MULHERES E EJA: O QUE ELAS BUSCAM? Amina Ciandra Oro 1 Rosa Cristiana S. Weschenfelder 2 Nilda Stecanela 3 Resumo Este artigo tem por objetivo apresentar os resultados da pesquisa “Mulheres e EJA: o que elas buscam?” realizada no âmbito do curso de extensão: Escola e pesquisa: um encontro possível, vinculado ao programa Nossa Escola Pesquisa sua Opinião (NEPSO). Com o intuito de analisar e compreender as relações existentes entre as questões de gênero e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), a pesquisa envolveu a participação de mulheres a partir de 18 anos de idade, que frequentam as modalidades de EJA, equivalentes ao Ensino Fundamental e Médio, em escolas da rede pública de Caxias do Sul. A metodologia utilizada no estudo é a pesquisa de opinião, com aplicação de questionários contendo perguntas abertas e fechadas indagando, entre outros aspectos, o que as mulheres que abandonaram a escola no período da escolarização obrigatória buscam na EJA. Os resultados da pesquisa apontam que questões como o casamento, a maternidade e o trabalho, permeiam a vida da mulher e, na maioria das vezes, são imprescindíveis para determinar suas escolhas e que a busca da mulher pela EJA tem se intensificado com o objetivo de preparar-se para o mercado de trabalho, associando seu retorno a escola à procura de melhoria nas condições de vida, uma vez que, muitas das mulheres são oriundas das camadas sociais de menor poder aquisitivo. A maioria delas tiveram que abandonar os estudos precocemente para poderem se dedicar ao trabalho, em serviços atribuídos ao papel da mulher, como doméstica, cuidadora de crianças e cozinheira. Outra questão importante que parecem determinar a busca das mulheres pela EJA é atualizar-se para ensinar as tarefas escolares aos filhos e/ou incentivá-los a permanecerem na escola; a conquista por um novo espaço de socialização, bem como o fortalecimento de sua auto-estima. Palavras-Chave: Educação de Jovens e Adultos; Políticas educacionais compensatórias; Gênero e educação das mulheres. Introdução As reflexões apresentadas no presente artigo sobre as relações existentes entre as questões de gênero e a Educação de Jovens e Adultos (EJA) são o resultado da pesquisa realizada no âmbito do curso de extensão “Escola e pesquisa: um encontro possível” vinculado ao programa Nossa Escola Pesquisa sua Opinião (NEPSO), no período de março a dezembro de 2010. A pesquisa envolveu a participação de mulheres a partir de 18 anos de idade, que frequentam a modalidade de EJA equivalentes ao ensino fundamental e médio de duas escolas públicas de Caxias do Sul no turno da noite. A metodologia utilizada 1 Acadêmica do curso de Pedagogia e Bolsista de Iniciação Científica da Universidade de Caxias do Sul. Acadêmica do curso de Pedagogia e Bolsista de Iniciação Científica da Universidade de Caxias do Sul. 3 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Diretora e docente do Centro de Filosofia e Educação da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Coordenadora do Observatório de Educação da UCS. 2 2 no estudo é a pesquisa de opinião, a partir das aprendizagens construídas durante o curso de extensão citado anteriormente. O tipo de amostra foi definido pelo método não-probabilístico, pelo fato de não termos uma informação precisa dos elementos do público alvo. Portanto, utilizamos a seleção de forma acidental, ou seja, escolhemos as escolas com maiores chances de encontrar o público alvo do estudo, totalizando trinta e quatro entrevistadas. O trabalho de campo se realizou com a aplicação de questionários contendo perguntas abertas e fechadas, indagando entre outros aspectos, o que as mulheres que abandonaram a escola no período regular de ensino, buscam na EJA. Os primeiros contatos com o campo da pesquisa indicam que a busca das mulheres pela formação nas classes de Educação de Jovens e Adultos vem tendo um crescimento significativo. É o que comprova também os dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), referente à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que segundo a pesquisa realizada no ano de 2007, 54% dos alunos de EJA são mulheres, com baixa renda e na faixa etária entre 18 aos 39 anos, estavam frequentando principalmente, o segundo segmento do Ensino Fundamental ou Ensino Médio. Nos itens que seguem apresentamos o contexto da Educação de Jovens e Adultos, bem como abordaremos as concepções de gênero relacionando com a questão da escolarização tardia da mulher. Em seguida apresentaremos o percurso da pesquisa, desde a escolha do tema até a coleta de dados. E, sob a luz do referencial teórico, serão sistematizados os principais resultados da pesquisa, os quais apontam que os fatores ligados às questões de gênero têm grande interferência na formação das turmas de EJA. Ao final, sem a pretensão de esgotar as possíveis análises e reflexões sobre os dados coletados nesta pesquisa, destacaremos que, embora as mulheres tenham conquistado um espaço significativo nas relações sociais, no mercado de trabalho e efetivação de seus direitos, há ainda muitos caminhos a percorrer para que sejam realmente respeitadas e reconhecidas em nossa sociedade e que talvez a EJA seja um dos percursos que podem ser percorridos pela mulher, o qual favorece no processo de emancipação e construção da autonomia feminina. 