Cadernos de Educação de Infância
Jul./Set. 2001
Entrevista
Entrevista José Sarmento
Percurso
Joaquim António Sarmento Guerreiro
Nasceu na Serra do Caldeirão
Frequentou a Escola Industrial de Almada depois seguiu o percurso natural – Instituto Industrial de Lisboa –
Engenheira. Optou pela via do ensino – professor do quarto grupo – Matemática e Ciências. Já ocupou os
cargos de: director de turma, delegado de grupo, presidente de conselho directivo, presidente do conselho
executivo, director do centro de formação Rui Grácio. Começou a ligar-se ao Movimento da Escola Moderna
(MEM), percurso de formação e auto-formação alterando assim as suas práticas pedagógicas na relação com
os alunos. Três anos ausente de actividades lectivas. No momento é presidente do conselho executivo da
Escola António Augusto no Seixal
CEI – Sabendo que tem uma larga experiência associativa, sendo membro de
diversas associações, como vê a sua experiência associativa e que importância
tem esta vertente da sua vida, no seu percurso pessoal, profissional e como
cidadão?
J.S. – Eu comecei nestes percursos associativos muito novo, foi aos 16 anos,
portanto a trabalhar em colectividades de cultura e recreio. Comecei como
bibliotecário na Academia Almadense, na comissão cultural. E depois a partir
daí nunca mais parei de intervir no mundo associativo de Almada. Entretanto
além desta actividade cultural tive uma experiência que foi de monitor de
alfabetização, em Almada, em 71 com um grupo de jovens ligados à Igreja
Católica. Desenvolvemos depois em várias associações do Concelho,
sobretudo em bairros pobres de Almada, cursos de alfabetização de adultos
sendo nós monitores de alfabetização. Neste percurso acabei por ajudar a
integrar-me numa associação que se chama Semear para Unir, que
coordenava um pouco esta acção de alfabetização no Concelho de Almada. E
nós tínhamos a intervenção em bairros pobres em colectividades de cultura e
recreio..... Na altura a educação de adultos começou a destacar professores de
primeiro ciclo, e daí que depois acabámos por nos vocacionar para a animação
sociocultural em associações.
CEI – Sempre como voluntário?
J.S. – Sempre, sempre tivemos essa vocação voluntária generosa e por vezes
de grande investimento. Em relação às associações depois também comecei a
dinamizar uma associação que existe de carácter regionalista que era a Casa
do Algarve do Concelho de Almada onde participei e actualmente sou vicepresidente da mesa da assembleia geral. Actualmente sou presidente da
cooperativa onde moro, que é cooperativismo portanto é um outro tipo de
associativismo. Sou o grupo, diria de professores, que se organizou criou uma
cooperativa de habitação e que se instalou numa zona. Portanto também
aceitei mais esta acumulação de funções, “altamente remunerada”.
Actualmente estou envolvido na legalização de uma associação que não era
uma associação, mas que tinha a ver com uma dinâmica existente em Almada
que é um projecto chamado Mundo do Espectáculo, e que tem a ver com toda
a área da animação, toda a área de teatro, portanto da expressão dramática.
Que tem vindo a desenvolver-se mas que não tinha corpo legal, daí que neste
momento estamos na fase de instalação desta associação que vai ser o Mundo
do Espectáculo, já é, mas que vai ser instalada e que vai ter forma legal e gerirse por essas...
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Entrevista
Essa associação tem a ver com... Nasceu da iniciativa de uma professora de
Almada, que é uma pessoa com um grande fôlego, que é a Helena Peixinho.
Tem vindo a fazer uma série de iniciativas que foi agregando progressivamente
outras pessoas nesta acção voluntária. E que tem actividades de formação
quer a nível dos Educadores de Infância, quer a nível de professores dos vários
graus de ensino, quer a nível dos jovens de Almada em vários espaços e
funciona também como local de animação socioeducativa de toda aquela
região. Tem a componente da formação, tem depois a componente da
animação da intervenção sociocultural.
CEI – O que é que esta passagem pelas várias associações lhe tem trazido,
tanto a nível profissional como pessoal? Muito trabalho de certeza.
J.S. – Quando tentava imaginar que não tinha estado na biblioteca da
Academia, então eu diria que tinha tido uma formação literária e artística
extremamente limitada. Na medida em que na minha formação técnica não
teria contactado com autores e com uma série de individualidades e pessoas
da cultura em Almada que me permitiram o desenvolvimento de um conjunto
de sensibilidades e despertar para determinado tipo de valores e determinado
tipo de riqueza cultural, nomeadamente no campo da literatura, nomeadamente
no campo das artes. Portanto eu imaginar-me-ia muito pobrezinho, muito mais
pobrezinho do que sou nessa matéria, mesmo assim continuo a ter grandes
lacunas. Quando me imagino não fazendo parte da associação Semear para
Unir, tenho alguma dificuldade também em perceber o que é que eu seria.
