Da enciclopédia à Wikipédia: maximização da concepção dialógica da linguagem no ciberespaço Ludmila Kemiaci (UFCG) Eanes Torres Pereiraii (UFCG) Resumo: Neste artigo, propomos uma reflexão sobre a relação linguagem / conhecimento, a partir da análise de um fenômeno dos nossos dias: a Wikipédia, aqui entendida como uma “enciclopédia hipertextual”. Com base nos estudos de Levy (1999; 200) acerca do ciberespaço e da cibercultura, e com fundamento na visão de Bakhtin (1929; 1953) sobre linguagem e discurso, argumentaremos que o hipertexto maximiza a concepção dialógica da linguagem. Palavras-chave: Wikipédia, linguagem, hipertexto. Abstract: In this paper, we propose a reflection about the relationship between language and knowledge from the analysis of an actual phenomenon: the Wikipedia, here it is understood as an “Hypertextual Encyclopedia”. Based on the studies of Levy (1999; 200) about the ciberspace and ciberculture, and on the Bakhtin point of view (1929; 1953) about language and discourse, we will argue that hypertext maximizes the dialogical conception of language. Palavras-chave: Wikipedia, language, hypertext. Introdução No século XVIII – época em que se pretendia dissipar as trevas da ignorância com as luzes da razão – Jean le Rond d’Alembert e Denis Diderot lançaram a Ecyclopedie, precursora das modernas enciclopédias, contendo 28 volumes e 71 818 artigos. Montesquieu, Rousseau e Voltaire colaboraram com aquele projeto que pretendia abarcar o máximo possível do conhecimento humano disponível à epoca. O mundo, como se sabe, muito mudou nesses últimos três séculos. A emergência da internet e do ciberespaço, frequentemente definido como “espaço líquido”, “mutável”, nos abisma perante o acesso a um conhecimento que em muito transcende os vinte e oito volumes da Ecyclopedie. As relações interativas também se inscrevem em uma nova lógica: não mais temos alguns sábios falando ou escrevendo a muitos; agora, todos falam para todos. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 1 Na base dessas revoluções, certamente vertiginosas, encontra-se uma tecnologia que nos acompanha nessa odisséia que se estende para além de 2001, e que remonta às origens mesmo da hominização. Na base de toda tecnologia, eis que está a tecnologia primeira: a linguagem. E o que é a linguagem senão um elo muito complexo, sem um começo ou fim, na cadeia comunicativa de uma esfera, como tão sabiamente postulou Bakhtin? A linguagem possibilita e serve como base para a construção dos hipertextos, enredados numa teia infinita, num elo em que não se concebe o princípio, não se imagina o fim. Como pensar o conhecimento nesse elo? Como pensar a linguagem que fundamenta esse conhecimento? Neste artigo, propomos algumas ideias, ou, antes, propomos alguns diálogos sobre a relação linguagem/conhecimento, a partir da análise de um fenômeno dos nossos dias: a Wikipédia, aqui entendida como uma “enciclopédia hipertextual”. Argumentaremos que o hipertexto maximiza a concepção dialógica da linguagem, no sentido bakhtiniano. Para tanto, em um primeiro momento, apresentaremos algumas ideias sobre tal concepção; em seguida, discutiremos as novas relações interativas instauradas no ciberespaço, ao traçar brevemente o percurso que vai da enciclopédia à Wikipédia; por fim, será discutida a tese central deste texto (segundo a qual o hipertexto é a máxima expressão da concepção dialógica da linguagem), a partir da análise de uma página da Wikipédia. A concepção dialógica da linguagem Para Bakhtin (1992), “um enunciado concreto é um elo na cadeia da comunicação verbal de uma dada esfera”. Cada enunciado, surgindo como resposta a enunciados precedentes, motiva uma resposta no destinatário. Nesse processo dialógico, o locutor incorpora os enunciados que antecedem o seu, refutando-os ou assimilando-os a seu dizer. O dialogismo constitui, assim, a realidade fundamental da língua. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 2 Outros autores, filiando-se a diversas linhas teóricas, desenvolveram conceitos semelhantes a esse apresentado por Bakhtin, quais como: interdiscursividade, heterogeneidade constitutiva ou mostrada, intertextualidade. A interdiscurividade, segundo Maingeneau (1989), é a relação de um discurso com outros discursos, a partir de um processo de re-configuração, de incorporação de elementos pré-construídos, produzidos fora de uma formação discursiva, em um jogo de construção de identidades a partir da alteridade. O conceito de heterogeneidade proposto por Authier-Revuz (1982), por sua vez, desdobra-se em “heterogeneidade mostrada” e “heterogeneidade constitutiva”. Aquela entendida como formas de inscrição do Outro em um dizer, que podem ser marcadas (o discurso direto, o aspeamento, etc) ou não-marcadas (o