MULHER, MÃE E PROFISSIONAL: UMA BREVE DISCUSSÃO SOBRE O
REFLEXO DESSAS ESCOLHAS NO MODO DE SER MULHER
Juliana Nunes de Barros
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Margarete Maria da Silva Rocha 2
Centro Universitário do Leste de Minas Gerais
RESUMO: O presente artigo busca refletir sob a perspectiva da filosofia existencial o
processo de escolhas atribuídas às mulheres em ser mãe e profissional e a
influência destas escolhas na identidade do ser mulher. Através de argumentos
bibliográficos, pode-se perceber algumas considerações sobre a condição da mulher
e a compreensão dos processos vividos, visto que, o ser, em sua unidade
totalizadora só se apresenta enquanto ser-com, relacionando-se no mundo consigo
e com os outros, estabelecendo assim, o modo de ser mulher, mãe e profissional.
PALAVRAS CHAVE: Ser. Mulher. Identidade.
ABSTRACT: Under the existential philosophy perspective, the present article aims at
reflecting on the process of choices given to women: being mother, professional, and
the influences of these choices on the identity of being a woman. Through
bibliographic arguments, it is possible to realize some considerations about the
women’s condition and the comprehension of the living process, once that, the being,
in its whole only presents itself as a “be-with”, connecting itself with the world and
with the others, and establishing the way of being woman, mother and professional.
KEWORDS: Being. Woman. Identity.
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2
Professora do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UNILESTE-MG
Graduanda do Curso de Psicologia do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais –UNILESTE-MG
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Introdução
O presente trabalho apresenta uma reflexão teórica, a luz dos pressupostos da
fenomenologia existencial, sobre as escolhas existenciais vivenciadas por mulheres,
na condição de ser mulher e se permitir estar como mãe e profissional, assim como
reconhecer o reflexo destas escolhas no universo feminino na atualidade.
O interesse em pesquisar sobre a mulher, mãe e profissional, surgiu inicialmente por
uma questão singular, que se fortaleceu e persistiu a partir de atividades
acadêmicas do Curso de Psicologia, realizadas junto a grupos organizados de
mulheres em que estas, algumas vezes, durante a execução e socialização das
atividades, ao falarem de si, anunciavam não se reconhecerem enquanto sujeito de
suas escolhas e protagonistas de sua história, remetendo sempre a um outro: filho,
marido e ou trabalho, a responsabilidade ou o mérito de suas escolhas.
Na construção de uma reflexão sobre este tema, utilizou-se de argumentos
anunciados por diversos autores, na tentativa de estabelecer uma breve discussão
sócio-filosófica que perspassa a condição da mulher na atualidade. Nesta pesquisa
priorizou-se as idéias de: Simone de Beauvoir (1980), filósofa, que em seu livro
intitulado “O Segundo Sexo: a experiência vivida”, narra o percurso de aprendizado
e condição em que a mulher se acha encerrada e as evasões que lhe são permitidas
no cotidiano. Ela afirma ainda que ser mulher é uma construção social, que se
estabelece nas relações com o outro, nas experiências e vivências ao longo dos
processos de vida. Jeni Vaitsmam (1994), socióloga, autora do livro “Flexíveis e
Plurais”, livro este, que é resultado de uma pesquisa realizada em dois momentos
distintos com intervalo de dez anos, relata, em sua tese, as transformações na
identidade, no casamento e na família pós–moderna e a busca por relações
permeadas pelo respeito, a individualidade e crescimento pessoal. Martin Heidegger
(2001), filósofo alemão, autor de diversos livros, entre eles “Ser e Tempo”, relata que
só o ser humano é e se faz nas vivências e experiências de seu tempo. Gilles
Lipovetsky (2007), filósofo, autor de “A Terceira Mulher”, retrata o percurso histórico
vivenciado pelas mulheres no contexto social, cultural, político, econômico e
religioso, relatando sobre a mulher reconhecida para procriar, perpassando pela
mulher enaltecida, cantada em versos e prosa e por último a mulher moderna que
tem o governo de si. Além destes utilizou-se, também, de outros artigos e
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publicações que corroboraram para esta reflexão.
