EDITORIAL
O
encontro anual “Relendo Freud e Conversando s
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O
A
aconteceu em Canela de 28 a 30 de maio. Confrontad
as páginas sempre atuais de “Análise finita e infinita”
bros e participantes de nossa Instituição tiveram a oportunidade
santemente renovada, de verificar as conseqüências sobre a fo
e a transmissão da psicanálise que as diferentes concepções
acarretam. O debate iniciou-se sobre a análise comparativa dos
em alemão e as diferentes traduções em português, o que p
verificar, mais uma vez, o minucioso trabalho sobre a língu
Sigmund Freud precisou fazer para recortar nela os significante
zes de expressar sua nova conceituação da psique. Um trab
esmero literário – que lhe valeu o prêmio Goethe - com um en
mento singular: o de revelar a eficácia racional da língua e se
demonstrativo. Simultaneamente, nessa “operação literária”, d
va que aquilo que escapa à sua razão se encontra, precisame
sua contraface, o que, pelo avesso que o inconsciente suporta,
sua interpretação.
Que o inconsciente esteja “estruturado como uma lingua
o que permite seu acesso por meio da palavra. Mas, ao mesmo
que oferece o fundamento da prática psicanalítica, coloca os lim
seu alcance. Com efeito, a psicanálise é tão interminável quan
combinatória infinita do significante com o significado.
Surge ali, então, a pergunta sobre o fim de uma análise,
plo sentido de sua finalidade e de sua conclusão. Abriu-se, nes
to, o leque acerca dos delicados dispositivos da psicanálise d
ças e da psicanálise das psicoses. Nelas a prática analítica enc
especificidade das relações do sujeito com o significante, perfe
te diferenciadas do que acontece nas neuroses. Não é por aca
tão, que os casos paradigmáticos da história da psicanálise
sido Anna O. (a histeria, modelo inicial das neuroses), Dick (a d
A
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
RIAL
EDIT
sujeito infantil e o infantil do sujeito) e Aimée (demonstração
al da analisabilidade das psicoses). Respectivamente, Sigmund
Melanie Klein e Jacques Lacan abrem, em cada um desses
um novo capítulo da pesquisa e da prática psicanalíticas. Foi a
eles que se estabeleceram os princípios da finalidade de uma
Em concordância com o texto freudiano “Análise finita e infiniu demonstrado, pela prática clínica, a pertinência de restabelequilíbrio entre a articulação pulsional ao objeto e a capacidade
ativa do eu do discurso. O que, necessariamente, implica, para
o em questão, o reconhecimento do que sua rede inconsciente
enha em revelar, enquanto sua consciência teima em ocultar.
a, o reconhecimento dos limites de sua relação com o objeto de
sejo, enquanto que, face ao Outro, tropeça com os limites de
erdade.
Desse modo, através do desdobramento conceitual, proposto
acan, entre o eu imaginário (aquele que deriva o “complexo do
o” na direção do semelhante – de acordo com o texto de Freud
o em discussão) e o eu do discurso (aquele que deriva tal como viés da lei simbólica), a resolução de uma análise se inclina
mais na direção da descoberta de uma forma enunciativa do
ma que situou o sujeito nos limites de seu sofrimento e de seu
do que na adaptação satisfeita à realidade. O endereçamento à
e da vida vem substituir o aconchego na satisfação burguesa.
ima, por outro lado, é cada vez menos consistente.
A proposição de 17 de dezembro de 1989, contida na Ata de
ão da APPOA, constituía uma aposta ao mesmo tempo que um
misso, cuja análise, dez anos depois, se impõe. Os significantes
se lançaram pretendiam ser eficazes na resolução dos complimpasses que, no mundo atual, se abrem entre a vida individual
etiva. Eficazes na resolução clínica, na formação, na transmisna difusão da psicanálise. Eficazes, no entanto, não no sentido
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
da produção de um conforto exterior (disso já se encarrega o b
– ou demasiado – a sociedade industrial), mas na direção de en
as equações que permitam desenredar o desejo de sua armadil
ginária. Armadilha que o conduz, invariavelmente, à resolução
ria à de seu ensejo.
Os efeitos na extensão da prática clínica nas mais divers
tituições da comunidade, as conseqüências de autonomia e, a
mo tempo, de responsabilidade na formação dos psicanalistas,
interpelativo (e, conseqüentemente, de produção) junto a outra
tuições psicanalíticas, e os efeitos de inserção do discurso psic
co na pólis, demonstram as razões do texto fundacional não
mero registro de um evento, mas constante fonte de consulta e
durante estes dez anos. Por isso, no après coup de uma déc
trabalho, ele assume a hierarquia de uma proposição.
A presença expressiva de membros da APPOA, num enc
eles reservado, demonstra a transmissão de responsabilidade
tem operado. Com efeito, a diferença da posição do analista c
nesse pequeno traço que recorta sua presença como sembla
real. Alguém disposto a suportar a verdade e seu exercício em
ça, e não de um modo virtual.
Ao imaginário da comunicação no espaço virtual (divertido
da mais livre fantasia sobre o outro), o psicanalista opõe o de
mento simbólico do ato analítico que, para ter conseqüências de
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
AS BOAS NOVAS DE JULHO
niciamos o ano de 1999 com nova presidência e mesa diretiva renovaparticipação de novos colegas. Novas escutas e novas falas revigoram
ho da instituição, impedindo que o comodismo burocrático e o conforto
ções bem sucedidas desvirtuem a tarefa institucional.
O resultado já aparece: estamos de casa nova e inauguramos mais uma
ra o nosso Correio.
A simpática casa que nos acolheu, desde 1996, estava pequena para
múltiplas atividades. Encontramos no Bairro Petrópolis, na Rua Faria
258 - uma rua tranqüila - uma casa ampla, que oferece mais conforto
o para as nossas atividades de ensino, podendo abrigar melhor nossa
ca (que tal uma sala de leitura?) e, também acolher eventos de porte
Todavia, para que ela possa vir a ser a nossa casa, precisamos arrumásso jeito. Certamente, não teremos, nesse momento, móveis suficieno aproveitamento de todos os espaços. Contamos com nossos associra o trabalho de habitar essa nova casa: idéias, sugestões, doações de
plantas e quadros serão bem-vindos.
Com relação ao nosso Correio a novidade é óbvia! Capa nova!
Há um ano implementamos uma mudança importante: passamos a faitoração em casa, num esforço de redução de custos e de erros (de
ca, gráficos e de endereçamento), que a Comissão do Correio tomou a
argo mais diretamente. Este trabalho teve, na coordenação de Jaime
na experiência editorial de Henriete Karam, o empenho necessário para
eitada.
Aprimorar cada vez mais a edição, que começou como cópia xerográfica
anos, é uma forma de retribuir o interesse que essa publicação passou
mo um dos representantes do que se produz na Instituição.
Nossa capa, executada por Flávio Moreira Wild da Macchina, faz alusão
a escrita, representado pelo manuscrito de Freud; e sobre o que se
, através do nó borromeu proposto por Lacan, que passa a fazer parte
ipo da nossa APPOA.
Maria Ângela C. Brasil
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
RELENDO FREUD E CONVERSANDO SOBRE A APPOA
O texto de Freud escolhido para embasar nossas discussões de
foi “Análise finita e infinita” - segundo a escolha de título feita pelo Ca
produziu uma nova tradução do original em língua alemã. As questões
das por Freud, em um de seus últimos trabalhos, remetem à atualid
práxis dos psicanalistas. Quais as condições para que uma análise po
considerada como terminada e qual a finalidade da prática psicanalis
considerações que, simultaneamente, associavam-se aos questio-nam
respeito de se os psicanalistas poderiam fazer previsões sobre os res
de seu trabalho e, mesmo, encurtar o tempo de duração das análises
como fazer uma profilaxia dos futuros tratamentos. Frente às idealiz
esperanças de adaptação, o texto freudiano é claro e rigoroso - não d
achar que nosso trabalho tenha qualquer coisa de mágico, ou que os co
servirão para eximir os psicanalistas de sua responsabilidade ou de
seu desejo em causa.
Tópicos como estes articulam-se muito bem com este encontro
gaúcha, marcado pela passagem dos dez anos de fundação da APPO
como foi discutido ao longo dos três dias (28, 29 e 30 de maio passad
este decênio, cabe uma interrogação sobre nossa relação com o comp
assumido no ato de fundação da Associação. Quais os efeitos dest
produção da psicanálise em nossa pólis e como podemos pensar a efe
de nosso trabalho, ou seja, examinando os efeitos de formação e as p
dades de seguir rompendo com a ilusão especular, não permitindo qu
forto da amizade ou do gozo narcísico das pequenas diferenças, trans
em inimizades, possam emperrar nosso trabalho e responsabilidades.
Como estes encontros - “Relendo Freud e conversando sobre a A
- não têm a preocupação de fechar as discussões, mas exatamente de
litar a abertura de espaço de fala e de engajamento, o simples fato de
mos enfrentar o mal-estar e discutir os pontos que o texto freudiano, e a
Ata de Fundação da APPOA analisa, nos parece um indício de que o
uma aposta, hoje, transformou-se efetivamente num lugar de respons
des para com a psicanálise.
A disponibilidade, desta feita, passou por um programa que n
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
oite, contou com uma discussão inicial, na qual Mario Fleig apresentou
s produzidas a partir da tradução do texto e que tinham as conseqüênquicas como eixo principal. A partir da letra freudiana. Ana Costa e
Pereira teceram, respectivamente, comentários sobre o final de análiuns tópicos sobre a idealização, evocados a partir do texto. No sábado,
são esteve conduzida, inicialmente, pelos dois grupos que estão endos de fazer circular as questões a respeito da análise de crianças e da
as psicoses dentro e fora das instituições. Estes dois temas articulacom os limites da clínica psicanalítica pensados por Freud, assim como
tualidade da APPOA, onde se organizam dois departamentos nestas
rticularidades da prática psicanalítica.
No domingo, a Ata de Fundação foi o documento base para todas as
ões. Exatamente dando uma amostra de que as questões que o texto
a interpretar fazem parte do real da clínica ainda hoje. Daí, podemos
r um ponto que nos parece exemplificar a singularidade da prática da
ção, desde os primórdios de seu funcionamento: as entrevistas de acoo. Dos depoimentos e questionamentos importantes surgidos a partir
arregados de iniciar os debates (Alfredo Jerusalinsky, Maria Ângela
Lucia Serrano Pereira, membros da atual direção), e mesmo por parte
soas presentes, gostaríamos de destacar uma frase de Anna Callegari,
ante vários anos fez parte da Comissão de Acolhimento: “a respeito da
a que eu recebo, não sou eu que decido segundo minha subjetividade.
ue eu escuto tem que passar pela escuta dos outros”.
A escuta dos outros propicia que um sujeito não fique entregue aos
os da subjetividade e da transferência imaginária. Poder contar com o
cimento e a crítica e com espaços onde a palavra tem seu valor são
de contar com os outros para compartilhar como estamos engajados na
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
precisa de um espaço real.
ROLAND CHEMAMA
UM QUESTIONAMENTO LACANIANO NA ATUALIDAD
Em agosto próximo, sob este título geral, estará trabalhando c
Roland Chemama. Teremos, na APPOA, além de suas atividades na U
e no Espaço de Estudos Psicanalíticos, vários encontros de trabalho, c
com as suas peculiaridades. Por hora, informamos os dados principais
tunamente, seguirá o folder com maiores detalhes, que estarão à dispo
Secretaria da APPOA.
CAXIAS DO SUL
12/08 – 19h e 30min – Discussão Clínica: Neurose obsessiva feminina
Local: Hotel Cosmos – Rua 20 de setembro, 1563
Inscrições: Sede da APPOA
Valores: associados da APPOA - R$ 45,00 / não associados - R$ 50,
SÃO LEOPOLDO – UNISINOS
13/08 – das 14h e 30min às 17h e das 19h e 30min às 22h e 3
Problematizações sobre o conceito de clivagem
Local: Auditório Centro 4
Inscrições e informações: (051) 590 8305
14/08 – 8h e 30min às 12h e 30min – A questão masculina
Local: Auditório Centro 4
Inscrições e informações: (051) 590 8305
IJUÍ – Espaço de Estudos Psicanalíticos (EEP)
16/08 – 15h – A clínica psicanalítica e a sexuação na atualidade
Local: Auditório da Sede Acadêmica da UNIJUÍ
Inscrições e informações: EPP – tel. (055) 332 9464
Valores: Associados do EEP – R$ 10,00
Estudantes – R$ 15,00
Profissionais – R$ 25,00
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
ALEGRE – APPOA
14h e 30 min
o do Cartel do Interior, com apresentação de um caso clínico por parte
membro do Cartel e discussão com R. Chemama
nscrições: Sede da APPOA
$ 15,00 – (vagas limitadas)
18h – Reunião da Mesa Diretiva (aberta a membros e participantes da
), com participação de R. Chemama. Entre outros assuntos, serão disos possíveis projetos de trabalho entre AFI e APPOA.
ede da APPOA
20h e 30min – Reunião com membros e participantes da APPOA, com
ção de R. Chemama sobre o tema: O pai e o mestre na transmissão da
asa de Cultura Mario Quintana – sala A2B2
20h e 30min – Conferência: Indagações sobre o Brasil e sua aposta
sicanálise
otel Everest – Salão Rio Grande do Sul – Rua Duque de Caxias, 1357
es e informações: sede da APPOA
JORNADA DE NOVEMBRO
Estamos dando início ao trabalho de preparação das jornadas do seemestre. Desta vez foi escolhido um tema que se tem constituído como
s indagações mais atuais sobre as neuroses: a peculiaridade com que
se obsessiva tem se imposto ao trabalho clínico. Esta apresentação da
e – mais resistente aos efeitos de transferência – toma sua
ualidade na forma como o laço social se constitui hoje. Voltar a indagarre os pressupostos das neuroses requer um exercício constante, na
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
medida em que as construções sintomáticas são sempre precipitações
po em que estamos.
