FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE – FACS CURSO: ENFERMAGEM A ENFERMAGEM E A MULHER QUE VIVENCIA O ABORTO Em Busca de uma Assistência Humanizada Marcela Garcia de Souza BRASÍLIA Maio / 2007 Marcela Garcia de Souza A ENFERMAGEM E A MULHER QUE VIVENCIA O ABORTO Em Busca de uma Assistência Humanizada Trabalho apresentado ao curso de Enfermagem da Faculdade de Ciências da Saúde (FACS) do Centro Universitário de Brasília - UniCEUB, como parte dos requisitos necessário para obtenção do título de Enfermeiro. Orientadora: MSc. Josiane Maria de Oliveira. Brasília, maio de 2007. Dedico este trabalho a todas as mulheres que algum dia já passaram pela experiência de um aborto e aos profissionais que às assistiram. AGRADECIMENTOS Algumas pessoas contribuíram de forma decisiva para realização desta pesquisa e deste sonho que está próximo de se tornar realidade. Saibam que a vitória é nossa! Quero agradecer antes de qualquer coisa a Deus que foi quem me iluminou durante toda essa caminhada. Agradeço à minha família que é sem dúvida o alicerce da minha vida. Ao meu pai que sempre me incentivou e aceitou minha decisão quando abandonei um curso no meio e optei por seguir a profissão de enfermagem, pela qual me apaixonei. Mesmo com o alto investimento de dois apartamentos (brincadeirinha), a recompensa chegou e espero ter atendido às suas expectativas. À minha mãe, que quase se formou comigo, pois quantos trabalhos que ela digitou... Mãe, amiga, tudo, impossível de definir, pois ela acompanhou todos os passos, todas as minhas noites em claro, agüentou meus estresses, me incentivou, foi meu cerimonial nos preparativos para o casamento, já que a Monografia consumiu meu tempo e pela preocupação nestes últimos dias, demonstrada com gestos de carinho, como café da manhã na cama, insistência para ajudar a digitar, massagem e chamando minha atenção para eu diminuir o ritmo e descansar um pouco. Valeu mãe! Ao meu irmão que no início não dava o valor real para a profissão que eu escolhi, mas que ao conviver e conhecer a importância do nosso trabalho passou a ver a enfermagem com outros olhos. Marcel, obrigada pela ajuda na realização desta monografia, que você sabe o quanto foi difícil para eu realizá-la. Mesmo com você me pentelhando sobre a importância da realização de um trabalho como este, continuo não gostando e afirmando que não nasci para a pesquisa e sim para a assistência. Ainda bem, que existem pessoas como você que gostam... Ao meu namorado, noivo e futuro marido Breno, que me fez sentar e começar a escrever, ter tido paciência e compreender, mesmo que às vezes com alguma discussão, a minha ausência e a necessidade de ter que finalizá-la. Pode ter certeza que vou te recompensar por cada dia que não te dei atenção, carinho e beijinho. Agora você tem que entender, que ainda vou lhe faltar, pois tenho que terminar de resolver os preparativos do nosso casamento, com certeza é por uma boa causa, não acha? Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. “EU TE AMO MUITÃO”. Ao meu filhotinho, Bam Bam que teve paciência e compreensão, por estas últimas semanas, pelo seu abandono. Meu companheiro, que mesmo dormindo e roncando, ficou ao meu lado todos esses dias. A mamãe te ama príncipiiii !!!!!. A todas as pessoas da minha família, avô que lá de cima eu sei que olhou por mim todos esses anos, à minha avó Irene e Ediméa que foram uma das minhas primeiras pacientes. Ao meu tio Velô, que sempre fez um marketing sobre a minha pessoa, minha tia Lúcia que sempre foi uma segunda mãe, minha prima, irmã e amiga Patrícia, que apesar de um período longe, eu sei que sempre torceu por mim, a Dani e suas pimpolhas Larissa e Luana que fazem parte desta caminhada. Obrigada por tudo, saibam que vocês são parte da escrita dessa história. À minha amiga Paula, que foi a pessoa que me sugeriu por começar um curso Técnico de Enfermagem e que daí eu me encontrei. Amiga, apesar dos plantões ter nos afastado fisicamente, saiba que você continua e continuará sendo minha melhor amiga, obrigada pela dica. À tia Ly (mãe), tio Gu, Sâmia, que sempre estiveram ao meu lado. As minhas amigas de 2º Grau, Juju, Bibi, Taty, Ana Paula, Lilika, Bia, Gisa, Renata e Biba, as quais caminharam ao meu lado em grande parte da minha vida estudantil e que mesmo de longe acompanharam e torceram pela minha graduação, só faltava eu, né? Temos que comemorar! À minha amiga Martinelli que me incentivou e nunca deixo de me dizer que apesar do tempo curto nossas monografias iram ficar prontas. Tati você é DEZ, melhor, você é MAIS que dez, porque você é MIL! Apesar dos obstáculos e dos barracos na sala de aula, essa formatura vai sair, e não se esqueça o mérito é nosso, mais seu do que meu, mas tudo bem... Ás minhas amigas que conheci na vida acadêmica, Tati, Vivi, Carol, Mônica, Paty Mele, até que enfim escrevi seu nome certo, Renata, Bruna, Rosângela, você foi uma mãezona, Paty A, Lud que nos proporcionou um almoço muito bom durante o estágio em Planaltina, todas vocês me fizeram rir e me divertir muito, mesmo quando os barracos aconteciam entre nós mesmas, valeu!!! A todos os meus amigos do Bueiro, de Sobradinho, do Guará e as pessoas amigas que me incentivaram e acreditaram que eu era capaz. Valeu! A Elisa, minha acumpunturista, amiga e mãe adotiva, que sempre me acolheu e me incentivou fazendo eu acreditar na minha capacidade. Aguarde-me que quero uma sessão antes da apresentação da monografia, estou precisando. Durante todo processo acadêmico e na época de meu curso técnico, tiveram professores que foram deixando sua marca a cada dia que se passava e foram imprescindíveis para esta conquista e para meu crescimento como pessoa. À Enfermeira Kleyde e Tânia do curso técnico que me fizeram ver a Enfermeira que existia dentro de mim, vocês são brilhantes e me ensinaram o que em poucas escolas ensinam, a importância do respeito, do acolhimento e do cuidar que devemos ter com o nosso paciente. Ao professor Celso que nos ensinou fisiologia brincando, eu não tenho palavras para defini-lo. Ah, lembrei... Você é chique bem! Fátima, que paixão pelas criancinhas! Não tem como falar de Pediatria e Amamentação e não lembrar dela. Rosângela, com a “bendita” sistematização da assistência de enfermagem. A Syrlene, que nos mostrou a saúde mental de maneira sensível e humana. A Geruza que foi responsável, desde os tempos do curso técnico, pela minha paixão por obstetrícia, você é a verdadeira “advogada” das mulheres. Rita Minetto, que é a “Mil e uma utilidades” do CEUB, você é especial e nos ensinou literalmente muita coisa. Às professoras de estágio, Débora, que mostrou um exame físico completo brincando. A Solé que é um amor de pessoa e com seu jeitinho calmo e doce nos explicou como deve ser uma referência bibliográfica. À Kelly que me ajudou e me incentivou na realização do meu projeto de monografia e com quem nos divertimos muito durante o estágio de gineco-obstetrícia. A Josiane que com seu jeito rigoroso, tem um bom coração e me orientou na monografia, obrigada e desculpe pela dificuldade. Quero também agradecer aos meus clientes, que se não fossem por eles o meu aprendizado teria sido insuficiente, me desculpem por qualquer coisa... As minhas amigas do HRAS, que trocaram plantões quando eu precisei, liberaram o primeiro horário para eu dormir e por terem me dado força durante esses anos, vocês são demais!!! Ângela nem se fala, pessoa como você não existe... Agradeço e peço desculpas se por acaso deixei de citar alguém, mas sintam-se abraçados, beijados e agradecidos. Sejam compreensivos, pois são quase quatro anos e meio que está história vem sendo escrita. RESUMO O presente estudo procurou identificar as variáveis etiológicas sobre o aborto, suas consequências, propondo assim uma assistência de enfermagem direcionada ao processo de abortamento. Foi um estudo do tipo bibliográfico realizado no período de janeiro a maio de 2007, sendo utilizado como fontes livros, artigos, revistas e jornais publicados entre 2000 e 2007. Durante seu desenvolvimento realizou-se um breve histórico, foram descritos dados epidemiológicos, revisado questões referentes sua etiologia e consequências do aborto espontâneo e provocado, como seus aspectos éticos-legais relacionados com a prática do aborto e os profissionais da saúde, além de mostrar como está sendo e deveria ser a assistência de enfermagem humanizada e direcionada aos aspectos físicos e emocionais dessa mulher. Percebeu-se na pesquisa que o aborto é um tema polêmico desde a antiguidade e que vem sendo ignorado durante muito tempo pelas autoridades do país. Contudo, atualmente é imprescindível que seja melhor avaliado, os impactos que sua consequências já vem trazendo e podem vir a trazer para toda população brasileira. Além disso, foi de suma importância ter sido possível avaliar o quanto á assistência, a essas mulheres, está sendo negligenciada, estigmatizada e desumana por grande parte dos profissionais responsáveis pela saúde da mulher. Este trabalho pode trazer o interesse de outros alunos e profissionais de enfermagem sobre está temática. PALAVRAS CHAVES: Aborto, Enfermagem e aborto, Aborto espontâneo, Aborto provocado, Aborto legal, Aborto e Assistência de enfermagem. SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................................9 JUSTIFICATIVA.........................................................................................................................13 OBJETIVOS.................................................................................................................................14 - Objetivo Geral - Objetivos Específicos METODOLOGIA........................................................................................................................15 CAPÍTULO I – O PROCESSO DE ABORTAMENTO..............................................................16 1.1– História e Epidemiologia.......................................................................................16 1.2– Fisiopatogênia do Processo de Abortamento.........................................................21 1.3– Aborto Provocado: Aspectos causais e suas consequências..................................29 1.4– Aspectos Éticos-Legais do Aborto.........................................................................34 1.5 – Aspectos Psicológicos...........................................................................................38 CAPÍTULO II – ASSISTÊNCIA VOLTADA À MULHER QUE SOFRE OU PROVOCA O ABORTO: Revisão e Reflexões...................................................................................................40 2.1 – O papel da Enfermagem........................................................................................40 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................................46 REFÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................................48 INTRODUÇÃO “Abortamento é a interrupção da gravidez até a 20ª - 22ª semanas e com o produto da concepção pesando menos que 500g. Aborto é o produto da concepção eliminado no abortamento” (M.S, 2005, p. 22). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2004), e conceituação aprovada pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO, 1976), abortamento é a expulsão ou extração do concepto pesando menos 500 g ou com idade gestacional (I.G) igual ou inferior á 22 semanas completas (140 – 154 dias completos) (Montenegro, 2003). Halbe & cols (2000), ressalta que o aborto é considerado precoce quando acontece até á 12ª semana de gestação e é dito tardio quando ocorre entre a 13ª e 22ª semanas de gestação. Também, pode-se dividir em: aborto espontâneo ou aborto provocado. Os espontâneos são aqueles que acontecem sem ação deliberativa de qualquer espécie, e os provocados ou induzidos são aqueles que alguém decidiu pela interrupção da gravidez antes de atingida a viabilidade fetal, com os propósitos mais variados. Designa-se aborto terapêutico, aquela que se prática com o objetivo de salvaguardar á saúde ou a vida da mãe. Segundo a OMS (1995), “o aborto como alternativa cirúrgica à contracepção está regulamentado na maioria dos países” (Lowdermilk, Perry e Bobak, 2002). No que tange a sua conceituação, o colégio americano de obstetras e ginecologista estabeleceu, alguns pontos para sua definição (Neme, 2000): A continuação da gravidez poderá ameaçar à vida materna, ou prejudicar de modo significativo a sua saúde; A gestação decorre de incesto ou estupro; A gravidez poderá resultar, em sua continuação, no nascimento de uma criança com deformidades físicas graves ou incompatíveis com a sobrevida ou retardamento mental. O aborto quando provocado expõe a mulher a riscos e sérias complicações. De acordo como e em quais condições é feito o aborto, o risco de complicações tende, consideravelmente, á aumentar. As literaturas, utilizadas pelo autor, relatam que o aborto se realizado em condições 9 adequadas os riscos de complicações diminuem significativamente. Do contrário, se realizado de maneira ilegal, pode ser considerado um grande perigo para mulher (Olinto, 2006 e M.S, 2005). Estimativas da OMS (2004), refere que metade das gestações é indesejada, sendo que a cada nove mulheres, uma recorre ao aborto para interromper a gravidez (Manual M.S, 2005). Em todo o mundo cerca de 26 a 31 milhões de abortos legais são realizados e estima-se que anualmente são realizados de 10 a 22 milhões de abortos clandestinos. Onde o aborto é legal, na maioria das vezes ele é seguro. No entanto, em locais onde o aborto é ilegal, são comuns as complicações, e cerca de 150 mil mulheres morrem ao ano em virtude dessas complicações (Berek, 2005). Conforme Neme (2000), a chance de ocorrer um abortamento aumenta conforme o número de abortos sofridos anteriormente. É descrito que o risco é de 10% no caso da mulher já ter tido um abortamento anterior, aumentando para mais de 20% nas mulheres com relatos de dois abortos e nas com quatro abortamentos, sobe para 50% a chance de ocorrência de um novo aborto (apud Knudsen, 1991). A incidência total de abortos clínicos e subclínicos é de 40 a 45% das gravidezes, daí o abortamento ser considerado a principal complicação da gestação. “A taxa de abortamento espontâneo aumenta discretamente com a paridade, com as idades materna e paterna, e com gestações com menos de três meses de intervalo do último parto” (Halbe, 2000). Segundo AGI (1999), no Manual Técnico de Atenção Humanizada ao Abortamento (2005), do M.S, estima que anualmente 18 milhões de gestações ocorrem na América Latina e no Caribe, e que destas, 52% não haviam sido planejadas e 23% terminara em aborto. É calculado que no Brasil, 31% de todas as gestações terminam em abortamento. Estimativas colocam haver anualmente 1.443.350 abortamentos, sendo de 3,7 abortos/100 mulheres em idade de 15 a 49 anos, o que mostra ser bastante superior aos valores encontrados em locais que a prática do aborto é legal e acessível, como nos países da Europa ocidental (AGI, 1994 apud M.S, 2005). Conforme The Alan Guttmaches Institute (1999), “em países em que as mulheres têm acesso a serviços seguros, sua probabilidade de morrer em decorrência de abortamento realizado com métodos modernos não é maior do que uma para cada 100.000 procedimentos” (Manual M.S, 2005). 10 “Conforme o Manual de Urgências e Emergências Materna do M.S (2003) o aborto representa a quarta causa de morte materna no país, mas em algumas capitais é a mais freqüente”. No Brasil, o código penal de 1940 estabeleceu que não punirá o aborto decorrente de (Neme, 2000 e M.S, 2005): Risco de vida materno, ou seja, não há outro meio de salvar a vida da mulher (art. 128, I). Gravidez resultante de violência sexual caracterizada como estupro, com consentimento da mulher ou, se incapaz, do seu representante legal (art. 128, II). A jurisprudência brasileira tem autorizado, com o consentimento da mulher, a interrupção da gestação nos casos de malformação fetal com inviabilidade de vida extra-uterina (M.S, 2005). A assistência á mulher que sofre um aborto está totalmente descaracterizado dos preceitos éticos-legais e de humanização que tanto se fala e rege a saúde. As pacientes são ignoradas, mal assistidas e, na sua maioria, estigmatizadas pelos profissionais ao chegarem na unidade hospitalar. A falta de orientação sobre a questão dos cuidados que deve ser tomado após o aborto, também não é realizado por alguns profissionais. Assim sendo é de suma importância que a mulher e seu parceiro receba orientações sobre a questão da fertilidade e da necessidade do uso de métodos contraceptivos, devido a fertilidade feminina retornar quase imediatamente após o abortamento e ser importante evitar a gravidez por pelo menos no período de três a seis meses decorrido o aborto. (Corrêa & cols., 2004). O Ministério da Saúde, afirma que o tratamento desumano, baseado no prejulgamento dos profissionais de saúde e a demora de iniciar o tratamento necessário, vêm contribuindo para o óbito das mulheres com quadro de aborto (M.S, 2003). De acordo com Silva, “não há como separar o emocional do fisiológico quando o assunto é o ser humano, pois a recuperação do cliente não depende de fatores bioquímicos, mas sim, do quanto ele é aceito ou rejeitado, á vontade ou constrangido enquanto hospitalizado” (Motta, 2005, p. 2). 11 O acompanhamento psicológico das mulheres que sofrem um abortamento, independente do tipo, de deve ser instituído em todas unidades de saúde, devido elas correrem riscos de desencadearem algum transtorno mental em conseqüência do mau enfrentamento do luto (M.S, 2005). 12 JUSTIFICATIVA Minha vivência e observação em hospitais sobre a falta de assistência humanizada e individualizada ao processo de abortamento, o descaso e a negligência por parte da maioria dos profissionais da equipe de saúde, os quais deveriam sensibilizar-se com este processo vivenciado por algumas mulheres, foi um dos pontos mais motivantes para a realização desta pesquisa. Esses fatores podem vir a desencadear conseqüências físicas e psicológicas irreversíveis se estas mulheres não forem bem assistidas e o papel dos profissionais da saúde pode favorecer um melhor enfrentamento desta problemática. Neste caso a escolha desta temática torna-se instigante ainda mais, por ser um assunto que poucas pessoas e profissionais se interessam, ou se sentem à vontade em falar, devido tanto ao seu estrito relacionamento com a morte e com o término de um sonho para algumas pessoas, bem como pelos estigmas e preconceitos arraigados no imaginário social. Outro fator relevante na escolha foi o fato deste ser um tema que causa polêmica e questiona valores sócio-culturais e religiosos que impulsiona a busca pelo conhecimento mais aprofundado, pois se acredita que o conhecimento é uma das maiores armas contra o preconceito e futuramente como enfermeira à autora poderá fazer uso desta informação para amenizar o preconceito e favorecer uma melhor assistência as mulheres com sua prática e divulgação do saber adquirido. 13 OBJETIVOS - Objetivo Geral Ampliar o conhecimento sobre os aspectos físicos, psicológicos e legais do aborto, buscando um atendimento humanizado e melhorando assim, a assistência de enfermagem no acolhimento e recuperação da mulher que vivência o processo de abortamento. - Objetivos Específicos Identificar as variáveis etiológicas do aborto espontâneo e provocado; Avaliar as conseqüências físicas, psicológicas e somáticas do processo de abortamento para a mulher; Propor uma assistência de enfermagem direcionada à mulher no processo de abortamento, incluindo o esclarecimento dos aspectos legais referentes a esta temática. 14 METODOLOGIA O referente estudo será do tipo bibliográfico, sendo realizado no período de janeiro a maio do ano de 2007. Segundo Gil (2002), a pesquisa bibliográfica é realizada a partir de livros e artigos científico que já foram elaborados anteriormente. Embora seja exigido, na maioria dos estudos, algum tipo de trabalho científico, há pesquisas que são elaboradas apenas com base em fontes bibliográficas. As fontes utilizadas para a pesquisa serão revistas, dissertações, artigos, teses e livros publicados entre os anos de 2000 e 2007. A utilização de bases de dados eletrônicas será feita através do uso dos seguintes descritores: aborto; enfermagem and aborto; aborto espontâneo; aborto provocado; aborto legal; aborto e legislação; assistência humanizada e aborto. 15 CAPÍTULO I O PROCESSO DE ABORTAMENTO 1.1 – História e Epidemiologia “A palavra “aborto” tem uma conotação extremamente negativa. Deriva da palavra latina oriri, acrescida do prefixo ab (aboriri), que significa não nascer, afastar-se da vida, ou seja, a morte antecipada” (Halbe, 2000, p.187). Halbe (2000), relata que nas sociedades primitivas, o aborto era associado à culpa da mulher por comportamento indevido, pela ação de maus espíritos ou pela crença de que a gravidez se originou em condições violentas ou contra os preceitos vigentes (apud Quayle). Nesses casos, as prescrições relacionadas ao fato incluíam rituais extremamente violentos, até mesmo a morte da mulher que abortava. Desde a existência humana a mulher enfrenta situações as quais não desejaram. Sendo que existem interesses políticos econômicos e religiosos, que prevalecem sobre o direito da mulher de decidir á respeito do seu próprio corpo (Arcoverde, 2005 e M.S, 2005). Sumérios, assírios, os códigos de Hamurabi e dos persas, que vão desde 2000 a.C, proibiam o aborto e puniam severamente quando acontecia. Entre 2737 e 2696 a.C, o imperador chinês Shen Nung cita, em texto médico, a receita de um abortífero oral. (Schor, S.P). Na Grécia antiga, o aborto era defendido e até recomendado por Aristóteles, Platão e Sócrates, com motivo de limitar o número de nascimentos para manter a população grega estável, deveria ser obrigado por motivos eugênicos e que o aborto deveria ser facilitado, pelas parteiras, para as mulheres que assim o desejassem. Entretanto Hipócrates, em seu juramento, assumiu o compromisso de não provocar o aborto (Arcoverde, 2005). Os gauleses determinavam que o aborto era direito incontestável do pai, pois ele era o chefe da família e pertencia a ele o direito da vida dos filhos. Já em Roma antiga o aborto era considerado uma prática comum, sendo que dependia da época em questão, quando a população declinou, no segundo século depois de Cristo, Roma imperial reclamou leis abortivas. Na antiguidade a maneira das mulheres limitar o número de gestações era pelo aborto, ocorrendo até intervenção cirúrgica (Priori e Arcoverde, 2005). 