3 1 Educação de Jovens e Adultos: um breve histórico Desde o seu início a Educação de Jovens e Adultos foi responsável por proporcionar práticas relacionadas à aquisição de conhecimentos, competências, habilidades básicas e qualificação profissional, a fim de inserir o seu público alvo na sociedade como um sujeito ativo, ora capaz de servir às necessidades de um governo, ou se tornar consciente de seus direitos e de sua realidade sócio-histórica. Ao abordarmos o contexto da Educação de Jovens e Adultos de maneira mais ampla, encontramos dificuldades pela complexidade e sua extensão difundida nos mais diversos ambientes sociais. Por isso, pretendemos fazer referência à EJA como parte de um sistema de ensino, mais especificamente a educação escolar. De acordo com Haddad e Di Pierro (2000), a Educação de Jovens e Adultos vem sendo desenvolvida desde o início da colonização, pelos missionários jesuítas que tinham a missão de exercer uma ação educativa voltada para a religiosidade. No período imperial a educação era destinada a uma pequena parcela de cidadãos elitizados, excluindo negros, indígenas e mulheres. A primeira república também estabeleceu uma ordem de exclusão, proibindo os analfabetos da participação pelo voto, em um momento em que a maioria da população adulta não teve acesso ao ensino elementar. Foi em 1920 que educadores e a população se mobilizaram em favor da educação em nosso país, exigindo a ampliação do número de escolas e melhoria da qualidade de ensino. Neste período a necessidade de avançarmos quanto à situação precária do ensino exerceu grande influência no aumento da urbanização e início da industrialização. Haddad e Di Pierro (2000), afirmam que somente em 1940 a EJA se firmou como um problema de política nacional. A constituição de 1934 previa o ensino primário integral gratuito e obrigatório e este ensino deveria se estender à educação de jovens e adultos. Foi assim que a EJA recebeu um tratamento mais específico. Neste período foi instalado o Serviço de Educação de Adultos (SEA) que estava inserido ao Departamento Nacional de Educação e do Ministério da Educação e Saúde. Este serviço tinha por objetivo reorientar e coordenar os planos anuais de ensino supletivo em todo o país. Este movimento desenvolveu uma série de atividades, produzindo e distribuindo material didático além mobilizar a opinião pública, governos municipais, estaduais e iniciativa particular. 4 O período de 1960 a 1964, quando ocorreu o golpe militar, a EJA tomou proporções significativas. Em 1958 o II Congresso Nacional de Educação de Adultos no Rio de Janeiro, deu inicio a reflexões de âmbito pedagógico sobre as características do ensino de adultos não escolarizados. Segundo Haddad e Di Pierro ( 2000), o aluno de EJA ainda era considerado como um aluno da Educação Infantil, um sujeito imaturo e ignorante que deveria receber os mesmos conteúdos formais da escola primária. Mas foi dentro de uma conjuntura de tensão política e manifestações populares, pela insatisfação da atual situação em que a população se encontrava que a EJA passou a ganhar importância, pois, foi através da educação de adultos que buscou-se apoio político junto a grupos populares. Haddad e Di Pierro (2000) se referem a este momento como um período de “luzes” para a educação de adultos, desse modo afirmam que, “finalmente, foi-lhe atribuída uma forte missão de resgate e valorização do saber popular, tornando a educação de adultos o motor de um movimento amplo de valorização da cultura popular”. Com o golpe militar em 1964, o cenário da educação de adultos teve fortes mudanças, iniciando pela cassação de professores e líderes estudantis. Como esta modalidade de ensino não poderia ser simplesmente extinta o Estado a transformou em um canal de mediação com a sociedade. Era preciso elevar os níveis de escolaridade, dando uma resposta a comunidade nacional e internacional. Também era de suma importância manter o modelo sócioecônomico imposto pelo regime militar. Para atender estas demandas criou-se o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização no ano de 1971, juntamente com a Lei Federal 5.692 que reformulou as diretrizes de ensino de primeiro e segundo graus. Este movimento tinha como objetivo suprir as necessidades de escolarização da população que não teve acesso na idade própria e atender os objetivos do regime político da época. O MOBRAL não possuía um caráter pedagógico, mas técnico e funcionava de forma paralela aos programas de educação, descentralizada através de Comissões Municipais e financiada por 1% do Imposto de Renda das empresas e com 24% da renda líquida da Loteria Esportiva. O MOBRAL recebeu diversas críticas quanto à forma de alfabetizar e avaliar a aprendizagem. Foi criticado especialmente por desempenhar uma formação rápida de recursos humanos