Há alguns anos atrás, o diferencial das neuroses parecia definir
tidades sexuais: histéricas, as mulheres; obsessivos, os homens. Ho
vez mais mulheres parecem ter na obsessão uma escolha de sintoma
tantos anos se passaram, cabe a indagação se as duas neuroses co
estruturas distintas, na medida em que a prática clínica permite pensa
uma migração de uma a outra, quando muda o apelo fálico (social) no
respeito à representação do sexo. Nesse sentido, talvez não se trate
estruturas, mas de uma só, que compõe o laço histeria-obsessão co
complementar. Essa parece-nos uma questão que merece ser pesqui
Ampliando a indagação sobre a neurose obsessiva hoje, eis um
preliminar que poderia constar nessa pesquisa:
- a peculiaridade da busca obsessiva no declínio da confian
universal;
- o tabu do contato e as expressões atuais do sublime e pro
- a passagem do corpo flagelado ao corpo perfeito (corpo-id
disciplinas corporais;
- a desnaturação da mulher-mãe;
- a temporalidade obsessiva: a evitação (ou procrastinação)
lação (ou... ou...);
- o artifício da não escolha sexual na obsessão;
- a atividade homossexual e a separação amor e sexo (su
profano);
- a busca das mulheres por realizarem o nome do pai.
O encontro do Cartel terá lugar no dia 15/07, às 19h30min, na
APPOA. Está aberto a todos que queiram participar.
Responsáveis pelo cartel: Ana Maria da Costa, Conceição Beltrão
Mees.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
BIBLIOTECA
Solicitamos que, caso alguém disponha de versões em português dos
ios abaixo listados, entre em contato com a Biblioteca.
rio 6 – xerox (O desejo e sua interpretação) – APPOA
rio 12 – Problema cruciais para a psicanálise
rio 13 – O objeto da psicanálise – nenhum exemplar
rio 14 – A lógica do fantasma
rio 15 – O ato psicanalítico
rio 16 – De um outro ao outro
rio 18 – Um discurso que não seria do semblante
rio 19 - ... ou pior
rio 22 – R.S.I
rio 23 – O sintoma
rio 24 – L’insu que saint de l’une-bévue s’aile à mourre
rio 25 – O momento de concluir
rio 26 – A topologia e o tempo
A CLINICA INSTITUCIONAL EM DEBATE
– DEMANDA DE ATENDIMENTO –
Apesar do subtítulo acima pecar pela falta de rigor, decidimos m
em favor do uso corriqueiro que dele muitas vezes fazemos. Entreta
nos ocuparemos disto no presente texto.
Interessa-nos pensar em que consiste um pedido de tratament
reçado a uma instituição. A quem se endereça? O que nos diz daque
enuncia?
Quais as condições de analisabilidade que tal pedido porta?
O Fórum da APPOA convida todos os interessados pelo tema
tirem tais questões com o Banco de Horas-Programa de Acolhimento
tuto da Mama do Rio Grande do Sul.
Data: 15 de julho
Horário: 21h
Local: nova sede da APPOA – Rua Farias Santos, 258
PUBLICAÇÕES
A Comissão de Publicações informa que Marcelo Gensas é o e
gado da implantação de um programa de divulgação e distribuição da A
Solicitamos que informações de possíveis locais de distribuição e even
douros sejam endereçadas para :
[email protected]
NOVAS AQUISIÇÕES DA BIBILIOTECA
esco, E. e Plon, M. Dicionário de psicanálise.
ky, V. De lo espiritual en el arte. (Doação de Mercês Ghazzi)
e Linguagem : colóquio psicanálise e filosofia - Letra Freudiana - n.22
de La E.F.B.A - Abril/99, n. 2596
da Criança. Centro Lydia Coriat. Porto Alegre/1998, n. 5 (Doação do
Lydia Coriat)
do CEP de PA. Edição especial mar/1999 (Doação do CEP)
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
Revista Latinoamerica de Psicopatologia Fundamental, vol. II, n. 1, ma
MUDANÇA DE ENDEREÇO
Eda Estavanell Tavares e Alfredo Néstor Jerusalinsky informam seu no
fone residencial: (051) 328 2497
Lúcia Alves Mees informa seu novo endereço e telefone do consultório
de Outubro,1100 sala 701 – (051) 222 9300
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
RICKES, S. M. Um texto ama
s discussões
que antecederam
a preparação
desse
númeroe cedo
Kauri
dos Reis informa
seus telefones
residencial: (051)
3422370
Correio
foram
atravessadas
por
uma
fala
recorrente:
“Precisa51) 9615570
mosMüller
marcar
diferença
em
relação
à edição(051)
cuja3385621
Seção
úcia
Steinuma
informa
seu novo
telefone
residencial:
ca foi “O Virtual e a Criança”; “Não é repetitivo falar do virtual?”.
repetição não é assunto estrangeiro aos psicanalistas que, desde
ocupam-se desse fenômeno que “compulsivamente” assola o
o neurótico. Também não nos é estranho o fato de que aquilo
repete se sustenta não só numa igualdade em relação ao que
ndo reatualizado, mas também na diferença que aí se inscreve.
sentido, a repetição sempre fracassa...
E, por sorte, não fugimos a isto. Fracassamos em produzir o
ara alívio dos mais preocupados. Porém, não nos furtamos ao
que, se trouxemos à baila novamente o tema, é porque ele é
ante. Significante também pela polissemia que os textos testem. Pois, mesmo se debruçando sobre o mesmo assunto, os
com os quais o leitor se encontrará abordam o virtual nas suas
versas intersecções. Repetimos o mesmo, pois a interrogação
eito dos efeitos produzidos pelos novos artefatos que nossa
poraniedade cunhou, principalmente os relacionados às novas
gias, insistem. Mas, por outro lado, não fechamos lugar ao
e... Em tempos de ciberespaço, escrevendo com nossos moeditores de texto, repetimos, tal como Freud descreveu com
na a quase cem anos atrás.
Simone Moschen Rickes
Maria Lúcia Müller Stein
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
UM TEXTO AMARROTADO
UMA PSEUDO-RESENHA
Simone Moschen Rickes
A
palavra virtual pode trazer consigo a idéia de um am
informático, onde a realidade possa ser reproduzida por
nos softwares, que permitam aos sujeitos experimentare
sações, terem determinadas percepções, sem correrem o risco
tato com o semelhante. Ou seja, dizer virtual pode evocar, qu
um movimento automático, as tecnologias informáticas de que
mos e seus efeitos em nosso cotidiano. Estranhamente, é no
que é o virtual?, de Pierre Lévy, alguém que tem-se caracteriza
estudar as conseqüências do advento informático nas possib
de laço social que marcam a contemporaneidade, que encontr
tentativa de conceitualizar o virtual como categoria passível de a
entidades que não estejam exclusivamente ligadas aos am
telemáticos. É no intuito de trazer alguns elementos para contr
problematização do tema reservado pelo Correio para este m
virtual -, que proponho fazer um breve percurso por este livro d
colhendo deste noções que permitam, para além de pensar tal
to a partir deste autor, interrogar a leitura e a escrita como
adjetiváveis pelo virtual.
Conforme Lévy, “a palavra virtual vem do latim medieval
derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia clá
virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a
zar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
e está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosailosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade
dade são apenas duas maneiras de ser diferentes” (1996, p.15).
quando se fala de virtual, não se está falando de algo que se
ra em potência, já constituído, apenas esperando por sua
ção, não se está aludindo à esfera do possível que em si
identidade com o real - tomado por Lévy enquanto realidaual -, sendo que apenas ainda lhe falta existência. Falar de
é remeter-se a um complexo problemático, a “um nó de tens ou de forças que acompanha uma situação, um acontecium objeto, ou uma entidade qualquer e que chama a um
so de resolução: a atualização” ( Idem, p.16). O que marca
rtualidade é seu potencial criador, sua capacidade de coloestões, de abrir caminhos, e essa não é uma característica
er, mas sim algo que é estrutural a certas entidades (aconteos, objetos, situações...).
As características que compõem o virtual permitem tomá-lo
puro movimento, onde a cada problematização surgem nomas, novas maneiras, novos lugares, que retroalimentam a
dade de virtualização da entidade que lhe deu origem. Esse
ento contínuo de problematização que o virtual comporta faz
go que, com freqüência, não está presente, que não enconar no espaço físico e geográfico comuns, nem na temporalironológica.
Ao analisar o virtual, Lévy se debruçará sobre três aspectos:
o, a economia e o texto. Quanto ao primeiro, apontará para
érie de problematizações que os avanços tecnológicos traprópria noção de corpo, seja, por exemplo, por uma externalida percepção propiciada pelo telefone, em relação à audiu pela televisão, em relação à visão - isso para não falarmos
efatos muito mais “modernos” -, ou ainda, pelos avanços
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
RICKES, S. M. Um texto ama
médicos que permitem que se transplantem corações de b
ou fígados de porco para prolongar a vida dos humanos. “A
o sangue, postos em comum, deixam a intimidade subjetiv
sam ao exterior” (1996, p.30), virtualizando a categoria c
medida que problematizam a sua própria definição1.
A economia, por sua vez, é concebida por Levy como
princeps da desterritorialização e da virtualização. O que mar
excelência, o virtual, a saber, “o desprendimento de um aqui e
particular, passagem ao público e sobretudo heterogênese” (Idem
está presente de forma ineludível na economia contemporânea
relações de consumo, dirigidas aos bens de produção, busc
sua apropriação exclusiva, bem como, derivavam na destruição
prio bem como efeito do ato de consumi-lo, as relações que se
ao conhecimento e à informação, principais fontes de riqueza d
lidade, não redundam em destruição dos mesmos, nem em sua
como conseqüência de sua cedência - isso porque não perco
truo a informação que compartilho. Essa nova forma de se re
com as riquezas, conforme nos aponta Lévy, faz com que assi
a uma economia que se inscreve sobre outras bases, onde as
de consumidor, produtor, intermediário e produto encont
problematizadas e reclamam por soluções qualitativamente d
Problematização esta que atinge a própria idéia de trabalho, assim
a de profissão, que, por conta de uma produção de informaçã
nhecimento que se renova em ciclos cada vez mais curtos, é t
1
Tal problematização acerca da imagem que o homem tem de seu corpo já
desde muito cedo, nos estudos de Freud e Lacan. Nas palavras deste último: “
ao redor da sombra errante do seu próprio eu que vão-se estruturando todos o
de seu mundo. Terão todos um caráter fundamentalmente antropomórfico, pod
dizer egomórfico. É nesta percepção que é evocada para o homem, a todo inst
unidade ideal, que como tal, nunca é atingida e a todo instante lhe escapa.” (Lac
p. 211). A idéia de uma relação corpo / objeto, em que a fronteira entre ambo
encontra definida de forma rígida, de forma a garantir um dentro e um fora estab
de maneira estanque, já se faz ver nas teorizações psicanalíticas acerca da co
da imagem do corpo que parecem, tomando a noção de Lévy, virtualizar o co
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
m xeque em tempos cada vez menores, fazendo com que ass ao surgimento e ao ocaso de várias profissões, o que traz
üências que tivemos oportunidade de examinar no Congresso
Valor Simbólico do Trabalho.
E sobre o texto? O que diz Lévy?
Uma característica do virtual é um certo efeito Moebius, uma
são da divisão exterior-interior, em que vemos se dissiparem as
ias, por exemplo, do autor e do leitor. Desde os primeiros temescrita, a posição do leitor tem sido também a de uma certa
pois ler o texto é esburacá-lo, riscá-lo, semeá-lo de brancos.
o trabalho da leitura: a partir de uma linearidade ou de uma
de inicial, esse ato de rasgar, de amarrotar, de torcer, de
rar o texto para abrir um meio vivo no qual possa se desdobrar
do. O espaço do sentido não preexiste à leitura. É ao percorrêotografá-lo, que o fabricamos, que o atualizamos” (p. 36). Além
movimento de dobra do texto sobre si mesmo, produzimos tamutro, de relação com outros textos, costurando idéias, tecendo
ões...
A escrita trouxe à história uma virtualização da memória, fazengir um novo tipo de comunicação, na qual a mensagem está
mente separada, no tempo e no espaço, das condições de sua
o, acarretando com isso o desenvolvimento de formas de redae possibilitassem uma certa universalização do acolhimento das
gens.
