XIX ENCONTRO NACIONAL DE GEOGRAFIA AGRÁRIA, São Paulo, 2009, pp. 1-18 ANÁLISE DAS TRANSFORMAÇÕES NA PRODUÇÃO LEITEIRA DE CARAZINHO, RS SOB A INFLUÊNCIA DA PARMALAT. ANALYSIS OF CHANGE IN MILK PRODUCTION OF CARAZINHO, RS UNDER THE INFLUENCE OF PARMALAT. Adriano de Bairros1 [email protected] Luiz Fernando Mazzini Fontoura2 [email protected] RESUMO A partir da década de 1990 ocorreu, em todo o território brasileiro, um crescimento da produção e da produtividade leiteiras. Esse fato é conseqüência das transformações ocorridas na cadeia do leite, a partir desse período. Nesse sentido, o município de Carazinho, RS também apresentou um crescimento na produção e produtividade leiteiras. Como a Parmalat se instalou nesse município na década de 1990, a presente pesquisa procurou verificar o grau de influência tecnológica dessa empresa junto aos produtores de leite do mesmo. Para tanto, escolheu-se, como amostra da pesquisa, um distrito de Carazinho denominado Distrito de São Bento. Palavras – Chave: cadeia do leite; produtores de leite; transformações tecnológicas. SUMMARY Since the 1990s occurred throughout the Brazilian territory, an increase in milk production and productivity. This fact is a consequence of changes in the chain of milk, from that period. Accordingly, the municipality Carazinho, RS also showed a growth in milk production and productivity. As the Parmalat is installed in that city in the 1990s, this research sought to determine the degree of influence that company with technology 1 2 Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. for milk producers of it. To that end, was chosen as the research sample, a district of Carazinho called District of St. Benedict. Keys - Word: chain of milk; milk producers; technological changes. 1 - INTRODUÇÃO A produção leiteira brasileira, a partir da década de 1990 apresentou um crescimento não observado em épocas anteriores. Isso deve-se ao fato das transformações ocorridas na cadeia leiteira desse país, as quais foram conseqüências do fim do tabelamento do leite no ano de 1991, abertura comercial e consolidação do MERCOSUL. Uma das conseqüências diretas dessas transformações foi a crescente instalação e expansão de indústrias de laticínios multinacionais, em território nacional, dentre elas a Parmalat. O Brasil, no que diz respeito ao contexto mundial, ocupava a sexta posição em produção de leite de vaca no ano de 2006, segundo os dados estimados pela FAO. A Produção da Pecuária Municipal (PPM), pesquisa relacionada ao IBGE, registrou uma produção de leite de vaca de 25,4 bilhões de litros para o país, no ano de 2006. Atualmente, a região Sudeste é a maior produtora nacional, concentrando 38,4% do produto. Em seguida vem a Região Sul com 27,7%. Os maiores crescimentos regionais ocorrem no Nordeste (7,6%) e no Sul (6,8%) e em percentual menor no Sudeste (2,1%). Em relação ao Rio Grande do Sul, pode-se dizer que esse estado também apresentou um crescimento expressivo tanto da produção quanto da produtividade do leite a partir da década de 1990, segundo informações extraídas dos Censos Agropecuários realizados pelo IBGE. Da mesma forma, o município de Carazinho apresentou, nesse período, um crescimento significativo da produção e da produtividade do leite. Assim, tendo-se observado essa produção e produtividade do leite no município de Carazinho, e sabendo que a Parmalat foi instalada no mesmo na década de 1990, pretende-se verificar a relação dessa empresa com esse aumento e seu impacto tecnológico sobre a produção leiteira local. Nesse sentido, como uma amostra do contexto municipal, será pesquisado, em um estudo de caso, um distrito desse Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 3 município denominado Distrito de São Bento. Sendo assim, o presente trabalho tem os seguintes objetivos: 1.1 - Objetivo geral: - Avaliar as transformações ocorridas na produção leiteira de Carazinho sob a influência da Parmalat. 