Anais do XIII Encontro de Iniciação Científica da PUC-Campinas - 21 e 22 de outubro de 2008
ISSN 1982-0178
Comparação do nível de stress entre idosos que moram com a
família e aqueles que vivem em casa de repouso.
Gabriela Linhares Areias
Faculdade de Psicologia
Centro de Ciências da Vida
[email protected]
Resumo: O presente estudo visou comparar o nível
de stress entre idosos que vivem institucionalizados e
os que vivem com a família e analisar a qualidade de
vida dos dois grupos. Os dados foram coletados através do Inventário de Qualidade de Vida, Inventário
dos Sintomas de Stress de Lipp e de uma entrevista
estruturada. A amostra foi composta por 50 idosos.
Palavras-chave: Stress, Qualidade de Vida, Idosos.
Área do Conhecimento: Ciências Humanas - Psicologia.
INTRODUÇÃO
Segundo Neri [1], para definir uma velhice como bem
sucedida, em termos de qualidade de vida, leva-se
em conta ausência de doenças físicas e mentais
crônicas e de incapacidades funcionais. Uma das
condições importantes para que isto ocorra é que o
idoso tenha envolvimento social ativo. Completando
essa idéia, Alcântara [2] aponta que uma velhice saudável é “manutenção da saúde ao longo de todo ciclo
vital, e não apenas cuidados paliativos”.
Para Moragar [2], a “família tem como responsabilidade satisfazer as necessidades físicas, psíquicas e
sociais” dos idosos, sendo este o seu dever moral.
Alcântara (2004), acrescenta ainda que a atitude da
família está diretamente relacionada ao valor atual da
cultura. Assim, no Brasil, é esperado um suporte por
parte da família.
O inicio da institucionalização (confiar alguém aos
cuidados de uma instituição), segundo Alcântara [2],
visava atender os idosos desamparados, principalmente a população pobre, ou seja, os asilos e instituições eram vistos como uma caridade aos que necessitavam. Atualmente essa visão se modificou, e
hoje, tornou-se direito da população da terceira idade
um lugar para poder descansar e viver os seus próximos anos de vida.
Segundo Debert [3], o asilo pode ser avaliado de duas formas: como um lugar para abandonar os idosos,
excluindo-os da sociedade ou um lugar onde eles se
Marilda Emmanuel Novaes Lipp
Grupo de Pesquisa: Estudos Psicofisiológicos do
Stress.
Centro de Ciências da Vida
[email protected]
libertam das angústias e da pressa da população
mais jovem, um ambiente em que se convive com
pessoas de uma mesma realidade.
Complementando essa idéia, Perlini [4] destaca que,
algumas vezes, optar por um asilo visa melhores
condições físicas, psíquicas e sociais para o idoso,
porém um fator agravante é que em algumas instituições existem maus-tratos, estrutura física deficiente
e falta de mão-de-obra capacitada para atender essa
população de forma adequada.
Junto com a decisão entre institucionalizar ou não um
idoso, existe um aspecto agravante na velhice, o stress. Sabe-se que o stress está presente em todas
as fases da vida humana Lipp [5], e que este, segundo Lipp [6], é um desgaste geral do organismo causado por alterações psicofisiológicas que ocorrem
quando a pessoa se vê obrigada a enfrentar uma
situação que desperte uma emoção forte. Provocando sintomas tanto no corpo (físico) quanto na mente
(psíquico). Para a autora o stress é classificado pelo
modelo quadrifásico, sendo suas fases alerta, resistência, quase exaustão e exaustão.
OBJETIVOS
1) Comparar o nível de stress entre idosos que vivem
em casas de repouso e os que vivem com a família,
relacionando com o suporte psicossocial.
2) Analisar a qualidade de vida dos dois grupos.
MÉTODO
Participantes: A amostra foi composta por 50 idosos,
com idade entre 63 e 77 anos, sendo 24 do sexo
masculino e 26 do sexo feminino. 25 participantes
moravam em casas de repouso e o restante morava
sozinho ou com a família, porém recebia apoio desta.
Foi critério de exclusão da amostra: idosos em casa
de repouso que recebem muito apoio da família e
idosos que mesmo não morando em asilos não recebiam apoio social.
Para avaliar se o idoso recebia ou não apoio familiar,
levou-se em conta o tanto de vezes que a família liga
ou visita o mesmo. Desta forma aqueles que recebiam, no mínimo, um telefonema por semana e/ou
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uma visita por mês foram classificados como pessoas que recebem apoio familiar.
A presente pesquisa foi orientada pala Drª Marilda
Emmanuel Novaes Lipp.
Instrumentos e Medidas:
• Inventário de Qualidade de Vida (Lipp & Rocha,
1996): ainda está em processo de validação e tem
como objetivo avaliar a qualidade de vida da pessoa através de quatro quadrantes: social, afetivo,
profissional e da saúde.
• Inventário dos Sintomas de Stress para Adultos
(Lipp, 2000): validado e padronizado para a população brasileira (Lipp, 2000). O ISSLL permite o diagnóstico do nível e da fase do stress em que a pessoa se encontra. É composto de 3 quadros que apresentam sintomas de natureza física e psicológica e revela a severidade do quadro do stress emocional.
