UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Luís Fernando Lopes POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA DE PROFESSORES NO ESTADO DO PARANÁ CURITIBA 2011 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ Luís Fernando Lopes POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA DE PROFESSORES NO ESTADO DO PARANÁ Dissertação apresentada à banca examinadora do Programa de Pós-Graduação Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Prof.ª Dra. Maria de Fátima Rodrigues Pereira. CURITIBA 2011 Dedico... À minha amada esposa Cidinha, que me acompanhou e incentivou durante toda essa jornada. Ao meu querido pai pelos valores ensinados. À minha mãe, que já partiu, mas que sempre me incentivou a estudar. AGRADECIMENTOS À professora Dra. Maria de Fátima Rodrigues Pereira, pelas orientações e toda a ajuda e apoio. Ao professor Dr. Sidney Reinaldo da Silva, pelo grande incentivo. Às professoras Dra. Gláucia da Silva Brito e Dra. Elza Margarida de Mendonça Peixoto, pelas contribuições oferecidas. Aos colegas de turma, por todo o apoio manifestado. Aos professores do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da UTP. Aos professores que colaboraram com essa pesquisa participando das entrevistas. Assim como não se julga o que um indivíduo é a partir do julgamento que ele faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode julgar uma época de transformação a partir de sua própria consciência; ao contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material, a partir do conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. KARL MARX SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 14 1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS PARA O ESTUDO DAS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES .................................................. 22 1.1 A PESQUISA COMO NECESSÁRIA AO DESVELAMENTO DO REAL ............. 22 1.2 MATERIALISMO HISTORICO-DIALÉTICO PARA O ESTUDO DAS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA ............................................................................... 32 1.3 O QUE E O QUEM DA EaD ................................................................................ 36 1.4 POLÍTICA, TRABALHO E EDUCAÇÃO ............................................................. 42 2. PROCESSO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL ............. 47 2.1 A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E SUA RELAÇÃO COM O MODO DE ACUMULAÇÃO ................................................................................................... 50 2.2 A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES E A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL ........................................................................................... 56 2.3 ORGANISMOS INTERNACIONAIS E AS POLÍTICAS DE EXPANSÃO DA EaD ........................................................................................................................... 63 3. AS ENTIDADES DE CLASSE E A EaD NA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES NO ESTADO DO PARANÁ ...................................................................................... 76 3.1 A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO PARANÁ ............................................................................................................. 82 3.2 O PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL – PDE ................... 92 3.3 O QUE DIZEM OS PROFESSORES .................................................................. 97 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 127 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 1333 APÊNDICES ......................................................................................................... 1423 LISTA DE SIGLAS ABED Associação Brasileira de Educação a Distância BM Banco Mundial CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEPAL Comissão Econômica para América Latina e o Caribe CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil DITEC Diretoria de Tecnologia Educacional EaD Educação a Distância FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação GTR Grupo de Trabalho em Rede IES Instituições de Ensino Superior INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IPEA Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC Ministério da Educação MEB Movimento de Educação de Base NIED Núcleo de Informática Aplicada a Educação NRE Núcleo Regional de Educação NTE Núcleo de Tecnologia Educacional OAC Objeto de Aprendizagem Colaborativo OMC Organização Mundial do Comércio PCNs Parâmetros Curriculares Nacionais PDE Programa de Desenvolvimento Educacional PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PROINFO Programa Nacional de Informática na Educação PRD Paraná Digital PUC-RIO Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro QPM Quadro Próprio do Magistério SACIR Sistema de Acompanhamento e Integração em Rede SEB Secretaria de Educação Básica SEED Secretaria de Educação a Distância (extinta) SEED/PR Secretaria Estadual de Educação do Paraná SUED Superintendência da Educação UAB Universidade Aberta do Brasil UEL Universidade Estadual de Londrina UEPG Universidade Estadual de Ponta Grossa UFES Universidade Federal do Espírito Santo UFPR Universidade Federal do Paraná UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul UTFPR Universidade Tecnológica Federal do Paraná UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância UniRede Universidade Virtual Pública do Brasil LISTA DE QUADROS QUADRO 1 – CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO DO PDE...........................................98 QUADRO 2 – ONTOLOGIA.....................................................................................103 QUADRO 3 – GNOSIOLOGIA/EPISTEMOLOGIA...................................................107 QUADRO 4 – EPISTEMOLOGIA/GNOSIOLOGIA...................................................111 QUADRO 5 – DIMENSÃO ÉTICO-POLÍTICA..........................................................115 QUADRO 6 – DIMENSÃO PEDAGÓGICA..............................................................120 RESUMO Esta pesquisa teve como objeto as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná, após a aprovação da LDBEN nº 9.394/96 até 2011. O objetivo geral foi analisar, a partir do referencial teórico marxista (MARX, 1982; MARX e ENGELS, 2007; PINTO, 1979; SEVERINO, 2007; KOSIK, 2000; PEREIRA, 2003; LOMBARDI, 2010), as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná, procurando evidenciar seus fundamentos. Assim, a partir das categorias de análise propostas (ontologia, gnosiologia/epistemologia e as dimensões ético-política e pedagógica), a questão principal que norteou a realização desta pesquisa foi: que princípios, ontológicos, epistemológicos, ético-políticos e pedagógicos fundamentam as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná? Para tanto, foram analisados o documento Educação a Distância da SEED/PR (2010) e o Documento Síntese do Programa de Desenvolvimento Educacional, PDE (2007), realizadas entrevistas com professores participantes desse programa, com um representante do Sindicato dos professores (APP) e um professor que trabalhou na SEED/PR com Grupos de Trabalho em Rede no período de 2007 a 2010. Os resultados apontam a relevância das políticas estudadas e que há contradições entre o que propõem os documentos analisados e o que dizem os professores entrevistados. Constatamos que as políticas de formação continuada de professores no Paraná estão inseridas em um contexto muito complexo, marcado por contradições e luta de classes nas quais as iniciativas para a expansão da formação continuada a distância de professores extrapolam o âmbito estadual e federal, estando orientadas por políticas propostas por organismos mundiais. Na realidade brasileira essas recomendações para o setor educacional mostram-se sendo rigorosamente cumpridas, pois temos políticas que promovem; formação de maior número professores em menor tempo, ampliação da formação com uma redução enorme de custos e a transferência aos professores do ônus da sua formação. Ressaltamos a necessidade da pesquisa, da formação crítica dos professores, do combate a ideologias que provocam a precarização e a desqualificação do trabalho docente. Ao mesmo tempo os resultados dessa pesquisa apontam na direção do trabalho pela garantia de direitos conquistados e pela criação de novas políticas que realmente tragam benefícios aos professores e melhoria real na qualidade da educação pública. Palavras-chave: Políticas. Formação continuada. Educação a Distância. ABSTRACT This research had as its object the professor distance continuing education politics in Paraná State after the approval of the LDBEN nº 9.394/96 until 2011. The general objective was to analyze, from the theoretical reference of the marxist (MARX, 1982; MARX e ENGELS, 2007; PINTO, 1979; SEVERINO, 2007; KOSIK, 2000; PEREIRA, 2003; LOMBARDI, 2010), the professor distance education politics in Paraná State trying to demonstrate its fundamentals. This way, from the categories of analysis proposed (ontology, gnosiology/epistemology and the dimensions of ethical / political and pedagogical), the main question that guided this research was: which axiological, ontological, epistemological, ethical-political and pedagogical principles are the bases of professor distance continuing education politics in Paraná State? To reach this goal, documents such as the Distance Education of SEED/PR (2010) and the Educational Development Program (PDE - 2007) outline document were analyzed, and Interviews with teachers participating in this program, a representative of the Syndicate of Teachers (APP) and a teacher who worked at SEED/PR with Networking Groups in the period 2007 to 2010. The results show the relevance of the policies studied and that there are contradictions between what they proposed and analyzed the documents that tell the teachers interviewed. We note that the policies of continuing education of teachers in Paraná are embedded in a highly complex, marked by contradictions and class struggle in which the initiatives to expand the continuing education teachers go beyond the distance of the state and federal, being guided by policies proposed by international agencies. In Brazil these recommendations to the education sector show is being strictly enforced, because we have policies that promote, training more teachers in less time, expanding the training to a huge reduction in costs and transfer the burden to the teachers of their training. We emphasize the need for research, training of teachers critical of combating ideologies that cause impoverishment and deskilling of teachers' work. At the same time the results of this study point in the direction of the work achieved by ensuring rights and the creation of new policies that really bring benefits to teachers and real improvement in the quality of public education. Keywords: Policies. Continuing Formation. Distance Education. 14 INTRODUÇÃO Esta pesquisa tem como objeto as políticas de formação continuada a distância de professores no estado do Paraná, após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96 até 2011.1 O interesse pelo tema que nos ocupa decorre do trabalho realizado durante três anos, como tutor, em cursos de graduação e pós-graduação a distância, após formação em Filosofia e Teologia realizada em seminário religioso. Para o que nos propomos, convém salientar que a análise das políticas públicas de formação continuada de professores, bem como a pesquisa sobre a Educação a Distância na formação inicial e continuada de professores no Brasil, não pode prescindir de uma compreensão do processo histórico. Nas últimas duas décadas, esse processo fez-se com a reforma do Estado. A finalidade foi o ajustamento ao modelo gerencialista neoliberal, iniciado em outros países nas décadas de 1970 e 1980. Desde o final da década de 1970, o sistema capitalista vem enfrentando uma crise de acumulação. O fordismo e o keynesianismo mostravam-se incapazes de conter as contradições inerentes ao próprio sistema (HARVEY, 1996). Assim, a rigidez na produção passa a ceder espaço a um sistema de acumulação flexível, caracterizado principalmente pela inovação tecnológica, comercial e organizacional. A década de 1980 no Brasil é um período marcado pela presença dos movimentos sociais em que merece destaque o movimento dos educadores. Nesta década se dá o processo de transição democrática que culmina na elaboração da Constituição de 1988. Trata-se de um contexto de grandes contradições, pois, enquanto nos países centrais do capitalismo os direitos já eram objeto de redução, no Brasil eles eram inscritos na Constituição (PEREIRA, 2010b). Na década de 1990, com a ascensão de governos neoliberais, foram promovidas reformas educativas em diversos países, de acordo com recomendações elaboradas por organismos multilaterais como o Banco Mundial, UNESCO, CEPAL, entre outros. O Brasil não foi exceção no contexto dessas reformas que, segundo alguns analistas, são caracterizadas pelo neoconservadorismo (SAVIANI, 2008). Para 1 Luiz Inácio Lula da Silva encerrou seu segundo mandato como presidente no final de 2010 e no Paraná, Roberto Requião de Melo e Silva deixou o governo estadual (terceiro governo) nesse ano para disputar uma vaga no Senado Federal, que ocupa atualmente. 15 Shiroma, Moraes e Evangelista (2002, p. 11) são muito claras as articulações entre as reformas implementadas nos anos de 1990, pelos governos brasileiros do período, e as recomendações dos organismos multilaterais. “Recomendações, aliás, repetidas, em uníssono e à exaustão”. Mudanças significativas compõem o cenário educacional brasileiro, sobretudo, a partir da promulgação da LDBEN nº 9.394/96. Essas mudanças estão profundamente ligadas com a reestruturação produtiva, a divisão social do trabalho, a conciliação dos partidos, as lutas dos movimentos sociais da recomposição de forças para o governo do Brasil. O próprio processo de tramitação da LDBEN citada é um retrato dessa constatação. A centralidade da educação é assim estrategicamente reafirmada em documentos oficiais e na definição de políticas governamentais, pois, diz-se que a reestruturação produtiva exige novas competências, cujo desenvolvimento demanda sempre níveis superiores de escolaridade. A educação torna-se processo para a vida inteira (long life education) e todo lugar se torna lugar de aprendizagem com vistas a adequar-se ao mercado de trabalho (SHIROMA, MORAES e EVANGELISTA, 2002, p. 12). Reafirma-se a importância do sistema de ensino, e ao mesmo tempo se exige um modelo novo, flexível, mais adequado, que evite desperdícios de recursos humanos e materiais. “O próprio saber se torna uma mercadoria-chave, a ser produzida e vendida a quem pagar mais, sob condições que são cada vez mais organizadas em bases competitivas” (HARVEY, 1989, p. 151). Nesse contexto é que se coloca a formação continuada de professores. Ela é desencadeada no processo histórico e se serve de tecnologias como o uso de satélites e da internet. Segundo propõem os já citados organismos internacionais, a democratização do acesso à educação é entendida como o meio para promoção da cidadania e do desenvolvimento, sobretudo dos países mais pobres. Para tanto, recomendam a adoção de práticas educacionais mais flexíveis, principalmente com uso de tecnologias de informação e comunicação. A presença das tecnologias de informação e comunicação na educação implicou reorganização do trabalho didático e chegou a configurar, para alguns, uma nova modalidade de educação, chamada de Educação a Distância (EaD). As práticas de EaD e seu estudo deixaram de ser um tema periférico e assumiram um lugar de destaque no cenário da educação brasileira e mundial. 16 Esse avanço progressivo da EaD é notável principalmente no Ensino Superior, com ênfase na formação inicial e continuada de professores, o que se apresenta como uma tendência hegemônica acompanhada por políticas públicas do Ministério da Educação em que são características as parcerias entre as Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e a atribuição de importante protagonismo à CAPES, INEP e SEED2 nesse processo. É nesse cenário que se inscreve a pesquisa que nos ocupa: as políticas públicas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96 até 2011. Vale destacar que nesse tipo de formação continuada pressupõe-se que os professores já tenham formação em nível de graduação.3 A LDBEN nº 9.394/96 exarou a necessidade de a formação de todos os professores ser realizada em nível superior, por conta e face às exigências do tempo; nos últimos anos é grande a expansão da educação superior. De acordo com o Censo da educação superior 2008, o número de matrículas foi 10,6% maior em relação a 2007. Na EaD as matrículas aumentaram 96,9% em relação ao ano anterior e passaram a representar 14,3% do total de matrículas no Ensino Superior. Desse total, 46,9% se referem a cursos de licenciatura (INEP, 2009). Do mesmo modo, o resumo técnico do Censo da Educação Superior 2009 publicado pelo INEP destaca que 50% dos cursos ofertados na chamada modalidade a distância são de licenciatura, entre os quais Pedagogia aparece em primeiro lugar, com 286 mil matrículas (INEP, 2011). A concentração de matrículas em EaD na área das licenciaturas no Brasil está ligada a fatores e estratégias políticas em que o Estado desempenha um papel fundamental. Importa investigar em que orientações axiológicas ele ampara suas 2 O Ministério da Educação realizou uma reestruturação em suas secretarias em 2011 e extinguiu a Secretaria de Educação a Distância, que existia desde o final do mandato de Fernando Henrique Cardoso. No segundo mandato de Lula, a SEED também cedeu à CAPES seu principal projeto, a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Nessa nova reestruturação, os programas da SEED passaram para as demais secretarias, principalmente para a Secretaria de Educação Básica (SEB). Nessa nova configuração, foram criadas duas novas secretarias, uma para regulação da educação superior, e outra para o relacionamento do MEC com as áreas de educação de estados e municípios. 3 No entanto, de acordo com Gatti (2008, p. 57), no contexto brasileiro, à parte as discussões conceituais, no âmbito das ações dirigidas e qualificadas explicitamente para esse tipo de formação, (formação continuada) vê-se que, sob esse rótulo, se abrigam desde cursos de extensão de natureza bem diversificada até cursos de formação que outorgam diplomas profissionais, seja em nível médio, seja em nível superior. Muitos desses cursos se associam a processos de Educação a Distância, que vão do formato totalmente virtual, via internet, até o semipresencial com materiais impressos. 17 decisões, o que demonstra a importância de promover a pesquisa e o debate acerca da EaD no cenário das atuais políticas educacionais brasileiras. Os principais argumentos utilizados em defesa da Educação a Distância como estratégia adequada para formação de professores são: 1) democratização do acesso à educação; 2) promoção da autonomia dos professores na busca por sua formação; 3) atendimento a novas demandas educacionais; 4) melhoria da qualidade da educação em todos os níveis (BELLONI, 2008; KENSKI, 2009; ALVES e RADO, 2009; PARANÁ, 2010). É possível dizer, portanto, que presenciamos no Brasil uma tendência de expansão da formação de professores a distância. Todo esse processo foi acompanhado por políticas do MEC para a área, intensificado ao final do primeiro governo Lula, caracterizadas por parcerias entre as IES públicas, a atribuição de importante protagonismo à CAPES, INEP e SEED (PEREIRA, PEIXOTO, FORNALSKI, 2010). Em 2003 a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) desencadeou um processo de discussão coletiva para reformulação curricular, com o objetivo de se contrapor aos referenciais nacionais, cuja concepção de educação atrelava a escola pública às necessidades do mercado (PARANÁ, 2010). Vários projetos foram desenvolvidos: simpósios, reuniões técnicas, Grupos de estudo, o Projeto Folhas, os Objetos de Aprendizagem Colaborativa (OAC), o Livro Didático Público, entre outros. Esses encaminhamentos previam a formação continuada dos professores, atendendo a um dos princípios assumidos pela gestão (2003-2010) – valorização dos profissionais da educação –, buscando ir ao encontro das necessidades reais da escola pública e garantindo a efetivação de sua função social, ou seja, atender aos estudantes oriundos das classes populares (PARANÁ, 2007; PARANÁ, 2010). Essa é uma realidade que exige aprofundamento e pesquisa. Adotar a EaD na formação continuada de professores, não seria, como expressou Saviani (2003, p. 10) ao se referir à escola nova, adotar um “mecanismo de recomposição da hegemonia da classe dominante para desenvolver um tipo de ensino adequado aos seus interesses?” Nessa perspectiva, a questão principal que norteou a realização dessa pesquisa foi: que princípios axiológicos, ontológicos, epistemológicos, éticopolíticos e pedagógicos fundamentam as políticas de formação continuada de professores no Estado do Paraná? 18 A própria legislação educacional, mais especificamente a LDBEN nº 9.394/96, afirma que os sistemas de ensino deverão promover a valorização dos profissionais da educação, assegurando-lhes “aperfeiçoamento profissional continuado” e “períodos reservados a estudos, planejamento e avaliação, incluídos na carga de trabalho” (BRASIL, 1996). Assim, a formação continuada a distância de professores efetiva-se como programa de capacitação no estado do Paraná, em atendimento ao que prevê a legislação educacional brasileira. Tomando como base as informações disponibilizadas pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, pode-se fazer um estudo histórico dessas políticas, desenvolvidas, sobretudo a partir de 1996. De acordo com a SEED/PR, várias iniciativas de formação continuada a distância foram realizadas através de parcerias, entre as quais merecem destaque os cursos ofertados pelos programas da TV Escola.4 Convém ressaltar que, como ação institucional de formação continuada por meio da EaD, criou-se a partir de 2003 o Ambiente Pedagógico Colaborativo, no Portal Dia a dia Educação. Nele, são produzidos Objetos de Aprendizagem Colaborativa (OAC); os Grupos de Estudo (2004); o Projeto Folhas (2004); a TV Paulo Freire (2006) e o Programa de Desenvolvimento Educacional do Paraná, PDE – 2007 (PARANÁ, 2009). A partir de 2006, como espaço virtual de ensino e aprendizagem da SEED/PR, disponibilizou-se o Ambiente e-escola. Em 2008 foi concluída a instalação dos laboratórios do Programa Paraná Digital, que disponibiliza acesso à internet, em todas as escolas públicas estaduais. No mesmo ano foram criadas a Diretoria de Tecnologia Educacional (DITEC) e a Coordenação de Educação a Distância (CEaD), com o objetivo de ampliar a oferta de formação continuada aos profissionais da educação da rede pública, por meio da modalidade a distância, buscando qualificar as áreas da educação e seus processos educativos, de forma articulada às políticas de desenvolvimento profissional da SEED/PR. Ainda, dentro dessa política da formação continuada com a utilização de tecnologias educacionais de informática e TV, realizou-se a instalação de 22.000 “tevês multimídia” em todas 4 Educação e Africanidade – UNB e MEC; Educação Fiscal, oferecido pela Escola Superior de Administração Fazendária; ProFuncionário, realizado pelo MEC e Universidade Nacional de Brasília; Curso de Mídias na Educação, MEC/UFPR; em parceria com o Conselho Britânico, o Curso Internet English da Open University; e Especialização em Informática/Tecnologias na Educação, oferecida pelo MEC em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Espírito Santo, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PARANÁ, 2009) . 19 as salas de aula, bem como a entrega de pen-drives aos professores da rede pública de ensino (PARANÁ, 2009). Este trabalho justifica-se, principalmente, pela necessidade de investigar por que, no Brasil e no Estado do Paraná em particular, a EaD é adotada como estratégia para formação continuada de professores e por procurar demonstrar que fundamentos axiológicos, ontológicos, epistemológicos/gnosiológicos, ético-políticos e pedagógicos embasam as políticas públicas que são balizadoras dessas práticas. Uma adesão acrítica e entusiasmada, principalmente quanto ao uso das tecnologias, acaba por promover discursos legitimadores que nem sempre revelam os interesses reais que sustentam propostas políticas de formação continuada de professores nas quais a EaD tem presença marcante. Nessa perspectiva, nosso objetivo geral foi analisar, a partir do referencial teórico do materialismo histórico dialético, as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná procurando evidenciar seus fundamentos axiológicos, ontológicos, gnosiológicos/epistemológicos, ético-políticos e pedagógicos. Para consecução desta pesquisa, fez-se necessário: 1) identificar os projetos em planejamento e na prática de formação continuada de professores a distância no Estado do Paraná; 2) analisar a concepção de ensino-aprendizagem presente nas políticas de formação continuada de professores a distância no estado do Paraná; 3) analisar, à luz do processo histórico da formação social brasileira, o desenvolvimento da formação continuada a distância, o que implica o recurso a coleta de dados e informações que são elementos indispensáveis para a realização desta pesquisa. Esta pesquisa teve como referencial teórico-metodológico a perspectiva do materialismo histórico dialético. Perspectiva esta, que “possibilita entender a realidade social como constructos históricos que se referem a como o homem produz o que necessita para viver” (PEREIRA, 2003, p. 141). Partimos do pressuposto que tal perspectiva permite captar a realidade concreta no seu dinamismo e nas inter-relações (GAMBOA, 2007, p. 34). Em outras palavras, captar o movimento histórico e se neste há tensões por conta dos projetos históricos. Esse referencial teórico metodológico orienta-se por uma concepção de que os homens são históricos, de modo que tudo o que produzem, incluindo a EaD, também não escapa a essa premissa. 20 Assim, toda a pesquisa que se coloque nessa perspectiva não poderá negligenciar a dimensão histórica5. Considerando os pressupostos delineados anteriormente, este estudo recorreu principalmente à análise de dois documentos exarados pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná: o Documento Educação a Distância – (SEED/PR, 2010) e o Documento síntese do Programa de Desenvolvimento Educacional - PDE 2007. Para proporcionar uma análise mais completa, recorremos também ao Documento Tutoria em EaD (SEED/PR, 2010), Documento Tutorial: Professor tutor ambiente virtual e-escola, a Instrução 009/2008 da SUED/SEED, que versa sobre a implementação de Grupos de Trabalho em Rede (GTR), realizados a distância e a Resolução 933/2009 GS/SEED, que institui cursos a distância para formação continuada dos profissionais da Educação no Paraná. A pesquisa também recorreu a entrevistas semiestruturadas com professores que participaram do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) entre 2007 e 2010. Também foram entrevistados um professor Orientador do PDE, um representante do Sindicato dos professores (APP) e um professor que trabalhou na SEED/PR com os Grupos de Trabalho em Rede (GTR) nesse período. As entrevistas foram gravadas em dispositivo de áudio e transcritas. O texto está organizado em três capítulos delineados a partir do objetivo geral e dos objetivos específicos desta pesquisa: O primeiro, intitulado “Pressupostos teóricos para estudo das políticas de formação continuada no Estado do Paraná”, objetiva explicitar o referencial teórico metodológico adotado nesta pesquisa. Apresentamos uma reflexão sobre os fundamentos da formação continuada, a partir do referencial teórico-metodológico do materialismo histórico-dialético, de modo a estabelecer pressupostos teóricos que possibilitem um estudo das políticas de formação continuada de professores no Paraná. O segundo capítulo, “Processo histórico da Educação a Distância no Brasil”, tem como escopo apresentar a história da EaD no Brasil em sua relação como o modo de acumulação evidenciando a questão das políticas para formação 5 A educação é um processo, portanto é o decorrer de um fenômeno (a formação do homem) no tempo, ou seja, é um fato histórico. Todavia é histórico em duplo sentido: primeiro, no sentido de que representa a própria historia individual de cada ser humano; segundo, no sentido de que está vinculada à fase vivida pela comunidade em sua contínua evolução. Sendo um processo, desde logo se vê que não pode ser racionalmente interpretada com os instrumentos da lógica formal, mas somente com as categorias da lógica dialética (PINTO, 2009, p. 30). 21 continuada de professores no contexto nacional, focalizando as entidades de classe e a EaD na formação continuada de professores no Estado do Paraná. O terceiro capítulo trata especificamente das políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná. Propomos mostrar como a formação de professores pela EaD está organizada e se desenvolve no Estado, a partir dos documentos analisados, das entrevistas realizadas, para cotejar com as propostas elaboradas nas políticas. Portanto, investigar de forma científica, as tensões e contradições presentes no cenário das políticas de formação continuada de professores no Brasil e particularmente no Paraná, sobretudo no que se refere às políticas públicas, configura-se como um trabalho necessário que deriva do compromisso com a educação para emancipação do homem. 22 1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS PARA O ESTUDO DAS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES Este primeiro capítulo tem como escopo fazer um delineamento dos pressupostos teóricos para o estudo das políticas de formação continuada no Estado do Paraná. Procuramos, assim, expor as razões que demonstram a necessidade dessa pesquisa, salientando a importância do referencial teórico adotado. Realizamos uma abordagem sobre os fundamentos da formação continuada de modo a estabelecer pressupostos teóricos que possibilitem um estudo das políticas de formação continuada de professores no Estado do Paraná, a partir do referencial teórico-metodológico do materialismo histórico-dialético. 1.1 A PESQUISA COMO NECESSÁRIA AO DESVELAMENTO DO REAL O processo de produção do conhecimento científico enquanto atividade epistemológica de apreensão do real implica a consideração sobre a pesquisa científica qualquer que seja o campo no qual o trabalhador científico se aplique, pois o pesquisador precisa conhecer a natureza do seu trabalho que é constitutivo de sua própria realidade individual (PINTO, 1979). Destaca-se a importância da reflexão teórico-filosófica sobre o trabalho do pesquisador como condição para aprofundar o exame sobre o problema epistemológico, humano e social da pesquisa científica. Em outras palavras, aprofundar a reflexão teórico-filosófica é condição para superar uma visão de ciência neutra, despolitizada e conservadora, que não poderá contribuir para a emancipação humana. A ciência só pode tornar-se um instrumento de libertação do homem e do seu mundo nacional se for compreendida por uma teoria filosófica que a explique como atividade do ser humano pensante e revele o pleno significado da atitude de indagação em face da realidade natural e social. Uma filosofia da pesquisa científica, que incorporará naturalmente toda a reflexão sobre a metodologia da investigação, a lógica do raciocínio científico e a sociologia da ciência, é o pressuposto indispensável à formação da consciência do trabalhador neste campo da cultura, tão indispensável quanto os conhecimentos particulares técnicos de que deve estar munido para empreender sua atividade (PINTO, 1979, p. 4). Como é possível notar, as afirmações de Pinto (1979) reivindicam a exigência de formação teórica para o pesquisador, o que, aliás, é a principal tese defendida na sua obra Ciência e Existência, na qual expõe a necessidade e a importância da 23 pesquisa para o desenvolvimento da humanidade. No entanto não se trata de uma ciência abstrata, separada da existência, mas uma ciência enquanto produção histórica, produto das relações dos seres humanos entre si e com a natureza. A partir dessas considerações sobre a pesquisa científica de um modo geral, convém concentrar agora atenção para a pesquisa no campo educacional e suas implicações. Vários autores (ANDRÉ, 2001; MORAES, 2001; KUENZER e MORAES, 2005, GAMBOA, 1989; GATTI, 2005) destacam a importância da base teórica para o desenvolvimento de uma pesquisa na área educacional. A escolha teórica do pesquisador é fundamental, pois se trata de um referencial que norteia todo o seu trabalho. Nesse sentido, são de grande relevância as recomendações que faz Pinto (1979, p. 8) a respeito da pesquisa científica de um modo geral: [...] em primeiro lugar, a certeza de que é imprescindível ao cientista, e ao investigador em particular, estar preparado para o seu trabalho pela posse de uma teoria geral da pesquisa científica; e em segundo lugar, a compreensão de que tal teoria só pode ser elaborada validamente se encontrarmos o ponto de partida, objetivamente seguro, que sirva de origem para uma cadeia de raciocínios indubitáveis que nos encaminhe no desenvolvimento de proposições intermediárias, exigidas pela construção do saber científico, até as conclusões de âmbito universal. A primeira consideração apresentada pelo autor é basilar no que se refere ao desenvolvimento do trabalho do pesquisador. O pesquisador não realiza um trabalho puramente prático, mesmo aqueles que acreditam trabalhar de tal maneira são sempre movidos por regras, princípios metódicos, que consciente ou inconscientemente estão embasados em considerações abstratas. Estas, não só dirigem a interpretação dos resultados obtidos, mas principalmente servem de fundamento para o projeto que o pesquisador realiza. Como afirma Pinto (1979, p. 8) “A teoria não está ausente na obra dos pesquisadores, que aparentemente se despreocupam dessas discussões chamadas „especulativas‟; o que está ausente é a consciência dela”. No que tange à segunda consideração, aquela que se refere ao ponto de partida objetivamente seguro,6 de acordo como o autor, este deve ser encontrado “na compressão filosófica do significado do conhecimento humano, de sua fonte, função, procedimentos, finalidades e de seu efeito” (PINTO, 1979, p. 9). 6 Essa preocupação marca a história da filosofia e da ciência. O filósofo francês René Descartes utiliza palavras semelhantes, quando no Discurso do Método chega ao “Cogito ergo sum” o qual designa como o princípio “primeiro da filosofia que procurava” e sobre o qual irá alicerçar os conhecimentos posteriores (DESCARTES, 1983, p. 46). 24 Quando se faz essa busca, tem-se então a epistemologia, enquanto reflexão sistemática sobre o conhecimento humano, sua possibilidade, sua significação, sentido e finalidade. E aqui é preciso destacar a especificidade da epistemologia enquanto teoria do conhecimento científico, ou, dito em outras palavras, o estudo sistemático que se ocupa da elaboração dos critérios para estabelecer o que seja um conhecimento de natureza científica. Assim, nota-se que o conhecimento não é um simples acumular de informações, ele forma e transforma o homem, colabora de maneira fundamental na construção do próprio ser do homem. Portanto, a ausência de epistemologia, ou seja, a falta de uma teoria do conhecimento científico7 em um trabalho de pesquisa conduz ao descrédito e à falta de sentido da pesquisa. Isenta de teoria, a pesquisa não se sustenta, carece de fundamentos. O trabalho do pesquisador perde relevância, pois as conclusões a que chega podem ser alcançadas sem a necessidade de investigação, ou sem a necessidade de uma investigação com caráter científico. De acordo com Kosik (2002, p. 15), a filosofia é uma atividade humana indispensável, uma vez que a essência da coisa, “a coisa em si”8, não se manifesta direta e imediatamente. “O esforço para descobrir o ser da coisa, a essência da coisa é a tarefa precípua da filosofia desde tempos imemoriais”. Para o mesmo autor, captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno e como ao mesmo tempo se esconde. A teoria, portanto, garantirá o caráter científico da pesquisa e por consequência dará condições para sustentar sua validade. Como já se salientou, adota-se nesta pesquisa o referencial teórico-metodológico do materialismo histórico dialético. De acordo com Severino (2007), a tradição filosófica dialética vê a reciprocidade sujeito/objeto de modo eminente como uma interação social que vai se formando ao longo do tempo histórico. Ali onde começa a história deve começar também a cadeia de pensamento, e o desenvolvimento anterior desta não será mais do que a imagem reflexa, em forma abstrata e teoricamente consequente, da trajetória histórica; uma imagem reflexa corrigida de acordo com as leis que fornece a própria 7 Para Abbagnano (2000, p. 183), a teoria do conhecimento perdeu seu significado na filosofia contemporânea e foi substituída por outra disciplina, a metodologia, que é a análise das condições e dos limites de validade dos procedimentos de investigação e dos instrumentos linguísticos do saber científico. 8 A dialética trata da “coisa em si”. Mas a “coisa em si” não é uma coisa qualquer, e, na verdade não é mesmo uma coisa: a “coisa em si” de que trata a filosofia, é o homem e o seu lugar no universo, (o que em outras palavras exprime a mesma coisa): a totalidade do mundo revelada pelo homem na história e o homem que existe na totalidade do mundo (KOSIK, 2002, p. 250). 25 trajetória histórica; e assim, cada fator pode ser estudado no ponto de desenvolvimento da sua plena maturidade, na sua forma clássica (ENGELS, s/d. p. 310 apud LOMBARDI, 2010, p. 66). O conhecimento nessa perspectiva não pode ser entendido isoladamente em relação à prática política dos homens e, portanto, nunca é questão apenas de saber, mas também de poder. Prioriza-se, então, a práxis humana, a ação histórica e social norteada por uma intencionalidade que lhe dá sentido. Logo, não se trata apenas de interpretar o mundo, mas de transformá-lo, conforme a décima primeira Tese a Feuerbach (MARX, 1982). No Prefácio à Contribuição para Crítica da Economia Política, Marx (1982, p. 25) menciona o resultado geral de seu trabalho de investigação e que uma vez obtido lhe serviu de fio condutor nos estudos: O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos, pode formular-se, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência. Nessa citação ficam evidenciados os fundamentos teórico-metodológicos da concepção histórica proposta por Marx, de que as relações jurídicas, políticas e sociais não se explicam por si mesmas, nem pela evolução geral do espírito, mas pelo contrário, deitam raízes na própria produção da existência material dos homens (LOMBARDI, 2010). Considerando que a discussão de Marx está dirigida à busca do “método científico correto”, aparentemente “parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto” [...]. “No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos consciência de que isso é falso” (MARX, 1982, p. 14). Marx, então, salienta a necessidade de se ter uma compreensão correta sobre o que devemos tomar como sendo “o real e o concreto” no trabalho científico. O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação (MARX, 1982, p. 14). 