A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO OLHAR DE SEUS ALUNOS E PROFESSORES Professora PDE: Luzia Bernardete Medeiros Orientadora UEPG: Ms.Ione da Silva Jovino RESUMO Este artigo apresenta o relato da experiência da implementação pedagógica numa escola de Educação de Jovens e Adultos no município de Jaguariaíva, Paraná. Para a efetivação da implementação utilizou-se a metodologia da pesquisa-ação com coleta de dados através de questionários a alunos e professores. Constituiu-se um Grupo de Apoio à Implementação do Projeto PDE na escola, com a participação do diretor, equipe pedagógica e professores para discussão das bases teórico-metodológicas que orientam o projeto de intervenção pedagógica e para auxílio no acompanhamento, desenvolvimento e programação das atividades. Aos alunos proporcionou-se em parceria com os professores colaboradores, míni-oficinas para discussões de temas sobre afetividade, auto-estima e cooperação. Os resultados da implementação apontam a importância da EJA na vida de seus envolvidos e a necessidade de práticas educativas mais afetivas por parte dos professores desta modalidade de ensino. Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Afetividade. Alunos. ABSTRACT This article presents an account of the implementation experience of teaching in a school of education of Youth and Adults in the city of Jaguariaíva, Paraná. For effective implementation used the methodology of action research with data collection through questionnaires to students and teachers. Constituted a Group of Support to implementation of the PDE project in school, with the participation of the director, teaching staff and teachers to discuss the methodological foundations underlying the design of education intervention and for assistance in monitoring, development and programming activities. The students provided in partnership with teachers staff, mini-workshops for discussion of topics on affectivity, self-esteem and cooperation. The implementation results show the importance of adults education in the life of this stakeholders and the need for more affective educational practices for teachers of this modality of education. Keywords: Youth and Adults. Affectivity. Students. 2 1 INTRODUÇÃO O Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE, implantado pela Secretaria de Estado da Educação, apresenta uma nova concepção de Formação Continuada em serviço, com a valorização dos professores que atuam na rede pública estadual de ensino do Estado do Paraná na busca da superação da dicotomia entre a teoria e prática na formação continuada dos professores da educação básica. Esse novo modelo de formação continuada busca proporcionar aos professores selecionados para participar do programa o retorno presencial às atividades acadêmicas de sua área de formação inicial e o contato com os demais colegas da rede de ensino para o desenvolvimento de atividade colaborativa numa dinâmica permanente de reflexão, discussão e construção do conhecimento. Para tanto, o professor deve elaborar um plano de trabalho em conjunto com o professor orientador da instituição de ensino superior, que consta de uma proposta de intervenção na realidade escolar, a elaboração de um material didático-pedagógico para auxiliar na sua implementação e a coordenação de um grupo de trabalho em rede. O presente artigo relata a experiência da implementação pedagógica realizada no CEEBJA “Professor Ignácio Alves de Souza Filho” – Ensino Fundamental e Médio, na cidade de Jaguariaíva - Paraná. A implementação teve lugar no primeiro semestre letivo de 2009 e contou com a aplicação de questionários a alunos e professores da referida escola de EJA – Educação de Jovens e Adultos, formação de um grupo de estudos com os docentes para discussões a respeito de temas específicos desta modalidade de ensino e oferta de oficinas aos discentes, para propiciar momentos de interação, trocas de experiências, socialização e criação de vínculos afetivos reforçando o sentimento de pertencimento dos alunos ao ambiente escolar. De forma geral, a implementação teve como objetivo a sensibilização da comunidade escolar para o uso de práticas de motivação e desenvolvimento da afetividade, com o propósito de evitar a evasão e a rotatividade de matrículas a cada início de ano na escola. É também uma forma de buscar respostas para a inquietante indagação do que pensam os alunos da Educação de Jovens e Adultos sobre esta modalidade de ensino. 3 2 DESENVOLVIMENTO No universo escolar, o tema afetividade tem uma dimensão pouco destacada nas práticas pedagógicas, pois geralmente se privilegia o aspecto cognitivo passando a figurar a dimensão afetiva como um tema transversal ao currículo. Essa visão dualista, que leva o indivíduo a ser visto como um ser dividido entre a razão e a emoção, entre afeto e cognição, impede uma compreensão do ser humano em sua totalidade. No entanto, a inclusão da dimensão afetiva nas discussões educacionais é relevante, já que a educação é um processo no qual todos os envolvidos se afetam e são afetados como sujeitos sociais. Alguns autores apontam a importância da afetividade na aprendizagem, entre eles: Freire (2003), Leite (2006) e Wallon, citado por Mahoney e Almeida (2005) . 