Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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AMOR NUNCA É DEMAIS
The MacGregor Grooms
Nora Roberts
O rico e poderoso Daniel MacGregor descobre as mulheres perfeitas para seus três
netos. D.C., Duncan e Ian são, assim, apresentados das formas mais criativas a Layna
Drake, Cat Ferrell e Naomi Brightstone. Agora, eles e suas futuras noivas precisam
apenas ser convencidos de que estão diante dos amores de suas vidas. Mas este é um
trabalho para o destino... e para o coração.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
Digitalização e revisão – Marelizpe
Tradução: Márcia do Carmo Felismino Fusaro
1999
EDITORA BEST SELLER
Título original: The MacGregor Grooms
Copyright © 1998 by Nora Roberts
Licença editorial para a Editora Nova Cultural Ltda. Todos os direitos reservados.
Coordenação editorial Janice Florido
Chefe de Arte Ana Suely Dobón
Revisão Levon Yacubian
Editoração eletrônica
Nair Fernandes da Silva
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10º andar - CEP 05424-010
Caixa Postal 9442 - São Paulo - Brasil
EDITORA BEST SELLER
Uma divisão da Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 - 10º andar - CEP 05424-010
Caixa Postal 9442 - São Paulo - Brasil
1999
Impressão e acabamento: Gráfico Círculo.
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Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Do Diário
de
Daniel Duncan MacGregor
Para alguém da minha idade, os anos passam rapidamente, com uma estação logo se
seguindo à outra. Nesse estágio da vida, cheguei à conclusão de que cada momento
deve ser aproveitado ao máximo. Se bem que eu já costumava dizer isso quando estava
com trinta anos de idade.
Ao longo dos últimos tempos, tive a chance de ver quatro de meus queridos netos
encontrarem o amor, casarem-se e começarem novas famílias. Primeiro Laura, depois
Gwen, Júlia e finalmente Mac. Vejo a felicidade estampada no rosto de cada um deles e
na maneira como se referem às suas famílias. É muito bom compartilhar a vida com
alguém a quem amamos, e agora eles sabem disso melhor do que ninguém.
Então por que, pergunto eu, aqueles quatro demoraram tanto tempo para se decidir?
Se não fosse por minha intervenção, eles ainda estariam por aí, esvoaçando feito
borboletas, e minha Anna não teria sequer um neto para mimar! Mas não sou do tipo que
exige gratidão. Imagine! Desde que me tornei o patriarca da família, cumpro minha
obrigação sem esperar nenhum agradecimento. Porém, não se trata apenas de uma
obrigação. Para mim, é um prazer cuidar para que meus descendentes encontrem a
mesma felicidade que eu sempre tive ao lado de Anna.
Com toda essa atmosfera matrimonial, imaginei que meus outros netos também fossem
se animar e seguir o exemplo dos irmãos e dos primos. Mas não! Os MacGregor não
passam mesmo de um bando de rapazes teimosos e com espírito independente. Ora, e
Deus os abençoe por isso!
De qualquer maneira, ainda estou por perto para fazer o que é preciso ser feito. Levei três
de minhas netas para o altar e dei a meu primeiro neto o "empurrãozinho" de que
precisava. Alguns dizem que é interferência demais, mas isso pouco me importa! Em
minha opinião, trata-se de pura sabedoria. E decidi que está na hora de usá-la a favor do
neto batizado com meu primeiro nome: Daniel Campbell MacGregor.
Daniel é um bom rapaz, se bem que um pouco temperamental de vez em quando. Oh, e é
muito atraente também. Acho até que se parece comigo quando tinha a idade dele, por
isso, não lhe faltam companhias femininas. Porém, na verdade, é justamente esse o
problema. Muita quantidade e pouca qualidade entendem? Mas encontrei um modo de
resolver isso.
D.C. é um artista nato. Bem, pelo menos é o que dizem, pois eu não entendo nada do que
ele pinta. De qualquer maneira, meu neto é reconhecido por seu trabalho e parece mais
do que satisfeito com ele. Mas o que eu acho que o rapaz realmente precisa é de uma
linda jovem com quem possa compartilhar todo esse sucesso, e que possa dar a ele os
filhos que um homem precisa ter para se centrar na vida. Porém, não pode ser qualquer
mulher. Para D.C, tem de ser uma jovem culta, inteligente e ambiciosa. De fato, ela é a
pretendente que escolhi para ele quando os dois ainda eram crianças. Até que fui
paciente durante todo esse tempo... Com o passar dos anos, aprendi a conhecer meu
neto muito bem e agora sei exatamente como lidar com ele. D.C. é um cabeça-dura. Do
tipo que decide ir para a esquerda só porque o aconselhamos que seria melhor ir para a
direita. Talvez esse temperamento seja resultado dos oito anos de infância em que
passou tendo o pai como presidente. Havia muitas regras a serem seguidas, e D.C. sempre detestou regras.
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Mas agora que estou contando com a ajuda de uma velha amiga, finalmente verei o
jovem Daniel Campbell seguir na direção certa. Deixemo-lo pensar que está agindo por
conta própria. Um homem sábio não deve contar com agradecimentos, apenas com
resultados.
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PARTE I
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Uma réstia de luz atravessou as amplas janelas, incidindo sobre os carregados matizes
em tons de safira e de rubi. A luz também atingiu o artista que se encontrava diante do
cavalete, lidando com o pincel feito um soldado empunhando uma espada em plena
batalha.
De fato, ele tinha o semblante de um guerreiro. Os traços bem definidos denunciavam um
caráter intenso, determinado, e os lábios polpudos se encontravam firmemente unidos,
devido à concentração. Os olhos muito azuis, ressaltados por sobrancelhas espessas,
não perdiam nenhum detalhe da tela. Os cabelos de um tom castanho-avermelhado,
semelhante ao mogno, passavam por sobre o colarinho da camisa jeans, atribuindo-lhe
uma aparência jovial e ousada ao mesmo tempo. As mangas dobradas até a metade do
antebraço mostravam parte dos músculos firmes se movimentando conforme ele aplicava
o pincel sobre a tela.
Sim, ele se parecia muito com um guerreiro: ombros largos, corpo atlético e pernas
esguias. Os pés descalços estavam plantados firmemente no chão e as mãos sujas de
tinta indicavam que ele estava ali desde algum tempo.
Em sua mente, surgiam explosões emotivas, arrebatadoras. Paixão e desejo se
misturavam com intensidade, extravasando por meio de seu ágil pincel. Ao fundo, o som
de um rock instrumental completava aquela verdadeira batalha de emoções.
Pintar sempre fora uma espécie de batalha para ele. Uma batalha da qual ele participava
com o intuito de vencer, sempre vencer. Quando estava com disposição, costumava
trabalhar até seus braços doerem. Mas quando seu estado de espírito não o animava a
ficar diante de uma tela, ele era capaz de deixar a pintura de lado durante dias ou até
mesmo semanas.
Algumas pessoas diziam que D.C. MacGregor não tinha disciplina. Mas ele sempre
argumentava: "Quem diabo precisa dela?"
Ao segurar o cabo do pincel entre os dentes, enquanto abria um tubo de tinta verdeesmeralda, um brilho de triunfo surgiu em seus olhos. Seu mais novo trabalho estava
quase pronto. As horas de batalha estavam quase chegando ao fim.
Uma gota de suor escorreu pelo centro de suas costas. A essa altura, o sol que entrava
pela janela havia se tornado mais intenso, deixando o ateliê abafado. Na verdade, ele
havia se esquecido de ligar o ar-condicionado e de abrir algumas janelas.
Também se esquecera de comer, de verificar a correspondência, de atender ao telefone e
até mesmo de observar pelo menos por um instante a linda paisagem que se estendia
além das amplas janelas do apartamento. Sua energia parecia estar fluindo com a mesma
urgência com que o roqueiro dedilhava as cordas da guitarra, fazendo o som vigoroso
ecoar pelo ambiente.
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Depois de mais algumas pinceladas, deu um passo atrás c curvou os lábios em um
sorriso satisfeito.
— Pronto — murmurou.
Colocou o pincel no vidro com solvente e começou a limpar a espátula evasivamente,
enquanto examinava o resultado de seu trabalho.
— Desejo — anunciou. Aquela obra se chamaria Desejo.
Pela primeira vez, em horas, deu-se conta de que o aposento estava abafado. Um forte
cheiro de terebintina e de tinta recendia pelo ar. Atravessando o ateliê improvisado, abriu
uma das janelas e respirou o agradável ar fresco.
Haviam sido justamente aquelas amplas janelas e a belíssima vista do Canal C&O que o
tinham levado a comprar aquele apartamento, quando decidira voltar para Washington.
Havia crescido ali, e passara oito anos de sua infância na Casa Branca, como o filho mais
velho do presidente.
Durante algum tempo, vivera e trabalhara em Nova York, e gostara muito de lá. Também
já havia morado em San Francisco, cidade que lhe deixara saudades. Porém, durante
todos aqueles anos, algo sempre parecera atraí-lo para Washington. Até que ele
finalmente cedera. De fato, ali era seu lar.
Com um suspiro, permaneceu diante da janela, com as mãos nos bolsos traseiros do
jeans desbotado. A vegetação estava mais verdejante do que nunca e as águas do canal
brilhavam sob o intenso sol da tarde.
Que dia do mês seria? D.C. se perguntou. Enquanto, tentava encontrar a resposta, ouviu
seu estômago roncar e deu-se conta de quanto estava faminto. Ainda com o som do rock
ecoando pelo ar, dirigiu-se à cozinha.
O apartamento era duplex, mas o andar de cima comportava apenas uma grande suíte.
Com uma espécie de biombo, D.C. havia dividido o aposento em dois e transformara uma
parte em seu ateliê. Dormia em um colchão deixado do outro lado do quarto. Desde que
chegara, não tivera ânimo para sair e comprar uma cama.
A maioria de suas roupas ainda se encontrava guardada nas caixas que haviam chegado
de navio, dois meses antes. As caixas estavam servindo como um bom guarda-roupa improvisado, enquanto ele não encontrava tempo e disposição para comprar um de
verdade.
O andar principal tinha um living espaçoso, cercado por outro conjunto de janelas amplas.
Tudo que havia nele era um sofá, ainda com a etiqueta, uma bela mesa Duncan Phyfe,
com uma considerável camada de poeira, e um abajur de chão, com uma haste de metal
trabalhado. O único item que encobria parte do assoalho era um tapete bege que parecia
ter ido parar ali por mero acaso.
Os armários da cozinha estavam praticamente vazios. A louça que não se encontrava na
pia continuava nas caixas, deixadas a um canto. D.C. abriu a geladeira e não gostou nem
um pouco de vê-la vazia, exceto por três latas de cerveja, uma garrafa de vinho branco e
dois ovos.
Poderia jurar que saíra para fazer compras! Mas onde estariam elas? Ao abrir a portinhola
da despensa, encontrou alguns pedaços de pão mofado, um pacote de café, três caixas
de cornflakes e uma lata de sopa.
Com um suspiro resignado, abriu uma das caixas de cereal e comeu um punhado,
enquanto se decidia entre preparar um café ou tomar um banho. Havia acabado de optar
por preparar o café, e levá-lo consigo para o banho, quando o telefone começou a tocar.
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Ainda mastigando os flocos de milho, adiantou-se para atendê-lo.
— Alô?
— Oh, aí está meu rapaz.
Um brilho surgiu nos olhos azuis de D.C. enquanto se encostava no balcão, com os lábios
curvados em um sorriso.
— Ei, vovô. O que está aprontando dessa vez?
— Algo diabólico pode ter certeza — respondeu Daniel, com bom humor. — Nunca ouve
os recados, rapaz? Falei com essa maldita secretária eletrônica mais de cinco vezes nos
últimos dias. Sua avó já estava querendo ir até aí, para saber se não havia lhe acontecido
alguma coisa.
D.C. arqueou uma sobrancelha. Todos na família sabiam que o velho Daniel sempre
usava o nome da esposa quando queria censurar algum dos netos.
— Eu estive trabalhando, vovô.
— Ótimo. Sim, isso é ótimo, mas precisa parar um pouco de vez em quando, não?
— Na verdade, estou no meio de uma parada.
— Quero lhe pedir um favor, D.C. Detesto ter de fazer isso, mas não tenho outra escolha.
Daniel exalou um longo suspiro, levando o neto a franzir o cenho.
— O que foi vovô?
— Você não vai gostar... E não posso culpá-lo por isso. Estou com um probleminha. Sua
tia, Myra...
— Ela está bem?
D.C. se desencostou do balcão. Myra Dittmeyer era a amiga mais antiga e querida de sua
avó, sua madrinha e uma participante ativa do clã dos MacGregor. D.C. sempre a
adorara. Com sentimento de culpa, lembrou-se de que não havia ido visitá-la desde que
chegara a Washington, seis semanas antes.
— Oh, ela está ótima, meu rapaz. Não se preocupe com isso. Myra está mais saudável do
que nunca. Mas é que... Bem, ela tem outro afilhado, além de você, sabia? Na verdade,
trata-se de uma afilhada. Não creio que se lembre dela, afinal vocês se encontraram
apenas uma ou duas vezes quando ainda eram crianças. O nome dela é Layna Drake.
D.C. repetiu o nome mentalmente, até que a vaga imagem de uma menina franzina e com
cabelos cacheados surgiu em sua memória.
