CAINARA RODRIGUES DOS SANTOS SILVA REPRESENTAÇÕES SOBRE OS DOCENTES EM UMA REPORTAGEM DA REVISTA NOVA ESCOLA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA São João del-Rei 2013 CAINARA RODRIGUES DOS SANTOS SILVA REPRESENTAÇÕES SOBRE OS DOCENTES EM UMA REPORTAGEM DA REVISTA NOVA ESCOLA Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João delRei, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura Linha de Pesquisa: Discurso e Representação Social Orientadora: Dylia Lysardo-Dias PROGRAMA DE MESTRADO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA São João del-Rei 2013 CAINARA RODRIGUES DOS SANTOS SILVA REPRESENTAÇÕES SOBRE OS DOCENTES EM UMA REPORTAGEM DA REVISTA NOVA ESCOLA Banca Examinadora: Profª. Drª. Dylia Lysardo-Dias – UFSJ Orientadora Prof. Dr. Cláudio Márcio do Carmo – UFSJ Prof. Dr. Marco Antonio Villarta Neder – UFLA Prof. Dr. Cláudio Márcio do Carmo Coordenador do Programa de Mestrado em Letras São João del-Rei, 27 de março de 2013. Ao meu filho, Bernardo, que nasceu junto a este trabalho. AGRADECIMENTOS Por mais responsáveis, dedicados e competentes que tentemos ser, jamais conseguiríamos alcançar nossos objetivos sem a ajuda daqueles que nos cercam. Ao contrário, é a presença deles em nossas vidas que nos dá força e coragem para continuarmos a nossa caminhada. Assim, quero aqui agradecer a todos que fizeram parte da realização deste sonho. Em primeiro lugar, a Deus, que esteve sempre ao meu lado, me iluminando, para que este trabalho pudesse se concretizar. À minha orientadora, Dylia Lysardo-Dias, pelo profissionalismo, competência e paciência a mim dedicados, pelas discussões, sugestões e críticas, que ampliaram o meu conhecimento sobre a pesquisa. Aos professores do Promel, pelos conselhos e opiniões apresentadas. À Capes, por financiar os meus estudos desde o começo. Aos colegas de turma, pelos momentos de estudo e descontração nas aulas, congressos e palestras. Em especial, à amiga Patrícia, que desde o processo seletivo esteve ao meu lado, apoiando e incentivando. Ao amigo Vítor, pela revisão deste trabalho e por todas as ideias e sugestões dadas desde o começo. À minha irmã, Iara, por ser sempre amiga, sempre generosa, sempre sincera e por estar sempre presente, ajudando em todos os momentos. Apesar de ser minha única irmã, ela é realmente ÚNICA. Tenho muita sorte por tê-la em minha vida. Aos meus pais, Rosa e Jorgeson, que me ensinaram a ser quem sou e que me fizeram chegar até aqui, pois eles são pessoas especiais que sempre batalharam e me ajudaram para que eu pudesse realizar meus sonhos. Ao meu marido, Marcelino, pelo amor, incentivo, apoio incondicional e companheirismo. Se hoje comemoro esta conquista, é porque ele também fez com que os meus sonhos se tornassem os seus objetivos e metas. Te amo! À Vera, por cuidar com tanto carinho do meu filho Bernardo em minhas longas tardes de pesquisa, estudo e escrita. E a todos aqueles que direta ou indiretamente fizeram parte desta conquista, MUITO OBRIGADA!!! “(...) Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem „águias‟ e não apenas „galinhas‟. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” Paulo Freire RESUMO Os objetivos desta pesquisa são identificar e analisar as representações sociais sobre os docentes trazidas pela reportagem intitulada “O novo perfil do professor”, apresentada pela revista Nova Escola, em outubro de 2010. Especificamente, busca-se (i) discutir sobre o docente como sujeito no contexto histórico e cultural da educação brasileira; (ii) avaliar o papel da imprensa periódica educacional, mais especificamente da revista Nova Escola; (iii) identificar o perfil do docente retratado pela reportagem e as possíveis vozes sociais presentes naquele discurso; e (iv) caracterizar, a partir dos discursos analisados, alguns aspectos da cultura escolar brasileira apresentada pela revista. A pesquisa se fundamenta, teoricamente, nos conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin (1981, 2003, 2004). A análise visual se realiza sob a perspectiva dos Estudos Culturais (LISTER, WELLS, 2001; HALL, 1997) e da Gramática do Design Visual (KRESS, VAN LEEUWEN, 1996). A análise verbal se embasa nas heterogeneidades enunciativas (AUTHIERREVUZ, 1990, 1998, 2004), nos ditos e não ditos e nos operadores argumentativos propostos por Ducrot (1972, 1981, 1987 e 1989). Através da análise, percebemos que o discurso da revista é polifônico, mas exprime apenas um ponto de vista, retratando,de maneira unilateral, os deveres dos docentes. Seus direitos e dificuldades são silenciados, causando efeitos de sentido que tendem a persuadir o leitor a incorporar as características que o tornarão um bom profissional. “O novo perfil do professor” se desdobra em diferentes perfis constituídos a partir de ideias preconcebidas, construindo representações sociais sobre os docentes que ora dialogam, ora causam tensões entre si. Essa oscilação entre o velho e o novo, o tradicional e o moderno, demonstra que a cultura escolar brasileira está passando por um momento de crise, pois não consegue se definir frente às necessidades e dificuldades da sociedade atual. Palavras-chave: docentes. representações sociais. revista Nova Escola ABSTRACT The aim of this research was to identify and analyze the social representations about teachers brought by the article "The new teacher profile" presented by the Nova Escola magazine in October 2010. We specifically sought to (i) discuss the teacher as a subject in the historical and cultural context of Brazilian education, (ii) evaluate the role of the educational press, specifically the Nova Escola magazine, (iii) identify what teacher profile is revealed by the article and the possible social voices in the discourse, and (iv) characterize, from the discourses we analyzed, some aspects of the Brazilian school culture presented by the magazine. The theoretical framework draws on the concepts of dialogism and polyphony propounded by Bakhtin (1981, 2003, 2004). Visual analysis was performed from the perspective of Cultural Studies (LISTER, WELLS, 2001; HALL, 1997) and of the Grammar of Visual Design (KRESS, VAN LEEUWEN, 1996). The verbal analysis is based on the enunciative heterogeneity (AUTHIER-REVUZ, 1990, 1998, 2004), and on the said and unsaid, and the argumentative operators proposed by Ducrot (1972, 1981, 1987, 1989). Through the analysis, we found that the discourse of the magazine is poliphonic but gives us a partial view, because only the teachers‟ duties are revealed. Their rights and difficulties are silenced, causing meaning effects that tend to persuade readers to incorporate features that will make them good professionals. "The new teacher profile" unfolds into different profiles based on preconceived ideas, building sometimes divergent and sometimes convergent social representations about teachers. This oscillation between old and new, tradition and modernity, shows us that the Brazilian school culture is undergoing a crisis because it fails to define itself and face the needs and problems of today's society. Keywords: teachers. social representations. Nova Escola magazine LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Capas de alguns números da RNE e seus temas recorrentes em 26 anos ......................................................................................... 38 Quadro 2 – As Capas da RNE do ano de 2010................................................ 43 Quadro 3 – As Capas da RNE do ano de 2011 ............................................... 44 Quadro 4 – Síntese dos significados interativos apresentados pela GVD ...... 61 Quadro 5 – Resumo dos significados da GDV ................................................ 63 Quadro 6 – Resumo da análise do estrato visual segundo os EC ................... 90 Quadro 7 – Resumo da análise do estrato visual segundo a GVD .................. 91 LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS Tabela 1 – Tiragem da RNE de 1986 a 2011 ................................................... 46 Gráfico 1 – Perfil dos leitores por sexo ............................................................. 48 Gráfico 2 – Perfil dos leitores por faixa etária ................................................... 48 Gráfico 3 – Perfil dos leitores por classe social ................................................ 50 Gráfico 4 – Perfil dos leitores por região ........................................................... 50 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Capa da RNE de outubro de 2010 ............................................... 71 Figura 2 – Introdução da reportagem analisada ............................................ 75 Figura 3 – Depoimento 1 ............................................................................... 83 Figura 4 – Depoimento 2 ............................................................................... 84 Figura 5 – Depoimento 3 ............................................................................... 85 Figura 6 – Depoimento 4 ............................................................................... 86 Figura 7 – Depoimento 5 ............................................................................... 87 Figura 8 – Depoimento 6 ............................................................................... 88 Figura 9 – Linha do tempo do depoimento 1 ................................................. 107 Figura 10 – Linha do tempo do depoimento 2 ................................................. 108 Figura 11 – Linha do tempo do depoimento 3 ................................................. 109 Figura 12 – Linha do tempo do depoimento 4 ................................................. 110 Figura 13 – Linha do tempo do depoimento 5 ................................................. 111 Figura 14 – Linha do tempo do depoimento 6 ................................................. 112 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABEP – Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa EC – Estudos Culturais FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FVC – Fundação Victor Civita GDV – Gramática do Design Visual IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IVC – Instituto Verificador de Circulação LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação (entre os anos de 1992 e 1995: Ministério da Educação e do Desporto) PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais PDE – Plano Decenal de Educação para Todos PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos (em inglês: Programme for International Student Assessment) PNE – Plano Nacional de Educação PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento RNE – Revista Nova Escola RS – Representação Social RSs – Representações Sociais SAEB – Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica UAB – Universidade Aberta do Brasil UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................... 13 2 2.1 2.2 2.2.1 A FIGURA DOCENTE NO BRASIL ................................................... Dos jesuítas à feminização do magistério ...................................... O perfil docente na contemporaneidade ........................................ Os obstáculos da profissão ............................................................. 16 17 24 28 3 3.1 3.2 3.2.1 3.2.2 A IMPRENSA EDUCACIONAL .......................................................... Os periódicos educacionais ............................................................ A revista Nova Escola ....................................................................... Estrutura dos textos na revista Nova Escola ................................. Política de distribuição e perfil dos leitores ................................... 32 33 36 42 45 4 4.1 4.2 4.3 4.4 A FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA .................... O estrato verbal ................................................................................. O estrato visual ................................................................................. Procedimentos de análise ................................................................ O conceito de Representações Sociais .......................................... 52 54 59 64 66 5 5.1 5.2 5.3 5.3.1 5.3.2 5.3.2.1 5.3.2.2 5.3.2.3 5.3.2.4 5.3.2.5 5.3.2.6 5.3.3 5.4 UMA ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE OS DOCENTES ........................................................................................ A capa ................................................................................................ A introdução da reportagem ............................................................ Os depoimentos ................................................................................ Análise do estrato visual .................................................................. Análise do estrato verbal ................................................................. Depoimento 1 ...................................................................................... Depoimento 2 ...................................................................................... Depoimento 3 ...................................................................................... Depoimento 4 ...................................................................................... Depoimento 5 ...................................................................................... Depoimento 6 ...................................................................................... Análise das linhas do tempo ............................................................ As Representações Sociais sobre os Docentes ............................ 70 70 75 82 82 92 92 94 97 100 102 104 107 114 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................... 117 REFERÊNCIAS .................................................................................. 121 ANEXO A – Capa .............................................................................. ANEXO B – Introdução...................................................................... ANEXO C – Depoimento 1 ............................................................... ANEXO D – Depoimento 2 ............................................................... ANEXO E – Depoimento 3 ................................................................ ANEXO F – Depoimento 4 ................................................................ ANEXO G – Depoimento 5 ............................................................... ANEXO H – Depoimento 6 ............................................................... 129 130 132 133 134 135 136 137 13 1 INTRODUÇÃO Em outubro de 2010, recebi em minha casa, como todo assinante, um exemplar da revista Nova Escola (doravante RNE), o que inspirou o meu projeto de dissertação de mestrado. A capa da revista estampava a chamada “O professor do futuro é você” e a reportagem correspondente se intitulava “O novo perfil do professor”. Esses dizeres chamaram minha atenção e me perguntei: como os docentes1 são representados nessa reportagem? Quais as representações sociais construídas sobre os professores(as)? O que a reportagem representa ou silencia? Diante dos questionamentos, redefini o material de análise da pesquisa: a reportagem de capa da edição 236, de outubro de 2010, da RNE (cf. Anexos A a H). Através de um estudo de caso2, esta pesquisa tem por objetivo principal identificar e analisar as representações sociais (doravante RSs) sobre os docentes na reportagem O novo perfil do professor. Os objetivos específicos são: (i) discutir sobre o docente como sujeito no contexto histórico e cultural da educação brasileira; (ii) avaliar o papel da imprensa periódica educacional, mais especificamente da RNE; (iii) identificar qual é o perfil do docente retratado pela reportagem e as possíveis vozes sociais presentes nesse discurso; e (iv) caracterizar, a partir dos discursos analisados, alguns aspectos da cultura escolar brasileira apresentada pela revista. Adotamos o conceito de cultura escolar de Viñao Frago (2000). Ele afirma que essa cultura é um conjunto de práticas, normas, ideias e procedimentos que se expressam em modos de fazer e pensar o cotidiano da escola, no qual “esses modos de fazer e de pensar – mentalidades, atitudes, rituais, mitos, discursos, ações – amplamente compartilhados, assumidos, não postos em questão e interiorizados, servem a uns e a outros para desempenhar suas tarefas diárias, entender o mundo acadêmicoeducativo e fazer frente tanto às mudanças ou reformas como às exigências de outros membros da instituição, de outros grupos e, em especial, dos reformadores, gestores e inspetores” (VIÑAO FRAGO, 2000, p. 100). 1 2 Optamos pelo uso da palavra docente para mostrar imparcialidade quanto ao gênero, utilizando professor(a) ou professores(as) para evitar repetição. Quando for necessário distinguir, utilizaremos professora(s) ou professor(es) conforme o gênero em pauta. Segundo Yin (2009), o estudo de caso é a melhor estratégia de pesquisa quando: o tipo de questão é da forma “como” e “por quê”; o controle do investigador sobre os eventos é pequeno; ou o foco recai sobre fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real. Uma vez que nossa pesquisa atende aos três itens acima, podemos classificá-la como estudo de caso. 14 Com esses objetivos e defendendo a ideia de que o docente é fundamental para a educação, nossa exposição se divide em quatro partes. A primeira, capítulo 2, oferece uma análise da figura docente desde o descobrimento do Brasil até o presente. Segundo Sacristán (2003), esses profissionais estão no centro, vistos como condutores, do processo educacional, encargo que tem prevalecido em nossa sociedade desde o surgimento da profissão. Caracterizada por várias transformações no curso do tempo, a representação sobre o docente também sofre alterações em função das condições sócio-históricas e culturais nas quais está inserida. Para informar o estudo das RSs construídas sobre os(as) professores(as) atualmente, esse capítulo traça um breve histórico da profissão docente. Pelo fato de o material analisado fazer parte da imprensa periódica educacional, a segunda parte, capítulo 3, identifica essa mídia como um discurso informativo e analisa a relação dela com as representações sobre os docentes, uma vez que é considerada um rico espaço para se investigar a questão do(a) professor(a). Esse capítulo também caracteriza a RNE a partir de dados como origem, missão, circulação, perfil dos leitores, estrutura dos textos. Além disso, há uma breve análise das capas do periódico, sobretudo dos anos de 2010 e 2011, para verificar os assuntos abordados como temas principais pela Revista. A terceira parte, capítulo 4, apresenta a fundamentação teórica utilizada para a investigação dos estratos verbais e visuais, pois a reportagem traz não só palavras, mas também imagens como elementos-chave na identificação das RSs. Para a esfera verbal, utilizamos as teorias enunciativas, sobretudo o conceito de heterogeneidade enunciativa de Authier-Revuz (1990, 1998, 2004), os ditos e não ditos e os operadores argumentativos propostos por Ducrot (1972, 1981, 1987, 1989). Para a esfera visual, recorremos aos Estudos Culturais (HALL, 1997; LISTER, WELLS, 2001) e à Gramática do Design Visual (KRESS, VAN LEEUWEN, 1996). Em ambos os estratos, consideramos os conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin (1981, 2003 e 2004), com ênfase sobre as vozes sociais presentes no acontecimento enunciativo. Para melhor compreensão de como a pesquisa foi feita, esse capítulo detalha os procedimentos de análise dos dados e discute o conceito de RS adotado. A quarta e última parte, capítulo 5, traz uma análise discursiva dos elementos verbais e visuais que compõem a reportagem, levando em conta a articulação entre ambos na construção das RSs sobre os docentes. Dessa forma, 15 realizamos um estudo da linguagem dentro do seu contexto sócio-histórico e cultural, identificando o que está no nível do implícito e do pressuposto. Nas considerações finais, utilizamos os dados encontrados de forma a captar os diálogos e tensões presentes nas RSs sobre os docentes. Discutimos sobre a configuração da reportagem para ampliar o entendimento das relações entre linguagem, cultura, mídia e educação, caracterizando, a partir dos discursos estudados, alguns aspectos da cultura escolar brasileira apresentada pela RNE. 16 2 A FIGURA DOCENTE NO BRASIL O processo educacional envolve diversos atores, como a escola, os alunos, a família e toda a comunidade educativa, mas os docentes são considerados os protagonistas, os principais agentes da educação (NÓVOA, 2003). Codo e VasquesMenezes (2006, p. 37) reforçam que “é inócuo pensar a educação na ausência do que faz o educador”, pois, com o seu saber e o seu saber-fazer, esse profissional faz parte de todas as etapas do processo educacional. Sua participação é ativa desde a seleção do que será ensinado até a sua avaliação. Nas visões mais modernas de educação, fazer com que os alunos se tornem cidadãos críticos e reflexivos e considerá-los agentes ativos da construção do saber também são papéis do docente, que assume uma postura de mediador e não apenas transmissor de conhecimento. Ainda assim, embora os demais sujeitos envolvidos na educação sejam importantes, as responsabilidades que recaem sobre os docentes fazem deles as pessoas mais exigidas no ambiente escolar. Suas ações e condutas são frequentemente monitoradas, com a finalidade de trazer para a sala de aula o melhor que o ensino pode oferecer, fruto da imagem de um professor(a) ideal. Para Sacristán, o debate em torno do professorado é um dos polos de referência do pensamento sobre a educação, objeto obrigatório da investigação educativa e pedra angular dos processos de reforma dos sistemas educativos. Grande parte dos problemas e dos temas educativos conduzem a uma implicação dos professores, exigindo-lhes determinadas atuações, desenhando ou projetando sobre a sua figura uma série de aspirações que se assumem como uma condição para a melhoria da qualidade de trabalho. Em termos gerais, o discurso pedagógico e social acentua o papel dos professores [...] O certo é que existe no discurso pedagógico dominante uma hiper-responsabilização dos professores em relação à prática pedagógica e à qualidade do ensino, situação que reflete a realidade de um sistema escolar centrado na figura do professor como condutor visível dos processos institucionalizados de educação (SACRISTÁN, 2003, p. 64). Com base na corrente que afirma que o(a) professor(a) é o principal agente no processo educacional, vários livros e congressos discutem o papel e a atuação desse profissional para que o ensino melhore. Com isso, no entender de Nóvoa (1999, p. 2), “nos dias de hoje, há uma retórica cada vez mais abundante sobre o 17 papel fundamental que os professores serão chamados a desempenhar na construção da „sociedade do futuro‟”. Essa discussão não é fruto apenas da nossa atualidade. Desde a chegada dos portugueses ao Brasil, a profissão tem sido discutida e representada de acordo com cada período, sendo, muitas das vezes, um reflexo da sociedade. Para analisarmos a representação sobre os docentes atualmente, este capítulo faz um breve histórico sobre essa profissão no Brasil. Olhar para o passado nos permite compreender melhor os acontecimentos atuais, que, às vezes, passam despercebidos por já estarem incorporados ao nosso habitus3. 2.1 Dos jesuítas à feminização4 do magistério O período colonial marca o início da História da Educação no Brasil. A primeira escola foi criada em Salvador, em 1549, por padres jesuítas5, que passaram a dominar a área educacional, além de se dedicarem à pregação da fé católica. Nesse período, os homens eram responsáveis pelo magistério. Havia poucas escolas e o processo de escolarização era destinado a uma pequena camada da população. O modelo adotado pelas instituições de ensino era tradicional e baseava-se no currículo clássico humanista, deixado de herança pela Antiguidade Clássica. Esse currículo tinha por objetivo introduzir nas escolas as grandes obras literárias e artísticas, onde a cultura elitista predominava por ser considerada um conhecimento inquestionável a ser transmitido (SILVA, T., 2003). Em 1759, os jesuítas deixaram de ser os responsáveis pela educação no Brasil, expulsos do País por decisão de Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal entre 1750 e 1777. Quando foram expulsos, os jesuítas possuíam 25 residências, 36 missões e 17 colégios e 3 4 5 Termo proposto por Bourdieu (1983) para se referir a práticas sociais incorporadas e transmitidas pelo meio social no qual o sujeito está inserido. Segundo o autor, a posição social que o sujeito ocupa gera um conjunto de vivências típicas que tendem a se cristalizar na forma de habitus. “Esse habitus, por sua vez, faria com que esse sujeito agisse nas mais diversas situações sociais, não como um indivíduo qualquer, mas como um membro típico de um grupo ou classe social que ocupa uma posição determinada nas estruturas sociais. Ao agir dessa forma, finalmente, o sujeito colaboraria, sem saber, para reproduzir as propriedades do seu grupo social de origem e a própria estrutura das posições sociais na qual ele foi formado” (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009, p. 26) Sem aprofundar nas questões de gênero, utilizamos o termo feminização para fazer referência ao grande número de mulheres na profissão docente. A Companhia de Jesus é uma congregação religiosa católica, fundada por Inácio de Loyola e um pequeno grupo de discípulos na Capela de Montmartre, em Paris, em 1534, com objetivos catequéticos, em função da Reforma Protestante e a expansão do Luteranismo na Europa. 18 seminários, além de escolas de primeiras letras em todas as cidades onde havia casas da Companhia de Jesus. Segundo Bello (1998), essa expulsão fez com que a educação brasileira vivenciasse uma grande ruptura histórica em um processo já implantado e consolidado como modelo educacional. O período pombalino foi marcado pela instituição das aulas régias. As aulas compreendiam o estudo das humanidades e eram autônomas e isoladas, pertencendo ao Estado e não mais à Igreja Católica. Em 1760, realizou-se o primeiro concurso para professores e, para a manutenção desses cargos, foi criado o subsídio literário (imposto sobre a carne verde, o vinho, o vinagre e a aguardente). No entanto, essas taxas não eram cobradas regularmente e, como consequência, os docentes ficavam longos períodos sem receber pelos serviços que prestavam, tendo de arcar com seus próprios recursos a manutenção das aulas. Mal remunerados, os docentes também eram mal preparados para exercer a função. Apesar de ter sido a primeira forma de ensino público no Brasil, a educação continuou restrita à elite, excluindo as camadas mais pobres da sociedade. A chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808, e a independência, em 1822, expandiram as ofertas de escolarização. A educação passou a ser considerada importante para a modernização do País, e a classe média começou a reivindicar seus diretos, dentre eles a educação, já que: A sociedade se tornava complexa, com o surgimento de novos postos de trabalho e a adoção gradativa de outros hábitos culturais, e a instrução e a educação começaram a ser vistas como necessárias ao desenvolvimento econômico e cultural do país e um dos signos de “civilidade” (GALVÃO, 2001, p. 81) Nesse sentido, as primeiras leis referentes à educação pública brasileira foram sancionadas em 1827, sendo função do Estado controlar o sistema educacional. A lei previa a criação de aulas para todas as crianças. Logo, para poder atender um número maior de alunos, foi necessária a contratação de mais professores, principalmente professoras, já que as meninas deveriam ser instruídas por mulheres e os meninos, por homens, pois os conteúdos que lhes eram ensinados variavam de acordo com o sexo. Ambos eram alfabetizados e catequizados; na matemática, aprendiam as quatro operações; mas às meninas não era dado o direito de aprender números decimais, proporções e geometria. No lugar desses conteúdos, eram ensinados bordado e costura, pois elas deveriam ser 19 instruídas para serem mães e donas de casa (GALVÃO, 2001). Essa diferenciação fez com que as mulheres ingressassem cada vez mais na carreira docente, porque, como Louro (2008) comenta, agora as “mulheres honestas” eram necessárias para reger as aulas das meninas. Após esse período de expansão da educação, a figura docente passou a ser tema central nas discussões educacionais e considerada a responsável por toda a educação no País. A profissão era respeitada devido ao papel que exercia na sociedade. Nobre e honrado, o magistério deveria ser um exemplo para os alunos. Ao mesmo tempo, o docente era visto como alguém impossibilitado de realizar um bom trabalho devido aos salários irrisórios e à falta de formação profissional. Ele mesmo se sentia desprestigiado por isso, mas não reivindicava melhorias porque possuía certo status social. Segundo Galvão (2001), as publicações dessa época mostravam os docentes como profissionais que precisavam de melhores condições de trabalho e salários maiores para se aperfeiçoarem e que não mediam esforços para superar as dificuldades. O que ocorria no Brasil era que a educação ficava em segundo plano. Não era possível encontrar bons profissionais a um salário tão baixo. Era dito que os próprios docentes deveriam frequentar suas aulas para aprender (LOURO, 2008). No intuito de minimizar os efeitos do caos que estava se instaurando na profissão, surgiram as Escolas Normais6. O objetivo dessas escolas era formar professores e professoras para atender à demanda crescente, mas isso ocorreu de maneira diferente da esperada, porque “os relatórios iam indicando que, curiosamente, as escolas normais estavam recebendo e formando mais mulheres que homens” (LOURO, 2008, p. 449). Segundo dados do censo (PESSANHA, 2001), o setor primário da educação foi monopolizado pelas mulheres desde a Primeira República (na proporção de aproximadamente 87%), sendo que, em 1964, elas representavam 95,24% dos estudantes nas Escolas Normais. Pessanha (op. cit.) ainda ressalta que os poucos homens que continuaram a lecionar passaram a ser discriminados e considerados anormais. 