16 A discussão sobre quando a vida começa, teve início há muito tempo. Em 1826 Karl Emst von Boar, descreveu pela primeira vez o processo da concepção e daí no meio do século XIX, muitos médicos iniciaram uma campanha para proibir o aborto, utilizando slogans como “a vida humana começa no momento da concepção” e “adopção em vez de aborto” (apud Adaption not abortion). Apenas em 1869 que a igreja católica declarou que a alma era parte do feto desde a sua concepção, fazendo com que o aborto fosse considerado crime (Alvarenga, S.P). Por razões econômicas, no século XIX, a prática de proibição do aborto passou a expandir-se, porque a sua prática nas classes populares podia representar uma diminuição na oferta de mão de obra, a qual era fundamental para a continuidade da revolução industrial. Com exceção da extinta União Soviética, onde em 1917 o aborto deixou de ser crime, a política antiaborto continuou forte na primeira metade do século XX. Com a ascensão do nazifacismo, as leis antiabortivas tornaram-se excessivamente severas nos países onde ele teria se instalado, com o lema de criarem “filhos para pátria”. O aborto passou a ser definido como crime contra a nação, sendo punido com pena de morte (Schor, SP). Dentre os aspectos religiosos diferem as diversas opiniões a respeito do aborto, onde o catolicismo baseado no mandamento “Não matar”, condena a prática do aborto, ainda que em casos de ordem terapêutica. Ou seja, ela condena qualquer tratamento que venha a atentar contra a vida do feto. As igrejas protestantes (batista, luterana, metodista, episcopal e unitária) admitem o aborto terapêutico e que o mesmo deve ser decidido entre o médico, pastor e a paciente e para finalizar, o judaísmo apresenta uma postura mais flexível, possivelmente por apresentarem concepções diferentes em relação à alma e ao “pecado original”, sendo que para os judeus o feto só se transforma em ser humano quando nasce e em pessoa um mês após o nascimento (idem). Após a Segunda Guerra Mundial, as leis até a década de 60 continuaram restritivas, com exceção dos países socialistas, escandinavos e Japão. Ainda nesta mesma década, as mulheres passaram a se organizar, exercendo pressão no sentido de ser permitido que a mulher decida pela continuação ou não da gestação (Arcoverde, 2005). No Brasil a questão do aborto teve seu início durante a sua colonização, quando interesses políticos, econômicos e religiosos já interferiam sobre o direito das mulheres (Schor, SP). 17 Os colonizadores portugueses defendiam o interesse da necessidade do povoamento da terra brasileira e a igreja, do outro lado defendia que a sexualidade tinha uma única justificativa na procriação e na salvação do pecado original, através do sofrimento ao enfrentar a vida conjugal e no parto. Em comum acordo, a Igreja e o Estado, defendiam a não aceitação dos relacionamentos extraconjugais, que pelo Estado tinha o objetivo da não reprodução de populações mestiças e pobres, e a Igreja usava as questões religiosas dos mandamentos ditos de Deus (Priore, SP). Alguns momentos históricos marcaram a questão do aborto no mundo, como: A primeira conquista histórica aconteceu nos EUA, no início dos anos 70, com o julgamento do caso Roe X Wade (1973), pela Suprema Corte Americana, que determinou que leis contra o aborto violam um direito constitucional a privacidade (Arcoverde, 2005). Conferência Mundial sobre os Direitos Humanos, Viena (1993): coloca o direito das mulheres e meninas como parte integrante dos direitos humanos universais, e que a gravidez forçada é incompatível com a dignidade e o valor da pessoa humana (M.S, 2005). Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, Cairo (1994) e Conferência Mundial sobre a Mulher, Beijing (1995): apresentou que os direitos reprodutivos são constituídos por direitos humanos e que incluem o direito da pessoa de ter controle e a decisão sobre as questões da sexualidade e reprodução, que deve ser livre de ameaças, discriminação e violência (M.S, 2005). Recentemente, um dos últimos acontecimentos que marcam a discussão sobre a questão do aborto, foi a vinda do papa Bento XVI ao Brasil, onde ele falou que “as pessoas que são a favor do aborto, já podem considerar-se excomungada pela igreja católica”. Isto repercutiu muito sobre parte da população (Informação verbal). O óbito materno foi considerado durante muito tempo um acontecimento natural e inerente á condição da mulher (M.S, 2003). 18 A mortalidade materna no Brasil e nos países em desenvolvimento é subenumerada. Isto ocorre devido à dificuldade de acesso aos cartórios, o desconhecimento da população sobre a importância do atestado de óbito como instrumento de cidadania, ao preenchimento inadequado das declarações de óbito (D.O), além do alto número de partos domiciliares realizados nas zonas rurais e a existência de cemitérios clandestinos (M.S, 2003). Entre as causas de morte materna, predomina as obstétricas diretas, com 74%, sendo-as resultante de complicações obstétricas da gestação, onde compõe este grupo a eclampsia, hemorragias, infecção puerperal e aborto. Não é difícil perceber que a indução do aborto através de práticas inseguras é a causa básica de morte materna no país . Há dificuldade de estabelecer fidedignamente a incidência dos abortamentos espontâneos em uma população, devido ao significativo número de perdas que ocorrem antes mesmo do diagnóstico da gravidez ser confirmado (Rezende, 2005). Segundo Vinatier & cols (1994), clinicamente é estimada que 15 a 20% das gestações evoluem para aborto, sendo que a gravidez já está confirmada com atraso menstrual e teste de gravidez positivo. E, em 24% das gravidezes tópicas com ocorrência de sangramento vaginal no primeiro trimestre, 45% geralmente evoluem para aborto (Neme 2000). (...) Sabe-se que os ovos fertilizados podem não conseguir iniciar a clivagem, e que, mesmo que a clivagem ocorra de forma normal, podem não conseguir se implantar, e dos que conseguem, alguns ainda poderiam tornar-se inviáveis antes da falta do período menstrual esperado. A essa gama de ovos fertilizados e perdidos, antes que a mulher pense ou admita a possibilidade de gravidez, denominou-se “gravidez oculta”. Destas gravidezes classificadas como ocultas, estima-se uma porcentagem de perdas de cerca de 50% (Neme 2000, p.552). Com o desenvolvimento de exames laboratoriais mais sensíveis, como a detecção sérica da gonadotrofina coriônica humana (hCG), que pode ser percebida no sangue periférico à partir do primeiro dia de implantação, apareceram as chamadas “gestações químicas”, ou seja, situações de gestação em que existe a comprovação laboratorial da ocorrência de implantação do zigoto, que contudo, ainda não se viabilizaram a ponto de determinar atraso do período menstrual. Algumas vezes, o sangramento ocorre na data, ou próximo á ela, da esperada 19 “menstruação normal”, podendo confundir o sangramento originado pelo aborto com o sangramento menstrual (Cunninghan, 2000). A ocorrência do aborto em gestações futuras sofre influências dos antecedentes obstétricos. Segundo Reagan (1989), as mulheres com menor risco são aquelas com bom resultado perinatal anterior (3,3%), seguida pelas primigestas (5,6%) e com maior risco para as que tiveram a última gestação terminada em aborto (17,5%). Nas pacientes com história de abortamento recorrente, as chances maiores são de levar a gestação a termo, do que ocorrer um abortamento. Estimativas, sobre a propensão de aborto é de 24% após dois episódios, de abortamentos confirmado clinicamente, elevando para 30% após três episódios e de 40 a 50% nos casos de quatro abortamentos. Logo, é possível perceber que o risco percentual da ocorrência de abortamento aumenta conforme o número de abortos anteriores (Berek, 2005). Conforme a idade gestacional, a incidência de aborto aumenta ou diminui. Até 12 semanas de gestação o risco de ocorrência de abortamento aumenta, sendo que 75 a 80% dos abortos ocorrem neste período da gestação, o qual é denominado de aborto precoce. Entretanto, os chamados abortamentos tardios, ou seja, os que ocorrem após a 12ª semana de gestação, diferem do primeiro, pela menor incidência e quanto á sua etiologia (Montenegro, 2003). Segundo Halbe & col. (2000), “incidência de abortamento espontâneo, clinicamente reconhecida, é de 15% (Warburton e Fraser), e a de subclínicos, baseada na detecção da subunidade de β-hCG, varia de 15 a 30% (Mc Dounough)”. O risco de aborto espontâneo aumenta conforme a paridade e as idades materna e paterna. Quanto mais próximo ao final do período reprodutivo for à gestação, maior será o risco de abortamento, devido á idade materna avançada e o envelhecimento dos óvulos. A freqüência de abortamentos que se diagnosticam clinicamente aumenta para 12-15 % em mulheres com 20 a 29 anos de idade e para 25-30% nas acima de 40 anos. O conhecimento pelo obstetra, da idade materna e paterna, é de grande importância para que o mesmo oriente de forma adequada o casal, esclarecendo os possíveis riscos, dificuldades ou intercorrências que poderão ocorrer na gestação, para que os mesmos não criem expectativas que talvez possam vir a não serem alcançadas (Neme, 2000). A incidência estimada de abortamentos provocados no Brasil, em 1996, situou entre 728.100 e 1.039.000, sendo respectivamente uma estimativa média e máxima. Nos estados do nordeste, as mortes em conseqüência da prática de aborto inseguro adquirem cada vez mais importância entre as causas de morte materna. Na região do Recife, entre 1994 e 1996, o 20 abortamento ocupou o primeiro e o segundo lugar deste grupo de causas, diminuindo nos anos seguintes e na cidade de Salvador, desde a década de 90, permanece como a primeira causa isolada de morte materna, apresentando maiores riscos para os adolescentes e jovens. Estudos feitos nas regiões do país mostram que a razão entre as internações por aborto é de 1/10 por 4/10 para as internações por parto ocorridas no ano de 2003. O segundo procedimento obstétrico, mais realizado nas unidades de saúde pública do país é a curetagem pós-aborto, superado apenas pelos partos normais (M.S, 2005). 