1.2 - Objetivos específicos: - Realizar um levantamento do perfil dos produtores de leite do Distrito de São Bento, no que diz respeito aos meios de produção, a fim de avaliar o grau de especialização desses produtores; - Verificar, junto aos produtores tradicionais do Distrito de São Bento, sobre o antes e o depois da instalação da Parmalat no município e o que essa empresa representou no que se refere às transformações na linha de leite escolhida; - Através dessa pesquisa pretende-se verificar se a instalação da Parmalat no município trouxe vantagens para todas as categorias de produtores (pequenos, médios e grandes). 2 - METODOLOGIA A presente pesquisa inicialmente se utilizará de levantamentos bibliográficos referentes à modernização da agricultura brasileira, com a finalidade de compreender como era o contexto que, em anos posteriores, possibilitou em todo o país, no Rio Grande do Sul e principalmente no município de Carazinho, os processos socioeconômicos e tecnológicos, que deram origem à atividade leiteira modernizada. Nesse sentido, quer se entender, a partir desse contexto, o conceito de complexo agroindustrial, para então se compreender o conceito de cadeia agroindustrial e, conseqüentemente, o conceito de cadeia do leite. Assim, a partir do conceito de cadeia do leite, pretende-se destacar um dos elos dessa cadeia, o qual será o foco da pesquisa, que é o elo da produção. Dentro desse elo, destacar-se-á a figura do produtor de leite, através do conceito de produtor especializado e produtor não-especializado. Também será destacado o conceito de 4 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. espaço geográfico, segundo a concepção de Milton Santos, para poder compreender como o município de Carazinho está inserido no contexto dos sistemas de objetos e sistemas de ações. Além disso, se fará uma análise da expansão das empresas multinacionais relacionadas ao setor lácteo brasileiro para poder entender o grande poder de influência que essas empresas têm sobre esse setor de produção. Outrossim, será caracterizada a produção leiteira brasileira, gaúcha e carazinhense no contexto das transformações que se sucederam na cadeia leiteira brasileira a partir da década de 1990. Como apoio do referencial teórico, a EMATER (Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural), a FEE (Fundação de Economia e Estatística) e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) serão de fundamental importância. Em relação ao estudo de caso, será pesquisado um dos distritos do município de Carazinho, denominado Distrito de São Bento, como uma amostra do contexto da produção leiteira municipal. O critério para a escolha desse distrito deve-se ao fato de os produtores de leite do mesmo se localizarem próximos uns dos outros, o que facilita as entrevistas. Nesse sentido, todos os produtores de leite do Distrito de São Bento serão entrevistados. As perguntas, que serão realizadas aos produtores de leite desse distrito, referem-se a um levantamento sobre o perfil da produção leiteira local. Assim, a partir das entrevistas com os produtores de leite, será verificado o grau de especialização dessa produção e as relações dessa especialização com a Parmalat. 3 - REVISÃO BIBLIOGRÁFICA A modernização da pecuária leiteira brasileira é um fato que se concretiza cada vez mais. Os aumentos de produção e de produtividade do leite no Brasil comprovam essa modernização. A partir da década de 1990, com as transformações na cadeia produtiva do leite no país, todos os atores integrantes dessa cadeia modernizaram-se. Assim, a produção leiteira propriamente dita, sendo um dos elos dessa cadeia, também se modernizou, acompanhando essas transformações. Sendo assim, faz-se necessário um entendimento da estrutura da cadeia do leite, para a devida compreensão das reais transformações que se sucederam na mesma, a partir da década de 1990. Nesse sentido, pode-se definir a estrutura da cadeia leiteira, de acordo com DUARTE (2002 p.14-15) da seguinte forma: Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 5 Por exemplo, a cadeia de produção de leite pasteurizado envolve os produtores rurais de leite, as indústrias de laticínios e as empresas de distribuição que fornecem o produto ao consumidor final. Além desses, deve-se considerar a presença das organizações que