6 A primeira Escola Normal no Brasil foi criada em 1835, na cidade de Niterói, Rio de Janeiro. O curso tinha como objetivo formar professores(as) para lecionar no ensino primário e era oferecido em nível secundário (do atual Ensino Médio). Do início do período republicano até 1940/1950, as escolas normais se instituíram como instituições públicas fundamentais de formação para a docência no ensino primário em todo o País. 20 Essa transformação do magistério não ficou livre de resistências e polêmicas (GALVÃO, 2001; LOURO, 2008). Havia quem fosse contra as mulheres no magistério por acreditar que elas não possuíam capacidade suficiente para desempenhar uma tarefa tão importante. Outros defendiam o ato de ensinar como uma atribuição da mulher, pois ela teria mais jeito e facilidade para fazer isso, não seria rude e seca como os homens e conseguiria cativar os alunos por lembrar a figura materna. Surge, portanto, a feminização do magistério, em que a figura da mulher em sala de aula passa a representar a face e a síntese da profissão docente na educação básica. Para Louro, esse discurso justifica a saída dos homens das salas de aula – dedicados agora a outras ocupações, muitas vezes mais rendosas – e legitimava a entrada das mulheres nas escolas – ansiosas para ampliar seu universo –, restrito ao lar e à igreja. A partir de então passam a ser associadas ao magistério características tidas „tipicamente femininas‟: paciência, minuciosidade, afetividade, doação. Características que, por sua vez, vão se articular à tradição religiosa da atividade docente, reforçando ainda a ideia de que a docência deve ser percebida mais como um “sacerdócio” do que como uma profissão (LOURO, 2008, p. 450). As características supostamente femininas não são suficientes para explicar a forte feminização do magistério no Brasil. Galvão (2001) argumenta que a entrada da mulher no magistério também se deve a razões econômicas e sociais. A chegada da urbanização e da industrialização aumentou as oportunidades de trabalho para o sexo masculino nas indústrias e no comércio, o que fez as mulheres se tornarem, gradualmente, maioria entre os docentes7. Além disso, como as mulheres não eram responsáveis pelo sustento da casa (tarefa que ficava a cargo dos homens), o salário delas poderia ser menor, visto que apenas complementava o orçamento da família. Outra justificativa era a de o magistério ser um trabalho de “um só turno” (negligenciando a preparação necessária para exercê-lo), o que possibilitava à mulher assumir suas responsabilidades domésticas. Um ordenado menor era algo lucrativo e mantinha a mulher, considerada o sexo frágil e dominado, no seu lugar na sociedade: subordinada ao homem8. 7 8 Esse é um dos motivos para a existência de Escolas Normais para as moças e as Escolas Técnicas para os rapazes. As Escolas Técnicas, de nível secundário (Ensino Médio), se dedicaram a oferecer cursos de formação profissional voltados para o mercado de trabalho, tais como: eletricista, mecânico, projetista etc. Uma evidência disso se encontra no art. 233 do Código Civil de 1916 (BRASIL, 1916), cuja redação foi mantida em 1962: “O marido é o chefe da sociedade conjugal”. Sobre a renda, outros parágrafos 21 Portanto, a mulher deveria assumir diferentes papéis em casa e na escola, sendo “ao mesmo tempo, dirigida e dirigente, profissional e mãe espiritual, disciplinada e disciplinadora” (LOURO, 2008, p. 454). É nesse contexto, em meio a tantas contradições e relações de poder, que a figura da mulher começou a formar o perfil da profissão docente. Louro afirma que nas primeiras escolas talvez sejam encontradas algumas das referências mais persistentes ligadas à representação dominante da professora. A afluência das moças, justificada e produzida pelos discursos da época, vai determinar que os currículos, as normas, enfim práticas educativas dessas instituições se diversifiquem e depois se feminizem, ajustando-se aos novos sujeitos e, ao mesmo tempo, produzindo-os (LOURO, 2008, p. 456). Apesar de o matrimônio ser considerado a única realização feminina, a sala de aula passou a ser um lugar ideal para a mulher até encontrar um marido, visto que, após o casamento, ela deveria se dedicar integralmente aos afazeres do lar. Muitos acreditavam que a presença feminina no magistério deveria ser incentivada e que os cursos poderiam contribuir para a formação da mestra e para o casamento (LOURO, 2008). A Escola Normal é ironizada como um curso de “espera marido”. No entanto, discursos da época mostram que muitas mulheres precisavam renunciar ao casamento para continuar lecionando e, assim, garantir sua sobrevivência. Uma lei catarinense de 1917 (LOURO, op. cit.), por exemplo, determinava que as professoras que se casassem seriam destituídas do cargo. Isso respondia ao caráter de doação e desprofissionalização do magistério, que exigia completa entrega: mais uma doação do que um trabalho. De acordo com a lei, seria impossível lecionar e cuidar da casa e dos filhos ao mesmo tempo. A mulher, que até então vivia a vida do marido e dos filhos, passou a viver a vida de seus alunos. Essa representação da “professora solteirona” possui algumas contradições: tanto era uma mulher que falhara, porque não tinha conseguido se casar; quanto era superior às mulheres casadas, porque possuía um elevado nível de instrução e garantia o seu próprio sustento, usufruindo de alguns benefícios, até então, apenas masculinos. A boa professora deveria dar atenção incondicional à formação de seus alunos e, assim, nas palavras de Louro (2008, p. 466), “esses constituiriam sua do artigo determinavam que os bens comuns e particulares da mulher estavam sob administração do marido, a quem cabia prover a manutenção da família. O artigo foi definitivamente revogado em 2002. 22 família; a escola seria seu lar e, como se sabe, as tarefas do lar são feitas gratuitamente, apenas por amor”. Como contraponto, a professora solteirona era representada de forma severa e de poucos sorrisos: as imagens fotográficas ajudam a reconstituí-la: roupas escuras, abotoadas e de mangas compridas, rosto fechado, cabelo em coque, costas retas, pés unidos, mãos postas ao lado do corpo ou sobre os joelhos – na verdade, nas fotos antigas, também as crianças estão frequentemente muito sérias e perfiladas. As caricaturas dos jornais de época também falam dessa severidade e secura; representamnas geralmente como mulheres sem atrativos físicos, por vezes quase bruxas, munidas de uma vara para apontar o que está escrito num quadro-negro, quase sempre de óculos (LOURO, 2008, p. 466467). A atividade docente era uma alternativa ao casamento tanto para as viúvas quanto para as moças solteiras menos favorecidas de charme e beleza. A imagem da mulher bonita e cobiçada não estava muito ligada à imagem da professora. Isso porque a docência era entendida como missão, resgatando o que faziam os primeiros educadores, no caso, os jesuítas. Missionária, a professora detinha o controle da sala de aula. Seu objetivo era transmitir o saber acumulado pela sociedade e seus conhecimentos eram tidos como inquestionáveis. A relação professor-aluno era vertical e hierárquica e gerava respeito, submissão e até medo por parte do aluno, que era apenas o receptor do conhecimento. A aula expositiva centrada no docente era a metodologia mais utilizada. Sobre esse método, Araújo afirma: Durante as aulas os alunos ficavam sempre enfileirados, carteiras postas atrás das outras carteiras, no rigor do bom comportamento, uns sentados atrás dos outros, com destaque para situações em sala de aula nas quais eram feitos exercícios de fixação, como leituras orais e silenciosas além de muitas cópias de lição, de casa e de aula (ARAÚJO, 2009)9. As novas orientações pedagógicas da Escola Nova 10, em 1932, e as teorias críticas da década de 1960 foram cruciais para as mudanças na educação. A cultura 9 Artigo online sem número de páginas. A Escola Nova foi um movimento de renovação do ensino. Teve como principais inspiradores Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e John Dewey (1859-1952), entre outros. Nessa concepção, as escolas deviam deixar de ser simples locais de transmissão de conhecimentos e se tornarem pequenas comunidades: seria a escola sob medida, adaptando-se ao aluno e não tentando encaixá-lo em estruturas preestabelecidas. 10 23 elitista, que predominou por aproximadamente quatrocentos anos, foi colocada em questão. Surgiram obras importantes de críticas feitas à cultura, derivadas inclusive dos Estudos Culturais (doravante EC), que contribuíram para transformações no currículo escolar. Um ambiente mais prazeroso para a escola era discutido, com o docente sorridente e mais próximo dos alunos. O termo educador começou a ser utilizado, e o discurso sobre um “outro professor” começou a ganhar espaço no século XX. Althusser (1987) forneceu as bases para as críticas marxistas da educação, ao conectar educação e ideologia, ao entender a escola como um Aparelho Ideológico de Estado encarregado de disseminar a ideologia dominante para a manutenção do sistema capitalista. Bourdieu e Passeron (1970), no entanto, afirmaram que a escola e as instituições culturais não dependiam da estrutura econômica, mas funcionavam como ela: por isso, o uso do termo “capital cultural” 11 . Para esses autores, a escola era transmissora desse capital cultural (baseado na cultura dominante). Todavia, os alunos das classes dominadas não conseguiam acompanhar aquilo que era facilmente compreendido pelos estudantes das classes dominantes, o que garantia a reprodução social. Para resolver isso, Bourdieu e Passeron propuseram uma pedagogia racional, através da qual os alunos deveriam ter acesso à cultura dominante sem se restringir a ela. Paulo Freire (1970) criticou a escola tradicional e discordou de apenas os docentes exercerem papel ativo. Em vez de se transmitir a alta cultura, Freire defendia que a própria experiência dos alunos deveria se integrar aos temas curriculares. Uma vez considerada a cultura como criação e produção humanas, não haveria diferenças entre Cultura e cultura. Essa noção trazida à tona por Freire interferiu fortemente no ensino, pois tentou eliminar as divergências entre “alta” e “baixa” cultura12 e permitiu trazer a cultura popular para dentro da sala de aula. Paralelamente, as escolas continuavam funcionando em locais precários. Os docentes ainda eram mal remunerados, sem formação ou com má formação, porque, apesar da criação das Escolas Normais, muitos ainda lecionavam sem preparação específica. O desemprego aumentou: segundo Pessanha (2001), em 1955, havia vinte e cinco mil professores(as) primários(as) desempregados(as) só 11 Valores sociais de uma determinada cultura que são transmitidos para que certas pessoas possam obter vantagens sobre as outras. 12 Não discutiremos nesse trabalho os termos “alta cultura” e “baixa cultura”. 24 em São Paulo. Devido às melhorias nas condições de vida da classe média a partir de 1964, os próprios docentes começam a questionar a sua importância no primário (profissão muito desvalorizada economicamente). No final dos anos 1960 e início dos 1970, a representação sobre o docente assumiu um caráter mais profissional. Os sindicatos da categoria surgiram e a situação de isolamento diminuiu. Os movimentos organizados passaram a agregar tanto professoras quanto professores de 1º e 2º graus, profissionais que lutavam pelo reconhecimento de seus direitos e deveres. 2.2 O perfil pocente na contemporaneidade Vivemos uma época marcada pela globalização, considerada um fenômeno que surgiu da necessidade do capitalismo, no final do século XX, de integrar diversas economias, sociedades, culturas e políticas para formar um todo global entre países desenvolvidos e emergentes. A globalização faz com que as pessoas se aproximem e se conectem com o mundo, independente da distância entre elas. Há um encurtamento nesse trajeto, pois, de forma sucinta, a globalização é a interligação do mundo associada a uma aceleração do tempo. Segundo Hall (2003), a globalização é responsável pelo surgimento de uma pluralização e um descentramento dos sistemas mantidos até então como referência, ligando as pessoas ao seu mundo social e cultural. Nesse mundo global, há o aparecimento de novas identificações globais e locais, sendo que umas não anulam as outras e, ao mesmo tempo, não se apagam as desigualdades entre elas, transformando-se no que Hall chamou de “geometria do poder”. O multiculturalismo surge como um resultado ou produto da globalização. A presença de ambos evidencia a tensão entre o local e o global: um processo de desnacionalização ou dissemiNação em que “a fronteira que assinala a individualidade da nação interrompe o tempo autogerador da produção nacional e desestabiliza o significado do povo como homogêneo” (BHABHA, 1998, p. 209). O local é, na verdade, um vazio, uma lacuna, que precisa ser preenchido pelo global e vice-versa. Vilar Estêvão (2009) afirma que essas ideias impuseram aos diferentes países uma redefinição de seus sistemas de ensino em prol de possíveis vantagens 25 competitivas. Houve uma exigência de que a escola se modernizasse. A educação começou a ser tratada como uma política econômica que envolvia: [...] a penetração curricular por tendências globais e produção de materiais educativos, com o desenvolvimento de uma pedagogia tecnologicamente mediada, com a reorganização da educação básica e secundária e formação de professores (que corresponde às capacidades e competências requeridas pelos trabalhadores num mundo globalizado) [...] (VILAR ESTÊVÃO, 2009, p. 42). A chegada da tecnologia também trouxe velocidade para o processo educativo. Isso não significa que os alunos aprendam mais rápido hoje, mas, sim, que existe uma facilidade no acesso às informações e aos diversos conteúdos ensinados pela escola. Alunos podem realizar pesquisas com maior rapidez e os docentes podem contar com mais um recurso didático, o que lhes fornece maior integração com os acontecimentos do mundo. Sobre isso, Masetto afirma que: A oportunidade de desenvolver a auto-aprendizagem e a interaprendizagem pelos microcomputadores das bibliotecas, das residências, dos escritórios, dos locais de trabalho faz com que tais recursos sejam incorporados ao processo de aprendizagem, uma nova forma de se contactar com a realidade ou fazer simulações facilitadoras de aprendizagem (MASETTO, 2003, p. 82). Com os efeitos da globalização, do multiculturalismo e da chegada da tecnologia, dentre outros, houve a necessidade de se repensar a situação do ensino. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 1998), em 1990, havia no mundo mais de 100 milhões de crianças sem acesso ao ensino primário e 960 milhões de adultos analfabetos. Naquele período, havia problemas que impediam o avanço educacional, como: o aumento da dívida de muitos países; a ameaça de estagnação e decadência econômica, que levava ao corte de investimentos na educação; e uma grande desigualdade social. Na tentativa de reverter esse quadro, em 1990, a UNESCO, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (doravante UNICEF), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (doravante PNUD) e o Banco Mundial organizaram a Conferência Mundial de Educação. Nela, os nove maiores países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, assumiram compromissos de mudanças em suas políticas educacionais. Segundo a Conferência, a educação para todos deveria satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem, com uma visão abrangente e um 26 compromisso renovado. O acesso à educação deveria se universalizar e promover a equidade, concentrando a atenção na aprendizagem e ampliando os meios e o raio de ação da educação básica, em um ambiente propício à aprendizagem. Como um desdobramento dessa Conferência, a proposta era reforçar as alianças entre os governos federal, estadual e municipal com uma política de apoio aos setores social, cultural e econômico, mobilizando recursos para suprir as necessidades da educação básica para todos e fortalecer a solidariedade internacional. Após grande pressão dos países hegemônicos para que os emergentes pudessem se adequar à realidade atual, em 1993, o Ministério da Educação (doravante MEC) elaborou o Plano Decenal de Educação para Todos (doravante PDE) (BRASIL, 1993) para cumprir as exigências estabelecidas. Esse plano consistia em dar diretrizes para a recuperação da escola fundamental e para a erradicação do analfabetismo de acordo com o estipulado na Conferência Mundial de Educação. Afinal, o Brasil não poderia se “prender ao passado” e manter a população analfabeta e atrasada. Em 1996, o PDE serviu de fundamento para a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (doravante LDB) (em vigor: BRASIL 1996), reforçando o acesso ao ensino básico e reformulando o sistema educacional. Finalmente, em 1997, foram lançados os Parâmetros Curriculares Nacionais (doravante PCNs), com o intuito de levar as mesmas propostas curriculares para toda a educação básica. Os primeiros PCNs elaborados se referiam ao Ensino Fundamental, compostos por dez volumes: Introdução; Língua Portuguesa; Matemática; Ciências Naturais; História e Geografia; Arte; Educação Física; Apresentação dos Temas Transversais e Ética; Meio Ambiente e Saúde; e, por último, mas não menos importante, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual. Os PCNs reconheceram a complexidade da prática educacional e buscaram orientar o docente a assumir o seu papel de responsável pelo processo de formação da população brasileira. Segundo esses parâmetros, o objetivo seria auxiliar o docente na execução de seu trabalho, compartilhando seu esforço diário de fazer com que as crianças dominem os conhecimentos de que necessitam para crescerem como cidadãos plenamente reconhecidos e conscientes de seu papel em nossa sociedade. (BRASIL, 1997, Ao Professor). 27 Não obstante, a elaboração dos PCNs foi, na verdade, uma medida direcionada para a implantação de um modelo de mercado proposto pelo Banco Mundial para a educação no Brasil. Vimos que toda a reformulação do currículo escolar brasileiro se iniciou após a Conferência Mundial de Educação, da qual o próprio Banco Mundial era um dos organizadores. A escola foi pensada como a única instituição responsável por transformar a sociedade e por minimizar os efeitos da desigualdade na distribuição de renda e da pobreza de grande parte da população no Brasil. O intuito era o de reduzir o número de alunos fora das escolas e, consequentemente, aumentar o índice de alfabetizados. Dentro desse novo cenário, incluindo as reformas educacionais dos anos 1990, o perfil docente sofreu alterações. De acordo com a nova lei da educação e os PCNs, o objetivo educacional não é mais transmitir o saber acumulado, mas preparar os alunos para a sociedade. A figura do professor-pesquisador é estimulada, visto que o novo processo de ensino e aprendizagem requer um profissional que abandone o papel de unicamente transmitir conteúdos. A teoria e a prática são mencionadas como indissociáveis, pois o docente precisa do conhecimento teórico para questionar a sua prática e, assim, trazer melhorias para o ambiente escolar. Segundo os PCNs, a heterogeneidade das turmas não deve ser considerada um problema e é esperado do educador contemporâneo uma postura humana e de cooperativismo em sala de aula. O aperfeiçoamento docente é considerado essencial e os cursos de capacitação são cada vez mais frequentes. Masetto (2003) reforça que hoje a escola necessita de professores(as) que possam estimular cooperação e trabalho em equipe tanto nos alunos quanto nos demais colegas de trabalho. A partir da década de 1990, houve uma redução dos postos de trabalho no setor primário e um crescimento do setor secundário. Com isso, diferentemente do período anterior, a participação dos homens volta a ser notada entre os profissionais da educação (BATISTA; CODO, 2006). Hoje o Brasil conta com mais de dois milhões de docentes e, apesar de as mulheres ainda serem maioria entre esses profissionais, os dados do Censo da Educação Básica 2010 (INEP, 2010) mostram que o número de professores homens já alcança 23% do total. Esses dados apontam para uma leve desfeminização do professorado, principalmente no Ensino Médio, em que a presença masculina (37%) é mais forte que no Fundamental (18,3%). 28 2.2.1 Os obstáculos da profissão As reformas educacionais implantadas nos anos 1990 e a expansão da educação básica exigiram uma reestruturação do trabalho docente, que alterou seu perfil e sua representação. Essa reestruturação ocorre frente a fatores presentes na gestão e organização da escola, “tendo como corolário maior responsabilização dos professores e maior envolvimento da comunidade” (OLIVEIRA, D., 2004, p. 1131). O docente se vê obrigado a cumprir exigências que estão além das suas possibilidades e que ultrapassam limites humanos. O texto de Soratto e Olivier-Heckler nos dá, literalmente, uma dimensão das expectativas envolvidas no novo perfil docente: O trabalho de professor é revestido de características tão peculiares que ele não pode se dar ao luxo de sofrer, de ficar cansado. Um bom professor deve estar sempre disponível para atender aos seus alunos e aos pais deles. Não pode se dar ao luxo de ficar triste, pois sua tristeza certamente prejudicará o desempenho dos alunos, já que para eles o professor é um baluarte, uma fortaleza. O sorriso tem que estar presente, mesmo que coração e mente sofram. Se o professor não for criativo, não for capaz de criar estimulações constantes para captar a atenção de seu aluno, tal como o publicitário faz com o consumidor, a monotonia tomará conta de seu trabalho e a atenção do aluno se dispersará. O professor tem que estar em processo de reciclagem diuturnamente, para quando questionado, (e os questionamentos surgem nas formas e momentos mais inesperados possíveis), ter respostas corretas, atuais. Deve ter conhecimentos e habilidades suficientes; procurar formas diferentes de dizer a mesma coisa; formas de prender a atenção do ouvinte, de tornar interessante coisas que a princípio nem sempre seriam; precisa empregar esforço para aproximar do dia-a-dia do aluno aquilo que vem nos livros a partir de outra diversidade, deve saber e se empenhar em lidar com realidades muito diferentes, interesses muito distintos; enfim, cabe ao professor motivar os alunos, construir a cena, independente das condições do palco(SORATTO, OLIVIER-HECKLER, 2006, p. 98-99). É possível perceber que, apesar de a figura docente ser considerada importante no processo educacional, esse profissional está vivendo um período de crise, devido à sobrecarga física, psíquica e emocional. As condições de trabalho se deterioram e a imagem do(a) professor(a) ideal se cruza com a imagem dos(das) professores(as) reais, causando o mal-estar que paira sobre eles. Há um conflito entre aquilo que o docente consegue fazer e aquilo que se sente na obrigação de ter feito na prática diária de sala de aula. De acordo com Nóvoa (2003), os docentes constituem um dos grupos profissionais mais qualificados do ponto de vista acadêmico; porém, a imagem social e as condições econômicas em que a maioria deles vive são degradantes. 29 Ao contrário de outras profissões, o trabalho desse profissional não termina com a aula. Há a necessidade de estudo constante, a preparação das aulas, a elaboração e correção de provas, entre uma série de outras atividades que o docente precisa desenvolver. Como lembram Soratto e Olivier-Heckler (2006, p. 98), “as tarefas continuam e nem por isso há uma compensação financeira ou mesmo o reconhecimento social merecido. Se faz bem feito, nada mais que obrigação cumprida; se não, recebe críticas de todos os lados”. Conforme dados do Educacenso 2010 (INEP, 2010), 63,7% dos docentes da Educação Básica possuem duas ou mais turmas; 22,7% trabalham em duas ou mais escolas; e 39,9% dobram ou triplicam seus turnos de trabalho para possuírem um salário digno. O piso salarial dos(das) professores(as) está em discussão no atual governo, da presidenta Dilma Rousseff13. Para 2012, o piso foi estabelecido em R$1.451,00, e muitos estados e municípios alegam não ter condições de pagá-lo, mesmo sendo um salário ainda insuficiente para cobrir todas a exigências que são feitas a esse profissional. Para Codo, Vasques-Menezes e Verdan (2006, p. 294), a sociedade passa por um momento peculiar no que tange à educação, “valorizando-a no discurso e desvalorizando-a na prática, quer através do tratamento precário que o Estado lhe reserva, vide os salários dos professores...”. Como mostram Odelius e Codo, um dos reflexos possíveis desse baixo poder aquisitivo é a dificuldade de direcionamento de recursos próprios para manter seu nível de atualização e de preparo para o próprio trabalho. Livros, jornais, revistas, filmes, material didático, Internet, apenas para falar de alguns insumos básicos para o trabalho, grande parte das vezes inacessível, não fazendo parte da realidade do professor (ODELIUS, CODO, 2006, p. 223). Como se pode inferir dos dados do Educacenso, o desgaste ao qual os docentes estão submetidos é grande por se dedicarem a várias turmas, em mais de uma escola, em turnos diferentes. A realidade da escola poderia facilitar o trabalho, como é o caso das escolas particulares e de algumas poucas públicas, mas, na maioria das vezes, seus problemas de infraestrutura, escassez de recursos, indisciplina e violência criam obstáculos. As tentativas de se esforçar para reverter esse quadro afetam o docente, causando conflitos e tensões e no meio educacional. Segundo Soratto e Olivier-Heckler, 13 Eleita em 2010 e empossada em 2011. 30 Salários baixos; condições precárias; falta de flexibilidade na administração de recursos; pouca perspectiva de progressão na carreira; trabalho importante, exigente e sem reconhecimento no mesmo nível. Visto desta forma, em termos organizacionais, tudo o que a escola fornece ao trabalhador a coloca como uma das piores organizações para se trabalhar (SORATTO, OLIVIER-HECKLER, 2006, p. 99). Nessa conjuntura, uma doença tem chamado a atenção de especialistas. É a chamada burnout14. Essa síndrome se refere à “dor de um profissional encalacrado entre o que pode fazer e que efetivamente consegue fazer, entre o céu de possibilidades e o inferno dos limites estruturais, entre a vitória e a frustração” (ABICALIL, 2006, p. 13). Nesse estresse crônico, o docente já gastou todas as suas energias e sofre de um esgotamento físico e mental que o torna indiferente ao trabalho. O(a) professor(a) continua a ir para a sala de aula, mas não possui o entusiasmo e a vontade de ensinar que tinha antes da doença. O docente tem de exercer sua missão em tempo integral, e o envolvimento pessoal no trabalho é tão intenso que até a família fica em segundo plano15. Ele(a) quer ter mais tempo para poder viver, mas o trabalho o(a) impede. Sem alternativa, o docente sofre, porque a organização o sufoca. A escola se torna o seu primeiro lar. Para se manter financeiramente, ele se desdobra em turmas, escolas e turnos, precisando se atualizar e também se dedicar à casa e à família. Eis uma sobrecarga que desgasta e desmotiva o docente, levando-o ao burnout, definido como: uma síndrome através da qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas já não o importam mais e qualquer esforço lhe pareça ser inútil. Esta síndrome afeta, principalmente, profissionais da área de serviços quando em contato direto com seus usuários. Como clientela de risco são apontados os profissionais de educação e saúde, policiais e agentes penitenciários, entre outros. Schaufeli et al. (1994) chegam a afirmar que este é o principal problema dos profissionais da educação (CODO; VASQUES-MENEZES, 2006, p. 238). A carga emocional e mental da profissão docente se torna preocupante. Os sintomas dessa doença podem ser notados através de: dores de cabeça, dores nas costas, perda de voz, cansaço, irritabilidade, ansiedade, melancolia, baixa-estima, 14 Palavra inglesa que significa “queima/combustão total”. Na verdade, isso não ocorre apenas com o(a) professor(a). Todos os profissionais que se entregam demais ao trabalho, principalmente aqueles que lidam diretamente com a ajuda às pessoas (médicos e enfermeiras), estão propensos a burnout. 15 31 sentimento de exaustão física e emocional, dificuldade em estabelecer relações afetivas mais profundas, entre outros. De acordo com pesquisas realizadas no Brasil (FANTE, 2007), 48% dos docentes sofrem de algum sintoma de burnout, o que coloca esses profissionais em uma posição de alto risco. Isso não ocorre só no Brasil. “O professor está doente em todo mundo, mesmo em países ditos desenvolvidos, os índices de estresse são bastante altos e consequentemente há uma dificuldade para formar futuros docentes” (FANTE, 2007, p. 132). Caso o quadro não mude, é possível que o professor(a) se torne um profissional raro em alguns anos. Pesquisas realizadas pela Fundação Victor Civita (doravante FVC) (2009) em parceria com a Fundação Carlos Chagas informam que apenas 2% dos alunos do 3° ano do Ensino Médio querem ser docentes. Tendo em vista tudo isso, parece-nos que estamos diante de um descompasso entre a importância indiscutível da profissão docente e a realidade vivida por esse profissional. Muito se exige deles e pouco lhes é oferecido, agravando a difícil situação com a qual professores e professoras se defrontam. A deterioração e a crise que abalaram a profissão docente, com o rebaixamento de salários e de status social, atingiram o seu perfil. 32 3 A IMPRENSA EDUCACIONAL Os meios de comunicação possuem um papel expressivo em nossa sociedade, pois atuam em um duplo processo. Há um processo de produção, circulação e consumo de mensagens que atingem uma grande camada da população, no qual o receptor não é apenas um decodificador das mensagens, mas também um produtor de sentidos. Ao mesmo tempo, ao permitir que a cultura se manifeste, revelando suas crenças, valores e representações, a mídia também se configura como produtora de significados sociais e culturais. Em uma perspectiva pós-moderna, Macdonald (2003) afirma que a mídia exerce quatro papéis: o de refletir a realidade, de representá-la, de operar discursivamente e de oferecer simulações. A autora observa que a mídia funciona mais como produtora de grandes narrativas16 que como mera transmissora de informações, tornando possível influenciar fortemente as pessoas frente à realidade que as cerca. Portanto, através da mídia, há uma construção dos meios de divulgação do objeto, no qual ele não aparece in natura, mas de forma representada. Macdonald (op. cit.) ressalta que um dos fundamentos dos estudos críticos da mídia é justamente reconhecer que o discurso da mídia constrói representações do real em diversas versões. Dentro do universo midiático, este estudo se concentra no discurso informativo da imprensa periódica educacional. Essa mídia é considerada um tipo de impressa segmentada (ou revistas segmentadas), destinada a atender aos interesses de públicos específicos. Com uma periodicidade geralmente mensal, essas revistas publicam reportagens, notícias e assuntos direcionados a um mesmo grupo. Para obter maior credibilidade e alcançar o maior número possível de pessoas dentro de um determinado público, essa imprensa utiliza de uma linguagem direcionada e homogeneizada. Os leitores são conduzidos por títulos e chamadas sugestivas para a leitura de textos, possibilitando à revista estabelecer uma sintonia entre aquilo que é publicado e aquilo que é (supostamente) desejado pelo seu leitor. Silva advoga que: 16 Segundo Lyotard (2002) as grandes narrativas da modernidade tinham como propósito transformar o real através de uma utopia revolucionária. Apesar de acreditar que a queda dessas narrativas foi uma condição para o surgimento do pós-modernismo, hoje as mídias ainda se utilizam delas para construir o seu discurso. 33 o discurso jornalístico utilizado pela mídia impressa segmentada funciona como ferramenta eficiente no sentido de manter aberto o canal de popularidade com o público segmentado, atingindo com profissionalismo a atenção e a continuidade de consultas mensais (SILVA, D., 2009, p. 25). Por serem mídias de informação, existe uma grande preocupação dessas revistas em se manterem atualizadas frente aos desejos e anseios do seu públicoleitor para garantir o consumo. Segundo Charaudeau (2007), essas mídias têm uma dupla lógica: econômica e simbólica. A primeira se refere à informação como geradora de um produto empresarial e seu consumo; a segunda, à informação como construtora da opinião pública. Ou seja, de um lado, há a tentativa de vender cada vez mais exemplares para um público consumidor maior. De outro, existe a dúvida de como atingi-lo, pois não há garantias de que o efeito desejado será alcançado. Como veremos a seguir, o que ocorre com a imprensa periódica educacional, exemplo daquele tipo de mídia, não é diferente. 