1.2 – Fisiopatogênia do Processo de abortamento Considerando que geralmente existe associação simultânea de diferentes etiologias responsáveis pela gênese do aborto, normalmente tornar-se muito difícil estabelecer qual foi o mecanismo responsável em cada evento. Soma-se a isso, que freqüentemente, no primeiro trimestre de gestação o aborto é precedido pelo óbito embrionário, o que dificulta a análise histopatológica dos produtos recuperados na eliminação (Neme, 2000). No caso dos abortos tardios, não é incomum a ocorrência de nascimento de fetos vivos, porém são incapazes de sobreviverem devido á imaturidade. Nestes casos, o diagnóstico etiológico é mais facilmente identificável (idem). Etiologias do Aborto Anomalias Fetais Alterações cromossômicas – é considerada a causa mais freqüente de perda gestacional precoce, pois em torno de 50 a 65% das perdas gestacionais identificadas até 12 semanas de gestação, possuem alguma anormalidade cromossômica, tendo pouca importância na gênese dos abortamentos tardios (Corrêa, 2004). Potencialmente as cromossomopatias podem ser responsáveis por abortamentos em todas as fases da gestação, no entanto, relacionam-se mais intimamente com os abortos precoces 21 e pré-clínicos. Estudos experimentais evidenciaram que as aberrações incompatíveis com a vida, geralmente evoluem para o descenso no período implantacional, enquanto que, as alterações cromossômicas potencialmente viáveis acontecem mais tardiamente (Corrêa, 2004). As trissomias são carro chefe das alterações cromossômicas, sendo encontradas em 50% dos casos de alterações cromossômicas. Dentre elas as principais estão relacionadas aos pares 16, 22, 21, 18 e 13. “A trissomia do cromossomo 16 pode se associar ao ovo cego, mola hidatiforme e idade paterna avançada (Halbe, 2000)”. As trissomias resultam de uma não disfunção isolada, de uma translocação equilibrada ou inversão cromossômica equilibrada, que podem ser de origem materna ou paterna. “Com o aumento da idade materna, constatou-se também o aumento dos abortos espontâneos devido as trissomias” (Neme, 2000). Em menor porcentagem, dos abortamentos precoces espontâneos, as monossomias e as poliplóidias estão implicadas como causa (idem). Segundo Halbe (2000), nos abortos triplóides tardios podem se encontrar anomalias do tubo neural, lábio leporino, fenda palatina, onfalocele e sindactilia, enquanto nos monossômicos 45, X, edema, higroma do pescoço, rim em ferradura e mola de Breus. Causas Maternas Locais De acordo com Neme (2000), diferentemente das causas de origem genética, mais comuns no início da gestação, geralmente as causas de origem materna ocorrem no segundo trimestre de gestação e estão associadas a abortos euplóides. Malformações uterinas – relacionam-se alterações na conformação uterina, devendose a erros ou desajustes no desenvolvimento do útero e anexos, ainda na vida embrionária. Decorrem da anormalidade da fusão dos ductos miillerianos, estruturas responsáveis pela formação dos órgãos genitais internos, de ocorrência espontânea ou induzida por substâncias como o dietilestibestrol (DES) (Rezende, 2005). São malformações uterinas: útero delfo, bicorno ou septado podendo ocorrer vários graus de malformação (idem). Incompetência istmocervical – é definida como a impossibilidade do colo uterino conter a gestação até o termo. Normalmente, há um histórico de dilatação cervical indolor, 22 silenciosa, em torno do segundo ou terceiro trimestre, com tendência a recidiva em gestações posteriores de forma cada vez mais precoce (Montenegro, 2006). Geralmente é enfermidade subdiagnósticada, sendo responsável por cerca de até 20% de perdas no segundo trimestre de gestação e considerada por alguns a principal causa de abortamentos tardios (Neme, 2000). A IIC pode ser congênita ou adquirida. No caso de ser congênita pode associar-se á malformações uterinas, ou ser decorrente de alteração na relação entre a quantidade de tecido muscular e conjuntivo na região cervical. Quando adquirida é principalmente conseqüência de procedimentos traumáticos sobre o colo uterino, como (Neme, 2000 e Corrêa, 2004): Laceração do colo na aplicação de fórceps. Dilatação cervical com métodos mecânicos. Partos normais complicados (Fetos macrossômicos ou apresentações anômalas). Amputação de colo (Traquelectomia). Conização. Dilatação cervical para curetagem. Atualmente a ultra-sonografia vem desempenhando importante papel no diagnóstico precoce da IIC, através de medidas seriadas do colo uterino na gestação e da avaliação da distância dos orifícios internos e externos do colo uterino (Halbe, 2000). O tratamento cirúrgico constitui-se em um procedimento denominado circlagem, que se constitui na sutura atraumática e inabsorvível à altura do orifício interno, a fim de evitar a abertura do mesmo e o alongamento do colo uterino. Normalmente é realizada entre a 12ª e 16ª semana de gestação (Corrêa, 2004). Miomatose uterina – associa-se com mais freqüência a quadros de esterilidade ou prematuridade, porém, pode-se relacionar a história de abortamento. Assume importância, mais do que os tamanhos dos miomas, a sua localização, sendo os submucosos e intramurais os que mais prejudicam o processo de implantação e desenvolvimento uterino. São considerados fatores de mau prognóstico o crescimento rápido e a degeneração carnosa dos miomas, fatores que geralmente precipitam os abortamentos (Halbe, 2000). 23 Sinéquias intra-uterinas – são caracterizadas pelas aderências endometriais secundárias a partos ou abortos que determinam perda gestacional, pela impossibilidade de suportar a implantação e crescimento uterino. Em graus extremos, é denominada síndrome de Asherman (Halbe, 2000). Conforme Neme (2000), em geral, a patologia é decorrente de curetagens de repetição ou abrasivas pós-abortamento infectado ou por curetagens puerperais. Causas Maternas Sistêmicas São doenças crônicas preexistentes ou adquiridas que acabam por acarretar descompensação do organismo materno, tornando-o muitas vezes hostil ao início da gestação e aumentando há possibilidade de abortamento (Informação verbal). Endocrinopatias – são representadas principalmente pelo diabetes mellitus e tireoideopatias. No caso do diabetes sabe-se que quando descompensado ou mal controlado associa-se com uma freqüência maior de abortamentos; o que não se observa nos casos em que a paciente apresenta-se bem controlada (Cunningham, 2000). Em relação aos distúrbios tireoidianos, sejam eles o hipertireoidismo ou o hipotiroidismo, em suas formas graves, estão associados há uma queda nas taxas de fertilização e de perdas fetais precoces. As disfunções subclínica ou discretas tratadas durante a gestação, não alteram as taxas de abortamento (idem). Infecções – são numerosa e freqüentes as infecções maternas que podem ser transmitidas ao feto, podendo elas ser a causa de abortos subclínicos ou clínicos, natimortos, ou comprometer o bom desenvolvimento fetal, sendo sua incidência freqüentemente subestimada. “As infecções podem determinar abortos por lesões do concepto, da decídua, da placenta, membranas e pela hipertermia” (Halbe, 2000). Segundo Halbe (2000), algumas infecções em sua forma aguda, como listeriose, toxoplasmose e herpes, podem ser causas de aborto único. No entanto, a sífilis raramente pode ser causa de aborto. Bactérias como Mycoplasma hominis, Ureaplasma urealyticum, Estreptococo β-hemólitico e com menos freqüência, Chlamydia tracomatis têm sido associadas com abortamentos. 24 Desnutrição – o autor coloca que a deficiência alimentar de ácido fólico pode acarretar o aparecimento de malformações no desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC), o que poderia levar ao abortamento tardio, porém não há conclusões definitivas sobre a deficiência alimentar de algum nutriente específico e a incidência de abortamentos (Neme, 2000). Causas Imunológicas – causa importante de abortamento recorrente, sendo representadas pelas doenças auto-imunes, dentre elas, assume importância o Lupus eritematoso sistêmico (LES), que em atividade associa-se a altas taxas de perdas gestacionais, tanto por abortamento quanto por óbitos fetais (Neme, 2000). A síndrome de anticorpos antifosfolípides e outras trombofilias são claramente associados com perdas gestacionais de repetição, principalmente no segundo trimestre (Corrêa, 2004). Insuficiência luteínica – é necessário que haja um bom funcionamento do corpo lúteo para a implantação e manutenção da gravidez. Quando este apresenta-se deficiente, desenvolvese a insuficiência luteínica caracterizada por endométrio anormal e concentração sérica de progesterona diminuída. Entretanto, o diagnóstico geralmente é comprovado após abortamento, e dificilmente durante a gestação ( Neme, 2000). Doenças crônicas debilitantes – enfermidades crônicas como: tuberculose, linfomas, carcinomatose, anemias acentuadas e cardiopatias são doenças que aumentam a taxa de abortamento. “O fumo e o álcool, quando usados excessivamente durante a gravidez, estão associados ao aumento da taxa de abortamento, cuja maior incidência é em torno da 13ª semana de gravidez e os abortos são euplóides (Harlap e Shiano apud Halbe 2000, p. 1126)”. Fatores psicológicos podem ou não afetar a gravidez favorecendo o aborto, sendo que irá depender da resistência de cada grávida (Halbe,2000). Traumas Físicos Ao contrário do que possa parecer, traumas físico freqüentemente não são considerados ou relacionados ao abortamento, sendo muitas vezes, um fator precipitador de um aborto inevitável ou apenas uma simples conhecidência (Neme, 2000 e Cunningham, 2000). 