EDUCAÇÃO E RURALIDADES UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB Reitor: Lourisvaldo Valentim da Silva; Vice-Reitora: Adriana dos Santos Marmori Lima DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO - CAMPUS I Diretor: Antônio Amorim Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – PPGEduC – Coordenador: Elizeu Clementino de Souza GRUPO GESTOR Editora Geral: Tânia Regina Dantas Editora Executiva: Liége Maria Sitja Fornari Coordenadora Administrativa: Noélia Teixeira de Matos Antônio Amorim (DEDC I), Elizeu Clementino de Souza (PPGEduC),Walter Von Czekus Garrido, Maria Nadija Nunes Bittencourt, Lynn Rosalina Gama Alves (Suplente), Joselito Brito de Almeida (representante discente) CONSELHO EDITORIAL Conselheiros nacionais Antônio Amorim Universidade do Estado da Bahia-UNEB Ana Chrystina Venâncio Mignot Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ Betânia Leite Ramalho Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN Cipriano Carlos Luckesi Universidade Federal da Bahia-UFBA Dalila Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG Edivaldo Machado Boaventura Universidade Federal da Bahia-UFBA Edla Eggert Universidade do Vale do Rio dos Sinos-UNISINOS Elizeu Clementino de Souza Universidade do Estado da Bahia-UNEB Jaci Maria Ferraz de Menezes Universidade do Estado da Bahia-UNEB João Wanderley Geraldi Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP José Carlos Sebe Bom Meihy Universidade de São Paulo-USP Liége Maria Sitja Fornari Universidade do Estado da Bahia-UNEB Maria Elly Hertz Genro Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS Maria Teresa Santos Cunha Universidade do Estado de Santa Catarina-UDESC Nádia Hage Fialho Universidade do Estado da Bahia-UNEB Paula Perin Vicentini Universidade de São Paulo-USP Robert Evan Verhine Universidade Federal da Bahia Tânia Regina Dantas Universidade do Estado da Bahia-UNEB Walter Esteves Garcia Associação Brasileira de Tecnologia Educacional / Instituto Paulo Freire Conselheiros internacionais Adeline Becker Brown University, Providence, USA Antônio Gomes Ferreira Universidade de Coimbra, Portugal António Nóvoa Universidade de Lisboa- Portugal Cristine Delory-Momberger Universidade de Paris 13 – França Daniel Suarez Universidade Buenos Aires- UBA- Argentina Ellen Bigler Rhode Island College, USA Edmundo Anibal Heredia Universidade Nacional de Córdoba- Argentina Francisco Antonio Loiola Université Laval, Québec, Canada Giuseppe Milan Universitá di Padova – Itália Julio César Díaz Argueta Universidad de San Carlos de Guatemala Mercedes Villanova Universidade de Barcelona, España Paolo Orefice Universitá di Firenze - Itália Coordenador do n. 36: Prof. Dr. Elizeu Clementino de Souza Os/as pareceristas ad hoc do número 35 e 36: Doutores: Aline Silva Lara de Alvarenga, Ana Chrystina Mignot, Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas, Ângela Santana, Antonio Dias Nascimento, Beatriz T. Daudt Fischer, Carmen Sanches Sampaio, Charliton José dos Santos Machado, Christine Jacquet, Clarice Santos Mota, Cláudia Maria Ribeiro, Cleiton de Oliveira, Décio Gatti Júnior, Desirée De Vit Begrow, Dislane Zerbinatti Moraes, Eduardo José Fernandes Nunes, Ecleide Cunico Furlanetto, Elaine Pedreira Rabinovich, Eliseu Clementino de Souza, Gabrielle Grossi, Ilsen Chaves da Silva, Jadir de Morais Pessoa, João Ferreira de Oliveira, Joceval Andrade Bitencourt, Josemar da Silva Martins , Júlio Emílio Diniz -Pereira, Luciana Duccini, Liana Gonçalves Pontes Sodré, Lívia Fialho Costa, Luciano Costa Santos, Lucilene Reginaldo, Lynn Alves, Maria da Gloria Canto de Souza, Maria Luisa Xavier, Maria Teresa Santos Cunha, Marcea Andrade Sales, Marcos Luciano Lopes Messeder, Marcos Silva, Narcimária Correia do Patrocínio Luz, Paula Perin Vicentini, Rita de Cassia Gallego, Ronalda Barreto Silva, Sandra Soares, Thierry De Burghgrave. Revisão: Luiz Fernando Sarno; Bibliotecária (referências): Jacira Almeida Mendes; Tradução/revisão: Eric Maheu; Capa e Editoração: Linivaldo Cardoso Greenhalgh (“A Luz”, de Carybé – Escola Parque, Salvador/BA); Secretária: Dinamar Ferreira. REVISTA FINANCIADA COM RECURSOS DA PETROBRAS S.A. ISSN 0104-7043 Revista da FAEEBA Educação e Contemporaneidade Departamento de Educação - Campus I Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB Revista da FAEEBA – EDUCAÇÃO E CONTEMPORANEIDADE Revista do Departamento de Educação – Campus I (Ex-Faculdade de Educação do Estado da Bahia – FAEEBA) Publicação semestral temática que analisa e discute assuntos de interesse educacional, científico e cultural. Os pontos de vista apresentados são da exclusiva responsabilidade de seus autores. ADMINISTRAÇÃO: A correspondência relativa a informações, pedidos de permuta, assinaturas, etc. deve ser dirigida à: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Departamento de Educação I - NUPE Rua Silveira Martins, 2555 - Cabula 41150-000 SALVADOR – BAHIA - BRASIL Tel. (071)3117.2316 E-mail: [email protected] Normas para publicação: vide últimas páginas. E-mail para o envio dos artigos: [email protected] / [email protected] Site da Revista da FAEEBA: http://www.revistadafaeeba.uneb.br Indexada em / Indexed in: - REDUC/FCC – Fundação Carlos Chagas - www.fcc.gov.br - Biblioteca Ana Maria Poppovic - BBE – Biblioteca Brasileira de Educação (Brasília/INEP) - Centro de Informação Documental em Educação - CIBEC/INEP - Biblioteca de Educação - EDUBASE e Sumários Correntes de Periódicos Online - Faculdade de Educação - Biblioteca UNICAMP - Sumários de Periódicos em Educação e Boletim Bibliográfico do Serviço de Biblioteca e Documentação - Universidade de São Paulo - Faculdade de Educação/Serviço de Biblioteca e Documentação. www.fe.usp.br/biblioteca/publicações/sumario/index.html - CLASE - Base de Dados Bibliográficos en Ciencias Sociales y Humanidades da Hemeroteca Latinoamericana - Universidade Nacional Autônoma do México: E-mails: [email protected] e [email protected] / Site: http://www.dgbiblio.unam.mx - INIST - Institut de l’Information Scientifique et Technique / CNRS - Centre Nacional de la Recherche Scientifique de Nancy/France - Francis 27.562. Site: http://www.inist.fr - IRESIE - Índice de Revistas de Educación Superior e Investigación Educativa (Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación - México) Pede-se permuta / We ask for exchange. Revista da FAEEBA: educação e contemporaneidade / Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação I – v. 1, n. 1 (jan./jun., 1992) - Salvador: UNEB, 1992Periodicidade semestral ISSN 0104-7043 1. Educação. I. Universidade do Estado da Bahia. II. Título. CDD: 370.5 CDU: 37(05) Tiragem: 1.000 exemplares SUMÁRIO 9 Editorial 10 Temas e prazos dos próximos números da Revista da FAEEBA Educação e Contemporaneidade EDUCAÇÃO E RURALIDADES 15 Apresentação: Eliseu Clementino de Souza 19 Abertura das práticas da intervenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação. Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller 31 “Biografização” como competência-chave na modernidade. Peter Alheit 43 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas. Daniel H. Suarez; Agustina Argnani 57 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural. Dóris Bittencourt Almeida 69 Naturaleza, ruralidad y educación en Célestin Freinet José González Monteagudo 79 Con el invernadero aprendimos todos… Aprendimos todo. Conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales. Ana Padawer 93 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales Teresa González Pérez 105 Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação. Lúcia Gracia Ferreira 115 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910 – 1940) Luciane Sgarbi S.Grazziotin 127 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios 137 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola Catarina Malheiros da Silva 151 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da “educação rural” na Bahia Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araujo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 1-256, jul./dez. 2011 165 O Ensino rural e a atuação do intelectual Acrísio Cruz Miguel André Berger 175 Educação rural: retomando algumas questões Zeila de Brito Fabri Demartini 191 Educação do campo, Escolas, ruralidades e projeto do PNE Maria Antonia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia 205 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo ESTUDOS 217 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis Cynthia Pereira de Sousa 227 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia Maria Cristina Cardoso Ribas RESUMOS DE TESES E DISSERTAÇÕES 245 JARABIZA,Vander. O desenho Infantil na Prática Pedagógica de Professores da Educação Básica: das Vivências Às Valorizações. PPGE/UFPEL. Pelotas. 2009. 246 BALADELI, Ana Paula Domingos. Desafios na formação de professores para o uso das tecnologias da informação e comunicação no ensino e na aprendizagem de Língua Inglesa. PPGE/ UEM, 2009. 247 Normas para publicação Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 1-256, jul./dez. 2011 CONTENTS 11 Editorial 12 Themes and Terms to Submit Manuscript for the Next Volumes of Revista da FAEEBA Education and Contemporaneity EDUCATION AND RURALITIES 15 Presentation Eliseu Clementino de Souza 19 The Opening of Social Intervention Practices in Local Territory : an educational and research device. Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller 31 Biographization as a Key Competence in Modern Times. Peter Alheit 43 New Forms of Collective Organization and Production of Pedagogical Knowledge: the network of teacher training and educational narratives. Daniel H. Suarez; Agustina Argnani 57 A Work Reference for Rural Teachers: rural primary school Dóris Bittencourt Almeida 69 Nature, Rurality and Education in the Work of Célestin Freinet José González Monteagudo 79 With the Greenhouse we all Have Learned… we learn everything. rural youth´s knowledge and social practices Ana Padawer 93 Some teachers who Left their Mark: tracking the memory of rural teachers Teresa González Pérez 105 Life Stories of Rural Teachers : notes on historical questions and training policies Lúcia Gracia Ferreira 115 School Teachers at Home: memories of rural education in Bom Jesus (1910-1940) Luciane Sgarbi S.Grazziotin 127 City Teachers, Countryside Students: identities and discourses within the school Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios 137 Not Being only a Book Holder: rural young people elaborations about school Catarina Malheiros da Silva 151 Subjects, Institutions and Pedagogical Practices: weaving the multiple nets of rural education in Bahia Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho Sandra Regina Magalhães de Araujo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 1-256, jul./dez. 2011 165 Rural Education and the Role of Intellectual Acrísio Cruz Miguel André Berger 175 Rural education: going back to some issues Zeila de Brito Fabri Demartini 191 Rural Education, Public Schools, Ruralities and the National Education Project Maria Antonia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia 205 From Rural Education, to Countryside Education: a critical review Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo STUDIES 217 Pedagogical Modernity in the Laws: the normalisation of children’s populations Cynthia Pereira de Sousa 227 Post-Modernity and Teacher’s Education: the Healthy Inconsistency of Sand Castles Maria Cristina Cardoso Ribas THESIS’ ABSTRACTS 245 JARABIZA, Vander. Children’s Drawing in the Pedagogical Practices of Elementary School Teachers: from experiences to valuation PPGE/UFPEL. Pelotas. 2009. 246 BALADELI, Ana Paula Domingos. Challenges in Teacher Training for the Use of Information and Communication Technologies in the Teaching and Learning of the English Language. PPGE/ UEM, 2009. 247 Instructions for publication Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 1-256, jul./dez. 2011 EDITORIAL O número 36 da Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, dedicado ao tema “Educação e Ruralidades”, dá visibilidade ao debate acadêmico focado na problematização das tensões inerentes ao mundo rural em um cenário cultural urbanocêntrico, que vê o setor rural como um obstáculo à modernização. Ao debruçarem-se sobre a temática da “Educação Rural”, os autores aqui reunidos contribuem para qualificar o mundo rural valorizando sua especificidade e recusando as classificações dicotômicas que historicamente têm servido para desqualificar as dinâmicas sociais, políticas e culturais próprias do território rural. A “educação rural”, tomada contemporaneamente como educação no/para o campo, confronta-se com desafios de ordem paradigmática. Segundo Boaventura Santos estamos vivenciando a emergência de epistemologias no plural, fruto de um processo de descentralização e descolonização em que outros autores/ atores sociais buscam que suas vozes sejam ouvidas, buscam narrar suas próprias verdades. Não é o caso de negar as diferenças entre o rural e o urbano, nem de interpretar o rural de forma idílica – que é outra maneira de dominá-lo. A opção por essa temática deu-se pela valorização heurística das ruralidades, pela compreensão da relevância das experiências dos sujeitos que vivem, trabalham e produzem no espaço rural, com a intenção de tornar visíveis as investigações e estudos realizados, oportunizando, assim, o intercâmbio de experiências, o movimento de reflexão/ação sobre as vivências, a socialização das pesquisas de âmbito nacional e internacional e a divulgação do saber produzido coletivamente. Este número temático teve a coordenação do Prof. Dr. Elizeu Clementino de Souza, atual Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade do Departamento de Educação-Campus I, a quem coube a articulação com diferentes grupos de pesquisa no Brasil e no exterior, notadamente na Alemanha, Argentina, França e Espanha, intentando brindar os leitores e assinantes deste periódico com uma contribuição instigante para a discussão/reflexão sobre a produção do conhecimento concernente às diversas ruralidades que compõem o mundo contemporâneo. Tânia Regina Dantas Editora Geral da Revista da FAEEBA Liége Maria Sitja Fornari Editora Executiva da Revista da FAEEBA Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 9 Temas e prazos dos próximos números da Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade Prazo de entrega dos artigos Lançamento previsto Educação de Jovens e Adultos e Formação de Professores 31.10.2011 Abril de 2012 Tânia Regina Dantas e Maria Olívia de Matos Oliveira 38 Gestão Educacional e Escolar 30.05.2012 Novembro de 2012 Antonio Amorim e Ivan Novaes 39 Educação e Filosofia 31.10.2012 Abril de 2013 Luciano Costa Santos e Adailton Ferreira Silva Nº Tema 37 Coordenadores Enviar textos para Liége Fornari: [email protected] / [email protected] /[email protected] 10 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 EDITORIAL The Volume 36 of the Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, dedicated to the theme “Education and Ruralities”, offers visibility to the academic debate around the inherent tensions of the rural world in an urbanocentric cultural scene which perceive the rural sector as an obstacle to modernization. Bending over the theme of Rural Education, the authors have contributed to qualify the rural world, highlighting its particularities and challenging the dichotomies which historically have been used to disqualify the social, political, and cultural dynamics of the rural space. The rural education, presently considered as an education in and for the field, is confronted to challenges of a paradigmatic order. According to Boaventura Santos, we are now living the emergence of plural epistemologies, product of a decentralization and decolonization process in which other social actors/ authors sought that their voice be heard and their own truths told. It is not the case to deny the differences between the urban and the rural worlds, neither to interpret the rural world in an idyllic way, as it would be an other manner to dominate it. The option for this theme is due to the heuristic valorization of the ruralities and to our understanding of the relevancy of the experiences of the subjects who live, work and produce in the rural space. We intent to turn visible the enquiries and studies done, giving way to the exchange of experiences, to reflections upon them and to the socialization of research from Brazil and other countries. This thematic volume was coordinated by Elizeu Clementino de Souza who is head of the graduation program in education of the UNEB Faculty of Education. It was its role to articulated various research groups from Brazil and other countries, especially from Germany, Argentina, France and Spain, procuring to offer to our readers a stimulating contribution to the reflection upon the production of knowledge about the ruralities who made up the modern world. Tânia Regina Dantas General Editor of the Revista da FAEEBA Liege Sitja Fornari Executive Editor of Revista da FAEEBA Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 11 Themes and terms for the next journals of Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade Terms Anticipated date of publishing Education of Youths and Adults 31.10.2011 April 2012 38 School Management 30.05.2012 November 2012 39 Education and Philosophy 31.10.2012 April 2013 Nº Themes 37 Coordinators Tânia Regina Dantas e Maria Olívia de Matos Oliveira Antonio Amorim e Ivan Novaes Luciano Costa Santos e Adailton Ferreira Silva Email papers to Liége Fornari: [email protected] / [email protected] /[email protected] 12 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 EDUCAÇÃO E RURALIDADES Elizeu Clementino de Souza APRESENTAÇÃO Educação e ruralidades: olhares cruzados sobre ruralidades contemporâneas As questões postas na contemporaneidade sobre as relações entre educação e ruralidades tem nos permitido ampliar conceitos, apreender diversidades e viver transformações dos sujeitos e do mundo rural, numa sociedade marcada pela transposição de modelos urbanos para os territórios rurais e, em muitos momentos, pela apropriação da cultura como uma das novas possibilidades de compreensão do rural, na perspectiva do turismo ecológico, da agricultura e da transposição de paradigmas culturais e agronômicos, frente aos novos contornos das ruralidades brasileiras. Inicialmente, cabe destacar nossa opção teórica e política pela apreensão do rural, aqui entendido como diversas ruralidades, por entendermos que a singularização deste termo (rural) ou a adoção de educação do campo não dá conta das questões que têm mobilizado discussões diversas sobre os territórios rurais. Ainda assim, reconhecemos como legítimas as políticas atuais sobre educação do campo e as influências dos Movimentos Sociais no contexto brasileiro. Nossa opção recai sobre possíveis articulações entre práticas escolares e território, como fatores que intervêm no processo e nos resultados de qualquer escola, mesmo as situadas em regiões urbanas. Quando nos referimos às escolas situadas no território rural, fazem-se necessários investimentos diversos, na perspectiva de contribuir para a fixação dos sujeitos que habitam o espaço rural, as condições de formação dos professores e do trabalho desenvolvido nas escolas rurais, especialmente, por considerar questões concernentes à remuneração, condições de trabalho, deslocamentos, construção de identidades e suas relações com os territórios de pertencimento, a fim de que os conhecimentos produzidos no cotidiano do mundo rural possam favorecer a superação dos graves problemas que atingem a Educação Básica do sistema público no estado da Bahia e no Brasil, especialmente no que se refere à educação rural/do campo. O dossiê apresentado configura-se, numa perspectiva dialógica, como espaço de socialização de reflexões e estudos empreendidos por pesquisadores brasileiros, europeus e latino-americanos que se debruçam sobre o mundo rural e suas relações com a pesquisa (auto)biográfica, memória, dispositivos de formação e questões vinculadas ao trabalho docente no cotidiano das escolas rurais. O presente número inicialmente expõe três textos que discutem questões de escrita, biografização e documentação narrativa, apresentando reflexões teórico-metodológicas sobre práticas de intervenção, pesquisa biográfica, documentação narrativa como dispositivos de pesquisa-formação. O texto de Izabel Galvão, Christine Delory-Momberger, Jean-Claude Bourguignon e Jean-Jacques Schaller, intitulado Abertura das práticas da intervenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação, narra experiências de pesquisa desenvolvida no interior da França com entidades sociais ao destacar, por meio do dispositivo da escrita narrativa, modos como os sujeitos sociais criam inteligência coletiva e dispositivos de pesquisa-formação mediante a reflexividade. O texto de Peter Alheit, Biografização como competência-chave na modernidade, sistematiza questões sobre o processo de biografização nas socieda- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 15-18, jul./dez. 2011 15 Apresentação des modernas, numa interface entre nossa inserção no mundo e como construímos disposições internas em interação com as condições externas, para nos colocarmos biograficamente no mundo. O artigo de Daniel Hugo Suárez e Agustina Argnani, Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas, situa a Rede de Formação Docente e narrativas pedagógicas empreendidas como política de formação no contexto argentino, na medida em que destaca formas coletivas de construção e reconstrução dos saberes pedagógicos no campo educativo. O debate sobre o mundo rural ganha contorno por meio de discussões sóciohistóricas sobre a educação e a escola no território rural, mediante reflexões acerca dos aspectos históricos da educação rural, questões sobre histórias de vida, formação e trabalho docente e suas relações com a memória, a escrita e as práticas de formação. Importa também destacar os modos próprios como os textos apresentados no dossiê e as singularidades e entradas das pesquisas abordam as diversas ruralidades, seja em relação aos sujeitos (crianças, jovens, homens e mulheres), seja em relação às questões vinculadas às instituições e às práticas pedagógicas no contexto escolar rural e suas diversas materialidades por meio das aulas, dos livros, das escritas e das narrativas dos sujeitos que constroem o território rural. O texto de Dóris Bittencourt Almeida, Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural, centra-se na análise da obra Escola Primária Rural, no contexto do Rio Grande do Sul no início da década de 1950, como produção da professora rural Ruth Ivoty Torres da Silva, ao destacar imagens sobre a escola, professores, alunos e os sujeitos do mundo rural. O artigo de José González Monteagudo, Naturaleza, ruralidad y educación en Célestin Freinet, discute influências da pedagogia de Freinet sobre as escolas rurais ao destacar percursos biográficos do referido educador e suas relações com as concepções de natureza, educação rural, método natural, cooperação e aprendizagem. Em seguida, Ana Padawer, no seu texto Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo. Conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales, toma o conceito de ‘participação periférica legítima’ com o objetivo de situar processos de aprendizagens de jovens rurais, suas interfaces com o trabalho familiar e as possíveis mobilidades vividas entre projetos educacionais e ocupacionais, mediante processos de escolarização e desenvolvimento em territórios rurais no noroeste argentino, ao destacar a importância do protagonismo dos jovens rurais na construção de seus processos identitários. Teresa González Pérez, em seu texto Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales, parte do contexto educacional espanhol do século XX para desenhar o traçado histórico da biografia das mestras que deixaram marcas. Sua análise destaca questões políticas sobre a falta de atenção pública às escolas rurais, especialmente no que se refere à formação inicial de professores. Ao recorrer aos relatos autobiográficos sobre experiências profissionais em interface com a memória oral e as recordações sobre a educação em territórios rurais na Canária (Espanha), o texto apresenta inquestionável contribuição teórica para as reflexões sobre ruralidades na contemporaneidade. A verticalização sobre o trabalho com histórias de vida e questões de formação é sistematizada por Lúcia Gracia Ferreira, no artigo intitulado Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação. 16 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 15-18, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza Ao apresentar aspectos sócio-históricos com base na pesquisa (auto)biográfica) de professoras rurais do município de Itapetinga (BA), destaca o cenário da educação rural do município, apontando questões de classe, gênero e do desenvolvimento do trabalho docente como elementos imprescindíveis para a compreensão do espaço rural. O texto de Luciane Sgarbi S. Grazziotin, intitulado Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940), discute, com base na História Oral, memórias de sujeitos do espaço rural, com ênfase nas práticas de escolarização, no que se refere às relações de gênero, questões econômicas, culturais, políticas e religiosas, no território rural do município de Bom Jesus (RS). O artigo de Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios, Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola, dialoga entre dizeres e silenciamentos de professores/professoras da cidade sobre as identidades dos alunos da roça que estudam na cidade, no que concerne às práticas discursivas e pedagógicas. Catarina Malheiros da Silva, em seu texto Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola, analisa sentidos das experiências escolares para jovens do Distrito Espraiado e fazendas, localizados em área rural do município de Palmas de Monte Alto (BA). O artigo de Elizeu Clementino de Souza, Fábio Josué Souza dos Santos, Ana Sueli Teixeira de Pinho e Sandra Regina Magalhães de Araújo, Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na Bahia, analisa questões sobre ações educativas que se desenvolvem em diferentes Territórios de Identidade do Estado da Bahia, buscando compreender como se dá a articulação entre as práticas educativas, lugares de aprendizagens com projetos educativos construidos no/para o mundo rural na contemporaneidade, por meio das histórias de vida de professores e sujeitos que habitam o território rural. O trabalho de Miguel André Berger, O ensino rural e a atuação do intelectual Acrísio Cruz, parte da história cultural como estudo historiográfico, com base na perspectiva biográfica, a fim de marcar percursos e trajetórias do intelectual Acrísio Cruz para a formação de professores para o meio rural no contexto sergipano, com influências do INEP para construção de escolas rurais e a criação da Escola Normal Rural. O texto de Zeila de Brito Fabri Demartini, Educação rural: retomando algumas questões, analisa questões concernentes à educação rural numa perspectiva sócio-histórica, desde o final do século XX até a atualidade do estado de São Paulo, no que se refere à oferta das escolas e à configuração dos sujeitos rurais. Maria Antônia de Souza e Patrícia Correia de Paula Marcoccia, em Educação do campo, escolas, ruralidades e o Projeto do PNE, analisam metas do Plano Nacional de Educação (2011-2020), no que se refere à educação do campo e sua derivação dos movimentos sociais na contemporaneidade, por meio de múltiplas identidades e ruralidades. Em Da educação rural à educação do campo: revisão crítica, Mary Rangel e Rosângela Branca do Carmo entrelaçam questões históricas da educação rural com a educação no campo, destacando questões relacionadas às práticas pedagógicas e ao trabalho docente, que historicamente estiveram centradas numa lógica urbanocêntrica e da transposição da cultura educacional urbana para o mundo rural. Na sessão Estudos apresentamos dois trabalhos. O primeiro discute questões sobre a modernidade pedagógica e o discurso jurídico sobre a infância, e o segundo desenvolve questões sobre a (pós)modernidade e processos formativos. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 15-18, jul./dez. 2011 17 Apresentação O artigo de Cynthia Pereira de Sousa, A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis, analisa enunciados discursivos sobre a reforma educacional no Brasil e em Portugal acerca da modernidade pedagógica no campo jurídico sobre a infância. O texto de Maria Cristina Cardoso Ribas, (Pós) modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia, discute questões sobre a pós-modernidade no campo educacional e nas relações e experiências dos sujeitos. Por fim, apresentamos dois resumos de teses e dissertações que versam sobre, o desenho infantil e a formação de professores e o uso das tecnologias da informação e comunicação no ensino de Língua Inglesa. Destaco, ao finalizar esta apresentação dos textos aqui reunidos, que este dossiê materializa-se como ação da pesquisa Ruralidades diversas - diversas ruralidades: sujeitos, instituições e práticas pedagógicas nas escolas do campo Bahia-Brasil, que contou com financiamento da FAPESB e CNPq, e foi desenvolvida em colaboração entre a Universidade do Estado da Bahia(UNEB), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e a Universidade de Paris 13/Nord- Paris8/Vincennes-Saint Denis (França), uma parceria entre o Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e Historia Oral (UNEB), o Grupo de Pesquisa Currículo, Avaliação e Formação (CAF) e o Laboratório EXPERICE (Universidade de Paris 13). Ensejo que o presente dossiê possa colaborar com as reflexões sobre educação rural no campo educacional brasileiro, contribuindo para a produção e socialização de conhecimentos sobre escolas rurais e seus sujeitos, em estreita relação com os territórios rurais contemporâneos, na perspectiva de superação do eixo centralizador subjacente às políticas educacionais nas áreas rurais do Brasil, norteado pela lógica urbanocêntrica fortemente presente nesses territórios, em seu cotidiano e em suas escolas. Terra, 01 de novembro de 2011 Elizeu Clementino de Souza 18 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 15-18, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller ABERTURA DAS PRÁTICAS DA INTENVENÇÃO SOCIAL AO TERRITÓRIO: UM DISPOSITIVO DE PESQUISA E FORMAÇÃO Izabel Galvão Christine Delory-Momberger Jean-Claude Bourguignon Jean-Jacques Schaller * ** *** **** RESUMO Este artigo relata aspectos de uma pesquisa-ação-formação realizada junto a entidades sociais situadas no interior da França. A pesquisa teve o duplo objetivo de investigar as possibilidades de maior abertura das práticas de intervenção aos recursos dos territórios e às demandas de seus habitantes, e de promover a reflexão dos profissionais sobre o sentido de suas ações. O artigo situa esta problemática no contexto das políticas sociais atuais e destaca a originalidade do dispositivo criado, descrevendo suas etapas e modalidades formativas. Por meio da análise dos enunciados dos profissionais envolvidos, mostra como a experiência de pesquisa por eles realizada provocou um deslocamento que favoreceu mudanças na postura e práticas profissionais, e como a prática do registro escrito e do trabalho coletivo representaram meios privilegiados de desenvolvimento da reflexividade. Palavras-chave: Biografização. Escrita. Políticas sociais. Reflexividade. Sentido. ABSTRACT The Opening of Social Intervention Practices in Local Territory : an educational and research device. The present article reports aspects of an action research-training conducted along with social agencies located in the French countryside. The study had the dual purpose of investigating the possibilities of introducing intervention practices to Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da USP. Professora na Universidade Paris 13/Nord. Pesquisadora no Centro Interuniversitário EXPERICE. Endereço para contato: 1, rue de Chablis. 93000 Bobigny, França. [email protected] ** Doutora em Educação pela Universidade Paris 8/Vincennes. Professora na Universidade Paris 13/Nord. Vice-diretora do Centro Interuniversitário EXPERICE. Presidente da ASIVHIF. Diretora da revista internacional de pesquisa biográfica Le sujet dans la cité. Endereço para contato: 99, avenue Jean-Baptiste Clément. 93430 Villentaneuse, França. delory@lesujetdanslacite. com *** Adido linguístico. Professor na Universidade Paris 13/Nord. Secretário de redação de Le sujet dans la cité.. Endereço para contato: 99, avenue Jean-Baptiste Clément. 93430 Villentaneuse, França. [email protected] **** Doutor em sociologia pela Ecole en Hautes Etudes en Sciences Sociales/EHESS. Professor na Universidade Paris 13. Pesquisador no Centro Interuniversitário EXPERICE. Diretor do Master Politiques sociales, territoires et stratégies de direction da Paris 13. Endereço para contato: 99, avenue Jean-Baptiste Clément. 93430 Villentaneuse, França. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 19 Abertura das práticas da intenvenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação the resources and the demands of local inhabitants and to promote professional reflection on the meaning of their actions. The article aims to approach this problem in the context of current social policies and to highlights the originality of the developed device, describing its stages and modalities. It demonstrates, resorting to the statements of professionals involved, how their own research experience brought about a shift that favored changes in personal attitudes and in professional practices; it also demonstrates how the practices of taking written records and implementing collective work became privileged means for the development of reflexivity. Keywords : Biographical writing. Social policies. Reflexivity. Meaning. Políticas sociais e desafios para a formação Ao escolhermos realizar essa pesquisa-ação com organismos sociais implantados no interior da França buscávamos, entre outras coisas, pôr em destaque o tema da ruralidade e da visibilidade que este universo oferece para as dinâmicas de solidariedade. Contudo, este tema ofuscou-se ante a noção mais abrangente de território. Dada a superação das clivagens entre rural e urbano, definimos o rural como expressão de uma urbanidade que busca favorecer a comunicação entre indivíduos e o deslocamento de seus recursos e seus bens. Desta urbanidade (rural) vai decorrer toda a organização social do território e as modalidades de sua exploração. O território é então “um espaço comunitário ao mesmo tempo funcional e simbólico, onde práticas e uma memória coletiva construídas ao longo do tempo permitiram definir um ’Nós‘ diferenciado e um sentimento de pertencimento” (SENCÉBÉ, 2008, p. 37). As interrogações que atravessaram a investigação-formação que abordamos neste artigo dizem respeito à articulação entre as práticas educativas e seus territórios, sejam eles rurais ou urbanos: como as práticas se apoiam nos potenciais de um lugar e nos sinais de solidariedade e dinamismo emitidos por seus habitantes? No âmbito da intervenção social, essas perguntas favorecem a necessária reflexão sobre desafios que as políticas sociais atuais colocam para as entidades associativas e seus profissionnais. “Intervenção social” é a designação, na França, do campo que reúne todo um conjunto de ações e equipamentos sociais de “solidariedade coletiva” dirigidos a populações em situação de vulnerabili20 dade social, econômica ou cultural. Esse campo é regido por políticas públicas e efetivado, em grande parte, por associações privadas sem fins lucrativos1 missionadas, subvencionadas e controladas por diferentes instâncias do poder público. A despeito da profissionalização já bem consolidada, trata-se de um domínio ainda depositário de engajamento e militância, historicamente capaz de identificar e acolher demandas sociais emergentes. De uns dez anos para cá, esse campo confrontase com a aceleração do desengajamento do Estado e da instalação de uma tecnocracia hipergestionária que propõe a “racionalização” e a “qualidadetotal” como noções-chave para a modernização de um setor considerado como “arcaico” e muito “dispendioso” (CHAUVIÈRE, 2009). Essas injunções em relação à eficácia, à performance e à rentabilidade incidem diretamente sobre a atividade dos profissionais cujos meios de ação são cada vez mais sujeitos ao controle tecnocrático. Se, como “trabalhadores da sombra” (LHULIER, 2010), a questão do reconhecimento social sempre foi problemática para eles, esse contexto traz a dificuldade e mesmo a impossibilidade de que se reconheçam no seu próprio trabalho. A maneira autoritária e vertical (SCHALLER, 2006) pela qual essas orientações são transmitidas também incide sobre o sentido que o trabalho adquire para os profissionais. Em situações de formação continuada, essa problemática pode ser percebida por meio de queixas difusas pelas quais os profissionais exprimem um mal-estar e um sentimento de estarem despossuídos de sua capacidade de ação. Esse sentimento de impotência remete ao descompasso entre os meios de ação de que dispõem e as demandas O estatuto jurídico dessas associações depende de uma lei de 1901. 1 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller das pessoas a que se destinam suas ações. Essas situações também trazem à tona o sentimento de solidão dos profissionais, o qual remete, por sua vez, a um contexto que tende a valorizar somente competências individuais, deixando em segundo plano a dimensão do coletivo, pilar importante dessas culturas profissionais. Além desse contexto das políticas sociais, a precarização social confronta os profissionais a relações cada vez mais exigentes no que se refere ao investimento pessoal (ION, 2009). Da consideração desses elementos decorrem algumas perguntas para orientar a formação continuada dos trabalhadores sociais: como inverter a tendência à “racionalização” gestionária em curso no campo profissional e em formações a ele associadas? Como se afastar de um funcionamento pelo qual as solicitações da instituição formadora correm o risco de serem percebidas como injunções administrativas e desencadearem respostas estereotipadas sem valor formativo? Como ajudar os profissionais a desenvolver seu próprio processo de aprendizagem e sua capacidade de autorreflexão nesse contexto de transformação e de instrumentalização que ameaça obscurecer, para os profissionais, a percepção do sentido de suas ações? Convênio entre Universidade e entidades sociais As Associações de Salvaguarda da Infância e Adolescência são entidades dirigidas a crianças e adolescentes vítimas de violência, em situação de risco, em conflito com a lei, em situação de errância, entre outros, assumindo duas missões contraditórias: a protenção da infância e a prevenção da delinquência. Suas ações desdobram-se em diferentes formas de intervenção, seja em estabelecimentos como abrigos, internatos ou centros de retenção, ou em meio aberto, como educação de rua, serviço de orientação e medidas socioeducativas, serviço de formação e inserção profissional etc. É um parceiro importante do Departamento, instância pública administrativa responsável pela implementação das políticas sociais no território francês. Apoiada num convênio estabelecido entre Salvaguardas de três departamentos do oeste da França e o Departemento de Educação da Universidade de Paris 13/Nord2, a pesquisa-ação-qualificante (RAQ) que se realizou entre março 2008 e outubro 2009 tinha por objetivo a transformação da relação entre instituições, profissionais da ação social e os territórios nos quais exercem suas ações. Esse trabalho situa-se na corrente da pesquisa-ação, uma vez que essa corrente remete, como orientação geral, à intenção de levar em conta a voz dos profissionais e/ou atores locais na produção de saberes ligados a suas práticas, sejam elas profissionais ou sociais, e na transformação das práticas e representações a elas subjacentes. Nesse sentido, o estabelecimento desse convênio pode ser visto como um chamado para a abertura de um espaço de participação social sobre os territórios nos quais as associações exercem suas missões. Conforme uma fórmula que sintetiza a curvatura de mudança almejada pela RAQ, trata-se de passar da “perícia individual à competência coletiva”, da lógica descendente de um domínio sobre os outros e com frequência no lugar dos outros (os “beneficiários”) a uma lógica de ação coletiva conduzida com os “habitantes”, catalizando e mobilizando seus saberes e competências. O termo qualificante associado a esta pesquisaação designa a articulação entre uma investigação – a ser realizada pelos trabalhadores sociais – e uma formação de nível universitário3. Assim, os profissionais das Salvaguardas tinham um triplo estatuto: profissionais em formação continuada4, pesquisadores aprendizes, estudantes universitários. Tendo em vista que buscávamos estabelecer uma coerência entre a dimensão formativa e investigativa, algumas questões se impuseram: como um dispositivo de formação que visa a transformar as práticas da ação social, como uma verdadeira consideração de um território e de seus habitantes, pode adequar-se a seu objeto integrando esse princípio em sua própria concepção e estrutura? Como transpor e atualizar no próprio processo de Sob coordenação de Jean-Jacques Schaller. Diplomas que correspondiam à licenciatura Inserção e intervenção social sobre os territórios e ao master Educação, formação, intervenção social, dependendo do nível de estudo anterior dos profissionais. 4 Na França, a formação continuada é um direito do trabalhador – assegurado por lei desde 1971, e é efetuada por centros de formação ou universidades. 2 3 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 21 Abertura das práticas da intenvenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação formação a mudança de olhar e de postura visadas pela pesquisa-ação? Explicitado ainda de outra maneira: como fazer da formação uma ilustração e uma experiência dos princípios de horizontalidade, de fazer conjunto e de inteligência coletiva reivindicados pela pesquisa-ação? Etapas da pesquisa-ação Com uma duração de dezoito meses, a pesquisaação reuniu 25 profissionais atuando em diferentes estabelecimentos e serviços das associações parceiras. Esses profissionais representam uma grande variedade de cargos e funções que, para comodidade do leitor brasileiro, designaremos como educadores sociais. No âmbito da Universidade, a pesquisa mobilizou uma dezena de professores e pesquisadores, sendo em número de seis a equipe que acompanhou mais de perto a operação. A formação realizou-se em alternância, num esquema bastante comum no âmbito da formação continuada: os educadores continuaram exercendo suas atividades profissionais e durante uma semana por mês eram liberados para as aulas e as atividades de campo. O ritmo das semanas de formação alternavam aulas de cunho teórico ou metodológico, momentos de reflexão e de construção coletiva e tempos de pesquisa e de intervenção sobre os territórios escolhidos. O dispositivo desenvolvido previa a realização de um trabalho de campo pelos educadores, o qual visava a identificar as forças vivas de um território, reconhecer as formas de solidariedade que nele se organizam coletivamente e realizar, em conjunto com habitantes, modalidades de debate e de ação em torno de temas sociais identificados como centrais àquele território. 1) Construção de pesquisa-ação Essa primeira etapa teve por objeto constituir o grupo de profissionais em grupo de pesquisa. Tratou-se efetivamente de “constituir o grupo” permitindo aos “indivíduos” (profissionais em formação e pesquisadores universitários) encontrar nele seus lugares, criando condições de ligação e identificação pessoal e profissional, mediante atividades e suportes diversos (troca de experiências, diário de bordo, narrativas profissionais); mas tratava-se 22 sobretudo de levar o grupo a constituir-se como grupo de “pesquisadores”, dotando-se para isso de instrumentos metodológicos comuns (observação, técnicas de entrevista, coleta de dados) e uma “cultura comum”, construída em torno de alguns conceitos-chave emblemáticos da pesquisa. Essa cultura comum foi edificada em torno de duas grandes temáticas principais: a primeira, em torno e baseada no par verticalidade/horizontalidade, que problematiza as relações de poder e dominação que dividem o mundo social entre experts e profanos, os que sabem e os que não sabem, e que opõe à verticalidade política, administrativa e técnica, a vertente horizontal representada pelos princípios de inteligência coletiva, de mutualização de recursos e de competências (SCHALLER, 2006). A segunda edificou-se em torno e com base na injunção de fazer junto com os habitantes, que visa a uma mudança de postura nos princípios profissionais: de um lado, convidando a levarem em conta o conjunto do tecido humano, dos recursos e das potencialidades que compõem um território (e não somente a população tradicionalmente visada pela ação social, apreendida pelo prisma de seus déficits e dificuldades); de outro lado, solicitando modalidades de ação que engajem a participação ativa dos habitantes na abordagem de assuntos e problemas que lhes concernem. Paralelamente à construção desses elementos de um repertório comum, os profissionais dividiram-se em três equipes (em razão da origem geográfica) para realizar o trabalho de campo. A constituição do campo da pesquisa recobre tanto a escolha de um “território” quanto a determinação de temáticas pertinentes para encaminhar e orientar a pesquisaação sobre esse território. Esses recortes temáticos – parentalidade, partilha de saberes, relações intergeracionais num contexto de urbanidade rural, respectivamente – correspondem a uma primeira apreensão do terreno escolhido, ligados sobretudo às preocupações profissionais dos membros dos grupos e que eles constituem em “hipóteses” de observação e de pesquisa para uma primeira exploração do campo. Todas essas temáticas serão revistas e modificadas, ou simplesmente remanejadas, em virtude de um (re)conhecimento mais exato das realidades do território. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller 2) Um tempo de exploração do “território” e de seus recursos Ao longo da segunda etapa, que ocupou os quatro meses seguintes, os educadores foram postos em situação teórico-investigativa para explorar a complexidade de um “território” a fim de apreender suas características e potencialidaes. Ela se constitui numa fase de dupla descoberta para os educadores: descoberta de um território e seus habitantes, mas também descoberta dos questionamentos disciplinares e “científicos” (sociológicos, econômicos, demográficos, etc.) ligados a esta busca de conhecimento. Esses estudos de campo recorrem a uma multiplicidade de procedimentos: identificação e cartografia dos lugares, exploração e observação dos espaços públicos, coleta de dados históricos, demográficos, socioeconômicos e, sobretudo, entrevistas com os “atores locais” – vereadores, responsáveis institucionais, representantes associativos e “habitantes”, estes últimos com frequência entrevistados em seus próprios domicílios. Em todos esses encontros, a ênfase foi dada à compreensão das modalidades de convivência, das necessidades e expectativas de pessoas, das redes de ajuda mútua / solidariedade, das possibilidades de construção coletiva. Para a realização do trabalho de campo, durante dois dias da semana, as atividades eram descentralizadas, cada equipe reunindo-se em local próximo ao seu terreno empírico. Num desses dois dias, a equipe contava com a participação da dupla de pesquisadores universitários que acompanhavam mais de perto cada campo. E os dias em que o grupo todo se reunia em Laval, município sede da formação, constituiam-se na ocasião de confrontar e trocar entre as três equipes, de preparar a próxima etapa do trabalho de campo (inclusive aquelas que ocorriam fora do tempo previsto para tal, e que foram muitas), de se dotar – mobilizando as contribuições dos pesquisadores universitários – de um ou outro instrumento de observação ou de análise, ou ainda aprofundar determinada dimensão nocional (“território”, “identidade” etc.). É também durante esse momento que começam a ser formulados, pelas equipes de campo, os “pontos de controvérsia” (LATOUR, 2006), que sintetizam as observações feitas sobre o território ou que nascem dos encontros com os habitantes – é, por exemplo, a questão das relações entre “antigos” e “novos” habitantes, a das fronteiras internas a um mesmo território e os recortes socioeconômicos que elas delimitam, a questão das relações intergeracionais e do “lugar” da juventude, assim como a das identidades e das representações mútuas em contextos socioculturais múltiplos. A apreensão das especificidades do território permite às equipes ajustar os temas escolhidos para uma primeira abordagem dele; ante as hipóteses elaboradas no início, existem nesse momento paisagens bem reais e concretas, pessoas e rostos, palavras e narrativas, um território habitado e encarnado. 3) Um tempo de criação e animação de um “espaço de debate” Esse terceiro período, que se estendeu durante os seis últimos meses da formação (janeiro a junho 2009), corresponde mais particularmente ao objetivo de transformação próprio à pesquisa-ação, objetivo que se traduz pela busca de um “fazer junto com os habitantes”, implicando uma evolução das posturas profissionais e das práticas de intervenção. Para cada território escolhido, a finalização desse processo deveria adquirir a forma de um “espaço de debate” organizado em torno de uma questão comum reconhecida como particularmente significativa e reunindo um leque mais amplo possivel de atores (habitantes, vereadores, responsáveis institucionais, membros de associações não governamentais, etc.). O desafio era o de passar da “perícia individual à competência coletiva”, de uma lógica de tratamento individual fundada sobre um saber expert e sobre a relação que ele instala, a uma dimensão coletiva que faça emergir “comunidades de problemas” e que encontre nos recursos de um território os meios de se apropriar “solidariamente” dessas questões comuns e de trazer respostas para elas. Cada equipe lançou mão de recursos distintos para aos poucos dar corpo ao sentimento de uma comunidade de interesses e projetos: uma festa para montar um “álbum do bairro”, uma exposição de fotos tiradas na festa, atividades lúdicas e de troca de saberes na praça, encontros na casa dos habitantes ou em cafés frequentados por estes, etc. Foi com base na partilha de momentos de troca e convívio que se estabeleceu um laço de confiança entre os estudantes-pesquisadores e os habitantes, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 23 Abertura das práticas da intenvenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação mas também entre estes últimos, e que o espaço de debate pôde se inscrever e adquirir consistência. Modalidades da formação A preocupação em pautar o dispositivo em parâmetros coerentes com a problemática conceitual nos levou a privilegiar o trabalho em grupo e o registro escrito como modalidades especialmente fecundas para o desenvolvimento da reflexidade. A escrita dos profissionais foi solicitada não com um exercício a “ser entregue” para dar conta da apropriação de conteúdos propostos, mas como um trabalho que participa da elaboração do pensamento (OLSON, 1998) e da tentativa de compreender o sentido das ações (CIFALI & ANDRE, 2007). Nossas solicitações apoiaram-se na função heurística da escrita – destacando seu impacto sobre a cognição – em detrimento de sua função de transcrição segundo a qual a escrita ocupa lugar secundário e sem efeito na compreensão e na reflexão (REUTER, 2004). A escrita ocupou lugar central na experiência de campo, pois era preciso tomar notas das observações, das entrevistas, dos encontros: além de um caderno de campo pessoal, os educadores produziam registros para poder partilhar as observações com outros membros da equipe, de maneira a permitir a todos o acesso ao conjunto dos dados. No final, produziram coletivamente um relatório abordando a problemática, o percurso metodológico, e os resultados obtidos. Além desses textos mais voltados para a produção dos dados acerca de um território, os educadores foram solicitados numa escrita mais propriamente reflexiva, por meio do diário de bordo que acompanhou os 18 meses da formação e da dissertação individual que deviam realizar para obtenção do diploma universitário. Depositário dos questionamentos e das reflexões suscitadas pelas aulas e pelas diferentes leituras realizadas, das interrogações, descrições e realizações ligadas ao trabalho de campo, das tensões entre a formação e o retorno em meio profissional, da emergência de emoções, da análise de inter-relações entre o grupo, do trabalho de coconstrução coletiva deste dispositivo inovador, o diário de bordo permitiu aos educadores estabelecer conexões entre 24 os diferentes elementos da formação e contribuiu para registrar suas experiências e o processo de transformação da sua postura profissional. Como texto escrito no presente, ele permite a biografização escriturária imediata das experiências vividas durante a formação. Deve, portanto, manter-se o mais próximo de uma vivência, de um sentimento, de um pensamento do momento. Não se trata de querer dar conta de modo exaustivo de uma “vivência real”, ao contário, o diário se aceita como fragmentário. Entretanto esses fragmentos constituem ao longo do tempo um conjunto que permite religar um percurso e que contém momentos preciosos de percepção de situações, de reflexividade e de tomada de consciência que podem se revelar marcantes no momento da redação da dissertação ou, mais tarde, no momento da releitura. O diário possui ainda uma capacidade de antecipação; às vezes ideias que são anotadas nele escapam momentaneamente à consciência explícita do diarista. É somente no momento da releitura que este discerne relações, reconhece linhas, reconstrói um caminho. O fato de escrever permite dar forma a todos esses momentos que poderiam permanecer fugitivos ou mesmo desaparecer, permitindo àquele que escreve se apropriar e, por meio da escrita, tornar-se sujeito de sua vivência imediata. Cada um lê o mundo à luz de suas próprias experiências e das aprendizagens que pôde fazer, cada um diz o mundo com as palavras próprias a seu mundo mental, social, cultural, histórico e a seu imaginário. Contudo o ponto de vista expresso é sempre ligado a um aqui e agora e a releitura do diário leva a reconhecer ao mesmo tempo esse incessante movimento de biografização (DELORY-MOMBERGER, 2005) – que faz mover e transforma as emoções e opiniões – e o lugar que este ocupa para o sujeito que o experimenta ou o concebe. Solicitado no âmbito da formação, o diário de bordo não se confunde com o diário íntimo escrito para si. Ele é lido pelos professores/pesquisadores universitários e também partilhado com os colegas. A escrita socializada do diário de bordo obriga a levar em conta a dimensão grupal do processo de formação e participa da coconstrução de um coletivo. A leitura partilhada do diário evidencia uma pluralidade de olhares, permite a confrontação de Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller opiniões, de análises e de vivências singulares, e a construção de um saber coletivo e de uma cultura específicas ao grupo e à formação. Enfim, o diário de bordo é o registro da implicação do profissional em sua formação. Ele permite, aliás, tomar consciência de uma eventual sobreimplicação que pode decorrer do investimento intelectual ou afetivo mobilizado, das perturbações provocadas, das transformações sentidas mas ainda não analisadas de sua postura profissional. A alternância entre formação – campo de pesquisa – e campo de exercício profissional é, às vezes, difícil de conjugar e pode ser clarificada pela escrita regular do diário. A formação é um tempo privilegiado de aquisição de conhecimentos, de descobertas, de questionamentos e de reconcentração sobre si que abre a possibilidade de se ressituar nos seus ambientes profissionais. O diário de bordo constituiu o material bruto do qual deveriam emergir os elementos da dissertação individual. A recomendação para esse texto buscou diferenciar-se das instruções mais usais que exigem um tratamento objetivo de uma problemática ligada ao campo profissional, solicitando dos educadores da RAQ uma escrita implicada mediante a reflexão sobre suas práticas com base em uma experiência de campo realizada coletivamente: eles foram solicitados a fazer uma “releitura” da pesquisa coletiva, retomando passagens mais significativas para cada um, articulando-as a suas interrogações profissionais e fazendo-as dialogar com referências teóricas pertinentes. No acompanhamento dado à produção dessas escritas reflexivas, lugar central foi atribuído ao trabalho de identificação biográfica, de elaboração conceitual e de exploração teórica e prática de uma questão profissional, reconhecida pelo próprio indivíduo como campo de projeção, de valor, de interrogação quanto à sua prática profissional, a sua evolução e ao “sentido” que ele lhe dá. O trabalho de reflexividade operado sobre o percurso deve contribuir para a emergência de uma espécie de eixo central da narrativa e de motor da prática profissional. A questão profissional não se reduz a um questionamento meramente “técnico” ou “metodológico” tocante às práticas (mesmo se ela pode recobrir aspectos técnicos e metodológicos). Trata-se de uma preocupação que é significativa da orientação e do valor dados a sua prática profissional e que implica então o sentido para si e para os outros que assumem o exercício do ofício, que se traduz em interrogações sobre as maneiras de ser e sobre as maneiras de fazer profissionais e que têm ou podem ter repercussões diretas sobre as práticas. A explicitação da questão profissional requer então um trabalho aprofundado de investigação, de formulação, de conceitualização, por um lado com base em um eixo diacrônico numa identificação biográfica que busca reconhecer as formas evolutivas que ele tomou ao longo de um percurso profissional; por outro lado, sobre um eixo sincrônico no rescenciamento e na articulação de aspectos que ele implica em diferentes planos. A redação da dissertação individual foi para os profissionais a ocasião de se apropriar das conexões entre essa experiência como pesquisador-aprendiz e a reflexão sobre suas práticas e situações profissionais. Analisando suas experiências como pesquisadores, os trabalhadores sociais retomaram certas dimensões de suas práticas tanto para problematizar suas dificuldades como para imaginar outros modos de proceder. O posicionamento expresso na redação distanciou-se da denúncia ou da queixa, e inscreveu-se deliberadamente num desejo de se constituir como vetor de proposta e de transformação. Deslocamentos no modo de olhar beneficiários e territórios A RAQ favoreceu um conjunto de “deslocamentos” que atingiram tanto as modalidades da intervenção universitária como as práticas dos profissionais. A análise dos textos produzidos pelos profissionais (relatório coletivo de pesquisa, diário de bordo, dissertação individual) permite constatar que esses deslocamentos tiveram, por sua vez, ressonâncias no modo de olhar os beneficiários das ações educativas e seus territórios. O primeiro desses deslocamentos, ao mesmo tempo geográfico e institucional, é menos formal do que parece e suficientemente raro para ser destacado: é o da instituição universitária deslocandose para “fora de seus muros” e integrando uma instituição outra que ela mesma. Para além de sua dimensão simbólica e seus efeitos psicológicos não Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 25 Abertura das práticas da intenvenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação negligenciáveis sobre os participantes (tanto para os pesquisadores universitários como para os estudantes), esse deslocamento da universidade ganha todo seu sentido frente à abordagem colaborativa da pesquisa-ação. Entretanto o deslocamento que se encontra no cerne da RAQ e de sua dimensão formativa – do qual, de certo modo, dependem todos os outros – é o deslocamento ao qual são convidados os profissionais durante a pesquisa de campo. Esse deslocamento traduz-se, em primeiro lugar, no fato de realizar a pesquisa num território no qual não atuavam profissionalmente. Os profissionais buscaram uma situação que permitisse um ponto de vista “outro”, e o desenvolvimento de outros modos de ver, favorecendo o distanciamento de uma postura profissional marcada por formas de olhar e de fazer já bem arraigadas. Em segundo lugar, a possibilidade de ocupar a posição de estudante-pesquisador foi ingrediente central desse deslocamento. Ao longo do trabalho empírico, toda vez que se preparavam para encontrar um habitante ou ator institucional, numerosos debates instalavam-se para saber como deviam se apresentar: trabalhadores sociais? Estudantes universitários? A cada vez a escolha foi a mesma: apresentavam-se em primeiro lugar como estudantes. O investimento dessa posição de estudante e pesquisador-aprendiz lhes permitiu se descolar da “pele” habitual: A experiência de fazer parte desse coletivo de pesquisadores nos deu a possibilidade de sair de nossa pele e de nos arriscar a vestir uma outra pele (S., educadora social). Esse posicionamento pouco usual deslocava o olhar dos outros sobre eles, mas também – e sobretudo – deles próprios sobre si mesmos. O estatuto de estudante e o investimento de um terreno “neutro” propicia que cada um se distancie da perspectiva habitual pela qual olha a vida de um bairro e seus “problemas”, favorecendo portanto um “desvio” em relação a suas práticas cotidianas, em direção à experimentação de outras lógicas de ação. A multiplicidade de procedimentos utilizados para abordar o território levou os educadores a se interrogarem sobre o modo como veem o público com o qual intervêm. O princípio de ir buscar as 26 forças vivas de um território reverteu a postura habitual de focar as dificuldades e os pontos fracos para em seguida poder “tratá-los”. O fato de apoiarem-se em fontes pouco habituais, de colocar em comum os elementos obtidos, de deixar amadurecer hipóteses para tentar compreender as questões que atravessam um lugar e para identificar as demandas e recursos de seus habitantes nutriu interrogações sobre as situações nas quais estão implicados as crianças e os jovens que acompanham em seu trabalho educativo. A posição de pesquisador os distanciava da injunção de dever encontrar “soluções” imediatas para as dificuldades socioeducativas dos jovens, colocando-os numa situação mais propícia para descobrir os recursos e forças vivas dos lugares. Em suas andanças pelo campo, os profissionais puderam encontrar habitantes em situação de isolamento e sofrimento, mas outros com grande capacidade de ação que participavam da tessitura de redes de solidariedade informais e pouco visíveis. O exercício de compreender e caracterizar alguns desses personagens deu concretude a esse processo de mudança de olhar, aguçando a atenção profissional sobre os sinais de dinamismo, às vezes tênues, que emitem os territórios. O trabalho de campo evidenciou a necessidade de se levar em conta situações de configuração sempre complexas, intricando dimensões históricas, sociais e familiares, afastanto-as de um ponto de vista que, numa caricatura, vê o jovem como indivíduo sem história, e o meio social ou familiar sendo invocado somente para explicar a fonte das dificuldades encontradas. No sentido inverso dessa tendência, muitas interrogações foram formuladas. Por exemplo, num abrigo que acolhe jovens originários do meio rural, como o vínculo com esse território se transforma tendo em vista que, no internato, são as culturas urbanas a referência mais forte? Como cada um vive a tensão entre o desejo de mobilidade e o apego ao lugar de origem? O modo de considerar a família também sofreu modificações. Tanto do ponto de vista de uma maior atenção para a compreesão de sua história, de sua dinâmica e de suas demandas, como do ponto de vista de um novo esforço para integrar a participação dos familiares nas ações educativas propostas. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller Modalidades para ancorar a reflexividade As perspectivas que o trabalho de campo e a posição de pesquisador permitiram exercer representaram um descolamento fecundo para a reflexão sobre as práticas profissionais, mais especificamente sobre os modos de olhar as crianças e jovens alvos de sua ação e os territórios. Essas perspectivas, formuladas na problemática de pesquisa, foram primeiro apreendidas de modo teórico e, em seguida, experimentadas de modo empírico. Além dessa dimensão conceitual, os elementos metodológicos que apoiaram o dispositivo de formação também tiveram partipação importante nesse processo de reflexão sobre as práticas profissionais. A intensa experiência de escrita proposta pela RAQ levou os profissionais a refletir sobre a natureza dos escritos profissionais que eles devem produzir normalmente. Em geral eles versam sobre o trabalho educativo, mas não favorecem, segundo os educadores, a apreensão da realidade de vida das pessoais acompanhadas e ficam então muito distantes da vivência do profissional. Esses textos traduzem o descompasso entre a ressonância afetiva que a relação provoca nos profissionais e uma linguagem demasiado administrativa ou cheia de jargões, que permite protegê-los dessas ressonâncias, escondendo-o atrás de uma suposta eficiência técnica. Podemos mesmo formular a hipótese de que quanto mais o profissional se sente desarmado para lidar com essa ressonância/relação, mais ele se entricheira atrás de termos técnicos, supostamente teóricos (MANNONI, 1979): As propostas metodológicas para abordar o campo se instalaram na minha prática e passei a me autorizar a tomar nota de minhas impressões, minhas emoções na relação com outrem (C., educadora social). O exercício de uma escrita mais “habitada” autoriza os profissionais a vislumbrar essa mesma relação com seus escritos profissionais. Eles desejam que seus escritos sejam mais do que papéis a preencher, que sejam um espaço de elaboração, que sejam úteis também para os jovens que acompanham. Outro pilar da abordagem metodológica adotada, o trabalho em grupos foi mobilizado como meio de favorecer a troca e a confrontação entre as “razões”, os “sentimentos”, as “interrogações” de uns e de outros, favorecendo a elaboração e a formulação do sentido que ganha para cada um a formação e o ofício. Do lado dos profissionais, a importância que a vivência grupal assumiu remete à solidão em que vivem os trabalhadores sociais em seu cotidiano profissional e à necessidade de se criarem laços que lhes “permitam sair do isolamento e contribuir para a construção coletiva de referenciais comuns de ação” (MIAS 2005, p. 2). A importância dos “olhares cruzados” que o coletivo favoreceu foi destacada pelos profissionais como outro elemento que gostariam de ver transposto para seu cotidiano profissional. A mobilização em torno de desafios comuns colocados pelos territórios investigados produziu inteligência coletiva, deixando de lado as diferenças hierárquicas existentes entre os profissionais, todos igualmente mobilizados em torno de um mesmo projeto coletivo. Nossa dinâmica de grupo de trabalho consolidada através das transmissões orais e os olhares cruzados favoreceu a emergência de espaços de inteligências coletivas (…) isto me livrou do sentimento de carregar tudo sozinha e me deu, ao contrário, a possibilidade de me sentir mais forte e mais sólida ante a instituição repleta de paradoxos (F., educadora social). Algumas reflexões sugerem que o cruzamento de olhares e a inteligência coletiva que isso permite pode contribuir para o aumento da capacidade de ação - a intensidade do coletivo experimentado na RAQ ajudando os profissionais a sair de uma posição de queixa em relação às transformações que perturbam as referências do ofício, colocando-os numa posição mais propositiva: Eu não entendo bem o que os responsáveis pelas políticas públicas querem dos educadores e trabalhadores sociais. Tenho a impressão de viver uma série de mudanças de orientação, de receber diretivas um tanto confusas, de pular entre múltiplos temas de reflexão, projetos de intervenção, reorganizações internas, externas, na escala local ou nacional, etc. É difícil para mim seguir o que se passa, quanto mais compreendê-lo. As informações são afixadas, às vezes anunciadas em reuniões, mas raramente nós temos tempo de verificar juntos, no âmbito da Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 27 Abertura das práticas da intenvenção social ao território: um dispositivo de pesquisa e formação equipe, o que nós entendemos e como nós podemos apreendê-las concretamente. Não seria possível que o ‘nós’ de uma equipe que enxuga todas essas tempestades se debruce sobre isso? Tentar juntos fazer um rescenceamento dessas famosas novas leis, criarmos, entre todos os membros de uma equipe, um mesmo nível de informação sobre as mudanças ocorridas para podermos aplicá-las e refletirmos sobre as mudanças a serem previstas (C., educadora social). A despeito da imagem do trabalho social como meio em que a prática de reuniões é abundante, não basta ter uma rotina de reuniões instalada para que a qualidade do trabalho coletivo seja assegurada, pois essas reuniões podem facilmente cair numa rotina burocrática e se verem despidas de interesse educativo, se o cruzamento de olhares que dá sentido às trocas entre profissionais não é ele mesmo garantido. Outro risco possível do trabalho de equipe é o fechamento do olhar entre “experts”, excluindo profissionais cujo papel educativo não é reconhecido: Por que essas separações entre, de um lado, a equipe educativa e, de outro, a equipe de serviços gerais? Por que os membros desta última não participam sistematicamente das reuniões de trabalho se eles têm uma presença igualmente importante junto aos jovens que acolhemos? Um melhor acompanhamento supõe um cruzamento entre diferentes olhares, debates entre os diferentes adultos que lidam com os jovens: esse é o primeiro passo para um convivio sereno e proveitoso (D., educador social.). A abertura da equipe educativa a outros olhares inclui também, nas proposições dos educadores, o ponto de vista dos maiores interessados, isto é, os jovens beneficiários e suas famílias. Elementos de conclusão Para a maior parte dos educadores, a entrada nessa “aventura” coincidiu com um momento de questionamento, de interrogação sobre o sentido de seu próprio trabalho, as motivações indo muito além da simples busca de um novo diploma. A busca de um espaço para refletir sobre as práticas foi uma das motivações partilhadas pelo grupo. 28 Para alguns as orientações propostas pela RAQ convergiam com suas preocupações e confortavam suas intuições; para outros a problemática da pesquisa e as noções a ela associadas representavam uma reviravolta em suas concepções anteriores e exigiram mais tempo para serem apropriadas. Numa metáfora utilizada por um educador, a pesquisa-ação representou um terreno fértil e fecundo em que germes puderam se desenvolver e crescer. Para alguns a ampliação do olhar e o exercício da reflexividade levou à experimentação efetiva de novas práticas, numerosos foram os exemplos narrados nos textos escritos ou nos enunciados informais. Para outros, as novas perspectivas de atuação permaneciam em germe, precisando de mais tempo e de oportunidades institucionais mais favoráveis para eclodirem. Os diferentes lugares ocupados pelos profissionais ao longo do processo, assim como a possibilidade de refletir coletivemente sobre os efeitos de deslocamentos produzidos, são ingredientes fundamentais para a consolidação de uma posição distante da instrumentalização e da atividade mecânica. O limite dessa experiência situa-se principalmente na transferência da capacidade de reflexão e das novas práticas que ela favorece aos outros profissionais das mesmas associações. A motivação original do convênio estabelecido entre a Universidade e as entidades sociais era uma transformação ampla das práticas em seus âmbitos. Todavia, falhas do dispositivo na implicação de instâncias hierárquicas intermédiárias que poderiam ter favorecido a difusão dos efeitos produzidos e, sobretudo, os estragos provocados pela mentalidade gestionária que atingiu algumas das entidades com as quais trabalhamos dificultaram a difusão interna dos efeitos da RAQ. A RAQ tocou em cheio nas tensões políticas que atravessam o campo do trabalho social, revelou as escolhas e as concepções de sociedade das quais os dispositivos são a tradução ou o sintoma; ela permitiu pôr à prova algumas novas formas que pode assumir o trabalho social na busca de partipação democrática e articulação ao território, dando destaque à inteligência e à ação coletivas. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 19-29, jul./dez. 2011 Izabel Galvão; Christine Delory-Momberger; Jean-Claude Bourguignon; Jean-Jacques Schaller REFERÊNCIAS Chauvière, Michel. Qu’est-ce que la “chandalisation”? Informations Sociales, Paris, n. 152, p. 128-134, 2009. Cifali, Mireille; André, Allain. Ecrire l’expérience: vers la reconnaissance des pratiques professionnelles. Paris: PUF, 2007. Delory-Momberger, Christine. Histoire de vie et recherche biographique en éducation. Paris: Anthropos, 2005. Ion, Jacques. 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O mundo no qual vivemos e somos capazes de agir é o mundo que nós construímos. Isso certamente não significa que nossas construções sejam aleatórias. Elas obviamente dependem de impulsos que nos pressionam de fora. Mas elas são, definitivamente, o nosso processamento do social, que nos molda. Biografização é então a capacidade de combinar esses processamentos internos com as condições externas de sociabilidade. Com isso surgem processos de aprendizagem no individual, mas ao mesmo tempo também processos de mudança no social. A biografização é, por isso, um recurso para moldar o mundo moderno. Palavras-chave: Aprendizagem biográfica. Aprendizagem transicional. Biografiza-ção. Individualização. Modernização. ABSTRACT BIOGRAPHIZATION AS A KEY COMPETENCE IN MODERN TIME Biographization may be described as a competence which is imposed to us by the process of modernity. With the emergence of modern societies, we are socially constrained to be both individual and unique. Everything that we live must passed through us. The world in which we live and in where we can act is the world that we constructed. This clearly does not signify that our actions are aleatory. They obviously depend upon impulses which influence us from outside. They are nevertheless, our social process, which molds us. Biographization is thus the capacity to combine those internal process with the external conditions of sociability. With this, process of individual learning emerge, at the same time as social change process. For this reason, biographization is a tool to mold the modern world. Key-words: Biographical learning. Individualisation.Modernisation. Transitional lear-ing.Biographicity. O presente trabalho é uma versão levemente revisada de uma palestra que proferi em 6 de outubro de 2006 na Universidade de Flensburg por ocasião do simpósio “Das Leben gestalten. Biografisch lernen – biografisch lehren“ (Configurar a vida. Aprender biograficamente – ensinar biograficamente). Achei importante manter o estilo característico de apresentação para a versão escrita. 1 * Trad. Prof. Dr. Jorge Luiz da Cunha e profa. Dra. Rosani Ursula Ketzer Umbach. ** Peter Alheit, é doctor em ciências politicas. Titular da cátedra em Educação da Universidade Georg-August de Goettingen (Alemanha), ele é um dos cofundadores e protagonistas da nova abordagem biográfica na sociologia e na educação na Europa nos anos 1970. Seus livros mais relevantes (no total mais de 50) abordam a vida cotidiana, a pesquisa biográfica, os estudos sobre cultura e mentalidade, os movimentos sociais e a aprendizagem ao longo da vida. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 31 “Biografização” como competência-chave na modernidade Introdução A pedagogia em nosso país, e quero dizer – sem qualquer polêmica – a pedagogia prática nos jardins de infância e nas escolas, na formação profissional e educação continuada, nas universidades e academias, mas, também , a ciência da educação em si, terão de reestudar, ou como formulou o agora octogenário Günther Dohmen em 2005 nos Dias de Ensino e Aprendizagem em Konstanz: terão de “repensar a aprendizagem” (DOHMEN, 2005, p. 3). Não somente o choque persistente de PISA [Programa Internacional de Avaliação de Alunos – N.T.] ou os mais recentes números, escandalosos para a Alemanha, da OECD [ingl. Organisation for Economic Co-operation and Development – N.T.], da comparação internacional dos grupos de formandos com diploma de nível superior2, também os conhecimentos sobre a Neurobiologia, em especial das pesquisas sobre o cérebro nas duas últimas décadas, nos obrigam a isso.3 Somos aprendizes ao longo da vida de forma muito mais fundamental do que o discurso político nos quer fazer crer. Não se trata de educação continuada até a idade avançada, por assim dizer da ampliação contínua da escolaridade individual. Trata-se muito mais de respeitar e aproveitar nossa capacidade coletiva de aprendizagem que fica inexplorada ou é bloqueada pelas condições sociais, falando de forma mais científica: trata-se do aproveitamento adequado da plasticidade extrema de nossos cérebros – também para processos sociais de aprendizagem – muito além dos períodos de aprendizagem instituciona A Alemanha está significativamente abaixo da média dos 2 países da OECD em qualificações de ensino superior (menos de 20% de um grupo colam grau). Os números mais recentes esclarecem que o desenvolvimento da educação dos Estados Unidos e das grandes nações econômicas da Europa se dissociou drasticamente do desenvolvimento na Ásia: “Duas gerações atrás, a Coréia tinha o padrão de vida que o Afeganistão mostra hoje, e suas conquistas na educação estavam entre as mais fracas. Hoje 97% de todos os coreanos da faixa etária entre 25 e 34 anos possuem o ensino secundário, a quota mais alta entre os países da OECD. O exemplo da Coréia não é um caso único. Só entre 1995 e 2004 o número de estudantes em universidades e escolas superiores mais do que duplicou na China e Malásia, e na Tailândia e Índia ele aumentou em 83% resp. 51%.“ (OECD Indicators – 2006 Edition, 2) 3 Aqui são particularmente estimulantes, e com várias consequências para a Pedagogia, os estudos de Humberto Maturana e seus seguidores (representativamente Maturana/ Varela 1988). 32 lizados no decurso da vida, portanto de processos de aprendizagem mais ou menos conscientes, mais ou menos informais, intuitivamente ou estrategicamente auto-organizados ao longo de toda a vida. Meu colega de Göttingen, o médico e neurobiólogo Gerald Hüther, costuma contar um exemplo convincente neste momento: uma senhora sexagenária, que durante toda sua vida havia sido uma leitora entusiasmada, sofre um derrame e fica cega. Desesperada pela perda do prazer da leitura, ela pergunta ao seu neurologista se não seria possível aprender Braille. O médico realmente a encoraja, no entanto pede que ela se submeta antes a uma tomografia computadorizada. Ele sabe que tal processo de aprendizagem modificará o cérebro, em especial aquela parte do córtex sensorial que é responsável pela sensibilidade do tato. A sexagenária está ansiosa para aprender e depois de meio ano domina o Braille perfeitamente. O neurologista a encaminha novamente ao tomógrafo e constata com espanto que aquela área do córtex sensorial aumentou em três a quatro vezes de tamanho – um dramático processo de aprendizagem num período tão curto, e isso após os 60! “Repensar a aprendizagem”, certamente. Mas isso também não significa muito mais “repensar o ensino”? Diante de tais exemplos, não temos de acabar com a ideia de que nós como pedagogas e pedagogos podemos “ensinar” aos alunos a nós confiados algo daquilo que prescrevem os currículos, ou até mesmo: daquilo que estamos convencidos de que é importante e deve ser aprendido? Isso me faz lembrar aquelas belas histórias que o ciberneticista e construtivista austríaco Heinz von Foerster recorda nesse contexto: ele relata acerca de seu antigo professor de História, que sempre admitia apenas uma resposta à pergunta “Que tipo de povo eram os gregos?”: “Senhor professor, os gregos eram um povo alegre” (VON FOERSTE, 1998, p. 66). Ou daquele aluno do ensino fundamental que, à pergunta da professora: — “Quanto é 2 x 3?”, havia respondido: — é 3 x 2, e por isso ficou retido na aula, de castigo, já que não dera a resposta padrão “6”. Mas o menino tinha dado sua resposta a sério e até mesmo pôde provar a precisão da resposta a von Foerster mais tarde. Ele havia comprovado, por assim dizer, a lei comutativa da multiplicação: A x B é igual a B x A (Ibid.). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 Peter Alheit Em relação a esse tipo de mentalidade estreita no ensino, von Foerster fala de uma banalização dos alunos. O ensino é separado, afastado do pensamento e da experiência dos alunos. É auto-suficiente. A famosa frase de Sêneca, “non scholae sed vitae discimus”, quase sempre traduzida erroneamente, deveria ser levada a sério novamente de maneira moderna (a saber, traduzida adequadamente significa, em vez do habitual “para”, como meu velho, um pouco bizarro professor de latim sempre enfatizava: “não da escola, mas sim da vida aprendemos”). Com isso chego ao meu tema: o que “aprender da vida” poderia significar hoje e qual contribuição dá a isso a estranha e mágica palavra “biografização”? A seguir eu gostaria de explicar isso mais detalhadamente através de três passos mentais: Primeiro quero deixar claro que nossa vida singularmente particular, nossa “biografia” de maneira alguma é uma trivialidade, mas sim, historicamente falando, um fenômeno comparativamente novo, se o quisermos assim: um processo de aprendizagem bastante específico da modernidade européia. Em um segundo passo, eu gostaria de mostrar brevemente que tal compreensão de biografia também deverá mudar nosso conceito de aprendizagem (e aqui a ideia de “biografização” desempenha um papel central). E finalmente, em um terceiro pensamento, quero discutir a idéia de que em um período considerado por muitos como “pós-moderno”, aquela concepção de aprendizagem possivelmente se tornou mais complicada e exige uma maneira totalmente nova de sensibilidade pedagógica. 1. A descoberta da “biografia” na modernidade Faz parte dos conhecimentos centrais da pesquisa biográfica com interesse histórico que aquele formato ao qual hoje ainda relacionamos a ideia da biografia moderna tem apenas 200 anos de existência e que continua atrelada ao surgimento da modernidade européia.4 Certamente a noção de que as pessoas têm uma biografia é mais velha que a Idade Moderna. Ela já se encontra de forma variada Isso pode ser excelentemente demonstrado em autobiogra- 4 fias desde o final do século XVIII (v. detalhadamente sobre isso Alheit/Brandt 2006a). em biografias antigas. Mesmo assim, nessas descrições biográficas pré-modernas não está em primeiro plano o desenvolvimento de indivíduos concretos, nem o desdobramento da individualidade subjetiva – de uma “identidade por si”, como Alois Hahn (1988, p. 93) acertadamente a denominou – mas sim a apresentação de tipos característicos o mais ideais possível. “Biografias” servem geralmente ao entretenimento, à instrução ou à legitimação de regras. Elas são, por assim dizer, “didaticamente” motivadas.5 Isso de fato se modifica no decorrer da modernidade européia, certamente não de forma abrupta, regionalmente e socioestruturalmente em períodos extremamente desiguais, mas mesmo assim de forma compreensível. Ao lado da representação de santos e poderosos, inicialmente há um interesse incalculável na descrição de personalidades notáveis, e até ofensivas, de todas as áreas da vida pública. As biografias de artistas da Renascença italiana esclarecem essa mudança de perspectiva de maneira impressionante: o interesse vital no individual, no curioso, o desejo de representação e auto-representação, a encenação, também do pessoal e privado, a necessidade de “fama” em uma “terra de fachadas”, como Peter Burke (1986, p. 20) o expressou, mostram o embrião de uma nova visão do mundo (v. também Alheit/Dausien 1990). Desse processo de mudança gradual do significado da biografia, existem, ao lado de alguns indícios, poucos estudos de caso muito interessantes. Entre eles se inclui o de Lucien Fèbvre, Rabelais (FÈBVRE, 1947), também o divertido estudo de Carlo Ginsburg sobre o moleiro friuliano Menocchio com o título encantador ‘O queijo e os vermes’.6 Um dos mais surpreendentes documentos, e um dos mais convincentes no que se refere às fontes, é a reconstrução de um caso criminal do final do século XVI, que devemos acima de tudo a Natalie Zemon Davies (1989). A característica especial dessa história autêntica, na qual um certo Arnaud du Tilh assume a identidade do desaparecido Martin Guerre, não é o fato de que a inversão de papéis permanece sem contestação V. aqui representativamente Garraty 1957; Neumann 1970; 5 Niggl 1977; Scheuer 1979. V. Ginzburg 1976. O título cita uma metáfora de Menocchio 6 sobre os anjos no céu que contribui significativamente para sua condenação no final. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 33 “Biografização” como competência-chave na modernidade por longos anos, mas sim que a aparente tolerância social do falsário – pelo menos entre os diretamente afetados – acontece contra o melhor conhecimento e, mesmo assim, não pode ser interpretada simplesmente como cumplicidade. Tilh consegue preencher tão bem a “biografia” de Martin Guerre, desempenhar de forma tão funcional os papéis mais importantes e o status deste, que não há nenhuma razão para duvidar da identidade usurpada. Com isso ele até pode manter peculiaridades características e extremamente agradáveis de Arnaud du Tilh (por exemplo, a de ser um amante divertido e carinhoso).7 Aqui, “biografia” não aparece à primeira vista como uma história de vida singular de um indivíduo, mas como vaga associação de funções corporativas, de certos papéis sociais e de uma aparência impressionante. “Biografia” ainda deve ser interpretada igualmente como modo de experiência pré-moderno. O que torna esse caso criminal tão significativo para os nossos objetivos é a “resolução” legal da delicada fraude. Após dois processos, finalmente Arnaud du Tilh é condenado à morte depois que o desaparecido Guerre reaparece e se engaja no processo. Porém as volumosas atas judiciais e em especial o notável relato de um dos litigantes, o famoso jurista francês Jean de Coras, demonstram de forma impressionante que Tilh está subjugado a um processo circunstancial no qual sobretudo uma reconstrução meticulosa da biografia do suposto Guerre assume importância. Visivelmente, portanto, o tribunal tem uma concepção muito mais “moderna” da consistência biográfica do que as pessoas em Artigat, aquele povoado aos pés dos Pirineus de onde Martin Guerre vem. E sem dúvida também Arnaud du Tilh tem essa compreensão moderna de identidade, pois sabe se defender com grande habilidade, e o conhecimento admirável até mesmo de detalhes mais íntimos da biografia assumida quase teria resultado em sua absolvição. Sua derrota se deve antes ao acaso de Guerre realmente voltar e ser identificado espontaneamente por seus parentes de sangue. Tilh executou de forma notável aquele No filme sobre essa história, que vale a pena ver mesmo não 7 sendo bem autêntico, Tilh não por acaso é representado por Gérard Dépardieu – em um posterior remake americanizado (“Summersby“) até por Richard Gere. 34 feito que é exigido do indivíduo moderno em períodos cada vez mais curtos: a construção de uma “identidade por si”. (De certo modo, portanto, o julgamento funciona – nesse sentido comparável à instituição da confissão – como um “gerador biográfico” (Alois Hahn, 1988), para Tilh como um “doador de palavras-chave” para a construção de uma biografia, mesmo que fingida.) O processo também atrai considerável atenção dos contemporâneos. O relato de Jean de Coras torna-se um Bestseller e é amplamente reproduzido. Até mesmo Montaigne menciona o caso no seu ensaio Von dem Hinkenden [Do coxo – N. T.], no qual ele se lembra ex post – ele foi observador do processo – daquela “fraude” bastante incomum e “achou muito ousada a sentença que condenou (Tilh) à forca.8 Justamente a atenção dos contemporâneos, contudo, parece ser uma prova de que estamos aqui diante de um procedimento que marca o limiar para a compreensão moderna de biografia. Aquela decisão consciente de Arnaud de Tilh de assumir a identidade de alguém outro e viver com a mesma por tempo considerável só pode aparecer como monstruosidade a um público para o qual a ideia da identidade pessoal e integridade já se tornou uma experiência normal. Esse estudo de caso histórico demonstra não só que podemos considerar, por boas razões, a biografia como fenômeno moderno – ele documenta mesmo de modo fascinante a “virada” da compreensão de biografia pré-moderna para a moderna. Além disso, o caso torna plausível que a biografia de modo algum deve ser entendida apenas como modelo externo do desenrolar de uma existência moderna cronologizada, mas sim que representa uma nova forma social do conhecimento. Nesse exemplo interessante, dois aspectos são particularmente importantes para mim: ■Primeiro: Não podemos mais regressar atrás do limiar que Arnaud du Tilh ultrapassou. Todas as experiências que realizamos – tudo que aprendemos deve “passar por dentro de nós” por assim dizer, deve ser integrado com uma lógica interna que só vale para nós. São as nossas experiências que realizamos. Somos nós que percorremos um Cit. cf. Ginzburg 1989, 185. 8 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 Peter Alheit processo de aprendizagem. Não existem substitutos para os processos de aprendizagem. ■ Mesmo assim – esse é o segundo aspecto – isso não significa de forma alguma que a nossa biografia seja algo exclusivamente privado. Nós somos, para dizê-lo de forma aguçada, forçados socialmente a ser individuais e únicos. Essa é a condição com a qual somos obrigados a viver. As condições externas – históricas e sociais – nos obrigam à reflexividade biográfica. Dito de forma afiada: “Individualização” não é uma descoberta de Ulrich Beck (BECK, 1986), ela é realmente uma circunstância concomitante decisiva da modernidade. Eu gostaria de esclarecer também este importante aspecto mais uma vez, ilustrando com um exemplo. Taxas de mortalidade na sociedade dos Estados Unidos entre 1840 e 1980 (segundo Fries & Crapo) Vemos aí um diagrama da taxa de mortalidade da sociedade norte-americana entre 1840 e 1980. A sociedade dos Estados Unidos é interessante nesse aspecto, porque nesse período ela não sofreu consideráveis perdas humanas por epidemias ou guerras. Mesmo assim, as linhas no diagrama nos dizem muito: na metade do século XIX, a taxa de mortalidade – não levando em conta a mortalidade infantil mais elevada de então – passa como uma diagonal através das idades. Isso quer dizer que a possibilidade de morrer em qualquer idade naquele tempo era de cerca de 50%. Pessoas que têm essa experiência não conseguem desenvolver uma relação interior com sua biografia como nós, para quem isso é bem natural. Elas não vivem com a expectativa normal de uma “vida longa”, não têm a noção de planejamento de uma carreira. Para elas vale a sabedoria daquele velho hino sacro do século XV “No meio da vida estamos, rodeados pela morte...” Elas fazem parte de uma família, provavelmente sendo membro natural de uma comunidade. O sentimento básico dominante, porém, é “estar nas mãos de Deus”, e hoje ou amanhã também poder ser chamado por ele para o além (ALHEIT 1986). Quão diferente é a situação em 1980? A expectativa de vida aumentou dramaticamente. Mais de 80% da população podem contar naturalmente Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 35 “Biografização” como competência-chave na modernidade com uma vida longa. A expectativa normal é que elas tenham uma disposição de planejamento em relação à sua biografia – como nós. Esta relativa segurança de ser capaz de planejar, que caracteriza nossa moderna biografia, é, portanto, um resultado de circunstâncias sociais. A transformação do interior deve-se à mudança externa. 2. “Biografização” como competênciachave Exatamente essa moldagem vinda de fora, hoje certamente – o que não é indevido – já não a percebemos mais subjetivamente. A maioria de nós tem o seguro sentimento de ter sua vida “na mão”. Apesar de todas as crises da modernidade, de maneira alguma nos movemos em pânico pelo dia-a-dia, normalmente. E isso obviamente não se deve ao fato de que a estatística da expectativa de vida – apesar de todas as catástrofes nucleares, genéticas e ecológicas – aumenta cada vez mais, especialmente em sociedades ocidentais, mas sim a disposições muito mais íntimas. Geralmente nós temos até a sensação de sermos “organizadores” de nossa vida. Mesmo se as coisas ocorrem de maneira diferente daquilo que desejávamos ou imaginávamos, fazemos correções no nosso plano de vida normalmente na perspectiva da autonomia pessoal. Isso significa que a disposição mais ou menos consciente diante da nossa biografia pode ser compreendida como uma atitude que – com todas as relativizações – é antes ativa e positiva em relação à vida. A atitude dominante que temos em relação à nossa própria biografia é realmente a de planejar. Isso de modo nenhum se refere exclusivamente aos “grandes planos” que acalentamos para a nossa vida – as aspirações de profissão, a carreira política, a construção da casa, o “bom partido”, etc. Pode ser também o planejamento do fim de semana, da próxima manhã ou do programa noturno de televisão. Por exemplo, podemos tomar a decisão de diminuir 5 kg de peso ou de parar de fumar, e termos êxito. Tudo isso nós dá a impressão de termos nossa vida “na mão” e de sermos o sujeito da nossa biografia (ALHEIT, 1993). Produzimos no decurso de nossa vida, em relação a nós mesmos e a nosso contexto social, 36 “mais” sentido do que “nos damos conta a partir da perspectiva da nossa autotematização biográfica” (BUDE 1985, p. 85). Dispomos de um conhecimento de fundo biográfico que em princípio nos coloca em posição de preencher e também de explorar o contexto social no qual nos movemos. Entretanto nenhum de nós tem todas as possibilidades imagináveis. Mas no contexto de limitadas chances de mudanças, temos mais alternativas do que jamais iremos perceber. Nossa biografia contém por isso um enorme potencial de “vida não vivida“ (VON WEIZSÄCKER, 1956). O conhecimento intuitivo disso é parte da nossa “consciência prática” (Giddens, Anthony, 1990). Ele não é facilmente acessível por meio de reflexão, mas mesmo assim representa, em duplo sentido, um recurso bem central para processos de aprendizagem: ■ Nosso conhecimento secreto acerca das oportunidades de vida não realizadas ou ainda não realizadas que nos acompanham mantém em princípio aberta a auto-referência conscientemente disponível e cria as condições para que possamos assumir outra posição em relação a nós mesmos sem, no entanto, revisar aquele “sentido” oculto que justamente constitui nossa experiência. As oportunidades que acreditamos estarem dentro de nós nos sugerem uma ampliação ou diminuição da autonomia biográfica. Sua realização consciente, no entanto, reside em nós como mantenedores de nossa biografia. Dentro de certos limites, certamente nós somos – para registrar um conceito irritante, mas ao mesmo tempo apropriado da teoria do sistema de Luhmann (1997) – “sistemas autopoiéticos”. Nós temos a chance de reconhecer os sentidos múltiplos de nossas experiências de vida e de aproveitá-los para uma mudança consciente de nossa referência a nós mesmos e ao mundo. ■ O conhecimento de fundo biográfico, no entanto, é ao mesmo tempo um potencial vivo para a mudança de estruturas. A modificação de referências individuais a si mesmo e ao mundo abriga chances para a transformação também das condições institucionais da existência social. “Estruturas” são, de fato, em grande parte as certezas de fundo que funcionam inconscientemente e às quais os indivíduos sociais intuitivamente se referem quando agem no cotidiano, mas também Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 Peter Alheit quando agem biograficamente. Tão logo tais suposições não questionadas entram na consciência e se tornam disponíveis, estruturas se modificam. “Vida não vivida” certamente possui força social explosiva. No nosso grupo de pesquisa denominamos esse potencial oculto de aprendizagem da modernidade – a propósito seguindo Martin Kohli (1988) – de biografização. Este Greco-latinismo (de ‘bios’ = vida, ‘graphein’ = (d)escrever e ‘facere’ = fazer) significa primeiramente nada mais do que a obrigação e, ao mesmo tempo, a chance de fazermos, nós mesmos, a nossa vida. Poderíamos dizer que a concepção abrange o “lado interior” daquilo que Ulrich Beck ou Anthony Giddens descreveram como individualização. Claro que tal caracterização infalivelmente tem consequências para uma nova compreensão de aprendizagem. Eu quero tentar esclarecer isso mais com um modelo neurocientífico simples que remonta às Esboço do “processo de transformação interno” que pode ser descrito como “biografização” considerações de Humberto Maturana e Francisco Varela (1988) (v. esquema gráfico a seguir): Todos nós aprendemos por meio de impulsos de fora, que os neurobiólogos chamam de “perturbações”. Contudo, não assumimos obrigatoriamente o “sentido” geralmente associado a esses impulsos, mas inventamos ativamente nosso próprio, muito “teimoso” processamento, que tem a ver exatamente com nossas experiências. O nascimento de uma pequena filha pode ser, para dar um exemplo, um desastre biográfico e social para uma mãe adolescente, enquanto que representa o mais alto sentimento de felicidade para um “pai tardio”. O dramático diagnóstico de câncer é, para uma pessoa, desesperador e bloqueia inicialmente qualquer atividade, enquanto que para outra pode ser motivo para profundas reflexões bio- gráficas e estimular a concentração e mobilização de todas as energias de resistência. Interessantes não são, portanto, os “inputs” que levam aos esperados “outputs”, se bem que para a aprendizagem certamente sejam essenciais, e sim de certa forma o tipo de “intakes”, cuja peculiaridade somente pode ser entendida por meio da lógica interna de nossas experiências biográficas já realizadas. “Biografização” é como um código pessoal com o qual nos apoderamos de novas experiências. Cada processo de aprendizagem atual funciona exatamente assim, e por isso toda a aprendizagem é, em certo sentido, “aprendizagem biográfica” ( ALHEIT 1993, 1995, 2003; ALHEIT;DAUSIEN 2000). Na prática, isso significa: nós, pedagogos e pedagogas, temos de nos despedir da ideia de que lidamos com “alunos” que poderiam ser aborda- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 37 “Biografização” como competência-chave na modernidade dos do mesmo modo, ser alcançados pela mesma forma didática. Temos de aprender a diferenciar nossos grupos-alvo, a motivar cada um e cada uma a sua própria maneira. Temos de “individualizar” pedagogicamente. Há muito tempo dispomos das percepções empíricas e históricas a esse respeito, as condições institucionais é que ficam muito aquém dessa percepção. A sensibilidade para este fenômeno da “biografização” de nossa experiência na verdade pertence hoje ao profissionalismo pedagógico. Certamente talentosas pedagogas e pedagogos já sempre o sabiam intuitivamente. A concepção de “educação negativa” de Rousseau aponta para isso tão bem como o ditame clássico de educadores experientes de que se deve “buscar [o aluno] onde ele está”. Porém temos hoje um acesso científico muito mais preciso a esse fenômeno e – acima de tudo – o seu significado aumentou dramaticamente. Com isso chego a minhas considerações finais. 3. Riscos e chances da “pós-modernidade” Justamente a reconstrução de uma maneira moderna específica de processamento de experiências é que torna mais sensível aos fenômenos que parecem não mais corresponder a este modelo. O enunciado de um estudante contemporâneo: “Currículo? – comigo nada mais corre”, indica que em “sociedades pós-modernas” a intuição óbvia de ter a própria vida nas mãos é totalmente duvidosa. E isso não ocorre somente com o estudante mencionado. Afeta cada vez mais aqueles grupos sociais que são excluídos do “núcleo de integração” econômico, cultural ou étnico da sociedade. Se no início da modernidade o arranjo das instituições ainda estava agrupado de tal forma que as pessoas eram forçadas a construir uma biografia própria (pensemos mais uma vez na situação de Arnaud du Tilh perante o tribunal ou no instituto da confissão), então essa constelação parece ter se modificado na pós-modernidade. Poucos influentes lançadores de palavras-chave tornaram-se uma variedade quase inimaginável de configurações institucionais que em parte fazem exigências absolutamente contraditórias aos atores sociais. 38 Com isso sem dúvida se modifica o arranjo dos “lançadores de palavras-chave” biográficos. A possibilidade, sim a obrigação de se articular biograficamente se tornaram inflacionárias na “pósmodernidade”: falar ou escrever sobre si, revelar o seu mais íntimo perante si e outros, confessar sua culpa, envergonhar-se publicamente, expor sua vida privadamente ou até mesmo diante de um público de milhões para fins edificantes ou de diversão, terapêuticos, legais, religiosos ou estéticos, faz parte do cotidiano atual da mídia. Neste jogo pós-moderno de papeis e lançadores de palavraschave da moda, os indivíduos são sobrecarregados e confundidos ( ALHEIT, 2000). Aquele “código de experiência” particular inequívoco que eles precisam para incorporar novos conhecimentos para dentro da construção crescida de experiências e manter sua identidade é recoberto por construções de experiências artificiais, mediáticas, que são individualmente inúteis e bloqueiam a “biografização”. A idéia de que precisamos repensar o modelo da moderna identidade e individualidade não está completamente excluída. Os pós-estruturalistas franceses – de Foucalt passando por Lyotard ou Derrida – têm dado ideias comparativamente abstratas aqui, mas bastante importantes. De qualquer maneira, nos encontramos em uma situação de transição diante da qual a pedagogia tem de se posicionar com reflexiva modéstia. O que poderíamos aprender destas indicações? Transições podem ser previstas? Dispomos – como pedagogos e pedagogas – de técnicas para reagir a isso? – Sou relativamente cético. E considero como extremamente problemática a concepção tecnocrática de um “gerenciamento biográfico de transição”, tal como está sendo discutido atualmente na pedagogia social. Isso certamente não significa que pedagogas e pedagogos que, por exemplo, trabalham com jovens desfavorecidos em difíceis passagens biográficas de status agora deveriam cruzar os braços e aguardar inativamente a ameaçadora pós-modernidade. Isso significa, todavia, definir limites e ao mesmo tempo abrir novos espaços de possibilidades com distanciamento profissional e com fantasia. Finalizando, quero formular três teses preliminares sobre isso: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 Peter Alheit ■ Minha primeira tese se refere ao perigo de distribuir etiquetas: as transições arriscadas com as quais justamente a geração jovem é confrontada hoje ainda não estão analisadas de forma suficientemente precisa. O clichê do jovem solitário, sentado na frente de seu computador, que perdeu a capacidade de interação social e vive em um mundo virtual de jogos de computador, tem pouco a ver com a realidade. Sabemos que os obcecados por computador se reúnem preferencialmente em pequenos grupos e inventam novas formas de associação e de trabalho que podem representar plenamente um recurso para o autogerenciamento de transições. Além disso, sabemos que o macroclima social de uma sociedade tem uma considerável influência sobre a geração jovem em sua motivação e disponibilidade para participar. Quem foi etiquetado por cientistas sociais como “precário deixado para trás“,9 vai desenvolver pouca motivação para libertar-se através da educação de uma situação social aparentemente sem esperança. Portanto, antes de delinearmos espaçosos cenários de crise, o olhar etnográfico sobre situações cotidianas e o verdadeiro interesse pelas biografias das pessoas afetadas é pedagogicamente mais útil e faz avançar mais. ■ Minha segunda tese se refere às novas exigências sobre as instituições: o “olhar biográfico” sobre transições arriscadas leva a uma nova exigência sobre as instituições que organizam, acompanham e moderam processos de educação, qualificação e transição. Jochen Kade e Wolfgang Seitter (2002) não falaram sem razão da necessária “biografização das instituições”, mas isso quer dizer de uma nova “auto-reflexividade” institucional (ALHEIT; HANSES, 2003). O tratamento individualizado de cada “cliente de transição”, um co-planejamento de suas necessidades, capacidades e possibilidades com base nos recursos exige a elaboração de uma múltipla variedade de confluências de caminhos e projetos de experiência. Essa oportunidade só poderá ser alcançada a médio prazo dentro de uma estrutura de rede. As redes de aprendizagem Este conceito, que está no centro de um estudo da Fundação Friedrich Ebert encomendado pelo SPD [Partido Social-Democrata da Alemanha – N. T.] sobre a pobreza na Alemanha, reifica como que semanticamente o status de grupos socialmente excluídos e desacredita implicitamente a chance de qualquer mudança desejável (v. sobre isso die tageszeitung de 17.10.2006, 1, 3, 14). existentes na República Federal da Alemanha são, nesse sentido, uma abordagem encorajadora. ■ Minha terceira e última tese se refere à necessidade de pensar “atravessadamente” e andar por caminhos totalmente novos. Em países como a GrãBretanha ou a Dinamarca, para mencionar apenas dois exemplos que me são familiares pela experiência concreta, o trabalho artístico sério e profissionalmente qualificado provou ser extremamente bem sucedido justamente para grupos em transições de risco, principalmente para jovens masculinos pouco qualificados com precário respaldo social: teatro social, teatro de dança, música nova não têm, de maneira alguma, apenas uma função terapêutica e compensatória, mas dão aos participantes a experiência de saber algo e, sobretudo, de ser alguém que merece reconhecimento e dignidade. O estético como que reativa os potenciais de biografização que pareciam estar soterrados. Indiscutivelmente o exemplo mais fantástico nesse contexto é o projeto de dança que Simon Rattle, o famoso maestro da Filarmônica de Berlim, iniciou em uma escola primária de Berlim oriental e levou a uma grandiosa apresentação.10 Rattle vem de Liverpool e está familiarizado tanto com os problemas sociais como também com as possibilidades da arte, porque conhece projetos comparativamente bem sucedidos. Se em um campo problemático muito prático fosse necessária uma concretude daquilo que talvez se pudesse denominar – em neo-alemão – “gerência de individualização” e que toca diretamente aquela competência-chave “biografização”, esse projeto berlinense de Simon Rattle seria um exemplo encorajador. A dimensão estética é uma ponte confiável e ao mesmo tempo surpreendente para aquilo que socialmente costumamos denominar de “trabalho” e é, simultaneamente, um ponto de partida produtivo para processos de formação.11 9 O documentário “Rythm is it“ mostra isso de forma bastante convincente. 