O advento da informática vem enfatizar as possibilidades de
ação que a escrita encerra. Não a informática por si só, pois o
fato de ver digitalizado um texto não indica que a forma como
em irá com ele se relacionar será distinta da do texto que tem
uporte o papel. Apertar um comando, para que o computador
ique a mensagem contida no disquete e a apresente em
res por nós reconhecíveis, é simplesmente mergulhar na esfe-
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
RICKES, S. M. Um texto ama
ra de um possível que se torna real - usando as palavras de
pois as combinações contidas em tal disquete são finitas e prev
Ao contrário, na virtualização estamos sempre num campo que s
em tese, para questionamentos infinitos e imprevisíveis. A leitu
ser virtual, não porque as informações encontram-se armazena
um suporte informático, mas porque nela vemos intervir as pos
des singulares de um determinado sujeito, que se encontrará d
única com determinado texto, que contém em si aberturas para
minadas leituras. Muito embora quem escreveu o texto tenha in
nado propiciar uma certa direção de leitura, essa, por certo, n
garantida, à medida que depende do encontro pontual entre o le
texto. Encontro este que produzirá um novo texto, na medida em
partir dele, o leitor passará a habitar também o lugar de autor.
tão radicalmente, de forma a que um mesmo leitor produza,
leitura de um mesmo texto, novas direções de interpretação embora o suporte material da escrita, o texto em si, possa perm
o mesmo, sabemos que o leitor nunca será igual àquele que
momento anterior.
Produz-se, dessa forma, um emaranhado, uma sobrepos
lugar de leitor e de autor, o que tem como efeito “colocar em
exterioridade e a interioridade, no caso a intimidade do autor e
nheza do leitor em relação ao texto. Essa passagem contínua
tro para fora, como num anel de Moebius, caracteriza já a leitu
sica, pois, para compreender, o leitor deve ‘recriar’ o texto men
te e, portanto, entrar dentro dele. Ela diz respeito também à re
uma vez que a dificuldade de escrever consiste em reler-se par
gir-se, portanto um esforço para tornar-se estranho ao próprio
(Idem, p. 45).
As proposições de Lévy nos colocam diante da íntima
existente entre o lugar de produção do texto - o do escritor - e o
interpretação - o do leitor. Para ele, ditos lugares não encontra
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
ígidas, mas se estabelecem em uma relação, na qual aquele
ui ocupava o lugar de leitor, mais adiante se verá transformado
or do texto, pois introduzirá neste uma forma própria de percorrêso para além do suporte físico em que o texto se inscreva. Muito
seja claro que a informática, a partir do advento do hipertexto,
berto novas portas à capacidade de virtualização de que a leiturita são tributárias.
Ao retomar o processo de leitura como comportando algo de um
de uma recostura do texto, Lévy utiliza-se da palavra amarrotar.
mo-nos fazer um grande desvio e retomar tão singelo vocábua na voz do pequeno Hans: “De noite havia uma girafa grande
rto, e uma outra, toda amarrotada; e a grande gritou porque eu
amarrotada para longe dela...” (Freud, 1909, p. 44). O pai de
ao escutá-lo, de pronto se surpreendeu com a alusão a uma
marrotada. Hans, por sua vez, sempre tão perspicaz, percebeu
ais uma vez, deveria esclarecer seu pai e, pegando um papel,
ando-o, disse: “estava amarrotada assim”. Mas, afinal, o que
ver a leitura como um objeto virtual com a girafa amarrotada de
Tentemos tecer alguns laços...
Lacan, ao trabalhar o que do caso Hans nos remete a uma trado imaginário ao simbólico, retoma a fantasia da girafa amassamo um momento dessa passagem. Uma girafa que pode ser
ada, que assume as vezes do pai, da mãe, do próprio Hans, ou
e Hanna, é um elemento cuja significação é transformada, rea cada novo tempo de fala. É um elemento que aparece em sua
alidade simbólica. “O caráter de passagem aqui de um elemenaté aí teve sua função imaginária a um tipo de intervenção de
zação radical formulada pelo sujeito (...), sublinhada pelo gesto
faz em seguida de apoderar-se, de ocupar, se podemos dizer
osição simbólica - ele se senta sobre (...) - é, no pequeno Hans
coisa especialmente satisfatória.” (Lacan, 1992, p.165).
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
RICKES, S. M. Um texto ama
Assim como Hans amarrotou sua girafa, inscrevendo-a e
potencialidade simbólica, o leitor precisará, para produzir sua
amarrotar o texto que lê, o que, por sua vez, fará com que tam
escrito possa produzir, em quem o percorre, efeitos simbólicos.
relhar a girafa e o texto conduz à pergunta acerca do quanto o c
de Lévy pode ser aproximado do registro simbólico proposto por
Pergunta que pretendemos deixar ecoando, pois nada melho
um texto que trate sobre o virtual, do que encerrar com um p
interrogação. Ponto que sempre produz a abertura a múltiplo
nhos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, S. [1909] Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In
Edição Standard Brasileira da Obras Completas de Sigmund Freud.
de Janeiro, Imago, 1974.
LACAN, Jacques. [1954-55] O seminário - O eu na teoria de Freud e na
psicanalítica. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
CORSO, D. L. Como vai se ch
[1956-57] A relação de objeto e as estruturas freudianas. Porto Alegre,
ção Psicanalítica de Porto Alegre, 1992.
ierre. O que é o virtual? São Paulo, Editora 34, 1996.
COMO VAI SE CHAMAR
A CINDERELA DO NOVO SÉCULO?
Diana Lichtenstein Corso
era tempo do reinado de Cinderela chegar ao fim. Cinderela
presentava o sonho de todas as mulheres por ser o único posvel, só lhes restava esperar que um homem, um príncipe, vieslevá-las ao altar. Vida de mulher consistia em sair do jugo paara o jugo matrimonial e as que conseguiam isso ainda podiam
siderar abençoadas. O mundo mudou e os sonhos mudaram,
mente, aliás, pois os sonhos parecem ter uma inércia maior do
ealidade.
Se Cinderela está se aposentando, como vamos chamar a nova
o ideal feminino? Que padrão vamos oferecer a crianças e adoes como espelho para sonhar? Aposto num nome: Lara Croft.
for ela, não vai ser alguém muito diferente. Para quem ainda
onhece, trata-se de uma aristocrata, criada como filha de Lorde,
ha tudo para, mesmo nos dias de hoje, transitar do berço para o
ento tranqüilamente. Neste trajeto, uma fatalidade: seu avião cai
alaia, onde ela, única sobrevivente, aprende a depender apesi mesma para salvar-se num ambiente hostil. Dali em diante
ende que não mais poderá levar uma vida pacata. Torna-se
oga, escreve livros e, de posse de seus dotes físicos generoa contra uma série de inimigos no “Tomb Rider”, game em que
e vive, para delícia de seus jogadores habituais. Lara Croft é
neca virtual, forte como Rambo, curiosa e ousada como Indiaes, intelectualizada como um enciclopedista, atraente e tantas
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
coisas mais....
Cinderela sai das cinzas, da feiúra do ambiente doméstic
brilhar no baile. Neste espaço social permitido, podia incumbi
única função pública que lhe cabia: arranjar marido. A escolha d
cipe arrebata-a da miserável cozinha. Ressurge de suas cinzas
princesa ou rainha.
Lara também passa por provações, mas anda em sentid
trário. Ao invés da imobilidade do destino feminino, a errância
fica; ao invés da fragilidade, as qualidades de guerreira; ao in
busca da segurança do amor e do ambiente doméstico, o despr
tudo o que signifique qualquer tipo de dependência. Levamos u
conosco para transpor o milênio; entramos com Cinderela, saím
Lara. Mas não é nada tranqüilo manter essa imagem.
Já faz, na verdade, mais de 100 anos que a outra meta
habitantes da terra, as mulheres, clamam por ocupar plename
espaços que nossa inteligência propiciou: o saber, a tecnologia
tica. Não é uma batalha, é uma longa guerra na qual ainda e
envolvidos, e cada mulher sabe como o fantasma da “Amélia
ronda seu ser, uma espécie de alter-ego, algum tipo de passa
cada mulher possui.
A mulher mudou. Na sua esteira, a ficção tem que se m
ela, velhas histórias que traduziam o ideal feminino precisam
lugar a novas versões. Queremos ser como Lara, mas o fanta
Cinderela assombra a vida até mesmo das mais independente
Cinderela representou como ninguém a alma feminina c
beleza, virtude, resignação, mãos caprichosas e a esperança d
um homem. Ela deixava o egoísmo narcisista às tão desajeit
lhas da madrasta; a verdadeira mulher não ostentava. Basta
do dito “por trás de um grande homem há sempre uma grande m
para notar que à mulher restava ser grande apenas na sombra
verso de realização de uma mulher podia até ser público, ma
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O TEMÁTICA
ção do privado: o casamento que fundava a família.
A heroína virtual é uma caricatura, trata-se de uma boneca de
ador, mas ideais são assim, toscos e irrealizáveis. Por isso, pousar Lara Croft como representante do novo sonho feminino. O
virtual tem se configurado como um grande território de tráfego
l. Os seres humanos, em aparente paradoxo, têm-se alimentamaginário de rios de palavras, mensagens nas redes acompade imagens que se montam aos poucos, linha a linha, com
rante lentidão; em verdade, na rede muito se escreve. Nesse
ão prolixo em discursos, cada um monta seu personagem, na
, no chat, num mail. Escritos rápidos, em ritmo de conversa
assíveis, esperando visita, sites pessoais, o lugar de alguém ou
grupo, de uma mania, etc. Em comum há um pacto onde, qual
e de máscaras, noite e dia cada um pode brincar do que quiser
urar fantasias afins. Não há, portanto, espaço melhor para a
lização desse personagem.
Diferente de Lara, que é sem contradições, a mulher pós-cinderela
metamorfose ambulante. Sua complexidade pode ser sistematim três aspectos: primeiro, é uma verdadeira guerreira, tal qual
mem seria, mas é no amor que ela consagra sua vitória; segunna-se legítima herdeira da tradição familiar, com uma filha mué possível a continuação de uma linhagem; terceiro, é órfã de
ua progenitora ou não compreende seu pensamento, ou
co pode guiá-la por não ter mais parâmetros do que a filha.
O século XX, século denso e plural como poucos, será conhecimuitas coisas no futuro, mas certamente também vai ser conhemo o século da mulher. O acesso à educação timidamente coantes, mas foi nestes cem anos que as conquistas começaram
massivas. A mulher, até então, tinha três destinos: casar, ser
a ou prostituta. Esta classificação simplificada revela que a ideneminina estava nas mãos do amor de um homem ou, caso este
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CORSO, D. L. Como vai se ch
faltasse, sempre restava o casamento com Jesus. O movimen
nino do privado ao público inicia timidamente com nosso sécul
almente vestida de homem, a mulher explora, estuda, discur
preciso esperar que os homens fossem à guerra para que a
pudessem colorir fábricas, universidades, laboratórios, protesto
os de transporte, enfim, a rua.
Não faltaram, em tempos anteriores, mulheres diferentes
las que dedicaram vidas a causas humanitárias, científicas, re
ou políticas. Essas aventureiras do destino feminino, outrora ex
tornaram-se hoje a regra. Hoje, os caminhos para a mulher são
marcados, a reivindicação já não é tanto de novos espaços,
que mais e mais mulheres possam ter liberdade de escolher a
em nome da qual dedicar sua vida, seja ela social ou doméstica
ca ou privada, amorosa ou celibatária.
Os contos de fada, que tantas gerações escutaram antes
mir, precisam ser incluídos na bagagem da nova mulher, mas nã
daquele jeito. Já não são mais só contados, agora necessari
possuem imagens; o cinema faz parte desta transmissão de h
Existe um filme recente que tenta uma saída para Cin
chama-se: “Para sempre Cinderela”. No filme, descobrimos q
não era boba e submissa como pensávamos e sim inteligentí
letrada. A jovem orfã teve tempo de ser introduzida não só n
pela leitura por seu pai, mas também no uso das espadas. O re
é uma moça muito moderna, cujo único problema é que talv
possamos chamar de Cinderela tão simpática personagem.
É preciso preparar as mulheres para a complexidade
novo papel e é aí que, mais uma vez, o cinema faz sua parte.
lheres principiantes este último ano foram oferecidos dois filmes
(estúdios Disney) e o menos comentado A espada mágica
Warner). Trazem trama similar: duas jovens são forçadas a p
um destino de guerreiras e o fazem com maestria. Mulan salva
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
da dominação Mongol, e a outra salva um rei que não é outro
Arthur. Ambas passaram por revéses no começo, pois se revenadequadas para o casamento e as tarefas do obscuro papel
do às mulheres. Antes de demonstrar seu surpreendente denho na terra dos homens, afinal não há espaço mais masculino
a guerra, passaram por um estado extremamente incômodo, no
o eram aceitas em nenhum dos mundos. Mulan é uma lenda
da qual não conhecemos muitos paralelos no ocidente; apea situar em termos de literatura brasileira, temos nossa Diadorim
do os impasses da nova mulher pelo Grande Sertão Veredas.
A mulher tem seu próprio método para ir à guerra. Não canta
pantar o medo, ela se apavora, desce ao abismo e sobe com
ncia de seus limites. Curiosamente, sua recompensa, para além
pa e da glória, provém acima de tudo do amor. Assistimos, pasà jovem Mulan sobrepor em importância o amor de um jovem
o e o perdão de seu pai pela travessura à própria consagração
coragem na Praça Imperial. A glória por ela conquistada seria
te para inebriar qualquer homem, mas para a mulher nada sigem o amor. Toda ovação popular só é audível quando o guerreiconquistou seu coração atravessa o portão da casa paterna
dir sua mão. É digno de nota que este amor é o por ela escolhio designado pela rigidez da tradição.