Quer dizer acho que seria um bocado um pãozinho sem sal, seria um
professor, portanto cumpria a minha missão como professor, e provavelmente
não teria determinado tipo de sensibilidade à necessidade da intervenção
cívica, de estar disponível para ajudar outros a fazer certas caminhadas, no
domínio cultural, no domínio da alfabetização. Dá-me ideia que era uma grande
pobreza tanto mais que, por exemplo no caso desta associação, nós temos
uma instância de reflexão, portanto nós vamos para a intervenção directa e
depois ela funciona um pouco como retaguarda, como instrumento, como
espaço de reflexão sobre o que fizemos e sobre um certo planeamento do que
iremos fazer. Há coisas que temos vindo a fazer, que foram fantásticas,
notáveis, que se traduzirem quer a nível da intervenção directa, quer a nível da
intervenção a nível do Concelho, quer a nível da investigação. Nós temos uma
série de livros publicados como resultado desta investigação, no qual
envolvemos contributos relevantes dos nossos próprios alfabetizandos. Uma
coisa que para mim foi muito evidente foi que ganhei imenso com as pessoas
com quem trabalhei na alfabetização, e elas ficavam sempre muito
surpreendidas quando eu dizia que certamente tinha aprendido mais com elas
do que elas comigo. Não duvido que tenham aprendido comigo, o que é certo é
que numa fase da juventude dos 18/20 anos, toda aquela relação com pessoas
muito maduras com um conhecimento da vida muito concreto, que só não
sabiam ler nem escrever, mas das outras coisas da vida tinham uma riqueza
fantástica. E eu aprendi imensas coisas com eles sobre a forma de encarar a
vida e sobre a forma de estar na vida e de ser, e portanto eu tenho que lhes
agradecer.
CEI – No âmbito da Associação Semear para Unir?
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J.S. – Exactamente.
CEI – Não sei se tem conhecimento que nós publicamos um artigo sobre... e
um dos últimos livros, sobre os direitos da criança, nós temos feito a divulgação
J.S. – Depois quando penso não ter sido sócio do Movimento da Escola
Moderna, e não ter participado... Imagino-me um bocadinho aquilo que eu fui
como professor nos primeiros dez, onze anos da minha vida, um professor
simpático, sempre muito dedicado aos seus alunos mas com metodologias
muito tradicionais centradas no professor e que certamente não estava
disponível para encontrar e arriscar determinado tipo de estratégias activas de
envolvimento dos alunos na própria gestão do currículo. Por exemplo a
modalidade de projecto, que é um pouco aquela que eu hoje pratico com os
meus alunos, eu não estaria ganho para essa descoberta e como tal eu seria
mais pobre e seria mais triste. Porque provavelmente não tinha a alegria de ver
o e desenvolvimento que os alunos podem ter nestes percursos de trabalho de
projecto
organizados em grupo e pôr-lhes problemas e temas para investigação em que
eles têm um protagonismo diferente, portanto saem da sala de aula, e no
próprio desenvolvimento do currículo.
CEI – Há quanto tempo já se encontra ligado ao MEM?
J.S. – Estou ligado ao MEM à mais ou menos dezasseis anos.
Neste sentido, digamos que os ganhos são imensos, quando se fala nesta
questão do voluntariado e da minha intervenção associativa, se eu no início fui
para a intervenção associativa com uma certa consciência de que ia fazer bem
aos outros, era uma missão cívica que eu iria fazer pelos outros. Hoje tenho a
convicção de que se calhar o mais beneficiado sou eu nesta intervenção, diria
que aprendi imenso, se calhar seria equivalente a alguns mestrados, a algumas
áreas da intervenção, digo mestrados no sentido de conhecimento concreto,
provavelmente poderei pecar por algum empirismo neste percurso, porque não
há obrigatoriedade de ler os clássicos sobre determinados assuntos e portanto
há aqui uma reflexão em viagem, há de facto uma valorização em termos
conceptuais e uma riqueza muito grande enquanto pessoa.
CEI – Associativismo e Voluntariado – que relação entre projecto pessoal e
projecto colectivo?
