Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR NOS CURSOS DE LICENCIATURAS ESPECÍFICAS DA UVA CAMPANI, Adriana ([email protected]) Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA RESUMO Formar um professor técnica e politicamente competente significa integrar conhecimentos, habilidades, crenças, valores, emoções e comprometimentos em sua formação. A experiência cotidiana do professor materializa-se em processos de construção de práticas educativas, cujo saber-fazer se constitui num saber próprio produzido pelas diferentes racionalidades que compõem o saber docente. Vê-se, então, a importância da articulação dos saberes da memória e da ação docente como um princípio de formação inicial e continuada nos Cursos de Formação de Professores. Os princípios que norteiam esse processo de formação sustentam-se na “autoformação” e na “formação permanente” em que o docente exerce uma prática contextualizada, histórica e cultural, ancorada em sua formação, em seus valores e sua prática institucional. É nesse sentido que a ação mediadora é desenvolvida, favorecendo a apropriação, ressignificação e produção de novos saberes docentes. Sendo assim, objetivamos apresentar nesse trabalho a experiência da Ação Pedagógica Mediadora realizada nos Cursos de Licenciaturas Específicas - CLE da Universidade Estadual Vale do Acaraú – Ceará/Brasil. Essa experiência tem como princípio teórico-metodológico a articulação dos saberes pedagógicos e específicos na formação inicial do professor na universidade, visando a construção de uma identidade profissional de docência. Essa articulação é promovida durante um processo que denominado de “ação pedagógica mediadora” durante a realização dos estágios supervisionados dos Cursos de Licenciaturas Especificas da UVA. A Ação Pedagógica Mediadora ocorre em três momentos diferentes mas articulados entre si: a) docência e a Escola no Ensino Fundamental, b) Docência e a escola no Ensino Médio e c) Docência, Escola e Pesquisa. Os dois primeiros momentos é de observação e problematização do cotidiano, dos rituais, das regras, dos valores, das ações e da estrutura que constitui a instituição escolar. E o terceiro momento, o aluno realizará uma prática de pesquisa com temáticas relacionadas a docência escolar na sua área de formação, a partir das Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 problematizações realizadas nos momentos anteriores. Trata-se de uma experiência que busca articular o conhecimento específico das áreas com o conhecimento pedagógico tomando como objeto de estudo e reflexão o ensinar e o aprender no sistema escolar. Parte-se da premissa de que a formação do professor-aluno deve ser construída a partir do seu saber-fazer de cada professor. Investe-se numa proposta de formação de professores na Universidade que valorize o conhecimento produzido nas práticas dos sujeitos afim de que essas práticas sejam o ponto de partida para essa formação e não o ponto de chegada. 1. Introdução A Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA oferece o Programa de Formação Docente em licenciaturas específicas – CLE/UVA. A oferta desses cursos atende à política de interiorização do ensino superior da UVA e amplia o acesso à universidade, principalmente de professores leigos que atuam em disciplinas específicas, sem a devida habilitação. O Programa de Licenciaturas Específicas compreende que a formação do professor integra conhecimentos, habilidades, crenças, valores, emoções e comprometimentos. Pauta-se nos princípios de que a experiência cotidiana do professor materializa-se em processos de construção de práticas educativas, cujo saber-fazer se constitui num saber próprio produzido pelas diferentes racionalidades que compõem o saber docente. Está colocado a importância da articulação dos saberes da memória e da ação docente como um princípio de formação inicial e continuada nos Cursos de Formação de Professores. Os princípios que norteiam esse processo de formação sustentam-se na “autoformação” e na “formação permanente” em que o docente exerce uma prática contextualizada, histórica e cultural, ancorada em sua formação, em seus valores e sua prática institucional. É nesse sentido que a ação mediadora é desenvolvida, favorecendo a apropriação, ressignificação e produção de novos saberes que constituem a prática docente. Sendo assim, objetiva-se apresentar os pressupostos que fundamentam a formação do professor no programa CLE/UVA, destacando o Estágio Supervisionado como um momento crucial de construção e reconstrução dos saberes da prática do professor que esta em processo de formação inicial. O programa parte da premissa de que a formação do futuro professor deva valorizar o conhecimento produzido nas práticas dos sujeitos afim Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 2 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 de que essas práticas sejam o ponto de partida para essa formação e não o ponto de chegada. 