O amor romântico, a livre escolha amorosa é uma conquista ime. Sejamos sinceros, não é só para as mulheres que o amor
a como contraponto das conquistas pessoais a que cada indivíntemporâneo se lança. O ser amado é um espelho que dispõe
ostas eficazes a todos os impasses identitários. Se amado, sabento se vale e para quem. Assim, a mulher não busca o repouso
r por ser mais fraca e dependente do que o homem, mas poro ideal romântico que funciona como contraponto à solidão nespos de individualismo.
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CORSO, D. L. Como vai se ch
Amantes modernas, as mulheres da geração de Lara t
são filhas especiais. Os pais das heroínas de que nos ocupam
exemplo, não tinham gerado filhos homens. Sabemos que est
pre foi mais um dos desafios masculinos: fabricar seu sucessor
mulher traria possibilidades apenas através do casamento. Os d
correm propõe um uso mais interessante da filha mulher do qu
la. É enquanto filha, mais do que enquanto amante, que a mul
puta em novos territórios. Os revéses da vida de seu homem, s
pai ou marido, não mais selam o destino da mulher, assim como
do filho homem não mais encerra o poder de uma família.
A liberdade das novas mulheres traz a dolorosa consciê
condição pantanosa do chão que pisamos: os patriarcas fraq
envelhecem, vacilam, e os amados já não são também futuros
táveis senhores de bigode. À mulher independente correspon
homem sensível, cujo melhor modelo é o rapazola romântico de
Perdida a ilusão da fortaleza masculina, a mulher encontra no
de fragilidade, frente a essa está só, como Lara Croft, sobrev
dependente apenas de suas habilidades para seguir adiante.
A menina que cresce hoje não deixa de ser delicada e r
ca, apenas detesta limitações. A velha versão do conto de fada
va com a contradição entre a boa mãe, encarnada pela finada e
(versões da mãe da primeira infância), e a madrasta-bruxa (re
tante da mãe da adolescente), que deixa de cuidar a filha para d
no mesmo território, invejosa e envelhecida. Na versão que te
gatar Cinderela, encontramos uma mãe mais do que má, retr
incapaz de entender a vastidão dos destinos de uma mulher, e
pode oferecer velhas fórmulas. A outra mãe era ótima, mas m
Trata-se de uma ou várias gerações de mulheres órfãs de mã
que não as tenham, mas estas tampouco têm respostas, apena
tões, dúvidas, culpas, problemas de agenda, dificuldades para
xar seus múltiplos papéis. Já não mais modelo, agora parceira d
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O TEMÁTICA
escortina-se um espaço interessante de convívio. Falta, porém,
da guia.
As novas meninas precisam encontrar, desde cedo, os modelos
e pautar esse jeito nada apagado de ser, e o conto de fadas
porâneo, ou seja, o cinema, é um lugar privilegiado aos modee vieram em substituição da velha e submissa Cinderela, da
cente Bela Adormecida ou da ingênua Branca de Neve.
Nos produtos culturais dedicados à infância e aos adolescentes,
mos nossa organização social em seus ideais. Para os mais
buscamos sintetizar o que cremos ter de melhor, ou, talvez, o
nsideramos essencial. Às meninas estamos contando de onde
mulheres e apontando para o que de melhor consideramos que
ismo pôde legar: queremo-las guerreiras, independentes, femidesejáveis ao mesmo tempo. Parece impossível, mas é nesta
orda bamba que se equilibra cada mulher do quase findo século
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
COSTA, A. M. M. da Será que virtua
XX. Conforme constatamos, não é pouco o que queremos das
res. Para dar conta de um ideal desses só mesmo armadas
dentes, como Lara Croft.
SERÁ QUE VIRTUALIDADE É FICÇÃO?
Ana Maria Medeiros da Costa
“E
stou apaixonada”, me diz uma mulher, com aquele
característico do enlevamento que a paixão desperta. “Ele é b
nunca conheci ninguém assim”, continua ela, que, próxima dos 5
já somava experiências consideráveis nesse assunto, inclusiv
mentos e filhos. Quando quis saber detalhes sobre o escolhido,
surpreende dizendo que nunca o tinha encontrado pessoalmen
era um namoro pela internet, que já durava há algum tempo. Es
sódio reportou-me, imediatamente, para meu tempo de adoles
quando compartilhava, com as amigas, o gosto dos namoros p
respondência. Não sei como era na capital, mas na cidade onde
va tínhamos o hábito de responder a anúncios de rádio, num
reedição dos contos infantis do príncipe encantado: o homem
nhos, só poderia estar em outro lugar, inacessível, apesar de r
do pelo destino. É certo que, na adolescência, não se pensa
reedição de sonho infantil, que é sempre o sonho irrealiza-do d
De qualquer maneira, a escrita das cartas materializava a fantas
firmada na chegada pelo correio, ansiosamente aguardado, d
ços, letras, poesias, fotos, daquele que por fim poderia ganha
sem sair do mundo dos sonhos. Essa atividade adolescente c
toda uma ambigüidade: se, por um lado, bancava o risco de colo
ato a fantasia, testando sua consistência ao dar corpo a uma ab
(uma idéia onírica); por outro, preservava o sonho.
Essas associações, que me surgiram a partir do que ac
com essa mulher, não deixaram de instigar-me. Poderia simple
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
prezar sua experiência taxando-a de “fantasística”, ou “adolestodos adjetivos que se usa quando se quer caracterizar superisobre outro, demonstrando toda a distância que se tem sobre
itividade” e “irracionalidade”, que sempre queremos controlar e
raramente nos reconhecemos. Mas a proximidade da sua idame deixava indiferente, na medida em que pressupõe um dedo caminho por questões muito particulares a essa geração.
adolescentes da atualidade usem a internet como uma sucedâs cartas, ou mesmo como sucedânea das fotos de revista, dos
s dos meninos escondidos nos banheiros, talvez não traga nada
novo na forma como, culturalmente, se começa a estabelecer o
e o profano. Mas, que isso tenha efeitos na geração que preuma revolução sexual, não deixa de ser surpreendente.
Na verdade, esse preâmbulo me ajuda a pensar que não é posar uma explicação única para os dispositivos culturais. A cultura
precisa lidar com universais e o reconhecimento mediado por
entos leva-nos a interpretar o instrumento e não a experiência.
primeiro estabelece a diferença não é a identidade sexual, como
es o recurso ao édipo leva a crer. O que verdadeiramente estaa diferença é a multiplicidade de endereços que a diferença das
es coloca. O endereço, aqui, você pode tomar como o apelo (ou
da) do Outro.
Partindo deste suposto, recuso-me a pensar que a experiência
mulher (que não é a única deste gênero, diga-se de passagem)
ser interpretada com fundamentos em abordagens genéricas do
ia a virtualidade no nosso tempo. Prefiro lançar algumas hipótebre a singularidade de seu caminho. Assim, retorno à indagação
ssa geração da “revolução” sexual. Lacan tinha um pensamene esse termo, que considero muito apropriado. Ele dizia que,
evolução, tratava-se de dar uma volta completa, ou seja, voltar
o de partida. No entanto, para não sermos reducionistas, muita
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
COSTA, A. M. M. da Será que virtua
coisa acontece no caminho dessa “volta” e é isso que faz com
repetição nunca seja do “mesmo”.
A liberação sexual da geração dos que hoje são pais, e
vezes avós, parecia ter tirado do caminho o que, aparentemen
nava a atividade sexual mais desconfortável: sua proibição fo
lugares estabelecidos (casamento ou bordel), ou sua associa
clusiva à reprodução. O prazer e o orgasmo das mulheres pa
compor a temática do dia, coisa que antes sequer era cogitado
sentar no ambiente da família. A exibição compulsiva das ativ
sexuais dos adolescentes de então parecia ter invertido o olhar d
primária, dos filhos para os pais. As experiências de sair de ca
morar em repúblicas transformava a vida “familiar” numa vivênc
pares, mais permissiva para o considerado saudável e norma
pondo muitas vezes um naturalismo de inspiração hippie.
Talvez seja excessivo lembrar de coisas que, pela proxi
temporal, todo mundo sabe como foi. Entretanto, estamos em
de recalque pela vizinhança de uma terceira geração. Assim q
guindo um gosto bem freudiano, brinquemos um pouco com as
ses para testar a consistência de algumas idéias que esse tem
perta. A primeira questão que me faço – tomando o exemplo ac
se os atos realizados produzem alguma diferença na ficção q
anima. Aparentemente não produzem, o que confirmaria
freudiana da atemporalidade do inconsciente e do infantil que o
teriza. No entanto, prefiro avançar um pouco mais na indagaçã
pensar se é mesmo disso que se trata.
Temos, então, essas duas produções para pensar: a ficçã
atos realizados. Pelo colocado antes, talvez pudéssemos cons
ficção como “fora” do tempo e os atos marcando intervalos, i
ções, finalizações. Mas o que significa mesmo esse “fora” do
Poderíamos considerá-lo como sendo o “mesmo” para todo e q
contexto? Poderíamos afirmar que a ficção da quarentona, m
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
ernet, é a mesma que a entretinha na adolescência?
A matriz da ficção constitui-se a partir do primeiro grande enigmulado na infância: de onde vêm os bebês, que Freud analisou
vezes. A fabulação da infância constrói o primeiro corpo ficcional,
s ensina porque o incesto é impossível. Na produção narrativa a
nos apresenta o corpo do incesto como uma totalização mãenuma espécie de corpo conjugado. Ao enigma de onde vêm
ês, que seria uma representação do corpo da mãe, a criança
de a partir da experiência pulsional de seu próprio corpo (pela
nus, etc.). Freud se deteve na face individual desta produção
a, atribuindo-a a um desconhecimento da criança, tanto do
feminino, quanto da relação sexual.
á me detive, em outros momentos, na análise desta questão,
riscarei a repetição para melhor situar o tema que me ocupa
O corpo ficcional da narrativa infantil não é uma produção indivile responde a um “desconhecimento”, ou engano, também da
ue precisa tomar o corpo de seu filho como um representante do
sim, a narrativa infantil é uma ficção compartilhada mãe-crian-
A partir disso, vou acrescentar uma questão que nos interessa
ficção é uma forma de representar a experiência, logo, de proediações no real, de abordar o impossível. Mas, de quê experie trataria, no caso desta narrativa infantil? Se concordarmos
icção não é individual (até mesmo porque estamos analisando
triz, o momento de sua constituição), teremos duas naturezas
eriências, decantadas numa só narrativa: a da mãe e a da criando lado da criança, entendemos que se trata de representar a
ncia a partir de seus orifícios corporais, como seria do lado da
De alguma maneira, para uma mulher, a experiência de gestar
o é também a colocação em ato do que foi a fantasia de sua
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
COSTA, A. M. M. da. Será que virtua
infância, do enigma de seu nascimento. A condição de um enig
impossibilidade de sua resolução. Assim, mesmo que uma mu
nha adquirido o conhecimento e a experiência, tanto dos genitais,
do ato sexual, o enigma da origem permanece. É verdade q
experiência acrescenta mais uma versão para esse enigma, q
versão do édipo. Essa versão tem influência na forma como ela
seu filho que, por seu turno, produz efeitos na ficção infantil. Mas
nenhuma das versões resolve o enigma, elas podem conviv
contradição.
Podemos, também, partir do princípio de que a ficção res
fracasso que a produção dos atos imprime numa totalidade. A t
de, se ela existisse, estaria em dois lugares: na representação
digo) e no corpo (se ele fosse somente real). Assim, a ficção
momentos de passagem. Esses momentos caracterizam-se pe
sito de um lugar a outro, quando se relativiza tanto o código, q
real, por uma determinada atividade. No caso da infância, a a
pulsional, na sua particularidade de erotismo, permite uma p
apropriação e domínio tanto do código, quanto do próprio corpo
ados pela fantasia. A fantasia é o que garante que não há rea
do absoluto, porque resulta da interdição do Outro (castração)
momento de passagem característico situa-se na adolescência
a fantasia do terceiro excluído é o que vai estar em causa.
Retornando à nossa apaixonada da internet, talvez pos
pensá-la num determinado momento de passagem. Essa pas
tem a ver com a constituição, no laço social, de uma outra v
temática do sublime e do profano. O sublime, no sentido de to
representações do amor, e o profano, naquilo que a atividade
sempre carrega de degradação, de resto, de margens, de tra
são. Se a apaixonada da internet foi aquela que se arriscou, jun
sua geração, a colocar em ato a insatisfação da mãe (ou seja,
que a precedia) pela vertente do exercício sexual, agora a en
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
ma outra volta, reconstituindo um corpo impedido. Como referi
todo exercício comporta uma dimensão de fracasso e é este
pede que cada volta (retorno do recalcado) se produza no mesgar. Nesse sentido – o da experiência –, é que não há
ralidade e que as produções da cultura engendram um outro
corpo impedido, que vemos retornar nas inibições contemporâão é o mesmo de antes de sua dessacralização pelo exercício
“liberado”. Ele decorre do fracasso em totalizar a satisfação do
ato sexual, coisa que antes sempre poderia ser mantido “em
” no horizonte, pelo impedimento das mulheres.
Se as considerações acima ajudam-me a contextualizar o que
corpo ficcional – isso que media, no coletivo, nossas relações –
eixam muitas indagações sobre a função destas maquininhas,
ais nos tornamos dependentes. Mas não podemos pensá-las
m determinado contexto. Freud também nos legou a matriz desquininhas: o carretel de seu neto no jogo do fort-da. É ele que
mite pensar que a desnaturação do corpo – sua transformação
ão compartilhada – é correlativa da desnaturação e instrumentados objetos, que se tornam nossa memória.
