fonte da rua Chã que por elle foi alimentada (...), é agora abastecida pelo Manancial do Campo Grande.” (…) Tem a arca uma fórma circular, sendo todo o seu solo coberto pela água que fórma um vasto lago e o seu tecto é todo em arcaria. (…) Dando a volta à arcaria pelo lado poente, vamos encontrar, no alto da parede que a fecha por este lado, umas armas reaes (…). (…) “Não se [lhes] refere Souza Reis (…)” J. Bahia Junior, 1909 ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 2/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas "Quem se der ao trabalho de folhear os livros de arrematações das obras públicas do Porto dos séculos XVI e XVII verificará que o cuidado pelas calçadas e chafarizes situados nos espaços fora de muros é entendido como uma obrigação municipal tal como as ruas de dentro. (…) Todavia, remonta ao período filipino um novo conceito de beleza urbanística que levou, nos primórdios do século XVII, à criação de largos espaços verdes especialmente concebidos para fruição colectiva." Francisco Ribeiro da Silva, 19943 - Terá sido mesmo assim? Porto, na Época Moderna. Um burgo ainda em expansão dentro da sua cerca Fernandina, mas também atendendo a arranjos nos arrabaldes. Pelo menos, atendendo às entradas, ou a algumas das entradas do seu termo, por onde afluíam à cidade as gentes vindas de Norte e de Nascente. Na da chegada da “Estrada para Valongo e Além” (ou “de Amarante”!), junto à ribeira de Mijavelhas, limite do couto concedido por D. Teresa ao Bispo D. Hugo, mas já na sua margem esquerda, investe-se no melhoramento do chafariz aí existente, construído na fraga, à sombra de castanheiros e nogueiras. Distingue-se este melhoramento com pedra de armas reais. “Investimento público” com patrocínio Régio, portanto, parceiro da Câmara? Efectivamente, coloca-se a questão sobre se esta construção teve ou não a participação do município uma vez que faltam as suas armas. Algo não muito usual, pois, como é sabido, este tipo de construções eram consideradas essenciais para o bem comum e por isso estimadas,4 sendo, por norma, realizadas em parceria com o rei. Todavia, apesar de não constarem as armas da cidade, a presença do escudo real valida e afirma a importância deste local para o burgo constatada a partir de 1620/1633, com a contenda entre a Câmara e Frei Pedro Sousa Cirne, a que faz menção o citado João Evangelista Gomes Leite, e pelas sucessivas obras que a arca foi sujeita durante a Época dos Almadas, em prol da utilização e melhor rentabilização dos seus recursos aquíferos. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 3/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas Aliás, esta já teria realizado obras muitos anos antes (1414), tal como prova a alusão a esses trabalhos no Livro de Vereaçoens5, que regista decisão camarária de que se “fezessem logo correger e amanhar o chafariz de Miega Velhas”. Mas é à Época Moderna, remontam os novos e substanciais melhoramentos, enaltecidos com a colocação de uma pedra de armas e apostados numa requalificação do espaço que partiu da absorção das preexistências e sua amplificação espacial, em área e altura. Concretizando melhor, enquadrada num substancial melhoramento do piso, pela colocação de lajeados em substituição da fraga natural, que aflorava, e ampliação do espelho d’ água, os promotores transformaram a fonte de mergulho em fonte de espaldar levantada em opus quadratum, trabalhando a sua métrica: não só a Arca rectifica a planimetria do chafariz através do trabalho das espessuras das suas paredes e alongamento para Nascente (fachada posterior), de forma a conseguir-se um quadrado com 3,64 m de lado, aproximadamente, como esta medida repete a da antiga taça sul do chafariz. Antiga taça sul, porque no prolongamento de uma outra, a Norte (condenada pela referida colocação de lajeado) e, com a requalificação, tornada taça a Nascente, adossada de uma outra a Poente, repetindo a mesma medida. Preparando tais melhoramentos, os promotores terão conduzido para ali, a vazadouro, terras e dejectos domésticos, providenciando