participam no fornecimento dos equipamentos e de insumos para todos os segmentos da cadeia (leite pasteurizado). Pode-se mencionar os fornecedores de ordenhadeira para os produtores rurais, de energia, de filme de polipropileno para envasar o leite pasteurizado nas indústrias etc. Ainda a presença de bancos e de transportadoras deve ser registrada. Em síntese, a cadeia de produção agroindustrial é conjunto seqüencial de etapas tecnológicas de produção distintas ligadas a um dado recurso natural (leite), ou de um produto/serviço (restaurante). Da mesma forma, PORTUGAL et al (2001) apresenta a cadeia produtiva leiteira do Brasil como composta por três agregados: setor de insumos, produção do leite e industrialização, distribuição e varejo. Nesse sentido, o autor diz que o setor de insumos participa com aproximadamente 9% do valor total agregado em toda a cadeia do leite. No que se refere à produção do leite propriamente dita, o autor aponta como o agregado responsável por 20% do valor da cadeia. Em relação à industrialização e distribuição até o varejo, o autor aponta como o agregado responsável por 25%. O varejo, no entanto é tratado separadamente pelo autor devido ao mesmo ser responsável por uma grande percentagem dentro da cadeia produtiva do leite. Isto é, o varejo é o setor mais organizado concentrando, com isso, quase 50% do total da cadeia produtiva. Dentro da conjuntura da cadeia produtiva do leite, pode-se inferir, sem sombra de dúvidas, que a produção apresenta-se como um elo de fundamental importância não apenas para o pleno funcionamento da cadeia, mas para a própria existência dessa cadeia. Isso porque é nesse elo que se produz a matéria-prima que rege toda a cadeia de produção. Assim, pode-se dizer que é o elo mais importante dessa cadeia. No entanto, essa é a parte da cadeia menos valorizada, principalmente no que diz respeito à lucratividade dos produtores. Nesse contexto, BRESSAN et al (1999, p.269), ao comentar acerca da cadeia produtiva do leite no Brasil, diz o seguinte: Um dos elos frágeis dessa cadeia é, sem dúvida, o da produção. Levantamentos recentes indicam que falta a ela habilidade de se 6 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. organizar em grupos corporativos de pressão capaz de reivindicar dos outros segmentos, inclusive governo, condições mais adequadas de competição no mercado. Além disso, é o segmento que, por ser o provedor de matéria-prima, mais sofre as contingências de mercado, tendo que a elas se adaptar caso queira permanecer na atividade. Demandas sobre qualidade da matéria-prima, adoção de tecnologias de resfriamento tornam-se cada dia mais comuns, exigindo mudanças não apenas na forma de conservação do produto, mas, basicamente, no manejo do rebanho, nas suas condições reprodutivas e sanitárias, no padrão genético dos animais, nos cuidados com sua alimentação, no preparo da mão-de-obra e na transformação do produtor em empresário. No que diz respeito à caracterização dos produtores de leite, pode-se dizer que não há um padrão desses produtores no Brasil, isto é, existem produtores especializados e não-especializados. Assim, os primeiros são privilegiados em relação aos segundos no que se refere à participação nos lucros dentro da cadeia leiteira. Nesse sentido, JANK (1999, p.190) faz a diferenciação conceitual de produtores: Produtores especializados: são aqueles que têm como atividade principal a produção de leite, obtida a partir de rebanhos leiteiros especializados e outros ativos específicos para este fim, tendo investido em know-how, tecnologia, economias de escala, e até alguma diferenciação do produto (a exemplo dos leites tipo A e B). Por especialização entende-se a aplicação de recursos financeiros em elementos de incremento da produção de leite em termos de volume e qualidade, como vacas especializadas de raças européias, alimentos concentrados (farelo de soja, fubá de milho, polpa cítrica, etc.), alimentos volumosos (pastagens e forrageiras de alta produção, silagem, fenação, etc.), equipamentos de ordenha, misturadores, resfriadores de leite, etc. Da mesma forma, o autor também conceitua produtores