O carretel do neto do Freud é esse objeto indiferente que anima
mado pela memória do que nunca existiu (o que faltaria à mãe)
e sentido – porque nunca existiu -, precisa do reconhecimento
o para que seja autorizado como um representante. O carretel
ode ser resto de uma operação nunca concluída (materializar o
aria ao desejo), quanto pode representar a mãe, ou mesmo a
Que a criança emita fonemas na sua atividade, indica que dea um Outro o reconhecimento daquilo que ele representa (nos
ntidos, como ativo e passivo). Paradoxalmente, no jogo ele pode
utor de uma falta que o precedeu e da qual ele veio a constituirobjeto substitutivo.
É desta forma que nos fazemos autores da falta de nossos pais
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
COSTA, A. M. M. da. Será que virtua
e que nos sentimos responsáveis, cúmplices e irremediavelme
pados, na medida em que nossa presença a criou, a materiali
sua própria memória. Por isso, não podemos deixar de repe
memória, porque é a única garantia de representação que temo
tarde o carretel vira livro, quadro, carro ou qualquer outro prod
tural. E, como no jogo do carretel, cada vez que criamos esse
nós o perdemos.
Desta forma, a ficção que anima os momentos de pas
precisa tanto do suporte do semelhante, quanto da inscrição d
no real, que a escrita e a criação de objetos suportam na sua
ção. É bem verdade que essa “passagem” pode se tornar infinita
um navegador solitário da internet que não arrisca colocar em a
outros, a ficção que o sustenta. No entanto, se, individualmente
sível estabelecer-se essa espécie de fixidez, isso não se man
andar das gerações, onde, necessariamente, se opera a castraçã
sar das nossas loucuras individuais). Por todas essas conside
pode-se dizer que a ficção não se reduz à virtualidade. Esta últim
mais do lado do carretel do nosso tempo, que vamos tentar à ex
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
PEREIRA, R. de F. Essa intimidade tão e
acassar, para poder criar algum outro.
ESSA INTIMIDADE TÃO ESTRANHA
Robson de Freitas Pereira
exo, autômatos e virtualidade. Nossa cultura está enredada
nestes tópicos há bastante tempo. Para circunscrevermos um
pouco e nos atermos às investigações psicanalíticas, talvez posafirmar – junto com eminentes economistas e historiadores –
sde a primeira revolução industrial, as máquinas vêm alterando
ano do trabalho e do restante da vida das pessoas.
O aperfeiçoamento tecnológico tem possibilitado que o trabalho
o repetitivo venha sendo substituído rapidamente. Os primeiros
ndustriais e as máquinas agrícolas podem estar incluídos nos
ios desta “mecanização”, inicialmente nomeada, e automatidas funções, como estamos acostumados, atualmente, a lidar
te significante.
A literatura de ficção foi uma das artes a denunciar as conseqüênestas transformações tecnológicas, funcionando como um
onto crítico à nossa ingenuidade e sedução ao discurso da cisuas promessas. É só nos lembrarmos que HG Wells editou “A
a do tempo”, na mesma época em que Freud e Breuer publicaus “Escritos sobre histeria”.
A psicanálise nasce neste século, em que a automação, efeito
nço da ciência, assume velocidade jamais vista. O cinema, conâneo da psicanálise, também se ocupou desde cedo a desvas promessas de que nosso mal-estar poderia terminar na mesocidade do avanço tecnológico. Ao final do século vinte, um filmo “Metrópolis”, de Fritz Lang, ainda cobra sua atualidade.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
Não só pelo vaticínio de que, num futuro distante, a divisã
os mestres e os escravos estaria cada vez mais acentuada, m
particularidade de que a libertação dos escravos viria através
criatura, um autômato: “Maria”. Mulher de corpo perfeito, esta a
criada pelo Dr. Rotwang, para aliviar a vida dos trabalhadore
transforma-se em fonte de mais angústia e agitação das mas
cena do clube onde ela se desnuda e enlouquece a platéia é anto
O estranho que nós amamos
A materialização de “Maria” no cinema, nos endereçou a
encontro com outra andróide importante para a psicanálise: “O
Este era o nome do autômato por quem o jovem Nataniel fica p
mente apaixonado. Primeiro, porque a viu através de binóculos
mas – que remetiam à sua lembrança infantil; depois, porque
guiu dançar e “conversar intimamente” com aquela que seria a
nação de sua “alma gêmea”. Estamos nos referindo aos perso
da novela de E.T. A. Hoffman, “O homem da areia”, da qual F
utilizou para realizar o conceito de “das unheimliche”. Este es
“siniestro”, “uncanny”, para citar algumas tentativas de tradução
estranha intimidade que nos causam algumas situações ou o
Lacan chegou a cunhar um neologismo: “extimidade”, para tenta
ximar-se da conceitualização freudiana.
O surgimento do autômato na novela fantástica é toma
Freud como um elemento quase secundário dentro da situaçã
Afinal, o que estava interessando, naquele momento, era en
formas nas quais a literatura apresentava o conceito que Freud
va articular, depois de haver feito uma pesquisa lingüística da
exaustivas para aproximar os conceitos de “heimlich” e “unheim
inquietante estranheza indicava que algo familiar retornava,
recalcado e seu retorno.
Entretanto, o conceito freudiano forjado em sua articulaç
a literatura também nos mostra como, para o sujeito atual, as re
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O TEMÁTICA
olhar, o autômato e a ficção estão articuladas na sua relação
tecnologia moderna.
Base da estrutura do eu do sujeito, a relação ao outro, em sua
a de alienação/separação, aponta alguns importantes elemena lidarmos com a hegemonia da virtualidade nos tempos moderomo se pudéssemos afirmar que, exatamente por fazer parte da
constituição subjetiva, a relação especular assume tanta imporem nossa cultura. Uma hegemonia diferente daquela que a técretrato na pintura nos mostrou ao legar aos nossos olhos os
do individualismo1. Os outros são nossos espelhos particulares
am aquilo que nos falta.
Então, como não ficarmos fascinados com um objeto/fetiche que
omete perfeição e total autonomia do mal-estar que nos aflige
amente? Ainda mais quando a imagem que ele nos oferece é
corpo, fruto da mais avançada tecnologia, aquela que realiza
sonho de materializar “A mulher”. Além das novas próteses mitem implantes, transplantes e indagações, a respeito de como
nomear estes avanços da medicina que protelam nosso enconm a morte2 -, temos a perspectiva de poder gozar com o corpo
. Além de conseguir superar a angústia causada pela prótese,
s a promessa de gozar com esta limitação, incorporando o obficial ao nosso ideal de perfeição. Tecno-fetichismo. Há algum
atrás, o filme “Crash”, dirigido por David Cronenberg, abordou
mática3.
PEREIRA, R. de F. Essa intimidade tão e
Talvez seja esta uma das promessas que estão coloca
horizonte de nossa atual relação com os desdobramentos da info
e da biotecnologia. Pela ameaça de terminar com a falta, o
torna-se angustiante (no melhor dos casos). Por isto, nos pre
mos tanto com as questões morais e éticas que eles levantam
disto, porque nossa primeira interrogação, mesmo frente a uma
na com uma telinha de algumas polegadas, é sobre o gozo a q
não temos acesso.
Na atualidade, a interrogação torna-se mais premente, u
que só temos nossa existência para dar conta de nosso valor
co. Um valor que cada vez mais foi-se constituindo através da h
nia do olhar , em detrimento de outras funções (lembremo-nos d
fazendo alusão a diminuição do olfato, por exemplo). Assim, nã
cil perceber o quanto podemos ficar, freqüentemente, à mercê
fronto entre as previsões mais desastrosas versus a utopia de X
Porém, talvez seja mesmo em função deste real, ao qual te
inscrever seu litoral, que possamos articular algumas coisas ma
síveis como o correio eletrônico, “home-pages” e alguns “chats
aiores detalhes sobre as origens do retrato e mesmo da figuração feminina, ver
Schneider, “A arte do retrato – obras-primas da pintura retratista européia – 1420d. Taschen, 1997.
amos esta relação dos órgãos artificiais e da cultura do consumo em um texto
“Retratos eloqüentes sobre o corpo e outros objetos”, proferido por ocasião do
Extensão “Psicanálise e colonização – leituras do sintoma social no Brasil”.
ura Frost , “Circuits of desire – techno fetishism and millennial technologies of
in Artbyte, feb.-mar. 1999, USA.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
KASPRZAK, R. G. e WASSERMANN, M. T.
“rolar” até som e imagem.
NAS TELAS DOS NOVOS TEMPOS1
Roselene Gurski Kasprzak
Maria Teresa Wassermann
“ (...) Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio
anormal e descobrisse de alguma maneira sua condição
de simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem (.....) com alívio, com humilhação,
com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”.
(Ruínas Circulares – Jorge Luis Borges)
49. Filme: “Nunca te vi sempre te amei”. Cenário: Nova York e
ondres do pós-guerra. Enredo: escritora nova-iorquina em busa de livros clássicos e antigos começa a se corresponder com
tradicional de Londres. Do gosto comum pelos livros, sem nunerem, constróem uma relação amorosa (virtual), através de carritas ao longo de mais de uma década.
1998. Filme: “Mens@gem para você”. Cenário: Nova York. Enois livreiros, ela dona de uma tradicional livraria infantil, preocuom a formação e o gosto literário das crianças. Ele, herdeiro de
de de “lojas de livros”, ocupado com os lucros de seu negócio.
absolutos no trabalho, conhecem-se pela Internet através de
e apaixonam-se pelas imagens (virtuais) um do outro.
Tempos distintos, meios de comunicação paradigmáticos d
época e uma mesma história: relação amorosa construída a p
conversas imaginárias, sem contato visual, só contato virtual. In
tecida nas malhas dos restos de ideais próprios, projetados ta
“escrevedores” de cartas como nos parceiros de navegação. P
tamos: o que, afinal, muda nas interações, com o advento das
tecnologias? Qual é o impacto dos novos meios de comunica
estruturação das trocas amorosas e sociais do humano?
Já de princípio parece-nos que nossos piores temores ap
ticos, erigidos em meio à ascensão das mal-assombradas
tecnologias, carecem de originalidade. No Fedro de Platão,
quanto, na história da humanidade, toda modificação dos instru
de transmissão e comunicação social detonou crises e amea
modelo cultural precedente. O filósofo ateniense, por exemplo,
va que a escrita traria o aprendizado mecânico e a reminiscê
lugar do pensamento, afetando a dialética verdadeira e a ind
viva da verdade, presentes no discurso e na conversação. Par
não reconhece do que estamos falando, nos referimos à ameaç
escrita trouxe à narrativa oral e à memória, na época de seu surg
Estranho para nós que, muitas vezes, ao profanar os novos
sacralizamos a escrita e a leitura, comungando do que McLuh
nomina “monopólio do livro”: a imposição da palavra impress
cultura séria em detrimento de outros meios de transmissão c
Vê-se, então, que o desenvolvimento de meios novos de comu
não é privilégio do mundo contemporâneo, como também não o
profecias a respeito de uma outra (des) ordem que deles seria
rente.
Entretanto, certo é que não temos mais como desprezar a
2
roduzido a partir de discussões do Núcleo de Pesquisa em Mídia – Fabico/
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
MCLUHAN, M. Visão, som e fúria. In: LIMA, L.C.(org). Teoria da cultura de mas
janeiro, Paz e Terra, 1990.
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O TEMÁTICA
oliferação de novos meios e sua repercussão no estilo atual de
sociais. Desde o advento do rádio e da televisão, passando pelo
ador e, mais recentemente, pela Internet, muitas são as muque vêm ocorrendo na forma do homem perceber e interagir
mundo que o cerca.
Mas, se por um lado, não há como ignorar a natureza dos fenôcontemporâneos, tais como as denominadas comunidades virou “chats”; por outro, não podemos esquecer, como aponta
do Calligaris3, que apesar das diferentes épocas oferecerem
tecnologicamente inéditos de comunicação, os mesmos não
de constituir belas telas projetivas, onde, apesar das “ameaprojeção sempre continua”...
Ainda assim retorna a questão: haveria uma especificidade nas
ões virtuais? Qual a diferença, por exemplo, entre os “chats” da
e os adeptos das trocas de cartas em tempos mais remotos?
omo pregam alguns, que tornamo-nos mais diretos, mais objembém por obra das novas tecnologias de comunicação? Estaríealmente perdendo a profundidade do Desejo para a instantaneiobjetificação?
Comecemos reconhecendo que as novas mídias ou novas
gias funcionam como promotoras das necessidades e desejos,
ndo, sim, no mesmo ritmo da instantaneidade que propõem, a
do encontro com o objeto que nos completaria. Mas, afora a
ade”, sabemos que essa é uma questão humana por excelêne não esperou as novas tecnologias para se fazer presente.
negável, também, é o fato do paradigma pós-moderno legar ao
contemporâneo novas concepções de tempo e de espaço.
mos, atualmente, uma noção pontual sobre o tempo, na qual o
KASPRZAK, R. G. e WASSERMANN, M. T.
presente, o agora, é o que rege nossa vida relacional. Quanto a
ço, criam-se novas referências. As salas virtuais de conversa
“chats”, simulam lugares reais, seguindo uma dinâmica própr
quais as pessoas interagem na mesma rapidez do meio, se liga
desligam na fugacidade dos “clicks”. É através de algumas des
ções inéditas, de distância e de lugar, que experimentamos um
pequeno demais para a velocidade dos “clicks” e grande demais
geografia que sobra na onda da virtualidade.