sem uma continuidade dos processos escolares. Também foi criticado por seguir paralelo ao sistema de ensino além de terem surgido dúvidas quanto aos indicadores produzidos pelo movimento. Assim, foi passando por 5 modificações para garantir sua continuidade, uma vez que não conseguiu alcançar seus objetivos iniciais. Porém, o Regime Militar contribuiu para a consolidação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de número 5.692 no ano de 1971. Após este período, o processo de redemocratização deu continuidade com a Fundação Educar que ao contrário do MOBRAL foi submetida ao MEC, e teve mudanças significativas se transformando em um órgão de apoio técnico as iniciativas das prefeituras municipais. A reforma educacional iniciada em 1995, aprovou a lei 9394/96 que tinha por objetivo descentralizar encargos financeiros e reduzir custos. Com esse processo a Educação de Jovens e Adultos foi colocada novamente em uma posição marginal, disputando recursos com a Educação Infantil na rede municipal e com o Ensino Médio na rede estadual de ensino. Conforme Haddad e Di Pierro (2000, p. 125) na segunda metade do século XX, houve uma expansão de vagas no Ensino Fundamental, ampliando a escola pública às camadas mais pobres da população, porém esta oferta de vagas não veio aliada à qualidade. Ainda em relação a este fato afirmam: “Temos agora um novo tipo de exclusão educacional: antes as crianças não podiam frequentar a escola por ausência de vagas, hoje ingressam na escola mas não aprendem e dela são excluídos antes de concluir os estudos com êxitos”. (HADDAD e DI PIERRO, 2000, p 126). Em consequência, esta exclusão social acabou por gerar uma quantidade significativa de jovens e adultos que mesmo recebendo escolarização, as aprendizagens foram insuficientes, adquirindo um precário domínio do cáculo, da leitura e da escrita, a isto denominamos, anafalbetismo funcional. Assim, vemos que com a reforma educacional de 1996 a educação de jovens e adultos passa a ser compreendida como política compensatória de combate à pobreza e não um atendimento de caráter universal, o que não garante um atendimento eficiente a fim de elevar a escolarização da população. Em nosso país ainda não compreendemos a importância da formação continuada, que possibilita ao sujeito produzir novos conhecimentos, sendo esta uma necessidade fundamental para a vida das pessoas, uma vez que vivemos em uma sociedade de constantes tranformações. Nos últimos anos temos visto que a procura pela formação na educação de jovens e adultos vem se tornando cada vez maior, o que nos faz fomentar as discussões a cerca desta modalidade de ensino. 6 No próximo item, faremos uma reflexão em torno da educação da mulher, falando sobre os principais fatores que ocasionaram a sua educação tardia. 2 As questões de gênero relacionadas ao processo de escolarização tardia da mulher Um dado relevante com relação aos sujeitos que compõem a EJA, foi revelado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que segundo mostra esta pesquisa realizada no ano de 2007, 54% dos alunos de EJA são mulheres, com baixa renda e na faixa etária entre 18 e 39 anos, frequentando principalmente o segundo segmento do Ensino Fundamental ou Ensino Médio. Este dado nos instiga a descobrir o que as mulheres buscam na Educação de Jovens e Adultos e a refletir sobre as relações existentes entre gênero e educação. Ao abordar as questões de gênero como elemento de análise e reflexão teórica, Scott (1995) nos oferece elementos importantes para a análise aqui pretendida. Seu estudo foi considerado um marco histórico que fundamenta epistemologicamente o conceito de gênero, definindo-o como um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e como uma forma primária de dar significado às relações de poder. Isso significa dizer que o gênero está ligado às noções socialmente construídas de masculinidade e feminilidade, baseados nas relações de poder, já que estas não são neutras. Nesse estudo, pretendemos nos deter exclusivamente as relações de poder exercidas sobre a mulher, principalmente a mulher de baixa renda que teve o acesso restrito à escolarização, sendo submetida a atuar em outros papéis onde não favorecia o contato com a cultura e o uso do código linguístico e letrado, uma vez que a ela era destinado o papel de mãe e esposa. Historicamente, a mulher teve o acesso restrito à escolarização devido a uma sociedade marcada pelo modelo patriarcal que a conduziu à invisibilidade e ao espaço privado. Segundo Coutinho (1994) além de a mulher ter tido um processo de escolarização tardia em relação aos homens, recebeu uma educação de má qualidade e pôde frequentar quase que unicamente o ensino elementar. 