26 Diferenciado, assim, o concreto (empírico, fenomênico) do concreto pensado (o concreto no cérebro pensante), Marx se contrapôs e ao mesmo tempo mostrou os limites do idealismo e do empirismo. E de acordo com sua concepção materialista e dialética “concluiu que o correto era considerar o objeto real como independente do pensamento e o processo do conhecimento como a reprodução do concreto pelo pensamento” (LOMBARDI, 2010, p. 69). O todo, tal como aparece na mente como um todo de pensamento, é produto da mente que pensa e se apropria do mundo do único modo que lhe é possível; modo que difere completamente da apropriação desse mundo na arte, na religião, no espírito prático. O sujeito real conserva a sua autonomia fora da mente, antes e depois, pelo menos durante o tempo em que o cérebro se comporte de maneira puramente especulativa, teórica. Por consequência, também no método teórico é necessário que o sujeito - a sociedade - esteja constantemente presente na representação como ponto de partida (MARX, 1982, p. 15) Nessas considerações expressas na citação anterior, temos exposta uma síntese da concepção ontológica e epistemológica proposta por Marx de acordo com a qual as coisas são o que se fazem historicamente, de modo que a análise para compreendê-las precisa partir dessa premissa. Conforme explica Severino (2007), a epistemologia dialética9 tem como base alguns pressupostos considerados pertinentes à condição humana e às condutas dos homens: Totalidade: a inteligibilidade das partes pressupõe sua articulação com o todo; no caso o indivíduo não se explica isoladamente da sociedade. Historicidade: o instante não se entende separadamente da totalidade temporal do movimento, ou seja, cada momento é articulação de um pressuposto mais abrangente. Complexidade: o real é simultaneamente uno e múltiplo (unidade e totalidade), multiplicidade de partes, articulandose tanto estrutural quanto historicamente, de modo que cada fenômeno é sempre resultante de múltiplas determinações que vão além da simples acumulação, além do mero ajuntamento. Um fluxo permanente de transformações. Dialeticidade: o desenvolvimento histórico não é uma evolução linear, a história é sempre um processo complexo em que as partes estão articuladas entre si de formas diferenciadas da simples sucessão e acumulação. As mudanças no seio da realidade humana ocorrem seguindo uma lógica de contradição e não de identidade. A história se constitui uma luta de contrários, movida por um permanente conflito, imanente à realidade. Praxidade: os acontecimentos, os fenômenos da esfera humana estão articulados entre si, na temporalidade e na espacialidade e se desenvolvem através da prática, sempre histórica e social, que é a substância do existir humano. Cientificidade: toda explicação científica é necessariamente uma explicação que explicita a regularidade dos nexos causais, articulando, entre si, todos os elementos da 9 Leandro Konder em A derrota da dialética, explica que no Brasil a dialética, quando apareceu, não tinha quem a defendesse, pois se considerava que ela já nasceu superada pelos elementos trazidos pelo positivismo em que o raciocínio matemático estatístico suplanta o metafísico. Ela foi reduzida a expressões rudimentares. Esses efeitos se estendem de certo modo até nossos dias e condicionam em maior ou menor medida a história ulterior do marxismo no Brasil (KONDER, 2009, p. 253). 27 fenomenalidade em estudo. Só que essa causalidade, para a perspectiva dialética, se expressa mediante um processo histórico-social, conduzido por uma dinâmica geral pela atuação de forças polares contraditórias, sempre em conflito. Concreticidade: prevalece a empiricidade real dos fenômenos humanos, donde decorre a precedência das abordagens econômicopolíticas, pois o que está em pauta é a prática real dos homens, no espaço social e no tempo histórico, práxis coletiva (p. 116-117, grifos do autor). A perspectiva teórico-metodológica, aqui adotada, permite captar a realidade concreta no seu dinamismo e nas inter-relações (GAMBOA, 2007, p. 34), ou seja, captar o movimento histórico e se neste há tensões por conta dos projetos históricos. É importante agora relacioná-los com o objeto de estudo desta pesquisa, qual seja, as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná. Como já afirmado, tratam-se de pressupostos pertinentes à condição humana e à conduta dos homens. Ora, a elaboração de políticas públicas para formação continuada de professores e a sua efetivação é, pois, uma prática social na qual estão presentes todos os pressupostos antes mencionados. Por isso, sua análise implica a consideração desses pressupostos para não transformar a pesquisa em mero diletantismo. O pressuposto da totalidade, quando relacionado com a questão das políticas públicas para formação continuada de professores, conduz à implicação de que não se trata apenas de examinar documentos exarados por um órgão competente ou tão somente descrever uma prática decorrente de uma política adotada. A totalidade exige o rigor de investigar as múltiplas determinações nem sempre expostas na fenomenalidade aparente. Nem tudo está exposto no que está escrito nos documentos nem na prática correspondente como é percebida a primeira vista. A totalidade exige ir além das aparências fenomênicas e procurar evidenciar os porquês das práticas sociais (SEVERINO, 2007). Já a historicidade, se considerada na perspectiva do objeto aqui enfocado, é um pressuposto como todos os outros, indispensável. Os fenômenos são históricos, mas isso não significa que se resumam a um simples instante no qual ocorrem. É preciso, então, considerar o movimento no qual ocorrem. Marx e Engels se referem à ciência da história e, nesse sentido, a historicidade implica o rigor científico da análise que não objetiva a mera descrição de um fato ou de múltiplos fatos, mas a capitação do fenômeno no movimento em que ocorre e nas suas determinações múltiplas. Ao se considerarem as políticas públicas para formação continuada de professores, é preciso compreender que esta (a formação continuada) é uma práxis 28 histórica marcada por interesses de múltiplos sujeitos e que se desenvolve em um contexto de contradições, o que conduz a reflexão para o outro pressuposto anteriormente apontado: o da dialeticidade (SEVERINO, 2007). Dialeticidade refere-se à consideração de que as práticas sociais históricas não acorrem em uma cadeia linear de causa e consequência, como se constituísse um processo natural. A lógica dialética nos remete a considerar que as mudanças no seio da realidade humana ocorrem seguindo uma lógica de contradição, e não de identidade. Dessa forma, no caso das políticas públicas de formação continuada de professores, não se trata de tomá-las como uma consequência direta de decisões tomadas em uma instância maior, como à primeira vista a leitura dos documentos norteadores parece sugerir, mas de buscar perceber as contradições presentes no movimento no qual a proposição dessas políticas e a sua efetivação ocorrem (SEVERINO, 2007). A formação continuada é uma prática que vem ocorrendo no Estado do Paraná. Essa constatação está ligada com outro pressuposto antes apontado, a praxidade. Ora, a prática humana é sempre histórica e social (VAZQUES, 2007), assim, também as políticas de formação continuada de professores são detentoras dessas características que constituem o substrato do existir humano. O pressuposto da cientificidade estabelece a necessidade de explicitar os nexos causais entre os fenômenos. Na perspectiva dialética, esses nexos não são mecânicos, em uma simples relação de causa e efeito. Essa causalidade acontece no movimento histórico, marcado por forças contraditórias que atuam sobre o fenômeno. Nesse sentido, ao se analisar a formação continuada a distância de professores, é preciso ter cautela para não incorrer em juízos ligeiros que tanto podem exaltar como descartar a EaD como alternativa nesse campo (SEVERINO, 2007). Por fim, o pressuposto da concreticidade faz ver que o que está em pauta é a prática real dos homens. Portanto, é essa prática concreta que precisa ser examinada antes de se propor qualquer conceito. A formação continuada de professores é uma prática que vem se desenvolvendo e uma análise coerente requer a consideração e o exame dessa realidade concreta. De um modo geral, é possível notar que o referencial teórico-metodológico aqui adotado se embasa em uma concepção de que os homens são históricos, de modo que tudo o que produzem, incluindo as políticas para formação continuada de 29 professores pela EaD, também não escapa a essa constatação. Destarte, qualquer pesquisa que se coloque nessa perspectiva não poderá negligenciar a dimensão histórica de tal modo que os pressupostos anteriormente elencados constituem-se elementos fundamentais para a compreensão do fenômeno estudado e o desenvolvimento da pesquisa como um todo. Nessa perspectiva, “a relação sujeito-objeto se faz por um processo de implicação do sujeito no objeto e deste naquele, o que significa que os objetos se constituem na práxis do professor-pesquisador” (GAMBOA, 2007, p. 34). Caracterizada pelo princípio da unidade e luta dos contrários, a epistemologia marxiana tem a prática social como referência fundante da construção do conhecimento, nela residindo seus critérios de validação (MARTINS, 2006, p. 15). A escolha do terreno teórico-metodológico marxista para a produção de conhecimento em educação é uma escolha teórico-política: critérios de objetividade, no marxismo, são ao mesmo tempo e inseparavelmente teóricos e políticos (PORTUGAL, 2008, p. 67). Convém ainda destacar conforme fazem Peixoto, Pereira, Lombardi e Sá, (2007, p. 12) que: Para Marx e Engels, aquilo que os indivíduos são e o que manifestam em suas vidas coincide com o modo de produção, tanto o que fazem como o modo como fazem. Esse pressuposto permite reconhecer que os indivíduos se encontram em conexão social determinada, com condições de vida igualmente dadas. É o que fazem, e o modo como fazem, ponto inicial para se entender o que e como são os homens. Os mesmos homens que expressam seu viver precisam satisfazer suas necessidades do viver: comer, beber, habitar, vestir etc. É esse pressuposto, portanto, que os leva a concluir que o modo de produção determina a vida dos homens e a existência de uma dada formação social, configurando-se estas como aspectos centrais a serem observados para a compreensão da atividade social dos indivíduos. Esse pressuposto é fundamental na investigação que versa sobre a formação de professores por meio da Educação a Distância, pois também a EaD é um constructo histórico do fazer humano nas suas relações. Aqui também o modo de produção é determinante na vida daqueles que fazem EaD e configura questões fundamentais que precisam ser consideradas para uma apreciação adequada dessa prática social. Sobre a construção do conhecimento na perspectiva do materialismo histórico dialético, para o qual o mundo empírico representa apenas a manifestação fenomênica da realidade, ou seja, a pseudoconcreticidade ou concreticidade aparente, explica Martins (2006, p. 10): 30 A construção do conhecimento demanda então, apreensão do conteúdo, prenhe de mediações históricas concretas que só podem ser reconhecidas à luz das abstrações do pensamento, isto é do pensamento teórico. Não se trata de descartar a forma pela qual o dado se manifesta, pelo contrário, trata-se de sabê-la com dimensão parcial, superficial e periférica do mesmo. Portanto, o conhecimento calcado na superação da aparência em direção á essência requer a descoberta das tensões imanentes na intervinculação e interdependência entre forma e conteúdo. Assim, entendemos que para se chegar à essência do fenômeno, é preciso superar a apreensão superficial do real como empírico, revelando suas mediações e contradições. Isso não é possível sem a atividade teórica. “A epistemologia marxiana tem a prática social como referência fundante da construção do conhecimento, nela residindo os seus critérios de validação” (MARTINS, 2006, p. 15). Para Saviani (1983, p. 24), a filosofia é uma “reflexão radical, rigorosa e de conjunto” sobre um objeto determinado. Tais características: radicalidade, rigor e totalidade também se constituem elementos fundamentais para o trabalho do pesquisador. Todavia, trata-se de características que precisam ser muito bem compreendidas para que não se caia no extremo oposto. Radicalidade não significa radicalismo, pois nesse caso teríamos um “ostracismo epistemológico”. Radicalidade significa buscar as causas últimas, ir aos fundamentos, às raízes da questão para realizar uma reflexão em profundidade. Nessa mesma perspectiva, rigor não significa apego inexorável a teorias científicas. Trata-se de proceder sistematicamente evitando a superficialidade e a generalização apressada. O pesquisador precisa ter consciência de que a ciência faz novas descobertas e que sempre é necessário rever conceitos, teorias para não estagnar a construção do edifício do saber científico (SAVIANI, 1983). Já a visão de conjunto do pesquisador não pode ser confundida com ecletismo. Pesquisar em uma perspectiva de conjunto significa inserir o problema no seu contexto e examiná-lo em função do conjunto. É válido aqui nos reportarmos à noção de totalidade concreta expressa por Kosik (2002, p. 61): A totalidade concreta como concepção dialético-materialista do conhecimento do real [...] significa, portanto, um processo indivisível, cujos momentos são: a destruição da pseudoconcreticidade, isto é, da fetichista e aparente objetividade do fenômeno, e o conhecimento de sua autêntica objetividade; em segundo lugar, conhecimento do caráter histórico do fenômeno, no qual se manifesta de modo característico a dialética do individual e do humano em geral, e enfim o conhecimento do conteúdo 31 objetivo e do significado do fenômeno, da sua função objetiva e do lugar histórico que ela ocupa no seio do corpo social. De acordo com Kosik, se o conhecimento não descobre por baixo da aparente objetividade do fenômeno, sua autêntica objetividade histórica, ele se torna prisioneiro da intuição fetichista, cujo produto é a má totalidade. Nesta, a realidade social é entendida como um produto do movimento autônomo das estruturas em que o autêntico sujeito desaparece. “A totalidade materialisticamente entendida é a criação da produção social do homem” (KOSIK, 2002, p. 61). Já se evidenciou a necessidade de o pesquisador escolher um referencial teórico, uma teoria geral da pesquisa científica, para a realização do seu trabalho, seja ele realizado em qualquer área. Para tanto, conforme alerta Kosik, (2002, p. 215) na pesquisa não se pode separar a solução da problemática, pois, desse modo, a filosofia que é essencialmente pesquisa se transforma em cemitério de categorias mortas. Trata-se de um processo da construção do concreto do pensamento a partir do concreto real: “parte-se do empírico se passa pelo abstrato e se chega ao concreto” (SAVIANI, 1980 apud GAMBOA, 2007, p. 35). No entanto, o atendimento dessa ponderação se constitui em grande desafio para o pesquisador atualmente, já que um dos aspectos que chamam a atenção nos últimos anos é o movimento de recuo da teoria, não só nas pesquisas na área de educação, mas também nas demais ciências humanas e sociais (KUENZER e MORAES, 2005). Para as autoras, a constatação do “fim da teoria” está ligada a certa utopia educacional, praticista e pragmática que considera suficiente o “saber fazer,” de tal modo que o esforço teórico é considerado especulação, perda de tempo ou mero recurso retórico. A pesquisa educacional acaba reduzida a abordagens fenomênicas de levantamento de dados, produzindo narrativas fragmentadas fruto na maioria das vezes de sincretismos teóricos e metodológicos, empiricismos, relativismos que comprometem irremediavelmente a produção do conhecimento no campo educacional (KUENZER e MORAES, 2005). A partir do que se expôs, cabe agora perguntar: quais as implicações dessas considerações para a pesquisa em educação e mais especificamente para a pesquisa sobre as políticas públicas para a formação continuada de professores no 32 Estado do Paraná? No entanto, para começar a responder a esses questionamentos, é preciso esclarecer o objeto ao qual fazemos referência. 1.2 MATERIALISMO HISTORICO-DIALÉTICO PARA O ESTUDO DAS POLÍTICAS DE FORMAÇÃO CONTINUADA A formação continuada, como geralmente se apresenta, é uma prática que já traz em si uma contradição, pois ao se reafirmar constantemente sua necessidade, ao mesmo tempo está se afirmando que a formação inicial não foi satisfatória e que o professor não é capaz de se atualizar autonomamente (GATTI, 2008). Mas não é justamente a autonomia uma das qualidades que a formação continuada, principalmente a realizada a distância objetiva desenvolver no professor? Por que isso não é alcançado na formação inicial? Afinal, o que é realmente uma formação integral do professor? Nesta pesquisa, parte-se do pressuposto que uma formação integral precisa compreender algumas questões fundamentais, quais sejam: ontológica, gnosiológica/epistemológica, ético-política e pedagógica. Entre elas existe, pois, uma relação de mútua complementariedade. Em outras palavras, o professor que possui uma clareza na questão ontológica, ou seja, na sua identidade, no ser professor, também terá os outros fundamentos atendidos, já que de outra forma, uma carência na ontologia acarretará dificuldades gnosiológicas epistemológicas, pedagógicas, entre outras (PINTO, 1979). É preciso esclarecer que, ao se falar de cada questão em particular, não se propõe uma divisão na formação do professor. Essa aparente divisão é apenas didática para facilitar a compreensão do que está sendo exposto. Ao se refletir sobre a ontologia, já de início é possível perceber a complexidade da realidade tratada. O que é ser professor? O que ele faz, por que faz? Para quem? Todos esses questionamentos ajudam a construir a resposta para a primeira questão, ou seja, à pergunta pelo ser do professor. Ser professor não é consequência de um dom natural, de uma vocação recebida do além, o sujeito faz-se professor, ele se forma para exercer o trabalho didático e isso o faz em situações concretas. Dito de outra maneira, não é a apreensão de certa quantidade de conhecimento, mesmo que relativamente grande, que garante a um sujeito que será um bom professor. O conhecimento é necessário, mas não determina somente ele a substância da profissão (PIMENTA, 2010). Para 33 lembrar Gramsci, “O homo sapiens não está separado do homo faber” (GRAMSCI, 2004, p. 53). O professor é aquele que professa, portanto, que ensina, e para essa prática social precisa preparar-se. A profissão de professor não se resume apenas ao ensino, no entanto sem ele sua ontologia fica extremamente comprometida. É preciso ressaltar também que o ensino é um ato incompleto sem o aprendizado. Ele é uma prática social porque acontece nas relações concretas entre os indivíduos. O ensino é também dialético tanto pela necessidade de exigir o diálogo como pelo fato de que ensinando também se aprende, mas aprendendo também se ensina. Portanto, o ato de ensinar aponta para a constituição ontológica da profissão de professor (SAVIANI, 2006). Ora, mas quem ensina sempre ensina algo e ensina de alguma maneira para alguém. Assim, é preciso falar da gnosiologia constituinte do ser professor. Uma formação gnosiológica implica ter domínio do que seja o conhecimento, se é possível ensiná-lo, saber como se conhece, o que é possível, enfim, questões que fazem parte do universo da gnosiologia. Novamente é preciso destacar que não é apenas acumulando conhecimento que se dará conta de formar o professor no horizonte gnosiológico. O ato de conhecer é histórico, assim todo conhecimento é um processo que acontece em um contexto concreto determinado e em determinadas condições (SAVIANI, 2006). De acordo com Severino (2007) o conhecimento é o elemento específico fundamental na construção do destino da humanidade de onde decorre sua importância e a grande relevância da educação, já que sua legitimidade surge de sua vinculação íntima com o conhecimento. Em outras palavras, uma formação gnosiológica necessária à possiblidade de explicitação dos fenômenos complexos e contraditórios, assim como as demais questões fundamentais aqui tratadas, requer condições concretas, sujeitos bem preparados, tempo, instrumentos, que são necessários para que possa ser realizada. A percepção da necessidade de formar-se permanentemente está muito ligada a uma formação gnosiológica apropriada.10 No entanto, nenhuma das questões fundamentais aqui enfocadas constitui-se um atributo neutro ou isolado. Como já se mencionou, existe entre elas uma relação de imbricamento mútuo. 10 É importante salientar, que o termo gnosiológico refere-se à teoria do conhecimento em geral e epistemológico à teoria do conhecimento científico (PINTO, 1979). 34 Nesse sentido, importa salientar a dimensão ético-política na formação do professor. Apesar de se tratar de um tema presente na história da humanidade, desde as primeiras civilizações de que temos informações, essa dimensão nem sempre recebe atenção merecida no processo de formação de professores. Por vezes a simples abordagem do tema já é considerada superficialmente por alguns, como doutrinação ou uma obrigação a mais para o profissional docente. A dimensão ético-política extrapola o âmbito da busca por leis ideais que garantam o consenso na sociedade. Não se trata apenas de alcançar o pensamento adequado sobre determinado objeto ou situação. A ética e a política se realizam em condições concretas, são produzidas junto com o ser humano e necessárias para sua existência. Por isso, a dimensão ético-política não pode ser vista como uma disciplina a mais no currículo da formação docente, uma vez que está presente em todas as relações humanas. O professor é um formador e seu trabalho se realiza em um contexto de relação social ético-político (SAVIANI, 2006). Para Severino (2007), é a própria dignidade humana que fundamenta esse compromisso ético-político da educação e exige que se garanta aos seres humanos o compartilhar dos bens naturais, sociais e culturais. Se este é um compromisso da educação, então é um compromisso de todas as instituições e de todos os sujeitos nela envolvidos. A dimensão ético-política é constitutiva dos indivíduos enquanto produção desses próprios indivíduos em condições históricas concretas. A ausência ou carência de uma formação ético-política tem como consequência direta a desumanização, uma vez que conduz a desconsideração das bases axiológicas que norteiam as relações sociais (SAVIANI, 2006). Outra questão fundamental na formação docente é a epistemológica e implica a consideração do que seja o conhecimento científico, ou que elementos são considerados para que o conhecimento receba tal adjetivo. Já de início é possível perceber que não há neutralidade na ciência como pretendem alguns. A constatação do que seja ou não conhecimento científico passa pela compreensão do que é a ciência. Ora, também a ciência, a construção do conhecimento científico, realiza-se em condições concretas, há necessidades, decisões, consequências, enfim, a ciência não é neutra porque não se faz por si, há sempre um quem realizador que não é necessariamente um indivíduo (PINTO, 1979). Essas considerações fazem perceber a importância da formação epistemológica do professor. O professor trabalha com o conhecimento, com o seu 35 ensino e nunca se trata apenas do que, mas do quem, do como, para que e para quem o conhecimento é produzido e em que condições. Estar despreparado epistemologicamente é negar a identidade do próprio trabalho. Para Severino (2007, p. 25) a atividade de ensinar e aprender, ou seja, educar está intimamente vinculada a esse processo de construção do conhecimento, pois “ensinar e aprender significa conhecer; e conhecer por sua vez significa construir o objeto; mas construir o objeto significa pesquisar”. Por fim, é preciso comentar sobre a dimensão pedagógica como elemento fundamental na formação docente. Aqui o ensino é uma prática social importantíssima para que se possa desenvolver uma abordagem adequada. A dimensão pedagógica não se esgota no ensino, mas sem ele sua constituição e principalmente sua caracterização específica seria muito complicada. O ato de ensinar é característico do trabalho do professor, portanto é inconcebível que um docente não seja preparado para tal. Mas a maneira como se compreende o ensino e, sobretudo, a forma concreta como ele se realiza são determinantes na efetivação da dimensão pedagógica do ser docente (SAVIANI, 2006). Assim, é preciso destacar aqui a necessidade e a importância da pesquisa no processo de ensino e aprendizagem, ainda mais quando se faz referência à formação de professores. “Ela é mediação necessária e eficaz para o processo de ensino e aprendizagem. Só se aprende e só se ensina pela efetiva prática da pesquisa” (SEVERINO, 2007, p. 26). Nessa perspectiva vale ressaltar que uma formação continuada em que esteja ausente a prática de pesquisa é em seu todo questionável. Assim como a Educação Superior, a formação continuada precisa ter na pesquisa o ponto básico de apoio e sustentação, sob pena de criar um circulo vicioso que nada mais promova do que a semiformação ou o repisar de práticas já muito desgastadas (SEVERINO, 2007). O enfoque dessas questões fundamentais faz perceber que uma formação pertinente de professores exige condições, infraestrutura, preparação, compromisso ético-político e não pode ser reduzida simplesmente a uma instrumentalização técnica realizada de forma rápida e em locais impróprios (GATTI, 2008), (GATTI, 2009), (PEREIRA, 2010). Por isso, importa reafirmar aqui a necessidade de a formação de professores realizar-se na Universidade onde se articulam efetivamente ensino, pesquisa e extensão, mas, como salienta Severino (2007, p. 24) “a partir da pesquisa: ou seja: 36 só se aprende, só se ensina, pesquisando; só se presta serviços à comunidade, se tais serviços nascerem e se nutrirem da pesquisa”. As considerações aqui apresentadas constituem, pois, uma base teórica para análise das políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná, que é o objetivo da presente pesquisa. E com o objetivo de trazer mais elementos que sustentem nossas análises sobre as políticas de formação continuada a distância de professores, e a busca de seus fundamentos, ontológicos, gnosiológicos/epistemológicos, ético-políticos e pedagógicos, no tópico a seguir vamos fazer algumas considerações sobre o que e o quem da Educação a Distância. Nessa perspectiva vamos posteriormente verificar nos documentos analisados e nas entrevistas realizadas, como as questões fundamentais anteriormente discutidas se apresentam, o que proporcionará um caminho de análise do objeto em foco na pesquisa proposta. 1.3 O QUE E O QUEM DA EaD Preti (2002) considera importante abandonar o debate sobre as especificidades da EaD, para que as discussões e estudos sejam centrados sobre os fundamentos da educação, os diferentes caminhos de construção da teoria e da prática educativa, da práxis pedagógica e social. Com isso se evita o perigo de considerar a EaD como um hiato, um fenômeno único, desligado do seu contexto que é a realidade da Educação. Ao se falar de Educação a Distância, é necessário “não centrar o foco na „distância‟, e sim nos processos formativos, na Educação, fazendo recurso a abordagens contextualizadas, situadas, críticas e libertadoras da educação” (PRETI, 2002, p. 29). Essa consideração também evidencia que, ao se tratar da Educação a Distância e a formação continuada de professores, não se pode desconsiderar o que já se pesquisou e produziu no campo educacional e, principalmente, o fato de a EaD ser um constructo histórico cujo movimento precisa ser captado para perceber se há tensões por conta dos projetos históricos envolvidos. Nesse sentido, para ampliar os horizontes da discussão antes mencionada convém apresentar alguns conceitos de EaD11, uma vez que eles estão presentes 11 De acordo com Preti (2002, p. 30) não há unanimidade sobre o que se entende por Ensino ou Educação a Distância. Citando a obra de Garcia Aretio (1994), Educação a Distância Hoy, lembra que 37 na literatura que trata do tema e tem sido objeto de reflexões e discussões que se refletem nas decisões sobre as políticas para a Educação a Distância. Em sua maioria esses conceitos são de caráter descritivo, construídos com base no ensino presencial. Além disso, enfatizam a separação física entre professor e aluno e a utilização de tecnologias para que o processo de comunicação se realize (GUAREZI e MATTOS, 2009). Entre outros, podemos considerar o conceito de Aretio (1994): EaD é um sistema tecnológico de comunicação bidirecional que substitui a interação pessoal, em sala de aula, entre professor e aluno como meio preferencial de ensino pela ação sistemática e conjunta de diversos recursos didáticos e pelo apoio de uma organização tutorial de modo a propiciar a aprendizagem autônoma dos estudantes (In: GUAREZI e MATOS, 2009, p. 19). Nessa mesma perspectiva descritiva, e elaborada com base no ensino presencial, está o conceito apresentado por Guédes (1984 apud PRETI, 2002, p. 31); “Educação a Distância é uma modalidade mediante a qual se transferem informações cognitivas e mensagens formativas através de vias que não requerem uma relação de contiguidade presencial em recintos determinados.” Outra definição é a expressa por Marin Ibañez (1986): Educação a Distância é um sistema multimídia de comunicação bidirecional com o aluno afastado do centro docente e ajudado por uma organização de apoio para atender de modo flexível à aprendizagem de uma população massiva e dispersa. Este sistema somente se configura em recursos tecnológicos que permitam economia de escala (In: PRETI, 2002, p. 31). Também o conceito proposto por Moore (1990) tem forte caráter descritivo e é construído a partir do ensino presencial destacando a função das tecnologias no processo. Educação a Distância é uma relação de diálogo, estrutura e autonomia que requer meios técnicos para mediatizar esta comunicação. Educação a Distância é um subconjunto de todos os programas educacionais caracterizados por: grande estrutura, baixo diálogo e grande distância transacional. Ela inclui também a aprendizagem (In: BELLONI, 2008, p. 26). Belloni (2008) considera Moore um representante da corrente americana de inspiração behaviorista12, de modo que em suas definições de EaD ele reforça a este autor apresenta mais de vinte definições, que mais do que fazer uma escolha permite aportar as características principais da EaD. 12 Behaviorism em inglês, também chamado de comportamentalismo, é o conjunto das teorias psicológicas que postulam o comportamento como o mais adequado objeto de estudo da Psicologia 38 importância da tecnologia educacional. De acordo com o que propõe o conceito de Moore, a transação denominada EaD ocorre entre alunos e professores, em um ambiente que possui como característica especial a separação entre professores e alunos. Essa separação produz diferentes comportamentos de alunos e professores, afetando tanto o ensino quanto a aprendizagem. Esse espaço psicológico e comunicacional que surge dessa separação e que deve ser transposto é chamado de distância transacional (MOORE, 1993 apud DIAS e LEITE, 2010). Essa distância geográfica “precisa ser suplantada por meio de procedimentos diferenciadores na elaboração da instrução e na facilitação da interação” (MOORE e KEARSLEY, 2007, p. 240 apud DIAS e LEITE, 2010, p. 78). Cortelazzo (2010) considera que a definição de Moore e Kearley se refere à EaD em uma concepção de distribuição de conteúdo ao aluno por meio de suportes tecnológicos, em que ficam bem separadas as fases de ensino e aprendizagem. Assim, o uso de meios tecnológicos e a existência de uma complexa estrutura organizacional são considerados elementos essenciais na Educação a Distância. No Decreto nº 5.622 de 19 de dezembro de 2005 que regulamenta a EAD (MEC, 2005), ela é caracterizada como: [...] modalidade educacional na qual a mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos (BRASIL, 2005). Para Peters (2009, p. 70), a EaD é sui generis, pois se trata de uma abordagem com estudantes, objetivos, métodos, mídias e estratégias diferentes e, acima de tudo, objetivos diferentes na política educacional. Ela exige, assim, abordagens que diferem dos formatos tradicionais de educação. Educação a Distância é um método de transmitir conhecimentos, competências e atitudes que é racionalizado pela aplicação de princípios organizacionais e de divisão do trabalho, bem como pelo uso intensivo de meios técnicos, especialmente com o objetivo de reproduzir material de ensino de alta qualidade, o que torna possível instruir um grande número de estudantes, ao mesmo tempo, onde quer que eles vivam. É uma forma industrializada de ensino e aprendizagem (PETERS, 1973 apud BELLONI, 2008, p. 27). Belloni (2008) considera a definição de Peters diferenciada e comenta a grande polêmica provocada por esse autor ao utilizar conceitos da economia e eliminando qualquer referência ao que não pode ser observado e descrito em termos objetivos. Pavlov pode ser considerado seu fundador (ABBAGNANO, 2000, p. 105). 39 sociologia industrial para definir a EaD, já que suas teses representam uma tentativa de ir além das definições meramente descritivas, ou de pelo menos descrever a EaD pelo que ela é.13 Não obstante as divergências entre autores, é preciso reconhecer que a Educação a Distância aplica princípios industriais na Educação. Busca-se o máximo resultado com menor investimento, o que revela grandes contradições. No entanto, não se pode com isso descartar a EaD completamente e não reconhecer suas potencialidades no campo educacional. É necessário discutir qual EaD, para que e para quem promovê-la. Nessa perspectiva esta pesquisa se desenvolve. Em uma de suas obras mais recentes – A Educação a Distância em transição – em um tópico intitulado A verdadeira natureza da Educação a Distância, Peters (2009, p. 69) afirma que: Há muitos membros do corpo docente que acreditam e estão mesmo convencidos de que a única diferença é apenas a “distância” e a importância da mídia técnica necessária para transpor o abismo entre quem ensina e quem aprende. Na opinião deles o resto do processo de ensinoaprendizagem permanece idêntico. No entanto, esta opinião está errada, mostra uma abordagem equivocada à Educação a Distância e revela uma atitude pedagógica inadequada. Peters chama a atenção para o equívoco de diferenciar a Educação a Distância da educação universitária convencional apenas pela introdução de mídias técnicas. Para o autor é muito mais do que isso, como menciona nos seguintes pontos: o objetivo humanitário especial, qual seja, a educação dos mal preparados e deixados de lado, inclusive da minorias; a extensão da educação universitária a adultos e pessoas com obrigações profissionais e familiares, ao objetivo de realizar a aprendizagem permanente, a uma universidade que seja abeta a todas as pessoas que são capazes de estudar e a quem se dá uma “segunda chance” de aproveitar e lucrar com a educação superior; as oportunidades sem paralelo de educação científica continuada, que é tão necessária em nossa época de constante mudança tecnológica, social e cultural; sua contribuição para a reforma universitária; e sua função de precursora da futura “universidade virtual” (PETERS, 2009, p. 69). Segundo o autor citado, quando se pensa em aprendizagem aberta e a distância, todas essas considerações devem ser consideradas, já que a Educação a 13 Em uma monografia publicada em 1967 na qual pretende oferecer uma contribuição para teoria da Educação a Distância, Otto Peters concebe a EaD como a forma mais industrializada de ensino e aprendizagem. Muito citada, sua abordagem se tornou um conceito amplamente aceito para definição de EaD (Editores de A Educação a Distância em transição, 2002, p. 17). 40 Distância é uma abordagem acima de tudo com “objetivos diferentes na política educacional” (PETTERS, 2009, p. 69-70). No entanto, é preciso salientar que, para Peters (2009), não há apenas um conceito (modelo) de Educação a Distância, mas sim uma variedade deles. Esses modelos podem petrificar-se ou cristalizar-se, se forem institucionalizados. Por isso, considera necessário apresentar um pequeno número de modelos selecionados o que dá novos insights de seus fundamentos conceituais: 1) o modelo da preparação para exame; 2) o modelo da educação por correspondência; 3) o modelo multimídia (de massa); 4) o modelo de Educação a Distância em grupo; 5) o modelo de aluno autônomo; 6) o modelo de ensino a distância baseado em rede; 7) o modelo de sala de aula tecnologicamente estendida. Comenta ainda sobre modelos híbridos, na qual a EaD é um elemento proeminente (PETERS, 2009, p. 73-83). Para Preti (2002, p. 25), a “Educação a Distância é antes de tudo educação, é formação humana, é processo interativo de heteroeducação e autoeducação. Mas por que, então, „a distância‟?” Procurar compreender a EaD pelo seu adjetivo, ou seja, pela distância, ou qualquer outro dos seus complementos, como a tecnologia utilizada, por exemplo, é tentar entender a Educação a Distância pelo que ela não é (PRETI, 2002; BELONI, 2008). Isso significa colocá-la em paralelo com a educação presencial e defini-la de maneira apofática como educação não presencial, ou seja, é conferir mais importância ao predicado que ao sujeito, como se ele existisse por si mesmo. Essa maneira de compreender a Educação a Distância provoca um desvio de foco, uma vez que se concentra em “como” o processo acontece, deixando de lado ou para segundo plano a caracterização do “que” ele é, e principalmente “quem” o realiza. Em outras palavras, ao se concentrar atenção sobre “a distância” aquilo que é fundamental, “o quem”, fica encoberto (PRETI, 2002). Um exemplo do que está se afirmando é a forma como a tecnologia é enfocada em discursos que pregam a democratização da educação e a promoção da cidadania. Ela aparece como a “redentora” de todos os problemas sociais da humanidade. Nesses conceitos explicitados, é possível notar que a ênfase em determinados aspectos, tais como o uso de tecnologias, a separação física entre professor e aluno, o processo de comunicação, a mediação, negligencia ou ao menos deixa em segundo plano o aspecto social, que, como se procurou mostrar, é fundamental no processo educativo (PRETI, 2002; BELONI, 2008). Uma abordagem 41 coerente da EaD não se esgota na formulação de um conceito adequado, ou seja, não é conceituando corretamente a EaD que se irá compreendê-la e por conseguinte fazê-la como processo educativo emancipatório. A educação é um fazer, é um processo, um trabalho no qual os seres humanos históricos e sociais entram em relação. Assim, ela comporta também uma dimensão política. Ela é um processo concreto historicamente situado e por isso mesmo também determinado por essas condições históricas. Duarte (2009), com base na concepção lukacsiana de sociedade – de que ela é um “complexo composto de complexos” –, propõe uma ontologia da educação a partir da consideração de que a educação adquire real significado como objeto da reflexão ontológica somente quando é analisada como um dos complexos que compõem o ser da sociedade. Como o ser da sociedade é histórico, somente nessa perspectiva histórica a essência ontológica da educação pode ser apreendida. No entanto, quando fala em essência ontológica, o autor não está se referindo a uma essência ideal metafísica, mas a ontologia entendida na perspectiva do materialismo histórico e dialético em que a essência passa a ser vista como algo que é gerado ao longo do processo histórico (DUARTE, 2009). Ora, é justamente essa ausência de fundamento ontológico que se percebe nos conceitos anteriormente apresentados sobre a EaD. O próprio fato de se tratar de conceitos já conduz ao afastamento da reflexão sobre o quem da Educação a Distância. A ênfase na distância ou no uso das tecnologias tende a relegar para segundo plano, ou mesmo excluir a questão ontológica, ou seja, o fato de a EaD se tratar de uma práxis social essencialmente humana. Essa práxis social aqui referenciada pode ser entendida como: [...] “atividade que toma por objeto não um indivíduo isolado, mas sim grupos ou classes sociais” [...]