Nesta perspectiva, arriscamos sugerir que o lugar no ciber
não possui identidade, pois não apresenta constância nos traço
definem, constituindo-se apenas pela fugaz relação que os ind
mantém com ele. Além disso, não pode ser caraterizado como
cente a algum domínio, já que é todo lugar e lugar nenhum ao
tempo. Noção que o antropólogo Marc Augé4 trabalha através
ceito de “não-lugar”.
Admitamos, ainda com relação à noção de tempo, que re
te nos tornamos mais instantâneos, com certeza mais superfic
rastro do fast-food vieram vários outros “fast”; “fast-narrativas
relação”, “fast-transa”... Neste sentido especulamos junto com
lard5, se a comunicação nestes meios não acaba, realmente, re
à sua função fática, quer dizer, o contato pelo contato.
Acerca disso, uma especificidade importante de elencar
mato dos diálogos virtuais é a padronização semântica nas con
dos navegadores. Para os iniciados na “rede”, existe à disposiç
lista de palavras e expressões previamente produzidas. Esta
composta por uma série de ícones, ou seja, símbolos que fun
como representantes das emoções do navegador. Além dos íc
4
, C. et alli. A televisão pode ameaçar o cinema, mas a projeção continua.
Educa-se uma criança? Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
AUGÉ, Marc. Não lugares – Introdução a uma antropologia da supermodernida
pinas/São Paulo, Papirus, 1994.
5
BAUDRILLARD, Jean. A tela total: mito-ironias da era do virtual e da image
Alegre, Sulina, 1997.
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O TEMÁTICA
é formado por um vocabulário de abreviaturas que, apesar de
o, quer dizer, não dispensar a linguagem comum, coloca os
dores de primeira viagem em uma situação no mínimo inusitao que não é exatamente corriqueiro ser convidado para um “TC”.
novos formatos parecem operar uma espécie de economia do
não deixando muito espaço para aquilo que Pirandello chama
air da língua o individual, isto é, precisamente o estilo”, segunlembra Ana Costa6.
Todavia, mesmo considerando essas várias particularidades,
mos que o ambiente de encontros virtuais não deixa de ser mais
ersão (pós-moderna) da tão humana necessidade de interagir
semelhantes. Logicamente, uma versão que traz peculiaridaativas às suas nuanças tecnológicas e linguagem própria, mas,
ssim, um meio de comunicação que, apesar das inovações no
, não produz o abandono das concessões que, via de regra, o
o faz à socialização.
Segundo Sérgio Porto7, em pesquisa recente sobre “Sexo, afeto
ecnológica”, os papéis sociais, mesmo neste pretenso meio deco, estão bem definidos, com toda uma normatividade regrando
ações de cada categoria. Os canais são perfilados por critérios
mo idade, sexo, interesses comuns, localidade. Existem os cahomossexuais, de amizade, de sexo, de intelectuais. Quer dicomunidades virtuais que se formam no ciberespaço comuns mesmas necessidades das comunidades ditas “reais”.
Aqui, vale lembrar a chamada de uma reportagem recente de
de grande circulação na cidade, na qual constava: “Paqueras
mputador e amigos que só se conhecem por pseudônimos con-
A ficção do si mesmo – Interpretação e ato em psicanálise. Rio de Janeiro,
hia de Freud, 1998.
Sérgio D. et alli. Pesquisa “Sexo, afeto e era tecnológica: um estudo sobre os
rasília, UnB, [1999].
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
KASPRZAK, R. G. e WASSERMANN, M. T.
gestionam a Internet com desejos”. Parece que ainda que recla
da fugacidade e da superficialidade dos contatos virtuais, ale
por exemplo, a aparente possibilidade do objeto de encanto de
cer a qualquer momento, “na velocidade de um click”, o que, d
produz a referida evanescência é mais o deslizamento próprio
ologia” do desejo humano, para o qual o meio cibernético não
do que uma âncora. Vemos que apesar das críticas veementes
especulações acerca do perigo dos “internautas substituírem a
de por idealizações” (Zero-Hora, 29/05/1999), os sujeitos, mes
contemporâneos, seguem buscando meios que os coloqu
interação com seus semelhantes. Demonstrando o que Lacan
minava a “natureza” do homem: sua relação com outros home
Quanto à veracidade ou profundidade destas interações,
mos que não se pode “medi-las” a partir dos sentidos (visual
vo....) em questão na forma de contato. Lembremos que, quando
em 1921, definiu a identificação como “a mais remota expressão
laço emocional”, não determinou que seu meio teria que nece
mente ser o “visual”. O que teorizou acerca da identificação não
excluir a possibilidade da mesma se estabelecer a partir de u
escutado, de uma emoção, de um estilo de conversação... Pelo
rio, o importante na formação de um laço amoroso, ainda s
Freud, é que exista “a percepção de uma qualidade comum par
com o semelhante em questão. Ora, sabemos que essa perc
por mais que tenha a visão como suporte, é sempre de naturez
al, ou seja, trata-se sempre de um recorte muito particular do
sobre o real, apesar da incansável insistência humana em p
8
LACAN,J. Mais além do princípio da realidade (1936). In: _____. Escritos.
ro, Zahar,1998, p. 91.
9
FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: _____. Obras Co
Rio de Janeiro, Imago,1980.
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O TEMÁTICA
JERUSALINSKY, A. O ciberfalante e o ato a
O CIBERFALANTE E O ATO ANALÍTICO
Parece-nos que as críticas aos novos meios carregam uma ese crença numa realidade factual das interações, na qual a preísica e o contato, pela via do olhar, viriam garantir uma “relação
rdadeira)” em oposição à “falsidade” das relações virtuais. Opoomplicada no terreno das interações pessoais, posto que o caccional da estruturação humana e a natureza polissêmica da
em situam a busca do encontro “real e transparente” das relaa ordem do impossível. Compreensão essa que sublinha o
l como o que melhor define a “natureza” do homem. Como bem
a Lacan10, é só a partir da ordem definida pelo muro da linguae o imaginário toma sua “falsa” realidade, que contudo é a únidade a que temos acesso.
Portanto, mesmo que se verifiquem especificidades nas interaociais atuais, não se pode responsabilizar os novos meios pela
a de um caráter factual das relações, ou eventualmente, pelos
endidos que delas advém. Mas, importa, na esteira dessa disrelativizar a resistência a estes (novos) meios, a bem de que
ixemos que o saudosismo de outros tempos, nos ensurdeça
Seminário 2. Rio de Janeiro, Zahar, 1985.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
Alfredo Jerusalinsky
F
az exatamente cem anos que Sigmund Freud desenhou
meira topologia do aparelho psíquico. No capítulo “Ps
dos processos oníricos”1, propôs um esquema que rec
apelido de pente pela sua aparência:
Com um pólo de entrada - o perceptivo - e um de saída -, ele permite compreender a dinâmica do sonhar: a carga m
perceptivo descarrega - inibe - o motor. Tal é o fundamento da
entre o sonho e o descanso. Trata-se da substituição do trabalh
cular pelo trabalho ideatório do inconsciente: a perlaboração
comandada pelo desejo.
A invenção do divã, como parte do dispositivo psicanalí
conhece esse fundamento: inibir a manifestação motriz para fa
livre curso da palavra. Acrescenta-se, mais tarde, o argumento
cessária quebra da identificação, mediante a suspensão do olh
colocar a palavra fora do alcance da restrição especular de se
do, devolvendo-lhe sua máxima abertura de polivalência semâ
1
Cap. VII da Interpretação dos sonhos - 1899.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O TEMÁTICA
Quando aparece, no fim do milênio, a palavra dançando livreno palco da informática, totalmente desvencilhada do corpo, por
rada da escravidão da voz ou do movimento caligráfico dos detônoma da presença dos interlocutores, independente de todo
e distância real, pareceria ter-se realizado o ideal da psicanálim nenhum lastro motor, sem outro tempo senão o tempo lógico
urso, sem outra imagem que não a do semblante do fantasma
o pelo sujeito em questão, a palavra alí, na tela do computador,
tamente solta, se oferecendo nuazinha ao idílio com o psicananfim sós.
Porém, mais uma vez as aparências enganam. Qual seria a efia palavra numa tal posição? É óbvio que, para o “analisante
tico” se furtar às conseqüências da interpretação, seria uma
uestão de clicar um enter para passar para um software menos
tido (mais soft). A presença do outro, por ser meramente virtual
ária), pode ser administrada de modo imediato na posição que
onvier, ou seja, dificilmente a que corresponde à verdade do
De fato, a comunicação pode ser suspensa a cada instante. A
ação eventual, que se pode derivar de um texto, se insere num
o onde a presença real que o alteriza não comparece, o que
amortecer a palavra dissociando-a do ato. Dito de outro modo,
corpo que suporte as conseqüências do que se diz, nem que
espaço hipotético da transferência. Não há risco do desejo que
expressa vir a se tornar realização. Em todo caso, esse risco,
trado à distância, depende de uma escolha subjetiva que advém
gundo momento.
Tal é a diferença entre a comunicação virtual e o ato psicanalítiblinhamos, aqui, o valor comunicacional do espaço virtual criado
cnologia eletrônica, precisamente porque nele o valor relacional
vra, enquanto laço de amarração ao Outro, fica notoriamente
cido. Curiosamente, a expansão, sem dúvida fabulosa, do es-
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
JERUSALINSKY, A. O ciberfalante e o ato a
paço comunicacional, gera a sensação de facilitar a relação com
tro, enquanto instala o sujeito na mais intensa disposição inibi
“ciberfalante” fica, assim, sem advertências, produzindo seu t
menos que seja para se corresponder ou publicar -, destinado a
internético” (vale aqui a escansão: intern-ético, ou seja uma ét
ramente interna, o que constitui um contrasenso), vale dizer, co
num devaneio.
Por sua vez, o hipotético “psicanalista cibernético” ficaria
tar um devaneio inscrito numa tela sem corpo, ou seja, sem r
suporte as conseqüências de sua própria enunciação. Qual se
tão o destino de sua intervenção?
O fato de que os analistas não tenham estabelecido um
intervenção clínica, evidentemente, não se deve a uma posiçã
servadora, nem a uma ideologia contrária à informática. De fato
nos valemos dela para ampliar nossa comunicação. Mas reco
mos a diferença que faz a palavra do ciberespaço, daquela qu
no espaço real. No fim das contas, é nosso trabalho evidenci
pequena diferença entre o imaginário e o simbólico.
Com efeito, que o corpo é para o sujeito o que suporta as
qüências de uma relação com o Outro, moldada pela linguag
que constitui o valor simbólico da palavra. Por fim, é o que co
fundamento de qualquer saber. O resto é mera comunicação.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O DEBATES
s narrativas e marcas singulares que certamente se inscrevem
as” dos novos tempos.
ENTREVISTA: MARIA CRISTINA KUPFER
m julho deverá ser lançada a Revista da APPOA nº16, versando sobre “Psicanálise e Educação: a TransMissão Possível”.
Em função disso e aproveitando a recente presença de Maria
Kupfer no estado - referência nacional neste tema - a comispublicações realizou a entrevista que sintetizamos a seguir.
APPOA: Como surgiram os campos da psicanálise e da educatua experiência?
KUPFER: Em 74, éramos um grupo de 100 psicólogos da prefeim nenhuma preparação, instrumental de trabalho. Então, escuedido dos educadores: “precisamos da psicologia”. Entendi que
uma psicologia que fosse aos confins do inconsciente, portanto
nálise.
Eu comecei a estudar psicanálise, só que já cruzei direto com
E aí eu já fiquei ouvindo as recusas do encontro entre psicanáducação. Não sei por que insisti, porque o que eu escutava era
cusa radical, um impedimento. Tinha alguns trabalhos que não
e lacanianos. Sara Paín, Izabel Isuriaga, leituras psicanalíticas
blemas de aprendizagem super interessantes, mas kleinianas.
ando comecei a escutar os psicanalistas lacanianos, o pessoal
ioteca Freudiana de São Paulo, ligada ao Campo Freudiano,
na, eu só escutei recusa.
Luis Carlos Nogueira, um pioneiro da psicanálise lacaniana, que
e não discute a psicanálise em extensão, topava discutir estas
ções entre psicanálise e educação. As leituras você podia faluminação da psicanálise sobre o campo da educação, Freud
ito isso com textos da literatura, você pode fazer articulações
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
ENTREVISTA: Maria Cristina
psicanálise-cultura (mas numa perspectiva muito diferente daqu
eu vejo vocês fazendo aqui). Esta idéia de iluminação é uma idé
pletamente anti-psicanalítica, é extremamente racionalista, tem
a educação, a psicanálise vem, ilumina, e dá a ver mais. Era es
que Mannoni, inclusive, divulgava. Só que o que se observa é
prática ela fez muito mais Psicanálise e Educação do que dec
Mas, enfim, eu usei esta idéia. Fiz leituras da relação professo
no mestrado, depois leitura do desejo de saber no doutorado
que esse já era um título não permitido, porque também topei
formulações lacanianas, segundo as quais, ou você fala em des
em saber. O desejo é o desejo de nada saber, é desejo de sabe
o desejo. Desejo de saber, não. O desejo está em relação op
antinômica em relação ao saber. Trabalhei, ainda assim, com es
no doutorado, sempre na iluminação. E me mantive nesta posi
que se trata de uma iluminação, até há pouco tempo. A Millot
a munição para esta argumentação de que só podemos traba
dimensão da iluminação, da clareagem.