— O que há com ela? — perguntou ao avô.
— Ela está de volta a Washington, depois de passar algum tempo fora. As lojas de
departamentos da rede Drake's pertencem à família dela. Layna está trabalhando na loja
principal e Myra... Bem, vou falar de uma vez. Haverá um baile beneficente amanhã à
noite, e Myra está aborrecida porque Layna não tem um acompanhante. Por isso, ela me
pediu para lhe perguntar se...
— Pelo amor de Deus, vovô! — D.C. o interrompeu.
— Eu sei, eu sei. — Daniel usou outro de seus longos suspiros. — Isso é coisa de mulher,
meu rapaz. O que posso fazer? Elas ficam falando no nosso ouvido até cedermos de uma
maneira ou de outra, e você sabe muito bem como é isso. Eu disse a Myra que iria
perguntar a você. Faria um grande favor a seu avô se fizesse um esforço para colaborar.
— Se você e Myra estiverem tramando alguma coisa... Daniel o interrompeu com um riso
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espontâneo, do outro lado da linha. D.C. franziu o cenho mais uma vez.
— Não é nada disso, D.C. Na verdade, essa garota não tem nada a ver com você, pode
acreditar. Admito que ela seja bonita e inteligente, mas não daria certo com você. E um
pouco afetada, em minha opinião. Do tipo que mantém o nariz empinado durante a maior
parte do tempo, entende o que quero dizer? Para ser sincero, eu não gostaria de vê-lo se
interessar por ela. Se não puder acompanhá-la, basta avisar que eu direi a Myra que você
já tinha outro compromisso.
— Amanhã à noite? — D.C. passou a mão pelos cabelos. Detestava bailes beneficentes.
— Os trajes serão a rigor?
— Receio que sim. — Daniel deu um riso simpático. — Sabe de uma coisa? Direi a Myra
que você não poderá ir. Será tolice desperdiçar a noite com uma garota que
provavelmente o deixará aborrecido. Duvido que vocês dois tenham sequer uma coisa em
comum. De qualquer maneira, é melhor você começar a procurar uma esposa. Já passou
do tempo de se casar e de formar uma família, Daniel Campbell. Sua avó tem medo de
que você acabe morrendo de fome nesse ateliê, sem nenhuma esposa ou filhos para
cuidarem de você. Por falar nisso, tenho outra garota em mente para você. Ela é...
— Eu irei — D.C. o interrompeu, mais por autodefesa do que por vontade própria.
Se seu avô não se importava com a afilhada de Myra, era sinal de que não ficaria
telefonando e tentando marcar encontros entre eles. Talvez depois de fazer aquele favor
para o velho MacGregor, ele parasse de tentar aumentar a família. Mesmo não
acreditando muito que isso fosse possível, decidiu que valeria a pena tentar.
— A que horas amanhã, e onde terei de apanhar... Como é mesmo o nome dela?
— Oh, ainda bem. Vou ficar lhe devendo essa. O baile começará às oito da noite, no
Shoreham Hotel. Layna está morando na antiga casa dos pais, na O Street. —
Examinando as unhas, Daniel ditou o endereço ao neto. — Agradeço por se dispor a me
ajudar, meu rapaz.
D.C. deu de ombros, virando a caixa de cereal na boca, antes de começar a conversar
com o avô a respeito das novidades sobre a família. A certa altura, perguntou-se onde
teria guardado seu smoking.
— Oh, tia Myra, pelo amor de Deus!
Layna estava vestida apenas com a lingerie, segurando um longo vestido de seda branca
diante do corpo. Olhou para a madrinha, a quem tratava por tia, com uma expressão
atônita.
— Um acompanhante que eu nem sequer conheço?— indagou.
— Não exagere, meu bem. — Myra sorriu. — Vocês se conheceram quando eram
crianças. Sei que é uma imposição, mas é que Daniel raramente me pede algum favor.
Será apenas uma noite, e você já iria ao baile de qualquer maneira.
— Só que eu pretendia ir com você.
— Mas eu estarei lá — afirmou Myra. — D.C. é um rapaz muito gentil, querida. Um pouco
excêntrico, mas muito gentil.— Ela sorriu. — Claro que meus afilhados são pessoas
maravilhosas.
Myra continuou sorrindo ao sentar-se na cama e observar a afilhada. Myra tinha cabelos
brancos e macios como algodão. Embora estivesse na casa dos setenta anos, sua mente
era astuta e dinâmica. Mas quando a situação exigia, como naquele momento, usava seu
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ar mais frágil para conseguir o que queria. "A indefesa viúva Dittmeyer" ela pensou,
contendo a vontade de rir.
— Daniel se preocupa com ele — prosseguiu. — E eu também. Mas quem poderia
imaginar que Daniel teria essa idéia quando eu mencionei que você havia voltado para
Washington e que iria ao baile de hoje à noite? Não tive como... — Myra agitou as mãos,
sem palavras. — Não consegui dizer "não", entende? Mas sei que é uma imposição.
Layna suspirou. Sua madrinha pareceu tão triste e embaraçada com a situação que a fez
voltar atrás.
— Não tem importância, tia Myra. Como você mesma disse, eu iria de qualquer maneira.
— Colocou o vestido com elegância. — Iremos encontrá-lo no baile?
— Ah... — Tentando calcular o tempo, Myra ficou de pé. — Na verdade, ele chegará
dentro de poucos minutos para apanhá-la. Irei encontrá-los por lá. Meu Deus, veja que
horas são! Meu motorista já deve estar se perguntando por que não apareci ainda.
— Mas...
— Nos veremos no baile, querida.
Dizendo isso, Myra se encaminhou para a porta, com uma agilidade surpreendente para
uma mulher de sua idade.
— Oh, e você está linda — falou, antes de seguir pelo corredor sem olhar para trás.
Layna continuou de pé diante do espelho, com o zíper do vestido aberto nas costas.
Típico, pensou com um suspiro. Não esperava uma atitude diferente de sua madrinha.
Myra vivia tentando lhe arranjar pretendentes, o que a deixava sempre com a embaraçosa
tarefa de rejeitá-los.
Casamento era algo que ela considerava estar totalmente fora de seu plano de vida.
Depois de crescer em meio a uma família onde as boas maneiras eram mais valorizadas
do que o amor, e romances casuais eram polidamente ignorados, não tinha a mínima
intenção de acabar tendo esse mesmo tipo de relacionamento com alguém.
Os homens serviam como ótimas companhias temporárias, desde que ela estivesse no
comando do jogo, claro. No momento, porém, sua carreira era muito mais importante do
que ter alguém com quem jantar no sábado à noite.
Pretendia continuar sua escalada na Drake's e nada a faria desistir disso. Segundo seus
cálculos, dentro de dez anos ela estaria apta a ocupar o cargo de gerente executiva da
empresa. Essa era sua principal meta.
A Drake's não era apenas uma rede de lojas de departamentos, era uma instituição. Se
continuasse solteira, poderia devotar todo seu tempo e energia para manter a reputação e
o estilo da empresa.
Não queria ser como sua mãe. Definitivamente não, pensou, franzindo o cenho. Donna
Blake sempre considerara a Drake's apenas como uma extensão de seu guarda-roupa,
nada mais. Matthew Blake, por sua vez, preocupava-se apenas com os lucros da
empresa. Por isso, rejeitava as idéias da filha, que vivia tentando inovar e criar novos
setores na loja, só que mantendo a tradição e o estilo da conhecida rede de lojas.
Layna sempre tivera idéias muito próprias e isso parecia incomodar a família de alguma
maneira. Para ela, a Drake's era uma responsabilidade, mas também uma fonte de
prazer. Seus colegas de trabalho e a rede de lojas eram sua verdadeira família. Algumas
pessoas podiam até considerar a idéia meio decadente, mas ela própria a considerava
muito confortadora.
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Com um movimento preciso, fechou o zíper do vestido. Uma parte de sua
responsabilidade com relação à Drake's dizia respeito às funções sociais da empresa. Por
isso teria de comparecer àquele baile. A outra parte do "trabalho" significava ter um acompanhante apropriado, já que era o que todos esperavam.
Pelo menos dessa vez sua tia não demonstrara nenhum interesse real em aproximá-la de
seu acompanhante. Ao longo das horas seguintes, tudo com que teria de se preocupar
seria em manter uma conversa superficial com D.C. MacGregor. Nada mais, nada menos.
De qualquer maneira, tinha um ponto a seu favor: nunca fora tímida para conversar com
estranhos.
Aproximando-se da penteadeira, pegou um par de brincos com pingentes de pérolas e
brilhantes. A decoração do quarto era um reflexo de sua preferência pessoal: elegância
discreta com um ligeiro toque de ousadia. A cama antiga, feita de cerejeira entalhada, a
superfície cuidadosamente polida da escrivaninha, da penteadeira e da mesinha-decabeceira, onde havia vasos com flores frescas, as discretas peças de arte... Tudo ali
parecia emanar uma atmosfera de bom gosto.
Layna ainda pretendia morar ali por algum tempo, até conseguir ter seu próprio espaço.
Por isso, decidira deixar o quarto com o aspecto mais próximo possível daquele que teria
o quarto de seu próprio apartamento. Felizmente, seus pais haviam decidido passar
algum tempo em Nova York. Pelo menos lhe restariam alguns dias de paz até que eles
decidissem voltar e tentar mandar em sua vida. Essa sempre fora a parte mais difícil que
ela enfrentara ao lidar com eles.
Ao lado da pequena lareira de mármore, situada a um canto do quarto, via-se um estojo
aberto sobre uma mesinha, exibindo uma bela coleção de pequenos vidros de perfume.
Enquanto escolhia um deles, deu-se a liberdade de pensar, ainda que por um instante,
em quanto daria tudo para passar uma noite tranqüila em casa, vestida com um pijama
confortável e lendo um bom livro em sua cama.
Havia acabado de sair de um turno de dez horas na Drake's. Seus pés estavam doendo,
sua mente exausta e seu estômago vazio.
Decidindo deixar aqueles "meros detalhes" de lado, virou-se mais uma vez para o espelho
inteiriço. O vestido longo emoldurava seu corpo com perfeição, deixando-a atraente e
feminina ao mesmo tempo. O toque final de sofisticação ficava por conta da parte superior
do modelo, que mostrava seus ombros nus. Com cuidado, vestiu o casaquinho bordado
com pérolas, colocou os sapatos forrados com cetim branco e verificou o conteúdo de sua
pequena bolsa de mão feita de madrepérola.
Ao ouvir a campainha, suspirou com desânimo. Pelo menos ele era pontual, pensou.
Lembrava-se vagamente de haver conhecido D.C. durante a infância. Ao ser apresentada
ao pai dele, na época o presidente dos Estados Unidos, ficara nervosa e impressionada
demais para prestar atenção a qualquer outro detalhe. Porém, ouvira falar dele ao longo
dos anos.
D.C. era um artista, lembrou a si mesma, enquanto descia a escada. E pertencente à
escola moderna, que ela nunca fizera muita questão de entender. Suas preferências se
voltavam para o clássico em todos os sentidos. Teria sido mesmo verdade que ele e uma
bailarina haviam tido um relacionamento escandaloso alguns anos antes? Ou teria sido
uma atriz?
Bem, não valeria a pena ficar se questionando a respeito disso. Afinal, até mesmo um
espirro do filho de um ex-presidente era notícia suficiente para aparecer nas manchetes
dos jornais. Além disso, ser o neto de Daniel MacGregor aumentava ainda mais sua
notoriedade. Devia ser desagradável estar sempre sendo assediado por repórteres
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sedentos por notícias sensacionalistas. Ela própria preferia viver nos bastidores, sem ter
de enfrentar as luzes da ribalta.
De qualquer maneira, ele não devia ser lá muito atraente, já que precisara da ajuda do
avô para encontrar uma acompanhante para um baile de sábado à noite.
Ensaiando seu melhor sorriso, Layna se adiantou e abriu a porta. De fato, somente os
anos de disciplina adquirida em uma escola suíça de freiras impediram-na de arregalar os
olhos e ficar boquiaberta.
Aquele homem estonteantemente bonito, trajando smoking, com cabelos de príncipe
encantado e olhos azuis que pareciam capazes de ler sua alma, precisara mesmo da
ajuda do avô para encontrar uma acompanhante? Ah, aquela história estava muito mal
contada.
— Layna Drake?
"Só posso estar na casa errada", foi tudo que D.C. conseguiu pensar. Aquela belíssima
mulher, cuja aparência lembrava a delicadeza de uma gaivota branca, não se parecia
nem de longe com a imagem da menina franzina que ele trazia na lembrança.
Os longos cabelos loiros caíam em ondas sedosas sobre seus ombros, terminando em
pontas ligeiramente cacheadas. Deus, ele estava diante de um anjo! Justo ele, que se
considerava um grande pecador. Talvez o paraíso houvesse decidido lhe dar uma
chance.
Fitando o rosto de traços perfeitos, e sentindo-se hipnotizado pelo brilho inteligente
daqueles olhos verdes, continuou esperando por uma resposta.
Layna se recuperou da surpresa mais do que depressa e estendeu a mão para ele,
mantendo o sorriso.
— Sim, sou Layna Drake. E você é Daniel MacGregor, certo?
— Apenas D.C. Daniel é meu avô.
— D.C. então.