11 A dimensão estética da aprendizagem social realmente tem sido largamente subestimada também historicamente (v. sobre isso Alheit/Brandt 2006a, 2006b). 10 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez. 2011 39 “Biografização” como competência-chave na modernidade REFERÊNCIAS ALHEIT, P. Religion, Kirche und Lebenslauf. Überlegungen zur, Biographisierung“ des Religiösen. The-ologia Practica, v. 21, n. 2, p. 130-143, 1986. ALHEIT, P. Transitorische Bildungsprozesse: das „biographische paradigma“ in der Weiterbildung. In: MADER, W. (Hrsg.). 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En un primer momento, recogemos algunos antecedentes en el campo pedagógico movimientista latinoamericano vinculados con la conformación de colectivos de maestros que llevan adelante procesos autorregulados de formación, investigación e innovación de las prácticas y discursos pedagógicos. A continuación, presentamos la experiencia de la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas, la cual articula colectivos de docentes que desarrollan procesos de indagación narrativa, publicación y circulación de sus prácticas y del mundo escolar desde diversos espacios geográficos, organizacionales e institucionales. La Red se establece como una forma de intervención político-pedagógica, en tanto tienen lugar procesos de formación y de intervención de los docentes, y permite la disposición pública de relatos pedagógicos que interpelan y tensionan los discursos y la teoría educativa. En la tercera parte, trazamos un recorrido por la Red delineando su conformación, sus actividades y las relaciones de articulación que sostiene a nivel nacional y regional. Palabras clave: Redes pedagógicas. Formación docente. Indagación narrativa. Relatos pedagógicos. Colectivos docentes. ABSTRACT New Forms of Collective Organization and Production of pedagogical Knowledge: the network of teacher training and educational narratives. In this article, we present the teacher´s networks that investigate their pedagogical experiences, particularly the “Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas” (Network of the Teacher´s Training and Pedagogical Narratives) as a collective form of * Director y Profesor Regular del Departamento de Ciencias de la Educación de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires. Director del Programa de Extensión Universitaria “Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas”. Endereço para contato: Departamento de Ciencias de la Educación. Facultad de Filosofía y Letras - Universidad de Buenos Aires Puán 480 - Ciudad de Buenos Aires. [email protected] ** Becaria de Maestría de la Universidad de Buenos Aires. Investigadora Tesista del Proyecto de Investigación “Pedagogos, docentes y relatos de experiencia. Saberes pedagógicos y experiencias formativas producidas en la trayectoria profesional” Endereço para contato: Instituto de Investigaciones en Ciencias de la Educación. Facultad de Filosofía y Letras - Universidad de Buenos Aires Puán 480 - Ciudad de Buenos Aires, Argentina. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 43 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas organization linked with the reconstruction of pedagogical knowledge, the activation of the school memory and the mobilization in the educational field. At first, we collected some background information in the educational field of Latin American movements associated with the formation of groups of teachers who carry out self-regulatory processes of training, research and innovation in pedagogic practices and speeches. Further on, we present the experience of the “Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas”, which articulates the group of teachers who develop narrative inquiry processes, publication and the circulation of their practices and the school world from different geographical, organizational and institutional areas. The network was set up as an organization oriented toward political-pedagogical intervention, processes of training and intervention of the teachers It allows the public display of pedagogical narratives that challenge and stress speeches and educational theory. In the third part, we drew a journey through the network, outlining its structure, activities and relationship on both national and regional level. Keywords: Pedagogical networks. Teacher training. Narrative Inquiry. Pedagogical narratives. Teaching groups. Redes y colectivos docentes para la producción de saber pedagógico colectivos y redes de maestros en distintos lugares de la región1 vinculadas con la reconstrucción del En las últimas décadas se han ido conformando en América Latina colectivos de trabajo, agrupamientos y redes de maestros y profesores que llevan adelante procesos autorregulados de formación, investigación educativa e innovación de las prácticas y discursos pedagógicos. Estas experiencias se establecen como nuevas formas de organización entre los educadores, originadas como respuestas alternativas y de resistencia a las reformas educativas neoliberales y tecnocráticas impulsadas en la región desde la década de 1980. Aunque de manera menos explícita y masiva, actualmente continúan actuando e implementándose dispositivos de administración y gestión escolares centralizados y verticalistas, orientados por la racionalidad del control técnico y fundamentados en la preeminencia del saber experto, especializado y científico-técnico, que habilitan posiciones diferenciadas y jerarquizadas respecto a la capacidad de los distintos actores del campo pedagógico para producir saberes legítimos (SUÁREZ, 2007a). Frente a estas políticas y discursos hegemónicos vinculados a la producción del conocimiento educativo, diversos movimientos de docentes vienen sosteniendo experiencias alternativas de investigación, formación y producción de saber pedagógico. Se trata de procesos de organización y conformación de 1 Una de las experiencias que da cuenta de la relevancia de las organizaciones docentes a nivel regional es la Red Iberoamericana de Colectivos Escolares y Redes de Maestros que hacen Investigación desde su Escuela, que reúne a educadores de América Latina y España. Actualmente conforman la red: BRASIL: Red RIE (Red de Investigación en la Escuela) - COLOMBIA: Red CEE (Red de Cualificación de Educadores en Ejercicio), Movimiento Expedición Pedagógica, REDLENGUAJE (Red Latinoamericana para la Transformación de la Formación Docente en Lenguaje. Red de Lenguaje), Red ESMAESTRO (Escuela del Maestro, Medellín) - ESPAÑA: Red IRES (Investigación y Renovación Escolar) - MÉXICO: REDIEEM (Red de investigadores/as educativos/as en el Estado de México), Red RETE (Red Estatal para la Transformación Educativa en Michoacán), Red de Educadores que hacen Gestión Compartida, REDLENGUAJE (Red Latinoamericana para la Transformación de la Formación Docente en Lenguaje. Red de Lenguajes por la Transformación de la Escuela y la Comunidad), Red LEE (Red de Lenguajes por la Transformación de la Escuela y la Comunidad) - PERÚ: CPDHIEC (Colectivo Peruano de Docentes que Hacen Investigación e Innovación desde su Escuela y Comunidad) - VENEZUELA: Red CIRES (Colectivos de Investigación y Redes Escolares) - URUGUAY: Red DHIE Uruguay (Centro Regional de Profesores del Litoral, DFyPD, ANEP, Salto, Uruguay) - ARGENTINA: Colectivo Argentino de educadoras y educadores que hacen investigación desde la escuela, Red DHIE (Red de Docentes que Hacen Investigación Educativa), Red IPARC (Red Investigación Participativa Aplicada a la Renovación Curricular), Red DRIA (Red de Docentes que Realizan Investigación desde el Aula), Red ORES (Red de Orientadores Escolares), Grupo de investigación IFIPRACD (Investigación en formación inicial y práctica docente), Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas (FFyL-UBA), REDISP (Red de Institutos Superiores de Profesorado de Gestión Pública Estatal de Santa Fe), REDINE (Red de Investigación Educativa), Universidad Nacional de Misiones, AGCEJ (Asociación de Graduados Ciencias de la Educación de Jujuy), Unidad de Investigación "Educación, Actores Sociales y Contexto Regional", F. H. y Cs. Soc., UNJu. 44 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani saber pedagógico, la activación de la memoria de la escuela y la movilización e intervención en el campo educativo. Entre las múltiples experiencias de la región vale destacar el Movimiento Pedagógico Nacional y la Expedición Pedagógica Nacional de Colombia, y los Centros de Autoformación Docente en Perú como antecedentes importantes e influyentes en el campo pedagógico movimientista latinoamericano. El Movimiento Pedagógico Nacional de Colombia fue ideado, organizado e impulsado por el sindicato de docentes más importante de Colombia, FECODE, a principios de la década de 1980. Se enfrentó al intento oficial de una reforma curricular tecnocrática y a una serie de estrategias técnicas que descalificaban a los docentes, las prácticas educativas y la experiencia escolar. Desde sus comienzos, el movimiento pretendió avanzar más allá de lo estrictamente reivindicativo salarial y político-gremial, generando respuestas críticas y de resistencia vinculadas a la producción de saberes y discursos pedagógicos construidos por los propios docentes y a la elaboración de una contra-agenda para la política y el gobierno educativos. Esa “movilización social por la educación” fue impulsada en un principio por el sindicato docente en alianza con otros actores del campo educativo (intelectuales, pedagogos, grupos de docentes no sindicalizados, organizaciones sociales y territoriales), y posteriormente protagonizada por una serie descentrada y dispersa de colectivos de docentes autónomos, articulados en redes pedagógicas y vinculados con los territorios y las comunidades locales. Esas redes y colectivos, con la activa colaboración de pedagogos de la Universidad Pedagógica Nacional, diseñaron y llevaron a la práctica la Expedición Pedagógica Nacional como una modalidad alternativa de movilización políticopedagógica centrada en la reconstrucción crítica del saber de los docentes, desde la diversidad cultural y el territorio. A partir del año 1999, la Expedición vinculó escuelas, estudiantes, familias y comunidades educativas, articulando experiencias alternativas y dispersas a partir de la exploración, reconocimiento, sistematización y socialización de proyectos, prácticas y saberes pedagógicos. Realizando viajes a través del territorio colombiano y propiciando encuentros e intercambios entre diversos actores sociales, educativos y culturales, maestros, profesores e investigadores expedicionarios han consolidado una estrategia de intervención, formación e investigación pedagógica entre pares. Esto favoreció que la movilización intelectual, política y social por la educación adquiriera visibilidad y fuerza pública, y la construcción de una mirada acerca de la diversidad pedagógica y riqueza cultural colombiana. Otra de las experiencias destacadas la constituyen los Círculos de Autoeducación Docente (CADs) del Perú. Este movimiento pedagógico se originó en la década de 1980 con la edición de la revista Autoeducación por un grupo de educadores populares, publicación que tendría decisiva influencia en la agenda educativa de sectores progresistas del país. Impulsados por el Instituto de Pedagogía Popular de Perú, los primeros CADs se formaron en la ciudad de Lima hacia 1986 y se constituyeron como círculos de estudio, donde confluían docentes para reflexionar sobre documentos político-educativos y tomar decisiones para la dinámica socioeducativa y sindical. Para los docentes se volvía fundamental debatir y pensar modos de desarrollar prácticas de educación popular dentro y fuera del aula. Los CADs se consolidaron así como grupos de maestros organizados en torno de la autoformación colectiva, en los que se promovió el intercambio de experiencias estableciendo criterios de validación de las innovaciones y siguiendo procesos de producción, circulación y evaluación de saberes diferentes a los de la racionalidad dominante. En efecto, la experiencia de los CADs tornó visibles, documentables y debatibles una serie de propuestas que apuntaban al análisis crítico de las prácticas pedagógicas y su transformación, autorizando las voces de los docentes organizados para la autoformación. Una red en torno a los relatos de experiencia: la documentación narrativa de experiencias pedagógicas En Argentina se vienen desarrollando desde el año 2000 diversas formas de organización y de trabajo pedagógico entre educadores, orientadas a la investigación, la formación y la elaboración colectiva, descentrada y plural de nuevos discursos para la educación y la pedagogía. Redes y colecti- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 45 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas vos docentes se encuentran diseñando y llevando a la práctica líneas de acción diversas y articuladas y, a su vez, estrechando vínculos de trabajo colaborativo con otras instituciones y organizaciones2. Una de estas experiencias es la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas, la cual articula colectivos de docentes que llevan adelante procesos de indagación narrativa, publicación y circulación de sus prácticas educativas y del mundo escolar desde diversos espacios geográficos, organizacionales e institucionales. Los nodos de la Red constituyen formas descentradas de organización social para la producción y divulgación de saberes pedagógicos a través de la publicación y circulación de relatos de experiencias producidos por los propios docentes. La Red se establece como una forma de intervención político-pedagógica en el campo educativo en tanto se desarrollan procesos de formación y de intervención de los docentes, y permite la disposición pública de un corpus de relatos pedagógicos que interpelan y tensionan los discursos y la teoría educativa pública. Los colectivos de docentes narradores constituyen espacios horizontales de formación que combinan instancias de trabajo colectivas e individuales. Tienen el propósito de problematizar y recrear el lenguaje y el pensamiento pedagógicos en virtud de la construcción y reconstrucción narrativa y reflexiva de la experiencia escolar, su sistematización, publicación, difusión y deliberación públicas. Los colectivos, como productores y portadores de saberes pedagógicos, integran espacios de formación social donde se desarrollan procesos de circulación, apropiación, recreación y uso de ciertos significados sociales y pedagógicos vinculados con el mundo y la experiencia escolar. Estos procesos hacen circular y hacen públicos los saberes producidos y suscitan una comunidad de prácticas y discursos, sentando las bases para la agrupación Podemos señalar, entre otras experiencias, al Colectivo Argentino de Docentes que Hacen Investigación desde la Escuela, que reúne a un conjunto de educadores y educadoras que se desempeñan en organizaciones sindicales, instituciones educativas del sistema educativo formal y en experiencias pedagógicas alternativas; y a la Red de Docentes que Hacen Investigación Educativa (Red DHIE), propuesta que se genera desde la Escuela de Formación Pedagógica y Sindical "Marina Vilte" de CTERA y tiene como intencionalidad, impulsar y favorecer el desarrollo de procesos de construcción de conocimientos, a través de la investigación educativa y la interacción entre pares. 2 46 y vinculación recíproca entre docentes en formas colectivas y descentradas de organización. En estos espacios tienden a confluir voluntades e intereses específicos en función de la definición de objetivos comunes, se asumen compromisos colectivos para la reflexión e investigación, y se reconocen las responsabilidades compartidas y el respeto a las diferencias, ya sean teóricas, metodológicas, pedagógicas, políticas (SUÁREZ, 2007b). La Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas se desarrolla como un Programa de Extensión Universitaria de la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad de Buenos Aires y convoca a educadores y docentes, que se acercaron por diferentes motivos a la documentación narrativa de experiencias pedagógicas, a “proponer, leer, escribir y encontrarnos alrededor de las historias escolares que nos contamos cada día”3. La documentación narrativa de experiencias pedagógicas supone la indagación de las propias experiencias educativas a través de su narración, sistematización, comunicación y debate. Los educadores llevan adelante procesos de formación horizontal entre colegas mediante la escritura, la lectura, la conversación, la publicación y la difusión de sus relatos de experiencia. Esto constituye una estrategia de formación en la medida en permite resignificar y reorientar las prácticas de manera sistemática, reflexiva y crítica, pero al mismo tiempo este proceso supone la reconstrucción, disposición pública y deliberación colectiva en torno del saber pedagógico puesto en juego en las prácticas de docentes y de otros actores educativos (SUÁREZ, 2007a, SUÁREZ, 2007b; SUÁREZ, OCHOA, DÁVILA, 2005). Una vez que los relatos circulan y son conocidos en comunidades de docentes lectores-escritores de narraciones pedagógicas y se vuelven públicamente disponibles, esas historias de enseñanza se constituyen en documentos pedagógicos. En este proceso formativo y de investigación por la acción, los educadores se tornan autores de materiales documentales que dan cuenta de experiencias y saberes pedagógicos que los tienen como protagonistas y los interpelan como habitantes del mundo escolar. Asimismo, producen comprensiones e interpretacio Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas: http://www. lpp-buenosaires.net/documentacionpedagogica Acceso: 1 de febrero de 2011 3 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani nes críticas sobre situaciones y procesos educativos que amplían, profundizan y ponen en tensión la reconstrucción de la memoria docente y el patrimonio pedagógico de las escuelas. Los colectivos de docentes narradores discuten los términos y promuevan la re-creación del pensamiento pedagógico. Para eso, generan procesos de toma de la palabra y de deliberación pública que significan el desarrollo profesional entre docentes a través del intercambio y la conversación acerca de lo reconstruido, narrado y documentado (SUÁREZ, 2007b). De esta manera, uno de los propósitos de la documentación de experiencias pedagógicas a través de la narrativa es generar un espacio de trabajo pedagógico colectivo entre educadores que promueva y habilite la constitución de una comunidad de docentes narradores de experiencias pedagógicas. Esa intencionalidad se apoya en la idea de que las redes, al favorecer estructuras más flexibles y vínculos de colaboración, permiten extender y diversificar actividades, experimentar nuevos desarrollos, fortaleciendo el trabajo de cada uno de los nodos y generando a la par nuevos espacios y producciones. La red, como forma de colaboración horizontal, constituye una herramienta potente para la formación y la investigación así como para el propio desarrollo, ya sea organizacional y/o institucional. El “entramado de hilos y nudos” permite a la red asumir la “vitalidad del intercambio y la inmensa perspectiva creadora del aprender con otros” (AWAD, 2002, p. 121). Se destaca aquí la potencialidad del carácter horizontal del trabajo en red como espacio colaborativo y de formación entre pares. Así, es en el tejido de la red donde los docentes se encuentran, comparten y conversan, realizan producciones e intercambios de conocimientos acerca de sus propias prácticas y contextos socioeducativos transformándose en “sujetos de experiencia” y en “sujetos de saberes”, construyendo formas propias y singulares de ser maestros y de hacer escuela (DUHALDE et al, 2009, p. 22, 23). En este sentido, se tensiona y redefine la identidad docente al posicionarse como productor y portador de saberes pedagógicos, en un proceso colectivo de producción de conocimientos y de desarrollo de otros modos de organización, orientados a la democratización de la escuela. Por otro lado, el trabajo en red favorece diversas formas y vías de encuentro y participación, ya sean presenciales o virtuales (de lectura entre pares, reuniones de coordinación, publicaciones colectivas, intercambio de experiencias o desarrollo de actividades conjuntas) que permiten la circulación y la producción colectiva del saber pedagógico. Al desarrollar un escenario donde la articulación se entiende como una integración activa, el trabajo en red propicia el reconocimiento de la dimensión social y comunitaria de los problemas y habilita la posibilidad de pensar juntos los procesos necesarios para la transformación, potenciando a su vez la posibilidad de intervención (DUHALDE et al, 2009, p. 30). Es decir, permite ampliar los horizontes de acción así como fortalecer los vínculos entre los educadores, para configurarse como “(…) una alternativa viable para la producción de conocimientos pertinentes a la realidad educativa que se aspira transformar” (CARDELLI, 2009, p. 11, 12). Las redes constituyen, entonces, espacios de construcción de saberes y de sujetos en tanto configuran un entramado de experiencias, relaciones y sentidos en el cual los elementos heterogéneos, sujetos, instituciones y grupos redefinen su propia identidad desde la participación activa y la articulación con otros. La heterogeneidad, como elemento constitutivo de las redes y como política de re-conocimiento del otro, se enlaza en una trama de voces plurales, en una malla de nudos y nodos, de identidades en construcción, de procesos colectivos en desarrollo, de prácticas y conocimientos en constante revisión, de formas organizativas flexibles, que teje una comunidad pedagógica entre los sujetos e hilos que la conforman (UNDA BERNAL; MARTÍNEZ BLOOM, 2002, p. 16). La Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas retoma estos sentidos al constituirse como una iniciativa de investigación, formación e intervención pedagógicas orientada a involucrar de manera activa a los docentes en la producción y reconstrucción crítica de sus saberes pedagógicos. De este modo, la Red se proyecta hacia la transformación democrática de los discursos y prácticas pedagógicas, como una forma de organización social para la producción del saber, en una comunidad interpretativa y de atención mutua para la intervención político-pedagógica en el campo educativo. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 47 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas Cómo se conforma la red. Los nodos de la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas A través de la Red se articulan diversas redes y colectivos de educadores ya constituidos o en conformación con espacios dedicados a la formación (Institutos Superiores de Formación Docente y la Facultad de Filosofía y Letras -UBA) y con actores de comunidades locales (grupos de educadores que participarán a través de Programas, Direcciones y Secretarías municipales). Es decir, se promueve una “red de redes” conformada por nodos con distintos anclajes institucionales y/u organizacionales, que permite generar espacios de confluencia y articulación de redes locales y regionales, de nuevos colectivos con redes que se encuentran en funcionamiento, de diversos espacios de participación local, promoviendo así la transferencia e intercambio de saberes pedagógicos, con vistas a fortalecer y potenciar los procesos formativos de los actores individuales y colectivos involucrados. Los nodos que conforman la Red hasta el momento se encuentran ubicados en la Ciudad de Buenos Aires y diversos puntos del Conurbano Bonaerense (Lomas de Zamora, Quilmes, Avellaneda, Morón). Se espera que el mismo desarrollo de la Red lleve a la incorporación progresiva de otros colectivos y la conformación de nuevos nodos. Como Programa de Extensión Universitaria, la Red tiene asiento en el Centro de Innovación y Desarrollo para la Acción Comunitaria (CIDAC) – Barracas, de la Facultad de Filosofía y Letras de la UBA. El Equipo de Coordinación de la Red está conformado por un Coordinador de Nodo y desarrolla encuentros periódicos de coordinación y formación. Como miembros de la Red, los nodos participan de los espacios y actividades que se desarrollan de manera conjunta y, por su parte, llevan adelante acciones de manera autónoma y en articulación con actores locales vinculados con las temáticas específicas que cada nodo desarrolla. A su vez, participan de las acciones puestas en práctica por redes más abarcativas que trabajan a nivel nacional y/o regional, de las cuales la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas forma parte. Por otro lado, cada nodo cuenta con Coordinadores de Colectivos de Docentes Narradores, que están 48 a cargo, por un lado, de llevar adelante talleres de formación y procesos de documentación narrativa con docentes y, por otro, de trabajar en pos de la articulación con los demás nodos a través del intercambio de experiencias, el desarrollo de actividades conjuntas, el asesoramiento teórico metodológico y la cooperación técnica junto al Equipo de Coordinación. Los nodos que actualmente participan de la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas son: ■ Instituto Superior de Formación Docente N°100 de Avellaneda - Polo de Desarrollo y Documentación de Experiencias Pedagógicas Desde el año 2004 se vienen desarrollando diversas experiencias pedagógicas en la formación docente que integran los vínculos con la comunidad, el cine y la narrativa desde una perspectiva de reconocimiento del saber de la experiencia pedagógica. El Polo está conformado por docentes formadores de docentes. Las actividades cuentan, en algunas oportunidades, con financiamiento provincial o de programas nacionales y es la plataforma para diferentes actividades que se realizan en la búsqueda de alternativas superadoras a modelos educativos poco participativos tradicionales. Dentro de estas actividades cobra un singular interés la documentación narrativa de experiencias pedagógicas, que se viene desarrollando a través de acuerdos de cooperación académica con la Facultad de Filosofía y Letras de la UBA, y con la conformación de colectivos de educadores que narran, escriben, comparten y publican sus experiencias. ■ Instituto Superior de Formación Docente y Técnica N° 103 - Villa Urbana, Lomas de Zamora El Instituto desarrolla desde 2006, en el marco del Centro de Actualización e Innovación Educativa (CAIE), una propuesta de documentación pedagógica sobre la enseñanza y la gestión escolar, como instancia que vincula los procesos personales y colectivos referidos al desarrollo curricular. El CAIE ofrece espacios y tiempos a estudiantes y docentes para llevar adelante procesos de documentación narrativa, que permiten resignificar y reorientar las experiencias de manera sistemática y reflexiva. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani ■ Instituto de Formación Docente Alfredo Palacios, Ciudad de Buenos Aires En el año 2003, la Sociedad Luz-Universidad Popular (institución centenaria del barrio de Barracas) comenzó a implementar un proyecto original de Formación Docente: formar profesores de historia social desde el encuadre pedagógico de la Educación Popular con la intención de interpelar, fisurar o disputar sentidos frente a los discursos y prácticas pedagógicas hegemónicas del sistema formal. En este marco, el Profesorado abre un espacio que invita a directivos, docentes, educadores y estudiantes a conformar un grupo, escribir, compartir y publicar experiencias desarrolladas desde los intersticios, desde las grietas, desde la apropiación y resignificación de discursos pedagógicos como parte de la praxis pedagógica crítica, tejiendo vínculos con organizaciones populares y, sobre todo, afirmando desde las prácticas cotidianas relaciones sociales democráticas, participativas, justas, solidarias y respetuosas de la diversidad. ■ Grupo “Ex Libris Quilmes – Palabras de maestr@s” y Subsecretaría de Equidad de Género e Igualdad de Trato y Oportunidades de la Municipalidad de Quilmes En diciembre de 2008, en el marco de la primera Exposición Internacional de EX LIBRIS en el Museo de Artes Visuales municipal, se plantearon los lineamientos del proyecto “Leer y escribir es cosa nuestra”, orientado a fortalecer a las escuelas en los procesos de enseñanza de la lectura y la escritura. Los participantes plantearon que el proyecto había tenido un impacto inédito en las aulas y en sus prácticas, por lo que se propuso documentarlo narrativamente. Así surgió el Grupo EX Libris, como colectivo de docentes indagadores de su experiencia en un proyecto compartido en la ciudad. Actualmente, el Grupo está radicado en la Subsecretaría de Equidad de Género e Igualdad de Trato y Oportunidades del Municipio, y se proyecta con una propuesta de documentación narrativa con perspectiva de género en las escuelas, y con una propuesta de formación y documentación de experiencias de un grupo de docentes jubilados, como una de las acciones de un programa de rescate de los saberes de los adultos mayores. ■ Dirección de Políticas Ambientales de la Municipalidad de Morón Hace algunos años desde el Municipio se comenzó a construir una propuesta de educación ambiental local desarrollada junto a escuelas, organizaciones barriales, vecinas y vecinos. La educación ambiental, como campo en construcción, propone “mirar” de otra manera, integrar enfoques y lecturas para interpretar la complejidad de la realidad en que vivimos. Por ello, la incorporación específica y transversal de la perspectiva ambiental en las instituciones, la creación de espacios de formación de formadores, la revisión de estructuras curriculares, entre otras acciones, tienen un papel fundamental para comprender críticamente nuestras relaciones con la naturaleza, como seres sociales, como sujetos individuales y colectivos, y desde esa mirada asumir la construcción de un discurso afirmativo que permita salir del diagnóstico y pasar a la acción. Ante la necesidad de escribir acerca del camino recorrido en este tiempo, se convoca a un grupo de docentes para narrar, repensar y socializar sus experiencias de enseñanza desde la educación ambiental, a través de la escritura de documentos pedagógicos. ■ Grupo Memoria Docente y Documentación Pedagógica - Facultad de Filosofía y Letras (UBA) El Grupo fue creado formalmente en 2003 en el Laboratorio de Políticas Públicas - Buenos Aires (LPP). Sus actividades de investigaciónformación-acción datan, sin embargo, del año 2000 en el contexto de un conjunto de iniciativas y proyectos de formación docente y desarrollo curricular impulsado por el Ministerio de Educación de la Nación. Posteriormente, a partir de 2004, se formalizan sus actividades de investigación y formación académica mediante su incorporación a la Programación Científica y Tecnológica de la Universidad de Buenos Aires (UBACyT) con sede en el Instituto de Ciencias de la Educación de la Facultad de Filosofía y Letras. El equipo está conformado como una red de trabajo colaborativo entre investigadores, doctorandos, maestrandos y becarios de la Universidad de Bueno Aires, profesores investigadores de Institutos Superiores de Formación Docente, y docentes narradores de todo el país. El trabajo conjunto ha posibilitado, en distintos ámbitos institucionales y contextos socio-políticos, el desarrollo de una Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 49 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas serie de proyectos y actividades de intervención pedagógica. Si bien en los últimos años la documentación narrativa de experiencias pedagógicas ha venido ocupando un lugar cada vez más visible y legítimo en la investigación educativa, tuvo origen en el campo de las políticas educativas y de la formulación de proyectos para el desarrollo escolar del currículum. En efecto, comenzó a elaborarse como una línea de trabajo que pretendía redefinir desde el Estado algunas de las reglas de juego de la producción de conocimientos y saberes pedagógicos. Se llevó a cabo en el marco de un proyecto de desarrollo curricular diseñado en el Ministerio de Educación, Ciencia y Tecnología de la República Argentina (MECyT) e implementado entre éste y los ministerios de educación provinciales, durante los años 2000 y 2001. Ese proyecto tuvo como objetivos reconstruir y disponer públicamente el “currículum en acción” de las escuelas a través de la escritura de relatos pedagógicos por parte de docentes en ejercicio, y generar y publicar documentos pedagógicos, en este caso curriculares, elaborados por los educadores. Suponía, entre otras cosas, disputar las posiciones de saber y poder configuradas por la lógica centralizada y tecnocrática de la reforma curricular implementada en Argentina en la década de 1990, y redefinir el lugar subordinado asignado a los docentes respecto del saber experto y los especialistas. Su propósito era establecer condiciones políticas, institucionales y técnicas que favorecieran el despliegue de la “imaginación pedagógica y didáctica” de maestros y profesores y la reconstrucción colectiva de la palabra y el saber pedagógico de los docentes. Más allá de que logró publicar un corpus de documentos narrativos con historias de enseñanza, el proyecto se encontró con muchas dificultades de gestión, sobre todo con un conjunto de tensiones y posiciones institucionales rígidas que se correspondían con la “gramática curricular” instalada por la reforma, y frente a la discontinuidad presupuestaria de fines del 2001, terminó de implementarse hacia comienzos de 2002. Posteriormente, y ya fuera del ámbito de la administración educativa, esta línea de trabajo pedagógico se fue consolidando teórica, metodológica y técnicamente a través de dos instancias académicas 50 que vinieron funcionando de manera articulada desde el año 2003: los proyectos de investigación educativa cualitativa, etnográfica y narrativa de la Facultad de Filosofía y Letras de la UBA y el Grupo Memoria Docente y Documentación Pedagógica del Laboratorio de Políticas Públicas de Buenos Aires (LPP). En ambos espacios, el trabajo estuvo relacionado con el diseño, implementación y evaluación de dispositivos de documentación narrativa y tuvo como resultados una colección de documentos pedagógicos producidos por los docentes y la conformación de colectivos y redes de educadores que se movilizan en torno a relatos pedagógicos. La Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas, es una de ellas. Gran parte de los interrogantes y preocupaciones teóricas que orientaron esa tarea estuvo vinculada con la problematización de los procesos de definición, diseño y gestión de políticas públicas para la educación que pretenden reformular las lógicas y las dinámicas de trabajo pedagógico en el campo educativo y el aparato escolar. Muchos de los desarrollos teóricos y metodológicos elaborados durante ese proceso de trabajo pudieron ponerse a prueba en otras experiencias de diseño e implementación de dispositivos de documentación narrativa, que también enfatizaron la formación horizontal entre docentes y se dirigieron hacia la producción y circulación de un corpus significativo de relatos pedagógicos. Esas experiencias fueron las desarrolladas por el Grupo Memoria Docente y Documentación Pedagógica del LPP a través de varios proyectos4. Uno de ellos fue llevado a cabo durante los años 2003 y 2004, junto con el equipo de trabajo del Proyecto “Fortalecimiento del carácter educativo de Jardines de Infantes Comunitarios” de la Secretaría de Educación de la Ciudad de Buenos Aires. Consistió en el diseño y coordinación de un taller de documentación narrativa en el que participaron la coordinadora y los docentes que intentaban “fortalecer pedagógicamente”, desde ese proyecto, a las organizaciones comunitarias que autogestionaban esas iniciativas educativas, con el apoyo de la Secretaría de Promoción Social de la Ciudad. La publicación de ese relato pedagógico colectivo por parte de la Dirección General de Planeamiento Edu Disponibles en el sitio web: http://www.memoriapedagogica.com.ar/ 4 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani cativo de la SED y un grupo de docentes de nivel inicial formados en la documentación narrativa de sus prácticas pedagógicas, son dos de los resultados más significativos del proyecto. Otra experiencia fue el desarrollo de un proyecto junto con unos 130 educadores populares y trabajadores sociales de once organizaciones del “Foro Social y Educativo Paulo Freire”, que se implementó durante los años 2004 y 2005 con el financiamiento de la Dirección de Capacitación de Organizaciones Comunitarias del Ministerio de Desarrollo Social de la Nación. Consistió en la realización de once talleres de reconstrucción narrativa de experiencias de organización comunitaria y social, que dieron por resultado la publicación de documentos narrativos de autoría colectiva que llevan por nombre “Cómo llegamos hasta aquí”. Durante su transcurso, el dispositivo de documentación narrativa se enriqueció con algunos avances teóricos y metodológicos de la educación popular de corte freireano que redundaron en la revisión y reformulación del dispositivo metodológico. Un tercer proyecto del Grupo se llevó adelante junto con el Consejo Provincial de Educación de la Provincia de Santa Cruz y la Universidad Nacional de la Patagonia Austral, también durante los años 2004 y 2005. En este caso, la tarea consistió en montar un dispositivo de documentación narrativa de alcance provincial, formar a un conjunto de 60 coordinadores de procesos de documentación, y ayudar a generar con ellos procesos de escritura, lectura, conversación y debate pedagógicos con la participación de uno 500 docentes narradores de la provincia. También, el trabajo consistió en diseñar instancias colectivas de lectura, debate y crítica pedagógicas de los relatos producidos por los docentes (Ateneos de Docentes Narradores) y de colaborar en la edición y publicación de estos documentos narrativos de desarrollo curricular. Esta experiencia fue muy importante para la consolidación del dispositivo metodológico, y su sistematización y conceptualización fue fundamental como material de referencia para la reflexión en torno a la generación de condiciones político-educativas e institucionales para la implementación desde el Estado de estrategias de desarrollo curricular, formación docente e indagación cualitativa y narrativa de este tipo. Una cuarta iniciativa fue el Proyecto “Materiales y estrategias para la retención escolar”, co-coordinado por la Organización de Estados Americanos (OEA) y el MECyT, desarrollado en los años 2004 y 2005. Durante el primer año de trabajo, se formaron docentes de 25 escuelas medias a través de la producción de relatos pedagógicos sobre experiencias de inclusión escolar de adolescentes en “riesgo educativo”. Los documentos narrativos que resultaron de ese proceso forman parte de una serie de publicaciones del MECyT y de un “banco de experiencias”, que también incluye relatos de docentes de otros países latinoamericanos participantes del Proyecto (Chile, Uruguay, México, Paraguay, Colombia y Brasil) y se proyecta como un primer esfuerzo regional por acopiar y difundir “materiales pedagógicos” construidos por docentes5. En el segundo año, se formaron profesores de once Institutos de Formación Docente (IFD) de las provincias del Noroeste argentino. En este caso, el esfuerzo estuvo orientado a conformar un colectivo de formadores de docentes que estuvieran habilitados y capacitados para incorporar dispositivos de documentación narrativa de experiencias pedagógicas en distintas instancias del trayecto inicial de la formación y en las líneas de acción institucionales dirigidas a la investigación educativa, el desarrollo curricular y la transferencia de saberes pedagógicos. El quinto proyecto consistió en el desarrollo del “Seminario-Taller de indagación pedagógica del mundo escolar y las prácticas docentes” llevado a cabo en el marco de las acciones de desarrollo profesional impulsadas por la Dirección General de Educación Superior del Ministerio de Educación de la Ciudad de Buenos Aires, durante los años 2006 y 2007. En este caso, se trató también de formar un colectivo de docentes de IFD de la Ciudad de Buenos Aires para llevar adelante de manera autónoma procesos de documentación narrativa de las experiencias de formación, y que además pudieran promover y coordinar procesos de indagación, escritura, lectura y publicación de relatos. De esta forma, el trabajo académico consistió en la formación y el entrenamiento de este colectivo docente en las estrategias metodológicas de la in El banco de experiencias pedagógicas se puede consultar en: http:/ tqnue.educ.ar/oea/documentos.htm 5 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 51 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas dagación pedagógica y la investigación cualitativa y narrativa, así como en la discusión acerca de las modalidades y formatos organizativos e institucionales que estarían habilitando o restringiendo iniciativas de este tipo. El resultado de esta línea de trabajo se encuentra sintetizado en una publicación colectiva que muestra la producción narrativa y se despliega en el conjunto de iniciativas institucionales de formación de docentes (inicial y continua) que lograron estructurarse a partir del Seminario Taller durante el 2007. Un sexto y decisivo proyecto fue el diseñado y desarrollado en 2007 y 2008 junto con 192 coordinadores de procesos de documentación narrativa de quince provincias y más de 2 mil docentes del país, bajo condiciones políticas e institucionales propiciadas por el Instituto Nacional de Formación Docente del MECyT. Se denominó “Documentación Narrativa de Experiencias y Viajes Pedagógicos” e involucró una activa movilización de recursos, actores y procesos de indagación-formación-acción de los sistemas educativos de las provincias involucradas. Gran parte de los resultados de ese proceso está documentada y dispuesta públicamente en un sitio web6, y entre ellos merecen señalarse: alrededor de 1200 relatos de experiencia pedagógica; nuevos colectivos de docentes narradores y redes pedagógicas autogestionadas; una plataforma virtual que profundiza la circulación de los documentos narrativos y amplía los encuentros entre docentes narradores; una serie de materiales pedagógicos que ponen en acción al dispositivo de documentación narrativa. A su vez, a nivel nacional, regional e internacional la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas se articula y sostiene instancias de trabajo conjunto con: ■ Red de Docentes que Hacen Investigación Educativa (Red DHIE)7 Es una propuesta político-pedagógica que entiende la investigación como un derecho de los docentes y reclama por condiciones de trabajo dignas para poder investigar desde las escuelas. La modalidad de trabajo en red se asienta en la idea de que la generación o producción de conocimientos 6 7 http://www.memoriapedagogica.com.ar/ www.reddhie.org.ar. Acceso: 1 de febrero de 2011 52 acerca del campo educativo, y cualquier proceso de transformación a realizarse en el mismo, debe partir de una reflexión acerca de la realidad educativa basada en la participación activa de maestros y profesores que cotidianamente trabajan en las instituciones educativas. Por otro lado, con esta modalidad de trabajo se pretende contribuir con la formación docente en el campo de la investigación educativa, rompiendo con los modelos tradicionales de capacitación organizados por el discurso oficial de modo jerárquico y verticalista. Desde la Escuela “Marina Vilte” de la Confederación de Trabajadores de la Educación de la República Argentina (CTERA), se generaron las condiciones de posibilidad para el desarrollo de la Red. En el año 1993 se fundó la Escuela, que presentaba dentro de sus objetivos fundamentales la formación pedagógica y sindical de los docentes. Se desarrollaron una serie de proyectos y programas de formación de posgrado en investigación educativa, cuya producción final por parte de los docentes consistía en un trabajo de investigación. Estas producciones comenzaron a circular a través de sucesivos encuentros para el intercambio, la cooperación y la construcción de conocimientos desde una perspectiva horizontal. Así se inició el camino de la constitución de la Red, la cual, concebida como un sistema de comunicación e intercambio entre educadores, inicia sus actividades a fines de años 1999. A partir del año 2009 se plantea un nuevo esquema organizativo para la coordinación de la Red DHIE: se pasó de la coordinación centralizada en el marco de la Escuela “Marina Vilte”, a la posibilidad de constituir distintas sedes en las provincias y/o regiones. Estos nodos tienen un desarrollo autónomo y a la vez se articulan en una instancia nacional para la toma de decisiones conjuntas. Una de las principales acciones de la Red son los Encuentros Nacionales, instancias que tienen el objetivo de generar un espacio, sostenido en el tiempo, para que educadores y educadoras se encuentren, presenten sus trabajos de investigación e intercambien ideas sobre sus diseños, informes, tesis y publicaciones. Estos encuentros son considerados, además, como una manera de sustentar el trabajo en red de un colectivo que permanentemente reflexiona y debate acerca de los procesos de investigación realizados desde las escuelas. Son lu- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani gares y tiempos alternativos al discurso oficial, para pensar la relación formación docente-investigación educativa de una manera horizontal. Asimismo, la Red DHIE participa en eventos de carácter internacional y desde el año 2001 es una de las redes convocantes para la organización de los Encuentros Iberoamericanos de Colectivos de maestros que hacen investigación desde las escuelas. En el año 2006, la Red DHIE organizó junto a otras redes el VI Encuentro Nacional en Buenos Aires, en el marco del Foro Mundial de Educación, y proclamaron la constitución del “Colectivo Argentino de Docentes que hacen Investigación desde la escuela”. ■ Colectivo Argentino de Docentes que Hacen Investigación desde la Escuela8 Reúne a un conjunto de educadores y educadoras que se desempeñan en organizaciones sindicales docentes, instituciones educativas del sistema educativo formal y en experiencias pedagógicas alternativas, desde los cuales se llevan a cabo procesos de investigación educativa, narrativas e innovaciones pedagógicas y, a la vez, se recrean diferentes modos de organización para un modelo de formación docente asentado en la idea del trabajo en red. Desde el Colectivo Argentino se vinieron estableciendo una serie de acuerdos generales para la producción de saberes, el diálogo, la comunicación, la interacción, la intervención en la realidad y el “encuentro” entre pares. La coordinación de este espacio es llevada adelante por un conjunto de redes y organizaciones que planifican las acciones; convocan, organizan y participan de los Encuentros Nacionales e Iberoamericanos; establecen acuerdos y convenios con otras organizaciones y mantienen la comunicación entre quienes participan de este movimiento. Uno de los fundamentos del Colectivo es concebir al trabajo docente como estructura y condición para la producción de conocimientos y reconocer a maestros y profesores como sujetos protagónicos en dicho proceso. Se sostiene el trabajo en red como forma alternativa para la formación docente entre pares, y como un sistema democrático para la toma decisiones, basándose en los principios de horizontalidad, solidaridad, igualdad e inclusión. www.colectivoeducadores.org.ar Acceso: 1 de febrero de 2011 8 Se busca promover el debate y la reflexión colectiva para construir posicionamientos y propuestas pedagógicas, con la intencionalidad de incidir en las definiciones de las políticas públicas para la educación. En el marco del Colectivo Argentino se vienen desarrollando Encuentros Nacionales, cuya intencionalidad se orienta a la generación de una instancia a nivel nacional para intercambiar entre pares las experiencias y producciones que los educadores hacen desde su escuela. ■ Red Iberoamericana de Colectivos Escolares y Redes de Maestros que hacen investigación desde su escuela Conforman esta Red educadores y educadoras de América Latina y España que participan de colectivos y redes como formas alternativas de organización pedagógica, y que mantienen lazos de intercambio y cooperación. Comparten este proyecto redes y organizaciones de Argentina, Brasil, Colombia, España, México, Perú, Uruguay y Venezuela. La Red se propone la construcción de un movimiento político-pedagógico capaz de incidir en decisiones de políticas públicas en materia de educación en cada país y en la región en su conjunto. Fue fundada en el marco del III Encuentro Iberoamericano, realizado en Colombia en julio de 2002. En dicho encuentro, las organizaciones convocantes y fundadoras de la red establecieron los “acuerdos básicos” y la realización de Encuentros de carácter regional. Los Encuentros Iberoamericanos9 reúnen docentes, colectivos de maestros y redes pedagógicas que hacen investigación desde las escuelas, para compartir los saberes y las experiencias que se están llevado a cabo en sus respectivos contextos. Representan una oportunidad para intercambiar puntos de vista; de orientar o reorientar las acciones en curso; de formular o reformular la dirección que puede tomar esta red de redes; de provocar y profundizar el debate sobre la relación entre la investigación educativa, la formación docente, el trabajo en redes, la práctica cotidiana y la transformación social. Se busca ampliar y profundizar el intercambio de experiencias de investigación, innovación y organi9 Información sobre los Encuentros disponible en: www.reddhie.org. ar/paginas/encuentros/iberoamericanos/aa_inicio_encuentros_ibero. htm Acceso: 1 de febrero de 2011 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 53 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas zación pedagógica de grupos, organizaciones y movimientos sociales, colectivos y redes, a partir del acercamiento directo entre sus protagonistas para que la construcción colectiva de conocimientos se constituya en un instrumento para la transformación de las sociedades, marcadas por las profundas desigualdades e injusticias sociales. ■ Red Latinoamericana de Estudios sobre Trabajo Docente (Red ESTRADO)10 Fue fundada en el año 1999 en Río de Janeiro, en el contexto de la primera reunión del Grupo de Trabajo “Educación, trabajo y exclusión social” del Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO)11. El surgimiento de esta Red fue producto de la consolidación de un campo de estudios referido al trabajo docente a partir de los desarrollos que, desde diferentes perspectivas y disciplinas, venían realizando numerosos investigadores latinoamericanos en diversas instituciones, particularmente universidades y sindicatos. La Red ESTRADO viene contribuyendo al desarrollo del debate político y de las investigaciones sobre el trabajo docente en el contexto latinoamericano por medio del intercambio entre los investigadores y las instituciones que la integran. En más de diez años de historia, el desarrollo de Seminarios Internacionales, en los que la Red ha reunido a numerosos investigadores latinoamericanos, constituye una continuidad de las propuestas de debate, formación y trabajos colectivos y una apuesta a que esta Red se siga expandiendo por la región. ■ Red Latinoamericana de Narrativas, Autobio- grafía y Educación (Red NAUE) Creada en diciembre de 2009 en la Facultada de Filosofía y Letras (UBA) en el marco del Seminario Internacional “Narrativas, Autobiografías y Educación”, la Red NAUE establece vínculos de cooperación entre investigadores y lazos institucionales entre la Universidad de Buenos Aires de Argentina; la Universidade do Estado da Bahia y la Universidade Federal do Rio Grande do Norte de Brasil; la Universidad de Antioquia, Medellín, de Colombia; la Universidad de Chile y www.redeestrado.org/ Acceso: 1 de febrero de 2011 La publicación GENTILI, Pablo; FRIGOTTO, Gaudencio, “La ciudadanía negada” CLACSO, Buenos Aires, 2000 da cuenta de los trabajos presentados en dicha reunión del Grupo de Trabajo. 10 11 54 la Universidad Pedagógica Nacional de México, entre otras instituciones universitarias de América Latina. Sus objetivos son establecer proyectos y líneas de trabajo de cooperación horizontal para la realización de investigaciones, publicaciones y actividades académicas vinculadas a estudios centrados en la indagación narrativa y (auto) biográfica en educación. En la actualidad se está desarrollando en su marco la Colección de libros “Narrativas, Autobiografía y Educación”, coeditada por la Facultad de Filosofía y Letras de la UBA y CLACSO; el Seminario Internacional sobre Narrativas, (Auto)biografía y Educación; conversatorios entre investigadores, docentes narradores y otros educadores; y otra serie de actividades tendientes a consolidar el trabajo cooperativo entre los distintos nodos que la integran. ■ Red BioGrafia / Red científica de investigación biográfica en educación América Latina-Europa Reúne investigadores de países de América Latina y Europa, cuyos trabajos pertenecen al dominio de la investigación biográfica en educación y formación. La misma tiende a divulgar y promover dichas investigaciones en ambos continentes, adentrándose en temas relacionados con la actualidad sociopolítica y económica de la educación. La Red BioGrafia dedica especial interés a los procesos de subjetivación y biografización que se observan en las trayectorias de educadores, alumnos y adultos en formación, a las interacciones entre acciones educativas y políticas y reformas de la educación, a las iniciativas cualitativas implementadas, a los márgenes de resistencia abordados con “educación y formación diferentes”. Al permitir una multiplicación de intercambios informales en materia de cuestiones asociadas a una actualidad educativa Norte-Sur, favoreciendo situaciones de conexión formal (debates, coloquios internacionales, jornadas de estudio, investigaciones financiadas, publicaciones), el proyecto de red América Latina-Europa apunta a reunir y alimentar intereses mutuos y objetos de conocimiento diversificados en función de contextos políticos variados, a dejar atrás puntos de vista nacionales o regionales exclusivos, y a proponer frente a formas y contenidos de pensamiento y de investigación dominados por un aspecto cuantitativo, la necesidad de considerar al sujeto en sus contextos sociales y sus entornos educativos. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 Daniel H. Suárez; Agustina Argnani Redes de docentes e investigadores: hacia un movimiento pedagógico en América Latina A través de estas múltiples vinculaciones y articulaciones amistosas y productivas, a diferentes niveles y con actores diversos del campo pedagógico, la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas viene intentando contribuir a la movilización político-pedagógica de los docentes y a la construcción de modalidades alternativas de organización colectiva para la elaboración y la reconstrucción del saber pedagógico. Y lo hace convencida de que las narrativas pedagógicas autobiográficas, escritas, publicadas y puestas a circular colectivamente por los docentes en red son un instrumento, un soporte y un género adecuado y potente tanto para nombrar el mundo y la experiencia escolares como para mostrar y poner en tensión los saberes pedagógicos que elaboran los docentes mientras lo habita y las hacen. Los relatos de experiencias pedagógicas y los escritos autobiográficos que desarrollan los docentes, a través de las modalidades heterodoxas de investigación-formación-acción que la Red dispone en sus diferentes iniciativas, permiten acceder y tornar visibles, existentes, mundos escolares vividos y reflexionados y sujetos pedagógicos negados por la racionalidad tecnocrática y burocrática. Esa polifonía de textos pedagógicos elaborados en colaboración por docentes que indagan y se interrogan por las experiencias que viven y hacen, además, es el territorio del encuentro y el motivo de la formación que se dan a sí mismos, colectivamente, mientras colaboran a recrear la imaginación y la memoria pedagógica de la escuela mediante nuevas maneras de decir y pensar en pedagogía. También lo hace militantemente. Esto es, comprometida con una intervención política en campo pedagógico, escolar y académico; en el territorio en el que se dirime la legitimidad de ciertos discursos y las prácticas educativas y en el que se cristalizan relaciones de saber y poder entre sus miembros. Las reformas educativas neoliberales y gran parte de la racionalidad pedagógica dominante de América Latina vienen configurando hace tiempo posiciones de sujetos pedagógicos asimétricas, jerárquicas, verticalistas, monológicas, que relegan al saber de la experiencia a un lugar subordinado y carente de valor, y a los maestros y profesores a posiciones pasivas, silenciosas, impotentes. En estos contextos, el saber experto, formalizado y académico ha sido ponderado y cualificado como el vehículo para la innovación y la mejora, y las comprensiones e interpretaciones pedagógicas de los docentes fueron desacreditadas como herramienta de cambio o de intervención eficaz en el campo escolar (SUÁREZ, 2005). Por eso, las redes tejidas por relatos de experiencias pedagógicas entre docentes narradores de distintas geografías, situaciones y paisajes, puestas en conversación con otras formas de organización colectiva para la producción de saber pedagógico y la formación horizontal entre docentes, constituyen al mismo tiempo una estrategia de resistencia frente a esas modalidades de dominación y sujeción y una experiencia alternativa de vinculación plural entre actores diversos del campo pedagógico, escolar y académico. De hecho, acercan y ponen en diálogo diferentes formas de saber y de nombrar el mundo y la experiencia escolares, generan “ecologías de saberes” (SANTOS, 2006), promueven comunidades interpretativas descentradas, plurales, democráticas y orientadas al cambio. De esta manera, la Red de Formación Docente y Narrativas Pedagógicas se reconoce en la tradición pedagógica movimientista latinoamericana y se integra a una corriente de experiencias y movilizaciones de docentes, educadores e investigadores que impulsan una conversación en torno de las posibilidades y límites de la reconstrucción y proyección del pensamiento y la praxis pedagógica en América Latina, y que ponen en debate la viabilidad epistemológica, teórica y metodológica de una contribución “específicamente latinoamericana” a la tradición crítica en educación y a la pedagogía. En este sentido, los encuentros y las discusiones que la Red pretende propiciar entre sus nodos y con otras redes y colectivos de docentes que investigan desde su experiencia, se inscribe en una conversación más general, abierta e inconclusa, que se viene dando en distintos lugares de América Latina y del mundo, y que tiene que ver, en términos generales, con el rechazo a formas de pensamiento y acción dogmáticas, tecnocráticas, vanguardistas o ingenuas, con la necesidad política de “intensificar la voluntad de transformación” que el pensamiento Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 43-56, jul./dez. 2011 55 Nuevas formas de organización colectiva y producción de saber pedagógico: la red de formación docente y narrativas pedagógicas único y cierto cinismo intelectual colaboraron a debilitar, con la posibilidad de repensar y hacer la escuela y la educación con un sentido más justo y democrático. REFERÊNCIAS AWAD, Miryam. Ser y hacer con otros. In: Universidad Pedagógica Nacional, Memorias. III Encuentro Iberoamericano de Colectivos Escolares y Redes de Maestros que hacen Investigación desde su Escuela. Santa Marta, Colombia. 2002, p. 121-122. CARDELLI, Jorge. Prólogo. In: Colectivo Argentino de Docentes que hacen Investigación desde la Escuela, Investigación educativa y trabajo en red. Debates y proyecciones. Buenos Aires: Novedades Educativas, 2009, p. 9-12. CARDELLI, Jorge; DATRI, Edgardo y DUHALDE, Miguel (comps.) Docentes que hacen investigación educativa. Tomo I. Buenos Aires: Miño y Dávila, 2002. CARDELLI, Jorge; DUHALDE, Miguel (comps.) Docentes que hacen investigación educativa. Tomo II. Buenos Aires: Miño y Dávila, 2004. CARDELLI, Jorge et al. Identidad del trabajo docente en el proceso de formación. Buenos Aires: Miño y Dávila, 2007. Colectivo Argentino de Docentes que hacen Investigación desde la Escuela. Investigación educativa y trabajo en red. Debates y proyecciones. Buenos Aires: Novedades Educativas, 2009. 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Os textos do livro revelam representações que foram construídas sobre o mundo rural; representações acerca dos significados da escola, dos professores, dos alunos e das populações rurais, de um modo geral. O estudo em questão insere-se no campo de investigações da História da Educação, sendo esta uma componente fundamental da história das práticas culturais e do cotidiano social. A pesquisa identifica-se com os pressupostos teóricos da História Cultural, corrente historiográfica que pretende buscar alternativas à história de cunho tradicional. O trabalho também se inscreve no campo da história das práticas de leitura e escrita, tendo como referenciais as concepções da cultura escrita enquanto produção discursiva de um determinado tempo e lugar. Para além da apresentação dos temas abordados no livro, a investigação está especialmente interessada nos significados da difusão dos discursos divulgados pela obra, nos processos de subjetivação provocados pelos textos escritos e suas possíveis influências nos modos como os professores rurais pensavam, agiam e se expressavam nos espaços de construção de suas identidades. Entende-se que o livro Escola Primária Rural constitui-se em um documento significativo para a História da Educação, por abordar questões relevantes acerca da problemática do ensino nas regiões campesinas, relatar experiências de atividades rurais desenvolvidas em diferentes escolas e propor sugestões de atividades empíricas relacionadas ao trabalho pedagógico do professor. Palavras-chave: Educação rural. Formação docente rural. Práticas de leitura e escrita. ABSTRACT A WORK REFERENCE FOR RURAL TEACHERS: Rural Primary School This paper analyzes the book Rural Primary School written by the professor and rural technician Ruth Ivoty Torres da Silva, in the early 1950s, in Rio Grande do Sul. The text of the book reveals representations constructed about the rural world; representations about the meanings of school, about teachers, students, rural populations in general. The study in question falls within the field of investigations of History of Education, which is a key component of the history of cultural practices and everyday society. It identifies itself within the theoretical assumptions of * Doutora em Educação (PPGEdu/UFRGS). Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço para contato: Rua Lopo Gonçalves, nº 218, ap. 601, Bairro Cidade Baixa, Porto Alegre. CEP: 90050-350. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 57 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural Cultural History, current historiographical approach which looks for alternatives to the traditional dynamic of history. The work also falls within the field of history of practices of reading and writing, taking as reference the conceptions of literacy as a discursive production of a particular time and place. Besides the presentation of the topics covered in the book, our research is particularly interested in the meanings of the dissemination of speeches broadcasted, the subjective processes provoked by texts and their possible influences in the ways rural teachers thought, acted and expressed themselves in the spaces where they build their identities. We understand that the book Rural Primary School constitutes a significant document in the history of education as it addresses relevant issues regarding the problem of education in peasant regions, relates experiences of rural activities undertaken in different schools and proposes empirical activities related to the pedagogical work of teachers. Keywords: Rural education. Teacher training rural. Practices of reading and writing. A autora e sua obra: aproximações Este trabalho analisa a obra Escola Primária Rural, produzida pela professora e técnica rural Ruth Ivoty Torres da Silva, no início da década de 1950, no Rio Grande do Sul. O estudo insere-se no campo de investigações da História da Educação, identifica-se com os pressupostos teóricos da História Cultural1 e se inscreve no campo da história das práticas de leitura e escrita, tendo como referenciais as concepções da cultura escrita enquanto produção discursiva de um determinado tempo e lugar. O livro em questão constitui-se em um documento significativo para a História da Educação, por reconstruir o imaginário educacional rural, analisar o ensino nas regiões campesinas, relatar experiências desenvolvidas em diferentes escolas e propor atividades relacionadas ao trabalho pedagógico do professor. Para além da apresentação dos temas abordados no livro, a investigação está especialmente inte Stephanou e Bastos (2005) apontam a possibilidade de estabelecimento de íntimas relações entre a História Cultural e a História da Educação, especialmente quando as memórias constituem a documentação privilegiada. As autoras afirmam que a História da Educação é parte integrante da cultura de um povo e, portanto, promove uma compreensão mais fecunda da cultura escolar de determinada época, de determinada instituição. Da mesma forma, Maria Teresa Cunha percebe o alargamento de possibilidades investigativas promovido pela História Cultural e, assim, permite que o historiador produza suas pesquisas “em direção a outros campos do conhecimento, de sujeitos e de objetos até então inexplorados.” (CUNHA, 1999, p. 42). 1 58 ressada nos significados da difusão dos discursos divulgados pela obra, nos processos de subjetivação provocados pelos textos escritos e suas possíveis influências nos modos como os professores rurais pensavam, agiam e se expressavam nos espaços de construção de suas identidades. O professor rural se via projetado nas páginas do livro, por isso acredita-se no forte potencial educativo do trabalho de Ruth Ivoty da Silva. Ela nasceu em 1913, em São Borja, município do Rio Grande do Sul. Ao longo de sua vida profissional, preocupou-se com a educação rural no Rio Grande do Sul. Participou de cursos na Sociedade Amigos de Alberto Torres, no Rio de Janeiro, foi técnica em educação do Centro de Pesquisas e Orientação Educacional, chegando a ocupar o cargo de Superintendente do Ensino Rural. Também representou o estado em diversos eventos educacionais (SILVA, 1951, p. 246-248). Metodologicamente, a autora parte de uma visão geral acerca da educação rural aliada à importância da agricultura no Brasil (capítulo 1) e, logo no capítulo seguinte, aborda questões relevantes sobre a problemática do ensino nas regiões campesinas do estado. Comenta as impressões que se tinha acerca das populações rurais, dos professores e dos alunos, fala das características das escolas rurais, sua função social, objetivos, não descuidando da análise da formação docente para o meio rural. Os capítulos 3, 4 e 5 destinam-se a auxiliar o professor didaticamente, oferecem sugestões de planos de aulas Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 Dóris Bittencourt Almeida com objetivos, diretrizes, conhecimentos a serem adquiridos, e propõem atividades aos alunos. Ao final de cada capítulo, a autora apresenta a bibliografia consultada, preocupando-se em documentar suas pesquisas com as devidas referências. No início do livro, explica os fins de seu trabalho: Não visa este trabalho apresentar novidade em matéria de Educação Rural. Numa tentativa de sistematizar o que tem sido pregado e experimentado naquele terreno é, antes, colaboração modesta, oferecida aos professores que se destinam às escolas primárias de zonas rurais, enquanto este aspecto não for atendido nas escolas de formação de professores, com a extensão que lhe é devida. […] apesar da boa vontade e do esforço de muitos professores sentimos a necessidade da preparação específica de nosso magistério para uma ação mais decidida nas áreas rurais. Esse é o aspecto que nos animou à presente realização (SILVA, 1951, p. 2). Possivelmente, ao escrever Escola Primária Rural, Ruth Silva tenha procurado reunir em um livro os textos que produziu ao longo de anos, haja vista escrevia sistematicamente na seção “O ensino rural” da Revista do Ensino (1939 até a década de 1950), produzia textos para os Boletins de Educação Rural (1954 a 1957) e para os Boletins do CPOE. Assim, percebe-se que organizou um material que contempla reflexões acerca das grandes questões que envolvem a educação rural, com o objetivo de que se constituísse em uma fonte de consulta para os docentes rurais. A Revista do Ensino nº 7 (1951), apresenta uma nota de divulgação do livro da professora Ruth, evidenciando os problemas enfrentados pelo ensino rural e valorizando a publicação da obra como um instrumento de fundamentação teórica e prática para o magistério: Trabalhando há anos no sentido de orientar a realização de atividades ou clubes agrícolas no RS, a autora desta obra sentiu, apesar dos esforços e da boa vontade de inúmeros mestres, a necessidade de preparação específica do nosso magistério no setor do Ensino Rural. Publicados agora os resultados de seus estudos, de suas pesquisas e experiências, presta a professora Ruth um inestimável serviço ao magistério, à vida rural e aos interesses nacionais. Dando a esta obra um cunho eminentemente prático, tornou-o a autora acessível a todos quantos queiram conhecer, resolver os problemas da Educação Rural. (p. 89) O livro teve a sua primeira publicação pela Editora do Globo, em 19512. A primeira edição teve uma tiragem de 3 mil exemplares, que circularam pelo Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa primeira edição, as vendas foram lentas. José Otavio Bertaso, um dos antigos editores da Livraria e Editora do Globo, salienta que era difícil divulgar e fazer com que o livro efetivamente chegasse às escolas rurais, pois a maioria delas não trabalhava com uma quantidade considerável de livros, principalmente aqueles destinados especificamente à educação rural. Segundo Bertaso (2002), essa situação modificou-se em 1966, quando houve então um acordo entre o Ministério da Educação e o USAID (Ajuda Internacional para o Desenvolvimento) para a criação de um programa de bibliotecas e divulgação gratuita de livros, entre eles os que envolviam temas ligados à Educação e à Sociologia. Tal parceria atingiu um conjunto de 4 mil bibliotecas no Brasil e cada uma delas ficou equipada com 360 títulos, aproximadamente. Dessa forma, foi possível promover mais três edições da Escola Primária Rural durante os anos 1960, sendo a última editada em 1971, com um total de 8 mil exemplares publicados e distribuídos para todo o país. Em razão dessa quantidade de publicações, atualmente ainda é possível encontrá-lo nas livrarias e sebos. O livro abarca uma quantidade considerável de conhecimentos ao longo de seus cinco capítulos, cumprindo, em tese, sua função de ser um referencial pedagógico para o magistério rural. Parte de uma visão mais teórica, fundamentada nos princípios do ruralismo pedagógico e da Escola Nova, valendo-se das ideias de sociólogos e estudiosos ligados às questões rurais do país, como Alberto Torres, Renato Sêneca Fleury e Fernando de Azevedo, que analisam tanto a problemática rural do A Editora Globo foi responsável pela difusão e propagação de inúmeras obras de autores gaúchos. Consegui obter alguns dados mais específicos sobre as edições do livro por meio da colaboração de um dos antigos proprietários, conhecedor de todo o trabalho editorial da Globo, senhor José Otávio Bertaso. Para maiores informações sobre a história da Editora do Globo, consultar Torresini, Elisabeth R. Editora Globo: uma aventura editorial nos anos 1930 e 1940. São Paulo: Edusp, 1999. 2 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 59 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural país quanto as representações construídas acerca das populações campesinas. O cenário da educação rural As fronteiras que, no passado, separavam claramente os aspectos culturais e geográficos dos meios urbano e rural, hoje se apresentam pouco nítidas. O século XX assistiu à transformação de uma sociedade de base eminentemente agrária em uma sociedade industrial, e a cidade assumiu a posição de paradigma dos modelos culturais e sociais. O Brasil era um país nitidamente rural e assim se manteve até a década de 1920, mas, a cada novo período, a tendência irreversível foi o aumento da população urbana e o decréscimo da população rural. As mudanças econômicas e sociais promoveram transfigurações identitárias e, portanto, afirmaram-se as identidades urbanas, uma vez que a cidade tornou-se o ícone da modernidade. O advento da República, no final do século XIX, delimitou um processo de transformação estrutural na sociedade brasileira, pois a pretensão era inserir o Brasil no contexto da modernidade. As transformações tomaram proporções maiores logo no início do século seguinte, com a afirmação do trabalho assalariado e os melhoramentos urbanos, aliados a um processo da industrialização, ainda que incipiente. A afirmação de uma sociedade marcadamente capitalista exigiu que se buscassem feições mais cosmopolitas e liberais para a educação, ou seja, era preciso que a escola se apresentasse à população como pública, laica e universal. A reorganização do Estado, sob o modelo republicano, promoveu a busca da escolarização como uma necessidade e uma alternativa de adaptação às transformações econômicas, sociais e políticas que vivia o país (GHIRARDELLI JR., 1995, p. 16). O país “modernizava-se”, e nisso estavam implicadas as escolhas e os caminhos educacionais percorridos. Assim, o mundo urbano passou a ser o condutor, pautando as decisões políticas e econômicas, tornando-se modelo das referências culturais. Nesse contexto, o meio rural foi associado às ideias de atraso, de ausência de desenvolvimento e de ignorância de sua população. A educação rural3 A educação no meio rural no Rio Grande do Sul é analisada em uma versão ampliada em Almeida (2004). 3 60 passou a ser vista como um instrumento capaz de aproximar a modernização, de formar, de modelar cidadãos adaptados ao seu meio de origem, mas lapidados pelos conhecimentos endossados pela cultura urbana. De lá que vieram os ensinamentos, tais como conhecimentos de saúde, saneamento, alimentação adequada, administração do tempo, técnicas agrícolas e pastoris modernas, práticas de higienização, todos esses amparados e condizentes com o desenvolvimento científico da sociedade. Entende-se que a educação rural constituiu-se em um dispositivo de governo da população rural e, neste sentido, o livro Escola Primária Rural era também um dispositivo para formar as populações rurais, colaborando na construção de um determinado éthos do homem rural. A autora defende o papel de redentora da escola rural, na busca da justiça social para alcançar o ideal do progresso e afastar das populações campesinas a ignorância e o descompasso e relação aos meios urbanos. William Soto (2002) analisa a formação do que ele chama “ideologia urbana e ideologia rural” (p. 110), com base na identificação dos aspectos que caracterizam o rural com a ideia de “atraso” e o urbano com a imagem do “progresso”. Produziu-se uma discursividade que depositou na industrialização a possibilidade de eliminar a precariedade que definia o meio rural e seus habitantes. Observa-se que o processo de modernização experimentado pelo país não atingiu somente as cidades, mas expandiu-se para as regiões rurais por meio da mecanização de lavouras, por exemplo. Consequentemente, o cidadão urbano foi erigido como modelo a ser seguido, e seus valores deveriam nortear os padrões de comportamento das populações rurais. A estas restou a apropriação de outros paradigmas econômicos e culturais que, com o passar do tempo, conduziram a um esquecimento de suas próprias referências. Nos dizeres de Soto, “a cidade e o campo são dois polos antagônicos, onde o primeiro terá que superar o segundo como fundamento da nova civilização” (2002, p. 110). Os discursos da época dividiam o mundo entre urbano e rural, civilização e atraso, ciência e ignorância. Portanto, os anos 1950 e 1960 mostram um cenário educacional brasileiro em que há diferentes sujeitos educacionais inseridos em realidades igualmente distintas. De um lado, a urbanização e Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 Dóris Bittencourt Almeida industrialização que marcavam a vida e a escolarização nas cidades. De outro, alunos, professores e comunidades que partilhavam espaços comuns: o meio rural e a escola rural, com suas dificuldades e seus possíveis encantos. A escola era o lugar diferenciado da comunidade rural, espaço em que o conhecimento endossado pela ciência se fazia presente, lugar em que o aluno convivia com artefatos culturais distintos de suas referências: classes, quadro-negro, livros, cartilhas, revistas, murais, mapas, cartazes, cadernos, lápis, às vezes mimeógrafos, que compunham o ambiente de aprendizagem. Eram muitos os problemas que marcavam o ensino rural no país. Aos alunos, poderia ser difícil perceber a validade da escola, pois esta seguidamente exigia o afastamento das atividades agrícolas e pastoris que lhes garantiam a subsistência. O Estado, se por um lado parecia acreditar na “predestinação rural do país” (NAGLE, 1974. p. 45 ) e apostar no trabalho dos professores, poderia ter investido mais em políticas públicas que de fato desenvolvessem o ensino rural e a formação pedagógica especificamente direcionada àquela realidade. As posições das autoridades públicas traduziam-se em algumas ações reais, mas não atendiam de modo efetivo às carências do meio rural. O que se observa, assim, é o abandono das populações do campo, que permaneciam desassistidas, afastadas das melhorias educacionais4. A autora critica a falta de acesso à escolarização das populações rurais e, da mesma forma, condena o ensino livresco, desvinculado da realidade do homem rural. Com relação aos professores rurais, cabe ressaltar que, via de regra, estavam despreparados para a função, não tinham formação específica para o trabalho ou para enfrentar as possíveis adversidades da profissão. E, mesmo que estudassem em instituições de formação docente rural, a titulação não tinha o alcance profissional garantido pelas escolas normais das cidades, tendo em vista que o curso normal rural equivalia ao curso ginasial. Tudo isso fez com que os professores rurais constituíssem outro grupo, hierarquicamente inferior, periférico, talvez, no conjunto do magistério público estadual. 4 Sobre estas questões, ver também ALMEIDA (2001), capítulos 1 e 2. No campo da historiografia da educação, em alguma medida, esses sujeitos, alunos e professores rurais, carregam marcas de esquecimento. Tal situação, que caracteriza a história da educação rural, mostra o distanciamento que se tem em relação ao meio rural, em uma cultura que hoje é eminentemente urbana. Parece haver uma amnésia coletiva em relação ao fato de que, até há pouco tempo, o Brasil tinha sua economia, sua população e seus valores culturais diretamente vinculados às áreas rurais. Então, o que se percebe é o desenvolvimento de um processo que coloca as populações rurais em uma situação de exclusão social. Ulpiano de Meneses (1999), ao analisar a dimensão política da memória, reflete acerca dessa amnésia que caracteriza nossa sociedade, em que prevalece o efêmero, o transitório, em que não há espaço para a memória de longa duração. Produzem-se sujeitos: os discursos acerca da educação rural Os professores rurais foram constituídos por meio de práticas historicizadas e das inter-relações de diferentes discursos que se difundiam e se sustentavam na sociedade brasileira das décadas passadas. Quando professores identificam-se com os temas circulantes, eles se tornam assujeitados a esses discursos, por um processo de adesão ou de identificação, e começam a se reconhecer e, paralelamente, a se constituir como sujeitos. Segundo Pinto (1989), um discurso só tem capacidade de exercer poder quando consegue e tem capacidade de responder a demandas, de se inserir no conjunto de significados da sociedade, definindo posições e lugares dos sujeitos, até porque sabemos que a capacidade de um discurso de exercer um poder, de permanecer, é sempre provisória, precisa sempre estar se reinventando para se adaptar a novos contextos sociais. Nesta perspectiva escolhida, o sujeito não é mais uma identidade em essência, mas sim alguém em permanente reinvenção, inserido em múltiplas relações que enredam suas práticas. Chartier (2009) entende que um texto não é uma simples abstração e que ele só existe graças à maneira como é transmitido. Os textos legitimam condutas e comportamentos, são suportes que se fazem ler, ouvir ou ver e produzem sentidos. Da Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 61 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural mesma forma, combate a ideia do material escrito como objeto fixo, impossível de ser modificado e alterado pelas pessoas que interagem com ele. Para o autor, a leitura é sempre uma apropriação, uma invenção, uma produção de significados. Cada leitor atribui, assim, um sentido próprio ao que lê. Cada leitor, baseado em suas referências, “dá um sentido mais ou menos singular, mais ou menos partilhado aos textos de que se apropria.” (CHARTIER, 2009, p. 20). A significação de um texto varia conforme as competências, as convenções, os usos e os protocolos de leitura próprios de cada comunidade. Assim, a leitura não se constitui em uma prática neutra. O leitor produz uma apropriação inventiva do texto que recebe. O livro Escola Primária Rural não era lido da mesma forma por todos os leitores. Alguns provavelmente eram interpelados pelos discursos, outros, talvez não. Cada sujeito é sujeito de uma variedade de discursos e pode aderir a eles ou não. Pretende-se analisar, a seguir, alguns dos discursos que se apresentam no livro objeto deste estudo, especialmente as representações5 acerca das populações rurais, do professor rural e da escola. Início do livro: a oração da mestra Senhor, pois, que quiseste que o meu lar fosse a minha escola, que seja feita a Tua vontade […] Faze com que toda a manhã eu acorde de alma tranquila e coração puro, para buscar minha escola e encontrar meus filhos, de quem a noite inteira fui privada. Que eu prepare nossa casa para recebê-los, como trouxe preparado, o ânimo para os acolher. Que na hora tumultuosa em que entram, como aves inquietas no ninho, vá meu sorriso ao encontro deles e lhes diga, a todos, que os esperava. Um filho nunca é indiferente a dois braços maternos que se estendam para ele. Faze com que eu não distinga entre eles se a sorte O conceito de representação identifica-se com a corrente historiográfica da História Cultural. Segundo Pesavento (2003, p. 39-40) “as representações construídas sobre o mundo não só se colocam no lugar deste mundo, como fazem com que os homens percebam a realidade e pautem sua existência (…) Representar é, pois, estar no lugar de, é presentificação de um ausente (…) não é uma cópia do real, sua imagem perfeita, mas uma construção feita a partir dele.” 5 62 os distinguiu pela beleza, pela saúde, pela cor, pelas vestes, pelas maneiras; que em minha companhia, em nossa escola, nem o pobre seja envergonhado, nem o vestido jactancioso. Faze que eu derrame igual maternidade sobre eles, para que sejam irmãos, ao menos na minha escola […] Faze, Senhor, que cada um deles, desses meninos e meninas que na vida vão conhecer outras mulheres – mãe, irmã, parentas, esposa, filhas – possam, à lembrança das que forma dignas de amor – juntar a de sua mestra, que todo o bem lhes quis, de quem foram o grande amor da vida, com o amor de sua profissão. Amém. (AFRÂNIO PEIXOTO apud SILVA, 1951, p. 2). O livro inicia com a Oração da Mestra destacado em forma de epígrafe. Apresenta os modos de ser que se esperavam de uma professora. É narrado na primeira pessoa do singular, o que personaliza o texto e contribui para promover a identificação com o seu conteúdo. Explicita virtudes e anseios de uma professora primária, indica um código de regras e de moral da profissão, valoriza posturas e ações corretas e, paralelamente, condena, mesmo que não diretamente, tantas outras atitudes. Serenidade, altruísmo, sacerdócio, abnegação, solidariedade, senso de justiça e amor materno são princípios que a professora deveria cultivar, isto é, deveriam fazer parte de sua personalidade. O texto é dirigido a todas as professoras, tanto as que exerciam o magistério nas zonas urbanas, como aquelas que trabalhavam no meio rural. Isso mostra que, em muitos aspectos, as exigências profissionais eram as mesmas, o que era esperado de uma professora não dependia de onde ela fosse lecionar. É certo que todas deveriam ser capazes de se entregar profundamente à profissão escolhida, e isso, de certa forma, acentuava-se em relação ao magistério rural. Vida pessoal e vida profissional misturam-se e confundem-se na oração. As relações profissionais são invadidas por sentimentos e ações próprios da esfera privada das professoras. O local de trabalho comparado a casa, os alunos ocupam o lugar de filhos. Exigia-se da professora tamanha dedicação que extrapolava suas responsabilidades profissionais. Seu trabalho envolvia desprendimento e abnegação, a ponto de transferir sua vida íntima para a relação que mantinha com a escola. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 Dóris Bittencourt Almeida Não se deve esquecer o caráter religioso que envolve a narrativa, afinal trata-se de uma professora conversando com Deus. Dessa forma, os sujeitos professores eram moldados e constituídos, conhecedores da ética e moral da sua profissão, sabedores do que era certo e do que era errado, do que era permitido e do que a eles era negado. Com a epígrafe, Ruth parece querer mostrar os caminhos da profissão docente rural que deveriam ser trilhados por todos os professores. Representações do mundo rural As representações que foram construídas sobre o mundo rural constituíram-se verdadeiras forças de poder em que o mundo urbano, assumindo uma posição de superioridade, descaracterizava e, talvez, até mesmo se possa dizer, aniquilava os parâmetros culturais que eram as referências identitárias das populações campesinas. Todas essas representações não foram criadas aleatoriamente; tinham objetivos claros de reforçar a supremacia dos valores urbanos, colaborando para a construção de uma identidade nacional marcada pelos ideais de progresso e de modernidade, em que não havia espaço para o pluralismo de práticas e valores culturais distintos daqueles apregoados e difundidos nas cidades. A educação rural apresentava-se como alternativa que se propunha a civilizar e recuperar as populações, ensinando-lhes a valorizar e trabalhar a terra, mas com um custo muito alto, pois alterava seus padrões culturais originais, implicando em um estreitamento de laços com os valores culturais urbanos. Os discursos da época evidenciam muitas das representações que foram construídas sobre essas populações rurais. É com base nesse conjunto de representações que os objetivos da educação rural também foram construídos. De um modo geral, o homem rural era visto como alguém ignorante, atrasado, indolente, com uma cultura inferior, extremamente supersticioso, que precisava civilizar-se, que não sabia dispor de seu tempo de forma racional, não percebia a importância do progresso social, que não tinha conhecimento sobre alimentação adequada e hábitos de higiene e, por fim, desconhecia as vantagens da escolarização. A autora vale-se de Fernando de Azevedo em A Cultura Brasileira e, por meio dessa referência, parafraseia o autor e apresenta uma série de representações referentes ao homem, à mulher e à criança do mundo rural, sempre estabelecendo analogias com os cidadãos urbanos. Inicialmente, apresenta uma que assim define a educação rural: A questão da Educação Rural não é somente uma questão de interesse pedagógico, puramente técnico ou de caráter regional: ela é de uma grande complexidade e toca os interesses essenciais do País. Educação rural consiste em orientar as populações das zonas rurais no sentido da formação adequada ou conveniente às mesmas, vinculando-as ao meio e levando-as a reagir de modo eficiente sobre este. (AZEVEDO apud SILVA, 1951, p. 3). Assim são definidas as características do homem rural: O homem rural tem acentuado sentido de realidade, pensamento rico e concreto, pouco inclinado a divagações teóricas […] embora religioso, muito inclinado à superstição; ingênuo na concepção da vida e do mundo, limitando-o quase ao próprio horizonte visual. Conserva muitas formas de pensamento primitivo, apesar das conquistas da ciência, para ele pouco ou nada difundidas. […] é ainda o homem do campo rude no trato social e as suas manifestações estéticas são pouco frequentes, principalmente pela falta de cultura, expressando-as, de modo especial, pela música, uma de suas poucas formas de recreação […] (SILVA, 1951, p. 13). A mulher campesina também é comparada à mulher da cidade: A mulher campesina apresenta características semelhantes às da mulher da cidade, mas, muitas vezes, algumas de suas características femininas desaparecem quando desempenha tarefas semelhantes às do homem. (SILVA, 1951, p. 14). São impressões por vezes preconceituosas, coerentes com os discursos circulantes na sociedade da época, que estabelecem distinções entre a população rural e urbana, colocando os primeiros em situação menos favorável, especialmente em termos culturais. Quando menciona a “falta de cultura” das populações rurais, Azevedo parece estar se referindo à ausência de uma cultura marcadamente urbana, como se só fossem válidas e apropriadas as manifestações culturais oriundas daquele espaço. O texto desconsidera os atributos culturais típicos das Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 63 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural áreas rurais do país e sugere que as pessoas sejam formadas no intuito de conhecerem e valorizarem culturas mais “civilizadas” e “modernas”, como aquelas praticadas nos meios urbanos. Percebem-se relações de poder que se colocam entre os mundos rural e urbano, tendo este posição hegemônica que lhe confere supremacia. Nessa análise, a criança rural também é percebida de forma distinta da criança da cidade. Azevedo admite que a aprendizagem nas áreas rurais aconteça de forma mais lenta. Entretanto, registra e enfatiza a igualdade de inteligência entre crianças urbanas e rurais, tendo como parâmetro pesquisas feitas nos Estados Unidos. Talvez essa questão não estivesse totalmente esclarecida, havendo dúvidas quanto ao potencial intelectual dos alunos pertencentes às zonas agrárias; daí a necessidade de elucidá-la. De um modo geral, a criança do campo é mais tenaz que a da cidade e o seu progresso intelectual é mais moroso; não é tão superficial e volúvel como a criança dos meios urbanos […] Do ponto de vista da inteligência, em experiências realizadas nos Estados Unidos foi comprovado que a criança rural não é inferior à da cidade, embora apresente experiências diferentes e deficiências de linguagem. […] quanto às características emocionais da criança rural, pode-se afirmar que esta, como a da cidade, necessita ajustar-se ao meio social a que pertence, para desenvolver todas as suas possibilidades e que o desajustamento criar-lhe-á problemas, inclusive com relação à aprendizagem (SILVA, 1951, p. 15). É possível que a intenção de Ruth tenha sido apresentar aos professores rurais uma espécie de perfil das pessoas com as quais iriam conviver em seu cotidiano. O professor, segundo esta visão, deveria estar atento e conhecer aqueles que estavam ao seu redor, fossem eles seus alunos, pais, enfim, todos da comunidade. Sabedor das características das pessoas, o professor teria maiores condições de intervir a fim de “moldar” melhor cada um deles, tendo como referências a urbanização, a ciência, a modernidade e o progresso. A luta pela educação rural Na sequência do segundo capítulo, a autora passa a centralizar o foco de análise para a escola 64 rural e suas implicações na vida das comunidades a que pertencem. O professor, como agente fundamental no desenvolvimento educacional, também passa a ser enfatizado. O discurso predominante no texto é de que a escola tem um grande papel a cumprir, de acordo com a visão do Estado, que atribui funções de extrema responsabilidade à educação. A escola deveria “civilizar sem urbanizar”. Nas palavras da autora: A escola primária de zona rural […] tem necessariamente as mesmas finalidades da nossa escola comum, sendo sua função precípua a educação integral. Cabe-lhe oferecer um ensino que responda às necessidades e às características da vida regional, a fim de adaptar o indivíduo às realidades locais e fixálo no meio, capacitando-o a reagir vitoriosamente sobre o mesmo (SILVA, 1951, p. 17). Nesse sentido, torna-se imprescindível a ação do professor rural a fim de que a escola consiga alcançar as metas a que se propõe. Ele é o ponto central de sustentação de toda política educacional. O aprendizado dos alunos, os cuidados com a sede da escola, o envolvimento com a comunidade, o desenvolvimento de projetos escolares e sociais, enfim, o êxito ou o fracasso educacional de cada escola dependem diretamente da atuação do professor. Este aspecto é assim abordado: Realmente, o professor faz a sua escola, imprimindolhe o feitio de sua personalidade. Se ele estiver compenetrado de sua missão e imbuído desse espírito ruralista que será o vivificador de seu trabalho há de sobrar intuição para apreender em relances as necessidades do ensino, resolvendo-as satisfatoriamente (SILVA, 1951, p. 21). Também o problema da formação profissional é enfocado. Defende-se que haja uma formação especializada para o magistério rural, com um currículo adaptado às necessidades do meio rural, sendo essa uma condição para o bom desempenho da profissão. Entretanto, “deve ser capacitado, sem ser um especialista para melhor servir ao meio”. Continuando, o professor deve: “[…] ser preparado para exercer esta função, ou seja, receber formação profissional especializada, para que possa ter consciência das vantagens e das desvantagens e das dificuldades da mesma e orgulho da alta missão que está chamado a desempenhar” (SILVA, 1951, p. 24). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 Dóris Bittencourt Almeida Ruth Silva defende uma formação normal rural, com um currículo direcionado às exigências do meio rural a fim de que a escola primária rural consiga atingir seus objetivos. É óbvio que o professor rural não precisa ser um sociólogo nem um técnico em agricultura; basta-lhe um quantum de conhecimentos gerais a e práticos nestes setores, com sólidos fundamentos para que possa perceber os problemas daí decorrentes e orientar-se , no melhor sentido, em busca de fontes necessárias, para a expansão e atualização dos mesmos. O tipo de mestre que se forma no ambiente urbano, desconhecendo a realidade da vida rural, poderá servir para as cidades, mas não convém, absolutamente, àquela zona (SILVA, 1951, p. 24-25). As colocações da autora situam-se em uma perspectiva do que seria o ideal para o ensino nas zonas rurais, e conclui-se que a formação do professor rural era mais complexa que a do professor das cidades, pois ele precisava dominar conhecimentos que iam além dos saberes escolares tradicionais. As dificuldades enfrentadas pelos docentes rurais também são exploradas no livro. Era comum trabalharem sozinhos, em comunidades isoladas, em ambientes hostis, e precisavam vencer resistências que porventura a comunidade oferecesse. As condições de moradia, alimentação e higiene, por vezes, eram deficientes. Além disso, há que se considerar a precariedade da sua formação pedagógica, somada a pouca maturidade de muitos deles para administrar os inúmeros entraves a que estavam expostos. Via de regra, esses docentes eram jovens, sem experiência alguma no magistério e, neste contexto, enfrentavam seus primeiros contatos com a profissão. Como técnica rural e conhecedora das características deste ambiente, certamente Ruth Silva tinha consciência dos problemas vividos nas escolas interioranas. Ainda que o texto insista na necessidade da adequada formação profissional, não omite questões relevantes acerca da profissão docente rural. Em uma dessas abordagens, a autora é enfática ao defender melhorias para o magistério rural: Torna-se imprescindível também a reformulação da legislação […] que atenda não só aos interesses do ensino, como aos problemas da formação e humanos do professor rural, oferecendo-lhe o estímulo de uma carreira com possibilidades de evoluir profissionalmente; oferecendo-lhe o estímulo de uma carreira com possibilidades de evoluir profissionalmente; oferecendo residência para o professor junto à mesma, o que lhe permite maior controle sobre as plantações e criações, como lhe proporciona o acolhimento de um lar e a liberdade de ação que não pode ter quando reside distante da escola ou em casa de família […]; equipando a escola com um mínimo de instalações e material agrário […] Que tenha água potável suficiente e instalações sanitárias adequadas ao meio, porém em condições higiênicas (SILVA, 1951, p. 20). Ao analisar a quem as responsabilidades pela escola rural competem, Ruth Silva atribui funções diferenciadas para o Estado, os professores e a comunidade escolar. Destaca a importância da autonomia dos docentes para tomarem iniciativas que lhes pareçam as mais apropriadas nos locais em que trabalham: “Visamos, justamente, abolir o paternalismo antidemocrático, que anula iniciativas e adormece consciências” (SILVA, 1951, p. 20). Com relação ao papel do Estado, complementa: “[...] um mínimo inicial, porém, o primeiro núcleo, cabe ao Poder Público oferecer ao meio” (SILVA, 1951, p. 21). Nota-se a construção de um discurso que privilegia o trabalho docente, em detrimento de uma ação mais direta dos poderes públicos, especialmente quando diz: Temos visto escolas que são apenas uma casa construída num descampado, sem uma árvore de sombra, sem uma horta, sem uma flor [...] Que triste exemplo de desolação e abandono! Poderá o professor, em tal escola, ser líder positivo da comunidade? Certo que não, se tudo vai esperar do Estado (SILVA, 1951, p. 21). Reforça-se a ideia da importância da formação pedagógica e rural dos professores, no intuito de torná-los responsáveis pela solução do atraso agrário que vivia o país, por meio do aprimoramento da educação. Aos docentes deveriam ser oportunizados seminários, semanas de estudo, mesas redondas, painéis e outras técnicas; troca de experiências, entre outros. A eles cabia apropriarem-se dos discursos que eram difundidos para cumprirem sua tarefa com sucesso e “[...] terem orgulho da alta missão [...]” (SILVA, 1951, p. 23) a que estavam sendo chamados. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 65 Uma obra referência para professores rurais: escola primária rural Desta maneira, inúmeras e variadíssimas podem ser as unidades didáticas na escola, principalmente de zona rural, onde o professor tem maiores oportunidades de contato com o meio. As atividades escolares assim orientadas, além de vivificarem o trabalho de classe, levarão a escola a desempenhar a função social e civilizadora que lhe incumbe e de que tanto carecem nossas áreas rurais (SILVA, 1951, p.54). ser desenvolvidas nos grupos escolares. Nas escolas isoladas, sugere que se tenha uma unidade didática, por exemplo, a realização de uma horta escolar, e que se planejem atividades comuns ou específicas para cada série, pertinentes ao cultivo da horta. Já nos grupos escolares, os trabalhos podem ser diversificados, cada série pode desenvolver atividades rurais distintas. Assim, por exemplo, enquanto a primeira série trabalharia com a observação de animais e plantas úteis ao homem, a segunda série aprenderia técnicas de fruticultura e ficaria responsável pelo plantio do jardim da escola. A ênfase do texto é a fim de que as atividades rurais estivessem sempre integradas com os outros conteúdos fundamentais escolares. A educação rural deveria contemplar três grandes eixos: a iniciação agrícola, o ensino primário fundamental, com os conteúdos básicos escolares e, por fim, também era função da educação promover uma orientação, a qual a autora chama de “prévocacional”, a fim de preparar o aluno para futuras escolhas profissionais. Tal planejamento, posto em prática, ofereceria aos educandos um preparo para melhor aproveitarem os recursos e possibilidades da vida rural. Ao analisar as diretrizes para desenvolvimento das atividades agrícolas na escola primária rural (SILVA, 1951, p. 55), sugere atividades comuns a todas as escolas rurais, tipo horticultura, jardinagem, independentemente da zona. Defende a importância de aulas em turno integral, valoriza a construção de clubes agrícolas, dedicando um capítulo do livro para explicar como se operacionalizam esses clubes nas escolas. Ruth Silva salienta a importância de se considerar interesses, aptidões e motivações dos alunos, sua capacidade física e mental, da mesma forma que devem ser atendidos os aspectos relativos à aprendizagem, isto é, a didática especial das diversas matérias do currículo. Fala sobre o quanto é importante o professor ter clareza nos seus objetivos. Comenta as vantagens de usar o método do trabalho em equipe por ele melhor se prestar às condições práticas do desenvolvimento das atividades agrícolas/pastoris. Não descuida de um embasamento teórico, mas afirma que: O livro também apresenta atividades apropriadas para as escolas isoladas e outras que poderiam Sempre que se tornar indispensável o estudo teórico relativo à agricultura como uma preparação ao tra- Didaticamente falando Os outros capítulos do livro, que são sua maior parte, apresentam planejamentos de aulas com atividades práticas específicas para cada uma das quatro séries do ensino primário, de acordo com as atividades econômicas da região escolar, fossem elas agrícolas, pastoris ou pesqueiras. Como diz a autora: Damos a seguir várias sugestões de atividades de forma quase exaustiva, com o fim de enriquecê-las ao máximo. Nossa finalidade foi a de oferecer ao professor maiores oportunidades de escolha, considerando as ilimitadas variantes que a realidade das áreas rurais pode apresentar (SILVA, 1951, p. 51). Ruth Silva enfatiza a importância de o professor fazer a sua investigação da realidade escolar na qual está inserido, estabelecendo um levantamento das necessidades e possibilidades locais e só após planejar as unidades didáticas. Isso evidencia sua preocupação para que o livro não se transformasse em uma espécie de “manual prescritivo”, mas em um instrumento de consulta que exigia do docente a disponibilidade prévia para dedicar-se à pesquisa empírica em sua comunidade. Assim ela esclarece suas intenções: Suponhamos que, entre outras, o professor verificou deficiências ou incorreções no sistema alimentar da comunidade. Cumpre-lhe, portanto, procurar saná-las ou atenuá-las. Neste caso, a difusão de conhecimentos teóricos e práticos sobre alimentação racional se impõe. Deverá o professor planejar uma unidade didática sobre alimentação na qual focalize os aspectos principais relativos ao assunto [...] (SILVA, 1951, p. 53). A autora prossegue explicando como incluir as outras áreas do conhecimento neste planejamento: 66 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 57-68, jul./dez. 2011 Dóris Bittencourt Almeida balho prático deve se processar de forma simples e acessível, levando-se em conta as pesquisas bibliográficas a fim de que se forme na criança a ideia da necessidade de fundamento científico nos trabalhos agrícolas, combatendo-se a rotina dominante em nosso meio rural (SILVA, 1951, p. 27). No planejamento do professor devem constar as finalidades, situações de aprendizagem, fixação da aprendizagem, verificação, documentação, atendendo a globalização do ensino. Considerações finais É provável que o livro analisado de Ruth Silva tenha sido o único editado no Rio Grande do Sul na década de 1950 que abordou especificamente o ensino rural nas primeiras séries escolares. A leitura da obra instigou a pesquisadora a perceber com mais atenção as particularidades e os detalhes que permeiam o contexto da educação rural, enfim, a leitura promoveu uma aproximação do universo da educação rural nas décadas passadas. Aqui se procurou historicizar a obra e cotejá-la com os parâmetros educacionais e econômicos dos anos 1950 e 1960 no Brasil. As propostas educacionais da autora revelam suas concepções políticas, econômicas e culturais, e isso permite identificar seu alinhamento aos ideais do ruralismo pedagógico e do escolanovismo. Neste sentido, vê-se que a autora conduz o leitor a acreditar no papel da escola redentora e no significado do trabalho do professor rural com as populações campesinas, tendo em vista o abandono em que se encontravam, uma vez que os investimentos públicos concentravam-se no modelo de urbanização emergente no país. O livro ensina um modo de ser dos professores rurais, constituindo-se, portanto, uma estratégia educativa por promover a adesão dos sujeitos a determinados discursos. Passados quase 60 anos da primeira edição da obra de Ruth Silva, ainda são muitos os desafios da educação rural no nosso país. Em tempos de crescente globalização econômica e cultural, em que a população urbana é significativamente maior que a rural e a tendência é o apagamento de diferenças, questiona-se a viabilidade de uma educação propriamente rural. As lutas que mobilizavam Ruth Silva e tantos outros adeptos ao ruralismo pedagógico continuam, sob certo aspecto, atuais, tendo em vista que persiste no país a exclusão de muitos do acesso à escolarização. A hegemonia que caracteriza a urbanidade praticamente acaba por anular aqueles e aquelas que vivem com outras referências, que ainda são, muitas vezes, ignorados pelas políticas públicas educacionais. Para finalizar, acredita-se que o livro de Ruth Silva cumpriu um papel importante em seu tempo, especialmente considerando a orientação aos docentes e a defesa explícita de uma escola primária rural de qualidade numa época em que o pensamento pedagógico comumente atendia a outras demandas, que não eram as mesmas das escolas do interior. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Dóris Bittencourt. A educação rural como um processo civilizador. In: STEPHANOU, Maria; BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil: século XX. Petrópolis: Vozes, 2004. v.3. p. 278-295. ______. Vozes esquecidas em horizontes rurais: histórias de professores. Rio Grande do Sul, 2001. Dissertação (Mestrado em Educação) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2001. CHARTIER, Roger (Org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação da Liberdade, 2009. CUNHA, Maria Teresa Santos. Nas margens do instituído: memória/educação. 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Para ilustrar este tema, analizo los textos de Freinet, especialmente los dos volúmenes del Essai de psychologie sensible y L’éducation du travail. También presento las contribuciones de Elise Freinet, que ayudaron a configurar el enfoque de Freinet a lo largo de cuatro décadas. Mi contribución tiene una orientación deliberadamente teórica. Con ello, deseo seguir reivindicando a Freinet como una figura relevante del pensamiento pedagógico contemporáneo, y no sólo como el creador de la técnica de la imprenta en la escuela o etiquetas análogas. Palabras clave: Naturaleza. Educación rural. Cooperación. Métodos naturales de aprendizaje. ABSTRACT NATURE AND RURAL EDUCATION IN CÉLESTIN FREINET. The influence of Célestin Freinet (1896-1966) on rural education has been very deep. In this paper, I will pressent some reasons in order to justify this impact. I will first show Freinet´s biographical and professional trajectory. I will focus specifically upon his approach of nature and its implications in educational, social and psychological fields. I will analyze the texts published by Freinet, especially the two volumes of Essai de psychologie sensible as well as L’éducation du travail. I will refer also to the contributions of Elise Freinet that helped to make up Célestin Freinet´s approach over four decades. Our deliberately theoretical approach shows the relevance of Freinet for the contemporary pedagogical thinking and not only as the creator of the technique of printing in school or similar label. Keywords: Nature. Rural Education. Cooperation. Natural Methods of Learning. * Doctor en Pedagogía. Profesor Titular de la Universidad de Sevilla. Endereço para contato: Dpto. de Teoría e Historia de la Educación y Pedagogía Social Facultad de Ciencias de la Educación. Despacho 5-134.Calle Pirotecnia, s/n, 41.103-Sevilla, Espanha. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 69 Naturaleza, ruralidad y educación en célestin freinet Introducción En 1968, dos años después de la muerte de Freinet, J. Trovial, secretario de estado del Ministerio de Educación francés, comunicó en el Parlamento, como respuesta a una pregunta parlamentaria, que en esa fecha practicaban las técnicas Freinet unas 12.000 escuelas rurales francesas (GONZÁLEZ MONTEAGUDO, 1988a, p. 108, nota 262). Este trabajo intenta comprender las razones de esta poderosa influencia de Freinet en relación con la educación rural. 1. La trayectoria de freinet: importancia de la naturaleza y la ruralidad Freinet nació en 1896 en una aldea de los Alpes Marítimos, en el sur de Francia1. Sus orígenes son rurales. De este ambiente extrae el pedagogo galo muchas de sus imágenes pedagógicas. Sus padres, de escasos medios económicos, eran campesinos y pastores, aunque también trabajaban como tejedores. Los primeros años de su infancia transcurren en la aldea, dedicados a los trabajos y labores del campo. Este crecimiento en un medio natural, de ritmos apacibles y tareas duras, pero sosegadas, marcará la evolución posterior de Freinet. De este ambiente surgen los fundamentos de su sistema pedagógico. Freinet se declara, como sus padres, “(…) campesino y pastor”, y afirma: “Tal vez mi único talento de pedagogo sea el de haber conservado una huella tan completa de mi infancia, que siento y comprendo, como niño, a los niños que educo” (FREINET, cit. en FREINET, Elise, 1977, p. 165). Freinet asiste a la escuela y experimenta como escolar la realidad de una escuela tradicional, abstracta y basada en los libros de texto. Tras la escuela primaria, realiza interno el curso complementario, y en 1913 se presenta al examen de entrada de la Escuela Normal de Niza, superándolo. Al final del segundo año de carrera de magisterio, y cuando aún no ha realizado las prácticas de enseñanza, Freinet recibe, en 1915, el título de maestro de primera enseñanza, otorgado de forma anticipada a causa Para la trayectoria sobre Freinet, véase: González Monteagudo, 1988a, 19-119. 1 70 de la primera guerra mundial. Este mismo año es movilizado y se incorpora a filas como oficial de infantería. Varios meses después, ya en 1916, durante la mítica batalla de Verdún, Freinet es herido de gravedad en el pulmón derecho. Evacuado del frente, pasará años difíciles a causa de las secuelas de esta herida, que persistirán de una forma u otra a lo largo de toda su vida. Después de participar en la guerra, la convalecencia se prolongó durante cuatro años, de 1916 a 1920, con visitas repetidas a los hospitales. Finalmente, tomó la decisión de abandonar el hospital, a la vez que renunció a la pensión que recibía como herido de guerra. En 1920 solicitó su ingreso en la enseñanza y comenzó su etapa como maestro en un pequeño pueblo. A partir de sus propias limitaciones para poder hablar de manera continuada durante largo tiempo se planteó algunos cambios en la dinámica del aula. En vez de dormitar frente a un texto de lectura — escribe Freinet —, después de la clase de mediodía salíamos al campo que bordeaba la aldea. No examinábamos ya escolarmente a nuestro alrededor la flor o el insecto, la piedra o el río. Lo sentíamos con todo nuestro ser, no sólo objetivamente, sino con toda nuestra natural sensibilidad (FREINET, 1973, p. 14). Los paseos transformaban la actividad educativa y la hacían más interesante. Freinet contactó con los artesanos locales e introdujo el tejido y la carpintería en la escuela. La clase se modifica. Quita la tarima para estar, y no sólo simbólicamente, a la altura del niño. Un día, una carrera de caracoles, objeto de la máxima atención por parte de sus alumnos, origina un texto, que es redactado, leído y copiado por la clase: ha nacido el texto libre, primer descubrimiento básico que sentará las bases de una nueva pedagogía. En la paulatina elaboración de la pedagogía de Freinet, el texto libre tiene una importancia histórica innegable. El surgimiento del texto libre hace meditar a Freinet sobre la forma de conseguir que esa página escrita por el niño fecunde toda la tarea escolar. Y piensa en la hoja impresa, que permite la conservación del pensamiento infantil. Así se originó la idea de la imprenta en la escuela, definidora del movimiento pedagógico freinetiano, especialmente en la primera época. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 José González Monteagudo Freinet inicia una formación pedagógica y cultural de marcado signo autodidacta. Lee a los autores marxistas, a los clásicos de la pedagogía (Rabelais, Montaigne, Rousseau y Pestalozzi) y a los psicólogos y pedagogos del momento. Viaja a Alemania y Rusia. En los años veinte surgen de manera sucesiva las principales técnicas Freinet: el texto libre, la imprenta escolar, la correspondencia interescolar y el fichero escolar cooperativo. En 1926, Freinet y Elise se casan e inician una colaboración que se prolongará durante cuatro décadas (Elise Freinet murió en 1983). Freinet escribe su primer libro, dedicado a la exposición de las técnicas de la imprenta escolar. A partir de ese momento, inicia la constitución de un movimiento pedagógico de maestros, la Cooperativa de la Enseñanza Laica (CEL), centrado en la experimentación y difusión de las nuevas técnicas educativas. Durante los años treinta, la propuesta freinetiana se consolidó y extendió. La CEL celebraba anualmente sus congresos, editaba revistas educativas y diverso material pedagógico, y promovía diferentes actividades en el ámbito de la formación de los maestros. Freinet se tropezó con el rechazo de los sectores más conservadores de St. Paul de Vence (su segundo destino en la enseñanza pública), y como consecuencia de una serie de arbitrariedades fue trasladado forzosamente. Tanto él como su mujer, también maestra, se negaron a aceptar el cambio forzoso de localidad. Ambos dimitieron de la enseñanza pública. A partir de ese momento, Freinet se planteó la necesidad de crear una escuela propia, que Freinet concibió como un laboratorio pedagógico en el que experimentar con entera libertad los métodos educativos innovadores. A pesar de ser una escuela privada, la vocación de la escuela Freinet era decididamente pública. La escuela de Vence tuvo una importancia capital en el proceso de progresiva maduración de la pedagogía de Freinet. En efecto, el maestro francés pudo desarrollar libremente muchos aspectos del problema educativo: planificó la edificación de la escuela y la distribución de los espacios; realizó el diseño pedagógico y didáctico; estudió la conducta de los niños, incluidos los inadaptados, en un medio natural no coercitivo; en fin, meditó sobre algunos temas — el juego y el trabajo, la disciplina, la organización escolar — que llegarían a ser, pocos años más tarde, tras la segunda guerra mundial, puntos centrales de su teoría pedagógica. También fue en el curso de la experiencia de Vence donde Freinet tuvo ocasión de aplicar los principios naturistas que tanto le ayudaron en su propia recuperación física, mediante diferentes prácticas higiénicas y alimenticias, como el vegetarianismo y la higiene natural, que implicaba la desnudez total del cuerpo. Durante los años treinta, el movimiento Freinet tuvo una participación muy directa en la militancia antifascista y en el desarrollo de iniciativas de izquierdas para garantizar una enseñanza de calidad. Freinet viajó mucho en estos años, pronunciando conferencias tanto en Francia como en algunos otros países. Estas actividades aumentaron la influencia de las técnicas Freinet, que comenzaron a ser aplicadas en Bélgica, España y Suiza y, posteriormente, en otros países. En la Segunda Guerra Mundial, el movimiento Freinet fue desmantelado. Freinet fue conducido a un campo de concentración, en el cual permaneció retenido año y medio. Allí preparó sus obras de madurez. Al ser liberado, formó parte de la Resistencia. En 1945, volvió a Vence y encontró su escuela y los almacenes de la CEL saqueados. Es la hora de la reconstitución del movimiento, que pronto iniciará su andadura. En 1947 abre sus puertas de nuevo la Escuela Freinet de Vence. En los años 50 y 60, el movimiento Freinet vuelve a consolidarse como una fuerza pedagógica importante. La influencia internacional de Freinet se extiende. Durante los últimos años de su vida, Freinet siguió dedicado a la adaptación de nuevas técnicas educativas, atento a las últimas tendencias psicopedagógicas. Murió en 1966. Su viuda Elise y un grupo de colaboradores continuaron divulgando su legado. 2. Filosofía educativa y concepciones sobre naturalueza y ruralidad La obra y la propia personalidad del maestro francés están marcadas por sus raíces campesinas y por su vinculación al mundo rural francés del primer tercio del siglo XX. En este ambiente campestre y natural, Freinet madura sus futuras reflexiones y concibe ya las ventajas de una sociedad tranquila; dura, pero a la vez gratificante; tradicional, pero profundamente humana. Recordando esta sociedad, en la que él mismo se forjó, destaca la estabilidad, la dimensión humana del tiempo y del espacio. Existía un encanto apacible y familiar; se Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 71 Naturaleza, ruralidad y educación en célestin freinet conocía poco, pero se conocía bien. El retrato que Freinet dibuja de esta época es, en ocasiones, de un bucolismo exagerado, cuando no irreal: El trabajo, en primer lugar, proporcionaba un contacto íntimo con las cosas. El campesino amaba sus campos y sus árboles, el artesano construía objetos de calidad, en los cuales había vertido su personalidad. Se tomaba tiempo para charlar con los vecinos, con los tenderos (...) Requeridos por un número limitado de asuntos, la reflexión se ejercía en profundidad (…) (FREINET, en GERVILLIERS, 1977, p. 11). El pensamiento de Freinet contiene un marcado sesgo naturalista. En particular se trata de una suerte de ruralismo naturalista. Hay que tener en cuenta los orígenes rurales de Freinet, que reivindica la ruralidad, caracterizada por la sencillez, la simplicidad y el buen sentido. Freinet recurre a las experiencias de la vida diaria, particularmente a las experiencias en el medio rural, pretendiendo establecer analogías entre procesos naturales y procesos educativos. Por ejemplo, la semilla que crece, para ilustrar el desarrollo humano; el caballo que no tiene sed, para comentar la ausencia de motivación escolar; el arroyo como símbolo de devenir personal y social. Con frecuencia, Freinet recurre a los conceptos de naturaleza y de desarrollo natural. En este terreno, es un pedagogo que confía en las virtudes del medio natural como principal instrumento de equilibrio, salud y formación. Recomienda y practica el naturismo, el vegetarianismo, la hidroterapia, la helioterapia, los ejercicios físicos y una medicina natural, incluso la oposición a las vacunas. Freinet es, sin duda, un ecologista avant la lettre. Para Freinet, los individuos poseen un potencial de vida. Se trata de una concepción optimista no sólo de los seres humanos, sino del conjunto de los seres vivos. En este aspecto, Freinet estuvo influido por el vitalismo filosófico de H. Bergson. Pero el creador de la Escuela Moderna hizo de este vitalismo naturalista, además, un estilo de vida. Así, por ejemplo, fomentó las prácticas naturistas en su escuela de Vence, basadas en la higiene natural y en un programa dietético. En todas estas cuestiones, se nos revela el perfil idealista, ascético y rigorista de Freinet, que desarrolló su labor bajo la consigna de una ética muy exigente. La teoría educativa de Freinet se configura como un saber del sentido común y de la experiencia 72 diaria. El sentido común es entendido como una especie de alternativa al modelo de razonamiento científico, con procedimientos diferentes de trabajo, y mediante el cual es posible organizar los procesos educativos. Se ha criticado mucho el papel desempeñado por el sentido común en educación, pues al estar basado en creencias irracionales, conclusiones mitológicas, aforismos y reglas prácticas, no alcanza la racionalidad y objetividad necesarias. Igualmente, el sentido común está limitado por su excesiva dependencia de la percepción y de la acción, y esto puede ser un importante obstáculo epistemológico. En muchos casos, como han mostrado los epistemólogos, la experiencia científica se organiza contradiciendo la experiencia común. En todo caso, en el caso de Freinet, la apelación al sentido común no conduce a un reforzamiento de las tradiciones y de los hábitos acríticos legados a través de las generaciones. Su insistencia en la experiencia cotidiana es preciso entenderla más bien como una oposición a las maneras de explicar la realidad y los procesos educativos del enfoque tradicional, de la escolástica. Por otra parte, hay que recordar que el naturalismo freinetiano contiene una complejidad que no es posible analizar con detalle en este breve trabajo. En efecto, Freinet tiene una concepción crítica y socialista del naturalismo. En este sentido, el objetivo último de Freinet es la crítica de la sociedad capitalista y de los efectos de la misma sobre los trabajadores y los educandos. El naturalismo, pues, resulta compatible con la crítica social influida por el marxismo y el anarquismo: Y así llegamos al centro del gran drama de nuestra sociedad: la máquina domina, esclaviza y destroza al hombre, persiguiendo el provecho como único fin, contribuyendo constantemente a su desequilibrio, remontándolo muy alto, tan alto que pierde pie, que no puede volver a encontrar sus raíces, que no se reencuentra a si mismo y que va a la deriva, a merced de los mecanismos, hacia la inevitable catástrofe que provoca la sociedad capitalista (FREINET, 1977, p.188). La naturaleza tiene dos sentidos principales en Freinet. Uno se refiere a la naturaleza física, el medio natural y concreto, con el cual deben familiarizarse los niños lo más posible; el segundo sentido de la naturaleza tiene un significado psicológico y Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 José González Monteagudo alude a factores internos propios de cada ser vivo y que le aseguran el crecimiento y el progreso. La filosofía de Freinet está impregnada de naturalismo y de naturismo. Sin embargo, Freinet tiene una concepción social del naturalismo. Esta relación constante entre lo natural y lo social, en ocasiones problemática, es característica del pedagogo galo. Para Freinet no cabe un desarrollo del individuo al margen del medio social. La indisoluble interdependencia entre el individuo y la sociedad permitirá el óptimo desarrollo de aquel al amparo de ésta: En la medida en que el individuo sea fuerte, fisiológica y físicamente, así como en la medida en que alrededor de él la naturaleza, los adultos, los grupos constituidos, la organización social entera faciliten su anhelo de poder al servicio de la exaltación de la existencia, en esa medida se realizará el ser, en medio de la dicha individual y la armonía social (FREINET, 1969, p. 50-1). La vida intensamente vivida, he aquí el ideal freinetiano. Esto implica una escuela al servicio de la vida: “Vivir, vivir lo más intensamente posible: ¿acaso no es ése, en definitiva, el fin de todos nuestros esfuerzos? y la tarea esencial de la escuela, ¿no debería ser desarrollar al máximo las posibilidades de conseguirlo?” (FREINET, Célestin. cit. en FREINET, Elise. 1978, p. 79). Para Freinet la vida se caracteriza por su dinamismo; no es un estado, algo dado y hecho, sino más bien un devenir, un transcurso, un acontecer. Como tiene una concepción dinámica de la vida, acude con frecuencia a imágenes y símiles que le permitan comunicar esta idea evolutiva y cambiante de la realidad. La vida es un torrente: con esta comparación Freinet pretende transmitir la noción de la vida como proceso, evolución y transformación continuos. Tomo la vida en su movimiento, sin prejuzgar de su origen ni de sus fines. Solamente compruebo que el ser viviente nace, crece, fructifica y luego declina y muere (...) el individuo es impulsado por su propia naturaleza a recorrer así su ciclo normal de vida, a realizar su destino. No expreso con esta palabra, destino, ninguna idea transcendente, espiritualista o religiosa (FREINET, 1969, p. 219). La naturaleza marca irremediablemente nuestros pensamientos y sentimientos, y es “(...) con su rica gama de goces y exigencias (...) la más segura de las educadoras” (FREINET, 1977, p. 66). El medio natural y físico, en opinión de Freinet, constituye “el medio más rico y el que mejor se adapta a las necesidades variables de los individuos” (FREINET, 1976, p. 45). El alcance educativo de estas posturas es patente y será expuesto más adelante. Aunque la vida es un sucederse, un movimiento continuo, Freinet piensa, no obstante, que existen realidades evidentes e incuestionables. Una de ellas es que hay necesidades específicamente humanas. La primera y principal necesidad de la especie humana, de acuerdo con Freinet, es la necesidad de buscar, de conocer, derivada de la permanente insatisfacción ante los problemas de la vida y del mundo. Retomando la idea de la vida como un continuum, vamos a precisar unas sugerentes ideas de Freinet sobre el lenguaje y la palabra. Ante el dinamismo vital, las palabras poseen un carácter limitado: “(...) las palabras só1o representan un enriquecimiento cuando son el resultado y la prolongación de nuestra experiencia personal (...) “ (FREINET, 1977, p. 208). Por perfecto que sea, el lenguaje petrifica el pensamiento y la realidad, “(...) aislando un estadio infinitesimal del eterno desarrollo de la creación” (FREINET, 1971, p. 202). Freinet ha descrito así su crítica al lenguaje: Como se ve, la palabra resulta siempre limitadora por cuanto proporciona una forma fijada y ya definitiva a un programa de vida dinámico ... El peligro más grave es justamente esta fijación en la palabra de un pensamiento sensible y móvil que se encuentra en ella limitado, reducido, frío y, por consiguiente, traicionado ... De este modo, las palabras constituyen una especie de tinas de agua, cuyo llenado y acumulación acaban por sustituir al desenvolvimiento sutil, complejo e inaprehensible de todos los ríos de la vida ...; las combinaciones que intentamos, los sistemas que imaginamos no encierran más que una parte de la verdad, una fracción petrificada de la vida (...) ; los magos de la lengua, ya sean religiosos o laicos (...) , cometen el error (...) de separar la palabra de la vida, de agitarla, de organizarla en un mecanismo separado, que no es más que la vida arbitraria de las palabras (…) (FREINET, 1977, p. 197-201). Freinet piensa que existe una poderosa fuerza vital, característica de todos los seres vivos, que empuja al ser hacia la actividad y hacia el crecimiento: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 73 Naturaleza, ruralidad y educación en célestin freinet Desde el origen, el hombre lleva en sí un potencial de vida, lo mismo que las infinitas variedades de seres vivos escalonados en la jerarquía zoológica, lo mismo que el grano de trigo y que la mínima semilla. Esta potencia de vida anima a la criatura en invencible impulso y la lanza hacia adelante, hacia la poderosa realización de su destino (FREINET, 1969, p. 17). Esta potencia vital se distingue por su “(...) anhelo de poder, al servicio del universal instinto de la vida” (FREINET, 1969, p. 40), que empuja al ser a satisfacer lo más completamente posible sus tendencias y necesidades, y que tiende constantemente a restablecer la armonía respecto del ambiente para lograr el equilibrio, la homeostasis. El ser vivo está continuamente a la búsqueda de un máximo de potencia” (FREINET, 1977, 9) y tiene la irreprimible necesidad de “(...) ascender, subir, franquear los obstáculos, dominar los elementos” (FREINET, 1971, 45), pues el hombre y, sobre todo, el niño tienen necesidad de proseguir su carrera hacia la vida y hacia la actividad. Como el individuo aspira a vivir, y para ello precisa del triunfo y de la conquista, es evidente que aquél no soportará el fracaso, pues éste siempre es destructor y desorganizador, y acarrea consecuencias negativas para el sujeto, que pierde de este modo la esperanza optimista en la vida. Es indiscutible, según Freinet, el que todo organismo quiera salir airoso y triunfante de la experiencia vital. “El fracaso es inhibidor, destructor del ánimo y del entusiasmo” (FREINEt, 1978, p. 34). La concepción de Freinet debe mucho al élan vital de Bergson, uno de los máximos representantes de la “filosofía de la vida”, que pone de relieve, frente a lo esquematizante, racionalista y estático, el valor de lo singular, lo anímico, lo vivencial, lo dinámico. Para Bergson, todo ser es conciencia, pero entendida no sólo intelectualmente, sino sobre todo como vida, vivencia, impulso, duración, libertad, creación y energía creadora. Este panorama abierto, de una espontaneidad ilimitada, es el ancho campo en que la conciencia conquista progresivamente mayores cotas de independencia. Consecuencias directas de buena parte de la filosofía naturalista de Freinet serán sus posiciones naturistas, afianzadas y perfiladas, a partir de 1935, durante la experiencia en la escuela Freinet 74 de Vence. El maestro galo asumió, por otra parte, esta orientación de su práctica pedagógica y vital por una necesidad derivada de su débil estado de salud. La guerra de 1914, como ya hemos comentado, dejó en sus pulmones secuelas que en un principio fueron consideradas casi irreparables, y el maestro, enfermo pero a la vez decidido a superar la enfermedad, hubo de hacer frente a su lastimosa situación. Recurrió a una serie de prácticas ecológicas que lo situaron, en su opinión, en la senda correcta. Inspirado por la experiencia del terapeuta griego Vrocho, seguidor de Khune y de Gandhi, inició “ (...) una eficaz síntesis de prácticas naturistas que devolvían a los organismos energía, equilibrio y armonía: agua, sol, aire puro, movimiento, frutas, éstos eran los medios seguros” (FREINET, Elise, 1975, p. 49). Incluso el propio Férrière se inició en las prácticas puestas a punto por Vrocho, describiendo en 1933 su experiencia en un libro titulado Cultiver l’énergie, que Freinet editó y prologó. En este prólogo, el maestro francés establece un paralelismo entre las técnicas de Vrocho y las suyas: Vrocho practica como nosotros lo hacemos en pedagogía. A través de una técnica apropiada, que aunque no ha inventado completamente, ha sabido armonizar y adaptar, ‘limpia’ el organismo de la misma forma que nosotros ‘desobstruirnos’ las cabezas; desintoxica el cuerpo de manera parecida a como nosotros querríamos eliminar todos los obstáculos que se oponen peligrosamente al desarrollo de nuestros niños (FREINET, en FREINET, Elise, 1975, p. 50). Esta comparación no es sólo una imagen. Freinet postula de forma decidida la correspondencia y reciprocidad entre los fenómenos físicos y afectivos, pues el individuo es un todo indisociable. “Esta estrecha interdependencia — escribe Elise — de los diferentes órganos o aparatos, que condiciona la unidad y la integridad del cuerpo, nos permite establecer los dos principios siguientes: “1) no hay enfermedad local; no hay más que enfermedades generales (unidad orgánica); 2) toda causa que supera las posibilidades de cualquiera de nuestros órganos es factor de desequilibrio y, por tanto, de enfermedad (integridad orgánica)” (FREINET, Elise, 1962, p. 119). Para apoyar sus afirmaciones se remite a la medicina hipocrática, de tanta influencia en la medicina moderna, y a la terapéutica china, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 José González Monteagudo restablecedora de la unidad orgánica mediante correlaciones y correspondencias fisiológicas. Freinet plantea una doble perspectiva en el tema del naturismo: por un lado, es un preventivo de diferentes perturbaciones; por otro, una terapia de las mismas. Esta doble perspectiva es resumida por Freinet al comentar que la naturaleza es, a la vez, creadora y reparadora. ¿En qué consiste, de forma práctica, este plan naturista cuyas virtudes no deja Freinet de parangonar repetidamente? La propuesta se basa en una higiene natural y en una dietética. Junto a una alimentación muy cuidada, la higiene corporal se completaría con agua, sol y aire, todo ello unido a la práctica frecuente del ejercicio (PIATON, 1975, p. 165-166). Las deficiencias fisiológicas y psíquicas de los niños son atribuidas por Freinet a los errores iniciales de alimentación, higiene y ambiente familiar y escolar; estas deficiencias precisan de una terapia específica, compuesta de una curiosa mezcla de prácticas naturistas y pedagógicas, que Elise llama una “(...) forma natural de psicoanálisis” (FREINET, Elise, 1975, p. 289). La propia Elise ha realizado una descripción exhaustiva de la terapéutica natural empleada en la escuela Freinet de Vence, en su libro sobre la salud infantil. Tratando el tema de la higiene del niño de dos a catorce años, enumera los elementos constitutivos de esta terapéutica natural. El primero de ellos, la hidroterapia, consiste en exposiciones periódicas del cuerpo al agua fría, sea en piscina, bañera o ducha. El “choque de agua fría” se completa con fricciones sobre el cuerpo y sesiones de sudación. Según Elise, el choque de agua fría es un medio ideal de descongestión y de normalización de las funciones vitales, y para demostrar esta afirmación acude con frecuencia a datos y opiniones facilitados por diferentes especialistas de la biología y la medicina. Aconseja, además, sesiones alternas de agua fría y caliente y una sesión de sudación semanal, que facilita un buen estado de salud (FREINET, Elise, 1962, p. 162-166). La helioterapia es el segundo elemento del tratamiento natural. “Nuestra existencia — escribe Elise — sólo es posible gracias a las formas solares, que presidieron la formación misma del planeta Tierra (...) cada vez más el sol se afirma como una garantía de salud y de energía capaz de disminuir las nefastas influencias de la vida urbana” (FREINET, Elise, 1962, p. 109). Aconseja el baño total de luz solar sin interposiciones de ningún tipo y, si ello es posible, en desnudez total. La exposición debería ser progresiva y, en la misma, el sujeto deberá moverse o realizar ejercicios para exponer todo su cuerpo al sol; la sesión terminará con una ducha fría. El tercer elemento se refiere a los ejercicios físicos, que tienen como fin satisfacer las necesidades funcionales del individuo. Por ejercicios físicos entiende Elise trabajos interesantes para los niños (por ejemplo: búsqueda y recolección de raíces y frutos, caza y pesca, cultivo de la tierra, ganadería, trabajos domésticos y construcción de refugios). A falta de estos trabajos, serían recomendables, por este orden: los juegos, sobre todo los tradicionales, las salidas y paseos y, en último lugar, los ejercicios gimnásticos y los deportes. Como nota final recomienda a los jóvenes que practican ejercicios físicos, la prohibición absoluta de la carne, del alcohol y de los diferentes excitantes (FREINET, Elise, 1962, p. 111-113). La importancia educativa del conjunto de las concepciones naturalistas de Freinet es indiscutible. Como apunta Elise, “(...) la primera obligación del educador consiste en enseñar a vivir orgánicamente, para que se dé la base mas sólida e imprescindible para la edificación de la personalidad” (FREINET, Elise, 1977, p. 242). Si la vida es, para utilizar la imagen de Freinet, un torrente, entonces el papel de la educación, limitado, pero a veces repleto de posibilidades, es “(...) ayudar a la vida a realizarse, al torrente a proseguir su destino con máxima capacidad de poder” (FREINET, 1969, p. 46). Lo contrario, detener el torrente, poner diques, refrenar el ritmo dinámico del desarrollo, supone una inconsciencia que, a pesar de lo grave que resulta, no deja de estar generalizada. Desde estas reflexiones llegamos a la cuestión de la educación y el medio. Según la pedagogía de Freinet, el medio — en su doble consideración de marco social y natural — y el individuo forman un complejo proceso interactivo indisociable. Elise lo explica así: Había en ese medio vital leyes ineluctables que intentábamos penetrar para insertarnos en esta cadena, que liga sin fin el mineral al vegetal, el vegetal al animal y al hombre. Nuestra unión profunda con el medio Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 75 Naturaleza, ruralidad y educación en célestin freinet nos situaba, de esta forma, en la búsqueda de una ecología que, en aquella época, todavía desconocía su nombre (FREINET, Elise, 1975, p. 51). A partir de la experiencia de la escuela de Vence, Freinet comprendió la magnitud indudable de “(...) ‘la educación de la salud en una educación de la totalidad del ser’ ( ...)”. La síntesis realizada de ‘(...) prácticas ecologistas y de (...) comportamientos naturistas (...)’ condujo inevitablemente a la consideración de la salud como ‘(...) un bien natural, del cual respondía cada individuo” (FREINET, Elise, 1975, p. 26, 49 y 54) de forma personal y responsable. Esta educación, que podemos calificar ciertamente de ecológica, reclama para sí un puesto eminente de vanguardia entre los precedentes de la preocupación actual hacia nuestra sociedad, amenazada por el progreso industrial y por el desarrollismo sin límites: “Estamos en la encrucijada de los caminos: o aceptar la degradación acelerada de la naturaleza y de los seres, o intentar por todos los medios reencontrar una ciencia del vivir” (FREINET, Elise, 1975, p. 7), este es el auténtico dilema que enfrentamos. (…) una concepción ecológica, pues, que desde un punto de vista educativo está caracterizada por tres componentes, todos ellos interdependientes e igualmente indispensables: un ser activo, animado por una voluntad inextinguible de vivir, crecer y ascender; un medio ambiente, natural y social a un mismo tiempo y, en fin, una función educadora, que tiene el papel de intervenir de forma comprensiva e inteligente para favorecer la relación entre el individuo y su medio (FREINET, 1971, p. 105). En resumen, y para expresarlo en términos escolares, el niño, conquistando su medio con la ayuda del educador. 3. L’éducation du travail: naturaleza, crítica social y utopía educativa En este epígrafe comento el enfoque y contenidos del libro más ambicioso de Freinet, que expone un ideal naturalista y utópico, enfrentado a las visiones tecnocráticas de la sociedad en el período inmediatamente posterior a la Segunda Guerra Mundial. Freinet concibió L’éducation du travail (en lo sucesivo, EDT) en los campos de 76 concentración de la Francia de Vichy, mientras promovía iniciativas de educación popular y de alfabetización con los demás presos, en un contexto profundamente dramático y difícil. Tras ser liberado, redactó este libro (publicado en 1946, cuando Freinet llegaba a los 50 años) y otros dos más (Essai de psychologie sensible y L’école moderne française). Se trata de tres obras de madurez, en las que acomete una triple tarea: una exposición de su filosofía social y educativa, en su libro sobre el trabajo; una presentación de sus concepciones psicológicas, en el Essai; y una propuesta de renovación pedagógica y metodológica, en la última de estas tres obras. EDT es, al mismo tiempo, una parábola y un manifiesto, un tratado de filosofía popular y un programa de renovación escolar, una novela sobre la vida natural y un ensayo pedagógico. Es, sobre todo, un encendido elogio de la vida sencilla, natural y lenta del mundo rural y de la aldea. Recordemos que los padres de Freinet eran agricultores, pastores y tejedores, y que su infancia se desarrolló en las montañas de la alta Provenza. Freinet recogió en EDT la forma dialogada, de igual modo como Pestalozzi lo hizo en Leonardo y Gertrudis. En ambos casos, la teoría de los autores se transmite de forma casi imperceptible a través de los diálogos de los personajes, que profundizan en la argumentación a medida que avanza la novela. La influencia de Pestalozzi sobre la forma y el contenido de la escritura freinetiana es evidente. El recurso el diálogo, la referencia a la reforma popular de la educación, la apelación a la naturaleza e incluso los recursos estilísticos empleados — como la referencia a los manantiales de agua que corren y a la necesidad de abrir canales, aplicada en diferentes contextos pedagógicos y sociales- son rasgos de Pestalozzi que encontramos en el pedagogo galo. El diálogo es el eje articulador de EDT. Mathieu, un pastor y campesino, discute con un matrimonio de maestros, el señor y la señora Long, que representan la escuela tradicional, aunque se muestran receptivos ante Mathieu y progresivamente comienzan a valorar sus reflexiones filosóficas, morales, científicas, médicas y, sobre todo, educativas. A través de un lenguaje clásico, romántico e incluso manierista, Mathieu — un personaje profundo, sabio, silencioso, reflexivo, paciente, positivo y Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 José González Monteagudo acogedor — va desplegando sus pensamientos, para ir llegando progresivamente al ideal de una educación del trabajo, entendido — al igual que el juego — como una función natural de la especie humana, tendente a satisfacer las necesidades vitales surgidas de la lucha por la existencia, particularmente las de carácter social. El trabajo es entendido como razón y necesidad de la vida personal y colectiva. En la EDT, la paz, la calma, la sencillez y la sabiduría de la aldea funcionan como rasgos antitéticos de la vida urbana, el progreso, la técnica y la ciencia, que son condenados globalmente. Frente a la civilización, los descubrimientos y el progreso de las ciencias; frente a la decadencia moral, técnica y educativa de la modernidad, Freinet levanta la bandera de la vida natural y simple, del sentido común popular, de la vida campesina y de los curanderos aldeanos. Mathieu critica repetidamente a médicos y pedagogos, en los cuales simboliza el fracaso de la cultura moderna. La escritura de este ensayo novelado o de esta novela reflexiva funciona bajo un formato de tesis y antítesis, y esto creo que constituye uno de sus puntos más débiles. De un lado, la luz y el conocimiento, la sabiduría de los campesinos y pastores, el arsenal de soluciones naturales para todos los males de la primera mitad del siglo XX, con sus guerras mundiales, pérdida de la tradición, crisis económicas y auge del fascismo. De otro lado, en un esquema dicotómico tal vez demasiado elemental, el progreso y la civilización, la medicina que no cura de verdad, la pedagogía que no acierta a influir en la vida auténtica de la gente, el saber verbalista, teórico y aislado de la práctica. Freinet coincide con Rousseau en la reivindicación de la sencillez perdida, la defensa del campo frente a la ciudad, la invocación de la naturaleza como maestra, la crítica de la manía magistral y pedantesca de educar a los niños, y la concepción de la educación como hábito (GONZÁLEZ MONTEAGUDO, 1988a, p. 242, nota 5). En la introducción a EDT, Freinet expone el punto de partida de sus reflexiones: En los momentos más penosos de mi vida no voy a buscar la serenidad y la esperanza en los filósofos cuya lectura se me impuso. Voy a mis fuentes. La fuente clara y fresca que corre a la entrada de la aldea (…) Y esas otras fuentes claras que fueron — o que siguen siendo — los sabios que en la aldea han sabido dominar la vida y mostrar las únicas sendas: mi madre (…), Mathieu (…), con su lento ritmo de campesino (…), descubriendo las sendas sencillas (…) He participado en el progreso, pero siempre me he encontrado con no sé qué nostalgia de la sencillez abandonada, del buen sentido, de la claridad radiosa de las fuentes (…) He sondeado la vanidad de una cultura que la escuela y el progreso han sobrepuesto a mi naturaleza; he medido la impotencia manifiesta de los iniciados que han sustituido la vida compleja y poderosa con una falsa filosofía de signos, palabras y sistemas (FREINET, 1971, p. 12). Para acompañar al ser viviente en su desarrollo, Freinet postula una ciencia intuitiva, humilde y natural, apelando al corazón y a lo humano, no a las palabras y a las teorías. Los registros textuales coherentes con este naturalismo romántico y redentorista tienen relación con las descripciones de la naturaleza y de los procesos naturales (el sol, los cursos de agua, las plantas, los ríos, los cultivos, las tareas y actividades agrícolas), con frecuentes recursos a las comparaciones, metáforas, analogías, parábolas y ejemplos. En este contexto, la crítica de la ciencia, el progreso técnico, la medicina, la agricultura, la alimentación, la cultura y la educación se revela, paradójicamente, como un camino para redefinir la tradición y para proyectar el futuro. L’éducation du travail, en mi opinión el libro más personal y original de Freinet, nos muestra una compleja combinación de esas tres miradas sobre lo educativo características del siglo XX: la nostalgia hacia el mundo natural y auténtico, representada en la reivindicación del paraíso campesino y aldeano que se va perdiendo con el progreso; la esperanza hacia los ideales y las utopías de una sociedad y una educación más humanas, materializadas en el socialismo humanista y liberador; y finalmente la perplejidad en relación con un mundo cambiante, incierto y sujeto a profundas mutaciones en todos los órdenes. Para desarrollar esta triple mirada, Freinet emplea recursos retóricos y expresivos diferentes de otros pedagogos que han reflexionado o relatado la experiencia pedagógica, buscando una voz personal a través de la cual provocar a los lectores para ponerse en marcha, en la perspectiva de una reforma social y pedagógica tan necesaria como incierta. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 77 Naturaleza, ruralidad y educación en célestin freinet REFERENCIAS FREINET, Célestin. El texto libre. Barcelona: Laia, 1978. ______. Ensayo de psicología sensitiva. Reeducación de las técnicas de vida sustitutivas, vol. II. Madrid: Villalar, 1977. ______. La educación por el trabajo. México: F.C.E, 1971. ______. La psicología sensitiva y la educación. Buenos Aires: Troquel, 1969. ______. Por una escuela del pueblo. Barcelona: Fontanella, 1976. ______. Técnicas Freinet de la Escuela Moderna. México: Siglo XXI, 1973. FREINET, Elise. La santé de l’enfant. Paris: La Table Ronde, 1962. ______. La trayectoria de Célestin Freinet. Barcelona: Gedisa, 1978. ______. L’école Freinet, reserve d’enfants. Paris: Maspero, 1975. ______. Nacimiento de una pedagogía popular. Barcelona: Laia, 1977. GERVILLIERS, D. et al. Las correspondencias escolares. Barcelona: Laia, 1977. GONZÁLEZ MONTEAGUDO, José. 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Recebido: 01.05.2011 Aprovado: 15.08.2011 78 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 69-78, jul./dez. 2011 Ana Padawer CON EL INVERNADERO APRENDIMOS TODOS… APRENDIMOS TODO: Conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales Ana Padawer * Resumo En este artículo utilizaré el concepto de participación periférica legítima (Lave y Wanger, 2007) para identificar procesos de aprendizaje situado protagonizados por jóvenes rurales que se han incorporado al trabajo familiar. El conocimiento acerca del mundo natural se logra a través de la participación en comunidades de práctica (Wenger, 2001), y por esto último, involucra asimismo aprendizajes sobre el mundo social. El artículo se basa en una investigación de campo antropológica que inicié en 2008 en una zona del Departamento de San Ignacio (provincia de Misiones, noreste de Argentina), localizada en las proximidades de la cabecera departamental. A través del relato de la experiencia de un joven, obtenido a través de observaciones y entrevistas con él, su madre y una de sus hermanas, y que fue elaborado asimismo a partir de la relación con otros testimonios de funcionarios públicos locales, docentes, niños, jóvenes y adultos de la zona, pretendo mostrar cómo algunos jóvenes aprenden, pero también proyectan un futuro en términos educacionales y ocupacionales, a partir de su escolaridad y del involucramiento en actividades productivas familiares. Palavras-chave: Conocimiento. Prácticas Sociales. Escuela Rural. Juventud Aprendizaje. Abstract WITH THE GREENHOUSE WE ALL HAVE LEARNED… We learn everything. Rural youth´s knowledge and social practices In this article I will use the concept of legitimate peripheral participation (Lave y Wanger, 2007) in order to identify situated learning processes which are conducted by rural young people incorporated to family work. Knowledge about natural world is achieved by participating in communities of practices (Wenger, 2003), and by that involves learning about social life. The article is based on an anthropological fieldwork research started in 2008 in a zone of San Ignacio Department (Misiones province, northeast of Argentine), located near of the city head. By a narrative of a young boy´s experience, obtained by observations, and interviews with him, his mother and one of his sisters; and that was also made in relation with other testimonies of public administrators, teachers, children, young people and adults of the same zone, I demonstrate how some youth learn, but also project a future in educational and occupational terms, from their school experience and participation in family´s productive activities. Keywords: Knowledge. Social Practices. Rural Education. Youth. Learning. Doctora en Antropología. Investigadora Adjunta del CONICET – Instituto de Ciencias Antropológicas. Facultad de Filosofía y Letras. Universidad de Buenos Aires. Endereço para contato: Puan 430. Of. 403. Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Argentina. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 79 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales Presentación Las regulaciones internacionales, principalmente de la Organización Internacional del Trabajo y las Naciones Unidas, promueven la protección de los derechos de la infancia y la juventud, condenando el trabajo infantil y regulando el empleo juvenil1. No obstante estos avances normativos, el debate entre posturas abolicionistas y regulacionistas indica que aún persisten dificultades conceptuales y metodológicas en torno al tema (Nieuwenhuys, 1996; Woodhead, 2004; Rende Taylor, 2005). Sin pretender abordar estas discusiones aquí, y desde la etnografía educativa, entiendo que las posiciones regulacionistas son un punto de partida fructífero para considerar las situaciones en que los niños y jóvenes campesinos realizan actividades productivas en el contexto familiar, entendidas como parte de procesos de producción social de conocimiento. En este artículo utilizaré el concepto de participación periférica legítima (Lave y Wanger, 2007) para identificar procesos de aprendizaje situado protagonizados por jóvenes rurales que se han incorporado al trabajo familiar. El conocimiento acerca del mundo natural se logra a través de la participación en comunidades de práctica (Wenger, 2001), y por esto último, involucra asimismo aprendizajes sobre el mundo social. El género, la clase, la etnicidad, el orden de nacimiento en el grupo doméstico influyen en las actividades cotidianas de los jóvenes, y en consecuencia en lo que ellos pueden aprender. En este artículo desarrollaré especialmente como esas condiciones estructurales cambian históricamente en mi contexto de estudio, donde en las últimas décadas la concentración de la propiedad de la tierra se incrementó en razón de la explotación forestal. Esta situación agrava las condiciones de vida precarias de las familias campesinas y reduce las actividades productivas, y por ende los espacios de producción de conocimientos. A través del relato de la experiencia de un joven, obtenido a través de observaciones y entrevistas con él, su madre y una de sus hermanas, y que fue elaborado asimismo a partir de la relación Para una síntesis de las normativas que en Argentina establecen la protección integral de niños y adolescentes en relación al trabajo ver Padawer (2010). 1 80 con otros testimonios de funcionarios públicos locales, docentes, niños, jóvenes y adultos de la zona, pretendo mostrar cómo algunos jóvenes aprenden, pero también proyectan un futuro en términos educacionales y ocupacionales, a partir de su escolaridad y del involucramiento en actividades productivas familiares. Este artículo se basa en una investigación de campo antropológica que inicié en 2008 en una zona del Departamento de San Ignacio (provincia de Misiones, noreste de Argentina), localizada en las proximidades de la cabecera departamental. La misma fue seleccionada por contar con algunas escuelas rurales de población étnicamente heterogénea, como parte de la reflexión de un equipo de investigación que aborda la relación entre procesos educativos y de identificación étnica en distintos contextos y provincias de la Argentina (Novaro y otros, 2011). La matrícula de estas escuelas está conformada por alumnos de comunidades mbyá-guaranies y de pobladores colonos. En Argentina, la mayoría de las comunidades indígenas mbyà se encuentran en la provincia de Misiones, y cuentan con escuelas en sus propias aldeas; algunas de ellas no tienen acceso a la escuela, y en un pequeño número de comunidades los niños mbyà comparten su escolarización con niños no indígenas. La población que se autodefine como colona, por su parte, suele enviar a los niños a la escuela primaria más próxima a su predio, debiendo trasladarse para estudios secundarios a establecimientos urbanos. En muy pocos casos la oferta educativa de nivel medio se vincula a una formación agraria específica, se trata más bien de bachilleratos que suponen una formación general de preparación para la universidad, que en estos casos casi nunca es posible. El interés en estas escuelas, que administrativamente se califican como interculturales y bilingües, radica en que en contextos rurales de numerosas provincias, este término remite a establecimientos cuya matrícula es exclusivamente indígena. No es posible desarrollar aquí los procesos que conducen a esta situación; pero es necesario advertir que para mi trabajo, resulta relevante indagar los procesos de identificación acaecidos en escuelas donde esto no sucede, ya que la experiencia cotidiana de educación adquiere características distintivas, dadas Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer por contrastes y asimilaciones entre los niños que adscriben a una u otra identidad, dentro y fuera de la escuela donde se encuentran y relacionan entre si. Los establecimientos de la zona son típicamente rurales en su organización y dimensiones: cuentan con menos de 100 alumnos y funcionan con agrupamientos multiedad, disponiéndose de auxiliares indígenas para asistir a los ingresantes con poco dominio del castellano. El trabajo de campo se focalizó inicialmente en una de las escuelas, cuya sede cuenta con población indígena y colona de similares proporciones, y con dos aulas satélites exclusivamente indígenas. Dado que el propósito del estudio es conocer las experiencias formativas de niños y jóvenes derivadas del trabajo en los predios familiares o comunitarios, el acceso a la escuela permite ver estos conocimientos puestos en relación con la propuesta escolar. He realizado observaciones de clases de los niños entre 10 y 12 años, y el contexto escolar me ha permitido llevar adelante técnicas experimentales para abordar las actividades cotidianas de los niños a través de la solicitud de dibujos, narraciones, free listing y otras tareas propuestas a los alumnos. Si bien diseñé el acceso a las familias a través de la escuela, mi trabajo de campo se orientó a reconstruir las actividades prediales de niños, así como de jóvenes egresados de la escuela. La elección de los alumnos mayores se debe a que el trabajo de investigación inicialmente mostró que, en el marco de la escolaridad primaria, es a partir de esta edad cuando se despliegan un amplio rango de responsabilidades en el trabajo del campo. En la casi totalidad de los hogares he registrado las tareas que los alumnos tienen diariamente a cargo a través de fotografías y video, y he entrevistado a los miembros adultos a fin de reconstruir las actividades económicas del grupo doméstico. Asimismo entrevisté a los referentes mbya-guarani vinculados a la escuela, al personal docente, las autoridades locales y otras figuras relevantes en relación a las actividades productivas. En este artículo focalizaré el análisis en los jóvenes colonos, ya que como he señalado en otro artículo, aunque se ha avanzado poco en términos gubernamentales para potenciar la transmisión intergeneracional de conocimiento indígena, la normativa internacional ya contempla la dimensión educativa de las actividades productivas consideradas “tradicionales” (Padawer, 2010). Para los campesinos, cuyas condiciones de vida y conocimiento local son en ciertos aspectos similares (y se encuentran en relación), la normativa aun no ha avanzado de modo acorde. El poblamiento y las actividades productivas en San Ignacio El departamento de San Ignacio está localizado al sudoeste de Misiones, siendo ésta la provincia ubicada en el extremo NE de la Argentina, con una extensa frontera con Brasil y Paraguay. Las actividades productivas están asociadas al bioma de la selva paranaense, y su ubicación es estratégica su ubicación por la proximidad a la capital provincial (60km), en el trayecto de una ruta nacional transitada frecuentemente por el turismo que se dirige al Parque Nacional Iguazú, los transportistas de yerba mate, te y las actividades forestales extractivas. Si bien el foco de este artículo son las familias de colonos, es importante referir brevemente a las relaciones interétnicas que se verifican en este contexto, así como su profundidad temporal. Los datos históricos muestran que a comienzos del siglo XVI los guaraníes eran un grupo étnico demográfica y geográficamente extendido, con una población de más de dos millones de personas habitando porciones de los actuales territorios de Argentina, Uruguay, Brasil, y Paraguay. A partir del contacto con los europeos, la población disminuyó drásticamente, a causa de la introducción de enfermedades infecciosas, la guerra y la esclavitud (Noelli, 2004, p. 17). Los guaraníes, base cultural, lingüística y demográfica de la población indígena contemporánea de la región, incluyen cuatro parcialidades tradicionalmente designadas como Mbya, Pai-Taviterá, Avá-Chiripá y Aché-Guayaki. Se supone que los mbyà actuales son los descendientes de aquellos indígenas que lograron permanecer al margen del experimento colonial desarrollado por los jesuitas entre los siglos XVI y XVIII, a través de la constitución de pequeñas comunidades refugiadas en la selva que implicaron la construcción de una identificación social definida por la confrontación y el Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 81 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales contraste con el mundo de los extranjeros, primero blancos y luego de sus descendientes mestizos (Bartolomé, 2004). Posteriormente, el establecimiento de los mbyà en el actual territorio argentino se definió en interrelación al avance de las fronteras de poblamiento de la sociedad nacional a fines del siglo XIX y primeras décadas del siglo XX, provocando una progresiva dispersión y desgranamiento de las aldeas (Gorosito, 2006). Es en este momento cuando se asienta en territorio misionero la población identificada como colona, a través de un proceso de asentamiento poblacional organizado principalmente por el Estado, el que se realizó sobre las tierras remanentes de una venta a unas pocas decenas de grandes compradores. El proceso de colonización se extendió hasta casi la mitad del siglo XX, y como resultado de ambos procesos, se generó una estructura de la propiedad de la tierra en la que coexistían grandes latifundios y un número importante de propiedades familiares surgidas del padrón de colonización, fijado en 25 has por familia (Ricotto y Almeida, 2002). Si bien en un principio los colonos se dedicaron exclusivamente a la producción de yerba mate, incorporaron sucesivamente el tung, el tabaco y el té, producciones que se dieron simultáneamente a la explotación forestal efectuada por los grandes propietarios. De esta forma la sociedad agraria misionera no-indígena está compuesta actualmente por el ocupante o campesino-agricultor familiar con 1 a 10 has, de origen criollo o inmigrante brasilero y paraguayo; el colono-agricultor familiar con 25 a 50 has, en su mayoría de origen inmigrante europeo; el estanciero o productor ganadero, con terrenos entre 100 y 1.000 has; y el latifundista extractivista, cuya propiedad es mayor a 1.000 has. (Reboratti 1979; Jaume et al 1989; Bartolomé 2000; Baranger 2008; Otero 2008) En San Ignacio hay actualmente una alta concentración de pequeñas comunidades mbyàguaraníes. La zona de estudio incluye a 8 de las 16 aldeas identificadas en esa jurisdicción recientemente: Andresito, San Ignacio Miní, Katupyry, Kokuere’i, Pindoju (Pindoity), Ñu Porá, El Tacuaral y Ivy Poty, y en cada una de ellas la población puede oscilar entre las 20 y 100 personas (Centro de Trabalho Indigenista, 2008). Estas comunidades 82 se encuentran próximas a la ciudad cabecera (a no más de 20 km), por lo que se encuentran en un espacio rural que ha sido objeto de considerables transformaciones en relación a las actividades económicas desde hace tiempo. En el caso de los colonos, la zona de estudio fue definida asimismo por su proximidad con la ciudad cabecera. En el Departamento de San Ignacio existen 8 ciudades que son sede municipal, la mayor parte de las cuales fueron fundadas en la década del 50 en el trazado de una ruta nacional. Sin embargo, dos ciudades son anteriores: la cabecera departamental, San Ignacio, fue fundada en 1693, y Corpus, localidad próxima, en 1882 (Gobierno de Misiones, 2008). Como resultado de este proceso de poblamiento, su antigüedad y su carácter político administrativo, casi el 60% de la población del municipio de San Ignacio es urbana; este estudio está localizado las colonias más próximas a la ciudad: Aparicio Cue e Invernada. Teniendo en cuenta el patrón de asentamiento ya mencionado, los datos estadísticos recientes permiten corroborar que en las zonas rurales de San Ignacio existe una importante concentración en la explotación de la tierra: casi el 30% de la superficie productiva correspondía en 2002 a explotaciones típicas de colonos y ocupantes, más del 45% con explotaciones definidas como estancias y poco más del 25% correspondía con latifundios (Gobierno de Misiones, 2008, p. 340-341). Esta estructura está cimentada en los procesos históricos ya mencionados, pero asimismo en la situación actual han incidido cambios que se verificaron en las últimas décadas. En primer lugar, el quiebre en la estructura política institucional y en las modalidades del proceso de acumulación de la sociedad argentina inaugurado en 1976, que produjo una crisis agrícola y mayor concentración de la propiedad de la tierra, acelerándose el proceso de descampesinización (Manzanal y Rofman, 1989; Cragnolino, 2006). En segundo lugar, el reposicionamiento de los productos agrícolas en el mercado mundial en los últimos años, que ha dado lugar a modalidades de producción agroindustrial, la que afecta diferencialmente a pequeños productores y poblaciones indígenas en sus formas de acceso a los recursos, empleo y sobrevivencia (Ramos, 2006; Ne- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer iman et al. 2002; Bidaseca y Mariotti 2001; Gordillo, 1995). En Misiones, el complejo agroindustrial que se desarrolló con más fuerza en los últimos treinta años es el tabacalero, que reemplazó a la producción yerbatera en crisis desde la década del 90. En la zona de estudio, la reorganización productiva se ha orientado a la diversificación, destacándose la producción hortícola bajo cubierta, los sistemas silvopastoriles, la apicultura y piscicultura, así como varios intentos de explotación de especies vegetales nativas. Además de las dificultades de reorientar la producción, se han multiplicado los conflictos con los propietarios de bosques nativos, quienes en su momento habían facilitado el usufructo de los colonos y ocupantes pero con el desarrollo de explotaciones forestales de especies exóticas por parte de capitales concentrados, reclaman las tierras ahora altamente valorizadas (Schiavoni, 1995 y 2008; Ferrero, 2006). Conocimientos y prácticas sociales Uno de los aportes más relevantes de la antropología a los estudios educativos ha sido la distinción entre la persona educada y la persona escolarizada (Levinson y Holland, 1996). Sólo si admitimos que los sujetos sociales aprendemos en distintos contextos, a lo largo de toda nuestra vida, y que consecuentemente hay y ha habido otras maneras de aprender, es posible entender la participación de los niños y jóvenes en la producción familiar doméstica como una experiencia formativa. El foco en los procesos de aprendizaje a través de prácticas sociales deriva de una recuperación del concepto de adiestramiento (apprenticeship). Lave y Wanger señalan que las aproximaciones clásicas al concepto refieren a una serie de características: una actividad ligada a la producción artesanal, individual y en pequeños grupos; la utilización de herramientas simples y conocimiento tácito; la división del trabajo basada en la adaptación individual y la prevalencia de códigos de protección tradicionales. Por el contrario, sugieren que esta formulación refleja solo una de las formas históricas, tradiciones culturales y modos de producción que asume el adiestramiento. Por ello, este proceso de aprendizaje no es inherentemente explotador ni igualitario, sino que debe analizarse bajo qué forma de organización política y social se desarrolla en cada contexto, bajo que principios formativos se articula y se realiza (LAVE Y WANGER, 2007, p. 62-63). La noción de adiestramiento proporciona la posibilidad de atender a la relación entre conocimiento y prácticas sociales, de forma de que la noción de aprendizaje situado puede ampliarse asimismo: ya no refiere solo a sus coordenadas espacio temporales y su carácter intersubjetivo y contextual, sino que enfatiza su carácter de actividad situada. Este foco en las prácticas sociales involucradas en los procesos de conocimiento no necesariamente reduce sus alcances: el denominado conocimiento general, con el que suele contraponerse el conocimiento situado, es asociado a representaciones abstractas y descontextualización; sin embargo, desde la perspectiva de Lave y Wenger las representaciones abstractas siempre adquieren significado en un contexto, y son en sí mismas adquiridas en circunstancias específicas (2007, p.33). El involucramiento en prácticas sociales que están constituidas por procesos de aprendizaje permite a estos autores formular el concepto de participación periférica legítima, que refiere al proceso mediante el cual los novatos se vuelven parte de una comunidad de práctica, donde están implicadas las intenciones del sujeto de aprender, y el significado del aprendizaje es configurado a través del proceso de volverse un participante completo en una práctica sociocultural (Lave y Wenger, 2007, p. 40). Este concepto está vinculado al de participación guiada (Rogoff et al, 1993, p. 6), que apoyado en Vygotsky, ha permitido reformular el estudio del conocimiento infantil en distintos contextos socioculturales; desde esta perspectiva, los niños avanzan en el entendimiento en un proceso creativo mediante el cual transforman aquello que conocen y el propio mundo, al tiempo en que se vuelven progresivamente participantes de las actividades de su comunidad. El concepto de ambiente en relación al desarrollo infantil es clave para entender esta definición relacional del entorno de los niños: así como la estructura externa del ambiente inmediato de un niño puede ser constante, la forma en que diferentes niños de diferentes edades se relacionan con ese Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 83 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales ambiente difiere en forma notable. Tomando el lenguaje, por ejemplo, un bebé apenas comienza a otorgar sentido a ese mundo de habla más próximo, mientras que un niño de diez años es participante activo del discurso de la familia (Vygotsky [1935], 1994, p. 339). La experiencia personal se vincula con la estructura ambiental, donde las actividades cotidianas se realizan en el marco de diferentes relaciones entre los sujetos; el ambiente estructurado es un recurso para las experiencias de vida y significados elaborados por los niños. El proceso de generalización involucrado en la construcción de significados sobre cualquier experiencia personal específica con una estructura ambiental, prepara al niño en desarrollo para confrontaciones futuras en diferentes ambientes; por ello es la experiencia personalmente significativa la que surge en la interacción niñoambiente, las funciones psicológicas superiores emergen primero del comportamiento colectivo del niño, en la cooperación con otros, y son luego internalizadas (Van der Veer y Valsiner, 2006, p. 343-344). A diferencia de los enfoques más a-históricos que prevalecen en el uso de las nociones de transmisión e internalización, la participación periférica legítima y la participación guiada permiten entender el proceso de aprendizaje compartiendo la naturaleza conflictiva de las prácticas sociales, de manera que las relaciones entre aprendices y veteranos son parte de procesos de transformación social acaecidos a nivel cotidiano. No se trata solamente de ser capaz de involucrarse en nuevas actividades o dominar nuevos conocimientos, sino poder establecer nuevas relaciones habilitadas por ese dominio, por las cuales el sujeto participa en la producción y reproducción de las estructuras de las comunidades de práctica en las que se ve involucrado (Lave y Wenger, 2007, p. 48). Por ello, la idea de comunidades de práctica, en las que los sujetos pueden ocupar posiciones de centro y periferia, supone asimismo que estos procesos involucran relaciones de poder y hegemonía: la participación completa implica un dominio cercano del conocimiento o prácticas colectivas para los cuales debe haber grados de adquisición atribuibles-accesibles a los novatos. No obstante, el carácter periférico alude a un acceso progresivo 84 a fuentes de entendimiento a través del involucramiento creciente donde inciden la legitimidad, la organización social y el control de recursos (Lave y Wagner 2007, p. 37). En la consideración de estos procesos en términos de relaciones intergeneracionales en contextos de desigualdad social, las tareas que los niños y jóvenes realizan mediante su participación periférica en actividades para la reproducción familiar doméstica pueden constituir experiencias formativas pero, también, constituir modalidades de trabajo infantil. En este sentido, distintos autores advierten que las primeras son condición para la transmisión de un patrimonio de saberes y la construcción de sucesores en la actividad desarrollada por los adultos del grupo doméstico, y se vinculan con las expectativas de formación de las unidades familiares; las segundas implican la venta de la fuerza de trabajo y la consecuente extracción de un plusvalor por parte del adulto, situaciones de riesgo y escasas o nulas situaciones de aprendizaje de un oficio o habilidades (Leite de Sousa, 2004; Neves, 1999; Jacquemin, 2004). Simón y su familia Simón tiene actualmente 19 años, es el segundo varón de una familia de cuatro hermanos, y su hermana más pequeña asistía en 2010 a la escuela rural donde se focalizó este estudio. Sus padres migraron de la ciudad al campo hace diez años; si bien algunos de sus bisabuelos y abuelos eran de la chacra, para sus padres así como para Simón y sus hermanos los conocimientos implicados en el trabajo en el campo se constituyeron objeto de aprendizaje reciente. A partir del relato de su madre, la historia de las cuatro últimas generaciones de la familia de Simón muestra una serie de traslados entre ciudades pequeñas, migraciones interprovinciales y desplazamientos entre el campo y la ciudad en ambas direcciones, lo que permite complejizar el proceso de descampesinización anteriormente mencionado. Si bien el proceso de concentración de las explotaciones rurales y la migración consecuente a las ciudades es una tendencia general, la falta de oportunidades y las problemáticas sociales urbanas son Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer motivaciones para que familias como la de Simón intenten volver al campo que dejaron sus ancestros. Esta vuelta al campo plantea problemas relativos al conocimiento del mundo natural y social particulares, ya que se han producido discontinuidades de prácticas sociales vinculadas a la agricultura y la cría de animales entre las generaciones. La familia de Simón dispone de 50 hectáreas de su propiedad, lo que la ubica en el rango estadístico de colonos. La madre de Simón me explicó que su marido “desde siempre tenía el sueño de vivir en una chacra”; si bien en su infancia pasaban fines de semana en un predio propiedad de su suegro, ya siendo adulto y con la profesión de carpintero es cuando el padre de Simón recibe la herencia familiar de un campo en San Ignacio. Ella, ama de casa criada en la ciudad, aprendió en ese momento a ordeñar, elaborar derivados de la leche y conservas. Su marido, quien complementará de ahí en más las tareas de carpintería en la ciudad con una producción predial crecientemente diversificada, también inició un camino de aprendizaje, que para ambos continúa hasta hoy: Lo primero que hicimos fue plantar. La gente acá suele plantar maíz, mandioca, zapallo, nosotras ya plantamos además soja, maní, caña de azúcar. De entrada lo primero fue la huerta, con todo lo que se planta: lechuga, repollo, zanahoria, perejil, acelga, cebollita. (…) Ahora la huerta dejamos así, porque mi esposo desde el año pasado se dedicó a hacer invernadero. Después empezamos con ganadería, apicultura. Vacas, leche, rápido enseguida lo que primero conseguimos fue la vaca lechera. Empezamos con tres vacas pero ahora tenemos creo que 18, entramos con un plan del gobierno que nos ayudó…. Además con apicultura, que empezamos nosotros solos y después entramos en un plan del gobierno también, hicimos un curso. Al finalizar el curso a mi hijo le regalaron todo el equipo, los trajes… (…) El año pasado mi marido, con mi otro hijo que también salió de la escuela y aprendió todo lo que es vivero, entonces pedimos prestada plata para una cuñada, un cuñado… y se hizo un invernadero, por cuenta nuestra nomás. Plantamos tomate. Con el aprendizaje de mi hijo, lo que vio todo ahí en la escuela, (…) ahí empezó: “papi, vamos a hacer un invernadero”. Después cuando empezaron a hacer, yo creí que era forrar un techo con plástico nomás…. Y no! Era el abono, que había que quemarle, preparar el terreno, desinfectarle, yo que sé. (…) Se sufrió, porque había que devolver la plata, pero cuando salieron los tomates fue una maravilla. (…) Con eso se pudo comprar la moto para salir a vender, se devolvió la plata a los cuñados, todo. Con el invernadero aprendimos todos… Aprendimos todo: los remedios, algún insecticida por los bichitos, de eso se encargaba Simón, o mi esposo. Por ejemplo: atar los tomates. Yo ni idea, sabía que tenía que poner un hilo especial de nylon que se compra, fuerte. A medida que va creciendo hay que ir enrollando. Y el triple 15, un fertilizante que se le pone, y hay que saber la medida porque si pone mucho se perjudica, si pone poco no sirve de nada… Y la mosca blanca... Este año ya se compró semilla, todavía no se plantó porque a principios de año mi marido entró a un crédito del gobierno, (…) hay muchos planes para los que quieren invertir en la chacra. Claro que ellos vienen a ver, no van a dar la plata a alguien que no puede devolver. Mi esposo por ejemplo lo gestionó con el título de la chacra en garantía, y le dieron un crédito para dos invernaderos. Nosotros tenemos el problema del agua, con la sequía del año pasado que le contaba casi que nos quedamos sin agua… pero él inventó, que fue suceso para el que vino a ver de Posadas, del pueblo fueron a ver. Tenemos un arroyo a 500 metros, quedó chiquito de agua con la sequía, aunque tiene un caudal bastante grande. Entonces mi marido le cerró una parte del arroyo para que corra con más fuerza, hizo una rueda de madera, carpintero como es, y le puso. La cuestión es que tiene dos válvulas, que chupan el agua. Yo digo que parece un inflador, pasa por una manguera, compró 500 metros de manguera, y la rueda allá le fabricaron entre los tres, entre mi marido y mis hijos. La cuestión es que traían agua desde allá desde el arroyo hasta mi casa. Y le costó: fue controlando, cuanto venía en un minuto, en 15 segundos, hasta que mejoró. En 45 segundos vieron que llenaba una botella de un litro. Ellos anotan todo, mi esposo tiene un cuaderno de él donde anota, desde la primera vez que vinimos anota todo lo que hace en el día. El lleva un control de todo: es re ordenado este hombre. Hoy fecha tal, lluvia máxima, mínima, calor, sequía. El mide la lluvia, cuanto llovió cada vez…. Todas las noches antes de dormir anota lo que se hizo, lo que no, la temperatura… Todo el mundo se admira de eso. Es para llevar un control de todo, porque vos decís: será que el año pasado cuanto llovió para esta fecha? Y llevas un control y más o menos podés saber. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 85 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales Como puede verse en el testimonio anterior y los que siguen, en este proceso de aprendizaje que iniciaron al trasladarse al campo, los distintos miembros de la familia fueron incorporándose en comunidades de práctica con vecinos, entre ellos, con técnicos agropecuarios, con docentes. La referencia de la madre de Simón a la introducción de cultivos no tradicionales en la zona muestra como, siendo relativamente novato en este mundo de plantadores, su marido puede dominar la actividad agrícola con rapidez dado que cuenta con un pequeño capital y la propiedad de la tierra, los que le permiten acceder a créditos y beneficios estatales. Estas actividades que el grupo doméstico emprendió en conjunto responden al patrón tradicional de división sexual del trabajo. Por ello algunas tareas son inicialmente masculinas, cuando se vinculan con actividades productivas de valor en el mercado y una capacitación sistemática – como los cursos y posterior actividad de apicultura –; mientras otras actividades son por definición femeninas, cuando remiten a la reproducción domestica, como la huerta o la lechería de consumo familiar. No obstante estas responsabilidades prescriptas, el resto de los participantes se van incorporando a las tareas, de manera periférica en principio pero adquiriendo conocimientos que eventualmente pueden poner en uso. Así la madre de Simón ya conoce algunas enfermedades del invernadero, se ocupa ocasionalmente del procedimiento para disponer tutores en las plantas de tomates, y tiene cierta idea de la evolución de las cabezas de ganado. La capacidad de Simón para proponer e incorporar en las actividades productivas del predio familiar ciertos conocimientos adquiridos en la escuela secundaria, se complementa con una apertura de los adultos para aceptarlos, en tanto procedentes de un ámbito experto como es la escuela secundaria de orientación agraria. Es posible hipotetizar que la discontinuidad intergeneracional dada por la biografía urbana de los padres de Simón otorgue una ventaja relativa a las jóvenes generaciones, ya que de los dos progenitores, solo el padre dispone de una relativa experiencia personal en un ambiente rural. Es por ello que la madre de Simón reconoce la complejidad de habilidades y conocimientos que proporcionó la escuela agraria a su hijo a través del 86 dominio en el uso de fertilizantes y plaguicidas o incluso la construcción misma del invernadero. Simón, sus hermanos y sus padres constituyen una comunidad de práctica donde el segundo de los hijos ocupa un lugar de relevancia en función del acceso a una educación especializada, pero que depende de la incorporación de su padre a las actividades para que estas se puedan llevar adelante. El progenitor asimismo ocupa un lugar central en la estructura de esta comunidad en tanto es capaz de generar conocimiento desde sus propias prácticas: es así como su esposa refiere extensamente al proceso de elaboración de un sistema de riego, asociado al control de temperatura y precipitaciones que efectúa cotidianamente su marido desde que se instalaron en el campo como parte del registro de actividades y acontecimientos del predio. Es significativo que la madre de Simón atribuya a este dispositivo el carácter de invención, ya que si bien los molinos son uno de los primeros instrumentos tecnológicos para el trabajo agrícola en la historia humana, en la experiencia personal del padre de Simón, y en la comunidad de práctica que constituyeron a los fines de instalar un invernadero, el problema de no contar con un abastecimiento regular de agua generó la búsqueda conceptual implícita en la construcción de un mecanismo, cuya ejecución incluye métodos de verificación y monitoreo de su funcionamiento. Simón en el invernadero En la visita al predio, Simón me muestra el invernadero en el que está trabajando, donde plantaron tomates hace tres meses. Explica cómo se utilizan los tutores de las plantas en función de la altura estimada de crecimiento, y los detalles de su evolución: S: Acá está saliendo la flor, ya. De acá a dos meses justo, ya está madurando la fruta. Esta clase tiene que dar 10 coronas, aproximadamente. Cada corona da 5 a 7 frutos, así que tiene que dar más de 2 kilos por corona. Este tomate se le conoce como redondo, es la variedad coloso. Se lo riega a través de una cinta, cada 15 centímetros gotea el agua. (…) Se siembra en bandejas, speedling o bandejas multifaceta, cada bandeja tiene 128 celdillas. Se planta así porque la semilla es muy chica, se pone una en cada celda y Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer uno trasplanta con un pan de tierra. Así se asegura el crecimiento de la planta. E: y que cuidados tienen que darle? S: Ahora estoy podando. Estos son chupones, brotes, que salen en cada hoja axilar. Esto se saca porque si no crece, incluso más rápido, que el cogollo. Lo que va a causar es demasiado volumen y no da fruto, o si da es demasiado chico, no es comercial. Entonces en vez de ser un beneficio que tenga varios brotes, varios ápices, es una pérdida. (…) Se riega una vez por día, casi siempre se controla el suelo. O sea, no es que si o si se riega una cierta cantidad por día. Si uno escarba un poco y ve que está un poco seco… Ahora por ejemplo, está especial. La tierra especial uno ((se da cuenta porque)) tiene que quedar así, sin chorrear. Ahí está ideal la humedad. De ahí un poco más, si es posible, pero el problema es cuando uno aprisiona, y se queda encharcada la tierra y chorrea agua, eso es demasiada agua. Y otra, si uno presiona la tierra, por ejemplo esto de arriba, y se desarma de vuelta, ahí falta agua. Esa es la técnica simple para cualquier planta, casi. Hay plantas, si, que ocupan mucha menos agua. Las ornamentales, por ejemplo, tienen menos agua que esta clase, apenas se humedece la tierra. Pero no es una planta hortícola, casi todas las plantas hortícolas tienen que tener ese punto de humedad en la tierra. E: si no las enredas, que pasa? S: ahí hay una que está sin enredar y esa está por caer. Lo que pasa cuando cae es que al tocar el suelo es más propensa a enfermedades. El fruto que toca el suelo queda manchado o se pudre directamente. La hoja que toca el suelo húmedo se pudre. Es un problema en invierno, en verano hay una zona en La Pampa, Córdoba, Santa Fe donde se planta tomate que no se usa el tutorado. Pero ese tomate no sirve para mesa, es solo para industria, para salsa, puré de tomate. (…) Se ata de bien abajo, de las hojas más gruesas. Es una medida bastante grande. Si uno se pasa de chico, la planta se estrangula, y si es demasiado grande, sale. Cualquiera de los dos extremos… ((Después está el tema de los plásticos, que se abren o cierran)) dependiendo de la temperatura adentro. E: tenés un termómetro? S: ahora a piel, nomas. El termómetro lo tenemos afuera, ahora que todavía no hace frío. No está helando. Cuando empieza a haber flores, la temperatura de acá dentro no tiene que bajar de 8 grados, si baja eso el polen queda inerte, la planta aborta la flor, entonces no da fruto. Ese es uno de los principales problemas, y el otro es el otro extremo, pasando de 34 o 35 grados el polen queda estéril, y también aborta la flor. El punto ideal para el cuajado de fruto, que la flor polinice el fruto, el polen quede estable y no se pierda, es entre 20 y 24 grados. (…) Dependiendo de qué tan alto uno levanta la cortina, si uno deja a la mitad, adentro puede seguir estando hasta 10 grados más que afuera, si uno abre totalmente está igual que afuera. Pero siempre está más caliente en la parte superior del invernadero, no tiene como escapar el aire. En su explicación sobre el trabajo en el invernadero, Simón proporciona detalles de rendimiento, variedades utilizadas y métodos de siembra recurriendo a un lenguaje técnico y predominantemente impersonal. Sus tareas cotidianas son mencionadas esporádicamente, como cuando introduce los procedimientos de cuidado mediante la frase “ahora estoy podando”, o cuando refiere al riego: “no es que si o si se riega una cantidad por día. Si uno escarba un poco y ve que está un poco seco…Ahora por ejemplo, está especial”. Este último término condensa una serie de apreciaciones visuales y táctiles que Simón no puede traducir en palabras, que aprendió a reconocer en la escuela agraria y así puede usarlas, así como también transmitirlas a otros. Estas percepciones, no obstante, se integran en explicaciones y conceptos generales; por eso Simón extiende su afirmación: “casi todas las plantas hortícolas tienen que tener ese punto de humedad en la tierra”. En su recuperación de los conocimientos escolares en función de prácticas cotidianas, Simón también realiza traducciones entre la jerga especializada y los términos de uso cotidiano, como cuando muestra en las plantas de tomate: “estos son chupones, brotes”. Su participación es aún periférica en una comunidad de práctica donde sus profesores de la escuela agraria, los técnicos agrícolas a los que tiene acceso, y en términos amplios los productores –incluso de otras zonas del país- son fuente de certezas o reglas generales. En esa comunidad, que se puede encontrar distante en el tiempo y el espacio, Simón no solo comparte términos técnicos y jergas de la práctica, sino que aprende con el cuerpo: por eso sus manos pueden encontrar el punto justo para colocar los tutores Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 87 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales o sentir “a piel” la temperatura adecuada para la cobertura del invernadero. Además de las consideraciones anteriores, Sergio relata sobre los sistemas de calefaccionado, la duración de la estructura del invernadero y el incipiente conocimiento sobre métodos de fumigación y tratamiento de enfermedades, sobre los que debieron recurrir a un técnico del Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria. Explica que en el vivero se dedican a plantar tomates porque lo aprendió en la escuela agrotécnica, pero también porque evaluaron que es un producto fácilmente comercializable, si bien tiene actualmente el estatuto de proyecto complementario dentro de la estrategia económica de su familia, cuyos ingresos provienen de la carpintería, y en un futuro de una pequeña explotación forestal asociada: E: por que decidieron poner tomate? S: una porque yo me especialicé en tomate, al menos en la escuela secundaria, en la escuela agrotécnica. Y otra que tiene bastante salida. No es muy difícil vender, que es el principal problema casi siempre. (…)El tomate en si es un proyecto alternativo acá en la chacra, nuestra principal entrada económica es la carpintería, el segundo es el tomate. Nosotros no tenemos aserradero, forestamos un pedazo, una parte de la chacra, pero falta bastante para poder tumbar los árboles. Plantamos un poco de pino y hoveña, o palito dulce como le conocen por acá (hovenia dulcis, planta exótica originaria de Asia). Es una madera dura, casi siempre se usa para parquet, y también se hacen mesas, muebles, placares. Es como el algarrobo. Ya 10 años hace que plantamos, pero faltan 10 años más para tumbar. El pino también hay que esperar, se saca raleado a los 10 años. El raleo es solo para pasta. Se va a vender a Papel Misionero, que es lo que queda más cerca, en Puerto Piray. Eso es todo para hacer pasta celulosa. El resto, para que sea aserrable, hay que esperar otros 10 años más. (…) Con pino de 18 años se puede estar vendiendo madera. Y si uno espera 50 años puede laminar y hace terciado, sale más caro. Nosotros plantamos un cuarto de hectárea con pino, porque a mi papá no le gusta el pino para trabajar, a mí tampoco. Es bastante fea la madera, empasta todas las maquinas. Para aserrar no hay problema, los aserraderos ya tienen maquinas especiales para el pino. Pero nosotros en la carpintería trabajamos con madera dura, nos empasta la maquina una 88 madera exageradamente blanda como el pino. En cambio de hoveña hay 2 o 3 hectáreas. En su reflexión acerca de la producción de madera, Simón también recurre a la alternancia entre los términos técnicos y de uso práctico: “Plantamos un poco de pino y hoveña, o palito dulce como le conocen por acá”. En este caso, la referencia a la comunidad de práctica es sensiblemente distinta: su padre y él, en tanto carpinteros, comparten una ponderación diferencial de ambas especies en función de su uso en el taller, mientras que el tono impersonal alude a una práctica futura de la cual tiene conocimiento solo de oídas, aun, y que incluye a otros actores, en este caso a una escala industrial. La escuela agrícola y los proyectos de futuro Simón cursó los tres primeros años de la escolaridad secundaria en una escuela de gestión privada y confesional de bajo costo, pero su familia no pudo afrontar los gastos por lo que este joven pasó a cursar los dos últimos años en una escuela pública agrotécnica a la que accedió becado. No obstante su interés por las actividades agrarias y que ambos establecimientos eran de la misma especialidad, Simón no logró obtener el certificado de estudios secundarios porque el plan de estudios era diferente, y en 2010 debía tres exámenes. En su relato retrospectivo, el joven reconoce que la escuela agrotécnica le proporcionó conocimientos que se anclaron en lo que ya había aprendido en la chacra, y proyecta realizar sus estudios superiores en la misma línea. Es en esta continuidad de actividades productivas que establece dos contrastes interesantes: el primero respecto de su vida improductiva urbana -donde se presenta a sí mismo frente a la televisión-, y su llegada al campo -donde esos entretenimientos no estaban disponibles pero también, donde el grupo doméstico necesitaba de su colaboración-. Una segunda oposición, más reciente, lo enfrenta con algunos de sus compañeros de estudios secundarios distinguiendo a quienes, resignados, consideran que el estudio excede sus necesidades como futuros obreros rurales y a la vez de quienes, ambiciosos, piensan el trabajo en el campo como sinónimo de atraso: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer S: antes salía de la escuela y me sentaba a mirar televisión, en Iguazú. Cuando se vino para acá… ahí hay que hacer algo, una que no teníamos televisión, no había luz. Y otra que ya éramos bastante grandes, así que bien podíamos ayudar. Yo tenía 9 años, pero ahí a esa edad no hacía casi nada. A los 12 empecé a trabajar más o menos. Yo siempre ayudé a papá en la carpintería. Hicimos la casa, después se criaba animales, se carpía. De lo que sea de chacra fui aprendiendo todo… empezamos a plantar, aprendí lo que es una azada, aprendí lo que es una plantadora. (…) Y después lo que sea desmalezamiento: carpida, macheteada. E: como ibas aprendiendo? S: Mi papá primero dice que hay que hacer, uno empieza a hacer y él mira si estamos haciendo bien… y ahí recién se va. Se aprende de a poco. Pero yo creo que el tema de aprendizaje está en cada persona. Yo conozco muchos que trabajan en la chacra, algunos estudian, otros no… eso está en cada persona. Es difícil influenciar, en una familia, que un chico trabaje y estudie al mismo tiempo. Mire que yo traté… hablaba con mis compañeros y todo eso: los que no querían estudiar, directamente decían “que voy a estudiar acá si voy a salir carpiendo!” esa era la mentalidad que tenían… O sea, estudiar tanto, romperse la cabeza, para terminar siendo peón de… trabajador rural. Esa era una de las tantas mentalidades que siempre van para abajo. Y otros que sí estudian, pero no quieren saber nada de la chacra. Es el otro que perjudica; no saben valorar el trabajo en sí. Quieren vagar, el boliche, para ellos es diversión tomar alcohol, hasta que no estén panza arriba tirados en la calle no es joda. Hay muy pocas personas que quieren seguir adelante, ser alguien en la vida al menos. A mí me costó, quiero seguir estudiando… no sé cómo voy a hacer, pero voy a seguir estudiando. Ingeniero Agrónomo, Técnico Superior Forestal, lo que sea de chacra. En el primer contraste es significativo el matiz que establece Simón respecto de las actividades productivas en relación a las edades: si bien la infancia en el ambiente rural le impuso obligaciones, estas fueron progresivas y se incrementaron en coincidencia con la finalización de la escuela primaria; en este punto conviene recordar las posiciones regulacionistas en torno al trabajo infantil, que permiten ponderar el trabajo predial y distinguirlo del empleo asalariado encubierto. Asimismo el testimonio de Simón refleja el proceso de adiestramiento de manera general, ya que el padre es retratado observando las actividades de sus hijos para que estos se autonomicen gradualmente. Por otra parte, el segundo contraste que establece Simón respecto de sus compañeros de estudios en la escuela agrotécnica es fructífero para reflexionar sobre los procesos de estratificación social y las promesas de la escuela rural desde la perspectiva de los jóvenes. Para algunos, el conocimiento escolar no tiene valor porque sus proyecciones de futuro no necesitan de certificaciones y están alejadas de aquello que se estudia en la secundaria: se imaginan en empleos manuales de baja calificación en el campo como sus padres. Para otros, es el trabajo predial el que no tiene valor: sus proyectos de futuro se vinculan con el conocimiento del mundo urbano – y con sus actividades sociales vinculadas al ocio –. El hecho de que Simón se distancie de unos y otros implica, desde mi punto de vista, que los sujetos pueden desafiar el destino que la posición estructural le permite anticipar. En su persistencia para continuar su educación formal en el Nivel Superior, Simón reconoce la importancia del estudio, pero también de la transmisión desde la práctica, sea esta en el contexto escolar como en el predio familiar. Esas actividades son el marco donde puede transmitir a su padre y a alumnos de menor edad los conocimientos adquiridos: Este es el tercer año que no estudio. Pero uno sigue leyendo, sigue estudiando por más que no vaya al colegio. Hay que seguir leyendo, seguir aprendiendo… Lo que sean enfermedades del tomate casi de memoria las conozco. Le puedo nombrar todos los químicos que yo pongo, todas las enfermedades por las que ya pasé… Yo fui quien le dije a papá, él quería hacer invernadero pero no tenía ni noción de como se hace el tomate. Y uno en la escuela aprende las medidas, el plástico que se usa, todo lo que sean la medida entre plantas, las fechas. Al estudiar lo que sea plantación, uno primero que todo tiene que ver el terreno, la orientación del sol, si hay agua, si no hay agua. Si el terreno no tiene desnivel, no tiene pendiente. Todas esas son cosas fundamentales, que uno solo no las aprende. Si o si necesita de alguien que sepa o… Incluso un libro no va a explicar tanto como lo que es hacer, y en la escuela agrotécnica uno hacía. A mí me dieron el invernadero de allá para que yo lo atienda. ((Lo hacía)) casi solo, porque me daban un grupo de gurisada, pero cuando Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 89 Con el invernadero aprendimos todos… aprendimos todo conocimientos y prácticas sociales de jóvenes rurales yo me agachaba a sacar un brote, me levantaba y había menos. Y cuando me daba cuenta había uno o dos chicos... (…) No estaba yo solo, estaban los instructores. Los chicos eran de cursos inferiores, había algunos que estaban ahí porque la mamá les manda, les dejan presos, digamos… y están los que verdaderamente quieren aprender. Te preguntan qué hacer, como ayudo. Esos son los que vale la pena destacar. Y están los que están esperando que vos mires para otro lado para mandar pata. Pero no estaba solo, estaba el supervisor mirando. Tal como anticipa el concepto de aprendizaje situado, Simón ve crecer su conocimiento sobre enfermedades y productos químicos a través de lo que lee y de sus experiencias cotidianas. Con su testimonio es posible complejizar la idea del sentido común de que la escuela transmite un conocimiento teórico mientras en el campo se adquiere un conocimiento práctico: lo que Simón aprende es relevante porque él atiende el invernadero y transmite a otros, trabajando, en la escuela. Pero ese conocimiento crece cuando Simón usa, con su padre, esos aprendizajes en el predio familiar. Conclusiones La normativa internacional relativa al trabajo infantil y juvenil ha constituido un avance innegable en la defensa de los derechos de las jóvenes generaciones. No obstante, las posiciones regulacionistas ya hace más de diez años advierten sobre la necesidad de contemplar los aprendizajes que, enmarcados en actividades cotidianas vinculadas a la reproducción de los grupos domésticos, son soslayados es pos de la protección de niños y adolescentes. Una de los argumentos más consistentes para las posiciones abolicionistas consiste en atribuir al trabajo de niños y jóvenes la causa del fracaso, el abandono y las discontinuidades en la escolarización. No se trata de ignorar que en muchos casos se trata, efectivamente, de situaciones de empleo precario donde los niños son sometidos a actividades agotadoras que no involucran aprendizajes significativos. No obstante, en este artículo he pretendido demostrar que, en ciertos casos donde el trabajo a cargo de los niños y jóvenes es progresivo, asociado a la producción predial diversificada, en condiciones 90 de vida relativamente estables y articulado a una educación orientada a las actividades agrarias, el trabajo predial no solo no obstaculiza la escolarización sino que la amplifica en sus alcances. El trabajo agrícola le ha permitido al joven cuya experiencia ha sido analizada, profundizar procesos de conocimiento originados en el contexto escolar. Asimismo le ha permitido constituir comunidades de práctica diversas vinculadas con las diferentes actividades productivas, donde los adultos y otros jóvenes son participantes con distinto grado de responsabilidad, habilidades y dominio de conocimientos conceptuales. El adiestramiento, entendido como un aprendizaje desde la actividad, incluye contextos escolares y no escolares: el joven hace en la escuela agraria, hace en el predio familiar, y mientras hace los alumnos menores a él, pero también sus padres, aprenden de su hacer. Simón domina un conocimiento técnico relativo a ciertas actividades agrícolas, que incrementa aun habiendo finalizado los estudios formales. Establece lazos entre ese conocimiento experto y la jerga constitutiva de las prácticas sociales: traduce términos y procesos, aprendizajes corporales y percepciones sensoriales en términos que no pueden comprenderse sino es en relación al contexto de prácticas en que se producen, pero que no por ello son menos abstractos. Sus intenciones de aprender lo muestran como un sujeto activo, en permanente reflexión, y no un estudiante que ha fracasado en términos de no haber logrado la certificación de Nivel Medio. No obstante, su situación dista de ser idílica: tanto Simón como su familia tienen limitadas posibilidades de incrementar y mejorar su producción predial, y con ello sus condiciones de vida y conocimiento del mundo social y natural. Su situación como colonos es relativamente acomodada si se la compara con familias de ocupantes y las comunidades indígenas cuya situación en términos de condiciones de vida y posibilidades de transmisión intergeneracional de conocimiento cultural es grave. Pero por otra parte, y como he mostrado al comienzo del trabajo, el proceso de concentración de la propiedad de la tierra acaecido en las últimas décadas no parece augurar un crecimiento de estos pobladores definidos como colonos sino, por el contrario, un incremento de su migración a las ciudades. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Ana Padawer Referencias BARANGER, DENIS. 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Recebido em 27.04.2011 Aprovado em 09.08.2011 92 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 79-92, jul./dez. 2011 Teresa González Pérez UNAS MAESTRAS QUE DEJARON HUELLA: RASTREANDO EN LA MEMORIA DE LAS MAESTRAS RURALES Teresa González Pérez * RESUMEN La educación en España durante el siglo XX ha experimentado un notable avance, aunque con diferencias importantes según los espacios geográficos. La realidad escolar ha marchado al ritmo de los acontecimientos sociopolíticos, tanto en las escuelas urbanas como en las escuelas rurales. Desde las esferas oficiales las escuelas rurales no gozaron de atención especial ni tampoco contaron con un modelo de formación inicial para maestras rurales. Nuestro objetivo es dar a conocer la experiencia de las maestras rurales en Canarias (España) recurriendo a su relato autobiográfico. En su narración nos muestran sus vivencias y experiencia profesional, información que constituye una fuente valiosa para la investigación, aunque con el inconveniente de que la memoria oral solo nos permite acercarnos hasta donde nuestras informantes mantienen activas sus vivencias y vivos sus recuerdos. Palabras-clave: Maestras rurales. España. Memoria. Pobreza. Sexismo Abstract SOME TEACHERS WHO LEFT THEIR MARK: TRACKING THE MEMORY OF RURAL TEACHERS Education has seen remarkable progress in Spain during the twentieth century, although with significant differences according to geographical areas. The school has really gone to the pace of socio-political events in schools, in both urban and rural schools. In official circles, rural schools did neither enjoy special attention, nor have a model of initial training for rural teachers. Our goal is to present the experience of rural teachers in the Canary Islands (Spain) using their autobiography. In their narrative, they show us their experiences and expertise, information that constitutes a valuable resource for research, but the disadvantage of oral memory only allows us to go t where our informants kept alive their experiences and their memories alive. Keywords: Rural teachers. Spain. Memory. Poverty. Sexism. Profesora Titular de Universidad. Facultad de Educación. Universidad de La Laguna (España).Doctora en Historia. Licenciada en Historia. Licenciada en Filosofía y Ciencias de la Educación (Sección de Ciencias de la Educación). Maestra (Ciencias Humanas). Dirección postal: Facultad de Educación. Universidad de La Laguna. Campus Central. Avda. Trinidad, s/n. 38204 San Cristóbal de La Laguna (Tenerife-España). [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 93 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales Introducción La evolución de la educación femenina en Canarias se ubica en el marco de una sociedad en proceso de modificación, registrada en el seno de sociedad que dependía de la administración centralista del Estado español y, por lo tanto reflejaba una situación de dependencia política, social, cultural y económica. En tiempos pretéritos la educación del pueblo canario estaba en un lamentable estado de abandono. Esa situación se hizo más notoria en el caso del sexo femenino, debido a los prejuicios de la época que influían decisivamente en el tipo de educación que la mujer debía recibir, basada en el perfeccionamiento de los quehaceres domésticos. La opinión pública fue desfavorable a que la educación femenina se extendiera a otros parámetros que no fueran prepararla para que cumpliera bien su papel de esposa y madre, planteamiento que dificultó que la mujer aprendiera y pusiera en práctica actividades de tipo intelectual. Además, dado el alto índice de analfabetismo, el peso de las tradiciones y el rigorismo moral, la formación de la mujer se apoyaba fundamentalmente en el dominio de la transmisión oral. Los sectores populares quedaban mayoritariamente al margen del proceso educativo. Muchos pueblos de las Islas carecían de escuelas de niñas, incluso en algunas zonas la escolarización femenina fue tardía y no contaron con escuelas públicas femeninas hasta bien avanzado el siglo XX. La educación de las mujeres fue insuficiente, lo cual sumado al número de escuelas existentes y a la concepción de los programas, produjo como resultado que una reducida cantidad de niñas disfrutara de los beneficios de la educación y que la misma fuera elemental e incompleta en comparación con la impartida a los niños (GONZÁLEZ, 1998). Las maestras desempeñaron una función crucial en el ámbito rural, sobre todo en las zonas alejadas y marginadas por su secular atraso las maestras eran la única fuente de sabiduría con la que tenían contacto las niñas y las mujeres isleñas. Buena parte de las veces influyeron en su comportamiento, renovaron actitudes y posibilitaron cambios en su vida. Ellas les enseñaron además de los conocimientos básicos (lectura, escritura, aritmética, geometría, geografía, historia, religión y catecismo) a coser, a desarrollar habilidades con la aguja, algo de cocina, puericultura y, sobre todo, contribuyeron a refinar sus rudos 94 modales. No obstante, considerar que las maestras con la influencia de los medios de comunicación y la incorporación activa de las mujeres a la sociedad han perdido el protagonismo de antaño, y no tienen la misma fuerza moral que tuvieron antes de la década de 1980. Una de las características de las escuelas rurales en el pasado es la precariedad, la carencia de recursos escolares así como pésimas condiciones de vida de las maestras y de la población. Las historias se repiten en diferentes lugares del orbe, en distintos países y continentes (GONZÁLEZ Y LÓPEZ, 2009). El reconocimiento a la aportación de las maestras rurales en distintas partes del orbe ha quedado de manifiesto en diversos actos, congresos y publicaciones, como lo ha sido por ejemplo el caso de algunas maestras españolas cuyas historias de vida han sido recogidas en Historia de una Maestra (ALDECOA, 1991), en Retratos de Maestras (VARIAS AUTORAS, 2005) o La voz del olvido. Maestras de ayer (GONZÁLEZ, 2007). El objetivo de este trabajo es aproximarnos a conocer la actividad que realizaron las maestras en los espacios rurales de las Islas Canarias (España), archipiélago atlántico situado al noroeste de África. Esas mujeres portadoras del saber en las áreas alejadas de las zonas urbanas que han cumplido una doble misión, no sólo como alfabetizadoras sino como mujeres que introdujeron novedades en la vida cotidiana, y que ejercieron una notable influencia en el devenir de la comunidad donde desempeñaron su actividad laboral. La información que facilita la historia escrita no recoge la vida cotidiana, pues los voceros de los grupos dominantes ignoran las vivencias populares. Los grandes relatos de la historia han quedado desfasados por el uso de nuevas técnicas de investigación. Las fuentes orales, a través de diversas metodologías, suministran cantidad de información. La oralidad ayuda a reconstruir el pasado, recuperando los datos que la gente guarda en su memoria y que no figura registrado en los documentos escritos. Es decir, contribuye a romper la monovisión histórica (VATTIMO, 1991, p. 80) a recuperar una información sustentada en las vivencias cotidianas de la gente cuya fuente básica era la palabra (FRASER, 1994, p. 80). En este estudio aportamos voces y testimonios del pasado educativo reciente, aprovechando que el recurso de la oralidad y la imagen etnográfica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 Teresa González Pérez reportan valiosa información sobre el quehacer educativo; se trata de la recuperación de la memoria a través de los testigos (GOODSON, 2004; IMBERNÓN, 2005). La oralidad también equivale a una narración objetiva, por ello empleamos la metodología del diseño etnográfico. Estimamos la importancia de elaborar un cuestionario pero no ignoramos que la espontaneidad y la frescura de la memoria quedarían entonces invalidadas. Por ello, recurrimos a las historias de vida que reflejan el acontecer y tarea cotidiana tal como recuerdan sus protagonistas. Al margen de su indiscutible función en las zonas rurales, las maestras no han sido valoradas ni reconocidas, siendo uno de los motivos por los que se retraen en el momento de la entrevista y son muy parcas en sus expresiones. Ha sido necesario crear un ambiente dialogante adecuado y un clima de confianza en el que las maestras pudieran hablar sobre su trabajo. Es a partir de la toma de contacto y el conocimiento previo del interés de la investigación que desarrollamos cuando pudimos plantear una metodología siguiendo un proceso interactivo. Toda la información recuperada ha sido desde la perspectiva de cada una de las personas, desde el significado subjetivo con el que construyeron su memoria vital. Sus relatos autobiográficos los recogemos a través de entrevistas semiestructuradas. Las maestras relatan sus vivencias, sus vicisitudes en un entorno que a veces se les vuelve hostil. Los pueblos donde fueron destinadas se convirtieron en su nueva morada. Vivían allí durante el periodo escolar, se integraron en la vecindad y establecieron vínculos con sus gentes. Sólo presentamos una muestra de una investigación más amplia, donde hemos constatado una historia de esfuerzos que realizaron desde temprana edad y no únicamente desde el momento que decidieron formarse como maestras para acceder al ejercicio profesional. 1. La Compleja Tarea De Las Maestras Rurales Desde la segunda mitad del siglo XIX en España las Escuelas de Magisterio adquirieron relevancia como centros para la formación de las mujeres, pues eran las únicas instituciones educativas, al margen de las escuelas de enseñanza primaria, que promocionaban la cultura femenina (GONZÁLEZ, 1994; GUZMÁN, 1973 y 1986; MELCÓN, 1992; MOLERO, 1989; ORAMAS, 1992). Hasta la primera década del siglo XX las españolas no tuvieron acceso formalmente a los estudios de bachillerato y universitarios. En el caso de Canarias el retraso educativo fue considerable, ya que no hubo escuela de Magisterio femenina hasta 1902 (GONZÁLEZ, 1997, p.89). Administrativamente la educación dependía del distrito universitario de Sevilla hasta 1927 año en que se creó la Universidad de La Laguna (Tenerife); sumar a ello el desinterés por la educación de las autoridades del gobierno central y representantes locales. A lo anterior añadir que en España no hubo Escuelas Normales Rurales; la formación inicial de las futuras profesionales se regía por un patrón genérico donde privaba el modelo de educación urbano. A pesar de todas las dificultades y la escasez de medios que tuvieron que flanquear, ésta institución fue crucial como centro de formación que irradió cultura y se proyectó en las clases populares, llevando la cultura letrada a los rincones más alejados de la geografía insular. Las maestras se formaron siguiendo un currículum diferenciado, sexuado y que igualmente lo impartían siguiendo la normativa vigente (GONZÁLEZ, 2007). Ellas aprendieron y enseñaron a ser mujer; orientaron a sus alumnas al papel social que estaban destinadas a desempeñar, además que el currículo escolar incorporaba materias específicas: las Enseñanzas del Hogar. Ellas asumieron el mensaje de la domesticidad y lo proyectaron en la escuela, el espacio donde fueron protagonistas. Aprendieron a enseñar, pero inventaron y reinventaron en la praxis diaria del aula, sin apenas recursos fueron capaces de entusiasmar e ilusionar a los niños y niñas en el aprendizaje, motivándolos para incursionar en el mundo de las letras y los números. Con dedicación prioritaria durante años en las escuelas, el propio alumnado legitimó su labor con la asistencia diaria y seguimiento de su tarea. Las maestras de ayer testimonian estilos diferentes de entender la labor docente, de un quehacer aplicado a las escuelas rurales unitarias y a veces graduadas (GONZÁLEZ, 2007). La cultura escolar como modelo formativo planteaba retos en la práctica, una cultura empírico-práctica que ha ido construyendo el magisterio en el ejercicio de su profesión (ESCOLANO, 2002, p.202). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 95 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales Las maestras cumplían con un compromiso educativo, con una trayectoria profesional implicada en la tarea de enseñar y, a la vez, de aprender para enseñar. Pertenecen a periodos sociales y políticos diferentes, su procedencia social también diversa, unas hijas de agricultores, otras comerciantes y maestros. Todas cursaron estudios en la Escuela de Magisterio de La Laguna (Tenerife) y casi todas tienen en común que les tocó ejercer durante la etapa dictatorial del general Franco, y tuvieron que someterse a los dictados ideológicos del régimen y amoldarse a la escuela nacionalcatólica (GONZÁLEZ, 2001, p. 369-86). Pero construyeron una escuela más allá de las consignas del régimen, y sobre todo en el tardo franquismo, cuando se flexibilizó el rígido control que presionaba la acción educativa; pues no ignoramos como se vehiculaba ideología a través de la escuela tarea en la que era crucial la labor de los maestros y maestras. Sin embargo, no se arredraron, renovaron su ilusión y compromiso con la infancia, y con una escuela diferente. Estas maestras ejercieron en tiempos difíciles, algunas lo hicieron en los duros años de la posguerra, y forjaron con su educación a personas nuevas. Nos encontramos con maestras de diversa procedencia, con ideas y formación distinta, y una singular manera de plasmar la práctica. Algunas estudiaron y ejercieron en el primer tercio del siglo XX, como Baldomera María García Fuentes o hasta avanzado el siglo como Concepción García Suárez, que cursaron el Plan de 1914, un plan de estudios que estuvo vigente hasta 1931. Las otras maestras cursaron el Plan 1950, bajo gobierno de la dictadura militar del general Francisco Franco (GONZÁLEZ, 2000, p.167-234). Además a estás últimas se le exigía para el ingreso en la Escuela Normal los certificados de buena conducta moral y patriótica firmado por el alcalde o el jefe de policía, así como un certificado del cura párroco que atestiguara que era cristiana practicante. Todas tuvieron que realizar el albergue preceptivo, que exigía la normativa, organizado durante 15 días en régimen de internado por la Sección Femenina. Podíamos presentar muchas historias de vida de maestras rurales en Canarias, pero las dimensiones requeridas para esta aportación impiden excedernos en el espacio. En este trabajo recogemos la memoria autobiográfica de cinco maestras que se formaron y ejercieron en el siglo XX. 96 3. Rememorando el ayer. Historias de vidas profesionales 3.1. Maestras del plan de 1914. Al igual que en el resto del Estado español la formación de maestros en La Laguna regido por el Plan de 1914 se apoyó en el predominio de los elementos culturales y enciclopedistas, lo cual iba en detrimento de la instrucción pedagógica, y por supuesto, con notable presencia de las enseñanzas del hogar. Para acceder a la formación inicial se requerían estudios primarios. La primera maestra que entrevistamos, Concepción García Suárez, ejerció como maestra en varios pagos rurales del sur de Tenerife y la otra, Baldomera Maria García Fuentes, como maestra de Ravelo, pago rural del municipio norteño del Sauzal. Concepción García Suárez en la actualidad ha fallecido pero gozó de noventa y siete años de vida. Baldomera, conocida por Maruca, ha superado el siglo y vive con plenas facultades mentales cuidada por su familia. Ambas estudiaron magisterio siguiendo el Plan Cultural o Plan 14 que se estableció en la Normal de Maestras La Laguna. Las maestras Concepción García Suárez y Baldomera Maria García Fuentes fueron además las primeras alcaldesas de Tenerife, tras las elecciones de 1933 bajo gobierno republicano, dándose la circunstancia de ser la primera vez que las mujeres podían votar al tiempo que ocupar un espacio público. En este caso por ser las funcionarias más jóvenes del municipio donde ejercían la docencia fueron designadas alcaldesas. Si bien por breve espacio de tiempo, marcaron un hito en aquél contexto aunque ambas no fueran conscientes de la importancia de ese nombramiento y el significado que tendría varias décadas más tarde en cuanto al empoderamiento de las mujeres. Ellas respondieron a lo políticamente correcto, asumieron el cargo y luego lo traspasaron a un hombre como era esperable en aquel contexto. Permanecieron ajenas al debate feminista, ignoraban los objetivos que perseguían los movimientos de mujeres al tiempo que desconocían a las mujeres pioneras en la política española. Fui la primera y única alcaldesa hasta ahora de Santiago del Teide, aunque ejercí el cargo poco tiempo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 Teresa González Pérez (5 de febrero de 1933 al 10 de mayo 1933)1. Primero atendía a mi escuela y los domingos por la mañana los dedicaba al Ayuntamiento. Bajaba caminando los 5 Km que separaban Arguayo hasta el ayuntamiento para firmar, despachar los asuntos de trámite y reunirse en sesión a las 10 de la mañana. Los asuntos urgentes me los llevaban al pueblo y/o la llamaban por teléfono (sólo había un teléfono) (Concepción García Suárez, mayo 2000). Esta maestra se comprometió con su cargo político, tenía sus proyectos para mejorar las condiciones de vida de los vecinos, entre ellos solicitar al Cabildo la continuidad de las obras de la pista que enlazaba desde Tamaimo a la playa y así crear puestos de trabajo para remediar la crisis económica, y lo consiguió. Pero se implicó especialmente en los problemas de Arguayo: pedir una escuela unitaria para niñas y la red de agua, mejorar el trazado de las calles. Los vecinos le ayudaban en realizar el trabajo gratuitamente. No descansó hasta conseguir la subvención para la red de agua potable2. Me trasladé a Santa Cruz y me entrevisté con el Presidente del Cabildo de Tenerife a quien le expuso el grave necesidad del agua y le concedió la subvención de 15.000 Pts. Con tal cantidad adquirió la tubería y los vecinos se encargaron de realizar el trabajo gratuitamente, gracias a su gestión tuvieron agua aunque ella no la disfrutó porque ya había sido trasladada a San Miguel de Abona. También se entrevistó con el Gobernador Civil y no duda en desplazarse hasta la capital para resolver con las autoridades las necesidades más perentorias de los vecinos (entrevista, mayo 2000). Concepción estuvo de maestra en Arguayo hasta el 8 de julio de 1933 como maestra interina. Más tarde fue nombrada para la escuela de Tamaide en San Miguel de Abona, tomando posesión el 14 de julio de 1933 como maestra propietaria, lugar donde permaneció hasta su jubilación. No volvió a tener contactos con la política pero mantuvo un grato recuerdo de su paso por la Alcaldía. Los vecinos también gozan del agradecimiento por su impecable gestión. Tras la instauración democrática, “Santiago del Teide y su Alcaldesa”. Diario Hoy. Santa Cruz de Tenerife, 10 de febrero de 1933. 2 Actas Capitulares del Ayuntamiento de Santiago del Teide. Sesión ordinaria del 12 de marzo de 1933. “Acuerdo sobre el agua potable del pago de Arguayo”. 1 el ayuntamiento de Santiago del Teide la reconoció con un acto de homenaje a la única Alcaldesa del municipio y colocó una foto suya en el Salón de Plenos de las Casas Consistoriales. También en San Miguel de Abona, el último municipio que residió y ejerció la docencia, recibió homenajes y una calle fue rotulada con su nombre. Igualmente, según nos relató Baldomera como funcionaria más joven fue automáticamente concejal del ayuntamiento, elegidos los concejales se procedió a la elección de alcalde y recayó sobre ella3 Cuando la nombraron alcaldesa tenía 23 años. Mi primera tarea fue hacer una carretera, en un principio fue una pista de tierra hasta Ravelo y actualizar el cobro de la contribución. Tuve problemas con las contribuciones, pues muchos vecinos se molestaron por la recaudación de tributos y hasta fui represaliada por ello. Pasé al cobro unos recibos de unas fincas rústicas que eran propiedad de la Inspectora de Educación de la zona y ésta mandó a cerrar la escuela que regentaba. Entonces acudí al Gobernador Civil, y solventó el problema, mandó una orden para que la escuela fuera abierta inmediatamente (entrevista, junio 2005). La prensa corrobora del siguiente modo ese episodio: No podía faltar. Hay muchos envidiosos por ahí. El Gobernador recibió una denuncia. Se le decía en ella que la maestra no podía ostentar el cargo porque carecía de vecindad. Todo porque la muchacha vive con sus familiares, que están en el término de Tacoronte. Pura envidia. El Gobernador falló: “Un funcionario del Estado tiene la vecindad del lugar donde ejerce su función”. Y la maniobra quedó en un mal deseo nada más (Centeno, 1933). Baldomera recuerda que ser alcaldesa tuvo sus inconvenientes, porque entonces no era como ahora que tienen asignado un sueldo, a ella le costaba, pues tenía que estar pagando taxis para ir al ayuntamiento después de que acababa la jornada escolar. En la actualidad la familia ha querido mantenerla al margen de homenajes y reconocimientos, tampoco ha facilitado que desde la historia de la educación y desde la vertiente de la participación de las mujeres en la política pudiera expresar su opinión, preservándola en todo momento de la di Ayuntamiento del Sauzal (Tenerife). Libro de Actas nº 1(10-V-1933 al 1-IV-1934). Acta inaugural. 3 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 97 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales fusión de sus vivencias y publicidad por ostentar el cargo de alcaldesa. No fue fácil que la familia nos permitiera entrevistarla, fue una ardua labor llena de dificultades y en todo momento estuvo acompañada y muchas veces interrumpían su relato. No obstante, ella fue muy receptiva y comunicativa durante las distintas sesiones de la entrevista. Además percibíamos como nos transmitía su alegría al sentirse protagonista de una historia no contada y que ahora traspasaba el umbral del ámbito familiar y doméstico. 3.1.1. Toda una vida de maestra rural La maestra Concepción García Suárez nació el 27 de junio de 1903 en La Laguna (Tenerife). Cursó estudios de magisterio entre 1919 y 1923. Tuvo varios destinos como maestra en diferentes núcleos rurales de Tenerife; vivió las carencias económicas de la época y las limitaciones propias de las mujeres. La primera escuela para la que fue nombrada fue la escuela de Tijoco el 8 de mayo de 1927, un caserío adscrito al municipio sureño de Adeje. Desde Santa Cruz se trasladó por barco (en una pequeña embarcación denominada “falúa” que se utilizaba para desplazamientos costeros o de cabotaje) hasta la Caleta de Adeje y luego en un burro hasta llegar a Adeje, el núcleo principal de población donde tomó posesión. Para llegar al pequeño núcleo de población donde se encontraba la escuela tenía que caminar por senderos porque no había carretera ni calles. La carretera general se construyó años más tarde y tampoco pasaba cerca de allí. Estuvo solo dos meses porque se presentó a las oposiciones, suspendió los exámenes y entonces enviaron a otra maestra como titular a la escuela de Tijoco. Regresó a La Laguna para seguir estudiando y conseguir una plaza fija de maestra. Mientras preparaba las oposiciones se dedicó a impartir clases particulares en Santa Cruz. Logró aprobar en 1928 siendo destinada como Maestra en Prácticas a la escuela mixta de Arguayo, otro caserío rural del sur de Tenerife adscrito al municipio de Santiago del Teide muy mal comunicado (no hubo carretera asfaltada hasta finales de los sesenta) para realizar tres meses de prácticas. Durante varias horas viajó 98 en coche por todo el norte de la isla hasta llegar a la cumbre de Erjos, donde estaba en obras el trazado de la carretera. Al casco de Santiago del Teide llegó la carretera de circunvalación de Tenerife en torno a 1930. Cuando llegó a Santiago del Teide se compró unos zapatos y fue caminando a Arguayo donde fue recibida con voladores por la gente del pueblo. Pero las prácticas se prolongaron, permaneció allí veinte meses porque la inspectora tardó en ir por la incomodad del transporte, de hecho llegó indispuesta. La vida en Arguayo era muy dura, no había luz ni agua corriente. El agua se vendía en las ventas a un real la “cacharra” (recipiente reutilizable de latón). Tenía que trasladarme caminando a Chío, otro pueblo, para poder comprar lo que necesitaba. Acostumbrada a mi vida en la ciudad de La Laguna y, ante aquella realidad adversa, solicité traslado pero mi petición fue desestimada. Ante el disgusto por esa negativa me enfermé y tuve que ser atendida por el médico, que en aquel entonces se encontraba en el pueblo de Icod de los Vinos, que estaba muy lejos a unos 30 Km. Y era el más próximo El médico tuvo que subir y bajar la cumbre hasta llegar al pueblo. Tomé posesión oficialmente el 29 de octubre de 1931 (Concepción García Suárez) En aquella época las maestras vivían acompañadas por un familiar o alguien de la vecindad. No estaba admitido socialmente que una mujer pernoctara sola. En la casa donde vivía me acompañaba mi hermana, ella permaneció conmigo durante unos meses, luego se quedaba una niña del pueblo. Me acompañaba por las noches porque tenía miedo porque había sucedido un crimen por cuestiones familiares. Los domingos me trasladaba a Tamaimo y me reunía con la maestra para almorzar; todo el trayecto lo hacía andando por los caminos y laderas acompañada de la chica, no había ninguna actividad cultural. Cuando abrieron una pista de tierra que comunicaba Arguayo con Santiago del Teide (que distaba 5 Km.) y a la vez con la carretera que iba a Icod hacía el largo trayecto (4-5 horas) hasta La Laguna para reunirme con mi familia. Arguayo era un caserío sureño con pocos recursos económicos donde sus habitantes vivían con muchas estrecheces y carencias. Algunas personas emigraban a Cuba a buscar mejor vida. Cuidaban Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 Teresa González Pérez cabras y atendían algo de agricultura de secano, arando la tierra, sachando y recogiendo, porque estaba situado en una zona de malpaís y había poca tierra cultivable, fue la zona por donde fluyó lava del volcán, Chinyero. El volcán después de 111 años de “tranquilidad eruptiva” entró en erupción el 18 de noviembre de 1909, fecha que coincide con la última erupción en la isla de Tenerife (BRITO, 2003; BARRERA, 2009), y arrasó con todo. Las cosechas mermaron de forma considerable: los higos pasados, las almendras, centeno, cebada, lentejas, alguna papa… no había mucho que recoger en aquella zona improductiva. Había tradición artesana en el pueblo, aunque la economía era muy pobre. Las mujeres tenían tradición con la alfarería y con artesanía de cestería de caña, mimbre y junco. La fabricación de tejas de barro ocupaba a los hombres. También las mujeres recogían cochinilla de las pencas que vendían y llevaban cestos de higos picos hasta la costa para venderlos y comprar pescado que traían al pueblo. Los hombres hacían carbón y luego lo vendían, igual que el estiércol. Había panadería donde hacían pan y rosquetes para las bodas. Los domingos la gente se reunía en las ventas a cantar y tocar formando una parranda, luego se ponían a bailar (Concepción García Suárez). La escuela también era pobre y las niñas asistían de forma irregular porque ayudaban en el hogar familiar. También acudían niños porque era una escuela mixta. Una casa vieja destartalada que no reunía condiciones higiénicas ni docentes albergaba a los setenta alumnos. De acuerdo con los criterios de la época separó a las niñas de los niños y les daba clase en turnos distintos. A las niñas les daba clase de 9 a 12 horas, les enseñaba labores. Por la tarde de 14 a 16 horas iban los niños y a ellos les enseñaba a leer, escribir y las cuatro reglas. Por la noche también daba clases a los chicos mayorcitos que tenían que trabajar y no podían ir en el horario. Los juegos de las niñas eran los propios de la época: el escondite, la gallina ciega, al pañuelito, al corro… los niños eran más acciones más fuertes, les gustaba correr, jugar a la guerra, luchadas (Concepción García Suárez). La actividad profesional de la maestra Baldomera Mª García Fuentes, nacida en Tacoronte (Tenerife) el 4 de marzo de 1908, fue breve porque acabó cuando se casó. Curso magisterio entre 1923-1927. Ejerció dos años de maestra rural en el pueblo de Ravelo, barrio del municipio del Sauzal. Fui la primera maestra de Ravelo (El Sauzal), pero no había edificio escolar, habían habilitado una casa vieja que tenía una pizarra, una mesa y la silla para la maestra, y unos bancos para las niñas. No disponía de nada más, carecía de libros y material didáctico, pero las niñas aprendían rápido con los pocos recursos que tenían. Tampoco había carretera, por lo que tenía que ir andando por los caminos, que en época de lluvias se hacían intransitables y tenía que sortear charcos. Me trasladaba desde Tacoronte, pueblo cercano donde residía con su familia, y después tenía que atravesar por unas “huertas” (campos de cultivo) para llegar a la escuela, se limpiaba los pies y cambiaba de zapatos cuando llegaba, pues se había llenado de barro. Tardaba más de una hora andando, la acompañaba una chica que trabajaba como empleada doméstica en su casa, la cual regresaba y volvía al mediodía a llevarle el almuerzo (Baldomera Mª García Fuentes). Al año siguiente (curso 1934-1935) el destino fue en la isla de La Palma, pero su familia no le permitió que se trasladara, y no ejerció más. Después se casó y tampoco su marido le permitió ejercer la profesión. Según manifestó “eran otros tiempos y no se veía bien que las mujeres dejaran su casa para trabajar”, aunque le gustaba la enseñanza, pero no renunció a las lecturas. Su marido era abogado y fue el Secretario de la Audiencia Provincial de Santa Cruz de Tenerife. Permaneció alejada de toda actividad pública y profesional. 3.2. Maestras formadas en el plan de estudios de 1950 La ruptura política que representó el franquismo en España con la etapa anterior se proyecto a todos los niveles de la vida del país. La guerra civil había dejado un país desolado, castigado y empobrecido. No solo la pérdida de vidas humanas sino la persecución a la democracia y a sus seguidores, a todas aquellas ideas que consideraban peligrosas para el orden autoritario que instauraron. El exilio y el empobrecimiento educativo y cultural constituyen un elemento clave en la dictadura. El magisterio se depuró y se redujo la formación; se elaboraron planes de estudios cargados de los valores ideológicos Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 99 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales del nacional catolicismo. Los planes de estudio de la posguerra sólo requerían tener conocimientos de enseñanza primaria para acceder a las escuelas de magisterio y tenían preferencia los adeptos al régimen. A los familiares de “rojos” (=republicanos) o simpatizantes de ideas progresistas les estaban vetados los estudios. La precaria preparación de los maestros y maestras se constata también en el plan de estudios de 1942. Por decreto de 7 de julio de 1950 se estableció el plan de estudios de 1950, uno de los planes más longevos en la historia curricular de la formación del profesorado, y que responde a lo preceptuado en la Ley de Educación Primaria de 1945. Con el Plan 1950 se intenta mejorar el nivel formativo de los aspirantes a maestros exigiéndose haber cursado el bachillerato elemental para poder acceder a estos estudios. Después del Plan Profesional promulgado en la II República, fue el primer plan de estudios que incorpora el requisito de acceso de estar en posesión del título de bachiller elemental para ingresar en las Escuelas de Magisterio. Como innovación introduce la obligatoriedad de la asistencia del alumnado de Magisterio al campamento (curso de verano) que organizan el Frente de Juventudes y la Sección Femenina, los cuales emitirán el correspondiente documento acreditativo imprescindible para la tramitación del título de Maestra o Maestro. Recogimos la memoria de tres maestras que cursaron el plan de estudios de 1950 en la Escuela de Magisterio Femenino “Nuestra Señora de Candelaria” en La Laguna (Tenerife), y ejercieron en zonas rurales: 1) María Darias Abreu (El Hierro, el 17 de octubre de 1925). Hija de un maestro recibió una formación tardía, pues su padre ejercía en El Hierro y la carencia de un centro de Bachillerato en aquella isla y las dificultades económicas para trasladarse a Tenerife le impidió titularse antes. Cuando a su padre se le concede traslado a Tenerife inicia los estudios de bachillerato. Ingresó en la Escuela de Magisterio “Nuestra Señora de Candelaria” de La Laguna en 1954, siguiendo el Plan de Estudios de 1950, concluyó en 1957. Como profesional ejerció la docencia en municipios del norte de Tenerife. 2) Gloria García Martín (Tacoronte, 6 de julio de 1933). Cursó el bachillerato superior (6º y Reválida) en el Instituto de La Laguna (Tenerife), 100 aunque para estudiar magisterio sólo se requería el bachillerato elemental (4º y reválida). Estudió magisterio entre 1957-1960. Fue maestra rural en los pueblos de las islas de La Palma y La Gomera. 3) Luisa Pérez Guerra (Santa Cruz de Tenerife, 4 de marzo de 1943). Procedía de una familia de comerciantes de Santa Cruz de Tenerife. Estudió en la Escuela de Magisterio Femenino de La Laguna, cursó el Plan de 1950, comenzó en 1961 y terminó en 1964. En 1965 aprobó las oposiciones y fue nombrada como maestra alfabetizadora en las cátedras ambulantes de la Sección Femenina, puesto que desempeñó hasta 1970. Estuvo trabajando como maestra en diferentes pueblos del norte de la isla de Tenerife. En 1964 fui desplazada a la escuela unitaria de niñas en un pueblo del norte de la isla de Tenerife, de hábitat disperso, pobre y atrasado, con pocos recursos, eminentemente agrario y bastante población emigrada a Venezuela y Europa (Alemania, Holanda, Inglaterra). No disponía de servicios, no había farmacia ni tiendas y las “ventas” apenas suministraban algunos artículos de primera necesidad. La gente era pobre y supersticiosa, tenían pocos hábitos de higiene, muchas niñas iban sucias y la cabeza llena de piojos. La mayoría de las casas no tenía agua corriente. Para mantener un poco la apariencia igualitaria y la limpieza les puse un uniforme, como un baby de tela rayitas azules, con manga larga, abotonadura trasera y un lazo amplio en el cuello, parecía un vestidito y así iban todas iguales. Al principio hizo una reunión con las madres, no asistieron muchas y le explicó que quería ponerles uniforme, porque era más cómodo y tampoco era caro (María Darias, junio 2005). Las maestras eran conocedoras de las rutinas cotidianas de los pueblos donde transitaron. El comportamiento era propio de la época. Las actividades y la vida estaba sexuada, había espacios, conductas y valores diferenciados entre hombres y mujeres, una doble moral en orden al sexo. La distinta óptica de las obligaciones dependiendo del sexo. Los hombres después del trabajo se reunían en las ventas a jugar a la baraja o al dominó, y a beber unas “perras” de vino. Las mujeres quedaban en casa haciendo la cena, cuidando los niños o haciendo las labores domésticas. A veces un grupo de mujeres Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 Teresa González Pérez jóvenes iban por la tarde/ noche a bordar a la casa donde vivía, hablaban y se distraían un rato, mientras los maridos estaban en las ventas y luego pasaban a recogerlas (Gloria García, junio 2007). La mayoría de los pueblos eran de mujeres, los hombres estaban emigrados en el extranjero, o se quedaban toda la semana fuera porque trabajaban en galerías en el sur y otros regresaban de noche a casa después de un intenso día. Las mujeres de ocupaban de los niños, el cuidado de la casa, a veces del trabajo agrícola, y de las personas mayores. Muchos niñas tenían que hacerse la comida y encargarse de la casa para después ir a la escuela (Luisa Pérez, mayo 2007). En las épocas de recogidas y siembra de cosechas, la asistencia era irregular porque ayudaban a sus madres en el cuidado de la casa y sus hermanos pequeños. En cuanto tenían 12 ó 13 años dejaban de ir a la escuela, pero seguían manteniendo el contacto, iban por las tardes a bordar, llevaban su labor y se reunían en la escuela, utilizaban la terraza y en ocasiones también permitía que las alumnas mayorcitas las acompañaran trabajando su labor (María Darias, junio 2005). Las niñas mayores no se interesaban por la lectura, leían revistas y novelas de amor, propias de su edad y de aquellos años. Ayudaban a preparar las exposiciones de trabajos a final de curso, presentaban los cuadernos y las labores que hacían las niñas. Luego invitaban a las familias a visitarlas, generalmente iban las madres y hermanas, casi nunca iban los padres (Luisa Pérez, mayo 2007). Colaborabamos en las actividades extraescolares, íbamos de excursión en caminatas con la escuela de niños a zonas recreativas cercanas. También hicimos encuentros con escuelas de pueblos vecinos, eran jornadas de convivencia para niños, niñas y los maestros y maestras. En aquella época existía un rígido control social sobre las maestras, se vigilaba su conducta. Los fines de semana nos reuníamos los maestros y maestras de la zona, había un compañerismo exquisito, incluso salíamos de noche (Gloria García, junio 2007). Las maestras anteriormente citadas impartieron enseñanza primaria de acuerdo con la normativa que fijaba la ley de enseñanza primaria. Aprovecharon los escasos recursos que tenían a su alcance, innovan y se adaptan a las transformaciones curriculares. Las maestras tuvieron que adaptarse a los programas educativos, actualizarse y prepararse como sucedió cuando se impuso la Ley General de Educación en 1970, reforma educativa realizada por los tecnócratas aún bajo la dictadura de Franco y que estableció la enseñanza mixta. Todas se habían formado en un currículum sexista y con materias diferenciadas por sexos, con asignaturas específicas como la economía doméstica y las labores para las niñas y los trabajos manuales para los niños. Conclusiones Los relatos que acabamos de presentar demuestran que estas mujeres dejaron su impronta en los pueblos rurales de las Islas Canarias (España) donde les tocó ejercer la profesión de maestras. Constituyen una muestra representativa del ayer, de la autoconciencia educativa que no tenía implicaciones políticas ni ansiaban cambios de gobierno porque se hallaban ajenas a la gestión pública. Cuando se reunían lo hacían para solventar los problemas propios de la escolaridad pero escapaban a los intereses feministas, porque ellas mantenían el orden y contribuyeron a reproducir el discurso dominante. Es cierto que desarrollaron lazos afectivos entre ellas, desplegaron una cohesión y un sentimiento de pertenencia, una complicidad profesional y humana, un vínculo que en cierta medida las fortalecía como personas en ese proceso vital que las había alejado de su entorno familiar. Evidentemente no estaban autorizadas para transgredir las reglas de una sociedad masculina que les había reservado un espacio en la enseñanza, que no era otra cosa que una prolongación de su rol doméstico. No podían invalidar el orden vigente, con su tarea lo perpetuaron y se acomodaron a las exigencias sociales, porque en un contexto hermético y conservador debían mantener sus funciones para no “desclasarse”. Incluso en el lustro republicano las transformaciones de género fueron comedidas y se apreciaron pocos cambios. Todas las maestras entrevistadas desempeñaron un papel crucial en la enseñanza pero también en la vida cotidiana de los pueblos. Entregadas a la profesión, siempre pendientes de la escuela. En ocasiones las dificultades a las que las enfrentaba la vida cotidiana las fortalecieron y las Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 93-103, jul./dez. 2011 101 Unas maestras que dejaron huella: rastreando en la memoria de las maestras rurales convirtieron en indestructibles. El recuerdo de su trayectoria profesional no pasó inadvertida para cuantos las conocieron, tanto para sus alumnos y alumnas como para la vecindad. Estuvieron en activo durante épocas cruciales de la historia de España. En la etapa final de la monarquía del rey Alfonso XIII, la Segunda República y la dictadura franquista. Las maestras que ejercieron de Alcaldesas en la etapa republicana demostraron, en el breve tiempo que ostentaron el cargo, su capacidad gestora en beneficio de los pueblos y su gente. Su acercamiento a la política municipal y a las autoridades insulares y provinciales que apoyaron sus acciones no ha pasado desapercibida, incluso para las siguientes generaciones. Aún se las recuerda, incluso distinguiéndolas con el nombre de “la alcaldesa” a ellas y sus familiares. Pero la mayoría de las maestras entrevistadas ejercieron en el tramo final del franquismo, vivieron “vigiladas” por las autoridades y la propia vecindad, cuando aún la dictadura amordazaba a la enseñanza y la acción educativa del magiste- rio. Luego llegaron tiempos mejores y los aires renovadores traspasaron los muros de las escuelas. Después de la muerte del dictador, la transición y la instauración democrática renovaron la acción educativa y también mejoraron la vida de las maestras. Sin embargo, quedan muchas historias por contar y muchas vivencias por rememorar. A través de la historia han sido las maestras en las zonas rurales, las primeras en sustraer de los brazos de la ignorancia a los niños y niñas. Pocas veces se escucha las voces de las protagonistas, las historias de su vida que transmiten sus vivencias, que muestran algunos hitos formativos. Relatos subjetivos de experiencias también subjetivas, que nos transmiten, desde su mirada al pasado, vivencias cargadas de emociones. Porque la historia oral, fuente viva de información, aunque limitada por la vida de la informante, pero de no valorar la aportación del recurso de la palabra nos impediría conocer esa rica experiencia femenina ilustrada de un protagonismo que dejó huella en las generaciones de alumnas que formaron. REFERENCIAS ALDECOA, J. Historia de una Maestra. Barcelona: Anagrama, 1991. BARRERA, J. L. El centenario de la erupción del volcán Chinyero en Tenerife. Revista Tierra y Tecnología, Madrid, n. 35, p. 3-23, 2009. BRITO, M. Erupción del Chinyero a través de la prensa. 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Enfoca-se, de forma abreviada, aspectos teóricos relacionados à abordagem (auto)biografia, mediante utilização de narrativas de cinco professoras, numa perspectiva de colaboração, permitindo-nos pensar as histórias de vida, a formação e o desenvolvimento profissional, como marcados por dimensões históricas da professora rural e as respectivas influências e mudanças ocorridas no contexto de atuação. Palavras-chave: Professores rurais. Escola rural. Histórias de vida. Formação docente. ABSTRACT LIFE STORIES OF RURAL TEACHERS: notes on historical questions and training policies The study integrates research conducted in the (auto) biographical field studies. It is based upon the lives of rural teachers in the city of Itapetinga, state of Bahia (Brazil), who worked in the late twentieth and early twenty-first century. Rural education came very late and is marked by its lack of contextualization concerning policies and daily practices as well as by the historical absence of policies related to training. The text aims to systematize and discuss stories told by teachers, to discuss matters pertaining to the rural context, class, and gender in historical perspective, emphasizing the feminization of teaching. We focus, shortly, upon theoretical aspects related to the (auto) biographical approach, through the use of narratives of five teachers. We work with them in a perspective of collaboration, allowing us to think about life stories, training and professional development, as marked by historical dimensions of the rural (female) teacher and about their influences and changes in their working context Keywords: Rural Teachers. Rural School. Life stories. Teacher training * Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Bolsista CNPq. Endereço para contato: Travessa Um, nº 65, Nova Itapetinga, Itapetinga (BA). CEP: 45700-000. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 105 Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação Introdução Este artigo apresenta um recorte de uma pesquisa sobre professoras da zona rural, ao discutir questões sobre formação, identidade, saberes e práticas docentes, no âmbito dos estudos (auto) biográficos, com base nas histórias de vida de professoras, centrando-se nos relatos de experiências de professoras que trabalharam no território rural do município de Itapetinga (BA), no final do século XX (anos 90) e início do século XXI, ao destacar diferenças/mudanças nessa localidade, melhorias e superações. Reconstruir histórias do território rural, sua cultura e suas relações com a escola permitenos identificar dimensões da própria profissão docente, com ênfase nas trajetórias de vida-formação das professoras que atuam no meio rural. O texto intenta sistematizar e discutir histórias narradas por professoras, ao analisar questões vinculadas ao cenário rural, de classe, de gênero e profissionais de professoras no meio rural numa perspectiva histórica. A tessitura desse diálogo conta, primeiramente, com uma breve teorização sobre a educação rural e sua contextualização. Em seguida, situa-se a profissão docente e a professora rural na história e no contexto educacional brasileiro, discutindo-se brevemente sobre a profissão, questões de gênero, com ênfase na feminização do magistério e no desenvolvimento do trabalho docente. Por fim, serão discutidos aspectos teóricos relacionados à abordagem (auto) biografia e à pesquisa narrativa, mediante utilização de narrativas de cinco professoras, numa perspectiva de colaboração, permitindo-nos pensar as histórias de vida, a formação e o desenvolvimento profissional como marcados por dimensões históricas da professora rural e as respectivas influências e mudanças ocorridas no contexto de atuação. A educação rural: desafios e perspectivas A educação do meio rural refere-se à educação dos camponeses (PETTY; TOMBIM; VERA, 1981), configurando-se como uma educação surgida tardiamente, desvalorizada, mal vista e vinculada à lógica urbanocêntrica. O território rural já 106 é cenário de muitas conquistas, as quais são fruto de reivindicações dos movimentos sociais, que possuem uma presença marcante. Destaca-se, nesse contexto, a ausência histórica de políticas vinculadas à formação de professores e a precariedade com que os professores desenvolvem o trabalho docente. Faz-se importante investir na formação dos profissionais que atuam no meio rural, formando-os para que conheçam a comunidade, o contexto em que vão atuar e os alunos com quem passarão tempos e tempos. É preciso maiores investimentos no meio rural, valorizando práticas de intervenção social, ofertando uma educação de qualidade e professores com formação acadêmica e conhecimentos condizentes com o contexto de atuação. Sobre essa questão, Silva (1952, p. 15) afirma que: Educação é influência sistemática e com os objetivos definidos exercida sobre a criança, considerando-se todos os aspectos de sua personalidade. Educação rural, pois, consiste em orientar as populações das zonas rurais, no sentido da formação adequada ou conveniente às mesmas, vinculando-as ao meio e levando-as a reagir de modo eficiente sobre este. A educação na sua dimensão social tem contribuído para o desenvolvimento de ações cidadãs e possibilitado aos sujeitos que habitam o meio rural construírem práticas de intervenção social e de dinamismo local. Também é válido dizer que o meio rural, pela sua representatividade, precisa ser visto pelas instâncias superiores, para que haja a implementação de políticas públicas buscando a valorização das pessoas do território rural e, entre outros, dos professores que lá atuam. O papel exercido pela escola no contexto rural destaca-se pela necessidade do desenvolvimento de práticas educativas e educacionais vinculadas ao cotidiano, à cultura e à alternância que possam favorecer a fixação do homem em seu local de origem, diminuindo o êxodo rural e a hipertrofia das cidades. A escola do meio rural surgiu muito tarde e por conta disso ainda é perceptível a precariedade e um olhar voltado para a ‘marginalidade’, no que tange ao seu funcionamento e à definição de diretrizes políticas e pedagógicas que regulamentem sua organização. A educação rural, desde o seu surgimento, conforme Almeida (2005), centra-se num modelo de educação urbana. Sabemos que o Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 Lúcia Gracia Ferreira problema da educação não está localizado apenas no meio rural, mas compreendemos que nele a situação é mais grave, tendo em vista que alguns princípios e políticas, voltados historicamente para a educação rural, são centrados na lógica urbana e transpostos para a escola rural, desconsiderando-se seu contexto e a cultura local. Sabemos que são mínimas as leituras que dão subsídios teóricos e apontam para as necessidades básicas do meio rural, por isso as possíveis soluções para os problemas desse meio e que envolvem, em parte, a educação são simplesmente ignoradas. Historicamente, presenciou-se no território rural uma educação desprestigiada, em que se escolhe o professor não pelo perfil, formação ou competência, mas por sua atuação política. Assim, percebemos que há um descaso quanto à formação, à identidade, aos saberes e às práticas pedagógicas dos professores da zona rural. A Lei nº 9.394/96 (BRASIL, 1996), que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, propõe medidas de adequação da escola à vida no meio rural; diretrizes operacionais que confiram alteridade e respeito às suas peculiaridades; a construção de uma escola voltada para o povo rural, sendo regulamentada por meio de estratégias específicas para o atendimento escolar. A mesma lei também deixa claro que a formação dos profissionais da educação ocorra tanto em nível de formação inicial quanto continuada, e que a qualidade do ensino no campo possa ser preservada e garantida com investimentos financeiros e políticos contextualizados ao território rural. Nas escolas rurais de Itapetinga, as classes são multisseriadas, atendendo numa única sala de aula a alunos de várias séries (pré-escolar a 4ª série). Por isso, estima-se ser necessário que os professores que nelas atuam tenham uma formação bem delineada, para que possam lidar com a diversidade existente. Neste aspecto, a educação rural, no bojo de sua implantação tardia e descontínua, ainda carrega marcas de sua criação precária, mas com alguns avanços. Assim, os êxitos e fracassos da escola rural ainda não são totalmente conhecidos nem relacionados com as suas causas. Dessa forma, entende-se que muitas coisas devem mudar na educação rural, sendo a mais urgente a formação dos professores. Assim, acredita-se que a relação dos saberes dos professores, a prática pedagógica e a (re)construção das identidades são eixos norteadores da formação e do trabalho docente. O trabalho dos professores rurais baseia-se nos postulados de que a cultura e a diversidade fazem parte do seu cotidiano, considerando-se a realidade das classes multisseriadas e as exigências postas no âmbito do trabalho docente como elementos que interferem tanto no processo de formação dos professores, quanto na prática educativa e no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos. Profissão docente e a professora1 rural: apontando algumas questões históricas Evidencia-se que é na configuração da profissão que a identidade profissional é construída. Para Nóvoa (1992), a profissão docente surge no seio de algumas congregações religiosas, por volta do século XVI, quando, nesse período, a Igreja detinha a hegemonia política, cultural e religiosa. Com a crescente intervenção do Estado na Educação (século XVIII), passou a haver uma maior atenção aos professores, instituindo-os como corpo profissional. Criaram-se neste processo as escolas normais, em pleno século XIX, o que trouxe como uma das consequências importantes o fortalecimento inicial da profissão docente. No contexto da profissionalização do professorado, exercia-se a profissão docente por tempo integral (ou como atividade principal), e para continuar o desenvolvimento do exercício estabeleceuse como necessário um suporte legal emitido pelo Estado, ou seja, uma licença para ensinar. As reflexões sobre a feminização do magistério (NÓVOA, 1992) ganham destaque na segunda metade do século XIX, marcando a profissão docente com o embate entre a profissionalização, menosprezo da profissão e proletarização do trabalho docente, tendo em vista que, historicamente, a mulher era apenas responsável pelos cuidados com os filhos e com o marido. Não só no campo da educação, mas também em outros, como a lite Optou-se no texto por utilizar o gênero feminino quando nos referimos a “professora”, em razão da constituição do quadro docente das profissionais que atuam nas escolas rurais, mais especificamente, no território rural de Itapetinga, contexto da presente pesquisa. 1 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 107 Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação ratura, a música e a dança, observa-se a condição de subordinação e repressão das mulheres em relação ao poder masculino, isto até o início do século XX, quando a mulher exercia uma função social vinculada ao espaço doméstico, privado. Foi nesse processo histórico que a mulher, pouco a pouco, profissionalizou-se, e ampliaram-se as possibilidades de participar ativamente de processos identitários. Nessa trajetória, o principal papel profissional exercido pela mulher foi o de professora, formando-se no curso de magistério e exercendo a função de “tia”2. Assim, a identidade profissional feminina foi sendo construída, baseada na inserção feminina no mercado de trabalho, mesmo que exercendo a docência, permitindo conquistar um espaço na vida pública. Segundo Louro: A entrada das mulheres no exercício do magistério – o que, no Brasil, se dá ao longo do século XIX (a princípio lentamente, depois de forma assustadoramente forte) – foi acompanhada pela ampliação da escolarização a outros grupos ou, mais especialmente, pela entrada das meninas na sala de aula (2003, p. 78). Em seguida, com a feminização do magistério, a profissão passou a viver um processo de desprofíssionalização (NÓVOA, 1992). No meio rural, a desprofíssionalização docente sempre existiu, principalmente quando se situa a professora leiga na história, mais comum nas áreas rurais. Nesse aspecto, ela desempenha um importante papel quando possibilita a escolarização no meio rural, pois, segundo Therrien, “a professora leiga é inseparável do processo de construção social da escola do meio rural” (1991, p. 23). Sobre essa questão, Therrien (1993, p. 44) continua afirmando que: [...] a professora rural é gerada pela estrutura social do seu contexto de vida (que é também nacional), é a partir dessa mesma estrutura que se deve conceber estratégias de construção da identidade pedagógica dessa professora, situando-a no movimento de construção social da escola do trabalhador. A presença de questões vinculadas à construção da identidade profissional e de gênero feminino na carreira do magistério, tanto na década de 1990 A concepção aqui utilizada relaciona-se à vinculação das mulheres ao magistério primário, hoje Ensino Fundamental, como uma atividade que se associava à continuidade das funções maternas e familiares. 2 108 quanto nos dias atuais, se confirma principalmente quando se verifica que dos professores que atuaram nas escolas rurais do município de Itapetinga, de 1975 a 2008, apenas sete foram do sexo masculino. O gênero constitui-se como uma importante marca da carreira do magistério, principalmente na zona rural, pois, historicamente, as mulheres trabalhadoras camponesas que sabiam ler e escrever se tornavam professoras nas suas comunidades, dando continuidade à história da escola rural. A professora, mulher, no meio rural, sempre foi mais comum que o homem, delineando essa profissão, nos século passado e no presente século, como feminina. Assim, é valido ressaltar que a essas mulheres professoras sempre faltaram muitas coisas para desenvolverem o trabalho docente, como formação, condições de realização do trabalho pedagógico, material didático etc. Destaca-se o fato de, historicamente, percebermos que a elas restou o recebimento dos piores salários e o seu papel social, na comunidade em que a escola está inserida, nunca ter sido valorizado. O fato de serem mulheres trabalhadoras, moradoras da região (muitas vezes), que sabiam ler e escrever, facilitava a entrada no magistério como professora leiga. Com o passar dos anos, alguns problemas ainda permanecem no meio rural, como o do transporte escolar para alunos e professores, o recebimento dos piores salários por parte dos professores, a carência de contratação de merendeiras e pessoal de apoio, o investimento inicial na formação dos professores etc. Torna-se necessário tentar superálos. Contudo, mais que superar é preciso compreender que a realidade do sistema educacional rural é decorrente de um sistema político, econômico, cultural e educativo marcado por problemas que ainda existem, para que as soluções possam ser pensadas e buscadas, e que elas sejam compatíveis com o contexto em questão (THERRIEN, 1991). Pensar a educação rural implica refletir também sobre o sistema político-econômico em que as demandas educativas são geradas; mais que isso, implica contextualizá-las no âmbito do sistema cultural de diversificação que precisa/ deve ser valorizado e, para tanto, carece de uma conjuntura pedagógica para tal concretização. Por isso, pensar a educação rural implica investir na formação e profissionalização de seus professores: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 Lúcia Gracia Ferreira Quem são? Quais os seus saberes, sua formação, sua identidade e como desenvolvem suas práticas pedagógicas? Só quando responderem-se essas perguntas compreender-se-á a realidade de que se está falando e suas discrepâncias. Assim, os professores configuram-se como importantes no contexto educacional e desempenham papel fundamental na construção de práticas de intervenção social e de dinamismo local. Professoras rurais: quem são? Intenta-se aqui sistematizar algumas reflexões sobre o trabalho realizado com professores rurais, com base nas entrevistas narrativas e na análise das suas histórias de vida. Busca-se apresentar contribuições importantes para a formação e para a reflexão sobre a prática pedagógica por meio de entrevistas narrativas, e possibilitar a reconstituição de uma história que permita o entendimento de si mesmo como pessoa e profissional. Por isso, acredita-se que o trabalho centrado na memória de formação permite descobertas importantes sobre a prática docente e questões vinculadas à vida profissional. A recuperação do eu, conforme Souza (2007), marca um olhar sobre si em diferentes espaços e tempos, possibilitando articulações das lembranças com as narrativas das experiências, ao destacar que “narrar é enunciar uma experiência particular refletida sobre a qual construímos um sentido e damos um significado” (p. 144). Nessa perspectiva, adotaramse princípios da abordagem (auto)biográfica como método de pesquisa, baseados nas histórias de vida, por entender-se que se configura num processo de conhecimento de si, no qual é possível conhecerse como pessoa e como profissional. A narrativa vincula-se às experiências e aprendizagens que os sujeitos constroem ao longo da vida, com base nos percursos e trajetórias de vida-formação. Segundo Araújo e Almeida (2005, p. 4), Sendo a experiência vivida e refletida uma forma de reordenar conhecimentos, essa experiência tem na narrativa a sua condição operativa e multiplicadora. [...] Tudo que não é narrado morre com o sujeito. Ao contrário, tudo que é narrado e partilhado pode se constituir em elemento potencializador de novas sínteses criativas e em elos que ligam os sujeitos entre si. Dessa perspectiva, experiência e narrativa são pares indissociáveis do conhecimento e da cultura. Na narrativa, o conhecimento possibilita ao professor (auto)avaliar-se e refletir sobre a sua história de vida. A cultura pode ser a sua e a dos outros, e esses outros podem ser aqui entendidos como os alunos e os povos da zona rural, por exemplo. O conhecimento da cultura e do contexto em que os alunos vivem implica-se na prática, na formação, na identidade e nos saberes dos professores, possibilitando-lhes vínculos com a comunidade. O professor que aceita e ensina de acordo com a cultura dos seus alunos, refletindo sobre formação, identidade, saberes e práticas, tem melhor condição de pensar sobre o processo educativo e deixar sua prática pedagógica tornar-se prática de formação. No Quadro 1 está exposto o perfil de algumas professoras colaboradoras da pesquisa. Quadro 1. Perfil das professoras colaboradoras Fonte: Pesquisa de Campo – Perfil das colaboradoras (2008). (1): Nomes fictícios escolhidos pelas professoras para serem identificadas na pesquisa. Foi solicitado às mesmas que escolhessem um nome que tivesse sentido e significado para elas. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 109 Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação Coincide, aqui, o fato de todas as professoras que atuaram na década de 1990 terem iniciado a carreira do magistério numa escola rural no município de Itapetinga. Todas adquiriram o título de professora mediante conclusão do curso de magistério, entre a década de 1980 e início da década de 1990 na mesma escola em Itapetinga (Centro Educacional Alfredo Dutra). Do ano de 1975 a 2008 foi identificado o cadastramento de 49 escolas rurais nesse município, mas durante o ano de 2008 apenas 14 estavam em funcionamento. Não há na secretaria das escolas rurais registros anteriores a 1975. As escolas, palco da primeira experiência das professoras Keli e Leci3, estão hoje desativadas. A questão de formação de professores deu uma melhora, deu um avanço por conta de que eu, eu mesmo fui beneficiada com essa formação de professores. Porque na década de 90 lembro de que tinha umas duas colegas que era, eram leigas. Elas ficava até acanhada de participar muito, de muitas vezes até um colega saber a respeito da vida delas. Mas a gente sabia por conta de um ou outro alguns comentários, mas existia professores leigos e hoje não mais existe (Depoimento de Keli). A formação de professores dá-se apoiada na existencialidade, e é um processo que ocorre durante toda a vida, mas em se tratando da formação institucionalizada, espaço-temporal, é válido afirmar que as professoras pesquisadas, na década de 1990, eram professoras diplomadas em nível médio. Entretanto é identificada nesse período a presença de professores leigos, que hoje já não existem mais na região. Diferentemente do que acontece em outras regiões do estado. O fato de a professora Estrela ter sido, no presente século, a primeira professora da zona rural a ter nível superior foi destacado na fala das professoras Keli e Yasmin, quando se referiam às questões acerca de como trabalhar com um projeto, por exemplo, que para ela, que já tinha nível superior em Pedagogia desde 2006, com certeza era mais Os nomes aqui utilizados são fictícios e foram escolhidos pelas professoras para serem identificadas na pesquisa. Solicitou-se às mesmas que escolhessem um nome que tivesse sentido e significado na suas histórias de vida-formação. Os excertos utilizados no texto foram produzidos no contexto de formação e da pesquisa desenvolvida. Mantivemos as transcrições com vícios de linguagem, por respeitar as narrativas e modos de expressão das entrevistadas. 3 110 fácil. O nível superior na zona rural constituiu-se um diferencial, colocando a professora num lugar de destaque, o que foi aumentando quando ela ingressou na especialização. As outras professoras cursavam o Curso Normal Superior, desde 2006, num projeto de formação de professores desenvolvido entre a Prefeitura Municipal de Itapetinga e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, permitindo a outras professoras que não eram efetivas terem o nível superior. O excerto da entrevista de Keli destaca algumas questões sobre a formação, quando afirma que: Tem professores, é, que já concluíram o 2º grau, mais curso superior como também tivemos colegas que já tinha feito o curso superior. Então esse ano de 2005 já deu um avanço, inclusive fomos previlegiado com o curso superior né. Esse curso superior foi uma seleção de professores que já estavam trabalhando na rede, que o prefeito, ele, ele fez esse, ele fez esse, ele fez essa qualificação pra o professor, concluindo, é, tendo 3 anos, concluímos em 3 anos por conta de que a carga horária maior e o tempo menor. Então nós chegamos a concluir em 3 anos por conta da carga horária que é maior (Depoimento de Keli). Quanto à formação dos professores do meio rural e à política que permeia a formação, uma professora da década de 1990 relata que: Mudou, mudou muito porque os professores no meio rural hoje estão capacitados sempre procurando estudar mais e aprender mais não tem aquele negócio de no meio rural tem que ser um professor, qualquer professor não, não tem isso mas não. Professor se ele tiver curso superior e ele for chamado para o meio rural e ele aceitar a vaga ele vai pra o meio rural. Se for tirar um professor do meio rural e colocar outro, for tirar aquele que tem curso e colocar o que não tem curso porque no meio rural pode ir qualquer um, não existe isso não (Depoimento de Géssica). O acúmulo de funções por parte dos professores perpassa as questões da educação rural, o que constitui ainda um problema atual. Sobre essa questão, Santana, Leite e Pinto afirmam que “no meio rural, também o professor acumula diversas funções, pois ‘ser professor rural significa quase sempre exercer funções de outros profissionais: secretário escolar, bibliotecário, enfermeiro, merendeira, servente e outros’” (1989, p. 28). Não é comum, na trajetória das professoras, elas atuarem como merendeiras. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 Lúcia Gracia Ferreira Apenas as professoras que moravam na fazenda e não encontravam apoio deveriam atuar como merendeiras, mas, independente da merenda, reconhecem que são mais que professoras, quando afirmam: Na década de 90, a questan de merendeira, desde quando eu iniciei sempre tinha uma mãe que apoiava, dava um apoio né. Não que era assim merendeira, mas sempre alguém próximo da escola, esse alguém deveria ser alguma mãe que sempre tinha algum filho na escola. Então era uma forma assim de ajudar a escola e com essa ajuda ela ganhava uma ajuda de custo que não era um salário, era uma ajuda de custo sempre inferior ao salário. Ajuda de custo mesmo que por ela ajudar na, a fazer a merenda, na limpeza da escola, então a prefeitura, é, estipulava, tinha um valor pra cada merendeira. [...]. E ai o professor tem que cê o professor de, dinâmico, dinâmico, que tem que pensar em tudo, pensar na parte sentimental, tem que pensar, é, na parte psicológica, na parte de ser mãe, de ser professor, de ser tia, de ser tudo (Depoimento de Keli). Dá, porque aqui a gente é o diretor, a gente é o professor. De tudo a gente faz um pouco. Temos uma pessoa que nos auxilia, porém essa pessoa não ganha o suficiente pra fazer essas funções, mas aqui na minha escola mesmo é uma pessoa que não reclama, está sempre pronta pra poder me ajudar. [...]. Ainda a gente encontra dificuldade aqui pra trabalhar na zona rural, por ser um professor só, como eu falei, a gente acaba sendo diretor, a gente é o professor, a gente é o conselheiro (Depoimento de Yasmin). A política salarial dos professores também diferenciava os valores recebidos por professores leigos e diplomados. Segundo Teles (1989), em pesquisa realizada em 1986, na Bahia, a diferença de salário de um professor leigo para um professor titulado era de cerca de 30%. Alencar (1993) também discute essa perspectiva salarial e fala sobre essa mesma diferença de salário – o mesmo percentual – entre os professores no Estado do Ceará, em pesquisa realizada em 1987, ressaltando que as professoras leigas ocupam o nível mais baixo na grade salarial da municipalidade. Em Itapetinga, na década de 1990, não havia diferença de salário entre professores diplomados e leigos. A diferença hoje encontrada refere-se ao fato de trabalharem na zona rural e ganharem uma gratificação a mais pelo seu trabalho, conforme relato de uma professora: Uma outra conquista foi a questão do professor da zona rural ganhar um pouquinho a mais, uma percentagem. Ganhar auxílio alimentação, os professores que moram na zona rural ganham auxílio alimentação que não tinha (Depoimento de Estrela). O fato de muitas escolas serem longe da sede do município obrigava alguns professores a morar na escola. Até hoje é assim, mas antes não havia auxílio alimentação. Para as escolas mais próximas, hoje existe o transporte, carros que levam e trazem todos os dias e ainda um percentual a mais no salário, por atuarem na zona rural. Para as professoras que moram nas escolas, existe o carro que as leva na segunda-feira e as pega na sexta-feira. Contudo, essa questão do transporte foi uma conquista de anos, pois antes as professores deslocavam-se por meio de caronas e cavalos para chegarem até as escolas. Tudo que nós conseguimos ou que nós temos de mudança na zona rural, como por exemplo, a incorporação do salário, há mais professoras no meio rural, a questão do transporte pra levar e buscar o professor, tudo isso foram conquistas dos professores. Foram os professores que pediu, os professores que buscaram, os professores que lutaram. Todos (Depoimento de Estrela). No processo das entrevistas narrativas, muitas professoras falaram sobre as experiências em relação as transporte escolar, a estrutura física das escolas e também acerca de questões pedagógicas e financeiras vinculadas ao trabalho docente. Evidencia-se que a estrutura pedagógica, segundo os relatos, não atende desde a década de 1990 até os dias atuais, pois a figura do coordenador pedagógico já existia desde o final do século XX, mas sempre foi ausente no cumprimento das suas funções. Inexiste, por parte da coordenação pedagógica, a ajuda necessária para o desenvolvimento do trabalho pedagógico em classes multisseriadas, o que se configura como uma das dificuldades relatadas pelas professoras que atuam no meio rural. Falta pra gente um apoio pedagógico em termos do planejamento. Eu acho que a zona rural deveria ter coordenadores que nos auxiliasse porque o trabalho da zona rural é um trabalho muito complicado, é um trabalho muito difícil que exige muito do professor, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 111 Histórias de vida de professoras rurais: apontamentos sobre questões históricas e políticas de formação e dentre esse trabalho uma das maiores dificuldades que eu encontro é alfabetizar o aluno na escola da zona rural porque alfabetizar já é um processo difícil, já é um processo complicado pra o professor (Depoimento de Yasmin). Quanto à estrutura física, algumas escolas ainda funcionam em antigas casas de trabalhadores das fazendas, que foram cedidas e adaptadas, deixando a desejar, muitas vezes, por causa de pequenos detalhes (reformas inacabadas ou mal feitas, quadro de giz muito desgastado, falta de pátio para os alunos brincarem, salas pequenas e apertadas etc.). Algumas outras escolas são prédios escolares construídos pela prefeitura. Entretanto, em geral, ainda que insuficientes muitas vezes, todas as escolas têm boa estrutura física e já mudaram no decorrer dos anos. Historicamente, é sabido que as condições de trabalho e material didático nunca foram favoráveis no/ao meio rural. Na verdade as escolas da zona rural, que que as escolas da zona rural tem? Uma sala, um prédio, com as paredes com as cadeiras dentro com uns armários velhos, que nós recebemos só coisas velhas, nós nunca recebemos coisas novas. Coisas que da zona rural, da zona urbana, por exemplo, não vai mais servindo, vai sendo mandada pras escolas da zona rural. Pra você ter uma idéia nós não temos um armário novo nas escolas da zona rural. O professor não tem um armário pra guardar seus material quando ele chega na zona rural. Ainda existe um monte de coisa que a gente precisa superar, a gente precisa conquistar na zona rural. Que é sobre material didático, sobre, nosso material didático, por exemplo, ele não é elaborado pra zona rural é o mesmo material didático que é dado na zona urbana é passado pra zona rural. E não dá certo (Depoimento de Estrela). As professoras disseram mobilizar a mudança, buscar as mudanças, e, conforme relatos, as mudanças já vêm acontecendo. Muitas coisas ainda precisam ser superadas, mas as reivindicações e as lutas das professoras já vêm dando resultados. Ainda falta a valorização das diferenças; falta à elite governamental perceber a unidade na diversidade (NICOLAU, 1991) e valorizá-la. Perceber que, da zona urbana para a zona rural, há uma enorme diferença que deve ser vista e considerada na busca e na proposição de melhorias. Conforme Santana, 112 Leite e Pinto, “antes de implantar qualquer tipo de assistência à educação rural, seria necessário definir que tipo de educação se pretende para o meio rural, [...] proporcionando uma educação voltada para as suas necessidades e interesses reais [...]” (1989, p.30). É preciso fazer uma análise crítica da realidade rural e adaptar a escola à realidade dos seus alunos, sendo feita para eles e com a sua participação. A educação rural precisa ser pensada com a participação de sujeitos de vivências e práticas rurais, sujeitos esses que conhecem suas reais necessidades. As mudanças precisam ser buscadas e devem mesmo acontecer no meio rural. E o professor, como profissional que trilha o caminho da mudança e das incertezas, deve ser formado de maneira que adquira conhecimentos pedagógicos comuns, especializados e habilidades específicas para contribuir com isso. Nesse percurso histórico, a professora rural, na maioria das vezes leiga, fez história, e em muitos lugares essa história continua sendo construída. Em alguns lugares ainda encontra-se muitos desses professores com o ensino fundamental incompleto, assim como já temos professores que atuam no meio rural com uma formação em nível superior, o que certamente vem fazendo diferença. Entretanto esse não é o único elemento a promover a diferença. A professora do meio rural não precisa, para promover um ensino melhor, somente de uma melhor formação ou de frutos de políticas públicas; ela precisa identificar-se com o contexto em que atua. É fundamental pensar a educação rural tomando-se por base as reais necessidades dos povos rurais, e nesse processo de mudança da educação o professor torna-se agente de transformação. Por isso, torna-se relevante que o professor identifique-se com a escola rural, reflita sobre o seu processo de formação, busque uma formação com base nas experiências práticas do contexto em que está atuando, deixando que as experiências práticas sejam delineadoras por novos saberes e, consequentemente, de uma nova identidade. Identidade essa que vai sendo desvelada ao longo das vivências. Este trabalho buscou ressaltar a importância da escuta da voz de professoras rurais, possibilitando às mesmas narrarem suas histórias de vida pessoal e Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 105-113, jul./dez. 2011 Lúcia Gracia Ferreira profissional e rememorarem episódios importantes que fazem parte da história da profissão docente e da educação rural. As narrativas evidenciam percursos e trajetórias que compõem a história da educação rural em Itapetinga (BA), ao destacar vários elementos do contexto educacional rural baseados nas buscas de melhorias, sofrendo mudanças de um século para o outro. Ainda assim, a invisibilidade social, nesse contexto, perdura até os dias de hoje, não só nesse município, mas em vários espaços do território brasileiro, impedindo que as mudanças cheguem, de fato, com rapidez, precisão e sem lutas. Foi possível aqui conhecer a história de mulheres professoras e dimensões históricas de um contexto e de uma profissão em desenvolvimento e em processo de formação. REFERÊNCIAS ALENCAR, J. F. A professora “leiga”: um rosto de várias faces. In: THERRIEN, J; DAMASCENO, M. N (Orgs.). Educação e escola no campo. Campinas: Papirus, 1993. p. 177-190. ALMEIDA, D. B. A educação rural como processo civilizador. In: STEPHANOU, M; BASTOS, M. H. C. (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil: Século XX. 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Grazziotin* RESUMO Por meio das memórias de doze sujeitos, analisam-se, nesta investigação, algumas práticas de escolarização que determinaram pistas sobre a sistematização da educação na região rural do município de Bom Jesus, localizado no Rio Grande do Sul, nos chamados Campos de Cima da Serra. A pesquisa teve o objetivo de inventariar e analisar determinadas maneiras de contornar a carência de escolas, na região referida, entre os anos de 1910 e 1940. A metodologia utilizada foi a História Oral, as memórias escutadas pertencem ao Acervo Municipal de Memória Oral da Cidade. No contexto pesquisado, vários elementos compõem o processo de entender as práticas que institucionalizaram, em certa medida, o que foi denominado de “aulas com professores em casa”, prática adotada no meio rural em razão da ausência de escolas. Os elementos discutidos na pesquisa dizem respeito às relações de gênero, questões econômicas, culturais, políticas e religiosas. A relação entre eles vai, ao longo da investigação, tecendo um cenário de educação, com suas especificidades culturais interligadas às políticas públicas da educação em âmbitos estaduais e nacionais. Palavras-chave: Memória. Educação rural. História Oral. ABSTRACT SCHOOL TEACHERS AT HOME: MEMORIES OF RURAL EDUCATION IN BOM JESUS (1910-1940) Through the memories of twelve subjects, we analyzed in this research, some practices of schooling that led to clues about the organization of education in the rural municipality of Bom Jesus, located in Rio Grande do Sul (Brazil) in so-called Campos de Cima da Serra. The research aimed to identify and analyze certain ways to remedy to the lack of schools in that region, between the years 1910 and 1940. The methodology used was the Oral History. We listened to the memories belonging to the Municipal Collections Oral memory of the city. In the context of research, many elements make up to some extent the process of understanding the practices institutionalized, which I called “lessons with teachers at home,” a practice adopted in rural areas due to lack of schools. The elements discussed in the survey relate to gender relations, economics, culture, politics and religion. The relationship between them will, throughout the investigation, construct an educational scene, with their cultural peculiarities linked to public education both in the federal state and in the federated states. Keywords: Memory. Rural education. Oral History. Doutora em Educação com ênfase em História da Educação pela PUCRS. Professora do Centro de Ciências Humanas da UNISINOS, no curso de Pedagogia e no Programa de Pós-Graduação em Educação. Endereço para contato: Rua Santo Antonio, 717, Apto. 505. Porto Alegre (RS). CEP: 90220-011. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 115 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940) Introdução Esta investigação teve como objetivo inventariar e analisar determinadas práticas de educação, originadas pela carência de espaços de escolarização, desenvolvidas na região rural de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, entre os anos de 1910 e 1940. Por meio das memórias de 12 sujeitos, analisamse os traços, gestos, indícios que sobreviveram ao tempo, determinando algumas pistas de como a região rural do município de Bom Jesus, localizado nos chamados Campos de Cima da Serra, contornou a educação formal, em lugares distantes da região urbana e carente de escolas. Para essa pesquisa, a História Oral foi a metodologia utilizada, unindo-se a ela alguns documentos escritos. A utilização da memória como fonte documental atribui outros significados e entendimentos para a História, além daqueles postulados pela análise dita tradicional, pois dá a ver um espaço recriado, pleno de emoções, no qual o critério e a atenção do pesquisador devem ser constantes, pois da memória de cada sujeito entrevistado fazem parte lembranças e esquecimentos. A investigação parte da narrativa do senhor Doti, cujas memórias de escolarização remontam à década de 1910, até a professora Lucila, que rememora seu tempo de educação rural na década de 1940, percorrendo assim 40 anos de história da educação fora do contexto urbano. A possibilidade de contar essa história parte do Projeto Resgatando Nossas Raízes1 (PRNR) que, entre outras ações, se propôs a coletar memórias e a construir espaços para guardá-las. Esse espaço originou o Acervo Municipal de Memória Oral, e foram as transcrições das memórias guardadas os documentos centrais da pesquisa. No contexto pesquisado, vários elementos compõem o processo de entender as práticas que institucionalizaram, em certa medida, o que foi denominado de “aulas com professores em casa”, prática adotada no meio rural em virtude da ausência de escolas. Os elementos discutidos na pesquisa 1 Projeto desenvolvido no município de Bom Jesus, sob a coordenação da Professora Lucila Maria Sgarbi Santos, com base no qual foram criados: museu, biblioteca pública, acervo de documentos escritos, acervo de fotografais e acervo de memória oral do município. 116 dizem respeito às relações de gênero, questões econômicas, culturais, políticas e religiosas. A relação entre eles vai, ao longo da investigação, tecendo um cenário de educação, com suas especificidades culturais interligadas às políticas públicas da educação em âmbitos estaduais e nacionais. A referência às “especificidades culturais” não está vinculada a uma cultura única; traz, portanto, um sentido que não engloba totalidade, pois, de acordo com Chartier (2004), descrever uma cultura a fim de “[...] compreender a totalidade das relações que nela se encontram entrelaçadas, o conjunto das práticas que nela exprimem as representações do mundo, do social ou do sagrado [...] é tarefa impossível” (p. 18). O objetivo, portanto, é indicar tanto aspectos comuns como particularidades desse município e compreender os entrelaçamentos que constituem a educação, num meio geográfico com suas especificidades. Na cidade de Bom Jesus, o desenvolvimento da educação, de modo geral, e o ensino rural, de forma específica, estão relacionados aos esforços da população em busca da ampliação das condições de estudo e refletem algumas marcas desse local. Esses esforços são mediados não só pelo interesse em construir escolas em um contexto público, mas por práticas específicas e espaços privados, tais como: a casa de pais, esses que, mediante a contratação de um professor, recebem outras crianças além de seus filhos; a casa de professores, que hospedam os alunos de lugares distantes; as casas de outras famílias, nas quais muitas crianças “param” com o objetivo de frequentar uma aula próxima. Essas formas e maneiras de criar e gerir espaços de educação no meio rural seguem, de modo geral, os pressupostos de uma sociedade capitalista. Essa comunidade, à medida que organiza o saber de diferentes formas, determina as concepções de vida na cidade e as prioridades que serão assumidas, no decorrer de seu desenvolvimento, no que se refere à educação. As práticas observadas são identificadas nas memórias dos pais, professores e alunos e traduzem, em alguns casos, formas específicas de conceber o ensino, produzindo um legado de cultura escolar próprio da região, entendendo cultura escolar como: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 Luciane Sgarbi S. Grazziotin [...] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo a época e finalidade religiosa, sociopolítica ou simplesmente de socialização (JULIA, 2001, p. 12). O período do estudo é atravessado por questões políticas, em diferentes níveis, que podem ser observadas nos documentos analisados, permitindo, assim, uma aproximação, em certos momentos, do contexto dessa cidade com a esfera nacional e estadual. Essa aproximação emerge das memórias da cidade, que chegam aos nossos dias “captadas pela história” (NORA, 1984, p. xxxvi). Escolas comunitárias em região de imigração homogênea Uma das características da região pesquisada, que talvez possa ser pensada como singular, está relacionada ao aspecto geográfico, à distância dos distritos com relação à sede do município e dessa para os centros maiores, às estradas sem pavimentação e ao clima frio no inverno. Essas características são fatores determinantes, em alguns casos, nas práticas adotadas em relação à educação. As longas distâncias acrescidas de estradas precárias e a carência de meios de transporte, ainda hoje, dificultam o acesso à escola por parte de crianças de algumas comunidades, embora a pavimentação, manutenção de estradas menos frequentadas, o transporte escolar e a nucleação de escolas muito tenham contribuído para facilitar o acesso. Como então, em outras épocas, com as dificuldades agudizadas por falta de professores, dificuldades financeiras e localização geográfica – além de práticas familiares e necessidades individuais – desenvolviam-se as possibilidades de estudar? Diferentes fatores interligam-se caracterizando a história da educação desse lugar e a importância conferida ao estudo nessa comunidade, no início do século XX. Fatores que, em certa medida, justificam os sacrifícios a que se submetiam pais e alunos na busca de educação escolarizada, numa época em que o ensino público era escasso em todo o país. De acordo com Kreutz (2000), nos estados com número expressivo de imigrantes, como é o caso do Rio Grande do Sul, a falta de escolas públicas foi suprida em regiões de colonização homogênea pelas escolas étnicas; assim, poucas escolas havia no estado, excetuando-se, talvez, nessas regiões. Nas regiões de imigração alemã, até o ano de 1939, havia 1.579 escolas étnicas/comunitárias, seguidas pelas regiões de imigração italiana que, no mesmo período, contavam com um número de 396 escolas. A história das escolas, nos anos finais do século XIX e três primeiras décadas do século XX, no Rio Grande do Sul está, portanto, articulada, entre outros fatores, à vinda de imigrantes e à formação das colônias, tanto nos vale dos Sinos, como pesquisa Kreutz, como na serra gaúcha (LUCHESE, 2007). Dentro do quadro da colonização, o município de Bom Jesus manifesta algumas peculiaridades: mesmo estando próximo geograficamente da Serra Gaúcha, região com concentração de imigrantes italianos, encontra-se, igualmente, próximo a algumas das regiões de imigração alemã, como Três Forquilhas e Taquara. No entanto o município não recebeu diretamente esses imigrantes. Para Bom Jesus, migraram, posteriormente, descendentes de italianos e alemães que se misturaram aos luso-brasileiros, que ali já se encontravam, não formando as colônias homogêneas observadas em ouras regiões do estado. Assim, contrariamente ao observado nos trabalhos de Werle (2005) e Kreutz (2000), não se percebe que a forma de contornar o problema da escolarização tenha sido por meio da implantação de escolas comunitárias, nem de uma nem de outra etnia, mesmo sendo o ensino público precário e deficiente. Aulas com professores em casa Na zona rural de Bom Jesus, nas décadas analisadas, as escolas eram praticamente inexistentes. São poucos os documentos que fazem referência à existência de uma “aula”. É possível perceber que a educação sistematizada vai, gradativamente, sendo constituída e manifesta-se, por muitas décadas, com soluções particulares para resolver o problema por meio de práticas que assumem códigos e regras próprias, visto que não dependiam de meios Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 117 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940) públicos para serem instituídas. Na cidade, mesmo o acesso sendo mais fácil que na zona rural, ainda assim a dificuldade também é observada. Assim, as “aulas em casa”2, com professores particulares contratados pelos pais, ou os regimes de internatos – que seguem uma dinâmica própria, dependendo da região, se mais próxima ou mais distante da sede do município – é que suprem, em certa medida, a carência de escolas públicas. As primeiras referências encontradas no Brasil relativas a essa prática de “as aulas com professores em casa” é circunscrita na cidade do Rio de Janeiro, por Vasconcelos (2005), no final do século XIX. Segundo Fernandes (2005, p. XII), o “Ensino Doméstico”, denominação utilizada em Portugal e adotada também por Vasconcelos, “[...] não é um tema cuja pertinência se meça exclusivamente em relação ao passado”, visto que “o desejo, por parte das famílias, de eficiência pedagógica, de permanência de valores e de segurança física leva que se recorra ao ensino no interior do lar [...]” (FERNANDES, 2005, p. XII). A origem dessa prática, porém, está no passado, “[...] desde os tempos mais remotos, caracterizada em determinados períodos da história como o único recurso para a educação de crianças e jovens e, em outros tempos [...] utilizada pelas elites econômicas e políticas para educar seus filhos” (VASCONCELOS, 2005, p. 1). Essa forma de educação, que remonta à Idade Antiga, modifica-se e amplia-se na Modernidade graças às mudanças paradigmáticas ocorridas, principalmente, no chamado Século das Luzes (VASCONCELOS, 2005). Nessa pesquisa utilizo a denominação “aulas com professores em casa” em detrimento de outras, como professores particulares, preceptores, aulas domésticas e mestre-escola, empregadas por diferentes autores para designar aulas fora de uma instituição escolar. Esses nomes não dão conta do Aulas em casa – nesse contexto – nada têm a ver com o processo iniciado nos Estados Unidos, conhecido como “Home School”, ou ainda “escola em casa” ou “objeção escolar”. “Essa tem em Ivan Illich, Charles Siberman e, especialmente, em John Holt seu embasamento teórico”, que pretende levar adiante a educação das crianças em seus próprios domicílios (SANTOMÉ, 2003, p. 35). Essa experiência tem, nos Estados Unidos, exemplos significativos que, na década de 1990, reavivaram o ensino em casa “[...] num discurso contra a escola pública, em especial contra o professorado da rede pública, [...] a família chega a usurpar por completo o papel da escola” (SANTOMÉ, 2003, p. 35). 2 118 espaço físico específico, para fins de educação, que se constitui como uma entre as possibilidades de dar instrução formal aos filhos, em épocas em que não havia escolas para atender às necessidades da comunidade. Assim, o termo “aulas com professores em casa” é aqui empregado para caracterizar um sistema de educação institucionalizada, pois segue algumas regras características da educação formal como certa seriação, atribuição de graus progressivos de dificuldade aos conteúdos e uma avaliação. Os conteúdos são transmitidos especificamente por “professores”, mesmo que, no caso dessa pesquisa, eles não tenham diploma formal para esse fim. Desse sistema podem fazer parte um ou mais alunos, mas o estabelecimento de ensino é sempre a residência de uma família, dos pais do aluno, dos vizinhos ou do professor. Essa prática não está vinculada somente à elite, mas a camadas sociais distintas, em diferentes regiões do município, e embora o fator econômico seja relevante, não é o único a ser considerado. As memórias das “aulas com professores em casa” compõem um conjunto singular de informações, não sendo possível contar com registros escritos a esse respeito, tendo em vista a transitoriedade e precariedade com que eram ministradas. Apesar de sua constatação e reconhecimento como prática instituída [...] a educação doméstica pressupunha um atendimento [...] realizado na esfera privada. Em conseqüência disso ela às vezes era alijada dos registros oficiais e não deixava vestígios e arquivos (VASCONCELOS, 2005, p. 12). Os registros pesam, assim, quase que exclusivamente na fonte oral. Em livros de contratos e atas da prefeitura, tanto de Bom Jesus como de Vacaria, bem como em livros Tombo da Igreja, não se encontram referências às questões relativas ao ensino “em casa”. Qual a dimensão dessa prática tão usual nos relatos dos sujeitos da pesquisa? Histórias de educação permeadas por alegrias, frustrações e sacrifícios envolveram o cotidiano de pais, professores e alunos, esses últimos tendo seu primeiro contato com a escolarização na ausência de escola. Assim, foram as memórias do AMO 3 que possibilitaram o contato com outro mundo da Acervo Municipal de Memória Oral. 3 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 Luciane Sgarbi S. Grazziotin escolarização, o mundo do estudo e da aula, não aquele legado pelos registros das escolas, secretaria de educação ou outros órgãos oficiais. Um mundo lembrado pelos sujeitos entrevistados, que traz ao presente as lembranças da zona rural, dos primeiros professores, das aulas, das dificuldades de chegar à casa de um vizinho, de enfrentar frio, da precariedade de alguns professores, de formas diversas de aprender as “primeiras letras”. Memórias sobre os internatos, outra opção para quem não viva na cidade; sobre as dificuldades de morar com parentes e de adaptação distante de casa. Esses e outros aspectos compõem um quadro que vai se delineando nas narrativas. No momento de cada entrevistado trazer à memória tempos, espaços, pessoas de outras épocas, cada um parece compartilhar novamente as situações com aqueles com quem conviveu e a quem a lembrança foi buscar. A dinâmica das aulas com professores em casa pode ser percebida nos fragmentos4 que seguem. Eles abordam aspectos distintos que dão a perceber um determinado contexto que caracteriza a história dos estudos daqueles que viviam na zona rural. São relatos de cada um em particular, e que, no entanto, se entrelaçam para compor certa dinâmica comum à região. Seu Argeu Ribeiro Velho relata os sacrifícios – aos olhos de hoje, pois ele não menciona essa palavra – para estudar. Segundo ele o ano era mais ou menos 1928. Estudei em casa com o professor Antônio Tato, que depois foi substituído por um outro professor que vinha de São Joaquim. Para terminar as séries iniciais, fui para a cidade estudar com a D. Nair Boff, e depois com as Irmãs Ramos. Na cidade ‘parei’ na casa do Seu Francisco Spinelli. Com 13 anos fui para o internato de freiras em Taquara do Mundo Novo, fiz um exame para ver em que série estava. Fiquei no internato até os 16 anos. Só voltava pra casa uma vez por ano nas férias de verão (Maria dos Prazeres Ribeiro Velho, entrevista, 1990). Seu Edmundo Jacoby também recorda das aulas em casa, com professor contratado, no início da década de 1920. Estudei Até o 4º ano do primário em São Jacó, Hamburgo Velho, dos Irmãos Maristas, os alunos que moravam distante eram internos. Meu caso, nós aqui de cima da serra, ia a cavalo demorava três a quatro dia até o ponto onde tivesse trem de ferro, no caso era Taquara, até lá viajava-se de a cavalo, de lá pegava-se o trem, [...] Os animais ficavam nos potreiros em taquara, a comitiva que nos levava pro colégio,trazia de volta. (os cavalos) [...] os peão da fazenda iam me levar, e compravam o que necessitava trazer de lá, o sal, o açúcar, o café. Tive no colégio dos 14 aos 16 anos (Argeu Ribeiro Velho, entrevista, 1993). Seu Vicente Ribeiro Hoffmann conta: Fui na escola do Sr. Cândido Pereira de Camargo que era do Piauí.A escola ficava na ‘Água Branca’. Fui morar na casa de um tio para poder estudar, eu era o mais adiantado da turma. Meu tio me deu uma bíblia quando me viu lendo um romance, mas o professor era meio ateu e me desaconselhou ler a bíblia, aí citei uma passagem pra ele [...] (Vicente Ribeiro Hoffmann, entrevista, 1991). O primeiro professor, era escola particular pago pelo pai era Valter Peixoto, bom professor, eu tinha 8 anos. Depois vieram pra perto, já tinha escola municipal. Os professores era Ladislau Tietböl, irmão do Maximiliano era lá no Pascoal e Otávio Silveira, os dois municipal. Outra era a aula no Suçuaiá, tive aula com o teu tio Edgar, era o Fundo dos Almas, antes um pouquinho. [...] Naquele tempo era difícil, mais lá o que eles puderam fazer foi dar o 5° ano pra cada um de nós. Já fizeram muito. Tinha que estudar tinha que ajudar em casa, papai tinha recurso, mas muito filho (Edmundo Jacoby, entrevista, 1994). Seu Ambrosio da Silva conta: Estudei muito pouco, porque era só escola particular lá no sítio às vezes tinha às vezes não tinha. Os pais que pagavam professor, o falecido pai pagou professor. Professor Otávio Silveira e um tal de Inácio. Eu não estudei... muito pouco, aprendi meio a força, assim não escrevo muito bem (Ambrósio da Silva, entrevista, 1994). Em todas as transcrições feitas partindo das memórias encontradas no Acervo, optou-se por não corrigir nenhum aspecto da oralidade dos entrevistados, pois quando se trabalha com memórias orais esse é também um aspecto importante no processo de análise. 4 Nos aspectos relacionados às aulas com professores em casa contratados pelos pais, e internatos, a entrevista com Seu Orizon Roque de Souza (Doti)5 Embora tenha a idade menor (55 anos) do que aquela estipulada no início da pesquisa, sua entrevista foi integrada por relatar fatos de uma região distante do município e que hoje pertence ao município de São José dos Ausentes. Essa região foi muito pouco referida nas outras memórias que escutei. Também por relatar memórias refe- 5 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 119 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940) é rica em detalhes, aborda os aspectos que se está discutindo com informações esclarecedoras e singulares. Em suas memórias é possível observar diferenças com relação aos outros relatos. Ele descreve um cenário de educação em uma das regiões mais distantes da sede do município de Bom Jesus. A região que abrange as localidades denominadas Silveira, Faxinal Preto6 e São José dos Ausentes, lugares situados na Região da Costa dos Aparados da Serra e que, pela proximidade com o estado de Santa Catarina, produzem práticas relacionadas à região geográfica em que se encontram, tendo um vínculo muito próximo com as cidades do estado vizinho. Ao relatar a forma como a mãe e as tias estudaram, entre as décadas de 1910 e 1920, diz: [...] existia também as meninas, tinha os colégios de irmãs em Uruçanga, existia também muitas guria, senhoras da época iam estudar em Uruçanga, São Lugero, em Santa Catarina, internas, em regime interno, lá saia uma dona de casa. Elas bordavam, fazia renda, toda a culinária, aprendia no próprio colégio [...] o pessoal ali (se refere a São José dos Ausentes, Silveira e Faxinal Preto) ia estudar Lucila. [...] o pessoal, minha mãe, minhas tias, todo mundo estudou ali e em Taguara. Minha mãe estudou em Uruçanga e em Taguara (Seu Doti, entrevista, 1995). Uruçanga e São Lugero são municípios de “Serra Baixo” 7, próximos da região da Costa. As memórias de Seu Doti retratam o que era considerado o ensino adequado para moças, no final do século XIX, início do século XX. Segundo Pesavento, “no terreno da educação das moças de elite, essa deveria ser mais branda, mesclando conhecimento do ensino elementar, tais como aritmética, gramática, francês, história, geografia e ciências com as chamadas ‘prendas domésticas’” (1998, p. 74). Continua falando de seus pais e tios: Teve nas épocas que me antecederam bons professor, meu pai, meus tios, homens de 80 anos hoje, tinham uma calegrafia beleza, uma perfeição, era uma raridade, até hoje. Foi bons professores que vieram [...] rentes a seus pais e avós, aproximadamente na década de 1920. Silveira e Faxinal Preto são distritos do município de São José dos Ausentes, que foi desmembrado em 1991 do município de Bom Jesus. 7 Termo utilizado para designar os municípios do estado de Santa Catarina localizados abaixo da Serra Geral, (Aparados da Serra). 6 120 João Laurindo, foi um grande professor, Zé Ribeiro, Tota Rodrigues que lecionava no Faxianal.Como é que eram esses professores? Quem é que pagava? Eram pagos digamos assim, um fazendeiro contratava esse professor pra lecionar, e esse aí agrupava os sobrinhos, as famílias, os amigos os parentes de perto (Seu Doti, entrevista, 1995). No que diz respeito ao estudo estar relacionado ao poder aquisitivo da família, Seu Doti comenta: O pessoal de pouco poder aquisitivo era quase tudo analfabeto. O pessoal que tinha poder, condições levava os filhos nos colégios fora [...] existia bons internatos na época e a gurizada iam pros colégios e ficavam um, dois anos, até mais. Uns chegavam a se formar.[...] (O estudar mais ou menos dependia do poder aquisitivo?) Dependia do poder aquisitivo e da intenção né? [grifo meu]. Tinha pessoas que, por exemplo meu pai, era um homem semi-analfabeto e dizia o seguinte ‘que não interessava deixar um palmo de terra se formasse os filhos’, inclusive na época, era muito combatido, muito criticado, tinha gente, nos éramos 10 irmãos, tinha pessoa de base, homens de ponta da época, diziam ‘tu vai formar um os outros vão morre de fome, isso é uma lucura, onde já se viu estuda os filhos’ (Seu Doti, entrevista, 1995). Com relação aos peões das fazendas, responde: Também tinham a oportunidades de estudar, aprender o ABC, como eles diziam. Então aprendiam a desenhar o nome e tal. Lado onde passou professor na época, as pessoas, branco, moreno, mulheres, tudo aprenderam a escrever. Nós no Faxinal Preto tivemos esse privilégio [...] meus antecessores, tios, meu pai, que houve esses professores, e aí aprenderam a ler, escrever, fazer as quatro operação [...] era o básico da região, quem sabia escrever e fazer as quatro operação tava formado (Seu Doti, entrevista, 1995). Ao terminar esse relato, comenta rindo com a professora Lucila que “[...] quem sabia escrever e fazer as quatro operação tava formado”. Ao recordar seus estudos, já na década de 1940, Seu Doti ainda relata: Eu pra estudar, a princípio meu pai contratou uma moça que chamava-se Dona Ermínia Valim,[...] ela nos lecionou um ano em casa. Nós éramos na época, era seis irmãos que estudavam em casa. Os mais Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 Luciane Sgarbi S. Grazziotin velhos a Dorvina e o José teve escola no Faxinal, eles estudaram um pouco no Faxinal.O Luiz José estudou nos Ausentes um pouco. A Dorvina, depois foi pra um convento de freiras estudou até uma época, depois foi pra Caxias. Eu estudei um ano em casa depois fui pro Faxinal, estudei com uma professora municipal [...] Dona Alice Moreira. Minhas irmã, dois anos depois, se formaram e voltaram a lecionar no Faxinal eu fiz até o quinto ano com elas e com o professor que veio de Vacaria, Miguel Zulmar Paim. Fui aluno dele, [...] fiz o admissão e parei. Fui pra Caxias um tempo, eu gostei sempre da lida do campo, então pedi pro meu pai que não me colocasse mais em colégio [...] abracei essa campanha do campo, calcei bota e bombacha [...] e tô lá até hoje (Seu Doti, entrevista, 1995). A professora Lucila, também na década de 1940, rememora as aulas que teve em casa, na mesma época que Seu Argeu, quando fala da educação dos filhos. [...] o primário [...] eu comecei com professor particular em casa, era uma pessoa, que se pode dizer, semi-analfabeta. A minha mãe não tinha tempo de nos dar aula, então ela ficava bordando, fazendo o serviço e explicava para o professor e ele nos dava aula. Hoje, quando penso no professor, ele não tinha as mínimas condições. Depois desse, tive mais uma professora e um professor [...] em casa [...] era eu minha irmã e tinha outra pessoa, eu acho que a filha de um empregado. Depois nós fomos para a escola municipal há 1 km da nossa casa, que nós morávamos no sítio e essa professora também sabia muito pouco. Ela mais ficava contando anedotas para nós ao redor do fogo [...] e os guris ela mandava pra rua brincar. Até aí estava na 3º série, aí fui estudar em Antônio Prado no colégio das irmãs de São José (Lucila, entrevista, 2004). Meus filhos tiveram professor em casa, paguei professor particular pra lecionar, chamava-se Pedro Henrique Magaldi, apelido Totinha, era de são Joaquim, mas criado em Bom Jesus. Ele lecionou em duas localidades, eu me mudava muito, deu aula em Monte Alegre e na Fazenda São Luiz (Seu Argeu, entrevista 1993). Dona Emília, quanto aos estudos de seus filhos, relata que Aprenderam a escrever com sabugos, faziam as letras com sabugo, a primeira aula foi em roda do fogo, os pais e os tios que ensinavam os filhos, o tio mais velho era responsável por cuidar de todas as crianças. Aprendiam com o tio o alfabeto fazendo todo o alfabeto com sabugo de milho. Não tinha colégio, meu marido justava um professor em casa e juntava os vizinhos para dividir as despesas. O primeiro professor contratado na fazenda das Almas, para ensinar meus filhos foi Seu Alfeu ele era do 8º distrito, além de professor era também artesão de chifre. O professor morava na fazenda, ganhava casa e comida e cada vizinho pagava para seu filho. Pra fazer o admissão nós justava um professor mais sabido (Emília, entrevista, 1993). Pelo que é possível projetar partindo da idade dos sujeitos, as memórias das aulas em casa percorrem uma temporalidade relativamente extensa, desde a Dona Júlia Kramer, na década de 1910, passando por Seu Vicente e Edmundo, mais ou menos na década de 1920, Dona Alvina, na década de 1930, até Seu Doti, professora Lucila e os filhos de Seu Argeu na década de 1940. São, portanto 40 anos de uma prática autônoma de estudo, formas de ensinar e aprender que se deram na zona rural, durante um determinado tempo, fora da instituição escolar e que, no entanto, segue certas normas da cultura escolar. Dominique Julia (2001) aponta o espaço escolar como um dos elementos essenciais à constituição de uma cultura escolar. Mesmo que as aulas em casa, obviamente, não contemplem essa premissa, nesse processo percebem-se os outros dois elementos enunciados por Julia que são: certa graduação nos conteúdos e um professor, profissional específico para o trabalho. Essa forma de dar estudo aos filhos, em regiões onde não havia escolas nem sequer uma aula, era alternativa amplamente adotada na região. A carência de aulas, em muitos casos, parece acontecer em razão da distância da localidade em relação à sede do município ou no caso da região ter poucos alunos, o que se pode concluir pelo Decreto nº. 19, de 01/08/1926, que “transfere a aula mista de Rondinha para a Ramadinha no 1º distrito desse município, devido à exigüidade de freqüência”8. No percurso das memórias é possível observar, ainda, algumas características comuns à maioria dos relatos. Isto é, a prática habitual de que o professor morasse na casa dos pais dos alunos. Em Livro de Registros de decretos governativos municipais D-L-01, 1925 a 1940. 8 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 121 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940) caso de uma determinada família contratar um professor e haver vizinhos interessados na aula, as crianças frequentavam a casa dessa família com o propósito de estudar, e cada pai contribuía, pagando o professor de acordo com o número de filhos. Parecia haver colaboração entre famílias, vizinhos, patrões e empregados na forma de “gerenciar” o ensino. Isso é observado nas memórias do Seu Doti, quando conta sobre o acesso das pessoas da região ao estudo: “[...] também tinham a oportunidades de estudar, aprender o ABC, como eles diziam. Então aprendiam a desenhar o nome e tal. Lado onde passou professor na época, as pessoas, branco, moreno, mulheres, tudo aprenderam a escrever”, e Dona Emília: “Não tinha colégio, meu marido justava um professor em casa e juntava os vizinhos para dividir as despesas”. A precariedade na formação desses professores é percebida em alguns casos e parece não estar relacionada com a época; constata-se essa afirmação nas seguintes falas: “Pra fazer o admissão nós justava um professor mais sabido”; “A minha mãe não tinha tempo de nos dar aula, então ela ficava bordando, fazendo o serviço e explicava para o professor, e ele nos dava aula. Hoje, quando penso no professor, ele não tinha as mínimas condições”, ambas mais ou menos da década de 1940. No entanto, isso não pode ser considerado uma regra, visto que em outros depoimentos encontra-se; “Teve nas épocas que me antecederam bons professor [...]. Foi bons professores que vieram”; “João Laurindo, foi um grande professor, Zé Ribeiro, Tota Rodrigues que lecionava no Faxinal”. Nesse caso, calcula-se que seja final da década de 1910, início de 1920. Os professores, em muitos casos, provinham de municípios vizinhos como Araranguá e São Joaquim, outros surpreendem pela distância. Um exemplo é o professor Cândido Pereira de Camargo que, segundo Seu Vicente, era do Piauí. Continuando com as memórias sobre as aulas em casa, Dona Lili recorda como iniciou seus estudos: Iniciei meus estudos em casa, na fazenda onde morava com meus avós. O professor era Seu João Telatin, a aula era particular, o professor lecionava na cidade para vários alunos e vinha para a fazenda só para dar aulas pra mim. Com mais ou menos 12 anos fui para o internato São José em Vacaria, a 122 onde fiquei durante dois anos, as aulas do professor Telatin9 permitiram que eu acompanhasse o internato (Dona Lili, entrevista, 1997). O professor Telatin foi dono de uma escola particular na sede do município. Dona Lili dá a ver um pouco mais desta educação, com professores contratados pelos pais. Uma pergunta que surge no decorrer da pesquisa é: como se media o grau de escolarização para enquadrar os alunos no ensino regular visto que, nas “aulas com professores em casa”, isso não ficava definido? Por meio do relato de Dona Lili, o exame para avaliar o nível de conhecimento do aluno era o que o enquadraria na série correspondente ao seu desempenho. O depoimento da professora Lucila corrobora essa prática, ilustrando um fato específico de sua vida que poderia ocorrer com certa frequência com relação a alunos que iniciaram seus estudos fora da instituição escolar. [...] teve umas situações bem engraçadas, todo mês tinha sabatina, eu não tinha a mínima idéia o que era isso [...] Chegou o dia da tal sabatina... a professora ditou, primeira questão, e eu: como professora? A palavra mais parecida que eu conhecia era cristão, então coloquei 1º cristão. 2º cristão [...] terminada a prova a irmã chamou minha tia - que eu morava com ela - para me remover para a 1º série. Aí minha tia e minha prima que já estava no 3º ano do ginásio me ensinaram. Minha tia pediu pra irmã me deixar ficar mais um pouco para ver se eu acompanhava [...] aí eu aprendi. Naquele ano mesmo eu fui promovida pra 4º série e elas acharam que eu tinha condições de fazer o admissão no fim do ano, mas meu pai foi sábio, disse: essa guria tá muito fraca, pode não acompanhar o ginásio. Aí eu ganhei o ensino regular [...] fiz o ginásio em Antônio Prado parando na casa da minha Bisavó e de uma tia (Lucila, entrevista, 2004)10. Além do enquadramento na série correspondente de forma um tanto arbitrária, outro aspecto emerge do relato da professora Lucila, o que diz respeito a morar longe de casa e da família para seguir estudando. Nesse sentido, os internatos O nome desse professor é encontrado com diferentes pronúncias nos depoimentos: Talatin, Telatino e Telatin. Optamos por registrar esse último, pois é o mais frequente e encontra-se escrito num caderno de caligrafias pertencente a uma das entrevistadas da pesquisa. O mesmo não acontece com outros nomes, tais como Inês, Inez ou ainda com Ganz; não tiveram a grafia uniformizada. 10 Entrevista não pertence ao AMO. 9 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 Luciane Sgarbi S. Grazziotin religiosos eram a alternativa para que meninos e meninas pudessem continuar os estudos. Questões como estudar em colégio interno, morar na casa de parentes ou de amigos, ficar distante da família evidenciam-se nesse e em outros depoimentos, como os de Dona Sueli e Dona Olenca: Fiz o primário com as Irmãs Ramos, fiz admissão e fui estudar em Tubarão onde fiz o Complementar. A gente ia de burro, no lombo de um burro até Araranguá, levava umas canastra com o enxoval do colégio, meu pai levava nós (ela e as primas) e os empregados esperavam lá, depois nós ia de trem até Tubarão. Não vinha nas férias, os pais é que iam, a gente não tinha esse mundo de férias que nem hoje eram só 10 dias e era muito dispendioso.[...] No primeiro ano estudava eu a Ilse e a Odete (primas), depois foi a Leonor e a Beloni (primas). A Julinha já estudou em Vacaria, já tinha colégio aqui, [...] a Odila e a Noeli ainda tiveram que estudar em São Leopoldo, mas tinha ônibus, levava uns 2,3 dias mas era melhor. (melhor que Tubarão) (Dona Sueli, entrevista, 2002). Fiz o primário interna no Sévigné em Porto Alegre, depois no colégio Santa Catarina em Nova Hamburgo. Quando reprovei em duas matérias fui estudar num pensionato em Caxias, lá fiz o Complementar11 para ser professora (Dona Olenca, entrevista, 1995). As memórias de Dona Olenca e Profa. Lucila trazem diversos aspectos surgidos em decorrência da falta de escolas, questões comuns a determinada época, numa região distante da capital. A prática de morar com familiares longe de casa, falta de qualificação dos docentes, dificuldades de enquadramento no ensino regular evidenciam as peculiaridades do acesso ao saber que, nesse tempo, em muitas situações, só era possível com essa prática de “aulas em casa” e regimes de internato. Outra prática comum, que pode ser observada no contexto analisado, tem a ver com a idade de permanência no internato. Dona Maria dos Prazeres ficou no internato até os 16 anos, Dona Alvina saiu do colégio com 17 anos, Seu Argeu ficou até os As escolas Complementares iniciam-se no Rio Grande do Sul a partir de 1906. De acordo com Werle, surgiram [...] em substituição aos Colégios Distritais, atendendo aos alunos que se mostravam habilitados nas matérias do curso elementar, com o objetivo de desenvolver e aprofundar o ensino desse nível e de preparar candidatos ao magistério público primário, mediante estratégia de caráter privativo e profissional (2005, p. 620). 16 anos; entre os 16 e 18 anos também encerram seus estudos Dona Olenca e Dona Sueli. Parece ser essa faixa etária um limite para a escolarização, sem alusão ao término de algum tipo de formação específica, excetuando-se as duas últimas, que concluíram o Complementar12. O hábito de morar com parente ou conhecido é relatado por Seu Vicente, que morou com um tio; Dona Maria dos Prazeres, que “parou na casa do Seu Francisco Spinellli”; a professora Lucila, que foi morar em Antônio Prado com sua bisavó e uma tia; e a Dona Júlia, que morava com as próprias professoras, no caso, as Irmãs Ramos. Não comentam que pagassem alguma importância pela hospedagem, parece ser aquele exemplo de solidariedade compartilhada, prática que diz respeito talvez à cultura de uma região. A prática de “parar”13 com alguém para estudar parece ter sido – em virtude das distâncias, das dificuldades financeiras e da inexistência de escolas para continuação dos estudos – uma necessidade e uma alternativa nem sempre tranquila. As memórias da professora Lucila nos ajudam a entender essa prática. Antes de falar sobre a escola vou comentar sobre o choque cultural. Menina criada no sitio, com pais muito liberais para a época, pois conversavam conosco, ia-se a bailes desde pequenas, rezávamos, principalmente na casa da avó paterna, mas em casa eram feitas orações normais, pois minha mãe tinha muita influência espírita, [...] Para a minha mãe o diabo era a sogra dela, ir morar com pessoas que tudo era pecado, a missa era quase diária, baile nem falar, cinema jamais, pois se o filme fosse sobre a vida de um santo ai que o pecado era grande, visto que os artista eram pecadores por estarem repre12 Ao contrário das Escolas Normais surgidas em 1860 no Rio Grande do Sul, que inicialmente tiveram um caráter assistencialista, vinculadas ao poder público, a Escola Complementar era destinada ao atendimento das jovens de classes mais abastadas e “[...] não estava vinculado às estruturas de poder que intervinham politicamente na instrução pública da região, no que se diferenciava da antiga escola Normal” (WERLE, 2005, p. 620). Pesavento afirma que o programa no Colégio Sèvigné, inaugurado em Porto Alegre em 1900, compreendia trabalhos de agulha, canto, piano etc. “[...] também preparar as moças através dos cursos elementares e de habilitação para o magistério” (1998, p. 74). Assim, a escola complementar “[...] enquanto internato era uma instituição total assegurando a incorporação de um habitus ligado ao papel da mulher e à constituição da professora”. (WERLE, 1997, p. 311). 13 Termo regional comumente empregado nas entrevistas que significa morar com alguém. 11 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 123 Aulas com professores em casa: memórias do ensino rural em Bom Jesus (1910-1940) sentando a vida de um santo. Estudei seis anos em Antônio Prado, foi uma época difícil, mas valeu a pena. Hoje vejo que a minha tia cuidar de sobrinhos também não deveria ser nada fácil, principalmente pela responsabilidade assumida, só vínhamos para casa nos períodos de férias, se ficássemos doentes elas tinham que providenciar médicos, remédios, etc. pela quebra da rotina, etc. Assim é que lembro desse período com saudades e seguido vou visitar amigas que lá ficaram (Lucila, entrevista, 2004). Esse relato, sobre a dificuldade de morar com outra família, é basicamente a única referência nas memórias que escuto. Mesmo não sendo explicitadas pelos demais sujeitos da pesquisa, é possível que as diferenças e problemas de adaptação existissem em várias situações. O Quadro 1 foi organizado de forma a indicar a relação dos professores mencionados nas memórias e que ministraram aulas em casa. QUADRO 1. Relação de professores que ministraram aulas em casa – 1910-1930 Observando-se o Quadro 1 pode-se pensar sobre alguns aspectos das relações de gênero e do processo de feminização do magistério, visto que entre os 13 professores lembrados há somente uma mulher. No contexto pesquisado emergem algumas formas específicas de ensino, singulares, em alguma medida, às culturas do lugar. No entanto, algumas dessas práticas observadas nos Campos de Cima da Serra já foram mencionadas em outras pesquisas, de outros lugares, referentes ao mesmo tema. Não se pode afirmar que as práticas mencionadas perduraram durante uma temporalidade específica, não existem rupturas drásticas em educação, pois no mesmo espaço temporal mesclam-se aulas em casa, internatos, aulas localizadas na região rural e espaços escolares que na cidade começam a surgir e perduram, até quando nos foi possível observar, convivendo por 40 anos, aproximadamente. 124 Os aspectos aqui abordados não têm a intenção de salientar especificidades regionais e culturais como únicas, numa espécie de “narcisismo das pequenas diferenças”, como afirma Burke (2000), e sim salientar algumas particularidades que, provavelmente, façam parte de uma história de maior amplitude. A especificidade está no vivido, na experiência de vida de cada sujeito que rememora. A universalidade está nos pontos de contato entre essas e outras memórias, de outras culturas, nas práticas adotadas, nas formas de contornar os problemas relativos à educação, que, ao longo do tempo, instituíram-se, permanecendo durante décadas em diferentes espaços. Diferentes aspectos demarcam diferenças e/ou semelhanças, funcionando como dispositivos discursivos para determinar particularidades regionais ou identificações com um contexto maior (BASTOS, 2008). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 115-125, jul./dez. 2011 Luciane Sgarbi S. Grazziotin REFERÊNCIAS BASTOS, Maria Helena Câmara. Pense globalmente, pesquise localmente: em busca de uma mediação para a escrita da história da educação. [S.l.: s.n.], 2008. (texto ainda não publicado) CHARTIER, Roger. Leituras e leitores na França do antigo regime. São Paulo: UNESP, 2004. FERNADES, Rogério. Prefácio. In: VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. 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Por entender que as identidades são pontos de apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós, busco analisar as práticas discursivas que se materializam na escola da cidade e que materializam as identidades dos alunos e alunas da roça, por meio da inscrição desses sujeitos nos discursos escolares dos professores e professoras, sendo este um espaço de ancoração simbólica e cambiante dos sentidos e saberes fundadores de identidades. Portanto, este texto traz práticas discursivas/pedagógicas desenvolvidas na escola da cidade, desvelando os sentidos produzidos sobre os alunos e alunas da roça por meio dos relatos dos professores e professoras do Programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) do município de Serrolândia (BA) e pelas atividades desenvolvidas nas salas de aula, mostrando os fios discursivos tecidos na escola na “legitimação”, desconstrução, contestação e negociação da identidade e dos saberes do aluno e aluna da roça que estudam na cidade. Palavras-chave: Identidades. Discursos. Práticas docentes. ABSTRACT CITY TEACHERS, COUNTRYSIDE STUDENTS: IDENTITIES AND DIRCOURSES WITHIN THE SCHOOL This article aims at analyzing what is said and unsaid by city teachers about countryside students, how it is portrayed the countryside students in their discursive/educational practices. Considering that identities are temporary points of attachments to subjects’ position which the discursive practices set up for us, I propose to analyze the discursive practices which are materialized within city schools and which materialize the identities of countryside students through the insertion of these individuals in the school discourses of the teachers as it is seen as an area of symbolic and changing anchoring of the meanings and knowledge founders of identities. Thus, this text brings discursive/educational practices developed in city schools, unveiling the meanings produced upon countryside students through reports of the teachers of EJA (Programa de Educação de Jovens e Adultos) in Serrolândia (BA) and throughout activities Doutora em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Professora Adjunta do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus IV. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Endereço para contato: Uneb – Departamento de Ciências Humanas – Campus IV, Jacobina. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 127 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola developed in classrooms, pointing out the discursive threads within the school in the “legitimation”, deconstruction, contestation and negotiation of identity and knowledge of the countryside student who happened to study in the city. Keywords: Identities. Discourses. Teaching practices. Introdução Nos diversos espaços sociais dos quais fazem parte, os alunos e alunas da roça1 deparam-se com práticas discursivas distintas. Contudo, é na escola que elas desempenham um papel maior sobre a legitimação das identidades dos alunos. Diante disto, o objetivo deste trabalho é analisar as práticas discursivas que se materializam na escola da cidade e que materializam as identidades dos alunos e alunas da roça, por meio da inscrição desses sujeitos nos discursos escolares dos professores e professoras, sendo este um espaço de ancoração simbólica e cambiante dos sentidos e saberes fundadores de identidades. O discurso é concebido neste estudo como uma prática social, na qual nos posicionamos e somos posicionados nas/pelas práticas discursivas. Entendendo o discurso como uma produção social, é necessário levar em consideração o contexto histórico-social em que é produzido, suas condições de produção, observando como essas práticas sociais estão armazenadas em uma memória coletiva, social, institucionalizada. Desse modo, como construção social e discursiva, a identidade é uma ficção, uma ilusão, um pertencimento inventado e, sobretudo, um efeito de poder em que alguém pode falar em nome do outro, dizer quem é o outro, estabelecer o seu “regime de verdade” (FOUCAULT, 1979). A escola da cidade estabelece uma relação de sentidos e significados na constituição da identidade dos alunos e alunas da roça, sendo um lugar concebido como contexto de construção de saberes legítimos para a sociedade letrada/científica. Nesse caso, é um local em que, pelas práticas discursivas desenvolvidas pela comunidade escolar, sobretudo pelos professores e professoras, os sujeitos aprendem a se representar e representar os outros no mundo social, assim como são representados pelos A roça é concebida aqui como uma “ruralidade específica” envolta, principalmente, na semiótica da terra. 1 128 outros em um movimento prenhe de sentidos ambivalentes adquiridos com base em outros saberes que são vivenciados fora do espaço escolar. As identidades de alunos e alunas da roça que estudam na cidade são constituídas com base na impossibilidade de inteireza, num movimento contraditório, fluido, ambivalente na sala de aula. As práticas discursivas dos professores e professoras do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) os levam, na maioria das vezes, para um lugar contrário a isso, para uma busca de unidade identitária – há uma procura da construção do “mesmo”, do homogêneo. Nesse contexto, a tendência é atribuir características singulares, únicas, idênticas, marcadas pela continuidade, pela “produção do mesmo”. Assim, a “mesmidade” torna-se o sentido fundador das práticas discursivas escolares desenvolvidas pelos docentes. Dessa forma, as identidades têm implicações diretas com a concepção de como o conhecimento é produzido em sala de aula; como e quais identidades são legitimadas nesse espaço social em que se defrontam identidades sociais marcadas pela cultura, pela história e pela instituição. Baseada nas observações de aula e das entrevistas realizadas durante a pesquisa do Doutorado2, percebi que há na escola uma tentativa de “normalizar” os alunos e alunas da roça, inserindo-os em um modelo estabelecido. As tentativas de imposição do modelo, em especial do modelo escolar urbano, buscam a ideia da unidade identitária do que seria “o estudante, a estudante”, selecionando apenas aqueles que conseguem adequar-se aos seus padrões. A relação com o outro é feita com base na adequação ao outro, e não em um movimento de alteridade e constituição de identidades. Este artigo apresenta, baseado na realização de pesquisa etnográfica, experiências docentes vivenciadas na relação com o outro (aluno e aluna da A pesquisa foi realizada nos anos de 2007 e 2008, resultando na tese intitulada Entre a Roça e a Cidade: Identidades, Discursos e Saberes na Escola. 2 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios roça) apoiadas nas diferentes práticas discursivas/ pedagógicas observadas nos registros de cenas da sala de aula. Cenas da sala de aula: identidades e diferenças Fixar uma identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. No caso da escola da cidade, a identidade do aluno e aluna da cidade é a norma, e a outra é a desviante. Constituída de representações imaginárias, a identidade do aluno e aluna da roça, na escola da cidade, se faz pela construção ficcional destes sujeitos pelos professores e professoras da cidade, via discurso. O discurso, nesse contexto, é algo poderosíssimo, delimitando as posições ocupadas pelos sujeitos na escola. Foucault (2004) aponta o sistema escolar como um dos mais relevantes mecanismos de apropriação social do discurso, ressaltando também que a escola tem-se constituído em um mecanismo de controle do discurso, impondo aos indivíduos que o pronunciam certo número de regras e não permitindo que todo mundo tenha acessos aos discursos. Para dar conta das diferenças existentes na relação com o outro, Todorov (1993) apresenta três eixos nos quais pode ser situada a problemática da alteridade presente na sala de aula. Primeiramente, um julgamento de valor (um plano axiológico): o outro é bom ou mau; gosto dele ou não gosto dele. Visualizei esse julgamento na prática docente por meio dos estereótipos utilizados para os alunos e alunas, intitulando-os de fracos, bonzinhos, atrasados. Em segundo lugar, a ação de aproximação ou de distanciamento em relação ao outro (um plano praxiológico): adoto os valores do outro, identificome a ele; ou então assimilo o outro, impondo-lhe minha própria imagem. Entre a submissão ao outro e a submissão do outro há ainda um terceiro termo, que é a neutralidade, ou indiferença. Na sala de aula, observei isso em relação aos níveis de aprendizagem dos alunos e alunas. Havia “submissão” por parte dos professores e professoras ao perceberem alunos e alunas que se destacavam no processo ou, em sentido contrário, indiferença àqueles que demonstravam apatia ao processo de ensino-aprendizagem. Em terceiro lugar: conheço ou ignoro a identidade do outro (um plano epistemológico). Situo nesse eixo, com base nas práticas docentes observadas, a relação de distanciamento dos saberes dos alunos e alunos da roça ao se situarem como os responsáveis pelo saber legítimo, delineando apenas uma possibilidade de produção de conhecimento. Essas relações discursivas influenciam a constituição das identidades dos alunos e alunas da roça, conforme a maneira como esses e essas são inscritos nos discursos. Podemos observar na fala da professora de Língua Portuguesa como ela retrata a adequação dos alunos e alunas da roça à escola da cidade: “Agora no dia a dia de sala de aula a convivência deles é normal.” O efeito de sentido presente nesse discurso traduz-se na necessidade que os docentes têm de “incluir” o outro por meio do apagamento das fronteiras, das diferenças que singularizam o aluno e aluna da roça e os tornam “normais”. A normalização é uma produção sutil de poder, determinando modelos, desvios, relações na sala de aula. Conforme Silva, Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural”, desejável, única. A força da identidade normal é tal que ela nem sequer é vista como uma identidade, mas simplesmente como a identidade. Paradoxalmente, são as outras identidades que são marcadas como tais. [...] A força homogeneizadora da identidade normal é diretamente proporcional à sua invisibilidade (2000, p. 83). Em sala de aula a normalização determina o que aprender, como aprender, o material didático, a proposta pedagógica, o que é ser “alguém” na vida; enfim, marca as posições nos discursos e os sentidos que devem ser construídos. Levando essas reflexões para a sala de aula, observei que as práticas pedagógicas instituídas nesse espaço procuram normalizar os alunos e alunas da roça tomando-se por base as propostas, programas, livros didáticos, currículo, sistema e, acima de tudo, a ação isolada do sujeito-professor que não consegue visualizar outras referências de identidades, não vislumbra em Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 129 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola sua prática o outro presente na interação, nem nos movimentos discursivos que promovem mudanças na ordem das coisas. O discurso “verdadeiro” do professor e da professora, o conhecimento legítimo, exames, classificações, estabelecem, por meio das redes de poder, padrões “normais” para os alunos e alunas da roça na escola da cidade. Isso produz o que Foucault (1979) chama de indivíduos “normalizados”. Ao observar e acompanhar onze docentes do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) durante um semestre letivo, pude constatar a busca pela “produção do mesmo” na escola, utilizando-se de aulas padronizadas, instituição da “verdade”, falas distantes da realidade da roça, silêncios, saber escolar x saber da roça. Neste estudo, apresento a descrição de trechos de quatro aulas que mobilizaram mais intensamente os sentidos e significados presentes nas práticas discursivas/pedagógicas dos docentes sobre a constituição de uma identidade única, “normal” para os alunos e alunas da roça. Como podemos observar no registro abaixo da aula de Filosofia: A professora inicia a aula distribuindo os alunos e alunas em duplas para lerem um texto sobre o “EU”. O texto era lido e discutido por parágrafos. A professora fala sobre a importância de se identificar, de dizer quem cada um é, o que faz, o lugar da escola para ser alguém na vida. Os alunos e alunas nada dizem, não comentam o assunto. A professora introduz questionamentos depois da leitura do texto: ’Quem sou eu? O que é preciso para encarar a sua própria forma de ser? Como a escola me ajuda na vida‘. Alguns alunos e alunas respondem em voz baixa a pergunta, entre eles Mauri: ’Eu sou Mauri, do Pé do Morro‘. A professora continua sua exposição oral: ’Cada um de nós tem uma história, vem de um lugar, de uma família, mas todos nós somos iguais, não existe diferença porque nós somos filhos do mesmo Pai’. A professora continua pedindo para que cada um escreva um pouco sobre sua história de vida. Ela pede para alguns alunos relatarem oralmente suas histórias de vida. Um aluno começa dizendo o que faz e quem é. A professora interrompe mostrando um roteiro geral para a construção da história que constava de: quem eu sou (nome, família), onde nasci (local, data, idade), o que faço (estudo, trabalho), futuro (como posso ser alguém na vida, sair para cidades grandes, como mudar), dizendo que: 130 ’Na hora de fazer o texto, vocês tem que mostrar as coisas importantes da vida de vocês – a família, a escola... No caso da escola, porque ela vai ajudar a ser alguém na vida’ (Registro de aula retirado das anotações do diário de campo). Na aula de Filosofia, a professora pretende trazer à tona uma discussão sobre identidade. Há um esforço de sua parte em mostrar para os alunos e alunas que é necessário saber quem cada um é, e a importância da escola nessa constituição. A forma como a professora conduzia a realização da atividade estabelecia a história a ser narrada e, consequentemente, a identidade que poderia ser revelada. A identidade foi circunscrita e concebida na sala de aula como uma essência – cada um é. Identificar-se, definir-se, eram ações fundantes para a formação do estudante, principalmente em razão do papel que a escola representava em torná-lo “gente”. O princípio da igualdade esteve sempre presente na aula como um potente instrumento de redenção e também como um instrumento de regulação. Era necessário que os alunos e alunas convivessem em igualdade; era necessário silenciar as diversidades para que a identidade única, fixa, pudesse ser claramente posta para cada um e cada uma que fizessem parte daquele lugar. Esse é um efeito de sentido que a aula produz no momento em que a docente institui a discussão do “Eu” como produtor de uma identidade essencialista do estudante e da estudante na escola da cidade. Essa delimitação silencia as identidades que não são incorporadas aos padrões educacionais vigentes. Isso por que os sujeitos que circulam no espaço escolar carregam consigo diferentes experiências de mundo, sobretudo os alunos e alunas oriundos da roça. Nessa aula, percebemos que o outro precisa enquadrar-se na norma. Outras possibilidades de história de vida – ser alguém em locais distintos de cidades grandes, ser alguém na roça, estar sendo alguém naquele momento da produção na aula – são descartadas pela docente. O outro deve ser uma repetição do mesmo em que este é obrigado a converter-se à “mesmidade” para ser aceito no grupo. Especificamente no que se refere aos alunos e às alunas da roça, a “mesmidade” construída oculta as diferenças e mantém a irrelevância e invisibilidade desses sujeitos no espaço escolar. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios Outra aula que chamou bastante atenção foi a de matemática, em que o professor conduz a atividade mostrando o caminho de acesso ao saber escolar por meio de exemplos dados no quadro de giz. É apresentado um modelo a ser seguido, construído com base no “regime de verdade” instituído pela/ na escola. O professor inicia a aula colocando exemplos do assunto no quadro de giz. Depois de explicar os exemplos dados, o professor apresenta a seguinte atividade: ’Agora vamos copiar um problema no caderno para ver se vocês conseguem responder como eu expliquei‘. O problema versava sobre a construção de uma parede por um pedreiro. Assim que o professor termina de ’ditar‘ o problema matemático, Marcelo apresenta a resposta. O professor faz o seguinte pedido a Marcelo: ’Faça como expliquei no quadro‘. Marcelo pergunta ao professor: ’A resposta tá errada?’ O professor diz: ’Vá fazer como eu expliquei pra você aprender’. Os exemplos feitos pelo professor continuam no quadro de giz. O professor caminha pela sala, observando a atividade individualmente em cada carteira. No final da aula, os alunos e alunas são chamados a irem ao quadro de giz para responder ao problema. O professor diz: ’Você não quer vir Marcelo?’ Ele responde: ’Eu só sei fazer conta de cabeça’. O professor chama outro aluno para responder o problema. Um aluno da cidade aceita: ’Eu vou, mas vou com o caderno’ (Registro de aula retirado das anotações do diário de campo). Um dos efeitos de sentido que a descrição da aula sugere é o delineamento da diferença nas formas de lidar com o saber escolar, o qual surge para Marcelo em uma aproximação que ele faz com o cotidiano, com o seu “saber da experiência” (LARROSA, 2002) e, sobretudo, com a “lida” na roça e com os saberes trazidos por seu pai, como podemos observar em sua história de vida: “[...] aprendi muitas coisa com ele [pai] na roça, até cubar a terra e fazer conta de cabeça”. As formações discursivas de Marcelo, presentes em seu discurso nessa aula, revelam a sua identidade de filho de trabalhador rural e, consequentemente, os saberes oriundos desse lugar discursivo e simbólico que ele ocupa. Os saberes vividos na roça, como contar sacos de feijão, milho, vender produtos agrícolas na feira e, sobretudo, realizar as cubações de terra3, Estimativa sobre a área de um terreno. 3 estabelecem relações fecundas com o mundo da matemática, porém não são legitimados socialmente. Knijnik reflete sobre as contribuições desses saberes na produção dos conhecimentos da matemática com base nos estudos realizados pela etnomatemática4: [...] Da perspectiva da etnomatemática, existem também outras formas de produzir significados matemáticos, outras formas que são igualmente etnomatemáticas, manifestações simbólicas de grupos culturais como, por exemplo, as matemáticas das diferentes nações indígenas, a matemática de distintos grupos profissionais e aquela praticada pelas agricultoras e agricultores em suas atividades laborais (1997, p. 39). Baseado na perspectiva da etnomatemática, é possível estabelecer diálogos entre a matemática e a cultura, opondo-se aos modelos tradicionais de ciência pautada na homogeneidade e universalidade do saber. A ideia de ciência posta na aula observada é pautada no paradigma da modernidade, centrado na razão e na concepção de sujeito homogêneo, consciente, universal, racional, em uma perspectiva de homogeneização das identidades, com verdade pronta, caminho único para acesso ao conhecimento, apenas uma lógica do conhecimento. É intensa a luta que a escola propõe aos alunos e alunas da roça a travar contra o “saber da experiência” (LAROSSA, 2002), contra aquilo que é desenvolvido como sabedoria de vida. A adesão dos alunos e alunas da roça aos conhecimentos científicos pressupõe a existência de outra racionalidade e de outra relação com o mundo rural, e, como efeito, a constituição de uma outra identidade. Na aula de matemática, a ação de responder à questão imediatamente por meio de “contas de cabeça” revela o lugar ocupado no discurso por Marcelo. Ele fala do lugar do filho de pequeno agricultor, que aprendeu a raciocinar sobre a matemática a partir da semiótica produzida pela terra. Contudo, esse saber é desautorizado em sala de aula. O posicionamento discursivo do professor, ao pedir que siga o modelo exposto em seus exemplos no quadro de giz, revela uma crença na produção de via única do conhecimento matemático, a qual é feita por um grupo social autorizado socialmente Vertente da educação matemática que surge, na década de 1970, da análise de práticas matemáticas em diversos ambientes culturais. 4 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 131 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola a produzir ciência. Essa é uma visão sobre o saber escolar tido como algo pronto, dado nos cursos de formação e que, na prática, na sala de aula, é aquele consagrado nos programas das disciplinas, materializado nos livros didáticos e ilustrado nos exemplos dados no quadro de giz. O professor apresenta uma produção unilateral do conhecimento, apagando as diferenças reveladas em outras formas de significar a matemática. A interpretação é tida como única; não existem aí interpelações de vozes. Isso ocorre muito frequentemente na prática escolar por meio dos embates entre a interpretação “científica” dos docentes e o saber da experiência dos alunos e das alunas da roça. Essa relação estabelecida com o saber escolar modifica a experiência que os alunos e alunas da roça têm de si mesmos, dos seus lugares, dos seus saberes, produzindo outras identidades. Assim, eles silenciam e/ou abandonam os saberes que os constituem para compreenderem outra lógica, outra racionalidade. Nesse modelo de prática pedagógica, o professor preocupa-se com o acúmulo de informações, sem levar em consideração os sentidos que perpassam todo esse processo de descoberta, os sujeitos que são descobertos pelo resultado da ação, a descoberta do outro. O outro passa a ser concebido como um “mesmo”. Em vez de enfatizar a construção conjunta do saber legítimo mediante interação com os saberes dos alunos e alunas da roça, construídos com base em experiências concretas desses sujeitos, os docentes parecem optar pela regulação dos discursos por “verdades” científicas pautadas em uma racionalidade moderna, adotando formas normativas, institucionalizadas e ritualizadas de (re)produzir o conhecimento escolar. Nos interdiscursos que circunscrevem as atividades, as explicações, os rituais, os discursos instituídos, há, em algumas aulas observadas, um desenho de aluno e aluna já posto. Os professores e professoras chegam à sala de aula com um perfil delineado do/da estudante, em que não se pressupõe que sejam sujeitos com/de conhecimento, há um vazio muito grande a ser preenchido pelo saber escolar. Assim, os docentes partem de um lugar discursivo para construírem um modelo que prevê identidades fixas, com configurações rígidas e posições estáveis. Dentro desse contexto, o perfil de 132 aluno e aluna da cidade passa a ser a referência de identidade trabalhada na sala de aula. A professora de Língua Portuguesa introduz o assunto da aula com charadas. A partir daí explica, exemplifica e questiona a turma sobre os gêneros literários. Em seguida, propõe uma produção textual baseada nas novelas, dizendo: — ’Todo mundo sabe o que é uma novela?’. Mauri responde: — ’Eu não, professora. Eu moro na roça e não tenho televisão’. A professora continua: — ’Eu quero que vocês pensem em qualquer novela e escolham uma cena e montem uma narrativa’. Os alunos e alunas, de uma maneira geral, reclamam da atividade. A professora diz: — ‘Quem quiser pode trocar por um filme’. Mauri diz: —’Dá no mesmo, professora’. A professora responde: —’Tente que você consegue. Novela e filme todo mundo conhece’. Mauri e os demais colegas pegam os cadernos e fazem a produção. Peço à professora, no final da aula, para ver o texto de Mauri, e ela me mostra dizendo: —’Olha, só fez ditos populares’ (Registro de aula retirado das anotações do diário de campo). Observei na aula de Língua Portuguesa que a professora pressupõe que todos e todas conheçam a novela, mas esse pressuposto causa inquietação em Mauri, demonstrando o seu descontentamento pelo exemplo não lhe ser algo comum, cotidiano, pois em sua casa não há energia elétrica. Então, em uma tentativa de produção do “mesmo”, a professora constrói um modelo para produção textual baseado no universo urbano. Partir sempre do universo urbano como referência de conhecimento, de aprendizagem, parece ser algo comum e normal para os docentes. A justificativa que aparece nos interdiscursos dos professores é que a escola está situada na cidade, logo os alunos e alunas da roça devem adaptar-se a essa realidade. A aula revela também uma tentativa de Mauri em dizer quem ele é na sala de aula; identificar-se, estranhar a proposta, indicar a não-existência do comum (novela) em sua vida revelam um posicionamento de Mauri diante da diferença que o constitui, ou Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios seja, questionar uma política da diferença que não autoriza outros lugares, outras práticas. Assim, a diferença, característica marcante da sala de aula, é apreendida no cotidiano escolar como expressão de um processo que precisa ser retificado e normalizado. A diferença adquire um valor negativo, devendo, portanto, ser eliminada para proporcionar um desenvolvimento satisfatório dos sujeitos e das relações, necessário à aprendizagem dos conteúdos escolares. Essa prática discursiva desenvolvida pela professora traz a existência de alunos e alunas na sala de aula que não se enquadram no lugar predefinido pela escola como aquele que permite o ensinoaprendizagem. Especificamente para os alunos e alunas da roça, a escola da cidade não se organiza para acolhê-los, aceitando seus saberes, discursos, identidades que não se deixam circunscrever nos limites escolares. O espaço escolar configura-se em um território de passagem; assim, o processo vivido os coloca no “entre-lugar”, em que sua dinâmica de aprendizagem indica resultados transitórios. Desse modo, constitui-se em um signo de contradição para a normalidade, um devir como afirmação de uma identidade itinerante. Na tentativa de individualizar, igualar, normalizar, a escola não permite que eles e elas vivam a dinâmica fluida, contraditória, deslizante, fronteiriça do “entre-lugar” em que se encontram, fazendo da aprendizagem um ato dialógico que confronta e embaralha permanentemente o saber e o não-saber. No momento em que a escola classifica, insiste na produção do mesmo – o padrão que define a classificação – e na permanente reprodução do outro como o mesmo, apaga as singularidades, que sequer adquirem visibilidade no processo de ensino-aprendizagem. Tal processo marca a escolaridade em suas diversas dimensões, inclusive nas tarefas propostas, em que o outro apenas repete. Ao ser classificado, inscrito como o mesmo, suas potencialidades são circunscritas a um regime discursivo, que define o que é “verdade”, o que é o saber e o não- saber. Enfim, eles e elas são posicionados diante da identidade de “ser da roça” para adquirirem outra identidade de aluno e aluna da escola da cidade. Assim, essas práticas discursivas regulam fazeres, dizeres e saberes dos alunos e alunas da roça, uma vez que, em uma perspectiva foucaultina, tornam-se dispositivos de governo e controle que determinam e produzem as identidades desses sujeitos. Durante as observações, percebi a recorrência de assuntos próximos ao meu estudo nas atividades propostas por alguns professores e professoras; temáticas como urbano/rural, roça, identidade aparecem nas aulas com uma intencionalidade marcada pelo desvelamento e/ou velamento das produções identitárias dos alunos e alunas da roça com base nas práticas discursivas escolares. A aula de Geografia produz esse efeito de sentido, ainda que seja uma sequência do assunto já exposto; havia uma expectativa da professora que eu a observasse também na aula anterior. A professora inicia suas atividades explicando que a aula será a continuação da aula anterior. Ela diz: —’Hoje a gente vai continuar a aula de ontem sobre a cidade e o campo, copiando o exercício’. Em seguida, a professora copia três questões no quadro de giz: 1) Qual a diferença entre cidade e campo? 2) O que mais chama atenção numa paisagem rural? 3) Cite paisagens construídas pelo ser humano. A professora explica que o exercício deve ser respondido com base nas músicas trabalhadas na última aula. Enquanto os alunos e alunas respondem as questões, o silêncio é interrompido com uma pergunta de uma aluna: —’Professora, o que é queimada?’. Jucivalda responde: —’É queimar o mato, fazer coivara’. A professora retoma a pergunta dando exemplos de novas técnicas de substituição das queimadas e respostas presentes na música trabalhada. Os alunos e alunas continuam respondendo as questões. Jucivalda diz: —’Mutirão, professora, também faz parte da zona rural. Eu mesma já fiz muito’. A professora mantém-se em silêncio. Outra fala de Jucivalda: —’Ah, milho assado é tão gostoso!’. Ela termina a atividade e ajuda alguns colegas que estão próximos. A professora finaliza a aula “corrigindo” oralmente as questões: — ’O que diferencia a cidade da roça?’. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 133 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola Jucivalda responde: — ’As plantação’. A professora insiste: —’E como se chama isto?’. Jucivalda responde: —’Os pés de planta que tem muito lá, as coisas que planta, a natureza que tem muito na roça e na cidade, não. Também tem muito bicho lá, a forma das pessoas viver também é diferente’. A professora diz: ’A paisagem, o que diferencia é a paisagem’. As outras questões são “corrigidas” e a aula é encerrada (Registro de aula retirado das anotações do diário de campo). O conhecimento de Jucivalda, baseado em fontes orais, em experiência e em analogia do senso comum, não é legitimado na sala de aula. Ela utiliza-se de outra linguagem, revelando outros modos de produção de conhecimento. Demonstra, em suas intervenções orais, muita intimidade com o assunto, sentindo-se autorizada pela experiência que tem a ser a representante da roça naquela discussão. Jucivalda fala do lugar do sujeito que viveu a experiência concreta, que possui outros modos de vida, outros saberes, outras relações com o universo rural. Ou seja, suas experiências, sua história de vida, seus movimentos discursivos são fatores decisivos e determinantes na sua participação em sala de aula. Entretanto, há no interdiscurso presente na prática discursiva da professora, uma lógica da não-existência sobre essa produção do saber, que consiste na transformação da ciência, do saber escolar em critérios únicos de verdade. Boaventura Santos (2004, p. 787) afirma que “[...] há produção de não-existência sempre que uma dada entidade é desqualificada e tornada invisível, ininteligível ou descartável de um modo irreversível”. Há uma monocultura do saber na sala de aula. A produção do conhecimento é autorizada pela fala legítima da professora, pela resposta única, pela homogeneização dos sujeitos. Os alunos e alunas da roça acabam experienciando na escola da cidade as principais formas sociais de nãoexistência produzidas e legitimadas na sala de aula por meio da política de silenciamento dos seus saberes. Assim, os saberes da roça são tomados como obstáculos em relação às realidades tidas como importantes, produtivas, científicas, reforçando a ideia, na escola, de normalização. 134 Ao tentar diferenciar campo e cidade, Jucivalda traz uma busca de legitimação de um saber vivenciado cotidianamente. Sua resposta não se baseia apenas em um substantivo, em um nome, mas em um conjunto de situações adjetivadas que vão compondo uma interface do campo com a cidade. Nessa relação discursiva, encontra-se também a professora que coloca o saber escolar que possui sobre a disciplina como o elemento discursivo legítimo. Um dos efeitos de sentido que o trecho descrito da aula traz é que não se pode dizer qualquer coisa, nem dizer de qualquer maneira; há uma regulação do discurso, do saber, da identidade que é produzida com base nas práticas discursivas ali constituídas. As questões e respostas da atividade pedagógica têm por objetivo produzir outras identidades nos alunos e alunas da roça, modificando a experiência que esses sujeitos têm de si, produzindo efeitos daquilo que Foucault chama de poder/saber, uma vez que saber e poder se implicam mutuamente: não há poder sem saber, nem saber sem poder. A relação poder/saber articula-se no discurso e, por conseguinte, é entendida como “[...] um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo escolar, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta” (FOUCAULT, 1979, p. 96). Todo discurso está ligado a efeitos de poder, os quais, por sua vez, constituem uma “política de verdade” em cada sociedade. São os tipos de discurso que a sociedade acolhe e faz circular como verdadeiros, e que funcionam como uma verdade coletiva. Os tipos de discursos aceitos que funcionam como verdadeiros na sala de aula garantem, por meio da constituição de regimes de verdade acerca do “fazer” do professor, a manutenção dos padrões tradicionais do exercício de poder na prática docente. Ao desconsiderar os saberes que os alunos e alunas da roça possuem e procurar imprimir uma matriz de conhecimento, os docentes utilizam uma estratégia antropofágica que, segundo Bauman consiste em [...] aniquilar os estranhos devorando-os e depois, metabolicamente, transformando-os num tecido indistinguível do que já havia. Era esta a estratégia da assimilação: tornar a diferença semelhança; abafar Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 Jane Adriana Vasconcelos Pacheco Rios as distinções culturais ou lingüísticas; proibir todas as tradições e lealdades, exceto as destinadas a alimentar a conformidade com a ordem nova e que tudo abarcar; promover e reforçar uma medida, e só uma, para a conformidade (1998, p.29). Em nome de um fazer científico, objetivo e preciso, a professora estabelece fronteiras discursivas e identitárias para Jucivalda diante do saber escolar. Os efeitos de sentido produzidos nas ações e falas da professora apontam para um distanciamento dos saberes da experiência apresentados pela aluna. O atravessamento do discurso da ciência aponta, de um lado, para a manutenção de certa cientificidade, que determina uma postura da professora diante dos saberes da roça. Essa realidade fez-me refletir sobre a natureza do saber escolar e sua relação com o contexto sociocultural em que se situam os alunos e alunas da roça, sujeitos desta pesquisa. Nesse contexto, em vez do reconhecimento da diferença, temos aqui o seu enquadramento, sua normalização, a reafirmação do “mesmo”, do idêntico. Sobre este aspecto, Silva nos fala: Respeitar a diferença não pode significar “deixar que o outro seja como eu sou” ou “deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro)”, mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu, que eu não posso ser, que não pode ser um (outro) eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente a mim” ou “relativamente ao mesmo”, mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade (2000, p.101). O processo de (de)marcação da diferença estabelecido nos discursos dos professores e professoras apresenta uma construção de fronteiras entre o que está dentro e o que está fora, um pertencimento discursivo simbólico acerca da escola. Nessa relação, os docentes procuram delimitar as “fronteiras” entre o saber do aluno e aluna da roça e o conhecimento da escola. Assim, a identidade é concebida como uma “positividade” – é uma questão de “ser” –, fruto da ideia de que a identidade é algo fixado pela origem (história, tradição). Contudo, compreendo que as identidades são definidas pela diferença, sendo resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. Elas não são apenas conceituadas, são tramadas e impostas em meio a relações de poder produzidas nas relações sociais. Considerações finais As práticas discursivas dos professores e professoras observadas traduzem um desejo em tornar iguais os diferentes. As condições de produção dos referidos discursos marcam o lugar de onde falam esses docentes, o que representam no momento em que estabelecem os modelos a serem seguidos, as respostas autorizadas, sendo possível observar uma negação do outro (aluno, aluna), tomando-o como aquele que não sabe e que não quer nada com o saber escolar, impedindo que os alunos e alunas da roça possam se ver nesse percurso como sujeitos produtores do conhecer, dos sentidos que movimentam a escola e a sociedade de uma forma geral. Assim, os alunos e alunas da roça sentem dificuldade em adaptar-se à escola da cidade, pois nesse espaço seus valores, saberes e identidades não são aceitos nem validados. Entretanto, como sujeitos que possuem identidades múltiplas e não fixas como afirma a escola, os alunos e alunas inseridos na produção da “mesmidade”, na classificação, na normalização, habitam identidades, negociam, deixam fluir a “outridade” presente no movimento fluido da constituição das identidades. Como nos diz Silva (2000, p.79), “[...] a mesmidade (ou a identidade) porta sempre o traço da outridade (ou da diferença)”. A tendência evidenciada na sala de aula privilegiava a distância, a ruptura e, em alguns casos, a negação explícita dos saberes sociais, dos saberes da experiência, da “ciência” da roça. Pude perceber neste estudo que é, sobretudo, na sala de aula que se desvelam as identidades dos alunos e alunas da roça, constituindo as imagens que os professores e professoras produzem sobre esses sujeitos, ou seja, baseadas nas formações imaginárias presentes nas práticas discursivas desenvolvidas. Há uma produção simbólica e social sobre o aluno e a aluna da roça projetada com base em um imaginário coletivo que os inscreve em uma determinada posição nos discursos. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 135 Professores da cidade, alunos da roça: identidades e discursos na escola Referências BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979. ______. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 11. ed. São Paulo: Loyola, 2004. KNIJNIK, Gelsa. As novas modalidades de exclusão social: trabalho, conhecimento e educação. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 4, p. 35-42, 1997. LARROSA, Jorge Bondía. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução de João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 19, p.20-28, jan./abr. 2002. SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2004. SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. TODOROV, Tzvetan. A conquista da América: a questão do outro. Tradução de Beatriz Perrone Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 1993. Recebido: 24.05.2011 Aprovado: 15.08.2011 136 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 127-136, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva NÃO SER SÓ UM CARREGADOR DE LIVRO: Elaborações de jovens rurais sobre a escola Catarina Malheiros da Silva * RESUMO Considerando a centralidade da escola para a realização dos projetos individuais, este artigo busca compreender os sentidos das experiências escolares para os/as jovens do Distrito Espraiado e fazendas, localizados em área rural do município baiano de Palmas de Monte Alto. Realizou-se um trabalho de campo, no qual a observação participante, a etnografia e a realização de grupos de discussão constituíram os principais instrumentos de coleta de dados. Foi realizada análise de 02 grupos de discussão com jovens do sexo masculino e feminino, matriculados nos anos finais do ensino fundamental. A análise foi feita com base no Método Documentário de Interpretação desenvolvido por Karl Mannheim e adaptado para a pesquisa social empírica por Ralf Bohnsack. Os resultados apresentados aqui apontam que a escola tem significados positivos para moças e rapazes, haja vista que se trata de uma área rural de pequeno município em que o processo de escolarização se deu de forma tardia e sexista. Palavras-chave: Educação escolar. Conhecimento escolar. Juventude rural. ABSTRACT NOT BEING ONLY A BOOK HOLDER: rural young people elaborations about school Given the centrality of school for the realization of individual projects, this article aims to understand the meaning of school experiences for the young people from the Espraiado District and farms, located in the rural area of Palmas de Monte Alto, in Bahia. A field study was conducted in which participant observation, ethnography and discussion groups were the main instruments for data collection. Two discussion groups with young males and females enrolled in the final years of elementary school were implemented.. The analysis was made using the Documentary Method of Interpretation developed by Karl Mannheim as adapted to make it suitable for empirical social research by Ralf Bohnsack. The results presented here indicate that school has positive meanings for girls and boys, given that this is a rural area in a small municipality in which the schooling process took place late and with a sexist connotation. Keywords: School education. School knowledge. Rural youth Mestre em Educação. Doutoranda em Educação pela Universidade de Brasília. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa GERAJU - Educação e Políticas Públicas: gênero, raça/etnia e juventude. Endereço para contato: Rua Voluntários da Pátria, nº 5, Centro, Palmas de Monte Alto (BA). CEP 46460-000. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 137 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola Introdução Este artigo1 busca compreender os sentidos das experiências escolares para os/as jovens do Distrito Espraiado e fazendas, localizados em área rural do município baiano de Palmas de Monte Alto, já que a atenção exagerada às imagens estereotipadas dos/ das jovens difundidas pela mídia nos impede de reconhecer os sentidos atribuídos por estes sujeitos à escolarização no meio rural brasileiro. As questões relativas à juventude rural há alguns anos vêm ocupando um espaço importante em minha vida, já que em meu trajeto formativo e profissional os/as jovens do sertão baiano sempre estiveram presentes. Como coordenadora pedagógica no período de 2001 a 2004 nas escolas do ensino fundamental, localizadas em áreas rurais, convivi com jovens estudantes e trabalhadores, que vivenciam experiências nos espaços que frequentam para além da escola. Esse convívio instigou-me a buscar o estudo sobre eles, numa perspectiva que conceba suas vozes como possibilidades expressivas autônomas. É bastante relevante conhecer o significado da escola e do saber escolar para esses jovens, já que, ao observar a dinâmica extraclasse, percebese que o espaço escolar é vivenciado de distintas formas, constituindo-se como local de encontros, para bater papo, namorar, escutar música, ou seja, um espaço de relações sociais. Ir à escola e estar na sala de aula parece não ser a mesma coisa para os/as jovens. Que significados atribuem à escola, considerando a existência dessas vivências? Na tematização sobre juventude e escola no Brasil, observa-se a escassez de estudos que se proponham a desvelar o sujeito com base na perspectiva da totalidade do ser social e cultural, para além da monolítica dimensão identitária de aluno. Muitos dos sentidos ligados à escola passam hoje pela dimensão da sociabilidade, da convivência entre os jovens e da construção de projetos de vida (SPÓSITO, 2005; DAYRELL, 2005). Historicamente, a instituição escolar pública parte do princípio de que todos os jovens brasileiros provêm de espaços Este artigo apresenta um dos eixos temáticos da pesquisa realizada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação/Universidade de Brasília e do Grupo de pesquisa GERAJU, cujo título é: Escola, Saberes e Cotidiano no Meio Rural: um estudo sobre os/as jovens do Sertão da Bahia, sob a orientação da Profª Dra. Wivian Weller, no período 2007-2008. 1 138 em que as relações socioculturais, o pertencimento étnico-racial, as relações de gênero e tantas outras dimensões são homogêneos e únicos. Nesse sentido, a desarticulação existente entre o saber mediado na escola e o cotidiano dos jovens que vivem no meio rural reforça a assertiva de que as formas de vida e a cultura dos grupos privilegiados é que são valorizadas e instituídas como cânone. Juventude e educação escolar no meio rural – algumas reflexões No meio rural brasileiro, espaço cada vez mais heterogêneo e diversificado, são tecidas relações socioculturais singulares, ao mesmo tempo em que se mantêm vínculos de dependência com os centros urbanos. Não se pode negar a influência histórica da cidade no campo, cada vez mais acentuada com a urbanização do meio rural e com a absorção de novos elementos políticos, sociais e econômicos em sua prática produtiva e em seu modo de vida. Nesse sentido, “as ruralidades se expressam de formas diferentes em universos culturais, sociais e econômicos heterogêneos” (PEREIRA, 2004, p. 344). O mundo rural pode ser compreendido, então, como lugar de vivências peculiares, em consonância com outras formas de organização social. Por outro lado, pensar o meio rural baseado nas suas singularidades nos possibilita reportar à “invisibilidade” que atinge toda a população rural. Para autores como Veiga (2003) e Abramovay et al (2004), as condições precárias a que são submetidos os sujeitos do campo fortalecem a calcificação de imagens discriminatórias sobre a população rural. O desconhecimento e negação dos modos de vida dessa população fazem com que as demandas existentes no campo sejam negligenciadas. A juventude rural figura como parcela dessa população ainda bastante desconhecida, dado o não reconhecimento de problemas específicos que a afeta, ao contrário dos jovens urbanos que são vislumbrados pelas instituições, especialmente no que diz respeito à proposição de políticas públicas. Também não são reconhecidas as práticas de sociabilidade e as vivências culturais, aportadas num contexto específico. Vale ressaltar, no entanto, que essas singularidades estão entrelaçadas com a Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva dinâmica da economia e de toda a sociedade. Assim, não se podem instituir fronteiras nítidas entre os universos culturais dos sujeitos do campo e da cidade, já que ambos compartilham projetos que se assemelham (CARNEIRO, 2005). O entendimento sobre a juventude rural supõe o reconhecimento da existência de espaços distintos – a exemplo da casa, da vizinhança e da cidade – nos quais os/as jovens vivenciam cotidianamente experiências individuais e coletivas. Sobre a importância da comunidade local para os jovens rurais, Brandão (1995, p. 136) afirma que “quando há vizinhos por perto, parentes ou não, os grupos de idade alargam os limites da ordem familiar cotidiana e se constituem como os primeiros espaços extrafamiliares de convivência e socialização.” Nesses espaços, os jovens constroem relações com amigos, vivenciam o lazer, estabelecem relações com os meios de comunicação de massa, participam de manifestações culturais e religiosas, expressando um sentimento de pertencimento, tanto à comunidade como a grupos de jovens. Nesse sentido, as experiências cotidianas dos jovens dependem da intensidade e da riqueza da vida social existente no meio rural (WANDERLEY, 2006). Daí a relevância da valorização do lugar social da juventude rural, com suas especificidades. Para Vieira (2006), contrariamente à ideia ainda vigente de que só restam no campo os mais velhos, em algumas regiões do país o meio rural concentra uma parcela significativa de jovens homens e mulheres, que constroem distintas trajetórias e formas de pensar e de vivenciar suas condições juvenis. A compreensão dos significados da escola para os/as jovens do meio rural passa pelo conhecimento dos espaços de vivência e aprendizado extraescolares, numa perspectiva em que o diálogo e o respeito por suas condições de vida passam a ser fundantes. O ensino público brasileiro ainda não garante aos alunos as condições necessárias para que desenvolvam uma relação significativa com o saber escolar. O entendimento ainda vigente é o de que o/a jovem, ao rejeitar a escola e o(a) professor(a), não consegue apropriar-se do saber escolar e/ou intelectual. Segundo Charlot (1996), em muitos contextos educativos, os/as jovens estabelecem uma relação bastante frágil com a escola, pois o que se ensina na escola não faz sentido para o momento presente desses estudantes, mas somente para um futuro distante, que já não pode ser previsto. Conforme destaca Corti (2004, p. 104), “uma das questões centrais hoje, quando se fala na relação dos [as] jovens com a escola, diz respeito à relação dos jovens com o conhecimento. Há, notadamente, uma relação tensa dos jovens com o saber escolar, que precisa ser melhor investigada.” É importante assinalar também que toda relação com o saber escolar é singular e social. Aprender é um processo singular, desenvolvido por um sujeito singular. Na tentativa de compreender a relação estabelecida entre os jovens e a escola por meio de suas vozes, é importante ainda reconhecer os sentidos atribuídos pelos jovens aos saberes ditos formais ensinados na escola, pois “(...) se interrogar sobre a transmissão de um saber implica interrogar-se também sobre a postura que a apropriação deste saber supõe, sobre o acesso a certas formas de relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo” (CHARLOT, 2001, p. 21). As relações estabelecidas entre os sujeitos do meio rural e a escola, no momento presente, podem ser compreendidas também com base no entendimento da trajetória da educação rural no passado. Durante muito tempo homens, mulheres, crianças e jovens foram excluídos do acesso à instituição escolar pública. No entanto, embora a educação escolar tenha sido relegada aos homens e mulheres do meio rural, historicamente, observase que os/as jovens rurais têm atualmente maiores chances de continuar os estudos, ao contrário das gerações anteriores (ABRAMOVAY et al, 2004; STROPASOLAS, 2006). Esse cenário possibilita o entendimento do ser jovem no meio rural, uma vez que a ampliação do processo de escolarização favorece o prolongamento da juventude, mediante a existência da dependência e coabitação com a família de origem. Assim, a escola deve conhecer os sujeitos com os quais atua, dentro e fora de seus muros, entendendo a vivência juvenil no meio rural, marcada por um modo de vida singular, como dimensão importante para significar o saber escolar (VIEIRA, 2006).Por fim, é preciso compreender a relação tecida entre os jovens e a escola baseada em uma perspectiva que ultrapasse a sua condição de estudante, concebendo-os como sujeitos que Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 139 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola estudam e têm outras atividades, que constroem um trajeto escolar e profissional combinado com essas outras dimensões que compõem a vida de cada um. Itinerários da pesquisa O município de Palmas de Monte Alto localizase na Região Sudoeste da Bahia, limitando-se ao norte com Riacho de Santana e Matina, ao sul com Sebastião Laranjeiras, ao leste com Guanambi e ao oeste com Iuiú e Malhada. Dista de Salvador 840 km. Sua população está estimada em 20.779 habitantes, sendo formada por pequenos agricultores, juntando-se a estes, numa relação de complementaridade, comerciantes, funcionários públicos, professores, auxiliares de serviços gerais, profissionais liberais, entre outros. A maioria da população ativa concentra-se no meio rural. Tem como principais produtos agrícolas feijão, algodão, mandioca, sorgo, mamona, milho e arroz. O clima é do tipo quente e seco, apresenta uma temperatura média anual de 22°C, a precipitação anual é de 700/900 mm e seu período chuvoso vai de novembro a janeiro. O risco de seca é considerado médio, o que favorece a agricultura de subsistência, inclusive pela sua extensão em área de 2.787,6 km² (IBGE, 2010). O município é formado pelos distritos rurais de Espraiado, que se localiza a 48 km da sede; Barra do Riacho, 25 km; Pinga Fogo, 15 km; e Rancho das Mães, distante 13 km. O critério de escolha do Distrito Espraiado para a realização do estudo está aportado no fato de que a oferta de Educação Básica constitui-se em fenômeno recente nesse distrito, haja vista que as áreas rurais de pequenos municípios brasileiros tiveram um processo de escolarização tardio e sexista. Aspectos como a distância da sede do município, a densidade demográfica e as marcas de isolamento também motivaram a realização do estudo. Espraiado foi reconhecido como distrito em 08 de junho de 2004. Está localizado à margem esquerda do Rio das Rãs, e faz divisa com o município de Riacho de Santana (BA). O colégio no qual foram localizados os/as jovens é uma instituição de ensino fundamental da rede pública do referido município que funciona 140 nos turnos matutino, vespertino e noturno. O turno matutino é frequentado por crianças oriundas da sede do distrito, que cursam a educação infantil e as séries iniciais do ensino fundamental. Os/as jovens provenientes das fazendas e sede do distrito estudam as séries finais no turno vespertino e chegam à escola no ônibus escolar, que transporta estudantes e pessoas da comunidade. No noturno funciona uma turma de 5ª/6ª série, frequentada por adultos e jovens que estudam na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), além de turmas de ensino médio. Muitos jovens que estudam à tarde e à noite no colégio provêm do Distrito Vesperina, da sede do distrito e de fazendas vizinhas como Alagadiço, Angico, Barrocas, Baldo, Caetano, Caraíbas, Cedro, Covão, Curral Novo, Juá, Jurema, Lagoa do Couro, Malhada Grande, Mari, Muquém, Papaconha, Passagem Funda, Paus Pretos, Pedra de Fogo, Pindoba, Quixaba, Santa Maria, Sertão do Mari, Sítio Canjirana, Tabatinga, Vargem da Cheia. Em algumas destas localidades, existem classes multisseriadas no turno matutino, em prédios escolares construídos na década de 80 do século passado. São 150 alunos(as) que se deslocam das fazendas no transporte escolar rural. Na tentativa de reconhecer as especificidades que caracterizam os contextos locais do meio rural, optou-se por realizar uma pesquisa etnográfica na qual a observação participante, as entrevistas com moradores e os grupos de discussão constituíram os principais instrumentos de coleta de dados. Os grupos de discussão foram formados com jovens estudantes do sexo masculino e feminino, tomando-se por base o critério da amizade, ou seja, os próprios jovens determinavam quem participaria do grupo, com a presença de três a seis integrantes por grupo. Foram realizados, no total, dez grupos de discussão com jovens oriundos do distrito e fazendas vizinhas, alunos da 5ª a 8ª série, na faixa etária de 12 a 18 anos, nos meses de fevereiro e março de 2008. No primeiro momento, optou-se por realizar os grupos com jovens matriculados nos últimos dois anos do ensino fundamental, haja vista que se trata de uma fase em que novas perspectivas e projetos de futuro começam a ser delineados. Questões sobre a continuidade dos estudos, a busca por trabalho Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva na cidade, o ingresso em cursos técnicos fazem parte dos interesses desses jovens. O processo de formação desses grupos ocorreu de forma tranquila e acessível. Como os jovens organizavam-se em rodas de amigos pelo entorno da escola, a abordagem era feita considerando a aproximação existente entre eles(as). Observou-se, ainda, que se organizavam em grupos de rapazes e moças, sendo rara a existência de grupo misto. Os grupos de discussão foram realizados seguindo um tópico-guia que trazia os temas de interesse da pesquisa. A interação entre os membros variou de um grupo para outro. Não obstante serem colegas de sala, em alguns grupos a conversa fluiu; em outros, alguns membros simplesmente mantiveramse em silêncio durante toda a entrevista. Contudo, em quase todos os grupos, assuntos como o fim de semana, família, casamento e eventos escolares foram discutidos com mais entusiasmo. No entanto, na maioria desses grupos a discussão limitou-se aos temas apresentados pela pesquisadora, ainda que ao final da discussão os jovens tivessem sido novamente instigados a falar sobre assuntos que não haviam sido discutidos. Ao término dos grupos de discussão, com o objetivo de obter informações adicionais, cada participante preencheu um questionário com informações relevantes para a constituição do perfil de cada um. Em seguida, deu-se início à análise dos dados empíricos. Inicialmente, realizou-se a transcrição e divisão temática dos grupos de discussão realizados com os/as jovens. Essa divisão compreende a identificação das passagens/subpassagens e da metáfora de foco. Embora todos trouxessem aspectos importantes para serem analisados, a escolha de grupos representativos para análise era necessária. Nesse sentido, foi feita a transcrição completa e codificada2 de três grupos, tendo-se o cuidado de preservar as marcas de oralidade dos entrevistados, na tentativa de garantir o reconhecimento do dialeto local e da densidade interativa presente nos grupos. Para a análise, foram escolhidos os grupos Os/as jo Os códigos utilizados na transcrição das entrevistas foram desenvolvidos pelos pesquisadores do grupo coordenado por Ralf Bonhsack, na Alemanha (cf. Anexo I). Weller (2005) considera relevante numerar as frases dos membros do grupo, bem como criar códigos para apresentar a entonação da voz e as expressões produzidas pelos participantes. Também assinala a importância de apresentar nomes fictícios para os membros, garantindo assim o anonimato deles. 2 vens que vêm de longe e As meninas que sonham. A escolha está aportada nas especificidades apresentadas pelos referidos grupos, tais como o local de moradia e as representações de gênero. O processo de análise dos grupos foi feito com base no método documentário de interpretação desenvolvido por Karl Mannheim e adaptado para a pesquisa social empírica por Ralf Bohnsack (cl. WELLER, 2005; BOHNSACK; WELLER, 2006). Considerando os limites deste artigo, serão apresentados a seguir alguns segmentos do eixo escola, dos grupos de discussão Os/as jovens que vêm de longe e As meninas que sonham. No primeiro momento, faz-se uma breve apresentação do perfil dos participantes de cada grupo. Em seguida, a análise do eixo escola que se propõe a entender os sentidos atribuídos pelos(as) jovens à escola, baseado nas elaborações sobre conhecimento escolar, bem como de sua relevância social. Quem são os/as jovens que vêm de longe Moisés (Mm) tem 17 anos, religião católica, negro, 7ª série, natural da fazenda Cedro, em Palmas de Monte Alto. Mora nessa fazenda, na companhia dos pais, desde que nasceu. Tem sete irmãos e irmãs. Sua mãe nasceu na fazenda Malhada Grande, é lavradora e ganha R$15,00 por dia. Seu pai nasceu na fazenda Papaconha, é lavrador e ganha R$15,00 por dia. Ambos cursam a Educação de Jovens e Adultos à noite, na fazenda Cedro. Tatiana (Tf) tem 13 anos, religião católica, negra, 5ª série, natural da fazenda Cedro, em Palmas de Monte Alto. Mora com os pais nessa fazenda desde que nasceu. Tem sete irmãos e irmãs. Sua mãe é zeladora e foi a primeira professora da localidade. Tatiana não informou a naturalidade dos pais, a renda, a escolaridade e a ocupação do pai. Carla (Cf) tem 16 anos, religião católica, negra, 6ª série, natural da fazenda Cedro, em Palmas de Monte Alto. Sempre residiu nessa fazenda com os pais. Tem nove irmãos e irmãs. Sua mãe nasceu em Malhada, trabalha em casa e cursa a Educação de Jovens e Adultos à noite, na fazenda Cedro. Seu pai é lavrador e ganha R$15,00 por dia. Carla não informou a escolaridade dos pais e a naturalidade do pai. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 141 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola Wesley (Wm) tem 14 anos, religião católica, negro, 7ª série, natural da fazenda Cedro, em Palmas de Monte Alto. Reside na fazenda desde que nasceu. Tem quatro irmãos e irmãs. Sua mãe é lavradora e ganha R$15,00 por dia. Seu pai é lavrador e ganha R$15,00 por dia. Ambos estão cursando a Educação de Jovens e Adultos à noite, na fazenda Cedro. Wesley não informou a escolaridade e a naturalidade dos pais. Carlos (Cm) tem 16 anos, religião católica, negro, 6ª série, natural da fazenda Cedro, em Palmas de Monte Alto. Mora nessa fazenda, com os pais, desde que nasceu. Tem sete irmãos e irmãs (informa ainda que morreram oito irmãos(ãs)). Sua mãe nasceu em São Paulo, é zeladora e tem o ensino fundamental completo. Seu pai é lavrador. Não informou a renda dos pais, nem a escolaridade e naturalidade do pai (escreveu que não sabe a naturalidade do pai). João (Jm) tem 18 anos, religião católica, negro, 7ª série, natural de Palmas de Monte Alto. Tem domicílio na fazenda Curral Novo desde que nasceu. Tem seis irmãos e irmãs (morreram 2 irmãos(ãs)). Sua mãe nasceu em Candiba (BA), é lavradora e ganha R$15,00 por dia. Seu pai é lavrador e ganha R$15,00 por dia. Informa não saber a escolaridade dos pais e a naturalidade do pai. O que os/as jovens que vêm de longe dizem sobre a escola Saber o que os/as jovens da fazenda Cedro pensam sobre a escola em que estudam possibilita compreender como vivenciam a condição de jovem estudante, considerando as práticas de sociabilidade, a relação com o conhecimento, bem como os significados que atribuem à educação escolar. Ao serem indagados sobre a escola, descrevem-na como espaço importante, que além de ser divertido e exigente, favorece a aprendizagem de coisas interessantes (Passagem Escola, linhas 4-21): Y: E vocês poderiam falar um pouquinho assim sobre a escola em que vocês estudam? Wm: eu gostaria eh que a escola que eu estudo aqui é uma escola muito boa divertida mesmo, muito (2) escola muito perigosa para pegar no pé para nós pra nós poder fazer as coisa mais direito poder saber mais 142 que nós sabe fazer na escola não ser só um carregador de livro e também (2) um discursuzinho melhor ( ) Mm: a minha escola onde eu estudo pra mim é boa porque (1) eu desenvolvi muita coisa aqui nela depois que eu estudei aqui e gosto também dos professores e dos colega (3) Cm: bom a escola é importante né porque (1) e eu mesmo e eu tinha saído da escola fiquei umas duas semanas fora da escola aí o Conselho Tutelar foi atrás de mim eu voltei e ainda consegui recuperar ainda (2). Por isso que eu quero é pedir graça a Deus pra mim não sair da escola (3) Cf: a escola pra mim é importante porque através dela que eu aprendi muitas coisas e hoje também continuo aprendendo Tf: é a escola pra mim é importante porque depois (1) que eu entrei na escola aprendi muitas coisas interessante Jm: pra mim também é importante a escola ºentrei na escola e desenvolvi até bemº aprendi uma coisa melhor por isso que eu gosto da escola. Os/as jovens atribuem um sentido extremamente positivo à escola, dada a sua capacidade de garantir a aprendizagem. No entanto, nesse momento da discussão, não apontam quais aprendizagens obtiveram nessa instituição e os significados concretos destas para a vida cotidiana do grupo. A não explicitação dos conteúdos aprendidos pode estar associada às dificuldades de relacioná-los à sua vida diária, talvez porque o conhecimento escolar mediado não dialogue com as necessidades, interesses e desafios enfrentados por estes jovens. O reconhecimento social, por ser escolarizado, sobretudo no meio rural – onde os indivíduos sempre foram tratados como ignorantes, iletrados –, aparece como experiência relevante para os/as jovens. A existência da instituição escolar pública no meio rural é recente, o que concorre para a sua valorização como símbolo de desenvolvimento local. O pouco “tempo de escola” de muitos homens e mulheres do campo está inscrito na memória coletiva da comunidade. Sair da condição de mero “carregador de livro”, tal como propõe Wesley, para a de estudante que Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva aprende “coisas interessantes” pode constituir-se num desejo de valorizar-se como sujeito “estudado”, capaz de produzir um “discursuzinho melhor”. A motivação que os/as jovens têm para aprender reforça a esperança de um dia “ser alguma pessoa na vida”, ser visto pelos seus iguais como alguém que se apropriou de um capital cultural, que sempre lhes foi negado. Também vigora o desejo de que essa condição favoreça a ascensão social, a mobilidade, aqui traduzida pelo desejo de “um dia ser alguém na vida”. Daí a valorização do tempo escolar, que não deve ser desperdiçado. Talvez por isso o movimento de ir à escola é pensado para além da frequência diária. Embora a viagem cansativa e longa até a instituição favoreça o desânimo, os/as jovens do Cedro vislumbram a possibilidade de permanecer com êxito. Isso implica assumir uma postura frente à escola, tornar-se aluno. A elaboração feita por Wesley confirma o papel da escola na construção do sujeito aluno, sobretudo no que se refere à positivação da cultura escolar. A posição enérgica e disciplinadora da instituição que se propõe a ensinar é apontada pelos jovens como necessária, o que confere responsabilidade ainda maior à escola. A cobrança feita por Wesley à escola, de “pegar no pé pra nós poder fazer as coisa mais direito”, apoia-se na expectativa de ter acesso a um ensino de qualidade. Para esses jovens, a conquista de um “discursuzinho melhor” traduz a busca por um conhecimento a que somente na escola se pode ter acesso, ao mesmo tempo em que ela tem condições de distribuí-lo eficaz e coletivamente. A permanência na escola e, consequentemente, a apropriação da cultura escolar garantem que um tipo de saber específico seja ensinado. Trata-se da inclusão de um saber letrado no cotidiano do mundo rural, por meio dos “estudados” (cf. BRANDÃO, 1999). Aprender a falar certo A relação que os/as jovens estabelecem com a escola é influenciada pelo significado que o conhecimento tem para a vida cotidiana no meio em que estão inseridos. Aprender a língua portuguesa e a matemática é necessário porque as habilidades de leitura, fala, escrita e cálculo são fundamentais para acessar determinados lugares, atividades e, sobretudo, para serem reconhecidos como sujeitos capazes (Passagem Conhecimento escolar, linhas 42-61): (5) Y: E assim que assuntos vocês acham mais importantes para aprender? Wm: O assunto que eu acho mais importante assim é (1) o assunto importante é matemática Mm: Todos os assun- todos os conteúdos pra mim é importante mais importante pra mim é é a conteúdo da língua portuguesa porque ajuda as pessoa aprender a falar mais que não sabe (2) é igualmente a consulta do dicionário mesmo é importante e a matemática (2) e a e a disciplina de inglês também (1) o conteúdo é muito importante por isso que eu a- gosto desses conteúdos Cm: Pra mim o conteúdo que eu acho mais importante é a língua portuguesa e a e a a matéria de matemática porque a língua portuguesa deixa gente mais né sabendo falar e a e matemática que é importante que às vezes alguém pode ser alguém no futuro pode trabalhar de garçom aí agora a pessoa já pode ao menos saber pas- passar o troco pra outra pessoa Cf: Pra mim também o mais importante que eu acho conteúdo de língua portuguesa que a nossa língua materna que devemos saber falar porque nem é todas pessoa que sabe falar às vezes sabe falar mas igual algumas pessoas assim da roça sabe falar o português mas não fala correto com medo de errar então não devemos ter medo Tf: Pra mim a matéria que é mais importante pra mim é todas mas é lin- é (1) matemática e história que fala mais sobre a vida das pessoas (7) Jm: Matéria pra mim também é boa matéria mais melhor pra mim é a língua portuguesa matemática eu não sei muito muito bem ela (2) mas eu consegue aprender aí um pouco. A atribuição de significados positivos aos conteúdos escolares pode estar aportada no fato de que estes são concebidos como necessários para que transitem num mundo regido pela circulação de conhecimentos cada vez mais exigentes, que determina as relações sociais. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 143 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola O domínio do conhecimento da língua portuguesa e da matemática é concebido como fundamental para a inserção no mundo do trabalho num momento futuro, tal como exemplifica Carlos ao falar da possibilidade de “ser alguém no futuro, (...) trabalhar de garçom”. Como a escola se constitui em ambiente de preparação para o futuro/trabalho, o conhecimento escolar é apontado como relevante, traduzido pela necessidade de “aprender a falar”. Estudar significa apropriar-se de saberes que possam melhorar sua condição. A relação que esses jovens estabelecem com o conhecimento é marcada pelas condições sociais de existência. O destaque conferido à disciplina língua portuguesa pode estar associado também à forma como as pessoas do meio rural sempre foram referenciadas, sobretudo no que se refere à relação com a linguagem. Conforme a afirmação de Carla, ainda é bastante marcante a ideia de que nesse espaço as pessoas “não fala correto”. Nesse sentido, a língua portuguesa é apontada como área do conhecimento que possibilita o aprendizado de uma fala normativa, reconhecida socialmente, tal como propõe Carlos quando diz que “deixa gente mais né sabendo falar”. Os/as jovens reconhecem que as pessoas “da roça” expressam-se com dificuldade e atribuem a inibição ao “medo de errar”. Fica claro então o quanto a produção oral desses sujeitos é avaliada e julgada nos espaços em que estão inseridos. Diante dessa condição, é à escola que recorrem como instituição que pode qualificálos para romper com essas limitações. Uma fala “correta” é o que demandam esses jovens. A não referência a outros aspectos do ensino da língua portuguesa como importante pode estar relacionada às práticas de ensino ainda vigentes. A fala constitui-se numa dimensão que os localiza socialmente. “Falar errado”, “não saber falar” são estigmas que marcam a trajetória escolar e social de muitos jovens moradores na zona rural, que, ao transitarem nos espaços, sobretudo o urbano, são rotulados pela linguagem, mas também por outros atributos tidos como negativos. Quem são as meninas que sonham Daniela (Df) tem 14 anos, religião católica, branca, 8ª série, natural da fazenda Angico, em 144 Palmas de Monte Alto. Mora em Espraiado, há 12 anos, com os pais. Tem cinco irmãos e irmãs. Sua mãe nasceu na fazenda Angico, tem o ensino fundamental incompleto, é gari e ganha R$70,00 por mês. Seu pai nasceu em Angico, tem ensino fundamental incompleto, trabalha em associação. Não informou a renda do pai. Bruna (Bf) tem 14 anos, religião católica, negra, 8ª série, natural de Guanambi (BA). Mora na fazenda Muquém, com os pais, desde que nasceu. Tem quatro irmãos e irmãs. Sua mãe nasceu na fazenda Muquém, trabalha em casa e tem o ensino fundamental completo. Seu pai nasceu na fazenda Muquém, é agricultor e tem ensino fundamental completo. Não informou a renda dos pais. Geane (Gf) tem 12 anos, religião católica, branca, 8ª série, natural de Palmas de Monte Alto. Mora com os pais, em Vesperina, desde que nasceu. Tem uma irmã. Sua mãe é professora, tem ensino superior completo e pós-graduação lato sensu. Seu pai é funcionário da limpeza geral e tem o ensino fundamental completo. Não soube informar a naturalidade dos pais. Também não informou a renda de ambos. O que elas dizem sobre a escola Ao propor que falassem sobre a escola em que estudam, buscou-se conhecer os significados atribuídos, as vivências compartilhadas e as expectativas das jovens sobre a escola. A pergunta privilegia o relato espontâneo das jovens, pois são solicitadas a abordar a escola de uma forma mais ampla. A expressão “um pouco”, no entanto, pode favorecer a brevidade das falas (Passagem Escola, linhas 4-11): Y: Vocês poderiam falar um pouco assim sobre a escola de vocês? Df: Minha escola é boa pois nela eu aprendo coisas assim interessantes que talvez eu posso aprender e ensinar assim pra outra pessoa (6) Gf: Na minha escola eu também eu também acho bom porque lá a gente aprende uma fonte de sabedoria gente aprende mais falar que nem ela falou que gente pode ajudar os outros Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva Bf: Minha escola eu acho bom porque na escola é onde tá nosso futuro e com escola é que nós somos tudo (5)☺2☺ Os assuntos mais importantes são aqueles que “fala da juventude” O significado positivo da escola está atrelado à possibilidade de aprendizagem que essa instituição assegura. Trata-se de uma aprendizagem considerada relevante, que poderá ser “ensinada” para outras pessoas. A partilha do que foi aprendido na escola parece ser uma ação importante para as jovens, talvez porque vivam num meio em que o conhecimento sistematizado é acessado pelos que frequentam a escola. Essa disposição para ajudar aos que possivelmente não se apropriaram da cultura escolar marca as relações cotidianas estabelecidas entre os que “estudam” e os que não têm “nenhum estudo” no meio rural. A presença de filhos(as) jovens na escola assegura a mobilidade de muitas famílias, que passam a contar com as “ajudas” prestadas pelos “mais estudados” para desempenhar papéis que não prescindem do letramento. Vale ressaltar, no entanto, que as jovens fazem uma descrição genérica daquilo que aprendem na escola e que poderá ser ensinado. A proposição de Daniela e a complementação de Geane - “aprendo coisas interessantes” - apontam a dificuldade das jovens em fazer elaborações baseadas em exemplos concretos e específicos sobre a escola em que estudam. É importante destacar que essas dificuldades iniciais podem ainda estar apoiadas na forma como a instituição escolar historicamente apresenta-se aos jovens. A avaliação de Bruna - “minha escola eu acho bom porque na escola é onde tá nosso futuro” - parece confirmar o predomínio do tempo futuro como elemento marcante na trajetória escolar das jovens. A experiência de estar na escola é pensada com base no que ela pode ofertar num tempo posterior. A condição estudantil de muitos(as) jovens na escola está vinculada a exigências que consideram apenas a preparação para o futuro, o que demonstra existir um desconhecimento no que se refere ao cotidiano, aos desejos e inquietações que marcam o momento presente da vida desses sujeitos. Ao postular a garantia de acesso a um futuro promissor, a escola não permite que os/as jovens sejam reconhecidos como possibilidade no tempo presente, momento de ressignificação da vida diária. Compreender o sentido da escola para os/as jovens implica também conhecer a relação que estabelecem com o conhecimento (CHARLOT, 2001), bem como o significado deste para a sua condição de jovem. Na tentativa de aproximar-se da linguagem empreendida pelas jovens, bem como de conhecer os assuntos e matérias considerados mais importantes, a pesquisadora propõe que falem sobre os assuntos “trabalhados na escola” (Passagem Conhecimento E scolar, linhas 19-27): Y: E assim quais são os assuntos que vocês acham mais importantes que são trabalhados na escola? Df: Ah mais=mais importante são todos mas os mais importantes são aqueles que fala assim da da juventude fala assim (2) a ciências mesmo trabalha assim com fala daqueles tipo de doença aids, é todo tipo de doença fala assim que que é que gente não pode assim fi- é ficar assim fa- das doenças fala tudo Aids, é sífilis gonorreia esse assunto eu acho muito importante. Gf: É importante também que fala sobre a vida nossa é a natureza que °está sendo desmatada né° Bf: Eu também gostei muito das ciências porque é um meio de de aprendizagem nossa e um meio de assim (2) é ☺2☺de (3) sabedoria que nós temos assim sobre elementos de como animais florestas pessoas doenças esse tipo de coisa. Os assuntos apontados como mais importantes são os que “fala da juventude,” o que confirma a fala propositiva das jovens sobre um período que vivenciam, a juventude. A fala de Daniela ilustra as preocupações existentes nos espaços educativos, sobretudo na escola, em torno da sexualidade do(a) jovem e das doenças associadas a ela. A disciplina de ciências, e consequentemente a escola, desempenha o papel de falar e orientar sobre assuntos que interessam ao(à) jovem, o que permite rever a ideia amplamente divulgada de que ele/ela não se interessam pela escola e pelo saber. A possibilidade de adoecer de “aids, sífilis e gonorréia” por não estar informado preocupa Daniela, que parece conceber essas enfermidades como próprias da juventude, dada a disseminação de informações que apontam os/as jovens como Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 145 Não ser só um carregador de livro: elaborações de jovens rurais sobre a escola mais vulneráveis às doenças infectocontagiosas e às drogas. Embora as instituições educativas estejam motivadas para tratar dessas questões, ainda o fazem sem ouvir o que os/as jovens têm a dizer. A abordagem de temas/questões relacionados à condição juvenil no momento presente ainda é feita de maneira verticalizada e dissociada das experiências dos(as) jovens, que não são convidados a falar sobre o que gostariam de aprender na escola. Nesse sentido, as ponderações realizadas pelas jovens moças reiteram a importância do reconhecimento das vozes juvenis rurais como necessárias para redimensionar o modelo de formação escolar mediado pelas instituições públicas. Para as jovens, os saberes referentes à vida juvenil são necessários para garantir a partilha de experiências coletivas de maneira saudável, participativa e segura, tornando a relação com o conhecimento escolar significativa por estar atrelada às necessidades e desafios que marcam o cotidiano em que estão inseridas. Ter conhecimento sobre a vida humana, representada na fala complementar de Geane como “a vida nossa,” parece reforçar a expectativa de muitos jovens em ver os assuntos, desejos, necessidades inerentes à sua vida sendo discutidos na escola. A referência inicial à disciplina ciências - bem como a seus conteúdos - como o assunto mais importante pode sugerir que temáticas relacionadas à sua condição de jovem (“a vida nossa”), como a sexualidade e a natureza, são as que primeiro aparecem quando são solicitadas a falar do conhecimento. Considerações finais: análise comparativa dos grupos de discussão Esta análise busca reconstruir as orientações coletivas dos grupos Os/as jovens que vêm de longe e As meninas que sonham, bem como as interações produzidas pelos(as) jovens sobre a escola, numa tentativa de compreender as divergências, aproximações e singularidades que marcam a relação com esta instituição social, nessa etapa da escolarização. A compreensão dessas questões passa pelo reconhecimento dos aspectos que marcam o processo de escolarização desses jovens, a exemplo da dimensão socioespacial, sexo, raça/etnia, faixa etária e trajetória escolar. 146 A escola é compreendida também como espaço que tem um valor social relevante no meio rural. Para As meninas que sonham, estar nessa instituição possibilita aprender coisas interessantes que poderão ser partilhadas com os outros. Destacam, assim, o compromisso com os que provavelmente “não têm estudo nenhum”, o que acentua as mudanças ocorridas no processo de escolarização do distrito desde a oferta da II etapa do ensino fundamental, em 1992. Se em épocas passadas os “antigos do lugar” passaram por privações e constrangimentos, carregando a alcunha de analfabetos e ignorantes, no momento presente As meninas que sonham estão familiarizadas com a cultura escolar e sentem-se capazes de se movimentar no mundo da cultura letrada. Esse movimento em torno dos significados da instituição escolar para as jovens pode ser observado tomando-se por base a relação estabelecida com o conhecimento escolar. Propagam não apenas a relevância social dessa instituição, mas o seu papel em discutir a sua condição de jovem, no momento presente. As jovens querem que a escola fale sobre esse tempo presente: o de ser jovem. Tempo marcado por dúvidas, medo e insegurança. É importante destacar que, histórica e socialmente, a juventude tem sido referenciada como uma etapa da vida caracterizada pela instabilidade, associando os jovens a determinados “problemas sociais”. Eles costumam ser entendidos como deficitários, “problemáticos”, não sendo vistos, ouvidos e compreendidos como sujeitos capazes de apresentar questões para além das inseguranças e esperanças dos outros. As jovens parecem saber que estão autorizadas a falar o que a escola precisa abordar, escutar. Clamam pelo respeito por sua condição de vida, o que naturalmente impacta na tradicional predominância do estatuto de estudante. Já Os/as jovens que vêm de longe apreciam a escola disciplinar, comprometida com o ensino eficiente, que os torne capazes de aprender coisas interessantes e melhorar o discurso. Os jovens acentuam a responsabilidade da escola para com a garantia e eficiência em relação à aquisição de saberes escolares, já que para os/as jovens desse grupo essa instituição está autorizada para esse fim. Propõem que ela os livre do estigma que acompanhou a vida de familiares e conhecidos durante Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva toda uma vida: o de “falar errado”, “não saber falar” ou “não saber fazer conta”. Essa experiência, inscrita na memória de muitos homens e mulheres do meio rural, parece perturbar Os/as jovens que vêm de longe. Talvez por isso seja tão urgente e importante não ser só “um carregador de livro”, mas apropriar-se de um “discursuzinho melhor”. Entrar no mundo instituído vai além da busca pelo trabalho e pela melhoria de vida; essa entrada está atrelada também ao desejo de ser reconhecido como capaz, como sujeito que se apropriou dos códigos da cultura letrada. REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Ricardo et al. Dilemas e estratégias dos jovens rurais: ficar ou partir. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 236-271, 2004. BOHNSACK, Ralf; WELLER, Wivian. O método documentário e sua utilização em grupos de discussão. Educação em Foco, Juiz de Fora, v. 11, n. 2, p.19-38, mar./ago. 2006. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A partilha da vida. São Paulo: GEIC/Cabral, 1995. ______. O trabalho de saber. Porto Alegre: Sulina, 1999. CARNEIRO, Maria José. Juventude rural: projetos e valores. In: ABRAMO, Helena Wendel; BRANCO, Pedro Paulo Martoni (Orgs.). 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Anexo I - Códigos utilizados na transcrição das entrevistas (modelo criado pelos pesquisadores do grupo coordenado por Ralf Bohnsack, na Alemanha) Y: abreviação para entrevistador (quando realizada por mais de um entrevistador, utiliza-se Y1 e Y2) Am/Bm: abreviação para entrevistado/entrevistada. Utiliza-se “m” para entrevistados do sexo masculino e “f” para pessoas do sexo feminino. Numa discussão de grupo com duas mulheres e dois homens, por exemplo, utiliza-se: Af, Bf, Cm, Dm e dá-se um nome fictício ao grupo. Essa codificação será mantida em todos os levantamentos subsequentes com as mesmas pessoas. Na realização de uma entrevista narrativa-biográfica com um integrante do grupo entrevistado anteriormente, costuma-se utilizar um nome fictício que inicie com a letra que a pessoa recebeu na codificação anterior (por exemplo: Cm, Carlos). ?m ou ?f: utiliza-se quando não houve possibilidade de identificar a pessoa que falou (acontece algumas vezes em discussões de grupo quando mais pessoas falam ao mesmo tempo). (.) um ponto entre parênteses expressa uma pausa inferior a um segundo. (2) o número entre parênteses expressa o tempo de duração de uma pausa (em segundos). Г utilizado para marcar falas iniciadas antes da conclusão da fala de outra pessoa ou que seguiram após uma colocação. ; ponto e vírgula: leve diminuição do tom da voz. . ponto: forte diminuição do tom da voz. , vírgula: leve aumento do tom da voz. exem- palavra foi pronunciada pela metade. exem:::plo pronúncia da palavra foi esticada ( a quantidade de : equivale o tempo da pronúncia de determinada letra). assim=assim palavras pronunciadas de forma emendada. exemplo palavras pronunciadas de forma enfática são sublinhadas. 148 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 Catarina Malheiros da Silva °exemplo° palavras ou frases pronunciadas em voz baixa são colocadas entre pequenos círculos. exemplo palavras ou frases pronunciadas em voz alta são colocadas em negrito. (example) palavras que não foram compreendidas totalmente são colocadas entre parênteses. ( ) parênteses vazios expressam a omissão de uma palavra ou frase que não foi compreendida (o tamanho do espaço vazio entre parênteses varia de acordo com o tamanho da palavra ou frase). ☺exemplo☺ palavras ou frases entre risos são colocadas entre emoticons. ☺(2)☺ número entre sinais de emoticon expressa a duração de risos assim como a interrupção da fala. ((bocejo)) expressões não-verbais ou comentários sobre acontecimentos externos, por exemplo: ((pessoa acende cigarro)), ((pessoa entra na sala e a entrevista é brevemente interrompida)) ((risos)). //hm// utilizado apenas na transcrição de entrevistas narrativas-biográficas para ou //☺ (1) ☺// indicar sinais de feedback (“ah,” “oh,” “mhm”) ou risos do entrevistador. Recebido em 02.05.2011 Aprovado em 22.08.2011 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 137-149, jul./dez. 2011 149 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo SUJEITOS, INSTITUIÇÕES E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS: TECENDO AS MÚLTIPLAS REDES DA EDUCAÇÃO RURAL NA BAHIA Elizeu Clementino de Souza Fábio Josué Souza dos Santos Ana Sueli Teixeira de Pinho Sandra Regina Magalhães de Araújo ـ ــ ـــ ــــ RESUMO O artigo apresenta e sistematiza alguns dados levantados no âmbito do projeto de pesquisa Ruralidades diversas – diversas ruralidades: sujeitos, instituições e práticas pedagógicas nas escolas do campo Bahia-Brasil, desenvolvida em colaboração entre a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e a Universidade de Paris 13/Nord- Paris8/Vincennes-Saint Denis (França). A pesquisa contou com financiamento da FAPESB e do CNPq, e teve por objetivo investigar ações educativas que se desenvolvem em diferentes Territórios de Identidade do Estado da Bahia, buscando compreender como se dá a articulação entre as práticas educativas nos seus territórios de implantação. Do ponto de vista metodológico, utilizou-se as histórias de vida com aplicação de questionários, grupo focal e as entrevistas narrativas. A pesquisa permitiu-nos compreender a presença de distintos cenários da educação rural no estado, que em linhas gerais podem ser resumidos na existência quase majoritária de experiências politicamente conservadoras vinculadas às escolas “oficiais”, que fazem da escola uma agência técnica, alheia à realidade local; e, de outro lado, na existência de experiências progressistas, com forte vínculo com os movimentos sociais, nas quais a escola tem se configurado como uma agência política com forte enraizamento. Palavras-chave: Ruralidades. Educação Rural. Biografização. Práticas Pedagógicas. ـ Pesquisador CNPq. Doutor em Educação (UFBA), com doutorado sanduíche na Universidade de Lisboa, Portugal. Professor Titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Coordenador do Projeto de Pesquisa Ruralidades diversas – diversas ruralidades (FAPESB/CNPq). Endereço para contato: Av. Silveira Martins, 2550, Narandiba – CEP. 41.195.001. esclementino@ uol.com.br ــ Doutorando e mestre em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB). Professor Assistente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), campus Amargosa. Vice-coordenador do Projeto de Pesquisa Ruralidades diversas – diversas ruralidades (FAPESB/CNPq). Endereço para contato: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, campus Amargosa. Av. Nestor de Melo Pitta, n. 535, Amargosa (BA), CEP: 45.300-000. [email protected] ـــ Doutoranda e mestre em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB). Professora Assistente da Universidade Católica do Salvador (UCSal). Membro da equipe de pesquisa do Projeto de Pesquisa Ruralidades diversas – diversas ruralidades (FAPESB/CNPq). Bolsista CAPES. Endereço para contato: Universidade Católica do Salvador, Campus da Federação. Avenida Cardeal da Silva, nº 205 Federação, Salvador (BA), CEP: 40226-900. [email protected] ــــ Doutoranda e Mestre em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC/UNEB). Professora Assistente da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus I/DEDC. Membro da equipe de pesquisa do Projeto de Pesquisa Ruralidades diversas – diversas ruralidades (FAPESB/CNPq). Bolsista PAC/UNEB. Endereço para contato: Rua Dr. Silveira Martins, 2555 – Cabula – Salvador/Bahia. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 151 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia ABSTRACT SUBJECTS, INSTITUITIONS AND PEDAGOGICAL PRACTICES: WEAVING THE MULTIPLE NET OF RURAL EDUCATION IN BAHIA This paper presents and systematizes data collected in the context of the research project called Diverse Ruralities : subjects, institutions and pedagogical practices in the rural school of Bahia, Brazil. This project is realized in collaboration between the State University of Bahia, the Federal University of the Recôncavo of Bahia, and Paris 13 and Paris 8 French Universities. The research, financed by FAPESB and the CNPq aims to investigate educations practices which happen in various territories of identities of the state of Bahia, looking to understand how educational practices are articulated with their territories of implementation. We collected data through life histories, questionnaires, focus groups and open interviews. The research permit us to understand the presence of distinct scenes in rural education in the State of Bahia, that we can briefly summarize by, on one hand, the existence of politically traditional experiences associated to the official schools which turned school into a technical agency disconnected from the local reality; and, on the other hand, by the existence of progressive experiences, linked to social movements, where school is configured as a deeply rooted political agency. Keywords: Ruralities. Rural education. Biographic method. Pedagogical practices. Introdução Este artigo apresenta e sistematiza alguns dados levantados no âmbito da pesquisa Ruralidades diversas - diversas ruralidades: sujeitos, instituições e práticas pedagógicas nas escolas do campo Bahia-Brasil1, desenvolvida de agosto de 2008 a agosto de 2011, que teve por objetivo investigar ações educativas que se desenvolvem em diferentes Territórios de Identidade do Estado da Bahia e em espaços rurais da França2, tecendo, A pesquisa foi desenvolvida em regime de colaboração entre a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e a Universidade de Paris 13/Nord - Paris8/Vincennes-Saint Denis (França), por meio de parceria entre os seguintes grupos de pesquisa: Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História Oral (GRAFHO) (PPGEduC/UNEB); Grupo de Pesquisa Currículo, Avaliação e Formação (CAF) (UFRB/Centro de Formação de Professores – Campus Amargosa); e o Centre de Recherche Interuniversitaire EXPERICE (Paris 13/Nord-Paris 8/ Vincennes-Saint Denis). A referida pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), por meio do Edital FAPESB 04/2007 - Temático Educação, e também do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio do Edital MCT/CNPq 03/2008 Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas. Atualmente conta com financiamento do CNPq, Edital Universal 14/2010. 2 A participação da equipe francesa deu-se em seminários de formação e eventos acadêmicos promovidos no âmbito do projeto, bem como na realização da pesquisa Intervenção social, solidariedade e dinamismos locais, em território francês. 1 152 assim, as múltiplas redes que são estabelecidas sobre a Educação Rural, com base na articulação de pesquisas que têm esse campo como seu principal objeto de estudo. A pesquisa buscou compreender como se dá a articulação entre as práticas educativas e os seus territórios de implantação, isto é, entre as práticas e os sujeitos concretos – homens, mulheres, crianças, adolescentes e jovens – que habitam e intervêm nesses territórios e deles com os dinamismos locais, buscando, por fim, interrogar como se atualiza o potencial “aprendente” do lugar. A escolha pelo estudo dos territórios rurais deu-se em virtude de ali se concentrarem os piores indicadores educacionais no estado da Bahia, que serão analisados posteriormente. Com isso, admite-se que os territórios rurais, por força dos complexos processos de urbanização, foram historicamente banidos das pautas e agendas de discussões para definição de políticas que atendam as especificidades que são inerentes a essa população, e quando isso é feito, a educação oferecida é de fato transplantada da lógica urbana para o meio rural. A lógica da simples transferência do modelo de escola da cidade para o campo (POPKEWITZ, 2001) já mostrou seu esgotamento, tornando inadiável o desenvolvimento Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo de abordagens inovadoras que considerem as particularidades dos territórios rurais e que busquem adequar-se às experiências, necessidades e anseios das populações rurais. Ao estudar as escolas rurais e suas diferentes significações no contexto social e escolar, a pesquisa desdobra-se em questões e objetivos, os quais foram organizados com base em três entradas: a) os sujeitos das escolas rurais; b) trabalho e prática pedagógica nas escolas rurais; c) instituições escolares rurais. Utilizou-se como recurso metodológico a biografização – histórias de vida – dos sujeitos que vivem e trabalham no território rural. Entre outras questões, a pesquisa estuda os diferentes tipos de instituições, os processos de formação de professores atuantes na educação rural, a organização do trabalho docente e as práticas pedagógicas, e aprofunda o entendimento das escolas em sua inscrição nos territórios rurais, baseando-se em vozes e experiências formativas dos sujeitos no espaço rural, nas formas de solidariedade e de competências coletivas como vetor de desenvolvimento local. Contextualizando a pesquisa: o campo empírico das pesquisas A pesquisa tomou como referência a existência de distintas ruralidades que caracterizam o estado da Bahia. Inicialmente, quando da apresentação do projeto às agências financiadoras, optamos (por tomar) como campo empírico três espaços situados em diferentes regiões do estado, com olhares específicos sobre as ruralidades que os caracterizam. A opção recaiu, então, sobre os espaços das ilhas situadas no município de Salvador (Ilha de Maré, Ilha dos Frades, Ilha de Bom Jesus dos Passos e Paramana); o município de Amargosa, no Recôncavo Sul; e o município de Pintadas, na região do Semiárido. No processo da pesquisa o projeto foi incorporando outros Territórios de Identidades3, espe O conceito de território utilizado pela Secretaria de Cultura da Bahia entende que eles não são definidos pela objetividade dos fatores disponíveis, mas pela maneira como se organizam e devem ser entendidos como “base geográfica da existência social”. É no território que a população constrói a sua identidade e os seus sentimentos de pertencimento, onde expressa seu patrimônio cultural e define o seu destino. Contudo, é fundamental ressaltar as dificuldades que 3 cialmente por considerar os objetos de estudo e as opções teórico-metodológicas empreendidas pela equipe técnica vinculada à pesquisa. Nessa perspectiva, foram ampliados os espaços de investigação e, além das pesquisas situadas no Território de Identidade do Vale do Jiquiriçá (Amargosa), no Território de Identidade da Região Metropolitana de Salvador (ilhas situadas no município de Salvador, como já referido), Território de Identidade da Bacia do Jacuípe (Pintadas), já presentes desde o início do projeto, tivemos a incorporação de pesquisas realizadas nos seguintes Territórios de Identidade: Território da Chapada Diamantina (Itaberaba, Lençóis, Palmeiras e Iraquara); Território do Velho Chico (Ibitiara); Território do Sisal (Serrinha), Território de Itapetinga (Itapetinga); Território do Piemonte da Diamantina (Jacobina); Território Sertão Produtivo (Caetité), Território Bacia do Jacuípe (Baixa Grande). As pesquisas intentam, portanto, compreender como essas diversas ruralidades configuram-se enquanto lugares de aprendizagem, como as práticas escolares articulam-se nos territórios rurais em que se inserem, isto é, como levam (ou não levam) em conta as especificidades, os anseios, as demandas dos habitantes e da população que vive o cotidiano rural, mediante a apreensão de ações coletivas locais frente a promoção e ressignificação dos territórios e das identidades rurais na contemporaneidade. As etapas da pesquisa O trabalho centrou-se, inicialmente, na Configuração dos espaços escolares rurais: sujeitos, práticas e instituições, baseado no mapeamento estatístico dos espaços das escolas rurais dos Territórios de Identidade, por meio de consultas ao Censo Escolar, especialmente no que se refere ao número de escolas, docentes e alunos e aos indicadores de desempenho (aprovação, reprovação e evasão). Num segundo momento buscou-se ampliar a Rede de pesquisa: ações educativas e diversas ruralidades, mediante discussão e aprofundamento teórico-metodológico, da ampliação e revisão bipermeiam a descentralização das políticas de desenvolvimento e os limites institucionais, estreitos, que lhe são impostos (DUARTE, 2009, p. 2). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 153 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia bliográfica, com ênfase na discussão teórica e de formação, tendo em vista a construção do perfil etnográfico e de aspectos do cotidiano dos Territórios de Identidade pesquisados, possibilitando-nos a elaboração dos instrumentos de recolha de dados, a seleção dos participantes – atores sociais – e, consequentemente, a aplicação de questionário nas escolas multisseriadas dos territórios envolvidos na pesquisa, bem como o planejamento do roteiro e dos eixos para entrevistas, a realização de grupo focal nos espaços/territórios da pesquisa. No terceiro momento integrado da pesquisa buscamos desenvolver ações de Formação de pesquisadores em rede, mediante a realização de seminário de formação; de reunião da equipe da pesquisa e da elaboração de relatórios parciais; e de construção individual e coletiva de textos e artigos para apresentação em eventos da área e publicações em livros e periódicos. Por fim, centramos atenção com a Sistematização e socialização de conhecimentos, por meio da análise das fontes/ dados, da singularidade das entradas previstas na pesquisa e de suas articulações com os quadros teórico-metodológicos adotados neste trabalho de investigação-formação. Dimensões metodológicas da pesquisa: histórias de vida e biografização A pesquisa desenvolveu-se mediante uma abordagem qualitativa, pois fornece uma compreensão profunda dos fenômenos sociais, apoiada no pressuposto de grande relevância do aspecto subjetivo da ação social, decorrente da própria configuração de como se estrutura a sociedade (HAGUETTE, 1990). Para tanto, após o trabalho de mapeamento estatístico, utilizou-se as histórias de vida como abordagem metodológica (SOUZA, 2006, 2006a, 2006b), recorrendo-se ao grupo focal e às entrevistas narrativas (ARFUCH, 1995). Dada as especificidades das entradas e os olhares lançados sobre os diferentes territórios rurais pesquisados, as possibilidades de instrumentos para coleta de dados também foram ampliadas, utilizando-se multiplicidades de formas de registros do cotidiano rural, por meio de narrativas dos sujeitos, da análise de documentos, fotografias, dados estatísticos, dentre outros. 154 Do ponto de vista metodológico, a abordagem biográfica-narrativa assume a complexidade e a dificuldade em atribuir primazia ao sujeito ou à cultura no processo de construção de sentido. Ao longo de seu percurso pessoal, consciente de suas idiossincrasias, o indivíduo constrói sua identidade pessoal, mobilizando referentes que estão no coletivo. Contudo, ao manipular esses referentes de forma pessoal e única, constrói subjetividades, também únicas. Nesse sentido, a abordagem biográfico-narrativa pode auxiliar na compreensão do singular/universal das histórias, memórias institucionais e formadoras dos sujeitos em seus contextos, pois revela práticas individuais que estão inscritas na densidade da História. Entendemos que a pesquisa deve, como toda prática social, assumir ideologicamente seus valores e seus vínculos de toda ordem. As subjetividades, na dialética jogo-jogante/jogo-jogado, têm sido trazidas à cena teórica por autores como Nóvoa e Finger (1988), Ferrarotti (1988), Catani (2005, 2003) e Catani et. al. (1997, 1998), além de Queiroz (1988) e Demartini (1988). Todos esses autores têm contribuído para pensarmos, no campo da educação, a articulação entre as pressões reais da vida, a consciência e as intencionalidades em um novo paradigma interpretativo, no qual as narrativas legitimam-se como fontes imprescindíveis, ainda que não as únicas, de compreensão dos fenômenos humanos. Assim, nas pesquisas desenvolvidas a perspectiva de análise adotada apoiou-se, predominantemente, na abordagem biográfica (DELORY-MOMBERGER, 2000, 2006, 2008) das pessoas que vivem, estudam e trabalham no mundo rural. Os seminários de formação desenvolvidos possibilitaram a reafirmação dos espaços empíricos e a indicação das instituições, sujeitos e práticas que integram a pesquisa, tendo em vista a elaboração dos instrumentos de coleta de dados em constante diálogo com os objetivos e quadro teórico. No desenvolvimento das investigações de campo foram aplicados questionários e utilizados formulários de registro de dados; posteriormente, trabalhamos com a técnica de grupo focal, entrevista narrativa – trajetórias de vida/formação –, tendo em vista a articulação/apropriação dos conceitos propostos na pesquisa. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo Dessa forma, vislumbrou-se ainda a possibilidade de que os estudos realizados pudessem servir de base para orientar projetos de formação dos educadores da Educação Básica das regiões estudadas, sendo capazes de impactar na melhoria da qualidade deste nível da Educação, bem como para a ampliação e definição de políticas públicas para a educação rural no estado da Bahia. Ruralidades à vista: o rural na contemporaneidade Nas últimas décadas, as novas configurações sociais, produzidas principalmente pelo processo de globalização e pela adoção de políticas neoliberais, que tiveram no avanço tecnológico uma condição favorável, têm provocado uma nova dinâmica nos fluxos culturais entre o rural e o urbano, incitando um grande movimento de teorização e de resistência com base na organização dos movimentos sociais do campo. Essas novas configurações colocaram por terra algumas teses da Sociologia Rural e da Economia Rural dos anos 1970 que apregoavam o fim do rural e levantaram, entre os estudiosos, grandes discussões (CARNEIRO, 2002; CARNEIRO, 2005; MOTA; SCHMITZ, 2002; VEIGA, 2002; WANDERLEY, 2000). Analisando esse novo contexto, Mota e Schmitz (2002) consideram que mesmo com as transformações da agricultura brasileira nas últimas décadas, não houve um processo de homogeneização das diferentes áreas. Assim, é apropriado falar em “ruralidades” no contexto nacional. As mudanças ocorridas nesse cenário nos colocam interrogações do tipo: como evitar que a pressão, cada vez mais forte das trocas econômicas, das telecomunicações e dos transportes não venha a dividir o mundo entre espaços urbanos caracterizados pela mobilidade, pela capacidade de transformação e espaços que não têm outra escolha a não ser se manter como “candidatos à urbanização”?. Teóricos comprometidos com a territorialidade rural em sintonia com atores do desenvolvimento local e sustentável começaram a trazer elementos de resposta a tais questões investindo, em particular, na reconceituação da noção de “território”. Nesse sentido, uma teoria de construção da noção de território – tal como o define, por exemplo, Raffestin (1986) – repousa sobre a prática e o conhecimento que os grupos humanos mobilizam para ocupar, explorar e modelar um espaço de maneira a transforma-lo em território. É aqui que pode ser mobilizada a noção de “lugar” como espaço dotado de certa habitabilidade. O lugar não é mais dado a priori, ele não é simplesmente uma “matéria-prima”, ele é uma realização, uma produção, uma criação coletiva, um projeto refundador do laço social e recriador de um imaginário social. O lugar, como o afirma Magnaghi (2003), torna-se, nessa perspectiva, uma obra comum, uma obra de arte coletiva. A noção de lugar remete à relação que o indivíduo estabelece consigo mesmo e com os outros: o lugar é homólogo e constitutivo de si, como o é do outro. Entrikin (2003) propõe que a relação de si com o mundo e de si com outros é construída por um discurso que junta elementos subjetivos e objetivos do lugar e da comunidade. Os lugares são tomados nas redes de interesse e de experiências que neles desenvolvem os sujeitos: os lugares se formam e aprendem por sua vez tanto quanto aprendem os sujeitos que neles interagem (SCHALLER, 2007). Os indivíduos transformam os lugares e essas transformações afetam o que eles são e o que eles fazem. O lugar como espaço de aprendizagem, como espaço aprendente, participa da ação coletiva como expressão de identidade cultural e de solidariedade coletiva. Isso passa pelas redes de saber que circulam e se ligam num território. Um lugar, por meio da rede de ações que ele favorece, mediante a atualização das redes de atores que o atravessam, é aprendente porque permite produzir marcas do conjunto de relações que nele se estabelecem e, sobretudo, dos processos recíprocos entre saberes formalizados e saberes da experiência. A noção de lugar aprendente remete ainda às capacidades de transformação e de ação coletiva desses atores. Nisso, o lugar aprendente dá sentido à horizontalidade da criatividade coletiva, a um projeto urbano que emerge de baixo, como dá sentido ao desenvolvimento renovado das existências individuais e das projeções biográficas. EDUCAÇÃO “RURAL” NO BRASIL: o reconhecimento de que o rural existe Quando analisamos a realidade das populações rurais no Brasil, vemos a expressão e os sinais de um histórico de abandono e negligências em rela- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 155 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia ção às políticas públicas, em especial à educação ofertada a esta população. Os dados revelam que nesses espaços situam-se os piores indicadores educacionais, ou seja, as maiores taxas de analfabetismo, os maiores índices de distorção idade/série, a maior quantidade de escolas sem energia, sem água encanada, sem bibliotecas, sem laboratórios, sem TV, vídeo, parabólica etc. (BOF, 2006). A análise dos indicadores educacionais testemunha uma realidade extremamente precária: considerando a população de 10 anos e mais, enquanto o número médio de anos de estudos no Brasil urbano é de 7,3, e de 6,4 no Nordeste (urbano), estes números decaem para 4,2 e 3,5, respectivamente, quando se analisa os dados rurais (IBGE, 2006). A taxa de analfabetismo de 15 anos ou mais no meio rural brasileiro é de 25,8%, enquanto na zona urbana é de 8,7%. No Nordeste, a taxa de analfabetismo dessa mesma população na zona urbana é de 16,8%, contra 37,7% na zona rural, segundo Censo Demográfico de 2000 e PNAD 2004 (BRASIL, 2007). Todos os indicadores que se buscar (distorção idade/série, frequência à escola etc.) vão apontar uma diferença significativa quando se compara a realidade rural com a urbana. Ainda de acordo com as mesmas fontes, a taxa de frequência de crianças entre 7 e14 anos que estão frequentando as escolas do ensino fundamental são de 97,5% na cidade e 95,5% no campo. Contudo, a distorção idade-série é elevada desde as séries iniciais do ensino fundamental, com 41,4% dos alunos com idade superior à desejável ou adequada. Nas áreas urbanas, essas taxas são de 19,2% para as séries iniciais e de 34,8% para as séries finais do ensino fundamental (BRASIL, 2007a). No tocante ao ensino médio, os dados são extremamente críticos, pois os jovens de 15 a 17 anos, quando levado em conta a taxa de frequência líquida, pouco mais de um quinto dos jovens nesta faixa etária, ou seja, 22,1% estão frequentando esse nível de ensino, contra 49,4% da zona urbana. Ainda sobre o ensino médio, os dados indicam o número insuficiente de estabelecimentos de ensino, isto é, existem 1.377 com 206.905 alunos matriculados. Isso revela que 71,5% dos alunos matriculados nas escolas rurais estão no primeiro segmento do ensino fundamental, 28,5% no segundo segmento e apenas 2,5 no ensino médio (BRASIL, 2007). 