não especializados: Produtores não-especializados: também chamados de “extratores” ou “extrativistas”, os produtores não-especializados são aqueles que trabalham com tecnologia extremamente rudimentar, para os quais o leite ainda é um subproduto do bezerro de corte (ou vice-versa, dependendo da época do ano) e, por isso mesmo, são capazes de suportar grandes oscilações de preços. Trata-se, na sua maioria, de produtores que encontram no leite uma atividade típica de subsistência, portanto não-empresarial, que serve mais como uma fonte adicional de liquidez mensal, onde os custos monetários são, no geral, bastante reduzidos. (JANK 1999, p.191). Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 7 No que tange ao relacionamento do produtor com a indústria beneficiadora, a mesma apresenta-se, muitas vezes, como indutora da especialização do produtor através do pagamento diferenciado em relação ao leite. Isto é, os produtores que se adaptam às exigências da empresa no sentido da modernização dos meios de produção, recebem lucros superiores aos dos produtores que não se especializam. Assim, segundo JANK (1999, p.233): Após a desregulamentação do mercado, os dados mostram que a atual década está sendo marcada por um intenso processo de seleção e especialização da pecuária leiteira, principalmente em decorrência da introdução de sistemas de pagamento diferenciado por volume individual de produção, qualidade da matéria-prima e regularidade de entrega. Não há melhor forma de especializar (leia-se profissionalizar) o produtor que o pagamento diferenciado. Ao incentivar estes itens, penalizando a falta deles, a indústria força a melhoria dos índices técnicos de produção e o nível de qualidade do produto. SOUZA, (1999, p.104) também ressalta o seguinte, em relação à diferenciação de preços pagos aos produtores e as conseqüências decorrentes disso: Uma outra tendência que tem se verificado no elo da indústria, trata da diferenciação dos preços do leite recebido com base no volume entregue pelo produtor e na qualidade do produto. Nessa linha, as indústrias estimulam a tecnificação da produção e a coleta a granel é a transformação mais significativa, visto que estimula o aumento da produção (a fim de torná-la economicamente viável), mantém a qualidade do produto, e fortalece a fidelidade do produtor à firma, na medida em que a introdução de tanques está sendo financiado por período de três a quatro anos. Assim, percebe-se que as indústrias do leite atuam como indutoras da especialização da produção leiteira, incentivando a modernização dos meios de produção e, conseqüentemente, fazem com que haja o aumento da produção e da produtividade leiteira. No entanto, nem todos os produtores conseguem se enquadrar nesse processo de modernização da produção leiteira. Por essa razão, além de não receberem lucros semelhantes aos dos produtores especializados, os produtores que 8 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. estão aquém do processo de modernização e especialização da produção leiteira correm o risco de serem eliminados do mercado devido à sua fraca competitividade. 4 - RESULTADOS PARCIAIS 4.1 - Características gerais da produção leiteira no Brasil de 1960-2006. O Brasil como um todo possui vocação para a pecuária leiteira, isto é, em todo o território nacional se estabelece esse tipo de atividade. Porém, há diferenciação de volume de produção entre os estados da federação. Nesse sentido, YAMAGUCHI (2004) ressalta que os estados que mais produzem leite são, respectivamente, Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. Em relação às regiões brasileiras, pode-se dizer, a exemplo dos estados brasileiros, que as mesmas também apresentam diferenciações no que se refere à produção leiteira, conforme mostra o quadro 1. Quadro 1 - Produção de leite nas regiões brasileiras no ano de 2006. Regiões Produção (mil litros) Região Norte Região Nordeste 1.220.890 2.881.848 Região Centro-Oeste 3.024.909 Região Sudeste 8.075.325 Região Sul 6.230.777 Fonte: IBGE, Censo Agropecuário de 2006. Org: BAIRROS, A. de No que diz respeito à cadeia produtiva leiteira do Rio Grande do Sul, pode-se inferir que esse estado também foi atingido, a exemplo de todo o país, pelos efeitos das transformações produtivas decorrentes da abertura comercial, desregulamentação do mercado do leite e estabilização da inflação, a partir da década de 1990. Nesse sentido, o Rio Grande do Sul, nos últimos anos, teve um crescimento tanto da produção quanto da produtividade leiteiras, acompanhando as transformações decorrentes em todo o território nacional, conforme aponta o quadro 2. Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 9 Quadro 2 - Total da produção e produtividade leiteiras, no Rio Grande do Sul, da década de 1960 ao ano de 2006. 1960 1970 1975 1980 1985 Produção (mil litros) 605.033,5 778.479 943.461 1.325.945 1.280.804 1995/1996 1.885.640 2006 2.746.710 Produtividade média (litros/vaca/ano) 904,5 955 1.127,9 1.336,5 1.303,2 1.891,9 Fonte: IBGE, Censos Agropecuários 1960 – 2006. Org: BAIRROS, A. de 4.2 - Produção de leite em Carazinho, RS. O município de Carazinho situa-se na região centro-norte do Rio Grande do Sul, no Planalto Médio, e cujas coordenadas geográficas são 28°17’ latitude sul e 52°47’ longitude oeste, conforme mostra a figura 1. Figura 1 - Localização do município de Carazinho no Rio Grande do Sul. Fonte: Anuário Estatístico do RS, 2001. Org: BAIRROS, A. de. 10 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. A atividade leiteira é bastante tradicional nos municípios da região, pois acompanhava a produção de produtos de subsistência como o milho, o trigo e a cevada, gerando uma renda extra aos produtores. Até 1983, existiam duas indústrias na região que adquiriam leite em Carazinho, CCGL e COOLAC, instaladas em Vacaria. O município de Carazinho, compreendido na época por Coqueiros do Sul, Santo Antônio do Planalto e Almirante Tamandaré do Sul, produzia em torno de 10.000 litros/dia. Com a alta da inflação e o pagamento do leite ocorrendo somente no dia 20 de cada mês, um grupo de produtores do município resolveu criar uma indústria (Indústria de Laticínio Carazinho LTDA. – CAMBI), isto ocorreu em 1989. Esta indústria não elevou o preço do leite, apenas antecipou o pagamento. Em agosto de 1992, a CAMBI foi vendida para o Laticínio LACESA de Lajeado, e posteriormente vendida à Parmalat. Nesse contexto de fusão de empresas de laticínios, ESPÍNDOLA & BASTOS (2005, p.32) enfatizam o seguinte: Todavia, a década de 90, caracterizada pela implementação de políticas neoliberais adotadas pelo governo brasileiro, promoveu uma série de redefinições patrimoniais que vão desde a busca de novos sócios à transferência total de ativos e fusões estratégicas. A nova onda de aquisições e fusões na economia brasileira caracterizou-se pela entrada agressiva de empresas de capital externo. No setor de alimentos, bebidas e fumo, as fusões e aquisições com participação de capital externo evoluíram de forma assustadora. Em 1992, das 12 operações de fusões e aquisições realizadas, 8 foram entre empresas nacionais. Já em 1994, das 21 operações realizadas, 09 foram resultado da fusão e aquisição por empresas de capital externo. Esse processo manteve-se no ano seguinte, quando foram realizadas 38 operações, sendo que 24 de domínio do capital forâneo. Nos anos de 1994 e 1995 a prefeitura municipal de Carazinho, juntamente com a EMATER/RS – ASCAR e Parmalat trouxeram 400 novilhas holandesas que foram distribuídas aos produtores da região. No entanto, os principais ou maiores produtores de leite em atividade na época em que a CAMBI foi criada, hoje não estão mais na atividade. Atualmente, a produção de leite nos 4 municípios que compunham o antigo Carazinho (Santo Antônio do Planalto, Coqueiros do Sul e Almirante Tamandaré do sul é de aproximadamente 20.520.000 litros/ano, abrangendo 462 produtores. Hoje, várias empresas da indústria do leite estão se instalando na região ou proximidades, aumentando a demanda pela produção e incentivando o incremento da atividade, tais como: A NESTLÉ em Palmeira das Missões; a CCGL em Cruz Alta; a IBARÉ em Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 11 Sarandi; a Parmalat em Carazinho; a ITALAC em