Refletir sobre o modo de ser e de se perceber da mulher frente à condição de ser
mãe e profissional restabelece a necessidade de investigação dos diferentes modos
possíveis do ser da mulher que, por vezes, ocorre se perder no mundo, esquecer-se
de si mesma, tornando-se mais uma, e que o seu querer, o seu pensar e o seu fazer
está naquilo que o mundo determina que deve ser. Entendendo que estes não
passariam por um processo dedutivo, mas por uma compreensão prévia do ser e da
relação que este estabelece com o mundo, na condição que todo ser será sempre
um ser-com, o presente trabalho abre possibilidades de um fazer psi, seja na
psicologia, na psicanálise, psiquiatria ou no meio acadêmico no incentivo a
pesquisas que busquem por compreender esse ser que é sempre um devir.
Na primeira parte deste artigo pretende-se estabelecer uma consideração sobre os
termos “ser” e “mulher” enquanto uma construção sócio-filosófica do reconhecimento
de si frente às escolhas existenciais na condição de ser e se perceber mulher, mãe e
profissional, não sendo o foco desse trabalho estabelecer uma discussão de gênero.
Na segunda parte descreveremos alguns fatos e momentos na história que
demarcaram as lutas, os conflitos e conquistas pessoais, culturais, sociais, políticas
e religiosas das mulheres, nas últimas décadas. Na terceira, e última parte, buscarse-á identificar as influências dos papéis no modo de apresentar-se enquanto mãe e
profissional na identidade do ser mulher.
1.1 Mulher: Que ser é esse?
Quantas mulheres cabem dentro de uma mulher?
Tantas quantas a imaginação e a fantasia permitirem... ou tantas quantas forem as
possibilidades existenciais na construção desse ser que é sempre um devir.
Segundo Beauvoir (1980, p.9). “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Ser
mulher é uma construção social, consolidada a partir das relações interpessoais
realizadas no tempo, espaço e contexto social no qual a mulher está inserida.
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A construção dessas relações com o outro se dá por meio da compreensão de cada
pessoa, com base na aceitação do outro tal qual ele é.
De acordo com Heidegger (2002, p.32), “Ser está naquilo que é e como é, na
realidade, no ser simplesmente dado (Vorhandenheit), no teor e recurso, no valor e
validade, na pré-sença, no ‘há’”, ou seja, é desdobrar-se em possibilidades,
buscando sentido para as vivências e experiências em seu tempo enquanto sujeito
de singularidade, único no jeito de ser, pensar, agir e estar no mundo.
Ainda segundo Heidegger (2002, p.32), é preciso considerar que na tentativa de
definir o ser, é necessário preservar a diferença entre ser e ente, senão
acabaríamos entendendo o ser como permanência, como um único modo de se
apresentar, e “A impossibilidade de se definir o ser não dispensa a questão de seu
sentido, ao contrário, justamente por isso a exige” (Id., p.29).
Desta forma o filósofo discute o ser através do seu sentido, enfatizando a
ambigüidade “ser” e “ente”, acreditando que ambos devessem ser considerados
como uma dualidade e não como duas instâncias, retirando o caráter universal do
ser e propondo perceber o ente em sua realidade e concretude. Heidegger afirma
que (Id., p.28): “Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se
apreende no ente”.
A noção de sentido de ser, passa a ser considerada somente através do exame
reflexivo do existente. Sua reflexão tem início com a análise do dasein (sein =
presença; da = aí), também denominado de pre-sença. Com esta designação,
Heidegger pretende substituir a palavra sujeito, que implica em um conceito que nos
remete ao fechamento, e não sob um tempo que caracteriza o ser em relação,
portanto abertura.