modelação do terreno fragoso e irregular, destinado ao assentamento da nova pavimentação. Dejectos domésticos constituindo agora excelentes indicadores de datação quanto ao terminus post quem da obra, fixado no século XVI. De facto, sob os lajeados, por entre um predomínio de loiça comum não vidrada à mistura com fragmentos de vidrado de chumbo de tonalidades amarela e verde e faianças de fabricos arcaizantes de importação (do tipo das produções sevilhanas) e nacional, recolheram-se muito significativamente dejectos de porcelana e de grés. Voltando à construção arquitectónica, sobre o lado esquerdo da fachada voltada a Poente - o seu frontispício defronte do espelho d’ água criado -, é colocada a pedra de armas reais objecto deste artigo. Por aqui se indicia pé-direito original incompleto, na medida em que o escudo real seria rematado por coroa no timbre. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 4/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas - Faltará, portanto, para além da coroa, uma fiada de remate. - Coroa aberta ou já fechada, como uso a partir de D. Sebastião? - Poderia este fixar-se em 3,64 m? Dado que a arca se impõe pela sua frontalidade, então, insinuar-se-ia ao observador como um cubo. Entretanto, sucessivos transbordos da ribeira virão a enterrá-la, e a arca, de fonte espaldar, passa a poço. O Poço das Patas e seu aqueduto alvo de inúmeras obras lançadas pela Junta das Obras Públicas, ao tempo dos Almadas. Terão elas incluído refazer da cota de abertura, pela qual se terá perdido a coroa das armas reais? No século XIX, novamente com patrocínio régio, novas necessidades e financiamentos associados, viriam a encerrar a arca de Mijavelhas no reservatório do Campo Grande. Pouco tempo depois, eis que este é abarcado pela expansão urbana do burgo, o que lhe mina os mananciais, pondo em causa o seu papel na rede de abastecimento público de água à cidade. A culminar, em 1958, os S.M.A.S. ditam-lhe a condenação, em relatório pelo qual o Obra do Metro do Porto a resgatou do esquecimento. Consta deste documento dos Serviços Municipalizados o relato seguinte: “Tendo-se procedido a limpeza sumária das paredes da arca, foi encontrada na galeria Poente e na parede Nascente, uma pedra com as armas reais. Serão estas as armas a que se refere o livro manuscrito arquivado nestes serviços – Águas Municipais – o qual a folha 52 diz: “pela câmara em 22 de Setembro de 1548 com o foro anual de 160 réis estava incluído este terreno como pertença da Quinta do Reimão e era nele que existia a referida fonte [Manancial de Mijavelhas], metida numa arca que tinha em cima as armas reais, sinal bem claro de pertencer à cidade (…)?» Ao Ano de 1548 se reporta, de momento, o terminus ad quem desta construção. As Armas Reais da Fonte de Mijavelhas: eis o testemunho que impulsionou sua musealização dentro da Estação de Metro do Campo 24 de Agosto. Um símbolo do poder de um Monarca que despertou e lançou todo um processo que envolveu as mais variadas áreas do saber e do conhecimento envolvidas na Obra do Metro do Porto. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 5/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas III. "Foi sempre publica a fonte chamada de Arca de Mijavelhas que o Senado quis milhorar em proveito da cidade." Henrique Duarte e Souza Reys, 1867 1. Descrição Técnica da Pedra de Armas 1.1 Matéria Silhar de granito de grão médio, com 64 cm de altura e 56,5 cm de largura, tendo inscrito escudo lavrado ao centro alinhado pelo seu topo. Localizava-se sobre o lado Norte da fachada Poente de estrutura quadrangular, levantada em opus quadratum, encontrando-se inserida nas fiadas de topo. Apresenta contornos e superfície desgastados. Assim, no escudo, destaque-se o desgaste evidenciado no contorno do cantão sinistro do coração, disfarçando a concavidade neste ângulo. Mas, possivelmente, ocorreu forte afectação destrutiva no timbre, no seu cantão dextro: com efeito, aqui, a observação de leve concavidade sobre o cantão sinistro parece indiciar também chefe em bico definido por igual concavidade no lado oposto. Intencionais serão os bordos laterais côncavos do campo. Nos elementos heráldicos, observa-se ainda traços delidos de pequenos círculos (cinco ou apenas quatro?), na superfície dos escudetes. Na superfície, registe-se ausência de vestígios de representação de esmaltes, certamente inexistentes de origem, dada a textura medianamente grosseira do suporte granítico. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 6/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas 1.2 Armaria Armaria Face às condições de conservação do silhar e armas inscritas, propõe-se a seguinte descrição6: Escudo de ponta boleada, com chefe de linhas côncavas; coração com cinco escudetes pendentes postos em cruz, cada um carregado de besantes (cinco postos em sautor ou apenas quatro?); bordadura carregada de sete castelos, postos três em faixa e dois a cada flanco. Medidas: A.: 58 cm; L.: 44,5 cm. Proporções: oito à altura para, aprox., seis à largura. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 7/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas 2. Contextualização Histórica da Pedra de Armas. Armaria Real e Pesquisa Arqueológica no Campo 24 de Agosto: Agosto: Dados e Problemas Atendendo às características do escudo descrito acima, designadamente à presença de cinco escudetes direitos no campo e de sete castelos na bordadura, não existem dúvidas de que se trata de uma pedra de armas reais do designado período Portugal Moderno.7 Concretamente, do período compreendido entre os reinados de D. Manuel I e D. Pedro II. Um intervalo de tempo de 285 anos, e também mais de duas centenas e meia de história e evolução na armaria real portuguesa. Contudo, como já observado, as fontes históricas balizam terminus ad quem em 1548 e, assim sendo, pela conjugação de dados, no cerne desta discussão estão os Reis D. Manuel I e D. João III8, ambos tendo afirmado preocupação na utilização exclusiva das armas reais, cerceando o costume anterior do seu uso por outros membros da Casa Real.9 Consequentemente, dado arqueológico perdido, a coroa seria aberta. Mas, durante o reinado de D. Manuel I, além da exclusividade de uso, não houve preocupação por parte deste Monarca em fixar as suas armas numa única maneira de representação e observa-se que a reprodução do seu escudo não ocorreu de forma linear. Dos estudos realizados sobre a evolução da heráldica real portuguesa, sabe-se que com este monarca as armas reais adquiriram nova forma, sendo agora representadas sempre de uma forma clássica com contrachefe em bico, sobre um fundo branco com o escudo ao centro dotado de uma bordadura vermelha carregada de número variado de castelos de ouro (sete, ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 8/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas oito ou mais), distribuídos ao longo da mesma. Todavia, no fim do seu reinado é perceptível a tendência para a sua fixação em sete castelos, tal como consta no frontispício da Leitura Nova (1504) ou nos Forais de Riba d’Ave (1513) e de Matosinhos (1514)10, e ainda no livro da Comarca de Além Douro (1521) e na pedra de armas presente na janela da Sala do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar, ou o representado na Torre de Belém, Lisboa. Sobre o escudo passou a estar uma coroa aberta com cinco ou mais florões visíveis, normalmente trifólios ou com folhas de aipo. Terá sido igualmente com este Rei que a Heráldica atingiu o seu apogeu como ciência e como arte.11 As armas usadas por D. João III não diferiram das do seu antecessor, na sua fase final.12 D. João III apenas aperfeiçoou a forma rectangular do escudo, sistematicamente, adoptando a forma do típico escudo português, e “acompanhando as quinas a mesma evolução”13. Isto mesmo podemos ver nas várias representações das suas armas, como por exemplo, as constantes nas moedas do seu reinado como o ceitil ou o S. Vicente, ou nas várias bandeiras. S. Vicente de D. João III Em síntese, fora o chefe em bico, as restantes características da pedra de armas da Arca de Mijavelhas