Rede das Escolas de Comunicação da Bahia – REDECOM
Grupo de Estudos em Jornalismo
Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Comunicação – Abril / 2002
As últimas notícias do rádio e das redes digitais
Raquel Porto Alegre S. Alves1
Introdução
Frases curtas, diretas e objetivas. Com um aglomerado de orações interligadas – que
possuem geralmente esse formato – surge a notícia radiofônica. Claramente não é simples
assim, como parece à primeira vista. O discurso radiofônico exige uma série de cuidados
(alguns relatados no decorrer desse texto) para ser estabelecido e concretizado. Da mesma
forma são constituídas as notícias de “última hora” disponibilizadas pelos jornais que estão
presentes na rede. A chamada notícia “em tempo real” tem de ser rápida, precisa e clara
para atingir a um público ávido por informação instantânea.
O rádio para propagar notícias, precisa de uma única pessoa que apure a
informação, que a escreva e a transforme em discurso escrito/oral/auditivo; e de um outro
alguém que a ouça e decodifique sua mensagem. A internet, para fazer o mesmo exercício,
precisa, muitas vezes, de um apurador, de alguém para escrever e disponibilizar as
informações na rede e de um terceiro alguém que leia e interprete a notícia. A diferença
entre os dois dispositivos/suportes é primária. Claro, estamos falando de dois meios
completamente distintos. Mas no íntimo dessas duas práticas é possível encontrar
proximidades. O que pode haver, então, de semelhante entre o modo de produção das
notícias do radiojornalismo e das notícias de última hora dos jornais já ambientados na
rede?
Para relatar tais proximidades, primeiro começarei pelo modo de produção
radiofônico e pela descrição de algumas características do rádio enquanto meio de
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Jornalista e mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da
Universidade Federal da Bahia.
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comunicação. Em seguida partirei para as notícias “em tempo real” disponibilizadas na rede
e suas características. Depois de descritos os processos de cada um dos dois suportes, farei
uma equiparação. Será analisada, de forma separada, a questão da interatividade em ambos
os meios. Por fim serão tratadas as diferenças básicas existentes entre o rádio e a rede.
O radiojornalismo e as últimas notícias
Como ponto de partida utilizarei o exemplo que se segue:
A vinheta sinaliza a entrada do repórter que anuncia: “o Copom, Comitê de Política
Monetária do Banco Central, acaba de manter em 18,5% a taxa básica de juros brasileira,
sem viés”. A notícia, advinda do autofalante de um aparelho de rádio ecoa pelos quatro
cantos. Da recepção da informação, à entrada do repórter na programação da emissora não
se deve ter passado mais do que cinco minutos (quando muito). De uma forma bem
resumida, é dessa maneira que se dá a notícia radiofônica que chega a milhares de ouvintes
todos os dias. Mas antes de a informação ser transmitida pelo repórter, ela, certamente, teve
de passar por um trabalhoso, porém, quase instantâneo processo de produção. Como
descreve, Eduardo Meditsch (2001:101) as emissoras de rádio traçam estratégias e táticas
para tomar conhecimento, apurar, produzir e apresentar as informações mais pertinentes a
cada momento.
A jornada diária de um repórter de rádio começa como a de qualquer outro jornalista
dos diferentes meios de comunicação. Apurar a informação é, em qualquer veículo, a
primeira etapa do processo de noticiabilidade de um fato. Só que para o repórter de rádio
esse tempo de apuração tem de ser o menor possível. O profissional necessita ser rápido,
preciso e cuidadoso para levar a notícia correta ao ar o quanto antes. Isso se deve à
característica de instantaneidade do rádio. Seguindo ainda a posição de Meditsch, “o ideal
de instantaneidade dos meios eletrônicos faz com que o momento da apuração das
informações seja o mais próximo possível da sua divulgação. Fatos com maior proximidade
temporal, em relação aos deadlines principais, recebem maior destaque, por reafirmarem ao
público esse potencial do veículo” (2001:104).
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Vencida a etapa de apuração, o repórter recebe o desafio de escrever um texto que
deverá ser lido/falado posteriormente (ele pode também, se achar mais conveniente, apenas
apontar palavras-chave para um discurso improvisado). A dificuldade que acompanha o
discurso do rádio informativo, desde que surgiu, é encontrar uma maneira de expressar, de
forma sonora, um conteúdo que tomou forma originalmente na tecnologia impressa. No
início, tão logo surgiu, o radiojornal procurou reproduzir as características da imprensa.