156 Quanto ao tipo de organização, verifica-se que 59% dos estabelecimentos do ensino fundamental são formados essencialmente por turmas multisseriadas ou unidocentes, concentrando 24% das matrículas; já as escolas exclusivamente seriadas representam 20% e concentram pouco mais da metade das matrículas. As classes mistas (multisseriadas e seriadas) respondem por um quarto das matrículas (BRASIL, 2007). Ainda sobre as classes multisseriadas e unidocentes, o documento Educação do Campo: diferenças mudando paradigmas da SECAD/MEC (BRASIL, 2007) afirma serem elas um dos grandes desafios às políticas públicas do campo, tendo em vista a ausência histórica do Estado, sendo inclusive objeto de crítica pelo INEP/MEC (BRASIL, 2007a) por causa da baixa eficiência e qualidade. O quadro acima esboçado revela que, ao longo de nossa história, o Estado brasileiro sempre negligenciou, abandonou a educação rural (LEITE, 1999). O que justificou essa prática foi a ideologia urbanocêntrica e metropolitana, que entendia ser necessário superar o nosso caráter rural para que o país entrasse na modernidade; daí que, nessa lógica, não se concebia ser necessária a definição de políticas de Estado para as áreas rurais, relegando-asao esquecimento. Entretanto, nas últimas décadas essa ideologia vem sendo questionada. Veiga (2002), em seu livro Cidades imaginárias: o Brasil é bem menos urbano do que se calcula, refuta a metodologia de cálculo utilizada pelo IBGE para delimitar os espaços rurais e urbanos no Brasil, mostrando que o Brasil é menos urbano do que se calcula e que, em vez de ser um anacronismo na modernidade, o mundo rural passa por profundas mutações. Num outro plano, as ações políticas dos movimentos sociais e sindicais do campo, bem como outras entidades, organizações não governamentais, instituições educacionais, com o apoio da Igreja Católica, vêm problematizando as abordagens teóricas que concebem o rural como lugar do atraso ou lugar condenado à extinção. Esses novos atores sociais têm se organizado nacionalmente, a partir da segunda metade dos anos 1990, em torno da Articulação Nacional por uma Educação Básica do Campo. Esse movimento político tem proposto outro olhar sobre o campo, forçando, inclusive, a formulação de políticas públicas educacionais específicas para esses espaços sociais. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo Os avanços conquistados pela ação dos movimentos sociais e sindicais, a partir do final do século XX e na primeira década deste milênio, por conta do diálogo e abertura política institucional no âmbito do governo federal durante os governos Lula, podem ser reunidos em três dimensões: a) o surgimento de um novo marco legal, inédito em nossa história, considerando o direito dos sujeitos do campo a uma educação de qualidade e que respeite suas especificidades; b) a formulação e o desenvolvimento de programas educacionais específicos para os sujeitos do campo; e c) o crescente desenvolvimento de pesquisas sobre a temática. É neste quadro que se insere, por exemplo, no que se refere à dimensão normativa, a aprovação pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação de vários Pareceres e Resoluções que vão se constituir no primeiro marco legal sobre a Educação do Campo no Brasil. Mais recentemente, podemos destacar o Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010, que “Dispõe sobre a política de educação do campo do Programa Nacional de Educação em Áreas de Reforma Agrária – PRONERA” (BRASIL, 2010). A aprovação desses marcos legais tem um significado histórico, pois rompe com o silêncio das políticas educacionais destinadas aos sujeitos do campo no Brasil. Contudo, como lembra Silva (2003, p. 33), [...] elas não surgem do nada. Elas são fruto, justamente, de toda a ebulição existente, hoje, no Brasil, na linha da construção de uma escola do campo, atuante como instrumento de cidadania a serviço de um projeto de desenvolvimento sustentável. No que se refere a programas, projetos e ações executivas, cumpre destacar, inicialmente, no âmbito do MEC, a criação do Grupo Permanente de Trabalho de Educação do Campo (GPT), em 2003, logo no início do primeiro governo Lula. No ano seguinte cabe destacar a implantação da Coordenação Geral de Educação do Campo (CGEC), vinculada à SECAD/MEC4 (MUNARIN, 2006). A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) foi criada no primeiro semestre de 2004 na estrutura organizativa do MEC. A CGEC foi criada em agosto do mesmo ano, fato que coincide com a realização da II Conferência Nacional por uma Educação do Campo. No governo Dilma, em 2011, essa Secretaria incorporou a Secretaria de Educação Inclusiva do MEC, passando a ser denominada de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI). Neste texto, como estaremos 4 A criação dessa Coordenação e sua importância no âmbito da estrutura governamental podem ser melhor compreendidas quando consideramos que [...] o MEC depois de mais de 70 anos de existência, somente agora, neste milênio e a partir do atual governo, se dispôs a criar um espaço formal para acolher e coordenar as discussões em torno da elaboração de uma política nacional de Educação do Campo’ (MUNARIN, 2006, p. 16). Após a criação da CGEC, o MEC apoiou e até mesmo organizou eventos para discutir esse tema5. Além disso, o MEC tem feito um esforço nos últimos anos para a formulação e implantação dos seguintes programas: ProJovem/Campo – Saberes da Terra, e, finalmente, o PROCAMPO. Cabe destacar ainda a abertura de editais específicos no âmbito da SECAD, que tem propiciado o fortalecimento das ações no âmbito da Educação do Campo. Mesmo com avanços apontados, grande parte dessas contribuições, contudo, tem se restringido às escolas e instituições parceiras ligadas aos movimentos sociais, sindicais, da sociedade civil organizada, ou tem se reduzido às formulações educacionais específicas para as populações do campo, que, embora importantes, não têm ainda seu devido rebatimento no cotidiano do conjunto das escolas rurais brasileiras. A precária situação da educação ofertada para a população rural, confirmada com os dados apresentados anteriormente, decorrente da falta de políticas adotadas pelo poder público em todas as esferas (federal, estadual e municipal), foi corroborada pelo silenciamento a que o tema foi submetido nos Programas de Pós-graduação em Educação no Brasil – inclusive na Bahia –, em que se pode encontrar um “vazio teórico” sobre esta temática, conforme constata Santos: Em todas as áreas que constituem o campo educacional (currículo, didática, formação de professores, gestão educacional, políticas educacionais, etc.) inclusive entre as correntes teóricas consideradas nos referindo às ações implementadas antes de 2011, manteremos a antiga denominação: SECAD. 5 Dentre os eventos apoiados pelo MEC, podemos citar: a II Conferência Nacional Por uma Educação do Campo, no ano de 2004; o Seminário Nacional Sobre Educação do Campo, realizado em Cuiabá (MT); o I, II e III Encontros Nacionais de Pesquisa em Educação do Campo, realizados em Brasília nos anos de 2005, 2008 e 2010, respectivamente. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 157 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia mais progressistas, as especificidades “rurais” têm sido ignoradas e tratadas genericamente sob um olhar ‘urbanocêntrico’ (SANTOS, 2006, p. 22). Segundo esse autor, só na década de 1990 [...] em virtude da força com que se impuseram os movimentos sociais do campo, uma quantidade significativa de trabalhos tem-se voltado para estudar tais movimentos, com o propósito de analisar diferentes aspectos de sua organização social, política e educacional (SANTOS, 2006, p. 23). Nesse contexto, continua Santos, “[...] estudos sobre os fundamentos das práticas educativas do MST têm monopolizado as atenções”. Destacam-se ainda os estudos sobre os Centros Educativos Familiares de Formação por Alternância (CEFFA)6, que adotam a Pedagogia da Alternância e congregam as Escolas Famílias Agrícolas (EFA), as Casas Familiares Rurais (CFR), as Escolas Comunitárias Rurais (ECOR), entre outras cinco experiências, contando atualmente com 263 escolas espalhadas por mais de 20 estados do país. De origem francesa, essas escolas chegam ao Brasil no final da década de 60 do século XX, por meio de lideranças religiosas italianas ligadas à Igreja Católica. Trata-se de uma alternativa de educação do campo, bem-sucedida e perfeitamente consonante com as proposições apontadas nas Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, sobretudo em áreas de agricultura familiar (ARAÚJO, 2005). Finalmente, a partir dos últimos anos, percebese que a discussão sobre o tema está avançando, inserindo-se na agenda política e acadêmica. Nas universidades, ainda que de forma pontual, vem emergindo um movimento apontando para a necessidade de se voltar para a realidade da Educação do Campo, procurando compreendê-la, estimulado pelas iniciativas legais e políticas realizadas pelo MEC, já referidas anteriormente. Acrescente-se aqui a realização de estudos recentes reunidos em torno do Programa de Estudos sobre a Educação no meio rural do Brasil (BOF, 2006), e ainda as publicações Educação do Campo e Pesquisa: questões para reflexão, Panorama da Educação Em 2011 soma-se 14 teses e 62 dissertações que tratam das experiências de formação em alternância nos Programas de Pós-Graduação em diferentes áreas do conhecimento e reconhecidos/recomendados pela CAPES (Banco de Dados da Capes, 2011). 6 158 do Campo (INEP, 2007a) e a Sinopse da Pesquisa Nacional da Educação na Reforma Agrária -PRONERA (INEP, 2007b). A emergência desses estudos pode ser medida pela quantidade de eventos nacionais e estaduais sobre a temática, que tem crescido a cada ano e nos limites deste artigo não teremos como relacionálos. Enfim, um balanço do movimento da Educação do Campo nas últimas duas décadas permite-nos celebrar algumas conquistas ao constatar que: a ação dos movimentos sociais do campo teve uma importância fundamental para a construção/proposição de um novo paradigma educacional, que respeite as necessidades e interesses dos sujeitos do campo; a luta dos movimentos sociais contribuiu para a elaboração de um novo marco legal sobre a Educação do Campo, expresso em documentos tais como Pareceres, Resoluções; a ação dos movimentos sociais do campo tem contribuído para a (re) formulação de políticas e programas educacionais diversos, tais como: PRONERA, PROCAMPO, ProJovem Campo - Saberes da Terra, Escola Ativa etc. Esse movimento tem impulsionado uma significativa produção acadêmica sobre a Educação do Campo, conforme já apontado anteriormente. As políticas formuladas e a produção acadêmica, entretanto, não têm tido o devido rebatimento nos sistemas educacionais brasileiros. A realidade da Educação do Campo hoje nos permite constatar que ela convive com experiências alternativas, progressistas, fundadas nos referenciais da Articulação Nacional por uma Educação Básica do Campo, dos Centros Educativos Familiares de Formação por Alternância (CEFFA), e do Programa Nacional de Educação nas Áreas de Reforma Agrária (PRONERA); e experiências conservadoras que se dão nas “escolas rurais isoladas” e nas “escolas polo” (escolas nucleadas) vinculadas às Secretarias Municipais de Educação. Além dos avanços históricos e legais alcançados nos últimos anos com a regulamentação e implementação de políticas públicas iniciais voltadas para a Educação do Campo, destacam-se, também, estudos e políticas de formação implicadas com as discussões sobre sociologia rural, aspectos históricos da educação rural e suas diferentes manifestações no sistema educacional brasileiro. Nesse contexto insere-se esta pesquisa, que pretendeu contribuir Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo para o conhecimento das diversas ruralidades concernentes aos sujeitos, instituições e práticas pedagógicas nas escolas rurais, tão pertinente para o estado da Bahia e historicamente silenciada, na perspectiva de apreender ações educativas, lugares de aprendizagem, dinamismos locais e intervenções sociais nos territórios rurais. Educação rural na bahia: entre o oficial e o alternativo O estado da Bahia vem apresentando, sistematicamente, nas últimas décadas alarmantes índices de desempenho educacional negativos. O quadro chega a beirar a calamidade. Os índices de analfabetismo, reprovação e evasão estão entre os mais altos do país. Os indicadores educacionais utilizados nas avaliações externas a exemplo do IDEB, do SAEB, do PISA confirmam esse desempenho preocupante. No que se refere ao IDEB, a Bahia figura, ao lado do Piauí e do Rio Grande do Norte, como o estado com um dos piores índices: um desempenho medíocre de 2,6 pontos no Ensino Fundamental (numa escala de 0 a 10). Considerando a população de 10 anos e mais, o número médio de anos de estudos no estado é de 5,6 na área urbana e 3,5 na área rural (IBGE, 2006). Some-se a isso uma alta distorção idade/série, baixos salários, falta de melhores equipamentos e infraestrutura escolar, formação inadequada dos professores etc. Em relação à formação dos educadores na Bahia, do total de professores que atuam no ensino fundamental (113.980), de acordo com o censo escolar de 2009, 15,7% dos educadores que atuam nas escolas do campo têm formação superior, contra 42,7% com a mesma formação e que desempenham suas atividades nas escolas da cidade. O percentual de educadores com formação de nível médio normal/magistério que atuam nas escolas do campo é de 74,2%, contra 48,5% da cidade. Quanto aos educadores que não são portadores de diploma de nível médio normal/magistério, a pesquisa revelou que são 9.228, e, destes, 8,5% atuam no ensino fundamental nas escolas do campo e 7,8% atuam no mesmo nível de ensino nas escolas da cidade. Os dados revelaram ainda que 37,2% dos educadores que desenvolvem suas atividades didático-pedagógicas no ensino médio nas escolas do campo têm somente formação de nível médio normal/magistério, contra 22,7% com a mesma formação que trabalham nas escolas da cidade (INEP/MEC, 2010). Considerando esse contexto foi que a equipe deste projeto de pesquisa procurou voltar-se para a realidade da educação do campo na Bahia, com o objetivo de melhor entendê-la e com o intuito de que os dados levantados favoreçam um olhar mais crítico e a compreensão mais consistente dessa problemática, capaz de orientar a elaboração de outras políticas públicas que alterem o quadro estarrecedor da educação básica pública baiana, especialmente no que se refere à educação rural, à formação de professores e ao trabalho empreendido nas classes multisseriadas, diferente das políticas atuais sobre nucleação e formação de professores. Nesse contexto, o projeto buscou estudar a escolarização oferecida às populações rurais no estado da Bahia procurando compreender: Que contextos identitários a marcam? Que políticas são pensadas para esses territórios? Quais são os seus sujeitos? Que práticas são ali desenvolvidas? Que programas? Que currículos? Quais são as instituições que implementam essas ações educativas? Que relação a escola estabelece com a comunidade local? Que estratégias ela vem adotando para que seja capaz de constituir-se uma agência promotora e estimuladora do desenvolvimento local, do dinamismo social? Os estudos realizados e a observação empírica da equipe da pesquisa permitiram-nos identificar três realidades, quando se analisa o quadro da Educação do Campo na Bahia. Uma primeira realidade está presente nas escolas “oficiais” vinculadas às Secretarias Municipais de Educação. A maioria dessas escolas dedica-se a seguir cegamente currículos que são inspirados nos livros didáticos. Assim, tornam-se estranhas e postiças à realidade local, inibindo ações de promoção do dinamismo local e de desenvolvimento sustentável. Essas práticas são decorrentes da política “oficial” adotada pelo Estado brasileiro ao longo de todo o século XX, pois a falta de políticas públicas para atender aos interesses das populações rurais logrou a escola rural ao abandono e fez com que a educação ali desenvolvida se constituísse numa tentativa de imitação da escola urbana. Ademais, nessas escolas, os dados levantados nos diferentes Territórios de Identidade Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 159 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia permitiram-nos constatar um quadro de debilidade física e material das escolas, comprometendo o trabalho desenvolvido pelos professores; também, que são submetidos a condições de formação, trabalho e remuneração que denotam uma enorme precarização. No que se refere às condições de trabalho docente, além da pobreza material dessas escolas, notou-se o forte impacto de políticas de regulação (PAR, IDEB) que tem forçado o desenvolvimento de planejamentos de ensino sem nenhuma sensibilidade em escutar os professores e em tomar como ponto de partida os saberes, experiências e histórias de vida dos docentes nesses espaços. Contudo, mesmo em condições extremamente adversas, há experiências que mostram que é possível uma ressignificação do trabalho desenvolvido, fazendo da prática pedagógica um instrumento de dinamismo da realidade local. Iniciativas desenvolvidas pelos movimentos sociais, organizações da sociedade civil, associações vão configurar uma segunda realidade, mostrandonos trajetórias e percursos promissores, pois têm desenvolvido iniciativas articuladas com os territórios rurais. Situam-se nesse grupo, por exemplo, as experiências desenvolvidas pelo Movimento de Organização Comunitária (MOC), pela Rede das Escolas Integradas do Semiárido (REFAISA), pela Associação das Escolas das Comunidades e Famílias Agrícolas da Bahia (AECOFABA), pela Rede de Educação do Semi-Árido Brasileiro (RESAB), pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) etc. Conquanto já se note a emergência de estudos sobre essas experiências, as pesquisas realizadas no âmbito deste projeto apontam para a importância de aprofundar a investigação sobre elas, visto que se trata de experiências inovadoras, vigorosas, que se destacam pela promoção do dinamismo local. Elas, na verdade, trazem lições importantes que poderiam ser incorporadas pelas “escolas oficiais”, dentre as quais se destaca: uma concepção mais abrangente de educação, que extrapola uma concepção tecnicista fundada na racionalidade técnica; uma participação mais efetiva da comunidade na definição e avaliação do trabalho desenvolvido na escola; e, por fim, um currículo que se enraíza nos contextos locais, problematizando-o e incitando a organização comunitária na busca de soluções. 160 Uma terceira realidade, vinculada às escolas oficiais, mas que aqui resolvemos apresentá-la em separado, pode ser identificada nas escolas vinculadas ao Programa Escola Ativa, desenvolvido pelo governo federal desde 1997 e voltado para atender às escolas de classes multisseriadas7. No ano de 2008 o programa sofreu uma reformulação, passou a alocar-se no âmbito da SECAD/MEC e teve um aporte significativo de recursos. Entre as reformulações implementadas, em cada estado as universidades públicas passaram a assumir o processo de formação dos docentes que deveriam trabalhar com o programa. Assim, nos últimos três anos o programa teve uma grande expansão, o que fica mais claro quando comparamos que, na Bahia, em 2004, 1.380 turmas de 138 municípios do estado participavam do Programa, o que correspondia a 6% do total de 23.000 classes existentes no estado naquela ocasião; em 2010, o número de classes atendidas já era de 9.218, tendo praticamente se universalizado para todas as classes exclusivamente multtisseriadas do estado. O estudo das classes multisseriadas, uma realidade presente tanto nas escolas vinculadas ao Programa Escola Ativa, sobretudo nas escolas que anteriormente nomeamos como “oficiais”, é, aliás, uma questão de grande importância para a Educação do campo nesse estado. A Bahia, com mais de 14.705 escolas de classes multisseriadas (quase 18% das 82.833 classes deste tipo existentes no país), é o estado com maior número de classes com esse tipo de organização (BOF, 2006). Some-se a isso o completo desconhecimento dessa realidade pela escassez de estudos, tornando-se urgente o aprofundamento de pesquisas sobre essa realidade. Tecendo os nós da rede: algumas palavras para concluir Os estudos realizados buscam verticalizar os O Programa Escola Ativa, única política do Governo Federal para as classes multisseriadas no Brasil, vem sendo implantada pelo MEC desde o ano de 1997, com financiamento do Banco Mundial até 2008. O programa não nasce nas mesmas bases políticas dos outros programas acima referidos, que se enraízam em demandas dos movimentos sociais e tem estes sujeitos como formatadores e co-executores de tais políticas. O Programa Escola Ativa tem sido objeto de críticas (XAVIER-NETO, 2007) e, também, objeto de tensões entre o MEC e a Articulação Nacional Por uma Educação Básica do Campo (FÓRUN, 2011). 7 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 Elizeu Clementino de Souza; Fábio Josué Souza dos Santos; Ana Sueli Teixeira de Pinho; Sandra Regina Magalhães de Araújo objetivos e eixos do projeto, seja em relação aos sujeitos, as instituições e/ou práticas pedagógicas que se desenvolvem nos territórios rurais pesquisados. Do ponto de vista metodológico, o eixo central que mobilizou os trabalhos girou em torno das questões e princípios teórico-metodológicos da pesquisa (auto)biográfica, singularizados com base em cada entrada e subprojetos, os quais tomaram a entrevista narrativa, os ateliês biográficos de projetos, as histórias de vida, os objetos do cotidiano escolar e as memórias de habitantes do meio rural, crianças, jovens, adultos e idosos, professores da educação infantil, do ensino fundamental ou da educação de jovens e adultos e alunos dos diferentes níveis de ensino, na perspectiva de apreender dimensões concernentes ao trabalho pedagógico em classes multisseriadas, a formação de professores para as escolas rurais e os modos de vida dos sujeitos que habitam os territórios rurais estudados. No que se refere aos subprojetos dos pesquisadores colaboradores e associados, sejam da UNEB, UFRB ou Universidade de Paris 13, os mesmos tomam aspectos diversos do cotidiano do mundo rural, tendo em vista problematizar questões sobre a biografização dos sujeitos, da memória das instituições e do trabalho pedagógico em classes multisseriadas, com ênfase no estudo sobre os sentidos produzidos pelos alunos sobre a escola rural, o processo de deslocamento da roça para a cidade em busca da escola e as implicações identitárias dos/nos sujeitos e, respectivamente, no território, em virtude da mobilidade vivida. Questões concernentes ao cotidiano das escolas e do fracasso escolar de alunos das escolas rurais marcam outras entradas, por meio da análise das políticas de avaliação e de dados estatísticos, bem como das narrativas dos diferentes sujeitos em suas interfaces com o cotidiano que habitam. Quanto ao trabalho pedagógico, buscou-se nas pesquisas analisar dispositivos de formação, especificamente no que se refere à prática docente de professoras de escolas do meio rural, mediante escritas de formação expressas em diários, ao tomar os conceitos de biografização, documentação narrativa, identidade e formação como modos de narração constituídos de discursos da memória, com base na centralidade do sujeito que narra. Buscou-se discutir questões vinculadas à constru- ção identitária profissional da docência em processo de formação e no exercício profissional, por meio de narrativas autorreferentes, entendidas como instrumento de (auto)formação, de pesquisa e de intervenção, no contexto das práticas sociais e profissionais, baseadas na ideia central de construção e constituição das narrativas como ”documentação pedagógica” (SUAREZ, 2008 e 2007), tendo em vista a configuração de espaços de memórias sociais e educativas experienciadas pelos sujeitos do meio rural em suas múltiplas manifestações. A perspectiva de colaboração empreendida pelos grupos de pesquisa (GRAFHO/UNEB, CAF/ UFRB e EXPERICE/Paris 13) materializa-se pelos modos próprios de trabalho de cada grupo nos seus contextos institucionais e dos recortes referentes ao olhar sobre o objeto de estudo proposto no projeto. Em relação aos colegas do EXPERICE/Paris 13Nord, a discussão tem recaído sobre “Intervenção social, solidariedade e dinamismos locais” com três Associações de Salvaguarda da Infância e Adolescência situadas no interior da França, cujas ações de proteção e educação em direção às crianças e adolescentes desdobram-se em diferentes formas de intervenção. Num formato de pesquisa-ação, tratou-se de identificar, nos territórios rurais em que se implementam as ações, os indícios de dinâmicas capazes de promover transformações locais em favor das pessoas em situação de dificuldade, com as quais os profissionais da intervenção social devem buscar articular suas práticas. As interfaces aqui desenhadas pelos referidos grupos de pesquisa tomam a educação como forma de intervenção social capaz de articular e promover dinamismos locais. A pesquisa permitiu-nos compreender a existência de distintos cenários da educação rural no contexto da educação baiana, que em linhas gerais podem ser resumidos na existência quase majoritária de experiências politicamente conservadoras vinculadas às escolas “oficiais” que insistem em fazer da escola uma agência técnica de ensinamento de conhecimentos alheios à realidade e ao dinamismo local; na existência de experiências progressistas, com forte vínculo com os movimentos sociais, nas quais a escola tem se configurado como uma agência política com fortes exemplos de enraizamento local. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 151-164, jul./dez. 2011 161 Sujeitos, instituições e práticas pedagógicas: tecendo as múltiplas redes da educação rural na bahia REFERÊNCIAS ARAÚJO, Sandra Regina Magalhães de. Escola para o trabalho, escola para a vida: o caso da Escola Família Agrícola de Angical - Bahia. 2005. 219f. 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Em seu itinerário profissional, atuou como diretor de grupo escolar, como diretor da Instrução Pública, preocupando-se com o ensino e a formação de professor para o meio rural. Esse intelectual, com o apoio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), empreendeu um plano de construção de mais de 200 escolas rurais, proporcionando melhores condições de moradia ao professor e ao desenvolvimento do trabalho pedagógico. Seu projeto recebeu reconhecimento por parte das autoridades e dirigentes brasileiros e do professor Robert King Hall, da Universidade de Colúmbia, que prestava assessoria ao INEP. Outra iniciativa foi a criação da Escola Normal Rural com o intuito de favorecer a formação de professores para o meio rural, um dos aspectos cruciais da educação no Brasil. Palavras-chave: Escola rural. Formação de professor. Intelectual da educação. ABSTRACT RURAL EDUCATION AND THE ROLE OF INTELLECTUAL ACRÍSIO CRUZ. The study of historiography from the perspective of cultural history has broadened the field of history, including new objects, new themes, outstanding among them the role of characters and intellectuals. In this study we used the biographical approach to reconstruct the trajectory of the professor Acrísio Cruz (1906-1969). The document analysis, informal contacts and conducting semi-structured interviews made it possible to understand the performance of this teacher and the initiatives and changes in the educational field Sergipe. In his professional career, he served as director of the school group, as Director of Education, concerned with education and training of teachers for rural areas. This intellectual support from the National Institute of Pedagogical Studies (INEP) launched a plan to build more than 200 rural schools, providing Doutor em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor e Assistente da Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes. Endereço para contato: Universidade Tiradentes – Campus Aracaju. Farolândia. Avenida Murilo Dantas, 300 – Farolândia. CEP 49.032-490 – Aracaju (SE). [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 165 O ensino rural e a atuaçâo do intelectual acrísio cruz better housing to the teacher and the development of pedagogical work. His project has received recognition from the authorities and officials from Brazil and Professor Robert King Hall, Columbia University who has advised the INEP. Another initiative was the creation of Rural Normal School in order to promote the training of teachers for rural areas, a cucial aspect of education in Brazil. Keywords: Rural schools. Teacher training. Intellectual education. Introdução As iniciativas e as ações dos responsáveis pela formulação das políticas educacionais no Brasil sempre priorizaram a escola localizada nas áreas urbanas em detrimento das situadas no meio rural. O mesmo ocorre na produção acadêmica, pois poucos estudos vêm enfocando a situação de marginalidade em que se encontra o ensino no meio rural. Para compreender essa situação, Leite (1999) aponta a herança do elitismo acentuado do processo educacional implantado pelos jesuítas e a interpretação político-ideológica da oligarquia agrária, que sempre via o homem do campo como ignorante e que não carecia de educação sistematizada. Antes da Proclamação da República, as poucas iniciativas de criação de escolas de primeiras letras localizavam-se nas cidades e vilas. O discurso republicano defendendo a inserção do Brasil na modernidade e abraçando o lema “desenvolvimento e progresso” volta-se para o espaço urbano, fruto da visão europeia de realidade. Em decorrência desse olhar, as ações desenvolvidas em relação a urbanização e saneamento destinavam-se ao meio urbano, concorrendo para o atraso do meio rural. A reorganização do Estado, sob o paradigma republicano, defendia a escolarização como uma necessidade e uma alternativa de adaptação às transformações econômicas, sociais e políticas que vivia o país (GHIRARDELI, 1995). Durante a Primeira República, para favorecer o processo de modernização do país, ocorrem transformações em vários setores (político, econômico, social e cultural), ocasionando modificações na forma de conceber a escolarização. Nagle (1974) destaca dois movimentos: “O Entusiasmo pela Educação” e “O Otimismo Pedagógico”, que ocasionaram mudanças na forma de escolarização, contemplando a formação do cidadão urbano. Acreditava-se que com maior nível de escolarização a 166 população urbana passaria a ter condições mínimas para inserção no mercado industrial, possibilidade de ascensão social e desfrutaria de melhores condições de vida urbana. Para tanto surgem os grupos escolares, pautados em um novo modelo de organização da instrução – ensino graduado, recorrendo ao uso de modernos métodos e materiais de ensino, professores com formação pedagógica (CARVALHO, 2007; BERGER, 2005). Essa nova forma de organização do ensino vai impulsionar a expansão e as mudanças no curso normal. O ensino no meio rural continuou desordenado, descontínuo e não contemplado pelos investimentos públicos, contribuindo para o crescente êxodo do trabalhador para as cidades. Com o crescente processo de urbanização e industrialização, o qual ofereceu melhores condições de vida ao homem nos centros urbanos, o país começou a sentir os efeitos dos movimentos migratórios internos dos anos 1910 e 1920, quando muitos rurícolas deixam o campo, passando a preferir as áreas urbanas. O Brasil era um país nitidamente rural e assim manteve-se até a década de 1920, mas a cada novo período a tendência irreversível foi o aumento da população urbana e o decréscimo da população rural (ALMEIDA, 2005, p. 280). Como estratégia para favorecer a fixação do homem ao campo, surge o movimento denominado “Ruralismo Pedagógico”, que pretendia uma escola integrada às condições locais, regionalista, defendendo as virtudes do campo e da vida campesina (MAIA, 1982). Esse movimento ensejou algumas iniciativas isoladas em relação à educação por parte de alguns estados. Uma delas foi a criação da Escola Rural Normal, pautando-se em uma cultura profissional específica para o magistério no meio rural brasileiro. Farias (2008) analisa a experiência da Escola Normal Rural de Juazeiro do Norte (Ceará), a qual é identificada na historiografia educacional brasileira como a primeira instituição Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 Miguel André Berger destinada a preparar professores para atuar no campo. Seu estudo foca o período de 1930 a 1946, do início de seu funcionamento até a Lei Orgânica do Ensino Normal, quando é alterada sua proposta curricular inicial. O plano de estudos da Escola Normal de Juazeiro do Norte, de acordo com o Decreto nº 1.218, de 1934, compunha-se de três cursos: o curso primário, com duração de cinco anos; o curso complementar (dois anos); e o curso normal (três anos). Esses dois últimos estão diretamente relacionados com a formação do professor ruralista. O curso complementar era uma etapa intermediária, segundo Lourenço Filho (2001, p. 83), destinada à preparação do educando para a formação docente. A proposta curricular era composta das seguintes disciplinas: Português 1º e 2º anos); Matemática (1º e 2º anos); Geografia (1º ano); Francês (1º e 2º anos); Música (1º e 2º anos); Educação Física (1º e 2º anos); História do Brasil (2º ano); Desenho (1º e 2º anos); Trabalhos Manuais (1º e 2º anos) e Práticas Agrícolas (1º e 2º anos). As disciplinas contemplavam uma formação teórica, sendo algumas sem qualquer contribuição para a formação do professor rural, no caso de francês. O curso normal compreendia as seguintes disciplinas: Língua Vernácula (1º e 2º anos); Matemática (1º e 2º anos); Fisiografia Geral e Especial do Brasil (1º e 2º anos); Antropogeografia (1º e 2º anos); História do Brasil (1º ano); Ciências Físicas e Naturais (2º ano); Desenho e Trabalhos Manuais (1º, 2º e 3º anos); Música e Cultura Física (1º, 2º e 3º anos); Educação Sanitária (3º ano); Psicologia Educacional e Metodologia (3º ano); Agricultura e Indústrias Rurais (3º ano). A crise do café como principal fonte de exportação e geração de rendas e o processo de urbanização e industrialização, concorrendo para a passagem do modelo agrário-exportador para o urbano-industrial, passam a exigir mudanças, principalmente no campo educacional, o que se concretiza por meio de uma série de leis referentes aos ensinos secundário, superior e industrial. No início do governo getulista, a ênfase voltouse para a escolarização urbana, permanecendo o processo escolar rural inalterado e circunscrito às classes multisseriadas. Somente no período do Estado Novo é que a escola rural passou a merecer certa atenção, com a criação, em 1937, da Sociedade Brasileira de Educação Rural, que objetivava: A expansão do ensino e preservação da arte e folclore rurais. O sentido de contenção que orienta as iniciativas no ensino rural se mantém, mas, agora, coloca-se explicitamente o papel da educação como canal de difusão ideológica. Era preciso alfabetizar mas sem descuidar dos princípios de disciplina e civismo (MAIA, 1982, p. 28). A pretensão era expandir o ensino, alfabetizando a maior parte de pessoas que residia na zona rural. Nas entrelinhas, a pretensão era fixar o homem no campo, evitando sua migração para os centros urbanos, o que poderia afetar a diminuição da produção agrícola brasileira e causar problemas de ordem social no meio urbano. Essas iniciativas, contudo, tiveram pouco êxito, visto que após a Segunda Guerra Mundial foram firmados acordos com os Estados Unidos, resultando na criação da Comissão Brasileiro-Americana de Educação das Populações Rurais (CBAR). Essa Comissão objetivava a instalação de projetos educacionais na zona rural e o desenvolvimento das comunidades campestres, mediante a criação de centros de treinamento (para professores especializados que repassariam as informações técnicas aos rurícolas), a realização das Semanas Ruralistas e também a implantação de Clubes Agrícolas (LEITE, 1999). A educação rural e a ação do INEP Em 1938 é criado o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), que teve como diretor o professor Lourenço Filho, e contou com a colaboração de Anísio Teixeira e de uma equipe de educadores com formação em várias áreas. O professor José Roberto Moreira integrava essa equipe, dedicando-se a questões sobre a educação rural e a escola primária. Moreira (1957) defendia que os países em desenvolvimento deveriam investir na industrialização sem descuidar do setor agropecuário, que proporciona produtos para a sobrevivência humana e para a indústria. Os investimentos no campo envolvem a melhoria nas condições de produção e de vida da população, o que perpassa pela educação. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 167 O ensino rural e a atuaçâo do intelectual acrísio cruz Nesse aspecto, criticava a educação rural no Brasil, a qual carecia de organização e orientação adequadas, pois os investimentos voltavam-se mais para as áreas urbanas. Até agora, não obstante o romantismo bucólico que tem animado alguns movimentos em prol de certa escola rural, o que temos feito [...] transplantação para o campo do tipo de escola urbana mais comum, rebaixado em suas condições mínimas, isto é, deteriorado por simplificação e por total inadaptação ambiental (MOREIRA, 1957, p. 89). Além de tecer comentários sobre a infraestrutura e o número insuficiente das escolas, e da questão de transporte, muitas escolas estão à mercê de um corpo de professores “sem treinamento, imaturo e pobre de compreensão relativa ao próprio trabalho, a quem se incumbe ou pretende incumbir de ensinar um currículo formalizado e divorciado da realidade da vida rural” (MOREIRA, 1957, p. 89). Esses professores não têm orientação nem preparo, desenvolvendo muitas vezes um trabalho com o intuito de ensinar conteúdos mínimos da leitura, escrita e aritmética, com certo grau de abnegação e heroísmo. O tipo de ambiente escolar mais comum é o que se denomina “Escola Isolada”. Três ou quatro séries do ensino primário confiadas a um só professor, com uma turma que pode variar de 30 a mais de 50 alunos, com o professor tendo dificuldades de oferecer um atendimento diferenciado e mais personalizado. Moreira (1957) alertava com essas críticas que não pretendia fazer da escola uma panaceia para os males econômicos e sociais, pois a educação, sozinha, não resolveria as dificuldades do Brasil rural. Há necessidade de se traçar políticas e ações articuladas, que vejam o meio rural em seus vários aspectos. Em relação ao setor educacional, há necessidade de expansão da rede escolar, da promoção de cursos para formação docente, da promoção de ações educativas para crianças e, principalmente, os adultos, a fim de reduzir o analfabetismo. Em relação à escola primária rural e sua missão, o autor defendia que a escola, além de primar pelo ensino das primeiras letras, tem de construir as bases de uma nova mentalidade para as populações rurais. Para tanto, estabelece quatro áreas de 168 ação a que os administradores da educação e os professores devem prestar atenção especial: 1) o desenvolvimento de um currículo mais adequado a partir do meio rural e ir sucessivamente ampliando o horizonte do aluno; 2) o uso de material didático diversificado e apropriado à realidade campesina; 3) a manutenção de um diálogo entre a escola e a comunidade rural; e 4) a preparação e o treinamento de professores. A formação do professor rural deveria contemplar: 1) saberes sobre a vida rural nos seus processos de trabalho e de associação, o que são natureza e seus recursos aproveitáveis pelo homem, quais os princípios científicos que podem orientar e disciplinar seu aproveitamento; 2) saberes curriculares referentes ao ensino da escrita, da leitura e da aritmética, bem como Geografia, História e Ciências; 3) saberes pedagógicos a fim de favorecer a transposição didática e a aprendizagem do aluno; e 4) saberes sobre Relações Públicas, Comunicação, Sociologia, com o objetivo de o professor saber compreender o homem e o meio rural. Ensino Rural em Sergipe Sergipe é um estado localizado na região Nordeste que se emancipou da Província da Bahia em 1820, tendo uma economia calcada no setor primário, principalmente no cultivo da cana-deaçúcar, do algodão e de culturas de subsistência. Segundo recenseamento de 1950, Sergipe contava com 644.361 habitantes, dos quais somente 33,63% sabiam ler e escrever. Da população de dez anos e acima desta faixa etária (441.478 habitantes) que não sabiam ler e escrever, 79,49% estavam na zona rural e dedicavam-se às atividades agropecuárias (NUNES MENDONÇA, 1958). Esse educador apontava a necessidade de essa população dispor de uma escola que, “sem fugir às diretrizes gerais do ensino, sem prejuízo das finalidades essenciais da educação de base, indiferenciada, comum a todos, não perca de vista as necessidades da vida rural e contribuas eficazmente para urbanizar o campo” (p. 21). Nunes Mendonça também criticava a rede deficitária do ensino primário, composta de um número reduzido de grupos escolares na capital e Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 Miguel André Berger em alguns municípios interioranos, e das escolas isoladas, muitas das quais eram instaladas em casebres alugados, nos quais lhes faltava tudo, desde espaço físico adequado até infraestrutura. As escolas rurais constituíam-se de espaços cedidos pelos grandes proprietários de terra e encontravam-se em completo estado de abandono, além de depender dos desmandos da política dos coronéis. Em Sergipe, a formação de professores para o ensino primário durante muito tempo ficou sob a responsabilidade da Escola Normal Rui Barbosa, localizada em Aracaju, capital do estado. Essa instituição estadual foi criada em 1870, tendo uma existência efêmera. A instituição só ganha identidade e regularidade de funcionamento a partir de 1911, quando o Governo Rodrigues Dórea inaugurou o prédio na Praça Olimpio Campos, onde o curso permaneceu até 1957, ocasião em que foi transferido para outro prédio localizado em bairro periférico de Aracaju (FREITAS, 2003, p. 56). Outros estabelecimentos passam a ofertar o curso normal, mantidos por ordens religiosas que vão surgindo em Aracaju (1925) e municípios interioranos (Propriá, Estância), atendendo a moças da elite e da classe média. Freitas (2003) analisa a trajetória e o ingresso na carreira do magistério de ex-normalistas no período de 1920 a 1950. Depois de formada, a normalista deveria seguir a “lei dos acessos”, iniciando sua atuação no interior. Primeiramente em uma escola de primeira entrância, situada em um povoado. Passaria depois a lecionar em uma vila considerada segunda entrância. Em seguida, para a terceira entrância, em uma escola situada na cidade. Após sucessivas promoções, poderia lecionar na capital (2003, p. 148-149). A promoção de uma entrância para outra se fazia mediante participação em cursos de aperfeiçoamento e avaliação feita pelos inspetores quando das visitas de inspeção às escolas. Segundo Nunes Mendonça, em 1930, 159 professoras atuavam em escolas de primeira entrância, das quais 114 eram diplomadas. Muitas dessas professoras tiveram de enfrentar dificuldades de conseguir local para fixação, além de enfrentar o medo das visitas do bando de Lampião, que cometia várias atrocidades no interior de Sergipe na década de 30 do século XX (FREITAS, 2003). Com base nessa situação, o intelectual sergipano Acrísio Cruz abraça os projetos financiados pelo INEP, destinados à melhoria do ensino e das condições de trabalho do professor do meio rural. Acrísio Cruz: o educador e intelectual Acrísio Cruz nasceu em 31 de outubro de 1906, em Laranjeiras (SE), onde viveu sua infância, estudando na escola da professora Zizinha Guimarães, uma das mais afamadas do estado. Deu continuidade aos estudos secundários no Colégio Tobias Barreto, dirigido pelo professor José de Alencar Cardoso, em Aracaju. Autodidata e estudioso das questões educacionais, assumiu a direção do Grupo Escolar General Siqueira aos 25 anos de idade, passando depois para o Grupo Escolar Manoel Luis, localizado na Praça da Bandeira. Seu trabalho nesse estabelecimento era alvo de constantes elogios por parte dos inspetores de ensino quando das visitas de inspeção, conforme se constatou no livro de registro de atas. Aos vinte e oito dias do mez de setembro de 1934, inpeccionei o Grupo Escolar Manoel Luis, que funciona em sede própria [...]. No que tange à ordem e à disciplina, o que se observa recomenda o seu diretor professor Acrisio Cruz, espírito lúcido e senhor dos problemas da escola nova e às mestras [...]. O novo diretor está construindo, organizando o herbário e findos os outros melhoramentos que se preparam, o grupo irá na vanguarda dos seus congêneres 1. Estudioso da Psicologia e das novas concepções pedagógicas, esse intelectual empreendeu estudos originais, apresentando-os na Segunda Reunião da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro, que se concretizou no período de 20 a 25 de outubro de 1940, em Aracaju. Em outubro de 1941, Acrísio deixa a direção do grupo escolar e passa a exercer o cargo de assistente técnico geral do Departamento de Educação até 1942, técnico em Educação (1943), e por cinco vezes consecutivas o cargo de Diretor do Departamento de Educação, entre os anos de 1944 e 1950. Nesse período presidiu e integrou Termo de inspeção da visita realizada pelo inspetor José de Alencar Cardoso em 28 de setembro de 1934. Livro de Atas do Grupo Escolar Manoel Luis, pág. 13. 1 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 169 O ensino rural e a atuaçâo do intelectual acrísio cruz comissões, representou o estado em organismos nacionais e internacionais. Como diretor da Instrução Pública no governo de José Rolemberg Leite, manteve contatos com especialistas do INEP, entre eles Anísio Teixeira e Murilo Braga, apoiando seus projetos de educação rural (HALL, 1950). Recebeu apoio para construção de escolas rurais e a Escola Normal Rural, depois denominada Escola Normal Murilo Braga (Itabaiana), destinada à formação de professores para o meio rural. Acrísio Cruz comungou das diretrizes políticas do INEP, que apontava como um dos grandes problemas educacionais a falta de prédios adequados ao ensino. Muitos prédios funcionavam em casas impróprias, diversos deles sem higiene, mal localizados, de piso ordinário, de terra batida, principalmente no meio rural (BARRETO, 2006, p. 96). Diante dessa situação empreendeu um plano de construção de mais de 200 escolas rurais. Seu projeto de Escola Rural, no qual juntava “sala de aula, multisseriada, com a moradia da professora, em dois cômodos principais, enriquecidos com uma área entre eles, que servia para a recreação” (BARRETO, 2006, p. 17), foi bastante elogiado por autoridades e intelectuais brasileiros, como Anísio Teixeira e Murilo Braga. O professor americano Robert King Hall, da Universidade de Colúmbia (Nova York), assessor do INEP, também elogiou o projeto. O depoimento do professor Ribeiro é bastante esclarecedor sobre o êxito desse projeto de Acrísio Cruz. Vejo Acrísio, um estimulador, um homem otimista, um homem de visão. E, ele teve a felicidade de receber um apoio muito grande de Dr. Murilo Braga... Tanto assim, que quando houve uma visita aqui do professor King Hall, ao Brasil, Sergipe foi distinguido por receber a visita do professor. Tal era o modelo que nós já tínhamos desenvolvido aqui em relação à expansão de escolas e o ensino no meio rural. Esse professor disse: ’Olha, o trabalho de vocês, eu tenho possibilidade de fazer isso, de dizer isso, porque já avaliei vários trabalhos dessa natureza, em diferentes partes do mundo e o trabalho de vocês está perfeito’ 2. Contíguo à escola, ficava a moradia do pro Entrevista concedida pelo professor Ribeiro, um dos colaboradores de Acrísio Cruz. Ver BARRETO, 2006. 2 170 fessor. Acrísio Cruz considerava a residência do professor um assunto importantíssimo. Defendia que nenhum prédio escolar deveria ser construído sem dependências residenciais para diretores e professores em qualquer que fosse a localidade. Alegava que, se construído no interior, motivos de sobra existiam pelo menos para preencher as grandes deficiências ou falta de habitação. Outra iniciativa foi a criação da Escola Normal Rural, em 29 de novembro de 1949, por meio da lei nº 212, oferecendo o curso ginasial e pedagógico para estudantes itabaianenses, como também de municípios circunvizinhos. Em março de 1950 teve início o ano letivo com o curso ginasial, tendo a primeira turma do curso de formação de professores iniciado suas atividades em 1954 (SANTOS, 2002). A Escola Normal Rural recebeu a denominação de Murilo Braga, em homenagem ao diretor do INEP, morto em acidente aéreo. Essa instituição foi criada com o intuito de formar professores para o meio rural, a fim de minimizar um dos aspectos cruciais da educação no Brasil. Segundo ele, [...] a educação rural no Brasil carece extraordinariamente de organização e orientação adequadas [...] o que temos feito nesse setor e tão somente o de transplantação para o campo do tipo de escola urbana mais comum, rebaixado em suas condições mínimas, isto é, deteriorado por simplificação e por total inadaptação ambiental (MOREIRA, 1957, p. 89). Além da expansão da rede de escolas, esse estudioso defendia a necessidade de ministrar um ensino de qualidade, que proporcionasse ao indivíduo do campo uma aprendizagem de suas reais possibilidades de trabalho e que soubesse onde ele existe de acordo com suas possibilidades, independentemente de impedir ou não o êxodo do campo para a cidade, fenômeno natural em qualquer processo intensivo de industrialização. Além de escola e de um currículo que valorize a cultura do meio rural, tem-se de atentar também para a formação do professor rural. [...] é preciso que as escolas não lhes desenvolvam atividades antagônicas ao meio rural, despertandolhes o interesse e o desejo pela vida urbana. Temos para nós que as escolas normais existentes no país, com seus programas intelectualistas, seus cursos mais ou menos acadêmicos e seu contexto social extremamente urbano, não são capazes de formar o Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 Miguel André Berger professor rural, mesmo quando o jovem é recrutado no interior (MOREIRA, 1957, p. 122). A proposta curricular contemplava matérias ensejando ao professor o domínio dos conhecimentos das ciências e das técnicas pedagógicas; dos conhecimentos da escola primária; das técnicas de relações públicas e de comunicação com o homem simples; dos diversos padrões culturais do nosso rurícola; dos interesses dominantes e outros problemas que afetam o meio rural. Veiculava também conhecimentos de Economia e Sociologia rural para melhor compreensão da realidade e desenvolvimento do trabalho pedagógico. A proposta curricular da Escola Normal Rural Murilo Braga manteve-se até 1970, quando foi promulgada a Lei nº 5.692, que implantou a profissionalização obrigatória no ensino de 2º grau, introduzindo mudanças que influíram na identidade e nos objetivos do curso. Outro feito de Acrísio Cruz foi a promulgação, em outubro de 1945, do regulamento de ensino que favorecia o processo de difusão do ideário escolanovista no cotidiano dos grupos escolares. Seu objetivo era fazer com que as funções dos corpos administrativo e docente dos grupos escolares não fossem realizadas pela simples intuição, mas de forma sistemática e científica, contribuindo para mudanças na cultura escolar e nas práticas educativas, e, consequentemente, para a melhoria do desempenho do aluno. O regulamento compunha-se de 100 artigos e contemplava as orientações de funcionamento dos grupos no tocante ao ano letivo, aos livros de escrituração, às atribuições do diretor, os deveres do professor, alunos e demais funcionários, uso da bandeira nacional e proibições, as instituições escolares, matrícula e frequência escolar, promoção e realização dos exames finais, casos de transferência e a realização das reuniões pedagógicas, uma das inovações para favorecer a apropriação do ideário escolanovista. Analisando a concretização dessas diretrizes no cotidiano dos grupos escolares, Almeida (2009) pode constatar a importância das reuniões pedagógicas como momento coletivo de discussão do trabalho pedagógico no cotidiano escolar, a despeito de as mudanças no campo educacional não ocorrem de maneira repentina, mas processualmente, de acordo com a apropriação que os atores fazem do discurso e das determinações da política educacional. Em 1950, Acrísio Cruz assume o mandato de deputado estadual, mas continua contribuindo para o governo como Secretário da Justiça, passando também a compor o Conselho Estadual de Educação. Como membro desse Conselho, continuou defendendo a melhoria do ensino primário, bem como a construção e expansão de edificações para todos os níveis de ensino. Em seu pronunciamento de abril de 1966, defendeu a necessidade das autoridades observarem [...] os seguintes aspectos: a) as edificações escolares constituem o primeiro problema do desenvolvimento educacional; b) um plano de edificação escolar deverá dirigir-se no rumo de todos os níveis de ensino; c) todos os prédios escolares deverão abranger dependências para moradia de diretor e professores; d) a falta de residência para diretor e professores causa descontinuidade administrativa e pedagógica; e) deverão ser criados em cada estado serviços de edificações escolares com objetivos amplos, não só para construir, mas também para conservar; f) deve haver maior preocupação na distribuição de verbas, evitando-se os cortes injustificáveis, para melhor concretização dos planos de construções; e g) considerar, enfim, que a edificação escolar é o maior passo para o desenvolvimento da educação nas zonas urbanas (BARRETO, 2006, p. 99-100). Com o movimento militar de 1964, o governador Seixas Dorea foi deposto e preso, e o Conselho Estadual de Educação também sofreu intervenção. Acrísio Cruz foi afastado e sofreu no ostracismo político, falecendo em setembro de 1969. Considerações finais A abordagem biográfica vem constituindo uma metodologia a que o pesquisador pode recorrer, contribuindo para o avanço das investigações na área da História da Educação. A biografia permitiu decifrar como foi forjada existencial e socialmente uma identidade profissional e as escolhas desse sujeito, como no caso de Acrísio Cruz. Fruto de suas leituras e experiências no cargo de direção de grupos escolares, Acrísio Cruz promulgou o regulamento de outubro de 1945, destinado a fazer com que as funções dos corpos Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 171 O ensino rural e a atuaçâo do intelectual acrísio cruz administrativo e docente nesses estabelecimentos não fossem realizadas pela simples intuição, mas de maneira científica. Um aspecto inovador foi a implantação das reuniões pedagógicas no cotidiano escolar a fim de favorecer a difusão e apropriação do ideário escolanovista, contribuindo para mudanças na cultura escolar e nas práticas educativas. Esse intelectual, em seu itinerário profissional, atuou como diretor de grupo escolar, como Diretor da Instrução Pública, preocupando-se com o ensino e a formação de professor para o meio rural. Com o apoio do INEP, que apontava como um dos grandes problemas educacionais a falta de prédios adequados ao ensino no meio rural, empreendeu um plano de construção de mais de 200 escolas rurais, proporcionando melhores condições de moradia ao professor e para o desenvolvimento do trabalho pedagógico. Referências ALMEIDA, Anne Emilie Souza de. A difusão do ideário escolanovista em grupos escolares sergipanos (19341960). 165 f. Dissertação (Mestrado) - Núcleo de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2009. ALMEIDA, Dóris Bittencourt. A Educação rural como processo civilizador. In: STEPHANOU, Maria e BASTOS, Maria Helena Câmara (Orgs.). Histórias e Memórias da Educação no Brasil. Vol. III. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. BARRETO, Luis Antonio. Acrísio Cruz Antologia. Aracaju: Secretaria de Estado da Cultura, 2006. BERGER, Miguel André. Os grupos escolares e as festas para difusão da instrução e da civilidade. Revista do Mestrado em Educação. 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Recebido: 28.04.2011 Aprovado: 21.08.2011 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 165-173, jul./dez. 2011 173 Zeila de Brito Fabri Demartini EDUCAÇÃO RURAL: RETOMANDO ALGUMAS QUESTÕES Zeila de Brito Fabri Demartini ـ Resumo Neste texto retomamos a temática da educação rural, procurando abordar algumas questões que a acompanham desde o final do século XIX até os dias atuais. Focalizamos especialmente as relações entre a oferta de escolas e a demanda dos diferentes grupos da população rural. Para tanto, pautamo-nos em algumas pesquisas realizadas na perspectiva histórico-sociológica, procurando analisar as questões encontradas em épocas pretéritas e sua persistência ou reformulação no tempo presente, em que novos sujeitos compõem o rural. Tomamos como locus de análise o Estado de São Paulo, que passou por profundas transformações no período considerado. Palavras-Chave: Educação rural. Perspectiva histórico-sociológica. Fontes escritas e orais. Estado de São Paulo. Abstract RURAL EDUCATION: GOING BACK TO SOME ISSUES. In this paper, we revisit the issue of rural education, seeking to address some issues which go along with it since the late nineteenth century to the present days. We focus especially on the relationship between supply and demand of schools of different groups of the rural population. To this end, we based ourselves upon studies in the historical and sociological perspective, trying to analyze the issues highlighted in past times and their persistence or reformulation in the present time, in which new individuals are part of the countryside. We take as a locus of analysis the state of São Paulo, which has undergone profound changes over the considered period. Keywords: Rural education - Historical and sociological perspective - Written and oral sources - State of São Paulo. Introdução As notas aqui apresentadas, pautadas em outros escritos, têm o intento de evidenciar algumas características históricas do atendimento à educação da população rural, principalmente o segundo plano em que sempre foi colocada, assim como os preconceitos que a acompanharam, ao longo dos anos, e que parecem permanecer e explicar a ainda não resolvida escolarização da população rural no Doutora em Ciências Humanas – Sociologia – pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora e consultora ad hoc do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Professora doutora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Diretora de pesquisa do Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU). Endereço para contato: Rua Nibe Perobelli, 192, Butantã, São Paulo-SP, CEP.: 05535-050. [email protected] ـ Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 175 Educação rural: retomando algumas questões país. Procuramos abordar algumas questões sobre a educação rural desde o final do século XIX até os dias atuais, focalizando especialmente as relações entre a oferta de escolas e a demanda dos diferentes grupos da população rural. Para tanto, pautamo-nos em pesquisas realizadas na perspectiva históricosociológica, tomando como locus de análise o Estado de São Paulo, que passou por profundas transformações no período considerado. A representação desqualificadora (SIQUEIRA, 2002) que parece ter acompanhado a maneira como o homem rural e sua educação foram visualizados ao longo do tempo, mesmo no Estado de São Paulo, considerado desde pelo menos a Primeira República como um dos mais desenvolvidos do país com relação à produção agrária (assim como nos demais setores da economia), permite que tomemos tal contexto como referência para pensarmos na temática da educação rural. 1. A perspectiva histórico-sociológica e a diversidade de fontes Se o conhecimento do presente é importante, há outra dimensão dos problemas educacionais que não pode ser ignorada, ao contrário, também deve ser pesquisada: trata-se da análise das questões segundo a perspectiva histórica, isto é, procurando conhecer os fatos através do tempo. Essa abordagem foi incorporada já há muito tempo na sociologia e explicitada por Florestan Fernandes, para quem tanto a pesquisa histórica quanto a de campo são fundamentais para a compreensão dos problemas das sociedades humanas em suas peculiaridades: Ela implica que se investigue o presente e o passado. Os conhecimentos obtidos devem permitir alguma espécie de previsão, que não diga apenas respeito aos processos sociais recorrentes, mas também aos processos sociais de mudança. O progresso empírico-indutivo da sociologia depende, portanto, da capacidade dos sociólogos em refinar as técnicas de observação que permitam o conhecimento das situações de vida contemporânea e as técnicas de reconstrução de situações de vida desaparecidas (FERNANDES, 1967, p. 67-68). Também Lucien Goldmann observou que é importante compreender um longo período histórico 176 para “por em evidência os fatos de transformação de uma sociedade, sobretudo porque a ação destes fatores se acumula com frequência durante longos períodos sem que suas expressões exteriores sejam facilmente comprováveis” (GOLDMANN, 1958, p. 32). A perspectiva histórica na análise de problemas e fatos sociais ganhou muitos adeptos pela riqueza de informações que traz não só sobre o passado propriamente dito, mas porque permite que se situem os problemas atuais em perspectivas mais pertinentes. No tocante a questões educacionais, tal abordagem tem recebido o estímulo de historiadores (CHARTIER, 1990; REVEL, 2009) para a melhor compreensão de diferentes dimensões dos processos de escolarização da população, das práticas pedagógicas e culturais, das formas de apropriação do conhecimento, entre outras. Muito pouco se conhece sobre o passado do processo de escolarização da população, principalmente sob o prisma da análise sociológica. A pesquisa histórico-sociológica é assim imprescindível, pois é difícil confiar apenas em estudos teóricos sobre a educação realizados em épocas mais remotas, muitos dos quais sem dados empíricos que permitam uma compreensão da realidade. Muitos estudos, preocupados com a educação escolar no passado, ainda estão voltados para aspectos relacionados ao sistema educacional e sua expansão e pouco fazem referências aos sujeitos e agentes da educação envolvidos no processo educativo, procurando estudar os problemas e valores vivenciados pela população quanto à sua escolarização e pelos agentes da educação no desempenho de suas atividades, e, mais que isso, apreender o funcionamento do sistema educacional no contexto da sociedade. Como reconheceu recentemente Revel ao comentar sobre a historiografia atual: Sobretudo, concomitantemente, um profundo reexame de nossas concepções do social impôs novas configurações. Trata-se evidentemente da ação e dos atores, de seu papel na compreensão dos processos históricos. Essa afirmação resulta hoje, sem dúvida, evidente. No entanto, é proveitoso lembrar a que ponto essas categorias estiveram ausentes por muito tempo, como que apagadas da cena histórica e historiográfica. Nos anos 1950-60, os grandes modelos funcionalistas anteriormente invocados por mim não Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini implicavam que fossem invocados para explicar o que acontece no mundo social. Os historiadores eram cuidadosos ao articular estruturas e conjunturas sob diferentes regimes de temporalidade, os sociólogos pensavam em termos de funções e de instituições, os antropólogos dispunham do poderoso instrumento da análise estrutural. Os processos sociais eram pensados como autônomos, qualquer que fosse o modo metafórico sobre o qual se manifestasse sua eficácia: estruturas, processos sem temas, dispositivos, máquinas, gramáticas normativas, todos esses termos, e outros mais, permitiam pensar sociedades sem atores ou que não deixavam outro papel a estes últimos senão o de servir de ilustrações singulares para mecanismos abrangentes e anônimos. A história econômica e social, e das mentalidades, a sociologia da reprodução e a crítica institucional, a antropologia social – a maioria das práticas eruditas destes anos, portanto –, propuseram durante muito tempo esquemas desse tipo que pareciam então impor sua evidência. É contra esta evidência que se afirmou progressivamente, a partir dos anos 1980, o que às vezes foi chamado de um ’redemoinho pragmático’, que, a partir da retomada das práticas, recolocou os atores e as formas da ação no centro da análise, a dos historiadores como a dos sociólogos e a dos antropólogos (REVEL, 2009, p. 119-120). Há ainda um campo aberto para investigações sobre educação na perspectiva histórica, não obstante os avanços recentes no campo da História da Educação (ARAÚJO, 2006). Os estudos que realizamos envolvendo a população rural e suas relações com o campo educacional, em São Paulo (Demartini, 1979, 1989, 2001; DEMARTINI; TENCA; TENCA, 1984), pautaram-se pela preocupação de ir além da análise das propostas e discursos oficiais, procurando conhecer as relações entre a oferta e a demanda educacional, isto é, as formas de atendimento (ou não) aos diferentes grupos de agricultores. No questionamento de situações pretéritas, a busca e análise de legislação, documentos oficiais, fontes impressas várias, romances, autobiografias e relatos orais obtidos por meio de entrevistas permitiram construir um novo olhar sobre os sujeitos envolvidos e levantar novas questões sobre a temática. A diversidade de fontes, compreendendo documentos escritos, relatos orais e imagens, tornou-se fundamental, especialmente pela riqueza que a complementaridade entre elas pode permitir. Em vários estudos, pudemos constatar como documentos escritos (livros, jornais, levantamentos de dados em arquivos de instituições etc.) podiam nos levar aos informantes e ajudar na realização de entrevistas, mas os informantes, com seus relatos, nos levaram também a novos documentos, dos quais muitas vezes eram os únicos possuidores, e à formulação de novas questões. Nesse processo, o documento escrito e o documento iconográfico, embora pré-existentes no tempo, datados de épocas passadas, só entraram no tempo da pesquisa, isto é, no tempo presente, por meio dos documentos orais. A complementaridade entre as fontes está sempre presente, mesmo porque ela já existe na própria construção dos documentos orais, seja antecedendo-os com questões que suscita, seja deles resultando pelo processo de interação entre pesquisador/pesquisado, que permite a exposição e utilização do que ficou guardado, ou, muitas vezes, até esquecido. De qualquer maneira, essa complementaridade é necessária, pois por meio dessas diferentes fontes podemos acompanhar o registro que se efetiva em momentos distintos. Como já afirmamos, o fato de lidarmos com fontes distintas nos remete ainda à questão de que, dessa forma, também temos condições de recorrer a fontes escritas já usuais podendo explorá-las sob novas perspectivas. O deslocamento de enfoque que as fontes orais nos colocam permite trabalharmos com os arquivos e fontes existentes com uma riqueza muito maior, procurando vê-los sob novos contextos e questões (DEMARTINI, 2005). 2. A educação em São Paulo em perspectiva diacrônica Olhar para a forma como a educação dos trabalhadores rurais foi tratada no período em que esse estado tinha a maior parte de sua população trabalhando nas lides agrárias parece-nos importante para compreendermos o modo como até hoje são considerados os que se vinculam a essas atividades, como foi comentado acima. É uma oportunidade para retomar algumas questões sobre a educação da população rural que foram por mim abordadas em pesquisa histórico-sociológica sobre o meio rural paulista. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 177 Educação rural: retomando algumas questões Os dados que subsidiam nossas reflexões foram obtidos em diferentes pesquisas (DEMARTINI, 1979; DEMARTINI; TENCA; TENCA, 1984). Algumas focalizaram tanto dados levantados diretamente em fontes documentais escritas, oficiais e não oficiais, como em análises realizadas por outros estudiosos, geralmente sobre a legislação dos períodos mais remotos; outras em fontes orais. Assim, optamos por realizar uma divisão na apresentação de nossas considerações sobre a educação rural em São Paulo: primeiramente as que se referem aos períodos mais remotos, geralmente pautadas na documentação escrita, e depois as que foram obtidas diretamente com sujeitos que atuaram como professores. 2.1 Nas fontes escritas e nos estudos, o atendimento escolar da população rural em segundo plano A análise das fontes escritas relativas ao período da Primeira República evidenciaram que, se os ideais republicanos eram amplos e dirigidos a toda população, a política educacional adotada durante este período foi a de atendimento restrito e preferencial às populações urbanas, em detrimento das populações residentes em áreas rurais, que eram justamente aquelas consideradas, na época, como as mais avessas à educação escolar. Partia-se do pressuposto de que o obscurantismo da população era o fator preponderante do atraso em que se encontrava a nação (COSTA, 1983, p. 29), mas, inversamente, deixavam-se os setores considerados mais arredios sempre para momentos posteriores, ou recebendo uma educação diferenciada e inferior à que se propunha para as áreas urbanas (embora residisse na zona rural, nesse período, a maior parte da população paulista). A instrução pública já constava entre os primeiros problemas que o governo constitucional, instituído em São Paulo após a República, se dispôs a enfrentar sistematicamente, o que implicava ter em pauta as questões já apontadas pela Comissão Central de Estatística da província, em seu relatório de 1887: a falta de pessoal habilitado; a deficiente organização do ensino; a deficiência quantitativa e de condições materiais das escolas; e, segundo afirmava o relatório, a indiferença de uma parte 178 considerável da população em relação às oportunidades de educação formal (NOGUEIRA, 1963, p. 409). As duas primeiras questões – as da habilitação do pessoal docente e da organização do ensino – tiveram sua solução encaminhada com a lei de 1892, que consolidou o ensino normal e reformou o sistema de ensino. De acordo com essa lei, o ensino primário compreenderia dois cursos, preliminar e complementar: o preliminar seria obrigatório para ambos os sexos até a idade de doze anos e começaria aos sete anos. Em toda localidade em que houvesse de 20 a 40 alunos do mesmo sexo matriculáveis, haveria uma escola preliminar, e no local em que houvesse menos de 20 alunos de ambos os sexos, seria criada uma escola mista. Nos lugares em que as circunstâncias assim o exigissem, a juízo do conselho diretor, seria criada uma “escola ambulante”. O regulamento de 30 de dezembro de 1892 prescrevia que nas escolas ambulantes o professor deveria demorar-se em cada um dos pontos dos bairros sujeitos ao seu percurso o tempo preciso para que, reunidos os meninos da vizinhança, lhes desse o ensino do curso preliminar, de modo que nenhum aluno deixasse de receber aula com intervalo maior de oito dias. Importante observar que, com relação à obrigatoriedade do ensino, estipulava-se que ela não se estendia aos que residissem a uma distância maior que dois quilômetros da escola pública, para meninos, e de um quilômetro para meninas, e todo patrão ou chefe industrial que tivesse crianças a seu cargo e não as dispensasse durante o tempo necessário ao ensino, ficaria “sujeito à multa referida” (MOACYR, 1942, v. 1, p. 141). Embora houvesse abertura para a instalação de escolas também em áreas rurais, sob a forma de preliminares, provisórias, mistas ou mesmo ambulantes, cabe notar, entretanto, que nas provisórias o programa era mais restrito, e nas ambulantes o professor, a cada oito dias, deveria passar pela localidade, sendo o ensino intermitente; além disso, a obrigatoriedade de frequência não atingia os que morassem mais distante. Dessa forma, verificava-se a impossibilidade desse sistema educacional atender de maneira uniforme a todos; ao mesmo tempo, dificilmente os critérios para a localização das escolas no meio rural eram baseados na distribui- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini ção espacial da população e nas necessidades dos professores (localizando-se então em locais de fácil acesso para estes últimos), mas, geralmente, nos interesses políticos em jogo em cada localidade. Em 1899, os inspetores escolares visitaram todas as escolas isoladas e verificaram o grande número – 1.377 – de escolas “vagas” (sem professor), comparadas às 1.156 “providas”, assim como o abandono em que se encontravam, principalmente nos bairros rurais. Ainda nesse ano, foi suspenso o funcionamento das escolas ambulantes (organizadas para áreas de baixa densidade demográfica), por terem considerado os inspetores que, das providas, nenhuma delas estava em condições de ser mantida (MOACYR, 1942, v. 2, p. 102-5). A precariedade no atendimento era assumida pelo Estado: em 1911, em mensagem ao Congresso Legislativo, o Presidente do Estado referia-se ao desenvolvimento do ensino nas cidades e vilas, porém lamentava o que ocorria nas “zonas do interior”, em que o atraso era “considerável e vexatório”, fazendo notar a relutância dos professores em irem para os bairros (NOGUEIRA, 1963, p. 414). Também em 1916, em mensagem ao Congresso, o presidente do estado reiterava, a respeito do ensino primário, que: “ministrado pelos grupos escolares e pelas escolas isoladas, o ensino aproveita à grande massa das populações urbanas, mas não alcança suficientemente as rurais” (NOGUEIRA, 1963, p. 414). De acordo com este autor, A política educacional do Estado orientava-se, desde o princípio do século XX, para oferecer um ensino elementar mais longo e mais eficiente na capital e nas cidades, onde as escolas isoladas foram progressivamente substituídas por grupos escolares, com prédios, material didático e pessoal docente mais adequado, e onde se ministrava um curso de quatro anos; um ensino intermediário nas sedes de distritos e nos bairros mais populosos, por meio de escolas reunidas, nas quais o curso era de três anos; e um ensino mais precário, na zona rural, nas escolas isoladas, com um curso de dois anos (NOGUEIRA, 1963, p. 411). Medidas foram tomadas a fim de se expandir o sistema educacional no campo, mas a preocupação maior nestes casos geralmente era a presença “ameaçadora” dos colonos imigrantes, a necessidade de assimilá-los, e não a escolarização para toda a população rural. As Leis 1.185, de 16 de dezembro de 1909, e 1.579, de 19 de dezembro de 1917, que criavam escolas rurais para servirem aos centros agrícolas, foram elaboradas nesse sentido. Essa também era a preocupação da Secretaria da Agricultura, que, nessa época, por intermédio do Patrono Agrícola, estabelecia escolas com o intuito de educar os filhos de imigrantes, procurando seguir o mesmo regime, ensino e disciplina adotados nas escolas isoladas do Estado. A preocupação com a educação do imigrante no meio rural era evidente nos pronunciamentos dos encarregados da educação no Estado de São Paulo, desde as primeiras décadas do século XX. O colono imigrante foi a solução econômica encontrada para a agricultura paulista, mas constituía, ao mesmo tempo, um “perigo nacional”, do ponto de vista político. E, nesse caso, a escola era vista por muitos como uma forma de atenuar esse perigo. A primeira tentativa de se atender o ensino no meio rural por meio de medidas de caráter mais amplo parece ter ocorrido somente em 1920, quando da reforma de ensino no estado, por Antônio de Sampaio Dória. Segundo Mennucci: Dado o balanço, pelo recenseamento escolar de 1920, verificou o governo que, das 650 mil crianças apenas uma terça parte frequentava as escolas [...] Crear escolas necessárias era impossível, importariam num gasto para além das forças do Estado. Crear mais algumas apenas era uma sahida e não solução [...] A solução só podia ser esta: diminuir os annos de obrigatoriedade escolar e, portanto, o número de annos do curso primário. O Estado estava deante de um dilemma fatal: ou dar muito a poucos ou dar pouco a todos [...] O governo de São Paulo não hesitou e, corajosamente, rompendo com as tradições comodistas que nos vinham desde o Império e apezar da gritaria que se levantou de todos os lados, optou pela segunda solução [...]; desde que o Estado é compelido, pela lei-básica, a bastar-se a si mesmo, era inadiável por um paradeiro ao mal que, de anno para anno, agrava a economia nacional [...] (MENNUCCI, 1932, p. 62-63). Dessa forma, pretendia-se expandir o atendimento à população, principalmente da zona rural, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 179 Educação rural: retomando algumas questões que era a mais marginalizada pela rede escolar. Reconhecia-se assim, explicitamente, o que observamos por meio da análise dos dados numéricos: em matéria de educação, a demanda era muito superior à oferta, principalmente na zona rural. As leis foram sendo criadas, revogadas, reformuladas, mas a situação da escolarização para a população rural permaneceu sem solução: oferta insuficiente e precária. Pouco foi realizado pelo Estado para o atendimento desse então majoritário setor da população paulista. O importante a destacar é que, na opinião de muitos representantes do Estado, tal atendimento não era prioritário, nem precisava a população rural receber as mesmas escolas oferecidas às populações urbanas. Destacamos aqui o pensamento vigente que transpareceu nos relatórios de secretários do interior desde o início da República, e que foi claramente formulado por Oscar Thompson, em 1917: Quanto à pedagogia social, precisamos convir que a educação, no estado, não pode ter os mesmos moldes e fins absolutamente idênticos em toda a parte, devido à sua grande extensão territorial. A da zona urbana, mais esclarecida e mais exigente quanto à extensão do ensino, requer melhores e mais aperfeiçoados apparelhos escolares. Pode dizer-se que Ella está feita, porque não há localidade, em São Paulo, que não tenha, segundo a sua importância, um ou mais Grupos Escolares, ou, simplesmente, escolas [...]. A educação, ahi, apresenta, pois, uma outra feição pedagógica, differente da do povo que habita a zona marítima e o chamado Norte de São Paulo, cuja população rural, constituída quase exclusivamente de descendentes de caboclos que se dedicam ao amanho da terra, precisa ter escolas que cuidem, primordialmente, de afastar as causas de seu abatimento moral; levantar-lhes o caráter; dar-lhes hábitos de trabalho e fazer a propaganda dos novos processos de agricultura (ANNUARIO DO ENSINO, 1917, p. 9). Reconhecia, assim, explicitamente, o privilegiamento das escolas urbanas e o ensino diferenciado e inferior a ser ministrado à população rural. Mais ainda, o administrador parecia desconhecer a grande variedade de grupos que, desde o século XIX, passaram a constituir a população rural paulista, com a entrada de grandes levas de imigrantes vindos de diferentes regiões do mundo (alemães, 180 italianos, portugueses, espanhóis, russos, suíços, japoneses e muitos outros) (DEMARTINI, 2006). Também em 1925, o famoso educador, Almeida Júnior, afirmou: Tínhamos, ao que se diz, quatro anos para as crianças da cidade e nada para as da roça. Tentou-se adotar a justiça de Salomão: repartir êsse total em dois pedaços sem vida, prejudicando-se os da cidade, sem favorecer os da roça [...] Acho que o mínimo, indivisível, do curso primário é de três anos. Demos êsses três anos ao maior número possível. Não nos esqueçamos, porém, de que, na luta pela vida, aos da cidade o ensino escolar é mais necessário e o mínimo de três annos talvez insuficiente (AZEVEDO, 1957, p. 54). Persistiu, portanto, durante o período da Primeira República, principalmente entre os especialistas e encarregados da educação, a opinião de que o homem do campo não precisava de escolaridade nos mesmos níveis que o da cidade. Nesse quadro geral, a ideia que se formulava em documentos sobre a população rural nacional e seu relacionamento com o sistema educacional existente não poderia ser outra: partia-se do pressuposto, como se fosse fruto de observações diretas, de que era uma população indolente, atrasada, que não compreendia as vantagens da escola para si e para os filhos. O que é preciso destacar é que os que assim pensavam não apresentavam em suas formulações dados concretos que justificassem tal ideia. As informações que conseguimos coletar sobre situações específicas levaram a crer que a imagem que veiculavam sobre a população rural não correspondia à que foi várias vezes constatada, desde anos muito anteriores, para esses casos. Esses exemplos permitiram supor, contrariamente à afirmação de que havia uma aversão à escola por parte dos caboclos “indolentes”, que o que faltava eram trabalho e escola: quando havia trabalho os “indolentes” trabalhavam de modo eficaz, utilizando-se dos recursos técnicos disponíveis; havendo possibilidade de estudar, em escolas ou sem elas, eles as procuravam, fossem sitiantes ou colonos, sem que houvesse oposição ou indiferença com relação a elas. Além disso, as queixas genéricas constantes de relatórios da Diretoria do Ensino referiam-se à baixa frequência e à retirada Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini dos alunos da escola para trabalhar; este fato, em si, indicava que a escola era procurada. Com relação aos imigrantes, como já citamos, a preocupação do Estado em criar escolas para suas crianças não era para garantir-lhes o direito estabelecido em lei, mas sim pelo perigo que viam no fato de que pudessem elas mesmas criar suas próprias escolas e, assim, reforçar seus laços com as nações de origem, e não com a brasileira. Em relatório da Diretoria do Ensino de 1917, portanto muito antes da política nacionalista do Estado Novo da década de 1930, afirmava-se: Aqui e ali, por todos os cantos, onde a immigração tem penetrado, núcleos de estrangeiros se tem formado, conservando-se alheios ao nosso país. Não havendo escolas nossas, fundam elles as suas; recebem de além Atlântico, todos os objectos necessários e subvenção remuneradora, estudam sua língua, a história e a geographia de sua pátria; conservam suas tradições e seus costumes [...] Este facto, profundamente alarmante, só de há pouco tempo para cá conseguiu chamar a nossa attenção, sem que tenhamos, entretanto, procurado dar remédio a essa gravíssima anomalia [...] Basta citar um facto recentíssimo, verificado entre nós: os japoneses que se estabeleceram no Valle da Ribeira de Iguape, para cultivar arroz, não encontrando ali escolas brasileiras onde seus filhos estudassem, installaram, imediatamente, escolas suas improvisando professor um dos colonos. Apesar de o nosso Congresso ter criado este anno escolas para essa colônia, só serão ellas installadas no anno próximo, e a nossa difficuldade para as implantar naquelle meio serão maiores [...] filhos de japoneses, embora ali nascidos e registrados, optarão pela escola em que se fala a língua de seus Paes [...] (ANNUARIO DO ENSINO, 1917, p. 130-1). O exemplo fazia referência, portanto, não a trabalhadores colonos, mas a pequenos produtores. Outras obras escritas por pessoas que viveram durante esse período na zona rural também oferecem indicações sobre o problema, com relação a colonos de fazendas. De fato, o problema da educação no meio rural só foi considerado realmente importante pelo Estado sob o aspecto de que, em muitas áreas rurais, a população era composta por imigrantes, que constituíam uma “ameaça” à integridade nacional. Para tanto, chegou-se mesmo a formular legislação específica, já no início do século, que provia de escolas “brasileiras”, sem ser necessário passar por tramitações burocráticas, os núcleos de estrangeiros em áreas rurais. Mais do que a preocupação em dar escolaridade a toda população rural, o que aqui havia era a preocupação em controlar os grupos estrangeiros, como já observamos. Não se pode negar, entretanto, que a criação de escolas nos sítios e fazendas ocorreu de fato durante esse primeiro período republicano. Chamamos a atenção aqui para o fato de que, como pudemos constatar em outros estudos, talvez tenham sido outros – os coronéis – os responsáveis pela expansão do sistema educacional no interior do estado. O material obtido por meio de entrevistas, com o qual temos trabalhado ao longo desses anos, não nos deixa dúvidas quanto ao peso das interferências políticas locais nesse sistema, nem sobre o interesse dos coronéis em usá-los em seu próprio benefício. A educação de amplos setores da população figurava como um dos pontos fundamentais do ideário republicano, surgindo, assim, a possibilidade de a escola ser demandada e então incluída no rol dos favores possíveis, de um lado; de outro, ela vai surgindo como uma das instituições republicanas novas, que, de modo semelhante às demais que vão se instalando pelo interior, poderiam ser estrategicamente controladas pelo poder coronelístico. A escola era, para o coronel, mais um favor que se podia trocar, no sistema de barganha, e, ao mesmo tempo, uma instituição que era preciso controlar, tornar sua. Contudo ela só adquiriria esse caráter na medida em que fosse uma instituição demandada – sem esta contrapartida não entraria no rol dos favores, nem seria necessário garanti-la sob seus domínios (DEMARTINI, 1989). De qualquer forma, contrariamente ao que afirmavam alguns, a rede escolar existente no campo não era suficiente para atender à demanda de escolas, e muito pouco se fez para corrigir as deficiências apontadas no tocante não só à criação, mas também ao efetivo funcionamento delas. Assim, ao final da Primeira República, o atendimento escolar à população rural estava muito distante dos ideais republicanos de ministrar ensino primário a todos. Em 1936, sob a administração de Almeida Júnior na Diretoria do Ensino, ao serem comentados os problemas gerais do ensino, concluía-se que, após o cálculo de que eram necessárias 504.000 vagas para a zona rural do estado, estando matri- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 181 Educação rural: retomando algumas questões culados, em novembro, apenas 182.174 alunos, “a grande lacuna, em matéria de escolas primárias, está na zona rural, na qual a lotação existente não corresponde, como acabamos de ver, nem a terça parte do necessário” (ANNUARIO DO ENSINO, 1936/1937, p. 97). De 1936 em diante, alterou-se muito a composição da população em São Paulo, chegando-se aos anos 1980 com uma minoria da população residindo no campo. Mesmo assim, a despeito de se haver reduzido a questão no tocante à rede escolar necessária para essa clientela agora minoritária, ainda se verificou que, entre os que residiam no campo, continuou elevado o número de analfabetos na população com sete anos ou mais (em 1986, havia 411.205 pessoas nestas condições, correspondendo a 19% da população rural nesta faixa de idade) (FUNDAÇÃO SEADE, 1988, p. 247). Além disso, a transferência do trabalhador do campo para a cidade não significou seu desligamento das atividades agrárias e, muito menos, a resolução das questões educacionais. Pelo contrário, estas até se agravaram para muitos, como pudemos constatar (DEMARTINI; LANG, 1985). Com a transferência da população, tanto a interna do estado, como a migrante de outros estados, também se transferiram os problemas, mesmo passados 100 anos de aceitação da educação obrigatória e gratuita para todos, segundo os ideais republicanos. 2.2 Nas fontes orais, as evidências da forte demanda por escola Os relatos orais que coletamos em entrevistas com professores que lecionaram para populações rurais e famílias de imigrantes permitiram complementar e esclarecer as observações levantadas na documentação escrita que analisamos. As escolas nas quais lecionaram os professores entrevistados eram muitas vezes as primeiras escolas de cada local, escolas pequenas (do total de 36 escolas oficiais, 28 eram escolas isoladas). Localizavam-se, 15 delas, em propriedades rurais, 20 em pequenas vilas ou distritos, apenas uma em cidade. Eram todas escolas recém-criadas. A descrição das localidades em que os professores vivenciaram seus primeiros anos de magistério deu uma mostra bastante rica de como se caracterizava o interior 182 e o litoral do estado, em propriedades que iam de grandes fazendas monocultoras aos pequenos sítios, em que ao lado do café desenvolvia-se uma agricultura voltada para a subsistência, representada pelo arroz, feijão, milho, frutas, entre outros produtos. Os professores falaram da grandeza das fazendas em que deram aula e dessa grande produção de café e de outros produtos; alguns poucos foram para regiões de ocupação então mais recente, quase inexploradas. Contrastando com a pujança da produção econômica estavam as escolas em que lecionaram. Seu funcionamento era bastante precário nas zonas rurais; isto é, não parecia haver garantia alguma para a população que delas necessitava de que a escola, embora existindo no papel, tendo sido criada e reconhecida legalmente, de fato entrasse em funcionamento, mesmo quando para tanto houvesse professor disponível. A própria forma como as escolas eram criadas mostrava a instabilidade e caráter precário dessa rede de escolas oficiais localizadas em propriedades rurais. Segundo um dos professores, havia uma grande dificuldade para se criarem escolas naquela época; o problema não estava, segundo ele, na ausência de procura, mas na falta de empenho do governo para tanto. Segundo vários professores, o que pesava mais, realmente, não era a existência de crianças determinando a existência da escola, mas a vontade e a disposição do fazendeiro em criar, ou não, uma escola na fazenda. A escola podia existir também sem alunos, quando o fazendeiro queria. A criação de escolas ficava muito mais na dependência da política local do que de uma política educacional propriamente dita (DEMARTINI, 1989). Se a determinação legal estipulava que havia a necessidade de crianças em número suficiente, este critério não era o primordial quando havia interesses pessoais e políticos em jogo. Assim, as escolas foram criadas, segundo os professores entrevistados: 1) para atender a interesses pessoais dos fazendeiros em situações variadas; 2) por razões econômicas, porque valorizavam a fazenda, como se vê em alguns depoimentos; 3) para atender a interesses políticos locais, pois a escola era um elemento de disputa entre grupos políticos rivais; e 4) em alguns casos, em que o fazendeiro era também importante político local, por vários motivos Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini simultaneamente, isto é, para atender a família e a interesses políticos. Houve, por outro lado, indicações de que, quando haviam crianças a serem escolarizadas, o mesmo sistema legal que obrigava os pais a enviarem os filhos à escola, impondo-lhes penas em caso de não cumprimento, não lhes proporcionava uma escola para tanto. É preciso chamar a atenção para o fato de que os professores que deram aulas em contextos em que o alunado era constituído por filhos de colonos, em grande parte imigrantes e descendentes, só apontaram o grande interesse e procura pela escola – nenhum deles comentou sobre conflitos com alunos de outras origens, como se poderia esperar, se nos pautássemos apenas nos discursos sobre “os perigos” que o Estado veiculava sobre os imigrantes e sua não-integração em território nacional (DEMARTINI, 2009). Era necessário que os próprios sujeitos (diferentes grupos de imigrantes e populações nacionais) montassem a escola às suas custas para que ela pudesse ser criada. As narrativas de famílias de japoneses, alemães e portugueses entrevistadas em outras pesquisas reforçaram a observação de que cabia às próprias famílias providenciar o estudo para seus filhos, pois não havia escolas que pudessem frequentar, em muitas fazendas e locais em que residiam. Como era generalizado entre os imigrantes o desejo de que seus filhos estudassem para conseguirem melhores empregos e a melhoria de vida das famílias, começaram eles próprios a criar suas escolas, geralmente vinculadas a associações de pais (DEMARTINI, 2006). Como já observamos em outro momento (DEMARTINI, 2000), nas trilhas do passado talvez possamos encontrar pistas para entender e revalorizar as experiências educacionais tão diversas vivenciadas pelos trabalhadores rurais brasileiros ao longo de nossa história. Ao reconstruir as histórias dos processos de escolarização e educação não-escolar dos grupos “apagados” da história – os índios, os negros escravos e libertos, os caboclos, caiçaras e caipiras –, poderíamos compreender melhor as teias de significados atribuídos por estes grupos à educação no campo, visto integrarem historicamente esta população, sempre em mudança. Permitiria, ainda, recolocá-los como sujeitos presentes na his- tória da educação regional, possibilitando, assim, a incorporação da sociodiversidade fragmentada da realidade brasileira (TOMMASINO, 1997) e as várias culturas presentes nas escolas do campo, nos dias atuais. 3. Questões que permanecem e novas questões A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (Lei nº 9.394/96, também conhecida como LDB), em seu artigo 28, postula que na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação, às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I – conteúdos curriculares e metodológicos apropriados às reais necessidades e interesses dos alunos na zona rural; II – organização escolar própria, incluindo adequações do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III – adequação à natureza do trabalho na zona rural (Lei nº 9.394/96). As questões que formulamos ao considerar as condições da oferta histórica disponibilizada à população rural são: não seria necessário conhecer os vários grupos que compõem a população rural, desvendar as várias culturas para poder apreender estas “reais necessidades e interesses”? Quais seriam elas? As diferenciadas vivências e as marcas culturais presentes no campo brasileiro, por meio dos vários grupos que compõem seu campesinato, nos conduzem a uma leitura da educação que ultrapassa o olhar dado pela historiografia construída com base apenas no olhar do Estado. A escola foi historicamente ressignificada até pelas populações rurais que dela foram excluídas. Embora majoritárias no estado de São Paulo, ainda nas primeiras décadas do século XX essas populações não foram priorizadas e atendidas com a expansão das escolas, na Primeira República. Ao contrário, como vimos, os administradores consideravam que para essas populações a educação escolar não era tão necessária quanto para as populações urbanas. Essa exclusão não impediu, entretanto, que as populações caipiras procurassem escolarizar-se das mais diferentes maneiras, como, por exemplo, recorrendo ao estudo com aqueles Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 183 Educação rural: retomando algumas questões que já tivessem frequentado escola, num processo de “cópia” caseira da escola institucionalizada, o que levou em muitos casos ao uso de livros sem as normas prescritas pelos pedagogos e ao desenvolvimento de metodologias próprias, impregnadas da cultura camponesa. Já chamamos a atenção, em alguns textos, para o exemplo do professor leigo que ensinou leitura, escrita e cálculo a muitos filhos de sitiantes do bairro rural em que morava, durante muitos anos, sem nunca ter frequentado escola, usando alguns livros que ele próprio providenciava, evidenciando a resistência camponesa à exclusão do modelo escolar na forma como foi se implantando em nosso contexto brasileiro (DEMARTINI, 2001). Entre as populações negras, escravas ou libertas do meio rural de São Paulo, parece ter ocorrido o mesmo. As escolas não eram construídas para os negros, que delas eram excluídos mesmo quando já libertos. Pode-se constatar, entretanto, que, usando táticas as mais diversas, foram conseguindo estudar. A existência de negros escolarizados morando em fazendas ainda no final do século XIX e alguns até ensinando aos filhos de fazendeiros brancos evidenciaram as resistências deste grupo à exclusão escolar que lhes era imposta de fato e ideologicamente (DEMARTINI, 1989; 2001). O Estado tentou historicamente implantar uma escola que se pautava pela exclusão dos sujeitos do meio rural. Entretanto, não podemos tomar esta proposta como um dado efetivado na realidade – é preciso verificar as resistências, as ressignificações envolvidas nesse processo. Martins (1992), ao tratar dessa questão para alguns grupos da sociedade brasileira, especialmente para a população camponesa, já há vários anos chamava a atenção para as questões da população do campo: As lutas camponesas atuais, examinadas mais de perto, mostram que os camponeses em luta somente lutam porque elaboram uma visão bastante completa do mundo, de seus adversários e inimigos e, conseqüentemente, de si mesmos. Não se limitam a definir o inimigo como aquele que contra eles pratica violências, quer expulsá-los da terra. Embora numa sociedade como a nossa haja distinções substantivas entre índios e camponeses, tanto uns quanto outros estão submetidos a processos sociais que são substancialmente os mesmos. Por isso, índios e 184 camponeses frequentemente manifestam o desejo e a necessidade de conhecer a cultura do branco ou a cultura do outro, do inimigo. Muitos, nessa descoberta adversa do outro, querem se apropriar de sua cultura, pedem para ser alfabetizados, dizem claramente que querem saber como o outro pensa, que raciocínio utiliza. Muitos de nós podemos acreditar que essa curiosidade indica o desejo de ser aculturado, de renunciar às próprias concepções e valores. O desenrolar das lutas indígenas e camponesas, no entanto, mostra que a orientação que adotam tem o sentido oposto (MARTINS, 1992, p. 30-31). O autor discute também as implicações dessas questões para o campo educacional: [...] Aí há, também, um querer da vítima que define a educação: ela a quer para se apossar da cultura, das técnicas e do saber de quem manda. Seja simplesmente escapar do mando, mandando, ou escapar do mando utilizando contra o adversário o seu próprio saber... É, portanto, nessa duplicidade, na sua recíproca dinâmica, que tem sido possível às populações camponesas (e também às indígenas, no período mais recente) definir o sentido da educação escolar. É, também, nesse antagonismo dramático, porque vivido como condição da subjetividade de cada um, que se põe o problema da cultura camponesa. Essencialmente, é uma cultura do antagonismo e do conflito. O caráter submisso do camponês, reiteradamente salientado até mesmo por antropólogos e sociólogos, é apenas um dos lados dessa manipulação de aparências e de culturas e técnica de sobrevivência. Essa parece ser a razão da facilidade com que camponeses, e mesmo índios, assimilam componentes da cultura dominante, especialmente os seus componentes formais. Ou seja, aquilo que pode ser vital para o dominador (e sua dominação) mas não é vital para sua vítima [...] A vítima, na prática da duplicidade, é débil, mas se protege do invasor e sua dominação - relativiza-a, limita-a, cerca-a na própria cerca (MARTINS, 1992, p. 32-34). Quase 20 anos depois, devemos nos perguntar: quem são os inimigos atuais? Em que medida políticas públicas especialmente voltadas para o atendimento a esses grupos não poderiam, entretanto, ser contra os interesses culturais dos mesmos, de forma disfarçada? O que se pode constatar é que ao longo de mais de um século diferentes grupos de camponeses e moradores pobres de áreas rurais tiveram que desenvolver estratégias para apropriar-se das Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini práticas de leitura, escrita e cálculo, resistindo à exclusão escolar que o Estado lhes destinava. Contrariamente ao que muitos governantes, administradores de educação e vários estudiosos afirmavam, a procura pela educação escolar (e também pela educação extraescolar) sempre foi intensa por parte da maioria dos trabalhadores rurais. Ao pensar nos currículos e na prática docente, é preciso, portanto, atentar, como postulou a LDB, para as relações que as populações estabelecem com a escola e os significados e expectativas que lhes atribuem. As grandes mudanças ocorridas no meio rural ao longo do século XX e primeira década do XXI implicaram alterações profundas na composição da população, nas relações de trabalho e na produção agropecuária. Em nome daquelas que interessavam geralmente aos grandes proprietários, mas especialmente ao desenvolvimento urbano-industrial, promoveu-se um “desenvolvimento rural” que foi excluindo os trabalhadores do campo (FERREIRA, et al., 1999). Da maioria da população brasileira que ali residia no início do século XX, passamos para uma minoria, parte dela sem residência fixa, migrantes à procura de trabalho e de terra (SILVA, 1999). O rural que foi se configurando por meio das transformações geralmente implementadas pelo capitalismo agropecuário não pode ser compreendido apenas por meio de sua dimensão territorial, mas também, e principalmente, considerando as pessoas que se vinculam às atividades e ao espaço de produção agropecuária e extração vegetal e mineral, efetivamente ou por suas lutas e reivindicações, por meio do Movimento dos Trabalhadores SemTerra (MST). Retomando as questões para o tempo atual, a oferta de educação básica para a população rural, prevista no artigo 28 da LDB, deveria, assim, atender a quem? A quem se dirige? Não fazem parte também da população rural aquela parcela grande de trabalhadores rurais que não residem na zona rural porque dela foram expulsos e estão nas periferias urbanas? Em pesquisa realizada na década de 1980, já pudemos constatar que eram os filhos de boias-frias, as crianças e jovens residentes nas periferias urbanas do interior do estado de São Paulo os que mais apresentavam problemas em seu processo de escolarização – evasão, faltas, insucesso escolar etc. (DEMARTINI e LANG, 1985). Também em outros estudos mais recentes realizados sobre a educação entre os assentados rurais nesse mesmo estado observou-se que as crianças e jovens, quando frequentavam as séries finais do ensino básico na cidade, eram discriminadas e enfrentavam problemas com relação à sua escolarização. A pergunta que se pode colocar é: seria necessário incorporar também nessas escolas que atendem alunos ligados às atividades agrárias, embora residentes nas cidades, as orientações constantes da LDB em seu artigo 28? Como as escolas urbanas têm enfrentado tal questão? Além dessa questão, que é mais ampla e envolve a discussão do que é o “rural” hoje, visto haver muitos “campos”, ruralidades e trabalhadores “rurais” (LEAL e JÚNIA, 2010; SIMPÓSIO, 2010), outras podem ser aventadas. Uma delas é a questão da nucleação e do transporte escolar. Se as marcas culturais de diferentes grupos étnicos e sociais estão presentes historicamente no “campo” brasileiro, que implicações teriam para crianças e jovens o seu deslocamento para outros bairros rurais distantes do seu local de residência (como é proposto e realizado nas políticas de nucleação em vários municípios brasileiros), ou ainda para as cidades, como forma de economizar, investindo os governos não na proposta da LDB, mas sim no transporte escolar, geralmente precário? Em decorrência dessas políticas, além dos acidentes frequentes com os escolares, noticiados pelos meios de comunicação, tem também ocorrido o distanciamento das crianças e jovens de suas famílias e de seus bairros rurais, implicando não só na impossibilidade de continuarem ajudando nas lides do campo, nas quais são necessários, mas, principalmente, dificultando a apreensão dos saberes sobre o trabalho rural que são incorporados tradicionalmente com a família, e não sob as ordens do capital (DEMARTINI; LANG, 1985; CAPELO, 1999). Tais políticas merecem ser rediscutidas tendo em vista as necessidades reais dos alunos. Considerando essas questões, a escolarização básica de oito anos e o ensino médio são ainda muito problemáticos, pois são muito poucas as escolas voltadas para as crianças e jovens rurais, e o processo de escolarização nas periferias urbanas também não garante o ensino de qualidade. Se as crianças rurais têm tido acesso às séries iniciais Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 185 Educação rural: retomando algumas questões da educação básica em todo o país, o mesmo não ocorre com as séries finais e com o ensino médio, embora a demanda por este nível possa ser constatada até em regiões extremamente pobres. Vinculada a esse aspecto, coloca-se a necessidade de conhecer melhor as necessidades dos jovens e de famílias ligadas ao trabalho agrário hoje, considerando as demandas cada vez maiores de qualificação do trabalhador frente às grandes transformações ligadas às reestruturações produtivas em processo acelerado e que atingem, direta e indiretamente, o trabalho e os jovens dessas famílias, residentes ou não no campo. Alguns estudos mostram que até escolas de assentamentos rurais têm sido fechadas, colocando em risco a escolarização básica das séries iniciais das crianças das famílias assentadas. O atendimento das crianças pequenas na educação infantil é outro problema que se acrescenta a essa questão, sem contar a situação das crianças que acompanham suas famílias nos acampamentos precários. (SOARES; ALBUQUERQUE; WANDERLEY, 2009; ROSSETTO, 2010). Outra discussão importante na educação rural é o trabalho de crianças e jovens rurais em condições extremamente precárias (infância em situação de risco), que mobilizou programas de governo para sua erradicação (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Governo Federal). Os dados apontavam que no final do século XX e no início do século XXI havia quase três milhões de crianças e jovens com menos de catorze anos trabalhando (SILVA, 2000). Para grande parte desses trabalhadores mirins, também chamados de “crianças carentes de infância” (MARTINS, 1992), o trabalho rural é sinônimo de degradação social, de dor, exploração, supressão do lúdico e não escolaridade. Segundo Silva, que pesquisou o lazer/lúdico entre crianças trabalhadoras rurais da zona canavieira, “o trabalho infantil sonega o tempo para a vivência do lúdico, comprometendo a escolarização e, consecutivamente, detonando situações de constrangimentos que repercutem na construção da identidade da criança” (SILVA, 2000, p. 13). O lazer/lúdico constituinte da infância e direito do cidadão merece reflexão por parte da escola, pois representa uma das necessidades fundamentais dos alunos – crianças e jovens rurais. 