apresenta fortes afinidades com as representações de Armas de El Rei D. João III. Tente-se, contudo, nova busca de pistas a partir dos dados arqueológicos e arquitectónicos. A tentativa de identificar o autor deste projecto torna-se difícil quando não se dispõe de outros exemplares com as características arquitectónicas da Fonte de Mijavelhas (até à data não se conhecem exemplares iguais ou semelhantes no norte de Portugal). Todavia, quanto à edificação deste tipo de estruturas, sabe-se da existência de algumas fontes e chafarizes construídas durante os reinados de D. Manuel I (por exemplo, a Fonte da Cruz, em Nisa, e a Fonte de Vila Flor (1518) e de D. João III (fonte da Vila de Castelo de Vide). Em todas elas constam as armas reais do respectivo monarca patrocinador, e partilham a sua localização junto de vias de ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 9/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas circulação regional - reflexo da atenção do poder régio a crescente circulação interna? Recordese, a de Mijavelhas encontrava-se na saída para a “Estrada de Valongo e Além ou de Amarante”. Mas será também de considerar a Fonte do Lugar de Ladoeiro, Castelo Branco, datada de 1571, com planta semelhante à Arca de Mijavelhas, embora divergindo nos alçados. Com o escudo de armas reais na fachada virada para as taças de água, este apresenta-se de campo com bordos laterais paralelos e ponta boleada, mas com chefe de linhas côncavas e coroa aberta no timbre.14 Por fotografia, a proporção entre coroa e escudo fixar-se-á em 1/ 2,25, aproximadamente. Mantendo a mesma proporção nas armas reais de Mijavelhas, a presumida coroa desaparecida teria cerca de 0,257m de altura. Elevando-se o timbre do escudo à altura de 2,80 m do pé-direito do espaldar, somados os 0,257m da coroa, encontra-se uma margem suficiente (aprox. 0,58 m) para a fiada de remate e para a cornija de coroamento, dentro de um hipotético pédireito de 3,64 m do alçado Poente. Três metros e sessenta e quatro centímetros, a medida módulo da planta quadrangular da arca, conseguida a partir do trabalho das suas espessuras, e vinda da antiga taça Sul do chafariz e também da largura do seu alçado Poente. É assim que - e se bem que tendo como primeiros princípios subjacentes os da adaptação à Natureza/absorção das preexistências -, se advinha um terceiro princípio na concepção dessa requalificação: o seu cariz proporcionado e trabalho de uma medida, fazendo levantar um insinuante “cubo” (a arca, implantada numa encosta, apresentava alçados com pés-direitos diferenciados) no enfiamento de dois “quadrados” do espelho d’água formado pelas duas taças fronteiras ao alçado Poente, cujas medidas Altura e largura repetiriam as das taças. De facto, é nesta intuída solução de observância de métrica trabalhada em subordinação à figura geométrica do quadrado que se adivinha um possível programa arquitectónico subjacente, dentro do cânone renascentista. De resto, também indiciado na consubstanciada concretização de funcionalidade, estabilidade e proporção desta requalificação em prol do Cidadão Anónimo, num espaço público localizado nos arrabaldes do Burgo, à distância “a cavalo, na Estrada para Valongo/Arrifana”.15 ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 10/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas 3. Proposta de Atribuição da Pedra de Armas Reais de Mijavelhas - A Arca da Fonte de Mijavelhas observando programa estético renascentista? À luz dos conhecimentos historiográficos actuais, no Norte do Portugal, o contexto de acolhimento para tal concretização remonta ao segundo quartel do século XVI. Propomos, portanto, el Rei D. João III, subido ao trono em 1521, como Patrono dos melhoramentos na Arca de Mijavelhas ocorridos no início da Época Moderna. O Piedoso, precisamente a quem se deveu a promoção da tradução da tratadística renascentista, concretizada a partir de 1548. O Ano de 1548 será, porém, a data em que se fixa o terminus ad quem para esta requalificação do espaço medieval, dado pelo prazo de fateusim celebrado entre a Câmara e António de Madureira casado com Ana Reimoa, já que citaria a arca com pedras de armas reais no objecto do contrato. Por isso, não terá o estabelecimento de tal programa beneficiado da estadia no Porto, no 2.