7 Louro (1994 p.57) ao se referir à construção escolar das diferenças afirma que a escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna começou por separar adultos de crianças, católicos de protestantes. Ela também se fez diferente para ricos e para pobres e ela imediatamente separou meninos e meninas. As meninas foram educadas para cumprir seu papel de futura mãe e esposa dedicada aos trabalhos domésticos, deveria saber cozinhar, cuidar dos filhos, ter boa higiene e organização, saber costurar, tricotar e ser solícita aos valores morais. Perrot (2007, p. 93) afirma que estes “saberes” atribuídos ao papel da mulher fazia parte dos currículos escolares, sendo comum a todas as entrevistadas, variando segundo as épocas e os meios, assim como os métodos utilizados para ensiná-lo. Desse modo, é possível compreender que a educação das mulheres percorreu uma trajetória árdua e lenta. Com a existência de escolas separadas para meninos e meninas, acentuavam-se as diferenças. De acordo com Louro (1994) “as mulheres deveriam ser mais educadas do que instruídas”, ou seja, as principais habilidades deveriam ser adquiridas tendo em vista o domínio do lar e o ensino de bons princípios aos filhos. Somente no século XIX é que as mulheres puderam frequentar escolas mistas, o que forçava um ensino mais igualitário. No Brasil, segundo Carvalho (1999, p 22) a incorporação da mulher no sistema educacional brasileiro é recente. Somente nos últimos trinta anos que a mulher vem se beneficiando da lenta expansão e democratização do acesso à escola, que se principiou nas camadas mais altas da sociedade. Entretanto, as mulheres oriundas das camadas mais pobres foram conduzidas a invisibilidade do trabalho doméstico, sem remuneração ou reconhecimento. O trabalho remunerado veio com a escassez da renda do marido e ascensão da industrialização que exigia mão de obra barata. Assim as mulheres foram lançadas para o mercado de trabalho, tendo a remuneração vista como complemento da renda familiar, o que gerou dúvidas quanto ao fato de como receber uma remuneração individual e deixar a casa e o lar que é seu ponto de apoio e sua utilidade (Perrot, 2007). Nestas circunstâncias ao encarar o trabalho fora dos muros de casa, as mulheres passaram por situações de preconceito, tendo que defender com unhas e dentes a moral de ser mãe, esposa e trabalhadora. Assim, as funções que as mulheres exerciam no mercado de trabalho, se deram de acordo com as construções históricas e culturais do papel da mulher ao longo do tempo, ou seja, foram encaminhadas para funções propriamente atribuídas 8 ao papel da mulher, como o emprego de doméstica, babá ou costureira. Trabalhos estes, que não implicam qualificação apenas habilidades e qualidades que Alves (2006), denomina como “naturais à mulher”. A inserção das mulheres no mercado de trabalho traz consigo uma mudança no modo em que elas passam a se relacionar com a escolarização. A pressão das mulheres pela conquista de igualdades, relacionadas a cargos e salários, vem acompanhada pela qualificação profissional, mesmo que atuem em funções que ela não seja necessária, o mínimo que se obriga é o término da escolarização obrigatória. Neste cenário, a Educação de Jovens e Adultos vem se consolidando como um importante espaço de superação da exclusão social daqueles que não tiveram oportunidade de acesso à escolarização na idade regular. A EJA traz novas perspectivas para a população adulta que busca a escolarização em prol de futuras melhorias nas condições de trabalho. 3 Contextualização da Pesquisa O projeto de pesquisa foi desenvolvido durante o curso de extensão “Escola e pesquisa: um encontro possível”, vinculado ao programa Nossa Escola Pesquisa sua Opinião (NEPSO), que tem por objetivo instrumentalizar professores e acadêmicos para o uso da pesquisa como ferramenta pedagógica em sala de aula, a fim de contribuir com o processo de construção do conhecimento. Neste caso, o projeto de pesquisa foi desenvolvido por acadêmicas do curso de Pedagogia, que buscaram o contexto escolar como campo de pesquisa. Este projeto teve início no mês de abril de 2010, com a escolha do tema que surgiu a partir de nossas curiosidades sobre a EJA e especialmente sobre os sujeitos que a compõem. A metodologia escolhida para realização deste estudo foi a pesquisa de opinião, que se desenvolveu a partir da aplicação de questionários, com perguntas abertas e fechadas, que proporcionam aos participantes refletirem sobre o assunto em questão. Possui um caráter quantitativo e, sobretudo qualitativo, pois é capaz de penetrar no universo das entrevistadas, permitindo que revelem suas impressões a cerca do tema. 9 Através da aplicação de um questionário contendo 23 questões, foi possível traçar o perfil sócio-econômico das alunas da EJA, indagando entre outros aspectos o que as mulheres que abandonaram a escola no período da escolarização obrigatória, buscam na EJA. O público-alvo são mulheres-alunas a partir de 18 anos de idade, matriculadas na modalidade de EJA equivalente ao ensino fundamental e médio. Para a coleta de dados, foram contatadas por telefone duas escolas da rede pública de Caxias do Sul, sendo que uma da rede municipal e outra estadual, para as quais apresentamos a proposta da pesquisa e solicitamos a autorização para a realização das entrevistas com as alunas matriculadas na modalidade de ensino de Educação de Jovens e Adultos, no turno da noite. A