• Entrevista Estruturada: Entrevista desenvolvida
com 14 questões abertas com o objetivo de coletar
informações qualitativas relacionadas a vida do indivíduo.
Local de pesquisa: A pesquisa foi realizada em uma
Instituição Particular de Campinas e nas residências
de alguns idosos.
Procedimento:
Coleta de dados: Uma entrevista inicial foi realizada
com os participantes para explicação da pesquisa e
do termo de consentimento. Uma vez, assinado o
termo, ocorreu aplicação dos instrumentos citados.
Cada participante foi avaliado separadamente.
RESULTADOS OBTIDOS
Alguns autores acreditam que a relação entre o nível
de stress nos idosos e o relacionamento social é significativa, e inversamente proporcional. No entanto
para que uma pessoa nessa fase consiga eventos
positivos parece ser de extrema importância o suporte oferecido pela família. Tendo esse suporte o idoso
se sente amado e seguro para lidar com os fatores
estressantes que surgem na terceira idade.Através
dos dados coletados, pode-se perceber que a porcentagem de idosos com stress é maior no grupo
que vive em casa e repouso (Tabela 1), e a porcentagem referente ao sucesso na qualidade de vida é
maior entre o grupo que recebe apoio da família (Tabela 2). A bibliografia consultada mostra que a relação entre o nível de stress e o sucesso na qualidade
de vida são inversamente proporcionais, este dado
pôde ser observado através dos resultados obtidos.
Tabela 1 – Comparação entre o nível de stress dos
grupos de idosos.
Sem
Stress
Casa de
Repouso 48%
Moram
sozinhos
ou com a
família
68%
Resistência
Quase
Exaustão
Exaustão
36%
16%
0%
32%
0%
0%
Tabela 2 – Comparação entre a qualidade de vida dos
grupos de idosos.
Casa de
Repouso
Moram
sozinhos
ou com a
família
Com Sucesso
Sem Sucesso
4%
96%
20%
80%
Notou-se também, que, com relação aos quadrantes
de qualidade de vida, a maior diferença percentual
entre os grupos encontra-se nos quadrantes afetivo e
no social (Tabela 3). Esta diferença pode estar diretamente relacionada à falta do apoio familiar no diaa-dia desses idosos; pois apesar dos idosos, que
vivem em casa de repouso, algumas vezes saírem e
se socializarem eles sentem a falta dos familiares, o
que pode ser observado na fala de um dos idosos
avaliados:
“...no começo eles vinham todas as semanas, passavam parte dos domingos aqui, mas agora... mal telefonam, é claro que faz falta, mas o que a gente pode
fazer?! Se acostumar né...” M. 73 anos.
Tabela 3 – Comparação entre os quadrantes da qualidade de vida dos grupos de idosos.
Quadrante Quadrante Quadrante
Social
Afetivo
Profissional
Casa de
Repouso 48%
Moram
sozinhos
ou com a
família
80%
Quadrante
da Saúde
48%
44%
12%
92%
72%
16%
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A diferença encontrada no quadrante profissional
está relacionada ao que a literatura aponta como
perda do status financeiro. Os idosos que moram na
casa de repouso não trabalham mais, e quando fazem alguma atividade é para ajudar no funcionamento do local. Já os idosos que estão com a sua família
ou moram sozinhos ainda tem alguns afazerem, apesar de já estarem aposentados, todos os idosos avaliados ainda praticam alguma atividade profissional,
mesmo em alguns casos não sendo remunerada, o
que parece trazer uma satisfação pessoal, como pode ser observado na fala de O. 66 anos:
“... não é porque a gente fica velho que tem que parar de fazer as coisas que gosta, eu ainda trabalho lá
na empresa, mesmo agora fazendo menos coisa,
não tem nada melhor do que ainda se sentir capaz...”
A diferença pode ser vista na frase de A., 67 anos
que mora na casa de repouso:
“... a gente fica aqui, é bom, é nossa casa... eu tenho
vários amigos, tem algumas atividades pra fazer,
mas eu sei que não sou mais útil como antes, não dá
pra fazer tudo que fazia não, a idade chega...”
Em relação ao quadrante da saúde, a diferença pode
ser observada de forma mais qualitativa do que
quantitativa, pois os idosos que moram na casa de
repouso tomam medicamentos e não sabem ao certo
o que há de errado, o porquê daqueles medicamentos, e todos tomam mais de um por dia. Os idosos
que moram sozinhos ou com a família, sabem explicar qual remédio tomam, o nome e o motivo, sendo a
maioria para pressão e prevenção de osteoporose.
Outro dado que deve ser apontado, é o motivo que
leva os idosos à morarem em casas de repouso, pois
segundo a literatura isso vai influenciar na forma com
que a institucionalização é percebida pelo idoso, ou
seja, a qualidade de vida também está relacionada
com essa visão.