J.S. – De facto tenho consciência que sobretudo o trabalho de equipa que nós
desenvolvemos, mais do que o trabalho individual tem muitas potencialidades
de ter mais reflexos na nossa intervenção. Para já qualifica a nossa
intervenção, depois somos mais a unir esforços no sentido de determinados
objectivos, de determinados projectos. É claro que está claramente aqui uma
pretensão voluntariosa de transformar o mundo, obviamente que as pessoas
que se movem normalmente tem a ver com o mundo que temos quer em
termos culturais quer em termos sociais é um mundo que não é o mundo ideal
que nós desejámos. E muitos de nós na juventude tivemos uma concepção do
mundo no meu caso muito marcada pelo Marxismo, por uma aposta clara da
transformação e da abolição de uma série de privilégios sociais que alguns
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tinham e que outros não tinham, e de grandes déficit culturais que existem,
continuam a persistir de uns em relação aos outros, e da inexistência de um
conjunto de direitos fundamentais que não são respeitados. Esta luta tem a ver
também com essa tentativa de mudar o mundo e de fazê-lo para melhor, para
que particularmente estes sectores mais desfavorecidos da sociedade tenham
oportunidades, quer em termos culturais, quer em termos de se afirmar e de
terem protagonismos nesta sociedade. Nem sempre se consegue,
naturalmente que nestas coisas há avanços e há recuos, há contudo um
princípio que acho que foi um princípio muito bonito na forma como estivemos
e estamos em intervenções (digo estamos porque estamos numa fase de
reflexão, não estamos propriamente numa fase activa de intervenção), a
máxima que nós tínhamos e que penso que é muito interessante é desenvolver
uma actividade socialmente útil, que tenha a ver com esta necessidade de
contribuir para uma sociedade melhor, e por outro lado ser pessoalmente
gratificante, ou seja, que cada um de nós não esteja de uma forma martirizada,
esforçada, sem que isso corresponda a uma satisfação pessoal e a ganhos
claros na sua formação e na sua satisfação como pessoa, na sua auto-estima.
Esta dupla preocupação foi um tronco comum na nossa intervenção, uma
preocupação central, permitindo um certo equilíbrio entre por um lado o
projecto pessoal, que deve ser nós devemos fazer coisas que gostamos, e é
claro quando... Tenho a clara consciência quando durante 8 anos, quatro noites
ia para a Quinta do Rato, um sítio bastante desagradável, à noite, aquilo faziase em sacrifício de outras opções. Eu era jovem provavelmente gostava mais
ou podia-me apetecer ir curtir com a rapaziada naquela altura, ou para o café
central, ou para a praia, ou para outro tipo de situações. E não o fazia, e sabia
que grande parte da rapaziada que comigo convivia, era essa a prática
dominante, e eu disciplinadamente era aquelas quatro noites e era o Sábado
em que nós nos encontrava-mos para fazer o ponto de situação, e
provavelmente era mais o Domingo em que nós por vezes nos encontrava-mos
e substituímos a missa por um espaço de tertúlia reflexiva. Pelo meio
aconteceu-me uma coisa girissíma, que tem a ver com um certo voluntariado,
que foi acabarmos o nosso curso e quatro de nós quando fomos para a nossa
intervenção profissional, passámos a ser professores, resolvemos viver em
conjunto, um género de uma comunidade, uma comunidade de partilha, em
que partilhava-mos tudo, desde os dinheiros, passando pelas tarefas,
passando pela gestão do quotidiano. E eu que era filho único, individualista,
egoísta (e que ainda sou um bocado) aprendi imenso porque fui muito
disciplinado. Às vezes aprender não é só aquilo que nos dá prazer, às vezes há
uma cultura da aprendizagem só pelo prazer, há coisas que aprendemos
mesmo com as situações menos agradáveis que temos, se tivermos
disponíveis para apropriar essas reflexões. Do meu ponto de vista acho que
esta relação foi relativamente bem conseguida, claro que há sempre dúvidas
que nós temos. Quando eu vou, como ontem fui, ao Clube Águias do Rato e
vejo o clube onde eu trabalhei tantos anos fechado e com os vidros partidos, e
soube que aquilo já está assim à dois anos, pensei: estive aqui a fazer uma
certa sementeira, e gostaria de lá ter estado ontem e ter entrado e bebido uma
cerveja no bar da colectividade, e não ter encontrado o Clube com aquele ar de
abandono. Perguntei-me, mas depois encontrei algumas das pessoas que
fizeram esse tal percurso de alfabetização noutro café, estivemos a conviver, e
algumas daquelas pessoas puderam tirar acarta, algumas mulheres puderam
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encontrar um outro sentido para a vida, e portanto nós depois balançamos um
bocado. Há sempre esta tensão entre o desejo e a realidade, eu gostaria de ter
encontrado o clube aberto, não encontrei, gostava que aquele trabalho que nós
semeámos tivesse tido uma continuidade. Penso que, é a minha crença
pessoal, uma das nossas formas de eternização, há aquela máxima de serem
os filhos, os livros que escrevemos, de serem as árvores que plantamos, eu
penso que muita da nossa eternização vem pela nossa contribuição em termos
de cultura. A cultura que é digamos o património que a humanidade tem, ela
vai-se construindo pela interacção que fazemos uns com os outros, e os sinais
que nós damos, as nossas crenças, os nossos valores, as nossas apostas, as
nossas convicções são aqui um pouco plasmadas por essa cultura , e o
património que legamos não é só essa nossa genética, essa nossa dimensão
física do escrito ou da pintura, é muito desta valorização cultural que em termos
sociais não é visível, não é capitalizável e do qual teremos sempre imensas
dúvidas. Tal como temos muitas dúvidas dos resultados dos trabalhos que
fazemos com os nossos alunos, com os vossos no pré-escolar, e é saudável
que coloquemos essas questões, se não as colocarmos mal estaremos!