primeira escola situa-se nas proximidades da Universidade de Caxias do Sul. Atualmente a escola atende cerca de 600 alunos, incluindo a Educação Infantil, Ensino Fundamental e a Educação de Jovens e Adultos que provém de diversos bairros da cidade, devido ao grande fluxo de transporte coletivo até esta região. A segunda escola atende alunos no ensino fundamental, médio e EJA das totalidades equivalentes ao Ensino Médio. Localiza-se em uma comunidade de periferia do município, de fácil acesso aos demais bairros localizados nas redondezas da escola, abrangendo um grande contingente de alunos provenientes desta região. Tanto as escolas que se dispuseram a participar deste estudo, como as alunas entrevistas, contribuíram de forma valoroza na realização da pesquisa, pois se mostraram à vontade e interessados em estar respondendo às questões propostas, o que facilitou o nosso trabalho e a qualidade das respostas coletadas de forma manuscrita. O tipo de amostra foi definido pelo método não-probabilístico, pelo fato de não termos uma informação precisa dos elementos do público alvo. Portanto, utilizamos a seleção de forma acidental, ou seja, escolhemos as escolas com maiores chances de encontrar o público alvo de estudo, totalizando um número de trinta e quatro entrevistadas, sendo que na primeira escola foi possível aplicar os questionários a 23 alunas e 11 alunas na segunda escola. As mulheres que compõem as turmas de EJA nestas duas escolas, são de baixa renda e provenientes de bairros periféricos da cidade. Cerca de 37% das entrevistadas encontram-se na faixa etária entre 30 a 50 anos e frequentam principalmente as totalidades finais, correspondentes ao 5º, 6º, 7º e 8º anos do 10 ensino fundamental. Percebe-se portanto, através destes dados, que as mulheres se alfabetizam, porém, alguns fatores fazem com que ela desista de estudar. Do total das entrevistadas, 22 mulheres são casadas, sete são solteiras, uma viúva e quatro divorciadas. Deste total, apenas cinco mulheres não possuem filhos, sendo que as demais possuem de um a quatro filhos. Quanto ao enquadramento profissional, 28 mulheres trabalham e desempenham funções como: camareira, zeladora, costureira, auxiliar de limpeza, doméstica, cozinheira, produção de alimentos, auxiliar de produção, entre outras. Por estas funções, 78% das mulheres recebem apenas um salário mínimo, sendo que a maioria delas são provedoras do lar. Estas mulheres enfrentam diariamente uma dupla, ou até tripla, jornada de trabalho, se considerarmos o cuidado da casa, dos filhos e o trabalho formal (muitas delas, ou seja, 75% trabalham por oito horas diárias). Segundo Andrade (2008), as cobranças em relação às mulheres são grandes e, competir com os homens por escolarização, trabalho e visibilidade social, demanda grande esforço e habilidades que mulheres pobres, geralmente, dispõem menos que as mulheres de classe média. Durante muito tempo as mulheres foram confinadas apenas a realização do trabalho doméstico e aos cuidados dos filhos, no entanto, segundo Aranha (2006) isto nem sempre foi assim, na comunidade primitiva a mulher desempenhava um papel social relevante, participando das atividades coletivas da tribo. Mesmo que já houvesse divisão de tarefas, essas eram complementares, não de subordinação. Quando surgiu a propriedade privada, a mulher foi confinada ao mundo doméstico e subordinada ao chefe da família [...] De participante da produção social, a mulher viu-se reduzida a função de reprodutora e encarregada da educação dos meninos até os sete anos de idade, enquanto as meninas permaneciam confinadas ao lar até o casamento. (ARANHA, 2006, p.) Este processo de confinamento da mulher à esfera privada restringiu a sua inserção nos meios de socialização e escolarização. Somente nas últimas décadas é que as mulheres vêm conquistando e forçando a queda de alguns preconceitos quanto ao seu papel na sociedade do trabalho, mas ainda é possível visualizar que mesmo com a conquista de novos espaços de socialização, na maioria das vezes, principalmente as mulheres de baixa renda, ainda lhe são atribuídas funções que caracterizam a naturalização do papel da mulher. Os cargos e salários mais elevados com caráter de chefia ou supervisão, são mais direcionados aos homens do que às mulheres. 11 Uma pesquisa 1 divulgada recentemente mostra o ranking mundial sobre a forma com que os países distribuem os recursos e oportunidades entre homens e mulheres, estabelecido pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), no qual o Brasil aparece na 85ª posição entre 134 países. Segundo este estudo, a participação das mulheres no mercado de trabalho representa apenas 64%, estando abaixo da média dos homens, que representam 85%. Também, há uma grande diferença entre os salários de ambos os sexos, as mulheres ganham menos de dois terços do que os homens (US$ 7.190 contra US$ 12,006). Neste quesito o Brasil é um dos piores países do mundo, ocupando a 123º posição no ranking mundial. Ao questionarmos as alunas da EJA sobre os motivos que as levaram ao abandono da escola em idade