25 Outras causas Freqüentemente as gestantes associam as perdas gestacionais a atividades físicas, viagens, esforços e outras situações vivenciadas em seu dia-a-dia. Contudo, excepcionalmente, essas condições favorecem o abortamento, principalmente se não forem realizada de maneira acentuada e violenta, ou provocarem repercussão para a saúde e as condições físicas da gestante (Neme, 2000). Formas Clínicas do Aborto Ameaça de Aborto Caracteriza-se por quadro clínico em que é evidenciada hemorragia de pequena monta, vermelho vivo ou escuro, acompanhado ou não de cólicas em baixo ventre, sem evidências de dilatação cervical, útero compatível com a idade gestacional (Corrêa, 2004). Nos casos de ameaça de aborto de 20 a 30% evoluem para interrupção da gestação, sendo o volume de sangramento o principal fator preditor quanto á evolução da gestação (Côrrea, 2004). Abortamento iminente Neste caso, os sintomas são mais evidentes, o sangramento é em maior quantidade, por tempo mais prolongado e geralmente é acompanhado de coágulos. As cólicas se apresentam com mais intensidade e freqüência. O útero mantém proporcionalidade com a idade gestacional ( I.G ), entretanto podem haver modificações no colo com, apagamento e dilatação. Está forma clínica apresenta um prognóstico mais sombrio, sendo que 70 a 80% evoluem para perda gestacional (Halbe, 2000 e Corrêa, 2004). Aborto em evolução Assemelha-se muito á clínica do aborto inevitável, porém nestes casos já existe evidência de ausência de vitalidade fetal, pois muitas vezes ao toque vaginal percebe-se partes 26 fetais ou anexiais no canal cervical ou na própria cavidade vaginal. Geralmente a paciente refere cólicas persistentes, quase contínuas e sangramento genital bastante aumentado (Cunningham, 2000). Em estágios mais avançados de evolução e na ausência de assistência obstétrica, pode haver sinais de descompensação hemodinâmica, como: palidez cutânea mucosa acentuada, taquicardia, taquisfigmia, com pulso filiforme ou imperceptível hipotensão e sinais de choque hipovolêmico (M.S, 2003 e 2005). Abortamento Completo Ocorre quando há esvaziamento uterino completo, ou seja, existe a eliminação total de todos os componentes da gravidez. Sendo mais freqüente até a 8ª semana gestacional. Na história clínica, a paciente informa fortes cólicas, em hipogátrico, sangramento vaginal acentuado e eliminação de material, que na maioria das vezes, é mal caracterizado, seguido de interrupção do sangramento e melhora das cólicas uterinas. Ao exame físico o útero mostra-se involuído e o colo fechado com sangramento vaginal discreto (Corrêa, 2004). Abortamento Incompleto Existe um esvaziamento parcial do útero, com permanência de material ovular em cavidade uterina. Em geral, ocorre após a 12ª semana de gravidez, porque a partir deste período, as vilosidades coriônicas aderem ao útero provocando sangramento vaginal intermitente e por vezes em grande quantidade (idem). Normalmente a paciente relata sangramento vaginal com coágulos, expulsão de material amorfo, cólicas uterinas que em sua maioria persiste. O útero apresenta-se com volume aumentado, todavia incompatível com a I.G, amolecido e o colo, em grande parte dos casos, encontra-se pérvio (Novak, 2005). 27 Abortamento Infectado Decorre, freqüentemente, da interrupção criminosa da gestação, realizada em locais impróprios, fazendo uso de técnica não asséptica e manipulação dos genitais e cavidade uterina com material inapropriado (M.S, 2005 e Rezende, 2005). Existe persistência de restos ovulares em cavidade uterina, que favorece a manutenção da abertura do colo uterino, facilitando a ascensão e bactérias da flora vaginal e intestinal até a cavidade uterina. Os germes causadores são anaeróbios (63%) e aeróbios (37%), dentre os quais destacam-se os Peptotreptococcus, Bacteróides fragilis, Clostridium perfringens, Escherichia coli, pseudomonas e Estreptococos β-hemolítico (Halbe, 2000). O quadro clínico varia conforme a extensão do processo. E fases iniciais têm-se sangramento vaginal escasso e contínuo, persistência de cólicas uterinas, febre e hipertermia, e corrimento vaginal com odor fétido. Estes sintomas relacionam-se á infecção restrita da cavidade uterina, com exame físico mostrando dor á mobilização do colo, canal cervical pérvio e evidência de secreção piossanguinolenta através do colo. O estado geral da paciente encontrase preservado e não existem sinais de resposta inflamatória sistêmica (Corrêa, 2004). Com a progressão do processo, a infecção pode progredir para o miométrio, paramétrios, anexos, peritônio e com piora do estado clínico. Ocorre febre, taquicardia, dor abdominal persistente e íleo paralítico. No exame físico o toque vaginal é bastante doloroso, há empastamento dos paramétrios e sinais de irritação peritonial (Corrêa, 2004). No estágio mais avançado da infecção, há sinais de resposta inflamatória sistêmica acentuada, podendo haver complicações graves como: hemorragia, sepse, choque bacterêmico, embolia, insuficiência renal aguda e coagulação intravascular disseminada (CIVD). Nesta fase observa-se morbimortalidade extremamente alta, sendo importante causa de morte materna (Halbe, 2000). Aborto Retido Denomina-se como a persistência de produtos da concepção, sem vitalidade, no útero por várias semanas, podendo ou não ocorrer sangramentos e cólicas que quando acontecem 28 normalmente cessam. Tem como sinonímia missed-abortium e abortamento frustrado (Corrêa, 2004). O aumento uterino não acompanha a evolução esperada da gestação, e em alguns casos a regressão de seu volume. Pode haver remissão dos sintomas sugestivos da gestação e o processo de eliminação normalmente não ultrapassa quatro semanas (idem). Aborto Habitual Também pode ser definido como abortamento recorrente e é conceituado como a perda consecutiva de três gestações ou mais, antecedidas ou não de gestação viável que chegou á termo. Nestes casos, é mandatória uma investigação minuciosa á respeito das possíveis etiologias do aborto (Novak, 2005). Dentre as causas que ocorrem com maior freqüência, incluem-se anomalias uterinas, síndrome de anticorpos antifosfolípides, anormalidades cromossômicas no casal e idade materna superior á 40 anos de idade (Corrêa, 2004). 1.3 – Aborto Provocado: Aspectos causais e suas conseqüências A Organização Mundial de Saúde estima que, no mundo todo, cerca de 500 mil mulheres morre a cada ano de causas relacionadas à gestação, sendo que 98% dessas ocorrem nos países em desenvolvimento. Nesses locais, complicações de aborto são responsáveis por 15% do total de mortes maternas a cada ano, em alguns casos, atinge cerca de 50% dessa mortalidade (Olinto, 2006). Segundo Olinto (2006), o aborto provocado é um sério problema de saúde pública que ficou isolado, um longo período, dos debates dos diversos segmentos da sociedade e principalmente das decisões políticas neste país. Pode-se definir o aborto induzido de duas maneiras, sendo elas: Aborto terapêutico, quando o aborto é realizado por motivos de doenças ou saúde materna ou fetal; e Aborto eletivo, se o abortamento é realizado por solicitação da mulher (Lowdermilk e cols., 2002). A realização do aborto pode trazer conseqüências drásticas e irreversíveis para a saúde da mulher, sendo sua escolha justificada, com as mais diversas causas. 29 Em relação ao aborto terapêutico, na maioria das vezes que ele é realizado, não traz conseqüências físicas para o organismo da mulher, pois é realizado com consentimento da mulher e seu companheiro ou responsável, e pela equipe médica e com auxílio dos demais profissionais envolvidos diretamente na assistência da saúde da mulher, sempre objetivando a preservação da saúde física, emocional e mental da mesma. Este tipo de aborto é estudado e preparado com certa antecedência, sendo realizado em ambiente hospitalar adequado, em condições de higiene e assepsia, além de dispor dos meios necessários para o tratamento de possíveis complicações que possam vir a ocorrer (M.S, 2005). No entanto, os abortamentos eletivos nem sempre dispõe, ou melhor, em sua maioria são realizados em locais inadequados, insalubres, sem a mínima condição de higiene e ausência de equipamentos adequados, além de serem, principalmente realizados por leigos, curiosos e pessoas não especializadas para realização dessa prática. É importante ressaltar, que mesmo o aborto realizado pelo médico, pode trazer complicações, pois isto não garante qualidade. Já que a prática do aborto, excluindo os previstos em lei, é considerado ato ilegal, impossibilitando assim a supervisão pelas autoridades de saúde. Dentre as causas de aborto provocado, com exceção do aborto terapêutico, que é por motivo de salvaguardar a vida da gestante, são diversas as causas relatadas por algumas mulheres em estudos realizados e em artigos (Pedrosa & cols. 2000, Olinto 2006, Duarte & cols. 2002) e em literaturas consultadas no decorrer da pesquisa (Neme, 2004). Na grande maioria, as mulheres que recorrem ao aborto como solução para uma gravidez indesejada, estão na faixa-etária de 15-49 anos, sendo prevalente as mulheres jovens, em plena idade produtiva e reprodutiva, primigestas, mulheres com vida sexual irregular, com união estável, separadas, divorciadas e sem religião (M.S, 2005 e Olinto, 2006). Entre as causas relatadas pelas mulheres sobre a decisão de optar pelo aborto, estão (Olinto 2006, Alvarenga, 2002 e Pedrosa 2000): Pais descobrirem, ao mesmo tempo, que possuem vida sexual ativa e que estão grávidas (adolescentes). Não terem condições econômicas suficientes para criar mais filhos (multíparas). Algumas alegam não querer ter mais filhos (35 - 49 anos). Não poder criar filho sozinha, trabalhar e não possuir estabilidade conjugal (solteiras). 30 Alegam falhas no contraceptivo. Conhecem métodos contraceptivos, mas não os utilizam. Poucas referem não aceitação da gravidez por parte do companheiro. Apesar da diversidade de causas para a escolha de realizar um abortamento, a grande maioria das mulheres, não se atentam para o risco e inúmeras conseqüências que um aborto pode trazer. As repercussões e conseqüências resultantes de um aborto podem ser físicas e emocionais. Sendo as consequências físicas mais comuns as infecções, perdas sanguíneas ou hemorragias, perfurações uterinas e retenção de restos embrionários ou placentários e dentre as complicações mais grave a sepse, que pode levar a mulher à morte. Casuísticas de Fox e de Pinotti & col., e segundo observação dos autores, confirmam ser a introdução intra-uterina de corpos estranhos e soluções cáusticas e tóxicas a causa mais freqüente do abortamento séptico (Montenegro, 2003 e Neme, 2005). Studdiford & Douglas (1956) observaram que a flora coliforme predomina no abortamento séptico. Presentes em condições normais no canal cervicovaginal, esses organismos tornam-se virulentos na presença de tecidos lesados e mortificados, restos ovulares necróticos e de corpos estranhos (Sweet & cols. 1983) que favorecem a invasão microbiana. Importante salientar que a flora microbiana na infecção pós-abortamento é multiforme e guarda relação com os germes mais freqüentes em infecções de cada hospital. Dentre a flora bacteriana mista composta de anaeróbios e gram – negativos, os principais são o Peptostreptococcus, Bacterioides fragilis e E. coli (Neme, 2004). Schwarz (1968) e Pinheiros (1988) apud Neme 2000, os métodos mais utilizados para a provocação criminosa do aborto, são: Duchas sob pressão de soluções diversas; Ingestão de substâncias químicas; Métodos físicos, como banhos com água quente, escalda-pés, exercícios violentos etc; Injeções intra-amnióticas de NaCl (20%), glicose hipertônica, formol; Histerometrias repetidas com introduções e torções do histerômetro; 31 Curetagem uterina; Vácuo-extração; Histerotomia, ou seja, laparotomia e pequena cesárea; Aplicação endovaginal de misoprostol (Cytotec). De acordo com o método empregado são relacionadas as possíveis conseqüências (Neme 2000, Cunninghan 2000, Brunner 2005 e M.S 2005): Método de Aspiração - Insuficiência do colo uterino, favorecendo abortos sucessivos no primeiro e segundo trimestre, e partos prematuros entre a 20ª e 30ª semana de gestação, devido laceração do colo uterino provocado pelo uso de dilatadores. - Infecção e obstrução das trompas, esterilidade, hemorragia, possível lesão no intestino, bexiga e nas tubas uterinas, rompimento da artéria uterina, hemorragia e histerectomia, sendo a perfuração uterina uma conseqüência muito séria. - Necessidade de transfusão sanguínea e ablação uterina no caso de não estancamento da hemorragia, relacionada a não contração e involução do músculo uterino. - Esterilidade e gravidez ectópica, devida endometrite pós-aborto. - Possibilidade de extração do endométrio, formação de sinéquias uterinas, esterilidade, amenorréia e possibilidade de placenta prévia nas futuras gestações, em decorrência da evacuação incompleta da cavidade uterina, prolongando a necessidade de prolongar a sucção e de realização de curetagem imediata. Método das Laminarias - Infecções graves, peritonite, lesões da bexiga e dos ureteres, por presença de corpo estranho e risco de histerectomia, devido introdução de tampão esterilizado feito de algas marinhas. 