Do grupo pesquisado, 20% foram por ter ficado doente, 20% por se sentirem muito sozinhos, 52% foram colocados pela família e 8% foram porque acharam que iam se sentir melhor. Desta forma, destacase que o único idoso, institucionalizado, que teve sucesso na qualidade de vida foi um dos que optou pela institucionalização.
A diferença entre a percepção sobre a institucionalização pode ser exemplificada ao compararmos a
frase de dois moradores, sendo que a primeira se
refere a um morador que foi levado pela família, e a
segunda de uma moradora que foi por achar que
seria melhor:
“...depois de ficar velho ninguém mais quer saber de
você, então tenta te convencer que vim pra cá é o
melhor, no começo até vem visitar, depois passa e
eles não vêm mais, eu até entendo, eles são muito
ocupados, tem toda uma vida, enquanto eu, só tenho
espero a morte chegar, já fiz tudo que tinha pra fazer...” G., 72 anos.
“... meus filhos tinham os afazeres deles, não podem
me dar atenção o tempo todo, depois que meu marido morreu resolvi vim pra cá, e aqui construí uma
nova família, tem festa, às vezes a gente sai pra passear, dá até pra namorar...” V., 69 anos
A visão de ‘nova família’ citada por V. foi encontrada
na fala de 88% dos idosos, porém eles também afirmam que apesar de os moradores serem sua nova
família, a verdadeira família faz muita falta. Essa visão pode estar relacionada com o tempo que os idosos estão institucionalizados, 80% da amostra estão
lá há mais de um ano, o que faz com que eles estejam habituados a rotina e ao convívio com os outros.
A porcentagem relacionada ao número de idosos de
casa de repouso que não apresentam stress ser alta,
pode estar diretamente relacionada com o tempo de
institucionalização que os mesmos têm. Ou seja, devido ao fato do stress ser um desgaste do organismo
que ocorre quando a pessoa é obrigada a enfrentar
situações que despertem emoções fortes, talvez esses idosos já tenham se habituado a essa situação, o
que faz com que não tenham um nível alto de stress.
Conclui-se então, que a falta do apoio familiar no diaa-dia dos idosos tem maior implicação quando está
relacionada à qualidade de vida dos mesmos, pois
após se adaptarem a nova situação, o nível de stress
pode ser reduzido. No entanto, aspectos emocionais,
afetivos sofrem grandes conseqüências negativas,
apesar de, na maioria dos casos, os idosos considerarem que constituíram uma nova família, foi evidenciado que sentem falta do apoio dos membros de sua
família.
REFERÊNCIAS
[2] Alcântara, A. O. (2004). Velhos Institucionalizados
e Família: entre abafos e desabafos. São Paulo: Ed.
Alínea.
Dados do IBGE (2008), recuperado em 12 de Novembro, 2007, disponível www.ibge.gov.br
[3] Debert, G. G. (2004). A reinvenção da velhice.
São Paulo: Edusp.
Ramos, M. P. (2002). Apoio social e saúde entre idosos; Sociologias n.7 Porto Alegre, recuperado em 12
de Novembro, 2007, disponível www.scielo.br.
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ISSN 1982-0178
Ferreira, L. L. C. (2006), Stress no cotidiano da equipe de enfermagem e sua relação com o cronótipo,
Tese (mestrado em enfermagem) – Instituto de Enfermagem, Universidade Estadual de Campinas.
Lipp, M. E. N. (2004). O Stress no Brasil: pesquisas
avançadas. Campinas: Papirus.
Lipp, M.E.N. (1999). O Stress Está Dentro de Você.
(6ª ed). Campinas: Contexto.
Lipp, M. E. N., & Malagris, L. N. (1996). Mitos e Verdades Sobre o Stress. (2ª ed). São Paulo: Contexto.
Lipp, M. E. N. (1996) Anais do Simpósio sobre Stress
e suas Implicações. Campinas: Puc-Campinas, v. 1.
[5] Lipp, M.E.N , Malagris, L.E.N., & Novais, L.E.N.
(2007). O stress ao longo da vida. São Paulo: Ed.
Ícone.
[6] Lipp, M. E. N.; Nery, M. J.; Romano, A. S., & Covolan, M. A.(1998). Como Enfrentar o Stress. 4. ed.
São Paulo: Ícone.
Lipp, M.E.N., & Rocha, J.C. (2008). Pressão alta e
stress: o que fazer agora? Campinas: Papirus Neri,
A. L.; YASSUDA, M. S., & CACHIONI, M. (2004). Velhice Bem Sucedida. Aspectos Afetivos e Cognitivos.
1. ed. Campinas: Papirus.
[1] Neri, A. L. (2001). Desenvolvimento e Envelhecimento. Perspectivas Biológicas, Psicológicas e Sociológicas. 1. ed. Campinas: Papirus.
[4] Perlini, N.M.O.G.; Leite, M.T., & Furini, A.C.
(2007). Em busca de uma instituição para a pessoa
idoso morar: motivos apontados por familiares; Ver.
Esc. Enferma. USP v.41 n. 2 São Paulo, recuperada
em 12 de novembro, 2007, disponível em
www.scielo.br.
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