. Em um sentido mais estrito, a práxis social é a atividade de grupos ou classes sociais que leva a transformar a organização e a direção da sociedade, ou a realizar certas mudanças mediante a atividade do Estado. Essa forma de práxis é justamente a atividade política (VÁZQUEZ, 2007, p. 231). De acordo com o autor supracitado pode-se, então, dizer que a EaD é práxis na medida em que implica uma ação real, objetiva (atividade material consciente e objetivamente) sobre uma realidade humana, um tipo de práxis na qual o homem é sujeito e objeto dela, isto é, práxis na qual ele atua sobre si mesmo (VÁZQUEZ, 2007, p. 230). E é práxis social porque toma como objeto não um indivíduo isolado, mas grupos ou classes sociais. 42 As considerações apresentadas apontam a necessidade de aprofundar a compreensão da relação política, trabalho e educação, a fim de explicitar os pressupostos que nos permitam compreender a trajetória histórica da Educação a Distância em suas múltiplas determinações. 1.4 POLÍTICA, TRABALHO E EDUCAÇÃO Refletir sobre a relação política, trabalho e educação é tarefa fundamental quando se deseja discutir, avaliar e propor políticas educacionais, uma vez que as decisões tomadas terão impacto direto no trabalho dos educadores e no futuro de uma sociedade como um todo. Como lembra Marx, na Introdução para Crítica da Economia Política, “O homem é no sentido mais literal, um zoon politikon, não só animal social, mas animal que só pode isolar-se em sociedade” (MARX, 1982, p. 4). Explica o autor de O Capital que, quanto mais se recua na história, mais se percebe a dependência do indivíduo e do indivíduo produtor, como também se nota que mais amplo é o conjunto das relações a que pertence. Marx considera uma coisa absurda a produção do indivíduo isolado, fora da sociedade, como seria a produção da linguagem sem indivíduos que vivam juntos e falem entre si. E todas as épocas da produção têm certas características comuns, certas determinações comuns que estão ligadas ao grau de desenvolvimento social dos indivíduos sociais (MARX, 1982, p. 4). Enquanto produção humana e histórica, a política é derivada da própria ontologia do ser humano, ou seja, o homem é político porque historicamente se faz um ser político. No entanto, a produção da política está inserida em um contexto de múltiplas determinações e contradições que são próprias do existir humano em sociedade. Para Marx, o trabalho modifica a própria maneira de ser do homem “O trabalho que ultrapassa a mera atividade instintiva é assim a força que criou a espécie humana e a força pela qual a humanidade criou o mundo como o conhecemos” (BRAVERMAN, 1981, p. 52). Esse modo de pensar leva a entender que a maneira com que o homem trabalha atualmente é um produto histórico-social sobreposto à sua maneira instintiva de trabalhar. Diferentemente dos homens, a unidade entre a força motivadora e o trabalho em si mesmo nos animais é inviolável, de tal forma que uma aranha, por exemplo, não pode ensinar a outra uma nova 43 forma de trabalhar. Entre os humanos, ao contrário, a ideia concebida por uma pessoa pode ser executada por outra e restaurada na oficina, em um determinado grupo ou até na sociedade como um todo. Como explica Braverman (1981), o mais antigo princípio inovador do modo de produção capitalista foi a divisão manufatureira do trabalho, e de uma forma ou de outra permaneceu o princípio fundamental da organização industrial. Antes do capitalismo nenhuma sociedade subdividiu sistematicamente o trabalho em operações limitadas. A divisão social do trabalho é aparentemente inerente característica do trabalho humano tão logo ele se converte em trabalho social, isto é, trabalho executado na sociedade e através dela. Muito contrária a essa divisão é a divisão em pormenor (manufatureira) do trabalho, que é o parcelamento dos processos implicados na feitura do produto em numerosas operações executadas por diferentes trabalhadores. Enquanto a divisão social do trabalho subdivide a sociedade, a divisão parcelada subdivide o homem, enquanto a subdivisão da sociedade pode fortalecer o individuo e a espécie, a subdivisão do indivíduo, quando efetuada com menosprezo das capacidades e necessidades humanas, é um crime contra a pessoa e contra a humanidade (BRAVERMAN, 1981, p. 72). Sendo o trabalho uma atividade essencialmente humana e que constitui o próprio ser humano, é possível afirmar, a partir da consideração anterior, que a divisão social do trabalho, ao destruir ocupações específicas, descaracteriza e destrói o próprio ser humano. E é nesse sentido que Marx (1982, p. 334), afirma: “A divisão do trabalho no interior de uma sociedade e a divisão no interior de uma oficina diferem não apenas em grau, mas também em espécie”. Não se trata de uma alteração meramente quantitativa, mas também e principalmente qualitativa, com consequências na própria constituição do ser humano. Saviani (2006), ao tratar dos fundamentos ontológicos e históricos da relação trabalho e educação, afirma que, rigorosamente falando, apenas o ser humano trabalha e educa. Essas são, portanto, atividades exclusivamente humanas. Conforme o autor, a essência humana não é uma dádiva natural, garantida pela natureza, mas produzida pelos próprios homens: Ora, o ato de agir sobre a natureza transformando-a em função das necessidades humanas é o que conhecemos sob o nome de trabalho. Podemos, pois, dizer que a essência do homem é o trabalho. A essência humana não é, então, dada ao homem; não é uma dádiva divina ou natural; não é algo que precede a existência do homem. Ao contrário, a essência humana é produzida pelos próprios homens. O que o homem é, é-o pelo 44 trabalho. A essência do homem é um feito humano. É um trabalho que se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo: é um processo histórico (SAVIANI, 2006, p. 3). Nesse mesmo sentido, a educação, a formação do homem é um processo que coincide com o ser do homem mesmo. Se a existência humana não é garantida pela natureza, não é uma dádiva natural, mas tem que ser produzida pelos próprios homens, sendo, pois, um produto do trabalho, isto significa que o homem não nasce homem. Ele se forma homem. Ele não nasce sabendo produzir-se como homem. Ele necessita aprender a ser homem, precisa aprender a produzir sua própria existência. Portanto, a produção do homem é, ao mesmo tempo, a formação do homem, isto é, um processo educativo. A origem da educação coincide, então, com a origem do homem mesmo (SAVIANI, 2006, p. 4). A partir das considerações citadas, é possível perceber que a relação trabalho e educação é uma relação dialética, que acontece no movimento histórico. “Os homens aprendiam a produzir sua existência no próprio ato de produzi-la. Eles aprendiam a trabalhar, trabalhando” (SAVIANI, 2006, p. 4). Todavia, o desenvolvimento da produção conduziu à divisão do trabalho. Surgiu a propriedade privada e com ela a divisão dos seres humanos em classes. Esse fato é fundamental na história da humanidade e implicará diretamente a própria compreensão ontológica do homem. Como afirma Saviani (2006), se é o trabalho que define a essência humana, então não é possível viver sem trabalhar. Todavia, a propriedade privada torna possível viver do trabalho alheio. A divisão dos homens em classes provoca também uma divisão na educação. De modo que passa a existir na história da humanidade uma educação voltada para os proprietários, livres, que privilegiava a arte da palavra, o intelectual, bem como exercícios físicos de caráter militar, e outra para os escravos, que enfatizava o próprio processo de trabalho. O primeiro tipo de educação deu origem à escola e consequentemente ao processo de institucionalização da educação, que não acontece em um processo contínuo e regular, mas profundamente marcado por contradições e rupturas. Com o surgimento do capitalismo, a relação trabalho e educação sofreu uma nova determinação. A emergência do capitalismo e as mudanças no modo de produção da vida passou a exigir dos seres humanos um nível elementar de cultura para poder se inserir nessa nova maneira de produzir e garantir a própria existência. “[...] à Revolução Industrial correspondeu uma Revolução Educacional: aquela colocou a máquina no centro do processo produtivo; esta erigiu a escola em forma principal e dominante de educação” (SAVIANI, 2006, p. 9). 45 Essas considerações trazem elementos que colaboram fundamentalmente na reflexão sobre política, trabalho e educação. Uma consideração importante a ser feita diz respeito às condições do atual modo de produção. No capitalismo globalizado, a educação e o trabalho educativo assumiram características bastante singulares. O avanço tecnológico e, sobretudo, a contínua mercadorização de serviços chegaram também ao setor educacional. Assim, a educação se tornou insumo necessário para o sistema, cujas ocupações exigem maior qualificação e se converteu também em um grande nicho para geração de lucros. Como suporte para a necessidade alardeada de formação permanente, apareceram grandes teorias pregando o fim do trabalho vivo, degradado, e anunciando uma nova era: “A era da informação”14, em que o trabalho terá uma nova configuração, baseada na comunicação e nas redes, com destaque para internet (ANTUNES e BRAGA, 2009). Em outras palavras, a centralidade da educação é estrategicamente articulada de tal maneira a criar condições para o desenvolvimento de um grande mercado internacional de produtos e serviços educacionais que respondam às necessidades do capital multinacional. Como expressa Saviani (2002, p. 22): A educação, que tenderia, sobre a base do desenvolvimento tecnológico propiciado pela microeletrônica, à universalização de uma escola unitária capaz de propiciar o máximo de desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos e conduzi-los ao desabrochar pleno de suas faculdades espirituais, é colocada, inversamente, sob a determinação direta das condições de funcionamento do mercado capitalista. Essa consideração se refere a um ponto fulcral no que diz respeito à educação e sua relação com a política e o trabalho, qual seja, de que tal relação acontece sob as determinações do atual modo de produção capitalista. Nesse sentido, não há neutralidade, nem tão pouco autonomia absoluta, na organização de nenhum dos entes aqui mencionados. Portanto, é possível falar de uma negação ontológica, da política, do trabalho e da educação, quando passam a atender os interesses do mercado capitalista e deixam de responder aos anseios de emancipação do homem. Fica evidenciado o potencial de dominação presente na lógica econômica capitalista que penetrou também no setor educacional. Com isso, ocorre uma inversão axiológica que conduz à descaracterização da educação, que, de direito 14 Esse é o título da obra em três volumes do sociólogo catalão Manuel Castells que Ricardo Antunes e Ruy Braga (2009), consideram um sofisticado corolário do senso comum acadêmico. 46 social para promoção integral do ser humano se converte em mercadoria/serviço oferecido de acordo com as regras do mercado. Nesse contexto, a Educação pode ser vista como uma grande oportunidade de negócios lucrativos, ao mesmo tempo amparada por um discurso de democratização do ensino que possui grande aceitação por ir ao encontro dos anseios da humanidade em escala mundial. Em outras palavras, a razão de ser do trabalho, da educação e da política fica comprometida, pois, sob as imposições do capital, essas produções humanas se convertem em mecanismos de controle de classe. O que deveria promover o humano converte-se em instrumento da sua degradação. Com isso, a educação se torna um aparelho da estrutura do capital. E o “trabalho pedagógico torna-se fragmentado, respondendo às demandas de agências reguladoras do mundo do trabalho capitalista [...]” (KUENZER, 2005, p. 84). Por conta da complexidade do tema e da própria perspectiva teórico-metodológica que nos orienta, abordamos no próximo capítulo a história da Educação a Distância no Brasil em sua relação com o modo de acumulação, destacando as políticas de formação continuada a distância de professores no Estado do Paraná. 47 2. PROCESSO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL Por isso a humanidade coloca sempre a si mesma apenas as tarefas que pode resolver, pois que, a uma consideração mais rigorosa, se achará sempre que a própria tarefa só aparece onde já existem, ou pelo menos estão no processo de se formar, as condições materiais da sua resolução (MARX, 1982). O propósito do presente capítulo é abordar o processo histórico da Educação a Distância no Brasil. Essa abordagem é de importância fundamental em face da perspectiva teórica que nos orienta. No entanto, a maneira de tratar a história da Educação a Distância passa pela análise e compreensão do que sejam ambas, História e EaD, já que a própria compreensão do que é História e do que é Educação a Distância são também constructos históricos. Na literatura que trata do tema, é possível notar essas diferentes compreensões que proporcionam análises e conclusões também diferentes e até contraditórias. Parte-se aqui do entendimento da “história como um processo, cujo movimento necessita ser reconstruído pelo historiador” (SAVIANI, 2010, p. 11). E nessa mesma perspectiva entende-se a Educação a Distância como uma prática social que se desenvolve em condições concretas marcadas por contradições e luta de classes. Em razão das considerações anteriores, antes de tratar especificamente do processo histórico da EaD no Brasil, convém fazer alguns esclarecimentos sobre Educação e História. Essas considerações são fundamentais para balizar a abordagem e as análises realizadas na sequência, já que tratar da formação continuada de professores requer atenção ao caráter histórico do fenômeno educativo. Um primeiro ponto a ser destacado é que a educação 15, antes de ser adjetivada por qualquer “modalidade”, como a distância, por exemplo, ou qualquer outra característica específica, é educação, ou seja, uma prática social de formação humana. Saviani (2000), ao tratar da natureza e especificidade da educação, começa por dizer que ela é um fenômeno próprio dos seres humanos. Essa afirmação conduz à reflexão sobre a identidade do ser humano, ou seja, o esclarecimento do 15 Do grego: Παιδεία; latim: Educatio; inglês: Education; francês: Éducation; alemão: Erziebung; italiano: Educazione. Em geral, designa-se com esse termo a transmissão e o aprendizado das técnicas culturais, que são as técnicas de uso, produção e comportamento, mediante as quais um grupo de homens é capaz de satisfazer suas necessidades, proteger-se contra a hostilidade do ambiente físico e biológico e trabalhar em conjunto, de modo mais ou menos ordenado e pacífico (ABBAGNANO, 2000, p. 305). 48 que diferencia o ser humano dos demais fenômenos, dos outros seres vivos. E como o fazem Marx e Engels em A ideologia alemã, o que diferencia o homem dos outros animais é o trabalho. Podemos distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião por tudo o que se queira. Mas eles próprios começam a distinguir-se dos animais logo que começam a produzir os seus meios de existência, e esse passo à frente é a própria consequência de sua organização corporal. Ao produzirem os seus meios de existência, os homens produzem indiretamente a sua própria vida material. O modo como os homens produzem os seus meios de existência depende, em primeiro lugar, da natureza dos próprios meios de existência encontrados e a reproduzir. Este modo da produção não deve ser considerado no seu mero aspecto de reprodução da existência física dos indivíduos. Ao contrário, ele representa, já, um modo determinado da atividade desses indivíduos, uma maneira determinada de manifestar sua vida, um modo de vida determinado. A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com a sua produção, isto é, tanto com o que produzem quanto com a maneira como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais da sua produção (MARX e ENGELS, 2008, p. 10-11). Como se pode notar, Marx e Engels não partem do conceito de homem, nem tão pouco criam um conceito para identificá-lo e distingui-lo dos animais, mas assim como na Sexta Tese contra Feuerbach afirmam que a essência do homem é o conjunto das relações sociais. Dessa forma, a conformação corpórea natural é condição necessária do ser homem, e não condição suficiente de modo que a humanização do ser biológico específico só se dá dentro da sociedade e pela sociedade (GORENDER, 2008). Entretanto, como salienta Duarte (2009), falar do desenvolvimento do gênero humano ao longo da história social não implica necessariamente adotar uma perspectiva evolucionista linear, homogênea e etnocêntrica, pois, na perspectiva materialista histórico-dialética, analisa-se o desenvolvimento da humanidade como um processo histórico contraditório, heterogêneo, o qual se realiza por meio das concretas relações sociais de dominação que caracterizam a história humana. Nessa concepção está presente a noção dialética entre humanização e alienação de que a humanidade tem se desenvolvido, tem se humanizado, por meio das sociedades marcadas por relações sociais alienadas. Com relação à história, em A Ideologia Alemã, na parte dedicada à crítica ao pensamento de Feuerbach, Marx e Engels defendem uma concepção que se apoia no pressuposto de que é pelo trabalho que os homens se humanizam, portanto se diferenciam dos animais. Partem do pressuposto de que todos os homens devem ter condições de viver para poder fazer história: 49 O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitem satisfazer essas necessidades, a produção da própria vida material; e isso mesmo constitui um fato histórico, uma condição fundamental de toda a história que se deve, ainda hoje como há milhares de anos, preencher dia a dia, hora a hora, simplesmente para manter os homens com vida (MARX e ENGELS, 2008, p. 21). Como se pode ver, a concepção de história apontada está diretamente relacionada com o trabalho, enquanto uma ação adequada a finalidades, uma ação intencional, que distingue os indivíduos humanos, que produzem seus meios de vida, condicionados por sua organização corpórea e associados em agrupamentos. O trabalho humano é, portanto, uma atividade necessariamente teleológica. Com base nessas premissas, afirma Saviani (2000, p. 15), no que diz respeito à educação: “Dizer, pois, que a educação é um fenômeno próprio dos seres humanos, significa afirmar que ela é, ao mesmo tempo, uma exigência do e para o processo de trabalho, bem como é, ela própria, um processo de trabalho”. Mas se a educação é, assim, um processo de trabalho, que tipo de trabalho é esse? Explica o autor que, para produzir materialmente, o ser humano precisa conceber mentalmente o que irá produzir e como irá produzir, ou seja, produz ideias, conceitos, símbolos, valores, o que pode ser compreendido como trabalho não material. Trata-se, pois, da produção do saber do conjunto da produção humana, e é nessa categoria de trabalho que se situa a educação. Mas, ainda nessa caracterização, é preciso distinguir o trabalho não material, em que o produto se separa do produtor, como, por exemplo, a produção de livros e aquele no qual ele, o produto, não se separa do ato produtivo. É nessa segunda modalidade que se situa a educação e sua natureza se explica a partir dessa premissa (SAVIANI, 2000). Como exemplifica o autor: [...] se a educação não se reduz ao ensino, é certo, entretanto, que ensino é educação e, como tal, participa da natureza própria do fenômeno educativo Assim, a atividade de ensino, a aula, por exemplo, é alguma coisa que supõe, ao mesmo tempo, a presença do professor e a presença do aluno. Ou seja, o ato de dar aula é inseparável da produção desse ato e de seu consumo. A aula é, pois, produzida e consumida ao mesmo tempo (produzida pelo professor e consumida pelos alunos) (SAVIANI, 2000, p. 1617). A partir dessas considerações sobre a natureza da educação, avança o autor na compreensão da sua especificidade e a situa como referida aos conhecimentos, ideias, conceitos, valores, atitudes, símbolos sob o aspecto de elementos necessários à formação da humanidade em cada indivíduo singular como uma 50 segunda natureza, que se produz em um processo pedagógico histórico e intencional. Nas palavras do autor: Em conclusão: a compreensão da natureza da educação enquanto trabalho não material cujo produto não se separa do ato da produção nos permite situar a especificidade da educação como referida aos conhecimentos, ideias, conceitos, valores, atitudes, símbolos sob o aspecto de elementos necessários à formação da humanidade em cada indivíduo singular, na forma de uma segunda natureza, que se produz deliberada e intencionalmente, através de relações pedagógicas historicamente determinadas que se travam entre os homens (SAVIANI, 2000, p. 28). Essas considerações fazem perceber que o fenômeno educativo é muito mais complexo do que pode aparentar em um primeiro momento de modo superficial. Essa complexidade deriva principalmente do fato de se tratar de uma prática essencialmente humana e que, como tal, também carrega as características inerentes ao ser social que a produz e que é por ela produzido. 2.1 A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E SUA RELAÇÃO COM O MODO DE ACUMULAÇÃO “Às vezes os novos meios de informação e comunicação são louvados por que ultrapassam os limites e as restrições do tempo, da distância geográfica e da dependência das pessoas, o que é considerado uma inovação decisiva e sem paralelo. No entanto do ponto de vista pedagógico, isso significa que seus defensores estão tentando reinventar a roda” (PETERS, 2009, p. 28). Otto Peters, considerado uma importante autoridade no campo da EaD, no primeiro capítulo de sua obra A Educação a Distância em transição escreveu que: “A história da Educação a Distância16 tem sempre sido a história de sua crescente importância” (PETERS, 2009, p. 27). Para esse autor, que concebe a Educação a Distância como “a forma mais industrializada de ensino e aprendizagem”17, pode-se dividir a história da EaD em quatro períodos significativos, sendo sua importância diferenciada em cada um deles. 16 As expressões: ensino a distância e Educação a Distância já eram utilizadas na Alemanha na década de 1960 em substituição à expressão “estudo por correspondência”, em uso durante mais de um século (Em 1967 foi criado o Deutches Institut fur Fernstudien (DIFE – Instituto Alemão de Educação a Distância). O sueco Börje Holmberg passou a empregá-la e divulgá-la, inicialmente. O inglês Desmond Keegan e Charles A. Wedemeyer (1966), introduziram no mundo anglo-saxônico, a partir da criação da Open University (Universidade Aberta) em 1969 (GARCIA ARETIO, 1994, p. 2829; NISKIER, 1999, p. 53 apud PRETI, 2002, p. 29-30). 17 Editores de “A Educação a Distância em transição” (2004), In: Peters (2009, p. 17). 51 As primeiras experiências de EaD foram singulares e isoladas e com relação a elas, Peters (2009), faz menção às epístolas de São Paulo (10-76 d.C.), escritas a fim de ensinar as comunidades cristãs da Ásia Menor a como viver como cristão em um ambiente desfavorável. Segundo o autor, a abordagem de Paulo foi baseada na tecnologia disponível na época, ainda que pré-industrial, e mostra claramente a substituição da pregação e do ensino face a face por pregação e ensino assíncronos e mediados. Martins (2005) também afirma que desde a Antiguidade pode-se constatar iniciativas de intercambiar informações entre pessoas ou cidades distantes geograficamente. O uso da comunicação por correspondência estava presente tanto na Grécia como em Roma posteriormente. Contudo, será na modernidade que aparecerão as primeiras iniciativas de ensinar a distância. O professor Gauleb Philips publicou em 1728 um anúncio na Gazeta de Boston oferecendo um curso de taquigrafia no qual as pessoas poderiam receber as lições semanalmente em casa e “aprender perfeitamente esta arte como aqueles que vivem em Boston” (SARAIVA, 1996, p. 18). No entanto, é no século XIX, na Europa, que o ensino por correspondência irá se caracterizar como a primeira geração da Educação a Distância. No que diz respeito a esse primeiro período, Petters (2009) afirma que, em meados do século XIX, essa prática de Educação a Distância pode ser identificada em todos os locais onde a industrialização modificou as condições sociais, tecnológicas e profissionais de vida. De modo um tanto paradoxal, o autor afirma que a mudança na prática educacional foi tão forte na época que algumas necessidades educacionais não foram sequer reconhecidas. No entanto, os empresários do início da Revolução Industrial, sobretudo os editores, “perceberam que poderiam lucrar com a produção e a distribuição em massa de materiais para estudo utilizando as tecnologias dos correios e das ferrovias” (PETERS, 2009, p. 30). O mesmo autor na sua obra Didática do Ensino a Distância procura responder ao questionamento de por que a EaD se desenvolveu em meados do século XIX à parte das instituições que o Estado havia instituído para formar os seus cidadãos? E ainda, por que, embora isso não tivesse sido planejado pelos responsáveis, ela pôde se desenvolver nas décadas seguintes? Procurando dar respostas aos questionamentos levantados, afirma o autor: No ensino a distância não se visava – como acontece geralmente no ensino público – buscar recursos financeiros, a fim de que pessoas pudessem 52 formar-se e receber educação, mas sim se queria que as pessoas estudassem algo para que a instituição que oferecia ensino pudesse ganhar dinheiro – portanto, ter lucro. O surgimento do ensino a distância tinha motivos comerciais. Seus pioneiros eram empresários (PETERS, 2006, p. 200). O ensino por correspondência seguiu a industrialização do trabalho, preenchendo lacunas e compensando as deficiências do sistema educacional, especialmente no treinamento profissional, e facilitando o primeiro curso alternativo (um segundo) para entrada na universidade. Como se pode notar, existe uma relação direta entre as mudanças no modo de produção da vida, ou seja, no mundo do trabalho, e as necessidades que surgem no campo educacional. A organização dominante do capitalismo nesse primeiro período da Educação a Distância era o fordismo. Para Harvey (1996) esse modelo industrial propõe a produção em massa para mercados de massa tendo como princípios: a baixa inovação dos produtos, a baixa variabilidade dos processos de produção e baixa organização de trabalho. As iniciativas de Educação a Distância nessa fase procuram atender às necessidades dessa organização produtiva, quando o processo artesanal de trabalhar foi ficando cada vez mais industrializado. Empregam-se os princípios da produção em massa e do consumo em massa. [...] onde até então, no caso do docente, tudo estava na mão de uma única pessoa, foi estabelecida a divisão do trabalho, colocando por exemplo, o planejamento, o desenvolvimento e a exposição do ensino, bem como a correção dos trabalhos nas mãos de diversas pessoas, podendo as tarefas serem realizadas em épocas diferentes, em lugares diferentes (PETERS, 2006, p. 200). Dessa forma, o autor citado explica que, onde os docentes realizavam o ensino até então, usando suas capacidades físicas, o processo foi mecanizado, e depois automatizado, padronizado, normalizado e definido, ou seja, objetivado. O ensino tornou-se um produto que podia ser modificado, otimizado podendo ser vendido, não apenas in loco, mas como mercadoria produzida industrialmente, anunciada com propaganda para venda em um mercado suprarregional. O trabalho das universidades a distância fundadas a partir da década de 1970, principalmente pela Open University confirmam essa concepção de ensino industrializado (PETERS, 2006). 53 Nesse contexto é possível perceber também a presença da ideologia da teoria do capital humano18 que postula a necessidade de investir em educação para proporcionar o desenvolvimento econômico. Esse segundo período da história da EaD coincide com o período no qual a humanidade passou por duas grandes guerras mundiais. Também nesse período predominará a economia keynesiana e a política do Estado de bem-estar, que, na chamada era de ouro do capitalismo, preconizava o pleno emprego. A educação, conforme a versão originária da teoria do capital humano tinha por função preparar as pessoas para atuar em um mercado em expansão (SAVIANI, 2010, p. 429). Nos anos 1970 começa um novo período na história da Educação a Distância, caracterizada pelo uso de dois meios de comunicação de massa eletrônicos analógicos: o rádio e a televisão e pela emergência de universidades multimídia de uma única modalidade desse método. Um exemplo é a Open University britânica, cujo modelo influenciará a organização de universidades Abertas em todo mundo. Desse modo, a produção em massa de materiais impressos foi suplementada pelas transmissões desses meios de comunicação. “Agora essa forma de aprendizagem foi não apenas reconhecida, como ativamente financiada pelos governos. Sua imagem pública melhorou muito” (PETERS, 2009, 32). Entretanto, esse novo período da história da EaD coincide com a crise das sociedades capitalistas que levou a reestruturação dos processos produtivos, revolucionando a base técnica da produção e conduzindo à substituição do fordismo pelo toyotismo. Esse novo modelo produtivo, diversamente do anterior, apoia-se em tecnologia leve, de base microeletrônica flexível, opera com trabalhadores polivalentes e sem estabilidade no emprego, que disputam diariamente seu lugar na empresa. Produz-se conforme a demanda de nichos específicos, dispensando a formação de estoques (SAVIANI, 2010). 18 A origem dessa teoria liga-se ao surgimento da disciplina Economia da Educação, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1950. Theodore W. Schultz, professor do departamento de economia da Universidade de Chigago à época, é considerado o principal formulador dessa disciplina e da ideia de capital humano. Esta disciplina específica surgiu da preocupação em explicar os ganhos de produtividade gerados pelo “fator humano” na produção. A conclusão de tais esforços redundou na concepção de que o trabalho humano, quando qualificado por meio da educação, era um dos mais importantes meios para a ampliação da produtividade econômica, e, portanto, das taxas de lucro do capital. Aplicada ao campo educacional, a ideia de capital humano gerou toda uma concepção tecnicista sobre o ensino e sobre a organização da educação, o que acabou por mistificar seus reais objetivos (MINTO, L. W. In: Navegando pela história da educação brasileira. Disponível em: <www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_teoria_%20do_capital_humano.htm>. Acesso em: 24/jul./2011). 54 Peters (2009) considera que, nos anos 1970, 1980 e 1990, a Educação a Distância ajudou as universidades nos países industrializados e os países em desenvolvimento a canalizar um crescente número de alunos que não completaram o segundo grau para a Educação Superior, desenvolvendo novas formas de combinação de trabalho e estudo. A partir de 1990, começa então o quarto período na história da EaD, caracterizado pelo uso crescente de ambientes informatizados de aprendizagem em rede, portanto, da aprendizagem on-line. Sobre esse período Peters (2009, p. 41) afirma que os sistemas educacionais pressionados por uma variedade de forças sociais, econômicas e tecnológicas estão se modificando rápida e dramaticamente. “É por causa dessas mudanças que a importância da Educação a Distância está agora novamente aumentando”. No entanto, conforme afirma Saviani (2010, p. 420-430), se, após a crise da década de 1970, a importância da escola e pode-se dizer da educação, para o processo econômico-produtivo. foi mantida, mas a teoria do capital humano assumiu um novo sentido. Se o significado anterior estava pautado em demandas coletivas, como o crescimento econômico do país, a riqueza social e o incremento do rendimento dos trabalhadores, na década de 1990 prevalece outro, derivado de uma lógica que prioriza a satisfação de interesses privados. Agora não se trata mais de iniciativas do Estado ou de outras instâncias planejadoras objetivando a preparação de mão de obra, mas é o indivíduo o responsável por escolher que conhecimentos adquirir para manter-se competitivo no mercado de trabalho. “A educação passa a ser entendida como um investimento em capital humano individual que habilita as pessoas para a competição pelos empregos disponíveis” (SAVIANI, 2010, p. 430). É justamente nesse contexto que ganha destaque o discurso pela formação continuada de professores e a ênfase na EaD. Os discursos expressos nos documentos oficiais de Organismos internacionais, como o Banco Mundial, a UNESCO, a Cepal apontam para essa direção. Incentivam e financiam Estados e favorecem a introdução da iniciativa privada no oferecimento desse tipo de formação que deve ser por toda vida (long life education). Contudo, manter-se em formação permanente não significa garantia de emprego, mas apenas estar em condições de disputar uma vaga no mercado de trabalho. 55 Com relação e essa concepção de educação permanente19, Peters (2006) afirma que podem ser registradas duas etapas da atualidade. A primeira começou em 1970 quando organismos supranacionais como a UNESCO, a OCDE, o Conselho Europeu e a Conferência Permanente dos Ministros de Cultura Europeia utilizaram o conceito e se engajaram em favor da realização da educação permanente. A segunda começa na metade dos anos 1990 e tem uma nova qualidade, a exigência das transformações técnicas, sociais e econômicas. “Hoje a expressão educação permanente está novamente na boca de todos” (PETERS, 2006, p. 190). As decisões tomadas em Conferências Mundiais sobre Educação também confirmam essa adesão aos princípios da ordem econômica atual, denominada de pós-fordista e pós-keynesiana, que se alicerça na exclusão. Contraditoriamente, esses organismos promovem um discurso aparente de inclusão, mas que na prática converte-se no agravamento das desigualdades impostas pelo sistema capitalista. É possível a economia crescer mesmo com altas taxas de desemprego e a exclusão de enormes contingentes populacionais excluídos do processo (SAVIANI, 2010). O que se expôs até aqui oferece subsídios para algumas possíveis considerações: 1) tudo que os seres humanos produzem é histórico, assim também a Educação a Distância precisa ser entendida nessa perspectiva; 2) que o surgimento e as fases pelas quais passa a trajetória histórica da EaD até o seu momento atual estão ligadas a mudanças ocorridas nos sistemas produtivos; 3) que a ênfase na necessidade de formação continuada de professores, utilizando para isso os recursos da EaD, surge em um contexto de reestruturação produtiva em que ganham destaque as políticas neoliberais, configurando-se uma verdadeira pedagogia da exclusão. Considerando o contexto histórico em que essa pesquisa está inserida, qual seja, após a promulgação da LDBEN 9.394/96, alguns pontos aqui mencionados serão explicitados melhor ao abordarmos a formação continuada de professores no contexto brasileiro e particularmente no Estado do Paraná. 19 A dificuldade de descrever e delimitar o conceito de estudo permanente de forma precisa provém do modo como ele surgiu. No fundo ele denomina todo um conjunto de conceitos, no qual se localizam ideias-alvo e em parte também estratégias defendidas por diferentes instituições supranacionais. A ideia fundamental, no entanto, era fazer como que, a partir de então, o ensino não ficasse restrito à infância e à juventude e às respectivas instituições, mas sim, que se distribuíssem a educação escolar, a educação profissional e a formação complementar de modo novo ao longo do ciclo de vida (PETERS, 2006, p. 191). 