Normalmente, Layna o convidaria para entrar e cumpriria o papel de anfitriã por alguns
minutos, para terem a chance de ficar mais à vontade na companhia um do outro. No
entanto, não se sentiu segura o suficiente para fazer isso com ele. D.C. era atraente e
másculo demais para sua paz de espírito.
Deliberadamente, deu um passo adiante e fechou a porta atrás de si.
— Vamos?
— Sim, claro.
Enquanto andavam em direção ao carro, D.C. passou um lenço discretamente pela testa.
Pelo visto, teria uma longa noite pela frente.
Assim que olhou para o excêntrico carro esporte estacionado diante da casa, Layna se
perguntou como conseguiria entrar nele com aquele vestido. Não se lembrava de ter feito
nenhum curso de contorcionismo nos últimos tempos.
"Oh, tia Myra, o que você foi me arranjar desta vez...", lamentou com um suspiro.
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Layna estava se sentindo trancada em um sapato mecânico com um gigante a seu lado.
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D.C. devia ter mais de um metro e oitenta, mas parecia perfeitamente à vontade dirigindo
seu carro de brinquedo. E em alta velocidade, segundo ela logo teve chance de perceber.
O tráfego intenso de Washington não parecia ser problema para ele.
Quando deu por si, estava segurando a maçaneta da porta com tanta força que seus
dedos haviam ficado esbranquiçados. Em um gesto automático, verificou o cinto de
segurança e rezou para não acabar com o rosto colado no pára-brisa antes mesmo do
início da noite.
Melhor seria tentar conversar sobre amenidades. Talvez assim conseguisse parar de
pensar no risco que estava correndo.
— Tia Myra me disse que fomos apresentados há alguns anos, quando seu pai era
presidente.
A última palavra saiu entrecortada quando D.C. passou o carro por entre um ônibus e
uma limusine, antes de voltar à pista principal.
Foi o que eu também soube — respondeu ele, despreocupadamente.
— Você se mudou para Washington há pouco tempo?
— Sim.
Dando-se conta de que havia fechado os olhos, Layna voltou a abri-los e levantou o
queixo, fingindo demonstrar uma coragem que estava longe de sentir.
— Eu também — afirmou D.C.
Deus, ela estava usando um perfume maravilhoso, pensou ele. Dando-se conta de que
aquilo poderia perturbar sua concentração, abriu um pouco sua janela, deixando o ar da
noite invadir o carro.
— Oh, é mesmo?
Layna conteve o fôlego, sentindo o coração acelerar. Seria possível que ele não estava
vendo o semáforo prestes a fechar? Não ia diminuir a velocidade? Conteve uma
exclamação de susto quando o carro passou direto pelo cruzamento bem no instante em
que a luz amarela do semáforo havia mudado para vermelha.
— Estamos atrasados? — perguntou, recuperando-se do susto.
— Não, por quê?
— Você parece estar com pressa.
— Não exatamente — respondeu D.C.
— Acabou de passar pelo semáforo vermelho. Ele arqueou uma sobrancelha.
— Estava amarelo.
—
Bem,
pensei
que
a
luz
amarela
deve diminuir a velocidade e se preparar para parar.
indicasse
que
o
motorista
— Não se você quiser chegar a seu destino. Foi a vez de Layna arquear uma
sobrancelha.
— Você sempre dirige assim?
— Assim como? — indagou D.C, com um ar inocente.
— Como se estivesse fugindo depois de assaltar um banco. Ele riu da comparação
espirituosa.
— Sim. — Virou a esquina do hotel e parou com uma breve cantada de pneus. — Meu
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estilo de dirigir me faz ganhar tempo — explicou, saindo facilmente do carro.
Layna continuou paralisada, enquanto sua respiração voltava ao normal. Em pensamento,
agradeceu por haver chegado inteira, mas ainda estava na mesma posição quando D.C.
entregou as chaves ao manobrista e abriu a porta para ela.
— Acho melhor soltar o cinto de segurança - ele sugeriu, com um brilho de divertimento
no olhar.
Depois que Layna soltou o cinto, D.C. tomou-lhe a mão e ajudou-a a sair do carro. A
proximidade entre eles fez uma onda de perfume envolvê-lo mais uma vez, deixando-o
com os sentidos estranhamente aguçados.
Tinha de admitir que ela era linda. Tinha um rosto com traços exóticos e clássicos ao
mesmo tempo. Sem dúvida, uma intrigante combinação. Embora sua especialidade não
fosse pintar retratos, às vezes seu olhar de artista o levava a esboçar rostos que o
interessavam. E o de Layna parecia perfeito para um esboço.
Layna sentiu a respiração voltar ao normal. Estava com as pernas um pouco trêmulas,
mas o importante era ainda estar viva.
— Não deveria ser permitido que pessoas como você tirasse carta de motorista e saíssem
dirigindo por aí feito loucas. Principalmente alguém do seu tamanho, ao volante de uma
lata de sardinhas sobre rodas.
— Meu carro é um Porsche - corrigiu D.C, ainda segurando a mão dela, enquanto se
encaminhavam para a entrada do hotel. — Se queria que eu diminuísse a velocidade, por
que simplesmente não pediu?
— Estava ocupada demais rezando para não morrer. D.C. sorriu com bom humor. Mas
nem mesmo isso serviu para amenizar o brilho perigoso que Layna identificou nos olhos
dele. De fato, o riso espontâneo serviu apenas para enfatizá-lo.
— Bem, parece que suas preces foram atendidas — disse ele. — Pará onde teremos de
ir?
Sem responder à pergunta, Layna se aproximou dos elevadores e apertou o botão de
chamada. Quando as portas se abriram, ela entrou primeiro e apertou o botão do andar
para onde iriam.
Atrás dela, D.C. revirou os olhos com impaciência.
— Ah... — Como era mesmo o nome dela? — Layna? Se ficar mal-humorada, teremos
uma noite longa e tediosa.
Ela continuou olhando para frente, tentando se manter calma.
— Não estou mal-humorada - declarou, com um tom de voz que não denotava o mínimo
bom humor.
Somente uma boa dose de educação refinada a impediu de sair correndo do elevador
assim que as portas se abriram. Em vez disso, porém, saiu com elegância e ficou de lado,
esperando que D.C. se unisse a ela.
Ao segurá-la pelo braço, D.C. notou que Layna havia ficado corada depois do acesso de
indignação. Um toque de calor a um semblante clássico. Sem dúvida, uma combinação
interessante do ponto de vista artístico. Se tivesse algum interesse por ela, com certeza
daria um jeito para que o adorável tom rosado aparecesse mais vezes naquele rosto
bonito.
Mas já que não tinha nenhum interesse, e que pretendia ter uma noite tranqüila, decidiu
manter a diplomacia.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
14
— Desculpe-me — disse a ela.
"Desculpe-me?", pensou Layna, enquanto D.C. a conduzia ao salão de baile. Aquilo era
tudo que ele tinha a dizer? Pelo visto, ele não havia herdado as habilidades diplomáticas
do pai.
Pelo menos o salão estava cheio de convidados animados, e ela não teria de passar a
festa inteira falando sobre amenidades com seu acompanhante. Assim que a boa
educação permitisse, pretendia encontrar alguém mais sensível com quem conversar.
— Aceita vinho? — D.C. ofereceu. — Branco ou tinto?
— Branco, obrigada.
Até então, estava tudo sob controle, pensou D.C, enquanto pegava um cálice de vinho
para Layna e um copo de cerveja para si próprio. Deu graças por seu avô não estar por
perto, bancando o casamenteiro.
— Oh, aí está você! — Myra se adiantou, com as mãos estendidas na direção dos dois.
Não formavam um lindo casal? Oh, mal podia esperar para contar a Daniel como seus
pimpolhos ficavam bem juntos.
— D.C, você está simplesmente maravilhoso — elogiou-o, oferecendo o rosto para um
beijo.
— Reservou uma dança para mim? — gracejou ele.
— Claro que sim. Seus pais estão aqui, querido. Por que não vêm se sentar conosco um
pouquinho? — Dizendo isso, ficou no meio dos dois e enlaçou os braços por suas
cinturas, impelindo-os a seguir em frente. — Sei que querem se divertir e dançar, mas vou
me dar ao luxo de ser um pouco egoísta por alguns minutos.
Com uma habilidade e um estilo adquiridos depois de muita prática, Myra os acompanhou
por entre os convidados até alcançar as mesas, guarnecidas com toalhas brancas e pequenos vasos com flores frescas.
Myra estava morrendo de vontade de observar os dois por algum tempo. Queria estudar
os pequenos detalhes da linguagem corporal, para ver como eles se comportavam na
presença um do outro. De súbito, começou até a imaginar qual seria a lista de convidados
para o casamento.
— Vejam só quem eu encontrei — anunciou, com um sorriso.
— D.C.! — Shelby Campbell MacGregor ficou de pé.
O vestido de seda verde-Iimão esvoaçou quando ela abriu os braços para cumprimentar o
filho. Os cabelos cacheados, reunidos em um coque no alto de sua cabeça, roçaram o
rosto de D.C.
— Eu não sabia que você viria a este baile — disse a ele.
— Nem eu — confessou D.C.
Depois de mantê-la junto de si por alguns segundos, virou-se para abraçar o pai com
força.
Os cabelos grisalhos de Alan MacGregor brilhavam sob as luzes do salão. Seus lábios se
curvaram em um sorriso satisfeito, quando ele olhou para o filho.
— Meu Deus, você está ficando cada dia mais parecido com seu avô.
Bem, até mesmo uma estátua insensível adoraria a família de D.C, concluiu Layna.
Sentiu-se mais tranqüila ao ver-se em meio a pessoas tão gentis e simpáticas.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
15
Se seus pais estivessem em circunstâncias semelhantes, com certeza haveria apenas
uma troca superficial de cumprimentos.
Shelby olhou em sua direção, com um sorriso amável e um brilho de curiosidade nos
olhos acinzentados.
— Shelby, esta é minha afilhada, Layna Drake — anunciou Myra, com um ar de orgulho.
— É um prazer conhecê-la, Sra. MacGregor.
Shelby cumprimentou-a com um aperto de mão, satisfeita ao notar a firmeza do toque de
Layna.
— É filha de Donna e Matthew?
— Sim — Layna confirmou. — Eles estão viajando no momento.
— Dê lembranças minhas a eles, quando os encontrar. Alan, esta é Layna Drake, filha de
Donna e Matthew, lembra? E afilhada de Myra.
— Claro que me lembro — afirmou ele, com um sorriso. — Myra fez ótimos elogios a seu
respeito. — Estendeu a mão para cumprimentá-la. — Mudou-se para Washington?
— Sim — respondeu Layna. — E bom estar de volta. E é uma honra encontrá-lo
novamente, Sr. MacGregor. Fui apresentada ao senhor quando ainda era criança.
Confesso que fiquei aterrorizada.
Ele riu, puxando uma cadeira para ela.
— Eu era tão assustador assim? Layna também riu, sentando-se.
— Não. Mas sua aparência era muito... Presidencial. Eu havia acabado de perder os dois
dentes da frente e estava me sentindo a mais desengonçada das criaturas. Então o
senhor me contou a história da fada dos dentes. — Ela sorriu. — E eu me apaixonei no
mesmo instante.
— E mesmo?
Alan deu uma piscadela para a esposa quando ela riu.
— Você foi minha primeira vítima — gracejou ele. — E levou pelo menos dois anos até
ser substituída por Dennis Riley, que sempre se sentia embaraçado quando tinha de usar
o uniforme de escoteiro. Não sei por que, mas depois da conversa que tive com o garoto,
ele passou a adorar aquela roupa.
Todos riram. D.C. olhava a cena com atenção. Estava sendo interessante observar Layna
conversando com seus pais. Aquela atmosfera animada parecia estar fazendo bem a
todos. O ar esquivo continuava a se esconder em algum canto daqueles belos olhos
verdes, mas o charme e a vivacidade o haviam sobrepujado, tornando Layna tão linda
quanto uma flor recém-desabrochada.
Aquele sorriso sexy, mas discreto, trouxe à sua visão de pintor a imagem de um arco-íris
surgindo no meio de uma nuvem. Para um artista, nada era impossível.
Teve de admitir que era um prazer observá-la daquela maneira. Os gestos polidos, os
cabelos dourados deslizando sobre os ombros esguios, o formato delicado e convidativo
dos lábios rubros...
Também era fascinante ouvi-la falar. A voz firme e ligeiramente rouca mantinha-se em um
tom sempre ameno, levando-o a imaginar quanto seria agradável ouvi-la com mais
freqüência.
— D.C., pelo amor de Deus!
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
16
Ele despertou do devaneio quando a mãe o cutucou e abaixou o tom de voz ao dizer:
— Você nem a convidou para dançar!
— O quê?
— Convide Layna para dançar — sussurrou ela, com um ar impaciente. — Onde estão
seus bons modos?
— Oh, sinto muito.
"Droga", pensou ele, tocando o ombro de Layna mesmo contra a vontade.
Ela quase pulou na cadeira, voltando-se para D.C. no mesmo instante. Acabara se
esquecendo de que ele estava ali perto. Não deveria estar agindo assim. Onde estavam
seus bons modos? Afinal, D.C. era seu acompanhante, por mais que isso não a
agradasse.
Mostrando seu melhor sorriso, preparou-se para deixar os pais dele um pouco de lado e
dar mais atenção ao dono do Porsche assassino.