186 Discutir as ainda problemáticas relações entre trabalho, educação e lazer/lúdico é fundamental para que a educação rural, tanto escolar como não escolar, possibilite a formação integral do aluno. Nessa direção, merece reflexão a proposta do MST de incorporar a dimensão do trabalho e a dimensão lúdica no processo de formação educacional do aluno, proposta que coincide com o processo secular de socialização dos filhos de camponeses para o trabalho (DEMARTINI; LANG, 1985; ROSSETTO, 2010; CALDART, 2009). Observamos que há questões que permeiam toda a prática pedagógica que envolve a educação dos trabalhadores rurais referentes às relações entre o “saber escolar” e o “saber não escolar” do homem rural, ainda em parte desprezado, embora já discutido por muitos (BRANDÃO, 1983). Nos dias atuais, as possibilidades de um “desenvolvimento sustentado” têm como um dos elementos centrais o respeito ao saber das culturas locais, como bem destacou Ribeiro (1993), e que de certa forma se contrapõem ao saber que permeia as práticas das empresas agropecuárias: Agora, o valor político e econômico da diversidade cultural se destaca justamente porque as “populações tradicionais” são detentoras de conhecimento cultural do uso de boa parte da biodiversidade. De pouco vale chegar em uma mata e não saber lê-la. A ciência do concreto das populações locais passa a ser incorporada pelas formas vinculadas à acumulação de ponta do capitalismo transnacional (RIBEIRO, 1993, p. 12). Como a escola para tais populações poderia levá-los em conta? A escola para as populações rurais não pode ignorar essa problemática. A presença cada vez maior do chamado terceiro setor / ONGs atuando na educação de populações rurais no Brasil, também merece reflexão. Se muitas delas propiciam o atendimento educacional escolar e não escolar necessário às crianças e jovens rurais, há, por outro lado, questões que se colocam quanto à autonomia das escolas e à retirada do Estado da esfera social, ou, em outras palavras, quanto aos próprios direitos dos alunos enquanto cidadãos, na medida em que podem privatizar o que seria objeto de políticas sociais públicas. Afonso (1999), ao discutir a educação básica, coloca-nos questões importantes, ainda hoje: Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 Zeila de Brito Fabri Demartini Poder-se-á imaginar a possibilidade de transformação das actuais escolas públicas em organizações do terceiro setor? Poder-se-iam antecipar as vantagens e desvantagens da definição de um bem público local como resultado exclusivo de um compromisso entre o Estado e as organizações do terceiro setor? Poderiam, por exemplo, as associações de pais virem um dia a transformar-se em organizações típicas do terceiro sector? (AFONSO, 1999, p. 133). Algumas anotações finais Nesse texto, procuramos chamar a atenção para a importância de se levar em conta as informações do passado para melhor podermos discutir a situação da educação hoje, especialmente dos que foram historicamente deixados em segundo plano ou excluídos da educação escolar, como as populações rurais. Se observarmos que diminuiu radicalmente a população ligada às atividades agrárias em algumas regiões, invertendo até em termos percentuais sua participação no conjunto da população, em menos de um século, como em São Paulo (CENSO, 2010), poder-se-ia pensar que tal redução teria sido acompanhada pelo aprimoramento das condições da oferta educacional (afinal foram muitas décadas e governos), mas não foi o que ocorreu – o Estado providenciou a educação das séries iniciais da Educação Fundamental; entretanto, muitos outros problemas ficaram sem solução, como vimos. Paralelamente, o que é novo nas últimas décadas e nos dias atuais é a participação dos movimentos sociais, especialmente do MST, como ator importante no equacionamento e elaboração de propostas para a educação dos trabalhadores rurais, além da pressão sobre o Estado, em seus vários níveis. Para encerrar, retomamos as observações já formuladas há anos por Santos (1996), mas que continuam válidas nos dias atuais: Penso, pois, ser necessária uma outra teoria da história que devolva ao passado a sua capacidade de revelação, um passado que se reanime na nossa direção pela imagem desestabilizadora que nos fornece do conflito e do sofrimento humano. Será através dessas imagens desestabilizadoras que será possível recuperar a nossa capacidade de espanto e de indignação e de, através dela, recuperar o nosso inconformismo e a nossa rebeldia [...] Só o passado como opção e como conflito é capaz de desestabilizar a repetição do presente. Maximizar essa desestabilização é a razão de ser de um projeto educativo emancipatório. Para isso, tem de ser, por um lado, um projeto de memória e de denúncia e, por outro, um projeto de comunicação e cumplicidade (SANTOS, 1996, p. 16-17). Todos os que residem no campo ou que desempenham atividades agrárias, mesmo tendo sido dele excluídos, devem ter seus direitos garantidos. A questão que permanece, depois de mais de um século, é: por que a educação da população rural continua não só em segundo plano, mas com tantos problemas? REFERÊNCIAS AFONSO, A. J. A(s) autonomia(s) da escola na encruzilhada entre o velho e o novo espaço público. Inovação, n. 12, p. 121-137, 1999. ANNUARIO do Ensino. São Paulo, 1917; 1936/1937. ARAÚJO, M. M. O cultivo de uma historiografia engajada com a história e a memória da educação brasileira. In: ARAÚJO, M. M.; CARVALHO, M. M. C.; MORAIS, M. A. C.; PAIVA, M. M.; STAMATTO, M. I. S.; XAVIER, L. N. (Orgs.) Intelectuais, Estado e educação. Natal: EDUFRN, 2006. p. 185-196. AZEVEDO, F. A educação na encruzilhada. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1957. (Obras Completas, 6). BRANDÃO, C. R. Casa de escola: cultura camponesa e educação rural. Campinas: Papirus, 1983. BRASIL. 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Recebido em 10.05.2011 Aprovado em 13.08.2011 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 175-189, jul./dez. 2011 189 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia EDUCAÇÃO DO CAMPO, ESCOLAS, RURALIDADES E O PROJETO DO PNE Maria Antônia de Souza Patrícia Correia de Paula Marcoccia * ** RESUMO Este artigo problematiza educação do campo, os aspectos da realidade das escolas públicas e as metas previstas no projeto do Plano Nacional de Educação (2011-2020). O trabalho, fruto de análise documental e bibliográfica, toma por referência a educação do campo como derivada da experiência coletiva dos movimentos sociais de trabalhadores. Em meio ao debate da educação nacional é necessário reconhecer que o Brasil possui identidades e ruralidades que são determinadas por projetos políticos diferenciados. A tensão entre latifúndio e terra como meio de vida e de trabalho é permanente na história brasileira. A partir do final da década de 1990, simpósios, seminários e conferências demonstraram o caráter público e coletivo da educação do campo, em oposição ao caráter tecnicista e urbano que historicamente marcou a educação rural no Brasil. Constata-se que a conjuntura política nacional foi favorável à efetivação das demandas feitas pelos trabalhadores do campo, embora com muitos limites e controles fiscais e jurídicos. O Projeto do Plano Nacional de Educação insere a educação do campo como uma ampla frente de necessidades a serem enfrentadas e realidades a serem reconhecidas. Palavras-chave: Educação do campo. Escola pública. Ruralidades. Política educacional. ABSTRACT RURAL EDUCATION, PUBLIC SCHOOLS, RURALITIES AND THE PNE PROJECT This article questions the rural education, aspects from reality of the public schools and the aims provided in the National Education Project of the Plan (2011-2020). The work is resultant of bibliographical and documental analysis. It takes as reference the rural education as derived from the collective experiences of the worker social movements. Amid National Education debate it´s necessary recognize that Brazil has identities and ruralities, that are determined for differentiated political projects. The Geógrafa (UNESP/Presidente Prudente). Mestre e Doutora em Educação (UNICAMP). Docente do Programa de Pós-Graduação – Mestrado e Doutorado em Educação – da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq – 1D. Endereço para contato: Universidade Tuiuti do Paraná. Rua Sidnei Antonio Rangel, 238 - Santo Inácio. Curitiba (PR). CEP. 82010-330. [email protected]; [email protected]. ** Mestre em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pedagoga da Secretaria Municipal de Educação de Curitiba. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Educação do Campo, Movimentos Sociais e Práticas Pedagógicas (NUPECAMP). [email protected]. * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 191 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE tension between large state and land as a way of life and work is permanent in the brasilian history. Since the end of the 1990 decade symposia, meetings, conferences demonstrated the collective and public character of the rural education, in opposition to the urban and technicality character that historically marked the rural education in Brazil. It has been found out that the national political conjuncture it was favorable for the rural workers effective demands, although there were many limits and judicial and fiscal controls. The National Education Project of the Plan inserts the rural education as a wide front of necessities to be faced and realities to be recognized. Keywords: Rural education. Public schools. Ruralities. Education policy. Introdução Na história da educação brasileira, a trajetória da educação do campo é recente e fruto das lutas dos movimentos sociais de trabalhadores. A sua gênese foi marcada por lutas pela viabilização de processos educativos planejados no coletivo de trabalhadores do campo, no contexto da luta pela terra; por diagnósticos da realidade educacional do país; por iniciativas do tipo parcerias na oferta da educação de jovens e adultos; e por demandas direcionadas aos governos (federal, estadual e municipal) no que tange à efetivação do direito fundamental e social que é a educação. E o mais importante é que a sua origem integra o cenário das lutas por um projeto popular para o Brasil e por um projeto de campo em que terra, trabalho e cultura são indissociáveis. A educação do campo tem como marca a prática coletiva. Há outras frentes de trabalho educacionais “direcionadas” aos trabalhadores do campo, que entretanto carecem da valorização da cultura e do reconhecimento da sua capacidade de organização política. É o caso do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), criado pela Lei nº 8.315, de 23 de dezembro de 1991 (BRASIL, 1991), que, embora considere a cidadania como chave de todas as ações e projetos, tem uma atuação voltada para os trabalhadores e não uma ação oriunda da prática e necessidade sociopolítica deles. Aproximadamente vinte anos se passaram desde as primeiras iniciativas de parceria entre a sociedade civil organizada (entidades do campo) e os governos. Todas permeadas de muitas tensões políticas. A luta pela terra foi marcada por enfrentamentos policiais, militares e inúmeros 192 assassinatos. Desse contexto de enfrentamentos, tensões, controles ideológicos, judiciais e policiais emerge a educação do campo, identificada como tal a partir de 1998. Este texto traz o conjunto de relações que vem marcando a educação brasileira, particularmente no campo, para então compreender o que está disposto no Projeto de Lei nº 8.035, de 20 de dezembro de 2010, referente ao Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020 (BRASIL, 2010b). Problematiza aspectos da escola pública localizada no campo no contexto das ruralidades brasileiras. E as suas reflexões são oriundas dos estudos realizados no Núcleo de Pesquisa em Educação do Campo, Movimentos Sociais e Práticas Pedagógicas (NUPECAMP), vinculado ao Programa de PósGraduação – Mestrado e Doutorado em Educação – da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP). A metodologia empregada na obtenção dos dados apresentados neste artigo é composta por um conjunto de técnicas de coleta de dados, a exemplo da análise de documentos publicados pelo governo federal e pelo Governo do Estado do Paraná; da realização de entrevista com professores das escolas localizadas no campo, especificamente para obtenção de dados quanto à realidade das escolas, lugar em que os impactos decorrentes das políticas públicas ainda são bem incipientes; e da realização de observação da Articulação Paranaense da Educação do Campo e do Comitê Estadual de Educação do Campo. Destaca-se que o ponto de partida teórico é o reconhecimento da existência de duas ideologias marcando a educação (escolar e não escolar) da população do campo, atualmente. Trata-se da ideologia da educação rural, cuja identidade vincula- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia se à política de valorização do agronegócio. E a ideologia da educação do campo, cuja identidade está na prática coletiva de construção de conhecimentos emancipatórios e no cenário de um projeto nacional transformador das relações de exclusão, exploração e de desigualdades. No que tange ao campo, entende-se que ele é marcado pela identidade fundada no trabalho e vida na terra ou nas águas. Entretanto, em oposição aos trabalhadores que vivem da terra, existem os latifúndios, que historicamente têm gerado expropriação e exclusão no campo. No Estado do Paraná, o agronegócio está explícito nas atividades da cana-de-açúcar e pinus, que têm contribuído para a ampliação do desemprego no campo em nome do desenvolvimento econômico e tecnológico. Também a produção de soja, trigo, milho, entre outros produtos para exportação, tem lugar no estado, na economia e na política, haja vista que os grupos que dominam a política governamental, em sua maioria, são defensores do avanço do agronegócio e críticos dos movimentos de trabalhadores, particularmente dos sem-terra. O entendimento de política pública está vinculado ao conceito de participação efetiva e de espaço público. Portanto, a política pública em construção no âmbito da educação do campo tem relação direta com a prática coletiva dos povos do campo. No estado do Paraná, essa realidade é evidente, principalmente na conjuntura política do período de 2003 a 2010. Os moradores das áreas remanescentes de quilombos e os moradores das ilhas do litoral paranaense, por exemplo, vivenciaram processos coletivos de definição dos projetos político-pedagógicos das escolas públicas estaduais, acontecimento inédito na história da educação paranaense; afinal, os povos da ilhas, os quilombolas e os faxinalenses nunca tiveram a sua realidade escolar problematizada no âmbito da política pública. Educação rural, educação do campo e escola pública Para falar da emergência da educação do campo é necessário uma retrospectiva da história da educação rural e das críticas inerentes a ela. Tomando como marco a década de 1980, conjuntura em que a migração campo-cidade, embora continuasse, já havia invertido a realidade populacional brasileira, muitas iniciativas políticas interferem na então denominada educação rural. Escolas públicas rurais (estaduais e municipais) foram fechadas sob a alegação de que o número de alunos não era suficiente para a manutenção das turmas e classes escolares. Por sua vez, a década de 1980 foi marcada pelo processo de nucleação ou consolidação de escolas rurais. Ou seja, escolas isoladas e unidocentes foram desativadas e núcleos rurais foram selecionados para sediar a instituição escolar, que receberia alunos de diversos lugares do município. Entrou em cena a polêmica do transporte escolar rural, que nos dias atuais merece estudos, especialmente no que tange ao financiamento da educação, às condições de transporte dos alunos e condições de trabalho dos professores. No Estado do Paraná, o ano de 2011 começou com diversos noticiários sobre o transporte escolar, como as condições precárias do transporte, as verbas e a interrupção do transporte em algumas localidades, tanto para alunos quanto para o deslocamento dos professores. Como o foco deste artigo é a educação do campo no Projeto de Lei nº 8.035/2010, cabe a primeira pergunta: Que políticas públicas de transporte escolar estão sendo garantidas para o deslocamento dos alunos e professores, prioritariamente intracampo? Esse Projeto de Lei apresenta políticas de financiamento para a aquisição de transporte escolar adaptado para atender aos alunos com deficiência? Trata-se de elementos que devem estar contemplados nas metas de financiamento da educação e nas condições de trabalho. Retomando os anos de 1980, constata-se a existência do processo de nucleação – organização de uma unidade escolar numa comunidade rural que fosse central/nuclear em relação às demais. Outras regiões tiveram perda de escolas e ausência de transporte escolar. Os jovens foram os principais afetados, pois, para ter acesso ao ensino de 2° grau (atual Ensino Médio), era necessário dirigir-se à escola da cidade. Com isso, processos de exclusão escolar marcaram a vida da população do campo na década de 1980. Ainda hoje o número de escolas de Ensino Médio no campo é reduzido, como aponta pesquisa Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 193 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2007). Para melhor entender a questão, os interessados podem efetuar uma análise dos processos de migração campo-cidade nas diferentes localidades brasileiras, o que é essencial para entender alguns aspectos da educação rural. Também é fundamental analisar as conjunturas econômicas e políticas que levaram aos processos migratórios, processos de exclusão social, e neles a exclusão escolar. Cada conjuntura deve ser analisada diante dos condicionantes estruturais históricos, a exemplo da concentração da riqueza e da terra, que tamanha contradição social gera no país. A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, artigos 26 e 28, estabelece a organização curricular diferenciada para as escolas rurais. Conforme dispõe o artigo 28: Na oferta da educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação, às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente. Incisos: I- Conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II- Organização escolar própria, incluindo a adequação do calendário escolar as fases do ciclo agrícola e as condições climáticas; III- Adequação à natureza do trabalho na zona rural (BRASIL, 1996). O artigo 26 estabelece que: Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela (BRASIL, 1996, grifo nosso). Tais artigos são sustentados pela disposição presente no texto constitucional, especificamente o artigo 210, que versa sobre os conteúdos mínimos para o ensino fundamental, com respeito aos valores culturais e de modo a assegurar uma formação básica comum. Do ponto de vista da legislação, até o final da década de 1990 as disposições sobre a educação rural sempre foram tímidas na legislação constitucional e educacional. Foram os movimentos sociais de trabalhadores rurais que trouxeram para 194 o ordenamento jurídico-educacional (diretrizes, resoluções, portarias, decretos) a concepção da educação do campo. A década de 1990 foi marcada pela realização do I Censo Nacional da Reforma Agrária, por meio do qual foi constatado o elevado grau de analfabetismo e baixa escolaridade entre os beneficiários da reforma agrária (INCRA, 1996), ao lado dos percentuais também indicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a frágil escolaridade verificada entre os povos do campo. Esse fato gerou inquietações sobre as escolas localizadas nos assentamentos organizados no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Desde então houve intensa produção de materiais pedagógicos por parte dos integrantes do MST responsáveis pelo Setor de Educação, bem como encontros estaduais e nacionais. Em 1997 foi realizado o I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária, seguido da I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo, em 1998. Desse período em diante constituiu-se um espaço público de debate, dos povos do campo, sobre a educação em sentido amplo, sobre as políticas educacionais e sobre um projeto de campo necessário àqueles que vivem e trabalham com a terra. Foi assim que a concepção de educação do campo foi trilhada nos coletivos educacionais dos movimentos sociais, em relação com as instâncias governamentais, e expressando as diversas lutas no cenário público das conferências e seminários estaduais e nacionais. A concepção de Educação do Campo foi cunhada pelos movimentos sociais de trabalhadores e sistematizada por autores como Bernardo Mançano Fernandes, Miguel Arroyo, Mônica Castagna Molina, Roseli Salete Caldart, entre outros. Até então, na história da educação brasileira falava-se de uma educação para os povos do campo. Contudo outra concepção de educação foi construída e praticada coletivamente entre os povos do campo. Delineou-se, ao final da década de 1990, o conceito de política pública como construção coletiva, como fruto do debate no espaço público. A prática coletiva gerou sinais de mudança no próprio Estado e em alguns governos, embora sinais tímidos e determinados pelas contradições do modo de produção capitalista. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia Em 1998, foi criado o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), como fruto dos encontros de 1997 e 1998. Foi esse programa que possibilitou o desenvolvimento de projetos de educação de jovens e adultos; cursos de especialização lato sensu aos professores das escolas do campo; abertura de cursos de Pedagogia (conhecido como Pedagogia da Terra) destinados aos profissionais que trabalhariam nas escolas localizadas nos assentamentos da reforma agrária. O referido programa é, portanto, fruto da luta dos trabalhadores organizados do campo. E tem sido alvo de questionamentos por parte de procuradores do Ministério Público Federal, bem como do Tribunal de Contas da União. Ou seja, há uma evidente tensão no controle fiscal e judiciário quanto à realização de cursos universitários aos beneficiários da reforma agrária. Os encontros nacionais da educação do campo e a criação do PRONERA possibilitaram inúmeras experiências, articulando o princípio da indissociabilidade ensino-extensão-pesquisa nas universidades brasileiras, vinculadas aos interesses e necessidades dos trabalhadores do campo. No final da década de 1990, iniciou-se a preparação para a elaboração das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas escolas do campo, documento aprovado em 3 de abril de 2002 (BRASIL, 2002). Foi, portanto, uma década de conquistas para a educação do campo, fruto do empenho dos povos organizados do campo, enfim, da ação dos trabalhadores do campo e trabalhadores da educação nesse país. Entretanto, essas conquistas ocorreram em meio a inúmeros conflitos e represálias ideológicas e jurídicas. No documento nacional Diretrizes Operacionais para a Educação Básica das escolas do campo estão presentes artigos que fortalecem a necessidade de projetos político-pedagógicos diferenciados às escolas do campo. As Diretrizes dispõem sobre organização curricular, horários, articulação com a comunidade e, especialmente, encaminhamentos para a definição da identidade dos povos do campo, algo pouco discutido até então, tanto na legislação quanto nas instâncias governamentais e na academia. No ano de 2004 foi criada a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SE- CAD), que tem respondido por diversos programas de educação do campo na atualidade. Em 2008, houve aprovação das diretrizes complementares às diretrizes operacionais da educação do campo (BRASIL, 2008). No documento está explícita a preocupação com a educação especial, educação infantil e com a localização das escolas no próprio campo, de modo a evitar longos deslocamentos – em transporte – pelas crianças e jovens. Em 4 de novembro de 2010, foi aprovado o Decreto do Presidente da República dispondo sobre a política de educação do campo e sobre o PRONERA. Trata-se de um documento estratégico de valorização da educação do campo no Estado e nas esferas governamentais, especialmente num momento de transição política (BRASIL, 2010a). Cabe destacar que vários estados brasileiros têm a sua organização em torno da educação do campo construída a partir do final da década de 1990 e, especialmente, na primeira década do século XXI. O Estado do Paraná, por exemplo, viveu o auge do debate da educação do campo nos últimos oito anos. Houve parecer do Conselho Estadual de Educação sobre a educação do campo, seguido de publicação de resolução da Secretaria de Estado da Educação sobre a política estadual da educação do campo. O estado possui um Comitê Estadual de Educação do Campo e um Grupo de Trabalho formado pelas Instituições de Educação Superior do Estado. Entretanto, no início do novo governo estadual, em 2011, as intempéries e incertezas começam a emergir. Pergunta-se: a prática política de diálogo com os movimentos sociais terá continuidade ou não? As atividades em parceria, movimentos sociais e governo terão continuidade ou não? O momento é de dúvida, atenção e articulação dos movimentos de trabalhadores, universidades e entidades sociais vinculadas à educação do campo. No Brasil, o período de 1998 a 2010 foi marcado pela criação de inúmeros cursos de Educação Superior demandados pelos beneficiários da reforma agrária. Eles se desenvolvem no contexto das contradições internas do Estado, muitas vezes expressas no campo jurídico, a exemplo das ações civis públicas que o Ministério Público Federal impetrou em vários estados. É o caso das ações e processos em andamento no Estado do Rio Grande do Sul, pelo fechamento do curso de Medicina Veterinária Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 195 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE da Universidade Federal de Pelotas e, no Estado de Goiás, pelo fechamento do curso de Direito ofertado pela Universidade Federal de Goiás. Em síntese, o panorama dos últimos anos no que diz respeito à educação do campo é de experiências coletivas em várias frentes. E é certo que os movimentos sociais de trabalhadores têm interrogado muitas práticas educativas (escolares e não escolares) da história passada, do presente e do futuro. A identidade das escolas do campo tem sido problematizada pelo menos nos últimos dez anos e os estados têm publicado documentos sobre o assunto. Emerge o debate sobre a identidade e as ruralidades do país. Povos Quilombolas, Faxinalenses (no Paraná), acampados, assentados, boias-frias, ilhéus, ribeirinhos, entre outros, têm lugar central no debate da política educacional do campo e nos projetos de campo e de país que se deseja construir. O debate é sempre tenso, pois ele indaga o avanço do agronegócio e os processos de exclusão dele decorrentes. A formação inicial e continuada de professores tem sido intensificada nos últimos anos por meio de parcerias entre governos, universidades, movimentos sociais, entidades sociais, etc. A Pedagogia da Alternância é uma concepção educacional que tem orientado muitas práticas formativas, entretanto existem diversas frentes do que se denomina Alternância, e elas podem atender a ideologias diferenciadas. Materiais bibliográficos e pedagógicos têm ampla produção na academia, nos movimentos sociais e nas instâncias governamentais, embora com potencial e necessidade para crescimento. Teses e dissertações vêm sendo produzidas sobre a educação do campo e sobre a história da educação rural, tanto no Brasil quanto em outros países da América Latina. Os eventos acadêmico-científicos têm criado eixos para debate da educação do campo e têm recebido trabalhos que investigam diferentes temas relacionados à educação e às ruralidades e territorialidades brasileiras. É preciso avançar na direção de mudanças na realidade da escola do campo. A escola ainda está marcada por uma ideologia que valoriza os conhecimentos universais em sua relação com a vida na cidade e não em relação com a vida e o trabalho 196 na terra. Aí parece residir um desafio fundamental. Para que haja transformação no mundo da escola é importante que os cursos de formação de professores – tanto inicial quanto continuada – deem atenção à realidade dos povos do campo no país. Nem mesmo estágios em escolas do campo são valorizados nas universidades. É preciso avançar no conhecimento acerca da realidade brasileira que, certamente, não é exclusivamente urbana. Outro desafio está na esfera econômica e na definição de projeto político para o país. No campo, a força do agronegócio tem oprimido e expulsado trabalhadores. A ampliação da produção da canade-açúcar em inúmeros municípios tem sido sinônimo de exclusão do trabalhador rural. É importante refletir sobre quais questionamentos a instituição escolar faz sobre as contradições sociais e as desigualdades que marcam e demarcam a sociedade. A articulação entre os municípios, os estados e a União constitui outro desafio. Cabe perguntar como está a atuação do governante no que tange à valorização das iniciativas de fortalecimento do trabalho na agricultura e das políticas sociais, especialmente para a saúde e educação, tão frágeis no meio rural brasileiro. Os municípios têm potencial para ampliar os processos formativos dos professores que trabalham nas escolas do campo. Conhecer as diferentes experiências em desenvolvimento no país é um dos meios para a transformação no espaço local. O país conta com praticamente 50% das escolas do campo com classes e/ou turmas multisseriadas. É preciso avançar no estudo dessa realidade e nos potenciais que ela oferece para a formação das crianças e jovens do campo. Ainda existe o desafio quanto ao vínculo de trabalho do professor. Em muitos estados o professor não é concursado e possui trabalho temporário nas escolas do campo. É preciso superar essa realidade, senão haverá a institucionalização do que denominamos “permanente chegada do novo nas escolas”, ou seja, a rotatividade de professores. É uma realidade que fragiliza o desenvolvimento de um projeto político-pedagógico coletivo, crítico e democrático, além, obviamente, de revelar a fragilidade no que tange às relações de trabalho. Diante de todos esses desafios, indaga-se sobre o conteúdo que está posto no Projeto de Lei – Plano Nacional de Educação – para o próximo decênio. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia Antes de discutir algumas das metas propostas no projeto, considera-se fundamental a reflexão sobre aspectos da ruralidade brasileira. Educação, escolas e ruralidades Em pesquisa sobre os movimentos sociais e a educação do campo, Souza (2010) indica seis aspectos a serem levados em conta quando se busca compreender as relações produzidas no campo no Brasil, a saber: 1. Os territórios das lutas sociais que expressam o confronto entre classes sociais e dão visibilidade à concentração da terra e à geração de processos de expropriação e expulsão dos trabalhadores da terra. Os territórios das relações sociais que produzem vida, trabalho e cultura. Os sujeitos das territorialidades, trabalhadores que resistem criativamente às contradições e intempéries (climáticas e políticas) que marcam o campo brasileiro. 2. Os trabalhadores com graus diferenciados de organização política: trabalhadores (lavradores) voltados à agricultura familiar e não organizados em movimentos sociais; trabalhadores articulados politicamente no MST e inúmeros movimentos sociais; trabalhadores empregados nas fazendas de gado, áreas canavieiras, entre outras atividades produtivas; ribeirinhos, ilhéus, faxinalenses, sitiantes, povos das florestas, entre outros. Esses estão em franca oposição aos grandes proprietários ou latifundiários de terra, que, em sua maioria, não moram no campo, e cuja produção está voltada à exportação ou utilização da terra como meio de acumulação de riquezas. 3. A existência de política agrícola que integra linhas de crédito voltadas à produção para exportação; linhas de créditos para áreas de reforma agrária; linhas de crédito para a agricultura familiar. O acesso ao crédito agrícola tem duas faces: de um lado, a organização política do grupo social para adquirir os créditos; de outro, a supervalorização de créditos destinados à produção para exportação. A disponibilização de créditos acompanha a histórica desigualdade de oportunidades que marca o campo brasileiro. Atrela-se a isso o fator informação. Os grandes proprietários têm acesso a todo tipo de assessoria técnica e jurídica para lidar com os financiamentos agrícolas e negociações de sua produção. É um desafio para os trabalhadores da agricultura familiar – organizados ou não em movimentos sociais – ter acesso e possibilidade de negociação dos créditos agrícolas. O trabalhador isolado, muitas vezes, não tem o conhecimento técnico necessário para adquirir e planejar, de modo adequado, a utilização do recurso financeiro. Os trabalhadores reunidos em movimentos sociais têm maior possibilidade de atingir tais conhecimentos técnicos, como o estudo dos contratos, articulação para negociar prazos para pagamento do financiamento, etc. 4. As lutas pela sobrevivência no seio da sociedade capitalista, competitiva. Os trabalhadores buscam estratégias de diversificação da produção agrícola como meio de manter a sobrevivência da família no campo. A organização de cooperativas e núcleos de base é intensificada como meio para potencializar a participação dos trabalhadores e a gestão coletiva da produção. 5. A migração dos jovens em direção às cidades ainda é realidade. Os trabalhadores organizados resistem, criando alternativas para o trabalho do jovem no campo, como a diversificação da produção agrícola e a produção agroecológica. Pessoas aposentadas têm forte presença no campo e estão inseridas nas atividades produtivas. 6. O processo de aglomeração de pequenas propriedades nos municípios de menor população. Propriedades que antes foram repartidas e comercializadas na forma de pequenos sítios hoje parecem estar em processo de concentração, novamente. São propriedades adquiridas por pessoas que não têm o interesse de moradia e de trabalho nelas, e muitas vezes constituem áreas para pastagens e arrendamento para determinados cultivos, como a plantação de cana-de-açúcar. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 197 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE Dessa forma, o campo é compreendido no conjunto das relações sociais desiguais que caracterizam o modo de produção capitalista e, especialmente, como lugar de vida e de trabalho. É lugar de violentos confrontos sociais que marcam a história do Brasil. No campo existem dois modelos de desenvolvimento econômico: de um lado, um modelo que está atrelado à produção para exportação e que exclui os trabalhadores; de outro lado, um modelo vinculado à agricultura familiar e sustentável. O campo brasileiro, com uma população de aproximadamente 18% dos que habitam o território nacional, é significativo para a economia interna e externa; é lugar de vida, de moradia e de trabalho de milhares de pessoas. Além disso, os municípios cujos núcleos urbanos são minúsculos possuem relações econômicas e sociais rurais. Basta observamos o interior do Brasil: excluindo as capitais e as poucas cidades de porte médio, a maioria constitui-se de municípios com pequenos núcleos urbanos e área rural ocupada por grandes e pequenas propriedades. A população que vive na periferia urbana, muitas vezes, trabalha na área agrícola, quando ela não está totalmente mecanizada. A maioria da população urbana é oriunda da área rural, tendo partido para as cidades em razão da diminuição do trabalho no campo e da busca de melhores condições de vida – um processo doloroso de expropriação e expulsão dos trabalhadores do seu lugar de vida e de produção da existência. Embora tenhamos registro de movimentos sociais do campo em toda a história brasileira, é possível afirmar que o século XX teve uma diversificação e predominância de movimentos. É o caso das Ligas Camponesas, lutas de boias-frias, lutas sindicais, lutas de posseiros, movimentos de trabalhadores rurais que culminaram na gênese do MST no final dos anos de 1970, enfim, uma diversidade de lutas pela terra a partir do final dos anos de 1990 e a atuação da Via Campesina na primeira década do século XXI. O MST consolidou-se como força opositora ao Estado. Inseriu na agenda política temas como viabilidade socioeconômica dos assentamentos de reforma agrária, educação e desenvolvimento sustentável. O Estado do Paraná conta com a Escola Latino-Americana de Agroecologia, cujo projeto político-pedagógico fundamenta-se na sustentabilidade socioambien198 tal e na organização política dos trabalhadores. Estudantes de países como Argentina, Paraguai, Venezuela, entre outros, têm sido alunos na escola localizada no município da Lapa, Estado do Paraná. Os Institutos Federais, com ensino técnico, têm tido forte atuação no estado, especialmente com cursos voltados à agroecologia. Especificamente sobre o campo e a educação escolar no Estado do Paraná, Pereira (2002) apresenta dados da segunda metade do século XX. Ele mostra que em 1950 a população do campo no estado era 78%, ao passo que em 1985 passa a ser de 35%. Nos anos de 1940, de cada 100 habitantes do estado, 76 moravam na área rural. O total de matrículas na área rural era de 560.439 no ano de 1976 e de 362.967 no ano de 1986. Das 13.885 escolas primárias existentes no ano de 1976, 11.578 estavam localizadas no campo, e a grande maioria das escolas (80%) era municipal. Grande parte delas era isolada e foi afetada pelo processo de migração dos anos de 1970. As autoridades municipais começaram a discutir alternativas para as escolas que então ficavam com número reduzido de alunos. Uma delas foi a “centralização” ou “nucleação” das escolas, colocando em funcionando o transporte municipal de alunos. O autor salienta que “[...] os idealizadores do Movimento Paranaense das Escolas Consolidadas se inspiraram no conceito do Movimento Americano das Escolas Consolidadas”. (PEREIRA, 2002, p. 51). O mesmo autor destaca que: O movimento das escolas consolidadas propunha nada mais do que a criação de escolas para crianças da região rural que fossem tão boas quanto as que crianças da cidade já estavam freqüentando. Em geral, as vantagens eram as de uma escola grande com o apoio financeiro adequado e um bom número de alunos. (PEREIRA, 2002, p. 60). O contexto da existência das escolas consolidadas norte-americanas e o contexto brasileiro eram semelhantes quanto ao aspecto socioeconômico, particularmente de forte migração campo-cidade e industrialização, porém diferentes no contexto político-educacional. Atualmente, a população do Paraná é de 10.284.503, segundo o IBGE (2007). O número de escolas localizadas no campo é de 1.332 pertencentes à rede municipal e 423 estaduais registradas ofi- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia cialmente. Entretanto, a Coordenação da Educação do Campo1, da Secretaria de Educação do Estado, afirma que são 583 escolas da rede estadual. Há uma polêmica no momento do registro das escolas (rurais ou urbanas) no sistema estadual. Existem localidades como os distritos que são eminentemente rurais, entretanto as escolas são registradas como urbanas. Esse fato gera diferença entre o registro oficial e o registro identificado por meio de levantamento de dados com as comunidades e diretores das escolas estaduais. A Coordenação da Educação do Campo registra que no ano de 2000 existiam 2.725 escolas municipais no estado, o que evidencia a política do fechamento das escolas. Outra realidade no estado é quanto aos professores e sua relação de trabalho: 50,60% deles trabalham pelo regime de Processo Seletivo Simplificado (PSS). Eles podem ficar até 2 anos na escola, pois não são professores do Quadro Permanente do Magistério (QPM). Esse fator contribui para a frequente passagem do professor pelas escolas do campo, conhecida como “rotatividade de professores”. A taxa de urbanização no estado, segundo dados do IBGE (2000), é de 81,4%. É importante analisar os dados sistematizados pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social acerca da distribuição da população nos 399 municípios do estado. Como pesquisadora do referido Instituto, Valéria Verde (2004) analisa a distribuição da população pelo território paranaense. Ela mostra que o estado tem sete aglomerações urbanas que envolvem 47 municípios; que há predomínio de municípios com baixa densidade demográfica; que dos 352 municipios (já excetuando as aglomerações urbanas, 47 municípios citados), 302 possuem população com até 20 mil habitantes, de acordo com os dados do IBGE (2000). Ainda, menciona que dos 399 municípios que integram o estado, 345 têm densidade demográfica inferior a 80 habitantes por km2. A autora mostra que 53% da população economicamente ativa está vinculada a atividades de agropecuária ou suas derivadas. O que tais números revelam? Como afirma Veiga (2003, p. 65), “o Brasil é menos urbano do que se calcula”. Ele afirma que os parâmetros da Organização de Dados informados pela Equipe da Coordenação da Educação do Campo em julho de 2010. 1 Cooperação e de Desenvolvimento Econômico para classificar uma localidade como urbana é de que tenha 150 hab./km2. Para ele, “por esse critério, apenas 411 municípios dos 5.507 municípios brasileiros existentes em 2000 seriam considerados urbanos.” Essa contextualização nos permite afirmar que grande parcela da população brasileira vivencia relações sociais, culturais e econômicas assentadas no trabalho agrícola, na pesca, nas florestas, nos rios. Terra e água são dois lugares trabalhados e vividos por povos ribeirinhos, ilhéus, assentados, acampados, boias-frias, quilombolas, indígenas, pequenos agricultores/ sitiantes/ colonos/ sertanejos, entre tantos outros. A sua identidade sociocultural é marcada pelas relações de trabalho na terra e na água. E as escolas, o que nos ensinam da vida dos povos do campo? Já não podemos responder tal indagação de modo negativo. Após apontar aspectos da trajetória da educação do campo, da realidade das escolas e particularidades dos povos que vivem e trabalham na terra e nas águas brasileiras, cabe tecer análises sobre o conteúdo proposto no projeto do Plano Nacional de Educação, em discussão no Congresso Nacional no ano de 2011. Educação do campo no Projeto de Plano Nacional de Educação O Projeto de Lei nº 8.035, de 20 de dezembro de 2010, referente ao Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2011-2020 (BRASIL, 2010b), ora levado ao Congresso Nacional para apreciação, não representa o resultado sistematizado do documento final da Conferência Nacional da Educação (CONAE, 2010). Por meio de conferências municipais, intermunicipais, estaduais e nacionais, a CONAE teve, ou tem, a tarefa de construir orientações na política educacional que ultrapassem as políticas em vigor, com a responsabilidade de incorporar o que os movimentos sociais vêm reivindicando à comunidade científica e outros segmentos da sociedade e do governo. O novo PNE contemplou alguns princípios e diretrizes da proposta final da CONAE, porém é importante destacar que o documento da CONAE trazia nas suas pautas discussões, necessidades e Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 199 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE consensos, mas também refletia tensões no campo da educação e da educação do campo, tais como a reunião, num mesmo eixo identificado como Justiça Social, Educação e Trabalho: Inclusão, Diversidade e Igualdade”, de nove temáticas, dentre as quais a educação do campo (CONAE, 2010). Cada uma das temáticas trazia diferentes especificidades históricas, políticas e lutas sociais. O governo, ao agregar no mesmo eixo nove temáticas, reconhece as dificuldades no trato das diferentes perspectivas, com histórias muito diferentes, inclusive de organização dos movimentos sociais. Nesse sentido, compreende-se que o debate da educação do campo e de outros segmentos ficou prejudicado, pois resta a interrogação: como efetivar políticas e garantir as necessidades desses segmentos se não foram garantidos debates quanto às particularidades dos diferentes grupos? Embora seja necessário reconhecer que o Projeto de Lei nº 8.035 do Plano Nacional de Educação estabelece diretrizes para a educação do campo, (re)afirma o discurso governamental de reconhecimento da diversidade dos sujeitos na garantia do direito à Educação. A concepção e a proposta da educação do campo vão além do que os discursos governamentais estabelecem. A educação do campo tem como meta principal a luta dos trabalhadores do campo para a construção de um modelo de educação que considere a sua realidade e interesses, valorizando os diferentes “grupos identitários” e a sua produção da existência. Dentre esses grupos, consideram-se os ribeirinhos, os indígenas, os quilombolas, os assentados da reforma agrária, os agricultores e os assalariados rurais – todos formam a categoria “sujeito histórico”. “O que os particulariza é a prática social, cultural. O que os une são as relações de trabalho com a terra e a pertença à classe trabalhadora, em oposição à classe latifundiária” (SOUZA, 2010, p. 54). Considerando a diversidade cultural, econômica e social desses grupos, pode-se afirmar que há um objetivo em comum: a luta pelo direito a uma educação universal e de qualidade. E essa “universalidade considera o direito a especificidades e singularidades como algo universal e geral. Assim, na mesma medida, ao cultivarem identidades próprias, os povos do campo são sujeitos de direito ao trato diferenciado” (MUNARIM et al., 2009, p. 58). 200 Nessa mesma linha de pensamento, Frigotto (2010, p. 36) afirma que a educação e a pedagogia do campo devem partir da particularidade e singularidade dadas pelos sujeitos que produzem suas vidas no campo. “Todavia, não se postula o localismo e nem o particularismo, mediante os quais se nega o acesso e a construção do conhecimento e de uma universalidade histórica.” O Projeto de Lei nº 8.035 estabelece em seu artigo 8º, parágrafo § 1º, que: “Os entes federados deverão estabelecer em seus respectivos planos de educação metas que considerem as necessidades específicas das populações do campo e de áreas remanescentes de quilombos, garantindo equidade educacional” (BRASIL, 2010b). Importante indagar quais metas devam ser consideradas. O pensamento de Caldart (2003) sinaliza um caminho para pensar o que é escola do campo. A escola do campo para a autora não é uma escola diferente, mas uma escola que reconhece seus sujeitos sociais e os incorpora para dentro da escola, valorizando seus saberes, suas crenças, seu trabalho e sua cultura. Admitindo que esses sujeitos possam intervir e modificar as relações sociais de seu grupo. A questão é: para construir essa escola que a autora propõe é necessário que os sujeitos que dela necessitam lutem e se mobilizem para fazer com que a escola se volte para os sujeitos sociais reais. Nessa perspectiva, a educação do campo está adiantada diante de muitas concepções de educação, pois tem “clareza de que sozinha a escola não provocará isto. Ao contrário, é o movimento social que precisa ocupar e ocupar-se da escola, construindo junto com os educadores que ali estão o seu novo projeto educativo“ (CALDART, 2003, p. 72). Logo, a educação do campo “vincula a luta por educação com o conjunto das lutas pela transformação das condições de vida do campo” (CALDART, 2004, p. 152), articulando com a ciência, a cultura, a experiência e o trabalho. Essa situação impõe alguns desafios entre o que o Projeto de Lei nº 8.035/2010 discute enquanto política de atendimento às populações do campo e a proposta da educação do campo que articula a educação a “mudanças radicais no projeto societário”, como afirma Frigotto (2010). O contexto em que está inserido o projeto de lei do PNE revela uma forte impregnação das políti- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia cas de âmbito federal, a fim de não ultrapassar o proposto atualmente, nos termos do que se tem em política nacional. Embora o projeto de lei do PNE tenha como bandeira os princípios já mencionados, eles não estão comprometidos com um projeto de educação que prepare os trabalhadores para ser uma “classe detentora do capital, apta a concorrer com o capitalismo central”, pois como afirma Frigotto (2010, p. 29): [...] o projeto de capitalismo dependente impediu e impede, por diferentes mecanismos, a universalização da educação escolar básica (fundamental e média), pública, laica e unitária, mesmo nos limites dos interesses de um capitalismo avançado, dentro de um projeto de autonomia nacional. Não obstante isso, o Projeto de lei do PNE contempla nas suas diretrizes alguns elementos para garantir condições e meios à população do campo para frequentar as escolas públicas do campo, bem como um projeto pedagógico e uma prática pedagógica que se articulam a algumas discussões da educação do campo. A interface entre a educação especial e educação do campo é uma temática que está inserida no projeto de lei do PNE, na estratégia 4.2, que estabelece a implantação de salas de recursos multifuncionais e a formação continuada de professores para o atendimento educacional especializado complementar, nas escolas urbanas e rurais (BRASIL, 2010b). No entanto, este debate é incipiente diante das demandas da educação especial no campo. A pesquisa de Marcoccia (2011), realizada no Estado do Paraná, revela que as condições dos alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas escolas públicas do campo são marcadas pela precariedade de recursos físicos, materiais e pedagógicos. Além disso, a autora destaca outros fatores da concretude do dia a dia que interferem no acesso e na permanência desses alunos nas escolas públicas do campo, entre eles: lugares de difícil acesso, estradas precárias e a utilização do transporte escolar por longas distâncias e sem adaptação. A educação infantil também está inserida no texto do Projeto de Lei do PNE, conforme dispõe a estratégia 1.7: Fomentar o atendimento das crianças do campo na educação infantil por meio do redimensionamento da distribuição territorial da oferta, limitando a nucleação de escolas e o deslocamento das crianças, de forma a atender às especificidades das comunidades rurais (BRASIL 2010b). A ampliação da educação infantil nas comunidades rurais contribui para a visibilidade social e política das crianças do campo, porém é preciso garantir a transversalidade da educação do campo na educação infantil nas propostas das secretarias municipais, priorizando discussões que envolvam a formação de professores de educação infantil do campo, projeto pedagógico e práticas pedagógicas. A formação de professores do campo está prevista no Projeto de Lei do PNE que estabelece a implementação de “programas específicos para a formação de professores para as populações do campo, comunidades quilombolas e povos indígenas” (BRASIL, 2010b). É preciso garantir formação continuada e formação inicial, pois a rotatividade e o pouco tempo lecionando nas escolas do campo dificultam o fortalecimento da identidade das escolas do campo. Daí a importância do Estado garantir políticas públicas para a universalização da educação superior à população do campo, especialmente nas licenciaturas. Além disso, é necessário discutir as condições de trabalho dos professores que atuam nas escolas do campo, transporte escolar e estabilidade profissional para que permaneçam nas escolas do campo. O Projeto de Lei 8.035 dispõe, sobre o transporte escolar, que a frota rural deve ser ampliada, renovada e padronizada, bem como garantido o transporte intracampo, “cabendo aos sistemas estaduais e municipais reduzir o tempo máximo dos estudantes em deslocamento” (BRASIL, 2010b). A ampliação do percentual mínimo de vinculação de cada esfera administrativa e um aumento da porcentagem do PIB a ser aplicado na educação tende a refletir na melhoria da qualidade do ensino e, portanto, na melhoria da educação escolar da população do campo. A meta 20 do Projeto de Lei nº 8.035, de 2010, dispõe: “Ampliar progressivamente o investimento público em educação até atingir, no mínimo, o patamar de sete por cento do produto interno bruto do país” (BRASIL, 2010b). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 201 Educação do campo, escolas, ruralidades e o projeto do PNE Monlevade (2010, p. 8) afirma que essa meta é o “calcanhar de Aquiles” da educação brasileira; contudo, não basta estabelecer um percentual mínimo para todo o país, é preciso que o novo PNE formule “uma meta estruturante para distribuir entre a União, os Estados e os Municípios o percentual mínimo a ser gasto em educação”. Nesse sentido, a política de financiamento da educação do campo necessita de um repasse diferenciado, pois o custo aluno do campo demanda mais recursos do que a realidade urbana. Portanto, é necessário acompanhar e cobrar a execução da ampliação do financiamento da educação, especialmente da educação do campo. Caso contrário, o discurso do projeto de lei do PNE não chegará ao chão da escola pública do campo, mantendo, portanto, a continuidade de uma política de educação voltada para os povos do campo. Considerações finais O que se observa no Projeto de Lei nº 8.035 é que algumas frentes de lutas e demandas dos movimentos sociais de trabalhadores estão apontadas como metas e estratégias. É o caso da educação infantil, a educação especial no contexto do campo e da cidade, a formação continuada dos profissionais da educação, infraestrutura para o funcionamento das escolas, reconhecimento da diversidade sociocultural, ênfase nos aspectos pedagógicos e materiais didáticos. Constata-se que, nos últimos anos, as conquistas no plano educacional e político foram significativas. Em praticamente dez anos foram aprovadas diretrizes nacionais da educação do campo, diretrizes estaduais, decreto presidencial, participação dos povos do campo na Conferência Nacional de Educação, inserção das demandas educacionais dos povos do campo no Projeto de Lei nº 8.035, efetivação de cursos de Educação Superior para os beneficiários da reforma agrária, etc. Contudo há muitas outras propostas que foram discutidas na CONAE e que estão distantes das diretrizes e metas do Projeto de Lei nº 8.035, tais como: a transversalidade da educação do campo na educação básica e superior; a interface da educação especial na educação do campo; política pública de financiamento da educação do campo; gestão da educação da educação do campo, etc. Entretanto, cabe indagar: O documento final do PNE 2011-2020 aprovará uma política de educação do campo referendada pelos movimentos sociais? As metas e estratégias serão cumpridas? Quais dificuldades estarão postas nos estados cujos governos recusam o diálogo com os movimentos sociais do campo? A realidade dos municípios brasileiros, no que tange à educação do campo, é semelhante: professores temporários, precariedade do transporte escolar de alunos e professores, carência de atendimento educacional especializado, e material didático frágil no que diz respeito ao tema campo brasileiro. Como articular os municípios, estados e a União no desenvolvimento da educação do campo? As maiores dificuldades residem no plano municipal? Como superá-las? Cabe aos vários segmentos da sociedade, movimentos sociais do campo, sindicatos, pais, alunos, profissionais da educação e organismos das instituições da comunidade científica articularem-se para forçar melhorias no Projeto de Lei, acompanhando a sua tramitação no Congresso Nacional e verificando se de fato ele avança em direção às reivindicações dos movimentos sociais na defesa de uma educação pública e de qualidade. Como afirma Monlevade (2010, p. 15): O PNE não é um plano qualquer, mas um plano de educação, que vive o conflito permanente entre o que é e o que deve ser, entre o lugar de raiz e a utopia, a nossa viagem do egoísmo para a terra dos valores coletivos. Haja clareza, haja vontade e haja dinheiro [...] REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 8.315, de 23 de dezembro de 1991. Dispõe sobre a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural - SENAR, nos termos do artigo 62 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília, DF, 24 dez. 1991. Disponível em:<http://www.senarpr. org.br/arrecadacao/lei_8315_1991.pdf>. Acesso em: 26 fev. 2011. 202 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Maria Antônia de Souza; Patrícia Correia de Paula Marcoccia BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 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Recebido em 24.05.2011 Aprovado em 11.08.2011 204 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 191-204, jul./dez. 2011 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo DA EDUCAÇÃO RURAL À EDUCAÇÃO DO CAMPO: REVISÃO CRÍTICA Mary Rangel * Rosângela Branca do Carmo ** RESUMO O propósito deste estudo é recuperar alguns dos eventos históricos da educação rural que esclarecem o percurso da evolução de seu significado para a concepção, social e politicamente mais ampla, da educação do campo, observando e problematizando, nesse percurso, fatores que fundamentam reivindicações por maior atenção à escola e às práticas pedagógicas. A metodologia inclui revisão de estudos, cujos aportes críticos sustentam a problematização, construída no estilo ensaístico. A revisão aponta um longo tempo de pouca atenção política ao contexto rural e suas escolas, cujo currículo e práticas têm sido submetidos ao modelo da escola urbana. Destaca-se, então, a relevância histórica de movimentos sociopolíticos em prol da valorização dos sujeitos do meio rural, incluindo indígenas e remanescentes dos quilombos, reconhecendo-se sua importância para a vida e a história do país. Assim, no percurso histórico e nos aportes críticos revistos neste artigo, observa-se a crescente ênfase em recursos e condições que propiciem a oferta de um processo educativo contextualizado, assegurando-se também os princípios de qualidade educacional. Desse modo, este estudo demonstra o quanto o campo inspira reflexões e requer a continuidade e aprofundamento de estudos que visibilizem suas questões e apelos. Palavras-chave: Educação Rural. Revisão Crítica. Problematização. Educação do Campo. ABSTRACT FROM RURAL EDUCATION, TO COUNTRYSIDE EDUCATION: A CRITICAL REVIEW The purpose of this study is to recover some of the historic events of the rural education that clarify the route of the evolution of its significance to the conception, social and politically wider, from the field education, observing and questioning, in this route, factors that base claims for greater attention to school and its pedagogical * Doutorado em educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-Doutorado em Psicologia Social pela Pontíifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Professora Titular de Didática da Universidade Federal Fluminense(UFF). Professora Titular da área de Ensino-Aprendizagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Assessora Pedagógica: Institutos Superiores La Salle (RJ) e Colégio La Salle Abel (RJ). Endereço para contato: Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Campus do Gragoatá, CEP: 24.210-201 Niterói, RJ. [email protected]. ** Mestrado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Endereço para contato: Universidade Federal de São João del-Rei. Praça Frei Orlando, 170, Centro, CEP: 36.307-352 São João del-Rei - Minas Gerais. [email protected] Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 205 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica practices. The methodology has included review of studies, whose critical contribution have sustained the questioning, constructed in the essay style. The review points to a long time of few political attention to the rural context and their schools, whose curriculum and practices have been submitted to the model of urban schools. It has been highlighted, though, the historic relevance of social political movements in favor of the valorization of the subjects from the rural environment, including indigenous and remaining of the quilombos, recognizing their importance to the life and history of the country. Thus, in the historical route and in the critical contributions reviewed in this article we have observed the growing emphasis in resources and conditions that favors the offer of a contextualized educational process, assuring also the principles of educational quality. This way, this study has demonstrated how the field inspires reflections and requires the continuity and deepening of studies that visualizes its questions and appeals. Keywords: Rural Education. Critic Review. Questioning. Field Education. Introdução Na condução metodológica deste artigo, optouse por uma revisão de estudos sem a pretensão de esgotá-los, mas de reunir aportes significativos à problematização a que se propõe, e cujo estilo ensaístico é recorrente a Burke (1987) e Pinto (1998). Inicia-se, então, observando que, historicamente, os primeiros indícios de visibilidade da educação no meio rural remontam ao século XIX. No entanto, apenas nos anos 30 do século XX começaram a surgir modelos de educação rural, baseados em projetos de modernização do campo, patrocinados por organismos de cooperação norte-americana e difundidos por meio do sistema de assistência técnica e extensão rural (CALAZANS, 1993). A proposta de modernização do campo foi orientada pelo modo de vida urbano, observando pouco as peculiaridades, saberes e valores do meio rural. Esse problema tem motivado pesquisas, como a de Cavalcante (2003), em cujos dados e análises evidencia-se, nas políticas públicas para a escolarização das populações rurais, um fraco desempenho e o pouco interesse do Estado. O analfabetismo no Brasil, que permanece mais acentuado na área rural do que na área urbana, é uma das evidências. Desse modo, assinala-se na trajetória da escola rural no Brasil o processo de expropriação/ proletarização das famílias agricultoras. Esse processo teve a contribuição do fato da escola ter sido incluída no processo de “modernização do 206 campo”, com base em uma concepção frágil e descontextualizada de “modernização”, que também tem afetado a escola urbana e, historicamente, a educação brasileira. A crítica a esse problema tem sido recorrente na literatura, podendo-se exemplificar a discussão de Freire (2006) sobre autonomia e saberes relevantes às práticas pedagógicas, e as análises de Saviani (1983) sobre as teorias da educação e o problema da marginalidade. Observase, então, que quaisquer formas, circunstâncias ou contingências que provoquem mimetismo cultural fragilizam a escola, seja urbana, seja rural. A reação a fatores que fragilizaram a escola rural encontra apoio político em movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), no qual se realça o empenho na concepção de que a importância da terra, como espaço e projeto de vida e trabalho, associa-se à importância da escola e do saber do campo (RAPOZO, 1999; LIMA, 1998; QUEIROZ, 1992). Por isso, as questões políticas da terra passam, necessariamente, pela educação do e no campo, cuja revisão de aportes críticos de sua história constitui motivo e proposta deste estudo e sua problematização. A educação e a escola do meio rural A educação no meio rural tem se apresentado como um dilema para famílias de agricultores que, frequentemente, se veem impelidos a trocar suas terras e sua vida no campo por subempregos Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo nas periferias das cidades, movidos, entre outros fatores, pela ilusão de encontrarem uma escola que propicie a seus filhos oportunidades de emprego assalariado de bom nível. Ribeiro (1985, p.3) analisa essa situação, ressaltando que: [...] mesmo para as famílias que enviam seus filhos para a escola rural, o ensino feito através desta escola não os prepara para permanecerem na terra. Toda a política para a educação rural tem se restringido a oferecer um arremedo da escola urbana, que nem habilita os filhos dos agricultores para dar continuidade às lides dos pais, nem os qualifica para os empregos urbanos. Autores, como Richardson (1983) e Rocha (1998), baseados em relatos obtidos ao longo de 15 anos de pesquisas, ressaltam a precariedade estrutural e pedagógica da maioria das escolas rurais do Brasil. Cavalcante (2003) complementa a análise, assinalando que os problemas estruturais apresentam outros agravantes em aspectos pedagógicos, como cartilhas e livros didáticos totalmente descontextualizados do meio rural, com atividades que não correspondem à vivência do aluno. “As cartilhas eram escritas para as escolas urbanas, sem considerar o saber do camponês, e mantinham atividades inadequadas ao meio rural, como reconheciam algumas professoras, pois não havia muita preocupação em adaptá-las àquilo que seria de maior interesse” (CAVALCANTE, 2003, p. 25). Outra constatação relacionada às escolas rurais do Brasil é a de que a maioria dessas escolas ainda funciona com classes multisseriadas. No que pese o papel histórico que desempenharam e continuam a desempenhar no interior do Brasil, as classes multisseriadas oferecem a professores e alunos condições precárias de estudo. Tal precariedade agrava-se ainda mais se relacionada à formação do professor. Assim, Cavalcante (2003) analisa a fragilidade da formação e o acúmulo de funções do professor na escola rural, assumindo vários níveis escolares numa mesma turma, além de outras funções, a exemplo da função de merendeiro. Observa-se, então, que a educação rural, em seus aspectos pedagógicos, disciplinares e didáticos, tem sido concebida com base na ideia de que todos os alunos são iguais, independente das especificidades do meio em que vivem. Sendo assim, fica evidente que tanto o calendário quanto o currículo da maioria das escolas têm sido orientados pelas necessidades urbanas, impondo aos alunos do meio rural uma cultura desvinculada de seu contexto. Contudo, vale ressaltar que a descontextualização de saberes e práticas pedagógicas, que tem afetado a escola rural, também ocorre na escola urbana. Entre os problemas e dilemas comuns encontram-se os que se referem a currículo, a metodologias de ensino, a livros didáticos, à desmotivação de alunos, e à formação de professores, que necessitam atuar com uma heterogeneidade de alunos e com as várias manifestações da diversidade social e do multiculturalismo. Problemas como a precariedade de recursos e de instalações físicas, bem como complicações decorrentes da distância que dificulta o acesso às escolas, são comuns ao meio urbano e rural. Pesquisas como a de Souza (2006), que focaliza A fábrica de professores e a padronização do conhecimento, trazem subsídios significativos ao estudo da descontextualização da escola, sem distinção de urbana ou rural. Contribuem, também, a essa análise os enfoques da literatura crítica sobre currículo, a exemplo de Silva (2001); sobre avaliação, a exemplo de Werneck (2000); e livro didático, a exemplo de Passini (2000), além de outros tantos estudos e temas das perspectivas amplas, profundas e complexas da problematização da escola. Voltando a focalizar, mais especificamente, o meio rural, observa-se que as dificuldades de inadequação ao contexto, aliadas à precariedade de material, falta de incentivo dos pais, problemas relacionados ao acesso, locomoção, transporte escolar e deficiente formação do professor têm acarretado aos alunos um baixo rendimento e expressiva evasão escolar, com perspectivas de escolarização inferior ao 4º ano do ensino fundamental. Além disso, como observa Werle (2007, p. 10), “[...] o tema da educação rural é pouco difundido como área de pesquisa e de formação, seja em cursos de graduação, seja na Pós-Graduação”. A necessidade de trabalho dos alunos na roça e a condescendência dos professores, que não registram suas faltas, constituem também fatores que prejudicam o seu aproveitamento escolar. Contudo, vale observar que as representações do Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 207 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica trabalho para a mulher e o homem do campo não se limitam a aspectos profissionais e financeiros, mas assumem um particular significado na sua escala de valorização social, embora o trabalho nem sempre seja remunerado e absorva até mesmo atividades domésticas. A questão do trabalho infantil é compreendida não como forma de exploração, mas de obrigação familiar, que deve ser cumprida. Desde muito pequenas, as crianças aprendem os ofícios próprios do campo e estão também envolvidas com os trabalhos domésticos, com os quais dividem seu tempo na escola. Essa dupla jornada de atividades, percebida como normal pelos pais, compromete a aprendizagem das crianças pelo cansaço, em razão do esforço dispendioso (CAVALCANTE, 2003). É importante também, nessa sequência de análises, levar em conta as contribuições de estudos sobre o “trabalho como princípio educativo”, considerando-se, em Saviani (2003, p. 13), que um de seus significados essenciais se expressa no “[...] ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade, produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens”. Nesse sentido, o “trabalho como princípio educativo” é uma atividade mediadora entre o indivíduo e a cultura humana. Com essa mesma perspectiva, Arroyo (2008, p, 76) observa que “[...] a experiência que nos move a todos é a experiência do trabalho, da produção, o ato produtivo que nos produz como pessoas”. É interessante, ainda, a leitura de Frigotto (1985), quando propõe a superação de ambiguidades na discussão do “trabalho como princípio educativo”, assim como a leitura da ampla discussão política que ele oferece em todos os seus trabalhos, com atenção especial à “produtividade da escola improdutiva”, em que se encontra, com expressiva densidade teórica, a crítica à teoria do capital humano e sua influência em concepções da relação entre educação e trabalho pautadas na “[...] economia neoclássica e na ideologia positivista” (FRIGOTTO, 1990, p. 15-16). É oportuno ainda observar que, a despeito de toda a dificuldade e precariedade das condições de ensino em escolas no meio rural, pode-se perceber que a educação é vista pela maioria dos pais como uma forma dos filhos “escaparem” das privações 208 e dificuldades da vida no campo. Para Griffiths (1980, p. 44), [...] a escola moderna não se originou em qualquer tentativa de comunidades rurais para melhorar sua própria maneira de vida. Foi introduzida por estrangeiros, corpos religiosos ou governos coloniais, e sua primeira consequência econômica foi atrair alguns jovens mais inteligentes para o serviço amanuense e outros empregos de escritório. Persiste essa tradição, sendo improvável que tal situação se modifique enquanto o trabalho agrícola não oferecer melhores resultados financeiros, estabilidade e conforto do que os empregos de escritório. Skliar (2003), entre outros pesquisadores que trazem contribuições às análises numa perspectiva crítico-social, assinala que os sujeitos do campo têm sido tratados, predominantemente, ao longo da história, como indivíduos de menor valor, que adquirem representatividade quando são necessários à mão de obra rural, ou como instrumentos políticos em períodos eleitorais. Desse modo, o entendimento da construção da identidade desses sujeitos pressupõe a lógica da invisibilidade, ou seja, eles estão presentes nos lugares educativos, mas não possuem suas especificidades reconhecidas. Assim, o homem do campo permanece ausente da história de sua própria cultura, pois tem sua linguagem, sua origem social, seus saberes desqualificados em nome de um modelo de valorização social hegemônico. “Na realidade, percebe-se a sutil hostilização da diversidade, porque existem mecanismos oficiais e toleráveis de exclusão, bastando analisar o processo de avaliação, o currículo, os decretos e as leis que adotam a perspectiva do sujeito homogêneo na educação”. (SKLIAR, 2003, p. 19). Embora a perspectiva homogeneizadora tenha dominado as diretrizes governamentais e, com base nelas, as políticas públicas no cenário educacional brasileiro, percebe-se um movimento contrário, sobretudo nas três ultimas décadas, a partir da abertura política, a fim de contextualizar não só a educação do campo, como a urbana, e realçar o valor social de seus sujeitos, compreendendo-os como agentes de sua construção histórica (CONAE, 2010). Os sujeitos do meio rural, assim como os do meio urbano, interagem em suas comunidades, e o Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo fazem de modo próprio, de acordo com suas experiências e expectativas sociais. Essa percepção requer de todos os envolvidos com as questões educacionais uma nova compreensão do contexto, interesses e motivações desses sujeitos, reconhecendo-se seu valor e possibilidades de realizações. Essa compreensão mais ampla, mais contextualizada, tem contribuído à educação do campo, seus sujeitos, suas realizações, que passam a representar uma vertente de investigações de especial interesse na educação brasileira, na perspectiva de tornar mais visível o locus rural de conhecimento e cultura, considerando e valorizando suas especificidades e suas práticas (ARROYO, 2008; RIBEIRO, 1985; MENEZES, 2010; ARAUJO, 2010; CULTI; SOUZA, 2010). Baseando-se nas considerações anteriores, pode-se verificar que a história da educação escolar no meio rural no Brasil tem sido marcada por duas formas de organização bem distintas, que refletem, de maneira significativa, a percepção social da identidade dos sujeitos do campo. A primeira perspectiva histórica, mais facilmente identificada, e que tem se mantido ao longo do tempo, é a da implantação do ensino rural de acordo com o modelo de escola dos centros urbanos. A segunda perspectiva, de abordagem mais recente, pauta-se na adoção de práticas e propostas pedagógicas específicas do universo rural, com suas características, interesses e contribuições sociais, políticas econômicas e culturais, sem esquecer a presença, nesse universo, de grupos indígenas e de remanescentes dos quilombos. Essa forma contextualizada de percepção tem, no saber de homens e mulheres do campo, um dos seus pilares de sustentação. Entretanto, o resgate da identidade e da importância histórica e sociopolítica dos sujeitos do campo, com a colaboração do processo educativo, permanece, ainda, como um ideal que motiva educadores preocupados com a atenção e respeito a essa identidade e sua pouca valorização por várias gerações. Vive-se, portanto, um tempo em que outros caminhos vêm sendo traçados para a educação do meio rural no Brasil, como apontam Souza (2006), Caldart (1996; 1997), Arroyo (2008). O momento, como assinala Arroyo (2008), é de avanços, de modo que a educação do campo passa a receber maior consideração; esse momento, portanto, é especialmente instigante a estudos que reveem o seu percurso histórico e, nele, eventos significativos, substanciais à sua problematização, no interesse de realçar a importância de vencer os desafios que o passado deixou ao presente e fortalecer a confiança na construção de um novo tempo e uma nova história. Desse modo, nas propostas atuais para a educação escolar no meio rural, inclui-se a ampliação do seu entendimento e seu alcance, que se expressam nos significados da educação do campo, com atenção a todos os seus espaços e sujeitos, reconhecendo e qualificando suas inquietações e seus questionamentos ao tipo de educação que lhes tem sido oferecida e às dificuldades de exercício pleno de seus direitos, como trabalhadores e cidadãos. Por isso, a educação do campo constitui-se, também, num “[...] espaço propício para reflexões sobre interdisciplinaridade, uma vez que o próprio campo caracteriza-se por uma diversidade cultural, social e econômica” (SOUZA, 2006, p. 24). Nessa mesma perspectiva de valorização, vale lembrar que a história da escola rural expressa, de modo significativo, a história da organização da sociedade brasileira, e que, desde o período da colonização até o início do século XX, a população do Brasil era predominantemente rural. Assim, a renovação de significados que se expressam na educação do campo associa-se à própria reconstrução de sua história e de circunstâncias de subalternidade, como as do período colonial, em que o modelo formal de escola era destinado aos filhos das elites agrárias que se formavam nos colégios jesuítas, nos quais recebiam os conteúdos clássicos (gramática, humanidades, retórica, filosofia, teologia), propícios a que desempenhassem, no futuro, cargos públicos, ou seguissem o sacerdócio ou a advocacia. Nesta revisão histórica, vale também lembrar que, somente no texto da Lei de 15 de outubro de 1827, em seu artigo primeiro, pode-se notar um aceno para o contexto do campo, nos seguintes termos que determinam: “[...] em todas as cidades, vilas e lugarejos mais populosos haverá escolas das primeiras letras que forem necessárias”. Essa lei foi a primeira e única sancionada em todo o período colonial (FARIA FILHO, 2000). Obviamente, ela Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 209 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica fracassou, pois não havia estrutura econômica, social, política e técnica que desse sustentação às vinte escolas criadas em todo o território nacional, e quanto mais longínqua a localidade, mais raramente chegavam os recursos necessários ao seu funcionamento. A maior clareza da importância da educação no meio rural foi suscitada pelo intenso deslocamento da população do campo para os centros urbanos, ocorrido a partir dos anos 1910/1920, em virtude do incremento do processo de industrialização. Como exemplos desse incremento, podem-se citar a instalação de importantes polos industriais em São Paulo, bem como a implantação de fábricas têxteis e da companhia Belgo-Mineira em Minas Gerais, para a exploração siderúrgica (LEITE, 2002). Especialmente esses estados atraíam a população rurícola, o que levou ao surgimento do “Ruralismo Pedagógico”, cujo propósito era, a priori, adaptar a escola às condições do homem do campo e, consequentemente, mantê-lo em sua região de origem. Na realidade, a defesa da proposta do “Ruralismo Pedagógico”, feita pelos agroexportadores, com apoio de setores da elite urbana, do movimento nacionalista e do movimento católico do início do século, justifica-se pelo interesse na permanência do homem no campo, na manutenção da riqueza agrícola e na tentativa de conter a explosão dos problemas sociais nas cidades. Várias medidas foram tomadas nesse período com o objetivo de implementar a política nacionalista do Ministério da Educação por meio de projetos, como: [...] a) a criação do Fundo Nacional do Ensino Primário (FNPE), cujos recursos seriam dedicados apenas à construção de prédios escolares; b) a fundação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), peça-chave das políticas educacionais oriundas do Ministério da Educação; c) a implantação da Radiodifusão Rural; d) a criação do Conselho Nacional de Educação Primária (CNEP); e, finalmente, e) a realização da governista Conferência Nacional de Educação [...] com vistas a comprovar [...] as precárias condições do ensino elementar agrícola (MENDONÇA, 2007, p. 47). Não obstante, em 1930, o processo migratório ter se tornado significativo, dois terços da população continuava no campo, embora permanecesse 210 desprovido das atenções e recursos necessários ao ensino escolar (CALAZANS; CASTRO; SILVA, 1985). Esse cenário manteve-se até a década de 1930, pois, conforme Leite (2002, p. 60), “prevaleceram, até então, a sociedade e o Estado oligárquico, com todas as suas características e formas tradicionais de exercício de poder, não promovendo rupturas significativas entre os setores agrário e industrial”. No governo de Getúlio Vargas, a escola rural permaneceu com pouca atenção, ressalvando-se apenas a criação, em 1937, da Sociedade Brasileira de Educação Rural, cujo propósito era o de incentivar a permanência no campo, preservar a arte e manifestações folclóricas rurais, bem como proporcionar a expansão do ensino. A disciplina, o civismo e a obediência às normas do Estado eram princípios ideológicos que fundamentavam a Associação. Algumas iniciativas pontuais para a educação rural foram tomadas a partir da década de 1940, movidas também pela proposta de “fixar o homem no campo”. Contudo, o êxodo rural continuou crescendo. As iniciativas em prol do ensino rural nessa época encontraram emperramentos na implantação de programas e políticas, pois à difícil permanência do professor nas localidades das escolas somavase a ausência de condições de trabalho, de salários dignos, além de lacunas na formação profissional necessária à prática docente. Os vários programas implementados nas décadas de 1930 e 1940 foram prejudicados por fatores que, ainda hoje, interferem nas possibilidades de contribuições efetivas à educação do campo, como o precário conhecimento do contexto de origem dos sujeitos, a pouca participação das escolas nas decisões que regulam o seu funcionamento e a inadequação das políticas às reais demandas do meio rural. Em 1947, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apresentou recomendações ao trabalho pedagógico no campo, priorizando o ensino de técnicas agrícolas no nível fundamental. Essas recomendações enfatizavam a importância de cuidados com as condições sanitárias e de oferta educacional, inclusive para a escolarização de adultos (WERLE, 2007, p. 11). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo As décadas de 1950 e 1960 caracterizaram-se pelo aumento, ainda maior que o dos períodos anteriores, do processo migratório do homem do campo em busca de melhores condições de vida. Conforme Souza (2006), nesse período, praticamente 50% da população brasileira vivia no campo e sua fixação não seria resolvida apenas por programas educacionais, mas sim por projetos políticos mais amplos, em favor de assegurar condições e direitos de qualidade de vida, em todos os seus aspectos de infraestrutura, saneamento, saúde e trabalho. Leite (2002, p. 37) acrescenta observações a essa análise, assinalando que “[...] os pequenos grupos rurais – trabalhadores sem terra, arrendatários, boias-frias e outros – não tinham vez e nem voz frente às decisões comunitárias”, pois essas decisões eram de aplicação geral e não se destinavam a grupos específicos. As circunstâncias de deterioração da educação rural, incluindo os efeitos da política de municipalização, que submeteu as escolas rurais aos precários recursos das prefeituras municipais, foram propícias a reações que se consubstanciaram em movimentos, como os dos Centros Populares de Cultura (CPC) e o Movimento Educacional de Base (MEB), “ligados a partidos de esquerda e com sustentação ideológica no trabalho desenvolvido pelas ligas camponesas, sindicatos e ação pastoral de bispos da igreja católica” (SOUZA, 2006, p. 54). Outras ações educativas relevantes foram as dos Grupos de Alfabetização de Adultos e Educação Popular, movimento político-educacional que assumiu a luta contra a expropriação da terra de homens e mulheres do campo. Esse movimento culminou com a aprovação do Estatuto da Terra, em 1963. Embora o período fosse conturbado, por conta do regime militar implantado no Brasil em 1964, várias propostas de educação popular para o campo começaram a surgir, com especial atenção às ideias freireanas, notando-se então que, a despeito da perseguição a Paulo Freire, culminando com seu exílio em setembro de 1964, essas ideias superaram as pressões ideológicas e permaneceram com expressivo reconhecimento e contribuições à educação brasileira. Observa-se, ainda, neste contexto dos anos 1960, a presença histórica do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), criado pela Lei nº 5.379, de dezembro de 1967, para ações movidas pela especial atenção à alfabetização de adultos, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Embora trouxesse esperanças à população, faltou às ações do MOBRAL o atendimento necessário às peculiaridades de cada região brasileira, o que inibiu progressos sociais mais amplos. É relevante lembrar que o Brasil presenciou nos anos de 1960 e 1970 a ascensão do regime militar e a abertura do país ao capital e a modelos estrangeiros de desenvolvimento, sobretudo os norte-americanos. No que se refere à educação, destaca-se a ação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que visava contribuir com recursos no interesse da efetivação de ações no âmbito educacional. Nesse processo, os acordos MEC-USAID interferiram também na escola rural, entre outras formas pela importação do modelo de nucleação norte-americano, iniciado no Brasil em 1976. Entretanto, com o declínio do regime militar, consequentemente tal interferência sofreu interrupções, uma vez que a injeção de capital estrangeiro não apresentava o mesmo volume observado anteriormente, em decorrência, inclusive, da crise vivenciada pelo próprio modelo de produção capitalista. É interessante, então, observar a análise de Leite (2002, p.35): “[...] o sistema escolar controlado pela ideologia da caserna limitou-se aos ensinamentos mínimos necessários para a garantia do modelo capitalista-dependente e dos elementos básicos de segurança nacional”. Com o movimento crescente pela democratização na década de 1980, e apoiado no objetivo de erradicar o analfabetismo, que dava mostras de problema “incurável” na sociedade brasileira, foram implantados projetos, como o Programa Nacional de Ações Socioeducativas e Culturais para o Meio Rural (PRONASEC) e o Programa Educação Rural (EDURURAL). Como observa Leite (2002), esse quadro da educação do campo permaneceu até o III Plano Setorial de Educação, Cultura e Desportos (PSECD), implementado para o período de 1980-1985, que propôs melhorias na condição de vida, de trabalho e de educação da população do campo, enfatizando a expansão do ensino fundamental e a redução da evasão e repetência escolar. Entretanto, algumas Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 211 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica medidas cruciais para a implantação e fortalecimento de condições da educação do campo previstas nesse plano foram desconsideradas, como a formação dos professores para atuação no meio rural, a adequação do material didático e as necessárias melhorias das instalações físicas das escolas. Já ao final do regime militar, nos anos de 1980 a 1985, implantou-se, no nordeste, o EDURURAL, uma parceria entre o governo federal e a Universidade Federal do Ceará, com financiamento do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Esse programa pretendia avanços nos conceitos e práticas da educação, considerando as críticas a “[...] currículos urbanos introduzidos na zona rural” e destacando a proposta de “[...] autonomia pedagógica, de modo a valorizar o trabalho de professores e alunos, enfatizando a realidade campesina” (LEITE, 2002, p. 50). Iniciativas como o EDURURAL fundamentaram-se em princípios educativos de movimentos populares e receberam influências de teorias da aprendizagem com enfoque sociocultural. Observase, então, que o conceito de educação rural torna-se insuficiente para comportar a complexidade da educação destinada ao homem do campo. Nesse sentido, é importante, também, reconhecer as contribuições do Encontro Nacional de Educadoras e Educadores da Reforma Agrária, em 1998, realizado em Luziânia, Estado de Goiás. Finalmente, assinala-se que a educação do campo incorpora, em sua concepção, seus fundamentos e seu significado, um projeto político-pedagógico de alcance amplo, que inclui, em suas motivações, as do MST, e encontra, hoje, crescente atenção nas discussões acadêmicas, movidas pelo interesse na promoção e reconhecimento do expressivo valor de homens e mulheres do campo, com especial atenção à garantia de seus direitos, como: valorização de seu trabalho; condições de vida cidadã; e educação que atenda aos seus interesses, mantendo-se o mesmo princípio de qualidade social e pedagógica proposta à educação do meio urbano. Ressalvadas as limitações do alcance de análises e aportes deste estudo, acredita-se que seja possível distinguir a proposta do “ruralismo pedagógico” da proposta de ressignificação da educação do campo, mais ampla por conta do reconhecimen212 to das tradições, dos costumes, do valor do trabalho da população do campo, compreendendo-se, ainda, que a permanência dos sujeitos no meio rural possa ser ressignificada mediante sua valorização sociopolítica e a valorização do significado que atribuem à terra, como fonte de conhecimento, produção, vida e convivência. Acredita-se, ainda, que a expressão “educação do campo” possa ter um sentido mais abrangente e inclusivo (também ressignificado em relação à educação rural), contribuindo à maior visibilidade de grupos, como quilombolas e indígenas, e à sua maior consideração social e política. Contudo, não se desconsidera , ao contrário, enfatiza-se, a necessidade de estudos e pesquisas que aprofundem essas questões, que vão além de nomenclaturas e materializam-se na complexidade da relação entre propostas e práticas efetivas. Comentário conclusivo Espera-se que a perspectiva de ampliar o significado da expressão “educação rural” para o de “educação do campo” possa significar mais do que, simplesmente, uma alteração semântica e contribuir com o desenvolvimento de políticas efetivas em favor de um número significativo de trabalhadores e trabalhadoras que têm sido excluídos do processo de escolarização durante a história socioeducacional brasileira. Essa exclusão constitui, atualmente, um especial foco de atenção dos educadores e sua ênfase na “[...] valorização da educação do campo, quilombola e escolar indígena, a partir de uma visão que as articule ao desenvolvimento sustentável” (CONAE 2010, p. 37). Propõe-se, nesse mesmo sentido de resgate histórico: Criar e manter as escolas do campo de acordo com os padrões básicos de infraestrutura que contemplem: transporte escolar intracampo, equipamentos tecnológicos de informação e comunicação agrícolas, material didático, acervo bibliográfico, quadra esportiva, laboratórios científicos e de informática com acesso à internet com qualidade, a qualificação e formação continuada para o uso das tecnologias pelos/as educadores/as, custeadas pelo poder público, salas de aula adequadas e equipadas. (CONAE 2010, p. 136). Chega-se, portanto, ao ano 2011, com reivindicações expressivas de atenção política à educação Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo do campo, incluindo a de que as previsões que constam do documento final da Conferência Nacional de Educação (CONAE 2010), assim como as perspectivas do Plano Nacional de Educação (PNE), em discussão para a década 2011-2020, traduzam-se em ações efetivas para consolidar avanços de princípios, concepções e propostas, e de exercício de direitos de homens e mulheres do campo, com real inclusão dos indígenas e dos remanescentes dos quilombos. Reivindica-se, sobretudo, que sejam asseguradas condições de qualidade social, política e pedagógica da educação, da escola, do ensino básico – fundamental e médio – no interesse e dever de resgatar os valores e direitos do campo, reconstruindo e superando uma história marcada por descasos, desconsideração e subalternidade. Referências ARAUJO, S. R. M. de. Educadores do campo: descobrindo os caminhos da formação inicial para os monitores das Escolas Famílias Agrícolas do Estado da Bahia. Revista da Faeeba. Educação e Contemporaneidade. Salvador, v. 19, n. 34, p. 131-144, 2010. ARROYO, M. A educação básica e o movimento social do campo. In: ______; CALDART, R. S.; MOLINA, M. C. (Orgs.). Por uma educação do campo. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 147-158. BURKE, P. The historical anthropology of early modern Italy: essays on perception and communication. Cambridge [Cambridgeshire]; New York: Cambridge University Press, 1987. CALAZANS, M. J. 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Para tanto, examinou-se os significados atribuídos à modernidade e, por extensão, à modernidade pedagógica, pela via de uma sociologia da modernidade e dos discursos produzidos no campo do Direito em fontes documentais, tais como livros, teses, códigos, compêndios, periódicos etc. No contato com essas fontes do campo jurídico, buscaram-se temas constitutivos da problemática educacional da modernidade, ou seja, aqueles ligados à moralidade, à subjetividade e ao seu controle, à observação e aos cuidados dispensados ao corpo e à alma infantis. Em suma, aqueles aspectos que se ligam à estruturação de um novo modo de governo da sociedade e das populações infantis. Palavras-chave: Modernidade pedagógica. Discurso jurídico. Tecnologias de governo das populações infantis. ABSTRACT PEDAGOGICAL MODERNITY AND THE LAW DISCOURSE; THE NORMALISATION OF CHILDREN’S POPULATIONS This text has as its main objective the systematization and analysis of discursive formations on the educational reform, which circulated in Brazil and in Portugal, from a historical and comparative perspective. For this purpose, we examine the meanings assigned to modernity and, by extension, to pedagogical modernity, by means of a sociology of modernity and the speeches made in the field of Law, in documentary sources such as books, thesis, codes, manuals, journals, etc. In contact with these field sources, we have sought legal topics constituting the educational problem of modernity, such as, those related to morality, subjectivity and its control, observation and care given to children’s body and soul, in short, to those aspects linked to the structuring of a new kind of government for the children and the whole society. Keywords: Pedagogical modernity. Legal discourse. Technologies of government of children’s populations. Este texto é parte integrante do Relatório Final de pesquisa encaminhado ao CNPq, em 2009. Para os efeitos desta publicação, 1 foram feitas algumas alterações. Professora Livre-Docente aposentada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação (USP). Endereço para contato: Av. Nove de Julho, 5185 - ap. 111, São Paulo, SP. CEP 01407-200. [email protected] * Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 217 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis Nesta investigação sobre a modernidade pedagógica no discurso jurídico, consideramos Portugal e Brasil como uma “comunidade imaginada” (ANDERSON, 1983)2, a comunidade imaginada lusófona por pertencerem à mesma comunidade linguística, por possuírem relações históricas e culturais de longa duração, por partilharem identidades culturais, seja “por adesão, seja por rejeição”. A perspectiva que aqui se coloca não é a de uma comparação que obedeça a fronteiras nacionais, geográficas, mas, ao contrário, avança e ultrapassa tais limites para pensar em um espaço de relação entre esses dois países pertencentes a dois diferentes continentes. Como assinala António Nóvoa “[...] todas as comunidades são imaginadas e distinguem-se, não por uma eventual falsidade/ autenticidade, mas justamente pelos modos como se imaginam. Eis o que conduz o comparatismo a virar-se para novas realidades, que não cabem nas geografias nacionais” (2000, p. 127). Ao nos dedicarmos ao exame de práticas discursivas provenientes da área do Direito e o seu cruzamento com as proposições em torno da constituição de uma escola e de uma educação modernas, pensamos ser possível elaborar e constituir como resultado da pesquisa os “objetos de investigação de maior complexidade”, apontados por Jürgen Schriewer (2001, p. 26) e que, em nosso corpus documental, são as matérias produzidas no campo jurídico que podem oferecer olhares alternativos sobre a modernidade pedagógica nos dois países. Fomos buscar em um tempo histórico mais recuado (1820-1920) a proveniência3 da escola moderna, desse modelo escolar ao qual estamos tão acostumados. Isso significa, na verdade, uma tentativa de redescobrir a história da escola, nos Para Benedict Anderson, uma “comunidade imaginada” é bem diferente de uma comunidade real, porque na “comunidade imaginada” não há interações cotidianas entre os indivíduos, que não conhecem todos os membros do grupo maior, seja da cidade, do estado, da nação. Entretanto, os membros de qualquer sociedade sentem-se unidos por uma série de referências comuns (valores, experiências, símbolos etc.), mesmo que não tenham contato uns com os outros. É o que acontece, por exemplo, em eventos de grande porte, quando sentimentos de afinidade, de nacionalismo, de comunhão de interesses são despertados nos indivíduos de toda uma nação. 3 Proveniência é o termo empregado por Foucault, quando explica o método genealógico criado por Nietzsche. É a tentativa de “descrever uma gênese no tempo”, mas não sua “origem”, “porque a história ensina a rir das solenidades de origem”, mas restituindo os acontecimentos na sua singularidade (Foucault, 1992, p. 18 e 20-21). 2 218 dois espaços em que se fala a língua portuguesa, e no espaço de tempo chamado de modernidade. Nessa redescoberta é preciso assinalar que, não obstante muitos ainda pensarem o contrário, a escola não é universal e nem eterna, não existiu sempre e em todo lugar e, portanto, não pode ser naturalizada. A instituição escolar mudou bastante, desde os tempos greco-romanos, passando a cumprir funções muito diferentes nessa nova configuração social em que veio a emergir. Como espaço de passagem obrigatória para crianças e adolescentes, “a escola primária é uma instituição recente”. Todavia, como instituição escolar, toda a maquinaria do governo da infância começou a entrar em atividade desde o século XVI (VARELA; ALVAREZ-URIA, 1992, p. 68). Tais mudanças caracterizam bem os diferentes cenários do advento e consolidação da escola moderna, em clara oposição à chamada escola tradicional: o período de tempo chamado de modernidade e a emergência do Estado-nação. Palavra ambígua, conceito “escorregadio”, o que é que entendemos por modernidade? Para Anthony Giddens, “modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que, ulteriormente, se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência”4, cobrindo, portanto, os últimos quatro séculos de história (1991, p. 11). Tanto quanto a história do ser humano é marcada por descontinuidades, assim também a modernidade, para a qual ele atribui descontinuidades específicas, que são mudanças em ritmo acelerado, amplitude do espaço geográfico apanhado pelas mudanças, peculiaridade das instituições modernas, tais como a ideia de Estado-nação (Idem, p. 15-16). Apoiado em Giddens, o sociólogo alemão Peter Wagner5 assinala que, a despeito de haver quase uma unanimidade acerca das grandes transformações sociais que caracterizam o período, as análises dos estudiosos apontam para “direções diversas e, Para Giddens, que não aceita denominar nossa época atual de “pósmodernidade”, o mais correto seria pensar que vivemos um período “em que as consequências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas e universalizadas do que antes” (1991, p. 13). 5 “[...] el presente libro se entiende a sí mismo como una amplia reflexión sobre los conceptos giddeanos de posibilidad y limitación, e intenta definir de la mejor manera posible qué tipo de acciones y bajo qué circunstancias están posibilitadas o recortadas por las instituciones modernas.” (Wagner, 1997, p. 18, grifos nossos). 4 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 Cynthia Pereira de Sousa às vezes, divergentes”, em razão da sua incapacidade de perceber o caráter ambíguo da modernidade (1997, p. 12). Assinala que, quando se pretende fazer uma análise histórica da modernidade, é preciso estabelecer uma distinção entre os discursos sobre a modernidade e as práticas, entre o projeto da modernidade (como aspecto normativo) e as práticas das instituições das chamadas sociedades modernas. “Entre las ideas y las instituciones de la modernidad existe afinidad, pero no identidad” (p. 29-30). Para Wagner, as duas ideias que presidem o discurso da modernidade são a liberdade e a autonomia. Contudo, outra interpretação “alternativa e crítica” veio opor ao quadro das liberdades por meio das instituições modernas a condição de submissão dos sujeitos por meio dessas mesmas instituições. Essa interpretação constitui os “dois retratos, universalmente conhecidos e inconciliáveis entre si” – o discurso da liberação e o discurso da submissão (p. 30). Relativos ao primeiro são os movimentos de libertação e independência: revolução científica, revoluções políticas – a Americana e a Francesa –, até a independência econômica dos Estados absolutistas. Sobre o segundo, constatou-se que o modo de viver as liberdades era muito diferente da maneira como as ideias liberais foram pensadas pelos grupos que as produziram. Da segunda metade do século XVIII até 1850, mais ou menos, o continuísmo foi uma das características de sociedades europeias saídas de movimentos revolucionários. Ao Estado moderno, encarnação social da Razão, atribuía-se o poder de manter a ordem em toda a sociedade e de concretizar “os hábitos e as práticas sociais ilustradas”. Todavia, essa forma de Estado também funcionou como “freio”, como limitação das vontades, das liberdades e das práticas sociais de autonomia dos indivíduos (p. 30-34). Ao longo do século XIX, essa forma de Estado é o Estado-nação, em cujo quadro de afirmação desenvolveram-se e consolidaram-se os sistemas nacionais de ensino iniciados pela base, ou seja, pela organização da escola elementar. Essa é a escola primária de configuração recente, segundo Varela e Alvarez-Uria (1992). Estudos que utilizam a teoria da difusão mundial da educação de massas (mass schooling ou mass education) demonstram que esse modelo escolar desenvolveu-se com relativa homogeneidade, em todo o mundo, desde finais do século XIX, quando o modelo de naçãoEstado apareceu, a despeito das variações internas, das especificidades socioeconômicas, do aparato político, das diferenças étnicas e mesmo das religiões. No bojo desse modelo de Estado-nação, a educação de massas tornou-se um componente central e, depois da Segunda Grande Guerra, a escola elementar avançou de forma significativa, intensiva e extensivamente (BOLI; RAMIREZ; MEYER, 1985, p. 145). Ao longo do século XIX ficaram evidenciadas as intenções modeladoras e disciplinadoras do Estado, que procurou normalizar a infância e a juventude e, com isso, formar o cidadão responsável, o trabalhador produtivo, o pai virtuoso, o marido fiel, o soldado patriota, o eleitor honesto ou submisso. Assiste-se à transferência do poder (simbólico) da Igreja para o Estado, doravante Estado educador, rompendo-se o monopólio eclesiástico sobre o campo educacional: By the nineteenth century sovereignty was fully transferred from God to humanity, the individual and the State had become the central elements of society, and the pursuit of rational progress as the primary purpose of autonomous human society was winning the institutional high ground. These developments made schooling seem imperative, the best way to transform children into the new type of enhanced and capable citizen who could create this new progress-oriented society (BOLI & RAMIREZ, 1992, p.29). É necessário enfatizar que a escola moderna ou, como escreve Nóvoa, o modelo escolar moderno teve como seu prolongamento, sua extensão, a escola de massas, cuja origem é europeia, daí se difundindo para outras partes do mundo. Não causa surpresa, portanto, que “o discurso filosófico da modernidade [e, acrescentaríamos, o discurso pedagógico] seja, por definição, eurocêntrico” (NÓVOA, 1998, p. 92). E a modernidade foi construída com base na ideia de progresso em todas as instâncias e de reforma da escola tradicional, fazendo da escola de massas o espaço de desenvolvimento de um meticuloso trabalho de construção e consolidação de uma cultura nacional. Nesse cenário da criação dos sistemas nacionais de ensino e o desenvolvimento da escola de massas, outra questão fundamental foi a emergência de um novo modelo disciplinar, da maquinaria de admi- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 219 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis nistração social das populações e de governo das almas infantis6. Ao lado da sobrevivência de certas práticas repressivas, a escola moderna pretendeu formar o aluno enquanto corpo, alma e mente, desenvolvendo processos de auto-observação, autorregulação, de controle introspectivo, de fortalecimento da vontade sobre os maus hábitos. Em outras palavras, a escola moderna treinou os educandos para que cada um fosse capaz de submeter o mal, o anormal, o vício, para que o bem, o normal e a virtude saíssem vencedores. Um primoroso trabalho de subjetivação, expressão foucaultiana, foi iniciado por escolas, igrejas e autoridades e, depois, continuado pela instituição escolar. Ao tomar o campo do Direito7, no século XIX e início do século XX, e tentar enveredar pela análise de conceitos caros ao discurso da modernidade, tais como liberdade, autonomia e suas implicações sobre a construção da nacionalidade, da soberania e da cidadania, teríamos que considerar, inescapavelmente, a escola de massas, pública e obrigatória, pois foi ela o locus privilegiado para forjar novos cidadãos e dar seguimento ao processo de modernização do Estado. Analisar a modernidade pedagógica no discurso jurídico, nos dois países da comunidade lusófona, possibilita articular uma série de questões que evidenciam os embates, os interesses em jogo, as teses em disputa, as teses vencedoras, mais que tudo os sinais da anterioridade de certas ideias modernas aí presentes, antes mesmo de se ter historicamente constituído o campo das ciências da Educação como um domínio autônomo no âmbito das Ciências Sociais. Literatura jurídica no século XIX Em Portugal, e para mencionar apenas dois ramos do Direito, a produção em Direito Civil foi Embora esse modelo também seja aplicável à escola secundária ou aos liceus, nós nos ativemos à escola primária. 7 Cf. Biblioteca Digital Ardies. Essa biblioteca disponibiliza a edição eletrônica dos principais títulos da literatura jurídica portuguesa do século XIX até a primeira metade do sáculo XX. As obras selecionadas teivera como critério o local de sua produção – o meio acadêmico. Todavia, foram integrados à coleção “outros materiais jurídicos, de natureza diferente, complementares das anteriores (códigos, repertórios, coleções de legislação ou legislação ‘avulsa’, coleções de decisões dos tribunais, debates parlamentares de matérias jurídicas, algumas obras de divulgação jurídica)”. 