discurso indireto livre, a ironia, a metáfora, etc); esta vista como característica inerente a todo discurso, que, no entanto, não aparece marcada lingüisticamente, uma vez que pertence ao nível do inconsciente do locutor. Koch (2001), analisando o conceito de intertextualidade – tão frequente na literatura linguística – faz uma distinção entre a intertextualidade em sentido restrito e a intertextualidade em sentido amplo. Segundo a autora, a intertextualidade em sentido amplo é a condição de existência do próprio discurso, e pode ser aproximada do que a análise do discurso denomina interdiscursividade ou heterogeneidade constitutiva. Já a intertextualidade em sentido restrito pode ser caracterizada como a relação de um texto com outros textos previamente existentes. Bakhtin, no entanto, ao que nos parece, não se detém a fazer tantas distinções entre aquilo que compreende uma relação dialógica no nível mais amplo da condição de existência do próprio discurso e o dialogismo no interior do enunciado, como sugere o conceito de intertextualidade ampla e restrita definido por Koch (2001). Para Bakhtin, ocupando cada enunciado uma posição definida numa dada esfera da comunicação verbal em relação a um dado problema, “não podemos determinar nossa posição sem correlacioná-la com outras posições”. É por isso que Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 3 todo enunciado é repleto de reações-respostas que assumem as mais variadas formas. Vejamos o que diz o autor a respeito dessas formas assumidas: Podemos introduzir diretamente o enunciado alheio no contexto do nosso próprio enunciado, podemos introduzir-lhe apenas palavras isoladas ou orações que então figuram nele a título de representantes de enunciados completos (...); também é possível, num grau variável, parafrasear o enunciado do outro depois de repensá-lo, ou simplesmente referir-se a ele como a opiniões bem conhecidas de um parceiro discursivo; é possível pressupô-lo explicitamente; nossa reação-resposta também pode refletirse unicamente na expressão de nossa própria fala – na seleção dos recursos lingüísticos e de entonações, determinados não pelo objeto de nosso discurso e sim pelo enunciado do outro acerca do mesmo objeto. (...) Por mais monológico que seja um enunciado (...). por mais que se concentre no seu objeto, ele não pode deixar de ser também, em certo grau, uma resposta ao que já foi dito sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo problema. (op. cit., p. 316-317, grifo nosso). Conforme se pode observar no trecho destacado, a heterogeneidade de um enunciado (reação-resposta a outros enunciados) pode não ser perceptível, já que um enunciado pode parecer monológico. No entanto, esse enunciado aparentemente monológico é resultado de relações dialógicas, que podem também não estar explícitas. Fiorin (2006), analisando o conceito de dialogismo em Bakhtin, examina se é possível distinguir, a partir das idéias do teórico russo, os conceitos de interdiscursividade e de intertextualidade. Esses conceitos atrelar-se-iam, por sua vez, a uma diferenciação entre “texto” e “enunciado”, este entendido como interdiscurso e aquele como “manifestação do enunciado”. A interdiscursividade consistiria em relações de sentido entre enunciados, ao passo que a intertextualidade compreenderia um processo da “relação dialógica não somente entre duas ‘posturas de sentido’, mas também entre duas materialidades lingüísticas”. As relações intertextuais e interdiscursivas seriam formas externas, visíveis de dialogismo. Não se deve, porém, reduzir o dialogismo bakhtiniano a essa formas (visíveis ou não), mas entendê-lo como pressuposição para a própria existência da linguagem enquanto fluxo comunicativo ideológico e social. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 4 Nesse sentido, o dialogismo bakhtiniano parece ser um conceito muito mais amplo, que recobriria todos os demais conceitos expostos acima (heterogeneidade, interdiscursividade, polifonia, intertextualidade). O dialogismo, enquanto pressuposto para a existência da linguagem, é o aspecto responsivo que caracteriza as línguas humanas. Assim, enquanto os conceitos supracitados parecem delimitar um campo específico da linguagem para analisar a interação inerente à língua (a intertextualidade delimitaria o texto, a relação entre textos; a interdiscursividade delimitaria a constituição de sentidos, etc.), o conceito de dialogismo abarca a língua como uma cadeia de relações responsivas. Por conseguinte, esse conceito articula-se à noção de interação entre enunciados e enunciadores. Se considerarmos que o dialogismo – e é com esse conceito que trabalharemos – abarca todos os demais, é válido dizer que só existem relações interdiscursivas, intertextuais e heterogêneas porque