Como descreve Meditsch (1999:114), “a linguagem do radiojornalismo foi pensada
naturalmente como uma nova forma de apresentação da mesma mensagem escrita. Tudo o
que era dito ao microfone deveria ter sido escrito antes, tanto como modo de controle de
conteúdo quanto como garantia de correção”. Analisando o discurso do rádio em tempos
mais recentes, Cabello chama a atenção para o fato de que “a construção do texto
radiofônico exige, além de certa dose de correção gramatical, adequação técnico-lingüística
concernente à estrutura do rádio” (1999:15).
Para que a mensagem do veículo seja facilmente compreendida e visualizada
mentalmente (o rádio é tido por alguns autores, dentre os quais Meditsch e Camargo, como
um veículo de informações invisíveis) pelo ouvinte, quase que de forma instantânea (como,
nesse caso, impõe o rádio), são necessárias algumas adequações. A construção do discurso
radiofônico, como definem alguns autores, requer o uso de um estilo próprio,
escrito/oral/auditivo. Camargo (cit. in Cabello) afirma que “o texto tem uma única chance
de ser ouvido. Com isso, deve explorar sua única oportunidade de emissão ao criar imagens
mentais, que projetem as palavras; e ao criar as idéias, frases, situações, o conteúdo deve
ser claro e expressivo, que, praticamente, não exija esforço do ouvinte”.
Em função dessas características próprias do suporte, é importante estar atendo às
condições de tempo, dinâmica, melodia, sons complementares e às estruturas gramaticais
do texto da notícia do rádio. Para Cabello (1999:21,22), que descreveu cada um desses
conceitos, o tempo se refere à velocidade da fala. “Os textos devem ter em média de seis a
oito linhas para serem considerados ‘enxutos’”. Já a dinâmica, segundo a autora, está ligada
à ênfase da frase, aos elementos estilísticos, às pausas, às alternações rítmicas etc. A
melodia caracteriza-se pela seleção de palavras eufônicas. “A construção adequada do
texto, em termos de seleção de palavras, é indispensável. De preferência usa-se a forma
singular e conjuntos que soem harmonicamente, evitando-se cacofonias”. Sons
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complementares são as declarações e os testemunhos que, conforme coloca Cabello, só
ampliam os dados. Por fim, as orações que compõem o texto devem seguir a ordem direta
para uma formação adequada do discurso radiofônico. A ordem direta, sob a ótica
gramatical, propicia uma melhor compreensão da mensagem. O ideal é que o texto tenha
sempre frases que possuam sujeito, verbo e predicado explícitos. Sempre nessa ordem se
possível. Além disso o uso de frases curtas, bem pontuadas, que evitem o uso constante de
vírgulas, também se faz necessário. O texto deve ainda, de preferência, começar com o lead
da notícia. É preciso dar valor à novidade para tornar o fato o mais atraente possível. Tudo
pela fácil e rápida compreensão da mensagem.
Seguindo a mesma linha cognitiva, Armand Balsebre, em sua análise, propôs que a
linguagem radiofônica não se restringe apenas à palavra. “Se constitui de sistemas
expressivos da palavra, da música e dos efeitos sonoros” (1994:24). Para Balsebre, nenhum
dos sistemas expressivos isolados dão conta da produção de sentido no rádio. No entanto,
ele reconhece a importância fundamental da palavra para o discurso. “Instrumento habitual
de expressão direta e veículo da nossa socialização, a palavra é indispensável no conjunto
da linguagem radiofônica” (1994:33). Balsebre chama a atenção também para o caráter
estético-comunicativo do rádio. Para o autor o veículo não pode ser visto apenas como
meio de comunicação. Ele deve ser utilizado e divulgado como um meio expressão, já que
conjuga funções diversas como serviço, “companhia”, ambiente musical, informação.
Voltando ao modo de produção do texto radiofônico, toda medida adotada para a
elaboração da mensagem a ser dispersa auditivamente, tem um único objetivo: fazer com
que o ouvinte não “perca” a mensagem da notícia do rádio. Aliás, essa é uma ameaça
constante, já que o exercício de ouvir rádio dificilmente é exclusivo. Castells (1999:
358,359) observa que “ser ouvinte da mídia absolutamente não se constitui uma atividade
exclusiva. Em geral é combinada com o desempenho de tarefas domésticas, refeições
familiares e interação social. É a presença de fundo quase constante, o tecido de nossas
vidas. (...) A mídia, em especial o rádio e a televisão, tornou-se o ambiente audiovisual com
o qual interagimos constante e automaticamente.”.