Porque precisamos precisamente de reflectir para por vezes encontramos até
novos caminhos.
CEI – As actuais dinâmicas associativas são diferentes das que ocorriam há 30
anos atrás por exemplo. Como acha que estas dinâmicas evoluíram, o que
mudou?
J.S. – É claro que o associativismo nascido no século IXX tinha para aquele
tempo um conjunto de projectos que tinha a ver com a resposta às
necessidade daquele tempo, as colectividades de cultura e recreio da altura
eram espaço em que praticamente toda a gente era analfabeta. Quando
sentem necessidade de se juntar para constituir uma banda filarmónica para
desenvolverem uma expressão artística, ou para se encontrarem e
organizarem as festas do seu Santo padroeiro, ou para promoverem uma
iniciativa local de valorização as associações correspondiam a uma
necessidade específica daquele tempo e todas as dinâmicas que então se
geraram eram próprias. Tal como o mutualismo que entretanto se gerou
naquela altura e tinha a ver com uma situação económica altamente
degradada, em que as pessoas trabalhavam muitas horas por dia de sol a sol,
e em que as condições de trabalho eram muito adversas, acontecia um
acidente de trabalho, acontecia uma viuvez, ninguém as podia acudir e as
pessoas acabaram elas próprias por se juntar para criarem instituições que
podiam valer-lhes na doença, ou na viuvez ou na tragédia da casa que
incendiou. Quando surge o movimento sindical naquela altura, ele está como
uma resposta para aquele tempo, tal como o cooperativismo também tem a ver
com aqueles ideais um pouco utópicos, o socialismo utópico daquela altura e
portanto correspondia...Agora houve sempre actualizações, e quando não há a
actualização do projecto, o projecto se desinsere do contexto da resposta que
pretende dar a uma determinada comunidade esse projecto está condenado ao
fracasso. Algumas das colectividades por exemplo de Almada, e talvez as
maiores, cresceram desmesuradamente teriam ha com de trinta anos mil e tal
sócios e actualmente podem ter oito mil nove mil ou até dez mil mas o projecto
foi-se alterando e de tal maneira que tem muito pouco a ver com o projecto
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inicial, hoje são por exemplo boas empresas prestadoras de serviços, podem
ser consideradas uma boa empresa onde fazem ginástica, ballet, onde
desenvolvem um conjunto de actividades que o Estado não desenvolve e não
investe a preços mais económicos e as pessoas encontram ali as respostas
para determinado tipo de necessidades.
CEI - Mas se elas se foram modificando, se calhar tiveram alguma razão de
ser, não é? Acha que continuam a corresponder às solicitações das
populações, das comunidades?
J.S. - Quando nós generalizamos a vida dessas colectividades - a propósito
das grandes - nós verificamos que elas perderam uma dimensão de Bairro que
as caracterizavam, e passaram a ter uma expressão de tipo Concelhio, e às
vezes ultrapassa o próprio Concelho, e movimentam milhares de pessoas,
milhares de atletas por vezes, contudo esta característica, de especialização
em determinados sectores, correspondeu também a uma certa desvalorização
da relação inter-associativa dos seus sócios. As pessoas podem ir à prática
desportiva ou à natação e usam como um serviço seu mas a necessidade de
estarem uns com os outros não é tão sentida nem é tão vivida, tanto mais que
hoje em certas colectividades com tantos sócios convocarem uma assembleia
geral – já passaram a fazê-lo de dois em dois anos – se quando tinham mil
sócios reuniam uma assembleia geral em que havia um protagonismo forte dos
associados em que reuniam trezentas ou quatrocentas pessoas, agora com
oito mil, conseguem reunir 20 ou 30. Nem conseguem reunir muitas vezes os
membros dos corpos gerentes nessas assembleias gerais. Há um vazio claro
de um certo espírito associativo que se viveu particularmente nestas
associações.
CEI - E se não se tivesse alterado , se calhar não tinham morrido?