Neste percurso cruzei com o trabalho com psicose e aut
APPOA: Esta questão não aparecia na época em que tu e
nas escolas?
KUPFER: Nós não esbarrávamos com estas crianças
elas não estavam na escola. Isto é impressionante, não sei on
estavam, estavam trancadas em casa. Recebia no consultório
ças com problemas de aprendizagem, de repente eram crianç
mais comprometidas. Sentindo muitas dificuldades com este
clínica, começamos um trabalho institucional. Mas logo em seg
que aconteceu? Logo que nós começamos veio um casal de p
nos disse: “Ah, mas o que nós queríamos mesmo era uma es
para o nosso filho!”. De início a pergunta era: “o que estes pais
com uma escola para uma criança que não fala?” Aí fomos ven
fazia todo sentido do mundo. Um pouco depois, nós introduzi
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
DEBATES
des educacionais no grupo de crianças psicóticas e autistas.
momento, todo aquele trabalho que vinha acontecendo, que eram
, começou a ganhar um solo clínico, um sentido. Os estudos
s sobre psicanálise e educação passaram a ser orientados por
ática clínica.
APPOA: Que respaldo vocês encontraram no campo psicanalítia desenvolver este trabalho?
KUPFER: Nenhum (risos). Esqueci de dizer que foi muito imporeste trabalho com psicose e autismo que, logo que começou,
fomos para a Universidade. Ao irmos para a USP, ganhamos
ntorno institucional que, longe de ter sido um entrave, foi um
onador, lá se permite que a gente faça o que quer. Eu acho que
realidade da USP, não sei como seria em outra universidade.
o tínhamos, no começo, um reconhecimento das instituições
líticas e isso foi mudando no decorrer do trabalho. Foi muito
sante, porque, justamente, o que passou a contar foi o que estado montado, os atendimentos, estas crianças voltarem para a
A gente começou a publicar. Teve um momento em que fui
da no “Campo” para um seminário clínico, falei como trabalháem grupo, com atividades educacionais nossas referências ni e Dolto - devidamente criticadas no que têm que ser criticadas.
escutaram muito bem.
APPOA: E do lado da educação, como fica? Não permanece um
de recobrimento das suas falhas por uma psicologização?
KUPFER: Quando os educadores demandam, por mais que vea demanda imaginária, se eles vêm me pedir uma coisa, lhes
ra, mas que venham. E vêm. No Lugar de Vida os cursos lotam,
0 pessoas, 200. Então, eu não posso recuar. Eles estão me
o isso, que eu venha recobrir. E eu posso usar esta mesma
lise para ajudá-los a ver este buraco, tentar dar conta dele e
que não é com a psicologia que eles vão sair da enrascada em
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
ENTREVISTA: Maria Cristina
que a educação se encontra.
Devemos falar como começamos a articular este educ
com o terapêutico. Nosso trabalho foi tentar fundamentar esta a
ção que nós denominamos de educação terapêutica. Aos pou
mos vendo que fazer isso era uma forma de preparar estas c
para a volta à escola, ou para a ida. E aí, nesse meio de ca
começou toda uma reflexão em torno do que produziria para u
ança a designação de um lugar numa certa cadeia, no discurs
lar. Que efeitos subjetivantes poderiam se produzir? E a gente v
lugar da criança escolar é extremamente estruturante. A quest
era aprender, mas ir à escola, circular na escola, botar uma lan
carregar uma pasta... Eles, depois, iam para outras escolas, m
adiantava. A professora se desesperava. E aí começou a esc
professores nas classes especiais. E vimos que falar com aque
fessora não era só para receber aquela criança diferente, a ge
que ela queria saber de todas as outras. Foi aí que começou o
com estes professores. Alguns prosseguem nesta mesma de
imaginária, outros se desencantam e outros vêem que a psican
muito complicada, mas ficam.
APPOA: Terias então dois campos, da educação terap
da educação do sujeito...
KUPFER: No começo era o educacional aqui e o terapêu
E a gente começava a ver que esta divisão não se sustentava
Lasnik, Soler, têm falado de “psicanálise invertida”. A psicanális
tida não é outra coisa, senão uma reeducação, no sentido de co
um sujeito, permitir a construção do sujeito. Então, o tratamento
vai propor para uma criança que está completamente desmontad
lugar no simbólico, é uma reeducação. É um tratamento pela
educação, é um conjunto de atividades, tem os atelliers, tem o
histórias, tem a recreação, tem o grupo de pais, tem a escuta in
al, enfim, é um dispositivo de tratamento atravessado pela edu
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O DEBATES
ducação terapêutica.
A construção da escrita implica a construção de um sujeito, numa
rma. Se eu entendo a escrita desta maneira para uma criança
a, aí eu estou educando e, ao mesmo tempo, propiciando a
ção de um sujeito. Mas eu acho que este jeito de pensar a alfaão também serve e é importante para uma classe regular. Ennão estamos mais na educação terapêutica, estamos numa eduque eu tenho que chamar de educação para o sujeito.
APPOA: E o que poderias comentar sobre a psicopedagogia?
KUPFER: Se a proposta fosse, e alguns psicopedagogos peo, uma psicopedagogia psicanalítica, então vou ter que dizer
o, concordar com Millot. Não dá pra fazer a pedagogia comparecomo uma ciência positiva, com métodos, técnicas, objetivos
os de entrada e nos quais o sujeito tem que se enquadrar. Enda de pedagogia analítica. Agora, psicopedagogia é ainda pior,
então eu quero aproximar psicologia de pedagogia e da psicaA psicologia
comparece com seus instrumentos
tamentais, porque a psicologia, mesmo a clínica, tem um comso com sua tradição comportamentalista, ela tem toda uma vicê tem contato com o objeto, pode conhecê-lo. Se você vê como
ala de re-presentação do objeto, você está numa outra posição
Eu não posso pensar num campo teórico construído na articua pedagogia, psicologia e psicanálise.
Agora, às vezes penso que o que o psicopedagogo está pedinma coisa parecida com o que a gente está chamando de educaapêutica. Quer dizer, ele também precisa acionar seus instrude educação e tem que ser capaz, ao mesmo tempo, de escupais, de ter um referencial que o ajude a entender a posição
riança no discurso familiar, no discurso social, no discurso esSó que eu não penso que devamos trabalhar na direção de
va especialidade, o que eu defendo é uma prática articulada. A
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
ENTREVISTA: Maria Cristina
psicopedagogia é uma tentativa de unir duas especialidades nu
Eu tenderia a achar que não é necessário, que não tem que se
tuir novos campos, tem que melhorar as especialidades.
APPOA: Diz-se que Piaget teria explorado a estruturação
nese do sujeito epistêmico e a psicanálise teria exatamente dad
do sujeito desejante. Aí então haveria um problema teórico, d
relação haveria entre este sujeito epistêmico e o sujeito deseja
KUPFER: Eu tendo a pensar o seguinte, que Piaget a
gênese de um sujeito epistêmico, como é que se organiza este
que vem a conhecer. Então, eu primeiro pensaria que não have
continuidade entre sujeito desejante e sujeito epistêmico, que
jeitos de ordem diversas. O sujeito epistêmico está montado n
tividade da biologia e o sujeito desejante está montado na nega
do sujeito da psicanálise. Só que daí você diz que disso deco
não se poderia fazer uma continuidade entre psicanálise e edu
A continuidade não precisa se fazer pela via do sujeito, a contin
se faz por um modo de entender as relações entre psicanálise
ra, por um modo de entender a posição do sujeito no discurs
modo de entender a educação como sendo instrumento privileg
instalação do sujeito. Mas é porque há sujeito desejante que há
aprendente. Como é que se articulam estes dois, a psicanál
tem esta teoria e não é pela via do Piaget que a gente vai che
Estamos falando de campos diferentes, mas as duas coisas se
lam.
APPOA: Falaste da importância que teve para o trabalho de
esta entrada institucional na universidade. Pelo que tu falavas
parecia que a universidade serviu para conter uma resistência d
tuição psicanalítica...
KUPFER: A universidade tem que acolher a diversidade. E
uma grande vantagem em relação à instituição psicanalítica q
isso muitas vezes não consegue trabalhar, o que é um nó, pois a
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O DEBATES
JERUSALINSKY, A. Como era
stá montada na diferença, mas na hora da instituição é o homoque dirige os trabalhos. Por isso, não cabiam outros trabalhos
mpo”. Agora, na universidade cabe, e é isso que possibilita que
alhos avancem. Antes de começar a andar dentro da universiempre ouvi o contrário: na universidade pública há a burocraemperramento, a impossibilidade de trabalho, de produção... E
o estou vendo que é um dos poucos espaços, de produção na
que tem movimento, tem oxigenação, tem troca. Estou num
to de entusiasmo com a universidade. Eu estava lendo outro
omeço de uma conferência do Miller de 81, no instituto de psicoa USP, e aí ele começa a falar o seguinte: que a criação do
mento de psicanálise de Paris VIII, foi um lapso, um efeito dos
entos de 68 e que até hoje se colhem os efeitos disto ter sido um
, e daí pra frente... Ou seja, não cabe a psicanálise na universiPorém, nós sabemos dos esforços inauditos que ele faz para se
lá. Agora, recentemente, o Miller disse que os professores uniios psicanalistas são parasitas das instituições psicanalíticas e,
mo tempo, ele e seus seguidores em SP não param de se espara ancorar suas posições na universidade. Então a questão
tica, é política.
Agora, eu estou descobrindo que é o oposto, a psicanálise indo
universidade está tendo a chance de circular, de fazer o seu
o na cultura, de sair um pouco das instituições psicanalíticas,
e elas não devam existir, mas se produzir junto com outros disfazer efetivamente uma produção em pesquisa. Vocês consescrever e fazer algo parecido com uma tese fora da universidapra fazer artigos, quem já tem um grande percurso até consecrever um livro, mas a chance para muitos são os mestrados e
ados.
Entrevista concedida a
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
Carlos Kessler, Mário Fleig e Analice Palo
Transcrição de Ana Laura Giongo
Edição de Carlos Kessler
COMO ERA BELA A VIDA EM DENVER...
Alfredo Jerusalinsky
Q
uando Roberto Begnini declarou que queria fazer a
espaço sideral com todos os implicados no outorgame
Oscar, um raro incômodo tomou conta da platéia mun
alarme de estar sendo cometido um equívoco ofuscou por um
a brancura do sorriso dos convidados. Até a veterana hostess
mento - Sofia Loren - congelou (o que, convenhamos, é o mais
vável de sua figura farta). Mas, imediatamente, todo mundo s
acomodando a desfaçatez de Begnini à série do espalhafato pró
idiossincrasia italiana. Afinal de contas essa personagem form
da galeria familiar americana sob a forma de um imigrante si
que se alimenta de macarrão. Alí, deu para continuar rindo. Que
não passou de um susto! Podemos todos continuar no mesmo e
Qual engano? O do filme que se acabou de premiar. Esse
no que surpreende o divertido garçom, quando percebe que o
nazista não conhece a diferença entre o jogo e a vida. O mes
emerge quando, num compreensível desespero, o pai pretende
ger seu filho mediante a construção duma bolha de fantasia, re
do a percepção do real. Aquele do final: “Nos divertimos como l
onde, precisamente, o “como loucos” revela, apesar do diretor,
que se tem a pagar quando se dissolve a fronteira entre a brinca
a tragédia. Todos ficam “como loucos”. E, certamente, é muito
vável que se divirtam. Apesar do diretor acreditar que, ainda a
vida continua sendo bela.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O DEBATES
Que a criança seja levada a acreditar que as significações do
cebe podem ignorar o contraste entre o imaginário e o real, isso
uz, inexoravelmente, ao terreno do delírio social. Bastará ela
à adolescência, tempo em que normalmente o jovem é chamaoduzir seu ato, para que se revele em toda a sua virulência o
a ilusão de poder criar nossos filhos num mundo feliz, apesar
Com efeito, algumas semanas depois, Hollywood teve a triste
de perceber o que havia premiado. Eric Harris (17) e Dylan
(18) demonstraram nos subúrbios de Denver, Colorado, com
s e balas, as conseqüências de formar nossas crianças acredique podemos enganá-las. Educá-las nessa estranha suposição
tudo o que se diz e acontece em volta não tem conseqüência
ma para elas.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
O pior não é que Begnini exerça sua
simpática loucura. O mais dramático é que
os principais produtores da novela ocidental
- que hoje se faz sob a forma de cinema - se
iludam pensando que é possivel ocultar de
nossos filhos o mundo que estamos fabricando.
MUNDOS IMAGINADOS
DYSON, Freeman. Mundos imaginados. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. 160 p.
A
o longo da leitura de “Mundos imaginados”, temos a impressão de transitar em uma zona limite entre a ficção científica e uma p
bem fundamentada do futuro da civilização humana. Radio-te
colonização espacial e a criação de novas formas de vida são
dos assuntos abordados pelo autor. Nesta obra, Freeman Dys
físico inglês radicado nos Estados Unidos, elabora uma inter
especulação a respeito dos futuros cenários que podem ser d
dos pelo progresso da ciência e da tecnologia. Produzido a p
uma série de conferências proferidas pelo autor em 1995, o livr
da as relações entre ética, ciência e tecnologia, com base em h
imaginadas ou reais que colocam questões acerca do futuro.