— Quer dançar um pouco? — convidou ele.
Layna conteve o fôlego. Se D.C. dançasse como dirigia, ela teria sorte em sair da pista de
dança caminhando com os próprios pés.
— Sim, claro.
Sentindo-se como alguém prestes a entrar em uma jaula de leões, ficou de pé e deixou
que ele a conduzisse até a pista de dança.
Pelo menos a música estava agradável, pensou ela. Lenta, ritmada, romântica... Bem, a
última característica não vinha ao caso. Vários casais estavam aproveitando o momento
de descontração e a pista de dança se encontrava cheia.
Layna chegou a alimentar a esperança de que seu acompanhante desistisse da dança ao
ver toda aquela gente mais de perto, mas não adiantou. Assim que puderam se encaixar
no meio dos casais, ele se virou e enlaçou-a entre os braços.
Ela disse a si mesma que o arrepio que sentiu pelo corpo foi apenas resultado de sua
surpresa. Quem poderia imaginar que alguém tão alto e atlético como D.C. podia se
mover com tanta facilidade? Ele não parecia se importar com a quantidade de pessoas ao
redor, conduzindo-a como se a pista houvesse sido reservada apenas para eles.
A mão apoiada em sua cintura também não estava sendo nem um pouco rude ou
desajeitada, embora fosse a mais máscula que ela já tinha visto na vida. De súbito,
tornou-se muito consciente de que havia apenas uma seda fina separando sua pele
daquela mão forte. Não soube por que, mas aquilo a incomodou e fascinou ao mesmo
tempo.
As tênues luzes da pista de dança iluminavam o rosto de traços marcantes e os cabelos
ligeiramente crescidos de D.C. Layna olhou para a própria mão, notando como ela parecia
pequena sobre aquele ombro largo. Mesmo sob as luzes oscilantes, os olhos muito azuis
denotavam um brilho de interesse por seu rosto. Estaria ele avaliando-a como artista ou
como homem? Bem, seria melhor não saber a resposta.
Tentando afastar a onda de pensamentos comprometedores que insistiam em invadir sua
mente, falou a primeira coisa que lhe veio à mente.
— Seus pais são pessoas maravilhosas.
— Também gosto muito deles — falou D.C.
Somente então ele se deu conta de que havia trazido Layna mais para perto de si. Mas
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
17
seu interesse era meramente artístico, claro. Queria observar melhor o rosto dela, e a
pouca iluminação não estava colaborando muito.
Layna sentiu o coração acelerar. Em um gesto inconsciente, deslizou a mão sobre o
ombro dele até tocar-lhe a nuca.
— Hum... — Sobre o que estavam falando mesmo? — Eu havia me esquecido de como
Washington fica agradável durante a primavera.
— Hum-hum. — Uma onda de desejo invadiu o corpo de D.C. de repente. O que diabos
estava acontecendo com ele? — Quero esboçar seu rosto.
— Sim, claro — respondeu Layna, sem prestar muita atenção ao que ele havia dito.
Não era possível que uma mulher que passasse tanto tempo sob aquele olhar
perscrutador pudesse sair imune da companhia de D.C. MacGregor, pensou Layna. Um
suspiro escapou-lhe pelos lábios quando ele subiu a mão até suas costas. Teve de admitir
que era difícil se manter indiferente àquele toque. Mas era preciso. Talvez até por uma
questão de sobrevivência.
— Ótimo — disse D.C.
Se inclinasse a cabeça, poderia provar o sabor daqueles lábios e descobrir se eram
mesmo tão doces quanto pareciam. Talvez isso servisse para aliviar o calor em seu
corpo. Ou para piorá-lo.
Os últimos acordes da música romântica ecoaram pelo salão. Os casais em torno deles
se separaram, pondo um fim à atmosfera de magia. Quando D.C. e Layna finalmente se
afastaram, entreolharam-se em silêncio.
— Obrigada — Layna foi a primeira a falar, aflita para preencher aquele vazio com algum
som. Deu graças por sua voz haver saído calma. — Foi muito agradável dançar com
você.
— Também gostei de dançar com você.
D.C. a segurou pelo braço, enquanto a conduzia de volta à mesa de seus pais. Dessa
vez, conseguiu tocá-la de uma forma bastante impessoal. Queria deixá-la logo em
companhia de outras pessoas, enquanto tentava recuperar seu raciocínio lógico.
Mostrando-se mais do que disposta a cooperar, Layna permitiu que D.C. a levasse até os
pais dele. Precisava sentar-se logo, antes que suas pernas trêmulas acabassem
denunciando seu estado interior.
3
Os planos de D.C. para o domingo eram dormir até tarde, tomar um farto desjejum, que ele
já havia comprado previamente, e passar algumas horas no clube.
Depois disso, ainda não tinha certeza se iria passar o resto da tarde sozinho, em casa, ou
se iria até a M Street para assistir ao festival de blues.
Porém, seus planos foram por água abaixo quando ele acordou bem cedo na manhã de
domingo e não conseguiu mais dormir. Aborrecido, cobriu a cabeça com o travesseiro e
tentou adormecer. Havia tido uma noite de sono agitado. Acordara várias vezes e, sempre
que estava quase adormecendo, flagrava-se sonhando com Layna. A imagem do rosto
dela surgira em sua mente com uma inquietadora freqüência ao longo da noite.
Não tinha motivos para pensar tanto em Layna Drake. O contato que tivera com ela fora
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superficial. Nada além de uma dança e algumas horas de conversa entrecortada.
Depois a levara para casa, mantendo seu carro deliberadamente a uma velocidade
reduzida, sinalizando a cada curva e freando com gentileza. Ao se despedirem, haviam
trocado apenas um aperto de mãos diante da casa dela. Tinha certeza de que ele não
fora o único a sentir-se aliviado com o fim da noite.
Justamente por isso parecia tão ridículo que a imagem do rosto dela continuasse a surgir
em sua mente com tanta insistência. Como se não bastasse, era como se ele também
pudesse se lembrar de cada sensação que experimentara ao tocá-la, ao sentir aquele
delicioso perfume e ao imaginar aqueles lábios sob os seus.
Talvez estivesse apenas impressionado com o rosto dela, nada mais. De um ponto de
vista artístico, claro.
Tentando se livrar de todas aquelas impressões, foi ao clube mais cedo. Depois de passar
horas jogando squash e suando até molhar a camisa, disse a si mesmo que estava se
sentindo melhor. Quando voltou para o apartamento, considerou-se mais do que pronto
para aquele generoso desjejum, planejado desde o dia anterior.
Ligou o aparelho estéreo em um volume considerável, arregaçou as mangas da camisa
preta e foi para a cozinha fritar tiras de bacon. Sentindo-se muito mais calmo e controlado,
cantarolou com Bruce Springsteen, enquanto também preparava ovos mexidos.
Quando o telefone tocou, continuou cantarolando e atendeu-o com uma só mão,
enquanto mexia a panela.
— Ah, pelo visto já está acordado e em plena atividade — disse Daniel, do outro lado da
linha, — Baixe um pouco essa música, rapaz. Desse jeito, acabará surdo.
— Espere um pouco.
D.C. demorou alguns segundos procurando o controle remoto. Como sempre, nunca
conseguia encontrá-lo quando precisava dele. Por fim, desistiu e foi baixar o som
manualmente. Ao chegar novamente à cozinha, comeu um pedaço de bacon antes de
voltar ao telefone.
— Sim, estou acordado e em plena atividade, vovô. Já fui ao clube jogar squash e agora
você me flagrou prestes a entupir um pouco de artérias.
— Já sei, ovos mexidos com bacon. — Daniel suspirou.— Ainda me lembro de quando
costumava sentar à mesa aos domingos pela manhã para comer essa maravilha. Sua avó
é uma carrasca, sabia? Vive controlando meu colesterol e não me deixa ver nem a foto de
um pedaço de bacon de algum tempo para cá.
— Pois estou comendo um pedaço de bacon tostadinho neste exato momento — D.C. o
provocou, com um sorriso deliberadamente maldoso. — Hum... Está incrível!
— Não tem a mínima piedade de seu avô, não é, rapaz? — Daniel suspirou novamente.
— E pensar que eu telefonei para agradecer pelo favor que me fez. Depois do que acabei
de ouvir, espero que tenha tido uma noite horrível acompanhando a afilhada de Myra.
— Eu sobrevivi.
— Bem, fico aliviado por isso. Sei que tem coisas mais importantes a fazer. Não que
Layna não seja uma garota adorável. Só que não a considero adequada para você.
Estamos procurando uma jovem mais... excêntrica para você.
D.C. franziu o cenho.
— Posso fazer isso sozinho, obrigado.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
19
— De que jeito? — indagou Daniel. — Trancado nesse apartamento e cercado de tintas e
telas por todos os lados? Duvido! Você deveria estar procurando um pouco de romance,
D.C. Não sabe quanto sua avó sofre ao vê-lo fechado dia e noite nesse apartamento?
— Hum-hum.
Mais do que acostumado a ouvir o mesmo discurso, D.C. colocou outro pedaço de bacon
na boca.
— O lugar onde você mora parece mais um hospício, isso sim — continuou Daniel. — Na
idade em que está, precisa de uma casa decente, de uma boa esposa e de filhos barulhentos. Mas não telefonei para lembrá-lo de algo que você já deveria ter feito. Estou
realmente agradecido pelo que fez. Antes de conhecer sua avó, lembro bem como era
terrível ter de passar uma festa inteira aborrecido, ouvindo conversas cansativas de
garotas que não tinham nada de interessante para dizer. Como eu, naquela época, você
precisa é de uma garota dinâmica, disposta a lutar a seu lado se for preciso. E claro que
não encontrará essas características em Linda.
— Layna — D.C. corrigiu com um resmungo, sentindo-se irritado de repente. — O nome
dela é Layna, vovô.
— Oh, sim, isso mesmo. Nome diferente, não acha? Bem, mas agora que se livrou do
encargo, pelo menos não será forçado a vê-la novamente. Quando pretende vir visitar sua
avó? Ela está morrendo de saudade.
— Irei assim que puder. — Intrigado, D.C. colocou o restante do bacon tostado em um
prato. — O que há de errado com Layna?
— Quem?
Sentado à mesa de seu escritório, em Hyannis Port, Daniel teve de cobrir o bocal do
telefone, até ter certeza de que conseguira conter o riso.
— Layna — D.C. repetiu por entre os dentes. — O que há de errado com ela?
— Oh, nada. Ela é adorável e tem ótimas maneiras. Só que não é do tipo que combinaria
com você, D.C. Ela trata todos com uma certa reserva, não acha? Os pais dela parecem
dois icebergs, pelo que me lembro. Bem, mas agora tome seu desjejum e dê um jeito de
vir visitar sua avó logo, antes que ela me deixe maluco.
D.C. sorriu.
— Está bem. Diga a ela que mandei um beijo.
— Pode deixar.
Daniel desligou em seguida. Com um sorriso se insinuando nos lábios, imaginou quanto
tempo demoraria para seu neto voltar a entrar em contato com a bela Layna Drake.
D.C. entrou em contato com Layna menos de uma hora depois. Quando seu avô
desligara, não demorara para perceber que acabara perdendo o apetite.
Após alguns minutos de hesitação, reuniu o caderno de esboços, os lápis e os gizes em
sua velha bolsa de couro e pendurou-a no ombro.
Seu avô tinha razão, claro. Mas o fato de o velho Mac-Gregor haver descartado tão
resolutamente a possibilidade de Layna ter algo em comum com ele deixou D.C.
incomodado. De fato, aquilo o incomodou tanto quanto as tentativas de seu avô em lhe
arranjar uma esposa. Afinal, tinha idade mais do que suficiente para fazer suas próprias
escolhas.
Era evidente que não estava pensando em Layna em termos mais... Íntimos. Queria
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
20
apenas esboçar o rosto dela. E já que ela concordara com a idéia na noite anterior, não
haveria maiores problemas em ir à casa dela cumprir a tarefa.
Layna não apareceu quando ele bateu à porta. Intrigado, ajeitou a bolsa no ombro,
imaginando se não seria melhor ir até a M Street e fazer alguns esboços por lá mesmo.
Porém, o som delicado e melodioso de um concerto de Vivaldi lhe chegou até os ouvidos,
vindo de dentro da casa.
Dando de ombros, abaixou a maçaneta da porta. Ao descobrir que esta se encontrava
destrancada, entrou na casa.
— Layna?
Olhou em volta, com ar de curiosidade, já que ela não o havia convidado para entrar no
dia anterior. O hall tinha um assoalho lustroso e as paredes eram de um agradável tom de
bege. Sobre uma antiga mesa de mogno, um vaso com lírios brancos recendia um
delicioso perfume pelo ambiente.
Dois quadros pendurados na parede chamaram sua atenção. Tratava-se de dois esboços
feitos a lápis, mostrando cenas de rua retratadas por um artista detalhista na observação
e habilidoso no traçado.
Aproximando-se da escada, apoiou a mão sobre o corrimão e olhou para cima,
chamando-a mais uma vez. Nenhuma resposta. Pensou em subir, porém achou mais
sensato procurá-la primeiro no andar de baixo.