J.S. – Não, elas reformularam-se. O problema tem a ver, do meu ponto de
vista, que houve de um certo ideal romântico do associativismo que
predominava nos anos 60 – e eu conheci muitos desses dirigentes associativos
da altura, e convivi com eles – viviam com uma grande paixão estas questões
do associativismo e passou-se a uma outra concepção pragmática de gestão
do quotidiano sem essa paixão, esse fascínio, sem essa preocupação da
relação interpessoal e dos laços associativos no seio da associação.
CEI - Vive-se o espírito individual e não se vive o espírito colectivo...
J.S. – Exacto, mas é possível dar a volta. Estas colectividades podem elas
próprias desenvolver percursos em que criem espaços de inter-relação. Nestes
sectores às vezes ,
é tão só o jeito de dar um pouco a volta a estas práticas que se instituíram.
Mas nós temos associações de outro tipo, mais pequenas, com uma vida
associativa muito intensa, em que quase todos os sócios aparecem nas
assembleias gerais, e particularmente as associações de tipo novo. Começou
a haver uma diversificação de associativismo, particularmente depois do 25 de
Abril, em que se começam a criar associações como que por especialidade.
Numa lógica extremista, se eu gosto de jogar ao berlinde, e ela gosta de jogar
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ao berlinde, vamos fazer uma associação de jogar ao berlinde, vamos ser
todos amigos e jogar todos em conjunto ao berlinde, organizamos uns
campeonatos... E surgiram nesta lógica em Almada dezenas de associações
com este espírito, desde em torno dos passarinhos – ornitologia – passando
por aqueles que quiseram dedicar-se à questão naval, outros quiseram
dedicar-se à astrologia, outros à investigação, outros ao teatro, outros, como
nós, à cultura, outros às Artes. Como que houve uma alteração qualitativa no
tipo de respostas, contudo estas associações tendem a ter um carácter mais
efémero nas suas dinâmicas, efémero no sentido de: se me passar a vontade
de jogar ao berlinde e a ela também acabamos com isto! Ou arranjamos outra
modalidade para nos entretermos ou temos que fechar a loja, porque não tem
sentido termos uma sede para não termos a realização de um projecto que já
não tem sentido para nós e então surge outro projecto. É um pouco esta
dinâmica. Por isso eu penso que quando se fala na crise do associativismo...
CEI – Quando há, como nunca houve, tantas associações em Portugal, de
todas as qualidades com todas as modalidades. Hoje fala-se numa crise
voluntariado e associativismo, mas nunca existiram tantas associações como
as que existem actualmente. Como se explica esta situação?
J.S. – Só em Almada devem haver neste momento 250 ou 270 associações,
associações. È claro que estou a falar de associações que estão catalogadas
como associações, que têm estatutos e tal... Depois se nós formos para o
associativismo informal, de jovens que em grupos organizados de encontro
regular e que promovem, às vezes sem terem sede, é a casa de um deles ou a
casa da juventude ou é um café, e que se encontram. Então haverá ali imensas
associações deste tipo que por vezes promovem iniciativas que têm reflexos na
comunidade e outras vezes não têm é só o prazer de se encontrarem de
beberem umas cervejas em conjunto, ou para fazer um fanzine, daqueles
jornalitos que eles fazem para depois trocarem ideias e produzirem formas de
expressão e comunicação, ou fazer uma exposição de artes plásticas, ou fazer
um disparate...
CEI – Não se deixa de falar numa crise de associativismo?
J.S. – A crise é neste sentido, diria que, por exemplo se olharmos para Almada
à associações que estão em crise, em crise de projecto. A Semear para Unir
neste momento está em crise de projecto associativo, como que a sua vocação
que era uma vocação de animação de outras associações, neste momento
deixámos de ter o pé no terreno e portanto ficámos situados em nós próprios,
toda uma tradição de vinte anos que se situava nesta riqueza da animação
num espaço comunitário, nós perdemo-la. Agora estamos a tentar repensar o
nosso futuro numa perspectiva de intervenção. Há um projecto que
gostaríamos de tentar, que é um bocadinho um gabinete de advocacia social,
virado para os direitos Humanos, ou seja criar condições para que as pessoas
de determinados estratos sociais, pessoas que sentem os seus direitos
violados, pudessem ter uma porta de acolhimento e terem algum
encaminhamento, que depois pudesse até haver uma vertente de formação
que pudesse até numa perspectiva profissional ou profissionalizante criar
algumas alternativas para essas pessoas.
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CEI – A crise que existe não só nessa associação mas também em muitas
outras, não se prende um pouco com o facto de serem as pessoas que
iniciaram a associação que se mantêm, e não haver a entrada de novos
elementos renovadores?