Passo Fundo, a AVIPAL em Teutônia; a Bom Gosto em Tapejara e a Santa Clara em Carlos Barbosa, todas num raio de 100 KM. Nesse sentido, o município de Carazinho está sendo afetado por essas transformações na cadeia produtiva do leite, as quais se repercutem diretamente sobre a produção propriamente dita. Desse modo, a produção leiteira sofre as conseqüências dessas transformações tanto à montante dessa cadeia, bem como diretamente sobre a produção (”dentro da porteira”) e na fase à jusante. Assim, é no âmbito das transformações, da cadeia leiteira brasileira na década de 1990, que se insere a Parmalat no município de Carazinho. Por isso, faz-se de fundamental importância um estudo que revele as reais transformações que se sucederam na produção leiteira desse município após a instalação da Parmalat no mesmo. Os números divulgados pelos Censos Agropecuários do IBGE explicitam o fato de que tanto a produção quanto à produtividade média do leite cresceram nos últimos anos do século XX, no município de Carazinho, conforme pode-se conferir nas figuras 2 e 3. Figura 2 - Produção de Leite em Carazinho: 1960 – 1995/1996. Produção de Leite em Carazinho: 1960 - 1995 Mil Litros 8.000,00 6.000,00 4.000,00 2.000,00 0,00 60 70 75 80 85 95 Fonte: IBGE Org: BAIRROS, A. de Figura 3 – Produtividade Média do Leite em Carazinho: 1960 – 1995/1996. 12 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. Litros/vaca/ano Produtividade do Leite em Carazinho: 1960 1995 3.000,00 2.000,00 1.000,00 0,00 60 70 75 80 85 95 Fonte: IBGE Org: BAIRROS, A. de Realizando-se um contraponto do Censo Agropecuário de 1960 com o Censo Agropecuário de 1995/1996, percebe-se um crescimento tanto da produção quanto da produtividade média do leite nesse período de tempo considerado. Em relação à produção esse crescimento foi da ordem de 78,5%. No tocante à produtividade média esse crescimento foi de 94,7% litros/vaca/ano. No entanto, tanto o crescimento da produção quanto da produtividade média do leite só ganharam destaque no Censo Agropecuário de 1995/1996, haja vista que nos Censos Agropecuários anteriores nem a produção tampouco a produtividade média leiteira apresentaram crescimentos exorbitantes. Esse fato demonstra que o município de Carazinho inseriu-se no contexto das transformações ocorridas na cadeia leiteira brasileira a partir da década de 1990. 4.3 - Características gerais da produção leiteira de São Bento. O Distrito de São Bento possui sete produtores de leite. Dessa totalidade de produtores, seis deles foram entrevistados sobre as características gerais da produção leiteira em suas propriedades. Somente não foi entrevistada a totalidade desses produtores, devido à recusa de um deles em conceder a entrevista. O trabalho de campo nas propriedades produtoras de leite, no Distrito de São Bento, revelou as características da produção leiteira nessa localidade. Nesse sentido, no que diz respeito aos meios utilizados para a produção do leite, a pesquisa mostrou que, da totalidade dos produtores entrevistados, cinco possuem ordenhadeira mecânica, o que proporciona agilidade nesse trabalho. Somente um produtor não possui a ordenhadeira mecânica. Na verdade, esse produtor não possui nenhum meio de produção em sua propriedade. Todos os serviços de produção leiteira e agrícola são Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 13 contratados, conforme relatou a sua esposa. No que se trata do resfriador a granel, somente dois produtores não possuem o mesmo. Nenhum dos produtores entrevistados tem o transferidor automático, pois esse instrumento normalmente é encontrado junto aos produtores que produzem o leite tipo A, o qual é um leite de alta qualidade, e os produtores entrevistados produzem apenas o leite tipo C. Em relação ao lavador automático e ao aparelho que mede a produtividade, todos os produtores que possuem o resfriador a granel também possuem esses instrumentos, pois eles estão acoplados ao resfriador. Em relação a mini-usinas, nenhum dos produtores as possuem. A seguir há uma descrição das características gerais da produção leiteira no Distrito de São Bento, no quadro 3. Quadro 3 – Descrição da produção leiteira do Distrito de São Bento. Descritores Produtor 1 Produtor Produtor 2 3 Produtor Produtor Produtor 4 5 6 23,6 ha 5,7 3 ha 22 ha 15 ha 1,5 ha C C C C C C 200 litros 55 litros 80 litros 120 litros 200 litros 20,8 litros Total de gado 32 cabeças 17 cabeças 15 cabeças 16 cabeças 20 cabeças 6 cabeças Total de vacas ordenhadas Total de leite comercializado Principal produto produzido 12 cabeças 5 cabeças 9 cabeças 8 cabeças 12 cabeças 4 cabeças Toda a produção Toda a Toda a produProdução ção Toda a Toda a Toda a produproduprodução Cão Cão Leite e soja Leite Leite Tamanho da propriedade (ha) Tipo de leite produzido Produção média de leite/dia Leite Leite Leite 14 XIX ENGA, São Paulo, 2009 Produtos secundários Milho Raças do Jersey, gado leiteiro holandesa BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. Milho, Soja, feijão, milho, trigo mandioca, horta e frangos Soja, horta Soja e Milho, milho mandioca Jersey, Jersey, holanholandesa desa, e mestiça Familiar Familiar, associativismo Brucelo- Brucelose, febre se, aftosa, febre carbúnculo, aftosa, carbún- raiva, verminoses, culo, carrapatos raiva, verminoses, carrapatos Jersey, holandesa Jersey, holandesa Familiar, associativismo Brucelose, febre aftosa, verminoses, carrapatos Familiar Tipo de mão-de-obra utilizada Vacinas aplicadas no gado Familiar, assalariada (às vezes) Brucelose, febre aftosa, carbúnculo, raiva, verminoses carrapatos Adubos aplicados no solo Calcário, uréia Adubo orgânico calcário uréia Adubo orgânico, calcário, uréia Sim Não Sim Não Realização de análise do solo Utilização de sementes selecionadas Utilização de silagem Outros alimentos para o gado Complementação mineral Planejamento das parições Idade média Jersey, holandesa, e mestiça Familiar Febre aftosa, carbúnculo, raiva, tristeza, mamite, verminoses, carrapatos Uréia, calcário Brucelose, febre aftosa, carbúnculo, raiva, verminoses, carrapatos, tuberculose Calcário uréia Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Não Não Não Sim Não Calcário Farelo de Farelo Farelo de Milho, Concen- Quebratrigo, soja, de trigo trigo, farelo resto de trados, dinho de milho e soja de soja soja milho soja, milho Sal Sal Sal mineral Sal Sal mineral Sal comum mineral comum comum e sal e sal e sal mineral mineral mineral Não há Sim Não há Não há Sim Não há Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 das novilhas parirem a 1ª cria Tipo de reprodução Padrão genético do reprodutor 3 anos 2,5 a 3 2 anos anos 2 a 2,5 2,5 anos 3 anos anos Monta natural Monta controlada Alta qualidade Monta Natural Alta qualidade Monta natural Alta qualidade Alta qualidade 15 Insemi- Monta nação natural artificial Não há Comum reprodutor Fonte: Trabalho de campo, 2008 Org: BAIRROS, A.de. Produtor 1 – José Domingos Produtor 2 – João Portella Produtor 3 – José Valdinei Produtor 4 – Elaine Batistella Produtor 5 – Juliano Sandri3 Produtor 6 – Edemar Oliveira Silva 5 - CONCLUSÕES PARCIAIS Através do trabalho de campo, pôde-se verificar que a produção de leite do distrito de São Bento apresenta-se numa fase intermediária do processo de modernização. Isso porque os meios de produção do leite, nas propriedades produtoras analisadas, se mesclam entre tradicionais e modernos. Porém, pôde-se perceber, através da pesquisa, que a maioria dos produtores de leite desse Distrito caminha rumo à modernização e especialização da produção. Comprova-se essa afirmação pelo fato de que todos esses produtores têm como principal atividade, em suas propriedades, a produção de leite. Nesse sentido, estão modernizando os meios de produção e demonstram interesse em aumentar a produção e a produtividade leiteiras. O único produtor que não tem mais a intenção de trabalhar com a produção leiteira é o produtor Edemar Oliveira Silva. Isso deve-se aos baixos rendimentos oriundos dessa atividade, conforme afirmações de sua esposa, O produtor Juliano Sandri, quando interrogado sobre as pretensões futuras referentes à produção leiteira, respondeu que permanecerá na atividade, porém não deseja aumentar a produção. De todos os produtores entrevistados do Distrito de São Bento, esse produtor é o mais especializado e modernizado, pois possui equipamentos de inseminação artificial e também uma ceifa utilizada na colheita da soja e do milho. O 3 O produtor Juliano Sandri no ano de 2008 deixou de comercializar a sua produção leiteira com a Parmalat e passou a negociá-la com a Nestlé. 