3.1 Os periódicos educacionais Ao aludir a periódicos educacionais, fazemos referência à mídia impressa especializada destinada aos docentes e aos demais profissionais da educação. Através de uma linguagem específica, essas revistas se destinam a trazer as novas tendências, pesquisas e descobertas da área educacional, dando dicas e receitas de como fazer. Essas publicações buscam guiar a prática docente e proporcionar aos seus leitores atualização profissional. Para causar maior interação com o leitor e gerar uma assimilação mais rápida das ideias propostas, os periódicos utlizam um recurso linguístico chamado de retextualização, no qual há a adequação de um texto a determinada situação comunicativa, produzindo um texto novo apartir de um texto base (ANDREA; RIBEIRO, 2010). Também conhecidos por “revistas pedagógicas”, esses periódicos são relevantes fontes de informações específicas sobre o campo educacional, as práticas e saberes pedagógicos e a profissão docente. Bastos define a imprensa pedagógica como: instrumento privilegiado para a construção do conhecimento, constitui-se em um guia prático do cotidiano educacional e escolar, permitindo ao pesquisador estudar o pensamento pedagógico de um 34 determinado setor ou grupo social, a partir da análise do discurso veiculado e ressonância dos temas debatidos, dentro e fora do universo escolar. Prescrevendo determinadas práticas, valores e normas de conduta, construindo e elaborando representações do social, a imprensa pedagógica afigura-se como fonte privilegiada de estudo [...]. Sua análise possibilita avaliar a política das organizações, as preocupações sociais, os antagonismos e as filiações ideológicas, as práticas educativas escolares (BASTOS, 1997b, p. 173). Nóvoa (1997) se refere à imprensa educacional como sendo o melhor meio de apreensão da multiplicidade do campo educativo, porque através dela as diferentes vozes que compõem esse meio são manifestadas. O autor sugere que a imprensa periódica educacional é um corpus essencial para a compreensão da cultura pedagógica. A análise dos discursos dessa mídia permite a articulação de práticas e teorias tanto em nível macro quanto micro, exprimindo desejos futuros e denunciando o presente. Através de suas páginas, é possível reconstruir o que aconteceu e acontece no mundo educacional. Os discursos da mídia educacional têm como objetivo trazer exemplos de práticas pedagógicas e tendem a se tornar legítimos entre os docentes, ao recomendar formas ideais de estes realizarem o seu trabalho (CATANI, 1996). A informação trazida pela mídia influencia a maneira como a sociedade pensa e age, sugerindo representações de seus valores, vivências e modos de vida aos sujeitos. Ao fornecer informações sobre o âmbito educacional, a imprensa constrói um discurso educativo que exprime a visão de um grupo coletivo em uma estrutura global, que é comum aos meios de comunicação. Nóvoa acredita que é [...] a natureza da informação fornecida pela imprensa, que lhe concede um caráter único e insubstituível. Estamos, na maior parte das vezes, perante reflexões muito próximas do acontecimento, que permitem construir uma ligação entre as orientações emanadas do Estado e as práticas efetivas na sala de aula. [...] A imprensa é, talvez, o melhor meio para compreender as dificuldades de articulação entre a teoria e a prática: o senso comum que perpassa as páginas dos jornais e das revistas ilustra uma das qualidades principais de um discurso educativo que se constrói a partir dos diversos atores em presença (professores, alunos, pais, associações, instituições, etc.). (NÓVOA, 1997, p. 13). As revistas pedagógicas também têm outro potencial duplo, “pois além dos textos informativos que permitem a atualização de conteúdos, podem oferecer estudos, concepções e práticas articuladas às políticas educacionais sugeridas pelas reformas políticas” (SILVA, 2009, p. 20). Ao difundir documentos oficiais, programas 35 de ensino, planos de aula, material didático, livros indicados, textos teóricos, entrevistas com especialistas, depoimentos de professores(as) e reportagens sobre o campo educacional, essa mídia atua como um meio de comunicação eficiente para sustentar os modelos de educação desejados. Por essas razões, os periódicos educacionais são considerados: um dispositivo privilegiado para a reflexão sobre o modo de produção do discurso sobre o ser docente e como mecanismo de formação contínua. [...] A preocupação combinada de selecionar os professores e de (in)formá-los segundo um certo modelo de “bom” professor vem se constituindo historicamente e convergindo para o delineamento da representação da representação da docência (HAMELINE, D. apud BASTOS, 1997a, p. 74). Ao orientar o docente acerca dos processos educativos, muitas das vezes, essas revistas constroem uma homogeneização de métodos de ensino e uma imagem idealizada do/para o docente. Elas o fazem através de um discurso repleto de posicionamentos que tende a generalizar valores e idealizar virtudes, na tentativa de gerar um habitus. Saberes e ideias são institucionalizados e a imprensa periódica educacional cria dispositivos de governabilidade, nos quais os discursos estão atrelados ao aspecto econômico, político, social e cultural da época (SILVA, D., 2009). Ocorre que os periódicos educacionais são, em parte, constituídos por “um conjunto de falas relativas a normas e valores de conduta profissional, como forma de controle da profissão docente” (BASTOS, 1997a, p. 74-75). Desse modo, as revistas pedagógicas exaltam a prática educativa e dão receitas de atitudes e comportamentos que o bom docente deve seguir para sustentar o modelo de educação desejado, conectando-os, a fim de que sejam realizadas as mesmas práticas em sala de aula. Essa estratégia é utilizada para conformar e moldar os profissionais da educação, mostrando que existe um ideal a ser atingido. Nas páginas dessa mídia, ideal e real se entrecruzam na tentativa de transformar o espaço educacional em um lugar cada vez mais produtivo e eficaz. Ao optar por aqueles periódicos segmentados, deparamo-nos com uma ampla fonte de materiais que nos leva a dispositivos discursivos cuja análise permite entender aspectos do funcionamento do mundo social e cultural em que vivemos. Isso se dá em função do poder que a imprensa educacional tem de articular as principais representações de determinado período, divulgá-las, e de evidenciar a opinião de uma elite intelectual que tenta moldar a cultura pedagógica. 36 Reconhecer a importância dos periódicos especializados em educação como documentos e estudar o discurso que emana deles significa verificar as estratégias utilizadas por eles frente aos fenômenos educacionais, culturais e sociais. É uma forma de mapear a cultura escolar, aí incluídos os discursos sobre o docente e as representações construídas a seu respeito. É uma maneira de interrogar a imprensa a partir de múltiplas perspectivas: o estudo do lugar da imprensa pedagógica no discurso social, as estratégias editoriais face aos fenômenos educacionais e sociais, revela-se rico de informações ao pesquisador, para o resgate do discurso pedagógico, das práticas educacionais, do cotidiano escolar, do grau de submissão dos professores aos programas e instruções oficiais, da ideologia oficial e do corpo docente, da força de inovação e de continuidade que representa, das contradições do discurso (BASTOS, 1997a, p. 48). Com base nas representações e possibilidades de estudo oferecidas pela imprensa periódica educacional, nosso estudo se volta para a RNE, uma das maiores mídias desse segmento no Brasil. 3.2 A revista Nova Escola Em 1985, o empresário Victor Civita (à época presidente do Grupo Abril) criou a FVC no intuito de trazer para os docentes do Ensino Fundamental melhor formação e aperfeiçoamento profissional, visando a um maior desenvolvimento social do País. Segundo a instituição, sua missão seria: contribuir para a melhoria da qualidade da Educação Básica no Brasil, produzindo publicações, sites, material pedagógico, pesquisas e projetos que auxiliem na capacitação dos professores, gestores e demais responsáveis pelo processo educacional (FUNDAÇÃO VICTOR CIVITA, 2011)17. Para isso, em março de 1986, a FVC lançou a primeira edição da RNE, que seria, e ainda é, publicada mensalmente18, em parceria com a Editora Abril. Tratavase de uma revista revolucionária no segmento, porque: diferentemente de outras revistas do grupo Abril, essa revista apresenta posicionamento voltado a atender o imediatismo do 17 18 Site sem número de páginas. A revista seria publicada em dez edições anuais, seguindo o calendário letivo, portanto, sem publicação nos meses de férias (janeiro e julho). 37 professor em exercício: do educador que se formou há algum tempo e daquele que já saiu dos bancos acadêmicos, que está efetivamente na prática, no exercício do magistério. Aliás, a revista demonstra intenção de efetivar discussões teóricas de práticas pedagógicas e de resumir teorias desenvolvidas nas universidades, relançando-as na revista com vocabulário mais simples (SANTOS, 2009, p. 1). Segundo Silveira (2006), os anos iniciais da Revista foram marcados por reportagens que estavam mais ligadas às deficiências da área educacional e às dificuldades enfrentadas pelos docentes, mostrando mais o “real” do que o “ideal”. Com o início do governo de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, e as reformas implantadas na área educacional (a nova LDB e os PCNs), a RNE passou a estabelecer um diálogo com o professor-leitor e construir os textos junto a um processo político de educação estabelecido pelo governo: a Nova Escola, enquanto mídia segmentada, busca acompanhar a evolução das propostas educacionais. Na década de 90, durante o governo de Fernando Henrique, notamos uma reorganização da revista no sentido de atender às demandas das novas tecnologias de informação e comunicação, decorrente do período de reforma educacional [...] Houve uma preocupação da revista em publicar as novas propostas educacionais da época, as cobranças da sociedade para o atendimento a um novo paradigma de educação, integrada aos recursos tecnológicos (SILVA, D., 2009, p. 24). Ao fazê-lo, a RNE facilitava o acesso a documentos oficiais do governo sobre questões educacionais. Através de reportagens e entrevistas com linguagem simplificada/didática, a Revista tentava clarificar para o leitor as mudanças no ensino brasileiro. As mudanças na linha editorial da RNE trouxeram mais atenção para a qualidade do ensino como um todo que para a realidade escolar: o real cedeu espaço para o ideal, no qual a excelência do ensino é almejada. Ao invés de mostrar o que estava acontecendo em sala de aula, a Revista passa a trazer ideias e sugestões de como deveria ser. Em meio a essas alterações, a RNE deixou de ser a “Nova Escola para professores do 1° grau” e assumiu o slogan “A Revista do Ensino Fundamental”, que em 2000 foi substituído por “A Revista do Professor”, ampliando seu espaço de divulgação também entre os docentes dos demais níveis de ensino. A RNE manteve o propósito de continuar norteando as discussões para a educação. Com foco na qualidade da educação e na formação do professorado, hoje com o dístico “A Revista de quem Educa”, o periódico tem como objetivo levar informações 38 não só aos docentes, mas também aos demais profissionais da área educacional, principalmente da rede básica de ensino. O Quadro 1, abaixo, objetiva mostrar que a RNE abordou diversos temas pertinentes à formação e às condições do trabalho docente, salário e carreira, o que nos autoriza a dizer que, através dessa mídia, podemos acompanhar o cenário educacional (e também político, econômico, geográfico e histórico) dos últimos vinte e seis anos no Brasil e no mundo: Quadro 1 – Capas de alguns números da RNE e seus temas recorrentes em 26 anos. Capas – mês, ano (edição) Principais temas abordados A realidade da educação brasileira, leis e o cenário histórico, político, geográfico e econômico no Brasil e no mundo. Março, 1986 (1) Dezembro, 1986 (9) Maio, 1986 (3) Março, 1991 (46) Setembro, 1986 (6) Outubro, 1995 (88) O governo de Fernando Henrique Cardoso e a reforma educacional na década de 1990 (o Programa Nacional do Livro Didático, o novo currículo, a nova LDB, os PCNs e o sistema de avaliação do governo). Agosto, 1994 (77) Dezembro, 1994 (81) Abril, 1995 (83) Março, 1997 (100) Maio, 1997 (102) Agosto, 1997 (104) 39 Edições especiais Março, 1996 (91) Entrevistas com os Ministros da Educação (Paulo Renato Souza e Aloizio Mercadante). Março, 1995 (82) Fevereiro, 1999 (119) Maio, 2012 (252) Salário dos professores e a baixa remuneração docente. Outubro, 1986 (7) Dezembro, 1991 (54) Novembro, 1996 (98) Dezembro, 2006 (198) Abril, 2011 (241) As mudanças ocorridas na educação após a reforma educacional e o que mudou no cenário pedagógico brasileiro (Prova Brasil, Ensino Fundamental de 9 anos, os Programas Nacionais de Educação) Maio, 2000 (132) Dezembro, 2007 (208) Jan/fev., 2007 (199) Maio, 2009 (222) Setembro, 2009 (225) Março 2011 (240) Fonte: acervo da biblioteca da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). 40 Uma leitura do Quadro 1 evidencia que, desde seu início, a RNE se preocupou em oferecer notícias e reportagens que refletissem o cenário educacional brasileiro bem como outros eventos ocorridos no País e no mundo. As reformas educacionais da década de 1990 renderam muitas edições, mostrando o interesse da Revista em manter seus leitores atualizados no que se refere à educação, através de uma linguagem compilada e didatizada. Entrevistas com Ministros da Educação foram outro recurso que a RNE encontrou para criar o efeito de aproximação entre a administração pública e os docentes. A questão salarial desses profissionais também foi recorrente. Nos últimos anos, a preocupação da RNE foi mostrar os resultados e consequências das novas leis e as alterações na esfera educacional do período. O discurso da Revista foi fundamental na discussão e consolidação desses temas, ao passo que os tornou mais acessíveis aos docentes, o que fez com que ela ganhasse cada vez mais espaço e credibilidade entre os profissionais da educação no Brasil. Para se manter e aumentar seu público-leitor na era digital, além do material impresso, em 1998, a FVC lançou o site da revista, disponibilizando as edições integral e gratuitamente para o público. Atualmente, a média de acessos do site é de 4.204.003 com 736.213 visitantes (PUBLIABRIL, 2011a). Devido a esse grande número de internautas e constante atualização, Silva entende que: há um conjunto de elementos que integram na organização da revista para atender ao público do professor-leitor. Tais elementos e ideias fazem parte da cultura educacional e se estabelecem num determinado tempo. A cada momento, a revista se reconstitui para atender ao perfil de seu público, oferecendo-lhe atualidade em seus textos (SILVA, D., 2009, p. 24-25). Deve-se ressaltar que a RNE é, em parte, patrocinada pelo MEC, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (doravante FNDE). Ao trazer para o leitor um conjunto de ideias, visões de mundo, crenças e discursos governamentais, essa mídia assume posicionamentos políticos, isto é, “se aliou ao governo no esforço de consolidar uma nova cultura docente no país” (SILVA, FEITOSA, 2008, p. 183). Dessa forma, uma das estratégias da Revista é atuar como mediadora entre o discurso oficial e os docentes, fixando sentidos, disciplinando a realidade e interpretando a educação brasileira com os ideais do Estado. 41 No entanto, a voz institucional da RNE não é composta apenas por posicionamentos políticos governamentais. Ela também traz outras vozes para o seu repertório, como a de especialistas, mestres e doutores em educação de diversas universidades e de educadores (corpo docente, pedagógico e administrativo) na educação básica. Esses posicionamentos são retratados em reportagens, depoimentos e modelos que refletem exemplos e ideais a serem a seguidos. Ao agir dessa maneira, a RNE pode ser considerada um dispositivo. Segundo Foucault (1996), o dispositivo é um sistema de poder e de saber constituído por uma rede relacionada: ao poder nas formações sociais; ao fenômeno social e ao sujeito; e ao discurso e à prática (ideias, atitudes e comportamentos). Os dispositivos seriam máquinas concretas que geram sentidos na sociedade, mecanismos de poder e de controle. Foucault (op. cit.) explica que os dispositivos só podem ser compreendidos em relação ao meio em que se encontram. Para compreender um determinado discurso, é necessário explicitar seus contextos e seus códigos de linguagem. O que mais importa para Foucault nos dispositivos é que, através dos discursos, os objetos são construídos. A linguagem é performativa e não são as ações individuais que contam, mas o coletivo, no qual cada um opera uma parte do conjunto de ações que constituem o dispositivo. No entanto, como texto informativo, existe um ideário de que esse discurso jornalístico deve assumir um posicionamento distanciado e global, propondo um questionamento sobre os fatos. Charaudeau entende que: [...] É por isso que recorre a diversos tipos de roteirização, utilizando os recursos designativos, figurativos e visualizantes da imagem, para por um lado, satisfazer às condições de credibilidade da finalidade de informação (com formato de investigações, de testemunho, de reconstituição detalhada trazendo a prova da existência dos fatos e da validade da explicação), por outro, satisfazer às condições de sedução da finalidade de captação (dramatizações destinadas a trocar a afetividade do espectador). (CHARAUDEAU, 2007, p. 221222). Reportagens tentariam retratar os fenômenos descritos através de uma imparcialidade, sem poder trazer a opinião do autor. Trata-se de uma ilusão, pois “toda construção de sentido depende de um ponto de vista particular e todo procedimento de análise implica em tomada de posições” (CHARAUDEAU, 2007, p. 222). Dessa forma, a RNE veicula significados específicos que vão de encontro aos 42 seus interesses, no que se refere aos modelos pedagógicos, valores e atitudes, bem como os conteúdos e os métodos que ela julga serem convenientes. 3.2.1 Estrutura dos textos na revista Nova Escola A junção de posicionamentos e vozes faz com que a RNE tenha uma grande repercussão em nível nacional (cf. tiragem na Tabela 1). Com um discurso midiático informativo e diversos temas abordados, a estruturação desse periódico também elucida os recursos de roteirização e captação presentes em sua força enunciativa. Na forma atual, os textos da RNE comtemplam docentes de todas as disciplinas curriculares. Os textos estão distribuídos em quatro grandes blocos, de acordo com o índice: Seções, Sala de aula, Reportagens e Capa. O bloco Seções tem uma subdivisão fixa e engloba textos mais curtos, que ora demandam uma leitura mais global, ora exigem uma atenção maior do leitor. Na edição analisada, ocupam apenas uma página as seções: Caro educador (carta do editor, diretor...), Caixa Postal (e-mails e cartas dos leitores sobre edições anteriores), Online (dicas de sites e reportagens especiais no site da própria Revista) Retrato (histórias de educadores ou projetos bem sucedidos), Gestão em foco (artigo sobre gestão escolar) e Pense Nisso (artigo sobre diversas questões educacionais). O X da questão (textos sobre problemas educacionais) e Em dia (notas e estatísticas sobre educação) ocupam duas páginas; Na dúvida? (perguntas e respostas) e Fala, mestre! (entrevista com especialistas), três; Estante (resenhas), cinco páginas. Os textos do bloco Sala de aula consistem de dicas e atividades que podem ser desenvolvidas em sala de aula por docentes de diferentes disciplinas. Na edição 236, os textos se destinam à educação infantil e ao ensino de Matemática, Ciências, Língua Portuguesa, Arte e Educação Física, somando 19 páginas. Interessante notar que os textos da seção são intercalados com propagandas e anúncios de materiais didáticos. No terceiro bloco, Reportagens, os leitores encontram textos mais densos sobre diferentes temas. Na edição analisada, há três reportagens: Criança e adolescente (4 páginas), O prêmio Victor Civita (8 páginas) e Políticas públicas (5 páginas). O texto escolhido para ser a Capa é geralmente o maior e considerado o mais importante, ocupando posição de destaque e atraindo a atenção do leitor, 43 principalmente por imagens. A “Capa” aborda carreira, educação infantil, avaliação, prática pedagógica, alfabetização, escola e comunidade, entre outros. No caso da edição 236 da qual foi retirado o material em análise, essa subseção do periódico aborda o tema “carreira” com o texto intitulado O novo perfil do professor, em oito páginas sobre os novos desafios da profissão docente. Apesar de sua extrema importância, em dois anos (2010 e 2011), esse tema surgiu apenas duas vezes, justamente em outubro, mês dedicado aos professores(as). O Quadro 2 dispõe sequencialmente as capas da RNE do ano de 2010. Quadro 2 – As capas da RNE do ano de 2010. Janeiro/fevereiro (229) Março (230) Abril (231) Maio (232) Junho/julho (233) Agosto (234) Setembro (235) Outubro (236) Novembro (237) Dezembro (238) Fonte: acervo pessoal A primeira edição reservou a capa para Matemática e para o diagnóstico que os professores(as) devem fazer no início do ano para verificar o quanto seus alunos sabem. Em março, o tema foi comunicação oral, defendendo que o falar bem em público se aprende na escola; em abril, as creches e as atividades que devem ser realizadas nela com crianças de até 3 anos. Em maio, a proximidade, à época, da Copa do Mundo na África do Sul motivou a abordagem do continente africano, a ser estudado nas aulas de História e Geografia. A edição de junho-julho mostrou como bullying e cyberbullying têm afetado os alunos dentro e fora das escolas. O número de agosto foi dedicado à leitura, com um passo-a-passo de como incentivar o gosto por obras literárias por parte dos docentes e discentes. No mês de setembro, destacou-se o tema “recuperação” para mostrar que todos os alunos podem aprender sem que o(a) professor(a) deixe de cumprir o programa. Outubro (edição 236 – material de análise desta pesquisa), mês dos(das) professores(as), trouxe na capa “O professor do futuro é você”, sobre as características que 44 comporiam o novo perfil do professor no século XXI. Em novembro, o assunto foi pesquisa em sala de aula e as cinco etapas de uma boa pesquisa, para que os alunos aprendam a investigar temas em todas as disciplinas. A última edição do ano enfocou o balanço pessoal e profissional de 2010, para o docente projetar o ano seguinte. O Quadro 3, a seguir, apresenta as capas da RNE no ano posterior ao do material em análise para salientar a sequência textual e temática do periódico. Quadro 3 – As capas da RNE do ano de 2011. Janeiro/fevereiro (239) Março (240) Agosto (244) Setembro (245) Abril (241) Maio (242) Junho/julho (243) Outubro (246) Novembro (247) Dezembro (248) Fonte: acervo pessoal A alfabetização foi o tema escolhido para iniciar 2011 e encabeçar a edição comemorativa de 25 anos da Revista, abordando práticas de linguagem e o que teria melhorado ou não na Educação Brasileira no período de existência da RNE. Em março, a Revista apresentou aquilo que seriam 15 mitos envolvendo a educação e o dia a dia em sala de aula. No mês de abril, a capa indaga “Como trabalhar com projetos?” e o respectivo texto elenca 14 perguntas e respostas sobre eles. A tragédia na Escola Municipal Tasso da Silveira19 e o desafio de seguir em frente foi o destaque de maio. Com o título “Lição de Casa”, a edição de junho-julho foi sobre a importância da tarefa no processo de ensino e aprendizagem. Em agosto, tem-se a ênfase na inclusão e no ensino para crianças portadoras de necessidades especiais. A edição de setembro teve como capa a avaliação de qualidade e como elaborar provas à prova de „cola‟. Novamente, em outubro, temos o docente como eixo principal no título “Você no centro das atenções”, fazendo referência às aulas expositivas. Em novembro, cinco estratégias de estudo foram destacadas para que 19 Colégio de Realengo (RJ) invadido por um atirador, que matou 12 e feriu 10 alunos. 45 os(as) professores(as) ensinem aos alunos como estudar. O número de dezembro contempla a Matemática através da tabuada e das diversas maneiras de ensinar esse conteúdo. Com o estudo dessas capas, percebemos que a RNE tenta se manter cada vez mais atualizada frente aos acontecimentos e trazer temas variados sobre diferentes disciplinas e conteúdos. No entanto, apesar de defender a importância da carreira docente, esse tema só aparece uma vez por ano, no mês de outubro, numa espécie de comemoração pelo dia dos professores. Além disso, a diagramação da Revista chama atenção: seu nome aprece sempre grifado de vermelho e a maioria das capas possui fundo branco. Segundo Guimarães (2003), as cores são fonte de informação e também constituem discursos. Nos estudos do autor sobre a mídia, o vermelho estimula o consumo, causa impacto e representa um “pare”. O branco implica neutralidade, rendição e estimula a união. Dessa forma, é possível dizer que a RNE se utiliza das cores para conversar com o seu leitor em potencial. Ao olhar para as capas em uma banca de revistas, o vermelho do nome faz com o leitor em potencial parar, causando impacto e desejo de consumir a RNE; o branco do fundo quer rendê-lo e convidá-lo a se unir a ela, apresentando-se imparcial e neutra frente aos acontecimentos narrados. Ao fazer isso, a RNE se vale de estratégias de marketing para estimular o consumo e atrair cada vez mais leitores. 3.2.2 Política de distribuição e perfil dos leitores A RNE circula desde 1986 e tem como público-alvo os docentes do ensino básico de escolas públicas e particulares brasileiras, além da equipe pedagógica (diretores, coordenadores etc.) e estudantes de Pedagogia e licenciaturas. Trata-se de um público amplo e um mercado em plena expansão, que, segundo dados do Educacenso 2010 (INEP, 2011), conta com 2.497.918 docentes, excluídos os demais profissionais da educação. Assim, a RNE se estabeleceu como a maior, a mais conhecida e circulante mídia direcionada a um segmento ocupacional específico (PUBLIABRIL, 2011b), “caracterizando-se como o periódico educacional a que os educadores da rede pública têm maior acesso, isso se não for o único” (BELOTI, 2010, p. 1). Gentil (2006) mostrou que 75% dos(das) professores(as) entrevistados(as) leem a revista e, a cada 46 entrevistados, apenas um(a) conhecia outra revista pedagógica que não fosse a RNE. 46 Evidência disso é que a tiragem20 da RNE aumentou gradativamente (cf. Tabela 1) e, no ano de 2011, alcançou a média de 664.708 exemplares mensais. Seria, portanto, a segunda maior revista do País depois da semanal Veja (PUBLIABRIL, 2011b). A Tabela 1 evidencia que, desde o começo, trata-se de um número de tiragens expressivo. Isso ocorre graças à parceria estabelecida com o MEC, que financiou e financia parte dos custos da RNE. De acordo com Ramos (2009), o financiamento foi fundamental, principalmente nos primeiros cinco anos da revista (1986 a 1990), para que ela se firmasse frente ao público-leitor. As edições eram/são enviadas gratuitamente a todas as escolas públicas cadastradas no MEC. Essa abrangência seria insustentável caso o governo não patrocinasse a RNE. Tabela 1 – Tiragem da RNE de 1986 a 2011. Ano 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Tiragem (média mensal) 311.000 322.000 378.000 410.000 377.000 10.000 4.000 233.000 356.000 340.000 322.000 478.000 520.000 520.000 520.000 638.000 638.000 620.000 640.000 640.000 664.000* 657.180* 801.800* 1.045.076* 689.850 664.708 Fontes, por período ou ano: (i) de 1986 a 2008 – cf. RAMOS, 2009; (ii) 2009 – cf. SILVA, K., 2010; (iii) 2010 – e-mail recebido em 27/07/2011 do Atendimento ao Leitor da revista Nova Escola; (iv) 2011 – PUBLIABRIL, 2011b. *Não foram encontradas as médias anuais desses anos; portanto, as tiragens dos anos de 2006, 2007, 2008 e 2009 se referem aos meses de outubro, setembro, junho e setembro, respectivamente. 20 A tiragem é um indicador significativo de repercussão das revistas nos níveis regional e nacional. 47 Como vemos na Tabela 1, o declínio nas tiragens nos anos de 1991 e 1992 se deveu à retirada do subsídio enviado pelo governo do então presidente Fernando Collor de Mello. O custo não subsidiado tornou inviável a aquisição da Revista pelas escolas. Logo após o impeachment daquele presidente, houve o retorno da parceria com o MEC, e a RNE voltou a ser distribuída gratuitamente às escolas. Até hoje, essa mídia afirma não ter fins lucrativos e continua a receber suporte financeiro do FNDE, de responsabilidade do MEC. Apesar do aumento ano após ano, em 2011, houve um declínio de aproximadamente 3,64% no número de tiragens. Podemos supor que isso se deve ao fato de o site da RNE conter todo o conteúdo da Revista impressa e, por isso, competir com esta em termos de facilidade de acesso. Além de ser distribuída gratuitamente às escolas públicas brasileiras, a RNE é encontrada em bancas de jornais e revistas. Considerado de custo baixo e acessível aos profissionais da educação, o preço de cada edição da RNE é atualmente de R$4,20 (quatro reais e vinte centavos). Outra forma de aquisição é através de assinaturas. A Revista conta com 333.659 assinantes, que pagam R$42,00 (quarenta e dois reais) anuais. Segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (doravante IVC) de março de 2012 (PUBLIABRIL, 2011c)21, a RNE é a segunda maior em assinaturas da Editora Abril. Os dados nos levam a entender por que a Revista possuiria mais de um milhão e meio de leitores comprováveis segundo a Projeção Brasil de Leitores divulgada em 2011 (PUBLIABRIL, op. cit.). Esse número pode chegar a dois milhões, pois estima-se que cada exemplar da Revista distribuído nas escolas seja lido por quatro a seis pessoas. Como sublinha Charnizon, ocorre que: O número de leitores da revista tem crescido ao longo dos anos, e o perfil destes vem se diversificando [...]. Percebe-se, também, que Nova Escola se tornou um material de referência no campo da Educação e é reconhecida por diferentes sujeitos e instâncias sociais, como educadores, anunciantes da revista (que querem associar o seu produto ao nome de uma grande editora) e o governo (representado pelo MEC). Com o reconheciemtno dessas diferentes instâncias (legisladores, leitores e anunciantes), a revista consegue agregar legitimidade, o que a autoriza a prescrever os tipos de práticas pedagógicas e contéudos legítimos, bem como a forma como devem ser ensinados e quais são os valores e atitudes do bom professor (CHARNIZON, 2008, p. 42). 21 A fonte secundária foi utilizada pela falta de acesso à fonte primária. 48 Para verificar a circulação dos dizeres que a RNE pode legitimar, é necessário conhecer o perfil de seus leitores efetivos (e não apenas os potenciais). Os dados disponiblizados pela própria Revista sobre o perfil de seu leitorado focalizam quatro aspectos: sexo, faixa etária, classe social e região do País. O Gráfico 1, a seguir, evidencia que a maioria dos leitores da RNE é do sexo feminino: há 77% de leitoras para 23% de leitores. Trata-se de um reflexo do que acontece em sala de aula, pois, como vimos na Seção 2, apesar de o número de professores do sexo masculino ter mais expressão nos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, a presença das mulheres é maior. Gráfico 1 – Perfil dos leitores por sexo 80 60 40 Masculino Fem inino 20 0 Fonte: EGM, Estudos Marplan, 1º sem. 2012 22 No que se refere à idade, o Gráfico 2, a seguir, indica que a leitura da RNE não é feita apenas por pessoas adultas. Gráfico 2 – Perfil dos leitores por faixa etária 25 2a 9 20 10 a 14 15 a 19 15 20 a 24 10 25 a 34 35 a 44 5 0 45 a 49 acim a de 50 Fonte: EGM, Estudos Marplan, 1º sem. 2012 22 O acesso a todos os gráficos ocorreu através do próprio site da revista (PUBLIABRIL, 2011c). 