regular, 40% afirmam terem deixado a escola pela necessidade de trabalhar, 16% por não possuir vontade de estudar, 4% por falta de apoio da família, 8% por falta de condições financeiras para estudar, 8% pela distância de sua casa até a escola, 12% por causa da maternidade e outras 12% em função do casamento. Percebemos a expressividade do número quanto a questão do trabalho, a necessidade de trabalhar vem como um dos principais motivos que levaram as mulheres a abandonar a escola. Nota-se, portanto, que as trajetórias estão marcadas por uma escolha profissional forçada pela própria necessidade de sobrevivência. Sem muitas opções, a situação financeira de suas famílias as obrigava a trabalhar desde muito cedo. A metade das entrevistadas responderam que ingressaram no mercado de trabalho com idades entre 11 a 15 anos e apenas 19% começaram a trabalhar a partir dos 19 anos de idade. Nesse sentido, é visível que a entrada precoce das mulheres no mercado do trabalho, contribuiu significativamente para a evasão escolar das mesmas e que ainda meninas foram expostas a situação de trabalho precarizado, já que não tinham muitas opções a não 1 O relatório é elaborado ano a ano pelo Fórum Econômico Mundial há meia década. Dos 114 países que foram analisados em todos os cinco anos passados, o estudo indicou que em 86% dos países acompanhados houve uma redução da desigualdade entre os sexos, enquanto que nos outros 14% houve um aumento. Os países nórdicos – Islândia, Noruega, Finlândia e Suécia – continuam liderando a lista, mas os maiores avanços relativamente à sua posição anterior foram registrados em Angola, Bangladesh e os Emirados Árabes. O estudo foi divulgado no dia 12 de outubro de 2010. O relatório completo sobre esta pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Mundial (FWE) pode ser conferido na integra no site http://www.weforum.org/en/index.htm 12 ser ir em busca de seu próprio sustento, deixando assim os estudos em segundo plano. Se observarmos as porcentagens relativas à influência de situações como o casamento e a maternidade, soma-se um percentual de 24% a favor da evasão escolar. O fato da mulher, ter que arcar com a responsabilidade de cuidar da casa e educar os filhos se deve a uma construção social que foi sendo definida em cada sociedade e que imprime os estereótipos sobre o papel da mulher. Ao ser atribuído como um “destino natural a mulher”, o casamento é uma questão que esteve por muito tempo atrelada a uma demanda social e econômica onde ter um lar e filhos lhes atribuía status e ao mesmo tempo, não havia para elas outras formas mais garantidas de subsistência e segurança. Também observamos, mesmo que em menor proporção, que a falta de infraestrutura social, representada pela dificuldade de acesso à escola para as mulheres que moravam no interior do município, ou seja, no meio rural. A falta de vontade de estudar e ausência do apoio da família demonstra que estas famílias, provavelmente também não tiveram acesso a escolarização, impelidas pela necessidade imediata de sustento, não incentivavam seus filhos a estudar, mas apenas a trabalhar. Entre as questões que seguem, perguntamos se em algum outro momento da vida delas tentaram voltar a escola. Cerca de 50% das mulheres, responderam que não tentaram em nenhum outro momento voltar a estudar depois de terem abandonado e as que tentaram acabaram desistindo pelos mesmos motivos que as fizeram deixar a escola em idade regular. Uma das mulheres entrevistadas nos relatou que casou aos 16 anos e o marido sempre a “iludiu” dizendo que ela iria voltar a estudar, mas que depois ele não a permitiu mais, '”tentei por várias vezes, mas meu marido não deixou”, dizia ela. Percebe-se assim, que as determinações sociais de gênero interferem diretamente na vida da mulher, segundo Alves (2006) os fatores que advém de uma relação desigual entre os sexos, seja na relação familiar, bem como nas definições dos papéis femininos e masculinos, frutos das relações de gênero, são determinantes no processo de dominação. Para esta autora, as relações de gênero, são relações de poder, de hierarquia e de prestígio que solidificaram a dominação masculina e destinaram às mulheres a subalternidade e a submissão. Ao evocar Foucault, ela explica que trata-se de um poder que se exerce mais do que se possui, que não é o privilégio adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas – efeito 13 manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominado. (Foucault, 1987 apud Alves 2006). Com relação à evasão, foi possível detectar ao averiguar os registros de frequência dos alunos de EJA, no período letivo em que as mulheres foram entrevistadas, ao término do primeiro semestre. Muitas das alunas que haviam se matriculado no início do período letivo acabaram desistindo. Quando questionadas sobre as principais motivações do retorno à escola, novamente a necessidade de trabalhar encontra-se em todas as respostas, demonstrando que a escolarização e o trabalho possui, para as entrevistadas, uma relação intrínseca. Porém, o diferencial da questão