32 Solução Hipertônica Salina - Retenção placentária, hemorragia abundante, infecção e endometrite, formação de sinéquias e possível perfuração uterina, coagulopatia, intoxicação por retenção de água, comprometimento renal, efeitos secundários do soro salino e da pituita que podem causar falhas de funcionamento do coração, perigo de entrada de solução salina na corrente sanguínea da mãe e morte. Histerectomia - Hemorragia, infecção, peritonite, lesões de bexiga e dos ureteres. Como algumas das conseqüências relacionadas ao processo de abortamento, são encontradas seqüelas ginecológicas que apresentam dismenorréia, dispareunia e dores abdominais, contribuem para reduzir sua capacidade de trabalho e bem estar (Cunninghan, 2000). Apesar da ilegalidade do aborto, isto não é impedimento para que ele continue a ocorrer, entre as diversas classes sociais do Brasil, sendo que suas complicações estão diretamente relacionadas com questões sócio - econômica. Enquanto mulheres de classes sociais mais abastadas, recorrem á clínicas privadas com procedimentos e equipamentos mais seguros, na maioria das vezes, mulheres de classes sociais menos favorecidas são expostas a procedimentos inseguros, utilizando-se de técnicas perigosas e profissionais não especializados, podendo assim acarretar riscos de vida ou seqüelas irreversíveis. Vale ressaltar que abortos realizados com I.G avançada, normalmente acima de 20 semanas de gestação, tendem aumentar o risco de complicações para essas mulheres (Olinto, 2006). Em Henshaw (1990), “não é de admirar que estes abortos, realizados em condições adversas, sejam seguidos por complicações severas que demandam atenção médica e, não raro, levam à morte (Olinto, 2006)”. As conseqüências emocionais são pilares essenciais na assistência a mulher que vivência um aborto. É importante lembrar, que a mulher submetida a um aborto está grávida e 33 pode apresentaras reações emocionais demonstradas por todas as gestantes, inclusive á depressão pós-parto (Lowdermilk & cols, 2002). 1.4 – Aspectos Éticos-Legais do Aborto As mulheres que vivenciam um processo de abortamento merecem atenção humanizada e para isso é de suma importância que os aspectos éticos-legais sejam abordados e refletidos com base nos princípios da igualdade, liberdade e dignidade, estabelecidos nos direitos humanos (M.S, 2005). “A Ética é uma das ciências do “dever ser” um ramo do conhecimento que estuda normas e princípios morais da sociedade. Embora se confundam, a Moral faz parte da Ética. Enquanto a Ética relaciona-se com a sociedade, a Moral refere-se ao indivíduo. Ambas, obviamente, variam em função do espaço, do tempo e do povo” (Neme 2000, p.1187). Segundo Neme (2000), a Bioética envolve um estudo da conduta humana na área das ciências da vida e atenção à saúde, desde que essa conduta seja examinada utilizando-se dos princípios e valores morais. No atendimento a paciente com quadro de abortamento, os profissionais de saúde envolvidos devem ter como pilares fundamentais os princípios da ética aplicada à vida, os quais são: O princípio da beneficência rege que o profissional deve ter a obrigação ética de maximizar o benefício minimizar os agravos em suas condutas. A não-maleficência deve ser entendida como a atitude que procura causar o menor dano possível á paciente. A autonomia baseia-se no direito do paciente decidir sobre os aspectos ligados ao seu corpo e a sua vida. A justiça rege que o profissional deve agir sem interferência de seu juízo de valor no atendimento aos pacientes, deixando de lado inclinações pessoais, morais, sociais, religiosas ou culturais. Nos atendimentos a qualquer tipo de abortamento, o aspecto primordial é a atenção ao estado de saúde da mulher, sendo garantido todos os princípios expostos anteriormente, não 34 admitindo preconceitos e discriminações de qualquer ordem, que venham a comprometer o atendimento da paciente, promovendo sempre uma escuta isenta de julgamentos e imposições de valores, valorizando as queixas e identificando as necessidades básicas da mulher, o profissional poderá incentivar as mulheres a exporem seus sentimentos, angústias e necessidades (M.S, 2005). Sobretudo, em Murta (2005), deve ser oferecido á gestante uma atenção humanizada a qual é construída na relação entre paciente e o profissional da saúde, cultivando uma relação de troca, de experiências, amizade, humor e confiança. Em relação á essa atenção humanizada, torna-se aspectos de suma importância para atendimento qualificado, o acolhimento e a orientação (Lowdermilk& cols, 2002). O acolhimento deve ser entendido como tratamento digno e respeitoso, baseado na escuta e reconhecimento das diferenças de decidir do paciente, bem como no acesso e a resolutibilidade da assistência, e a orientação é o aspecto em que o profissional através do ato de informar sobre os dados da condução do processo de saúde-doença, torna o paciente sujeito da ação de saúde quanto á tomada de decisões e ao autocuidado, exercendo, dessa forma o princípio ético da autonomia (M.S, 2005). É necessário que toda equipe que presta assistência a gestante com quadro de aborto, reflita sobre suas convicções pessoais na prática profissional de forma que não deve haver julgamentos arbitrários e estigmas (Motta, 2005). Assume importância, sobremaneira, a atenção psicossocial a paciente com abortamento, interagindo assistentes sociais e psicólogos no atendimento. Estando presente desde a porta de atendimento, passando pelo procedimento obstétrico e recuperação clínica da paciente, assume vital importância a equipe de enfermagem. Por isso, deve-se investir na sensibilização e capacitação para incorporação do acolhimento e da orientação como parte da rotina assistencial (M.S, 2005). Devido ás inúmeras implicações que o aborto tem sobre a saúde da mulher e os impactos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), tendo em vista que é considerado problema de saúde pública, torna-se cada vez mais necessárias medidas administrativas no sentido de evitar sua ocorrência. Neste cenário, assume especial importância o planejamento familiar e a prevenção da gravidez indesejada, sendo um direito da usuária e um dever do Estado e profissionais de saúde. 35 No Brasil o Código Penal de 1940 estabeleceu que á prática do aborto constitui-se em crime, todavia há duas situações previstas como não ilícitas, logo não cabendo pena, as quais são quando o aborto é praticado por médico, sendo esta a única medida no sentido de evitar a morte da mulher, e nos casos em que a gestação for produto de incesto ou estupro, onde se mostra patente á violência sexual (Neme, 2005). Tem havido casos em que a Jurisprudência Brasileira tenha autorizado a interrupção da gravidez, devido à existência de malformações fetais incompatíveis com a vida extra-uterina (M.S, 2005). Vale lembrar que é dever do estado capacitar as equipes, imbuir de profissionais qualificados e de instrumentos necessários nas unidades de saúde para a realização do aborto nos casos previstos em lei (idem). Sobretudo é imperativo ressaltar que o consentimento da mulher é necessário em qualquer circunstância para realização do aborto, salvo em caso de risco iminente de morte, em que a paciente encontra-se impossibilitada de expressar o seu consentimento (Neme, 2005 e M.S, 2005). Ainda em relação ao consentimento, segundo o Código Civil Brasileiro: A partir dos 18 anos, a mulher é capaz de consentir sozinha; Entre 16 e 18 anos, a adolescente deve ser assistida pelos pais ou por seu representante legal, que se manifestam com ela; Antes de completar 16 anos, a adolescente ou criança deve ser representada pelos pais ou por seu representante legal, que se manifestam por ela. Nos casos em que, por qualquer motivo, a mulher não reúne condições de discernimento e de expressão de seu desejo, deverá o representante legal expressar consentimento (Neme, 2005 e Montenegro, 2003). É passível de aplicar penalidade de três a dez anos de reclusão, nos casos que o aborto é realizado sem o consentimento da gestante (art.125) (Código Penal, 1940). Sobre o crime de aborto, também no Código Penal de 1940, dispõe no artigo 124 que “provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem provoque lho” é determinado crime com punição de um a três anos de detenção. Nos casos que o aborto é realizado com o consentimento da gestante, a pena é de um a quatro anos de reclusão, salvo nos casos em que a gestante é 36 menor de 14 anos e o consentimento tiver sido obtido de maneira obscura e ilegal, a pena que será aplicada é referente a do artigo 125 (idem). O Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem de 2000, referente, ao crime da prática do aborto poderá ser aplicado pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), pena de multa, censura, Suspensão do Exercício Profissional ou Cassação do Direito ao Exercício Profissional (Cofen, 2007). Em relação à ética profissional, é relevante ressaltar o sigilo profissional, segundo o qual é vedado a qualquer profissional de saúde comunicar a autoridade policial, judicial, e ao ministério público a ocorrência de aborto, pois é dever ético e legal do profissional (M.S, 2005) Segundo o artigo 154 do Código Penal Brasileiro de 1940, é crime “revelar alguém, sem justa causa, segredo de que têm ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem”. Assim sendo, o descumprimento da norma legal pode acarretar procedimento criminal, civil e ético-profissional contra quem quebrou o sigilo e pena que varia de três meses a um ano de detenção, ou multa (M.S, 2003 e M.F, 2007). Quanto a paciente menor de idade, segundo o código de ética médica: (...) é vedado ao médico revelar segredo profissional referente a menor de idade, inclusive a seus pais ou responsáveis legais, desde que o adolescente tenha capacidade de avaliar seu problema e de conduzir-se por seus próprios meios para soluciona-los, salvo em situações quando a não revelação possa acarretar danos ao paciente (art.13) (M.S, 2003, p.14). 