Feijoo (2000) vem esclarecer esta condição de reconhecer o ser enquanto modo de
se apresentar:
‘Ser-aí’ significa o ser lançado em um mundo, cuja mera presença
implica na possibilidade completa e total da existência. Desta forma,
cria a máxima do existencialismo, onde a existência tem prioridade
sobre a essência. A essência do ser reside em sua existência, logo,
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o ser não pode jamais distinguir-se do seu modo de ser. Suas
propriedades nada mais são do que modos possíveis do existente.
Existir, enquanto dasein ou pré-sença, implica em não ser passível
de objetivação. ( p. 73).
Desta forma, não poderíamos reconhecer a mulher em um único modo de se
apresentar. Afinal, se insistirmos em falar da mulher como sujeito, estaríamos
fechando as possibilidades desta se apresentar, determinando e fazendo com que
esta perca a compreensão de sua essência fundamental, pois a pre-sença, ou o sermulher será constituído como algo que se sustenta no âmbito da abertura ao mundo.
Ao tentar aprisioná-la, tal essência permanecerá oculta. Ou afirmaremos a condição
de perceber a mulher como ente, ou seja, simplesmente rotular e anunciar uma
condição sexista para identificá-la.
1.2 A mulher e o contexto histórico nas últimas décadas
Resgatando as memórias de um contexto histórico, podemos reconhecer a mulher
anunciada, como aquela responsável pela origem à vida, que cuida, protege e
educa, ficando submetida à figura do outro e a este, era dado e permitido a condição
de saber e decidir, sobre questões da ordem do individual e pessoal desta mulher.
Esse outro detentor do poder e sabedor da vontade da mulher, culturalmente ficou
remetido à figura do pai, irmão, marido como pode ser ilustrado pelos versos da
cantiga de roda, do cancioneiro brasileiro, que inocentemente foi cantada e passada
de geração em geração, e que diz:
Terezinha de Jesus/ deu a queda foi ao chão,/ acudiram três
cavaleiros,/ todos três chapéu na mão/. O primeiro foi seu pai,/ o
segundo seu irmão/ e o terceiro foi aquele que a Tereza deu a
mão.(Domínio público)
Contextualizando os versos acima, Terezinha pertence a um homem “Jesus”, em
seguida, há uma sucessão de “outros homens”, e cada um, com uma representação
de poder explícito ou implícito que marcam a vida da “Terezinha de Jesus”, bem
como a de tantas outras Terezinhas, Marias, Amélias, da nossa sociedade.
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Essa cantiga de roda, bem como as fábulas e outras histórias contadas para
meninas e meninos, desde a mais tenra idade, provocaram a introjeção de
conceitos, que contribuíram para a construção dos processos de identidade,
tornando natural a condição de submissão e a fragilidade da mulher e por outro lado
reforçando a força, a coragem e o poder do homem anunciado socialmente.
A mulher, esse ser que abre sua existência em possibilidades de construção e reconstrução de sua história, após conflitos culturais, sociais, políticos e religiosos, de
forma consciente, busca sair do lugar de mulher reconhecida e nomeada apenas
para procriar, cuidar, nutrir e educar, que mesmo cantada em versos e prosa pelos
poetas e trovadores, ainda assim, se apresenta como uma mulher “indeterminada”.
Tentativas de mudanças foram conflitivas e de acordo com Vaitsman (1994), apud
Vasconcellos
(1996), “ a lei criava obstáculos para o acesso das mulheres ao
mundo público, reafirmando-se as funções e papéis tradicionais de cada sexo,
presentes no imaginário social e, portanto, nas instituições como o Estado, a Igreja,
a família e o casamento”.
A mulher “indeterminada”, como descrito por Lipovetsky (2007), consciente de suas
possibilidades, busca ser reconhecida enquanto mãe e profissional. No Brasil,
pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE)
demonstram os vários papéis desempenhados pela mulher ao longo da história,
dentre eles o de mãe e profissional, cujos processos se passam nas instâncias da
construção da identidade, nas mudanças culturais, religiosas e sociais.