Layna também não estava na sala de visitas, localizada logo depois da escada. O
aposento era decorado com uma mobília elegante e prática ao mesmo tempo. Depois de
também passar pela sala de jantar e pela cozinha, teve uma idéia mais clara a respeito
das preferências e do estilo de vida de Layna.
Elegância e tradicionalismo com alguns toques discretos de modernidade. Layna era uma
pessoa conservadora que gostava de coisas belas, preferia música e móveis clássicos,
mas que não resistia a um toque mais ousado aqui e acolá.
Ao se aproximar da janela da cozinha, avistou-a do lado de fora. O pátio que ia dar no
jardim se encontrava repleto de flores. E, no meio delas, estava a mais bela de todas:
Layna. Usando luvas de jardinagem e um chapéu de palha com abas largas, plantava
tulipas de várias cores sob a luz do sol. Trajava um avental marrom, também próprio para
jardinagem, por cima da calça caqui e do fino suéter branco.
Aos olhos de D.C., a imagem parecia haver saído de uma revista feminina abordando "O
Modo Mais Elegante de Praticar Jardinagem".
A incidência de luz estava ótima, concluiu ele, observando o ambiente através da janela.
As árvores do jardim também estavam perfeitas, com a folhagem nova começando a
aparecer nos galhos. Mantendo-se no mesmo lugar, fez três esboços rápidos.
Enquanto trabalhava, ficou encantado com a habilidade com que Layna lidava com as
plantas. Revolvia a terra com uma espátula, acrescentava o fertilizante, transplantava a
muda com cuidado para o centro do vaso e preenchia o espaço restante com mais terra
fertilizada.
Os vasos estavam sendo colocados um ao lado do outro, lembrando um pequeno
batalhão de soldados.
D.C. estava sorrindo quando saiu para o pátio. Layna, que até então estivera concentrada
em sua tarefa, sobressaltou-se ao ouvir a porta da cozinha ser aberta e fechada de
repente. A espátula caiu no chão, fazendo o ruído da lâmina batida contra o piso ecoar
pelos ouvidos de ambos.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Desculpe-me se a assustei — disse D.C.
— Como conseguiu entrar aqui? — indagou ela, levando a mão ao peito.
— Entrei quando vi que a porta estava aberta e que você não respondeu ao meu
chamado.
Ele colocou a bolsa sobre a mesa de ferro, no centro do pátio. Sorriu ao ver um livro de
jardinagem aberto na página sobre tulipas.
— Não pode entrar assim na casa dos outros — ralhou Layna.
— Posso, sim — respondeu ele, aproximando-se e pegando a espátula. — Chamei por
você ao longo da casa, mas não ouvi nenhuma resposta — explicou, entregando a
ferramenta a ela.
Um delicioso perfume amadeirado invadiu as narinas de Layna. Sempre tivera um fraco
por perfumes, principalmente os masculinos.
— Também não ouvi nenhum chamado — replicou, mantendo a voz firme.
— Então estamos empatados. Deveria arrumar os vasos de uma maneira mais
desprendida. O estilo ficaria mais moderno.
Estreitando o olhar, segurou o queixo de Layna com delicadeza e virou o rosto dela para a
esquerda. Então estudou seu perfil com atenção.
— Eu disse que queria esboçar seu rosto.
Layna se afastou tão irritada com a maneira como ele a tocara quanto com a crítica sobre
a disposição de seus vasos.
— Não me lembro de tê-lo ouvido dizer isso.
— Fiz o comentário quando estávamos dançando. A iluminação daqui está ótima. —
Dizendo isso, D.C. foi pegar seu material. — Pode continuar mexendo com as plantas se
quiser.
Quando estavam dançando?, pensou Layna, sentando-se sobre os calcanhares,
pensativa. Não conseguia se lembrar direito de nada do que havia acontecido enquanto
estavam dançando, exceto que ficara momentaneamente hipnotizada.
Em silêncio, observou D.C. se sentar em uma pequena cadeira de jardim, segurando um
lápis e um bloco com folhas de papel em branco.
— Não precisa posar — ele avisou com um sorriso entontecedor. — Finja que não estou
aqui.
Bem, seria o mesmo que tentar ignorar um leão sentado no pátio, concluiu Layna.
— Não vou conseguir trabalhar com você me olhando e preciso terminar de transplantar
essas mudas.
— Faltam apenas algumas — salientou D.C. — Aproveite para descansar um pouco. —
Com o pé, afastou outra cadeira para longe da mesa. — Sente-se e converse comigo.
Layna ficou de pé com visível hesitação e livrou-se das luvas.
— Acha mesmo que temos algo a dizer um ao outro? — perguntou a ele.
— Não temos? — D.C. respondeu com outra pergunta. — Você gosta de música, eu
também. Então vamos falar sobre isso. Vivaldi combina com seu estilo. Clássico com uma
pitada de ousadia.
Layna enfiou as luvas no bolso do avental.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
22
— Já no seu caso, eu diria que gaitas de fole combinam mais com seu estilo.
D.C. arqueou uma sobrancelha.
— Tem algo contra gaitas de fole?
Layna suspirou com impaciência e sentou-se.
— Ouça, D.C, não quero parecer rude, mas...
— Nunca conseguiria ser rude, a menos que tivesse essa intenção — ele a interrompeu.
— É educada demais para isso. Agora sorria — pediu, traçando alguns riscos no papel. —
É uma pena que mostre seu sorriso com tão pouca freqüência.
— Não hesito em mostrá-lo — contestou Layna. — Quando gosto da pessoa com quem
estou conversando.
Os lábios dele se curvaram com charme.
— Oh, agora vejo que estava querendo ser rude. Não sei se meu coração sensível
agüentará tanta crueldade.
Layna não conseguiu conter o riso, diante da expressão dramática de D.C. Porém, seu
bom humor logo se esvaiu novamente quando ele se inclinou para a frente e tirou seu
chapéu.
— Está fazendo sombra em seus olhos — explicou D.C, colocando-o sobre a mesa.
— Era essa a intenção — ironizou Layna. — Corrija-me se eu estiver errada, mas, na
minha opinião, não nos demos tão bem assim ontem à noite.
— Sim, tem razão.
Ela abriu a boca para retrucar, mas voltou a fechá-la. Seria ridículo protestar por ele haver
concordado com ela.
— Por que quer me esboçar?
— Porque gostei do seu rosto. Ele tem traços fortes, mas muito femininos. Olhar sexy,
lábios cheios... Não é necessário que eu esteja pessoalmente atraído por você para
querer esboçar seu rosto.
— Agradeço por sua sinceridade — afirmou Layna, com frieza.
— Não, não está agradecida. Acabei de deixá-la furiosa. — Ele virou a página e começou
um novo esboço. — Mas isso também é muito feminino — continuou. — Por que ficar
aborrecida com o fato de concordarmos que não nos sentimos atraídos um pelo outro?
Isso não significa que você não seja linda. Você sabe que é. Vire o rosto um pouco para a
direita, por favor. Seria melhor se jogasse os cabelos para trás.
Antes que Layna pudesse fazer ou dizer algo, ele mesmo se inclinou para a frente e
colocou os cabelos dela para trás. Em seguida, observou com atenção o perfil delicado.
Ambos se mantiveram em silêncio por alguns segundos.
Layna sentiu o coração acelerado. E não conseguiu fazê-lo voltar ao ritmo normal, por
mais que dissesse a si mesma que aquela estava sendo uma reação idiota de sua parte.
De repente, o pátio pareceu abafado demais e sua boca secou.
— Tem uma pele maravilhosa — elogiou D.C., quebrando o silêncio.
Devagar, traçou o contorno do rosto dela com a ponta dos dedos, até descer para a curva
sensível de seu pescoço, sentindo-lhe a pulsação alterada. Queria que seus lábios estivessem ali, sentindo aquele ritmo mais de perto.
"Concentre-se no trabalho, D.C. Apenas no trabalho", disse a si mesmo, pegando o lápis
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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novamente. No entanto, seus dedos pareceriam ter ficado abobados de repente. De fato,
teve de se esforçar para continuar o esboço.
— Pensei... — Layna limpou a garganta. — Pensei que pintasse telas abstratas. Não
pertence à escola moderna?
— Sim — D.C. confirmou. — Mas costumo pintar tudo que provoca um apelo especial em
mim. — Levantando a vista do papel, fitou-a nos olhos. — Pelo visto, você conseguiu isso.
Em um certo sentido. Preferindo ignorar o último comentário, Layna continuou:
— Fez uma exposição em Nova York há poucos anos. Eu não a vi, mas uma amiga minha
foi vê-la.
— Tudo bem. Também não costumo fazer compras na Drake's, mas minha mãe faz —
gracejou ele.
Layna riu com espontaneidade.
— Bem, mas agora que já trocamos alguns insultos, o que faremos? — ela perguntou.
— Poderíamos tentar conversar normalmente — D.C. sugeriu. — O que acha de estar de
volta a Washington?
— Oh, estou adorando. Sempre gostei desta casa e deste lugar. — Ela olhou para os
vasos de tulipas. — Acho que vou gostar de passar algum tempo por aqui. — Franzindo o
cenho, indagou: — O que quis dizer com arrumar os vasos de uma maneira
"desprendida"?
— Hum? Oh, os vasos. Eu quis dizer para arrumar as flores de uma maneira mais livre.
Algo mais parecido com o estilo de Monet entende o que quero dizer?
Layna assentiu.
— Sim, tem razão. Costumo seguir as regras muito ao pé da letra quando estou
aprendendo algo novo. Acho que assim corro menos risco de cometer erros. — Inclinando
o rosto de lado, deixou que uma réstia de sol o iluminasse enquanto continuava a falar. —
Bem, mas você observa as coisas com olhos de artista. E não consigo imaginá-lo se
preocupando
com erros.
— Geralmente não me preocupo mesmo — confirmou D.C.
No entanto, deu-se conta de que estava com receio de cometer um naquele exato
instante. A luz do sol incidindo indiretamente sobre eles, a música suave ao fundo e o
perfume de Layna chegando até suas narinas poderiam se transformar em fatores
agravantes ao seu estado de espírito.
— Eu não gosto de cometer erros — declarou Layna. — Por isso planejo com cuidado
todos os passos do que pretendo fazer e não me desvio deles.
Algo na presença de D.C. quase a impelia a tentar um método diferente de vida. Porém,
tratando-se da influência de alguém como ele, seria bem provável que ela acabasse entrando em uma enrascada.
—
Acho
que
já
guardando o lápis na bolsa.
reuni
material
suficiente
—
anunciou
D.C.,
Não queria correr o risco de ficar ali por mais tempo e de acabar tocando-a novamente.
— Agradeço por sua colaboração.
— Não precisa agradecer — disse ela.
Ficou de pé logo depois de D.C., com a intenção de acompanhá-lo até a porta. Contudo,
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
24
os dois continuaram no mesmo lugar, entreolhando-se em silêncio.
— Conheço o caminho até a saída — afirmou D.C., por fim. Então virou-se para partir.
Teve receio de que Layna o seguisse e de que ele acabasse cometendo a loucura de
beijá-la ao som de Vivaldi.
— Está bem — disse Layna.
D.C. ajeitou a bolsa no ombro e seguiu para a porta. Estava quase passando por ela
quando se virou para olhar uma última vez para Layna. Ela continuava no mesmo lugar,
com o sol iluminando-a por trás e tornando-a ainda mais linda.
—
Haverá
uma
exposição
das
obras
de
Dali,
a partir de quarta-feira. Passarei para apanhá-la às sete horas.
no
Smithsonian,
"Não aceite, Layna Drake!"
— Está bem — ela se ouviu responder, surpresa.
D.C. apenas assentiu e entrou na casa. Eslava passando pela porta principal quando
resmungou um palavrão, censurando-se pelo que acabara de fazer.
4
D.C. pensou em várias desculpas para cancelar o encontro. Preferiria ir sozinho, para
aproveitar melhor a visita à exposição. Depois, talvez, fazer amizade com alguma mulher
interessante com quem poderia comentar as obras durante um café ou um jantar. Afinal,
era essa a maneira como ele costumava agir.
Entretanto, não desmarcou o compromisso. Nem o encontro seguinte, marcado na
mesma noite da exposição. De fato, não conseguia entender por que se sentia tão bem
na companhia de Layna. Como seu avô dissera desde o início, os dois não tinham quase
nada em comum. Mesmo assim, ele vinha se flagrando cada vez mais ansioso para revêla sempre que se despediam.
Layna gostava do tipo de arte que expressasse algo específico, de preferência em termos
tangíveis. Além disso, também apreciava músicas elaboradas e filmes com subtítulo.
Quando estavam juntos, os dois eram capazes de conversar sobre um mesmo assunto
durante horas, sentados à mesa de algum pub ou de um restaurante mais requintado.
Nem ele mesmo sabia explicar, mas eles já haviam tido três desses encontros. E todos
perfeitamente agradáveis. Às vezes, imaginava se Layna estaria tão surpresa quanto ele
com o fato de estarem se dando bem.
Na verdade, estavam prestes a ter um quarto encontro. Quatro encontros em duas
semanas, pensou ele. Aquilo era, no mínimo, inusitado.
Com um suspiro, afastou-se um pouco da tela na qual estava trabalhando. Dessa vez,
preferira pintar uma aquarela para mudar um pouco de estilo. Não queria fazer um retrato,
e os esboços do rosto de Layna haviam sido apenas um exercício. As imagens
desenhadas a lápis surgiram tantas vezes em sua mente que ele acabara se rendendo.