49 Os dados mostram que 6% do leitorado são adolescentes de 10 a 14 anos e 7% são de 15 a 19 anos, provavelmente jovens preocupadas e/ou interessadas na educação do nosso País. Esse número diminui na faixa de 20 a 24 anos, que concentra 5% de leitores, que possivelmente estão começando a ingressar na carreira educacional e querem se informar dos acontecimentos no campo da educação. A maioria dos leitores, 42%, encontra-se entre 25 e 44 anos. A faixa etária de 25 a 34 anos totaliza 25%, e a faixa de 35 a 44 agrega 17%. É possível que estas pessoas estejam no auge da vida profissional e queiram dar o melhor de si naquilo que fazem, por isso, leem a RNE para se manterem atualizadas e poderem colocar em prática o que aprendem com ela. Com o passar dos anos a leitura diminui, pois verificamos queda brusca na faixa entre 45 e 49 anos, com 16%. Isso provavelmente acontece por já estarem cansados da vida acadêmica, de tanto tentar e poucos avanços conseguir (síndrome de burnout23). No entanto, o número se eleva no que se refere aos leitores acima de 50 anos, com 25% de interessados. Talvez esse aumento tenha ocorrido por já estarem aposentados e a leitura da Revista os ajuda a permanecer em contato com aquilo a que se dicaram a vida toda: a educação brasileira. O terceiro gráfico apresenta o perfil dos leitores por classe social. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (doravante ABEP24) (2011), as classes sociais em vigor a partir de 04 de abril de 2011 são cinco (A, B, C, D e E), sendo que as classes A, B e C são subdivididas em A1, A2, B1, B2, C1 e C2. Por esses critérios, a renda média familiar bruta da classe A1 é de R$11.480,00 (onze mil quatrocentos e oitenta reais); da A2, de R$8.295,00 (oito mil duzentos e noventa e cinco reais); da B1, de R$4.754,00 (quatro mil setecentos e cinquenta e quatro reais); da B2, de R$2.656,00 (dois mil seiscentos e cinquenta e seis reais); da C1, de R$1.459,00 (um mil quatrocentos e cinquenta e nove reais); da C2, de R$962,00 (novecentos e sessenta e dois reais); da D, de R$680,00 (seiscentos e oitenta reais); da E, de R$415,00 (quatrocentos e quinze reais). 23 24 Tema discutido na Seção 2. A ABEP é responsável pelo Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), que é um instrumento de segmentação econômica que utiliza o levantamento de características domiciliares para diferenciar a população em classes sociais. 50 Segundo o Gráfico 3, a seguir, a porcentagem de leitores da classe A é de 22%. De acordo com a média salarial dos docentes25, dificilmente um(a) professor(a) da educação básica se situaria nessa classe. Mais da metade dos leitores, 51%, se enquadram na classe B e mais 25% na classe C, totalizando 76%. Isso mostra que estão nessas classes a grande maioria dos educadores, principais leitores da Revista. Mais à direita do gráfico, encontram-se leitores das classes D, apenas 2%, e E, 0%. Isto é, a minoria dos leitores está nas piores condições financeiras. Gráfico 3 – Perfil dos leitores por classe social 60 50 A 40 B 30 C 20 D E 10 0 Fonte: EGM, Estudos Marplan, 1º sem. 2012. O Gráfico 4, abaixo, traz os leitores por região do País: Gráfico 4 – Perfil dos leitores por região 50 40 Norte 30 Nordeste Sudeste 20 Sul 10 Centro-Oeste 0 Fonte: IVC, março de 2012. A região Norte do Brasil é a que tem menor porcentagem de leitores da RNE, totalizando apenas 6% deles, seguida pela região Centro-Oeste, na qual encontramos 7%. Esse fato talvez se explique por essas regiões possuírem o menor 25 De acordo com o MEC, a média salarial do professor da educação básica no Brasil é de R$1.527,00 (mil quinhentos e vintes e sete reais), mas muitos estados pagam abaixo desse valor. 51 número de pessoas em idade escolar, respectivamente 4.734.172 e 3.367.263, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2012)26. Como consequência desse menor número de alunos, há também um número reduzido de escolas e docentes, o que leva a uma redução nos leitores da Revista nesses locais. A região Sul conta com 13% dos leitores da RNE e o Nordeste com 24%. Novamente, há a influência do número de pessoas em idade escolar: 6.014.722 e 13.915.186. Isso mostra que quanto mais alunos há na região, maior é o número de pessoas interessadas em ler a RNE. Também influenciada por essa relação, a região com maior predomínio na leitura da RNE é a Sudeste, com 17.332.933 pessoas em idade escolar e exatamente 50% dos leitores. Além disso, a grande comercialização da RNE nessa região interfere nos dados. Em resumo, podemos dizer que a maioria dos leitores da RNE é composta por mulheres, entre 25 e 44 anos, que pertencem às classes B e C da região Sudeste do Brasil. Esse dados nos remetem ao perfil docente contemporâneo (como vimos na Seção 2), no qual as professoras predominam e a situação financeira da maioria desses profissionais não é a melhor possível. Após apresentarmos, no capítulo anterior, um breve histórico sobre a profissão docente e tratarmos, neste capítulo, da imprensa periódica educacional, mais especificamente a RNE (com sua história, objetivos, estrutura, distribuição e leitores), o próximo capítulo se dedica à fundamentação teórica e metodológica adotada para a análise. 26 A fonte secundária foi utilizada por falta de acesso à fonte primária. 52 4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA A reportagem intitulada “O novo perfil do professor” será analisada com foco nos discursos verbal e visual que a compõem. Concebemos o discurso como uma forma de materialização da língua que resulta da articulação entre a linguagem (verbal e/ou visual) e o seu contexto de produção (condições históricas e sociais). Por isso, os discursos estão em movimento e transformação constantes e acompanham as mudanças de suas épocas. A análise de um discurso considera a interdiscursividade, que pode afetar os efeitos de sentido. Para Fernandes (2005), essa análise deve ser realizada em duas instâncias inseparáveis: macro (buscando compreender as condições históricas e sociais do sujeito) e micro (esperando apreender a sua polifonia, heterogeneidade). Na análise tanto visual quanto verbal, consideramos os conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin (1981, 2003, 2004). Para esse autor, a linguagem é um signo ideológico27 e deve ser concebida em sua totalidade, como um fenômeno social, no qual “a relação com o sentido é sempre dialógica” (BAKHTIN, 2003, p. 327). Bakhtin explica que o dialogismo é o modo de funcionamento real da língua: orientado para o seu objeto, o discurso penetra neste meio dialogicamente perturbado e tenso de discursos de outrem, de julgamentos e de entonações. Ele se entrelaça com eles em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando com terceiros; e tudo isso pode formar substancialmente o discurso, penetrar em todos os seus estratos semânticos, tornar complexa a sua expressão, influenciar todo o seu aspecto estilístico. (BAKHTIN, 1988, p. 86) Assim, o dialogismo emerge no discurso, que, ao ser enunciado, é atravessado por discursos outros. É um diálogo entre discursos, no qual “cada palavra do texto o leva para além dos seus limites. Toda interpretação é o correlacionamento de dado texto com outros textos” (BAKHTIN, 2003, p. 400). 27 Segundo Bakhtin (2004) nossos pensamentos são representados através de signos que veiculam idéias num processo de construção ideológica que se reflete e refrata em palavras. De acordo com Freitas (1997, p. 319), Bakhtin usa a palavra ideologia para se referir “à maneira como os membros de um determinado grupo social veem o mundo”. Bakhtin (2004) ainda afirma que a ideologia se materializa no linguístico e funciona como um jogo de forças na sociedade. 53 Fundamentando-se na concepção dialógica da linguagem, Bakhtin desenvolveu o termo polifonia para mostrar a presença de diversas vozes dentro de um único discurso. A palavra “voz” faz referência à consciência falante que está presente nos discursos e que não é neutra, pois reflete percepções de mundo, juízos e valores. As vozes não são livremente selecionadas pelo enunciador; muitas das vezes elas surgem devido ao contexto sócio-histórico e cultural no qual o enunciador está inserido. Portanto, a cultura28 produzida em nossa sociedade é o resultado de uma multiplicidade de vozes que dialogam entre si. Ela possui os efeitos dos aspectos sócio-históricos arraigados nos sujeitos enunciadores dos discursos, influenciando seus efeitos de sentido (ANJOS, 2008), que perpassam pelo contexto de produção e também pelos papéis sociais desempenhados. Dessa forma, optamos por analisar o estrato verbal da reportagem da RNE com base em duas categorias: a heterogeneidade enunciativa proposta por Authier-Revuz (1990, 1998, 2004) e os ditos e não ditos propostos por Ducrot (1972, 1987), incluindo os operadores argumentativos (idem, 1981, 1989). Embora, ao contrário de Authier-Revuz, Ducrot seja um linguista que não contempla o social, as teorias desse autor podem ser relacionadas com aspectos sociais. A utilização conjunta daquelas duas categorias permite contemplar a análise em maior escala, haja vista a presença de ocorrências linguísticas muito específicas, como, por exemplo, morfemas29 que indicam a presença de uma relação argumentativa. Analisaremos o estrato visual da reportagem sob os princípios propostos pelos EC (HALL, 1997; LISTER, WELLS, 2001) e pela Gramática do Design Visual (doravante GDV) (KRESS, VAN LEEUWEN, 1996). Pelo fato das imagens também falarem por si e mobilizarem certos significados que são potencializados pelo contexto, a junção desses aportes teóricos foi escolhida no intuito de extrair o máximo de dados das análises: os EC oferecem uma visão histórica e social, 28 Compreendemos a cultura como sendo um conjunto de modos de ser, agir e sentir dos indivíduos dentro de uma determinada sociedade. Segundo o círculo de Bakhtin, a necessidade de estudar a linguagem e a crítica aos modelos linguísticos (BAKTHIN, 2004) foram “uma consequência da necessidade de compreender o que seja o mundo da cultura, no qual são contruídos e sedimentados os valores circulantes em uma dada sociedade, espaço chamado convencionalmente de superestrutura” (OLIVEIRA, 2004, p. 109). 29 Nos referimos aos morfemas constituídos por conectivos ou vocábulos que, aplicado a um conteúdo, transforma as potencialidades argumentativas desse conteúdo, como por exemplo: até, até mesmo, pouco, um pouco, ainda, já, na verdade, aliás etc. 54 enquanto a GDV focaliza os aspectos que compõem a diagramação e formatação da imagem/página. 4.1 O estrato verbal Com base nos conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin, Authier-Revuz (1990, 1998, 2004) desenvolveu o conceito de heterogeneidades enunciativas30. Segundo a autora: É sob dois planos que se impõe, a meu ver, a dimensão do heterogêneo na enunciação: de um lado, da observação, nas realizações linguísticas, de fatos de heterogeneidade; de outro lado, o da heterogeneidade teórica, que, em relação à linguística, afeta necessariamente o campo da enunciação – entendo, dessa forma, o inevitável não fechamento do linguístico sobre ele mesmo no sentido formal, que proíbe falar de enunciação sem se apoiar – quer isso seja dito explicitamente ou não – em teorizações exteriores, particularmente sobre o sujeito. (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 173174, grifos na fonte). Ao analisar as heterogeneidades, Authier-Revuz confronta a identidade e a alteridade do sujeito. Ela considera que todo discurso é constituído por uma interdiscursividade que o situa numa posição de diálogo com os outros. Assim, para a autora, não existe um discurso fundado em si mesmo. O discurso é heterogêneo, multifacetado, pois é o outro que o constitui. Para Authier-Revuz (2004, p. 69), “todo discurso se mostra constitutivamente atravessado pelos „outros discursos‟ e pelo „discurso do Outro‟”. Um só locutor produz diferentes formas de inclusão do outro (pois o outro é condição constitutiva do um), que podem ser detectadas linguisticamente no nível do enunciado ou do discurso. As heterogeneidades se dividem em constitutiva e mostrada. A primeira é definida pela interdiscursividade, nas relações com outros discursos, “pelas quais o um – sujeito, discurso – se limita na pluralidade dos outros, e ao mesmo tempo afirma a figura dum enunciador exterior ao seu discurso” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p.32, grifos na fonte). Para falar sobre a heterogeneidade constitutiva, os elementos linguísticos se tornam insuficientes. A autora (op. cit.), então, além de se basear em Bakhtin, se apoia na releitura de Freud feita por Lacan (1998), para fazer referência 30 Authier-Revuz (1998) reforça o uso desse conceito no plural para sublinhar que o heterogêneo é múltiplo e que há uma articulação entre os dois tipos de heterogeneidades: a mostrada é representada na enunciação, e a constitutiva emerge da enunciação. 55 ao sujeito e à relação deste com a linguagem. Nessa concepção, o discurso é atravessado pelo inconsciente, tornando o sujeito “o resultado de uma estrutura complexa, efeito da linguagem: sujeito descentrado, dividido, clivado, barrado...” (AUTHIER-REVUZ, 1990, p.28). Na análise, o objetivo é identificar a polifonia do discurso, numa tentativa de recuperar os indícios trazidos pelo inconsciente. A heterogeneidade mostrada ocorre quando “no fio do discurso que, real e materialmente, um locutor único produz, um certo número de formas, linguisticamente detectáveis no nível da frase ou do discurso, inscrevem, em sua linearidade, o outro” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 12)31. Através das marcas linguísticas explícitas ou implícitas, a heterogeneidade mostrada faz emergir o outro através do discurso, sendo subdividida em marcada e não marcada. A heterogeneidade mostrada marcada aparece explicitamente no discurso, sendo recuperada no nível enunciativo, através das marcas linguísticas que podem ser: aspas, itálico, discurso direto e indireto, modalização autonímica e/ou glosas. A forma não marcada está implícita no discurso e exige um esforço maior do receptor para ser reconhecida e/ou interpretada. Ela se faz presente na ironia, no discurso indireto livre, nas metáforas, no jogo de palavras etc. Detalhadamente, entre as formas de heterogeneidade mostrada, temos (AUTHIER-REVUZ, 2004): o discurso relatado: uma maneira de trazer para o discurso a fala do outro. Pode se apresentar como discurso direto, discurso indireto, discurso direto livre e discurso indireto livre. O discurso direto é caracterizado pela fala do outro, transcrita tal como foi dita, sem alterações. Esse discurso aparece geralmente entre aspas, em itálico ou depois de travessões. O discurso indireto é marcado pela fala do outro, sob a perspectiva de quem a reporta. O discurso direto livre possui todos os dêiticos de pessoa, tempo e lugar do discurso direto, mas sem marca tipográfica. O discurso indireto livre seria o mais complexo. Nele, a fala do outro é dita de forma sutil pelo enunciador, causando dúvidas sobre quem está falando; a conotação autonímica: uma maneira de o locutor realçar o uso de determinadas palavras através de aspas, itálico, entonação ou comentário, para dar ao discurso um outro sentido. No caso dos comentários (glosas, retoque, ajustamento), o locutor tem a oportunidade de fixar o sentido desejado, numa 31 Artigo originalmente publicado em 1982. 56 espécie de controle do processo comunicativo. Quanto a isso, Authier-Revuz afirma que: Ao “assumir o esforço” de especificar desta maneira o sentido de um elemento X, o enunciador dá testemunho da potencialidade de um sentido outro que ele “encontra”, não “na língua”, mas nas palavras aqui e agora, em contexto, e do qual deve proteger ativamente seu dizer. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p.31); o uso de uma língua (técnica, regional, estrangeira etc.) que seja adequada aos interlocutores, apresentada em forma de glosas que nomeiam o estrangeiro, estabelecendo o contato do outro no discurso; “as outras palavras, sob as palavras, nas palavras” (AUTHEIR-REVUZ, 2004, p.18, grifos na fonte): a sequência de palavras através da construção de uma cadeia pode codificar a leitura, como no caso dos trocadilhos, ou então indicar ou reforçar o sentido no qual as palavras devem ser compreendidas, porque o enunciado é reformulado metaenunciativamente. O recurso conhecido como justaposição é um exemplo dessa reformulação: Apoiada em diversas marcas ou índices, a interpretação de formas de justaposição como dependendo da reformulação metaenunciativa, consiste em não estabelecer relações entre as “coisas”, X e Y, X ou Y, X, que é Y (ou, neste caso, às vezes, não unicamente), mas em colocar uma relação entre os dois elementos, fazendo intervir o plano das palavras, assimiláveis às relações estabelecidas pelas aposições, pelas relativas explicativas, pelas incisas de reformulação explicitamente metaenunciativas... (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 153, grifos na fonte). A partir das formas de heterogeneidade mostrada, é possível chegar à presença do outro no discurso através do linguístico. No entanto, ao rever o conceito de heterogeneidades, Authier-Revuz (1998) trata das não coincidências do dizer, para não perder o laço indissolúvel existente entre a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva. Estas são irredutíveis uma à outra; ao mesmo tempo, são inseparáveis, pois uma é a representação da outra no plano discursivo. Authier-Revuz (1998, p. 20) explica que as não coincidências do dizer são comentários metaenunciativos que não se situam no nível da estrutura sintática, mas, sim, no que é dito, pois “o dizer se representa como localmente „confrontado‟ com pontos em que, assim „alterado‟, ele se desdobra”. As não coincidências 57 testemunham o modo pelo qual um dizer é colocado em jogo, fazendo emergir a sua heterogeneidade. A autora (op. cit.) menciona quatro tipos de não coincidências: a não coincidência interlocutiva (conjunto de glosas metaenunciativas que distanciam os sujeitos falantes): ocorre devido à falta de simetria entre o inconsciente dos sujeitos enunciadores; a não coincidência do discurso consigo mesmo (refere-se ao dialogismo bakhtiniano e ao interdiscurso, de Pêcheux): mostra que todas as palavras emergem de um já-dito de outros discursos, fazendo emergir uma interdiscursividade; a não coincidência entre as palavras e as coisas (nominalização que associa as palavras às coisas, no encontro entre a língua e o real): é constituída pelo ato falho do sujeito ao capturar o real pela linguagem; a não coincidência das palavras consigo mesmas (no sentido do equívoco, no qual as palavras alteram a unidade entre significado e significante): ocorre quando há um equívoco entre as palavras utilizadas pelo enunciador. Em outra perspectiva, Ducrot (1972) afirma que a língua não é um código que transmite informações entre os indivíduos. Para a língua se caracterizar como tal, tudo deveria ser dito de maneira explícita. No entanto, muitas vezes temos a necessidade de, ao mesmo tempo, dizer certas coisas e de poder fazer como se não as tivéssemos dito; de dizê-las, mas de tal forma que possamos recusar a responsabilidade de tê-las dito. (DUCROT, 1972, p.13). Essa constatação traz à tona o que está além do dizer literal das palavras, faz emergir o implícito e evidencia que os enunciados estão repletos de ditos e não ditos. Ducrot (1987) propõe que os enunciados possuem posto, pressuposto e subentendido. O posto é o conteúdo literal do enunciado, o que é explicitamente dito, enquanto o pressuposto e o subentendido estão implícitos. Para diferenciá-los, Ducrot define que: a pressuposição é parte integrante do sentido dos enunciados. O subentendido, por sua vez, diz respeito à maneira pela qual esse sentido deve ser decifrado pelo destinatário [...]. Dizer que pressuponho X, é dizer que pretendo obrigar o destinatário, por minha fala, a admitir X, sem por isso dar-lhe o direito de prosseguir o dialogo a propósito de X. O subentendido, ao contrário, diz respeito à maneira pela qual esse sentido se manifesta, o processo, ao término do qual deve-se descobrir a imagem que pretendo dar de minha fala (DUCROT, 1987, p. 41-42). 58 Assim, o posto é aquilo que é dito no conteúdo explicitado na enunciação, em um primeiro plano. O pressuposto está implícito na instância da linguagem e sugere ideias situadas em um plano de fundo, apoiando-se no posto. O subentendido depende do contexto e funciona como insinuações que não estão presentes nas marcas linguísticas – como se algo fosse dito sem dizer. Ducrot (1989) parte do princípio de que há na língua uma argumentação intrínseca. A significação de algumas frases determina a intenção argumentativa a ser dada aos enunciados. Esse caráter argumentativo tende a induzir o destinatário. Essa argumentação é realizada pelo uso de certos morfemas que Ducrot nomeou operadores argumentativos, considerados essenciais para a construção de sentido do enunciado. Quanto à função argumentativa dos enunciados, Ducrot afirma: Essa função tem marcas na própria estrutura do enunciado: o valor argumentativo de uma frase não é somente uma consequência das informações por ela trazidas, mas a frase pode comportar diversos morfemas, expressões de termos que, além de seu caráter informativo, servem para dar uma orientação argumentativa ao enunciado, a conduzir o destinatário em tal ou qual direção. (DUCROT, 1981, p. 178). Logo, os operadores são marcas linguísticas da argumentação, tais como: e, também, nem, não só, até, inclusive, pouco, ou então, aliás, além disso. O uso dos operadores gera um encadeamento dos enunciados, estruturando-os textualmente e determinando-lhes a função argumentativa. Ducrot ressalta que: (...) um morfema X é operador argumentativo, em relação a uma frase P se três condições são preenchidas: 1) a primeira delas é que pode-se construir a partir de P uma frase P‟ pela introdução de X em P, ou seja, P‟=P+X. Deve-se entender que a introdução de X pode fazer-se não somente por adição, mas também por uma substituição acompanhada, eventualmente, de certas modificações; 2) a segunda condição é que em uma situação de discurso determinada, um enunciado de P e um enunciado de P‟ têm valores argumentativos nitidamente diferentes; não se pode argumentar da mesma maneira a partir de um e a partir de outro; 3) esta diferença argumentativa não pode ser derivada de uma diferença factual entre as informações fornecidas, na situação de discurso considerada, pelos enunciados de P e de P‟. Ter-se-á notado que esta terceira condição liga a aplicação da definição às possibilidades de derivação que o linguista dá a si mesmo. (DUCROT, 1989, p. 18-19). Ao acreditar que a argumentatividade está inserida na linguagem, temos a possibilidade de analisar os operadores argumentativos e identificar seus efeitos de 59 sentido, seja o de levar o destinatário a determinadas conclusões, seja de fazer com que ele se desvie delas. Além disso, a análise também terá como foco os modalizadores. Através da modalização o autor expressa sua adesão ao texto, sendo possível perceber se ele acredita no que diz, se atenua ou impõe algo. Os modalizadores revelam o grau de engajamento do falante em relação ao conteúdo veiculado e são marcados por elementos lingüísticos tais como: modos e tempos verbais, advérbios (talvez, felizmente, infelizmente, lamentavelmente, certamente...), predicados cristalizados (é certo, é preciso, é necessário), performativos explícitos (eu ordeno, eu proíbo, eu permito...), verbos auxiliares (poder, dever, ter que/ de, haver de, precisar de...) e verbos de atitude proposicional (eu creio, eu sei, eu duvido, eu acho...). A modalização pode se referir ao eixo do crer (certeza/probabilidade) ou da conduta (obrigação/proibição). Quando o autor utiliza modalizadores do primeiro eixo, ele proporciona ao leitor a chance de tirar suas próprias conclusões. Já quando o discurso se refere ao segundo eixo, o leitor tem menos chances de discordar dos fatos apresentados pelo autor. 4.2 O estrato visual Os recursos visuais têm sido cada vez mais utilizados. Eles têm ocupado posição central nas mídias32, principalmente na mídia impressa, na qual o visual é a expressão material de um discurso maior e traz efeitos de sentido criados pela união com o não verbal. De acordo com Buratini (2003), muitas das vezes as imagens não só ilustram, como também auxiliam ou se opõem ao verbal; transmitem informações que podem ser melhor entendidas visualmente; e agregam dados específicos ao estrato verbal. No campo dos EC, Lister e Wells (2001) afirmam que a análise das imagens se baseia no estudo das formas, das práticas culturais e das relações com os grupos sociais. Os EC focalizam acontecimentos contemporâneos dentro de seus contextos 32 Para efeitos dessa pesquisa, as mídias são um conjunto de meios de comunicação (rádio, jornal, revista, televisão, internet ...) que funcionam como canal de (in)formação. Elas servem a diversas áreas de conhecimento e ao seu próprio mundo midiático. As mídias não transmitem o que ocorre na realidade social, pois ao abordarem um fato ou acontecimento, elas constroem uma representação que assume o lugar dessa realidade (CHARAUDEAU, 2007). 60 históricos. Há uma tentativa de entender a relação da produção cultural com o seu consumo, com as crenças que a cercam e com os significados que produzem, ao divisar a sociedade de maneira ampla, em forma de prática social. Nas palavras de Lister e Wells: Os Estudos Culturais têm como princípio o estudo das formas e práticas de cultura (não apenas os seus textos e artefatos), suas relações com grupos sociais e as relações de poder entre esses grupos na maneira como eles são construídos e mediados pelas formas de cultura. (LISTER, WELLS, 2001, p. 61, tradução nossa)33. Nessa perspectiva, a análise de uma imagem deve questionar o que esta representa socialmente, qual sua historicidade, quando começou a ser vista de tal ou tal maneira. As propriedades da imagem e sua alocação devem ser observadas, por exemplo: o que consta no centro e nas periferias; os objetos com os quais foi construída; o pano de fundo; a presença de brilhos, cores e localização. Deve-se também relacionar as experiências e os pontos de vista oferecidos pelo não verbal, de modo a usufruir de suas mensagens e significados. A proposta dos EC questiona a vida social e histórica da imagem e tenta nos situar social e historicamente, ao interpretar sobre quem somos e fazer emergir as identidades representadas. No que se refere à forma e ao significado, vale ressaltar a necessidade de analisar as convenções fotográficas e sociais para que os elementos dessas convenções não sejam tratados como algo extraordinário. Para Hall (1997), as imagens possuem um grande poder, cujo significado é ambíguo, porque elas portam mais de um significado ao mesmo tempo, inclusive opostos. O autor ressalta que, ao analisarmos as imagens, precisamos considerar a diferença, pois elas estão expostas às suas formas binárias de representação. No entanto, há uma tentativa de fixar o significado através de uma prática representacional, haja vista a imagem poder retratar o que o texto verbal enuncia, embora nem sempre isso aconteça. A imagens podem trazer ideias contrárias, mostrar informações extras ou omitir fatos. Hall (op. cit.) recorre a Barthes (1977) para asseverar que é a junção de texto e imagem que indica o significado priorizado em determinada situação. 33 Na língua-fonte: “Cultural Studies centres on the study of the forms and practices of culture (not only its texts and artefacts), their relationships to social groups and the power relations between those groups as they are constructed and mediated by forms of culture.” 61 Hall (op. cit.) considera ainda quatro perspectivas que auxiliam a análise de imagens. A primeira decorre da teoria que deriva a Linguística, no qual o uso da linguagem reflete como a cultura funciona. A segunda vem da linguagem, mostrando que só se constrói o significado através do diálogo com o outro e com as diferentes vozes que o constituem. Bakhtin (1981) afirma que tudo o que falamos e significamos é modificado pela interação com o outro, na qual o significado emerge pela diferença entre os participantes que dialogam, pois o outro é essencial para o significado. A terceira incide sobre a Antropologia, em que a cultura depende do dar significados, direcionando a diferentes sistemas de categoria. Nela, os grupos sociais impõem o significado do seu mundo nesses sistemas. A quarta deriva da corrente psicanalítica, que atenta para o papel da diferença na visão psíquica, sendo o Outro fundamental para a construção do Eu (FREUD, 1977; LACAN, 1998). Quanto ao aporte teórico conhecido como GDV, Kress e van Leeuween (1996) sublinham a necessidade de um padrão gramatical que analise os recursos visuais sintaticamente, devido à diversidade de recursos que essa linguagem possui. Estruturas pictóricas, por exemplo, podem não apenas reproduzir como também produzir novos efeitos de sentido. No caso da mídia impressa, os autores creem que a maneira pela qual a página é construída, o posicionamento do texto e das imagens, ajuda a determinar os efeitos de sentido desejados. A GDV de Kress e van Leeuwen (op. cit.) se baseia na Linguística Sistêmico-Funcional (HALLIDAY, 1985, 1994; HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004). Através da GDV é possível estudar os diversos modos de representação de um texto não verbal, cada um como uma maneira diferente de representar o mundo, em referência às metafunções da linguagem. A GDV, então, indica: significados representacionais, em vez da metafunção ideacional; signofocados interativos, no lugar da metafunção interpessoal; e significados composicionais, em substituição à metafunção textual. A GDV subdivide os significados representacionais em estruturas narrativas e conceituais. A estrutura narrativa descreve os participantes em uma ação, em um processo de transformação. A estrutura conceitual descreve os participantes em termos de classe, estrutura ou significado. Essa estrutura remete às subcategorias de classificação (que estabelece a classe a que o participante pertence), analíticas (que determinam a relação entre dois ou mais participantes, de “parte” pelo “todo”) e simbólicas (que identificam os participantes pelos seus atributos – cor, tamanho, posição, iluminação). 