56 2.2 A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES E A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL Alves (2009), que ampara suas considerações em estudos realizados pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), com base em elementos disponíveis na época, afirma que pouco antes de 1900, já existiam anúncios em jornais de circulação no Rio de Janeiro oferecendo cursos profissionalizantes por correspondência. Tratava-se de cursos de datilografia ministrados por professores particulares, e não por organizações. Não obstante essas iniciativas isoladas, o autor aponta como marco de referência oficial do início da EaD no Brasil, a instalação das escolas internacionais em 1904. Formalmente estruturada, a unidade de ensino era filial de uma organização norte-americana, que oferecia cursos por correspondência voltados para pessoas que buscavam empregos, sobretudo na área de comércio e serviços (ALVES, 2009). Mas apesar dessas considerações, a maioria dos autores consultados afirma que no Brasil as primeiras manifestações de Educação a Distância datam de 1923, com a criação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro por Roquete Pinto (NUNES, 1993, 1994), (PRETI, 1996), (BARROS, 2003), (MARTINS, 2005), (GUAREZI 2009). Coordenada por um grupo da Academia Brasileira de Letras, a Rádio transmitia programas de radiotelegrafia e telefonia, literatura, línguas, entre outros (GUAREZI, 2009). Fatos relevantes marcam a segunda década do século XX no Brasil. Nessa década, em que aparecem as primeiras manifestações de EaD, ocorreu a fundação do Partido Comunista (1922), o Movimento dos 18 do Forte (1922), a Semana de Arte Moderna (1922), a Revolta Tenentista (1924) e a Coluna Prestes (1924 a 1927). No campo educacional foram realizadas diversas reformas estaduais, como as de Lourenço Filho, no Ceará, em 1923, a de Anísio Teixeira, na Bahia, em 1925, a de Francisco Campos e Mario Casassanta, em Minas, em 1927, a de Fernando de Azevedo, no Distrito Federal (na época Rio de Janeiro), em 1928, e a de Carneiro Leão, em Pernambuco, em 1928. Paulatinamente o pensamento escolanovista vai se firmando como proposta pedagógica, produzindo as condições favoráveis ao movimento renovador que desemboca no Manifesto dos Pioneiros de 1932. Saviani (2010) salienta que no campo educacional tem-se a presença de duas forças que desempenham um papel relativamente importante na sustentação 57 do “Estado de Compromisso”. De um lado o movimento renovador, estimulado pelo processo de industrialização e modernização; e de outro a Igreja Católica, procurando recuperar terreno. Cada uma à sua maneira concorre para a realização do projeto da burguesia industrial. É guiado por esse projeto que o Brasil adota o modelo de substituição de importações, instalando indústrias de bens não duráveis até o início dos anos 1950 e de consumo duráveis ao final dessa mesma década. Em 1937 é criado o serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação. Essa iniciativa estatal tinha o objetivo de difundir a concepção de educação defendida pelo Estado. Havia a preocupação em garantir a ordem moral e cívica, a obediência de todos. Para tanto, era necessário formar cidadãos sintonizados com os princípios do Estado e preparados para o aperfeiçoamento da máquina administrativa e burocrática (BARROS, 2003). Contando com cursos de mecânica, desenho artístico, eletricidade, entre outros, o Instituto Universal Brasileiro criado nos anos 1940 em São Paulo foi o pioneiro na oferta de formação profissionalizante em nível médio por correspondência no Brasil. Em 1956, na Diocese de Natal RN, surgiu um dos movimentos de maior destaque em Educação a Distância no Brasil. O Movimento de Educação de Base (MEB). Era uma iniciativa da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e tinha como ação básica a alfabetização de jovens e adultos das classes mais baixas da população. Em 1964 o Golpe Militar extinguiu o Programa (PRETI, 2002), (MARTINS, 2005). Mas, apesar de ter suas raízes na década de 1920 e contar com algumas outras iniciativas esparsas desde então, é a partir da década de 1960 que a EaD se desenvolverá de maneira acentuada no Brasil. Em 1965 é constituída uma Comissão para estudos e Planejamento da Radiodifusão Educativa, que conduziu à criação em 1972 do Programa Nacional de Teleducação (PRONTEL). Também nesse ano é criada Fundação Centro Brasileiro de Televisão educativa que em 1981 passou a ser denominada FUNTEVE. Para os militares, a educação era parte do projeto nacional de desenvolvimento social e econômico visando à criação de um Brasil grande e segundo a política de Segurança Nacional. Em 1964, foi criada uma rede de TVs educativas. Três anos depois, em 1967, o governo do Estado de São Paulo criou a Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) objetivando divulgar atividades educativas e culturais por meio do rádio e da televisão. No Ceará, a TV Educativa teve início em 58 1969 e desenvolveu um programa para atender alunos de 5ª e 6ª séries para regiões onde essas séries não existiam (PRETI, 2002). Com o objetivo de promover cursos supletivos de 1º e 2º graus veiculados pelo rádio, em cadeia nacional em1970 foi criado o Projeto Minerva. Esse projeto foi uma iniciativa do então governo militar para resolver em curto prazo os problemas de desenvolvimento político, social e econômico do país (GUAREZI, 2009). Os alunos adultos estudavam utilizando fascículos impressos que continham textos trabalhados nos programas radiofônicos. A programação podia ser acompanhada em radiopostos instalados ou mesmo em casa (BARROS, 2003). Nesse período desenvolve-se também o projeto SACI (Sistema Avançado de Comunicações Interdisciplinares). Apesar de ter sido logo abandonado, constitui-se na primeira experiência a utilizar tecnologia de televisão via satélite para fins educacionais no Brasil (GUAREZI, 2009). Em 1977, o MEC criou um grupo de trabalho para estudar a implantação de uma universidade Aberta e a Distância aos moldes da Open University do Reino Unido. No entanto, o projeto não foi bem visto pela comunidade acadêmica que julgou estar com isso se armado um imenso esquema facilitador. Na década de 1970 desenvolvem-se também o Projeto João da Silva e o Projeto Conquista para o ensino de primeiro grau, considerados pioneiros no Brasil e no mundo pelo seu formato de telenovela (BONEVARDE 1987, In: PRETI, 2002). No campo da formação de professores merece destaque o Programa Logos que de 1977 a 1991, atendeu cerca de cinquenta mil professores, qualificando aproximadamente trinta e cinco mil deles em dezessete estados do Brasil. Na década de 1990 foi desativado e substituído pelo Programa de Valorização do Magistério. É dessa época também o POSGRAD (Pós-Graduação tutorial a Distância), que implantado em caráter experimental entre 1979 e 1983 pela CAPES apresentou resultados positivos. No entanto, o MEC, mesmo sem apresentar razões plausíveis não deu continuidade ao programa (PRETI, 2002), (ALVES, 2009). Em 1978, a Fundação Roberto Marinho (TV Globo) criou o Telecurso de 2º grau, hoje denominado Telecurso 2000. Na universidade de Brasília o Centro de Educação Aberta e a Distância (CEAD) desde 1979 vem oferecendo cursos de educação continuada a distância. Em 1990 o Ministério da Educação e a Fundação Roquete Pinto (TVE-RJ) promoveram o programa “Um Salto para o Futuro”, objetivando qualificar professores do Ensino Fundamental em serviço no Brasil, utilizando os recursos da televisão via 59 satélite, com inserções ao vivo em horários e dias predeterminados e a disponibilização de material impresso. O aperfeiçoamento desse programa pelo MEC, em 1995, conduziu à criação do Projeto TV-Escola, com o objetivo de promover o aperfeiçoamento e a valorização dos professores da rede pública. A partir de 1995, a Universidade Federal do Mato Grosso por meio do Núcleo de Educação Aberta e a Distância (NEAD) se tornou referência em Educação Superior a distância com a oferta de dois programas: o Curso de Licenciatura Plena em Educação Básica da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental, para professores da Rede Pública sem qualificação de terceiro grau, e o Curso de Formação de orientadores acadêmicos em EaD. No final de 1992, formaram-se 210 professores em Licenciatura Plena em Educação Básica. Esse curso é um marco, porque foi o primeiro curso de graduação a distância (formação inicial de professores) ofertado no Brasil (PRETI, 2002), (MARTINS, 2005). Como já é possível notar, esse é um momento-chave na história da EaD brasileira. A partir da década de 1990, a EaD entrou em um processo de afirmação em nosso país, passando da periferia para o centro das políticas educacionais. Desde 1996, quando foi aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9.394/96),20 a EaD ganhou status de modalidade plenamente integrada ao sistema de ensino brasileiro, podendo ser utilizada em todos os níveis de educação. Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1.º A Educação a Distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União. § 2.º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diplomas relativos a cursos de Educação a Distância. § 3.º As normas para produção, controle e avaliação de programas de Educação a Distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas. § 4.º A Educação a Distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá: I - custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens; II - concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas; III - reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais. Art. 81. É permitida a organização de cursos ou instituições de ensino experimentais, desde que obedecidas as disposições desta Lei. (BRASIL, 1996). 20 Para o Governo FHC não seria possível apenas emendar o projeto de LDBEN aprovado na Câmara Federal ou o substitutivo Cid Sabóia, era preciso uma proposta elaborada a partir do projeto liberal-conservador. Assim, o projeto Darcy Ribeiro, de1992, ressurgiu nesse momento atendendo as necessidades do governo. 60 O Decreto nº 5.622 de 19 de dezembro de 2005 – que revogou o Decreto nº 2.494 de fevereiro de 1998 e o Decreto 2.561 de 27 de abril de 1998 – regulamenta o artigo 80 da LDBEN nº 9.394/96 preconizando, entretanto, a obrigatoriedade de momentos presenciais para avaliações de estudantes entre outras determinações. A portaria nº 4.059 de 10 de dezembro de 2004 autorizou às Instituições de Ensino Superior a oferta de disciplinas integrantes do currículo que utilizem a modalidade semipresencial, desde que não ultrapasse 20% da carga horária total do curso. Esse tratamento dado pela legislação educacional à EaD favoreceu a ampliação da oferta de cursos em instituições públicas e privadas, com ênfase para os cursos de licenciatura. Assim, para a formação de professores, a EaD pode ser considerada política de Estado, tal a continuidade nos governos Fernando Henrique Cardoso, culminando nos dois de Inácio Lula da Silva. Depois da aprovação da LDBEN em 1996, aumentou significativamente o credenciamento de instituições para cursos de Educação a Distância com a predominância da esfera privada. O número de instituições credenciadas para ofertar cursos de Graduação saltou de duas em 1999 para 104 em 2007. O setor privado é responsável por 59,61% desse cenário (DOURADO, 2008). Com relação ao contexto da aprovação da LDBEN 9.394/96, no que diz respeito à EaD, é importante recordar que um pouco antes, em 21 de junho de 1995, foi fundada a Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) que na sua Assembleia Geral, em 1996, aprovou um documento intitulado: I Epístola de São Paulo sobre Educação a Distância. Nesse texto está claro o objetivo de adequar a legislação educacional brasileira às características específicas da Educação a Distância eliminando restrições existentes. “O contexto dessa recomendação epistolar foi o debate que precedeu a aprovação da LDBEN pelo Congresso Nacional” (GIOLO, 2010, p. 1279). De acordo com Giolo (2010), em 1998 a ABED produziu a II Epístola de São Paulo sobre Educação a Distância, dirigindo as linhas de ação para promover a regulamentação do artigo 80 da LDBEN e à confecção do Plano Nacional de Educação. Sobre as posições e as ações dessa Entidade – que se autodefine: “sociedade científica, sem fins lucrativos, que tem como finalidades promover o estudo, a pesquisa, o desenvolvimento, a promoção e a divulgação da Educação a 61 Distância”21–, com relação aos encaminhamentos políticos da EaD no Brasil, afirma Giolo (2010, p. 1280): Compete à ABED “aplaudir o poder público quando ele toma posições corretas, mas, também, a assumir seu papel de órgão questionador quando as ações governamentais não forem adequadas”. Houve, inclusive, a indicação para que fosse criada pela ABED uma Diretoria de Assuntos Jurídicos para cuidar desses temas. O presidente da entidade reforçou as teses dos associados e anunciou a Carta de Dom Bosco, que “se configurará como um posicionamento da ABED frente às questões políticas que atualmente se apresentam”. Com o tempo, a ABED só fez incrementar suas posições. Em 2009, ela publicou um extenso livro: Educação a Distância: o estado da arte, organizado pelo seu presidente, Fredric Litto, e pelo vice-presidente Marcos Formiga. Na tradição e na sequência das Epístolas, esse livro bem que poderia ser chamado de A Bíblia. À parte as informações de cunho teórico e técnico sobre a Educação a Distância, o livro é também um instrumento de combate político. Como se pode notar o contexto no qual se dá a passagem da EaD da periferia para o centro das políticas educacionais brasileiras é marcado por grandes disputas políticas em nome de interesses econômicos nem sempre revelados. Nesse contexto se coloca também a formação de professores, que passou a ocupar um lugar estratégico no cenário das políticas educacionais, sobretudo a partir da década de 1990. A utilização dos recursos da EaD para essa formação, seja inicial ou continuada é um fato que vem se consolidando. Como justificativas para essa implementação, destacam-se a democratização da educação e a possibilidade de qualificação de um maior número professores em menor tempo, o que significa ampliar o atendimento com uma redução enorme de custos. Considerando a necessidade de equacionar a oferta de Educação Básica no país, era necessário prover um elemento fundamental para alcançar esse objetivo, os docentes. Assim, são realizadas por parte do Estado, as primeiras articulações para implantação de redes de Educação a Distância. Em 1995, o governo federal criou uma Subsecretaria de EaD, no âmbito da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, depois incorporada pela Secretaria de Educação a Distância22 do Ministério da Educação, criada em 1996. 21 Artigo 11 do Estatuto da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) e artigo 11 de seu Regimento. Disponível em: <http://www2.abed.org.br/abed.asp>. Acesso em 22/07/2010. 22 O Ministério da Educação realizou uma reestruturação em suas secretarias em 2011 e extinguiu a Secretaria de Educação a Distância, que existia desde o final do mandato de Fernando Henrique Cardoso. No segundo mandato de Lula, a SEED também cedeu à Capes seu principal projeto, a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Nesta nova reestruturação, os programas da SEED passam para as demais secretarias, principalmente para a Secretaria de Educação Básica (SEB). Nesta nova configuração, foram criadas duas novas secretarias, uma para regulação da educação superior, e outra para o relacionamento do MEC com as áreas de educação de estados e municípios. Disponível em: <www.acheseucurso.com.br/news/anmviewer.asp?a=364&z=1> Acesso em 08/02/2011. 62 Objetivando a utilização de novas tecnologias para dar suporte à Educação Básica, portanto ao ensino presencial, entre 1995 e 1996 implantaram-se a TV Escola, o Programa de Apoio Tecnológico à Escola e o Programa Nacional de Informática na Educação (PROINFO). Depois as instituições públicas começaram a oferecer programas de formação de professores: formação continuada e, sobretudo, com o objetivo de titular professores leigos. Os incentivos para um maior envolvimento das Instituições federais com a EaD vieram de um lado da (LDBEN nº 9.394/96, art. 62 e art. 87,§ 41), determinando que a Educação Básica deve ser ministrada por professores formados em nível de graduação e por outro, do FUNDEF, que destinou recursos para capacitar professores (GIOLO, 2010). Efetivamente, a criação de órgãos, as instituições envolvidas, os recursos alocados, as parcerias estabelecidas sinalizam a importância que a EaD assume nas políticas de formação de professores, entre as quais se destacam, em 2000, 1) a criação da Universidade Virtual Pública do Brasil (Unirede) para a oferta de cursos de graduação e formação de professores, em 2005, 2) o Fórum com as Estatais pela Educação cujo objetivo foi a criação do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), para atuação na formação inicial e continuada de professores da Educação Básica com a utilização de metodologias de educação a distancia; 3) em 2006, o Decreto nº 5.800 do MEC que institui o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), ligada à Capes, em pareceria com a SEED; 4) com a articulação entre IES públicas de Ensino Superior, estados e municípios a UAB propôs expandir e levar aos interiores do Brasil cursos de educação superior pública, para gestores e trabalhadores em Educação Básica e apoiar pesquisas sobre EAD; 5) em 2007, foram selecionados 27 polos para atenderem a 673 turmas e 32.880 vagas; 6) ainda em 2007 essa política de formação a distância de professores foi fortalecida com a atribuição à CAPES a coordenação do Sistema Nacional de Formação, ao INEP o papel de acompanhamento, e ao FNDE de financiamento, sobretudo para a formação de professores; 7) afinal, o governo, em lugar de ser preferencialmente avaliador, passou a ser o promotor da EaD. Desde então a formação de professores pela EaD expandiu-se e tem sido apoiada por muitos e rejeitada por outros tantos. As razões para essa mudança que trazem a EaD para o centro das políticas educacionais estão ligadas a compromissos assumidos em conferências mundiais 63 levadas a cabo no conjunto da reforma do Estado, influenciada por decisões de organismos mundiais23. A reflexão sobre as recomendações e princípios orientadores das políticas exaradas por alguns desses organismos, sobretudo visando à expansão da EaD, nos países com déficits educacionais, entre os quais se inclui o Brasil, é que nos ocupará no tópico a seguir. 2.3 ORGANISMOS INTERNACIONAIS E AS POLÍTICAS DE EXPANSÃO DA EaD No que tange à Educação Superior, em que se colocam as licenciaturas para a formação de professores, é preciso destacar os documentos exarados principalmente por duas organizações mundiais: o Banco Mundial (BM)24 e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)25. Nesse sentido, nestas duas últimas duas décadas, tem se cumprido no Brasil, apesar das últimas políticas do governo Lula de expansão das universidades Federais, as orientações do Banco Mundial para o Ensino Superior, reforçadas pelas posições da Organização Geral do Comércio (OMC): 1. a privatização da educação superior; 2. a anulação da gratuidade do Ensino Superior, por meio da cobrança de matrículas. A primeira política fica clara quando consideramos que 73% das matrículas e 90% das instituições de Ensino Superior são privadas. A segunda pode ser constatada pela crescente parceria entre universidades públicas e empresas, as redes, de maneira que aquelas prestam serviços a estas e também pela cobrança de taxas aos estudantes em cursos e atividades complementares. Neste processo, pensar na formação de professores a distância implica analisar que se trata de transferir aos futuros professores os encargos da sua educação. No entanto, a educação é uma práxis histórica e social. Pensá-la como processo realizado por indivíduos isolados é descaracterizá-la é recorrer à ficção, 23 Convocada pela UNESCO, UNICEF, PNUD e BM, foi realizada em Jomtien na Tailândia em 1990, a Conferência Mundial sobre Educação para Todos que proclamou a Declaração Mundial sobre Educação para Todos. O Brasil, assim como outros países com os maiores déficits no atendimento da escolarização obrigatória,(Indonésia, México,China, Paquistão, Índia, Nigéria, Egito e Bangladesh) assumiu compromissos e desenvolveu um Plano Decenal de Educação para todos que se transformou depois no Plano Nacional de Educação para Todos 1993-2003 (GIOLO, 2010). 24 É um dos principais organismos multilaterais internacionais de financiamento do desenvolvimento social e econômico. Foi concebido durante a Segunda Guerra Mundial na Conferência de Bretton Woods, nos Estados da América realizada em 1944. Segundo o discurso oficial sua meta principal é reduzir a pobreza no mundo. 25 Foi composta logo após a Segunda Guerra Mundial com o propósito de contribuir para construção da paz mundial. 64 como na critica de Marx (1982, p. 3) às robisonadas do século XVIII ao referir-se ao ponto de partida de Smith e Ricardo. A demanda e incentivo por Ensino Superior também é uma realidade. No preâmbulo da Declaração Mundial sobre o Ensino Superior no século XXI de 1998, salienta-se que “En los albores del nuevo siglo, se observan una demanda de educación superior sin precedentes, acompañada de una gran diversificación de la misma” [...] (UNESCO, 1998). No artigo oitavo da mesma declaração, aponta-se o progresso social e a democratização a alcançar com a EaD. crear nuevos entornos pedagógicos, que van desde los servicios de educación a distancia hasta los establecimientos y sistemas "virtuales" de enseñanza superior, capaces de salvar las distancias y establecer sistemas de educación de alta calidad, favoreciendo así el progreso social y económico y la democratización así como otras prioridades sociales importantes; [...] (UNESCO, 1998) Temos aqui um dos princípios mais evocados quando se propõe ampliar o acesso à educação superior por meio do uso de novas tecnologias26: a democracia. Podemos inferir que a democratização seria proporcionada pelos serviços educativos ofertados virtualmente a distância. No entanto, como afirmam Brito e Purificação (2008, p. 26), se a melhoria da qualidade na educação “dependesse somente de tecnologias, já teríamos encontrado as soluções há muito tempo”. Ainda, no discurso da Declaração Mundial sobre a Educação Superior, fica clara a necessidade de elaborar uma política enérgica de formação de pessoal e a convocação aos docentes para que promovam a autonomia dos alunos: Un elemento esencial para las instituciones de enseñanza superior es una enérgica política de formación del personal. Se deberían establecer directrices claras sobre los docentes de la Educación Superior, que deberían ocuparse sobre todo, hoy en día, de enseñar a sus alumnos a aprender y a tomar iniciativas, y no a ser, únicamente, pozos de ciência. Deberían tomarse medidas adecuadas en materia de investigación, así como de actualización y mejora de sus competencias pedagógicas mediante programas adecuados de formación del personal, que estimulen la innovación permanente en los planes de estudio y los métodos de enseñanza y aprendizaje, y que aseguren condiciones profesionales y financieras apropiadas a los docentes a fin de garantizar la excelencia de la 26 Marx ressalta que é a tecnologia, e não a natureza, que tem importância fundamental: “A natureza não fabrica máquinas, locomotivas, ferrovias, telégrafo elétrico, máquina de fiar automática etc. Tais coisas são produtos da indústria humana; material transformado em órgãos da vontade humana que se exerce sobre a natureza. São órgãos do cérebro humano, criados pela mão humana: o poder do conhecimento objetificado” (Gundrisse, p. 706 apud YOUNG, R. M. In: BOTTOMORE, 2001, p. 371). A história da tecnologia é uma história da mutável relação de forças de classe. “Seria possível escrever toda uma história das invenções desde 1830 com o único objetivo de fornecer armas ao capital contra as revoltas da classe operária (O Capital, I, cap. XV, 5 apud YOUNG, R. M. In: BOTTOMORE, 2001, p. 371). 65 investigación y la enseñanza, y en las que queden reflejadas las disposiciones de la Recomendación relativa a la condición del personal docente de la enseñanza superior aprobada por la Conferencia General de la UNESCO en noviembre de 1997 (UNESCO, 1998). Evoca-se o princípio da autonomia como forma de promover a busca pelo conhecimento, o que se apresenta de forma coerente com o que já propunha o Relatório Delors de 1996 com o aprender a aprender. Já no documento do Banco Mundial, – La Educación Superior em los Países em Desarollo: peligros y promesas –, defende-se a necessidade de ampliar o atendimento à demanda e melhorar a qualidade da Educação Superior como condição para que os países em desenvolvimento participem da economia mundial. Sobre la base de investigaciones e intensos debates que se llevaron a cabo durante dos años, el Grupo ha llegado a la conclusión de que si no se imparte más educación superior y cada vez de mejor calidad, a los países en desarrollo les será cada vez más y más difícil beneficiarse de la economía mundial basada en el conocimiento (GRUPO ESPECIAL, 2000, p. 11) . Percebe-se que já de início esse documento evoca o fato de a economia mundial estar baseada no conhecimento e que, portanto, ter acesso a tal conhecimento é condição para dela beneficiar-se. Nesse sentido o documento segue argumentando sobre a necessidade de democratizar o acesso ao conhecimento e enfatiza o papel da Educação Superior na preparação das pessoas necessárias para dirigir uma sociedade moderna e contribuir para seu progresso. No entanto, o mesmo documento não deixa de salientar que são necessárias ações criativas e conscientes que tenham como base uma nova visão de Ensino Superior, mais bem planejado e gerido. De acordo com o parecer do Grupo Especial (2000, p. 12-13) todos os setores da sociedade precisam colaborar, já que um sistema apenas estatal não será adequado para concretizar a expansão necessária com vistas à democratização da Educação Superior. Propõe-se um modelo de financiamento misto – diversificação horizontal – para que a participação de recursos privados seja máxima, de modo a proporcionar uma expansão com pouco ou nenhum financiamento público. Propõe-se também a diversificação vertical, ou seja, aquela que contempla vários tipos de instituições para a oferta de Ensino Superior. E é nesse ponto que se destaca a Educação a Distância como um exemplo de diferenciação que se dá tanto em sentido vertical como horizontal. 66 La diferenciación puede darse también en sentido horizontal, merced a la creación de establecimientos manejados por agentes privados, tales como instituciones con fines de lucro, organizaciones filantrópicas u otras entidades sin fines de lucro, como asimismo, agrupaciones religiosas. El auge del aprendizaje a distancia, modalidad que cobra cada vez mayor importancia, es otro ejemplo de diferenciación, que se da tanto em sentido vertical como horizontal (GRUPO ESPECIAL, 2000, p. 32). Na forma como aparece contemplada nesse documento, a EaD é considerada como um exemplo de diferenciação que vai diretamente ao encontro com o que se propõe de uma forma geral para Educação Superior, ou seja, uma diversificação tanto horizontal quanto vertical. Para Dias (2004), o Banco Mundial compreende a educação como investimento, não como direito social, por isso considera necessário, primeiramente, reduzir seus custos. Propõe-se ampliar o coeficiente professor-aluno, e a EaD aparece como uma estratégia muito adequada nesse sentido. Assim, não parece estranho que se proponha ainda apoio ao ensino privado e ao financiamento privado e, também, que se confie a grupos particulares a gestão da produção e a distribuição dos textos escolares. Essa tendência de privatização da educação superior no Brasil, apesar das políticas dos últimos anos do governo Lula de expansão das universidades e institutos tecnológicos, não sofreu alteração, ao contrário vem se firmando com a demanda por parte de grupos sociais e políticas fomentadoras de bolsas e financiamento dos “serviços educativos”. Nesse cenário a ampliação da oferta de cursos, sobretudo na modalidade a distância, é uma realidade. Na graduação a distância, 115 instituições ofereceram 647 cursos em 2008. As matrículas na modalidade EaD aumentaram 96,9% em relação ao ano anterior e, em 2008, passaram a representar 14,3% do total de matrículas no Ensino Superior. Além disso, o número de concluintes em EAD cresceu 135% em 2008, comparado a 2007 conforme a tabela a seguir: Tabela 2 - Evolução do número de ingressos, matrículas e concluintes na Educação a Distância – Brasil 2002 – 2008 67 Desse total de matrículas na EaD em 2008, 46,9% se referem a cursos de Licenciatura como demonstra a tabela abaixo: Tabela 3 - Número de matrículas em cursos de graduação a distância, por grau acadêmico, segundo a categoria administrativa – Brasil 2008 Seguindo essa tendência, uma análise dos dados do censo da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) de 2009 nos remete a considerar que 41% da educação superior se desenvolve somente pela EaD, ou associada com a educação presencial, se consideramos os 20% dos cursos ofertados na modalidade a distância, conforme a Portaria 2.253/2001. Como se pode notar, a oferta da formação de professores na modalidade a distância tem crescido significativamente nos últimos anos. De acordo com Dourado (2008, p. 901) já em 2006, de um total geral de 818.580 vagas oferecidas para cursos na modalidade a distância, 524.096 foram para educação, portanto 64,02%, sendo 18.912 em instituições públicas e 505.184 pelo setor privado. Esses dados indicam que o processo de expansão de vagas em cursos a distância vem ocorrendo com grande centralidade na área de educação e com predomínio da esfera privada. Recentemente, o resumo técnico do Censo da Educação Superior 2009 publicado pelo INEP destaca que 50% dos cursos ofertados na modalidade a distância são de licenciatura, entre os quais Pedagogia aparece em primeiro lugar, com 286 mil matrículas. Os dados, ainda, apontam que os dois cursos mais escolhidos – Pedagogia Administração – detêm 61,5% do total de matrículas (INEP, 2011). Conforme mostra a tabela a seguir: 68 Tabela - Os 5 maiores cursos em número de matrículas na modalidade EaD no Brasil Curso Matrículas % Total 838.125 100% 1 Pedagogia 286.771 34,2% 2 Administração 228.503 27,3% 3 Serviço Social e orientação 68.055 8,1% 4 Letras 49.749 5,9% 5 Ciências contábeis 29.944 3,6% Outros cursos 175.103 20,9% Fonte: Resumo técnico do Censo da Educação Superior 2009 – Mec/Inep/Deed Esses dados revelam que a EaD ocupa uma posição de destaque na formação inicial de professores no Brasil. Convém salientar que a autorização, avaliação, credenciamento de instituições e reconhecimento de cursos depende dos órgãos competentes e que, portanto, não se pode falar apenas de uma tendência do mercado, ou de uma consequência direta da evolução tecnológica para atender uma necessidade atual de formação de professores. A concentração de matrículas27 em EaD na área das licenciaturas no Brasil está ligada a fatores e estratégias políticas em que o Estado desempenha um papel fundamental. Em um contexto mundial de progressiva reafirmação estratégica da centralidade da educação (SHIROMA e MORAES, 2002), a EaD passa a fazer parte das políticas públicas que orientam as práticas pedagógicas, recursos, estratégias em escala mundial. Desse modo, as iniciativas para o desenvolvimento da EaD em nosso país extrapolam o âmbito dos municípios, estados e mesmo da federação, pois estão orientadas por políticas mundiais ligadas a interesses de organismos internacionais. Essa progressiva introdução da EaD é notável principalmente no Ensino Superior, com ênfase na formação inicial e continuada de professores, que se apresenta como uma tendência hegemônica e é acompanhada por políticas públicas do Ministério da Educação em que são características as parcerias entre as Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e a atribuição de importante protagonismo à Coordenação de aperfeiçoamento ao pessoal de nível superior 27 É importante considerar aqui também o crescimento da EaD on-line, cuja disseminação no Brasil muito se deve, além do avanço tecnológico, aos incentivos das autoridades públicas. “Hoje, diferentemente do que ocorria há apenas uma década, não é mais possível desconsiderar o impacto que a introdução da EaD online causou e as transformações que certamente ainda ocasionará em nossas formas correntes de conceber e de praticar a educação e a comunicação” (BOHADANA e VALLE, 2009, p. 551-552). 69 (CAPES), Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e Secretaria de Educação a Distância (SEED) nesse processo. Portanto, temos a existência de defensores e oponentes dessa tendência e é preciso considerar que a formação de professores pela Educação a Distância está circunscrita em um contexto balizado por interesses políticos e econômicos nacionais e internacionais dos quais não se pode olvidar ao tratar do tema. Para Barreto (2010, p. 3) dois sentidos são fundamentais em se tratando da formação de professores a distância. “A recontextualização projetada no discurso dos organismos internacionais que assume ares salvacionistas de „democratização‟ do acesso ao conhecimento e a defesa de interesses mercadológicos, ou pelo estabelecimento e exploração de instalações (como escolas) para proporcionar serviços a estudantes em seu país ou no estrangeiro”. A autora ainda salienta que: Cabe pontuar que a democratização aspeada no parágrafo acima se deve à análise da sequência de documentos-chave do Banco Mundial a respeito da expansão do Ensino Superior (Barreto, 2008a): 1) em 1994, é dito que “a Educação a Distância e os programas de aprendizagem aberta podem aumentar, efetivamente e a baixo custo, o acesso dos grupos desprivilegiados”; 2) em 2000, que é possível “acessar o conhecimento mais rapidamente e de lugares cada vez mais distantes”; 3) em 2002, que “a emergência de novos fornecedores, oferecendo serviços diferentes de maneiras diferentes, representa uma oportunidade para os países em desenvolvimento”; e 4) em 2003, é destacado o “acesso a novos produtos e serviços de Educação a Distância, facilitando o fornecimento de programas qualificados”, bem como o fato de que “as forças do mercado estão assumindo papel cada vez mais importante na educação mundial” (BARRETO, 2010, p. 35). Os itens pontuados pela autora a partir da análise da sequência de documentos-chave do Banco Mundial, no tocante à expansão do Ensino Superior, revelam a relação direta que existe entre os interesses econômicos de ampliação de mercados e a oferta de serviços educacionais. Tudo indica que a EaD apresenta-se como uma solução eficaz e de baixo custo, oferecida principalmente aos países em desenvolvimento com déficits educacionais. Nessa lógica neoliberal, caracterizada pela intensa divisão e desvalorização do trabalho, direitos sociais transformam-se em mercadorias. Nas palavras de Shiroma, Moraes e Evangelista (2002, p. 120) “A escola que na origem grega designava „lugar do ócio‟ é transformada em um grande „negócio”. Ou seja: a educação não é fruição da vida, é, sobretudo, investimento de capital, pela maior extração de valor dos trabalhadores em EaD e também a formação administrada para o mundo do trabalho, que nesse modo de existência se encontra alienado, estranhado ao seu produtor. 70 Enquanto isso, produzem-se ideologias poderosas, difíceis de desmistificar, entre as quais está a sociedade da informação, segundo a qual o que cria valor não é mais o trabalho, mas o conhecimento, um forte ataque a quem vive do seu trabalho (ANTUNES e BRAGA, 2009). Efetivamente, a sociedade da informação, na formulação de seus teóricos, levaria à superação do trabalho degradado e sua substituição por um modelo mais rico de comunicação produtiva, possibilitado pelo avanço tecnológico, nos quais as redes, com destaque para a internet, ocupariam papel central. Nessa nova sociedade, a educação passa a ocupar uma posição de extrema relevância, uma vez que se torna condição necessária para que o indivíduo dela participe (ANTUNES e BRAGA, 2009). Convém salientar que Antunes e Braga (2009) consideram a obra em três volumes, A era da informação, do sociólogo catalão Manuel Castells, um “sofisticado corolário sociológico” desse novo senso comum acadêmico e político que proclama a superação do trabalho degradado, típico da fabrica taylorista e fordista, pela criatividade e autonomia inerentes às atividades de serviços associadas às tarefas de concepção e planejamento de processos e produtos. “É o começo de uma nova existência e, sem dúvida, o início de uma nova era, a era da informação, marcada pela autonomia da cultura vis-à-vis as bases materiais de nossa existência” (CASTELLS, 2007, p. 574). O emprego das chamadas tecnologias de informação e comunicação foi concebido quase como “sinônimo de não trabalho, tal a disjuntiva e mesmo antinomia que é operada em relação à modalidade vigente de trabalho assalariado” (ANTUNES e BRAGA, 2009, p. 8). O que procuram confirmar os que defendem a tese da sociedade de informação é que o trabalho deixou de ser a principal força produtiva e outras teses surgem para confirmar esse fato 28 (ANTUNES e BRAGA, 2009). Antunes e Braga (2009) também destacam a polêmica formulação apresentada pelo filósofo austro-francês André Gorz, acerca da imaterialidade e perda da medida do valor do trabalho. “O conhecimento seria impossível de se mensurar, uma vez que não é redutível a uma quantidade de trabalho abstrato” (GORZ, 2005, p. 29 apud ANTUNES e BRAGA, 2009, p. 9). 28 Nesse sentido, o ensaio de Claus Offe "Trabalho: categoria sociológica chave?" versa sobre a perda de importância do trabalho como elemento-chave na compreensão das sociedades e na construção das utopias emancipadoras. In: OFFE, C. 1989. 71 Conforme os autores anteriormente citados, existe aqui uma clara sintonia com a tese de Habermas (1980), segundo a qual a ciência descompensa a teoria do valor-trabalho. Dessa forma, com a informatização e automação, o trabalho deixa de ser a principal força produtiva e é substituído pela comunicação (ANTUNES e BRAGA, 2009). E o que dizer da Educação a Distância nesse cenário? Não seria a EaD mais um produto da indústria cultural, como descreve Adorno, calcada na ilusão de que a massificação da cultura realmente possibilita a emancipação coletiva? Para Adorno (1995, citado em Zuin, Pucci e Oliveira, 2000, p. 138), “A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo”. Mas ela seria igualmente questionável se fosse apenas isso. Assim, diante de uma realidade em que se impõe a necessidade de adaptação, na qual uma exacerbada indústria cultural impõe um conformismo onipresente, a educação tem muito mais a tarefa de fortalecer a resistência do que a adaptação (ZUIN, PUCCI e OLIVEIRA, 2000). Nesse sentido, parece oportuna a consideração que faz Silva (2010, p. 49) sobre a política liberal que se restringe “a aceitar a necessidade de adequar a realidade reduzida ao jogo de forças do mercado, cuja lógica se impõe também ao Estado”. E como salienta o mesmo autor o estranho é que o imperativo do neoliberalismo se impõe como produto de necessidade objetiva. No campo educacional, significa ceder totalmente aos imperativos do mercado fazendo da educação uma enorme seara para obtenção de lucros. A esse respeito, já na década de 1970, Braverman (1981, p. 372) salientava que “a educação tornou-se uma área imensamente lucrativa de acumulação de capital para a indústria de construção, para os fornecedores de todos os tipos, e para uma multidão de empresas subsidiárias”. As exigências advindas da reestruturação no mundo produtivo acentuam a necessidade de formar rapidamente um contingente elevado de indivíduos para atender as necessidades do capital. Porém, tal formação não significa garantia do direito à educação, mas uma adequação às necessidades do sistema capitalista. O fator econômico torna-se o critério também para reger as decisões políticas nos Estados. Configura-se, então nesse contexto, uma verdadeira “pedagogia da exclusão”. Trata-se de preparar os indivíduos para, mediante sucessivos cursos dos mais diferentes tipos, se tornarem cada vez mais empregáveis, visando escapar da condição de excluídos. E caso não o consigam , a 72 pedagogia da exclusão lhes terá ensinado a introjetar a responsabilidade por essa condição (SAVIANI, 2010, p. 29). A educação enquanto preparação para o mundo do trabalho passa a ocupar um lugar central nas decisões políticas que definem os rumos das nações. Organizações internacionais como o Banco Mundial (BM) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), reafirmam essa centralidade e destacam o papel estratégico da educação para o desenvolvimento mundial, passando a estipular metas para países subdesenvolvidos, nos quais os déficits educacionais são elevadíssimos. “O objetivo é de convencer o professor a envolver-se nas reformas do sistema, a ter confiança nas inovações” [...] (SHIROMA, MORAES, EVANGELISTA, 2002, p. 70). Nesse contexto, a Educação a Distância desponta como alternativa muito atraente e os discursos legitimadores, que apresentam a tecnologia como panaceia dos problemas educacionais, circunscritos em um universo de novidade e “magia”, são acompanhados de políticas públicas, altamente comprometidas com interesses de classe, expressos nos documentos exarados por organismos Internacionais que se autodefinem promotores da justiça em nível mundial. São várias as questões que pululam diante da possibilidade de utilização das mediações tecnológicas para o desenvolvimento do processo educacional/formativo dos profissionais da área da educação, a saber: De que modo tais mediações podem ser empregadas neste processo? Que tipos de facilidades e dificuldades são geradas em um ambiente de Educação a Distância? A denominada Educação a Distância não corre o risco de se afastar de seus objetivos iniciais de promover uma maior aproximação entre os agentes educacionais, na medida em que se converte no fetiche de si mesma? (ZUIN, 2006, p. 937). Essas interrogações remetem para outros questionamentos quanto à oferta da formação de professores na modalidade de Educação a Distância. Não será o aspecto mais reafirmado – a formação de professores – talvez o menos considerado? O que de fato determina essa acentuação cada vez maior em oferecer formação inicial e continuada de professores pela EaD? Nesse sentido, Saviani (2010, p. 28), ao tratar do trabalho didático na fase da produção neoliberal, afirma que: Nesse contexto, as ideias pedagógicas sofrem grande inflexão: passa-se assumir no próprio discurso o fracasso da escola pública, justificando sua decadência como algo inerente à incapacidade do Estado de gerir o bem comum. Com isso se advoga também no âmbito da educação, a primazia da iniciativa privada regida pelas leis do mercado. 