existe o fenômeno dialógico, ou seja, porque a linguagem é dialógica em essência. Em síntese, assim pode ser resumido o pensamento bakhtiniano acerca da linguagem enquanto fluxo dialógico: todo enunciado surge no seio de uma dada esfera, integrando uma cadeia comunicativa. A materialidade do discurso pode ou não refletir (assimilar em diferentes graus e de diferentes formas) os enunciados precedentes que motivaram um determinado acontecimento discursivo. Mesmo que certos discursos não sejam perceptíveis em um enunciado, o discurso que é efetivamente materializado constitui-se em relação a outros discursos, em um embate constante, que transforma a linguagem em uma arena ideológica. Se o enunciado pressupõe relações dialógicas como condição de existência, o que dizer do hipertexto, “nova forma enunciativa” (XAVIER, 2009), cujos hiperlinks instauram uma relação, sem centro ou fim, entre textos? O que dizer, por exemplo, da Wikipédia, que se apresenta como uma “enciclopédia virtual” em conexões infinitas? Discutiremos essas questões nas seções subseqüentes. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 5 Da enciclopédia à Wikipédia, ou “do sonho iluminista à enciclopédia hipertextual” Do grego transliterado enkyklios paideia, que significa literalmente “conhecimento circular”, a enciclopédia foi inicialmente concebida pelos iluministas, entre 1751 e 1772, como um livro ou conjunto de livros que versam de modo bastante geral sobre uma ampla variedade de assuntos. Grande parte dos filósofos iluministas da época contribuiu para esse projeto que pretendia abarcar todo o conhecimento. A ânsia por transcrever todo o conhecimento humano para um meio acessível, como um livro ou conjunto de livros, acompanha a humanidade há milhares de anos. Um exemplo é o conjunto de obras escrito por Aristóteles sobre os seres vivos. Ao apresentar índices e referências para vários textos, contidos ou não no mesmo volume, ou em outros livros, uma enciclopédia poderia ser concebida, de forma restrita, como um “hipertexto não digital”. hipertexto é muito mais conhecido nos dias de Não obstante, o termo hoje devido à outra “materialização”: não as páginas de celulose, mas as páginas da World Wide Web (doravante referida aqui apenas como Web). A Web foi criada por um grupo de cientistas do CERN (Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire), tendo como principal fundador o cientista Tim Bernes Lee (BRIGGS e BURKE, 2004). A intenção inicial era que a Web (na época, interna à rede de computadores do CERN e contendo apenas texto com ligações para outros textos) servisse como uma espécie de quadro de avisos para que os cientistas pudessem trocar informações sobre suas pesquisas. Porém, quase que em paralelo ocorria nos EUA um movimento de interligação das redes de computadores de algumas universidades, com intenções semelhantes à da Web: troca de dados e informações. Outro fenômeno que também ocorria neste período era a miniaturização dos componentes utilizados para construir os computadores, diminuição dos preços dessa tecnologia e sua consequente popularização. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 6 Toda esta onda evolucionária levou o computador para grande parte dos lares, das empresas e das instituições de ensino do mundo. O que era antes uma máquina de calcular gigante com aplicações puramente bélicas, entrou nos lares e permitiu que pessoas sem nenhuma formação científica tivessem acesso a poderes de processamento computacional semelhantes senão superiores ao poder de processamento que as grandes potências mundiais possuíam no período da segunda grande guerra. Com a popularização, as pessoas começaram a criar e a descobrir novas aplicações para o computador e para a Web. Hoje, a internet é uma aldeia global habitada por pessoas com os mais variados interesses, desde instituições religiosas tentando salvar almas até criminosos tentando cometer os mais variados tipos de crimes, alguns desses crimes mais novos que a própria Web. Mais recentemente, em 2001, entrou em funcionamento na Web um sistema que viria a se tornar outro fenômeno da cooperação em rede: a Wikipédia. A Wikipédia é uma página Web que permite aos leitores adicionarem ou alterarem o conteúdo de suas páginas. O termo Wikipédia é proveniente de outros dois: wiki e enciclopédia. Os sistemas “wiki” são sistemas de página Web utilizados internamente por instituições para permitir que seus funcionários alterem o conteúdo das páginas Web com mais facilidade do que se usassem a linguagem nativa de criação de páginas Web: a HTML (Hypertext Markup Language). O pós-fixo “pédia” provem da intenção da Wikipédia, qual seja, se tornar uma enciclopédia mundial na qual todas as pessoas podem inserir e alterar os conteúdos. No entanto, com a intenção de evitar informações enganosas ou falsas, há pessoas que assumem o papel de moderadores e verificam a veracidade e coerência das informações postadas pelos colaboradores – se a informação possuir algum problema é descartada. Para além do sonho iluminista, a Wikipédia, ao possibilitar a remissão a textos dos mais diversos através dos hiperlinks, constitui uma verdadeira “enciclopédia hipertextual” – uma enciclopédia na qual o conhecimento é, em tese, infinito, ilimitado. Ao mesmo tempo, uma nova relação com o conhecimento aí se instaura. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 7 Pierre Lévy (2000), afirma que o espaço cibernético introduz um novo tipo de interação, por ele denominada de “Todos e Todos”, “que é a emergência de uma inteligência coletiva” (p. 13-14). Se no livro tradicional, e, por conseguinte, nas enciclopédias de celulose, havia uma interação do tipo “Um e Todos” (um ou uns escreve(m) para muitos), na Wikipédia Todos escrevem para Todos, já que, com o hipertexto, toda leitura é uma escrita em potencial. No espaço virtual wiki, o leitor pode tornar-se autor de um artigo, sem a necessidade de aprender a programar ou aprender a linguagem de marcação HTML. Esta facilitação se deve ao fato de os sistemas Wiki, em geral, possuírem apenas algumas tags que permitem a alteração rápida do texto. Isto permite também que um fenômeno extraordinário ocorra: o conhecimento humano passa a ser armazenado em uma localização virtual única, podendo ser pesquisado rapidamente a qualquer instante e em qualquer lugar do mundo. Portanto, podemos afirmar que a Wikipédia é uma das expressões máximas da Inteligência Coletiva do ciberespaço. Essa “inteligência coletiva” instaura-se, sobretudo, a partir de uma nova forma enunciativa, que maximiza a concepção dialógica da linguagem, conforme discutiremos a seguir. Diálogos sem fim O hipertexto, para Xavier (2009), constitui uma “forma enunciativa inédita e exclusiva da qual emerge o modo de enunciação digital” (p. 127, ênfase do autor). Essa nova forma enunciativa constroi novos modos de produção e recepção. A nãolinearidade, a convergência de linguagens, a imaterialidade, a ubiquidade e a intertextualidade infinita são apresentadas pelo autor como características do hipertexto. Considerando a Wikipédia uma “enciclopédia hipertextual”, centremonos nossa atenção nesta última característica mencionada: a intertextualidade infinita. Xavier (op. cit.) afirma que “A internet é o aporte digital midiático e o espaço que torna mais evidente este fenômeno próprio da linguagem: a intertextualidade” Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 8 (p. 124), considerando que o “hipertexto acentua a função e as vantagens da intertextualidade por meio dos links” (p. 125). O autor define o hipertexto como: Uma rede de links entre palavras, ideias e fontes sem centro ou fim. Não se pode dizer que exista um hipertexto principal no sentido forte deste termo; não há um hipertexto central ou mesmo algum centro em qualquer hipertexto que esteja disponível on line. (XAVIER, 2009, p. 107, grifos nossos). Se retomarmos as ideias apresentadas anteriormente, referentes à concepção dialógica da linguagem, veremos que o conceito de “intertextualidade”, tanto em sentido amplo, como em sentido restrito, pode ser abarcado pelo conceito de dialogismo, entendido como ideia muito mais ampla, de cunho filosófico, discursivo e textual (SOBRAL, 2009). Nesse sentido, podemos afirmar que só existem relações intertextuais porque a linguagem é dialógica – esse é seu modo de funcionamento, sua condição de existência. Ora, a relação entre hipertextos, fundamentada nas ligações entre “links” infinitos, revela não apenas o funcionamento textual (ou intertextual) dos gêneros digitais, mas seu funcionamento discursivo e mesmo filosófico, seu “modo peculiar” de existência – não existe hipertexto sem ligações com outros hipertextos. Logo, diríamos que a internet torna mais evidente o princípio dialógico da linguagem, por meio do funcionamento do hipertexto. Para ratificar essa afirmativa, comparemos a última citação em destaque (XAVIER, 2009, p. 107) com a citação abaixo: Não existe a primeira nem a última palavra e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro do diálogo. (BAKHTIN, 1992, p. 410). Bakhtin concebe a linguagem e os sentidos como um elo sem um começo preciso ou um fim absoluto, pois “não existe a primeira nem a última palavra”. Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 9 Xavier, por seu turno, concebe o hipertexto como uma espécie de “elo sem fim”, já que não existe “um hipertexto central”. Um hipertexto remete a outro, sem que se possa precisar o começo ou o fim dos sentidos instaurados. O que é o hipertexto, portanto, senão a máxima expressão da concepção dialógica da linguagem? Para defender essa ideia, analisemos uma página da Wikipédia, aqui entendida como “enciclopédia hipertextual”. Figura 1: Página de Wikipédia Preliminarmente, podemos afirmar que a Wikipedia constitui, em sentido amplo, uma reação-resposta (no sentido de “atitude responsivo-ativa”) às enciclopédias em celulose. Muito além de propor uma nova forma de leitura, caracterizada pela deslinearidade, a Wikipédia instaura uma nova relação com o saber. Pierre Lévy ( 1999) afirma que o ciberespaço estabelece essa nova relação com o saber, agora transmitido “pelas coletividades humanas vivas, e não mais por suportes separados fornecidos por intérpretes ou sábios” (p. 164, grifos do autor). Na Wikipédia, cada leitor pode torna-se autor, pois os verbetes são construídos por colaboradores e não por uma parcela restrita de “sábios”. No artigo acima exposto sobre “dialogismo” (Figura 1), encontramos o seguinte aviso: “Este artigo sobre Linguística é um esboço. Você pode ajudar a Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 10 Wikipédia expandindo-o”. Se clicarmos nessa última expressão (“expandindo-o”), seremos levados a uma página da Wikipédia que contém instruções sobre como produzir um artigo. O leitor é, portanto, “guiado” a se tornar também um autor. Em termos bakhtinianos, considerando que toda palavra é prenhe de resposta, esse hiperlink propõe uma atitude responsivo-ativa para aquele que se encontra na condição de leitor. Tal atitude pode materializar-se sob a forma de um novo artigo, mantendo a cadeia dialógica que fundamenta a Wikipédia e que instaura essa nova relação com o saber, na qual todos podem colaborar com todos. Por associação à expressão “dialogismo”, estão sob a forma de hiperlinks outras expressões próprias desse campo semântico, como “discurso” e “polifonia”. Tais hiperlinks conduzem a outros artigos no interior da própria Wikipédia, assumindo a função de “hiperlinks endofóricos”, segundo a classificação proposta por Xavier (2009). Mais que remeter a outros artigos, esses hiperlinks propõem, para o leitor, diálogos entre conceitos, possibilitando “vínculos e associações intertextuais que se aproximam das que são efetuadas pelas memórias privilegiadas de ‘eruditos’ leitores de impresso” (XAVIER, op. cit. p. 125). Se os discursos estão em constante diálogo, os hiperlinks explicitam esses diálogos sem fim, ao tempo em que direcionam o leitor para determinados caminhos, apresentam a porta para novos conhecimentos que podem ou não ser descortinados. O hiperlink, sendo condição de existência do hipertexto, remetendo a outros hipertextos, a outras ideias, instaurando diálogos em tese infinitos, maximiza a concepção dialógica da linguagem, entendida como elo em uma cadeia ininterrupta de palavras, discursos, sentidos. Considerações finais: diálogos que aqui não se esgotam Novos modos de leitura e produção certamente se descortinam com a emergência do hipertexto. A Wikipédia, ao se constituir como “enciclopédia hipertextual”, não apenas concretiza essas novas formas de produção/leitura, como também estabelece uma nova e emblemática relação com o saber – uma Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação 11 relação na qual já não se supõe um centro, na qual não se vislumbra um fim. De Todos para Todos o conhecimento se espraia. De Todos para Todos também se espraiam diálogos infinitos, para muito além do sonho iluminista. Neste artigo, defendemos a ideia segundo a qual o hipertexto é a máxima expressão da constituição dialógica da linguagem. Preferimos o termo dialógico ao termo intertextualidade, uma vez que aquele, segundo discutimos, nos parece uma expressão de sentido mais amplo, que pode recobrir este último. Se a linguagem é a tecnologia primeira, e se o diálogo é a pressuposição para a existência da linguagem, somos envolvidos por diálogos infinitos ao entrarmos no ciberespaço – diálogos que não se esgotam, que evidenciam não existir a primeira nem a última palavra. A cada novo clique promovemos a renovação do diálogo, o futuro do diálogo estendido em um passado sem limites e em um porvir sem horizontes. Referências Bibliográficas AUTHIER-REVUZ, J. Hétérogénéité montrée et hétérogénéité constitutive: éléments pour une approche de l’autre dans le discours. DRLAV 26. Paris, 1982, p. 15-91. BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In ______. Estética da criação verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 1992 [1953]. p. 279-326. BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à internet. Trad. de Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2004. FIORIN, José Luiz. Interdiscursividade e intertextualidade. In: BRAIT, Beth (org.). 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