2.1 Os autores e a afetividade Paulo Freire, renomado educador brasileiro, defende que a educação vai além dos métodos, técnicas, currículos e metodologias. Dá ênfase as dimensões e relações essencialmente humanas, que estão implicadas na educação e nos processos educacionais ao afirmar que “não há docência sem discência” (FREIRE, 2003, p.13-20), ou seja, “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 2003 - p.25). Ensinar um aluno, segundo ele, é muito mais que simplesmente transmitir conhecimentos, é criar possibilidades para os alunos construírem seu conhecimento, de forma autônoma e crítica (FREIRE, 2003). Quando a afetividade não está presente nas relações professor - aluno, o professor se vê como o centro do processo educativo e o aluno como o seu objeto a ser formado. Nessa relação, ocorre o que Freire (2004) critica como “educação bancária”, um tipo de educação passiva e acrítica imposta aos alunos, na qual a prática pedagógica se reduz ao ato de depositar, transferir e transmitir valores e conhecimentos. Diferentemente do modelo de educação bancária, Paulo Freire afirma que a relação professor-aluno em sala de aula deve estar em um mesmo patamar de igualdade, numa relação dialógica, onde ambos aprendem e 4 crescem um com o outro, onde o pensar do aluno não pode ser inibido pelo pensar do professor, mas ser complementado por este. A afetividade permite o fortalecimento do processo dialógico desfazendo a relação de dominação de saberes e o bom senso do professor diminui a distância entre o discurso e a prática, deixando transparecer verdades em seus ensinamentos (FREIRE, 2003 , p.61). A dimensão afetiva está presente em todas as interações sociais; com isso é possível afirmar que também ocorrem no ambiente escolar influenciando o processo de desenvolvimento cognitivo. Alguns autores: Leite (2006), Tassoni (2006), Silva (2006), Tagliaferro (2006) e Falcin (2006) apresentam estudos sobre a relação da afetividade e as práticas pedagógicas, especialmente na relação professor-aluno. Leite (2006), alerta para que a palavra “afetividade” seja interpretada corretamente, relacionado-a com as atitudes do professor preocupado com sua prática pedagógica. Muito mais do que contato físico, a dimensão afetiva deve estar presente em todos os momentos e etapas do trabalho pedagógico na sala de aula podendo ser percebida de várias formas, como na escolha dos objetivos de ensino, na organização dos conteúdos, procedimentos e formas de avaliação. Assim, as decisões que o professor toma no planejamento e desenvolvimento de sua aula tem implicações não só cognitivas, mas também afetivas que interferem nas relações professor- aluno - objeto do conhecimento. Assim como Freire, Leite (2006) afirma a importância da relação professor – aluno. A linguagem (verbal e não-verbal) adotada pelo professor deve afetar positivamente os estudantes inspirando confiança e motivação, facilitando a relação como objeto de estudo. A confiança que se estabelece em sala de aula proporciona o fluir da criatividade, o desembaraço em atividades de expressão e um clima agradável para o aprendizado. Laços de afetividade, no entanto, não se estabelecem imediatamente ou de maneira forçada ou imposta, mas são construídos gradativamente, de maneira espontânea, pela interação e respeito à individualidade de cada um. Estendendo um olhar para o campo da Psicologia, destaca-se o psicólogo Henri Wallon, citado por Mahoney e Almeida (2005), que embora não sendo pedagogo, demonstra preocupação com as questões educacionais ao 5 apresentar uma teoria sobre o desenvolvimento humano, onde destaca a integração entre o organismo humano e o meio e entre as dimensões cognitiva, afetiva e motora no desenvolvimento da pessoa. De acordo com as autoras, o conjunto afetivo na teoria walloniana oferece as funções responsáveis pelas emoções, sentimentos e paixão. Já o conjunto motor oferece a possibilidade de deslocamento do organismo no tempo e espaço, sendo também o local onde as emoções e sentimentos se manifestam. O conjunto cognitivo permite a aquisição e a manutenção do conhecimento por meio de imagens, noções, ideias e representações. Permite também rever o passado, fixar e analisar o presente e projetar futuros. Da integração desses três conjuntos resulta “a pessoa” (MAHONEY; ALMEIDA, 2005, p.18). Com base na teoria de Wallon, as autoras defendem que o desenvolvimento humano é um processo social e que a dimensão afetiva nas relações sociais acaba influenciando o cognitivo e vice-versa. O processo de desenvolvimento de uma pessoa é contínuo por toda sua vida, apenas em ritmos e tempos diferenciados entre crianças e adultos (MAHONEY e ALMEIDA 2005, p.18). Toda aprendizagem passa pelas etapas do sincretismo à competência. A imitação e o acolhimento são processos importantes para a aprendizagem em qualquer idade, sendo que a emoção é contagiante (positiva ou negativamente) na dinâmica da classe. Assim, relacionando ao universo da EJA, é possível perceber que não existe idade “certa” para aprender, pois o ser humano está em constante desenvolvimento. A volta aos bancos escolares em idade adulta é, pois, muito mais que uma atitude compensatória de recuperar o tempo perdido na infância, mas uma oportunidade da EJA mostrar o seu potencial de educação permanente e indispensável ao desenvolvimento do indivíduo. 2.2 O saber ouvir na educação Nas relações escolares, a forma como o professor se relaciona com o aluno reflete nas relações deste com o conhecimento e com os demais colegas, pois mesmo que não queira, o professor passa a ser um modelo seguido pelos alunos. Outra forma de demonstrar a afetividade nas relações 6 pedagógicas é saber ouvir os alunos, estando aberto ao outro e proporcionando momentos de diálogo. Escutar significa estar disponível à fala do outro, respeitando as suas diferenças, dialogando e discordando, se for o caso. Paulo Freire (2003, p.113-116) afirma que somente quem sabe escutar é que aprende a falar com os alunos, pois só quando o professor escuta paciente e criticamente seus alunos é que aprende a falar com eles. Para saber o que pensam os alunos de EJA sobre a própria escola, para entender os anseios e pontos de vista dos jovens e adultos que