37 Também sobre o sigilo profissional, na resolução do COFEN-240/2000, o código de ética da enfermagem, coloca que o art. 29 diz que é dever do profissional “manter segredo sobre fato sigiloso de que tenha conhecimento em razão de sua atividade profissional, exceto nos casos previstos em lei”, e o não cumprimento pode acarretar em advertência verbal, multa ou censura (Cofen, 2007). O Código de Ética Médica de 1988, afirma no art. 63 que “é vedado ao médico desrespeitar o pudor de qualquer paciente sob seus cuidados; também no Código de Ética dos Profissionais de enfermagem no artigo 28 é dever do profissional “respeitar o natural pudor, a privacidade e a intimidade do cliente, sendo que quando não cumprido pode acarretar em advertência verbal e multa (Motta, 2005 e Cofen,2007). Um estudo realizado com ginecologistas e obstetras sobre o conhecimento, opinião e conduta no aborto induzido, realizado no período de 2002 a 2003, mostrou através de seus resultados que existe uma deficiência notável sobre o conhecimento das questões legais que regem o aborto no Brasil, em diversos aspectos (Faundes, 2004). Percebe-se a importância de que todos os profissionais, independente da área de atuação, devam conhecer sobre as leis que os regem em sua atividade profissional. 1.5 – Aspectos Psicológicos Ao analisarmos questões sobre o aborto, seja ele espontâneo ou provocado, devemos levar em consideração aspectos psicológicos precedentes ao fato e também os conseqüentes a este. Fatores tais como as relações parentais, as circunstâncias em que ocorreram a gravidez, que tipo de relacionamento era vivido entre o marido e sua esposa, se esta foi uma gravidez desejada ou não, se o casal já havia tentado engravidar anteriormente sem sucesso, enfim, têm que se investigar todos os aspectos envolvidos neste processo (Halbe, 2000). A notícia de uma gravidez mexe com o emocional de qualquer casal, seja esta gravidez desejada ou não. A diferença vai estar na forma com que o casal irá receber a notícia. Caso esta seja uma notícia desejada o casal provavelmente irá reagir de uma forma positiva, com um sentimento de amor, alegria, mas ao mesmo tempo terão que se adaptarem a um novo estilo de vida, com algumas limitações, coisa que muitos casais não estão preparados. Este novo estilo de 38 vida muitas vezes é responsável por uma pressão maior do que o casal pode suportar e acaba, em casos extremos, em um aborto (Bobak, 2002). Quando um casal descobre que terá um filho uma outra ambivalência é visivelmente presenciada em sua relação, onde a questão de gravidez parte de um sonho, mesmo que não para o momento, de um ideal para a realidade, onde nem tudo será conto de fada. Onde o casal passa pelo questionamento se terão condições econômicas de criar este filho, se estão preparados psicologicamente para a criação do mesmo, se possuem a infra-estrutura necessária para a formação, educação e bem estar do bebê (Halbe, 2000). Depois de pensado em todos os obstáculos que terão pela frente, nas possíveis soluções para os mesmos, depois de terem consciência de tudo aquilo que estar por vir e se prepararem para isso, muitas vezes até aquele bebê que até então não era planejado para determinado momento passa a trazer novas expectativas, novos planos. E se no meio de todo este processo a mulher sofre um aborto aí o sofrimento é muito maior. É aí que se deve fazer um trabalho especial com o casal relacionado ao luto (idem). Um sentimento comum que é observado em mulheres que optam por induzir um aborto é o de culpa. Sentimento este que pode desencadear até mesmo um quadro de depressão visto que a mulher começa a se sentir culpada pela interrupção da gravidez, onde muitas vezes esta só toma consciência da gravidade de sua opção após o ocorrido. É aí que ela passa a se ver como uma assassina, a se culpar por não ter enfrentado de frente tal acontecimento. Um trabalho psicológico é de suma importância com esta mulher para que a mesma não desencadeie algum outro transtorno (Motta, 2005 e M.S 2005). No caso do aborto espontâneo também devemos nos cercar de meios que impeçam que a mulher não caia em depressão, afinal de contas muitos planos, muitos sonhos estavam depositados naquela criança que não poderão ser realizados. Um sentimento de impotência muito grande pode surgir, uma baixa na auto-estima, há casos em que a mulher passa a rejeitar o próprio corpo, ou pessoas próximas a ela, em especial o marido. Neste caso deve ser realizado um trabalho de conscientização de que não se deve tentar encontrar culpados para tal fato (Halbe, 2000). Devido a todos estes fatores mencionados devemos sempre priorizar um atendimento interdisciplinar com as mulheres que passam por esta experiência já que este é um processo que envolve diversas áreas (M.S, 2005). 39 CAPÍTULO II ASSISTÊNCIA VOLTADA À MULHER QUE SOFRE OU PROVOCA O ABORTO: Revisão e Reflexão 2.1 – O Papel da Enfermagem A mulher que sofre um aborto e procura atendimento hospitalar, está vivenciando uma experiência não somente física, mas também emocional e social. Nesta situação durante o atendimento hospitalar, normalmente as pacientes relatam para equipe de saúde suas queixas físicas e calam-se diante das questões pessoais e emocionais que estão sentindo (M.S, 2005). Diferentes sentimentos vivenciados por elas como, angústia, medo, culpa, arrependimento, preconceito, julgamento, incompetência, destruição, impotência, vergonha e muitos outros são diversas vezes o obstáculo para que essas mulheres procurem o serviço de saúde. Para que este obstáculo seja eliminado, é essencial que a equipe de saúde ofereça um atendimento humanizado, adequado, direcionado, não preconceituoso ou discriminatório e além de tudo respeitoso e confiável. Para tanto, isto deve acontecer desde a entrada dessa mulher no hospital, durante todo o processo que irá sofrer e principalmente por todos os profissionais responsáveis pela assistência da mulher (Benute, 2006, M.S 2003 e 2005). O caminho para o sucesso na recuperação da mulher que sofre um aborto tem seu início desde como foi sua recepção, ou seja, na maneira que foi o seu acolhimento na unidade hospitalar (M.S, 2005). “Acolhimento é o tratamento digno e respeitoso, a escuta, o reconhecimento e a aceitação das diferenças, o respeito ao direito de decidir de mulheres e homens, assim como o acesso e a resolutividade da assistência” (M.S, 2005, p. 17). Estudo realizado por Motta (2005), em uma maternidade do Rio Grande do Norte no período de fevereiro a abril de 2000 sobre a relação interpessoal entre profissionais de saúde e a mulher em abortamento incompleto, mostrou a péssima maneira que os profissionais assistem á essas mulheres, não respeitando seu sofrimento, individualidade, sua intimidade e pudor, além de demonstrar a influência que o ambiente físico mal estruturado e organizado, causa 40 insatisfação e constrangimento sobre a paciente, prejudicando a possibilidade de um atendimento humanizado. Foram relatadas as falas das participantes sobre a maneira como elas gostariam de ser atendidas. Os relatos diziam que seria bom quando, ao ser atendida elas fossem olhadas nos olhos, chamadas pelo nome, recebesse atenção, carinho, respeito e tivessem sua privacidade preservada pelo profissional. Afirmaram que dessa maneira elas já se sentiam melhor. De acordo com Silva (1996), em Motta (2005), “não há como separar o emocional do fisiológico quando o assunto é o ser humano, pois a recuperação do cliente não depende exclusivamente de fatores bioquímicos, mas sim, do quanto ele se sente aceito ou rejeitado, à vontade ou constrangido, enquanto hospitalizado”. A Enfermagem possui um papel diferenciado, pois é ela que está presente na porta de entrada, no decorrer da evolução do quadro, durante o procedimento obstétrico e na fase de recuperação clínica e emocional da mulher, na unidade de saúde (M.S, 2005). As pacientes que estão passam pelo processo de abortamento, independentemente se este é espontâneo ou provocado, elas necessitam dos cuidados de enfermagem, direcionado ao processo e possíveis procedimentos os quais serão submetidas. A enfermeira deve atender essa mulher com atenção, cordialidade, respeito e procurando sempre transmitir compreensão e confiança, objetivando, não somente, identificar as possíveis complicações físicas, mas também as de cunho pessoal e psicológico, para ajudar no processo de enfrentamento da perda e avaliar o momento que será necessário á solicitação de acompanhamento especializado para está mulher, evitando assim a ocorrência de agravo no quadro psicológico dessa mulher (M.S, 2003 e 2004). Existem algumas diferenças no direcionamento da assistência de enfermagem a paciente que sofre um aborto espontâneo, e aquela que opta pelo aborto terapêutico e a que provoca o aborto. Entretanto, a assistência relacionada ao quadro clínico e, baseada em sinais e sintomas é a mesma, independente do tipo de aborto em questão (Murta, 2006 e M.S, 2005). O acompanhamento da evolução do quadro de abortamento pela enfermeira, deve ter uma assistência e acompanhamento rigoroso sobre alguns sinais e sintomas apresentados pela paciente (Lowdermilk, 2002). 