62 Os significados interativos estabelecem a relação entre a imagem e o observador. Esses significados são definidos através do contato, da distância social e do ponto de vista, subdivididos de acordo com o Quadro 4, a seguir. Quadro 4 – Síntese dos significados interativos apresentados pela GDV Significados interativos da Gramática de Design Visual Contato Distância social Ponto de vista Demanda: quando a imagem é retratada olhando diretamente para o observador. Oferta: quando a imagem não direciona o olhar para o observador. Plano fechado: mostra somente a cabeça e os ombros. Estabelece uma intimidade. Plano médio: quando o participante é mostrado até na altura do joelho. Constitui uma distância em torno da posição social. Plano aberto: mostra o participante de corpo inteiro, estabelecendo um distanciamento do observador. Ângulo frontal: estabelece relação de envolvimento entre a imagem e o observador. Posição de perfil: retrata imparcialidade e afastamento. Ângulo vertical alto: mostra o poder do observador sobre a imagem. Ela é olhada de cima. No nível dos olhos: retrata a igualdade entre os participantes. Ângulo vertical baixo: indica o poder da imagem sobre o observador. Ela se encontra numa posição superior à dele. Fonte: quadro embasado em: KRESS, VAN LEEUWEEN, 1996; cap. 4. Segundo Kress e van Leeuween (1996), se os participantes retratados nas imagens olham diretamente para o observador, este é convidado a interagir, em uma situação de demanda por parte do produtor, que tenta agir sobre o observador. Se as imagens não trazem os participantes olhando diretamente para o observador, ocorre a oferta, na qual os participantes retratados são objetos de contemplação por parte dos observadores. O posicionamento dos participantes retratados pode revelar maior ou menor distância social entre estes e os observadores. São três os tipos de enquadramento: o plano fechado (close shot – inclui a cabeça e os ombros do participante representado); o plano médio (medium shot – inclui a imagem do participante representado até o joelho); e o plano aberto (long shot – inclui todo o corpo do participante). Esses enquadramentos estabelecem uma relação mais íntima (quanto mais próximos do observador estiverem os participantes retratados) ou mais distante (quanto maior for a distância entre os participantes retratados e o observador). Os pontos de vista a partir dos quais os participantes são retratados são classificados em: ângulo frontal; posição de perfil; ângulo vertical alto; nível dos 63 olhos; e ângulo vertical baixo. A escolha do ângulo determina o afastamento ou envolvimento dos observadores com a imagem, fazendo com que estes pertençam ou não ao mundo retratado. O ângulo vertical traz uma relação de poder: em ângulo elevado, o observador exerce poder sobre imagem; em ângulo baixo, são as imagens que detêm o poder. No caso de a imagem estar no nível dos olhos, a relação de poder é igualitária. Os significados composicionais têm como referência tanto recursos verbais quanto não verbais e indicam a organização dos elementos que compõem o todo. De acordo com Kress e van Leeuwen (op. cit.), esses significados são analisados dentro de três subcategorias: o valor informativo, o enquadramento e a saliência. O valor informativo aponta para o lugar dos elementos num plano vertical (dado/novo), horizontal (ideal/real) e central-periférico. Nessa estrutura, há um eixo que divide a página ao meio verticalmente, sendo que os elementos à esquerda são considerados dados e os elementos à direita são considerados novos. Ao dividirmos a página ao meio horizontalmente, a metade acima do eixo faz parte do plano ideal e a meta de abaixo do eixo faz parte do plano real. Quando ocorre o posicionamento de um elemento no centro e de outros em seu entorno, aquele é considerado o núcleo da informação e os demais são tratados como dependentes ou subordinados a ele. O enquadramento conecta e desconecta os elementos na composição. Pode ser mais ou menos acentuado, apresentando os elementos como unidades de informação mais ou menos individuais e diferenciadas. Para Kress e van Leeuwen (op. cit.), há vários tipos de enquadramento que desconectam os elementos, como a presença de linhas, descontinuidades de cor, contornos e espaços vazios. Dentre os recursos que conectam elementos, pode-se citar o uso das mesmas cores e formas. Por fim, a saliência remete ao destaque de determinados elementos. Ela é resultado de fatores como tamanho, foco, contraste de tom, cor e posicionamento no campo visual. Ao analisar os elementos de uma composição, é possível encontrar a mensagem central trazida por determinado estrato visual. O Quadro 5, a seguir, resume sinteticamente os significados da GDV: 64 Quadro 5 – Resumo dos significados da GDV Os Três Significados REPRESENTACIONAL INTERATIVO COMPOSICIONAL Responsável pelas estruturas que constroem visualmente a natureza dos eventos, objetos e participantes envolvidos, representa aspectos do mundo através das imagens. Apresenta as relações sociais entre o produtor, o observador e o objeto representado, dessa forma, representa uma relação social particular entre os sujeitos através das imagens. Relaciona a estrutura ao formato do texto, através da distribuição do valor da informação ou ênfase entre elementos que compõem as imagens, é analisado de que maneira os outros dois significados se relacionam e integram o “todo”. Fonte: BORTOLUS, 2011, p. 35. 4.3 Procedimentos de análise Por questão de organização metodológica, analisaremos os estratos verbal e visual separadamente. Porém, imagem e texto serão articulados, porque ambos interagem na produção de sentidos. Optamos também por analisar a reportagem na mesma sequência em que ela é apresentada pela RNE. Com isso, nosso intuito é dispor os efeitos de sentido causados pelo texto na mesma ordem em que aparecem para o leitor, por se tratar de um percurso idealizado de leitura. A análise do material será dividida em três partes: capa, introdução à reportagem e depoimentos. A primeira parte se refere à capa (cf. Anexo A), que contém, em destaque, a chamada da reportagem sobre os docentes. A capa será analisada separadamente devido ao fato de ser o primeiro contato que os leitores/consumidores têm com a RNE e de instigá-los à leitura das demais páginas. Na capa, analisaremos a 65 imagem, o título e o subtítulo que apresentam a reportagem. A imagem será analisada com foco no seus significados históricos e sociais, bem como na sua composição e diagramação. Observaremos a presença das figuras feminina e masculina tanto na imagem maior quanto nas fotos pequenas que a compõem. A posição que a imagem ocupa na página e a sua relação com o observador também serão objetos de análise. O título e o subtítulo terão a sua análise fundamentada nos pressupostos e subentendidos dos enunciados. A segunda parte se refere à introdução à reportagem (cf. Anexo B), tópico que justifica e explica o porquê de o tema ter sido selecionado. Ela é composta por duas páginas (uma contendo imagem e outra texto verbal) que serão estudadas também através da imagem, do título e do subtítulo, acrescentado do texto. Apesar de a imagem da introdução ser a mesma da capa, ela será, então, analisada dentro do contexto de sua posição e relação com o título. Traremos à tona os pressupostos e subentendidos do título e de outros enunciados, as não coincidências do dizer, os discursos relatos, as modalizações e as reformulações metaenunciativas da seção. A terceira parte se destina à análise dos depoimentos (cf. Anexos C a H), os quais são compostos por seis páginas e possuem estruturas idênticas. Cada página se destina a um depoente, cuja foto é destacada. A característica que faz dele um docente do século XXI está escrita em letras menores acima do título e, logo depois, aparece o texto do depoimento. No final de cada página, há uma linha do tempo que relaciona a habilidade descrita ali e o que aconteceu na esfera educacional brasileira para chegar ao ponto em que está hoje. Nas linhas do tempo, o que mais se ressalta são as ações tomadas pelo governo para melhorar o ensino de acordo com cada característica explicitada. Nessa parte, apresentaremos as imagens que ilustram os depoimentos. Após uma descrição de cada uma delas, analisaremos a força da cultura visual, o contexto de visualização e produção da imagem, a forma, a diagramação e os seus significados representacionais, interativos e composicionais. O objetivo é verificar se as imagens realmente retratam o “novo” perfil docente ou se há a presença de outros discursos, outras vozes que se contradizem. A análise das imagens será articulada ao verbal, porque ambos estão interligados na produção dos sentidos. Ainda nessa seção, analisaremos os enunciados presentes nas características, nos títulos, subtítulos e depoimentos, que estão entre aspas do início ao fim. Neles, abordaremos os elementos descritos no item 4.1, tais como os 66 pressupostos e subentendidos, os operadores argumentativos, as não coincidências do dizer, os discursos relatados, as glosas, a primeira pessoa do plural e do singular, a modalização e a reformulação metaenunciativa. Apesar de serem compostas por elementos verbais, as linhas do tempo na parte inferior da página de cada depoimento serão analisadas separadamente, em seguida, na Seção 5.3.1. Isso porque, embora as linhas se relacionem ao tema, elas não estão diretamente ligadas a ele, pois abordam medidas governamentais e pesquisas sobre a prática docente e o desenvolvimento infantil. A análise das linhas do tempo seguirá uma metodologia semelhante à dos depoimentos. Com o foco nos elementos de análise descritos no item 4.1, iremos analisar os títulos e os subtítulo, assim como os eventos apresentados e sua cronologia. Vale ressaltar que, no final da análise, indicaremos como estes elementos se relacionam. Ao analisar a reportagem dentro dessa metodologia, estudamos a linguagem dentro do seu contexto sócio-histórico e cultural, identificando o que está no nível do implícito e do pressuposto. Essa análise, segundo Charaudeau (2008, p. 10) visa “compreender como o ser humano tem acesso a informações, partilha visões de mundo, produz conhecimento e interage com seus parceiros em diversas situações discursivas”. Assim, com base na fundamentação teórica descrita nestas Seções 4.2 e 4.3, a análise será desenvolvida comparando e contrastando o visual e o verbal para podermos chegar às RSs sobre os docentes trazidas pela reportagem O novo perfil do professor da RNE e às diversas vozes que falam ou são silenciadas por ela. 4.4 O conceito de Representações Sociais Ao analisar as visões partilhadas pela RNE sobre os docentes e seu novo perfil, buscamos na Psicologia o conceito de RSs proposto por Denise Jodelet (2002). Baseando-se nos estudos de Serge Moscovici (1979), aquela autora desenvolveu uma definição para RSs que se tornou a mais consensual entre os pesquisadores e, por isso, será adotada neste trabalho. As RSs têm sua origem na Sociologia com o francês Émile Durkheim (1981), quem questionou a existência de um único tipo de representação e explicou que esta se manifesta de duas formas: representações individuas e representações coletivas. A primeira forma se refere ao indivíduo em particular e deve ser estudada 67 pela biologia e pela psicologia. A segunda é proveniente do meio social e justifica a maneira como a sociedade se mantém. Essas representações coletivas se referem aos conceitos, crenças e valores compartilhados por um mesmo grupo, formando a bagagem cultural de uma sociedade. É produzida pelo coletivo através da linguagem, em que os diferentes componentes da língua materializam o que a sociedade pensa de sua própria experiência, refletindo na realidade da sua vida coletiva. Vale ressaltar que, apesar de distintas, essas duas formas não se separam, pois são as representações coletivas que favorecem a formação das representações individuais. É a vida social que nos faz ser quem somos individualmente, o que faria a sociedade prevalecer sobre o indivíduo, ao constituí-lo. Segundo Durkheim (op. cit.), a representação coletiva não está limitada ao somatório das representações individuais. Ela favorece a recriação do coletivo através da união das experiências individuais à herança cultural transmitida (conhecimento acumulado pela sociedade ao longo dos tempos). O psicólogo Serge Moscovici (1979) desenvolveu outro conceito de RSs por discordar da ideia de que as representações sejam apenas uma herança transmitida de forma estática pelo coletivo. Para Moscovici, isso poderia ser possível em sociedades menos complexas, mas, nas atuais sociedades modernas, as RSs são dinâmicas, já que o indivíduo tanto atua ativamente na construção da sociedade quanto é criado por ela. O mundo ganha sentido através dessas representações, que são criações do coletivo feitas no discurso e que o tornam possível. Ao afirmar isso, o autor levantou um debate sobre a relação entre linguagem e representação. Moscovici ainda sugere que a dialética entre os indivíduos e seu meio seja composta por conceitos psicossociais, RSs, geralmente associados à opinião, à atitude e à imagem sobre o real. Esses conceitos são transformados em uma prática discursiva que determina valores e condutas que se transformam em “supostos” reflexos do real, constituindo-se em práticas sociais. Analisar esses discursos visa compreender a interferência do sistema cognitivo no social e do social no cognitivo em suas condições de produção. Nas palavras de Moscovici (1981, p. 181), as RSs são “um conjunto de conceitos, frases e explicações originadas na vida diária durante o curso das comunicações interpessoais”. Fundamentando-se nos estudos e na definição de RSs de Moscovici, Jodelet (2002, p. 22) define: “as representações sociais são uma forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado, com um objetivo prático, e que contribui 68 para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. Isso significa que, ao estudar as RSs, estamos refletindo sobre como a sociedade constrói seu conhecimento sobre os indivíduos e os grupos sociais, elaborando uma realidade comum sobre eles, tornando familiar o não familiar para uma compreensão do mundo e de suas relações. De acordo com a autora: [...] a abordagem de representações sociais pode fornecer, para uma mudança social ao nível individual ou coletivo e qualquer que seja o domínio de intervenção, a melhor contribuição, mas também a mais difícil. A melhor, porque os modos que os sujeitos possuem de ver, pensar, conhecer, sentir e interpretar seu modo de vida e na reorientação das práticas. A mais difícil, pois as representações sociais são fenômenos complexos, incitando um jogo de numerosas dimensões que devem ser integradas em uma mesma apreensão e sobre as quais é necessário intervir conjuntamente. (JODELET, 2009, p. 695) Assim, as RSs classificam, categorizam e nomeiam novos acontecimentos e ideias, tornando possível uma compreensão e manipulação destes a partir de visões de mundo preexistentes e internalizadas pela sociedade. Analisar as RSs significa investigar como são formados e como funcionam os sistemas de referência utilizados na classificação de pessoas e grupos, pois essas representações podem induzir à prática. Por essa razão, a análise das RSs não deve ser realizada no nível do indivíduo, mas do ponto de vista cultural, dado que as RSs são consideradas “símbolos construídos coletivamente, de forma compartilhada, por uma sociedade” (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 65). Nas palavras de Lysardo-Dias: [...] o conceito de representação social encerra um questionamento sobre a forma como a relação entre indivíduo e sociedade é construída. Trata-se de uma problematização sobre o plano individual e o plano coletivo, ou melhor, sobre a relação entre ideias e a vida material da sociedade. O interesse estaria centrado na compreensão da forma como a ação de um grupo social incide sobre o indivíduo e como este individualiza o que é coletivamente dado (LYSARDO-DIAS, 2005, p. 33). Desta forma, as RSs estão implícitas no discurso através da linguagem verbal e/ou visual e oferecem uma visão mais ampla sobre a sociedade e seus grupos, pois não tratam o individual e o coletivo separadamente. Em uma interpretação do conceito proposto por Jodelet (2002), acreditamos que as RSs sejam ideias partilhadas pelo coletivo sobre grupos sociais específicos, criando uma realidade comum para esses grupos, podendo levá-los a determinadas ações. É 69 com esse conceito de RSs que iremos analisar, no próximo capítulo, a reportagem sobre “O novo perfil do professor”, apresentada pela RNE em outubro de 2010. 70 5 UMA ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE OS DOCENTES 5.1 A capa A capa de uma revista funciona como uma vitrine aos olhos do leitor, tentando conquistá-lo e garantir o maior número de vendas (RIBEIRO, 2008). Além disso, ela é o lugar onde se estabelece o primeiro contato com a revista, informando seu conteúdo e enfatizando a reportagem principal. A capa também tem como objetivo despertar o interesse do leitor para que ele siga adiante na leitura das páginas da revista. De acordo com Ribeiro: [...] capas ou primeiras páginas são vitrines midiáticas que exibem de maneira breve, através de chamadas e fotos, o conteúdo (o quê e quem) que o (a) leitor (a) encontrará nas páginas posteriores caso se decida pela compra motivada inclusive pela capa (RIBEIRO, 2008, p.97). Nessa tentativa de atrair o leitor, são utilizados os mais diversos recursos visuais e verbais, tais como a posição dos elementos gráficos, fotos, cores, tamanhos variados de letras e fontes, dentre outros. Segundo Magalhães (2003), as capas são um espaço de materialidade discursiva que trazem consigo maneiras de perceber o mundo linguisticamente. O autor acrescenta que: todo signo que está na capa da revista foi intencionalmente colocado a fim de transparecer uma ideia ou de conduzir a uma determinada leitura do fato tratado. As imagens (...) devem ser encaradas como objetos de linguagem. Ao encará-las como um discurso da atualidade, reconhecemo-las como um produto cultural, o qual não é neutro, mas dotado de sentidos (MAGALHÃES, 2003, p. 79). Com seus signos icônicos e linguísticos, a capa se torna um lugar rico para a análise devido ao cuidado na escolha dos elementos que a compõem, na tentativa de atrair o consumidor. É o que Pinto (1999) chama de mostrar, interagir e seduzir. Mostra, pois revela o mundo do qual seu texto fala; interage, pois estabelece vínculos socioculturais com o interlocutor; e seduz, pois atrai o leitor ao distribuir afetos que reconhece ou quer ver reconhecidos. 71 Uma vez que a reportagem O novo perfil do professor é colocada como principal da RNE de outubro de 2010, começamos a analisá-la justamente pela capa (cf. Figura 1, abaixo). Figura 1- Capa da RNE de outubro de 2010 Fonte: RNE, edição 236, p. 46-47. Além de destacar a reportagem sobre o docente do futuro, a capa menciona outros assuntos abordados na edição: planos de aula para a pré-escola, Ciências, Arte, Matemática, Língua Portuguesa e Educação Física; outras duas reportagens intituladas Jovens oportunidades e riscos da tecnologia e O desafio de ensinar atrás das grades. Apesar de esses assuntos comporem a capa, eles não serão analisados, porque não fazem parte da reportagem principal. Na Figura 1, abaixo do nome da Revista, do lado esquerdo, há o enunciado “O professor do futuro é você”. Ao utilizar o pronome de tratamento você, a RNE se aproxima do leitor em potencial e estabelece com ele uma relação informal e íntima, interpelando-o. O verbo ser no presente do indicativo une o professor do futuro ao leitor, pressupondo o fato de ele não ser o professor nem ontem nem de hoje. Subentende-se que esse professor terá a sua legitimação como tal no futuro, o que situa os docentes num plano adiante, fugindo da situação na qual se encontram. É o real sendo substituído pelo ideal: Enunciado: “O professor do futuro é você” Posto: O leitor é o professor do futuro. Pressuposto: Você não é o professor de ontem, nem de hoje. 72 Subentendido: Impõe nos docentes a responsabilidade de se tornarem os professores do futuro, situando-os num plano adiante. O enunciado acima é marcado pela temporalidade, pela dicotomia entre o tempo real, vivido pelo leitor, e o tempo ideal, descrito pela RNE. O presente (indicado pelo verbo ser) define quem é o professor do futuro; o passado inexiste, sem importar o que o docente foi. O futuro é projetado no plano das ideias, no porvir. Isso significa que o presente, real, só tem sentido quando comparado ao tempo que não existe mais ou direcionado para o que ainda não chegou. Abaixo do título, há o subtítulo em letras menores “Conheça as seis características de um bom profissional do século 21”, em que se observa também a ocorrência de fenômenos de pressuposição e subentendido. O seu posto convida o leitor a ver quais são as seis características de um bom profissional do século XXI. O não dito nos leva ao pressuposto de que o leitor é tratado como desconhecedor do que é ser um bom profissional – por isso, é convidado a conhecer as características que farão dele um docente qualificado. A forma imperativa do enunciado interpela o leitor e o uso do adjetivo bom remete a uma avaliação positiva: caso “você” não possua essas seis características, consequentemente, “você” será um mau profissional. Subentende-se uma exigência de que os docentes se encaixem em padrões preestabelecidos para se tornarem profissionais de qualidade. É construída para eles uma identidade una, fechada, como a de um sujeito cartesiano34. As seis características propostas figuram como guia infalível para que “você” possa ser um bom profissional no século XXI. De forma esquemática temos: Enunciado: “Conheça as seis características de um bom profissional do século 21” Posto: Um bom profissional do século 21 possui essas seis características e você precisa ver quais são elas. Pressuposto: Você não sabe quais são as características que o tornarão um bom profissional do século 21. Subentendido: Existem docentes pouco qualificados e você é um deles, por isso, tem que adquirir as seis características para se tornar um bom profissional. 34 Fazemos referência ao sujeito “penso, logo existo” descrito por Descartes (1973). 73 A observação dos dois enunciados (título e subtítulo) explicita que a temporalidade é colocada em questão de maneira intrigante: se o leitor é interpelado a ser o docente do futuro, por que é necessário que ele conheça as características que farão dele um bom profissional no século XXI, no qual vivemos? Trata-se do professor do futuro ou de agora? Difícil responder, embora possamos supor que a reportagem se refere aos professores(as) de hoje, que precisam esquecer o ontem e se aprimorar para o amanhã. Ao lado do estrato verbal, a imagem ocupa grande espaço da folha e retrata uma figura feminina composta por mais de mil fotos de diversos professores e professoras de todos os lugares do Brasil. Ela simboliza metonimicamente todos os docentes e, ao mesmo tempo, os homenageia, porque a reportagem foi publicada no mês dedicado a eles (outubro). As fotos menores que compõem a maior foram enviadas pelos próprios leitores da RNE, a pedido do corpo editorial35. Esse é um modo de tratar o leitor/docente como integrante da RNE, de envolvê-lo pessoal e emocionalmente. Como aparecer na capa é motivo de destaque, supomos que todas as pessoas que enviaram suas fotos ficaram lisonjeadas por estarem em uma revista de nível nacional e, provavelmente, fizeram questão de mostrá-la a seus familiares e conhecidos. Essa interatividade permite à RNE estabelecer um diálogo com o outro e, com isso, constituir e reforçar o seu discurso. Ressaltamos que esse diálogo, essa aproximação com o outro é também uma estratégia de marketing para que a RNE possa ser lida por cada vez mais pessoas. A constituição da imagem (diversas fotos pequenas compondo um rosto maior) atesta a heterogeneidade mostrada sobre os docentes. Reúnem-se professores e professoras de Norte a Sul do Brasil para caracterizar a profissão. Isso indica que, sozinhos, se enfraquecem frente à realidade de sua vida profissional. Precisam de ajuda para se constituírem diante dos grandes obstáculos da profissão docente na contemporaneidade, como vimos na Seção 2.2.1. As linguagens verbal e visual, entretanto, apresentam vozes diferentes. No título, a palavra professor é usada no masculino e a imagem retrata uma figura feminina. Em Língua Portuguesa, quando o referente se constitui de indivíduos dos sexos masculino e feminino, usa-se o gênero gramatical masculino, estrutura que geralmente coincide com aquela usada para referentes apenas do sexo masculino. 35 Informação retirada da Carta do editor, na página 10, do número analisado. 74 Apesar disso, é a imagem feminina que simboliza os docentes. Isso evidencia como, dentro da cultura visual brasileira, está enraizada a predominância da figura da mulher no ambiente escolar. A figura masculina fica em segundo plano, mostrada em algumas pequenas fotos distribuídas pelo rosto feminino, sendo a maioria delas de professoras jovens. De certo modo, a imagem da capa reflete o perfil dos leitores da RNE, delineado na Seção 3: 78% de mulheres e 22% de homens, dos quais 45% são pessoas relativamente jovens (25 a 44 anos). Com base nos EC, percebemos que o uso da palavra “professor” (no masculino) e das fotos de homens espalhadas pelo rosto da imagem maior podem ser uma tentativa de desfazer o mito de que lecionar é uma profissão feminina. Ainda assim, a profissão docente está marcada pela figura da mulher, pois esta predomina frente aos olhos do leitor. Através da GDV, os significados representacionais ganham forma nos professores e professoras das fotos integrantes da imagem final. Todos posaram para serem fotografados e a maioria sorri para a câmera. Isso sugere a felicidade deles por estarem na capa de uma revista de nível nacional, como a RNE. A junção das fotos indica que o “professor do futuro” precisa se multiplicar para conseguir ser um bom profissional e realizar um trabalho de qualidade. Os significados interativos estabelem uma demanda, pois a figura feminina olha diretamente para o leitor em plano fechado (somente cabeça e ombros) e ângulo frontal no nível dos olhos. Essa interação cria uma sensação de intimidade, envolvimento, aproximação e igualdade entre participante representado e leitor. É como se a imagem tivesse o objetivo de aproximar o leitor do professor do futuro, o que está em acordo com o uso do pronome de tratamento “você”, descrito anteriormente. Com base nos significados composicionais, quando dividimos a página ao meio horizontalmente, o campo acima do eixo faz parte do plano ideal e o que está abaixo, o plano real. Verifica-se na capa uma convergência entre o ideal e o real a partir da complementaridade dos estratos verbal e visual, pois a imagem ocupa os dois eixos (superior e inferior) e o título e subtítulo, apenas o eixo superior. Analogamente, se dividimos a página ao meio verticalmente, os elementos do lado esquerdo são considerados dados e os elementos do lado direito, novos. Na capa, vemos o título do lado esquerdo da página, – primeiro ponto para onde o olhar do leitor se dirige – como o elemento dado (eu sou professor). Do lado direito, a 75 imagem é a informação nova (a sua foto ou de colegas na capa), que angaria atenção por ser uma maneira incomum de expor as fotografias. Essa análise baseada na GDV indica que a capa caracteriza os docentes mais pelo coletivo do que pelo individual, porque na Figura 1 há a união de diversos(as) professores(as) compondo a profissão. Apesar de a capa trazer a palavra professor, no gênero masculino, a figura feminina predomina tanto na imagem maior quanto nas menores, o que mantém, de modo forte, a feminização do magistério na cultura escolar brasileira. O estrato verbal, a um só tempo, tenta situar os docentes no futuro, mas os posiciona no século atual e os caracterizado pelo que está por vir. O que vemos é uma oscilação quanto ao lugar ocupado pelos docentes. Ora é hoje, ora, amanhã. A capa não determina o lugar. Mesmo assim, os elementos verbais e visuais interpelam constantemente o leitor, interagem com ele e atraem sua atenção. 5.2 A introdução da reportagem Quando o leitor se desloca da capa para a reportagem correspondente, vê que a imagem da capa se repete (Figura 2, abaixo; Anexo B). Aqui, a imagem se diferencia por ocupar o todo da folha e vir acompanhada de um bilhete na lateral. O pequeno aviso informa que os leitores que ainda não enviaram suas fotos terão a oportunidade de incluí-las através do site. Assim, reitera-se a tentativa de interação da RNE com os leitores. Figura 2 – Introdução da reportagem analisada Fonte: RNE, edição 236, p. 46-47. 76 Pela GDV, ao dividirmos a introdução no eixo vertical, encontramos, do lado esquerdo, o elemento dado (a repetição da imagem) e do lado direito o novo (o título e o texto que introduz a reportagem). Apesar da repetição da imagem, o objetivo agora não é o de apenas atrair o leitor, mas também de introduzi-lo à reportagem. O título mostrado agora, “O novo perfil do professor”, é, diferentemente do enunciado da capa (“O professor do futuro é você”), mais atraente aos olhos do consumidor. Se o título diz que o perfil docente é novo, a imagem tenta causar um efeito de novidade. Não se trata de uma fotografia comum. Com o uso de recursos gráficos e tecnológicos, foi possível agrupar uma multidão de professores de diversas partes do País, algo que a revista nunca havia feito36. Buratini ressalta que: [t]ão importantes quanto as figuras que compõem um texto na mídia impressa, aspectos como título (ou manchetes) e diagramação também são vistos como informações visuais que podem dirigir a atenção do leitor para caminhos diversos. O título, por exemplo, é uma unidade discursiva que, mais do que informar o leitor sobre o conteúdo a ser lido, está a serviço da argumentatividade do texto, e tem como objetivo envolver o leitor (BURATINI, 2003, p. 422). Dessa forma, o título da introdução ajuda a construir efeitos de sentido que a reportagem quer causar e as imagens são escolhidas para reforçar esse objetivo. Fica a critério do autor/editor o tipo de imagem a ser estampada para que se construa um diálogo entre o que será visto e lido. Porém, há a presença de mais de uma voz nesse discurso. A imagem e o título são polifônicos na medida em que há um discurso mais “moderno” perpassado por um mais “tradicional”. No título, a afirmação de que há um perfil novo traz um pressuposto de que existia/existe um velho perfil a ser esquecido. Subentende-se que o docente é um profissional ultrapassado e precisa se atualizar para continuar lecionando: Enunciado: “O novo perfil do professor”. Posto: Existe um novo perfil para o docente hoje. Pressuposto: Existia/existe um velho perfil docente. Subentendido: O docente está ultrapassado e é necessário que ele substitua o velho pelo novo perfil. 36 Informação retirada da Carta do editor, na página 10, da revista analisada. 