J.S. – As crises podem ser de crescimento ou de crescimento e de morte,
depende das soluções que nas crises se encontrarem. Naturalmente que como
elemento dos dirigentes associativos de Almada e que gostam de participar em
muitos encontros, alguns deles de reflexão, há uma tónica comum que é
sempre os jovens não irem às colectividades .................. ali mesmo à frente da
colectividade ......... são centenas e centenas de jovens que estão ali e não
sabem onde é que hão-de partir para a noite à sexta à noite e ao sábado, há ali
uma multidão de gente. Depois é assim, quando os jovens vão bater à porta e
dizer nós precisávamos de uma sala para fazer aí um grupo, para fazer uma
iniciativa que para eles tenha significado. A primeira coisas é olhá-los de alto a
baixo, olhar para o aspecto, nalguns casos damos uma oportunidade a esses
jovens, na maior parte das vezes diz-se logo que não, porque aquilo dá
trabalho, eles vêm para aqui causar complicações, depois a malta está aqui
calmamente no bar a jogar uma cartada, a ler o jornal e a ver televisão e eles
vêm para aqui destabilizar, portanto o melhor é dizer logo que não. Quando há
um certo sentido de risco, algumas vezes tem resultado bem, não muitas, mas
tem resultado em elementos de valorização e de refrescar o próprio
associativismo, noutros é uma fonte de conflitos. Tem a ver com não se querer
negociar em termos de poder, porque depois a intervenção dos jovens é
necessariamente também uma necessidade de intervenção e de lhes dar
poder, o poder instituído dificilmente negoceia e vai dando, nessa negociação,
algum poder aos jovens. Eles também não estão para ser pau-mandado, e
quando querem fazer alguma coisa estarem sempre a pedir autorização quase
para entrar na colectividade. Há uma questão que tem a ver com alteração de
mentalidades dos próprios dirigentes associativos que se queixam, lamuriam e
se desgastam um pouco nestas reflexões, mas por vezes têm pouca coragem,
pouca disponibilidade para eles próprios mudarem e integrarem os jovens,
muitas experiências, algumas não são bem sucedidas, porque os jovens
revelam-se os elementos mais dinâmicos por vezes no espaço das
associações e tão ou mais capazes que os veteranos de dinamizar o espaço
associativo. Há aqui um risco que é preciso existir, mas é um risco calculado, e
tem que haver um percurso de diálogo e de negociação, e esta negociação é
difícil entre gerações, sobretudo certo tipo de gerações de adultos.
CEI – Tem que haver uma abertura para esse novo sangue entrar...
J.S. – Porque também a nossa cultura, que é uma cultura que passa muito nos
media, é uma cultura do ganha e perde, quando há um conflito ou um debate
entre políticos, alguém tem que perder ou tem que ganhar, quando o que seria
ideal era que todos ganhassem, era que se estamos ali em conjunto não é para
cada um ficar na sua mas é para construirmos em conjunto, e é preciso que
cada um seja capaz de avançar para conhecer a bondade dos argumentos do
outro e ir incluindo na própria reflexão. Este diálogo de perde e ganha é um
diálogo que não só nas colectividades mas no mundo político actual, nas
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escolas e nos outros espaços todos, nós continuamos a ter ainda esta
mentalidade atravessada e é difícil ultrapassar por uma cultura de construção
colectiva e de participação e de envolvimento de todos nas decisões e na
construção de algo que seja comum que seja um património por todos
assumido. É difícil isto, eu vejo isto com os meus alunos, este ano tenho uma
turma difícil, optei por ter uma turma difícil, e vejo quanto é difícil a negociação.
CEI – De que ano?
J.S. – Do 5º ano. Eu tive que me zangar, coisa que não acontece... Durante um
mês e tal andei sem lhes falar, zangado, porque os acordos que
estabelecíamos eram sistematicamente defraudados da parte deles. Tem a ver
com os maus hábitos ...... anteriores, e a turma não fixa, a dificuldade tem a
ver com a dificuldade de se responsabilizarem por determinado tipo de acordos
que nós vamos estabelecendo. Se não houver de parte a parte também a
capacidade para cumprir aquilo que se combina: os acordos que se
estabelecem, as regras que se definem, os projectos que em conjunto...
Também nós desacreditamos uns dos outros e a relação degrada-se
CEI – Dependendo da perspectiva com que a pessoa se envolve neste trabalho
de voluntariado, acha que é fácil a pessoa desligar-se, quebrar o compromisso
de estabelecimento de regras, porque não é um compromisso verbal, não é um
contrato, a pessoa não é obrigada, digamos.