73 A partir do trecho citado é possível notar como o trabalho didático na fase da globalização neoliberal é marcado por ideologias que tendem a legitimar a hegemonia uma organização pautada pela competição, pela maximização da produtividade, do lucro, “ela rege-se por uma lógica que estabelece o predomínio do trabalho morto (capital) sobre o trabalho vivo, conduzindo à exclusão deliberada de trabalhadores” (SAVIANI, 2010, p. 29). No contexto brasileiro, a Educação a Distância vem sendo aplicada cada vez mais pelo governo federal na formação inicial e continuada de professores para a Educação Básica e já pode ser considerada uma política de Estado. Um exemplo é o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica29 destinado aos professores em exercício das escolas públicas estaduais e municipais sem formação adequada, conforme a LDBEN e o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB)30, que propõe a criação de cursos a distância vinculados às universidades federais já existentes e tem como prioridade a formação de professores para a Educação Básica. Para Saraiva (2010, p. 125), essa opção pela EAD, na formação inicial e continuada dos professores pode ser justificada, [...] pela necessidade de preparar professores que já estariam lecionando sem a formação adequada, sem retirá-los de seu trabalho. Como parte significativa desses docentes está espalhada pelo interior do país, a EaD permitiria uma descentralização capaz de dar conta de suas necessidades. Além disso, a EaD reduz a exigência de instalações físicas e, da maneira como vem sendo implantada, o número de docentes, uma vez que as turmas têm grande quantidade de alunos e os professores dividem suas tarefas com tutores que possuem uma formação menos qualificada e recebem salários menores. Portanto, o uso massivo de EaD aponta também para um barateamento da formação dos professores, uma desoneração do serviço público. Essas constatações demonstram o contexto complexo de múltiplas determinações no qual a EaD está inserida, marcado por contradições, em que as reais intenções, os verdadeiros interesses e objetivos nem sempre são manifestos. Opta-se pelo ocultamento, por meio do encantamento com o novo, em direção à 29 O Plano oferece cursos superiores públicos, gratuitos, com a oferta cobrindo os municípios de 21 estados da Federação, por meio de 76 instituições públicas de educação superior, das quais 48 Federais e 28 Estaduais, com a colaboração de 14 universidades comunitárias. (BRASIL, MEC, 2009). 30 Embora a UAB não ofereça apenas cursos para a formação de professores, ela cumpre sua prioridade: 72% de suas graduações são licenciaturas, sendo o restante dividido entre bacharelados (23,5%) e cursos tecnológicos (4,4%). Os cursos a distância assumem papel tão ou mais importante nas ofertas de formação continuada. Um grande número decursos de aperfeiçoamento e especialização é ofertado na modalidade a distância por meio desse e de outros programas do MEC (SARAIVA, 2010, p. 125). 74 fetichização máxima: “É o deslocamento sintático radical que posiciona tecnologias no lugar dos sujeitos” (BARRETO, 2009, p. 124). Os pesquisadores estão atentos a essa realidade e a pesquisa educacional não se coloca em um campo alheio à realidade, mas passa a tratar de situações concretas que demandam atenção, impõem questionamentos, exigem explicações. No que diz respeito à pesquisa relacionada à formação de professores por meio da EaD, uma consulta ao banco de teses da CAPES utilizando as categorias: formação de professores e Educação a Distância entre 1996 e 2009 evidencia essa constatação: Gráfico 1 - Teses e dissertações sobre formação de professores EaD banco da Capes 1996 – 2009 A análise dos resumos das teses e dissertações que compõem o gráfico apresentado, produzidas, sobretudo a partir de 2005, permite perceber: 1) que nos últimos cinco anos o número de teses e dissertações nessa área multiplica-se muito intensamente. Se, em 2005, a busca mostra 35 dissertações em 2009, esse número sobe para 67, o que significa que a produção praticamente dobrou. Também em relação às teses, se em 2005 a consulta mostra apenas seis trabalhos, em 2009 já temos dezoito. Portanto, a produção triplicou; 2) que as pesquisas tendem a concentrar-se na investigação de programas estaduais e federais para formação continuada de professores da rede pública de Ensino Fundamental, bem como na análise do uso das tecnologias de informação e comunicação no campo educacional e particularmente na formação continuada de professores; 3) que há discursos legitimadores da EaD e do uso das tecnologias de informação e comunicação como elementos fundamentais de uma nova pedagogia para um novo professor do futuro, mediador, reflexivo e pesquisador. Portanto, para tal ele dever ser formado. 75 Com base nos dados apresentados, é possível afirmar que, entre os motivos para o grande crescimento e expansão da EaD a partir dos anos 1990 no Brasil, e principalmente para a concentração de matrículas em cursos de licenciatura, evidencia-se a presença dos pressupostos neoliberais que adentram no terreno educacional, fazendo dele um grande nicho de mercado que continuamente se renova. A partir dessas considerações, convém agora focalizar atenção às políticas e ações desenvolvidas no Estado do Paraná, com o objetivo de oferecer formação continuada aos professores procurando compreender como a Educação a Distância é apreciada nesse contexto e por quais princípios ela está orientada. 76 3. AS ENTIDADES DE CLASSE E A EaD NA FORMAÇÃO DOS PROFESSORES NO ESTADO DO PARANÁ Historicamente até 1853 o Paraná foi uma comarca do Estado de São Paulo. Conforme Wachowicz (1984), até o advento da República em 1889, a instrução pública no Paraná desenvolveu-se em um contexto de pouco controle por parte do Estado e de muita precariedade no trabalho dos professores. Havia pouquíssimas escolas no Paraná no final do século XIX e início do século XX e o Estado não considerava como prioridade a instrução pública para uma população pouco numerosa e espalhada, que vivia do cultivo e beneficiamento da erva-mate e do plantio e comercialização do café. A criação de gado era também outra atividade pela qual o Estado se mantinha (PIASSA, 2003). Para Wachowicz (1984), que analisa a história da formação de professores no Paraná na perspectiva de sua relação com o Estado, a classe governante tomava a educação como um instrumento para desenvolver um projeto civilizatório em uma perspectiva liberal. Nesse contexto, o trabalho do professor era entendido como o de um funcionário que devia ser fiel ao governo na causa da civilização das massas. Depois da Primeira Guerra Mundial, o professor no contexto paranaense passa a ser visto como um empregado, tendo sua ação controlada por um Estado burocrático, que transforma o sistema educacional em um aparelho hierarquizado e centralizador (WALCHOWICZ, 1984). Apesar de serem muito poucas, as escolas dessa época enfrentaram dificuldades enormes, sendo uma das piores a falta de professores. Na busca de solucionar o problema, foi adotado inicialmente o método lancasteriano31, já recomendado em nível nacional pela Reforma Couto Ferraz32 de 1854 (PIASSA, 2003, p. 80). 31 Na historiografia ficou conhecido como Método de Ensino Mútuo, Método Monitorial, Método Inglês de Ensino, Método de Lancaster, Método Lancasteriano de Ensino e também como Sistema de Madras. O quaker inglês Joseph Lancaster (1778-1838), identificado com o trabalho pedagógico realizado em Madras, na Índia, pelo pastor anglicano Andrew Bell (1753-1832), e com os ideais reformadores do jurista inglês Jéremy Bentham (1748-1792), autor do Panóptico, estabeleceu em 1798, uma escola para filhos da classe trabalhadora, também utilizando monitores para o encaminhamento das atividades pedagógicas (NEVES, 2003). Disponível em: <www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_c_metodo_lancaster.htm>. Acesso em: 06/08/2011. 32 Em 14 de dezembro de 1849, e a outra em 17 de fevereiro de 1854 (MATTOS, 1999, p. 254). Há que se ressaltar que essas leis eram previstas para o Município da Corte, mas acabavam por funcionar como referência para todas as outras províncias brasileiras. A partir da Reformas Couto Ferraz, criavam-se os Conselhos Municipais de Instrução Provincial e ficava definido, com maior rigor, entre outras determinações, quem poderia ser professor. Com a Lei de 1854, regulamentou-se a 77 Com o mesmo objetivo, foi criada em 1870 a Escola Normal na Capital pela Lei Estadual nº 238 de 19 de abril, que funcionaria anexa ao Instituto Paranaense, onde se realizaria o curso preparatório para o ingresso nas Academias Superiores do Império. Por contar com pouquíssimos alunos, esses estabelecimentos fecharam e reabriram várias vezes. Mesmo nesse contexto de pouquíssima procura pela escolarização, a preocupação com a qualidade do ensino e com a formação continuada dos professores já estava presente no Paraná nessa época. Em relatórios dos instrutores escolares da Capital, de 1906, Walchowicz (1984) encontrou citações sobre a possibilidade de os professores frequentarem cursos de atualização nas férias, como se fazia na Prússia (PIASSA, 2003, p. 82). As necessidades postas pelo sistema produtivo não exigiam uma formação escolar, mas antes disposição física para trabalhar no campo. Os poucos recursos, a falta de professores, vencimentos diminutos, além dos atrasos enormes nos pagamentos, eram fatores que pioravam a situação da escola paranaense no final do século XIX e início do século XX (PIASSA, 2003). No entanto, nas três primeiras décadas do século XX as Escolas Normais começaram a se consolidar nos centros urbanos do Estado. Defendia-se uma formação teórico-prática, com base nos referenciais da Escola Nova, com maior destaque para a prática, o que dava ao curso um caráter profissionalizante. Nos anos 1930, pela influência das ideias positivistas, bem como da forma de organização taylorista-fordista, o sistema escolar paranaense assume um caráter burocrático. Foram implantadas medidas técnico-pedagógicas, como a inclusão no currículo da Escola Normal de “Administração e Organização Escolar, assim como de Higiene e Puericultura. A Psicologia, a Biologia e a Sociologia começam a dar os fundamentos da formação teórica do professor” (MIGUEL e VIEIRA, 2005, p. 9). A formação de professores e a educação como um todo precisavam se alinhar com essas necessidades de reorganizar a sociedade para o mundo industrial. Nesse contexto o ensino também assume ideologicamente uma função nacionalizadora, ou seja, de formar cidadãos brasileiros (MIGUEL, 1997). Assim, de 1930 até 1960 as ideias da Escola Nova norteiam a formação de professores nas principais instituições no Paraná. Visando integrar o Ensino Primário Reforma do Ensino Primário e Secundário, mantendo-se as prescrições da Lei anterior, de 1849. (NEVES, 2003, p. 146). 78 e o Normal, foi editada nesse período a Lei Orgânica do Ensino Normal,33pelo Decreto-Lei Federal nº 8.530, que vigorou até a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 4.024/61. No entanto, essa integração já acontecia no Paraná. De 1946 a 1969, foram criados cinco Institutos de Educação no Estado, nos quais se ministravam muitos cursos, não só de formação inicial, mas também de atualização (MIGUEL, 1997). Tanto as Leis Orgânicas de 1940 como a Lei nº 4.024/61 contribuíram para a unificação do processo de formação em um contexto em que era preciso preparar a população para o processo de industrialização, que exigia um mínimo de preparo intelectual para ocupar postos de trabalho. Com as políticas adotadas no regime militar visando à construção de um Brasil grande, essa necessidade ficou ainda mais acentuada. Conforme Luporini (2008), no início de 1960 ocorreu no Paraná a diluição das “frentes pioneiras”34, tendo como consequência a ocupação das terras de quase todo o Estado. A necessidade de integração levou à construção de estradas e de ferrovias para a ligação dessas diversas regiões em um Estado relativamente jovem diante das demais unidades da federação. Dois grupos do chamado Paraná Velho ou Tradicional detinham a hegemonia política no Paraná até 1960. O grupo dos proprietários de terra e o dos representantes da burguesia industrial-comercial baseada na erva-mate e na madeira. Apesar de sua força econômica desde os tempos provinciais, o segundo grupo só consolidaria seu poder político a partir da República quando substituiu os proprietários de terras no controle do Estado. Até 1964 é mantida essa alternância no poder político, encerrada com o término do governo de Ney Braga, iniciado dois 33 Em 1946, já no fim do Estado Novo e durante o Governo Provisório, a Lei Orgânica do Ensino Primário organizou esse nível de ensino com diretrizes gerais, que continuou a ser de responsabilidade dos estados; organizou o ensino primário supletivo, com duração de dois anos, destinado a adolescentes a partir dos 13 anos e adultos; a legislação de ensino organizou também o ensino normal e o ensino agrícola e criou o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial . (ANDREOTTI, 2006). Disponível em: <www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb _c_leis_organicas_de_ensino_de_1942_e_1946.htm>. Acesso em: 06/08/2011. 34 Encontram-se e começam a difundir-se as três ondas de povoamento – a do Paraná Tradicional, que se expandiu desde o século XVII, de Paranaguá e Curitiba, pelas regiões de campo, com a criação de gado, a indústria da erva-mate e da madeira do pinho; a dos lavradores da agricultura tropical de café, que pelas origens e pelos interesses históricos ficaram mais diretamente ligados a São Paulo (Norte do Paraná/nortista); e a dos colonos da agricultura de subsistência, plantadores de cereais e criadores de suínos que, pela origem e pelos interesses históricos, se ligaram mais intimamente ao Rio Grande do Sul (Oeste-Sudoeste do Paraná/frente sulista). Cada uma das três ondas criou o seu próprio tipo de economia, formou um tipo de sociedade e fundou suas próprias cidades (MOSAICO, 1977, p. 33, In: LUPORINI, 2008, p. 66, grifos nossos). 79 anos antes. De 1965 até 1968, em um momento crítico de início do regime militar, o Paraná é governado por um representante da frente nortista – Paulo Pimentel (LUPORINI, 2008). O Paraná acompanhou esse processo em que o setor educacional pautou-se pela concepção tecnicista. No entanto, mesmo antes da redemocratização, os educadores paranaenses começaram um processo de questionamento e intervenção nos cursos de formação de professores. O que se buscava eram alternativas para proporcionar uma formação sólida para emancipação dos sujeitos. Nesse contexto, destaca-se o Projeto Magistério em Nova Dimensão, que foi implantado gradativamente e constantemente rediscutido nos anos 1980. Com a redemocratização, a formação de professores passou a ocupar cada vez mais um lugar estratégico no cenário político brasileiro e o Paraná não foi exceção. A educação e tudo o que ela implica precisava ser ajustada para se adequar aos novos parâmetros governamentais. É importante mencionar que depois do fim da Ditadura civil-militar, o Paraná foi governado em três mandatos sucessivos, por representantes do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Ao mesmo tempo em que se deu a reconquista democrática, o período foi uma fase de recomposição do capital. No âmbito educacional, ao menos no discurso, buscava-se superar a concepção tecnicista e efetivar políticas educacionais que garantissem uma escola pública, gratuita e de qualidade para todos. O Paraná em 1989 elaborou um novo currículo básico para a rede pública de ensino, pautado no materialismo histórico-dialético e na pedagogia histórico-crítica. Assim, a formação de professores foi debatida no sentido de atender o novo currículo, bem como um novo projeto social. No entanto, conforme salientam Baczinski, Piton e Turmenta (2008, p. 149) nesse período de 1983-1994: A apropriação da pedagogia histórico-crítica, como fundamento teórico para as políticas educacionais, se deu por interesse do estado em obter a hegemonia e o consenso, não se constituindo, no entanto, em uma escolha da classe trabalhadora diante das suas reais necessidades e interesses. Portanto, esses fatores demonstram que a ação do estado foi autoritária, oportunista, insuficiente, inconsistente e superficial, quando da utilização da referida pedagogia crítica de educação, por utilizá-la como uma manobra para alcançar os ideais de dominação e expansão do capital, preestabelecidos nesse processo de redemocratização social, tendo como meta atender de forma individual e ideológica os interesses e necessidades do capital. 80 Como se pode constatar, a proposta não foi longe, pois com o advento das políticas neoliberais, que rapidamente se propagaram, principalmente os países em desenvolvimento são forçados a seguirem à risca os princípios exarados por organismos internacionais, sobretudo para garantir financiamentos. O Estado entrou, assim, na década de 1990 e acentuadamente foi deixando de cumprir seus compromissos sociais para procurar alcançar metas numéricas que garantam financiamentos. O setor educacional era um campo estratégico que devia produzir o máximo resultado com o mínimo de investimento. O Estado reduziu investimentos, abriu as portas para a iniciativa privada oferecer serviços educacionais sob as regras da otimização, da maximização de resultados, acompanhada da ideologia da ineficiência do Estado, conduzindo o professor a responsabilizar-se pelo seu próprio fracasso. Percebemos, então, que existe uma predominância dos critérios econômicos quando se propõem políticas para a formação de professores. O Estado procura desonerar-se e ao mesmo tempo alcançar resultados numéricos que demonstrem produtividade com baixo investimento. E é nesse contexto que se acentua a discussão sobre a formação continuada com forte teor ideológico. Além da necessidade de formar mais professores, é preciso oferecer formação permanente para aqueles que estão atuando. Estes devem formar-se em serviço. A formação precisa ser contínua e chega até ser chamada de reciclagem para que os professores possam acompanhar as demandas da dita e tão propagada “sociedade do conhecimento”. A qualidade torna-se a palavra de ordem, mas contraditoriamente ela é exigida com o mínimo de investimento. A educação é considerada cara para o Estado, assim também a formação de professores. Medidas são tomadas para reduzir gastos e alcançar melhores resultados. O prejuízo maior é dos professores que, além de ter seus ganhos reduzidos, são obrigados a entrar no jogo da competição, da burocracia, da demonstração de resultados, mesmo que esses resultados nem sempre mostrem a realidade. Conferências mundiais como a de Jontiem, em 1990, e a de Nova Délhi, em 1994, propõem receitas de sucesso para a educação que os países em desenvolvimento precisam seguir como único caminho de desenvolvimento. É o capital impondo suas regras, dominando setores estratégicos, garantindo o seu controle. 81 No Paraná, o governo Requião (1991-1994) fechou acordos com o Banco Mundial e iniciou a onda neoliberal que se concretizou no governo Jaime Lerner (1995-2002). “O ensino profissional foi o que mais sofreu os efeitos devastadores dessa onda. Em meio a esse contexto, estava o curso de Magistério” (PIASSA, 2003, p. 172). No horizonte do Estado mínimo, as políticas educacionais visam ao descompromisso do Estado de suas responsabilidades. E ao invés da tão discutida gestão democrática, no governo Lerner (1995-2002) implantou-se a gestão compartilhada em moldes empresariais na busca de atingir níveis de eficiência exigidos principalmente por organismos internacionais que a partir de estatísticas definem financiamentos. Em 2003, Roberto Requião reassumiu o governo com uma proposta de recuperação do espaço público, já que o governo anterior, com o argumento da desoneração havia repassado muitas de suas responsabilidades para a iniciativa privada, entre as quais está a educação. De acordo com Nadal (2007, p. 4): O financiamento de programas educacionais com verbas do Banco Mundial, a terceirização da educação via ausência de concursos públicos para professores e servidores, a intensificação da busca pela elevação dos índices de aprovação e conclusão escolar com foco estatístico, a extinção das modalidades profissionalizantes em nível médio, a adoção de educação aberta e a distância para formação de professores em nível superior e o estabelecimento de um centro para formação continuada (a “Universidade 35 do Professor”) foram algumas das políticas educacionais desenvolvidas na gestão Lerner (1995-1998; 1999-2002) fortemente combatidas pelo do 36 governo Requião. A gestão 2003-2006 adota o discurso da gestão democrática, no entanto a educação ofertada continua tendo um caráter elitista, excludente. Apesar do discurso da democratização, a cidadania é negada pela imposição das políticas neoliberais que impossibilitam aos cidadãos exercer seus direitos. 35 A crítica a essa política está presente inclusive na versão preliminar do Plano Estadual de Educação elaborado a partir de 2003. Ao tratar da busca de explicações para a situação precarizada em que se encontravam os professores, o documento afirma: “Porém, no caso do Paraná, na década de 1990, a solução foi instituir um Programa de Formação Continuada na Universidade do Professor-Faxinal do Céu, inclusive utilizando práticas místicas [...] ou, ainda, receitas tecnocráticas de Gestão que, nada auxiliaram os professores no enfrentamento da realidade das escolas e na melhoria de suas práticas pedagógicas como demonstram avaliações realizadas (PARANÁ, 2005, p. 71). Disponível em: <www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/portal/pee/construcaocoletiva.pdf?PHPS ESSID=2009102209002855>. Acesso em: 9 ago. 2011. 36 Disponível em: <www.anpae.org.br/congressos_antigos/simposio2007/47.pdf> Acesso em: 9 ago. 2011. 82 Nesse contexto, a formação de professores e dos demais profissionais da educação é considerada uma das prioridades nas políticas educacionais do Estado. Assim, elabora-se uma nova proposta pautada no materialismo histórico-dialético, que conta com o trabalho, principalmente, de intelectuais da Universidade Federal do Paraná convocados pelo governo, que já haviam trabalhado na proposta curricular de 1991. “Assim, como da primeira vez que a referida pedagogia foi apropriada politicamente, novamente nesse período ela mantém-se em condições superficiais e insuficientes” (BACZINSKI, PITON e TURMENTA 2008, p. 149). É nesse processo marcado por contradições que a EaD começa a ter uma presença mais marcante nas ações da Secretaria de Estado da Educação para a formação continuada de professores como abordaremos no próximo tópico. Assim, a partir das categorias fundamentais (ontologia, gnosiologia/epistemologia, éticopolítica e pedagógica) anteriormente elencadas e discutidas, são analisados dois documentos da SEED/PR, o Documento intitulado “Educação a Distância” (2010), que apresenta as diretrizes para a EaD no Estado do Paraná e Documento Síntese do Programa de desenvolvimento Educacional (PDE) versão 2007. Para completar a análise, recorre-se a outros documentos, bem como à legislação pertinente aos tópicos abordados. 3.1 A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO PARANÁ Conforme o documento orientador intitulado; “Educação a Distância”37 (2010), disponibilizado no portal Dia a dia educação38, que apresenta as diretrizes para a EaD no Estado do Paraná, foram muitas as iniciativas que antecederam a efetivação institucional da Educação a Distância pela Secretaria de Educação do Estado. Entre elas o documento destaca: 1) a partir de 2000 cursos oferecidos pelo MEC, no ambiente virtual de aprendizagem (e-ProInfo); 2) em 2001 Cooperativa NTE dos Núcleos de Tecnologia Educacional; 3) em 2002 o Clube de Matemática; 4) em 2003 o Fórum da Coordenação Estadual de Tecnologia; 5) em 2004 o Grupo de 37 O documento está disponível no portal Dia a dia Educação e faz parte da série Cadernos Temáticos. Além do texto das Diretrizes para Educação a Distância, o documento traz um relato de experiência. Completa o Caderno a indicação da legislação de EaD vigente no país, no momento da sua publicação. Foi escolhido para análise por que traz essas Diretrizes que se destinam a todos os profissionais envolvidos, direta e indiretamente, com a Educação a Distância da SEED/PR. 38 <www.diaadia.pr.gov.br/index.php>. Acesso em: 10 out. 2011. 83 Trabalho (GT), por meio do ambiente Dokeos e o Estudo Piloto da Plataforma Teleduc (PARANÁ 2010). O documento cita também outras iniciativas de formação continuada desenvolvidas através de parcerias, entre os quais estão: os programas da TV Escola (Salto para o Futuro, TV na Escola e os Desafios de Hoje,); EducaçãoAfricanidade-Brasil, promovido pelo Centro de Educação a Distância da UnB em parceria com a Secad/MEC; Educação Fiscal, oferecido pela Escola Superior de Administração fazendária; curso técnico de formação para os funcionários da Educação (ProFuncionário), realizado pelo MEC e pela UnB; curso de extensão Mídias Integradas na Educação, ofertado pelo MEC e pela UFPR; Curso Internet English, da Open University, em parceria com o Conselho Britânico; e Especialização em Informática/Tecnologias na Educação, oferecida pelo MEC em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO), a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Entretanto, salienta o documento que, como ação institucional de formação continuada, estabeleceu-se em 2003 no Portal Dia a dia Educação o Ambiente Pedagógico Colaborativo, no qual foram produzidos: 1) Objetos de Aprendizagem Colaborativa (OAC),39 que objetivam instrumentalizar os professores em sua prática pedagógica, constituindo-se como recurso para a discussão coletiva das Diretrizes Curriculares para Educação Básica do Estado. O formato dessa produção tem como princípio o respeito à autonomia intelectual do educador, servindo de sugestão e orientação ao registro de seus percursos individuais de aprendizagem. O resultado desse processo é uma mídia digital, cujo autor é o professor da Educação Básica do Estado do Paraná, disponibilizada na web (Portal Dia a dia Educação). 2) Os Grupos de Estudo (2004), que têm como meta desenvolver um processo de formação continuada descentralizado, organizado pela SEED, que possibilite um amplo espaço de discussão, reflexão e ação em todos os estabelecimentos de Educação Básica da rede pública estadual.40; 3) O Projeto Folhas implantado em todo o estado em 2004, segundo ano da primeira gestão do governo Requião, tem como objetivo oferecer meios para que os professores da rede pública do estado pesquisem e aprimorem seus conhecimentos, 40 Disponível em: <www.diaadia.pr.gov.br/deb/modules/conteudo/conteudo.phpconteudo=112>. Acesso em 8 ago. 2011. 84 produzindo, de forma colaborativa, textos de conteúdos escolares nos componentes disciplinares da Educação Básica41; 4) A TV Paulo Freire (2006), que visa o desenvolvimento de programas educativos para televisão a partir da produção de conteúdos pedagógicos, para transmissão via satélite, web e multimídia, para atender à comunidade escolar e à formação continuada dos profissionais da Rede Pública do Estado do Paraná.42 5) O PDE 2007 – Programa de Desenvolvimento Educacional do Paraná (PARANÁ, 2010), uma política pública que propõe o diálogo entre os professores da Educação Superior e os da Educação Básica, por meio de atividades teórico-práticas orientadas, visando à produção de conhecimento e mudanças qualitativas na prática escolar da escola pública paranaense. Seu objetivo é proporcionar aos professores da rede pública estadual subsídios teórico-metodológicos para o desenvolvimento de ações educacionais sistematizadas, e que resultem em redimensionamento de sua prática43. De acordo com o documento em análise, e que apresenta as diretrizes destinadas a todos os profissionais envolvidos, direta e indiretamente com a EaD da SEED/PR, essas iniciativas citadas visam à superação de práticas que simplesmente relacionam a escola pública às necessidades do mercado como preconizado pelos referenciais nacionais. Conforme o documento: Dessa forma, na SEED/PR, a EaD apresenta-se como uma possibilidade a mais de qualificação dos profissionais da educação, com vistas ao aperfeiçoamento da prática docente, de modo que haja melhoria do processo de ensino e de aprendizagem nas escolas. Não há, nessa concepção de EaD, pretensão de substituir a formação presencial nem de servir aos interesses do mercado de trabalho, regulados pela lógica da competição e do individualismo (PARANÁ, 2010, p. 14). Como é possível notar, os autores do documento manifestam-se conscientes dos debates e contradições presentes na consolidação da EaD no Brasil, sobretudo quando utilizada para a formação inicial e continuada de professores. Fica evidente na ressalva com relação aos interesses do mercado de trabalho, a preocupação para que na forma como propõe a SEED/PR a EaD não se constitua uma estratégia de substituição do ensino presencial. No entanto, é também 41 Disponível em: <http://mariocz.wordpress.com/folhas-e-oac/>. Acesso em: 8 ago. 2011. Disponível em: <www.diaadia.pr.gov.br/tvpaulofreire/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=66>. Acesso em: 8 ago. 2011. 43 Disponível em:<www.pde.pr.gov.br/modules/noticias/>. Acesso em: 8 ago. 2011. 42 85 perceptível que o documento está pautado pelos princípios da democratização do acesso ao conhecimento e a promoção da autonomia dos sujeitos. De acordo com a caracterização da formação continuada na modalidade a distância da SEED/PR que o documento apresenta, “quando se fala em EaD, o conceito de Educação assume um papel democrático, pois contribui para socialização do conhecimento e, assim, amplia as possibilidades de compreensão do mundo e de autonomia” (PARANÁ, 2010, p. 15). Não obstante a cautela com que os autores do documento tratam o tema, é preciso mencionar que esses princípios estão presentes nos discursos dos organismos supranacionais que recomendam a utilização da EaD como forma de superar os déficits educacionais e oferecer educação aos indivíduos para que estejam preparados para atender às exigências do mercado de trabalho. Nessas Diretrizes, a EaD é entendida como integrante de um campo teórico mais amplo, que é o da Educação. Assim, a exemplo das demais modalidades de educação, a EaD viabiliza, por meio de suas especificidades, o acesso aos saberes, ao conhecimento, à emancipação. Além disso, oportuniza o desenvolvimento da autonomia do sujeito nos processos de ensino e de aprendizagem, apontando caminhos para se trabalhar com mais liberdade em seus estudos e pesquisas. Essa autonomia propicia que os “sujeitos construam sentidos para o mundo, que compreendam criticamente o contexto social e histórico de que são frutos e que, pelo acesso ao conhecimento, sejam capazes de uma inserção cidadã e transformadora na sociedade” (PARANÁ - DCE História, p. 31). Aliada à ideia de democratização, a EaD possibilita, também, o aprendizado sem fronteiras, nos diversos níveis da Educação, independente do espaço e tempo, possibilitando, desse modo, novas formas de interação e de aprendizagem (PARANÁ, 2010, p. 9). Como se pode notar pela citação anterior, os princípios de autonomia e cidadania ficam muito latentes. Além destes, acrescenta-se o aprendizado sem fronteiras, ou seja, que supera as barreiras de espaço e tempo. No entanto, há que salientar a compreensão de EaD no horizonte maior, que é Educação com vistas à emancipação. Com essa ressalva, os autores do documento parecem querer evitar uma concepção reducionista de EaD que desconsidera o que até então foi produzido no campo educacional. Da mesma forma a preocupação com a emancipação revela a concepção histórico-crítica que norteia o documento, mesmo que em algumas partes demonstre-se demasiadamente eclético. Isso porque, ao mencionar a “formação em serviço” como inovador, o documento evoca princípios da pedagogia das habilidades e competências. Com relação ao conceito de EaD, por exemplo, os autores do documento recorrem a Moore e Kearley (2007) e entendem que a diferença básica entre a 86 educação presencial e a distância está no fato de que professores e alunos estão em lugares diferentes em parte ou durante todo o tempo que aprendem e ensinam. É necessária a utilização de alguma tecnologia para transmitir informações e proporcionar interações. São, portanto, características básicas da EaD a separação espaço-temporal e a realização de interações com o uso de tecnologias de informação e comunicação. Salienta-se ainda que “nesse processo, as tecnologias são consideradas meios e não fins educacionais” (PARANÁ, 2010, p. 15). Outros autores como (PRETTI, 1996), (BELLONI, 1992, 1999), (LOBO NETO, 2001), (PRETTO, 2003), (ALONSO (2005), (PETERS, 2004), (GIDDENS, 1997), (NOVA; ALVES, 2003), (ZAMLUTTI, 2006), (FREITAS, 2003), (SANTOS, 2002), (MALANCHEN, 2007), também são citados para a compreensão do conceito de EaD e do seu processo histórico. Apesar da ressalva quanto à consideração das tecnologias como meios e não como fins, é possível notar que o conceito de EaD adotado no documento focaliza justamente a dependência de algum tipo de tecnologia para transmitir informações e propiciar meios de interação, já que conforme o conceito adotado, professores e alunos estão em locais e tempos diferenciados. Não obstante a necessidade do uso de tecnologias na EaD, importa salientar que pensá-las como meio, e não como fins, implica considerar a educação como referência e utilizar a tecnologia como recurso, e não adaptar o processo educacional ao que permite a tecnologia. Assim, enfatiza-se que o uso das tecnologias tanto no ensino presencial como na EaD exige organização e planejamento. Nesse sentido o documento estabelece que: Os cursos a distância devem ser ofertados com formatos preestabelecidos a partir da carga horária. Devem ser previstos encontros presenciais, sendo opcionais em cursos com duração de 64 horas e obrigatório em cursos com carga-horária maior. Esses encontros podem acontecer a qualquer tempo – no início, meio ou final dos cursos -, conforme as necessidades e objetivos do proponente (PARANÁ, 2010, p. 16). Essa organização proposta objetiva a interação e produção coletiva em ambientes virtuais, buscando sempre atender à especificidade da EaD. Os encontros presenciais, apesar de poderem acontecer a qualquer tempo do curso, são obrigatórios naqueles com carga horária superior a 64 horas. Outra questão abordada é a formação do professor para trabalhar na Educação a Distância, que no entender dos redatores do documento se constitui como um desafio da Coordenação de EaD. Assim, consideram necessário: “investir 87 na construção da identidade do professor tutor, profissional que irá atuar nos cursos a distância ofertados pela SEED/PR” (PARANÁ, 2010, p. 16). Esse professor deve ser especialista no conteúdo do curso que acompanha e sua formação deve seguir a mesma perspectiva que a SEED propõe para o profissional da educação, qual seja: [...] aquele que estuda e que em meio a tantas demandas, busca aprimorarse, formar-se e capacitar-se, portanto é o sujeito que tem domínio do saber e deve mediar este saber – oferecê-lo ao seu aluno de forma organizada e sistematizada. É aquele que ensina. Com certeza não ensina qualquer conteúdo apenas como via de desenvolver capacidades mentais [...] mas é aquele que seleciona o recorte do conteúdo, o qual não é aleatório e sim planejado, movido por uma intenção social, política, histórica e cultural. (PARANÁ, 2009, p. 11, in: PARANÁ, 2010, p. 16, grifo do autor). Considerando a ontologia, que orienta nossa perspectiva de análise, percebe-se que, mesmo propondo a mesma formação que recebem os demais profissionais da educação, o documento considera necessário investir na construção da identidade do professor-tutor, criando uma categoria diferenciada. Não obstante as especificidades da EaD, é preciso salientar que um professor com uma sólida formação gnosiológica, epistemológica, ético-política, pedagógica e estética44 certamente dará conta de atender às necessidades dessa modalidade educacional, sem prejuízo para sua constituição ontológica. O domínio de determinadas práticas ou técnicas específicas não são suficientes para moldar uma nova identidade do professor. Além disso, qualificar professores como tutores pode se constituir como justificativa para uma baixa remuneração, além de provocar o desprestígio da profissão. Conforme expressa o documento em análise: Sendo o tutor aquele que media, guia, orienta e apoia, que interage permanentemente, levando a construção de autonomia nos estudos por parte do aluno, ele assume muitas das características e funções do professor. Assim, a SEED/PR optou pela nominação de professor-tutor, pois se o tutor instiga, provoca e apresenta situações-problema, leva à pesquisa e reflexão, relaciona e articula teoria e prática, motiva, busca e propõe tarefas que auxiliem na aprendizagem, proporciona, promove e avalia a aprendizagem, ele desempenha o papel de docência, logo, é professor (PARANÁ, 2010 p. 21). Na compreensão expressa no documento o tutor é um dos principais atores da Educação a Distância, presente e constante em cursos de formação a distância. 44 Nessa pesquisa optamos por não abordar a questão estética diretamente, no entanto, entendemos que ela é fundamental na formação de professores. Vale destacar segundo a perspectiva teórica aqui adotada que a estética marxista busca conceitualizar o que é, não assinalar o que deve ser. Não traça normas ou regras de criação. É incompatível, por isso, com todo normativismo (VAZQUES, 2011, p. 102). 88 Nesse sentido expressam o entendimento de autores como Masuda (2003), Machado e Machado (20004), Souza (2004), Mill et. al. (2007) e Barros (2002) para os quais o tutor é sujeito importante para êxito de cursos a distância, tendo como função de orientar e esclarecer dúvidas dos alunos com relação à disciplina que é responsável. O documento ainda recorre à compreensão apresentada por Preti (1996, p. 40) de que o tutor atua entre “o estudante, o material didático e o professor” desempenhando, portanto, o papel de mediador. Para o autor citado, também as especificidades de ordem cultural e regional e a concepção da instituição que oferta os cursos na modalidade EaD determinarão características e papéis a serem desempenhados pelos tutores. “Nesse contexto, o tutor assume e desempenha o papel de mediador entre o material didático e o cursista, tendo papel diferente o professor que organiza o conteúdo e elabora material a ser utilizado nos cursos” (PARANÁ, 2010, p. 21). A partir dessa breve descrição é possível perceber que existem contradições na maneira como esse documento da SEED/PR compreende e propõe o trabalho de tutoria nos cursos a distância. Apesar da tentativa de superar o binômio professor e tutor, ele ainda permanece, já que mesmo optando pela nomenclatura professortutor o documento afirma que o tutor desempenha papel diferente de professor, atuando como mediador. Além disso, o documento utiliza expressões como “o papel” “a função”, “atores”, “personagem” que provocam confusão já que nesse sentido, o tutor representa algo que ele não é, impactando diretamente na questão ontológica, ou seja, na compreensão de sua própria identidade que o documento defende ser necessário construir. No que diz respeito à gnosiologia o documento recorre a Arce (2000), para quem o conhecimento deve inquietar, ou seja, ser uma vacina contra a apatia. Nessa perspectiva “a formação na modalidade EaD não pode prescindir da figura do mediador desse conhecimento. Figura aqui representada no papel de professor-tutor”. Com relação à epistemologia, o autor citado é Duarte, (2000, p. 59). Segundo o autor, […] existe sim um conhecimento objetivo da realidade natural e social, conhecimento este que deve ser transmitido [...] Acreditamos que é possível conhecer a realidade de forma objetiva e abarcar a totalidade. Os parâmetros não são o cotidiano de cada indivíduo, mas a humanidade seu desenvolvimento e seus patrimônios intelectuais e culturais, que devem ser disponibilizados para todos [...] o trabalho educativo passa [...] a possuir um significado muito mais profundo tocando na essência do ser humano, não sendo mero instrumento de adaptação, mas condição imprescindível para mudança (PARANÁ, 2010, p. 17). 