retornam ao ambiente escolar após tempos de afastamento, é preciso dar espaço ao diálogo democrático, dar vez a sua voz, que não é valorizada suficientemente no espaço escolar, pois do contrário, uma fala autoritária silencia e dificulta o diálogo. Para Freire (2003, p. 137-139), saber ouvir o aluno é respeitar e valorizar a sua história, seus conhecimentos de mundo que traz consigo em sua bagagem cultural e discutir com eles a razão desses saberes em relação aos conteúdos ensinados. É ter humildade frente às diferenças e incompletudes dos alunos, seres em constante aprendizagem. É ter humildade para aceitar e saber dialogar com aquele que fala e /ou escreve de uma maneira diferente das normas padrões da gramática. Ao reconhecer a leitura de mundo do aluno, o professor está valorizando o seu saber cotidiano. Segundo as Diretrizes Curriculares da Educação de Jovens e Adultos do Estado do Paraná (DCEs), este legado cultural trazido pelos alunos representa significativas experiências de vida adquiridas a partir do senso comum, do saber popular, no cotidiano em suas relações sociais, pois a escola não é o único lugar onde há produção e socialização dos conhecimentos. Este conhecimento empírico deve ser levado em consideração na elaboração do currículo escolar, sendo o ponto de partida para as práticas educativas para transformá-los em conhecimentos científicos. Segundo Freire, (2003, p.38) a educação emancipatória valoriza o “saber de experiência feito”, o saber popular, e parte dele para a construção de um saber que ajude homens e mulheres na formação de sua consciência política. Espera-se que o saber escolar adquirido na escola oportunize aos alunos condições de exercer a cidadania, valorizando a sua cultura de referência e ampliando-a com conhecimentos científicos para formar indivíduos 7 “autônomos intelectual e moralmente, capazes de interpretar as condições histórico-culturais da sociedade em que vivem de forma crítica e reflexiva, impondo autonomia às próprias ações” (DCEs, 2005, p.50). Para que se valorize a história de vida do aluno jovem ou adulto, as DCEs recomendam alguns critérios que devem ser levados em consideração no momento da seleção dos conteúdos e das práticas escolares para a EJA, a saber: a importância dos conteúdos escolares frente à experiência social construída historicamente; a necessidade que processos de ensino-aprendizagem privilegiem o pensar, a reflexão entre os saberes empíricos e científicos na busca de conteúdos significativos, atividades que permitam integração entre os diferentes saberes e a possibilidade dos conteúdos e práticas escolares articularem singularidade e totalidade no processo de conhecimento vivenciado na escola (DCEs, 2005, p.50-51) Volta-se novamente a destacar a importância do professor nas relações pedagógicas, seja diretamente, através da afetividade nas relações professoraluno, como também nas dinâmicas da sala de aula promovendo o debate e o diálogo ou com ações que valorizem sua cultura na escolha dos conteúdos de ensino. Imprescindível também, para saber o que pensam os alunos, é ouvilos, no sentido exato da palavra: escutá-los a sós, em grupos, informalmente, nas rodas de conversas do corredor ou por escrito, através de questionários, como foi realizado para a coleta de dados para implementação, do qual resulta este artigo. 2.3 A metodologia utilizada Ao se implementar a proposta pedagógica na escola procurou-se utilizar os métodos e aportes da pesquisa-ação, uma modalidade de pesquisa social que permite compreender a realidade estudada enquanto se opera uma intervenção a fim de modificá-la. A pesquisa-ação é assim definida por Thiollent (2008): ... a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação 8 com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2008, p.16). Procurou-se levar em consideração a voz dos sujeitos investigados e suas perspectivas como parte da investigação, procurando estabelecer um diálogo entre o professor PDE e a comunidade escolar na busca de solução para o problema detectado. A investigação teve a intenção de encontrar respostas às questões na prática, de modo ativo e interativo e com a participação de todos os envolvidos. Também permitiu a tomada de consciência das transformações que foram ocorrendo no processo da intervenção. No caso específico do processo de implementação, permitiu ouvir os alunos e professores do CEEBJA no ambiente de convivência escolar e acompanhar as mudanças de atitudes com relação aos seus pensares por ocasião das atividades aplicadas à realidade escolar. A aplicação da implementação seguiu alguns passos, não rígidos, mas que se alternavam entre si: uma fase exploratória, fase principal, de ação e avaliação dos resultados. Na fase inicial exploratória é feito um diagnóstico da situação inicial a partir de informações coletadas através da pesquisa de campo. Os dados sobre o universo da EJA foram coletados através de conversas informais nos corredores da escola e de questionários destinados a alunos e professores do CEEBJA “Professor Ignácio Alves de Souza Filho” – Ensino Fundamental e Médio, em Jaguariaíva - Paraná. Os questionários foram aplicados aos alunos do Ensino Fundamental – Fase II e do Ensino Médio, matriculados nas diversas disciplinas da organização coletiva e individual, que se encontravam presentes nas aulas em um determinado dia e horário (14 h e 19 h) e que concordaram em participar voluntariamente da pesquisa. Para garantir maior fidelidade nas respostas e evitar que os alunos se sentissem constrangidos em falar a verdade sobre o que pensam, foi solicitado que os questionários fossem preenchidos sem a necessidade de identificação do pesquisado. As respostas também foram individuais e sem ajuda do