J.S. – É um problema, nós por vezes temos a ideia que o voluntariado é uma
coisa que fazemos quando podemos e que não tem que ter determinados
padrões de qualidade, e portanto por vezes é associado ... Na minha
associação nós somos extremamente exigentes com as nossas intervenções e
naquilo que procuramos desenvolver nós somos críticos, exigentes
(relativamente aos horários, àquilo que nos propomos) porque amador é aquele
que gosta, se gostamos, se voluntariamente queremos fazer alguma coisa,
queremos estar nessas intervenções e se nós próprios temos consciência dos
ganhos pessoais que temos para nós e para os outros, obviamente que não
podemos estar a defraudar as nossas próprias expectativas e as expectativas
dos outros com quem estamos a intervir voluntariamente. Há que o respeito
que temos a nós próprios e aos outros ter que estar presente no voluntariado.
CEI – Nós enquanto APEI sentimos, por exemplo a nível da revista, que há
uma exigência grande, não se consegue passar mais que uma semana sem
uma reunião. Custas muito ao coordenador da revista pedir às pessoas,
venham lá porque se faltarem perdem-se coisas..
CEI – Acho que não se pode pedir. Ou a pessoa se compromete e
assume, sente que pode valorizar-se em termos da sua contribuição (não
em termos de formação pessoal), ou então não há razão para o fazer.
J.S. – A mobilização é difícil, na medida em que nós estamos
progressivamente num percurso em que cada vez mais nós sentimos a
necessidade do nosso tempo pessoal, e estamos envolvidos em imensas
coisas em que acreditamos e é difícil esta gestão, o tempo é um recurso
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limitado, o dia só tem 24 horas, não é. Há aqui uma limitação real, agora
também é verdade que quando nós ajudamos a construir algo, nos sentimos
envolvidos na definição de metas, de objectivos, quando nós estamos
implicados nas ideias que queremos desenvolver, é mais fácil depois
mobilizarmo-nos para a sua realização. É mais difícil pedir voluntariado, para
que o voluntário executar uma orientação que nós damos, mas se ele for
envolvido e participar na própria concepção das coisas, se houver uma
avaliação regular da forma como os percursos.., se houver até capacidade e
frontalidade para a assunção da critica às práticas que estão a ser lesivas
daquilo que em conjunto se combinou, às vezes um certo “porreirismo” não é o
mais aconselhável. Se souber chamar as coisas pelos nomes e haja uma
reformulação regular que perspective a intervenção futura, mas com muita
franqueza. Nós na Semear para Unir, podemos dizer: olha, este ano eu vou
apostar neste sentido naquele e no outro, contem comigo para isto e para
aquilo, não contem comigo para isto aquilo e aqueleoutro, eu não estou
disponível nem muito interessado... Se vamos depois pedir uma coisa para a
qual a pessoa não está muito interessada, ela falo-á um pouco pela estima que
tem por nós e não pelo projecto em si, ou pela dificuldade (como é o meu caso)
de dizer que não. Mas se for assumido e querido pela pessoa ela sempre
arranjará um bocadinho para se voluntariar e para investir naquilo que em
conjunto construímos.
CEI – À pouco falávamos da mudança do associativismo, pareceu-me que o
associativismo passou também a ser: eu torno-me associado numa associação
não pela a sua filosofia, mas sim pela sua vertente de prestadora de serviços.
Portanto eu não me sinto associado, eu não sinto a associação, e disso temos
exemplos na nossa associação, muitas vezes os associados dizem: vocês...
Esquecem-se que ao serem associados também fazem parte deste “vocês”, e
a pessoa exclui-se. Se calhar muitos dos nossos associados não conhecem a
nossa sede...
J.S. – Penso que isso é uma característica... é um fenómeno natural em certo
tipo de associações. Nós no Movimento da Escola Moderna, por exemplo, essa
questão é uma questão premente, na medida em que o Movimento deve ter
vários milhares de sócios, contudo não participam todos. Mesmo a nível dos
núcleos regionais, diria que se houver 100 ou 200 que participem activamente
com regularidade nos encontros de formação e partilha de experiências, isto
em todo o país.
CEI – Eu própria sou associada do MEM já há tantos anos e tenho um espírito
de pouca participação, porque não consigo, não tenho tempo e acabo por ser
um bocadinho consumista dos encontros. No fundo é ...
J.S. – Não tem mal nenhum. Pode ser uma fase da vida da Teresa em que isto
se situa assim e amanhã pode estar no projecto em que sinta que quer ir
partilhar com outros do MEM, educadores de infância, que queira ir partilhar
determinado tipo de vivências. E provavelmente também, se...
CEI – Que mensagem gostaria de deixar aos associados da APEI, tendo em
conta que este ano é o Ano Internacional do Voluntariado?