Após séculos de submissão, as mulheres buscam reconhecimento como quem
participa diretamente do processo de crescimento de um novo ser, conquistando um
espaço privado para o surgimento de uma nova história, na qual é inserida como
protagonista, como um ser que abre sua existência em múltiplas possibilidades: a
mulher - ser do sexo feminino; a mãe – a procriadora; a profissional – o ser
intelectual, com talento e capacidade de produzir, além disso, permite-se manter
integrada ao mundo, contribuindo com o seu potencial criativo, através do
conhecimento que se amplia e se atualiza continuamente.
O ser mulher concebendo o trabalho como sentido de sua existência, o transforma
em essência e passa a compreender sua existência, ou seja, em vez da existência
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preceder a essência, a artificialidade do trabalho (essência) definirá a existência
humana. (CAMON, 2005).
O percurso histórico do universo feminino, na modernidade, retrata um exercício
constante da mulher em assumir responsabilidades por sua própria vida, cultuando a
mulher-mãe e a mulher-profissional como opção, inclusive, de realização, mas não
mais como imposição de forças externas à sua vontade.
Com os avanços tecnológicos e científicos, que marcaram o século XX, houve
mudanças de crenças e atitudes em relação à sexualidade - a liberdade sexual, à
igualdade de direitos sociais, profissionais e conjugais. Às mulheres, por sua vez,
coube o direito de votar e discutir questões enunciadas pelos movimentos feministas
tais como: a condição da mulher, a virgindade, o aborto, o casamento.
O primeiro contraceptivo oral eficaz foi desenvolvido no século XX.
Em 1978,
nasceu o primeiro bebê de proveta, com repercussão mundial. Discussões éticas e
religiosas marcaram assim a desvinculação do sexo da procriação.
O acesso aos meios de comunicação: rádio, televisão, revista, cinema, Internet,
provocaram novas formas de pensar e agir, transformando a subjetividade das
mulheres, modificando comportamentos e costumes, proporcionando uma maior
liberdade sexual.
No campo profissional, observa-se um crescimento da ordem de 56% da
contribuição feminina na força de trabalho, porém, ainda se faz necessário
reivindicar os mesmos direitos de ganhos financeiros que são destinados aos
homens, apesar de ser um direito adquirido na Constituição Federal de 1988.
Essas mulheres, para além de desempenharem uma atividade no meio público,
cuidam da educação dos filhos e acumulam afazeres domésticos. Dados da
pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em
2000, divulgaram os seguintes dados:
Em 2000, o Brasil tinha 86,3 milhões de mulheres que,
representavam boa parte da força de trabalho no país; acumulavam
tarefas e passaram a chefiar um maior número de domicílios. O
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aumento da chefia entre as mulheres refletiu diretamente no
rendimento familiar, cuja contribuição feminina cresceu quase 56%
no último Censo. Na comparação com os homens, as mulheres
chefiavam domicílios com melhores condições de saneamento
básico; eram mais escolarizadas; viviam mais e representavam a
maior parcela entre a população idosa no país.
A mulher, se reconhece e se faz reconhecida como um ser capaz, tanto social
quanto profissional, e supostamente tende a favorecer a este propósito, quando este
se constitui uma possibilidade de construção da identidade social do ser.
O fato de transitar do meio privado (lar), para o meio público, propiciou a busca e
ampliação de conhecimento, permitindo assim, o desenvolvimento do potencial
criativo, agregando além de satisfação pessoal, uma forma de contribuir com a
renda familiar, não ficando, portanto, limitada apenas aos papéis de esposa e mãe.