Por isso, começara a pintar a tela naquela manhã.
O estilo de uma aquarela combinava mais com Layna. Os tons frios e as linhas suaves
seriam perfeitos para retratar o rosto dela. Somente depois que começara a trabalhar foi
que D.C. se deu conta de que não havia esboçado nenhum detalhe do sorriso de Layna.
Não por falta de oportunidade, já que ela andava sorrindo com freqüência nos últimos
dias. Mas talvez porque o lado reservado de sua personalidade era o que mais o atraía.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Ele não sabia explicar o motivo, mas era como se algo o desafiasse a quebrar o gelo que
ela insistia em manter, feito um escudo de defesa contra os homens. E se ele aceitasse o
desafio? Acabaria se deparando realmente com um iceberg ou com um vulcão? A idéia
parecia muito interessante. E sensual. Mas pintá-la daquela maneira o estava deixando
com certa frustração. Nunca conseguiria retratar fielmente o rosto de Layna, se não
soubesse o que se escondia por trás dele.
Quando a conclusão surgiu em sua mente, seus ombros relaxaram e seus lábios se
curvaram em um sorriso. Como não pensara nisso antes? Era esse o motivo que o estava
levando a querer reencontrá-la cada vez que se despediam! Queria retratá-la, mas não
poderia fazê-lo antes de conhecê-la melhor.
Satisfeito com a resolução daquilo que o intrigava desde que a conhecera, deixou o pincel
de lado. Pegou a xícara de café e tomou um gole generoso, dando-se conta de que este
já estava completamente frio. Com uma careta de desgosto, desceu para o andar de
baixo, disposto a preparar outro cate. Havia terminado de descer a escada quando a
campainha tocou. Ao atender a porta, sorriu ao ver sua mãe.
—Interrompi seu trabalho? — perguntou Shelby, hesitante.
—Não. Estou no meio de uma pausa. — Passando o braço pelos ombros dela, abraçou-a
de lado, com carinho. — Agora você fará o café, mamãe. O seu sempre foi especial.
Shelby olhou-o de soslaio.
— Está bem. — Sorriu para ele, enquanto seguiam para a cozinha. — Eu havia prometido
a mim mesma que não apareceria sem avisar, mas é que acabei de receber algumas
fotos novas de Travis e seu pai não está em casa. Eu tinha de compartilhar isso com
alguém.
— Sim, claro. Deixe-me vê-las.
Ao notar o estado caótico da cozinha, Shelby se convenceu mais uma vez de que seu
filho levava uma típica vida de artista. Mas se D.C. gostava de viver daquela maneira, ela
achava que não tinha o direito de interferir.
— Puxa, ele está demais — falou D.C, sentando-se enquanto olhava as fotos.
— Está muito parecido com você quando tinha essa idade.
— É mesmo? — Ele levantou a vista.
Com um sorriso satisfeito, voltou a olhar as fotos do sobrinho,
— Ah, esses genes dos MacGregor — gracejou Shelby, imitando a maneira como Daniel
costumava falar. — São fortes feito um batalhão. E por falar em MacGregor, tem tido
notícias de seu avô?
— Falei com ele há poucos dias. Queria me agradecer por eu ter feito um favor a ele, e
depois cobrou uma visita. Vovó está com crise de saudade de novo.
Shelby sorriu, começando a preparar o café.
— Aposto que isso é coisa de Daniel. Quem o ouve falar pensa que Anna não tem mais
nada a fazer a não ser ficar sempreocupando com os netos todo o tempo. — Olhando-o
de soslaio por um instante, perguntou: — Que favor fez a ele?
— Oh, Layna Drake — respondeu D.C. de modo evasivo, ainda observando as fotos. —
Minha madrinha Myra pediu a ajuda dele para arranjar um acompanhante para levá-la a
um baile beneficente.
Shelby pressionou a língua contra a bochecha.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Oh, é mesmo? E você acreditou nessa história? Seu ingênuo.
— Hum? — D.C. pestanejou, confuso. Mas acabou dando de ombros. — Dessa vez vovô
não falou daquele jeito que já conheço muito bem. Na verdade, ele acha até que Layna
não combina comigo. Confessou que estava me pedindo aquilo apenas para Myra deixálo em paz.
Shelby abriu a boca para dizer algo, mas voltou a fechá-la. Como seu filho era ingênuo,
pensou, contendo o riso.
— Entendo — disse apenas. — E o que achou dela?
— Ela é uma boa companhia e tem um rosto perfeito. Vou pintá-la em uma aquarela.
— Mas... — Shelby quase derrubou o pó de café fora do coador. — Mas você não faz
retratos.
— Ah, só de vez em quando.
Na verdade, enquanto olhava aquelas fotos, ele estava pensando se não seria uma boa
idéia pintar um retrato de Travis e dá-lo de presente à sua irmã.
Mais uma vez, Shelby resolveu ficar de boca fechada. De fato, seu filho já havia feito
alguns retratos de pessoas da família. Pessoas por quem ele tinha um carinho especial.
— Pediu a ela para posar para você?
— Não. Estou trabalhando a partir de esboços.
— Então vocês têm se encontrado?
— Uma vez ou outra. — D.C. olhou para ela. — Por quê?
— Apenas curiosidade. Conheci os pais de Layna e ela não se parece nem um pouco
com eles.
— Ê isso é bom ou ruim? Ela não me falou muito sobre a família.
Shelby se virou para ele, encostando-se na pia.
— Bem, eu os classificaria como pessoas...superficiais. Preocupam-se demais em manter
as aparências, mas não pareciam realmente felizes. Layna herdou a postura rígida, mas
demonstra ser mais delicada e sensível. Não acha?
— Não conheço os pais dela, mas a considero uma pessoa extremamente sensível —
respondeu D.C. — Gosto de Layna. Ainda não entendi direito por que, mas gosto dela.
— Ela não parece o seu tipo. Ei, foi apenas um comentário — defendeu-se ela, quando o
sorriso de D.C. se transformou na carranca típica dos MacGregor. — Eu quis apenas
dizer que suas companhias femininas são mais exóticas e extravagantes. E Layna não é
nenhuma das duas coisas.
— Eu não disse que a havia escolhido — corrigiu D.C. — Falei apenas que gosto dela. —
Ele sorriu. — Ouvi dizer que minha mãe também era uma pessoa exótica e extravagante
na juventude.
Shelby arqueou as sobrancelhas.
— Também ouvi isso em algum lugar. Mas o que aconteceu com ela?
— Tornou-se uma mulher finíssima, e é aquela que ocupa o lugar mais importante no meu
coração.
Sentindo os olhos se encherem de lágrimas, Shelby sorriu e se adiantou para abraçá-lo.
Então apoiou o queixo no alto da cabeça dele.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
27
— Estou tão feliz que tenha voltado, D.C. Sabendo que está por perto, pelo menos posso
fingir que não me preocupo com você.
— Papai fingiu isso muito bem quando veio me visitar ontem.
— Ele veio? — Shelby se surpreendeu. D.C. sorriu.
— Sim. E também disse que havia prometido a si mesmo que não apareceria sem me
avisar.
— Oh, meu Deus, então isso está ficando pior do que imaginei.
— Não se preocupe, mamãe. Amo vocês e não me aborreço com isso. Só acho que seria
embaraçoso vocês chegarem em um momento... Impróprio.
— Eu sei. Prometo que não iremos aborrecê-lo, querido.
E ligaremos antes, se decidirmos vir visitá-lo. Falarei com seu pai a esse respeito, não se
preocupe.
Dizendo isso, beijou-o no alto da cabeça e foi servir o café já pronto.
— Posso ficar com esta? — perguntou D.C., levantando a foto de Travis mostrando dois
dentinhos em um sorriso.
— Sim, claro. Os esboços estão ali? — Ela apontou uma pasta sobre a mesa.
— Apenas alguns — respondeu D.C. — Os outros estão no ateliê.
Depois de entregar a xícara para ele, Shelby abriu a pasta e olhou os esboços.
— Layna é linda. E você está muito atraído por ela.
— Ela tem um rosto maravilhoso. — Quando a mãe o olhou de soslaio, ele deu de
ombros. — Não há nada mais. Vovô tem razão, ela não é o meu tipo.
— Sim, seu avô não perde mesmo nenhum detalhe do que acontece em torno dele.
Daniel era mesmo muito perspicaz, pensou Shelby, servindo-se de uma xícara de café e
sentando-se à mesa. Aquela altura, era bem capaz de já estar planejando a cerimônia de
casamento do neto.
De súbito, lembrou-se de que andava precisando fazer algumas compras nos últimos
tempos. Talvez houvesse chegado o momento de dar uma olhada nos artigos da Drake's.
A assistente de Layna olhou-a de um modo diferente e sussurrou com reverência ao
colocar a cabeça na fresta da porta do escritório.
— Srta. Drake, a Sra. MacGregor está aqui.
— Sra. MacGregor? — Layna levantou a vista. — Shelby MacGregor?
— Sim. A ex-primeira dama. Ela está na recepção. Também mal pude acreditar.
Surpresa, Layna passou a mão pelos cabelos e observou o escritório, verificando se
estava tudo no devido lugar.
— Mande-a entrar, por favor. Layna ficou de pé e alisou a saia, antes de ajustar a lapela
de seu blazer. Apertou os lábios, verificando se ainda havia algum resquício de batom.
Como imaginou o batom já havia desaparecido, mas ela não teria tempo de retocá-lo.
Mostrando seu melhor sorriso, adiantou-se quando Shelby entrou no escritório.
— Que prazer, Sra. MacGregor.
— Sei que estou interrompendo seu trabalho, mas vim fazer algumas compras e pensei
em cumprimentá-la.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
28
— Fico feliz que tenha vindo. Sente-se, por favor. Aceita alguma coisa? Chá, café?
— Não, não se preocupe.
Shelby sorriu com satisfação ao observar o ambiente de trabalho de Layna. Tudo ali
denotava bom gosto, pensou, escolhendo uma cadeira de veludo com espaldar alto.
— Não vou demorar muito - avisou. — Vim apenas comprar algumas peças de roupa para
usar no dia-a-dia. Vocês têm ótimos modelos.
— Obrigada. Estou preparando uma coleção melhor ainda para a próxima estação. —
Layna também se sentou.
— Ah, então você é como meu sogro. Está sempre de olho no futuro. — Shelby sorriu. —
Conhece Daniel MacGregor?
— Sim — Layna confirmou. — Minha madrinha quis visitá-lo, mas não estava com
disposição para ir sozinha até Hyannis. Por isso, fui com ela e fiquei alguns dias
hospedada na casa dele no último outono. A casa é espetacular e seus sogros são
pessoas adoráveis.
— Sim, eu sei. — "E eis que a história se repete", pensou Shelby, muito ciente do lado
casamenteiro do sogro. — De todos os netos, D.C. é o que mais se parece com Daniel.
Notou um brilho diferente nos olhos de Layna ao ouvir a menção a D.C. Oh, Deus, ela
também já estava apaixonada.
— Suponho que sim — confirmou Layna. — Ambos têm uma atitude exótica diante da
vida, não?
— E uma característica dos MacGregor. Eles são exigentes, charmosos e, acima de tudo,
excêntricos. Depois de haver me casado com um deles, posso dizer que a palavra "rotina"
desapareceu do meu vocabulário. Por outro lado, passei a usar "caos" com mais
freqüência.
— Então deve saber bem como lidar com ele.
— Oh, mas eu adoro caos! — exclamou Shelby, com um sorriso, ficando de pé. —
Adoraria almoçar com você qualquer dia desses.
— Será um prazer, Sra. MacGregor.
— Shelby, querida. Pode me chamar pelo primeiro nome. Vou verificar minha agenda
para marcarmos um almoço. — Ao se despedir, segurou a mão de Layna por algum
tempo. Quando o homem é excêntrico, a mulher tem de ser perspicaz e inteligente,
Layna.
— Ah... obrigada.
— Ligarei para você — avisou Shelby, ao sair.
Antes de qualquer outra coisa, telefonaria para Daniel. Depois de dizer-lhe algumas
verdades a respeito da interferência na vida de D.C., confessaria que aprovara
completamente a escolha que ele fizera.
Isso colocaria a velha raposa em seu devido lugar. Pelo menos para que Layna e D.C.
tivessem tempo suficiente para descobrir que estavam apaixonados um pelo outro.
Clubes apinhados e barulhentos eram muito estimulantes. Por isso D.C. gostava de visitar
um ou outro de vez em quando. Gostava de ouvir a música e de observar a movimentação
das pessoas.
Acima de tudo, apreciava ver os pensamentos e as emoções se manifestando. Sim, era
como se pudesse vê-los. Quando fazia esboços em um lugar como Blues Comer, não
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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registrava rostos ou corpos, mas emoções.
Layna observou os contornos estranhos e os riscos que D.C. desenhara em uma folha do
caderno de esboços. Não entendia nada sobre aquele tipo de arte, mas não deixava de
considerá-la fascinante. Tão fascinante quanto o artista que a pintava.
D.C. se encostara na parede atrás da mesa que eles estavam ocupando. Ele trajava jeans
e uma camiseta preta, e havia prendido os cabelos com uma fina tira de couro na altura
da nuca.