De fato Castells está absolutamente certo. Nos impressos, o leitor é obrigado a
dispensar um tempo determinado para ler o texto disponível, já que tem em mãos a notícia;
no caso da televisão, o telespectador, que conta com o auxílio das imagens e do som para a
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decodificação das mensagens, é seduzido pelo visual, pelo show quase real; e no caso do
rádio, o ouvinte dispõe apenas do som para “visualizar” a notícia. Por não possuir suportes
visuais que auxiliem o ouvinte na interpretação do fato que lhe está sendo colocado, é que o
rádio não monopoliza a atividade de quem o ouve. Além de não possuir essa característica,
o rádio é um veículo que pode ser solicitado a qualquer momento, a qualquer hora do dia ou
da noite. Graças ao seu fluxo2 de produção, esse é um veículo constante. As pessoas que
acompanham as emissoras não estão preocupadas com a programação, com as
microestruturas. O que é interessante para o ouvinte é a macroestrutura, que pode ser
sintonizada a qualquer momento, em qualquer lugar.
Para finalizar a descrição do rádio e das informações de última hora desse suporte,
citarei o conceito de linearidade. Roger Fidler (1997:47) descreve que toda forma de
domínio audiovisual coloca seus conteúdos de forma seqüencial ou linear. “Telespectadores
ou ouvintes não podem seguir em frente, ver ou ouvir o que vem adiante numa
programação ou alterar de forma individual uma seqüência”. Seguindo o pensamento do
jornalista americano, rádio é de fato um veículo linear. Ele possue uma programação que
não pode ser alterada, atrasada ou adiantada pelo receptor. Cabe ao ouvinte aguardar as
informações que estão por chegar.
A grande imprensa na rede e as notícias “em tempo real”
Para descrever o processo de produção das chamadas notícias “em tempo real” das
redes digitais, vou recorrer ao mesmo exemplo utilizado no item anterior. Vale ressaltar que
tanto o processo vivido pelos profissionais de rádio, que já foi descrito, quanto o que será
relatado aqui são reais. Ambos os exemplos foram presenciados durante minha
permanência no Banco Central enquanto setorista da Rádio CBN, em Brasília.
No auditório do Banco Central o diretor do Comitê de Política Monetária anuncia:
“ao final de dois dias de reunião, o Copom considerou pertinente manter em 18,5% a Selic,
a taxa básica de juros brasileira. E não há previsão de tendências para baixo ou para cima”.
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O conceito de fluxo foi desenvolvido por Raimund Williams que tratou da natureza dos meios tecnológicos,
em especial a televisão.
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Quase que de forma instantânea, os repórteres “do tempo real”, como são conhecidos, que
já estavam com seus telefones celulares pregados aos ouvidos, ligados às suas redações,
transmitem a notícia a um redator de plantão. Esse, por sua vez, tecla e disponibiliza
imediatamente a informação em um microcomputador que vai, em questão de segundos,
enviar a notícia à rede. Esse é, em geral, o processo de fabricação das chamadas notícias em
“tempo real” que são disponibilizadas pela grande mídia já ambientada no ciberespaço.
Obviamente, nem sempre o processo é esse, já que redatores e arquivistas também apuram
notícias da própria redação e, ás vezes, utilizando a própria rede. Como observa Recio
(1999:77) agora as possibilidades de se apresentar uma notícia mais compacta são maiores:
“Poderíamos pensar que não existe uma notícia para uma só pessoa, sendo que a
informação é trabalhada de forma conjunta. Nela participam além do redator, o
documentalista que cobre a área e os leitores, que até o momento são passivos”.
Esse é um dos produtos diferenciados oferecidos pelos grandes jornais que
disponibilizam também suas edições diárias na internet: as notícias “em tempo real”, como
são metaforicamente classificadas. Presentes num território multifacetado e heterogêneo,
disponíveis a toda hora, essas notícias são espécies de “pílulas” de informação. Elas são
curtas, rápidas, objetivas e dinâmicas. Buscam atender a um público impaciente, que não
pode perder tempo. É o usuário das redes que vive a angustia constante pelo dinamismo das
informações que são dispostas à tela do microcomputador.