A complexidade dos papéis, embora tendendo a fragmentar a experiência em vários
mundos, também proporcionou à mulher escolhas, assim como responsabilizar-se
pelas conseqüências advindas delas. “Tendo deixado de ser necessariamente mãe
e dona de casa, a mulher pode até decidir ser apenas mãe e dona de casa”
Vaitsman (1994, p.174).Esta afirmação pode ser complementada com a afirmação
feita por Erthal:
O aumento da conscientização dos dados de sua experiência passa
a ampliar suas opções existenciais; sua experiência passa por um
crivo de avaliação própria, fazendo com que o risco não mais seja
bloqueado para dar lugar a um vir a ser mais espontâneo e
realizador. É a tentativa atualizante, antes bloqueada pelo medo e
insegurança, que passa a se exprimir com mais clareza na atuação
do ser. Sendo aceito [...] sente-se livre para deixar de lutar
desesperadamente pelo apreço do outro, e passa a se ocupar mais
de si mesmo. Erthal (1991) apud CAMON (2005, p.135).
Para Heidegger o ser se estabelece a partir da relação com o mundo, o ‘eu’ não se
dá sem o mundo, sem o outro, nem sem sua estrutura. Sendo assim, a mulher se
constitui na relação com o outro por estar no mundo. Logo, “o ser-em é ser-com os
outros... na base desse ser-no-mundo determinado pelo com, o mundo é sempre o
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mundo compartilhado com os outros. O mundo da pré-sença é mundo
compartilhado” (HEIDEGGER, 2002).
As relações estabelecidas com o outro, seja no meio privado ou público, propiciarão
que a mulher, mãe e profissional, busque sua essência no modo de ser e estar no
mundo, e na condição de um ser de singularidade que é sempre um devir, podendo
transitar nos diversos papéis seja o de mãe, esposa, irmã, profissional, artista,
amiga, amante dentre tantos outros papéis designados pela sociedade e
consolidados pela cultura como descreve abaixo Lo Bianco (1985):
O
enfraquecimento
da
obrigatoriedade,
que
restringia
a
possibilidade de outros papéis serem desempenhados pelas
mulheres, fez com que o papel de mãe perdesse a estabilidade que
possuía. Contudo, hoje, embora os papéis disponíveis às mulheres
não se limitem à maternidade, este papel continua com um lugar de
destaque para elas. Isto significa que há uma ênfase simultânea na
importância e obrigatoriedade da modernidade e na importância e
possibilidade do desempenho de outros papéis não relacionados ao
de ser mãe. (Lo Bianco (1985), apud. VAITSMAN (1994, p. 78).
Desta forma, as escolhas atribuídas às mulheres em ser mãe e profissional,
acarretam mudanças e transformações não apenas no modo de ser, pensar e agir
nas relações estabelecidas com o outro, como também mudanças biopsicossociais,
contribuindo para a construção, re-construção da identidade no contexto do qual
está inserida em seu cotidiano.
1.3 O reflexo das escolhas no modo de se perceber mulher
Ao refletir sobre o ser e o ente, Heidegger diz: ”O ser é sempre o ser de um ente”
(2002, p.35). O ente representa a expressão do ser em todas as suas modalidades.
O ser está no que é, no seu modo de ser. Entretanto, é o ente que vai possibilitar a
tematização do ser. O processo de escolha frente às diversidades do mundo passa
pela condição do ente, que se estabelece como simplesmente dado retratando a
condição da intencionalidade na filosofia existencial, ou seja, o ato de escolher tem
9
implicação direta na responsabilidade pela escolha feita, determinando assim, o
sentido desta mesma. Diz Heidegger:
Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto
pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia. É a partir dela
que algo se torna compreensível como algo. ( 2002, p.208).