A luz do ambiente era de um intenso tom de azul e as mesas estavam todas cheias. No
pequeno palco, um músico com cabelos na altura dos ombros dedilhava as cordas de um
baixo, enquanto outro, usando óculos escuros, tirava um som melodioso de um sax tenor.
Um jovem magérrimo os acompanhava ao piano, no fundo do palco.
Sentada em um banquinho, uma negra com voz rouca e sensual cantava uma música
sobre as desventuras e os reencontros dos amantes.
A música triste despertou um sentimento nostálgico em Layna. Segundo a letra, era tão
prazeroso sentir o amor que valia a pena passar por qualquer desventura por causa dele.
Layna provou o vinho, ou o que o clube considerava como sendo vinho, e olhou de
soslaio para D.C. Ele mal falara com ela desde que haviam chegado àquele clube
noturno.
Deus, o que ela estava fazendo ali? Definitivamente, essa seria a última vez, prometeu a
si mesma. Nunca se sentira tão pouco à vontade em toda sua vida.
Por baixo da mesa, seu pé acompanhava o ritmo do baixo, mas seu peito parecia cada
vez mais apertado com aquela música e aquele ambiente.
— Ela é ótima, não? — D.C. indagou.
— Sim.
Layna abanou a mão diante do rosto, defendendo-se de uma nuvem de fumaça de cigarro
vinda da mesa ao lado.
— Mas por que a música tem de ser tão triste? — perguntou a ele.
— O bines é feito para atingir o fundo de sua alma por meio do coração. Na maioria das
vezes funciona.
— Nos deixando deprimidos — completou ela.
D.C. observou seu caderno de esboços aberto sobre a mesa. Então voltou a olhá-la e
disse:
—
A
música
no ouvinte.
é
feita
para
despertar
algum
tipo
de
sensação
— É isso que você está desenhando? Sensações?
— Sim. Juntamente com a música.
D.C. a observou com mais atenção, layna havia prendido os cabelos com uma presilha na
altura da nuca. O novo penteado a deixara com uma aparência mais vulnerável.
— E você? Como está se sentindo agora, Layna?
— Oh, completamente relaxada — ela mentiu. D.C. sorriu.
— Você nunca fica completamente relaxada. Sabe o que está parecendo?
— Não. Mas tenho certeza de que você vai me dizer.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
30
— Perfeita. Talvez um pouco perfeita demais.
Sem que ela esperasse, ele se inclinou para frente e soltou os cabelos dela.
— Pronto. Agora está mais humana.
Layna o fuzilou com o olhar. Passou a mão pelos cabelos, tentando ajeitá-los.
— Dê-me isso agora mesmo.
— Não. Prefiro seus cabelos assim.
Rindo, D.C. levou a mão aos cabelos dela e os desajeitou novamente.
— Nem imagina quanto está sexy, Layna. Principalmente com esse brilho de fúria no
olhar e os lábios curvados desse jeito charmoso.
— Não estou com os lábios curvados — replicou ela, por entre os dentes.
— Não é você quem está olhando para seus lábios nesse momento.
Dizendo isso, ele observou os lábios de Layna por alguns segundos. Então se inclinou em
direção a ela.
— Espere— pediu Layna, levando a mão ao peito dele. Sabia que sua atitude estava
sendo tola. Afinal, quantas vezes não se perguntara por que D.C. ainda não a havia beijado? E não imaginara como seria quando isso acontecesse? Ainda assim, sentiu-se
invadida por uma onda de receio. Talvez não fosse seguro permitir que D.C. eliminasse
suas defesas.
— Já passamos pela fase da espera, Layna.
Levando a mão à nuca dela, D.C. puxou-a para si com delicadeza.
— Sabe que faríamos isso mais cedo ou mais
descobrir o que está acontecendo conosco, ou o que não está.
tarde.
Precisamos
Ele se aproximou o suficiente para mordiscar o lábio inferior de Layna. Em questão de
segundos, beijou-a com intensidade. O gosto adocicado dos lábios de Layna, acentuado
pelo leve sabor de vinho, acendeu uma chama de desejo por seu corpo. Queria mais.
Mais...
Layna entreabriu os lábios, deixando que um breve gemido escapasse por entre eles.
Aproveitando a chance, D.C. aprofundou o beijo. Quisera fazer aquilo desde a primeira
vez em que a vira, e estava ansioso para conhecer com mais detalhes os doces recantos
da boca de Layna.
Deus, por que não fizera isso antes?, questionou-se em pensamento. Puxando-a mais
para si, moldou seu corpo ao dela com sensualidade.
Por um instante, Layna sentiu como se o ar houvesse sumido de seus pulmões. Nunca
experimentara sensações tão devastadoras com um simples beijo. Tentar manter suas
defesas intactas não adiantara nada diante daquele furacão chamado Daniel Campbell
MacGregor.
D.C. teve de se esforçar para se afastar, quando se lembrou de que os dois estavam em
um lugar público. Porém, continuou segurando a mão de Layna.
— E agora, Layna? Terminamos isso ou paramos por aqui?
— Eu não sei.
Como ela poderia tomar alguma decisão com a cabeça completamente zonza?
— Se pretende deixar a decisão por minha conta... D.C. sorriu com charme, aproximando-
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
31
se mais uma vez.
— Não, não — ela disse rápido, afastando-se dele. — Precisamos analisar a situação
com calma.
— Não preciso de análise. Vejo um homem e uma mulher descomprometidos que se
sentem atraídos um pelo outro.
— Não tenho certeza de que se trata disso.
Tomada por uma súbita inquietação Layna pegou a bolsa e saiu apressadamente. Quanto
mais longe Ficasse de D.C., melhor.
Enquanto saía do clube noturno pensou na loucura que havia acabado de cometer.
Envolver-se com um artista excêntrico não era nem de longe o que ela imaginara para si.
Não, não podia se render. Por mais que os braços de D.C. lhe parecessem tentadores.
5
D.C. alcançou Layna na calçada. Sem hesitar, segurou-a pelo braço e a fez se virar para
ele.
—
Qual
o
problema?
Tudo
estou interessada em você, D.C.".
que
precisa
fazer
é
dizer:
"Não
Layna jogou os cabelos para trás, furiosa por estarem desarrumados.
— Não estou interessada em você, D.C.
— Mentirosa.
— Atrevido.
Layna girou sobre os calcanhares e seguiu pela calçada. Não ficou surpresa quando D.C.
começou a acompanhá-la.-Sentiu-se aborrecida, mas não surpresa.
— Não fez nenhuma menção de se afastar enquanto eu a estava beijando — falou ele.
Layna respirou fundo, lembrando a si mesma de que os pubs estavam cheios. Nem
mesmo D.C. a faria perder a paciência a ponto de dar um escândalo.
— Para mim, foi apenas uma experiência curiosa — disse a ele, em um tom frio. — Agora
minha curiosidade está satisfeita.
— Desculpe-me, mas acho que fui movido pelo mesmo motivo. De qualquer maneira,
você não fez nenhuma menção de se afastar.
— Foi um beijo comum — lembrou Layna.
Tinha de haver sido, pensou consigo, tomada por uma nova onda de receio. Não queria
estar sentindo aquilo. Não podia!
— Um beijo comum é aquele que se dá na avó no dia
seu aniversário — argumentou D.C., ajeitando a bolsa com seu material de desenho.
de
Não conseguia entender por que seguira Layna até ali. Quando uma mulher levantava a
mão e fazia sinal para ele manter distância, ele obedecia ao pedido e ponto final. O problema era que continuava sentindo o sabor dos lábios dela nos seus.
— Layna...
Dessa vez ela se afastou quando D.C. tentou tocá-la. Quando seguiu em frente, ele se
adiantou e segurou-a pelos ombros.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
32
— Espere um pouco, droga! — impacientou-se. Virando-a para si, fitou-a bem nos olhos.
Layna estava um pouco pálida e havia uma espécie de sombra em seu olhar.
— Está com medo — murmurou. — O beijo deixou-a receosa. D.C. sabia que deveria
lamentar aquilo, mas não conseguiu. De fato, teve de se conter para não rir.
— Pensei que fosse preciso algo mais sério para derrotá-la. Layna deu um passo atrás.
Pela primeira vez na vida, sentiu vontade de nocautear outro ser humano.
— Não tenho o mínimo interesse em continuar essa conversa. Agora, se me der licença,
preciso ir.
— Podemos terminar a conversa, se quiser. Mas vamos tentar outro método.
Layna notou de imediato qual era a intenção dele.
— D.C, eu não quero...
Não conseguiu terminar a frase. Os lábios dele cobriram os seus com voracidade,
deixando-a sem fôlego. Dessa vez não havia nenhum sinal de provocação ou de sedução,
apenas de possessividade.
Pega de surpresa, Layna não soube ao certo como reagir. Quando deu por si, já estava
se rendendo ao calor daqueles lábios exigentes e daquele corpo másculo colado ao seu.
Demorou algum tempo para D.C. perceber que havia levantado Layna do chão. Sempre
tivera noção de sua força e o fato de não haver percebido o que fizera o deixou
apreensivo.
Colocando-a de volta no chão, deu um passo atrás.
— Agora a escolha será sua — disse e voltou para o clube noturno.
D.C. se censurou durante dias. Por várias vezes, pensou em procurar Layna para se
desculpar, mas sempre acabava desistindo.
Disse a si mesmo que seria melhor ficar longe dela. Deveria deixar a situação como
estava, antes que eles acabassem se envolvendo realmente. Afinal, continuava achando
que seu avô tinha razão. Ele e Layna não tinham quase nada em comum.
Todas as vezes em que chegava a essa conclusão, sentia-se mais aliviado. Vinha
trabalhando intensamente para tentar esquecê-la, mas a imagem do rosto de Layna
sempre dava um jeito de penetrar sorrateiramente em seus pensamentos. De fato, já
estava começando a sentir-se aborrecido com aquela constante intromissão.
Por isso, ficou mais do que satisfeito quando seu pai telefonou para contar que seus avós
estavam na cidade para uma rápida visita. Pelo menos o contato com a família o distrairia
um pouco. Nada melhor do que passar algum tempo na companhia de pessoas amadas.
Na verdade, estava até pensando em viajar para a região norte com seus avós. Seria bom
rever Júlia, Cullum e o pequeno Travis, além de seus primos. Gostava da liberdade de, a
qualquer momento, poder colocar algumas roupas em uma mala e separar material de
trabalho para levar consigo em uma viagem de última hora. Era justamente esse o lado
encantador de seu estilo de vida, concluiu ele, enquanto caminhava a pé até a casa dos
pais, a dois quarteirões de seu apartamento. Um estilo de vida simples, básico, mas
completamente seu.
Por isso, a última coisa que desejava era uma mulher tomando seus pensamentos por
mais tempo do que o necessário e se intrometendo em sua vida. Mulheres como Layna
Drake eram sinônimo de complicação. Exigiam muito de um homem, quase sempre
querendo que ele se adaptasse ao estilo de vida delas, e não o contrário.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
33
Havia acabado de atravessar a rua quando avistou uma morena atraente passeando de
bicicleta pela calçada. Na cestinha prateada localizada na parte da frente da bicicleta, um
filhote de cão labrador latiu alegremente para ele. A morena sorriu com charme e,
enquanto seguia em frente, olhou-o por cima do ombro, com um ar convidativo.
Contudo, o mais estranho foi que ele não teve a mínima vontade de ir atrás dela para
tentar conhecê-la. Morenas com pernas esguias sempre haviam sido o tipo que mais o
atraía. Então por que diabo estava cada vez mais fascinado por uma loira com mania de
perfeição?
Definitivamente, estava precisando mudar os estímulos em sua vida. Sim, passaria
algumas semanas em Boston e em Hyannis Port. Talvez ao brincar com o sobrinho e
rever os primos, conseguisse deixar de lado aquela obsessão ridícula. Ao passar pelo
portão, percorreu a pequena trilha que levava à casa de seus pais. Diversos pés de
hibiscos de várias cores margeavam o caminho, criando um agradável cenário para quem
passasse por ali. Com certeza haviam sido plantados por sua mãe. Como ele, ela adorava
cores fortes e vibrantes. Elas atribuíam um toque de excentricidade à suntuosa casa do
ex-presidente e da ex-primeira-dama.
Sorriu ao ouvir o riso alto do avô vindo através de uma janela aberta. Entrou na casa sem
bater. Um perfume de flores misturado a um agradável aroma de chá de limão chegou-lhe
às narinas. Uma nova onda de risos e o som de vozes vindas da sala chamaram sua
atenção. Animado pela idéia de ver todos reunidos, encaminhou-se para lá com os lábios
curvados em um sorriso.
Porém, qual não foi seu espanto ao se deparar com a última pessoa que ele esperaria ver
ali. Layna estava sentada ao lado do velho MacGregor, rindo de algo que ele acabara de
dizer.
— Oh, aí está ele!
Daniel levantou-se da poltrona com uma agilidade surpreendente para alguém com
noventa anos de idade. Os cabelos e a barba brancos contrastavam com os olhos muito
azuis, que sempre mostravam um brilho de inteligência. Ao avistar o neto, porém, o brilho
que eles mostraram foi de puro divertimento.
Daniel o abraçou com carinho, sem deixar de notar, para seu maior prazer, que D.C.
ainda não havia parado de olhar para Layna.