O processo de apuração da notícia “em tempo real” também é a primeira etapa da
produção da informação da rede. Para os repórteres desse tipo de jornalismo, a apuração
também tem de ser quase imediata. Não só pelo imediatismo que o ciberespaço impõe e
cobra, mas também, e principalmente, pelo fato de a concorrência entre os grandes jornais
ser grande. A briga pelo “furo” é constante entre eles. Gouazé e Ferreira observam que
apesar das limitações técnicas, os jornais abrem um novo nicho de concorrência em relação
ao tempo de apresentação da notícia. “Uma sensação de que a notícia chega a tela ao
mesmo tempo da realização do fato. O serviço ‘últimas notícias’, geralmente com indicação
da hora e minutos de sua chegada, é uma demonstração de tal ambição temporária”.
Depois de apurada a informação, o jornalista, conforme foi ilustrado anteriormente,
deve passar a mensagem para o redator que irá disponibilizar texto na rede. Um texto que
deve ter obrigatoriamente os conhecidos elementos do lead – o que aconteceu, em que
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lugar, quando, com quem e por que. Isso se deve à rapidez com que a informação tem de
ser processada e, por conseqüência disso, ao breve espaço disponível para essas
informações. A notícia deve também chamar a atenção do leitor. Caso contrário ela não
será acessada. Mas não se trata apenas de texto, o jornalismo no ciberespaço reúne uma
multiplicidade de significantes. Ele se articula por meio de palavras, imagens, seqüências
sonoras, páginas, documentos complexos, que dão suplementação à informação. Tudo pela
atenção do usuário das redes digitais.
Um outro aspecto da notícia de última hora da internet é que ela se torna defasada
muito rapidamente – o que também acontece no radiojornalismo. Recio (1999:78) verifica
que “este tipo de jornalismo está vivo, não termina morto em um papel, ele é feito
constantemente a cada vez que vão aparecendo novos dados”. É que os fatos não páram. Se
uma notícia foi dada, em primeira mão, às oito horas da manhã; às cinco e meia da tarde o
conteúdo dela já pode ter sofrido alterações significativas em função do seu
desdobramento. De qualquer forma, a primeira informação disponibilizada na internet sobre
a mesma notícia continua armazenada no ciberespaço, na memória viva dos jornais que
estão na rede, para quem quiser acessa-la. Isso mostra que o público desse tipo de
informação não está preso a nenhuma microestrutura. Ele procura a macroestrutura, a rede,
a imprensa digital. O usuário, habituado a visitar páginas de grandes jornais, procura a
última informação. Dificilmente alguém procura uma notícia defasada. É a macroestrutura,
o bloco de notícias de última hora, atualizando constantemente e que não pára, o alvo desse
público. Pode se dizer então que o fluxo das notícias de última hora é “amarrado”, ou seja,
é estruturado de forma a dar a informação a qualquer hora.
Um outro fato interessante do jornalismo em rede é que as informações
disponibilizadas pelas agências noticiosas podem também ser alteradas pelo próprio centro
de documentação dos jornais. Dependendo do fato, os arquivistas podem providenciar o
histórico de tal situação ou pessoa e coloca-lo na rede. “Um dos trabalhos do jornalista de
informação eletrônica é completar a informação com o centro de documentação”, coloca
Recio (1999:78). Essa complementação de informações normalmente se dá com o uso de
um dispositivo próprio do ciberespaço: o hipertexto. Depois que a informação compactada
vai para a rede, os profissionais dos centros de documentação trabalham na
complementação das notícias utilizando essa ferramenta. De acordo com Lévy,
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“tecnicamente, um hipertexto é um conjunto de nós interligados”. Os nós podem ser
palavras, páginas, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos
complexos que podem eles mesmos ser hipertextos.(...) Finalmente, um hipertexto é um
tipo de programa para a organização de conhecimentos ou dados, a aquisição de
informações e a comunicação”(2001:33). A heterogeneidade da estrutura discursiva ou as
matérias significantes, do hipertexto em geral, e do jornalismo no ciberespaço em particular
devem ser levados em conta pelo estudo que busca descrever o posicionamento discursivo
desse meio.