89 A partir dessas considerações os redatores do documento expressam que uma concepção de EaD nessa perspectiva não pode pressupor a adequação da formação continuada ao mundo contemporâneo, já que isso significaria priorizar o método sobre o conteúdo, ou seja, adequar o sujeito, a uma realidade contraditória e excludente. Para tanto, o conhecimento que se concebe é construído histórica e dialeticamente pelo conjunto da humanidade, não é efêmero ou relativizado, mas reconstruído a partir das práticas sociais e como imperativo do modo humano de produção social da existência. Isso implica que o conhecimento se dá na e pela práxis. A práxis, segundo Frigotto (2004, p. 81), expressa a unidade indissolúvel de duas dimensões distintas, diversas no processo de conhecimento, a teoria e a ação: “A reflexão teórica sobre a realidade não é uma reflexão diletante, mas uma reflexão em função da ação para transformar. Portanto, o processo de apropriação do conhecimento deve ser concebido como práxis no campo educacional” (PARANÁ, 2010, p. 18). Nota-se por essa consideração que há uma preocupação em afastar-se de uma concepção instrumental do conhecimento o que expressaria uma “nova” Teoria do Capital Humano. Apesar de não citar explicitamente, percebe-se que o documento recorre à pedagogia histórico-crítica para expressar sua compreensão de conhecimento. Com base nesse entendimento, afirma-se que a EaD “além de veicular conteúdos necessários para formação prática profissional consciente e transformadora, possibilita a prática social reflexiva e emancipadora” (PARANÁ, 2010, p. 16-17). Não obstante, a solidez dos argumentos adotados e as ressalvas expressas com relação à teoria do capital humano e o entendimento da tecnologia como meio, ainda assim, transparece certo ecletismo epistemológico, expresso, sobretudo pelos autores citados e a forma como são comentados. No que tange à dimensão ético-política, há no documento um forte apelo quanto à consideração da EaD enquanto modalidade educacional promotora da democratização do conhecimento, da autonomia dos participantes e por conseguinte da cidadania. Essa autonomia propicia que os “sujeitos construam sentidos para o mundo, que compreendam criticamente o contexto social e histórico de que são frutos e que, pelo acesso ao conhecimento, sejam capazes de uma inserção cidadã e transformadora na sociedade” (PARANÁ - DCE História, p. 31). Aliada à ideia de democratização, a EaD possibilita, também, o aprendizado sem fronteiras,nos diversos níveis da Educação, independente do espaço e tempo, possibilitando, desse modo, novas formas de interação e de aprendizagem (PARANÁ, 2010, p. 9). 90 A citação anterior demonstra que nesse documento que apresenta as diretrizes para EaD na SEED/PR, a Educação a Distância é considerada um meio de promoção da democracia, da cidadania. Assim, a SEED/PR tem investido em ações que promovem a formação continuada pela EaD, diversificando cursos e universalizando o acesso, com o objetivo de melhorar a qualidade da educação. Com base nos princípios que balizam as ações da SEED/PR, a modalidade a distância ofertada, preferencialmente, na formação continuada de profissionais da educação. Atendendo, também, demanda específica, nas parcerias com o MEC: formação técnica profissional, em nível médio; formação subsequente, especialmente nos municípios nos quais não há oferta de cursos presenciais (PARANÁ, 2010, p. 15) Conforme Arco-Verde (2008), os princípios que regem o processo de formação continuada da SEED/PR são: caráter democrático, valorização profissional e atendimento à diversidade e o que se busca é a melhoria da qualidade da educação pública, visando à transformação da realidade educacional. A EaD é, assim, promovida por políticas públicas45, desenvolvimento de programas e projetos que procuram concretizar os ideais almejados. Porém, como já foi apontado anteriormente, esses princípios de autonomia, democracia e cidadania são os mesmos invocados por organismos internacionais quando sugerem a adoção da Educação a Distância nos países em desenvolvimento para suprir seus déficits educacionais. No que diz respeito especificamente à formação continuada pela EaD, o Documento “Educação a Distância” da SEED/PR chama a atenção para o compromisso dos sujeitos envolvidos no processo o que deixa latente a dimensão ética presente no fenômeno educativo. Os conhecimentos teóricos, os estudos permanentes, a prática pedagógica e o comprometimento são princípios fundamentais que levam à ação docente de mediação, a partir de movimentos de interação estabelecer as diversas relações existentes no espaço escolar, sejam elas de ordem econômica, política, social e/ou cultural. Interação, aqui, entendida como a “ação entre” participantes de um encontro, ou interagentes, focando a relação estabelecida pelo compartilhamento, em uma dimensão coletiva e colaborativa (PARANÁ, 2010, p. 18). 45 Podem ser citadas a Coordenação de Formação Continuada do Estado do Paraná (CFC), instituída pela Resolução n. 1467/2004, viabiliza a realização de eventos centralizados e descentralizados direcionados a uma rede de 65.000 profissionais do sistema público educacional. A criação pela DITEC (Diretoria de Tecnologias Educacionais) da CEaD (Coordenação de Educação a Distância) em 2008, que trabalha de forma articulada aos vários departamentos da SEED/PR objetivando a oferta de formação continuada, semipresencial e a distância, para os professores atuantes nas diferentes áreas educacionais (PARANÁ, 2010, 30). 91 O documento expressa também o entendimento que a formação continuada do professor deve emergir de seu cotidiano escolar articulada a uma discussão teórica que considere as reais necessidades de sua prática pedagógica em uma perspectiva dialética. Quanto à dimensão pedagógica, uma das mais desenvolvidas no documento, parte-se do pressuposto que a questão central da EaD está no conteúdo pedagógico.” Prioriza-se, assim, ação pedagógica com o trabalho de tutoria, de forma que se privilegie a compreensão do conhecimento em suas dimensões científica, filosófica e artística (PARANÁ, 2010, p. 18). Recorrendo a Libâneo, (1983)46 argumenta-se que “a EaD, além de veicular conteúdos necessários para a formação da prática profissional consciente e transformadora, possibilita a prática social reflexiva e emancipadora”. Nessa perspectiva, conforme o documento, os programas de EaD precisam partir de conhecimentos historicamente produzidos que não serão apenas ensinados, mas trabalhados em uma relação de significação humana e social (PARANÁ, 2010, p. 16). Nessa perspectiva, o documento postula que: O papel da educação é oferecer aos estudantes os instrumentos necessários para mudar sua prática social e possibilitar o acesso à emancipação. Para tanto, a própria formação do docente precisa partir desse pressuposto. Assim, a EaD deve ser entendida como parte de um todo, como modalidade educacional que vai além do mero uso de meios tecnológicos e da situação presencial ou não do docente; como sendo uma modalidade que possibilita a apropriação dos conteúdos necessários para a formação profissional e humana. Dessa forma, tanto na escola como na formação continuada, o ponto de partida do trabalho docente é a prática social que, a partir da instrumentalização, do saber, do conhecimento socialmente produzido e elaborado, promove um retorno a uma nova prática social ressignificada (PARANÁ, 2010, p. 17) Com base nas considerações citadas o documento afirma que uma concepção de EaD nessa perspectiva não pode ser apresentada como uma simples adequação às necessidades do mundo contemporâneo. Entendê-la e concretizá-la dessa forma seria considerá-la como um fim em si mesmo, colocando a primazia do método sobre o conteúdo. Assim, é necessário considerar que todo programa em educação compreende objetivamente a formação de sujeitos situados histórica, econômica, cultural e socialmente, vinculando-se, portanto, às condições concretas para sua viabilização; sujeitos que, uma vez situados em sua 46 “é preciso que os métodos favoreçam a correspondência dos conteúdos e reconheçam neles o auxílio de compreensão da realidade” (LIBÂNEO, 1983, In: PARANÁ, 2010, p. 16). 92 concretude, são condicionados por sua realidade ao mesmo tempo em que podem modificá-la. Isso se faz possível uma vez que se relacionam, dialeticamente, com seu processo de aprendizagem, retomando, a partir de elaborações abstratas e concretas, uma nova forma de pensar e fazer a educação (PARANÁ, 2010, p. 18). Novamente fica evidenciada a apropriação da proposta pedagógica histórico-crítica, mesmo que não diretamente esse termo apareça. No entanto, no todo do documento ela aparece justaposta com expressões e compreensões que sugerem práticas contraditórias aos princípios por ela defendidos, como, por exemplo, “prática social reflexiva e emancipadora”. A partir da análise realizada anteriormente é possível dizer que o documento “Educação a Distância”, que apresenta as diretrizes para a EaD no Estado do Paraná, é marcado por um ecletismo de concepções pedagógicas com a predominância da tendência histórico-crítica. Esse ecletismo talvez seja consequência do processo colaborativo em que o documento foi elaborado e seus diversos autores. Considerando que, entre as políticas públicas de formação continuada de professores do Estado do Paraná, o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) é o que mais e destaca, pela sua abrangência e envolvimento com todos os departamentos da SEED/PR no próximo tópico, analisamos, a partir das cinco categorias já explicitadas anteriormente, o documento síntese do PDE, versão 2007, intitulado: “Uma nova política de formação continuada e valorização dos professores da Educação Básica da rede pública estadual”. 3.2 O PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO EDUCACIONAL – PDE47 Idealizado durante a elaboração do Plano de Carreira do Magistério em 2004, (Lei complementar nº103/2004)48, a partir da concordância entre os gestores da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) e os representantes do Sindicato dos Professores Estaduais do Paraná, o Programa de Desenvolvimento 47 Diversamente do PDE Nacional, o PDE Paraná prioriza a formação presencial. No entanto, o Programa paranaense conta com um sistema informatizado, denominado Sistema de Acompanhamento e Integração em Rede (SACIR), construído a partir do Ambiente Pedagógico Colaborativo (APC). O APC já é utilizado na rede pública estadual para a elaboração e disseminação de conteúdos curriculares pelos professores. Também é preciso mencionar os Grupos de Trabalho em Rede (GTR), que é uma atividade realizada totalmente a distância e que está integrada ao PDE. 48 Art. 20. Fica instituído, no âmbito da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), destinado ao professor com objetivo de aprimorar a qualidade da Educação Básica da Rede Pública Estadual, de acordo com as necessidades educacionais e socioculturais da Comunidade Escolar (PARANÁ, 2004). 93 Educacional (PDE), do Estado do Paraná, concretizou-se no ano de 2007 para produzir progressões na carreira e melhoria na qualidade da educação oferecida nas escolas públicas do Paraná. O programa constitui-se como um conjunto de atividades organicamente articuladas, definidas a partir das necessidades da Educação Básica, e que busca no Ensino Superior a contribuição solidária e compatível como nível de qualidade que se deseja para a Educação Pública paranaense (PARANÁ, 2007). A partir do ano de 2007 se deu a implantação do Programa, desenvolvido pela SEED em cooperação com as Universidades Públicas Estaduais e Federais do Paraná e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. O objetivo desse programa é o aperfeiçoamento permanente e a qualificação sistemática dos professores da Rede Estadual de Educação Básica do Estado do Paraná, buscando melhorar o processo ensino aprendizagem nas escolas públicas do Estado (PARANÁ, 2005). Conforme o art. 2º do Decreto nº 4482 de 14 de março de 2005, 49 que implantou o Programa de Desenvolvimento Educacional, o programa foi estruturado para “oferecer ao professor qualificação profissional diferenciada que complemente sua formação, considerando titulação acadêmica, didático-pedagógica e científica, com a valorização da sua experiência profissional”. De acordo com a Introdução do Documento Síntese de 2007 o Programa assumiu os seguintes pressupostos como princípios orientadores: a) reconhecimento dos professores como produtores de conhecimento sobre o processo ensino-aprendizagem; b) organização de um programa de formação continuada atento às reais necessidades de enfrentamento de problemas ainda presentes na Educação Básica; c) superação do modelo de formação continuada concebido de forma homogênea e descontínua; d) organização de um programa de formação continuada integrado com as instituições de Ensino Superior; e) criação de condições efetivas, no interior da escola, para o debate e promoção de espaços para a construção coletiva do saber. (PARANÁ, 2007, p. 12-13). Os pressupostos elencados demonstram que a formação continuada é tomada como um elemento necessário para melhorar a qualidade da educação pública oferecida nas escolas do Estado. Para tanto, a organização desse programa 49 Conforme o decreto no seu Art. 2º: “Poderá ingressar no PDE o professor integrante do Quadro Próprio do Magistério da Rede Estadual de Educação Básica do Paraná – QPM que estiver em exercício no nível II, classe, 11, da carreira de Professor”. 94 de formação continuada deve atender a dois requisitos fundamentais, quais sejam, contemplar as necessidades reais dos problemas enfrentados na Educação Básica e estar integrado com as Instituições de Ensino Superior. O professor que ingressa no PDE é afastado de suas atividades de docência por um período de dois anos, sendo 100% no primeiro ano e 25% no segundo. Nesse período, o professor PDE retorna à Universidade para realizar um aprofundamento teórico em sua área de formação inicial. O PDE propõe uma formação cujo ponto de partida é a realidade escolar. O professor que participa do programa deve refletir de forma sistematizada e coletiva sobre as necessidades reais da escola pública e desenvolver projetos para intervir nessa realidade. Esse novo modelo de Formação Continuada visa proporcionar ao professor PDE o retorno às atividades acadêmicas de sua área de formação inicial. Este será realizado, de forma presencial, nas Universidades Públicas do Estado do Paraná, e, de forma semipresencial, em permanente contato do professor PDE com os demais professores da rede pública estadual de ensino, apoiados com os suportes tecnológicos necessários ao desenvolvimento da atividade colaborativa. (PARANÁ, 2007, p. 13). Essa interação expressa na citação anterior é conceituada como “Formação Continuada em Rede”, entendendo essa rede como o movimento permanente e sistemático de aperfeiçoamento dos professores da rede estadual de ensino, estabelecendo um processo de formação continuada construída socialmente. Propondo a reversão de um quadro, em que os programas de formação continuada se desenvolvem por meio de políticas e ações isoladas, que consideram que os professores estão sempre nos mesmos patamares de formação e experiência profissional, o PDE prevê o retorno dos professores às atividades acadêmicas. Dessa forma, o professor PDE iniciará suas atividades nesse novo processo de formação continuada elaborando um Plano de Trabalho em conjunto com o professor Orientador das IES. O Plano de Trabalho constitui uma proposta de intervenção na realidade escolar, a ser estruturada a partir de três grandes eixos: a proposta de estudo, a elaboração de material(is) didático(s) e a coordenação de Grupo(s) de Trabalho em Rede (PARANÁ, 2007, p. 14) Ciente da necessidade de proporcionar condições para que essas propostas se concretizem, o documento-síntese do PDE 2007 atesta que a implementação de um novo modelo de formação continuada requer mudanças na cultura das instituições e no modo de pensar as estruturas de formação, o que não ocorre por 95 decreto ou pela utilização de mecanismos meramente burocráticos. O que se busca, então, de acordo com a SEED/PR é a ação solidária e colaborativa visando proporcionar condições para que o programa se concretize. Nesse sentido é fundamental a afirmação presente no documento de que “serão asseguradas aos participantes do PDE a infraestrutura, as ferramentas tecnológicas e principalmente, o afastamento remunerado de suas atividades regulares, necessário para o bom aproveitamento no PDE” (PARANÁ, 2007, p. 14). A partir dessa breve exposição do programa, podemos agora concentrar atenção nas categorias propostas para análise. Com relação à ontologia, um dos pressupostos assumidos pelo PDE é o reconhecimento dos professores como produtores de conhecimento sobre o processo ensino-aprendizagem, ou seja, a compreensão dos profissionais da educação como “sujeitos epistêmicos”. Assim, o professor é considerado como um sujeito que aprende e ensina na relação com o mundo e com os outros homens, “portanto, em um processo de formação continuada construída socialmente” (PARANÁ, 2007, p. 13). O professor é entendido como sujeito epistêmico, ou seja, um ser que está para o conhecimento como o conhecimento está para ele como meio de compreensão e intervenção da realidade em que está inserido. Dessa maneira, no que diz respeito à gnosiologia/epistemologia, é preciso destacar que “a concepção de conhecimento proposta pelo PDE norteia-se pelo princípio ontológico do trabalho, e, portanto, tem como preocupação básica a análise da realidade dessa categoria na sociedade capitalista e nas escolas” (PARANÁ, 2007, p. 17). Essa concepção de conhecimento respalda-se em alguns elementos fundamentais que são descritos no documento que podem ser sintetizados nos seguintes pontos: a) conhecimento, produzido historicamente pelos homens; b) as verdades devem ser tomadas enquanto produções históricas, o que assegura a negação de qualquer dogmatismo; c) a superficialidade expositiva deve ser questionada e evitada, assim como as meras esquematizações; d) as tensões entre os pólos opostos devem ser reconhecidas como inerente às práticas sociais sendo necessário acautelar-se com a racionalidade 96 técnica e propostas pós-modernas de educação, pautadas por concepções pragmatistas e utilitaristas do conhecimento (PARANÁ, 2007). A partir da análise desses pontos elencados, é possível dizer que o Programa de Desenvolvimento Educacional do Estado do Paraná pauta-se em uma concepção materialista histórica e dialética do conhecimento que reafirma a importância da relação homem, trabalho e sociedade. Tal concepção apoia-se na compreensão de Lukács (1978), para quem a história dos homens é a história do conhecimento e de como eles se apropriaram socialmente dos recursos da natureza para sua sobrevivência, sempre pelo trabalho, o que faz dessa categoria mediação ontológica e histórica na produção do conhecimento. Já no que diz respeito à dimensão ético-política o Documento síntese do PDE estabelece alguns princípios político-educacionais como parâmetros básicos, fundamentados nos seguintes eixos norteadores: a) compromisso com a diminuição das desigualdades sociais; b) articulação das propostas educacionais com o desenvolvimento econômico, social, político e cultural da sociedade; c) defesa da Educação Básica e da escola pública, gratuita de qualidade, como direito fundamental do cidadão; d) articulação de todos os níveis e modalidades de ensino; e) compreensão dos profissionais da educação como sujeitos epistêmicos; f) estímulo ao acesso, à permanência e ao sucesso de todos os alunos na escola; g) valorização do professor e dos demais profissionais da educação; h) promoção do trabalho coletivo e da gestão democrática em todos os níveis institucionais; i) atendimento e respeito à diversidade cultural (PARANÁ, 2007, p. 15). Pela exposição desses parâmetros básicos nota-se, conforme expresso no documento, que o PDE assume como referência os princípios pedagógicos da SEED/PR, explicitados nas Diretrizes Curriculares para Educação Básica50. Assim, o que se busca é oferecer uma formação continuada que promova a emancipação e a verdadeira prática da cidadania, em que o sujeito não é considerado como um simples participante de um seguimento, mas como “sujeito capaz de pensar a sua própria formação e participar ativa e criticamente de um projeto social de interesse coletivo” (PARANÁ, 2007, p. 16) . 50 Nesse contexto, as Diretrizes Curriculares para a Educação Básica elaboradas pela SEED apontam para a seguinte direção: a) base disciplinar, com ênfase na relação entre os conteúdos científicos de referência e os saberes escolares das disciplinas que compõem a matriz curricular; b) a não adoção da concepção teórico-metodológica dos PCNs (que se fundamentam nos quatro pilares da UNESCO: aprender a aprender; aprender a ser; aprender a viver com; e aprender a fazer); e da pedagogia das competências. Promover a leitura, a escrita e a interpretação e a inserção crítica do jovem no mundo do trabalho são os grandes objetivos que determinam a existência da Educação Básica no Estado (PARANÁ, 2007, p. 15-16). 97 No tocante à dimensão pedagógica que completa nossa análise, conforme explicitado no documento síntese, “entende-se que a proposta de Formação Continuada do PDE caracteriza-se por princípios inovadores da formação em serviço” (PARANÁ, 2007, p. 16). Assim, o PDE objetiva levar o professor a reconhecer correntes pedagógicas, nas suas diversas abordagens, suas ênfases sobre o sujeito ou objeto, sobre a relação entre os componentes educativos e o mesmo sobre o relativismo da ciência. De acordo com o PDE, a formação do professor tem como base a socialização de saberes, pela sua inter-relação com o Ensino Superior, com os demais professores nos Grupos de Trabalho em Rede e, também, com os alunos em sala de aula. A compreensão da ontologia, da gnosiologia/epistemologia, da dimensão ético-política e pedagógica ajuda a perceber que o PDE é uma política pública de formação continuada de professores marcada por conflitos, disputas, contradições, mas que de um modo geral procura proporcionar uma formação de qualidade para os professores. Percebe-se que há coerência entre os aspectos analisados, mesmo que expressões como “formação em serviço” apontem a presença de pressupostos teórico-metodológicos divergentes da concepção que norteia o documento síntese do PDE no seu todo. Para aprofundar nossa compreensão com relação ao PDE apresentamos na sequência a análise de entrevistas semiestruturadas realizadas com professores que participaram/participam do Programa entre 2007 e 2011. 3.3 O QUE DIZEM OS PROFESSORES Entre os participantes da pesquisa, cinco são professores PDE (alunos do programa). Outros entrevistados foram: um professor que atuou na secretaria de educação como mediador de Grupos de Trabalho em Rede (GTR), um professor Orientador (de uma Universidade Estadual) e um professor representante do sindicato dos professores (APP), que também realizou o PDE, perfazendo um total de oito professores entrevistados. As entrevistas foram todas gravadas em dispositivo de áudio e transcritas. Os professores entrevistados receberam uma carta de apresentação e assinaram um 98 termo de compromisso concordando em participar voluntariamente da pesquisa conforme apêndice. Convém salientar que, para duas entrevistas realizadas com professores residentes em regiões afastadas de Curitiba, utilizou-se o telefone como recurso, sendo as entrevistas igualmente gravadas. As questões propostas foram elaboradas a partir das categorias de análise dessa pesquisa, ou seja, as perguntas procuraram focalizar a ontologia, a epistemologia, a gnosiologia e as dimensões ético-política e pedagógica. Assim foram propostas as seguintes questões: 1. Qual a concepção de educação que está presente no PDE? (Geral). 2. Como é ser professor antes e depois de ter participado do PDE? (ontologia). 3. Com que tema trabalhou no PDE, por que o escolheu? (gnosiologia/epistemologia). 4. Que conteúdos e como são trabalhados durante a participação no PDE? (gnosiologia/epistemologia). 5. Questões ético-políticas são abordadas? Como? (ético-política). 6. Como você avalia sua prática pedagógica depois da participação no PDE? (pedagógica). Na entrevista com o professor Orientador aqui denominado Professor O, foram aplicadas as seguintes questões: 1. Qual a concepção de educação que está presente no PDE? 2. Quantos professores você orienta e quais os critérios para a realização das orientações? 3. Como é realizada a escolha dos professores orientadores para o PDE? Para o professor da Secretaria de Educação que atuou de 2007 a 2010, como mediador nos Grupos de Trabalho em Rede, aqui denominado Professor GTR, foram feitas as seguintes questões: 1. O que é o GTR e que relação ele tem com o PDE? 2. Qual a concepção de educação que está presente no PDE? 3. Questões ético-políticas são trabalhadas? Como? No que diz respeito à entrevista com o professor representante do Sindicato APP Sindicato - (Professor S), além das questões feitas para os professores PDE, mencionadas acima, realizamos o seguinte questionamento: Qual a posição do Sindicato dos professores com relação ao PDE? 99 As respostas para cada questão foram organizadas em quadros, sendo os professores PDE representados por letras A, B, C, D, E o que assegura o anonimato dos entrevistados. Ainda com relação aos sujeitos dessa pesquisa, é importante mencionar que o professor A é licenciado em Geografia, já possui mestrado e atuou diretamente na Secretaria de Educação. O professor B é pedagogo e atua em sala de aula com a disciplina de sociologia em um município do núcleo regional de Ensino de Ponta Grossa. Já o professor C é licenciado em Educação Física e trabalha na Secretaria de Educação do Estado na área da educação especial. O professor D também trabalha na Secretaria de Educação com educação especial e tem como formação inicial ciências e matemática, mas também é graduado em Pedagogia e Direito. Quanto ao professor E possui licenciatura em Língua Portuguesa e Literatura e atua em sala de aula em um município pertencente ao Núcleo regional de ensino de Ponta Grossa. Os professores A e B são da turma 2009 e estão em fase de conclusão do PDE. Os professores C, D e E participaram da turma 2007 e já concluíram o programa. No quadro 1 a seguir apresentamos as respostas dos entrevistados sobre a questão da concepção de educação que está presente no Programa de Desenvolvimento Educacional. Quadro 1- Concepção de Educação do PDE Qual a concepção de Educação presente no PDE? Professor A A concepção que está no PDE que é o professor voltar dos bancos universitários, retomar estudos teóricos metodológicos, pensar em um projeto que interesse a sua escola e a seu universo de alunos. Ficar afastado um ano para fazer esse estudo e voltar pra escolha pra fazer aplicação da pesquisa. Então parece que esse entendimento agora é mais forte. E aí a articulação das IES com o professor da rede, os professores do PDE de 2009, 2010, já tiveram um ganho, com relação a 2007. Professor B Olha, eu acho assim, o programa de desenvolvimento educacional é único no mundo. Ele está sendo copiado também por outros países, né. O Paraná foi pioneiro né. Então qual a ideia? Que os professores melhorem a prática em sala de aula. Então o que foi feito? Pra que, é, tanto que a gente fica um ano fora, pra você estudar, né, você fica um ano, estudando, tendo aulas e depois você volta com 75% de, é como eu estou trabalhando agora né. Estou com 75% de aula e 25% para eu implementar o meu projeto né. Então seria para uma maior qualidade e qualidade na educação, na educação pública do Paraná. Professor C Eu acredito que é a primeiramente a questão da valorização dos profissionais de educação, que tenham interesse em desenvolver 100 Professor D Professor E Professor GTR um trabalho mais aprofundado. Eu acredito que a primeira questão do programa é essa, dar ao professor oportunidades novas de estudos e capacitação própria. Concepção? Olha, eu achei que está mais a positivista, tá. É porque cada governo ele desenvolve uma concepção diferente. Por que a minha eu fiz a passada do governo passado. Eles incentivam a continuidade, capacitam o professor, para que ele possa trabalhar com seus alunos, porque que hoje tem muita facilidade, tem acesso aos meios de comunicação. Tem professor que não está trabalhando com isso. A tecnologia. Atualizando o conhecimento e também trabalhando essa questão, o uso da tecnologia. Eu senti que eles estavam dando ênfase. Aí nós vamos ter que discutir em relação às próprias disciplinas. Existe como um pano de fundo, como uma discussão é principal dentro da secretaria e isso perpassa o PDE e perpassa as disciplinas, que é uma discussão a partir ou tendo como base as teorias, a teoria histórico-crítica ou as teorias críticas do conhecimento. Pra não focar em Saviani ou qualquer outro teórico nós podemos falar teorias críticas do conhecimento. Então isso é fundamento principal. Lógico, nós temos em algumas disciplinas um viés, uma vertente mais pesada ou mais influente do materialismo histórico-dialético, como é o caso da Arte, ou mesmo da Educação Física. Temos uma vertente um pouco mais multiculturalista se é que nós podemos utilizar isso, que eu não estou indo direto à fonte, mas há autores, segundo as leituras, no caso, por exemplo, da biologia. Nós temos, tínhamos né, algumas discussões a respeito do pós-modernismo, autores como Deleuze, no caso da Língua Portuguesa. Então nós tínhamos isso é pulsante dentro de uma diretriz como uma concepção geral dentro das teorias críticas. Então existe né, esse viés crítico, mas não com essa pureza, nós podemos dizer assim, pra que se dizer é uma estrutura fechada dentro de uma concepção hermética. Então tínhamos essa liberdade. E o pano de fundo para construção dos Grupos de Trabalho em Rede e a estruturação do próprio PDE, sim, as teorias críticas do conhecimento. Lógico que com essa liberdade é, teórica é, vindo também da universidade. Por que o Grupo de Trabalho em Rede, né o GTR ele é subsidiado por um professor Orientador. Esse professor Orientador é o professor da Rede que fica afastado durante dois anos fazendo o PDE. Muito bem. Esse professor também tem um orientador, que é o professor da universidade. E nós sabemos que dependendo da universidade, dependendo da Instituição, lá temos também um campo teórico, temos também uma escolha teórica, uma predominância sobre essa ou aquela teoria e a gente sabe a diversidade. [...] Então nós temos certa diversidade dependendo do corpo docente que temos dentro de uma instituição . E isso pesa dentro da pesquisa do nosso professor Orientador. Mesmo tendo como base uma diretriz curricular que nós temos para cada uma das disciplinas, nós temos sim a influência desse professor que hora é de uma linha [...] Então ele sim vai dar um tom. Ele acaba dando um tom para a pesquisa. Então isso se funde, muitas vezes até se conflita dentro da 101 Professor O Professor S pesquisa do professor. Isso é evidente quando a gente percebe os comentários nos fóruns, no chat, nos mecanismos de interação que a plataforma moodle possibilita. [...]. No meu entendimento a concepção de educação que permeia o PDE, ela pode até não ser clara no primeiro momento, mas é uma concepção que deseja problematizar a própria prática do professor na escola. Isso pra mim é fundamental. Eu poderia dizer: ah tem uma política freiriana, mas eu não sei se é isso que está no projeto do PDE. Então a gente observa pelas discussões. Confesso que não fiz a leitura do projeto político governamental. [...]. Se a gente for fazer relação, por exemplo, com a definição do Eric Hobsbawm do que é um movimento revolucionário, e o que é um movimento reformista, eu diria que essa política e a própria concepção de educação ela vai se enquadrar em um reformismo. Mas como diz o Eric Hobsbawm, movimentos reformistas elas são necessárias em determinadas conjunturas para que em outras conjunturas o movimento seja revolucionário. Parece-me que há uma concepção critica de educação, mas ela é bastante híbrida. Porque eu vejo que ali os professores que eu oriento, eles lêem Paulo Freire, eles tem formação discutindo a educação em Gramsci, mas ao mesmo tempo eles estudam Nóvoa. Eles estão entre autores mais críticos, e entre autores que se enquadrariam em um eixo pós-moderno. Autores que dão mais centralidade às vezes ao sujeito e a subjetividade do que aos processos históricos. Então eu entendo que essa concepção crítica ela ainda é mesclada pelo até o que a gente vive na sociedade brasileira, políticas um tanto quanto ecléticas, no âmbito governamental. Pelo que a gente consegue aprender, o PDE foi se constituindo em uma formação continuada que entende a importância da relação o entre o Ensino Superior, as licenciaturas onde se formam professores, em uma necessária articulação com a Educação Básica e onde esses professores vão atuar. E uma forma, no depoimento de muita gente, e mesmo participando das aulas, obrigou a universidade, obrigou o Ensino Superior a olhar para Educação Básica. Porque os cursos de formação de professores estão divorciados do lócus onde os profissionais vão atuar. E não é possível pensar Educação Básica desarticulada sobre as agencias formadoras de professores. Não se pode fazer nenhuma critica a Educação Básica que não esteja acompanhada de uma crítica muito contundente as agências formadoras de professores. Porque se a educação está ruim, é porque o professor não teve uma formação também, não é o único determinante, mas se há problema na Educação Básica, há problema na formação do professor no Ensino Superior. E o PDE obriga o Ensino Superior a olhar para isso. De inicio foi bastante conflituoso, o primeiro ano do programa foi bem difícil porque tudo estava sendo ajustado. Tinha muita coisa para ser ajustada. Mas do último ano, no ano que eu fiz o programa que foi 2009, 2010, já se conseguiu definir esse programa, que não é mais um programa, é uma lei. Então o PDE não é mais um programa, nem só uma política, ele é parte do nosso plano de carreira. Porque a 102 condição para ir para o nível 3 da nossa carreira, é passar pelo PDE. As respostas apresentadas no quadro 1 demonstram que não existe uma noção clara no que diz respeito à concepção de educação que está presente no PDE. Apenas o professor Orientador e o professor GTR manifestaram que a concepção está baseada nas teorias críticas de conhecimento. No entanto, o professor GTR salientou que não se trata de uma concepção fechada, mas que carrega uma liberdade teórica conforme os exemplos citados das participações dos professores nos Grupos de Trabalho em Rede em diversas disciplinas. O professor GTR ainda procurou explicar a causa desse ecletismo reportando-se: 1)aos objetivos do PDE, enquanto o que está posto nos documentos; 2) o que o professor PDE quer pesquisar e 3)com o que o professor Orientador trabalha como pesquisa. De acordo com a resposta do professor GTR todos esses fatores colaboram para que se tenha a presença de várias concepções teóricas, apesar de, como ressaltou o mesmo professor, o PDE ter como pano de fundo as teorias críticas do conhecimento. O professor A manifestou que houve um crescimento de modo geral, com relação ao entendimento do que propõe o PDE e isso está ligado com a concepção de Educação que o norteia. Nesse sentido ele manifestou os conflitos que estão presentes quanto aos temas que são escolhidos para as pesquisas do PDE, as dificuldades com os orientadores, o que também foi expresso pelo professor GTR. Nas respostas dos professores A e B ficou mais evidente a questão de melhorar a prática dos professores em sala de aula, o que, aliás, apareceu na fala de todos os entrevistados. Contudo, é preciso salientar que essa fala, mesmo que aponte para tal, não expressa em si uma concepção de educação, mas sim, um dos objetivos do PDE. Outro ponto importante a ser considerado é que nem todos os professores atuam em sala de aula, o que expressa uma evidente contradição. Os professores C e D fizeram referência à oportunidade de capacitação dada aos professores, bem como à valorização dos mesmos. Todavia, a fala do professor C destoa muito do que expressaram os demais entrevistados quando afirmou: “Olha, eu achei que está mais a positivista, tá. É porque cada governo ele desenvolve uma concepção diferente. Porque a minha eu fiz a passada do governo passado”. Vale destacar que o professor C participou da primeira turma do PDE e sua fala confirma o ecletismo de posições e concepções teóricas, já mencionadas anteriormente. A fala desse professor, com relação à concepção de educação 103 presente no PDE também se mostra muito distante do que está proposto no documento síntese do PDE 2007. Com relação à fala do professor S, antes de comentar especificamente a questão referente à concepção de educação, convém expor a posição do Sindicato quanto ao PDE. Como expressou o professor S: Nós somos absolutamente favoráveis. Nós debatemos isso, quando debatemos o plano de carreira, o que nós estamos discutindo e propondo o plano de governo do estado do Paraná, desde a década de 1980, nós passamos todos os anos 90 debatendo o plano de carreira. Só que com o governo de 1990, não tivemos avanço nenhum nesse debate. Aliás, o que tínhamos que era o estatuto do magistério e uma tabela de vencimentos e alguma regulação de avanço de progressão e promoção. Nos anos 1990 nós lutamos para não perder o pouco de regulamentação que tínhamos da nossa profissão. Em 2002 com a mudança no governo, a gente não teve apenas uma mudança no governo, nós tivemos uma mudança na concepção de estado. Na mudança de governo de 2002 para 2003. Em 2002 no processo eleitoral nós realizamos debate com todos os candidatos ao governo do estado. Nós entregamos a todos os candidatos o resultado da nossa conferência estadual de educação que eram as propostas dos trabalhadores para o próximo governo. E todos os candidatos se comprometeram com as nossas propostas, e uma das propostas centrais era plano de carreira para os professores e plano de carreira para os funcionários da escola. O PDE foi discutido, portanto, não como uma política separada. Ele foi discutido como parte do nosso plano de carreira. Então ele foi amarrado ali. Quando foi aprovado o plano de carreira, ir para o nível 3 precisava de uma regulamentação. A regulamentação, a condição para se ascender para o nível 3, era passar por um programa de desenvolvimento educacional. Como fica evidente na fala do professor S, a APP Sindicato assume uma posição absolutamente favorável com relação ao PDE e o considera uma conquista de longos anos de luta e trabalho em defesa dos trabalhadores da educação pública no Paraná. O professor S também falou das dificuldades encontradas no contexto dos anos 1990 em que a luta era para não perder o pouco de direitos conquistados. O professor S comenta ainda a mudança ocorrida de 2002 para 2003, que para ele não foi apenas uma mudança de governo, mas de concepção de Estado. Comentou também sobre o compromisso que todos os candidatos nas eleições de 2002 assumiram com a classe dos professores, em que uma das propostas centrais era plano de carreira para os professores e o plano de carreira para os funcionários da escola. Como ressaltou o professor S; “O PDE foi discutido, portanto, não como uma política separada. Ele foi discutido como parte do nosso plano de carreira. Então ele foi amarrado ali”. No que diz respeito especificamente à questão da concepção de educação que está presente no PDE, para o professor S trata-se de uma concepção que “compromete o Ensino Superior à Educação Básica”. De acordo com esse professor: 104 “Não se pode fazer nenhuma crítica à Educação Básica que não esteja acompanhada de uma crítica muito contundente às agências formadoras de professores”. Como explica o professor S, a questão da formação do professor não é o único determinante da baixa qualidade da Educação Básica, mas, como ele afirma; “se há problema na Educação Básica, há problema na formação do professor no Ensino Superior. E o PDE obriga o Ensino Superior a olhar para isso”. Assim, a fala do professor S aponta para uma concepção de educação pensada de forma integral