A partir do momento que a mulher escolhe ou se percebe na condição de ser mãe
são muitas as responsabilidades atribuídas ao novo papel. Responsabilidades
atribuídas pela sociedade, e também por si mesma, cobrando e se fazendo cobrar
ser uma provedora das necessidades afetivas e materiais deste novo ser que se
apresenta, responsabilizando-se assim, por cuidar, alimentar, educar, amar e formar
um cidadão para a sociedade. Afinal, o ato de estabelecer escolhas frente aos
processos de vida promove diretamente a idéia de ter que se responsabilizar por
estas.
Ao decidir estar no mundo enquanto profissional, a mulher tende a conceber o
trabalho como um sentido em sua existência e o transforma em essência realizadora
e prazerosa. Segundo Lipovetsky (2007), as exigências do mercado de trabalho
impõem à mulher o exercício de auto superar-se, excedendo limites e muitas vezes
se impondo modos rígidos consigo mesma, isto, na tentativa de ser reconhecida
como um ser presente neste mercado. A partir dessa tomada de consciência do
trabalho como essência, a mulher, passa a reconhecer a possibilidade de aplicar
todo o seu potencial e habilidades criativas na atualização, visando assim um melhor
desempenho na execução das tarefas que lhe são atribuídas.
Todos esses papéis permitem à mulher construir e ser reconhecida como
responsável pela sua história, onde “as referências para a construção de sua
identidade não mais se limitaram aos papéis de esposa e mãe”. (Vaitsman, 1994,
p.80).
A citação acima sobre o processo de construção da identidade, está em
consonância com a
afirmação feita por Oliveira (1976), apud Coelho, (2006,
p.166/167), que distingue duas dimensões da identidade: a pessoal e a social.
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No momento que a mulher toma consciência de sua potencialidade enquanto ser,
pre-sença e da possibilidade de transformar-se, pois é sempre um devir, com suas
incertezas e fragilidades tal como qualquer ser, reconhecendo e demonstrando suas
habilidades intrínsecas à sua essência de mulher e simplesmente sendo.
De acordo com VAITSMAN (1994, p.130):
O
sentimento
de
fragmentação
da
identidade
vinculada
à
maternidade foi marca distintiva das mulheres desta geração. Se a
maternidade ao mesmo tempo, foi desejada e perseguida como
realização
pessoal,
restringia
outros
projetos
considerados
importantes.
LIPOVETSKY(2007) anuncia que a mulher, quando concebe a possibilidade de se
perceber na condição de ser mãe, e em ser profissional, chama para si todas as
responsabilidades que são peculiares a cada papel desempenhado, implicando
diretamente nas consequências advindas desse processo das escolhas de vida.
Enquanto a mulher-mãe tende a esmerar-se (e se cobra nesta condição) em dar o
melhor de si, como tentativa de superar a condição de ter sido subjugada na
comparação ao outro e ter se visto restrita ao lar. Na vida profissional a mulher
também tende a buscar atividades se referenciando nos papéis de força atribuídos
ao homem e da mesma maneira que estes buscam definir e inventar sua própria
vida.
As tarefas de casa, com efeito, são a oportunidade de constituir
territórios
identitários
e
pessoais,
de
impor
seus
critérios,
personalizando a sua maneira de agir e pensar, de fazer valer sua
concepção da organização doméstica, do limpo, do ordenado, da
alimentação ou da decoração. (LIPOVETSKY, 2007, p.255).
No momento em que as mulheres exercem cada vez mais uma atividade profissional
e se permitem ter ou não filhos, as tarefas maternas são pensadas menos como um
fardo e mais como um enriquecimento de si mesma; menos como uma “escravidão”
e sim como fonte de sentido; menos como uma “injustiça” que atinge as mulheres,
mas como uma realização identitária, não constituindo mais, como obstáculo à
autonomia individual.