6 220 maior, numericamente falando, que a de Direito Penal, e, em ambos os casos, o maior volume de obras foi publicado a partir de 18508. Boa parte dessa produção, ao longo de todo o século XIX e, às vezes, com vários títulos de um mesmo autor, consiste de comentários, apreciações, elementos, subsídios, aspectos, observações, estudos, lições, tratados, teorias, manuais, história, bibliografia etc., relativos aos dois Códigos. Um número menor de textos trata de assuntos mais pontuais: classificação dos crimes e penas correspondentes (1803); sobre delitos e penas (1816); sobre a necessidade e meios de melhorar as prisões em Portugal (1834); se é justo adotar a deportação para pena (1859); a reforma das cadeias em Portugal (1860); os encarcerados (1889); discurso sobre a pena de morte e reflexões sobre alguns crimes (s/d). Em Direito Civil: testamentos e sucessões (1844); a sucessão dos filhos ilegítimos (1861); sucessão dos filhos naturais (1871); ignorância ou erro de direito (1871); legitimação de filhos espúrios (1860); casamento civil (1881); capacidade civil (1905); a responsabilidade civil baseada no conceito de culpa (1906). Nessa listagem não aparecem temas específicos sobre outras situações da infância – a desvalida, a órfã, a abandonada, a “perigosa”. O exame da literatura jurídica produzida no Império brasileiro, segundo levantamento e notas críticas feitos por Pedro Dutra (2004, p. 141-170), pode nos dar uma ideia do que se publicava. Civil, Penal e Processual são os ramos do Direito em que esses temas aparecem, sob a forma de compêndios, manuais, livros, teses: guias dos juízes de órfãos, tutores e curadores e de todos os escrivães (1833); primeiras linhas sobre processo orfanológico (1851 e 1865); sucessão dos filhos naturais e sua filiação (1857); processo orfanológico (1863-1868); direitos de família (1869); instituições orfanológicas (1874); testamentos e sucessões (1881); filhos naturais reconhecidos e direitos hereditários (1884); menores e loucos em direito criminal (1886). Dutra não fez observações sobre nenhum desses textos, nem mesmo sobre o famoso livro de Tobias 6“El Derecho es la institución par excellence creadora de individuos autónomos que son – y a quienes se puede hacer – a los ojos de todos los Otros relevantes, responsables de sus actos” (Wagner, op. cit., p. 41). 8 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 Cynthia Pereira de Sousa Barreto intitulado Menores e Loucos, publicado em 1886, pois concentrou-se em obras consideradas clássicas pelos agentes do campo no período pesquisado. Seu levantamento também se apoiou em catálogos de livrarias, como a famosa Garnier que, em 1862, trazia uma relação de “123 rubricas” relacionadas com assuntos jurídicos. Uma infinidade de gêneros é oferecida: assessor forense, a arte de requerer, o advogado comercial, análise, apontamentos, anuário, apêndice, classificação, coleção, códigos, compêndios, considerações, curso, dicionários, dissertações, elementos, ensaios, exemplários, esboço, formulários, guias, história, índices, lições, manuais, métodos, noções, observações, praxe, preleções, princípios, prática, regimentos, regulamentos, regras, roteiros e tratados (idem, p. 104). Nos finais do século XIX e inícios do século XX, os temas da infância, criança, menor, educação passarão a ser mais frequentes em alguns periódicos jurídicos, dissertações e teses defendidas em faculdades de Direito e, ainda, sob a forma de livros publicados. Há, todavia, outro aspecto a ser considerado na literatura jurídica: temos que nos defrontar com textos cuja linguagem9 é cheia de alusões e referências a outros autores e escolas, no meio dos quais às vezes se dilui a opinião do próprio autor. Além disso, a leitura é muito técnica para aqueles que não pertencem ao campo. Interessante estudo sobre a família no discurso jurídico do século XIX revela alguns problemas dessa natureza. Não obstante ser um pouco longo, vale a pena transcrever os comentários em sua íntegra: A análise das teses e dos textos jurídicos enfrentou alguns obstáculos. O primeiro é a relativa impermeabilidade da teoria jurídica aos outros ramos do saber social. As teses de medicina e de higiene têm o tom de um discurso moralista e a forma de um arrazoado de definições, mescladas de argumentos científicos, cujo caráter ideológico é transparente. Nesse sentido elas podem ser lidas por qualquer leigo. Já as teses e dissertações de direito [e os textos jurídicos] são de Pierre Bourdieu assinalou que “como toda a linguagem douta, a linguagem jurídica consiste num uso particular da linguagem vulgar [...]”. Em uma nota afirma: “Deste conjunto de exigências constitutivas da visão do mundo jurídico deriva, segundo J.-L. Austin, o fato de os juristas não darem às expressões correntes o seu sentido corrente e de, além de inventarem termos técnicos ou sentidos técnicos para termos correntes, manterem uma relação especial com a linguagem que os leva a procederem a extensões e restrições de sentido insólitas” (1989, p. 226 e 230). 9 outra natureza. Embora a ciência jurídica faça parte das chamadas ciências sociais, ela constitui um universo teórico bastante impermeável aos outros ramos do saber social e, até certo ponto, inacessível aos não iniciados. Nesses trabalhos há sempre uma mescla de termos de linguagem técnica, com afirmações de princípio em frases lapidares e alusões abruptas a autores ou correntes filosóficas, aparentemente deslocadas, em uma retórica codificada internamente à ciência jurídica. Vale dizer que os textos não são inteligíveis em si, a não ser reinseridos no quadro do debate político e filosófico das correntes jurídicas da época. Por tudo isso, escasseiam no Brasil e em geral, os trabalhos que ultrapassem essa retórica e ponham a evolução do saber jurídico em contato com os outros elementos da vida social (ALMEIDA, 1999, p. 19-20). Os menores na legislação Como é que os profissionais do direito e as autoridades constituídas perceberam, por meio dos seus discursos, propostas e ações, as infâncias, ou seja, as diferentes condições infantis em uma sociedade dita moderna e em transformação urbano-industrial? Em duas das especialidades do Direito, o Civil e o Criminal, é possível encontrar algumas referências acerca da condição da criança: como filha de família e, nesse caso, com direito a partilha de bens, ou, no polo oposto, em situação de abandono e marginalidade. Como um primeiro exemplo, mas nos inícios do século XX, a consulta a um dos volumes de índices da Revista dos Tribunais, publicada em São Paulo e relativo aos números 1 a 87 (1912-1998), apresenta quatro páginas de referências ao assunto menor. Entre 1912 e 1920 foi possível verificar os desdobramentos: bens de menor; emancipação; filiação legítima e ilegítima; filiação natural; abertura de negócio em seu benefício; adoção; responsabilidade civil dos pais; benefício da restituição; castigo; castigos imoderados; corrupção de menores; moralmente abandonado; idade de discernimento, menoridade, etc. Há várias referências, também, à legislação de proteção ao menor, mas que só seria decretada na década de 1920 e, portanto, para além de nossa periodização. Todas as referências ao menor são adjetivadas: abandonado, pervertido, ausente, delinquente, emancipado, impúbere, púbere. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 221 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis Tanto em Portugal quanto no Brasil, menor é um conceito que passou a ser usado no campo jurídico mais amplamente nos inícios do século XX, muito embora suas origens estejam fincadas no XIX, como bem o demonstram os textos das codificações que consideram tanto as crianças “herdeiras” e “legítimas”, quanto órfãs, desvalidas, delinquentes, marginalizadas10. Do período colonial aos tempos pós-Independência, o termo era relacionado com a palavra idade. Para os juristas dos meados do século XIX, os termos menor e menoridade referiam-se também à idade, mas passaram a constituir-se como “um dos critérios que definiam a responsabilidade penal do indivíduo pelos seus atos” (LONDOÑO, 1991, p. 130). No Código Criminal do Império, de 1830, foram estabelecidas três faixas etárias, até os 21 anos (quando se atingia a maioridade), traduzindo a condição legal dos indivíduos por conta de atos considerados criminosos e suas respectivas penalidades. Assim, os menores de 14 anos não poderiam ser responsabilizados criminalmente11, a menos que tivessem “obrado com discernimento”, e aí seriam “recolhidos a casas de correção” (art. 10º). A decisão sobre se o menor tinha ou não discernimento na hora do delito ficava a critério do juiz, que podia condenar crianças, por exemplo, com 7, 8 ou 9 anos. Pouco mais de 20 anos depois, o Código Penal Português (1852) repetia as mesmas determinações, no seu artigo 23º, quanto à imputabilidade penal: Não podem ser criminosos: 1º Os loucos de qualquer espécie, exceto nos intervalos lúcidos; 2º Os menores de sete anos; No caso brasileiro, houve discordância quanto a esse ponto entre a antropóloga Mariza Correa e o historiador Boris Fausto. Para ela, a passagem do conceito de “criança” para “menor” teria ocorrido nos anos 20 do século XX. Para Boris Fausto, o conceito já tinha sido formado anteriormente e, nos anos 1920, ele se consolidou na forma de dispositivos legais para a infância. Cf., Londoño, op. cit., p. 145, nota 37. Concordamos com Fausto e Londoño, pois, em todas as revistas e jornais jurídicos examinados, desde os inícios do século XIX, o termo utilizado para se referir às crianças, de qualquer condição, é menor. 11 “Art. 10.º Também não julgarão criminosos: 1.º Os menores de 14 anos; 2.º Os loucos de todo gênero, salvo se tiverem lúcidos intervalos, e neles cometerem o crime. (...) Art. 13.º Se se provarem que os menores de 14 anos, que tiverem cometido crimes, obraram com discernimento, deverão ser recolhidos a casas de correção, pelo tempo que ao Juiz parecer, com tanto que o recolhimento não exceda a de dezessete anos”. 10 222 3º Os maiores de sete e menores de quatorze, quando praticam o ato sem o necessário discernimento; 4º Os ébrios, se a embriaguez é completa, casual, e não posterior ao projeto de cometer o crime; 5º Os que praticam o ato em virtude de obediência devida, nos termos em que a lei determinar. Entretanto, é preciso que assinalemos outra perspectiva para os tipos de penalização destinada aos menores. As preocupações com a situação da população infantil e jovem ainda eram pouco significativas, após a entrada do Brasil na fase pós-Independência e até, pelo menos, a metade do século XIX. Nesse período, o que mais se evidenciava em relação aos menores, na perspectiva da legislação, eram questões acerca dos órfãos e enjeitados e do seu recolhimento pela roda de expostos, instituição em pleno funcionamento desde o século XVIII. Entretanto, quando se lança um olhar para sua situação antes e depois do Código Criminal de 1830, percebe-se que, em um sentido pelo menos, as crianças e os jovens escaparam da morte e das galés graças à nova legislação, que determinou a prisão com trabalho (RIZZINI, 2000, p. 9). O ponto que chama também nossa atenção é o fato desse Código ter mencionado “casas de correção” nas quais os menores deveriam ser recolhidos. Em que pese a necessidade de sua criação e organização (o que foi ocorrendo a longo do século XIX, mas com mais vigor na sua segunda metade, e, ao menos, nos centros urbanos mais populosos do Império), trata-se de um claro exemplo de instituição para a gestão física e moral dos indivíduos, compondo o tripé – vigilância, controle e correção – que, na perspectiva de Foucault, deve ser entendido como “aparelho de normalização dos indivíduos”12. É uma evidência da anterioridade da modernidade pedagógica no campo jurídico, ou seja, a indicação, na letra da lei, de estabelecimentos especiais para “corrigir” os menores, considerados fora da norma. Essa indicação do Código “chega a ser “Pode-se, portanto, opor a reclusão do século XVIII, que exclui os indivíduos do círculo social, à reclusão que aparece no século XIX, que tem por função ligar os indivíduos aos aparelhos de produção, formação, reformação ou correção de produtores. Trata-se, portanto, de uma inclusão por exclusão. Eis porque oporei a reclusão ao sequestro; a reclusão do século XVIII, que tem por função essencial a exclusão dos marginais ou o reforço da marginalidade, e o sequestro do século XIX, que tem por finalidade a inclusão e a normalização” (FOUCAULT, 2003, p. 114). 12 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 Cynthia Pereira de Sousa surpreendente porque ainda não estava em voga a discussão sobre a importância de a educação estar em prevalência sobre a punição, o que só viria a ocorrer no final do século XIX” (RIZZINI, op. cit., p. 10, grifos nossos). Para Tobias Barreto, no entanto, esse código de 1830, artigo 10º, mereceu severas críticas em sua obra Menores e Loucos, publicada décadas depois, em 1886. De acordo com o jurista, não haviam sido feitas as devidas distinções em relação aos sujeitos considerados irresponsáveis do ponto de vista penal. Especial atenção deveria ser dada aos loucos, às mulheres e aos menores. Com relação a esses últimos, Barreto fixou as idades de responsabilidade criminal em função do nível de instrução da criança, o que, para ele, seria o elemento capaz de desenvolver a consciência do dever, a responsabilidade diante dos atos praticados. Dada a má situação da educação e das escolas no país, ampliou a menoridade até os 18 anos para, talvez, garantir um tempo maior de aprendizagens. Toda a questão poderia ser resumida no complexo e vago critério do discernimento, também presente no Código Penal Português (1852)13. Em seu artigo 73º assinalava que: O menor de quatorze anos, que cometer algum crime, praticando o fato sem discernimento, será entregue, segundo as circunstâncias, ou a seus pais, parentes, e tutores, ou será recluso em uma casa de educação pelo tempo que for determinado na sentença (grifos nossos). Comparadas as determinações dos dois códigos brasileiros, o de 1830 com as do novo Código Penal, que veio a lume em 1890, a relação entre punição/disciplina/educação fica claramente estabelecida. Em outras palavras, como medida punitiva determinou-se o recolhimento em instituições disciplinares “industriais”, mantendo-se a questão do discernimento como peça importante e conclusiva no julgamento do menor. Art. 30. Os maiores de 9 anos e menores de 14, que “Artigo 73º. ¶ 1º - O menor de quatorze anos, que cometer algum crime a que corresponda alguma das penas maiores, praticando o fato com discernimento, será condenado a prisão com trabalho ou sem ele, por tempo que não exceda a dez anos. Se a pena do crime for correcional, a pena que lhe for imposta não será maior do que a metade do que deveria impor-se no caso em que o criminoso excedesse a idade dos quatorze anos” (grifos nossos). 13 tiverem obrado com discernimento, serão recolhidos a estabelecimentos disciplinares industriais, pelo tempo que ao juiz parecer, contanto que o recolhimento não exceda á idade de 17 anos (Código Penal, 1890). Talvez outro estudo, que investigue os percursos de formação de membros que integraram comissões de elaboração de projetos de lei sobre proteção e educação da infância e os parlamentares que votaram pela sua aprovação, entre finais do século XIX e inícios do século XX, possa nos dar uma medida mais exata dos esforços e da participação de juristas, médicos, políticos, pedagogos, filantropos em propor medidas e denunciar o descaso às populações infantis em situação de vulnerabilidade social. “Eram vozes que apontavam a necessidade de atingir, sobretudo, a infância que se encontrava moralmente abandonada, até então sujeita à má influência de famílias viciosas ou entregue a instituições de caridade” (RIZZINI, 2008, p. 27). As populações infantis e os discursos normalizadores: “futuro da Nação” ou “ameaça à sociedade”? O sentido do termo população, segundo Foucault, deve ser tomado como mais uma das táticas e técnicas da governamentalidade. O sentido explicita-se ao constatar-se o que o Estado passa a considerar como alvo principal de seu governo. Em lugar do modelo da família emerge o problema da população, e a família transforma-se no seu segmento e adquire uma “dimensão instrumental” (FOUCAULT, 1992, p. 289). As crianças de diferentes condições passam a compor as populações infantis e, como observa Popkewitz, a noção de ‘populações’ opera em geral e especificamente na construção da individualidade. A norma da população substitui a noção de indivíduos, que têm características pessoais, por aquela de grupos, que têm traços genéricos baseados em agregados e médias estatísticas. Contudo, esses retratos estatísticos transformam-se em interações sociais quando são reexaminadas como traços individuais de crianças que estão inerentemente ‘em risco’, ou são perigosas para a estabilidade da escola ou da sociedade [...]. (2001, p. 137). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 223 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis Como futuro da nação, elas precisavam ser salvas. Como ameaça e perigo, elas deviam ser isoladas, educadas moralmente, conformadas, modeladas, por meio de tecnologias de controle das subjetividades infantis. No cruzamento dessas diversas instâncias, surgiram propostas de intervenção nos processos educativos, diretamente nas escolas primárias e secundárias, ou em outras instituições que, embora não propriamente escolares, tinham algum alcance pedagógico: os diversos tipos de instituições de assistência às crianças desamparadas, anormais, criminosas, infratoras ou com dificuldades de enquadramento social. Em outras palavras, tratava-se de um treino moral, elaborado, defendido e proposto em diversos campos da produção intelectual, ainda antes da constituição de um campo pedagógico autônomo. Em Portugal, como no Brasil, assistiu-se a transição da assistência caritativa, mantida pela iniciativa privada e de cunho religioso (os recolhimentos ou asilos, de forte presença até a primeira metade do século XIX), para a emergência de instituições que, em parceria com o Estado ou sob sua tutela, e embasadas em determinados dispositivos legais, vão recolher as crianças e também educá-las moralmente. A caridade cede lugar à filantropia, que se desenvolve em associação com órgãos públicos. A fundação da Sociedade de Beneficência para Asilos da Infância Desvalida de Coimbra, em 1850, é paradigmática da parceria entre a organização política do Estado moderno e os interesses morais expressos pela organização eclesiástica. Aquele patrocinando e regulando, essa detendo as competências práticas do exercício do auxílio (RUFINO et al, 2003, p. 30). Futuro da Nação ou ameaça à sociedade? Criança em perigo ou perigosa? Essa visão ambivalente, esses pares opostos permearam as sociedades modernas, em processo de urbanização e industrialização. No final do século XIX, no Brasil, a infância pobre foi identificada como um grave problema social a ser enfrentado e solucionado, por meio de instituições formadoras e transformadoras das condutas infantis. Esses modos de representação das crianças pelo discurso jurídico, como também pelo discurso médico, eram concepções correntes em outras instâncias sociais. 224 Em seu nome justificar-se-á a criação de um complexo aparato médico-jurídico-assistencial, cujas metas eram definidas pelas funções de prevenção, educação, recuperação e repressão. Em discurso caracterizado pela dualidade – ora em defesa da criança, ora em defesa da sociedade – estabelecemse os objetivos para as funções acima: de prevenção (vigiar a criança, evitando a sua degradação, que contribuiria para a degeneração da sociedade); de educação (educar o pobre, moldando-o ao hábito do trabalho e treinando-o para que observe as regras do ‘bem viver’); de recuperação (reeducar ou reabilitar o menor, percebido como vicioso, por meio do trabalho e da instrução, retirando-o das garras da criminalidade e tornando-o útil à sociedade); de repressão (conter o menor delinquente, impedindo que cause outros danos e visando a sua reabilitação pelo trabalho) (RIZZINI, 2008, p. 26, grifos da autora). Nessa conjunção de instâncias disciplinares – o aparato médico-jurídico-assistencial –, a medicina pública faria os diagnósticos e indicaria os tratamentos de recuperação, mas era aos agentes do campo jurídico que cabia elaborar as leis para regular tanto a proteção da infância quanto da própria sociedade, consagrando a educação, ao invés da punição, como medida de formação e transformação, de reconversão social das crianças e dos jovens. Comentários finais Este estudo sócio-histórico-comparado procurou compreender quais foram as transformações operadas no campo do Direito e de que modo elas projetaram a mudança educacional, em um período anterior ao advento e vulgarização das Ciências da Educação. Buscamos desvendar quais as razões dessa anterioridade da modernidade educativa e quais os fatos que poderiam explicar essa antecipação. As respostas apontaram, em primeiro lugar, para as próprias demandas do Estado-nação, do Estado-educador, em torno do projeto da chamada Educação Nova, de matriz iluminista-liberal; tais demandas foram seguidas pelos escritos de intelectuais, cientistas e homens de saber dos mais variados campos do conhecimento e, em nossa investigação, do campo jurídico. Aqui concebida como uma expressão prática das tecnologias do governo da alma infantil, a Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 Cynthia Pereira de Sousa moderna escola de massas iniciou seu processo de organização durante a segunda metade do século XIX. Tendo-se em conta as especificidades do Brasil e de Portugal, pode-se afirmar que tais tecnologias — como exercício de subjetivação, como treino moral — foram elaboradas, defendidas e propostas em diversos campos da produção intelectual, ainda antes da constituição de um campo pedagógico autônomo. Os conhecimentos produzidos na área do Direito, ao longo do período investigado, resultaram em um conjunto de estudos para a classificação e o controle das subjetividades infantis, expressos na legislação, em alguns peri- ódicos jurídicos e acadêmicos, em livros, teses e dissertações. Tais estudos, portanto, configuraram propostas de intervenção nos processos educativos, desenvolvidos tanto em escolas de educação primária quanto em instituições de atendimento às populações infantis “em risco”, distribuídas em várias categorias classificatórias: crianças desamparadas, anormais, criminosas, infratoras ou com dificuldades de ajuste social – a criança perigosa. Foi sobre essa criança que os hermeneutas da infância14 – pedagogos, psicólogos, médicos, juristas, – voltaram suas atenções. Referências ALMEIDA, Angela Mendes de. Família e modernidade: o pensamento jurídico brasileiro no século XIX. São Paulo, Porto Calendário, 1999. ANDERSON, Benedict. Imagined Communities. 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SOUSA, 2004. 14 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 217-226, jul./dez. 2011 225 A modernidade pedagógica no discurso jurídico: a normalização das populações infantis NÓVOA, António. Modèles d’analyse em Education Comparée: le champ et la carte. In: NÓVOA, António. Histoire & Comparaison: essais sur l’éducation. Lisbonne, Educa, 1998, p. 51-84. NÓVOA, Antonio. Tempos de escola no espaço Portugal-Brasil-Moçambique: dez digressões sobre um programa de investigação. In: NÓVOA, António; SCHRIEWER, Jürgen. A difusão mundial da escola. Lisboa, Educa, 2000, p. 121-142. POPKEWITZ, Thomas. Lutando em defesa da alma. A política do ensino e a construção do professor. Trad. de Magda França Lopes. Porto Alegre, Artmed, 2001. PORTUGAL. Código Penal Português, 1852. PORTUGAL. Código Civil Português, 1867 PRADO, L. G. Gyges. Revista dos Tribunais. Índice Geral Alfabético e Remissivo. Volumes I a LXXX. São Paulo, 1935. RIZZINI, Irene. 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Encontramos ética e política confiada aos técnicos, democracia na mão de experts, contextos perpassados pelo fantasma da violência (PECORARO, 2005). Enquanto educadores, precisamos repensar a violência como não diálogo, o que significa entender que verdades científicas não são absolutas. A crise das dicotomias alavanca a história e estimula a reconstituição das identidades, processos não exclusivos da contemporaneidade. O pós-moderno é mais um modo de atuar no mundo e menos categorização associada à linearidade temporal. Tal formulação ativa o sujeito, possibilita-o reinterpretar a si e ao entorno, transformá-lo. A reflexão representa nosso esforço para entender os efeitos dessas (trans)formações; contextualizar experiências nas quais se constituem as identidades (JOSSO, 2004) e repensar literatura na inconsistente condição pós-moderna. Palavras-chave: Pós-modernidade. (Trans)formação. Experiência. Literatura. ABSTRACT POSTMMODERNITY AND TEACHER’S EDUCATION: THE HEALTHY INCONSISTENCY OF SAND CASTLES The so-called postmodernity is about the crisis of European thought: hermeneutics, structuralism, critical theory, analytical philosophy, notions of subject, nihilism, types of knowledge and consequences in the educational field. Authors and schools are considered from the point of view of continuity or rupture, the latter identified with the postmodern thought (MARCONDES, 2008). Such dichotomy is shaken when the paradox dissolves the binarism in thought. We refer to the changes in rational thought at the twilight of modernity (VATTIMO, 1998), chiefly after God’s death proclaimed by Nietzsche. Ethics and politics are entrusted to technicians, democracy to experts, O presente trabalho é um desenvolvimento do Projeto para o Prociência intitulado Análise da rede conceitual que envolve o (pós)moderno e (re)leituras de literatura na contemporaneidade e resultado dos estudos desenvolvidos no Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Diversidades Culturais, da Faculdade de Formação de Professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), do qual sou líder 1 * Doutora em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Profa. Adjunta e Chefe do Departamento de Letras da Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Endereço para contato: Rua Dr. Francisco Portela, nº 1479, Patronato, CEP: 24435-005, São Gonçalo - Rio de Janeiro. [email protected]. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 227 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia contexts are haunted by the ghost of violence (PECORARO, 2005). As educators, we need to rethink violence as non-dialogue, which means that scientific truths are not absolute. The crisis of dichotomies pushes history forward and stimulates identity reconstitution, a process not exclusive to the present times. The postmodern is a manner of acting in the world and less a category associated with temporal linearity. Such formulation activates the individual, allowing him to reinterpret himself and the world around him as well as change it. This work aims at understanding the effects of these transformations, contextualizing experiences in which identities are built (JOSSO, 2004) and rethinking literature in the inconsistent postmodern condition. Keywords: Postmodernity. Change. Experience. Literature Não adianta escrever meu nome numa pedra/ Pois esta pedra em pó vai se transformar/ Você não vê que a vida corre contra o tempo/ Sou um castelo de areia na beira do mar. Nuvem passageira, Aquino (1976) Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia... Evangelho Apócrifo, nº 41, Jorge Luis Borges Introdução Entender a contemporaneidade (chamada pósmoderna a partir dos anos 1950) é um gesto que tem provocado espanto, desencanto, amargura aflitiva, perda da inocência, naufrágio do sonho da unidade (SEVCENKO, 1995); ao mesmo tempo traz à tona os catastróficos efeitos da técnica derivada da razão instrumental e mais uma série infindável de ausências ou sintomas da consumação/consumição da modernidade pós-revolução industrial. No período compreendido entre o fim da Segunda Guerra e o começo dos anos 1960 defrontamo-nos com a crise do pensamento europeu – a hermenêutica, o estruturalismo, a teoria crítica, a filosofia analítica –, que torna visível o baque de questões cruciais da tradição filosófica: sujeito, metafísica, niilismo, modos de conhecimento e seus desdobramentos nas práticas educacionais. Uma das decorrências é que autores e escolas passam a ser ingenuamente considerados do ponto de vista da continuidade – os herdeiros da modernidade – ou da ruptura com a tradição moderna e até mesmo clássica – esta identificada ao pensamento pós-moderno (MARCONDES, 2008). O esquema dicotômico do pensamento, no caso, o par continuidade/ruptura, não dá conta dos 228 eventos, da ficção e das modalidades de sujeito contemporâneos; e, cada vez mais, tendemos à valorização do paradoxo que implode o binarismo de pensamento, já sinalizada por Octavio Paz (1984) em A Tradição da Ruptura. Paz (1984) anuncia no Prefácio, do ponto de vista de um poeta hispano-americano, o movimento poético moderno e suas relações contraditórias com a chamada modernidade. A reflexão nos é muito útil por apontar o aspecto não historicista da literatura, sobretudo da poesia. Que dizem os poemas? Como se comunicam os poemas? O poema é uma máquina que produz anti-história, ainda que o poeta não tenha essa intenção. A operação poética consiste em uma inversão ou conversão do fluir temporal: o poema não detém o tempo: o contradiz e o transfigura [...] o tempo passa diferente da história ou do que chamamos vida real. A contradição entre história e poesia pertence a todas as sociedades, porém somente na Idade Moderna manifesta-se de modo explícito (PAZ, 1984, p.11, grifos nossos). Umberto Eco, à semelhança do crítico mexicano, quando se refere à prosa utiliza expressão semelhante: “O romance é uma máquina de gerar interpretações [...] Todo escritor deveria morrer. Para não perturbar o caminho do texto” (ECO, Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas 1985, p. 12). Ambos entendem a condição que o texto literário tem de deslizar dos mecanismos de poder, dos enquadres temporais, do lastro documental e também da declarada intenção do autor. Tal ocorrência, possível pela participação conjunta dos leitores, desconstrói o testemunho autoral como garantia de verdade e desfaz o nexo causal literatura-história. Esse entendimento é vital para o ensino de literatura a partir do momento em que compõe com uma visão não historicista do texto literário, a qual, por sua vez, desconstrói a periodização dos estilos de época em seus suportes mais explícitos: a linearidade temporal, a planificação da história e a submissão ao cânone. Lembramos, ainda, que todo esse conjunto de efeitos parece apontar simplesmente para a ruptura da tradição, para a negação do passado, e isso, então, seria moderno. Voltando a Octavio Paz, constatamos a complexidade da questão. Após afirmar que tradição moderna da poesia implica em dizer que o moderno também é uma tradição, e uma tradição feita de interrupções, ele pergunta: “Se a ruptura é destruição do vínculo que nos une ao passado, negação da continuidade entre uma geração e outra, pode chamar-se de tradição àquilo que rompe o vínculo e interrompe a continuidade?” (PAZ, 1984, p. 17). Se é possível nomeá-la, então, como tradição da ruptura, o dado implicaria não somente negação da tradição, como também negação da própria ruptura, ou seja, de si mesma. Pelo exposto podemos dizer que a contradição estará sempre presente e que modernidade é uma tradição polêmica por desalojar a tradição vigente, a qual, mais uma vez, é substituída por outra. Nessa perspectiva, o moderno não estaria ligado ao novo, mas ao diferente, ao plural, seria autossuficiente, pois a cada vez que aparece, fundaria sua própria tradição. E nessa dinâmica conceitual, o moderno de Paz, conforme entendemos, prepararia, pela paradoxalidade, a condição pós-moderna. É possível, também, referir-se ao hoje como contemporaneidade. Nesse sentido, ou seja, nas referências particulares da atualidade, poderia ser “substituto do termo pós-moderno” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 9). O autor chega à noção via Agamben (2009), “recuperando a leitura que Roland Barthes fez das Considerações intempestivas, de Nietzsche, aproximando o contemporâneo ao intempestivo” (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 9). O contemporâneo é o intempestivo, diz Barthes, [pois] o verdadeiro contemporâneo não é aquele que se identifica com o tempo, ou que com ele sintoniza plenamente. O contemporâneo é aquele que, graças a uma diferença, uma defasagem ou um anacronismo, é capaz de captar seu tempo e enxergá-lo. Por não se identificar, por sentir-se em desconexão com o presente, cria um ângulo do qual é possível expressá-lo. Assim, a literatura contemporânea não será necessariamente aquela que representa a atualidade, a não ser por uma inadequação, uma estranheza histórica, [...] Ser contemporâneo segundo esse raciocínio, é ser capaz de se orientar no escuro e, a partir daí, ter coragem de reconhecer e de se comprometer com um presente com o qual não é possível coincidir (SCHOLLHAMMER, 2009, p. 9-10). A quebra da linearidade temporal opera desconstruções em cadeia: vai implodindo a significação etimológica dos termos, do prefixo pós, dissolvendo a lógica sequencial da narrativa e trabalhando com nova contiguidade. Incide e mostra a insuficiência da visão historicista que institui a periodização dos chamados estilos literários; enfim, uma dinâmica que compõe com a implosão do modelo dicotômico de pensamento, ao mesmo tempo em que o inclui para transformá-lo. Ainda sobre o prefixo pós, Lipovetski também vai rejeitálo, dizendo que “No momento em que triunfam a tecnologia genética, a globalização liberal e os direitos humanos, o rótulo pós-moderno já ganhou rugas, tendo esgotado sua capacidade de exprimir o mundo” (LIPOVETSKI, 2004, p. 52). O filósofo francês decreta o óbito da pós-modernidade e desenvolve seu pensamento afirmando que, embora nem tudo funcione na medida do excesso, de alguma forma sujeitos e eventos não são poupados pelas lógicas do extremo. É quando constata que “Tudo se passa como se tivéssemos ido da era do pós para a era do hiper” (LIPOVETSKI, 2004, p.56, grifos do autor). O presente ensaio – no duplo sentido que o termo permite – é um primeiro resultado do nosso projeto para o Prociência, da UERJ, e trata-se de um estudo teórico, com ênfase em análise de conceitos. Esperamos que a presente reflexão sobre a rede conceitual que envolve as categorias nome- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 229 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia adas como pós-moderno, condição pós-moderna, contemporaneidade, hipermoderno possa contribuir para aulas mais consistentes – mesmo em terrenos que primam pela inconsistência – como é o caso do ‘pós-moderno’, termo que desliza até mesmo do que se propõe nomear. A rede conceitual que envolve o ‘pósmoderno’ O paradoxo inclui a contradição para transformá-la, já que, em termos do pós-moderno, entendê-lo como superação do moderno implicaria manter-se no mesmo ponto – já que superação é uma categoria moderna. Em lugar da superação, portanto, preferimos a dissolução que se aproxima da dinâmica não de destruir, mas transformar (VATTIMO, 1996). Buscaremos, então, baseados na perspectiva interdisciplinar da teoria literária, entender as conceituações de pós-moderno e suas implicações na formação docente, com o objetivo de trabalho com leitura e literatura. A rede conceitual que envolve o pós-moderno acrescenta, ao modelo binário dos pares antitéticos, a dimensão fluida e granulada, não totalizante, enfim, a ambivalência do pensamento (BHABBA, 2010). O século XX, dentre outras convulsões, foi um cenário de enfraquecimento progressivo de oposições, inclusive do par racional e irracional, conflito que parece, hoje, e cada vez mais, dissolver-se numa nova forma de racionalidade: o pluralismo contemporâneo. Vale ressaltar que, em termos filosóficos, o paradoxo inclui a contradição para transformá-la e, assim, a dissolução das oposições passa, também paradoxalmente, pelo esquema binário do pensamento. Interessante dizer, dentre outras considerações, que o termo pós-moderno, a partir dos anos 1950, desconstrói a noção de origem como resultado das tendências filosóficas da contemporaneidade. Mesmo assim, há um procedimento consensual que busca historicizar a ”primeira vez” em que o termo teria sido empregado, em que circunstâncias e com que sentido específico, embora a maioria dos críticos reconheça o mal-estar que o termo provoca. Rouanet indica que o termo pós-moderno, no campo da literatura, foi usado pela primeira vez por 230 Federico de Onis, em 1934, na 2ª edição de uma antologia de poesia espanhola e hispano-americana de 1882-1932 (Op. Cit. MELLO, Elson R. de, 1994). Entretanto reconhece que a utilização do termo não necessariamente formula uma categoria conceitual. Heloísa Buarque de Hollanda (1991, p. 7) declara que é raro uma expressão causar tanto desconforto, já que a abrangência do termo sugere não haver uma via única de definição ou um eixo central de questões, mas, ao contrário, uma “expressiva heterogeneidade de colocações, tensões e campos de interesse” (HOLLANDA, 1991, p. 8). E, continua ela, se é possível listar tais discussões, a sensibilidade pós-moderna dirige suas forças para a desconstrução sistemática dos mitos modernistas, o questionamento do iluminismo na identidade cultural do ocidente, o problema da totalidade e do totalitarismo, a perda da credibilidade nas metanarrativas fundadoras, o processo de erosão e desintegração das categorias que foram critériochave da estética moderna – inclusive aquelas tão importantes para os estudos literários, como a já mencionada linearidade temporal, e as noções de identidade e autoria, tradição e ruptura, novo, vanguarda e tradicional. A outra ruptura nevrálgica seria a referente à quebra da divisão categórica entre as chamadas culturas erudita e de massa, discurso dominante da estética modernista entre o final do século XIX e os primeiros anos do século XX, e que retorna, com vigor, nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Sevcenko (1995) lembra que o pós-moderno é um conceito que supõe uma reflexão sobre o tempo, mas uma temporalidade não linear, não homogênea, em que não se pode fixar uma data decisiva, um ato inaugural, tampouco uma superação ou um fim. Para Lyotard (1986), “o pós-moderno, enquanto condição da cultura nesta era caracteriza-se pela incredulidade perante o metadiscurso filosófico metafísico, com suas pretensões atemporais e universalizantes” (1986, viii). Logo depois, acrescenta o traço informático-informacional ao conceito, na busca de estabelecer compatibilidades entre linguagem e máquina informática e seu impacto sobre a ciência. Eagleton, inicialmente, diferencia pós-modernismo e pós-modernidade. Diz que “a palavra pós-modernismo refere-se em geral a uma forma Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas de cultura contemporânea, enquanto o termo pósmodernidade alude a um período histórico específico” (EAGLETON, 1998, p. 7). A seguir, assume o termo pós-modernismo para aludir a ambos os sentidos. Nesse viés, pós-modernismo corresponderia a uma modalidade cultural que expressaria as mudanças na sociedade de massa “por meio de uma arte superficial, descentrada, infundada, auto-reflexiva, divertida [...], eclética e pluralista, que obscurece as fronteiras entre a cultura elitista e a popular” (EAGLETON, 1998, p. 7). Por seu turno, a pósmodernidade diria respeito “ao questionamento das noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a ideia de progresso ou emancipação universal, os sistemas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação” (EAGLETON, 1998, p. 7). A radicalidade, melhor dizendo, esse entendimento ou modo de ver, teria suas bases na mudança histórica ocorrida no Ocidente para uma nova modalidade do modo de produção capitalista: “para o mundo efêmero e descentralizado da tecnologia, do consumismo e da indústria cultural, no qual as indústrias de serviços, finanças e informação triunfam sobre a produção tradicional” (EAGLETON, 1998, p. 7). Nesta perspectiva, a clássica e bem-definida política de classes daria lugar a uma colocação difusa de políticas de identidade. E isso porque a lógica ‘fundamentalista’ do mercado “é de prazer e pluralidade, do efêmero e descontínuo, de uma grande rede descentrada de desejo da qual os indivíduos surgem como meros reflexos passageiros” (EAGLETON, 1998, p. 8). Posteriormente, o teórico vai se perguntar sobre o conceito de pós-modernismo. A sua respostaindagação sobre a possível origem do termo abre-se em múltiplos tentáculos e em seu próprio percurso desmonta a possibilidade de estabelecê-la com precisão: De onde mais o posmodernismo poderia brotar – da sociedade industrial, do último fator de descrédito da modernidade, da recrudescência da vanguarda, da transformação da cultura em mercadoria, da emergência das novas forças políticas vitais, do colapso de certas ideologias clássicas da sociedade e do sujeito? (EAGLETON, 1998, p. 30). Se por um lado não há como reduzir o termo a um valor absoluto, porque ele não daria conta de tanta diversidade, por outro há o risco do oposto. Por isso, mais adiante Eagleton faz nova provocação a respeito do outro extremo, e joga, ironicamente, para o seu leitor, o relativismo do conceito: “Se o pós-modernismo cobre tudo, desde o punk à morte da metanarrativa, dos fanzines a Foucault, como conceber que um único esquema explanatório possa fazer justiça a uma heterogeneidade tão fantástica assim?” (EAGLETON, 1998, p. 30). Se há algo a ser esclarecido no pós-moderno, é se essa transformação e crise de paradigmas tem formulado outras formas estéticas nas várias artes ou se ela, predominantemente, “recicla técnicas e estratégias do próprio modernismo, reinscrevendose num contexto cultural modificado” (HUYSSEN, 1991, p. 21), e por isso estaria no plano da repetição em outros contextos. Boaventura (2010) conta que começou a usar as expressões pós-moderno e pós-modernidade em meados da década de 1980, num contexto de debate epistemológico, considerando que “o paradigma epistemológico e o modelo de racionalidade davam sinais de exaustão” (SANTOS, 2010, p. 25). Adiante, afirma que “No início da década de 1990, o acúmulo das crises do capitalismo e do socialismo nos países do Leste europeu levaram-me a ampliar o conceito de pós-moderno e pós-modernidade” (SANTOS, 2010, p. 26). Boaventura está dizendo que o paradigma inicialmente por ele considerado – o epistemológico – dá lugar a um novo paradigma social e político, no qual o esforço seria pensar a transformação social para além do capitalismo e das alternativas teóricas e práticas do modernismo ocidental. O alargamento do seu enfoque demonstra um objetivo mais nítido para lidar com o tema. Vale ressaltar que o sociólogo faz questão de contrapor a sua definição de pós-modernidade ao pósmodernismo celebratório, e por isso chamou-o pós-modernismo de oposição. Adiante ele afirma que mesmo assim a designação nunca o satisfez, por conta de que “a hegemonia do pós-moderno celebratório tornou virtualmente impossível fazer vingar a alternativa do pós-moderno de oposição” (SANTOS, 2010, p. 27). Como foi possível constatar nesse breve panorama, um ponto consensual entre a maioria dos autores citados é que: como teoria, o pós-modernismo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 231 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia não constitui um corpo teórico acabado, próprio, estruturado, ainda que marque vários discursos e linguagens (MELLO, 1994); quanto a nós, entendemos o problema não como obstáculo, mas como desafio; isso porque um corpus definido, enfim, a rigidez conceitual impediria justamente a fluidez, o dinamismo, a impermanência e a abrangência do termo. No caso, o enquadre não seria produtivo; em outras palavras, o teor preciso e absoluto, a normatização do pós-moderno corresponderiam à fetichização do conceito (ECO, 2004) e não dariam conta da abrangência e multiplicidade que marcam a chamada pós-modernidade como ”império do efêmero” – expressão de Lipovetski (1989) em relação à moda. Sabemos, por outro lado, que a tentação de cair no extremo relativismo pode levar a uma espécie de vale-tudo teórico, um anything goes que comprometeria a seriedade da pesquisa. Contudo, com todos os limites, riscos e impossibilidades aqui enumerados, temos profundo interesse neste estudo, por conta do nosso esforço para entender a contemporaneidade, as diversidades culturais, sobretudo quando se trata de processos formativos discentes e docentes nas áreas de Letras e Educação. Toda essa problemática, como iremos trazendo ao longo das discussões teóricas, incide diretamente sobre o ensino de literatura, sobre os professores/leitores em formação, enfim, sobre a própria leitura. Dentre inúmeras questões, voltamos nosso olhar para como ensinar literatura, como ler, como pesquisar sobre o passado e operar releituras da tradição e do cânone no presente – essa a forma possível de acessar e atualizar o que se foi. Enfim, como construir modalidade emancipatória (SANTOS, 2006) de ensino num contexto (pós-moderno) de impermanência, aceleração, descartabilidade? E endossando a preocupação de Boaventura, com o compromisso de não converter a ideia de transformação emancipatória numa outra forma de opressão social. Tudo isso explica o esforço, em nossa pesquisa, de melhor compreender a rede conceitual que envolve o pós-moderno e sua inserção na questão educacional da contemporaneidade, com ênfase, repetimos, nos processos formativos no diálogo Educação/Letras – fronteira em que nos sentimos 232 mais à vontade para transitar, por conta da nossa própria atuação e pesquisa. Vivemos num país com forte memória de colonizado e nesse contexto a emancipação é vital ao desenvolvimento. Precisamos contribuir com a formação de cidadãos autônomos, e num modo de produção em que o livre-arbítrio pode representar um simulacro da opressão. E, como docentes, temos procurado transitar em um espaço fronteiriço, aberto a diálogos, receptivo às diversidades culturais. O exercício da leitura, o estudo da produção literária dita canônica e periférica, o questionamento do cânone, o conhecimento e o respeito às diversidades culturais, o ensino da ética e da integridade no espaço da convivência têm sido alimento vital à nossa prática. Niilismo e pós-modernidade: o fim da história, a morte de Deus, a errância do homem Não podemos voltar a pensar a transformação social e a emancipação sem reinventarmos o passado. (SANTOS, 2010, p. 53). Ao mencionarmos, na Introdução deste capítulo, a dissolução do esquema binário de pensamento, estamos falando da razão contemporânea; referimo-nos às transformações da racionalidade que marcam o fim da modernidade, sobretudo aquela após a morte de Deus proclamada por Nietzsche; morte que, em nossa leitura, representa o avesso do silenciamento, conformismo, paralisia ou, como propõe Vattimo (2005), uma recusa à busca da origem ou do fundamento para explicação dos eventos e a opção pela proximidade. O pensamento de proximidade poderia ser definido como errância, no duplo sentido que a palavra permite – em oposição a acerto e com significado de caminhar com e sem destino previamente anunciado. Errância é devir e, como tal, exige abertura, flexibilidade, tolerância consigo próprio e o entorno. Ressaltamos que ”errar” não é ignorar o não-verdadeiro nem passar ao largo das questões sobre o real, mas encarar as construções – simulacros – da metafísica, da moral, da religião, da arte, todo esse tecido de erronias que constituem Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas a riqueza ou, mais simplesmente, o ser da realidade em tempos de impermanência (VATTIMO, 1992, p. 176). A citada recusa ao fundamento, à origem como movimento de explicação dos eventos e subjetividades, em outras palavras, o ”fim da história”, não deve ser entendido como o “aniquilamento do ser humano provocado pelo surgimento e desenvolvimento da técnica moderna” (VATTIMO, 2005, p. 73). Nesse caso, sugerimos substituir a visão apocalíptica pelo olhar mais objetivo e integrado ao contexto. Nesse viés, o que se dissolve é a ideia de história como processo linear, sequencial, contínuo e em direção ao futuro identificado como progresso, noção historicista que ainda hoje persiste – como podemos constatar no ensino de literatura que insiste na periodização, os chamados estilos de época. Jameson (1991), referindo-se à periodização dos anos 1960, faz uma justificativa teórica da periodização na escrita da história (que estendemos para a história da literatura): a esquematização periodística pressupõe a vigência de uma afinidade, de uma homogeneidade ou identidade maciças dentro de determinado período; o critério de valoração ou mesmo de existência de determinado produto dentro deste enquadre é a comparação com o cânone – modelo estabelecido por um grupo hegemônico. Vale dizer que tal esquema linear, diacrônico, é resultado de uma visão historicista dos fenômenos sociais e produções culturais, agregando-as por semelhança; além disso, não tensão entre os componentes enquadrados e o que desliza do cânone é desconsiderado. Ainda para desconstruir a periodização, em seu pressuposto historicista, trazemos a seguir uma das teses sobre o conceito de história, de Walter Benjamin (1994), publicada após a sua morte, em 1940. O pensador da Escola de Frankfurt faz, na época, uma reflexão crítica sobre o discurso da(s) história(s) enquanto modalidade inseparável da práxis política. Para Benjamin, em vez de olhar para uma imagem eterna do passado, como o historicismo, ou para o futuro, identificado à ideia de progresso, o autor deve constituir uma experiência (Ehfahrung) com o passado (tese 16). Benjamin toma o quadro de Paul Klee, Angelus Novus, de 1920 (tese 9), e expressa uma cadeia de percepções produzidas pela queima das utopias. A técnica derivada da razão instrumental cumprira o avesso do esperado e “ao invés de libertar, submetera os homens ao império da máquina genocida, dotada de uma capacidade destrutiva sem precedentes” (SEVCENKO, 1995, p. 98). O anjo da história seria um novo que traz consigo a decrepitude, anuncia destruição, mescla passado e futuro nas ruínas do presente. Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boa dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ser assim. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa aos nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso (BENJAMIN, 1994, p. 226). Entendemos que a metáfora representa “a própria condição do artista e do intelectual depois que o sonho modernista perdeu sua inocência” (SEVCENKO, 1995, p. 50). O olhar é aturdido diante das ruínas à sua volta, talvez um mea culpa por conta da cumplicidade silenciosa nos eventos destrutivos da humanidade – um anjo cujo castigo é assistir, paralisado, ao esfacelamento do tempo, à degradação de si mesmo e do mundo, à implosão da solidez em fragmentos, melhor dizendo, em cacos. Obviamente tal nível de dissolução provoca ruínas. Analogamente, a implosão (moderna) estende-se à linearidade temporal presente nas grandes narrativas e propicia que novas condições – não historicistas – se instaurem. Assim feita, uma leitura – da tese e do quadro – que transforme o choque, o aturdimento vivido na modernidade, a autodestruição em atitude inovadora, permitindo que a tese de Benjamin aponte para o reverso da crise e, completamos, para ”anunciar”, ante a descrença na modernidade ainda vigente, salvaguardadas Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 233 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia as diferenças, a condição pós-moderna como, posteriormente, se refere Lyotard (1986). Para Boaventura, “Trágico é, pois, o fato de o anjo da história moderna retirar ao passado a sua capacidade de explosão e redenção. Tornando impossível o inconformismo dos mortos, torna impossível o inconformismo dos vivos” (SANTOS, 2010, p. 54). Em princípio, a ideia de reposicionar o anjo da história e reinventar o passado, segundo o próprio Boaventura, parece impossível porquanto a cena tenha sido congelada por séculos de hegemonia da teoria modernista de história. Ao mesmo tempo, ele arrisca dizer que “este início de século e de milênio oferece uma oportunidade para romper esse dilema” ( SANTOS, 2010, p. 54) e que esta oportunidade residiria na crise por que a noção de progresso está passando hoje. Termina falando da sua suspeita sobre o anjo de Paul Klee: de que ele tenha deixado de ser um anjo trágico para se tornar marionete em posição de descanso. Por esse viés, a citada cadeia de crises do pensamento moderno prepara o pós-moderno dentro da sua própria vigência; crise que inclui a nietzschiana morte de Deus e comporia não um niilismo reativo (da nostalgia, paralisia, ressentimento, relativismo extremado), mas um niilismo ativo (consumado), “que assume a perda da verdade e o fim dos valores supremos e que deles extrai a força para se tornar o pressuposto e o movente de um processo de libertação e criação” (PECORARO, 2005, p. 55-56). O niilismo seria ativo ao demandar, por partes dos sujeitos assim constituídos, postura não estática, mas em descanso ou em suspensão momentânea. E ao armazenar ou produzir instrumentos à dinâmica da transformação, com olhos bem abertos, observatório em constante redimensionamento. Trazendo o foco – da pósmodernidade – para o nosso contexto de país considerado em desenvolvimento, transcrevemos trecho de conferência de Edgar Morin (14-07-2009), Une pensèe Du Sud, pronunciada na Academia Brasileira de Letras: [...]o pensamento do Sul é um vir-a-ser, um pensamento a ser elaborado. Algo que ultrapassa fronteiras ao mesmo tempo em que transita por elas [...] É 234 urgente ter outra relação com a natureza que não seja a domesticação, com a religião que não seja fé cega. Urge uma racionalização aberta em vez de uma lógica fechada, implacável. É vital a regeneração, a capacidade crítica e teórica[...]a racionalidade fechada produz uma irracionalidade feroz [...] (MORIN, Edgar).2 Diante do procedimento de leitura pelo avesso que descrevemos duas vezes – na declarada morte de Deus e na tese de Benjamin inspirada no quadro de Paul Klee –, encontramos os ventos da pós-modernidade; não só pela radicalização dos efeitos, mas pela possibilidade de releitura destes efeitos. O procedimento propõe a reversão do senso comum, convoca as sociedades para uma unidade tecida na diversidade. Conforme mencionamos no início, em termos filosóficos não é mais possível sair da modernidade pensando em superá-la, porque superação, de ordem temporal, é uma categoria moderna (PECORARO, 2004) e tal movimento nos manteria com os mesmos preceitos, seria procedimento tautológico. Por isso Nietzsche, habilmente, não supera, mas, conforme entendemos, “dissolve” a noção de Deus, já que o fundamento não mais funciona como suporte à verdade. Devemos, então, não supostamente “superar”, mas operar com “dissoluções” – que incluem o componente, este dissolvido em outra coisa – e construir outros caminhos. Essa virada, transformação, configuraria a pós-modernidade. E completamos: nesse desenho, o pós-moderno poderia marcar não somente alguma novidade em relação ao moderno, nem apresentação (inédita) de uma etapa diferente, mas sim a dissolução da categoria de novo, de progresso, como experiência de fim da história. Entender as sociedades contemporâneas nos exige transitar no plano multidimensional da simultaneidade. Diante de nossos olhos, encontramse, avizinhados e expandidos em escala mundial pelos meios de comunicação de massa, tanto o mais previsível quanto o mais inesperado. Parafraseando Pecoraro (2005), vemos a ética e a política confiada aos técnicos – que Bauman (1999) chama de peritos –, a democracia na mão 2 Conferência Une pensèe Du Sud, pronunciada na Academia Brasileira de Letras, com Cícero Sandroni e Cândido Mendes, 14-072009. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas dos experts, além de os cenários individuais e coletivos estarem perpassados, em distintas gradações, pelo fantasma da violência. Com o foco em nosso trabalho de educadores, a violência – como experiência compartilhada por todos direta ou indiretamente – precisa sem pensada em sua modalidade mais frequente: como silenciamento, interrupção do diálogo de perguntas e respostas (VATTIMO, 1996). Entendemos que, na formação de formadores, silenciar o outro sob o álibi da objetividade toma fôlego em nome de uma verdade dogmática, vem travestido de conhecimento superior, respaldado por normas e fundamentos. É preciso, antes de tudo, compreender os efeitos do modo de produção capitalista em que estamos imersos, modelo que banaliza a reflexão científica e reduz a prática docente às ideologias do consumo. Vivemos um fundamentalismo de mercado e o consumismo (des)configura nossas práticas. Lidar com esse impasse exige entender que as verdades científicas – e as decorrentes categorias – são perspectivadas e, enquanto práticas discursivas ideologicamente comprometidas, têm seus valores dentro de horizontes de linguagem eivados de leis e premissas. Enfim, a crise dos paradigmas e dicotomias a que nos referimos desde o início – desconstrução da razão, niilismo, metamorfose dos valores –, nós a entendemos como crises que abalam a visão historicista, ao mesmo tempo em que transformam a história e estimulam a reconstituição das identidades. Sabemos que fragmentação, efemeridade, dissolução integram processos identitários, subjetivos e sociais, ao longo da história da humanidade, ou seja, não são fenômenos exclusivos da contemporaneidade. Ocorre, hoje, que o superdesenvolvimento das mídias leva à circulação/promoção dos eventos à máxima potência, o que contribui para a sensação de extremismo, fantasia de integração global plena, dentre outros efeitos. Além disso, essa outra forma de racionalidade soa-nos como dissolução de alguns valores ”do passado”, simultânea à eclosão ”presente” de outras possibilidades significativas. Ainda sobre fragmentação e descentramento do sujeito pós-moderno, lembramos a ressalva do próprio Stuart Hall (2005), quando afirma que uma identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia – em qualquer época. Por isso dizemos que se a propalada fragmentação da pós-modernidade remonta a despedaçamento, falência múltipla de pensares e órgãos, queda literal e metafórica de muros e torres, anjos aturdidos, também pode ser entendida como outra forma de conceber e atuar no mundo – que não supera a maneira moderna, mas a ”dissolve”; outra racionalidade, também condicionada, que supõe saltos em múltiplas direções; outros sistemas de significação e representação cultural; percepção da insuficiência das utopias para preenchimento do vazio existencial; e vivência do luto, mas com recusa à imersão no pessimismo e na melancolia romântica de quem quer ficar preso num suposto passado. Passamos, então, a lidar com a evanescência das categorias, inclusive dos sujeitos, o que é um alarme para nós, formadores de formadores. Ante tal instabilidade, experienciamos a urgência de estimular modus operandi que inclui responsabilidade, projeto e ação, em lugar de seus respectivos pares: culpabilização, utopia e esperança. Por esses vieses, entender a contemporaneidade (como pós-moderno não celebratório) é mais uma forma de ler e colocar-se no mundo, e não consentir sem consciência as promessas sedutoras do mercado, não acreditar no livre arbítrio consumista, no princípio sem princípios da livre troca. O itálico na expressão vem sinalizar, então, mais uma brecha nas contradições do pós-modernismo: ser radical e conservador, produto das sociedades capitalistas avançadas, simultaneamente libertárias e autoritárias, hedonistas e repressoras, múltiplas e monolíticas – conforme a crítica de Terry Eagleton (1998). A radicalidade do pós-modernismo seria, então, desafiar um sistema que paradoxalmente ainda precisa de valores absolutos, fundamentos metafísicos e sujeitos autoidênticos; assim, mobilizaria o paradigma oposto, ou seja, a pluralidade, a não identidade, a transgressão, o antifundamentalismo, o relativismo cultural. A brilhante conclusão de Eagleton reconhece a engenhosidade da estratégia: o pós-modernismo, ao funcionar na contramão dos preceitos absolutos, propõe, ao menos em nível da teoria, uma subversão do sistema de valores dominante. Mesmo porque, quanto mais as forças de mercado ameaçarem subverter a estabilidade, mais precisaremos insistir nos valores tradicionais. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 235 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia Tudo que é sólido (ainda) desmancha no ar: abalos nos processos formativos através do processo de formação e de conhecimento (SOUZA, 2004, p. 393). Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões foram banidas: todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a ossificar. Tudo que é sólido se desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente levados a enfrentar [...] as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos (MARX, Manifesto Comunista, op. cit BERMAN, 1986, p.20). Buscamos, então, entender os efeitos dessas mudanças na dinâmica dos pensares que incidem, de uma forma e/ou de outra, na “formação de formadores”; e, considerando a nossa área – Letras – como um enfoque interdisciplinar da Teoria Literária – que traz consistência às análises, permite constituir sistemas teóricos –, contribui para o desenvolvimento dos processos formativos. Trazemos aqui a reflexão de Lyotard sobre os conhecimentos e sua apropriação no modo de produção capitalista: Temos consciência tanto da amplitude da nossa leitura, quanto de seus limites. Repetimos: entender a pós-modernidade representa o risco de mais um enquadre, já dentro de outros, além de lidar com outros paradigmas que incluem mesmo aquele que se pretende dissolver. Ainda hoje, no século XXI, temos vivido o ditame do velho Marx: tudo que é sólido desmancha no ar – experiência que, para nós, não tem sido vivida somente no eixo da metáfora. Feita as ressalvas, dizemos que a citada consciência dos limites, muitas vezes um tiro no próprio pé, ativa o sujeito que, em vez de postar-se na perda de si, exerce a possibilidade de reinterpretar a si e ao entorno, descobre-se inserido no mundo e toma consciência do seu papel criador (PECORARO, 2005). Afirmamos, ainda, que recusar uma concepção estável, absoluta, homogênea e objetiva da realidade social e subjetiva, por um lado, não significa mergulhar no mais desenfreado relativismo, e por outro, como já dissemos, implica em substituir, dentre outras, a noção de culpa por responsabilidade. Se o remorso culposo leva à paralisia, à inércia, alimenta-se de si mesmo, a noção de responsabilidade exige a consciência necessária ao autoexame e viabiliza a mudança, a reescritura dos eventos, das histórias de vida, propicia o movimento de sair do mesmo lugar. Elizeu Clementino sinaliza a importância dos olhares/falares de/para si: [...] porque expressam diferentes aspectos simbólicos e subjetivos de cada história e das aprendizagens e experiências que são construídas ao longo da vida [...] O processo de falar para si mesmo – conhecimento de si – possibilita ao sujeito organizar sua narrativa através do constante diálogo interior, 236 [...] em vez de serem difundidos em virtude de seu valor ‘normativo’ ou de sua importância política (administrativa, diplomática, militar), pode-se imaginar que [os conhecimentos] sejam postos em circulação segundo as mesmas redes da moeda (LYOTARD, 1986, p. 7). A nossa pesquisa é de ordem teórica, mas, conforme a entendemos, ela se desenvolve para que possamos, cada vez mais, nos aproximar do outro, compreender os processos formativos, a inserção das pessoas nos grupos sociais com que lidamos direta ou indiretamente. Na nossa lida diária com formação de formadores, buscamos rever pressupostos teóricos fundamentais para o conhecimento de mundo e, no nosso caso, para o ensino de Literatura. Sabemos que as reformulações indicadas, por implodirem sólidos condicionamentos da própria formação, representam abalos no acervo cultural do professor, os quais reverberam no conhecimento de mundo, assim como na sua metodologia e prática de ensino. Contudo, como vimos falando reiteradamente ao longo deste trabalho, diante das crises provocadas pela dissolução de paradigmas, há que se reagir com um niilismo ativo. Nesse sentido as crises podem representar oportunidade de transformação. A relevância do procedimento para o ensino (de literatura), ou seja, a releitura do abalo como possibilidade de construir algo diverso na metodologia e prática, existe na medida em que (1) oferece maior segurança ao professor para reformular suas aulas; (2) permite a releitura do discurso hegemônico sobre o que é literatura e o cânone; (3) inclui a leitura de textos e autores ‘desconhecidos’; (4) propõe releituras do cânone; Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas (5) minimiza a rigidez da distinção cultura erudita, cultura popular, cultura de massa; (6) instiga à reformulação de modelos absolutos para análise de textos poéticos e ficcionais; (7) expressa a urgência de transformar a metodologia de leitura; (8) propõe outra forma de ensinar literatura que não somente por meio da periodização; e (9) sempre estimulando o debate, o questionamento sobre os modelos e os próprios procedimentos por meio de um autoexame constante. Consideramos fundamental, também, em relação ao que chamamos leitura de literatura – seria o 10º item –, transitar em fronteiras muito tênues: uma delas entre a multiplicidade interpretativa e o vale-tudo, este apoiado na crença de que a leitura/ interpretação é totalmente subjetiva. (Se assim fosse, o texto funcionaria somente como um espelho a reproduzir o narcisismo do sujeito sempre prestes a se afogar). Outra corresponderia àquela entre a leitura/análise do texto literário e a sua redução a um modelo analítico que “sirva” somente para comprovar hipóteses de leitura (vale a provocação de como dissecar um sapo sem matá-lo). E propomos, ainda, que esse conjunto de procedimentos seja praticado no esforço de responder (reperguntar) às demandas da contemporaneidade, a que chamamos, com Lyotard (1986), condição pós-moderna, a qual condicionaria a riqueza de uma nação ao saber tecnocientífico e, completamos, num movimento de, pela tecnociência, desfazer o desconcerto dos indivíduos (legado moderno) frente a si mesmos e ao entorno. Desconcerto no sentido de mal-estar: “Esses mal estares que eram a marca registrada da modernidade resultaram do excesso de ordem e sua inseparável companheira – a escassez de liberdade” (BAUMAN, 1998, p. 8). Os procedimentos propostos em relação à leitura, portanto, demandam ao docente modalizar movimentos e propostas, compreender os contextos que os produziram e, via de mão dupla, analisar a interferência dos movimentos nos diferentes contextos. Voltando à questão do tempo histórico, sabemos que não é possível trazer o passado como de fato ele foi. Da mesma forma que não é produtivo celebrar o presente como negação ostensiva do passado. Há modos de compreender o hoje sem a fugacidade excessiva que o torna imediatamente passado e sem submetê-lo exclusivamente ao modelo da tradição. Conforme dissemos, a planificação da história e a concepção linear do tempo dirigem-se ao futuro, este identificado com a ideia de progresso – projeto da modernidade. Esses movimentos comprimem o presente. Com Boaventura, entendemos que o presente precisa ser alargado, expandido, para a emancipação social (SANTOS, 2000). Concluindo... A expansão do presente: pós-modernidade e processos formativos A característica mais fundamental da concepção ocidental da racionalidade é o fato de, por um lado, contrair o futuro e, por outro, expandir o futuro. A contração do presente, ocasionada por uma peculiar concepção de totalidade, transformou o presente num instante fugidio, entrincheirado entre o passado e o futuro. Do mesmo modo, a concepção linear do tempo e a planificação da história permitiram expandir o futuro indefinidamente [...] proponho uma racionalidade cosmopolita [em lugar da razão indolente] que, nesta fase de transição, terá de seguir a trajetória inversa: expandir o presente e contrair o futuro. Só assim será possível criar o espaço-tempo necessário para conhecer e valorizar a inesgotável experiência social em curso no mundo de hoje[...] evitar o gigantesco desperdício da experiência. [...] Para expandir o presente, proponho uma sociologia das ausências: para contrair o futuro, uma sociologia das emergências (SANTOS, 2000, p.3). Dentre os problemas já mencionados ao entendimento da contemporaneidade como pósmoderna, encontramos o procedimento de separar um conjunto de marcas históricas, eventos sociais e processos humanos como pós-modernos, em contraste àqueles pertencentes ao passado e que seriam reunidos sob a rubrica modernidade. Tal estabelecimento de limites é de ordem temporal e segue à risca a identificação do prefixo pós como algo posterior, o que reforçaria a linearidade temporal que é desconstruída na pós-modernidade. Além disso, o pós-moderno não pode limitar-se à mera rejeição, transgressão ou repetição da modernidade, ou ainda à desconstrução de seus mitos. Preferimos dizer que ele não implica uma mudança nos valores da modernidade iluminista, mas um enfraquecimento de seu caráter absolutista Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 237 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia (LACLAU,1991), enfraquecimento que, por sua vez, promove a pluralidade, nos mais diversos níveis da condição pós-moderna. Trazemos aqui a reflexão de Lyotard sobre os conhecimentos e sua apropriação no modo de produção capitalista: [...] em vez de serem difundidos em virtude de seu valor formativo ou de sua importância política (administrativa, diplomática, militar), pode-se imaginar que [os conhecimentos] sejam postos em circulação segundo as mesmas redes da moeda [...] (LYOTARD, 1986, p. 7). Diante desse quadro instável, mais interesseiro que interessado, terreno movediço, como constituir um sujeito a priori para ser objeto das práticas pedagógicas? A atitude seria incoerente em relação, por exemplo, à questão contemporânea da produção das subjetividades; seria uma formação essencialista, avessa ao paradigma discursivista. Urge refletir sobre os processos formativos, o que implica em rediscutir o sujeito da educação e suas fontes de constituição. Nossa reflexão, portanto, representa um esforço em redimensionar questões docentes individuais num contexto social bem mais amplo, para que os alunos/professores em formação possam: encontrar o lugar desse processo e sua articulação na dinâmica de suas vidas; ouvir a própria voz; e contextualizar suas experiências, ao longo das quais se formam identidades e subjetividades (JOSSO, 2004). O campo da formação de formadores não pode limitar-se apenas às dimensões técnicas e tecnológicas e necessita de uma compreensão mais profunda dos processos por meio dos quais as pessoas se formam ( JOSSO, 2004). E, simultaneamente, rever pensamentos e propostas de atuação em sala de aula, com ênfase nas aulas de leitura de literatura e adequá-las às demandas da contemporaneidade, a que chamamos, com Lyotard, a condição pós-moderna; condição que clama, em lugar da confortável rigidez e da segurança das certezas, pelo desconcerto da diversidade, fluidez, caráter provisório das possibilidades e dissolução de propostas e tendências que não mais dão conta do presente. Retomando a análise de Boaventura (2010) – o presente precisa 238 ser alargado, expandido, para a emancipação social –, acrescentamos a ressalva do sociólogo, sempre atentando para o fato de a educação emancipatória não se tornar outra forma de opressão. Nas sociedades pós-colonialistas, formadas no modo de produção capitalista, toda a atenção é necessária para percebermos a condição paradoxal que hoje nos é imposta: a de prisioneiros em liberdade, vivendo no princípio sem príncipios da livre-troca. Não obstante, os autores chamam a atenção sobre o dado de que o pós-modernismo tem contribuído para esse estado permanente de alerta, para a consciência do gesto ambíguo de se marginalizar o diferente quando buscamos a valorização da diferença; de calar as vozes dos outros em tempos de concertos polifônicos; para a tendência a uma racionalidade técnica, ocidental, hegemônica e opressiva, em tempos de razão cosmopolita; para o retorno da mistificação, já tendo sido considerada a era da reprodutibilidade técnica. O debate pósmoderno estimula a escuta para algumas críticas necessárias à construção modernista do pensamento e da sociedade. Dentre os autores que estudam o tema no contexto da educação, trazemos ainda Tomaz Tadeu (op. cit. MELLO, 1994) quando aceita a contribuição da crítica pós-moderna no seu questionamento da noção de sujeito, consciência e subjetividade. Afirma que o pensamento pós-moderno pode contribuir para a teoria educacional que ainda está em construção na medida em que for visto de forma crítica e contribua para aprimorar a teorização educacional crítica. Entretanto, na medida em que esse pensamento representa uma regressão em relação ao projeto de crítica radical das divisões sociais, deve ser criticamente rejeitado; assim como na perspectiva de Boaventura, o pós-moderno, em sua versão celebratória, não compõe com a proposta emancipatória e por isso torna-se inviável. Não temos como separar o pós-moderno de uma práxis política. Na pós-modernidade, a formação precisa incluir, no seu projeto, a preparação para a vida nas culturas plurais, sociedades multifacetadas, desiguais e num mundo informático e informacional em constante mudança. O novo inclui a obsolescência, a originalidade é menos invenção que negação, como já prenunciava Poe (1986) em pleno século XIX. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 Maria Cristina Cardoso Ribas A formação de formadores deve considerar que está valendo mais a capacidade de entender o que ocorre ao redor de si e consigo, em detrimento da aquisição mecânica de uma habilidade técnica que rapidamente torna-se obsoleta. O conhecimento não se presta mais a uma compartimentalização redutora em tempos de alargamento de fronteiras. Ao mesmo tempo, é urgente ampliar o olhar e cultivar a abrangência – que não deve ser confundida com visão totalizadora/totalitária – para que as diferenças, discordâncias, desigualdades, tradições sempre estejam presentes no cenário e sejam experienciadas como forças produtivas da contemporaneidade. De acordo com Schartzman, Na perspectiva pós-moderna, o mundo já teria superado os tempos do iluminismo, e com eles a crença no poder da razão, nas promessas do futuro e na valorização da ética do trabalho e do desempenho. A razão, desenvolvida nas ciências e transmitida pelos sistemas escolares, ter-se-ia revelado uma forma disfarçada de exercício do poder, e, além de tudo, incapaz de apreender a verdadeira natureza das coisas; a tecnologia, sua filha bastarda, estaria destruindo o meio ambiente, prostituindo a mente pelos massmídia e ameaçando de destruição a própria humanidade. O futuro, que o iluminismo apresentava como inteligível em suas leis e conquistável pelo trabalho, agora se apresentaria como incerto e sombrio. Não só o capitalismo agonizaria, mas também seu alter-ego, o socialismo. Se a razão aliena e o futuro inexiste, e se Deus já foi há muito declarado morto, tampouco faria sentido fixar metas na vida, postergar desejos, perseverar (SCHARTZMAN, 1997, p. 1). Identificamos a postura de Schartzman como niilismo consumado, passivo, o qual propomos substituir pelo que Vattimo (1996), o filósofo da pós-modernidade, chama niilismo ativo. Para a condição pós-moderna e os processos formativos, propomos a dinâmica da dissolução e transformação dos eventos para transformar, em ação, o aturdimento e a paralisia do Angelus Novus (de Klee e de Benjamin). Se o pós-modernismo não se constitui como uma visão coerente e organizada do mundo, nem pode ser descrito e conceituado de forma precisa, isto não se configura uma exceção na contemporaneidade. Hoje, as categorias são, por excelência, fluidas, impermanentes, por conta da aceleração das mudanças. Aliás, os valores eternos e imutáveis, se é que em algum momento histórico existiram como tal, foram instituídos artificialmente – por imposição, coerção, poder. A eternidade se produz na mudança, não na estagnação ou manutenção do status quo. Provavelmente, o desconforto do termo pósmoderno e derivados seja por representar justamente o conjunto de imprecisões, ambivalências, incoerências, impossibilidades com que nos defrontamos a cada momento e nos asseguram – ferida no narcisismo – a nossa própria impotência diante dos eventos do mundo. Ao mesmo tempo, a consciência da impossibilidade pode tornar-se um estímulo para tornar possível alguma transformação – já que a densidade do sólido inclui a inconsistência e a eternidade possível vem na constância do movimento. Pelo exposto, e num esforço de organização que não destitui a condição ambivalente, fluida do pós-moderno, no final deste trabalho voltamos ao tema de nossas epígrafes. Elas estavam sempre presentes, em torno, dentro/fora, duradouras e efêmeras, efemeridade que desconstrói a manutenção do poder, a eternização do mesmo e compõe com a condição social emancipatória, no sentido que nos fala Boaventura (2000). Retomamos, então, Nicolau Sevcenko, quando diz ser uma vantagem e um alívio “[...] que o pós-moderno se apresente como um castelo de areia e não mais como uma nova Bastilha, um novo Kremlin, um novo Capitólio. Apenas um castelo de areia [...] inconsistente, provisório, tal como todo ser humano” (SEVCENKO, 1995, p. 55). REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo e outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009. AUGÉ, Marc. Não lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. 8 ed. Campinas, SP: Papirus, 2010. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 227-241, jul./dez. 2011 239 (Pós)modernidade e processos formativos: a saudável (in)consistência dos castelos de areia BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências econômicas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. ______. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. BHABBA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998. BENJAMIN, Walter. 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O desenho infantil na prática pedagógica de professores da educação básica: das vivências às valorizações. 2009. 81 f. Dissertação (Mestrado em Educação)– Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Pelotasــ, Pelotas (RS), 2009. A pesquisa apresentada nesta dissertação de Mestrado teve como motor a minha trajetória como aprendiz de professor e a maneira como fui me apropriando dos conhecimentos ao longo da minha caminhada pessoal e profissional. Para tal, fui pesquisar o valor do desenho infantil na trajetória de quatro professoras e um professor da rede pública do município de Sinop (MT). A metodologia está focada no uso das narrativas com nuances de um trabalho biográfico inspirado em Josso (2004). O intuito principal foi o de tornar visível o valor que atribuíam ao uso do desenho infantil em sala de aula, tendo nas lembranças de suas trajetórias educativas, as matrizes potenciais (PERES, 1999) de reservatórios frente possíveis valorizações. Também fiz uma tentativa de traçar algumas nuances sobre a influência das referidas lembranças em suas práticas pedagógicas. Foi possível perceber nos resultados da pesquisa, revelados pelas professoras e pelo professor, sujeitos desta pesquisa, que a valorização (ou não) do desenho está permeada pelas influências de suas trajetórias de aprendizagem. Com base nos dados, pode-se inferir que o desenho como um apoio pedagógico não está suficientemente internalizado e objetivado nas suas práticas. Por outro lado, ele aparece como um adereço para tornar a sala de aula mais bonita. Nesse sentido, a pesquisa reforçou o que outras já disseram sobre o quanto as lembranças e as imagens sobre o que aprendemos, em especial nos anos iniciais, são importantes para as aprendizagens posteriores e, sobretudo, para as escolhas que fazemos ao longo da nossa jornada pessoal e profissional. Palavras-chave: Educação. Imaginário. Desenho infantil. Narrativas autobiográficas. ABSTRACT: Children’s Drawing in the Pedagogical Practices of Elementary School Teachers: from experiences to valuation. Masters Thesis. UFPel. 2009. The research presented in this Masters thesis was motivated by my career as an apprentice teacher and the way I have been appropriating knowledge along my journey as a person and as a professional. For this reason, I choose to investigate the value of children’s drawing in the itinerary of five teachers (four females, one male) from the school public network of the city of Sinop (State of Mato Grosso, Brazil). The methodology is focused on the use of narratives with nuances of a biographical work inspired by Josso (2004). My main objective was to turn visible the value attributed do children’s drawings in the classroom, having in the remembering of their educational trajectories, the potential matrix (PERES, 1999) of depositories in front of possible valuations. I also tried to paint some nuances about the influence of those remembering in the teachers’ pedagogical practices. I could perceived in our research’s results as revealed by the teachers, that valuation or not of the drawing is permeated by the influences of their learning trajectories. I conclude that drawing as a pedagogical tool is not sufficiently internalized and objectified in their practices. On the other hand, our results confirm what have been said about how much the remembering and the images about what we learn, especially in initial years, are important for ulterior learning and, above all, for the options that we made through our personal and professional journey, Keywords: Education. Imaginary. Drawing children. Autobiographical narratives. * Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pelotas, Psicopedagogo Clínico e Institucional, Pedagogo efetivo da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) - Campus de Sinop (MT). Endereço para contato: UNEMAT Campus de Sinop. Avenida dos Ingás, 3001 – Sinop (MT). CEP: 78550-000. [email protected] ** Orientadora: Profa. Lúcia Maria Vaz Perez (Universidade Federal de Pelotas - UFPel); data: 09 de Julho de 2009; banca examinadora: Profa. Drª Beatriz Maria Boéssio Atrib Zanchet (Universidade Federal de Pelotas - UFPel), Profa. Drª Cleuza Maria Sobral Diaz (Universidade Federal do Rio Grande - FURG) Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 245 BALADELI, Ana Paula Domingos' ـHVDࠤRV QD IRUPDomR GH SURIHVVRUHV SDUD R XVR das tecnologias da informação e comunicação no ensino e na aprendizagem de Língua Inglesa. 2009. 125 f. Dissertação (Mestrado em Educação)– Programa de PósGraduação em Educação. Universidade Estadual de Maringá, Maringá (PR), 2009ــ. A abordagem construcionista tem fundamentado a realização de pesquisas acerca das tecnologias da informação e comunicação (TIC) como ferramentas pedagógicas potencializadoras do processo de construção de conhecimento. Diante disso, esta pesquisa enfoca a formação continuada de um grupo de professores de inglês para o uso pedagógico da Internet. Formulou-se a seguinte questão problematizadora: É possível criar um espaço colaborativo para professores de Língua Inglesa para o estudo e a pesquisa das potencialidades da Internet no ensino e na aprendizagem desse idioma? Implementou-se um curso de extensão para professores de inglês da rede pública de ensino da cidade de Cascavel, no Paraná. Foram realizadas ações pedagógicas (presencial e a distância) para o estudo, a pesquisa, a análise e a reflexão de 17 professores sobre as limitações e as possibilidades de construção de conhecimento por meio da ferramenta Internet. Os dados da pesquisa revelaram que o conhecimento (operacional e pedagógico) dos professores é insuficiente para promover mudança na prática com o uso da Internet como ferramenta de aprendizagem. Revelam ainda dois grupos de professores: o primeiro apresentou maior resistência em refletir sobre a prática e incorporar a Internet como ferramenta pedagógica. O segundo, no entanto, apresentou maior reflexão e interesse em vislumbrar práticas inovadoras para a aprendizagem de Inglês com a Internet. Por fim, a pesquisa possibilitou a criação de um espaço formativo em que os professores participaram de estudos, práticas e reflexões acerca do uso da Internet como ferramenta de aprendizagem de inglês. ABSTRACT: Challenges in Teacher Training for the Use of Information and Communication Technologies in the Teaching and Learning of the English Language. (Master thesis. UEM. 2009). Palavras-chave: Formação do professor. Língua inglesa. Construcionismo. Tecnologias da informação e comunicação. Keywords: Teacher training. English language. Construcionism. Information communication technologies. The constructionist approach has motivated the development of research on information communication technologies - ICT- as pedagogical tools with potential for knowledge construction situations. The research thus focuses on the permanent formation of a group of English teachers for the educational use of the Internet. We we guided by the following interrogation: is it possible to create a collaborative space where English teachers may study and research the potential use of the Internet in teaching and learning English. We implemented an English course for teachers of public schools in the city of Cascavel, state of Paraná, Brazil.. For this purpose, we implemented pedagogical actions (face-to-face and on-line) to permit for the 17 teachers to study, research, analyze and reflect upon the limitations and possibilities of building knowledge through the Internet. The survey data revealed that knowledge (operational or educational) of teachers is insufficient to promote change in practice using the Internet as a learning tool. They also revealed two groups of teachers, the first was more resistant to reflect on practice and incorporate the Internet as a teaching tool. The second, however, showed greater interest in reflection and innovative practices for teaching English using the Internet. Finally, the research enabled the creation of an educational space in which teachers participated in studies, practices and reflections on the use of the Internet as a tool for learning English. Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Licenciada em Letras Português e Inglês pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) atua como professora colaboradora no Curso de Pedagogia nessa mesma universidade. Endereço para contato: Rua Universitária, 2069, sala 72. Jardim Universitário. CEP 85819-110 Cascavel, PR. annapdomingos@ yahoo.com.br. ∗∗ Orientadora: Professora Dra. Anair Altoé (UEM). Data da defesa: 14 de Dezembro de 2009. Banca examinadora: Profa. Dra. Gláucia da Silva Brito (UFPR), Prof. Dr. Aldevino Ribeiro da Silva (UEM). ∗ 246 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade ISSN 0104-7043 Revista temática semestral do Departamento de Educação I – UNEB Normas para publicação I – PROPOSTA EDITORIAL A Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade é um periódico temático e semestral, que tem como objetivo incentivar e promover o intercâmbio de informações e resultados de estudos e pesquisas de natureza científica, no campo da educação, em interação com as demais ciências sociais, relacionando-se com a comunidade regional, nacional e internacional. Aceita trabalhos originais, que analisam e discutem assuntos de interesse científico-cultural, e que sejam classificados em uma das seguintes modalidades: • ensaios: estudos teóricos, com análise de conceitos; • resultados de pesquisa: texto baseado em dados de pesquisa; • estudos bibliográficos: análise crítica e abrangente da literatura sobre tema definido; • resenhas: revisão crítica de uma publicação recente; • entrevistas com cientistas e pesquisadores renomados; • resumos de teses ou dissertações. Os trabalhos devem ser inéditos, não sendo permitido o encaminhamento simultâneo para outro periódico. A revista recebe artigos redigidos em português, espanhol, francês e inglês, sendo que os pontos de vista apresentados são da exclusiva responsabilidade de seus autores. Os originais em francês e inglês poderão ser traduzidos para o português, com a revisão realizada sob a coordenação do autor ou de alguém indicado por ele. Os temas dos futuros números e os prazos para a entrega dos textos são publicados nos últimos números da revista, assim como no site www.revistadafaeeba.uneb.br, ou podem ser informados pelo editor executivo a pedido. Também será publicada, em cada número, a lista dos periódicos com os quais a Revista da FAEEBA mantém intercâmbio. II – RECEBIMENTO E AVALIAÇÃO DOS TEXTOS RECEBIDOS Os textos recebidos são apreciados inicialmente pelo editor executivo, que enviará aos autores a confirmação do recebimento. Se forem apresentados de acordo com as normas da Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade, serão encaminhados para os membros do Conselho Editorial ou para pareceristas ad hoc de reconhecida competência na temática do número, sem identificação da autoria para preservar isenção e neutralidade de avaliação. Os pareceres têm como finalidade atestar a qualidade científica dos textos para fins de publicação e são apresentados de acordo com as quatro categorias a seguir: a) publicável sem restrições; b) publicável com restrições; c) publicável com restrições e sugestões de modificações, sujeitas a novo parecer; d) não publicável. Os pareceres são encaminhados para os autores, igualmente sem identificação da sua autoria. Os textos com o parecer b) ou c) deverão ser modificados de acordo com as sugestões do conselheiro ou parecerista ad hoc, no prazo a ser definido pelo editor executivo, em comum acordo com o(s) autor(es). As modificações introduzidas no texto, com o parecer b), deverão ser colocadas em vermelho, para efeito de verificação pelo editor executivo. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 247 Após a revisão gramatical do texto, a correção das referências e a revisão das partes em inglês, o(s) autor(es) receberão o texto para uma revisão final no prazo de sete dias, tendo a oportunidade de introduzir eventuais correções de pequenos detalhes. III – DIREITOS AUTORAIS O encaminhamento dos textos para a revista implica a autorização para publicação. A aceitação da matéria para publicação implica na transferência de direitos autorais para a revista. A reprodução total ou parcial (mais de 500 palavras do texto) requer autorização por escrito da comissão editorial. Sendo a Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade um periódico temático, será dada preferência à publicação de textos que têm relação com o tema de cada número. Os outros textos aprovados somente serão publicados numa seção especial, denominada Estudos, na medida da disponibilidade de espaço em cada número, ou em um futuro número, quando sua temática estiver de acordo com o conteúdo do trabalho. Se, depois de um ano, não surgir uma perspectiva concreta de publicação do texto, este pode ser liberado para ser publicado em outro periódico, a pedido do(s) autor(es). O autor principal de um artigo receberá três exemplares da edição em que este foi publicado. Para o autor de resenha ou resumo de tese ou dissertação será destinado um exemplar. IV – ENCAMINHAMENTO E APRESENTAÇÃO DOS TEXTOS Os textos devem ser encaminhados exclusivamente para o endereço eletrônico do editor executivo ([email protected]). O mesmo procedimento deve ser adotado para os contatos posteriores. Ao encaminhar o texto, neste devem constar: a) a indicação de uma das modalidades citadas no item I; b) a garantia de observação de procedimentos éticos; c) a concessão de direitos autorais à Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade. Os trabalhos devem ser apresentados segundo as normas definidas a seguir: 1. Na primeira página devem constar: a) título do artigo; b) nome(s) do(s) autor(es), endereços residencial (somente para envio dos exemplares dos autores) e institucional (publicado junto com os dados em relação a cada autor), telefones (para contato emergencial), e-mail; c) titulação principal; d) instituição a que pertence(m) e cargo que ocupa(m). 2. Resumo e Abstract: cada um com no máximo 200 palavras, incluindo objetivo, método, resultado e conclusão. Logo em seguida, as Palavras-chave e Keywords, cujo número desejado é de, no mínimo, três e, no máximo, cinco. Traduzir, também, o título do artigo e do resumo, assim como do trabalho resenhado. Atenção: cabe aos autores entregar traduções em inglês de boa qualidade. 3. As figuras, gráficos, tabelas ou fotografias (em formato TIF, cor cinza, dpi 300), quando apresentados em separado, devem ter indicação dos locais onde devem ser incluídos, ser titulados e apresentar referências de sua autoria/fonte. Para tanto, devem seguir a Norma de apresentação tabular, estabelecida pelo Conselho Nacional de Estatística e publicada pelo IBGE em 1979. 4. Sob o título Referências deve vir, após a parte final do artigo, em ordem alfabética, a lista dos autores e das publicações conforme as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Vide os seguintes exemplos: a) Livro de um só autor: BENJAMIM, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1986. b) Livro até três autores: NORTON, Peter; AITKEN, Peter; WILTON, Richard. Peter Norton: a bíblia do programador. Tradução de Geraldo Costa Filho. Rio de Janeiro: Campos, 1994. c) Livro de mais de três autores: 248 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 CASTELS, Manuel et al. Novas perspectivas críticas em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. d) Capítulo de livro: BARBIER, René. A escuta sensível na abordagem transversal. In: BARBOSA Joaquim (Org.). Multirreferencialidade nas ciências e na educação. São Carlos: EdUFSCar, 1998. p. 168-198. e) Artigo de periódico: MOTA, Kátia Maria Santos. A linguagem da vida, a linguagem da escola: inclusão ou exclusão? uma breve reflexão lingüística para não lingüistas. Revista da FAEEBA: educação e contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 17, p. 13-26, jan./jun. 2002. f) Artigo de jornais: SOUZA, Marcus. Falta de qualidade no magistério é a falha mais séria no ensino privado e público. O Globo, Rio de Janeiro, 06 dez. 2001. Caderno 2, p. 4. g) Artigo de periódico (formato eletrônico): TRINDADE, Judite Maria Barbosa. O abandono de crianças ou a negação do óbvio. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 19, n. 37, 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 14 ago. 2000. h) Livro em formato eletrônico: SÃO PAULO (Estado). Entendendo o meio ambiente. São Paulo, 1999. v. 3. Disponível em: <http:// www.bdt.org.br/sma/entendendo/atual/htm>. Acesso em: 19 out. 2003. i) Decreto, Leis: BRASIL. Decreto n. 89.271, de 4 de janeiro de 1984. Dispõe sobre documentos e procedimentos para despacho de aeronave em serviço internacional. Lex: coletânea de legislação e jurisprudência, São Paulo, v. 48, p. 3-4, jan./mar, 1984. Legislação Federal e marginalia. j) Dissertações e teses: SILVIA, M. C. da. Fracasso escolar: uma perspectiva em questão. 1996. 160 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1996. k) Trabalho publicado em Congresso: LIMA, Maria José Rocha. Professor, objeto da trama da ignorância: análise de discursos de autoridades brasileiras, no império e na república. In: ENCONTRO DE PESQUISA EDUCACIONAL DO NORDESTE: história da educação, 13, 1997. Natal. Anais... Natal: EDURFRN, 1997. p. 95-107. IMPORTANTE: Ao organizar a lista de referências, o autor deve observar o correto emprego da pontuação, de maneira que esta figure de forma uniforme. 5. O sistema de citação adotado por este periódico é o de autor-data, de acordo com a NBR 10520 de 2003. As citações bibliográficas ou de site, inseridas no próprio texto, devem vir entre aspas ou, quando ultrapassa três linhas, em parágrafo com recuo e sem aspas, remetendo ao autor. Quando o autor faz parte do texto, este deve aparecer em letra cursiva e submeter-se aos procedimentos gramaticais da língua. Exemplo: De acordo com Freire (1982, p.35), etc. Já quando o autor não faz parte do texto, este deve aparecer no final do parágrafo, entre parênteses e em letra maiúscula, como no exemplo a seguir: A pedagogia das minorias está à disposição de todos (FREIRE, 1982, p.35). As citações extraídas de sites devem, além disso, conter o endereço (URL) entre parênteses angulares e a data de acesso. Para qualquer referência a um autor deve ser adotado igual procedimento. Deste modo, no rodapé das páginas do texto devem constar apenas as notas explicativas estritamente necessárias, que devem obedecer à NBR 10520, de 2003. 6. As notas numeradas devem vir no rodapé da mesma página em que aparecem, assim como os agradecimentos, apêndices e informes complementares. 7. Os artigos devem ter, no máximo, 60 mil caracteres com espaços e, no mínimo, 30 mil caracteres com espaços; as resenhas podem ter até 5 páginas. Os resumos de teses/dissertações devem ter, no má- Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 249 ximo, 250 palavras, e conter título, número de folhas, autor (e seus dados), palavras-chave, orientador, banca, instituição, e data da defesa pública, assim como a tradução em inglês do título, resumo e das palavras-chave. Atenção: os textos só serão aceitos nas seguintes dimensões no processador Word for Windows ou equivalente: • letra: Times New Roman 12 • tamanho da folha: A4 • margens: 2,5 cm • espaçamento entre as linhas: 1,5; • parágrafo justificado. Os autores são convidados a conferir todos os itens das Normas para Publicação antes de encaminhar os textos. Deste modo, será mais rápido o processo de avaliação e possível publicação. Para contatos e informações: Administração Secretária: Dinamar Ferreira E-mail: [email protected] Tel. 71.3117.2316 Editora Geral Tânia Regina Dantas E-mail: [email protected] Editora Executiva: Liége Maria Stija Fornari E-mail: [email protected] / [email protected] Site da Revista da FAEEBA: [email protected] 250 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade ISSN 0104-7043 Semestral thematic journal of the of Education Faculty I – UNEB Norms for publication I – EDITORIAL POLICIES The Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade is a thematic and semestral periodic which have for objective to stimulate and promote the exchange of informations and of results of scientific research, in the field of education, interacting with the other social sciences, interconnected to the regional, national and international community. The Revista da FAEEBA receive only original works which analyze and discuss matters of scientific and cultural interest and that can be classified according to one of the following modalities: • essays: theoretical studies with analysis of concepts; • research results: text based on research data • reviews of literatures: ample critical analysis of the literature upon some specific theme; • critical review of a recent publication; • interviews with recognized researchers; • abstract of PhD and master thesis. Submitted works should be unpublished and should not be submitted simultaneously to other journal. Papers written in Portuguese, Spanish, French and English are received. Views published remain their authors’ responsibility. Texts originally in French and English may be translated into Portuguese and published after a revision made by the author or by someone he has suggested. Themes and terms of the futures volumes are published in the last volumes are also available on-line at www.revistadafaeeba.uneb.br. In each volume, appears also the list of academic journals with which the Revista da FAEEBA have established cooperation. II – RECEIVING AND EVALUATING SUBMITTED WORKS Texts submitted are initially appreciated by the Editor which will confirm reception. If they are edited in accordance with the norms, they will be sent, anonymously so to assure neutrality, to other member of the editorial committee or to ad hoc evaluators of known competence . Evaluators’ reports will confer the submitted work scientific quality and class them in four categories: a) publishable without restrictions b) publishable with restrictions; c) publishable with restrictions and modifications after new evaluation; d) unpublishable. Evaluators’ reports are sent anonymously to the authors. In the b) or c) case, the works should be modified according to the report’ suggestion in the terms determined by the editor in agreement with the authors. Modifications made should appear in red so as to permit verification. After the grammatical revision of the text, the correction of the bibliography, and the revision of the part in English, the authors(s) will receive the text for an ultimate opportunity to make small corrections in a week. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 251 III – COPYRIGHTS Submitting text to the journal means authorizing for publication. Accepting a text for publication imply the transfer of copyrights to the journal. Whatever complete or partial reproduction (more than 500 hundreds words) requires the written authorization of the editorial committee. As the Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade is a periodic journal, preference will be given to the publication of texts related to the theme of each volume. Other selected approved text may only be published in a special section called Studies depending of available space in each volume or in a future volume more in touch with the text content. If, after a year, no possibility of a publication emerges, the text can be liberated for publication in another journal if this is the will of the author. The main author of a paper will receive three copies of the volume in which his paper was published. The author of an abstract or a review will receive one. IV – Sending and presenting works Texts as well as ulterior communication should be sent exclusively to the e-mail address of the editor ([email protected]). In should be explicited initially a) at which modality the text pertains; b) ethical procedures; c) copyrights concession to the Revista da FAEEBA: Educação e Contemporaneidade. Works should respect the following norms: 1. In the first page, should appear: a) the paper’s title; b) authors’ name, address, telephones, e-mail; c) main title; d) institutional affiliation and post. 2. Resumo and Abstract: each with no more than 200 words including objective, method, results and conclusion. Immediately after, the Palavras-chave and Keywords, which desired number is between 3 and 5. Authors should submit high quality translation. 3. Figures, graphics, tables and photographies (TIF, grey, dpi 300), if presented separately should come with indication of their localization in the text, have a title and indicates author and reference. In this sense, the tabular norms of tabular presentation, established by the Brazilian Conselho Nacional de Estatística and published by the IBGE in 1979. 4. Under the title Referências should appear, at the end of the paper, in alphabetic order, the list of authors and publication according to the norms of the ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). See the following examples: a) Book of one author only: BENJAMIM, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1986. b) Book of two or three authors: NORTON, Peter; AITKEN, Peter; WILTON, Richard. Peter Norton: a bíblia do programador. Tradução de Geraldo Costa Filho. Rio de Janeiro: Campos, 1994. c) Book of more than three authors: CASTELS, Manuel et al. Novas perspectivas críticas em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. d) Book chapter: BARBIER, René. A escuta sensível na abordagem transversal. In: BARBOSA Joaquim (Org.). Multirreferencialidade nas ciências e na educação. São Carlos: EdUFSCar, 1998. p. 168-198. e) Journal’s paper: MOTA, Kátia Maria Santos. A linguagem da vida, a linguagem da escola: inclusão ou exclusão? uma breve reflexão lingüística para não lingüistas. Revista da FAEEBA: educação e contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 17, p. 13-26, jan./jun. 2002. f) Newspaper: SOUZA, Marcus. Falta de qualidade no magistério é a falha mais séria no ensino privado e público. 252 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 O Globo, Rio de Janeiro, 06 dez. 2001. Caderno 2, p. 4. g) On-line paper : TRINDADE, Judite Maria Barbosa. O abandono de crianças ou a negação do óbvio. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 19, n. 37, 1999. Available at: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 14 ago. 2000. h) E-book: SÃO PAULO (Estado). Entendendo o meio ambiente. São Paulo, 1999. v. 3. Disponível em: <http:// www.bdt.org.br/sma/entendendo/atual/htm>. Acesso em: 19 out. 2003. i) Laws: BRASIL. Decreto n. 89.271, de 4 de janeiro de 1984. Dispõe sobre documentos e procedimentos para despacho de aeronave em serviço internacional. Lex: coletânea de legislação e jurisprudência, São Paulo, v. 48, p. 3-4, jan./mar, 1984. Legislação Federal e marginalia. j) Thesis: SILVIA, M. C. da. Fracasso escolar: uma perspectiva em questão. 1996. 160 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1996. k) Congress annals: LIMA, Maria José Rocha. Professor, objeto da trama da ignorância: análise de discursos de autoridades brasileiras, no império e na república. In: ENCONTRO DE PESQUISA EDUCACIONAL DO NORDESTE: história da educação, 13, 1997. Natal. Anais... Natal: EDURFRN, 1997. p. 95-107. IMPORTANT: Organizing references, the author should take care of punctuation correct use, so as to preserve uniformity. 5. This journal use the author-date quote system, according to the NBR 10520 de 2003. Bibliographical quotes or quotes from on-line publications, if inserted into the text, should appear between quotation marks or if the quotation is more than three lines long, distanced and without quotation marks with author reference. Examples: 1- According to Freire (1982: p.35), etc. 2-Minority pedagogy is for all (Freire, 1982, p.35). On-line quotes should indicate the URL and access date. Footnotes should only contain explanatory notes strictly necessary respecting the NBR 10520, of 2003. 6. Texts can contain footnotes, thanks, annexes and complementary informations. 7. Papers should have no more than 60.000 characteres and no less than 30.000 characteres including spaces. Reviews are limited to 5 pages. Thesis abstracts should contain no more than 250 words and should include title, number of page, author data, key-words, name of the director and university affiliation, as well as the date of the defense and the English translation of text, abstract and key-words. Look out: texts will only be accepted formated in Word for Windows or equivalent: • font: Times New Roman 12 • paper dimension: A4 • margins: 2,5 cm • line spacing: 1,5; • paragraph justified. Authors are invited to check the norms for publication before sending their work. It will ease the process of evaluation and facilitate an eventual publication. Contact and informations: Administration: E-mail: [email protected] — phone: 71.3117.2316 Editor: E-mail:[email protected] / [email protected] — phone: 71.3353.2971 / 71.9926.5886 Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, jul./dez. 2011 253