professor e/ou colegas. Dos questionários aplicados 9 aos alunos e que foram devolvidos, uma grande parte foi descartada por conter inúmeros campos em branco, sem preenchimento de resposta. O mesmo ocorreu com os questionários destinados aos docentes. Ao final, ficou por amostragem um total de 30 questionários de alunos e 10 questionários de docentes. A dificuldade de preenchimento satisfatório dos questionários pode estar associada a diversos fatores, como a não familiaridade com o modelo dos mesmos, a falta de clareza na proposição da atividade ou a dificuldade de interpretação das mensagens contidas. Nos questionários dos professores e dos alunos constava uma tabela, no formato de escalas de Likert, onde os pesquisados deveriam informar o grau de concordância com as afirmações, escolhendo e assinalando a opção que informava a melhor representação do seu pensamento. As opções de respostas consistiam em escolher entre: “concordo totalmente”, “concordo em parte”, “discordo em parte” e “discordo totalmente”, informando uma única resposta a cada afirmação. As afirmações, positivas e negativas versavam sobre auto-estima, auto-imagem, a relação professor-aluno e a importância do estudo e do trabalho do professor. Os questionários também apresentavam questões de múltipla escolha com mais de uma resposta e perguntas abertas com respostas pessoais. Os dados coletados informalmente foram através de bate-papos descontraídos em momentos de intervalos, em conversas na sala dos professores e no dia-a-dia da rotina da escola. Os quadros a seguir mostram uma síntese dos resultados dos questionários aplicados aos alunos. A primeira parte contava com perguntas de múltiplas alternativas para a escolha de uma única resposta, com o intuito de definir o perfil dos alunos pesquisados: Sou do sexo Estudo Sou ( 11) masculino (19) feminino (12) Ensino Fundamental (18) Ensino Médio (10) solteiro(a) (11) período da tarde (19) período da noite 10 (12) casado(a) ( 3) separado(a) ( 2) viúvo(a) ( 2) vive com companheiro(a) ( 3) de 15 a 20 anos (12) de 21 a 30 anos Minha idade (12) de 31 a 40 anos ( 2) de 41 a 50 anos Atualmente trabalho ( 1) com mais de 51 anos (18) sim (12) não Para a coleta de dados sobre questões referentes à auto-estima dos alunos, a relação professor/aluno e a importância do estudo e da escola na vida dos pesquisados, foi utilizado um quadro com escalas de Likert, onde é preciso identificar a sua concordância ou não a respeito de cada afirmação. Os Discordo totalmente pensamento Discordo em parte Assinale a resposta que melhor expressa o seu 1 2 5 1 16 23 1 - - 2 - - Concordo em parte . Concordo totalmente resultados estão representados no quadro a seguir: COM RELAÇÃO À AUTO-ESTIMA E AUTO-IMAGEM Sinto-me feliz por estar estudando. 25 5 Apesar das dificuldades, consigo vencer e aprender. 21 9 Na escola, sinto que meus conhecimentos são 22 5 valorizados. Não me sinto capaz de acompanhar o ritmo de estudos. 5 4 Penso em desistir de estudar. 4 2 RELAÇÃO COM OS PROFESSORES (AS) Os professores são importantes para minha 29 aprendizagem. Os professores entendem minhas dificuldades e me 18 ajudam a superá-las. 11 Eles me incentivam a prosseguir estudando. Os professores demonstram impaciência quando demoro entender a matéria. Gostaria de ter mais atenção dos professores. 27 4 3 5 - 21 12 5 1 12 IMPORTÂNCIA DA ESCOLA E DO ESTUDO A escola pode me ajudar a realizar meus sonhos. 24 Considero o estudo necessário para melhorar de vida. 29 Estudar me faz sentir capaz e realizado. 26 Detesto a escola, só voltei a estudar por necessidade. 2 Sinto vergonha de não ter estudado antes. 8 5 1 4 2 7 1 6 1 25 9 Com relação aos dados que mostram a auto-estima e auto-imagem dos alunos, é possível notar que, diferentemente do que se ouve comentar com base em senso comum, os alunos do CEEBJA não apresentam baixa autoestima, tendo a maioria, uma auto-imagem positiva. A relação com os professores é cordial, pois reconhecem a importância destes no processo de aprendizagem e pelo estímulo que recebem para continuarem estudando. Em resposta a uma pergunta aberta sobre os professores, as palavras mais utilizadas para descrevê-los foram: Em poucas palavras, como você descreve os professores desta escola? “Legais, atenciosos, ótimos/excelentes professores, compreensivos, bons amigos, capacitados para a profissão, pacienciosos, esforçados, competentes, ensinam bem, dedicados, nos incentivam, iguais aos da escola regular, somos uma família, alguns não são tão bons”. No entanto, a relação professor/aluno poderia ser ainda mais intensa, pois os alunos deixaram transparecer a carência da afetividade, nos itens paciência e atenção às dificuldades individuais. Já a escola e os estudos em si são declarados importantes para o desenvolvimento individual e econômico dos alunos, pois muitas vezes, o reingresso à escola se dá por motivos relacionados ao trabalho – falta deste ou busca de melhores colocações. A EJA é apontada como uma escola de melhor qualidade de ensino se comparada às escolas regulares, pois atende às expectativas e necessidades dos alunos que a procuram como apontado nas justificativas para a pergunta com resposta aberta. 