77 Se o título tenta trazer à tona o perfil de um novo docente, a imagem ainda retrata um perfil antigo, ligado a uma caracterização ultrapassada e estigmatizada da profissão. Se o perfil não é mais o anterior, a imagem não poderia representá-lo pela mulher como figura central. Sabe-se que a profissão docente já é composta por muitos homens (cf. Seção 2.2). Longe de ser um retrato fiel da realidade, a imagem é uma visão parcial de personagens situados culturalmente na história, da visão do sujeito social que a produziu (CARMAGNANI, 2001). No subtítulo, o novo é vinculado às demandas que envolvem a profissão hoje e que são caracterizadas essenciais. A escolha desse adjetivo mostra que seria imprescindível para o docente incorporar aquelas demandas para adaptar-se à nova realidade. No entanto, é preciso considerar, apesar de discreto, o enunciado (E 1) que aparece no canto superior esquerdo da Figura 2: E1 SÓ NO SITE Lista com as 20 características dos bons professores. Digite na busca “perfil do professor ideal”. www.ne.org.br Ao sugerir que o acesso à lista com as características do bom professor está condicionado à palavra ideal, gera-se a ideia de algo perfeito, portanto, difícil de ser alcançado. Nesse ponto, encontramos uma não coincidência entre as palavras e as coisas. A utilização do adjetivo ideal nos remete ao significado de algo que existe apenas na ideia, no imaginário: um modelo idealizado. Esse sentido da palavra ideal se contrapõe ao sentido de real e leva a certo distanciamento entre as propriedades que compõem o perfil de um bom professor e a realidade escolar. Se as novas demandas são essenciais (segundo o subtítulo) para a prática docente, podemos nos perguntar: como os docentes alcançarão um perfil que é ideal? Nas tentativas da RNE de se explicar e, ao mesmo tempo, se justificar, encontramos diferentes formas de heterogeneidade mostrada para trazer o discurso do outro para dentro de seu próprio discurso, como o discurso indireto livre que aparece no enunciado (E2) a seguir, que inicia o texto da introdução. E2 Em 2008, a consultoria norte-americana Mckinsey elaborou um estudo compilando o que os países com melhor desempenho em Educação fazem para atingir a excelência. De acordo com Authier-Revuz (1998, p. 134), o discurso indireto livre é “tido como um indireto suavizado pela supressão do termo subordinante, ou uma mistura 78 de discurso direto e indireto”. De forma sutil, a reportagem se utiliza de um discurso vindo de um país desenvolvido, os Estados Unidos da América, pronunciado por uma entidade renomada, para se justificar frente ao leitor. A RNE legitima o que é dito afirmando este ser fruto de estudos e não de ideias surgidas aleatoriamente. O uso do termo excelência no final de E2, se refere a algo acima da média, superior e reitera o sentido de idealização, sentido que tem repercussão no enunciado (E 3): E3 Selecionar os melhores professores está entre as conclusões do trabalho, medida que começa a ser levada a sério pelo Brasil. Há a repetida presença do discurso indireto livre (assim como em E 4 e E5, a seguir), no qual o grande incentivador desse novo perfil docente é o próprio governo brasileiro. O Brasil começa a se preocupar com a qualidade de seus docentes, ao contrário de antes, sendo apenas a partir de E 3 que a seriedade do tema passa a emergir na esfera brasileira. O Brasil admite que existem profissionais mal preparados nas salas de aula, pois só agora os melhores serão selecionados: E4 Para estabelecer parâmetros de qualidade na hora de escolher quem vai lecionar para nossas crianças, o Governo Federal está criando o Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente, que deve, em 2011, servir de referência para a contratação na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental em todo o país. Isto é, somente os profissionais que se adequarem aos novos parâmetros e obtiverem sucesso no Exame Nacional de Ingresso na Carreira Docente poderão ser contratados para lecionar, tornando inaptos aqueles que não atenderem ao perfil. No entanto, o verbo deve é usado no sentido de possibilidade, o que causa uma não coincidência do discurso consigo mesmo. De um lado, é imposta a necessidade de escolher profissionais bem qualificados; de outro, há dúvida quanto à implementação da proposta. Como apresentado na Seção 2, historicamente o Brasil tem relegado a educação a segundo plano, o que nos permite indagar: agora será diferente? Em continuidade a E4, temos: E5 O projeto inclui uma lista com 20 características que todo profissional de Educação deve ter. Nesta reportagem, essas habilidades foram reagrupadas em seis tópicos... Em E5, o verbo deve é utilizado no sentido de obrigação. Enquanto existe uma carga de responsabilidades sobre o docente, diante da necessidade de se tornarem profissionais do século XXI, as obrigações do governo brasileiro se 79 esvaem. Há apenas a possibilidade de execução de uma medida (cf. E 4). Os compromissos do governo para com a educação são deslocados para os docentes, que se tornam os únicos responsáveis pelo seu sucesso ou fracasso. O próprio texto admite que vinte características são muitas habilidades a serem incorporadas por um docente. Ao reduzir o número de características, esse enunciado retoma E 1 e deixa transparecer que alcançar as 20 características é algo do plano das ideias. Através da análise é possível perceber que o governo brasileiro exige demais dos seus profissionais da educação e pouco lhes é dado em troca, sendo esse um dos obstáculos que a profissão enfrenta. Assim, naquele enunciado há o posto, o pressuposto e o subentendido descritos a seguir: Enunciado: “O projeto inclui uma lista com 20 características que todo profissional de Educação deve ter. Nesta reportagem, essas habilidades foram reagrupadas em seis tópicos...” Posto: Existe um projeto que determina 20 características que os profissionais da Educação precisam incorporar e essas características foram divididas em seis grupos pela RNE. Pressuposto: É obrigação de todos os docentes incorporar essas 20 características. Subentendido: Como 20 características são muitas habilidades a serem incorporadas, foi necessário reduzi-las. Ainda na introdução, há a presença de mais dois discursos relatados (E6 e E7), mas de forma direta. Nesses discursos, “são as próprias palavras do outro que ocupam o tempo – ou o espaço – claramente recortado da citação da frase; o locutor se apresenta como simples „porta-voz‟” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 12): E6 “Para promover a aprendizagem dos alunos, é fundamental desenvolver-se continuamente: olhar para a própria trajetória profissional, perceber falhas, saber o que ainda falta aprender e assumir o desafio de ser melhor a cada dia”, resume Angela Maria Martins, doutora em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas (FCC). O enunciado lista as ações e atitudes que o docente deve ter para ser um bom profissional. Ao mencioná-las, reproduz a exigência de um profissional perfeito. Não só as palavras utilizadas demonstram a dificuldade de sê-lo (como desafio), mas também a modalização do texto reforça essa concepção. Evidencia-se no trecho a ocorrência de reformulação metaenunciativa para favorecer a interpretação. No uso das vírgulas e da conjunção e, vemos de forma explícita uma duplicação 80 opacificante por simples justaposição e “encontramos, nesta forma extremamente frequente de reformulação opacificante, o mesmo leque de fatos de ordem diversa que assegura, univocamente ou não, a interpretação opacificante da duplicação X, Y para isto é e ou” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 154). Essa mesma estrutura surge no final do outro discurso direto apresentado: E7 “Antes, achávamos que a principal função do professor era passar o conhecimento aos alunos. Jean Piaget, Lev Vygotsky e outros estudiosos mostraram que o que realmente importa é ser um mediador na construção do conhecimento e isso requer uma postura ativa de reflexão, autoavaliação e estudos constantes”, diz Rubens Barbosa, da Universidade de São Paulo (USP). Novamente, exige-se do docente um conjunto de ações (refletir, autoavaliar e estudar) que demandam tempo e, por isso, são difíceis de colocar em prática por profissionais que, por vezes, trabalham em diferentes turnos e escolas para garantir melhores salários. Isso leva à duplicação daquilo que se quer dizer, com o intuito de reforçar a ideia desejada. Em E7, a utilização do operador argumentativo antes faz uma alusão ao passado e traz à tona outro discurso, mais antigo e tradicional, no qual o docente era visto como mero transmissor de conhecimentos e os alunos, apenas receptores. Para se contrapor a essas ideias ultrapassadas e se sustentar, há no discurso direto a presença do discurso indireto de teóricos renomados, como Jean Piaget e Lev Vygotsky. Piaget desenvolveu a teoria da “epistemologia genética” para explicar a inteligência nos seres humanos, definindo que a inteligência é construída em etapas sucessivas, com complexidades crescentes, encadeadas umas às outras, o que ele nomeou de construtivismo. Vygotsky também é conhecido por abordar o tema da evolução da capacidade de aquisição de conhecimento pelo ser humano. Ele chegou a conclusões que atribuem bem mais importância aos processos internos do que aos interpessoais, criando o conceito de Zona do Desenvolvimento Proximal (ZPD). Além de trazer a voz de estudiosos internacionalmente conhecidos no meio educacional para se legitimar, os discursos relatados na reportagem, em E 6 e E7, colocam também a voz de especialistas de instituições renomadas (UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas – e USP – Universidade de São Paulo). Quem faz as afirmações não é jornalista ou repórter da RNE, mas pessoas que estudaram 81 os temas e têm credibilidade na área educacional. No entanto, as próprias instituições de ensino superior são desacreditadas no enunciado E8: E8 De fato, não é mais possível dar aulas apenas com o que foi aprendido na graduação. Ao iniciar o enunciado com a expressão de fato, “há em relação a X, um caráter explicativo, da ordem da relação causal estrita” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p.121). Isto quer dizer que o texto dá a sua explicação do porquê de os professores precisarem adquirir as novas características do docente do século XXI. Reconhecese que os cursos de graduação estão aquém do que deveriam ser e que ter um diploma superior é pouco para lecionar. O enunciado reitera que, como há séculos, o docente continua sendo um profissional que não recebe formação básica adequada. Nessa introdução à reportagem, as escolhas lexicais criam uma atmosfera para chamar a atenção do leitor e incentivá-lo a incorporar as características do bom docente. Palavras de conotação positiva, como excelência, melhores professores, qualidade, referência e bons profissionais, tendem a tornar desejáveis as características propostas. No entanto, a recorrência da palavra desafio cria o alerta de que o docente enfrentará dificuldades para atingir o novo perfil. A RNE não explicita quais seriam esses desafios. Isso nos autoriza a dizer que, para a Revista, importam menos os problemas a serem enfrentados que os efeitos positivos das mudanças em direção aos ideais. O adjetivo condenada ativa a conotação de que os docentes estão sendo julgados pelo que fazem, como se estivessem no banco dos réus, e, mais uma vez, considerados os responsáveis pelo fracasso da educação no Brasil. No entanto, o docente é caracterizado como profissional altamente capaz de se qualificar, desenvolver e aperfeiçoar. Sua imagem é vinculada a práticas de aprimoramento constante para que o processo de ensino e aprendizagem possa ser completo, e o seu perfil é comparado a um computador: E9 Essa nova configuração no perfil profissional (...) Como se o docente fosse uma máquina de ensinar e, para mudar o seu perfil, fosse necessário apertar uma tecla para novas configurações começarem a funcionar. Esse enunciado vem seguido de E10: 82 E10 A boa notícia é que há muita gente encarando esse novo mundo nas escolas. O aparecimento da boa notícia no final da introdução gera o efeito de que coisas más ou ruins foram ditas até então. O uso do verbo encarar nos remete a sinônimos como enfrentar e afrontar, retomando a tese de que será árduo colocar em prática o que está sendo proposto. Em síntese, a introdução da reportagem é composta por um discurso polifônico. Há um discurso mais moderno perpassado por um tradicional. Existe uma tentativa de elaborar a sua argumentação a partir do discurso do outro, haja vista a forte presença do discurso relatado. O docente é retratado como um profissional ultrapassado e que precisa incorporar as 20 características para se adequar à nova realidade e ser o profissional ideal. Os(as) professores(as) ainda são considerados os maiores responsáveis pelo fracasso/sucesso escolar, encarregando-se o governo de algumas pequenas ações. 5.3 Os depoimentos Nesta subseção, apresentamos e discutimos os depoimentos dos docentes brasileiros que encarnam o perfil de professor delineado pela RNE. Esses profissionais exemplificam as características mencionadas na introdução da reportagem e comprovariam a possibilidade de incorporá-las. As análises a seguir evidenciam a multiplicidade de vozes que compõem os depoimentos, a começar pelas imagens que ilustram cada um deles. Após uma contextualização de cada imagem, iremos analisá-la sob a perspectiva dos EC e descrevê-la sob a ótica da GDV. 5.3.1 Análise do estrato visual O estrato visual dos depoimentos é composto por seis imagens, em tamanho mais ou menos equivalente à metade da página, que ilustram cada um dos depoentes. O primeiro texto aborda a formação profissional do(a) professor(a) e a depoente é a professora Mariléia Giacomini Arruda, de 57 anos, da cidade de São Paulo, capital. Ela leciona Língua Portuguesa na EMEF Antônio Sampaio Dória, também em São Paulo. Na imagem (Figura 3, a seguir; Anexo C), vemos uma 83 professora provavelmente experiente, devido à idade, e algumas pessoas ao fundo. Ela passa por um portão que deve ser o de uma universidade, visto que o tema destaca o mestrado como caminho para uma boa formação. Analisando a imagem pelo viés dos EC, a escolha de uma professora de mais idade implica uma concepção cultural de que os mais velhos são os primeiros que devem se aperfeiçoar, por terem se formado há mais tempo e o conhecimento adquirido na sua formação estar supostamente ultrapassado. Figura 3 – Depoimento 1 Fonte: RNE, edição 236, p. 48. Sob a perspectiva da GDV, a Figura 3 tem como significado representacional os(as) professores(as) de mais idade indo para uma universidade, os livros em sua mão reforçam isso. Quanto ao significado interativo, a imagem faz um contato por demanda (olhando diretamente para o observador), com uma distância social em plano médio (mostrado até a altura dos joelhos) e um ponto de vista em ângulo frontal no nível dos olhos. Com isso, a imagem estabelece uma relação de envolvimento com o observador ao mesmo tempo em que mantém certa distância social. Nos significados composicionais, a imagem se situa na parte superior da página, no plano ideal. Isso mostra que entrar em programas de pós-graduação está distante da realidade dos docentes brasileiros, indicando também que é isso que deveria acontecer, mas não acontece de fato. 84 Flaviana Meneguelli, de 32 anos, professora de Matemática na Escola Básica Municipal Intendente Aricomedes da Silva, em Florianópolis, Santa Catarina, é a segunda a dar seu depoimento, que aborda o uso das novas tecnologias como característica a ser incorporada pelos docentes. Na imagem (Figura 4, a seguir; Anexo D) que compõe a página, temos uma professora jovem, sorrindo com um computador portátil nas mãos, provavelmente em uma sala de aula, pois, ao fundo, vemos um transferidor na parede. Figura 4 – Depoimento 2 Fonte: RNE, edição 236, p. 49. Essa imagem contrasta o computador e o transferidor, isto é, o antigo e o novo, no dia a dia escolar. Outro aspecto relevante é o fato de o computador portátil não ser uma realidade comum nas escolas públicas brasileiras, pois muitas delas ainda sofrem com a escassez de materiais básicos, o que é incompatível com máquinas daquele tipo. O depoimento sobre o uso de tecnologia ser dado por uma professora de 32 anos (e não uma de mais idade, como no primeiro depoimento) reforça que, culturalmente, os mais jovens são mais capacitados para utilizar equipamentos mais modernos. A Figura também apresenta os docentes mais jovens que defendem o uso do computador em sala de aula. Nela, a depoente interage com o observador através de um contato por demanda, em plano fechado e em ângulo frontal no nível dos olhos, estabelecendo uma relação direta de intimidade, envolvimento e 85 igualdade. Quanto aos significados composicionais, a imagem se situa mais à direita da página, como elemento novo. Tratar da utilização de novas tecnologias em sala de aula não é um assunto recente (elemento dado, à esquerda). A novidade está em colocá-lo em prática, como a imagem tenta retratar. A fotografia também ocupa os dois planos horizontais (superior e inferior) e reporta o uso do computador em algumas escolas, experiência ainda não compartilhada por outras. Permanece, aqui, o contraste entre o real e o ideal no dia a dia das escolas brasileiras. O terceiro depoimento aborda a atualização profissional no uso de novos métodos de ensino e é de autoria da professora da EM Professor Aderbal Galvão e coordenadora de projetos da rede municipal do Recife, Pernambuco, Sandra de Amorim Silva Cavalcanti, de 29 anos. Na imagem (Figura 5, abaixo; Anexo E), vemos novamente uma jovem professora, sorrindo com um livro nas mãos. É provável que ela esteja em uma biblioteca, pois está cercada por livros. Figura 5 – Depoimento 3 Fonte: RNE, edição 236, p. 50. A imagem aborda os docentes que utilizam a biblioteca e os livros como recursos para estudo e pesquisa. Essa ambientação é capaz de retomar a crença cultural de que esse é o lugar mais apropriado para os estudos e de que os livros (de papel) ainda são os meios de pesquisa mais utilizados. Esses não são mais recursos unânimes para a atualização profissional do(a) professor(a), pois o espaço 86 físico das bibliotecas vem sendo cada vez mais substituído pelo espaço virtual, e os papéis, por textos em suportes digitais. Além disso, a Figura 5 interage com o observador através do contato por demanda, em plano médio e ângulo vertical alto. Trata-se de uma relação ligeiramente distanciada em torno da posição social, em que o observador olha a participante de cima, estabelecendo uma relação de poder. É possível que isso ocorra devido ao fato de os observadores já estarem incorporando o uso das novas tecnologias para o seu aperfeiçoamento profissional – e não mais apenas os livros. Quanto aos significados composicionais, a imagem ocupa mais o lado direito da página e os eixos superior e inferior. Talvez pelo uso de a internet ter se tornado um elemento dado, relembrar os docentes de que os livros também têm muito a contribuir faz com que estes ocupem a posição de elemento novo. A mescla realideal pode ser proveniente de algumas escolas possuírem uma boa biblioteca e outras, não. O quarto depoimento discorre sobre o trabalho em equipe e foi emitido por Patrícia Lemes Mullin, de 39 anos, professora da pré-escola na EMEI Professora Marianita de Oliveira Pereira Santos, em São José dos Campos, São Paulo. A professora se situa bem à frente na imagem (Figura 6; Anexo F), usa óculos, está sentada em uma mesa repleta de papéis e rodeada por outras pessoas, em circunstância de acompanhamento. Ao que tudo indica, estas são também professoras da escola onde a depoente trabalha. Figura 6 – Depoimento 4 Fonte: RNE, edição 236, p. 51. 87 Na Figura, a professora sorri discretamente, enquanto as demais têm um semblante mais sério. Trata-se do momento em que se discutem assuntos de maior importância na vida escolar, indicando que os docentes não devem resolver esses assuntos sozinhos. Outro detalhe a ser destacado é o fato de a mesa estar repleta de papéis. Isso mostra que, culturalmente, o docente ainda é uma figura marcada pela utilização desse material em quantidade excessiva. A imagem traz os profissionais que trabalham em equipe e reconhecem a seriedade dessa parceria. A interação com o observador é construída por um contato de demanda, em plano fechado e ângulo vertical alto. Por essa razão, a imagem estabelece uma relação de intimidade e, ao mesmo tempo, de poder do observador sobre ela. É possível que essa relação mais íntima se dê pela tentativa de atrair cada vez mais docentes para aquele tipo de trabalho e a relação de poder esteja marcada pela capacidade do observador em trazer as suas contribuições. A imagem se destaca por ocupar toda a parte superior da página, sugerindo que o trabalho em equipe está fora da realidade, porque, como vimos na Seção 2, muitos docentes se deslocam de uma escola para outra em até três turnos, diariamente. Planejamento e avaliação foram os temas selecionados para o quinto depoimento, dado por Greicy Silva, de 28 anos, professora de Matemática no Ciep Municipal Alexandre Bacchi, em Guaporé, Rio Grande do Sul. Na imagem (Figura 7; Anexo G), há um quadro negro ao fundo. Ele está todo escrito a giz, com setas em vários direções. À frente, está a jovem professora, sorrindo e de braços cruzados. Figura 7 – Depoimento 5 Fonte: RNE, edição 236, p. 52. 88 A Figura 7 retrata a professora em uma posição que contradiz o texto, porque, na cultura brasileira, “cruzar os braços” significa parar, não se esforçar em prol de algo. Outra contradição é mostrar um quadro negro escrito com esquemas, o que remete a uma imagem tradicional da docência. Primeiro, o giz tem sido substituído pelo pincel e até mesmo por quadros digitais. Segundo, os esquemas fazem parte de um sistema mais cartesiano de ensino. Se o objetivo da reportagem é trazer o novo perfil docente, por que retratar o que está se tornando defasado? Na imagem, ao sorrir, a depoente simboliza os docentes que estão felizes em desempenhar o seu papel em sala de aula, mas que permanecem de braços cruzados. A interação se faz pelo contato de demanda, em plano fechado e em ângulo frontal no nível dos olhos. Isso acarreta uma relação de envolvimento e igualdade entre os participantes, a maioria dos quais deve enfrentar condições semelhantes às da depoente. Nos significados composicionais, a imagem ocupa todo o campo superior – de caráter ideal. Possivelmente, isso se dê pela dificuldade em colocar em prática o que o estrato verbal propõe. Leandro Pereira Matos, de 26 anos, professor de História da EM União da Betânia, em Juiz de fora, Minas Gerais, foi o último a dar seu depoimento, que teve como focos a atitude e a postura profissionais. Leandro, usando óculos e de cabelos longos, aparece cercado por seus alunos na imagem (Figura 8; Anexo H). Eles estão em uma sala de aula, pois há um quadro negro com um mapa ao fundo e os alunos estão todos uniformizados. Figura 8 – Depoimento 6 Fonte: RNE, edição 236, p. 53. 89 Nessa última imagem, o professor de cabelos longos dá a impressão de que mais uma mulher é retratada; mas, aqui, aparece o único depoimento masculino da reportagem. Mesmo com as estatísticas de que a área educacional tem recebido um número crescente de docentes desse sexo (cf. Seção 2), nossa cultura ainda não modificou o conceito de que a profissão docente seria predominantemente feminina. Em contraposição, a imagem retrata uma relação professor-aluno mais moderna, em que os discentes não estão enfileirados, nem o docente está sozinho frente ao quadro. Eles se misturam em uma proximidade; uma imagética relativamente recente. A Figura 8 também representa os docentes que querem se aproximar dos seus alunos. A interação entre imagem e observador é marcada pelo contato por demanda, em plano médio e ângulo frontal no nível dos olhos, criando distanciamento e, ao mesmo tempo, envolvimento e igualdade entre os participantes. O distanciamento remonta à questão do homem professor e mantém a diferença entre a quantidade de homens e mulheres no campo educacional. O observador é intimado a reconhecer que ambos os sexos são iguais; logo, a RNE acena para uma aparente desfeminização do magistério. Nos significados composicionais, a imagem está mais à direita e na parte superior da página, conferindo o status de novo a um homem lecionar e o status de ideal à relação professor-aluno mostrada. Em suma, a análise visual conforme os EC indica que a feminização do magistério ainda é forte, pois os depoentes são, na maioria, mulheres (cinco do sexo feminino e um do sexo masculino). Como na introdução da reportagem, as imagens trazem RSs sobre os docentes que oscilam entre um discurso moderno e um tradicional. A presença dos depoentes busca trazer o novo perfil à tona, mas o local onde eles se encontram contradiz esse perfil e dá mostras de que isso ainda não se aplica à realidade. Outro aspecto relevante é que a maioria dos depoimentos foi dada por docentes da região Sudeste, na faixa etária de 25 a 44 anos, equivalente ao perfil dos leitores da RNE, como mostrou a Seção 3. Isso significa que a Revista tenta se aproximar do seu público-leitor através de uma identificação com os participantes retratados em suas páginas. O Quadro 6, na página seguinte, sintetiza nossas leituras sob a ótica dos EC. 90 Quadro 6 - Resumo da análise do estrato visual segundo os EC Figura 3 Figura 4 Figura 5 Figura 6 Figura 7 Figura 8 Significados histórico-sociais propostos pelos EC Professora, 57 anos de São Paulo. Os docentes mais velhos devem ser os primeiros a se aperfeiçoar, pois o conhecimento adquirido na sua formação está ultrapassado. Professora, 32 anos de Florianópolis. O moderno e o tradicional se contrapõem nos elementos que compõem a imagem (computador e transferidor) e os mais jovens são os mais propensos a utilizar equipamentos mais modernos. Professora, 29 anos de Recife. A biblioteca ainda é considerada o lugar mais adequado aos estudos, mesmo na era digital. Professora, 39 anos de São José dos Campos. Os docentes não devem trabalhar sozinhos, discutindo os assuntos mais sérios em equipe. Eles são caracterizados pelo grande volume de papéis que utilizam. Professora, 28 anos de Guaporé. Discurso verbal e visual se contrastam: (quadro negro, giz, esquemas, a professora de braços cruzados e o novo perfil docente). Professor, 26 anos de Juiz de Fora. O único homem é retratado, mas mesmo assim a sua imagem lembra a figura feminina, prevalecendo a mulher como dominante no magistério. Há um discurso mais moderno, no qual professor e alunos se misturam em sala de aula, não havendo posição dominante para o docente. A análise das imagens na perspectiva da GDV também mostra a identificação dos docentes, na sua maioria, pela figura feminina. Detectamos que, em todas as imagens, os participantes foram retratados olhando diretamente para o leitor, envolvendo-o. As figuras 4, 6 e 7 se configuram em plano fechado, aproximando o observador. Isso mostra que a tecnologia está gradativamente mais próxima da escola, assim como o trabalho em equipe e o planejamento, como demandam os PCNs. Por sua vez, as figuras 3, 5 e 8 estão em plano médio e favorecem certo distanciamento. Importante observar que os estratos verbais dessas imagens tratam da atualização, do aperfeiçoamento, da atitude e postura profissionais, e deixam esses temas distantes da realidade. Isso aponta para as dificuldades que o docente enfrenta para poder se manter atualizado. Nas imagens, os docentes assumem posições de destaque e os elementos se conectam. Os valores informativos oscilam entre os elementos dados e novos, assim como os planos ideias e reais. No entanto, predomina o plano ideal. Concluímos disso que o novo perfil docente está situado mais em nível de ideias do que de prática. O Quadro 7, na próxima página, resume as nossas análises das imagens com base nos recursos da GVD. 91 Quadro 7 - Resumo da análise do estrato visual segundo a GVD Significados representacionais Estrutura narrativa: a busca pelo aperfeiçoamento profissional Figura 3 Estrutura narrativa: o uso do computador em sala de aula Figura 4 Estrutura narrativa: o uso da biblioteca para se aperfeiçoar Figura 5 Estrutura narrativa: o trabalho em equipe Figura 6 Figura 7 Estrutura conceitual: o docente frente ao quadro de braços cruzados Estrutura conceitual: o homem caracterizando os docentes Figura 8 Significados interativos Significados composicionais Contato: demanda Distância social: plano médio Ponto de vista: ângulo frontal no nível dos olhos Contato: demanda Distância social: plano fechado Ponto de vista: ângulo frontal no nível dos olhos ( igualdade) Contato: demanda Distância social: plano médio Ponto de vista: ângulo vertical alto Valor informativo: ideal Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Valor informativo: elemento novo Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Valor informativo: elemento dado, plano real/ideal Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Valor informativo: ideal Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Valor informativo: ideal Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Valor informativo: elemento novo, plano ideal Enquadramento: elementos se conectam Saliência: o depoente em destaque Contato: demanda Distância social: plano fechado Ponto de vista: ângulo vertical alto Contato: demanda Distância social: plano fechado Ponto de vista: ângulo frontal no nível dos olhos Contato: demanda Distância social: plano médio Ponto de vista: ângulo frontal no nível dos olhos Na comparação dos dois quadros, a feminização do magistério ainda parece prevalecer na nossa sociedade. Entendemos que a RNE tenta se aproximar do seu público-leitor através da escolha das imagens e da maneira como elas são retratadas. Os dois quadros teóricos convergem na medida em que os EC apontam para a existência de discursos mais “modernos” perpassados por outros mais “tradicionais”, e a GDV apresenta significados composicionais que oscilam entre elementos dados e novos, nos planos ideal e real. 92 5.3.2 Análise do estrato verbal O estrato verbal dos depoimentos é composto pelo enunciado que descreve a característica do novo perfil docente, pelo título e subtítulo que antecedem os depoimentos e pela fala dos docentes. Essa fala se encontra toda entre aspas, o que indica a presença do discurso direto, em que as palavras ali colocadas seriam as mesmas ditas pelos depoentes. Diferentemente da introdução da reportagem, não mais falam os especialistas ou pessoas renomadas na área educacional. A voz é dada aos próprios docentes que vivenciam as habilidades que os tornam bons profissionais. 5.3.2.1 Depoimento 1 O enunciado inicial da página, “Ter boa formação”, descreve a primeira característica do novo perfil docente. A presença do adjetivo bom traz como pressuposto a existência de profissionais que possuem má formação, com o subentendido de que não adianta apenas se formar para lecionar – é necessário qualificarse adequadamente para tal. Logo em seguida, aparece o título “O mestrado é o caminho natural”. De acordo com a realidade brasileira, o ingresso na universidade é seletivo e numericamente restrito. Ao obter a graduação, a maior parte dos formados tende a buscar um emprego e interromper os estudos. A minoria que alcança a pósgraduação, não raro, precisa dividir o tempo entre o trabalho e o estudo, estado de coisas que dificulta a permanência na universidade. Em suma: como um caminho cheio de obstáculos pode ser natural? Há no título, então, uma não coincidência entre palavras e coisas, pois a palavra natural não condiz com a realidade. O corpo do primeiro depoimento é marcado pela utilização da estrutura gramatical da primeira pessoa do singular. A professora inicia com o seguinte: E11 Eu me formei em Letras há 20 anos e, assim que fiquei frente a frente com os alunos, percebi que não estava preparada para tantos desafios. Apesar de a professora ter se formado e lecionar há mais tempo, E 11 evidencia que ela percebeu seu despreparo logo ao entrar em sala de aula, momento indicado pelo operador assim que. Estar frente a frente com os alunos remete a adversários em 93 confronto. A utilização do operador tanto, antes de desafios, também intensifica o número de problemas encontrados. Diante disso, a professora afirma: E12 Logo me dei conta de que os bons educadores, aqueles que realmente fazem a turma aprender, são os que não param de estudar. Esse enunciado inicia com uma argumentação temporal (operador logo) e mostra que rapidamente a depoente chegou a conclusão de que os bons docentes são aqueles que permanecem estudando. A professora também se vale de glosas para fixar explicitamente o sentido de educador. O uso desse recurso linguístico elimina outras definições possíveis para educador, tais como aquele que cuida e/ou ensina, pois apenas o educador consegue fazer os alunos aprenderem. O foco é a aprendizagem, não o ensino37. O trecho seguinte, em que a professora descreve as ações tomadas para se aperfeiçoar (ler textos, discutir com os colegas, cursar mestrado), é marcado pelos operadores: não só, cada vez mais e ainda mais. Eles argumentam a respeito da incansável postura de estudo a ser adotada pelo docente, encadeando e intensificando as ações a serem tomadas. Depois de acrescentar brevemente sua concepção de ensino e aprendizagem anterior, a depoente afirma: E13 A integração entre o mestrado e a experiência em sala de aula leva a reflexões sistemáticas que eliminam barreiras entre a teoria e a prática. E13 pressupõe obstáculos entre a teoria e a prática e que o mestrado – em conjunto com a experiência em sala de aula – fará com que eles sejam superados. Porém, essas barreiras não são eliminadas apenas pelas reflexões. Isso gera uma não coincidência entre as palavras e as coisas, pois a teoria pode mudar através de atos mentais como refletir, mas só atitudes e ações concretas alteram a prática. Quase ao fim de seu depoimento, a professora expressa: E14 Acredito que a boa formação é o caminho para a Educação pública dar um salto de qualidade. Só assim os educadores vão dominar os conteúdos, fazer um planejamento de acordo com as diretrizes da rede e a realidade dos alunos e avaliar a própria prática. 