2. Estágio supervisonado como uma ação pedagógica mediadora A formação e profissionalização do professor é um tema que emerge no quadro das reformas educativas nos anos 1990 dentro de um conjunto de mudanças educacionais associado à reestruturação produtiva e políticas de ajuste, no âmbito do capitalismo. Estas políticas requerem qualidade na educação através de mudanças nos currículos, na gestão educacional, na avaliação dos sistemas, e na profissionalização dos professores. As pesquisas sobre formação de professores e profissão docente realizadas pós décadas de 80 e 90, no âmbito nacional e internacional, apresentam a compreensão de que a prática docente mobiliza saberes profissionais. Essa afirmação vem oxigenar o debate sobre a identidade epistemológica da profissão docente. Os princípios que norteiam esse processo de formação sustentam-se na “autoformação” (Dominicé, 1992) e na “formação permanente” (Nóvoa, 1992) em que o docente exerce uma prática contextualizada, histórica e cultural, ancorada em sua formação, em seus valores e sua prática institucional. É nesse sentido que a ação mediadora é desenvolvida, favorecendo a apropriação, ressignificação e produção de novos saberes docentes. Nóvoa (1992) contribui na perspectiva da formação de um profissional reflexivo ao fazer uma análise do percurso histórico da profissão docente. Destacando a presença da racionalidade técnica na formação docente, o autor acredita que uma forma de romper com esse princípio é investir na formação de um profissional crítico-reflexivo, valorizando três princípios: a) a vida do professor (desenvolvimento pessoal); b) profissão docente (desenvolvimento profissional); e c) escola (desenvolvimento organizacional). Da mesma forma, Pimenta (1995, p.53), afirma que “a formação docente sempre passa pela mobilização de vários tipos de saberes: saber de uma prática reflexiva, saber de uma teoria especializada, e saber de uma militância pedagógica.” A autora entende que os problemas da prática profissional docente não são meramente instrumentais, mas "comportam situações problemáticas que requerem decisões num terreno de grande complexidade, incerteza, singularidade e de conflito de valores" (idem). Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 3 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 Sendo o saber docente um saber plural, complexo, racional, valorativo, cultural e histórico, acredita-se que a produção desse saber se dá na relação que o docente estabelece com os seus saberes num contexto de prática educativa, configurando-se no saber da prática docente. E é na valorização desse saber docente que o princípio de formação inicial dos professores na universidade deve se sustentar. A valorização do saber docente requer um processo de mediação pedagógica entre o aluno e o professor-orientador do estágio. A mediação passa ser um núcleo articulador dos saberes docentes, uma vez que é nela que as discussões, debates e análises de temas e questões específicas demandadas da prática educativa vão se configurar. Assim sendo, é na mediação que os sujeitos (professores-orientadores e alunos) irão resgatar as questões, as inquietações, as práticas e as possibilidades de superação e aprimoramento de suas atividades, a partir da análise e reflexão crítica. Para tanto se faz necessário mostrar em que consiste, qual a finalidade e importância da mediação para o aprimoramento da prática educativa. No Estágio Supervisionado do Programa CLE, a Mediação apresenta-se como um espaço de reflexão teórico-prática através do qual o professor-orientador junto ao seu professor-aluno encaminha leituras, debates, procedimentos de análise da realidade escolar de maneira que as inquietações, as questões, os problemas possam ser devidamente identificados, analisados e solucionados por todos os membros envolvidos nesse processo. Esse espaço realiza-se através do envolvimento de todos os integrantes do referido curso e não só naquele restrito às reuniões entre o professor-orientador e o aluno. Na Mediação estão envolvidos, basicamente: o professor-orientador, o aluno, a própria realidade escolar com suas interrogações e os referenciais teórico-metodológicos trabalhados nas disciplinas do curso. A Ação Pedagógica Mediadora realizada nos Cursos de Licenciaturas Específicas CLE da Universidade Estadual Vale do Acaraú – Ceará/Brasil tem como princípio teóricometodológico a articulação dos saberes pedagógicos e específicos na formação inicial do professor na universidade, visando a construção de uma identidade profissional de docência. Essa articulação é promovida durante a realização dos estágios supervisionados dos Cursos de Licenciaturas Especificas da UVA e objetiva promover uma formação em que o aluno desenvolva competências específicas para o exercício de uma prática docente crítica, reflexiva, propositiva e transformativa. Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 4 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 O sentido de competência apresentado nesse projeto parte da premissa de que a competência docente é processo dinâmico de construção pessoal, histórica, social e cultural. Ela se constitui num movimento interativo e reflexivo no fazer docente. A competência docente é um conhecimento adquirido em um processo complexo de relações institucionais de modo que essa competência se aplica ao saber refletir, organizar, selecionar e integrar aquilo que possa ser melhor realizado na atividade profissional (Imbernón, 1998). Portanto, a competência docente é uma decisão a ser tomada em uma situação complexa de relações sociais,culturais e institucionais onde a aprendizagem deve ser promovida e gestada. Trata-se de uma experiência que busca articular o conhecimento específico das áreas com o conhecimento pedagógico tomando como objeto de estudo e reflexão o ensinar e o aprender no sistema escolar. Parte-se da premissa de que a formação do professor deva ser construída a partir do seu saber-fazer. Investe-se numa proposta de formação de professores na Universidade que valorize o conhecimento produzido nas práticas dos sujeitos. Diante disso, busca-se realizar uma prática de Estagio Supervisionado que desenvolva no aluno competências docentes para gestar o processo de ensino e aprendizagem, bem como sua formação e autoformação profissional. 1.1 Competências para gestar o processo de ensino e aprendizagem: • Ensinar os conhecimentos específicos da área de formação considerando os diferentes saberes (históricos, econômicos, políticos, sociais, culturais, artísticos, afetivos, cognitivos, etc.) que constituem a ação humana; • Desenvolver uma prática docente interdisciplinar, promovendo competências necessárias a educação básica; • Criar e socializar atividades pautadas nos princípios dos Parâmentros Curriculares Nacionais das áreas específicas, no sentido de aprimorar ou inovar as práticas existentes na escola; • Planejar o ensino na pedagogia de projetos; Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 5 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 • Elaborar e executar projetos curriculares visando o aprimoramento do ensino e da aprendizagem dos conhecimentos curriculares e os que dele demandam. Planejar e desenvolver uma prática docente que promova a aprendizagem • dos conhecimentos escolares no ensino fundamental e médio; Planejar o ensino considerando os problemas ou dificuldades existentes no • contexto escolar onde irá realizar sua prática; • Analisar as dificuldades de maneira que as mesmas possam ser superadas; • Realizar práticas pedagógicas que desenvolvam o senso crítico e a criatividade; Conceber o processo de ensino-aprendizagem como objeto da sua profissão e • nele garantir o sucesso e a superação do aluno; Agir com rigorosidade metódica através da capacidade crítica, criatividade e • propositividade nas relações de ensino-aprendizagem Dialogar com as demais áreas do conhecimento visando uma prática • educativa interdisciplinar; • Identificar e mediar a diversidade cultural existente nas relações educativas; • Utilizar novas tecnologias e estratégias eficientes para promover a aprendizagem dos alunos; Pesquisar conhecimentos pertinentes a prática de ensino no contexto escolar. • 1.2 Competências para a gestar a formação e autoformação docente: o Articular, analisar e desenvolver os saberes da prática docente numa interlocução entre os diferentes saberes: científicos, políticos, profissionais, sócio-culturais...; o Transformar os conhecimentos da área específica em saberes relevantes para a transformação da realidade escolar; o Analisar a relações constitutivas do processo educativo na escola (professor-aluno; professor-professor; professor-gestão; professor-familia); o Produzir, sistematizar e tornar público conhecimentos que dão sustentabilidade a prática docente, com rigor ético e científico; Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 6 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 o Articular leituras teóricas e sínteses das atividades realizadas na área específica com questões sócio-culturais; o Refletir criticamente sobre os saberes da prática a partir das experiências e formação adquirida; o Analisar as diretrizes políticas, econômicas e sociais para educação e suas relações com a prática docente na escola. 