ocupacional mencionada anteriormente é que estas mulheres não estão procurando apenas trabalhar, mas segundo elas, trabalhar dignamente, ou seja, ter uma remuneração merecida, satisfação quanto a atividade que se exercem, qualidade de vida e, talvez, uma ocupação menos extenuante, o que elas demonstram não encontrar nas funções hoje desempenhadas. Percebemos que muitas vezes o fato de não encontrar satisfação na profissão exercida está ligada diretamente com a desvalorização salarial, bem como, aos preconceitos existentes acerca de certas profissões, como por exemplo, o trabalho doméstico que é visto pela sociedade em geral e até mesmo para as que a exercem, como uma profissão que não exige qualificação, ao contrário, que é uma habilidade inata, ou seja, está denominada como natural ao papel da mulher. Os relatos que seguem ilustram bem esta realidade. “Quero mudar de profissão, onde eu trabalho não tenho todos os direitos de um trabalhador”. (Cristina, empregada doméstica). “Ter um emprego melhor, ganhar um pouco melhor. Sair da limpeza e pegar numa metalúrgica”. (Maria, zeladora e auxiliar de limpeza) Porém, sabe-se que todo o processo de modernização, trouxe atualmente uma nova realidade às empregadas domésticas e auxiliares de limpeza, uma vez que hoje é preciso conhecer as mais variadas tecnologias encontradas em um lar para melhor desempenhar esta função. Mesmo que de forma mais tímida, as mulheres expressaram outros motivos relevantes em relação à procura de formação como, por exemplo, dar um bom exemplo aos filhos. Nas palavras de Perrot ( 2007) para as muheres a maternidade 14 é um momento e um estado muito além do nascimento pois dura toda a vida da mulher. Dar continuidade aos estudos como uma forma de incentivar os filhos à estudar nos leva a refletir sobre o fato das mulheres continuarem empreendendo esforços para o sucesso dos filhos independente das dificuldades que podem encontrar ao voltar a estudar: “O emprego, pra encontrar emprego tem que estudar. Pra dar um bom exemplo para os filhos é preciso estudar, é importante. Tem que ter vontade”. (Lucia) “Estou cansada mas estou aqui. Agora leio a agenda dos meus filhos, antes eu não sabia” (Maria) “Foi o meu filho, quero que ele sinta orgulho de mim” (Daiana) “O principal motivo é por que meus filhos não tenham vergonha de dizer que tem uma mãe pouco instruída” (Vitória) Nesse sentido, Andrade (2008) afirma que, Se, antes, o lugar da mulher era em casa, para cuidar de afazeres domésticos e das crianças, hoje o lugar da mulher também é na escola, mas não com o objetivo primeiro, ou não só com o objetivo de promover a profissionalização feminina para competir com os homens no mercado de trabalho dentro de uma maior equidade. Um dos objetivos da educação feminina (principalmente da mulher pobre), para as mais diferentes instâncias, é preparar/educar/ensinar a mulher a cuidar mais e melhor da família e dos/as filhos/as. Entretanto, as mulheres possuem outras ambições, como a concretização do sonho de poder dar continuidade aos estudos, cursando uma graduação ou curso técnico e também aprender mais, sentidos expressos pelas entrevistadas e que representam anseios que ainda não foram vividos ou experimentados mas que, a partir da EJA, estão se tornando possíveis de serem vistos, a poucos passos da realização. Também foi possível perceber a ânsia de algumas mulheres pela independência financeira, consoante a seguinte narrativa: “Se eu pudesse ganhar mais não dependeria tanto do meu marido...” . Assim, é possível afirmar que o trabalho, até mesmo o fato de ter uma remuneração melhor, está diretamente relacionada às questões de auto-estima e emancipação da mulher. A elevação da escolarização, bem como a inserção da mulher no mercado de trabalho, traz a elas novas perspectivas de melhorias de vida, porém, ressaltamos que algumas mulheres se posicionaram de forma pouco favorável quanto à esta questão, pois, talvez, nem todas se apropriaram da importância de uma formação continuada, mas simplesmente desejam concluir os estudos pela necessidade 15 imediata de manter o seu emprego atual, não se preocupando com retornos mais significativos que poderiam ser adquiridos a longo prazo se estas continuassem seus estudos. Nesta trajetória, de voltar a estudar, as mulheres passam também por dificuldades que percorrem pelo fato de ficar pouco tempo com os filhos, enfrentar o cansaço físico da jornada de trabalho, o descrédito da família, o medo de recomeçar, o difícil acesso da escola até a sua casa, como também a incompatibilidade de horários entre o trabalho e a escola. Muitas vezes, esta dificuldade de emancipação da mulher que a impossibilita de sair de casa para estudar e trabalhar também decorre da ausência de infra-estrutura para o atendimento social, como creches e escolas. A mulher mãe, esposa e trabalhadora sente a necessidade de ir em busca de escolarização e qualificação profissional, mesmo que tardiamente, mas isto somente é possível quando os filhos já estão crescidos e não dependem tanto dos cuidados maternos, como relata uma