em que todos os níveis estão articulados. A análise das respostas apresentadas permite dizer que há uma fragilidade evidente no campo teórico, marcada pela superficialidade. O contato com tendências pedagógicas diversas é positivo e inclusive está proposto no PDE, no entanto, a superficialidade e falta de um eixo claro no que diz respeito à concepção de educação comprometem profundamente o programa e seus objetivos enquanto proposta de formação continuada considerada única e inovadora. No entanto, como ficou evidente na fala dos entrevistados há um consenso de que o PDE é uma política de formação continuada que traz benefícios para os professores, colaborando para melhoria da educação pública no Estado do Paraná. Na sequência, no quadro 2 apresentamos as respostas dos professores entrevistados com relação à ontologia e a questão proposta foi a seguinte: como é ser professor antes e depois de ter participado do Programa de Desenvolvimento Educacional? Quadro 2 - A ontologia Como é ser professor antes e depois de ter participado do PDE? Professor A Olha eu vou te falar mais dos meus colegas, como eu tenho mestrado, eu pedi dispensa das disciplinas do PDE, eu não tive que cursar nenhuma. Só que a gente acompanhou os que voltaram do PDE 2007 e assim eles gostaram muito. Inicialmente o professor vai muito desconfiado pra esse tipo de programa e a fala é muito comum assim: Ah! Bom, pelo menos eu vou ficar um ano fora de sala de aula e vou descansar um pouco, mas aí voltar a estudar, voltar a ter que fazer textos, ler coisas, produzir coisas. Enfim como são professores de fim de carreira que entram no PDE estão no último nível lá e tal, é gente que tava há muito tempo já longe da universidade. E isso é pra boa parte deles, eu não sei se maioria, mas boa parte desses professores falam de quanto isso foi gratificante, quanto isso foi bacana, voltar a estudar, conhecer produções acadêmicas novas recentes que eles não sabiam, porque há muito tempo já se formaram. Então nesse sentido a gente nota que, que deu uma renovada. E aí quando eles voltam para a escola, e aí eu posso falar porque eu 105 Professor B Professor C Professor D Professor E estou em uma escola que a turma de 2009 voltou agora, e estavam terminando de implementar o projeto quando eu voltei. Felizes por terem vivido essa experiência. Ficam muito orgulhosos. Alguns deles, por exemplo, até publicam trabalhos, seus trabalhos do PDE até em congressos internacionais. Eu pesquisei o último EGAL que é o Encontro de Geografia da América Latina. Encontrei uns 5 ou 6 trabalhos publicados no EGAL que aconteceu no Chile em 2009. Pessoal de 2008 que apresentou os trabalhos. Olha eu me senti uma privilegiada, porque eu fui a primeira, sou a primeira aluna PDE da minha escola e da minha cidade também. Porque do meu colégio somos em duas, eu e uma outra amiga que é de outra escola né. Então eu acho que foi assim um privilégio, por que daí você sai, você vê que apesar de eu já ter 30 anos de magistério você tem muita coisa ainda pra você ensinar. Então o PDE te dá essa abertura. Ah, mas ainda tenho muita coisa que aprender, ainda tenho muito que ensinar pro meu aluno né. Ainda tenho bala no cartucho. Apesar de eu achar assim, que o PDE teria que ser para os professores mais novos. Porque eu ainda vou ficar, sabe professor. Eu já tenho 50 anos, já tenho 27 para aposentadoria, já poderia me aposentar, mas eu ainda gosto do trabalho e eu só vou trabalhar 20 horas. Mas pra aquele professor que precisa trabalhar 40 e que não tem mais de 54. Pra ele eu acho que o PDE deveria ser um pouco antes. Agora o Beto abriu, você pode fazer no nível 8, 9,10 e 11. Só que daí você só vai constar quando você estiver no nível 11. É você vê professores assim, será eu vou fazer o PDE por que só sair de sala de aula. A pergunta é boa e é gostoso falar sobre isso. Porque eu acredito que o PDE foi um marco na política educacional. Possibilitou que você pudesse estudar, que você pudesse ter o seu hábito de estudo sem horários, que você pudesse facilitar esse seu aprofundamento nos estudos. E quando a gente volta, a gente volta com mais vontade de desenvolver as ideias postas no PDE. O problema é que eu não atuo em sala de aula né. Tá, no núcleo também assim você tem um conhecimento maior, até por que você participa das instituições, a minha foi na Tecnológica né. Então você vê toda uma outra concepção das universidades Federais. No caso a que eu participei tá. Então você, lógico que vai aumentar o seu conhecimento com essa nova formação. Você vai ver as coisas que estão sendo atualizadas naquela, naquela tua disciplina ou uma maneira geral. Por exemplo, o meu foi educação especial. Então houve um avanço nesse sentido. Acho que ajuda sempre pra melhor. Eu fiz o PDE em 2007, 2008. Melhora, sempre melhora. Todo aprendizado que a gente tem é para crescimento pessoal e também profissional. Antes, principalmente essa questão do uso da tecnologia, a gente não tem tempo, a gente não se envolve porque eu acho porque não é cobrado. E de repente você vai para um curso que abre para outras possibilidades, então gera uma transformação. Eu sempre fui uma professora que buscou novidade para os alunos, que tentou sair da mesmice. Eu 106 Professor GTR Professor O Professor S trabalho português e inglês. Então eu acredito, o PDE, eu trabalhei português e literatura. O que eu fiz, o que eu me dispus a estudar sobre o autor. Era uma coisa que eu gosto de fazer e gosto de passar para os alunos. Eu acho que pra mim, foi muito proveitoso. Eu acredito que eu cresci com isso. Muita coisa. De repente alguma coisa que eu tinha em mente. Eu aprendi na universidade que a literatura tinha que ser na ordem cronológica. A apresentação nas escolas. E no estudo do PDE mostra que não, que não tem que ser necessariamente dessa forma. Porque é uma coisa que fica enraizada. Se você aprende dessa forma, que você aprende lá na universidade é porque você não pode mudar porque se não você vai ficar perdido. E daí não, e foi uma coisa que pra mim, pelo menos, abriu a minha cabeça. *Essa pergunta não foi feita ao professor GTR porque ele não fez o PDE, mas participou como mediador e orientador dentro da Secretaria de Educação especificamente nos Grupos de Trabalho em Rede de 2007 a 2010. Essa pergunta não feita ao professor Orientador. Esse momento onde os professores suspendem suas atividades suspende suas práticas, para pensar sua prática. Eles se afastam da escola, para olhar para sua escola, é um momento muito rico. Pode não ser para todos, porque isso é atravessado pela concepção de escola e de sociedade que cada professor tem. Mas o que está lá, o que é apresentado como concepção desse programa de formação continuada, tem muita base teórica, tem substância teórica. E permite que o professor tenha um ano de condição de voltar a universidade. Muitos que não frequentaram uma universidade pública, portanto, nesse momento vão conhecer a universidade pública e suas estruturas. Porque 80% dos professores da rede são formados em faculdades privadas. Muitos em institutos privados completamente desvinculados de ensino, desvinculados de pesquisa ou extensão. Então para muitos dos professores, eles vão conhecer o espaço público da universidade e vão poder ter acesso a essa estrutura e essa condição. E olhar sob orientação de um professor da universidade pública, a sua escola e a sua realidade. Com certeza ele avança no processo de consciência, no processo de compreensão da realidade que ele está vivendo. As respostas apresentadas no quadro 2 expressam um consenso quanto à participação no PDE, qual seja: que todos os professores concordam que há uma melhora, a qual pode ser com relação à prática, novos conhecimentos adquiridos, ideias novas, atualização, abertura para outros entendimentos, principalmente quanto à disciplina ou campo de atuação de cada um. Contudo, o professor A explicou que foi dispensado das aulas do PDE por já ter feito o mestrado. Assim, ele comentou sobre as falas de colegas que consideram positiva a participação no PDE. Há que se considerar que essa dispensa, mesmo que possa beneficiar o professor participante que atuará praticamente como um co- 107 -orientador, impede outras formas de participação e colaboração no processo do PDE, já que o professor que pede dispensa das aulas fica também dispensado da participação nos Grupos de Trabalho em Rede onde a sua colaboração seria muito importante. O professor A também enfatizou que os professores se sentem orgulhos por poderem participar do PDE e que alguns chegam até a publicar seus trabalhos em eventos internacionais. A fala do professor B corrobora o que disse o professor A, já que conforme afirma o professor B ele se sente um privilegiado. Porém, o professor B levanta uma questão fundamental que diz respeito ao momento de participação no PDE. Na opinião desse professor o Programa deveria ser ofertado antes para que os professores pudessem retornar e atuar mais tempo em sala de aula. A fala desse professor aponta uma contradição no seio do PDE. Se esse Programa visa a melhoria da qualidade da educação, a melhoria da prática dos professores, por que ofertá-los apenas para professores que estão em fim de carreira? Mais adiante, ao tratarmos da dimensão pedagógica voltaremos a essa questão. O professor C considera o PDE um marco na política educacional e salienta que quando o professor volta, ele retorna com vontade de colocar em prática as ideias apresentadas no Programa. Já a fala do professor D, que como salientou, não atua em sala de aula, enfatiza a questão da atualização, ampliação do conhecimento no tocante ao campo de atuação do professor. O Professor E chama atenção na sua fala para o uso das tecnologias em sala de aula. Para ele falta cobrança para que os professores se interessem mais por essa questão. Ela acredita que sempre há melhora, crescimento, que a participação no PDE possibilitou ver novos horizontes, até mesmo com relação às questões da sua disciplina de atuação como citou. Já a fala do professor S evidencia um dado importante não expresso pelos demais entrevistados, qual seja, o fato de que 80% dos professores da rede pública estadual são formados em faculdades da rede privada e, portanto, não tiveram contato com universidade e menos ainda com a universidade pública. Assim, foram formados em uma concepção de Ensino Superior alheia à que integra ensino, pesquisa e extensão. O professor S considera o PDE uma oportunidade para que, principalmente os professores que não conhecem a realidade da universidade Pública, possam se aproximar dela, receber a orientação de um professor dessa universidade, que o 108 ajudará a avançar na sua formação, completando lacunas deixadas pela formação inicial. Não obstante o entusiasmo manifestado nas falas de alguns professores entrevistados, notamos que algumas respostas apresentaram superficialidade e se concentraram em questões pontuais relacionadas à própria disciplina ou campo de atuação do professor como: uso de tecnologias, a caracterização do próprio PDE como política educacional, quem deve fazer o PDE e quando, e não tocaram diretamente na questão do ser professor, mesmo que haja um consenso de que a participação no programa foi positiva. A seguir nos quadros 3 e 4 apresentamos as repostas referentes à gnosiologia/epistemologia e as questões propostas foram: Com que tema trabalhou no PDE e por que o escolheu? Que conteúdos e como são trabalhados durante a participação no PDE? Quadro 3- Gnosiologia/epistemologia Com que tema trabalhou no PDE e por que o escolheu? Professor A Então, eu estou trabalhando com o PNLD, Programa Nacional do Livro Didático. Porque eu me envolvi com o Programa Nacional do Livro Didático em 2005. Eu tava na secretaria de educação. Nós fomos discutir o currículo do Ensino Médio em Santa Catarina. A coordenadora do grupo de discussão era a coordenadora do PNLD de Geografia, que é a minha disciplina, e ela gostou da minha participação, da minha intervenção e me convidou para participar do programa. Desde então eu venho participando das avaliações do livro didático que o MEC faz. Do Ensino Fundamental. E aí eu fico é assim, me incomodava o fato do professor da escola não conhecer como que acontece essa avaliação, quais são os critérios, o quanto o livro didático melhorou depois que avaliação pedagógica, que isso já tem uns 15 anos que vem acontecendo. E o próprio uso que se faz na escola, e daí o meu lado de professor de escola, que eu sei que o guia do livro didático chega na escola e ele praticamente não é consultado. Os professores ainda escolhem o livro muito seduzidos pela oferta das editoras, por pressões dentro da própria escola. Às vezes até por comodismo: Ah! vamos continuar com o mesmo livro porque se mudar o livro vai me dar trabalho de preparar a aula. Então isso me moveu a escolher esse tema que é o PNLD. Professor B Então o meu são os valores que mediam a relação professor-aluno na escola. Por que eu escolhi esse tema? Assim, é, se você procura um médico quando você está doente. É, você não vai ao médico se não está doente. Então a minha ideia é assim, que você tem alunos bons e tem alunos que precisam aprender. Você tem que dar uma atenção maior para aqueles que não conseguem aprender, aqueles alunos que têm deficiência. E 109 Professor C Professor D Professor E onde entra os valores que mediam? Respeito, solidariedade, amizade, educação, por que isso aí compromete o aluno. Então, acontece que o pai vai na escola só quando o filho, chega o final do ano, que o aluno reprovou. E muitas vezes como vem de casa nossa clientela especial que eu acho pobre, sofrido, né, às vezes mal amado que mãe abandona, pai abandona, é, vive com padrasto, com madrasta, sofrem exploração, passam fome, miséria, né, miséria. E daí acontece que ele vai para escola e ele também mal tratado, às vezes pela maneira como o professor fala, por que não só, é, xingamento, às vezes a maneira que o professor olha pra ele, é a maneira como está sendo tratado. Eu por exemplo, não tenho problema com aluno, porque aprendi, porque tenho 30 anos de magistério. Então, nunca riscaram meu carro na escola. Então com o aluno, você trata bem, você consegue tudo com ele. Inclusive fiquei muito feliz, porque fiquei um ano fora, e daí quando voltei, um menino disse; - Nossa prof. Você voltou! Falei voltei. Então agora vou assistir aula de Sociologia. Então isso aí fiquei super feliz. Então eu quero trabalhar com isso. Eu vou implementar o meu projeto agora em outubro. Né, então esses valores, O tratamento, porque veja, o que o professor quer? Ser bem tratado, né. Mas muitas vezes ele não é bem tratado. Ele não trata bem o aluno. Porque infelizmente aconteceu o que? Você não tem emprego, você faz o PSS e vai dar aula, porque se tem curso superior. Tem muita gente que tá ali que não gosta do que faz. E o aluno percebe isso. Por que daí é mesma coisa quando você vai fazer um curso, quando você. Às vezes, não precisa te xingar. Então a maneira que a pessoa olha pra você, a maneira que ela te trata você já percebe tudo e o aluno não é diferente. Então o meu tema é esse, pra trabalhar, pra vê se melhora essa convivência do professor com o aluno. Se ele enxerga como o aluno tá, que aquele aluno tá precisando dele. Não que ele não vá dar atenção para aquele que sabe. Mas você tem que melhorar a relação com os alunos e dar mais atenção para aquele que estão precisando. Eu trabalhei com no tema da área das altas habilidades, superdotação, no contexto de formação de professores. Porque trabalhando no núcleo regional de educação eu tenho observado a angústia dos professores com relação a essa temática. Porque ainda se tem nesse contexto a ideia de que todo aluno superdotado é gênio. E não é verdadeiro isso, é mito. O aluno com altas habilidades possui uma específica que gostaria de desenvolver além do contexto da escola, e pra isso os professores de sala de aula precisam auxiliar esses alunos pra que ele avance. Eu trabalhei com a educação especial, tá, na área da surdez, com, juntamente com a legislação. Por ser professora da educação especial e por ter direito. Daí eu juntei as duas formações. Então eu fiz mais que um caderno pedagógico mostrando os direitos e deveres da pessoa surda. Então, eu trabalhei literatura, porque na pós-graduação eu fiz tipo de trabalho também e foi a mesma orientadora. Eu trabalhei, eu praticamente troquei o autor, o foco. Trabalhei Dalton Trevisan 110 Professor GTR Professor O51 Professor S 51 que é um autor curitibano, paranaense, e eu gosto do trabalho dele, tem muita gente que não gosta. Valorização do artista da nossa terra. E daí eu me propus a estudar o tema que dizia respeito ao pessoal do CBEJA, a solidão. A solidão é o foco dele. Como ele aborda a solidão. Que eu percebi com os alunos do CBEJA que muitos foram cursar CBEJA por ordem médica pra combater principalmente depressão. A questão da solidão estava ali. Então, quando eu comecei a juntar as coisas, eu achei que isso seria bom para os meus alunos e valorizaria o trabalho dele. As pessoas passariam a conhecer porque tem várias facetas de solidão, que a gente pode explorar nos contos. E os contos são fáceis de trabalhar em sala de aula porque são curtos. Então eu montei o projeto em cima disso. Trabalhei 20 contos do Dalton Trevisan, no Ensino Médio do CBEJA. Foi muito significativo o trabalho, pelo menos para mim. *Essa pergunta não foi feita ao professor GTR porque ele não fez o PDE, mas participou como mediador e orientador dentro da Secretaria de Educação especificamente nos Grupos de trabalho em Rede de 2007 a 2010. No meu entendimento sim. Jamais eu orientaria, por exemplo, a chefia falou isso aqui é pra você. Não, comigo não. Eu não sei se isso é feito com outros colegas. Tanto que nós fizemos mapeamento no departamento e nós também colocamos o tema de interesse. [...]. Então e u não vejo assim nos departamentos essa diretriz: Olha você vai orientar e ponto. Eu não sei se tem algum colega que se submete a isso. Eu valorizo muito o professor e sua simplicidade. Então e repente ah é um professor que está discutindo um tema que eu não tenha até grande interesse, mas é um professor que eu estou vendo que está a margem e que ninguém está querendo orientar no momento. Então eu digo: eu vou com a pessoa. Eu tenho um interesse nesse assunto, que é o que Paulo Freire dizia: a educação tem que propiciar que o aluno seja mais. Então professor e aluno eles tem que ser mais no processo. Então se algum dia eu também cheguei à universidade com grande dificuldade, muitas. Se não fosse meus professores da universidade pública, eu não teria superado todos os problemas que eu trouxe da escola pública, como aluna da escola publica, se não fosse meus professores da universidade, eu seria mais uma excluída. Então eu como professora universitária eu tenho que fazer a diferença pra esses alunos que chegam. E vou te falar uma coisa, na universidade a gente encontra muito ainda processos de discriminação. Então: Ah eu não vou orientar esse aluno porque ele está com bastante dificuldade e não sei o que, não sei o que. A gente tem que superar isso. Mesmo orientações que eu faço com a educação do campo, como são poucas as pesquisas ainda, poucos estudos sobre educação do campo, claro que as pessoas vão chegar com dificuldade de leitura, de compreensão da realidade. Eu estava no grupo de gestão escolar, apesar de ser professora Essa questão não foi feita ao professor Orientador, mas sim; como era feita a escolha dos orientadores e se ele tinha liberdade para não aceitar. 111 de língua portuguesa, porque eu quis discutir sobre violência e ver o quanto desse discurso da violência na escola é real. Te adianto que muito do que chamam de violência, mais de 99% das vezes é indisciplina. Na verdade a gente vive o processo de criminalização da indisciplina. Nessa relação com um professor que vai me orientar na bibliografia, vai me orientar na escrita do texto. As respostas apresentadas no quadro 3 demonstram que os temas mencionados possuem relevância para a realidade educacional paranaense. No entanto, como revelaram as falas dos professores A e GTR52, existem tensões para escolha desses temas, por conta de, se haverá ou não um orientador disposto a acompanhar o professor PDE, se aquilo que foi produzido será aceito pelos avaliadores da Secretaria de Educação e se realmente o estudo trará contribuições para melhoria da educação pública estadual. A escolha do tema de pesquisa pelo professor PDE é um dos pontos que está relacionado diretamente com a questão da aproximação entre os professores da Escola Pública e os das universidades. Como afirmou o professor A questionado sobre a concepção de educação do PDE: Então teoricamente o PDE deve estar atrelado a essa discussão que foi feita com todos os professores da rede que é a questão das diretrizes curriculares. E foi muito difícil fazer esse atrelamento nas primeiras edições do PDE. O PDE começou em 2007. A primeira edição a segunda, porque as universidades e aí sim essa aproximação foi muito complicada no começo. A universidade foi chamada a ser orientadora dos professores do Estado. E a Secretaria apresentou para as universidades linhas de trabalhos e fundamentos teóricos metodológicos que eram das diretrizes curriculares pelas quais essa orientação deveria acontecer. Eu tenho que dizer com toda franqueza que nas duas primeiras edições pelo menos as universidades resistiram muito, quando eu digo universidade eu tô generalizando é obvio que teve muitos docentes com a compreensão da proposta e com boa vontade com relação ao PDE. Mas muitos na edição 2007, 2008 do PDE orientaram o que lhes interessava. Então professor da rede ao falar com seu orientador vinha com uma ideia, um projeto de pesquisa e esse orientador: Não! Você vai pesquisar de acordo com a minha linha, de acordo com o que eu faço na universidade. Isso aconteceu porque nós estávamos lá na secretaria e nós lemos trabalhos desses professores e nós falávamos: meu Deus o que isso aqui vai contribuir para a escola? Nada, nada. Era pesquisa extremamente acadêmica. Muito pontual, muito recortada. De 2009 pra cá, a turma de 2009 e a nossa turma de 2010, a gente já sentiu que houve uma melhora muito grande até porque essas pessoa nas próprias IES como chamam as Instituições de Ensino Superior, que não estavam muito atreladas com essa concepção do Programa, tal, acabaram abandonando, deixando. Entraram outros profissionais do Ensino Superior e a relação com a secretaria de educação também foi amadurecendo né. Enfim, hoje a gente sente que há já um vinculo maior. A fala do professor A revela tensões e conflitos no processo de operacionalização do PDE no que diz respeito à aproximação da universidade com a 52 Aqui nos referimos à entrevista no seu todo com esses professores e não especificamente à resposta sobre a questão da gnosiologia/epistemologia. 112 escola pública, a escolha dos professores orientadores, escolha dos temas a serem trabalhados e a questão da aceitação pela universidade. Como relata o professor A, no início essa aproximação da universidade foi muito complicada, pois ocorreu um choque de interesses, ou seja, a universidade também tem suas diretrizes, suas linhas de pesquisa e não pode simplesmente acatar um projeto imposto de fora, mesmo que advindo da Secretaria de Estado da Educação e com o objetivo de melhorar a qualidade da educação pública. O mesmo acontece com o professor, orientador que também tem suas linhas de pesquisa definidas e não pode simplesmente ser obrigado a mudar ou incorporar projetos completamente distantes daqueles do seu interesse em função de um programa governamental. No entanto, a resposta apresentada pelo professor Orientador relata que houve professores nas universidades que receberam bem a proposta do PDE, e que de 2009 para cá essa aproximação melhorou e considera que há um vinculo maior. O professor S falou do seu tema, que é a questão da violência da escola e que sua pesquisa procura mostrar que vivemos um processo de criminalização da indisciplina. Falou também da ajuda que recebe do professor Orientador para a escrita do seu texto como um dos pontos fortes do programa. De maneira geral, no quadro 3 as repostas expressam a multiplicidade de temas que são trabalhados no PDE. A escolha do tema está muito relacionada com objetivos e preocupações do próprio professor que faz o PDE e do seu orientador. Os temas escolhidos e a maneira como os professores justificam suas escolhas revelam questões e situações que fazem parte da realidade da educação pública do Estado do Paraná marcada por grandes contradições. Quadro 4 – Gnosiologia/epistemologia Que conteúdos e como são trabalhados durante a participação no PDE? Professor A Então como eu te falei eu não fiz as disciplinas porque eu era dispensada, mas os conteúdos do PDE são assim: no primeiro semestre os professores fazem duas disciplinas que são de fundamentos. Uma de metodologia da pesquisa porque a maior parte está afastado, nós professores de Educação Básica não temos tradição de pesquisadores né. E outra; fundamentos da educação, da didática, e tal. São disciplinas iguais para todos os professores PDE. De todas as áreas. No segundo semestre do PDE aí as disciplinas especificas, Então por exemplo, eu sou da Geografia, para os professores da Geografia do PDE de 2010 foram ofertadas quatro disciplinas de temas diversos. Professor B Ah, nós tivemos aula de política educacional, nós tivemos aula de Sociologia, nós tivemos aula de História da Educação, tivemos aula de Português né. Tivemos é, Informática, Sociologia, 113 Professor C Professor D Professor E Professor GTR Filosofia. É tivemos também seminários integradores. Daí teve agora, é nós temos curso de tutoria porque temos que fazer tutoria, né porque daí nós fazemos, eu vou fazer tutoria e eu vou fazer um GTR, vou aplicar um GTR. Que mais? Foi bem. Daí a gente tinha aula presencial, a gente não podia faltar. O meu foi em Ponta Grossa. Na verdade sou formada na área de Educação Física, mas trabalho na área especial, diante de todas as áreas, área da deficiência intelectual, física, surdez, visual, e também área das altas habilidades, há muito tempo pelo Estado do Paraná. Então veja, nós aprendemos, nós trabalhamos com a questão de políticas públicas, nós tivemos cursos especifico de metodologia do ensino para montagem do nosso projeto. Pra montagem do nosso material didático, que eu fiz um caderno temático que eu fiz com relação aos eixos que eu acho interessante dentro da área das altas habilidades. Nós tivemos curso de saúde mental também. Nós tivemos cursos que envolvem a educação especial como um todo. No meu caso foi da educação especial em si. Que é a parte maior que envolve a gente. No caso daí, foi passado todas as deficiências né. Não só a área de surdez. Mas como eu tenho um enfoque já da minha pós-graduação, na área da surdez eu foquei mais nessa área. Nós sentimos, porque eu fui da primeira turma, nós sentimos quando nós chegamos na universidade que muitos professores estavam assim meio inseguros. E foi uma coisa que ao longo do percurso foi construída. Nós tivemos aula, de certa forma, de conhecimentos gerais, sobre educação, sobre avaliação, vários seminários, no geral, que seria o grupo grande. E depois em pequenos grupos especifico. Da língua portuguesa, por exemplo, não só literatura, nós trabalhamos a língua, sobre gênero, tudo que seria, que está dentro das diretrizes curriculares. Então foi abordado especificamente ali dentro fora a língua portuguesa, o todo. Que nem eu no caso, que fiz literatura, nós tivemos aula sobre literatura nós tivemos acompanhamento com as orientadoras então a coisa ficava mais particularizada. Foi no geral. Então eu posso falar pela minha disciplina né, pela minha párea de conhecimento que é a Arte. Como nós fizemos todo esse processo de mediação dos fóruns, orientação, que era incipiente ainda, apesar dos professores orientadores receberem uma formação pela Secretaria através da Diretoria de tecnologias pra fazer essa mediação com os professores, nós também, enquanto departamento de Educação Básica, auxiliávamos os professores orientadores nesse processo de orientação dos professores participantes. E nós conseguimos então, conhecíamos também os temas. Nós temos para cada disciplina do PDE, seja ela disciplina ou no caso da gestão, é, alguns eixos, algumas linhas de pesquisa. Então existem linhas de pesquisa dentro de cada uma das disciplinas, onde os professores participantes vão pensar as suas temáticas de discussão, as suas pesquisas e onde eles vão encontrar o subsídio na universidade de um 114 Professor O Professor S professor Orientador. Por exemplo, em Arte é muito forte a vertente da Arte e Tecnologia. Outra discussão: Espaços escolares, Espaço para a disciplina de Arte na Escola. [...]. Principalmente as dificuldades encontradas no processo de se ensinar. As tendências metodológicas que o professor ainda não transita. Então basicamente as dificuldades, essa tendência a regionalizar a discussão e muito do que o professor Orientador também orientava. Por que o professor Orientador tem uma linha de pesquisa, que ele pensa, que ele desenvolve, que ele escreve, que ele produz, que ele orienta lá na própria universidade. Então essas discussões, é, são fortes, é, condicionantes da escolha do professor por um determinado tema. Ele é muito influenciado pelo professor Orientador. *Essa questão não foi aplicada ao professor Orientador. Nós temos aulas, muitos seminários, nós discutimos coletivamente os nossos projetos. Recebemos sugestões dos nossos colegas do mesmo grupo. Para eu ter essa orientação, nós tivemos aulas teóricas. Então nós estudamos as bases da educação, os grandes pensadores, as grandes linhas de pensamento sobre a educação, e os formuladores, formuladoras dessa base teórica de educação, aí todos os autores, todos os teóricos da educação, estão em pauta. Em umas universidades um e em outras universidades outros. Paulo Freire, Gramsci, Saviani, todos esses autores estão em discussão. As repostas do quadro 4 mostram a organização presente no PDE quanto aos conteúdos trabalhados, ou seja, há um núcleo comum geral para todos os professores participantes e depois os núcleos específicos de cada disciplina. No entanto, cada professor enfatizou aspectos da sua disciplina ou que julgou mais importantes, como por exemplo, as aulas de informática e os cursos de tutoria. A fala do professor A enfatizou a disciplina de metodologia da pesquisa e, como salientou, a maior parte dos professores que chegam ao PDE está há muito tempo sem trabalhar diretamente com pesquisa acadêmica, o que reforça ainda mais a necessidade dessa disciplina. Como afirmou o professor A também não há entre os professores da Educação Básica uma tradição de serem pesquisadores. A fala do professor A aponta indícios das dificuldades encontradas no desenvolvimento do PDE, sobretudo no que diz respeito à pesquisa. E nessa perspectiva é importante ressaltar que não se forma um professor pesquisador com pouco tempo. A formação epistemológica como ressaltamos anteriormente demanda tempo, recursos, enfim, condições adequadas para se concretizar. A resposta do professor B destaca o curso de tutoria e a participação nos Grupos de Trabalho em Rede. Como afirmou, ele irá fazer tutoria, ou seja, aplicar um GTR onde as atividades serão desenvolvidas totalmente a distância por meio da 115 plataforma moodle. Nesse sentido, conforme a fala do professor GTR, a Secretaria de Educação Básica também oferece apoio durante o desenvolvimento do GTR, mesmo considerando que o professor já recebeu uma preparação anterior. De acordo com o professor GTR, que teve contato com Grupos de Trabalho em Rede de todas as disciplinas, os temas que mais são trabalhados estão ligados às dificuldades encontradas no processo de ensino-aprendizagem. Segundo o professor GTR há também uma tendência a regionalizar a discussão, o seja, trabalhar um tema relacionado com a região de onde vem o professor, bem como escolher temas que estão ligados com os interesses dos professores orientadores. Os professores C e D falaram da questão da educação especial, ressaltando que tiveram cursos que envolvem a educação especial como um todo. A fala desses professores destoa dos demais entrevistados, já que não fizeram menção aos temas que são comuns a todos os professores PDE. O professor E falou da insegurança demonstrada por alguns colegas ao chegarem à universidade para participar do PDE e destacou que a adaptação com essa nova realidade foi sendo construída ao longo do processo. Com relação às dificuldades apresentadas pelos professores PDE, o professor O afirmou: Eles têm um domínio com o que se passa na escola muito grande. Mas de outro lado os professores têm uma dificuldade com leitura, produção e interpretação de textos enorme. Aí a dificuldade, os problemas que a gente tem com o letramento. Então falamos tanto no número de analfabetos funcionais e falamos da dificuldade de letramento entre os alunos, mas a dificuldade com letramento está entre os professores. A dificuldade de ler, interpretar e escrever. Os professores têm uma grande dificuldade com a escrita. A gente observa isso com os alunos que chegam no mestrado, na especialização e agora. Eu estou com o oitavo período de pedagogia e eu vou fazer um trabalho dirigido com a aluna. Como é possível notar, a operacionalização do PDE esbarra em dificuldades que dizem respeito à própria realidade da Educação Básica. Dificuldades com leitura, interpretação de textos, letramento. Dificuldades estas que, conforme a fala do professor O, não são uma especificidade dos professores PDE, mas que estão presentes nos cursos de graduação, especialização e até no strictu sensu. Já a fala do professor S destacou a discussão coletiva dos projetos e como os conteúdos trabalhados nas aulas do Programa de desenvolvimento educacional constituem fundamentos para que depois cada professor PDE possa receber orientação e desenvolver sua pesquisa. 116 Essas considerações evidenciam a necessidade de pensar a educação no seu todo. A necessidade de implantar políticas, disponibilizar recursos, de oferecer condições aos professores e alunos para desenvolver uma formação sólida em todos os níveis. Do contrário, os programas de formação continuada se constituirão em ações corretivas de falhas, produzindo um círculo vicioso muito difícil de ser quebrado. Na sequência no quadro 5 apresentamos as respostas dos entrevistados com relação à dimensão ético-política. A questão proposta foi a seguinte: questões ético-políticas são abordadas? Como? Quadro 5- Dimensão ético-política Questões ético-políticas são abordadas? Como? Professor A Olha, isso é muito delicado. Por que é muito delicado? Porque até o desenho do PDE é diferente. Como os professores estão distribuídos para orientadores. Deixa eu te explicar o caso da geografia. Nós éramos um grupo de trinta e poucos, trinta e dois eu acho. Tinha gente sendo orientada por professores da FACIPAR que é do litoral. Por docentes da universidade do litoral. Aqui da nossa universidade Federal, daqui de Curitiba. Acho que tanto da Geografia quanto da educação. Esses docentes embora como eu te falei do PDE têm se aproximado mais da construção do PDE. Mas ainda assim cada um dá os encaminhamentos da orientação com seu orientando muito diversos um do outro. Então no encontro diário de área, o que é que a gente pode observar. Por sorte a minha coordenadora era orientadora do encontro de área. E aí ficava muito claro que alguns dos orientandos desses professores estavam muito perdidos. Completamente desorientados. Os seus textos, desde o projeto até o texto inicial, agora da produção didática a gente ta implementando muito fracos, sem uma objetividade, sem um recorte, nem o recorte temático tava claro. E enquanto que outros, orientados por outros docentes do Ensino Superior, o projeto estava mais bem definido, deu pra ver que o professor aproveitou melhor o período do PDE. Nos encontros diários a gente fez, agora fechando o ano de PDE. Então o que eu tenho para te dizer é assim, eu acho que essas questões ético políticas são muito pouco trabalhadas nessa relação do docente da IES com o professor da rede. Porque se fosse mais bem trabalhado, no mínimo o orientador teria que ter um compromisso mais sério de fazer com que esse orientando que é um professor da rede que tá há anos, tem dificuldades imensas inclusive de entender textos teóricos. Eu imagino que não deve ser fácil orientar esse professor que tá muito afastado assim. E a gente nota que alguns desses docentes não tão muito comprometidos com essa questão de tomar o PDE como um processo de formação da escola como você falou. A impressão que eu tive que os colegas da turma de geografia lamentavelmente vão voltar para a escola muito parecidos como 117 Professor B Professor C Professor D Professor E Professor GTR o modo que eles saíram de lá. Deve ter acrescentado pouco. Porque a gente nota que, coitados, a pesquisa deles não tem nenhum caminho definido assim. Eu não sei o que vai sair de produção final. Mas como eu te falei em 2007 isso foi com praticamente 100% dos professores que isso aconteceu. 2008 melhorou um pouco. 