16 XIX ENGA, São Paulo, 2009 BAIRROS, A. e FONTOURA, L. F. M. produtor Juliano sandri também se distingue dos demais produtores de leite do Distrito de São Bento, por realizar a confecção de silagem para alimentar o gado no inverno. Em relação aos equipamentos de inseminação, pode-se inferir que os mesmos permitem ao produtor Juliano Sandri um planejamento total das parições das vacas, conforme ele mesmo ressaltou. Dessa maneira, esse produtor mantém a produção de leite estável durante o ano todo, pois planeja para que as parições ocorram nos períodos de entressafras. Ainda em relação ao planejamento das parições, a pesquisa mostrou que o produtor João Portella também o realiza, porém somente através da monta controlada, pois não possui os equipamentos de inseminação artificial. No entanto, conforme mostrou a pesquisa, a reprodução do gado ocorre através de um reprodutor de alta qualidade genética. No tocante aos produtores que permanecerão na atividade leiteira e desejam aumentar ainda mais a produção, modernizando-a, pode-se citar, conforme mostrou a pesquisa, o produtor João Portella, o qual comentou que já encomendou 8 vacas leiteiras com o intuito de aumentar a produção. Esse mesmo produtor há poucos meses atrás (aproximadamente maio de 2008) comprou um resfriador a granel e, como conseqüência disso, passou a beneficiar-se das políticas de diferenciação dos preços imputadas pela Parmalat. Outro exemplo a ser destacado é o da produtora Elaine Batistella, a qual demonstrou interesse em comprar um resfriador a granel. Com isso, essa produtora irá lucrar três centavos a mais no quesito qualidade e, conseqüentemente, três centavos a mais no quesito quantidade, haja vista que a sua produção mensal já ultrapassa a quantidade mínima exigida para que a produtora usufrua dessas políticas de diferenciação dos preços. Também se pode citar o exemplo do produtor José Domingos, pois o mesmo também demonstra interesse em aumentar a sua produção de leite. Para essa finalidade, esse produtor tem a pretensão de comprar mais terras e modernizar os meios de produção de leite. O produtor José Valdinei também pretende continuar na atividade leiteira e especializar a produção através da modernização dos meios de produção. No que diz respeito à Parmalat, pode-se inferir que a mesma está induzindo essa produção à modernização. Uma das formas dessa indução está relacionada ao fato dessa empresa realizar pagamentos diferenciados pelo leite adquirido junto aos produtores. Isto é, a Parmalat paga 3 centavos a mais, por litro de leite, aos produtores Análise das transformações na produção leiteira de caRazinho, rs sob a influência da Parmalat, pp. 1-18 17 que possuem resfriadores a granel e também 3 centavos a mais, por litro de leite, para os produtores que entregam mais de 3 mil litros mensais. Nesse sentido, a Parmalat remunera melhor os produtores mais especializados, contribuindo para a modernização da produção. A pesquisa de campo revelou, de fato, que a Parmalat tem atuado no Distrito de São Bento como um agente de modernização da produção leiteira, principalmente, como já fora ressaltado, através do pagamento diferenciado aos produtores que possuem o resfriador a granel, sendo, portanto, uma indutora de tecnologia. Porém, segundo essa mesma pesquisa, o agente maior de modernização da produção leiteira local tem sido o poder público, através da EMATER local. Isso porque os projetos concernentes aos resfriadores a granel, bem como a outros elementos da produção, como por exemplo, ordenhadeiras mecânicas, matrizes e insumos, são protagonizados pela EMATER. Nesse sentido, vê-se a importância do Estado para a modernização da produção leiteira, não apenas do Distrito de São Bento, mas de todo o município de Carazinho. 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