12 ( 0) pior que nas escolas de ensino regular ( 5) igual às escolas de ensino regular (25) melhor que as escolas de ensino regular Justifique sua resposta: • Devido ao horário flexível – 8 respostas Penso que o • Respeita o ritmo do aluno - 6 ensino na EJA é: • O ambiente é bom – 4 • Os professores são atenciosos e ajudam- 4 • Na EJA não tem preconceito de idade – 2 • A EJA dá oportunidades a todos – 2 • Tem menos alunos por turma – 2 • Não sabem responder o motivo - 2 O trabalho é um dos fatores apontados como causador do abandono dos estudos, uma das principais dificuldades em prosseguir estudando, mas também motivo de retorno aos bancos escolares, como é possível ver nos quadros a seguir: Há quanto tempo estava sem estudar? Por quê? ( 7) até 5 anos (12) de 6 a 10 anos ( 5) de 11 a 20 anos ( 6) mais de 20 anos • Dificuldade em conciliar os horários de estudo e trabalho – 9 respostas • Proibição por parte do companheiro - 4 • Preguiça, descuido, falta de interesse - 4 • Falta de tempo devido a outras responsabilidades - 2 • Outros: dificuldade em aprender, distância grande da escola, mudança, nascimento dos filhos, viajava muito ... – 11 13 O que fez você procurar a Educação de Jovens e Adultos? • Para conseguir um emprego melhor - 6 • Por exigência do trabalho - 6 • Para concluir o Ensino Médio - 4 • Para fazer outros cursos ou curso superior - 4 • Vontade de vencer na vida e dar um futuro melhor aos filhos - 4 • Outros: por incentivo de outras pessoas, por ser mais fácil e flexível, vontade própria... - 6 Quais as principais dificuldades que você enfrenta para continuar estudando? • Problemas familiares – 8 • Nenhuma - 8 • O trabalho – 5 • A inadequação dos horários de trabalho e estudo – 5 • Distância da escola – 3 • Cansaço - 1 O resultado dos questionários aplicados ao professores aponta uma COM RELAÇÃO OS ALUNOS DE EJA São batalhadores e vencedores. 10 Apesar das dificuldades, são capazes de aprender. 6 Sentem orgulho de ter voltado a estudar. 8 É mais difícil trabalhar com alunos da EJA devido as suas dificuldades. Os alunos sentem vergonha de estar na EJA. - Discordo totalmente pensamento Discordo em parte Assinale a resposta que melhor expressa o seu Concordo em parte . totalmenteConcordo expectativa favorável em relação à aprendizagem: 4 2 2 1 7 2 - 8 14 IMPORTÂNCIA DO TRABALHO NA EJA Meu trabalho faz a diferença na vida dos alunos. 9 Sinto satisfação ao ver o resultado do meu trabalho com 10 alunos da EJA. Sinto-me feliz e realizado por fazer parte desta escola. 10 Não gosto de trabalhar na EJA. Faço-o por falta de opção. Considero a qualidade do ensino na EJA inferior às escolas regulares. 1 - - - - - 20 2 - 8 No olhar dos professores, a EJA não é uma escola com ensino inferior às demais, pois têm satisfação em trabalhar com essa modalidade de ensino e confiam no resultado de seu trabalho. A qualidade de ensino na EJA é reflexo da prática cotidiana dos educadores e formação continuada, já que a formação inicial na graduação não privilegia essa modalidade de ensino. A reflexão constante das ações pedagógicas, da discussão e aplicação de novos métodos possibilita uma participação mais ativa no universo da profissão, com reflexos na sala de aula. Apenas recentemente, os cursos de Pedagogia vêm oferecendo em sua grade curricular disciplinas que contemplam o ensinoaprendizagem na EJA. A experiência profissional dos dez docentes pesquisados é variada, alguns trabalham há mais tempo com a EJA, outros começaram recentemente. Os números que ilustram as respostas são: Há quanto tempo atua na EJA? ( 3) há menos de um ano ( 2) 2 anos ( 2) 3 anos ( 3) 5 anos A rotatividade de docentes no CEEBJA se deve especialmente ao fato de que poucos docentes conseguem a fixação da lotação de seu padrão de trabalhos neste estabelecimento de ensino, pois as vagas disponíveis são variáveis de acordo com o porte da escola em quantidade de alunos. 15 As perguntas abertas que admitiam respostas variadas versavam sobre as especificidades percebidas na EJA com relação à escola regular e opinião pessoal sobre seu olhar sobre esta modalidade de ensino. Com relação à aprendizagem, quais as diferenças percebidas entre alunos do ensino regular e os de modalidade EJA? • São mais interessados, dedicados, com vontade de aprender – 5 • Tem defasagem de aprendizagem por ter ficado muito tempo sem estudar - 3 • São mais responsáveis - 2 • Aproveitam o tempo na escola pela necessidade do estudo. • A aprendizagem é mais rápida pela condição de adultos. • Os alunos têm menos tempo para estudar. Em sua opinião, que fatores influenciam para que os alunos de EJA se evadam e retornem a escola por sucessivas vezes? • Devido ao trabalho – 9 respostas • Baixa auto-estima, vergonha, desinteresse - 4 • Cansaço, após rotina de trabalho – 3 • Dificuldade em conciliar horários – 2 • Dificuldades de aprendizagem, problemas familiares, doenças, desemprego. Qual seria sua atitude caso seus filhos decidissem estudar na EJA? Por quê? • Apoiaria, pois os conteúdos são iguais à escola regular – 3 respostas • Apoiaria, caso não estivesse em idade ideal para a escola regular – 2 • Apoiaria, mas preferiria que estudasse em escola regular - 1 • Apoiaria, pois estimula a continuar estudando -1 • Apoiaria, pela seriedade e competência dos professores de EJA – 1 • Apoiaria, mas deve se dedicar a aprender algo a mais que na escola – 1 • Depende da situação - 1 16 Embora a EJA seja considerada uma escola de qualidade igual às demais e os professores estar cientes da importância do seu trabalho de educador, as opiniões se dividem ao fato de seus filhos estudarem nesta modalidade de ensino. Tal fato ainda revela certo olhar de inferioridade para a EJA como uma educação compensatória e uma escola de “segunda oportunidade” a quem perdeu a chance de completar seus estudos em tempo hábil. Bem diferentemente do olhar dos alunos, é vista pelos professores como escola ideal para “os outros” que não cultivam grandes ambições, apenas a certificação para o trabalho e a conclusão do Ensino Médio. Num segundo momento da implementação, passou-se a fase principal, onde após ter um diagnóstico elaborado sobre a realidade estudada, foi iniciado o planejamento das ações. No caso do CEEBJA foi constituído um Grupo de Apoio à Implementação do Projeto PDE na