das mulheres entrevistadas, afirmando que apesar de ter quatro filhos e estar separada do marido, isto não representa mais uma dificuldade que a impede de retomar os estudos. Segundo a depoente, “as crianças já estão grandes, já se defendem sozinhas de noite”. (Maria) Talvez as mudanças que a EJA imprime para cada uma destas mulheres sirvam como alento para as dificuldades deste processo. Quando questionadas em relação às mudanças que perceberam nas suas vidas depois de estarem freqüentando a EJA, 76% das mulheres responderam que a EJA possibilitou/ possibilita, ter novas aprendizagens e conhecimento, conviver com pessoas diferentes, fazer amizades, melhorar a auto-estima e quadros de depressão, trazendo um novo ânimo para continuar estudando, como mostram os relatos a seguir: “Poder sair sozinha e deixar a família em casa me faz bem e também a cada dia aprendo uma coisa nova”. (Antônia). “Auto-estima. Quando a gente fica em casa a gente acha que não consegue. Quem para é a gente e não o tempo”. (Terezinha) “De certa forma, não me sinto uma pessoa tão velha, me sinto mais nova pela convivência com as pessoas mais novas”. (Silvana). As entrevistadas também demonstraram ter uma visão positiva com relação à proposta educacional da EJA, bem como aos efeitos que a EJA proporciona nas suas vidas, constituindo-se num espaço de socialização e empoderamento da 16 mulher. Quando questionadas sobre o que mais gostam na EJA, a maioria das respostas esteve relacionada aos sujeitos que a compõe, sejam professores ou colegas, o que demonstra um forte vínculo afetivo entre eles, corroborando para a efetivação do ensino-aprendizagem destes alunos que se apresentam em idade irregular de ensino, mas que no entanto buscam recuperar o tempo perdido com dedicação e perseverança, indo em busca de um futuro melhor para si e para suas famílias, como demonstra o relato a seguir: “Aprendi muito. É muito bom. Tem muitas pessoas que não sabiam nem escrever o nome e agora já sabem, tem gente que não conseguia nem pegar no lápis e hoje já sabem. Tem gente que não sabia nem pegar o ônibus e agora já estão bem espertos. Eu não sabia nem fazer as minhas continhas no final do mês, agora eu coloco tudo na ponta do lápis. Eu larguei tudo, larguei os filhos e a casa para estudar. Tô cansada mas tô aqui. Agora leio a agenda dos meus filhos, antes eu não sabia. Eu pensava assim, quem precisa sou eu. Hoje tem a EJA só não faz quem não quer. (Clara Maria). É neste sentido que a EJA representa um caminho para a minimização dos efeitos da exclusão a que a vida da mulher foi relegada durante muitos anos, pois possibilita a ela uma nova chance de poder melhorar suas condições de trabalho e renda, bem como proporciona sua autonomia e empoderamento, que somente a qualificação pessoal a proporciona, trazendo a ela novas possibilidades de inserção nos espaços de socialização que se ampliam à medida que refletem numa nova visão de mundo. Considerações finais Este estudo objetivou analisar, na perspectiva de gênero, o que as mulheres buscam através de sua formação na EJA, a fim de compreender os motivos que influenciam a procura cada vez maior pelas mulheres por esta modalidade de ensino. Buscamos também identificar o perfil das alunas que frequentam a EJA, bem como os principais motivos que as levaram ao abandono dos estudos em idade regular. Verificamos através dos resultados que as mulheres buscam na EJA, principalmente, a possibilidade de qualificação para a inserção ou competição no mercado de trabalho, a fim de melhorar as condições que a põe em situação de subalternidade, já que a maioria das mulheres são de baixa renda e atuam em profissões que não são reconhecidas financeiramente para reverter esta condição. 17 A mulher pretende concluir os estudos, também como uma forma de superação e realização pessoal e vê na busca de sua formação uma alternativa para a construção de sua autonomia e elevação da auto-estima, pois estar na escola é inserir-se num espaço de socialização e ser valorizada enquanto sujeito. As determinações de gênero construídas pela sociedade ao longo da história interferem diretamente na vida da mulher e, embora elas tenham conquistado um espaço significativo nas relações sociais, no mercado de trabalho e efetivação de seus direitos, ainda há muitos caminhos à percorrer para que sejam realmente respeitadas e reconhecidas em nossa sociedade. Talvez a EJA seja um desses caminhos que podem ser percorridos pela mulher e que a favorecerá no seu processo de emancipação. Referências bibliográficas ALVES. Francisca E. Mulheres trabalhadoras, sim. Alunas, por que não? Estudo sobre gênero, trabalho e educação na Bahia. 2006. 140 f. Dissertação (Mestrado emEducação) Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Católica de Brasília. Brasília, 2006. Disponível em: http://www.bibliotecaacaoeducativa.org.br/dspace/handle/123456789/1743 acesso em 10/10/10. 12 ANDRADE, Sandra dos Santos. Juventude, processos de escolarização e maternidade. Anais do Fazendo Gênero 8. 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