Em função dessa característica própria – o hipertexto – pode-se classificar o
discurso das notícias urgentes da rede como não lineares. Apesar de o ciberespaço ser um
domínio audiovisual (como propunha Roger Fidler, toda forma de domínio audiovisual
coloca seus conteúdos de forma seqüencial ou linear) o discurso disponibilizado à tela pode
seguir trilhas diferentes dependendo dos questionamentos despertados no leitor. Um
exemplo: se o usuário que acessou a notícia sobre a nova taxa Selic quiser informações
sobre quem são os integrantes do Comitê de Política Monetária do Banco Central ela vai
seguir um caminho totalmente adverso daquele leitor que acessou a mesma informação e
quer saber quais serão os impactos causados nos mercado de câmbios em função da nova
taxa adotada. Dessa forma fica evidente que as informações estão na rede e podem ser
acessadas de forma não linear. Uma outra forma de se chegar a informação da nova taxa
básica de juros brasileira é acessar o comentário de um economista que a certa altura de seu
discurso fala da nova porcentagem. Dentro do texto dele pode haver, então, uma ligação
para a notícia advinda do Banco Central.
Equiparação – as semelhanças
As descrições dos dois sistemas, modos de produção, acima dispostas, explicitam
por elas mesmas, as diferenças e semelhanças entre o rádio e a rede – no que diz respeito às
notícias de última hora. Portanto esse item e o que se segue irão apenas fazer apontamentos
para tornar mais clara a equiparação.
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Por mais que estejamos tratando de dois veículos distintos, de formas de produção, a
princípio, adversas e de suportes diferentes, rádio e ciberespaço, possuem particularidades
em comum no que diz respeito às notícias de última hora. A primeira delas é o texto dos
dois meios de comunicação. Ambos, rádio e rede, procuram disponibilizar para seus
ouvintes e usuários textos curtos, rápidos e objetivos. A idéia é colocar a notícia com
rapidez para o receptor (ambos os meios são imediatistas em função dos suportes). O
quanto antes a notícia chegar, mais eficiência tem o veículo. Esse sempre foi o objetivo do
rádio informativo: levar ao ouvinte o fato cada vez mais rápido, cada vez mais próximo de
seu acontecimento. A grande imprensa levou para o ciberespaço a mesma proposta. Como
classificou Meditsch (2001:226) quem sai das faculdades dominando a linguagem do rádio
se adapta muito mais facilmente tanto à expressão audiovisual quanto ao texto utilizado na
internet. “Os grandes sites de notícias estão copiando das redações de radiojornalismo o seu
modo de produção – desde o serviço de radioescuta até a edição em fluxo contínuo –
porque ninguém como o rádio tinha antes o know how de trabalhar com informação
jornalística em tempo real”
Independente do veículo, a apuração de uma informação, como já foi dito, é o
primeiro passo para a idealização de uma notícia. Mas no caso do rádio a apuração sempre
foi um processo quase que instantâneo, em função da velocidade que o veículo exige do
repórter. No caso das agências de notícia em tempo real o modo de apuração também tem
se apresentado da mesma forma. Os repórteres estão cada vez mais primando pela urgência.
Esse era e é o modo de produção do radio informativo. Será que a grande imprensa,
que oferece serviços em tempo real está, de fato, copiando o modelo do radiojornalismo,
como propõe Meditsch? Se está ou não, é delicado definir. O fato é que as agências
noticiosas da internet já se tornaram concorrentes das emissoras da rádio informativo. O
rádio, que estava acostumado a pautar os demais veículos, vê-se agora, freqüentemente,
pautado pela internet.
A tabela (1) que se segue resume os itens que aproximam os modos de produção do
radiojornalismo e das notícias em “tempo real” do ciberespaço.
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Tabela 1
Rádio
Apuração
Texto
Imediatismo
Instantânea
Curto e direto Presente
Fluxo
Contínuo
voltado para a
macroestrutura
Ciberespaço
Instantânea
Curto
e Presente
objetivo
Contínuo
voltado para a
macroestrutura
Interatividade
A interatividade não poderia deixar de ser um subitem à parte. Ela, que sempre foi
uma das mais fortes características do rádio, está presente também no ciberespaço. Eis aí
mais uma particularidade em comum de ambos os meios de comunicação. Seguindo os
estudos propostos por Mielniczuk (2000:124), “a interatividade não pode ser vista
meramente como um acontecimento técnico. Mesmo não a considerando um aspecto
revolucionário do jornalismo on line (...) não se pode deixar de considerar a relevância da
interatividade para este tipo de jornalismo”. É que com a interatividade, o jornal em rede,
conseguiu estabelecer uma forma de conexão mais rápida com seu leitor. Graças ao correio
eletrônico foi possível mediar o contato entre produtor e receptor.