Escola, denominado “Novos Olhares para a Educação de Jovens e Adultos”, que contou com a participação do diretor, da equipe pedagógica e professores das diversas disciplinas da Educação de Jovens e Adultos, num total de dezesseis participantes. O Grupo de Apoio teve como objetivos: a) criar condições concretas para que o professor PDE e os participantes discutissem as bases teóricometodológicas que orientam o projeto de intervenção pedagógica na escola, b) analisar a pertinência e a adequação das atividades propostas, auxiliando no acompanhamento, desenvolvimento e programação das atividades e c) realizar a avaliação das atividades realizadas ao longo do processo, apresentando sugestões para ser incorporadas ao artigo final de conclusão do PDE. As oito etapas do Grupo de Apoio ocorreram no período de abril a junho de 2008, sempre às sextas-feiras, em horário de contra-turno de trabalho de alguns professores e horário destinado à hora-atividade de outros, perfazendo um total de 32 horas, com certificação da SEED. Em cada etapa houve leitura, reflexão e discussão acalorada sobre assuntos pertinentes à realidade da EJA. Para a fundamentação, foram utilizados textos integrantes do caderno pedagógico “Um olhar para a Educação de Jovens e Adultos” - material didático-pedagógico elaborado para auxiliar na implementação na escola, que aborda temas como o perfil dos estudantes de EJA e os aspectos mais marcantes nos alunos desta modalidade de ensino: a família, o trabalho e a 17 relação professor-aluno, a auto-estima, afetividade e cooperação. Além destes temas, foram discutidos as Diretrizes Curriculares de EJA e os cadernos temáticos Trabalhando com a Educação de Jovens e Adultos, da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD). Além das discussões, estabeleceu-se uma parceria entre o pesquisador e professores colaboradores das disciplinas de História, Língua Portuguesa e Educação Física para ofertar aos alunos três míni-oficinas para discutir os temas: afetividade, auto-estima e cooperação. O professor colaborador seria o responsável pela aplicação das dinâmicas, questionamentos e atividades aos alunos, contando com a ajuda do pesquisador. Os temas e o planejamento das ações foram decididos em conjunto no decorrer dos encontros, assim também se decidiu pela realização de uma festa junina na escola, como espaço de confraternização e promoção de auto-estima, pelo seu caráter lúdico e cooperativo. No oitavo encontro, os participantes do Grupo de Apoio avaliaram de maneira satisfatória a qualidade dos mesmos justificando que “... foram proveitosos, dinâmicos e com abordagens acessíveis, inerentes à prática.” Na fase da ação, um terceiro momento da implementação, as atividades que foram decididas no Grupo de Apoio, as míni-oficinas foram colocadas em prática. A míni-oficina sobre cooperação foi destinada a alunos matriculados na disciplina de Educação Física, que na EJA é essencialmente teórica, e foi bem aceita pela maioria destes, mas contou também com alunos resistentes com vergonha de participar e expor-se. Muitas alunas, mães de família, que trazem seus filhos junto com elas para a escola por não ter onde deixá-los, participaram das atividades cooperativas com os pequenos. No final da atividade relataram “ter se divertido muito” e este ser “um espaço para brincar com as crianças”. O tema da cooperação foi sugerido para a míni-oficina por ser um contraponto ao espírito competitivo da atual sociedade, que segundo Brotto (1999, p.65), evidencia-se em lugares e momentos onde não seria necessária a busca desenfreada em ser o melhor e vencer sempre. Nas atividades cooperativas, pelo contrário, há o favorecimento da auto-estima e o reforço aos valores e atitudes positivas, como a solidariedade, a confiança e o respeito mútuo. Trabalha também o respeito à diversidade e o reconhecimento de que uma atividade só é possível se levar em conta a coletividade. Para os 18 alunos de EJA permite reforçar o companheirismo e os laços de afetividade entre professores e alunos. Pelos motivos acima mencionados, ficou acertado entre alunos e o professor de Educação Física que, uma vez ao mês, as aulas de Educação física seriam práticas, privilegiando a forma cooperativa ao invés da competição na realização das atividades, especialmente para o turno vespertino onde há um local na vizinhança da escola para as práticas esportivas, mas que não conta com iluminação para atividades à noite. Para o tema afetividade, foi desenvolvida uma míni-oficina nas aulas de História, onde o professor trabalhou com o resgate da trajetória da construção da identidade pessoal e social do aluno, com temas como a casa da infância, objetos do passado e sabores. Para tanto, foram utilizados textos para reflexão e dinâmicas quebra-gelo para socialização e construção de um ambiente favorável onde todos se sentissem confortáveis em participar e emitir opiniões. Cada participante, em uma atitude de “escavação mental” foi estimulado a buscar na memória, coisas significativas para socializar com os colegas. Cada objeto, lugar, emoção, foi contextualizado para o grupo, com ênfase nas sensações despertadas, na sua origem, nas suas características. Conforme coloca Fox (1984): ... Rever o passado permite colocar o presente numa situação crítica e mesmo mudar o futuro. Pela rememoração, na linguagem e na narrativa, resgata-se o poder de ser no presente, no passado e no futuro, tecendo a história, não mais como cronologia, mas como processo de recriação de significado (FOX, 1984 p.155). Com a míni-oficina sobre afetividade foi possível refletir sobre a importância da linguagem no resgate no resgate de sensações que compõem a memória, bem como a necessidade da interação social para a