1.3 Etapas de realização do Estágio Supervisionado O estágio supervisionado organiza-se em quatro etapas. Cada etapa objetiva desenvolver uma competência básica na formação do aluno, seguida de outras específicas e habilidades relacionadas. As competências básicas e as habilidades estão associadas às competências gerais, conforme pode ser visto na tabela a seguir: Etapa Competências Básicas Estágio I: Ação Observação, docente no Ensino planejamento e Fundamental desenvolvimento da prática docente no Ensino Fundamental. Estágio II: Ação docente no ensino Médio Observação, planejamento e desenvolvimento da prática docente no Ensino Médio Estágio III: Prática de pesquisa na Análise científica dos processos educativos Competências Específicas 1. Conhecimento conceitual sobre: escola, currículo, planejamento de ensino, avaliação escolar; 2. Observação da escola e da ação pedagógica no ensino fundamental; 3. Planejamento do ensino por pedagogia de projetos e competências; 4. Ensino de conhecimentos específicos em consonância com o currículo escolar; 5. Analise da prática docente observada e realizada; 6. Produção de relatório da prática docente no ensino fundamental. 1. Observação da escola e da ação pedagógica no ensino médio; 2. Planejamento do ensino por pedagogia de projetos e competências; 3. Ensino de conhecimentos específicos em consonância com o currículo escolar; 4. Analise da prática docente observada e realizada; 5. Produção de relatório da prática docente no ensino fundamental. 1. Elaboração de um projeto de pesquisa; 2. Pesquisa bibliográfica referentes ao tema do Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 7 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 educação básica Estágio IV: Elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso inerentes ao ensino do conhecimento específico na Educação Básica. Produção de um trabalho científico 3. 4. 5. 1. 2. 3. 4. projeto; Pesquisa empírica; Sistematização e analise de dados; Produção de um artigo científico sobre os resultados da pesquisa. Reflexão sobre a prática docente a partir dos conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação no Estágio Supervisionado e no curso; Síntese das produções das etapas I, II e III do Estágio Supervisionado; Escrita, organização, digitação e revisão de um texto seguindo as normas técnicas científicas; Produção individual e apresentação pública do trabalho, conforme as normas institucionais. O Estágio IV é a etapa final do estágio supervisionado e será nela que o aluno se dedicará à elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, produto final da sua formação no Programa de Formação Docente. A estrutura do Trabalho de Conclusão de Curso pode variar de acordo com a necessidade do Programa. No entanto o conteúdo desse trabalho deve contemplar, no mínimo, os produtos de cada etapa do Estágio Supervisionado, de forma que se expressem os saberes constituídores da formação docente no aluno do Programa de Formação Docente. 2. Prática de Pesquisa Contrapondo-se ao paradigma da razão instrumental que valorizava com exclusividade os saberes específicos sobre a disciplina (década de 1960) e os aspectos didáticos metodológicos relacionados ao ensino (década de 1970), e revendo o discurso educacional negativo da prática pedagógica dominado pela dimensão sócio-política e ideológica da década de 1980, autores como Nóvoa (1992), Tardif (1991) e Pimenta (1999) destacam a importância de se pensar a formação do professor numa abordagem que vá além da acadêmica. Desta forma, passa a ocorrer o desenvolvimento pessoal, profissional e o contexto político-social da profissão. Partem do princípio de que o professor é um profissional que adquire e desenvolve conhecimentos a partir da prática e no encontro com as condições da profissão (Nunes, 2001). Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 8 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 A existência de um conhecimento profissional do professor, que vai se construindo ao longo da sua carreira, alimenta a idéia de que os saberes mobilizados pela prática profissional do professor, saberes da experiência (Tardif, 2000; Therrien, 1995), integram a identidade do professor e, portanto a identidade epistemológica da sua prática profissional. Considerando a vida cotidiana como objeto de conhecimento, a epistemologia da prática aborda a integração das dimensões pessoal e profissional. “[...] o professor é a pessoa; e uma parte importante da pessoa é o professor” (Nias 1991, apud Nóvoa, 2000). Essa orientação deu origem a estudos de caráter “holista” (Huberman, 2000; Goodson, 2000) que identificam, no profissional, as dimensões do saber, do fazer, do ser e do conviver. A epistemologia da prática pressupõe criar novos objetos epistemológicos como o cotidiano e os jogos de linguagem no contexto da ação. Esta criação ocorre numa dimensão sócio-histórica conferindo legitimidade aos saberes práticos do professor. Ela passa ser a questão central no movimento da profissionalização docente (Tardif, 2000). Tardif (2000) define como uma nova epistemologia da prática: o estudo do conjunto de saberes utilizados realmente pelos professores profissionais em seu espaço de trabalho para o desempenho de todas as suas tarefas. Assim, a formação do professor, de acordo com a “epistemologia da prática, contribuiria para dar novo significado também à escola e à profissão docente (Nóvoa, 1991). Nesse sentido que a prática de pesquisa se insere no projeto de formação do CLEUVA. A epistemologia da prática passa a ser o núcleo articulador dos saberes pedagógicos e específicos em um processo de ressignificação do saber docente e produção de conhecimento. A prática de pesquisa no Estágio Supervisionado do Programa CLE-UVA consiste em orientar o aluno a realizar uma pesquisa na sua área de formação envolvendo uma problemática extraída do cotidiano escolar onde foi realizado o estágio supervisionado. As observações, as ações docentes e as respectivas análises servirão como referencias para a delimitação da problemática de pesquisa. Esta pesquisa será realizada na terceira etapa do estágio, no entanto, nas práticas de observação e de ação docente, o professor orientador deverá ensejar discussões pertinentes ao campo teórico da pesquisa educacional e da temática em questão. Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 9 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 A prática de pesquisa permitirá o aluno desenvolver a competência básica de professor-pesquisador para qualificar e legitimar a sua prática docente, bem como: • Desenvolver uma prática de pesquisa no contexto da ação pedagógica escolar; • Analisar as dificuldades de maneira que as mesmas possam ser superadas; • Refletir criticamente sobre os saberes da prática a partir das experiências e formações adquiridas; • Elaborar e tornar público um trabalho científico. 3. Considerações Finais Toda experiência do aluno no curso e, especificamente, na Mediação se configurará como um constante estar sendo possibilitado pela reflexão permanente entre o que está sendo veiculado em sala de aula, sua prática educativa, as interrogações oriundas dessa prática e o trabalho do professor-orientador. É no diálogo, na análise, interpretação e posicionamento frente a essa multiplicidade de fatores que aluno conseguirá apreender do seu papel de docente. A formação do professor tem uma origem histórica e social. É na participação em atividades compartilhadas com outros que o docente pode romper com o contexto imediato. O processo de apropriação e domínio dos recursos e instrumentos que a cultura dispõe, não deve ser concebido como um processo de acumulação de domínio de recursos e instrumentos com um caráter meramente aditivo, mas de reorganização da ação pedagógica do sujeito como produto de sua participação em situações sociais específicas. Entende-se que o aluno do Programa de formação de professores já possui uma experiência escolar acumulado, seja como aluno ou professor, que nutre o um saber sobre a docência. Este saber deve ser considerado em todos os momentos de sua formação, principalmente no processo de mediação pedagógica realizado durante o Estágio Supervisionado, cujo principal objetivo é articular o conhecimento pedagógico com o conhecimento específico através da construção de novos saberes docente. Adriana Campani “Mediação pedagógica e a formação do professor nos cursos de licenciaturas específicas da UVA” 10 Tutoria e Mediação em Educação: Novos Desafios à Investigação Educacional XVI Colóquio AFIRSE/AIPELF 2008 4. Bibliografia ALARCÃO, Isabel (org.) (2001) Escola reflexiva e nova racionalidade. Porto Alegre: Artmed Editora. BRASIL. Parecer 009/2001 de 08 de maio de 2001. 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