37 Entendemos que aprender é diferente de ensinar, pois segundo Cagliari (1988, p. 36), ensinar é “um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência, etc”. Quanto à aprendizagem, o autor (op.cit., p. 37), a define como “um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. O que é importante para quem ensina, pode não parecer tão importante para quem aprende. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo, de acordo com sua história de vida e, raramente, acompanha passo a passo a ordem do ensino.” 94 O uso do verbo acreditar, de certa forma, modaliza o que está sendo dito e mostra que essa é a opinião do depoente, dando ao leitor a chance de tirar as suas próprias conclusões. O adjetivo bom aparece pela terceira vez e se refere à qualidade da formação docente. A expressão um salto de qualidade deixa subentendida uma distância entre a situação atual e a situação ideal, lapso que precisa ser diminuído pelos docentes. Com o uso do operador só assim, a depoente afirma que a “boa formação” é o único caminho para melhorar a educação pública no Brasil. Esse discurso se mantém no último trecho do depoimento: E15 Sinto cada vez mais confiança em relação a meus conhecimentos e, quanto mais estudo, mais percebo como isso é imprescindível para ensinar bem. A necessidade de estudo constante é novamente argumentada através dos operadores cada vez mais e quanto mais... mais. Isso intensifica o ato de estudar como sendo essencial/imprescindível e estabelece uma proporção para que o ensino seja de qualidade, uma vez que a presença do advérbio bem pressupõe que há docentes que ensinam mal. A análise do estrato verbal desse primeiro depoimento sugere que, mesmo ao se formar, os docentes não são capazes de enfrentar uma sala de aula, sendo considerados mal preparados para a função. Esses profissionais acabam por ter sua classe dividida em bons e maus educadores conforme sua incansável postura de aperfeiçoamento. Além disso, os docentes precisam encarar vários desafios no seu dia a dia escolar, dentre eles, os obstáculos encontrados entre a teoria e prática. A boa formação do profissional se torna, consequentemente, a única solução para os problemas educacionais brasileiros. Dessa forma, caracaterizam-se os docentes como professores-pesquisadores que buscam na teoria elementos para melhorarem a prática. Reitera-se a identificação dos(as) professores(as) como os(as) responsáveis pelo processo de ensino e aprendizagem, numa relação diretamente proporcional: quanto maior a formação deles, melhor a qualidade da educação. 5.3.2.2 Depoimento 2 A característica descrita no Depoimento 2, “Usar as novas tecnologias”, é seguida do título: “Um recurso a favor dos conteúdos”. O emprego da expressão a favor de denuncia que os conteúdos são os beneficiados pelo uso das tecnologias e 95 não os alunos e docentes, que precisam aprender e ensinar. Por isso, há no título uma não coincidência entre as palavras e as coisas, constituindo-se em um ato falho do sujeito ao capturar o objeto pelas palavras (AUTHIER-REVUZ, 1998). Um de seus enunciados iniciais é: E16 Ainda hoje, no entanto, alguns educadores não se sentem capacitados para aproveitar o recurso e outros, empolgados, fazem uso dele em qualquer atividade sem planejamento. Pelo discurso indireto livre, E16 traz a presença do outro diluída no discurso e institui um jogo: Esse modo de “jogo com o outro” no discurso opera no espaço do não-explícito, do “semidesvelado”, do “sugerido”, mais do que do mostrado e do dito [...] que leva das formas mais ostentatórias – em sua modalidade implícita – às formas mais incertas da presença do outro... (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 18). De forma sutil, a depoente traz a presença do discurso de outros docentes que afirmam não terem condições de utilizar os recursos tecnológicos de forma adequada e planejada em sala de aula. A utilização dos operadores ainda hoje e no entanto argumentam sobre o tempo da ocorrência, opondo-se ao fato e causando o efeito de que essa situação não deveria mais acontecer. A professora expressa seu descontentamento com essas condições: E17 Infelizmente, em ambos os casos, saem perdendo os alunos e os próprios professores, que deixam de ter a seu favor uma ferramenta de ensino essencial. E17 metaforiza as relações de que alunos e docentes participam na forma de um jogo no qual há perdedores e vencedores. O trecho contraria o título do depoimento e desfaz a não coincidência anterior: agora, as novas tecnologias não mais beneficiam os conteúdos, mas os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. Surge, assim, uma alternância entre as pessoas gramaticais da primeira do singular e do plural: E18 Aprendi a importância de analisar quais conteúdos podem ser ensinados com o auxílio da tecnologia. Com isso, além de aprimorar nossa prática, damos oportunidade aos estudantes de desenvolver habilidades tecnológicas básicas (...). O uso que a professora faz do nós reforça o plano do dito e, simultaneamente, permite-lhe apagar-se, para retirar do enunciado qualquer cunho pessoal e 96 colocá-lo como emitido por diversas vozes. Segundo Authier-Revuz, esse tipo de dizer estabelece explicitamente uma enunciação conjunta, a de um nós falando numa única voz, designa, por isso mesmo, pontos onde esse uníssono é sentido como não sendo óbvio. E a estratégia diante desse dois, bem como no “divórcio” enunciativo do qual ele é potencialmente portador, é a de um pequeno golpe de força: o enunciador apaga a nãocoincidência do eu e do tu, “anexando” o outro ao seu próprio querer, reduzindo a diferença entre ambos pela assimilação na unidade de um “nós-enunciador”, estabelecido imperativamente por ele, como fonte das palavras que ele escolhe (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 92). A seguir, E19 retoma, do primeiro depoimento, a pós-graduação como fonte de conhecimento na qual a teoria orienta a prática. Pelo enunciado, a professora já realizava um trabalho de qualidade antes de se aperfeiçoar, porque a utilização do operador mais demonstra que a qualidade está se elevando, e não surgindo, por meio do mestrado: E19 O mestrado em uso das tecnologias, que fiz na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), me deu meios para trabalhar com mais qualidade alguns conceitos matemáticos. Na sequência, a professora descreve como é o seu trabalho em sala de aula com a atualização dos recursos tecnológicos e afirma que se pode estender o uso deles a outras disciplinas, como alguns colegas fazem. Ela explica: E20 O fato é que nossos alunos são formados dentro da cultura digital e profundamente influenciados por ela. Com a democratização do uso da internet, o crescimento do número de lan houses, o barateamento dos computadores e mesmo a implantação de programas de governo destinados à informatização das escolas, não há porque trabalhar usando somente o quadro e o giz. A modalização utilizada em E20 denota que os alunos recebem uma grande influência da cultura digital, principalmente pelo fato de terem nascido em uma era informatizada. Na verdade, a tecnologia é um símbolo da modernidade que perpassa o dia a dia de todas as pessoas, como vimos na Seção 2.2. Para a professora, esse é o motivo pelo qual os docentes devem incluir os recursos tecnológicos em aula. A utilização também é justificada pela democratização da internet, que a professora explica por glosas. Authier-Revuz (1998, p. 29) afirma que as glosas são comentários que realizam uma “laçada reflexiva de um dizer que se volta explicitamente sobre si mesmo” e explicam os sentidos que querem fixar. É 97 isso que a depoente realiza ao definir que democratização se refere: ao aumento das lan houses, ao baixo custo dos computadores e aos programas governamentais de informatização das escolas. Para encerrar, a depoente usa a primeira pessoa do plural: E21 Cabe a nós entender como se dá esse processo e nos atualizar de forma a desafiar os estudantes. A professora intima os docentes a assumirem uma postura de atualização profissional no que diz respeito ao uso das novas tecnologias. É possível que, sabendo que apenas a sua voz seria pouco para convencê-los, devido aos obstáculos à profissão, a professora tenha trazido os outros para seu discurso como forma de afirmação do mesmo. Na análise desse estrato verbal, percebemos que, apesar de estarmos em plena era digital, muitos docentes ainda não utilizam os recursos tecnológicos em sala de aula. Para indicar que os(as) professores(as) são resistentes à mudança e convencê-los de tal uso, a depoente recorreu a outras vozes por meio do discurso indireto livre e do uso da primeira pessoa do plural. No depoimento, há docentes que são identificados como mal preparados para utilizar as novas tecnologias corretamente em sala de aula. É aconselhável que eles assumam uma postura de atualização profissional e cursem uma pós-graduação, para que a teoria oriente a prática e os docentes possam incluir os recursos tecnológicos nas aulas – e, desse modo, acompar a realidade dos alunos. 5.3.2.3 Depoimento 3 O enunciado “Atualizar-se nas novas didáticas” encabeça o texto sobre a terceira característica. Novas, por polifonia, remete ao seu antônimo e pressupõe a existência de velhas didáticas e a necessidade dos docentes de se atualizarem nas didáticas recentes, eliminando uma postura profissional de acomodação. No título, “Um jeito de ensinar cada disciplina”, há o subentendido de que estas devem ser ensinadas de modo diferente devido à especificidade de cada tipo de conteúdo. O trecho E22 inicia o terceiro depoimento: E22 Quando assumi a sala de aula pela primeira vez, senti dificuldade por não ter um grande domínio das didáticas. Na faculdade, procurei aprender o máximo sobre isso e, como 98 leciono nas primeiras séries do Ensino Fundamental, tenho de me preparar em todas as áreas. [...] Para dar conta disso, assim que terminei a graduação, já estava fazendo uma extensão universitária [...]. No excerto acima, predomina a narrativa em primeira pessoa do singular. Os operadores quando e pela primeira vez indicam as dificuldades da profissão no momento em que a professora começou a lecionar. O uso dos sintagmas assumi a sala, ter um grande domínio das didáticas, aprender o máximo e tenho de me preparar em todas as áreas traz como subentendido as amplas responsabilidades delegadas aos docentes. Tanto quanto nos depoimentos anteriores, o operador assim que introduz a afirmação de que os cursos de graduação não preparam os docentes para o dia a dia da sala de aula, sendo o retorno à universidade a maneira encontrada para superar as dificuldades. Na continuação, a professora faz um levantamento dos cursos de que já participou e afirma: E23 Nunca perco as formações oferecidas pela rede e esse foi o meio de me atualizar [...]. No curso, conheci as últimas pesquisas sobre o tema, entendi como as crianças aprendem e de que forma encaminhar as atividades para facilitar a aprendizagem [...]. Faz toda diferença no dia a dia na sala de aula [...] se aprofundar nas didáticas específicas. Em E23, a utilização de nunca indica que a professora está sempre atenta aos cursos oferecidos e tem disposição e disponibilidade para fazê-los, haja vista serem a maneira que ela encontrou para se manter atualizada. No decorrer do texto, a depoente explica o que foi desenvolvido em um dos cursos. Ao se referir às atividades para facilitar a aprendizagem, a professora traz uma caracterização do docente como facilitador do processo de ensino e aprendizagem e não de mero transmissor dos conhecimentos, como prescreviam as teorias mais tradicionais de educação. No final do trecho acima, com o emprego do modalizador toda antes de diferença, a professora intensifica a mudança que ocorre quando o docente aprofunda seus estudos. O enunciado E24 demonstra a satisfação da professora com relação às consequências desses cursos para o trabalho: E24 Invisto muito do meu tempo em todos esses cursos, mas isso acaba facilitando meu trabalho e me fornece instrumentos para enfrentar as dificuldades em sala. Hoje tomo decisões com mais segurança e [...] percebo que estou no caminho certo. 99 O uso do operador mas indica uma depreciação do investimento em tempo, cujos resultados são valorizados na sequência argumentativa. Com a utilização dos modalizadores muito e todos, a depoente enfatiza a forma de investimento e reconhece que isso requer um grande esforço, sublinhando as dificuldades do docente em se preparar para a sala de aula. E25 encerra o depoimento e mostra a voz de um instrumento avaliador do governo, por meio do discurso indireto livre, para justificar a eficácia e a credibilidade do trabalho docente: E25 Os resultados da Prova Brasil mostram o impacto da formação no meu trabalho: as notas da minha sala são muito maiores do que as médias nacional, estadual e municipal. É possível que a depoente tenha recorrido à voz governamental para coagir os docentes e mostrar-lhes que, caso não haja a incorporação da postura de atualização profissional, os resultados de seus alunos na Prova Brasil38 serão insatisfatórios. Logo, os professores(as) receberão uma avaliação negativa do seu trabalho. Assim como nos anteriores, o Depoimento 3 sustenta a ideia de que os docentes precisam se atualizar, pois estão despreparados para exercer a profissão, devido às dificuldades enfrentadas por eles em sala de aula. A depoente enfatiza que apenas a graduação é insuficiente, sendo necessário o retorno à universidade para os docentes se capacitarem. Sublinha-se o esforço que esse profissional deve fazer para conseguir realizar o seu trabalho e se manter atualizado, em face das muitas responsabilidades delegadas aos docentes, caracterizados novamente como os principais responsáveis pela educação. No entanto, a ideia de que os docentes devam ser facilitadores do processo de ensino e aprendizagem também é descrita, o que reduz levemente a carga de obrigações. A análise nos fez perceber, ainda, que a depoente necessita da voz do governo para reafirmar a dela e instigar os(as) professores(as) a mudar e a assumir uma postura de atualização profissional. 38 A Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (doravante SAEB) têm o objetivo de avaliar a qualidade do ensino oferecido pelo sistema educacional brasileiro a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos. Esses testes são aplicados no quinto e nono anos do ensino fundamental e no terceiro ano do ensino médio. Neles, os alunos respondem a questões de língua portuguesa e matemática. No questionário socioeconômico, os estudantes fornecem informações sobre fatores de contexto que podem estar associados ao desempenho. Os professores e diretores das turmas e escolas avaliadas também respondem a questionários que coletam dados demográficos, perfil profissional e de condições de trabalho. 100 5.3.2.4 Depoimento 4 Pelo Depoimento 4, a característica a ser incorporada ao perfil docente é “Trabalhar bem em equipe”. A presença do advérbio bem chama atenção para o modo como o trabalho em equipe deve ser realizado e pressupõe que não basta apenas se juntar aos colegas, deve-se realizar um trabalho produtivo. Essa mensagem é reforçada no título (“Na troca de ideias, todos ganham”) pelo uso de todos, que tem efeito totalizante sobre a comunidade educativa. No excerto E 26, que inicia o depoimento, duplica-se o efeito com o termo total: E26 Sou professora há 17 anos e hoje tenho total clareza de que, conversando com os demais professores e com a orientadora pedagógica, é possível descobrir formas mais eficazes de ensinar. Repete-se aí a predominância da primeira pessoa do singular. A depoente inicia afirmando-se como professora. A junção de hoje com total clareza argumenta o fato de somente após dezessete anos de trabalho ela ter sido capaz de reconhecer a importância do trabalho em equipe. O uso do modalizador mais antes de eficazes pressupõe a existência de formas menos eficazes de ensinar; mas é no trabalho em conjunto que surgem as melhores formas: E27 Na minha escola, o trabalho em equipe realmente funciona [...]. Juntos, planejamos [...], analisamos [...] e pensamos [...]. Além disso, semanalmente, me reúno com a orientadora pedagógica, que me ajuda a ver problemas [...] e me faz refletir [...]. Em E27, ao utilizar o pronome possessivo minha, a professora restringe o funcionamento do trabalho em equipe à escola dela, pressupondo que isso não é a realidade de outras instituições. Há uma duplicação opacificante por simples justaposição quando a docente, através de planejamos, analisamos e pensamos, reformula metaenunciativamente seus dizeres para explicar como acontece o trabalho em equipe. A utilização desses verbos na primeira pessoa do plural traz a voz dos colegas de trabalho para o dizer da professora. Assim, ela compartilha com os colegas a aprovação pelo trabalho em equipe e reforça o sentido dessa atividade: E28 Fazemos avaliações individuais dos pequenos em cada eixo curricular e registramos em que cada um precisa se desenvolver mais. 101 Assim como no anterior, no enunciado E28, a depoente se apossa da voz dos outros para reforçar o seu dizer. É possível que isso se dê pelo subentendido trazido pelo enunciado: dentro da realidade de várias escolas públicas brasileiras, aquela é uma postura de difícil execução. Muitos(as) professores(as) questionam a viabilidade do atendimento individual frente a salas de aula com trinta, quarenta alunos. No decorrer do texto, a professora explica como funciona esse atendimento e cita quem pode auxiliar no processo de ensino aprendizagem: E29 Os pais são outros grandes aliados no processo de ensino e aprendizagem [...]. Orientamos sobre como pode ser a ajuda em casa porque, afinal, eles não são educadores e não sabem exatamente como fazer isso [...]. Quando todos – família, professores e gestores – se envolvem, a criança sempre ganha. Segundo E29, o docente agora recebe ajuda dos pais, que, orientados, ajudam seus filhos. Contudo, os pais são considerados incapazes de educá-los, uma vez que não são educadores e a responsabilidade de educar recairia unicamente sobre os docentes. No excerto, há uma não coincidência do discurso consigo mesmo. Segundo Authier-Revuz (1998, p. 193), “toda palavra, por se produzir em „meio‟ ao já-dito de outros discursos, é habitada por um discurso outro”. Por conseguinte, a professora não pode desconsiderar que os pais também sejam educadores. Educadores não atuam apenas nas escolas, mas também em casa. O depoimento encerra com a professora enfatizando que as crianças são os maiores beneficiários do envolvimento coletivo. Por meio de glosas, o termo todos se restringe à família, aos professores e aos gestores e reforça a noção de que o docente, isoladamente, não consegue realizar um trabalho de qualidade. Pela análise, o Depoimento 4 articula, com o advérbio bem, que nem todos os docentes são considerados bons. Ao longo do texto, trata-se repetidamente da incapacidade dos(as) professores(as) de realizarem, sozinhos, um trabalho de qualidade e da consequente ajuda que eles precisam receber de outros profissionais da educação e dos pais. A depoente também faz uso da primeira pessoa do plural para justificar a importância do trabalho em equipe e do atendimento individual aos alunos. Isso, provavelmente, se deve a essas serem posturas difíceis de assumir na realidade docente, na qual profissionais trabalham em diferentes escolas e turnos, com turmas numerosas. Mais uma vez os docentes são marcados como os únicos responsáveis pela educação dos alunos, pois nem os pais podem realizar tal tarefa. 102 5.3.2.5 Depoimento 5 Na quinta característica, “Planejar e avaliar sempre”, o operador sempre indica a constância e a presença totalizante do planejamento e da avaliação. No título, “Observar para reorientar o trabalho”, o uso do prefixo re-, unido a orientar, pressupõe que as observações deverão ser contínuas e capazes de mudar, quantas vezes forem necessárias, o trabalho dos docentes. Esse depoimento começa com uma não coincidência do discurso consigo mesmo: E30 Comecei a dar aula aos 18 anos, enquanto cursava o Magistério [...]. Foi na licenciatura em Matemática que aprendi a importância de usar meios avaliativos para checar o que de verdade os alunos aprenderam e, com isso, verificar a qualidade e a consistência das estratégias de ensino para reorientar o trabalho em sala. A presença de dar aula se filia a um discurso tradicional da profissão docente e contraria o caráter inovador proposto pela reportagem. Como discutido na Seção 2, dar aulas remete ao docente missionário, como o eram os jesuítas, que não recebe recursos financeiros para exercer a profissão. O operador enquanto indica a circunstância de tempo em que esse dar aulas aconteceu: quando a depoente cursava o Magistério e ainda não tinha formação específica para lecionar. Essa formação só se complementou após a graduação. Com isso, o docente se torna verificador e conferidor da aprendizagem dos alunos, que tem de ser verdadeira. O trecho o que de verdade os alunos aprenderam pressupõe que alguns métodos avaliativos não reconhecem a aprendizagem e dão uma ideia falsa ao docente. Diante disso, o ideal de trabalho do(a) professor(a) se caracteriza nas palavras qualidade e consistência. O enunciado E31, abaixo, marca a continuidade do argumento sobre os instrumentos de controle (é fundamental), inclusive com a obrigação docente de acompanhar a linha temporal (passado, presente e futuro) do aprendizado. A professora descreve como realiza esse trabalho na sua turma e acrescenta: E31 Minha escola tem o currículo bem estruturado [...]. Como leciono para o 6º ano, ter clareza do que os alunos dominam em relação ao programa do segmento anterior é fundamental para garantir que eles acompanhem o andamento das atividades. O uso da glosa em E32 amplia o conceito de avaliação e, por consequência, o papel docente de avaliador: 103 E32 Durante todo o ano, vão se alternando os momentos de planejamento, as aulas e a avaliação – que não se baseia apenas em provas. No trecho, a partir do operador apenas, subentende-se que a maioria dos docentes atuais assume as provas como único instrumento avaliativo – tese que a professora rejeita. A docente elenca outros instrumentos: E33 Observo e registro estratégias usadas pelos alunos, as dificuldades e os avanços deles [...]. Assim procuro não deixar as dúvidas se acumularem e logo intervenho. Quando identifico alunos com dificuldades, me concentro em ajudá-los, enquanto quem está em dia com a matéria se ocupa de outras atividades. Trabalhos em grupo, durante as quais os colegas se ajudam, também são essenciais. Ao listar suas ações, a professora adjetiva os docentes: observadores; esclarecedores de dúvida; intervencionistas, que devem se concentrar em ajudar seus alunos, individualmente se necessário. O enunciado denuncia a heterogeneidade das turmas, nas quais encontram-se tanto os alunos com mais difuculdade quanto os com mais facilidade na aquisição do conhecimento. O uso da palavra essencial no final do excerto indica que o auxílio de um colega ao outro é necessário à própria execução do encargo docente de garantir a aprendizagem da turma. Em E34, que fecha o depoimento, a professora não é mais aquela profissional desafiada pelos problemas do ofício: E34 Algumas vezes, como lição de casa, proponho desafios complexos para a garotada. (...) Esse é mais um jeito de aproveitar da melhor maneira o potencial da turma e tornar meu trabalho ainda mais produtivo. Após compreender melhor o processo avaliativo dos alunos, é a professora quem propõe desafios. Ao nomear os alunos como garotada, a professora mostra que sua relação com eles é informal e próxima, como requerem as teorias mais modernas de educação. O termo “ainda mais produtivo” pressupõe que o desempenho da professora já era de qualidade e se aperfeiçoou com a incorporação da nova postura quanto ao sistema avaliativo. Pela análise do Depoimento 5, é premente os docentes atualizarem os métodos de avalição de seus alunos, adequarem-se a estes e oferecerem um ensino de qualidade, porque a maior parte dos(as) professores(as) assume as provas como único instrumento possível. Os docentes são retratados como avaliadores e verificadores da aprendizagem; exigem-se deles atitudes como observação e 104 intervenção, auxiliando os discentes individualmente quando necessário. Os docentes têm a obrigação de acompanhar o que os alunos aprenderam com professores(as) anteriores, o que os discentes estão aprendendo hoje e de planejar o que lhes será ensinado no futuro. Novamente, os docentes carecem da ajuda de outros para ensinar, pois inclusive os alunos com maior facilidade auxiliam os menos capacitados, de modo que a maior parte dos alunos possa aprender. Objetivo este que o docente, por si, não conseguiria atingir. 5.3.2.6 Depoimento 6 No estrato verbal do último depoimento, o topo da página traz: “Ter atitude e postura profissionais”. Por mencionar que essa característica compõe o novo perfil, subentende-se que o docente não tem essa conduta. Segundo o dicionário Michaelis39, define-se profissional como aquele que trabalha com profissionalismo, ou seja, que cumpre o seu trabalho “com seriedade, rigor, competência; procedimento do que é bom profissional”. Assim, a RNE considera que os docentes não exercem seu trabalho de forma correta, levando à desprofissionalização do magistério. Soma-se a isso, no subtítulo “Todos os alunos podem aprender”, o pressuposto de que nenhum aluno está sujeito a ficar sem aprendizado. No primeiro enunciado (E35) de seu depoimento, o professor narra seu desânimo quando iniciara seu trabalho na rede pública, e deixa subentender que ele já havia trabalhado na rede privada: E35 Meu primeiro trabalho na rede pública foi com turmas de 6º, 7º e 9º anos e, no início, me senti desanimado. Os alunos eram indisciplinados, não tratavam bem uns aos outros e discutiam bastante [...]. Mas, em vez de desistir, resolvi investigar melhor o porquê da indisciplina – e isso fez toda a diferença no meu trabalho. O professor explica que os alunos não tinham disciplina e se vale de glosas para deixar claro o sentido dessa indisciplina. Em seguida, ao investigar melhor o porquê da indisciplina, o docente se porta como um investigador. O uso do modalizador toda, no final do enunciado, demonstra que a sua postura afetou intensamente, para melhor, o seu trabalho. 39 Versão online. Cf. WEISZFLOG, 2007. 105 Já no enunciado E36, a seguir, o(a) professor(a) é visto(a) como profissional que, além de se preocupar com os acontecimentos da sala de aula, precisa estar ciente do extramuros, da realidade dos alunos: E36 Era necessário valorizar o que eles sabiam e, sobretudo, respeitar seu cotidiano. Aqui, o respeito ao cotidiano do aluno é da ordem do essencial, com o operador sobretudo indicando a prioridade e a relevância desse comportamento. Na sequência, o verbo mudar denuncia que o professor não agia dessa maneira antes: E37 O que me fez mudar de postura foi a crença de que todos, independente de seu histórico e comportamento, têm a capacidade e o direito de aprender e, por isso, devemos sempre esperar o melhor de cada um. No enunciado, há uma passagem da primeira pessoa do singular para a primeira pessoa do plural ao dizer que nós, os docentes, temos a obrigação (devemos) de estar, a todo o momento (sempre), aguardando o avanço de cada aluno. Pelo fato de este ser um processo demorado, provavelmente o uso da primeira pessoa do plural seja uma estratégia para incluir os outros docentes no seu dizer e torná-lo plural, persuadindo os demais a uma “adesão coletiva”. Nesse sentido, o professor acrescenta: E38 Todo docente deve analisar cada caso, olhar para as dificuldades de convivência, pensar em estratégias para sanar os problemas e criar o melhor ambiente para a aprendizagem. Em E38, os docentes são caracterizados como analistas e estrategistas. A utilização da palavra todo indica que eles, sem exceção, têm o dever de conhecer seus alunos individualmente. As glosas apontam como essa análise deve ser feita para que se resolvam os problemas e para que o ambiente de aprendizagem seja o mais adequado possível. O enunciado seguinte (E39) apresenta uma nova função aos docentes: E39 Envolver os pais nesse processo ajuda. Deixo claro para eles que é essencial mostrar aos filhos como se importam com a vida escolar deles. O papel de envolver os pais se deve às contribuições que estes podem trazer, uma vez que o docente é um profissional necessitado da ajuda de outras pessoas. O operador deixo claro indica que o depoente se mostra capaz de clarificar essa 106 questão e não tem dúvidas sobre a importância de os pais participarem da vida escolar dos filhos e ajudar os docentes na missão de ensinar. No enunciado a seguir, o professor sublinha que o seu intuito de discutir políticas públicas só pôde ser levado adiante ao retornar à universidade: E40 Para discutir com colegas sobre como as políticas públicas se afastam ou se aproximam do que o docente precisa, me tornei monitor no Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em E40 subentende-se que as discussões não acontecem na escola onde o locutor trabalha, porque, para elas ocorrerem, ele teve de se unir a um grupo de pesquisa específico. Afirma-se, então, que muitos docentes não reconhecem a importância dessas discussões. Ao que o professor conclui: E41 Essa reflexão deveria se estender a todos nós, professores, os principais interessados, juntamente com os alunos, na melhoria da qualidade do ensino. Em E41, a utilização do pronome pessoal nós une o depoente aos leitores, definindoos como docentes através da glosa de caracterização-determinação. Ao explicar que os docentes são os principais interessados, novamente vemos esses profissionais assumirem a responsabilidade de melhorar a qualidade de ensino. Nesse último depoimento, os docentes não possuem atitudes e posturas profissionais, sendo necessária a incorporação de tais atributos para que eles adquiram o novo perfil. Os(as) professores(as) precisam compreender melhor o mundo de seus alunos dentro e fora da escola para mudar a realidade e superar as dificuldades que levam ao desânimo profissional. Porém, trata-se de algo desafiador. Para envolver o leitor e convencê-lo de que aquilo é possível, o depoente utilizou a primeira pessoa do plural. Os docentes também são identificados como investigadores: devem analisar a situação vivida em sala de aula e criar estratégias para contornar os problemas. Reitera-se a concepção de que esses profissionais são os principais responsáveis pela educação, cuja melhoria depende das atitudes e posturas deles. Adicionalmente, os docentes têm o papel de envolver os pais para que estes possam auxiliar no processo de ensino e aprendizagem. 