constituição da linguagem, da identidade pessoal e das emoções. Também permitiu a articulação do passado no presente, como algo inacabado e em constante ressignificação. No final da oficina, houve produção de textos individuais que foram socializados com o grupo. Analisando os textos produzidos pelos alunos participantes, foi possível perceber que o objetivo de resgate das sensações que compõe a memória 19 proposto pelo professor-colaborador foi satisfatoriamente atingido, como mostra o texto abaixo: A geleia de jabuticaba da madrinha Quando eu era criança, certa vez, fui passear na casa da minha madrinha que morava no sítio. Eu quase nunca via ia lá, por isso adorava esses passeios com meus pais porque eu passava um dia diferente junto com outras crianças. Neste dia, minha madrinha serviu limonada e pão com geléia de jabuticaba caseira para a criançada do sítio. Eu comi um pedação, sentada com os outros, embaixo das árvores do pomar. Foi a melhor coisa que eu comi na vida, o pão caseiro macio e a geleia pretinha e doce. Só de pensar minha boca se enche de água... De lá pra cá, tenho paixão por geléia de jabuticaba e compro todas as marcas que eu encontro. Mas nunca mais senti o sabor da geleia de jabuticaba da madrinha, aliás, nunca mais voltei ao sítio, pois logo depois ela morreu e o sítio foi vendido para estranhos. Continuo procurando o sabor daquela geleia em especial, mas acho que nunca mais vou encontrar, pois ela ficou só na memória e no passado, assim como minha infância e outras lembranças felizes. (M. A. S , aluna do Ensino Fundamental – 37 anos) A etapa final da implementação constitui-se na fase da avaliação dos objetivos propostos e os resultados alcançados. Das atividades desenvolvidas no decorrer da implementação, algumas foram avaliadas satisfatoriamente, enquanto outras atingiram parcialmente ou não atingiram os resultados esperados. Das três oficinas idealizadas aos alunos, somente duas foram ofertadas devido a inúmeros fatores que dificultaram a sua execução, como: acomodação e resistência por parte de alguns alunos e professores em experimentar algo novo diferente da rotina, falta de um tempo específico no calendário escolar para essas atividades, pois no decorrer das aulas há um conteúdo a ser vencido, inadequação do espaço físico, com salas pequenas e compartilhamento de turmas em um mesmo ambiente e também a suspensão das aulas como medida de prevenção da Gripe Influenza AH1N1. Este último motivo também resultou no cancelamento da festa junina programada para o dia 31 de julho, causando a frustração das expectativas. Apesar de a realização da festa junina não ser uma ação inovadora na escola, a sua realização justifica-se, pois, a mesma tem um caráter pedagógico e 20 cooperativo. Para a sua realização depende o envolvimento, a aceitação de todos e o respeito às diferenças, além disso, promove a diversão, o compartilhar de sentimentos, alto nível de aceitação mútua, a participação coletiva e o desenvolvimento da auto-estima. Com o Grupo de Apoio formado pelo diretor, equipe pedagógica e professores, os objetivos esperados foram plenamente alcançados, pois constituiu-se de momentos produtivos de leituras, trocas e discussões a respeito da temática da EJA, para crescimento profissional, pois embora os professores desta modalidade de ensino já tenham se apropriado de algumas qualificações inerentes à docência, ainda assim, há necessidade de formação continuada em razão da subjetividade que os alunos apresentam. Dos dezesseis participantes inscritos para o Grupo de Apoio houve apenas duas desistências, uma motivada por afastamento devido a doença e a outra, devido ao fato do professor desistir da carreira, optando por outra profissão. Os demais, no último encontro avaliaram de forma positiva a formação do Grupo de Apoio, como demonstra o texto escrito produzido pelos participantes: O Grupo de Apoio ao PDE 2008 possibilitou aos professores participantes momentos importantes para a discussão, interação e reflexão sobre a prática. Trata-se de um trabalho que acrescentou informações e estimulou questionamentos que contribuíram para enfatizar que a Educação de Jovens e Adultos deve ser entendida como um espaço significativo do conhecimento, que contempla as mudanças da sociedade e atende à diversidade cultural, respeitando as diferenças e individualidades. Praticar a afetividade e o diálogo são questões essenciais nesse contexto, sendo que todos esses fatores foram debatidos e analisados, contribuindo para o aperfeiçoamento do trabalho pedagógico dos cursistas. (Grupo de Apoio ao PDE 2008) No entanto, a reaplicação dos questionários aos alunos e professores, para constatar a mudança de opinião após o final do processo de implementação, não permitiu verificar se o objetivo acima descrito foi alcançado. Isso ocorreu devido a uma falha de estratégia na previsão da atividade, ao não se levar em conta as especificidades desta modalidade de 21 ensino em que as matrículas dos alunos são por disciplinas e com horários flexíveis, onde a cada dia há uma quantidade variável de pessoas por turma e turno de aula. Como não houve a necessidade de identificação para responder aos questionários e foram distribuídos apenas aos alunos que estavam presentes em um determinado dia e horário; não foi possível identificar se os mesmos participaram das atividades das míni-oficinas e mais tarde, da reaplicação dos questionários. Outro fator que teve influência no resultado da pesquisa foi o tempo decorrido entre a aplicação inicial e a reaplicação final dos questionários – nesse meio tempo houve matrículas de novos alunos, evasão de alguns e conclusão de estudos por parte de outros. Assim, os dados coletados com a reaplicação dos questionários aos