11
A constituição da identidade perpassa não apenas pelas escolhas, mas também
pela responsabilidade assumida frente às escolhas, consistindo esta um fator
preponderante para que as várias funções vivenciadas influenciem no modo de se
perceber mulher, porém “a diversificação das situações de vida pessoal, embora
fragmentando a experiência em vários mundos, paradoxalmente, também possibilita
ao indivíduo maior possibilidade de escolha” (VAITSMAN, 1994, p. 160)
Considerações finais
Na tentativa de estabelecer uma conclusão sobre o tema, muitos autores não
ousaram afirmar ou responder o que é ser mulher, afinal, esta é e sempre será uma
construção social, consolidada nas relações estabelecidas com o outro no tempo,
espaço e contexto social do cotidiano.
Entretanto, há uma concordância entre os autores ao considerarem que os
processos de escolhas vivenciadas e experienciadas pelas mulheres em ser mãe e
profissional se estabelecem a partir das relações sociais com o outro, seja ele, filho,
marido e ou trabalho.
Esse outro - filho, marido e ou trabalho - parte do universo da mulher na
modernidade, contribuindo para a construção e re-construção da identidade, na
medida em que as relações são mediadas pela relação social onde há uma
aprendizagem no modo de ser mulher frente aos papéis de mãe e profissional.
Ao perceber-se responsável por seus processos de vida, a mulher é implicada
diretamente em refletir sobre suas escolhas e as conseqüências advindas delas,
reconhecendo-se enquanto única no jeito de ser, pensar e agir. Dessa forma como
uma imagem no espelho percebe o outro não mais em uma postura de ter de
submeter-se “a” mas o outro como um parceiro nas relações sociais.
A mulher protagonista de sua história busca entender que ser mãe e profissional faz
parte de um processo de vida. Abre sua existência para se inserir e estar no mundo
como um ser de possibilidades que é sempre um devir, reconhecendo-se nesta
construção, pois é sabido que o ser se estabelece na relação com, ou seja é e
12
sempre será um ser-com. Sendo assim, a mulher ao apresentar-se ao mundo,
retirando-se do lar como condição única para sua existência, se projeta e se
estabelece na relação com os outros e consigo, colocando-se na condição de ser
um ser-no-mundo, podendo transitar entre o meio privado para o meio público, ou
até mesmo permitir-se vivenciar qualquer outra possibilidade.
Tornou-se portanto um tema relevante para o desenvolvimento de pesquisa e
discussão no mundo acadêmico, uma vez que muitos foram os pensadores, filósofos
e historiadores que escreveram sobre a mulher, porém há um vasto campo de
pesquisa se considerarmos que, a mulher é parte fundamental nas relações
estabelecidas ao longo da vida, pois é o primeiro elo de comunicação e de
manutenção da vida e consequentemente no estabelecimento das relações com o
mundo.
Sendo necessário, portanto, que a mulher seja entendida como o ser que é,
podendo ser capaz de criar e até mesmo enredar a compreensão de sua própria
existência, partindo de sua condição de ser, um ser capaz de se perceber na relação
com o outro e com o mundo.
Referências
AUN, Juliana; VASCONCELLOS, Maria e COELHO, Sônia. Atendimento Sistêmico
de Famílias e Redes Sociais. Belo Horizonte: Oficinas de Arte e Prosa, 2006.
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CAMON, Valdemar Augusto Angerami – (Org). As várias faces da psicologia
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FEIJOO, Ana Maria L. C. A escuta e a fala em psicoterapia. São Paulo: Vetor, 2000.
FRANÇA,
Júnia
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Manual
para
Normalização de Publicações Técnico–Científicas. Belo Horizonte: Editora UFMG,
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HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Parte I. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.
LIPOVETSKY, Gilles. A terceira mulher: permanência e revolução do feminino. São
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VAITSMAN, Jeni. Flexíveis e plurais: identidade, casamento e família em
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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em parceria Sistema Nacional de
Informação
de
Gênero,
2000.
Disponível
em:
http//
www.presidencia.gov.br/spmulheres. Comunicação Social, 22/05/2006. Acesso em
29/03/2008.
Cantiga de Roda: Terezinha de Jesus (Domínio Público).
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