2010 eu diria pra você que, a menor parte dos professores do PDE vão sair dessa experiência assim sem muito a ser acrescentado. Feito uma pesquisa que talvez de a diferença lá na escola. A maioria a gente viu que tá bacana. Muito pouco. A nossa turma foi a 4ª turma do PDE, cada ano eles vão modificando alguma coisa né. Como agora o governo Beto Richa já mudou, já tem coisas que já não teve esse ano, vai ter o ano que vem. Mas foi abordado muito pouco. De política, de ética muito pouco. Foi só política educacional mesmo. Não foi muito abordado. Foram tratadas, sim. Inclusive nós tivemos também um curso sobre relações interpessoais. Que é justamente pra fazer esse gancho, não chegar na escola dizendo que a gente ta trazendo a proposta pronta, trazendo uma proposta para ser também discutida com relação aquilo que os professores que vão implementar junto com você possam ter esse trabalho, vamos dizer assim, como uma contribuição pra sala de aula, pra escola e para o próprio professor. Sim, até porque... Eu creio que sim, porque daí é feito, é feito toda uma aula. Tem a parte filosófica, tem a parte das concepções, tudo isso é feito. E até porque depois você vai ceder esses direitos. Então eles têm que passar para você o que necessariamente você tem que conhecer sobre tudo isso. Uma vez que você tá lá, justamente, o Estado tá te pagando né, pra você ter uma formação. Tá a gente não gostaria de estar cedendo os direitos autorais, mas alguém está te pagando para fazer aquele trabalho lá. Eu acho que não, eu acho que mais o que está sendo proposto pelas diretrizes, foi falado dos parâmetros curriculares, foi falado que o professor se mobilizasse para o crescimento pessoal, independente se ele está próximo a aposentadoria, que foi uma das coisas que nós sentimos na primeira turma. Alguns professores que estavam lá falavam: Ah, eu vou fazer, mas eu já vou me aposentar. Então eles colocaram isso bastante que tem professor que só pensa em se aposentar e não quer se atualizar. Então isso é prejuízo para os alunos e de certa forma para eles também que não vê uma coisa diferente que possa motivar. Então eu senti muito que fosse, sobre pegar no pé do pessoal nessa parte, mas foi trabalhado realmente as mudanças, as possibilidades da educação evoluir cada vez mais. Com relação à política mesmo assim foi explorado mais o que está nas diretrizes curriculares. Sim. Sim, a gente pode estar falando aí da filosofia e mesmo da sociologia muito presentes na discussão dos professores. Eu não tenho um conhecimento muito amplo, muito específico, no sentido da, por que eu posso me dizer um leigo dentro do campo da sociologia, das discussões do GTR pra sociologia e mesmo para 118 Professor O53 Professor S 53 filosofia. Mas nós temos sim algumas discussões presentes é em relação a principalmente dentro da sociologia: étnico-racial, é violência contra a mulher, preconceito, o papel da mulher na sociedade. Como nós não temos ainda muitos professores filósofos é no último nível de carreira, por que a gente sabe que o PDE você faz quando você está no último nível do plano de cargos e salários. E nós tivemos aí um esvaziamento histórico aí das disciplinas de filosofia e sociologia dentro do quadro próprio. Os professores que restaram, que não haviam se aposentado ainda são muito poucos. Então nós temos um grande número de professores que hoje, a partir de 2003, 2004 quando se retomam os concursos fazendo parte do quadro próprio. Que agora em 2011, nesse próximo PDE, como eu que entrei também em 2003, 2004 nos dois concursos, estou tendo então a possibilidade ou o tempo de serviço, cheguei no último nível do plano de cargos e salários e agora posso fazer o PDE. Então e agora que essas discussões vão chegar com o professor de filosofia, de sociologia, que vão participar agora em um número considerável pra gente perceber as contribuições ou as linhas de pesquisa para essas disciplinas. Então como as disciplinas se fecham dentro das suas próprias discussões muitas vezes, nessas disciplinas é que vão se concentrar esse tipo de discussão ética e filosófica. E pra você ter uma ideia no número de vagas [...] pra filosofia era o menor de todas e mesmo assim nós não fechávamos. [...] Então, eu vejo os professores muito interessados. Não sei como eles foram selecionados lá na ponta. A preocupação com a própria prática e com a junção da escola é muito grande. Agora eu não vejo os professores ampliando o olhar para processos de demanda de políticas governamentais. Então isso nos leva a questionar o PDE, porque lógico, é uma política que inicialmente é governamental, e agora pretende se construir como uma política de estado. Muito bem. Mas os processos eles são voltados para discussão da prática descolada dos processos políticos. Então eu acho que isso, lógico que a gente não vai esperar do governo, que esse processo de gerar pessoas questionando o próprio governo, mas a gente vai esperar da equipe que trabalham com os professores PDE a busca para discussão de mundo. Pra mim é assim: uma questão ético-política, pra quem é profissional do magistério, a mais alta questão ético-política é ter compromisso com aquilo que está fazendo. Eu não sou só um empregado do estado. Eu estou intervindo na formação éticopolítica de uma geração inteira. Eu estou falando eu, mas eu sujeito coletivo. Então esse é o mais alto compromisso que alguém pode ter. Então ser bom professor, ter domínio teórico prático da sua disciplina é o maior compromisso ético-político que alguém pode ter. E todas as discussões sobre educação são feitas no sentido de reiterar a grande responsabilidade, o grande trabalho que os professores realizam para toda sociedade. Isso Para o professor Orientador a questão feita foi: como é o compromisso dos orientandos, o compromisso ético-político, o compromisso do aluno que vem, como professor que vem? Como é o aluno, professor PDE? 119 para mim é o centro das discussões. E isso sempre está em pauta. Com relação às respostas apresentadas no quadro 5, nota-se uma grande divergência nas falas. O professor A respondeu que questões ético-políticas são muito pouco trabalhadas e argumentou que se isso acontecesse haveria maior compromisso dos professores orientadores para com o professor PDE, que chega com muitas dificuldades para participar do programa e que alguns voltam sem aproveitar quase nada. Conforme a fala da professora A: “Então o que eu tenho para te dizer é, assim, eu acho que essas questões ético-políticas são muito pouco trabalhadas nessa relação do docente da IES com o professor da rede”. O professor A ainda explicou que no caso das pesquisas realizadas, cada orientador trabalha de forma diferenciada, o que repercute diretamente em tratar ou não de questões ético-políticas. De acordo com o professor A: “Mas ainda assim, cada um dá os encaminhamentos com seu orientando muito diversos”. Como salientou o professor A: [...] se fosse mais bem trabalhado, no mínimo o orientador teria que ter um compromisso mais sério de fazer com que esse orientando que é um professor da rede que tá há anos, tem dificuldades imensas inclusive de entender textos teóricos. Eu imagino que não deve ser fácil orientar esse professor que tá muito afastado assim. No entanto, o mesmo professor afirmou que esse processo tem melhorado nos últimos anos e que as novas turmas do PDE têm aproveitado melhor o programa e desenvolvido pesquisas que poderão impactar positivamente na realidade das escolas onde voltarão a atuar. A fala do professor B evidencia que questões ético-políticas foram muito pouco trabalhadas, ainda que tenha mencionado o fato do estudo das políticas educacionais: “Mas foi abordado muito pouco. De política, de ética muito pouco. Foi só política educacional mesmo. Não foi muito abordado”. Essa afirmação no mínimo aponta limites na formação oferecida no PDE. Já o professor C afirma que essas questões ético-políticas foram abordadas e fez menção a um curso de relações pessoais oferecido, enfatizando que ao voltar para sua escola o professor não pode levar um projeto pronto e impô-lo, mas precisa discutir com os colegas a viabilidade dessa proposta. O professor D também afirma que questões ético-políticas são trabalhadas e justifica a necessidade de estudar essas questões, uma vez que o professor irá 120 ceder os direitos do material produzido durante sua participação no PDE. Esse professor também menciona o fato do ônus que tem o Estado ao propiciar essa oportunidade de formação continuada aos professores da rede pública. Para o professor E, questões ético-políticas não são trabalhadas no PDE, mas o que se focaliza são as propostas das diretrizes curriculares. Aqui também percebemos limites na formação oferecida no PDE. O professor E também comentou sobre o fato de que alguns professores, por estarem próximos de se aposentar, não consideram o PDE como formação continuada, mas sim como um ponto final na carreira. Já o professor GTR afirma que questões ético-políticas são trabalhadas no PDE e cita a presença da filosofia e da sociologia nas discussões dos professores nos Grupos de Trabalho em Rede. Porém, de acordo com a fala do professor GTR, há uma tendência das discussões se fecharem dentro de cada disciplina, de modo que questões ético-políticas (filosóficas, como ele afirmou) tendem a se concentrar nos grupos de Filosofia e Sociologia. Contudo, como ressaltou, há um déficit histórico de professores de Filosofia e Sociologia, o que faz com que questões éticopolíticas sejam menos trabalhadas. O professor GTR também acredita que com a retomada dos concursos e a chegada de mais professores dessas disciplinas as discussões com teor ético-político aparecerão com mais vigor. No tocante à fala do professor Orientador, vale ressaltar que sua resposta diz respeito ao compromisso ético-político do professor PDE. Segundo o professor O, há muito interesse por parte dos professores PDE, e que a preocupação com a própria prática é muito grande. Todavia, como salientou, não há uma ampliação do olhar dos professores para processos de demanda de políticas governamentais. Para o professor Orientador isso nos leva a questionar o PDE, que inicialmente é um programa governamental, mas que pretende se constituir como uma política de Estado. No entanto, “os processos, eles são voltados para discussão da prática descolada dos processos políticos” como afirmou o professor O. E não se pode esperar do próprio governo que questione a si mesmo, mas da equipe que trabalha com professores PDE. A fala do professor Orientador toca em um ponto fundamental no que diz respeito ao PDE que é incorrer no pragmatismo, na discussão da prática pela prática, na preocupação apenas do como ensinar deslocada de questões políticas, como se os conteúdos e as práticas pedagógicas fossem neutros. 121 Para o professor S, a questão ético-política sempre está em pauta no PDE, já que se trata de um programa de formação continuada de professores. De acordo com a fala desse professor, trabalhar com formação de professores implica necessariamente trabalhar questões ético-políticas, já que o professor intervém na formação ético-política de gerações. Assim, o professor S ressalta a importância do profissional da educação ter compromisso com aquilo que está fazendo. Em uma análise geral das falas dos professores entrevistados no tocante à dimensão ético-política, podemos dizer que há limites e contradições latentes nos processos do PDE. Isso transparece na superficialidade de algumas respostas e ao mesmo tempo nos problemas apontados pelos próprios entrevistados. Porém, reconhecemos – e isso também está presente nas falas dos professores – que o PDE é um Programa que pretende trabalhar a formação continuada de professores em uma perspectiva integral o que implica necessariamente atenção à dimensão ético-política não como um adendo, mas como centro norteador de propostas e ações. Por fim, no quadro 6 apresentamos as respostas relativas à dimensão pedagógica, cuja questão proposta foi a seguinte: como você avalia sua prática pedagógica depois da participação no PDE? Quadro 6- Dimensão Pedagógica Como você avalia sua prática pedagógica depois da participação no PDE? Professor A Assim, eu tenho que te dizer, e aí o meu caso talvez seja uma exceção entre os entrevistados. O PDE pra mim acrescentou pouco. Porque, na verdade, a grande experiência profissional que eu tive foi de ter saído da escola em 2004 e ter ido pra secretaria de educação. E aí lá a gente viveu uma experiência de proporcionar formação continuada para os professores, o que nos obrigava a estudar também. Ter participado das diretrizes nos obrigou a estudar muito para além das próprias disciplinas. A gente tinha que entender de todas as outras também um pouquinho. O exercício da produção de texto, orientador, professor, foi uma experiência muito rica. Então quando eu entrei no PDE por já ter o mestrado, por já ter 6 ou 7 anos de experiência na secretaria de educação, então por conta disso ter vivido várias avaliações. A convite do MEC e aí conhecendo professores do Brasil inteiro. De universidades do Brasil inteiro, trocando com essa gente, é uma troca muito rica né, fazendo análise dos livros do Ensino Fundamental, primeira a quarta, quinta a oitava, do Ensino Médio que também me acrescentou bastante. Pra mim o PDE acrescentou pouco, ter passado pelo PDE acrescentou pouco. E a minha prática na escola, ela, eu acho que ela tá melhor, porque na escola em 2003, quando eu encerrei o ano letivo lá, mas ela tá melhor por conta de toda essa 122 Professor B Professor C Professor D Professor E trajetória que eu acabei de descrever. Por eu ter aceitado trabalhar na secretaria de educação. Ter feito parte de uma equipe que teve coragem de sair e conversar com professores do estado inteiro. A gente teve que fazer um estudo muito forte pra fazer isso. Foi muito, muito interessante. E por ter participado desse todos que eu falei. Então pra mim, o PDE acrescentou muito pouco. Eu tenho que ser franca em te dizer isso. Agora eu acho que a minha prática na escola ta melhor por conta de toda essa trajetória. To voltando agora, to pegando curso de formação de docente a noite. É nível de pós-médio como se fala. As minhas alunas têm, todas têm Ensino Médio e algumas têm curso superior, ou pedagogia, ou uma pós-graduação, mas elas precisam dessa formação para os anos iniciais porque elas têm interesse em fazer concurso, parece que a prefeitura agora exige e tal. Então elas vão fazer uma espécie de complementação de curso. E aí eu to achando muito bom. Eu acho que meu trabalho tá bem melhor que alguns anos atrás. Ah eu voltei tão animada para sala de aula, com tanta vontade de dar aula. Mas eu senti que as outras pessoas queriam mais é sair, que o PDE foi, tipo assim, vou dar uma saída para eu sair de sala de aula. Então eu vejo assim, você conhece pessoas, eu encontrei pessoas que fizeram faculdade comigo vinte e poucos anos atrás, eu conheci pessoas novas eu aprendi coisas. Eu tive aulas boas, aulas chatas. Eu ficava semana toda se segunda à sexta pra Ponta Grossa né. [...] eu posso dizer assim que o PDE foi uma porta de entrada no mestrado na Universidade Federal do Paraná, porque lá eu tive a oportunidade de fazer disciplina isolada e começar delinear uma nova proposta dentro da rede, dentro da linha de políticas publicas que sempre foi meu direcionamento. Então o PDE me qualificou mais, o PDE me deu condições de estudo que até então eu não tinha devido à carga horária de 40 horas e me possibilitou enxergar um novo horizonte dentro de uma formação continuada. Eu acho assim, é uma oportunidade única que eles estão dando para o profissional. Vamos supor que eu estivesse em sala de aula. Eu acho que a hora que você dá aquela parada, porque você vem naquele ritmo acelerado de trabalho. Então você não está sempre se atualizando. Então é uma parada que você tem para repensar suas práticas pedagógicas e ver os novos, as novas concepções, o que está se passando em relação à educação. Até porque a própria educação especial ela muda muito as terminologias. Então, mas por que que muda? O que está acontecendo? O que cada pensador vem fazendo né? Ao passar do temo vai se mudando tudo. Eu acho que eu cresci muito com relação à visão do que eu tinha, pessoal da literatura, eu tento, aquilo que eu vi lá, eu passo para os alunos. A questão de tecnologia eu incluo nas aulas mesmo né, de literatura, que não tinha muito a ver, filme, essas coisas, então como trabalhar. Eu consigo agora buscar mais recursos, mais materiais, pra apresentar algum assunto, pra sair daquela aula expositiva teórica. E eu sinto que os alunos gostam, que tem 123 Professor GTR Professor O54 Professor S 54 um retorno deles, que compreendem melhor, participam melhor. Animou mais a aula. *Essa pergunta não foi feita ao professor GTR porque ele não fez o PDE, mas participou como mediador e orientador dentro da Secretaria de Educação especificamente nos Grupos de trabalho em Rede de 2007 a 2010. Eu só gostaria de comentar o seguinte, em tempos anteriores, talvez eu olhasse para o PDE como mais um programa pontual, e mais um programa conservador. Mas estando dentro, em contato com os professores, eu vejo que ele é um lugar importante de problematização de práticas de realidades e de políticas governamentais. Ele é um espaço importante. Depende muito da equipe de professores universitários que trabalham com os professores de PDE. Depende muito também dessa equipe fazer com que o programa que ele seja um programa critico, porque nós trabalhamos bastante com movimento social, e às vezes alguns trabalhos no movimento social, ele vem da demanda do movimento social. Mas ele é efetivado pela iniciativa governamental. Mas quem seleciona quem vai trabalhar no evento, em um seminário, por exemplo, é o movimento social. Então você escolhe as pessoas que vão trabalhar com pessoas. Quando você escolhe essas pessoas, você já define politicamente para onde você está indo. Agora como a universidade é uma instituição bastante conservadora, obviamente nós vamos ter trabalhos de orientação mais críticos e trabalhos de orientação mais frágeis. E talvez menos de ampliação de visão de mundo. Então eu diria isso, a gente tem que olhar o PDE, a gente tem que olhar com muito cuidado: vem do governo então é ruim? Mas olhar como um lugar de trabalho de pessoas. E pessoas que estão lá no chão da escola. Então isso pra mim é fundamental. Esse é um programa que possibilita encontro de pessoas de diferentes lugares do estado, e pessoas discutindo as práticas vivenciadas em escola pública. Pois é, eu tive uma situação de estando no sindicato, mas eu tive que retornar a escola. E pra mim foi bem importante, porque na escola onde eu estava tinha muito esse discurso: Há violência na escola. Então eu fui lá perguntar. Então me fale dessa violência, quero ouvir você falar. E todos os relatos que vieram foram de indisciplina. Ninguém soube me relatar uma situação de efetiva violência. Nós sabemos que o tráfico circunda na escola, mas isso não é uma realidade da escola pública! Onde tem mais dinheiro tem mais comércio de todos os tipos, inclusive da droga. A droga é um comércio. Vamos começar a discutir esse tema de forma menos espalhafatosa e com mais serenidade e seriedade também. Na minha pesquisa eu falei: cite situações de violências que você presenciou. Quantas vezes? Todo tipo. Eu tentei achar violência verbal, agressão física, entre aluno. Teve um ou outro relato de uma situação. Eu devolvi para os meus colegas. Aquilo para mim foi importante, primeiro porque eu tive estudar de novo. Ao professor Orientador não se perguntou sobre avaliação da própria prática após a participação no PDE, mas foi realizada uma questão aberta para que se expressasse com relação ao Programa. 124 Eu acho que só por isso o PDE teve um valor imensurável. O professor poder parar e estudar. Ter tempo para ler. Ter aula de novo. Virar aluno de novo. Lembrar como é ser aluno de novo. Ver como ele é indisciplinado na sala de aula, como ele é inquieto, ver como ele não consegue ouvir uma palestra de uma hora e meia sem cochichar, sem se mexer. Esse voltar à condição de estudante, já com mais maturidade, com anos de prática de sala de aula, pensar sobre essa vivência. E muitas vezes as aulas foram com a professora e a turma de graduação da professora. Então professores já com 15 anos, 20 anos de magistério com alunos da licenciatura. Porque os alunos de escola pública olham como se lá fosse a sucursal do inferno. E isso é preconceito. O grau de preconceito que existe é imenso, e desinformação. Então esse convívio é muito salutar, é muito pedagógico. Tanto para os estudantes como para os profissionais. Então poder suspender o meu cotidiano, poder voltar a estudar, escrever, ser obrigado a escrever. Ter tarefa para cumprir. Isso é muito importante na vida do professor. Não podia acontecer só uma vez. Por isso que a gente defende o ano sabático, que a gente pudesse fazer isso mais vezes durante a carreira. As respostas no quadro 6 oferecem elementos para afirmar que há um consenso entre os entrevistados de que o PDE é um programa de formação continuada que possibilita a discussão da realidade educacional paranaense, buscando melhorá-la. Todos os professores entrevistados concordam que avançaram pedagogicamente depois de ter participado do PDE. Mesmo aqueles que afirmam que o programa acrescentou pouco, confirmam que houve um crescimento nesse sentido. Conforme a fala do professor A, que por já ter feito mestrado foi dispensado das aulas do PDE, o exercício da produção de texto, orientador, professor, foi uma experiência muito rica. Mesmo afirmando que a melhora na sua prática pedagógica não provém diretamente da participação no PDE, o professor A reconhece o valor dessa participação e toda a experiência que a realização de sua pesquisa possibilitou. O professor B fala sobre seu entusiasmo em voltar a dar aulas depois de ter participado do PDE. Esse professor comenta também sobre a participação dos colegas no Programa, as aulas, os conteúdos estudados, o reencontro de amigos e de como essa experiência foi motivadora. Segundo a fala do professor C, o PDE foi para ele uma porta de entrada no mestrado na Universidade Federal do Paraná, uma vez que o programa lhe ofereceu 125 condições de estudo, o que não era possível com uma carga horária de trabalho de 40 horas. Assim, o PDE possibilitou ao professor C qualificação e ao mesmo tempo a percepção de um novo horizonte na formação continuada. Já para o professor D, o PDE é uma oportunidade única oferecida ao profissional da educação pública para se atualizar, para repensar suas práticas e saber o que está sendo pesquisado, pensado e produzido na área em que atua. A fala do professor E enfatiza avanços com relação à compreensão da própria disciplina que leciona e que os conteúdos trabalhados no PDE ajudaram para que melhorasse suas aulas. Além disso, a professor E destaca a questão do uso das tecnologias e a busca de outros materiais como recurso nas suas aulas, o que incorporou melhor depois da participação no PDE. O professor Orientador, para o qual foi realizada uma questão aberta, falou sobre sua mudança de visão com relação ao programa. Se anteriormente considerava o PDE apenas mais uma programa pontual, hoje já entende que ele é um lugar importante de problematização de práticas de realidades e de políticas governamentais. Contudo, segundo o professor O, é muito importante o trabalho de quem está à frente do Programa, para que ele seja de fato um programa crítico. Outro ponto importante a ser destacado na fala do professor Orientador é a questão de olhar o PDE com cuidado. Assim, não se trata de descartá-lo como ruim apenas porque se trata de uma política do governo. Ele é um programa que possibilita o encontro de pessoas de diferentes lugares do estado para discutir práticas vivenciadas na escola pública, como afirmou o professor O. O professor S comentou sobre sua pesquisa e destacou o valor do PDE por ser um programa que possibilita ao professor voltar a ser aluno, voltar a estudar, “ser obrigado a escrever” como afirmou. Assim, entende que essa volta à universidade, esse convívio, é pedagógico e muito salutar e não deveria ocorrer uma única vez na carreira, por isso o professor S falou também da proposta do ano sabático. Não obstante a valorização relativa ao PDE demonstrada nas falas dos professores entrevistados, principalmente quanto à possibilidade que oferece aos professores de voltar a estudar, pesquisar, poder discutir a realidade da escola e propor projetos para melhorar a qualidade da educação, é preciso mencionar que recentemente o governo do Estado aprovou a Resolução nº 4.128/20155, que trata 55 De acordo com o inciso II, § 1º, Artigo 4º da nova norma, é vedado a qualquer selecionado do PDE participar da distribuição de aulas de 2012. "Aqueles que têm um padrão poderão participar, mas ficarão com metade do salário, o que, na prática, afasta completamente essas pessoas da possibilidade de cursar o programa. Segundo o levantamento que possuímos das aulas 126 da edição de 2012 do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), o que na opinião da APP Sindicato é uma injustiça praticada contra quem tem apenas um padrão e representa um enorme retrocesso na política educacional paranaense (APP, 2011). De acordo com essa nova norma, os professores que possuíam apenas um padrão (20 horas) e que complementavam a sua carga horária com aulas extraordinárias (mais 20 horas), e que tinham o direito de se afastar da carga horária completa (40) horas, só terão garantido o 100% de afastamento sobre o padrão de 20 horas. Assim, esses professores poderão agora participar do PDE, mas ficarão com metade do salário (APP, 2011). A aprovação dessa norma evidencia o contexto de contradições e luta de classes em que o PDE e a formação continuada de professores como um todo está inserida no Paraná. O atual governo por meio de uma brecha na legislação, procura desonerar o Estado do seu dever com relação à educação. No entanto, ao mesmo tempo, proclama o discurso da valorização dos profissionais do magistério. extraordinárias, são mais de 25 mil educadores nesta situação. Na reunião, a SEED também informou que a medida não foi tomada por problemas de ordem econômica ", ressalta a professora Marlei Fernandes de Carvalho, presidenta da APP. A justificativa do governo sobre a medida foi de que a Lei Complementar nº 130/2010, que regulamentou o PDE como política de Estado, no seu Artigo 8º, trata do afastamento de 100% sobre a carga horária, mas não especifica as aulas extraordinárias. A direção da APP argumentou na reunião que se for uma questão de legislação, que o Executivo, então, articule a alteração da lei. "Há uma interpretação muito rígida do que está na lei", observa a presidenta da APP (APP, 2011). Disponível em: <www.appsindicato.org.br/Include/ Paginas/noticia.aspx?id=6353> Acesso em: 30 set. 2011. 127 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa teve como objetivo principal analisar as políticas de formação continuada de professores a distância no Estado do Paraná, após a aprovação da LDBEN nº 9.394/96 até 2011. Como procuramos demonstrar, a formação continuada de professores e as políticas a ela relacionadas são produções históricas, marcadas por tensões e contradições. Investigá-las exige atenção ao movimento histórico e aos interesses de classe envolvidos, sob pena de produzir discursos legitimadores extremamente alienantes. Principalmente no primeiro capítulo, destacamos a importância da reflexão teórico-filosófica sobre o trabalho do pesquisador como condição para aprofundar o exame sobre o problema epistemológico, humano e social da pesquisa científica. Assim, procuramos demonstrar que o aprofundamento teórico, filosófico, é condição para superar uma visão de ciência neutra, despolitizada e, portanto, contraditória em si, pois a ausência de uma teoria do conhecimento científico em um trabalho de pesquisa conduz ao descrédito e à falta de sentido. Considerando o referencial teórico metodológico que norteou a realização dessa pesquisa, de acordo com o qual o conhecimento é sempre visto em relação à prática política dos homens, trabalhamos o processo histórico da Educação a Distância no Brasil e buscamos evidenciar que: 1) tudo o que os seres humanos produzem é histórico, assim, também a Educação a Distância precisa ser entendida nessa perspectiva; 2) que o surgimento e as fases pelas quais passa a trajetória histórica da EaD até o seu momento atual estão ligadas a mudanças ocorridas nos sistemas produtivos; 3) que a ênfase na necessidade de formação continuada de professores, utilizando para isso os recursos da EaD, surge em um contexto de reestruturação produtiva em que ganham lugar as políticas neoliberais, configurando-se uma verdadeira pedagogia da exclusão. Nesse contexto, desencadeia-se o processo de reforma do Estado e do seu ajustamento ao modelo gerencialista neoliberal, contexto no qual se inserem as políticas de formação continuada de professores e a contínua introdução e expansão da EaD para proporcioná-la. Desde 1996, quando foi aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº 9.394/96), a EaD ganhou status de modalidade plenamente integrada ao sistema de ensino brasileiro. Assim, a concentração de matrículas em 128 EaD na área das licenciaturas, bem como sua utilização em cursos de formação continuada na esfera pública e privada no Brasil está ligada a fatores e estratégias políticas em que o Estado desempenha um papel fundamental. Como ressaltamos, as motivações para o desenvolvimento e a adoção de tais políticas de fortalecimento e expansão da EaD extrapolam o âmbito estadual e federal e estão orientadas por políticas exaradas por organismos mundiais, que consideram a EaD uma excelente alternativa para os países com déficits educacionais, já que possibilita alcançar um número maior de beneficiados com menor investimento. Como entendem esses organismos, a EaD é considerada como um exemplo de diferenciação que vai diretamente ao encontro com o que buscam com suas políticas, ou seja, uma diversificação tanto horizontal quanto vertical com redução de custos e ampliação de resultados. Na realidade brasileira as recomendações exaradas por esses organismos para o setor educacional parecem estar sendo rigorosamente cumpridas, pois temos políticas que promovem: 1)formação de maior número professores em menor tempo; 2) ampliação da formação com uma redução enorme de custos; 3) transferência aos professores do ônus da sua formação. Como afirmamos, entre os principais argumentos que advogam a utilização da Educação a Distância como estratégia adequada para formação de professores destacamos, sobretudo: a promessa de democratização do acesso, o entendimento de que a EaD promove a autonomia tanto dos professores como dos alunos na busca pelo conhecimento, proporcionando melhoria na qualidade da educação em todos os níveis. Dessa forma, baixo custo, adequação rápida ao mercado, flexibilidade, crescimento da privatização da educação e retorno rápido aos investimentos realizados são alguns dos motivos que podem explicar a contínua recomendação de organizações multilaterais em indicar a EaD como estratégia de expansão da Educação Superior e especificamente para formação inicial e continuada de professores. No entanto, os discursos do Banco Mundial e UNESCO, escondem sob a forma de conceitos abstratos, os verdadeiros interesses de uma formação de professores sob os interesses do capital, mas, apresentada como do interesse de todos na busca de consentimento (PEREIRA e LOPES, 2011). 129 Na abordagem histórica salientamos que, com a redemocratização, a formação de professores passa a ocupar cada vez mais um lugar estratégico no cenário político brasileiro e o Paraná não é exceção. A educação e tudo o que ela implica precisa ser ajustada para se adequar aos novos parâmetros governamentais norteados por prerrogativas neoliberais. Sobretudo a partir da década de 1990, o Paraná cumpre a cartilha neoliberal, reduz investimentos no setor educacional, abre as portas para a iniciativa privada, e impõe as regras da otimização, da maximização de resultados, acompanhada da ideologia da ineficiência do Estado, conduzindo o professor a responsabilizar-se pelo seu próprio fracasso. Foi nesse processo marcado por contradições que a Educação a Distância começou a ter uma presença mais marcante nas ações da SEED/PR para a formação continuada de professores. Entre as políticas propostas pela SEED/PR para a formação continuada de professores, analisamos nessa pesquisa o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) recorrendo a documentos e a entrevistas com professores participantes do programa. Com relação à problemática levantada nessa pesquisa sobre que princípios ontológicos, gnosiológicos/epistemológicos, ético-políticos e pedagógicos orientam as políticas de formação continuada no Paraná, podemos dizer que, não obstante a solidez dos argumentos adotados e as ressalvas expressas com relação à teoria do capital humano, transparece nos documentos certo ecletismo epistemológico, expresso principalmente pelos autores citados e a forma como são comentados. Conforme destacamos os princípios que regem o processo de formação continuada da SEED/PR são: caráter democrático, valorização profissional e atendimento à diversidade, e o que se busca é a melhoria da qualidade da educação pública, visando a transformação da realidade educacional (ARCO-VERDE, 2008). E a EaD é promovida por políticas públicas, desenvolvimento de programas e projetos que procuram concretizar os ideais almejados. Quanto ao PDE, que não é especificamente um programa de Educação a Distância, mas que também desenvolve atividades em EaD, sendo consideradas a ontologia, gnosiologia/epistemologia, e as dimensões ético-política e pedagógica, constatamos que se trata de uma política pública de formação continuada de professores marcada por conflitos, disputas, contradições, mas que de um modo geral procura proporcionar uma formação de qualidade para os professores. 130 O PDE é um programa desenvolvido com a intenção de superar o fosso entre a Educação Básica e a universidade, contando com a pesquisa e o estudo teórico para rever as práticas de ensino-aprendizagem. No documento síntese do PDE (2007), verificamos em nossas análises que há coerência entre as dimensões analisadas, mesmo que expressões como “formação em serviço” apontem a presença de pressupostos teórico-metodológicos divergentes da concepção que norteia o documento no seu todo. Na análise das entrevistas realizadas com os professores, constatamos que não existe uma noção clara no que diz respeito à concepção de educação que está presente no PDE. Contudo, como ficou evidente na fala dos entrevistados, há um consenso de que o PDE é uma política de formação continuada que traz benefícios para os professores, colaborando para a melhoria da educação pública no Estado do Paraná. Todos os entrevistados concordam que a participação no PDE proporciona uma melhora que pode ser com relação à prática, aos novos conhecimentos adquiridos, às ideias novas, atualização e abertura para outros entendimentos, principalmente quanto à disciplina ou campo de atuação de cada um dos professores. Com relação à ontologia, algumas respostas apresentaram superficialidade e se concentraram em questões pontuais relacionadas à própria disciplina ou campo de atuação do professor e não tocaram diretamente na questão do ser professor, mesmo havendo um consenso de que a participação no PDE foi positiva. No tocante à gnosiologia/epistemologia, os temas escolhidos e a maneira como os professores justificam suas escolhas revelaram questões e situações que fazem parte da realidade da educação pública do Estado do Paraná marcada por grandes contradições. As falas em sua maioria não demonstraram uma concepção clara de conhecimento, mas a preocupação com questões práticas, relacionadas diretamente com as disciplinas trabalhadas pelos professores entrevistados. Ainda com relação à gnosiologia/epistemologia, o que alguns professores expressaram não vai ao encontro com o que propõe o documento-síntese do PDE (2007)56, mas revela preocupações com práticas, técnicas, com o como ensinar, como deixar a aula mais interessante, o que demonstra contradições divergências entre os elaboradores do programa e seus executores. 56 Conforme o documento-síntese, é uma concepção norteada “pelo princípio ontológico do trabalho, e, portanto, tem como preocupação básica a análise da realidade dessa categoria na sociedade capitalista e nas escolas” (PARANÁ, 2007, p. 17). 131 As falas relacionadas à dimensão ético-política foram as que apresentaram mais contradições. Isso transpareceu na divergência e na superficialidade de algumas respostas e nos problemas apontados pelos próprios entrevistados. A melhoria da prática é tida como referência, como valor, já que é importante para o professor voltar para sala de aula conhecendo novas técnicas, sabendo aplicar o conteúdo de maneiras diferenciadas. Como alguns dos entrevistados afirmaram que questões ético-políticas não são sequer trabalhadas no PDE, ou muito pouco trabalhadas, percebe-se aqui também um distanciamento com relação ao que propõe o documento síntese (2007). Porém, apesar dessas contradições é preciso reconhecer que o PDE pretende trabalhar a formação continuada de professores em uma perspectiva integral, o que implica necessariamente atenção ao campo ético-político, como alguns professores entrevistados não deixaram de mencionar. Quanto à pedagogia houve consenso entre os entrevistados de que o PDE possibilita a discussão da realidade educacional paranaense buscando melhorá-la. Mesmo os que afirmaram que o Programa acrescentou pouco, reconheceram que houve um crescimento. No entanto, o documento-síntese do PDE (2007) apesar de ressaltar a importância de uma formação na qual o “sujeito seja capaz de pensar a sua própria formação e participar ativa e criticamente de um projeto social de interesse coletivo” (PARANÁ, 2007, p. 16), também afirma: “entende-se que a proposta de formação continuada do PDE caracteriza-se por princípios inovadores da formação em serviço” (PARANÁ, 2007, p. 16). Notamos, então, a presença de elementos da pedagogia histórico-crítica e ao mesmo tempo da pedagogia das competências, das pedagogias do aprender a aprender, o que também transpareceu na fala dos entrevistados que revelaram maior preocupação com o como ensinar. A análise dos documentos e entrevistas de um modo geral evidencia o contexto de contradições e luta de classes em que o PDE e a formação continuada de professores como um todo estão inseridos. Os resultados obtidos na análise das entrevistas evidenciam o embate de projetos disputando a formação de professores. O trabalho pedagógico passa por um intenso processo de transformações com uma nova divisão social do trabalho brotando do processo educativo pela EaD. É preciso investigar com muito cuidado, a amplitude da política, os impactos nas transformações da carreira docente, na formação de professores e na educação. 132 Mas quais tendências os resultados das políticas apontam? Também a dinâmica do Estado do Paraná que coloca os pressupostos da pedagogia histórico-crítica nas diretrizes das políticas de formação continuada dos professores evidencia a disputa de projetos. Mas até que ponto a concepção histórico-crítica se implementa no chão da escola? Deixamos essas questões como sugestão para futuras pesquisas. Diante dos resultados alcançados, ressaltamos a necessidade da pesquisa, da formação crítica dos professores, do combate às ideologias que provocam a precarização e a desqualificação do trabalho docente. Ao mesmo tempo os resultados dessa pesquisa apontam que é preciso trabalhar pela garantia de direitos conquistados e pela criação de novas políticas que realmente tragam benefícios aos professores e melhoria real na qualidade da educação pública. 133 REFERÊNCIAS ABBAGNANO. N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes; 2000. ABED. Associação Brasileira de Educação a Distância. Censo EaD.br 2009. São Paulo: Person Education do Brasil, 2010. ABED. Estatuto da Associação Brasileira de Educação a Distância. Disponível em: < www2.abed.org.br/abed.asp>. Acesso em: 13 jul. 2011. ALVES, W. J. M. e RADO, S. C. As políticas públicas de formação continuada de professores por meio da Educação a Distância no Estado do Paraná. Revista espaço da Sophia, n. 30, set. 2009, mensal, ano II. Disponível em: <www.espacodasophia.com.br/publicacoes/doc_view/26-as-politicas-publicas-deformacao-continuada-de-professores-por-meio-da-educacao-a-distancia-noesta?tmpl=component&format=raw>. 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Prezado professor (a), Na condição de aluno do Mestrado no Programa Pós Graduação em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), dirijo-me a você para solicitar a sua participação em uma pesquisa que objetiva analisar o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE). O estudo constitui-se parte de uma pesquisa (dissertação) sobre as políticas públicas de formação de professores no Paraná, para conclusão de curso, sob a orientação da professora Dra. Maria de Fátima Rodrigues Pereira. O objetivo dessa pesquisa é oferecer subsídios para o desenvolvimento de políticas públicas que colaborem com a melhoria da qualidade da formação dos professores. Assim, gostaria de contar com sua colaboração na concessão de entrevistas, que serão realizadas em local e horário estabelecidos em comum acordo, com duração de 30 a 45 minutos no máximo. Asseguro-lhe que a confidencialidade dos dados será mantida e a divulgação dos resultados não irá revelar respostas ou informações específicas de nenhuma instituição ou pessoa em particular, apenas o conjunto agregado dos dados. Contando com a sua importante contribuição para a pesquisa, retornarei os resultados da pesquisa à sua disposição, quando da conclusão do trabalho. Atenciosamente, Prof. Luís Fernando Lopes 144 TERMO DE CONSENTIMENTO Eu, ____________________________________________ concordo em participar, voluntariamente, de estudo sobre o Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE). Concordo que as informações possam ser gravadas e utilizadas em futuras publicações, desde que meu anonimato e o sigilo das minhas respostas sejam garantidos. Reservo-me, ainda, o direito de interromper minha participação quando desejar ou julgar necessário, e de não responder a questionamento considerado não pertinente à pesquisa. _________________, ____ de ____________________ de 2011. _________________________________________