alunos não puderam ser usados a fim de comparação entre o antes e o depois da implementação, pois se constituíram em novos dados iniciais, que poderão servir a questionamentos futuros... Com relação aos questionários destinados aos professores, algo semelhante ocorreu, mas isso devido à rotatividade de docentes a cada ano, pois, como dito anteriormente, poucos deles têm a fixação da lotação do padrão de trabalho em estabelecimentos que ofertam a EJA. Assim também, alguns professores que responderam ao questionário inicial não se encontravam mais trabalhando no CEEBJA na ocasião da reaplicação dos questionários. Os poucos que participaram de todas as etapas da implementação demonstraram interesse em participar futuramente de novas atividades de reflexão sobre a EJA para aprofundamento dos conhecimentos sobre esta modalidade tão particular de educação. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O processo de implementação pedagógica na escola possibilitou aos envolvidos uma reflexão aprofundada sobre a prática pedagógica no universo da EJA, reflexão a partir da qual é possível tecer algumas considerações finais. Para que o indivíduo possa exercer a sua cidadania através da educação, é preciso que ele atenda a seus anseios e expectativas. A educação de Jovens e Adultos deve estar direcionada a um público específico: jovens, adultos ou idosos que não tiveram acesso a escola em idade própria ou não 22 tiveram a oportunidade de prosseguir os estudos devido aos mais variados fatores, alheios ou não a sua vontade. Embora tragam consigo uma vasta bagagem de conhecimentos adquiridos como experiência de vida, ao buscar a escola procuram obter a educação formal que garanta oportunidades de emprego. No entanto, não deve ser vista como educação compensatória pela falta de estudo na infância, mas como uma oportunidade de responder às necessidades formativas dos alunos que a procuram. Um sentimento frequentemente associado ao universo da EJA é a baixa auto-estima dos alunos, resultante das situações de fracasso vivenciadas anteriormente, como exclusão social e repetência escolar. Outro sentimento é a vergonha de sua condição de iletrado, pois a falta de leitura e escrita prejudica a qualidade de vida dificultando as oportunidades no mundo do trabalho. No entanto, estas afirmações podem estar mais relacionadas a turmas de Alfabetização e séries iniciais de EJA, pois no CEEBJA pesquisado que oferta os anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio, as afirmações acima não se aplicam. Foi possível perceber que, embora alguns alunos, ainda sintam vergonha de não ter voltado estudar antes, agora demonstram orgulho da condição de estudantes e confiança na sua capacidade de aprender e superar as dificuldades, não pensando em evadir-se da escola. Para tanto, os alunos apontam a importância da relação professor-aluno, que deve agir como um mediador no processo de aquisição do conhecimento formal. As relações afetivas não podem ser ignoradas e precisam ser levadas em conta no planejamento das atividades escolares, pois as decisões assumidas pelo professor podem ser o diferencial entre o sucesso ou o fracasso na experiência da aprendizagem. Os alunos esperam que a relação professor-aluno continue sendo amigável, mas que haja mais afetividade, aqui traduzida como o uso de uma linguagem adequada por parte do professor, o respeito pela individualidade do ritmo de cada aluno, tolerância pela condição de aprendizes, a prática do diálogo e oferta de conteúdos significativos a suas vidas. O aluno de EJA quer ser visto como um indivíduo com possibilidades de mudanças e potencial para aprendizagem e não apenas como uma pessoa que retorna aos bancos escolares em busca do “tempo perdido” na infância. Outro ponto a se considerar é o paradoxo professor-aluno X preconceito de EJA. Enquanto os alunos veem a EJA como uma escola ideal, adequada às 23 suas expectativas; alguns professores ainda revelam preconceito a respeito da EJA. Os professores afirmam que a qualidade da educação ali praticada é comparável às escolas regulares, mas se desdizem ao vê-la com um olhar de inferioridade, não a querendo para seus filhos. Se este fato fosse analisado pela questão da lógica, o resultado deveria apontar o contrário: os professores - que possuem um maior grau de formação que os alunos e que são os profissionais desta modalidade de ensino deveriam valorizar o seu trabalho, acreditando e defendendo a educação ali praticada; já os alunos – que ainda buscam a educação formal – poderiam ver a EJA como a “última chance” de completar os estudos, independente da qualidade do mesmo. Importante também ressaltar a necessidade da formação continuada para os profissionais da EJA. A participação em grupos de estudos contribui para a formação, pois são oportunidades de trocas de ideias com seus pares na busca de soluções para as dúvidas que afligem os profissionais que trabalham com a modalidade EJA. Por fim, pode-se concluir que a experiência da implementação na escola atingiu parcialmente os seus objetivos na aplicação de ações na realidade escolar com a finalidade de minimizar os problemas ali detectados. No entanto, possibilitou a reflexão sobre a prática pedagógica, identificando e acertos os erros no processo de implementação, que devem ser levados em consideração em caso de repetição da experiência. 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Coleção:Trabalhando com a educação de jovens e adultos. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), Brasília, 2006. BROTTO, F.O. Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental é cooperar! Edição Re-Novada. Santos: Projeto Cooperação, 1999. LEVY C. 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