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Cadernos de Educação de Infância
Jul./Set. 2001
Entrevista
J.S. – Eu tenho uma certa dificuldade entre os anos de voluntariado, entre os
anos da terceira idade... Penso que foi a ONU que desenvolveu esta ideia que
teve o alto patrocínio da nossa Primeira Dama, portanto obviamente que há
objectivos estratégicos quando se promove este tipo de iniciativas, tem a ver
com devolver à sociedade uma consciência mais presente de que a dimensão
do voluntariado é fundamental para os contributos da construção de uma
sociedade mais fraterna, mais solidária, mais justa. Neste sentido este
compasso de reflexão, provavelmente das conferências que já se fizeram
(ainda não dei conta de nenhuma), ou as que se vão fazer. Estas conversas
que estamos aqui a ter em torno do voluntariado. Isto são elementos que são
desafiadores para as pessoas pensarem um pouco porque é que terão criado
este Ano. Pode ser que se criem incentivos, pode até em termos legislativos
que exista também alguma legislação que venha a sair ou determinado tipo de
incentivos que se criem para que o voluntariado possa ter um conjunto de
condições mais favoráveis a se por em prática. Eu penso, contudo, que esta
tendência do voluntariado é uma tendência das sociedades modernas que
tende a crescer, e que tem vindo a ter protagonismos, podemos pensar nos
Médicos sem Fronteiras, podemos pensar na Cruz Vermelha, podemos pensar
em instituições de natureza até internacional e Organizações Não
Governamentais que têm um protagonismo interessante, e que têm vindo
algumas delas a ganhar uma dimensão muito qualificada que não desmerece
uma intervenção de tipo profissional. Aliás neste momento as dependências do
voluntariado tendem a casar um certo profissionalismo, a necessidade de
recorrer a alguns serviços profissionalizados, com a continuação do espírito
amador de intervenção generosa, não há oposição nenhuma entre estas duas
coisas, é preciso é serem casadas de forma equilibrada. Isto também quando
vemos o exemplo dos nossos clubes, dos grandes clubes portugueses, seriam
clubes de voluntariado, mas as pessoas que estão na direcção são
remuneradas e penso que bem remuneradas, por vezes não é clara é a forma
de remuneração... Provavelmente também isso desvirtua a própria vontade de
outros a intervirem voluntariamente, se ficar claro que a associação precisa ter
um secretário precisa ter um advogado para apoiar juridicamente, precisa de
ter um animador para desenvolver uma determinada intervenção, se a própria
associação toma consciência disto e as pessoas concordam com essas
opções, há é que gerir equilibradamente estas duas vertentes. Que a tendência
do voluntariado nas sociedades modernas se tende a afirmar, mas tenho me
dado conta que mesmo em terrenos que estão entregues ao estado, como
sendo o terreno da saúde e da segurança social em alguns países, foram
evoluindo no sentido do estado ter um forte protagonismo e criarem estruturas
de participação dos cidadãos, como que este voluntariado ajuda a qualificar a
intervenção cívica no seu interior e a melhorar a própria prestação que essa
instituição cria. Dá-me ideia que o caminho do voluntariado é um caminho com
futuro, acho interessante...
CEI – Já agora nós costumamos sempre fazer uma pergunta aos nossos
entrevistados que é se conhecem a nossa revista, o que acham e que
sugestões é que têm.
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Cadernos de Educação de Infância
Jul./Set. 2001
Entrevista
J.S. – Eu como sou sincero e não costumo mentir, a menos que esteja
enganado, que esteja a mentir porque eu próprio estou convencido da mentira.
Eu li a vossa revista até à dois anos, gostei muito, houve apontamentos de
grande qualidade em termos de reflexão que a revista proporcionou. Neste
momento não tenho nenhuma ideia da vossa revista. Por forma que não posso
estar a criar falsos juízos dizendo que é uma boa revista ou o contrário, porque
neste momento não sei. Aquela linha editorial que tinham, que me pareceu que
dignificava os educadores de infância, penso que era um instrumento muito útil
em termos da cultura dos educadores, mas não só. Vocês sempre tiveram a
preocupação de não restringir as temáticas ao universo dos educadores o que
alarga os horizontes tanto dos educadores e também torna a revista aliciante
para outros sectores, nomeadamente ligados à educação. Penso que essa é
uma linha marcante que eu registo com muito agrado e acho que valoriza a
revista. Ponto de situação hoje não sei, desconheço. Lembro-me que houve
duas revistas que eu utilizei um vez na preparação de um encontro de
formação de professores, havia lá coisas notáveis em termos de reflexão que
eram para aquele tema que estávamos a tratar. Houve lá coisas que eu
lembro-me de terem servido quase de guião para depois uma intervenção e
uma síntese que fiz no encontro.
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Entrevista José Sarmento CEI – Sabendo que tem uma larga