41 Assistência de Enfermagem Anamnese Deve ser realizada de maneira objetiva, evitando prolongamento nas perguntas e priorizando apenas as questões essenciais para o acompanhamento da evolução do quadro de abortamento, sendo elas (Informação verbal): - Nome, idade, estado civil; - Questionar abortos anteriores; - Verificar I.G; - Caracterizar o sangramento (início, cor, quantidade, odor); - Avaliação da dor (presença, local, tipo, intensidade); - Questionar sobre a ocorrência de eliminação de algum material resultante da concepção; - Perguntar sobre a possível causa do aborto. Espontâneo ou provocado? - Mostrar-se compreensiva e disposta a ajudar no enfrentamento da situação. - Esclarecer todas as dúvidas que surgirem e mostrar-se disponível para responder as que surgirem no decorrer do período da internação. Cuidados de enfermagem durante o processo de aborto A enfermeira ao planejar a assistência, deve orientar sua equipe sobre cuidados e sinais importantes que devem ser identificados e realizados nas mulheres que estão passando pelo quadro de abortamento, são eles (Murta, 2006, Brunner 2005 e M.S 2003): - Monitorização de horário dos SSVV (P. A, F.C, F.R e Tax); - Avaliação e acompanhamento rigoroso do sangramento; - Manter acesso venoso calibroso; - Monitorizar o quadro clínico da paciente, atentando-se para possíveis sinais de choque hipovolêmico (palidez cutânea, STV aumentado, sudorese, pele fria e pegajosa, hipotensão arterial, pulso filiforme e etc.); 42 - Avaliação da dor (tipo, localização e intensidade); - Aliviar a dor através da administração de medicação, conforme prescrição médica, e pedir á enfermeira que solicite medicação junto ao médico, quando não estiver prescrita e sempre que julgar necessário. - Orientar a paciente sobre os procedimentos pelos quais ela será submetida, antes da realização dos mesmos; - Mostrar-se compreensiva e apóia-la independente da causa do aborto; - Não impor suas crenças ou julgamentos sobre as pacientes de abortamento; - Estimular que a mulher exponha seus sentimentos e medos, objetivando facilitar a aceitação do luto e enfrentamento do processo que está vivenciando; - Comunicar a enfermeira sinais de transtorno emocional e alteração do estado mental, para que a mesma solicite avaliação especializada para essa mulher; - Após a eliminação fetal, a enfermeira ou um membro da equipe deve perguntar se é da vontade da paciente ver o feto, antes de encaminhar o mesmo para a anatomia patológica; - A enfermeira deve informar aos membros de sua equipe, que eles possuem o direito de recusar-se, se for o caso, a participar de procedimentos relacionados ao aborto terapêutico ou a que sejam contrários á suas crenças religiosas. Devido o processo de aborto ser tão delicado, é importante que a enfermeira, sempre que possível, acompanhe a mulher durante o decorrer de todos os procedimentos que serão realizados. As mulheres com quadro de aborto provocado, sendo ele terapêutico ou não, passam por processo emocional muito intenso, pois para algumas o abortamento é necessário devido causa de sobrevida para mulher ou por não condição de vitalidade extra-uterina para o feto. Já para outra, o aborto é uma maneira de alívio ou uma solução rápida para algo não planejado, não quisto, não aceito pelo companheiro, pela família e pela sociedade. É de suma importância que a enfermeira, de acordo com as normas da instituição em questão, evite deixar estás mulheres sozinhas, solicitando que uma pessoa, da preferência da paciente, a acompanhe no decorrer de todo o processo. Lembrando que, principalmente nestes casos, a enfermeira deve 43 solicitar acompanhamento pelo serviço de assistência social e pela psicologia, sempre que a unidade de saúde dispor desses profissionais (M.S, 2005 e Brunner, 2005). Assistência de enfermagem pós – aborto A enfermeira deve instruir a paciente sobre alguns cuidados relacionados à recuperação da mulher, como (Lowdermilk 2002, Montenegro, 2003 M.S 2005 e Informação verbal): - Observar presença de sangramento excessivo após a realização do procedimento cirúrgico (curetagem, AMIU...). - Não ter relação sexual, pelo menos na primeira semana após o aborto, podendo estender-se até três semanas. - Evitar engravidar no período de três á seis meses consecutivos de realizado o aborto. - A mulher pode aguardar o retorno da menstruação entre quatro a seis semanas pós-aborto. - Orientar sobre a importância de iniciar o uso de método contraceptivo logo após o aborto. - Encoraja-la sobre fazer acompanhamento com ginecologista e participar dos grupos de planejamento familiar. - Enfatizar a importância de pegar o resultado do estudo anatomopatológico com o objetivo de detectar a etiologia do aborto, evitando assim novos episódios; Do conhecimento dos profissionais da área de enfermagem, dentro da profissão de enfermagem, a criação da sistematização da assistência de enfermagem é de grande importância para a autonomia dos enfermeiros frente aos cuidados e principalmente para uma reabilitação mais rápida do cliente. A sistematização da assistência é planejada com base nos diagnósticos de enfermagem (aprovado na 9ª Conferência, 1990) identificados no momento da avaliação da enfermeira (Nanda, 2001). Segundo NANDA (2001), “o diagnóstico de enfermagem descreve respostas humanas as condições de saúde, processos vitais que existem em um individuo, família ou comunidade”. 44 Na sua identificação é necessário relacionar as características definidoras, as quais são baseadas nas manifestações, sinais e sintomas apresentados pelo cliente, com os fatores relacionados ao quadro clínico em questão. Utilizando-se dos diagnósticos de enfermagem da NANDA, foram listados alguns diagnósticos que podem ser identificados em casos de abortamento. ANSIEDADE ANSIEDADE relacionada à morte Baixa AUTO-ESTIMA situacional DESESPERANÇA DOR ENFRENTAMENTO familiar comprometido ENFRENTAMENTO ineficaz MEDO SENTIMENTO DE PESAR disfuncional Risco para baixa AUTO-ESTIMA situacional Risco para síndrome do ESTRESSE por mudança Risco para INFECÇÃO Risco para TEMPERATURA CORPORAL desequilibrada Contudo, independente do tipo de abortamento, a enfermeira e sua equipe têm o dever de proporcionar uma assistência adequada, colaborativa, compreensiva e ágil durante todo o processo, seja na realização de exames necessários, procedimentos, recuperação física, emocional e psicológica dessa mulher. 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo possibilitou um maior conhecimento sobre as características relacionadas ao processo de abortamento e a assistência prestada pelas equipes de saúde a essas mulheres. O estudo foi muito oportuno uma vez que a questão do aborto nem sempre é abordada pelo ângulo da sistematização da assistência de enfermagem, que deve ter como objetivo uma assistência direcionada não somente na recuperação fisiológica da mulher, mas sim na total recuperação da saúde reprodutiva da mesma. O estudo do aborto não deve ficar restrito apenas como um acontecimento do sistema reprodutivo feminino, mas sim como um acontecimento de ordem ética, moral, política, econômica, religiosa, da saúde e acima de tudo dos direitos humanos. Estes setores são os principais responsáveis pelos acontecimentos históricos do aborto e também é da responsabilidade deles, realizarem medidas necessárias para que a triste e sofrida história que persegue o aborto e as mulheres do nosso país seja mudada. O objetivo deste estudo foi clarificar, com base na literatura, como deve ser a assistência de enfermagem a essas mulheres, sendo que os profissionais devem sempre agir de maneira respeitosa, compreensiva, atenciosa, responsável e além de tudo humana. Pois para que esta história mude, ela deve iniciar de dentro das unidades hospitalares, porque muita complicação decorrente do processo de abortamento é devido à mulher não procurar atendimento hospitalar por vergonha e medo do julgamento que pode vir a receber dos profissionais. É importante que os profissionais da saúde passem a conhecer as leis que regem sua profissão para terem autonomia e respaldo sobre suas atividades profissionais. Não somente os profissionais, mas também as mulheres devem procurar saber e entender melhor sobre os seus direitos e deveres de cidadã. Foi possível perceber que o aborto coloca-se como problema cuja existência concreta não pode ser ignorada na atualidade, como vem sendo desde os tempos remotos da civilização. O aborto é um problema de saúde pública que envolve todas as mulheres, principalmente as de condições econômicas menos favorecidas as quais são as mais atingidas pela prática do aborto, mas também toda população mundial. Isto porque as consequências causadas pela prática ilegal do aborto provoca um rombo nos cofres públicos. 46 A legalização do aborto no Brasil não vai ser a solução para atual situação vivida hoje pelas mulheres em relação ao aborto. È necessário que estude não somente a legalização do aborto, mas também a necessidade de investimento na orientação e educação sexual, no acesso aos métodos contraceptivos, pela população. Sendo que as questões físicas, psicológicas, emocionais e sentimentais enfrentada pelas mulheres no processo de abortamento devem ser discutidas e avaliadas para o planejamento das mudanças relativas as questões éticas, morais, legais sociais e pessoais apresentadas no aborto. É necessário que os profissionais das diversas áreas da saúde lutem por um futuro mais digno e feliz para nós mulheres. Este trabalho foi de valor inestimável, pois ele me fez conhecer e entender melhor sobre o universo feminino relacionado com a maternidade não desejada e frustrada, um universo muitas vezes não valorizado e ignorado por nós mulheres e profissionais de enfermagem. Interessante ver o quanto nós profissionais de enfermagem somos essenciais na assistência da paciente que sofre um aborto, mesmo através das mínimas intervenções técnicas, mas principalmente no acolhimento e no cuidar dessas mulheres. Apesar de conviver quase diariamente com mulheres que estão vivenciando um aborto, esta pesquisa me fez mudar de opinião sobre a questão da legalização do aborto para a mulher, a qual no momento não vem ao caso, e a maneira como vou a partir de hoje assistir a essas pacientes. Alguns pontos poderão ser melhorados e trabalhados em uma futura pesquisa. Uma investigação através de uma pesquisa de campo também pode ser algo a ser pensado no futuro. Acredito que este trabalho pode trazer o interesse de outros alunos e profissionais de enfermagem sobre o tema. Já que é um assunto polêmico e que atualmente está sendo questionado no país. Além disso, pode vir a sensibilizar e ampliar a visão dos profissionais sobre a saúde da mulher, fazendo com que os mesmos reavaliem sua assistência e atitudes para com a paciente em processo de abortamento. Posso afirmar, que foi enriquecedor par minha futura atuação como enfermeira. 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Atenção Humanizada ao Abortamento: norma técnica/Ministério da Saúde, Secretária de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas – Brasília: Ministério da Saúde, 2005. BENUTE, Gláucia Rosana Guerra et al . Interrupção da gestação após o diagnóstico de malformação fetal letal: aspectos emocionais. Rev. Bras. Ginecol. Obstet., Rio de Janeiro, v.28, n.1, 2006. Disponívelem:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010072032006000100003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 12 Maio 2007. Pré-publicação. BEREK, Jonathans S. NOVAK Tratado de Ginecologia. 13ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005. Comissão de revisão da legislação punitiva que trata da interrupção voluntária da gravidez. www.cfemea.org.br/pdf/MinutaSubstitutivoDescriminalizacaoAborto.pdf - Acesso em 17/05/2007. BRUNNER & SUDDARTH. 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