A preocupação de Dyson com questões éticas é consta
rante o escrito. Segundo ele, o progresso na ciência está dest
fazer confusões e trazer miséria ao ser humano, a menos q
acompanhado de progressos na ética. Aponta para as conseqü
da tecnologia presentes na guerra e no aumento da distância ec
ca entre ricos e pobres.
A obra inicia com relatos de fracassos de tecnologias cond
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
ologias. O autor considera este tipo de fracasso tecnológico como
anoso, na medida em que a tecnologia costuma assumir um
de perfeição em seu atravessamento pela ideologia. Uma prode infalibilidade é oferecida ao público, trazendo desconfiança
dindo que o fracasso possa ser tomado como parte de um proprodutor de melhorias e de um possível sucesso futuro. Históriracassos ligados aos dirigíveis, à aviação, à energia nuclear e
nques de gelo ilustram estas idéias. Poderíamos interrogar se
omessa de perfeição, ao invés de ser considerada como produondução ideológica, não seria inerente à própria estrutura do
o científico.
Dyson considera a existência de dois estilos de mudanças ligacriação de novas tecnologias. O primeiro deles, chamado de
ônico”, caracteriza-se por organização e disciplina rígidas. As
ominadas por este estilo demandam enormes quantidades de
o, pois seus projetos são grandes e caros. O segundo, denomie “tolstoiano”, liga-se ao caos e à liberdade criativa. Caracterizaimprovisação, pelos esforços individuais e pela colaboração.
acredita que os empreendimentos tolstoianos serão mais viáfuturo, pois as missões pequenas e baratas terão melhores
s de materialização.
Segundo o autor, a biologia, em particular a genética e a
siologia, dominará o cenário da ciência no século XXI. Na genépossibilidade de compreensão dos programas que controlam o
olvimento dos organismos superiores, que acompanham o
ciamento do genoma humano, poderá levar o homem a reso enigma da origem da vida, conduzindo a sua simulação em
ador e reprodução em laboratório. Dyson traz uma história de
“O Parque dos dinossauros”, para alertar quanto a desastres
surgidos da prática da engenharia genética. A referência a obras
ão científica enriquece o texto ao longo de toda a leitura. Livros
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
de autores deste gênero literário são analisados e associados
ais progressos tecnológicos.
A neurofisiologia progredirá num ritmo mais lento do que a
tica, procurando soluções para problemas ligados à organiza
sistema nervoso central. As mudanças decorrentes desses seto
dem trazer modificações mais profundas para a cultura humana
o computador, que seria o agente de mudanças sociais mais po
dos últimos cinqüenta anos, no entender de Dyson.
A evolução do homem é abordada de acordo com diferen
calas temporais. Partindo de um intervalo de dez anos, o autor
ao infinito. Quanto mais nos afastamos do presente, encontram
rências cada vez menos positivadas e mais especulativas, q
desde a colonização da galáxia pelo homem, até sua prolifera
espécies diferentes e variadas.
O principal interesse desta obra está na reflexão acerca d
tos subjetivos ligados às mudanças tecnológicas e os aspectos
associados a elas. Mesmo que se trate de pura especulação,
de bem fundada na história passada e no momento atual, é inte
te sublinhar o quanto grande parte das previsões de Dyson a
para a exacerbação narcísica e o conseqüente apagamento da
ção. Em determinado trecho, comenta a possibilidade de que se
gida pela primeira vez a igualdade completa entre os status bio
de homens e mulheres. Em outro, chega a cogitar a hipótese d
num futuro longínquo, seja alcançada a imortalidade. Tratam-se d
que revelam explicitamente a promessa de perfeição veiculad
ciência.
Gerson Smiech
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
OCAMENTOS DO FEMININO
ia Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher
na passagem para a modernidade. Rio de Jaago, 1998. 348 p.
a folha de rosto do livro que comprei, por ocasião da noite de autógrafos, leio a dedicatória da autora:
Ângela, obrigada pela leitura! Com
da M. Rita.” Na medida em que vou
ndo na leitura, mais forte fica meu
de tomar esta frase como uma conom a autora e de responder-lhe com
ade: - “Obrigada você, pela enorme contribuição às questões
inino, nas quais estamos de uma forma ou outra implicadas,
nseqüente abertura de possibilidades na escuta clínica e pelo
ão agradável como um chá no fim da tarde.”
Esta segunda obra de Maria Rita Kehl, sobre a posição feminina
diferenciação com a mulher e a feminilidade, não é um livro de
ou literatura e, apesar do rigor de um estudo detalhado da obra
na e da pesquisa aprofundada sobre o estilo narrativo de Flaubert,
rde a leveza de um romance e mantém a curiosidade sobre os
omo um bom livro de história.
O primeiro capítulo busca encontrar, através das produções
vas da burguesia no século XIX, o que constituía o campo imadas mulheres naquele período. A autora questiona o conceito
ureza feminina eterna e universal”, que se contrapõe nesta époas exigências da nova racionalidade burguesa, que convocava
tos a se lançarem em trajetórias individuais de liberdade, avenconquistas. É na literatura que a mulher da época encontra
o para o conflito que vivia entre ser a “Rainha do Lar” ou “tornar-
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
se uma outra”, como convocavam os novos ideais da moder
Para isso, a autora passa pelo exame do conceito de estr
sexuação em Freud e Lacan, situando o vetor da pulsão, do ob
desejo, dos ideais e das identificações, como disponíveis no
simbólico, mas não organizados para cada um dos sujeitos. A
qüência disto está na própria ética da psicanálise, que exige
analista saiba que “homem”, “mulher” e “sujeito” são conceito
dos, contingentes, portanto, mutantes. “Dominar (relativament
sas práticas linguageiras, em vez de sermos inteiramente alien
elas, eis uma possibilidade de cura vislumbrada pela psicaná
caracterização do sujeito moderno, feito pela autora como suje
rótico, é extremamente rica e pertinente a toda reflexão sobre a
nidade, desde o estudo sobre a posição do adolescente como
sentante do enfraquecimento das regras de transmissão famili
definhar das virtudes hereditárias, até a relação conflitante entre
pública e a privada do homem moderno. Kehl percorre um notá
curso de pesquisa para demonstrar que a idéia da feminilida
nos parece tradicional, na verdade, faz parte da história da cons
dos sujeitos modernos e que a histeria, mais do que caract
“mulher moderna”, faz parte da constituição de um sujeito con
a “escrever seu próprio destino, de acordo com sua própria v
(p. 53).
O objetivo do segundo capítulo é a investigação de que
histérica freudiana e, para isso, a autora toma a literatura, e
mente Gustave Flaubert que, com sua obra - o romance “M
Bovary” - marcou a vida de muitas mulheres, de l856 em diant
examina não só o porquê da enorme repercussão desta obra na
em que foi publicada, mas também a relação do autor com sua
seu estilo irônico,que caracterizaria a literatura moderna, numa
va do autor em superar sua própria narrativa, ao mesmo tempo
se revelava o quanto estava identificado a ela. Emma Bovary é
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
Kehl, como o paradigma da mulher freudiana, associando o
eud na época diagnosticou como histeria com o que caractericomo “bovarismo”. No entanto, a autora assinala, no capítulo
julgamento da obra de Flaubert, que” tanto a acusação quanto
sa tratam do autor, narrador e personagens como única voz”,
o conceito de “bovarismo” reflete o próprio desconforto que o
o autor provoca, enquanto implica a sociedade burguesa e a si
na formação dos desejos e ilusões da sua personagem. “A sinade de Flaubert está na obsessão em criar um estilo que dê
perfeitamente, desta tensão entre a palavra e o real, que ele
e ser apenas um desdobramento da tensão entre o imaginário e
rio.”(p.191) Além disso, a ironia de Flaubert é examinada pela
como um modo pelo qual ele toma distância da própria feminilipassado imperfeito usado na narrativa dá a idéia de distância e
nça, mas o “assassinato“ de Emma revela a tentativa frustrada
ção de transcendência do autor. O suicídio de Emma é a desfinal de todas as tentativas desesperadas da personagem em
ra”, isto é, de uma enorme necessidade de mudança subjetiva,
abilizar a realização de desejos, que na época de Flaubert, seriompatíveis com uma posição feminina.
No terceiro capítulo, a autora passa pelos textos freudianos que
da feminilidade. Situa duas grandes indagações de Freud a resas mulheres: “As mulheres têm cura?” ou “O que a psicanálise
ferecer para diminuir a infelicidade cotidiana das mulheres e
-las da inveja que as constitui?” E ainda: “Afinal, o que quer
ulher?” Dos textos de Freud, desde “Estudos sobre a Histeria”
álise Terminável e Interminável”, encontra-se o que caracteripensamento moderno, até a primeira metade do século: as musão “atadas” pela natureza, pela força das representações das
s do corpo materno, enquanto os homens se definem pelo esta“seres de razão”. Neste sentido, “toda mulher em transição para
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
a modernidade seria uma ‘bovarista’, empenhada pela via ima
em ‘tornar-se uma outra’ e, ao mesmo tempo, capturada por um
ção na trama simbólica de completa dependência em relação a
homem poderia desejar dela.” (p.313) Na análise da autora, Fr
monstrou uma progressiva decepção quanto ao destino das m
na sua relação com a feminilidade. Isto ficou revelado na próp
de Freud, como homem de seu tempo, mergulhado nas condiç
produção da moral burguesa, principalmente na sua relação a
com Marta Bernays, que caracterizou-se por fixá-la num “ fim d
semelhante ao que Emma não quis conformar-se. Também na
de Dora, Kehl mostra-nos um Freud que não quis escutar o q
paciente procurava na Sra. K: não uma realização de suas tend
bissexuais, mas alguém que lhe mostrasse o caminho de “co
mulher?” “Freud não podia ter se dado conta da magnitude d
mento social que alimentava a crise vivida por suas histéricas, e
anseios recém-mobilizados pelas condições na Europa dos id
feminilidade que ainda alimentavam o desejo masculino.” (p.33
No último capítulo de seu livro, intitulado “A discutir ain
mulheres tem cura? M. Rita inicia com uma fala anônima, extrem
te ilustrativa de uma certa posição frente à feminilidade: “To
mulheres são chatas. Só que algumas valem a pena...” Isto re
um dos seus argumentos finais desta obra, que aponta a femi
como aquele lugar de mal-estar revelador da impossibilidade d
identidade sexual. Seja do lado do homem ou da mulher, trata
próprio efeito de castração, que em última análise, tem tudo a v
com o “prazer na dor”, como a condição masoquista, mas com “
tar o prazer, apesar dos riscos da dor”, condição do sujeito m
desejante.
Ângela Lângaro
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
JULHO - 1999
Hora
20h30min
16h30min
Local
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
17h30min
Sede da APPOA
20h30min
19h30min
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Atividade
Reunião do Fórum
Seminário “A dimensão trágica da psicanálise” - Responsável: Enéas Costa de Souza
Reunião da Mesa Diretiva
Reunião da Comissão de Biblioteca
Seminário “Novos apontamentos para a
clínica das psicoses” - Responsável: Alfredo
Jerusalinsky
Cartel do Envelhecimento
Reunião da Comissão do Correio da APPOA
Seminário “Memórias...” - Responsáveis: Ana
Maria Medeiros da Costa, Edson Luiz André
de Sousa e Lucia Serrano Pereira
Seminário “A topologia fundamental de
Jacques Lacan” - Responsável: Ligia Víctora
Cartel Brasil 500 anos
Cartel Preparatório para a Jornada de Novembro
Reunião da Mesa Diretiva aberta aos membros da APPOA
Relendo Freud e Conversando sobre a
APPOA - Análise Finita e Infinita
PRÓXIMO NÚMERO
BRASIL 500 ANOS
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
EXPEDIENTE
Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Ale
Rua Olavo Bilac, 786 CEP 90040-310 Porto Alegre - RS
Tel: (051) 333 2140 Fax: (051) 333 7922 e-mail: [email protected].
Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n0 3956
Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda.
Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (051) 3
Comissão do Correio
Coordenação: Maria Ângela Brasil e Robson de Freitas Pereira
Integrantes: Francisco Settineri, Gerson Smiech Pinho, Henriete Karam
Liz Nunes Ramos, Luzimar Stricher, Marcia Helena Ribeiro, Maria Aparecid
Maria Lúcia Müller Stein e Marta Pedó
Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle
in the last decade. London, Hogarth, 1992.)
Criação da capa: Flávio Wild - Macchina
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
GESTÃO 1999/2000
Presidência - Alfredo Néstor Jerusalinsky
1a. Vice-Presidência - Lucia Serrano Pereira
2a. Vice-Presidência - Maria Ângela Brasil
1a. Tesouraria - Carlos Henrique Kessler
2a. Tesoureira - Simone Moschen Rickes
1o. Secretário - Jaime Alberto Betts
2a.Secretária - Marta Pedó
MESA DIRETIVA
Ana Maria Gageiro, Ana Maria Medeiros da Costa, Ana Marta Goelzer M
Cristian Giles, Edson Luiz André de Sousa,Gladys Wechsler Carnos
Ieda Prates da Silva, Ligia Gomes Víctora, Liz Nunes Ramos,
Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Mario Fleig, Robson de Freitas Pere
e Valéria Machado Rilho.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 70, julho 1999
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EDITORIAL Oencontro anual “Relendo Freud e Conversando sobre