º quartel do século XVI, do Bispo de Viseu, D. Miguel da Silva, e da atmosfera de renovação artística e urbanística introduzida pelo seu Arquitecto por excelência, Francesco da Cremona? A este se atribuem os projectos da Igreja de S. João da Foz16 e da Capela de S. Miguel, o Anjo (1528), executados por encomenda de D. Miguel da Silva. Posteriormente, após o regresso do Bispo a Roma em 1540, sabe-se que este arquitecto terá permanecido na Cidade e prestado serviços à Câmara do Porto.17 - Obra, portanto, patrocinada por D. João III, em parceria com a Câmara, e com risco de autoria de Francesco da Cremona? - Ou com risco de Mestre Pedreiro de Arquitectura local, colhendo frutos na obra do Arquitecto Italiano? - Era ou não erudito o responsável pela concepção da requalificação da fonte de Mijavelhas? - Os besantes dos escudetes eram em número de cinco ou apenas quatro? Que significado, se em número de quatro? - Que significado também para a proporção de 8 para 6, observada no escudo, na vez da suposta 8 para 7? Uma última nota. Dada como irrefutável a datação desta requalificação no século XVI, e também dada a defesa da sua vinculação a um plano único, a proposta de atribuição de teminus ad quem fixado no Ano de 1548 afigura-se problematizada pelos dejectos do depósito de assentamento do lajeado, pois que, ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 11/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas entre as loiças evolucionadas, constam fragmentos de grés de fabrico europeu… Nunca esquecendo, por conseguinte, que tal balizamento é proposto, apesar de se encontrar em “Falta no Arquivo Distrital do Porto [a escritura do Contrato de 22 de Setembro de 1548]. Está inclusa, porém, na sentença de transacção da Câmara com Pero Vaz Soares de Sousa, como tutor do seu filho Manuel Cirne, a respeito da água da fonte das velhas (livro 3.º das sentenças, fls. 377, do Gabinete de História da Cidade.”18 Enfim, eis os mistérios que se encerram na coroa e na escritura perdidas! Mistérios lançados pela curiosidade da Engenharia sobre uma pedra de armas existente dentro de um reservatório desactivado, descoberto a partir do arquivo dos SMAS, durante a elaboração do projecto de desvio de redes do Campo 24 de Agosto. ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 12/15 Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05 Porto, Campo 24 de Agosto BOTELHO, Iva; SILVA, Susana; ALLEN, Tomás Tomás - A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas BIBLIOGRAFIA AAVV - Fontes, Chafarizes e Bicas d’Água à beira de Estradas e Caminhos; Junta Autónoma de Estradas, Lisboa, 1991. 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Luís de Oliveira Ramos, Porto, 1994, pp.257261 4 ALMEIDA; BARROCA, 2002 5 Livro de Vereaçoens, XL, 186. Informação dada por M. Barroca, em Correspondência trocada por email com Susana Silva. 6 Descrição com base na terminologia técnica de FERREIRA (1923:28; 30; 40; 76-77; 89; 262), TEIXEIRA, 1985: 9798) e ZUQUETE, 1961 7 AZEVEDO, Francisco, 1960, p.6; 262. 8 Veja-se Nota Técnica de 15 de Janeiro de 2004 9 NORTON, 2004, pág. 326 10 GARCIA; SILVA, 2001 11 AZEVEDO, 1960, p.6 12 AZEVEDO, 1960, p.6 13 Vide WebSite”Bandeiras de Portugal, Wikipedia, Encicopédia Livre” AAVV - Fontes, Chafarizes e Bicas d’Água à beira de Estradas e Caminhos; Junta Autónoma de Estradas, Lisboa, 1991 14 15 BARROCA, Mário, Da correspondência trocada por email com Susana Silva. 16 Em 1546, a Igreja de S. João da Foz era tida como uma obra muito nobre e feyta à guisa de Itália (FERREIRA, 1995, pág. 337). 17 FERREIRA, Paulo, História da Arte, Vol. 2, Circulo de Leitores, Lisboa, 1995, p. 339 18 PASSOS, Carlos dos - O Campo de Mijavelhas e a Quinta de Reimão; Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Porto, 1955, p.91 ibotelho; ssilva; tallen 2005-2006 15/15