O rádio, por ser um equipamento barato e de grande alcance, é considerado um
veículo bastante popular. E essa característica é reforçada por permitir a participação do
público dentro da sua programação. Isso ocorre principalmente nas emissoras de
entretenimento, que têm programações que giram em torno de música e comportamento.
Dentro da rádio informativa, há também a participação do ouvinte, mas com um pouco
mais de cuidado. Não é usual, por exemplo, colocar, no ar, ao vivo, comentários e
reclamações de ouvintes sem uma prévia seleção. Se não for ao ar ao vivo, a participação
da audiência pode ser exibida por meio de gravação, por meio da leitura de cartas ou fax e
também por meio da leitura de correios eletrônicos, graças à interface com a internet. O
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rádio é um veículo que já nasceu interativo e a relação com a internet só veio reforçar essa
característica.
Equiparação – as diferenças
A grande adversidade entre os dois veículos é o suporte. Enquanto o rádio se apóia
em ondas eletromagnéticas, em um sistema analógico e, mais recentemente, em um sistema
de transmissão digital, via satélite; o ciberespaço se manifesta por meio das redes
telemáticas que dão sustentação ao meio digital. Sob a ótica técnica, essa é a diferença
básica. Praticamente e esteticamente falando, a diferença está no modo como as mensagens
em ambos os meios são dispostas. O rádio oferece um dispositivo auditivo e oral. Enquanto
a rede um meio audiovisual.
A linearidade é segunda diferença entre rádio e rede. No rádio os ouvintes não
podem seguir em frente, ouvir o que vem adiante na programação ou alterar de forma
individual uma seqüência. Isso, conforme o conceito formulado por Fidler (1997:47) e, de
certa forma, contrapondo-o, já não acontece na rede. No ciberespaço, o usuário pode,
conforme sua própria vontade, ler as informações da forma que julgar mais conveniente.
Ele pode, por exemplo, começar a ler as informações mais antigas para depois chegar às
mais recentes. A “navegação” fica a cargo do próprio usuário.
Considerações finais
A proximidade entre o rádio e a rede, no que tange o modo de produção das notícias
de última hora, deixa claro que a interface entre os dois meios de comunicação é inevitável.
Tanto o é, que já acontece: emissoras de rádio já estão inseridas nesse novo sistema
eletrônico de comunicação. Estações de rádio informativo e de entretenimento já se fazem
presentes na rede mundial de computadores. Porém ainda precisam descobrir formas de
diferenciação no novo meio. Não basta apenas estar presente, é preciso oferecer algo mais
para ser notado nesse mar de informações.
A aproximação de ambos os meios é sadia e só tem a acrescentar aos profissionais
que trabalham tanto com o rádio informativo quanto com as notícias “em tempo” real da
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internet. Como aponta Castells, “a integração potencial de texto, imagens e sons no mesmo
sistema – interagindo a partir de pontos múltiplos, no tempo escolhido (real ou atrasado)
em uma rede global, em condições de acesso aberto e preço acessível – muda de forma
fundamental o caráter da comunicação”.
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Bibliografia
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CABELLO, Ana Rosa Gomes. A expressão verbal na linguagem radiofônica. In DEL
BIANCO, Nélia R. & MOREIRA, Sônia V. (orgs). Rádio no Brasil: tendências e
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LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. O futuro do pensamento na era da
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__________________. A nova era do rádio: o discurso do rádio jornalismo como produto
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Rádio no Brasil: tendências e perspectivas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.
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Sônia V. & DEL BIANCO, Nélia (orgs). Desafios do rádio no século XXI. Rio de
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MIELNICZUK, Luciana. Interatividade como dispositivo do jornalismo on line. In
GOMES, Itânia; MIELNICZUK, Luciana; OLIVEIRA, Augusto & SANTOS, Suzy
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ORTRIWANO, Gisela. A informação no rádio. Os grupos de poder e a determinação dos
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RECIO, Juan Carlos Marcos. La documentación electronica en los medios de
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