107 5.3.3 Análise das linhas do tempo As linhas do tempo se situam na parte inferior das páginas dos depoimentos e se referem às mudanças que ocorreram na esfera educacional brasileira ao longo dos anos, assim como às ações tomadas pelo governo com relação aos temas que envolvem as características descritas. A primeira linha do tempo (Figura 9, a seguir) traz o título “Diploma para todos” e o subtítulo “Graduação para os que não se formaram e pós para os demais – assim se persegue a qualidade”. Segundo o texto, a LDB (BRASIL, 1996) estipulou que os docentes devem ter curso superior, mas que é aceitável apenas a formação em nível médio no caso da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Em 2001, o Plano Nacional de Educação (doravante PNE) estabeleceu metas para facilitar o acesso dos docentes do ensino básico aos programas de mestrado e doutorado. Em 2006, foi instituída a Universidade Aberta do Brasil (doravante UAB), com cursos de graduação à distância para os docentes que residiam em locais mais distantes. No ano de 2007, terminou o prazo para admissão de profissionais sem formação superior. Em 2009, expirou o prazo para os estados elaborarem planos de carreira. Em 2010, o Senado Federal aprovou a lei que exige curso superior dos docentes da pré-escola e dos anos iniciais. Figura 9 – Linha do tempo do depoimento 1 Fonte: RNE, edição 236, p. 48. O título traz como pressuposto o fato de alguns docentes ainda não possuírem diplomas, subentendendo que estes irão proporcionar boa qualificação. Além disso, a presença do operador ainda reforça o argumento de que existem docentes sem a graduação. O operador assim nos leva à conclusão de que os diplomas serão responsáveis pela melhoria no ensino. No entanto, o termo persegue 108 a qualidade cria um efeito de distância entre a qualidade e a situação presente, pois só se persegue algo que não está ao alcance de nós. A utilização do operador somente nega a contratação de docentes sem graduação a partir de 2007, mas abre uma exceção através do operador ou, permitindo a contratação de pessoas não diplomadas. Isso indica que há uma tentativa por parte do governo de mostrar que ele não esteve inerte frente à questão da formação docente. Porém, a análise nos leva a um efeito de sentido contrário, pois demonstra que as medidas não foram executadas totalmente. A segunda linha do tempo (Figura 10, adiante) tem como título “Mais computadores nas escolas” e o subtítulo “A orientação atual é usar essa ferramenta como meio, e não como fim em si mesma”, mostrando a evolução ocorrida na esfera educacional brasileira quanto ao uso do computador nas escolas. De acordo com a linha do tempo, em 1981, a Universidade de Brasília, com o apoio do MEC, realizou o primeiro Seminário Nacional de Informática na Educação. Em 1989, o MEC criou o Programa Nacional de Informática na Educação para desenvolver a Informática nas redes. Esse programa foi renomeado Proinfo em 1997 e previa a implantação de laboratórios de informática nas escolas. A FVC realizou uma pesquisa, em 2009, segundo a qual 73% das escolas estaduais possuíam laboratórios de informática e 83% possuíam acesso de banda larga à internet. Figura 10 – Linha do tempo do depoimento 2 Fonte: RNE, edição 236, p. 49. A presença do operador mais no título indica que já existiam computadores nas escolas e que agora há um aumento deles nas mesmas. A palavra atual no subtítulo nos permite interpretar que havia uma orientação anterior na qual o uso do computador era um “fim em si mesmo”. Também no subtítulo há a utilização das glosas na forma dupla: 109 que acrescentam o conteúdo negativo ao conteúdo positivo da especificação de um sentido p, X no sentido de p e não no sentido de q, constituindo, assim, uma figura de fixação “máxima” do „jogo” do sentido em X (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 33; grifos na fonte). Isso significa que é necessário reforçar o modo de usar dos computadores para que estes não sejam usados erroneamente em sala, como fazem alguns docentes. Essa linha do tempo faz um levantamento das atitudes tomadas pelo governo brasileiro para tornar realidade o uso dos computadores nas escolas públicas. No entanto, essas ações são mais de estudos e programas de planejamento que de prática. Através dos enunciados, podemos subentender que apesar de a parcela (apontada pela RNE) de escolas com computadores e internet ser grande, é questionável se as escolas possuem espaço físico e treinamento para utilização desses recursos em benefício do processo de ensino e aprendizagem. A terceira linha do tempo (Figura 11, a seguir) mostra como as diretrizes curriculares foram se instaurando na história da educação brasileira. O título é “Diretrizes curriculares mais precisas” e o subtítulo, “Cada vez mais o ensino se baseia nos estudos sobre como as crianças aprendem”. Segundo o texto, em 1970, as primeiras obras de Jean Piaget foram publicadas no Brasil. Vinte e oito anos depois, o governo lançou os PCNs, com orientações para todos os conteúdos. No ano seguinte, o MEC elaborou o Referencial Curricular para Formação de Professores, para orientar o trabalho dos docentes nas diferentes disciplinas. Em 2008, a rede municipal de São Paulo, baseando-se nas novas didáticas, lançou orientações que passaram a ser seguidas por outras redes. Figura 11 – Linha do tempo do depoimento 3 Fonte: RNE, edição 236, p. 50. O título dessa linha do tempo traz o pressuposto de que as diretrizes não estavam claras o suficiente, sendo necessário defini-las melhor. O operador cada 110 vez mais, presente no subtítulo, indica que há uma intensificação nos estudos de como a criança constrói o seu conhecimento. A leitura dos elementos que compõem essa linha nos mostra que pouco se tem feito com relação às diretrizes curriculares. A leitura das obras de Piaget certamente influenciou a área, mas somente em 1998 ela ganhou dimensão nacional. As orientações dos PCNs e o Referencial Curricular para Formação de Professores são apenas sugestões e sua implantação não é obrigatória, levando-nos a entender que as medidas governamentais são mais teóricas que práticas. O lançamento das orientações propostas pelo munícipio de São Paulo também traz como pressuposto a desatualização dos PCNs, deixando subentendido que as orientações dadas precisam ser atualizadas e que o Governo Federal está deixando a cargo dos estados a implantação de diretrizes pedagógicas que se inserem nas novas tendências didáticas. A quarta linha do tempo (Figura 12, a seguir) traz a ideia de que o docente não deve trabalhar isoladamente. O título do texto é “O fim do planejamento solitário” e o subtítulo, “A troca de experiências com colegas e coordenadores é cada vez mais incentivada para aprimorar a prática”. De acordo com a linha do tempo, a LDB de 1961 definiu que os orientadores e supervisores deveriam ter no mínimo o curso Normal. Somente no ano de 1990, o coordenador passou a ser o responsável pela parte pedagógica e o gestor, por aproximar família e escola. A nova LDB (BRASIL, 1996) determinou que as redes deveriam reservar horas remuneradas para os docentes trabalharem e planejarem suas aulas em equipe. Dois anos depois, os PCNs, juntamente com o Projeto Político-Pedagógico das escolas, determinaram que os coordenadores deveriam auxiliar melhor os docentes. Em 2008, é proposta a Lei do Piso Salarial do Magistério, que alocou 1/3 da jornada de trabalho para a formação docente. Em 2010, diferentes redes colocam a proposta em prática. Figura 12 – Linha do tempo do depoimento 4 Fonte: RNE, edição 236, p. 51. 111 O pressuposto do título é o de que o planejamento solitário era algo comum no passado e agora chegou ao fim; afinal, só pode acabar algo que existiu ou teve início. A presença do operador cada vez mais no subtítulo argumenta sobre a intensa necessidade do docente de ser auxiliado por outros profissionais para realizar um trabalho de qualidade. Fica subentendido que o governo se exclui de qualquer responsabilidade sobre a formação desses profissionais. Apesar do desenvolvimento e dos benefícios para o ensino, percebemos que o trabalho em equipe ainda é de difícil realização. Dentre os principais obstáculos, podemos citar a falta de tempo gerada pelo trabalho em mais de um turno em diferentes escolas (cf. Seção 2). Como fator adicional, muitas redes municipais e estaduais mantêm a Lei do Piso Salarial do Magistério no papel, o que põe as mudanças na esfera teórica, sem concretização. A quinta linha do tempo (Figura 13, abaixo) aborda a evolução do currículo e dos sistemas avaliativos na educação brasileira. O título é “Currículo e avaliação ganham destaque” e o subtítulo, “Saber o que ensinar e checar a aprendizagem da turma constantemente são a base do trabalho docente”. Essa linha mostra que o SAEB foi criado em 1990 para checar a qualidade do ensino. Em 1996, a LDB fortaleceu as discussões sobre o currículo, e o MEC passou a realizar encontros regionais e nacionais sobre o tema. No ano de 1998, os PCNs trouxeram uma matriz curricular nacional, dividiram os conteúdos em eixos e explicaram os objetivos de cada um. Dois anos depois, o Brasil teve a possibilidade de comparar o seu nível de educação com o de outros países através da participação no Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (doravante PISA). Em 2005, foi criada a Prova Brasil, no intuito de analisar o desempenho das turmas das antigas 4ª e 8ª séries. Em 2008, a rede municipal de São Paulo foi a primeira a publicar orientações curriculares com as expectativas de aprendizagem para cada disciplina. Figura 13 – Linha do tempo do depoimento 5 Fonte: RNE, edição 236, p. 52. 112 No título, o uso do verbo ganhar traz o pressuposto de o currículo e a avaliação serem assuntos que não recebiam destaque anteriormente. O operador constantemente, presente no subtítulo, dá uma orientação argumentativa a respeito da frequência com que o docente precisa avaliar os alunos. Além de avaliar os alunos, percebemos que as provas parecem ser uma maneira de avaliar a própria prática docente. A utilização das expressões intensificam as discussões, passa a realizar encontros, o país participa e é criada a Prova Brasil nos levam ao pressuposto de que o governo brasileiro participou ativamente dos acontecimentos. Contudo, não se comenta sobre os resultados daquelas provas. Entendemos que há uma tentativa em escondê-los, apagá-los, porque eles não têm sido positivos. Segundo os resultados do SAEB/Prova Brasil de 2011 (INEP, 2012), numa escala de 0 a 9, a média nacional nos anos iniciais do Ensino Fundamental foi: 3 em Língua Portuguesa e 4 em Matemática. Nos anos finais, foi: 5 em Língua Portuguesa e Matemática, mostrando que os resultados não foram superiores a 50%. Quanto ao PISA (EDUCAR PARA CRESCER, 2012), em 2010, o Brasil ocupou a 53ª posição em Leitura e Ciências e 57ª em Matemática, dentre um total de 65 países. Na última linha do tempo (Figura 14, abaixo) o docente está em foco. Seu título é “O professor se torna agente da educação” e o subtítulo reforça o título: “Investir no estudante e discutir políticas públicas também é papel de quem leciona”: Figura 14 – Linha do tempo do depoimento 6 Fonte: RNE, edição 236, p. 53. A linha do tempo inicia em 1960, quando um novo conceito de educação começou a ser discutido: valorizar o conhecimento prévio da criança; considerar o(a) professor(a) como mediador(a) no processo de ensino e aprendizagem. Na década de 1990, o aumento dos alunos nas escolas obrigou os docentes a reverem suas concepções de ensino. A LDB de 1996 determinou que o Ensino Fundamental deveria funcionar em ciclos, para que os docentes pudessem ter mais tempo para 113 ensinar os alunos com maiores dificuldades. No ano de 2005, criou-se o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (doravante IDEB), que acompanha o desempenho das escolas. O verbo tornar traz o pressuposto de que antes o docente era passivo e não é mais, porque agora age diretamente na esfera educacional. O subtítulo reforça o título e, nele, o uso do operador também caracteriza o docente como um investidor, que deve aplicar todo o seu tempo e conhecimento nos alunos e ainda participar ativamente das discussões que cercam a esfera educacional. Note-se que o novo conceito de educação que começou a ser discutido em 1960 ainda está em pauta hoje, aproximadamente 50 anos depois, evidenciando a lentidão das mudanças educacionais no Brasil. Outro aspecto marcante é o uso do verbo ter na coluna de 1990. A obrigação do docente de rever seus conceitos de educação exime o governo e outros profissionais de qualquer responsabilidade. No ano de 1996, a responsabilidade é novamente atribuída ao docente. O enunciado “a LDB dá aos professores a chance de atender aos que necessitam...”, por estar na forma ativa, enfatiza os docentes, não os alunos. Em 2005, trata-se da função do IDEB, mas há recorrente omissão dos seus resultados e dados, já que os índices brasileiros na rede pública não são bons. Em 2011 (IDEB, 2012), os anos iniciais do Ensino Fundamental obtiveram média 4,7; os anos finais, 3,9; e o Ensino Médio, 3,4. Essas médias estão distantes da média 6,0, que corresponde a um sistema educacional de qualidade compatível ao dos países desenvolvidos. A análise das seis linhas do tempo indica que o governo tem tratado do assunto de cada depoimento ao longo dos anos. Essas informações mostram que o Brasil não esteve parado frente aos problemas da educação e reforça a ideia de que ele pretende continuar desenvolvendo leis, planos, parâmetros e projetos para que o processo educacional avance. Esse discurso exprime valores e visões de mundo do governo, fazendo com que eles sejam também compartilhados por todos. No entanto, muitas decisões governamentais levaram anos para serem tomadas e não se concretizaram, atestando a lentidão do governo frente aos problemas educacionais. Como afirma Romualdo Oliveira (2011), o Brasil ainda não dá prioridade à educação em suas ações. O País reconhece que o ensino deve melhorar para que haja crescimento econômico e desenvolvimento social, mas os planos não são traduzidos em ações. Como exemplifica o autor, o Plano Brasil 114 202240 traça perspectivas de onde o País quer chegar, mas não delimita planos práticos que levem a ações. Ainda segundo a análise dos dados descritos, o município e o estado de São Paulo estão à frente dessas mudanças, enquanto o restante do País está defasado em educação. Ressaltamos que as linhas do tempo apresentam apenas aspectos positivos, omitindo a realidade cruel da má qualidade do ensino. Em meio a essa conjuntura, ao docente fica reservado o dever de se atualizar, buscar técnicas de ensino e aprendizagem mais modernas, desenvolver um papel ativo na educação, de modo a ofertar um ensino de qualidade. Outro fator interessante é que a figura dos(as) professores(as) é marcada pelos instrumentos avaliativos. De acordo com os resultados positivos ou negativos dos discentes, a prática docente também é examinada. Também nas linhas do tempo, os docentes são considerados incapazes de utilizar os computadores adequadamente em sala de aula e de realizar um bom trabalho sozinhos. Reaparece a necessidade de a comunidade educativa (coordenadores, diretores, pais etc.) ajudar esse profissional. Ao governo é reservado o papel de fiscalizar e criar leis, sem muitas demandas. 5.4 As Representações Sociais sobre os Docentes A análise da reportagem sugere a presença de diversas RSs referentes aos docentes, considerados como um todo. Ao abordar as características a serem incorporadas por aqueles profissionais, as RSs muitas vezes se dividem entre os profissionais de hoje e os do futuro. Dos docentes, no geral, a primeira RS que encontramos se estabelece na figura da mulher. A presença feminina é dominante nas imagens, mesmo quando o estrato verbal tenta afirmar o contrário com o uso da palavra professor no gênero masculino. Além da capa, que retrata como fundo a mulher e exibe mais fotos de professoras que de professores, os depoentes são em maioria mulheres (com apenas um depoente homem). Logo, ainda predomina na nossa cultura a feminização do magistério (cf. Seção 2). 40 Elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, o Plano Brasil 2022 é um documento que tem como objetivo “pensar estrategicamente o futuro do País, fixando metas para o ano de 2022, quando o Brasil comemora o bicentenário de sua independência” (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2009). 115 Tanto na análise das imagens quanto de alguns estratos verbais, encontramos a RS sobre os docentes construída através do coletivo, ao invés do individual. Enfraquecidos diante de suas realidades, os docentes precisam de sua coletividade para que sejam reconhecidos. Aliada a isso, há a RS de que o docente é um profissional que precisa constantemente de ajuda. Considerado incapaz de realizar as suas tarefas sozinho, demanda, a todo momento, auxílio de pais, coordenadores, demais colegas de trabalho e dos alunos para que a qualidade se instaure no processo de ensino e aprendizagem. Sobre os docentes de hoje, encontramos uma RS mais tradicional, caracterizada por práticas e métodos de ensino e aprendizagem ultrapassados. Essa RS constrói professores(as) como resistentes às mudanças, às novas técnicas educacionais. São evidência disso, em vários momentos, o discurso relatado de pessoas e entidades renomadas e a primeira pessoa do plural, para reforçar e legitimar a ideia de que os docentes devem incorporar o novo perfil. A junção de vozes gera um efeito de envolvimento pessoal de cada depoente, o que causa uma proximidade física, como em uma interação face a face, com o leitor/docente, para que este se convença da adesão aos novos atributos. Uma das RSs mais marcantes é a que considera os docentes ultrapassados e, consequentemente, mal preparados para exercer o magistério. Através de enunciados como não estava preparada, senti dificuldade e me senti desanimado, observamos que os cursos de graduação não são suficientes para formar esse profissional adequadamente. O uso frequente de bom e bem reforça a existência de maus(más) professoras(es), projetando como eles(as) devem ser e agir. Somos, então, direcionados para outra RS: a dos docentes do futuro como profissionais altamente estudiosos que retornam à universidade para superar o despreparo e a má formação. Referem-se a essa postura o aparecimento dos verbos: estudar, aperfeiçoar, aprender, aprimorar, desenvolver, entender, atualizar, conhecer, aprofundar, investir, descobrir, compartilhar, refletir, acompanhar, envolver, reorientar, observar, concentrar, investigar, analisar, pensar, criar. Ao percorrer esse caminho, “o professor do século 21” tem a RS de um profissional que busca a excelência e que almeja a perfeição. Seu papel se torna extremamente ativo dentro do processo de ensino e aprendizagem, no qual deve-se assumir a incansável postura de estudar e se aperfeiçoar profissionalmente para a qualidade da educação alcançar padrões mais elevados. Se a única solução para os 116 problemas educacionais brasileiros é a formação docente, surge outra RS: a desse profissional como o principal, e às vezes o único, responsável pelo sucesso/fracasso escolar. Além de o estrato verbal trazer essa concepção repetidamente, as imagens dos depoentes retratam essa RS, na medida em que a maioria deles está em posição de destaque frente aos olhos do leitor. Ao mesmo tempo, o docente do futuro é capaz de se adequar e acompanhar a realidade de seus alunos, atendendo-os individualmente e se preocupando com todas as etapas do processo educacional. Para tanto, eles têm uma RS comparável à de um investigador: precisam observar o dia a dia discente dentro e fora das escolas, descobrir o que é melhor para seus alunos e criar estratégias de intervenção pedagógica e social. Essas RSs sobre os docentes estão mais no plano ideal que real, como visto na análise das imagens e do estrato verbal. As linhas do tempo na parte inferior da página e as imagens na parte superior também reforçam isso, pois o que tem sido feito é real, mas os(as) professores(as) que já incorporaram as novas caracterisicas são mais ideais que reais. Na verdade, o tempo no qual os docentes são situados também é imaginário, pois eles não se encaixam no passado, nem no presente e tampouco somente no futuro. Há uma imprecisão quanto a esse tempo, situando o docente em um entre-lugar. Talvez por isso, a RS sobre os docentes demande que eles se autoafirmem: a presença constante da primeira pessoa do singular em todos os depoimentos é uma forma de autoafirmação na qual as falas dos docentes estão carregadas de cunho moral e dignificador da função. Após o levantamento das RSs sobre os docentes, identificamos a presença de diversas vozes presentes no discurso da reportagem. Ao mesmo tempo em que essas RSs retratam “O novo perfil do professor”, essas RSs nos direcionam para o lado oposto, para perfiis mais antigos. Esse novo perfil docente ainda está preso ao passado, a um discurso mais tradicional, mesmo com o esforço por parte dos estratos verbais e não verbais em prol da mudança. Vários discursos outros perpassam aquele sobre o novo perfil docente, tornando-o instável. O que a reportagem efetivamente mostra é que o perfil docente passa por um período de transição. Não se situa completamente em um discurso mais moderno e ainda está preso a um discurso tradicional, sendo formado pelo hibridismo de ambos. 117 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise da reportagem O novo perfil do professor nos fez refletir sobre o docente como sujeito no contexto histórico e cultural da educação brasileira. Percebemos que o discurso sobre ele é unilateral e se situa em plano mais ideal que real. Somente os deveres desses profissionais são mencionados, e de maneira positiva, silenciando os conflitos e dificuldades que podem ocorrer, em prol de harmonia. Acreditamos que a incorporação das características mencionadas pela RNE é realmente importante para o docente, pois a qualidade da educação também está relacionada à qualidade desses profissionais. Porém, incorporar essas características se torna algo difícil, pois as condições em que professores(as) se inserem são muitas vezes precárias, como falta de recursos básicos em sala de aula, baixos salários, muitas turmas e número excessivo de alunos em cada uma delas (cf. Seção 2.2.1). Aliado a isso, enquanto a educação brasileira não abandonar a ideia de que somente os docentes são responsáveis pela qualidade do ensino, será difícil alcançar avanços. A cultura educacional não pode só culpar esses profissionais e, sim, envolvê-los, e estabelecer um diálogo para que os processos de atualização e aperfeiçoamento não se façam em tom de ameaça, verticalmente de cima para baixo. Ao mesmo tempo, vários docentes, que tentam se adequar ao “novo perfil”, se sentem incapazes ou cansados de realizar tantos esforços, o que pode levá-los a adquirir doenças ocupacionais e/ou a entrar em burnout. Segundo Campos (2009 apud LACAZ, 2010), os principais fatores que prejudicam a saúde dos trabalhadores são a sobrecarga quantitativa (muito a fazer, em pouco tempo) e a exigência qualitativa (a busca por um profissional de excelência). Na análise, percebemos que ao descrever “o novo perfil do professor” esses dois fatores estão explícitos na reportagem. Talvez a profissão docente esteja sofrendo desvalorização devido a essa carga excessiva lançada sobre os(as) professores(as), a sua baixa remuneração e às más condições de trabalho. Com isso, o número de docentes está diminuindo (cf. 118 Seção 2.2). Segundo dados do INEP41, o número de professores(as) na educação básica caiu de 2.500.554, em 2007, para 1.977.978 no ano de 2009. Ainda de acordo com o Censo da Educação Superior de 2007, também divulgado pelo INEP, a procura por cursos de licenciatura caiu 4,5%. Para reavivar o interesse pela profissão, o MEC criou o piso salarial do magistério e está desenvolvendo campanhas de valorização docente. Uma dessas campanhas inclui a criação de um site42 para atrair e incentivar mais pessoas a ingressarem no magistério. No entanto, parece-nos que essas medidas não têm sido suficientes, porque a plena expansão do mercado de trabalho oferece opções e oportunidades bem mais atraentes aos olhos dos futuros profissionais. Quanto ao papel da imprensa periódica educacional, ao descrever as características integrantes do “novo perfil do professor”, a RNE oferece uma espécie de receita ou cartilha, sugerindo que, se o docente a seguir, ele será um profissional de qualidade do século 21. Segundo essa cartilha, o docente precisa se aperfeiçoar, saber utilizar os computadores em prol do aprendizado, se manter atualizado, trabalhar em equipe, ter um planejamento, avaliar os alunos constantemente, assumir atitude e postura profissionais. A reportagem não reconhece o sujeito como dinâmico e constrói uma identidade una e fechada para esse profissional. A RNE se esquece de que o sujeito está em constante transformação: ele assume sua singularidade (e não unidade) através de uma identidade que não seja fixa (HALL, 1997). Enunciados como “sinto cada vez mais confiança”, “me deu meios para trabalhar com mais qualidade”, “hoje tomo decisões com mais segurança”, “hoje tenho total clareza de que (...) é possível descobrir formas mais eficazes de ensinar”, “tornar meu trabalho ainda mais produtivo” e “isso fez toda diferença no meu trabalho” também causam efeitos de sentido persuasivos. Através dos pontos positivos que a incorporação das características do novo perfil traz, a RNE atrai o leitor/professor e pode convencê-lo a adquiri-las. A argumentação é construída a partir do outro (CARMAGNANI, 2001), e é com esse outro (os depoentes) que a reportagem dialoga, possibilitando que o leitor se identifique e tenha o desejo de ser conduzido e modificado por ela. Essa estratégia de persuasão vai ao encontro dos ideais propostos pela RNE, porque ela 41 42 Disponível em: http://portal.inep.gov.br/web/censo-da-educacao-superior http://sejaumprofessor.mec.gov.br/ 119 tem como missão capacitar os(as) professores(as) e demais profissionais da educação. Além disso, a reportagem da RNE tem um discurso unilateral, pois, apesar de composta por diferentes vozes (como a de especialistas, professores, editores e do Governo Federal, através do MEC), elas convergem para um mesmo ponto de vista: os docentes são os principais, e às vezes únicos, responsáveis pelo sucesso/fracasso escolar. A RNE sugere uma estrutura hierárquica dos papéis sociais, retratando o que está em toda parte e que quase sempre é ignorado: o poder simbólico. O termo de Bourdieu (1989) se refere a um poder invisível que é exercido sobre/por pessoas que não sabem – ou não querem saber – que estão sujeitas a ele, levando a um conformismo. Pela sugestão de modos de pensamento e ação, a RNE exerce esse poder e age sobre seus leitores do mundo educacional através da força da enunciação. Por isso, ao analisar o discurso da Revista, não podemos omitir as relações de poder e os posicionamentos políticos imbuídos nela. Outro fator relevante é a visão hegemônica apresentada pela RNE. O número de mulheres que compõem os depoimentos é maior, sendo a maioria delas docentes da região Sudeste, brancas, na faixa etária de 25 a 44 anos, o que representa o perfil dos leitores da RNE, (cf. Seção 3.2.2). O periódico tende a excluir margens, ou seja, dá menos voz aos docentes homens, às professoras negras, mais velhas e de outras regiões do País. Portanto, a RNE reproduz em suas páginas o seu público-leitor e traz à tona uma cultura hegemônica, na qual o docente deve ser mulher, branca, jovem e da região Sudeste. Nesse sentido, “o novo perfil do professor” retratado pela reportagem não é inovador: é marcado pela feminização do magistério, o que reforça uma visão estigmatizada sobre os docentes. Na verdade, o perfil descrito pela reportagem é elaborado a partir de perfis preexistentes, que contém diversas RSs, que dialogam entre si, sobre os docentes do futuro: (i) eles não devem medir esforços para se aperfeiçoarem e estarem em constante processo de formação; (ii) eles devem sempre buscar a excelência e a perfeição na realização do trabalho; (iii) eles são os principais, e às vezes os únicos, responsáveis pelo sucesso e/ou fracasso escolar; (iv) eles devem estar atentos à realidade de cada um de seus alunos, dentro e fora da escola, para poderem intervir de maneira pedagógica e social; (v) eles precisam se autoafirmar e mostrar a importância da profissão. No entanto, outra RS aparece e se opõe às demais: o 120 docente é considerado incapaz de realizar um bom trabalho, porque precisa constantemente de ajuda. Logo, há uma tensão entre as RSs construídas, em que tudo depende dos docentes, mas nada eles conseguem fazer sozinhos. Depreendemos da pesquisa que a cultura escolar brasileira apresentada pela RNE se situa em um tempo indefinido que oscila entre o passado, o presente e o futuro, mesclando discursos tradicionais e outros mais modernos em prol de algo que ainda está por vir. Essa cultura se define no entrecruzamento desses discursos e traz à tona uma fase de instabilidade e transição. Isso mostra que cultura escolar brasileira passa por um momento de crise, pois ela não consegue assumir uma postura frente às necessidades e dificuldades da atualidade. A reportagem apresenta práticas, normas, ideias e procedimentos que expressam modos de fazer e de agir dentro do cotidiano escolar e silencia os problemas vivenciados por aquela cultura. A desvalorização docente não é colocada em pauta e, dentro da cultura escolar, esse profissional é colocado como o único responsável pelo processo de ensino e aprendizagem. Os demais integrantes da comunidade educativa ficam excluídos de qualquer culpa sobre o fracasso escolar vivenciado pelo Brasil hoje. Há na cultura escolar brasileira uma concepção ultrapassada de que a formação e as atitudes docentes sejam as únicas maneiras de melhorar a qualidade do ensino. Essa cultura precisa se modernizar e perceber que é muito mais complexa que a prática de ensinar e aprender. Ela envolve aspectos ideológicos e sociais que estão fora do alcance do(a) professor(a). A mídia, especificamente a imprensa periódica educacional, ao invés de trazer um discurso idealizado, que esconde os problemas enfrentados pela Educação Brasileira, deveria reconhecer a totalidade e mostrar tanto os aspectos positivos quanto negativos envolvidos na questão. Assim, poderíamos ter a chance de superar as dificuldades e realizar reformas educacionais, que na prática, não dependam unicamente dos docentes e que possam realmente elevar a qualidade do ensino brasileiro. 121 REFERÊNCIAS ABEP. Critério de Classificação Econômica Brasil. Disponível em: <http://www.abe p.org/novo/Content.aspx?ContentID=301>. Acesso em: 13 out. 2011. ABICALIL, Carlos Augusto. Prefácio. In: CODO, Wanderley (coord.). Educação: carinho e trabalho. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006. p. 11-16. ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado: notas sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Rio de Janeiro: Graal, 1987. ANDREA Carlos F. B. d‟; RIBEIRO, Ana Elisa. 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