— Até que enfim você apareceu para me salvar — disse ao neto. — Essas mulheres
estão me obrigando a tomar chá desde que cheguei, sendo que qualquer um pode ver
que preciso mesmo é de uma boa dose de uísque. Seu filho está doido para tomar
uísque, Shelby, e eu irei acompanhá-lo.
— Dois dedos, Shelby — avisou Anna MacGregor, com seu costumeiro tom calmo mas
autoritário. — E nem uma gota a mais — acrescentou, olhando para o marido.
Então abriu os braços e se aproximou do neto.
— Como está, vovó? — perguntou D.C, curvando-se para abraçá-la.
Como sempre, o abraço de sua avó transmitiu-lhe força e delicadeza ao mesmo tempo,
algo que o encantava desde a infância.
Layna notou a existência de um profundo amor familiar naquele abraço. Tanto que lhe
despertou certa inveja. Nunca vira ninguém de sua própria família trocar um abraço tão
carinhoso quanto aquele.
—
Parece
cansado
dele entre as mãos.
—
observou
Anna,
segurando
o
rosto
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
34
— Tenho trabalhado muito — explicou, beijando-a no rosto. Fingindo ignorar Layna, olhou
para a madrinha, também presente. — E muito bom revê-la, madrinha Myra.
Ela sorriu, recebendo o beijo que ele lhe deu no rosto.
— Lembra-se de Layna, não?
— Sim. — D.C. fitou-a diretamente nos olhos.
— Como vai, Layna?
— Muito bem, obrigada.
Ela manteve as mãos unidas sobre o colo, disfarçando o tremor que as acometera.
— Sente-se e faça um pouco de companhia para Layna, querido — pediu Myra, ficando
de pé e fazendo-o ocupar seu lugar ao lado da afilhada. — Preciso conversar com Daniel
a respeito de... De um investimento — improvisou.
— Sinto muito. — Mantendo a voz em um tom baixo, Layna forçou um sorriso. — Eu não
sabia que você também estaria aqui. Tia Myra me pediu para trazê-la porque queria visitar
seus avós. Combinamos de ficar para o jantar, mas posso inventar uma desculpa.
—
Para
quê?
Pouco
me
importa
que
fiquem
para
o
jantar.
D.C. se encostou no sofá, desejando já ter tomado pelo menos um gole de uísque antes
de sentar-se tão próximo de Layna.
A resposta de D.C. deixou-a magoada. Fazia dias que ela não conseguia parar de pensar
nele.
— Não quero estragar seu encontro com sua família — justificou-se. — Da última vez em
que nos encontramos... não nos entendemos muito bem.
— Já esqueci aquilo. — Ele arqueou uma sobrancelha. — Você não?
— Claro que sim. — Layna levantou o queixo, tentando demonstrar um ar de dignidade.
— Apenas pensei que, depois de haver saído daquela maneira, feito uma criança irritada,
ficaria pouco à vontade na minha companhia.
— Pelo que me lembro, foi você quem saiu praticamente correndo do clube, feito um
coelho assustado — replicou ele, curvando os lábios com ar de desafio. — De qualquer
maneira, você não me deixa pouco à vontade, Layna.
— Olhe só para eles, Daniel — disse Myra pelo canto dos lábios, fingindo não estar
observando Layna e D.C. a um canto da sala. — Quase é possível ouvir o ar estalando
em torno deles.
— Não entendo por que estão demorando tanto — reclamou ele. — Já deveriam estar se
entendendo a essa altura dos acontecimentos. Estou ficando preocupado.
— Não há motivo para isso — garantiu Myra. — Os dois tiveram apenas uma pequena
discussão. Como eu lhe disse, Layna andou muito amuada nos últimos dias,
provavelmente por causa disso. Mas fico contente que tenha vindo ver por si mesmo.
Talvez esse reencontro os ajude a se entenderem.
— É o que espero. — Daniel suspirou e tomou um gole de uísque. — Não se preocupe,
Myra. Veremos esses dois casados dentro de poucas semanas. — Tocando seu copo na
xícara dela, em um brinde, completou: — Tem a minha palavra.
Sendo um homem de palavra, Daniel não perdeu tempo. Começou a agir em sua
campanha para unir D.C. e Layna assim que as mulheres se retiraram para o estúdio
onde Shelby pintava suas delicadas peças de porcelana.
Ao ver D.C. e Alan na sala, aproximou-se e sentou-se ao lado do neto.
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—
Layna
casual.
é
mesmo
encantadora,
não?
—
disse
35
em
um
tom
Olhando para os lados, para verificar se Anna não estava mesmo por perto, tirou um
charuto do bolso e o acendeu.
— Talvez precisasse engordar um pouco — continuou. — Mulheres mais "cheinhas" têm
um aspecto mais saudável.
— Acho o corpo de Layna perfeito — afirmou D.C. Lançando um olhar de advertência
para o avô, falou: — Vovó ficará furiosa se o vir com esse charuto.
— Ela não vai me pegar. — Após dar uma generosa baforada no charuto, Daniel olhou
para o filho. — Alan, quero uma verdadeira dose de uísque desta vez.
— Desculpe-me, mas não quero arriscar minha cabeça, papai.
— Covarde — resmungou Daniel, voltando a se concentrar no charuto. — Myra me disse
que Layna anda trabalhando demais ultimamente e que não está tendo vida social.
— Opção dela. — D.C. deu de ombros.
Notando o olhar entristecido do avô, suspirou e entregou a ele o restante do uísque de
seu próprio copo.
— Isso sim é que eu chamo de consideração pelos mais velhos — ironizou Daniel,
lançando um olhar de censura para o filho.
Alan apenas riu, acostumado aos comentários do pai.
— Pelo menos um de nós por aqui não morre de medo da "poderosa Arina MacGregor" —
continuou Daniel. — Mas como eu estava dizendo, Myra anda preocupada com a afilhada. Depois de dar uma boa olhada nela, acho que a jovem está precisando é encontrar
o homem certo. Um banqueiro, creio eu, ou um executivo, seria perfeito para ela.
— O quê?! — D.C. perguntou no mesmo instante. — Um banqueiro? Do que diabos está
falando?
— Ora, estou apenas pensando em ajudar Layna a encontrar um pretendente adequado.
Para dizer a verdade, conheço um que mora aqui mesmo em Washington. Ele já foi
promovido a gerente de departamento. Henry é muito competente — afirmou ele, citando
o primeiro nome que lhe veio à mente. — Aquele rapaz tem futuro. Acho que vou telefonar
para ele e...
— Ei, espere um pouco — D.C. o interrompeu. — Está pensando em ligar para um
banqueiro idiota chamado Henry e apresentá-lo a Layna?
— Ele é um ótimo rapaz. E vem de uma boa família. — Daniel pestanejou, fingindo um ar
inocente. — E o mínimo que posso fazer por Myra.
— O mínimo que pode fazer é ficar fora disso. Layna não está interessada em ser
apresentada a nenhum banqueiro.
— Não? — perguntou Daniel, contendo a vontade de dar um grito de triunfo. — Estou
apenas falando em apresentar dois jovens descomprometidos. — Após dar outra
baforada no charuto, acrescentou: — Se você estivesse se preocupando em arranjar
alguém para si, não teria tempo para ficar criticando o relacionamento dos outros. Por que
toda essa preocupação com Layna? Ela não tem nada a ver com você.
— Nada mesmo! — bradou D.C., levantando as mãos, exasperado. — Layna não significa
absolutamente nada para mim!
— Fico feliz em ouvir isso.
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36
Seu neto já estava mais do que preso na armadilha, pensou Daniel. Ainda assim, decidiu
provocá-lo um pouco mais.
— Vocês não têm nada em comum. De fato, não me agradaria nem um pouco vê-lo
envolvido com Layna. O que você precisa é de uma garota moderna, que lhe dê muitos
filhos e que não tenha de se preocupar em poupar as unhas irnpecavelmente
manicuradas. Layna é elegante demais para você, rapaz. Acredite no que estou dizendo.
— Acho que sou eu quem deve decidir isso, não, vovô? Daniel ficou de pé, estreitando o
olhar. Teve de usar todo seu autocontrole para não rir alto e beijar o neto com orgulho.
Em silêncio, ficou olhando D.C. ir até a escada e gritar por Layna.
— O que está aprontando desta vez, papai? — perguntou Alan, desconfiado.
— Observe e aprenda, rapaz.
Dizendo isso, permaneceu com o rosto impassível quando Layna apareceu.
— Por que diabos gritou meu nome? — perguntou ela, fuzilando D.C. com o olhar.
— Venha até aqui.
Ele segurou a mão dela e tentou levá-la para a saída.
— Solte-me!
— Vamos sair daqui — disse D.C.
— Não vou sair.
D.C. resolveu o problema de uma maneira que teria feito Daniel aplaudi-lo, se pudesse.
Sem que Layna esperasse, ele a tomou nos braços e carregou-a para fora.
— Agora sim, estou vendo um MacGregor em ação. D.C. está... Deus meu, aí vem sua
mãe!
Daniel colocou o copo e o charuto nas mãos de Alan e se encaminhou para uma porta
lateral.
— Diga a ela que fui dar uma volta pelo jardim — disse antes de escapar.
Shelby apareceu primeiro, passando a mão pelos cabelos.
— Por que toda essa gritaria? — perguntou, olhando a sala. — Onde está D.C.? E
Layna? — Estreitou o olhar. — Onde está seu pai?
— Bem... — Alan olhou para o charuto e decidiu dar uma baforada também. — Tudo que
posso dizer é... — Sorriu e soltou a fumaça do charuto quando sua mãe e Myra entraram
na sala. — Papai disse a D.C. que Layna não era uma pretendente adequada para ele.
D.C. ficou furioso, exatamente como papai esperava. Então, apelando para uma atitude
típica dos MacGregor, tomou Layna nos braços e saiu com ela.
— Ele a levou nos braços? — Myra levou a mão ao peito, com um ar sonhador. — Oh, eu
queria tanto ter visto... Eu sabia que bastaria um "empurrãozinho"... — Ela se interrompeu
diante do olhar curioso dos amigos.
— O que eu quis dizer é... Hum...
— Myra. — Anna suspirou. — Não acredito que depois de todos esses anos ainda tenha
encorajado Daniel a fazer isso. E quanto a você... — Olhou para o filho. — A quem pensa
que está enganando com esse charuto? Vá agora mesmo atrás de seu pai. — Sentandose com elegância, cruzou as mãos sobre o colo. — Quero ouvir essa história dos lábios
dele.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
37
6
— Você perdeu o juízo!
O choque impedira Layna de protestar até o momento em que chegaram à calçada.
— Ponha-me no chão, por favor.
Manteve um tom de voz calmo, sabendo que alterá-lo só iria piorar a situação.
— Ponha-me no chão, D.C. Está me deixando embaraçada.
— Estou fazendo isso para seu próprio bem — avisou ele, seguindo em frente sem fazer
menção de soltá-la. — Se eu não a houvesse tirado de lá, você acabaria casada com um
banqueiro chamado Henry antes mesmo de se dar conta disso.
Layna franziu o cenho. Nunca tinha ouvido falar de nenhum caso de insanidade mental na
família MacGregor. Mas, segundo diziam, essas coisas aconteciam de uma hora para
outra.
— Está bem, chega dessa loucura — disse a ele. Notou que algumas crianças estavam
olhando para eles e rindo com a mão na boca. Uma mulher que aguava petúnias na
janela parou para olhá-los.
— Estou falando sério, D.C. Ponha-me no chão.
— Você não vai voltar lá. Não tem idéia do que ele está planejando para você. Primeiro
será: "Eu gostaria de apresentá-la a meu jovem amigo banqueiro, Henry". E antes mesmo
que você perceba já estará arrumando o enxoval. O velho MacGregor é impossível.
— D.C., eu me recuso a ser carregada pela rua feito um pacote.
De fato, era exatamente assim que ela estava se sentindo. Ficou surpresa ao notar que
D.C. não estava demonstrando nenhum sinal de cansaço mesmo depois de já haverem
percorrido mais de um quarteirão. Ele tinha braços realmente fortes, teve de admitir, ainda
que com certa relutância.
— Está bem, ponha-me no chão e prometo esquecer que isso aconteceu — tentou mais
uma vez. — Esquecerei até que me embaraçou na frente de sua família e de tia Myra.
— Ele não tem mesmo jeito - continuou D.C, como se ela não houvesse falado. — É
ardiloso, manipulador e está de olho em você, Layna. Precisa tomar cuidado.
A paciência que Layna vinha tentando demonstrar até então se extinguiu de repente.
Tentando se desvencilhar dele, começou a agitar as pernas, mas D.C. nem pareceu se
abalar.
— Do que diabo está falando?
— Ele fez a mesma coisa com minha irmã. Agora Júlia está casada e com um filho. E com
meus primos também. Ele deve estar se considerando alguma espécie de supercasamenteiro. E você será a próxima vítima, minha cara.
Layna tentou se soltar novamente, dessa vez agitando os braços e as pernas. Para seu
maior desespero, ele nem notou.
— De quem está falando, afinal? Droga, se não me colocar no chão...
— Estou falando de meu avô, claro - respondeu ele. — Mas espere para conversarmos lá
dentro.
— Lá dentro?! D.C, ponha-me no chãol
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38
Mantendo o mesmo ritmo, ele entrou por um portão e seguiu até a entrada de um prédio.
— Eu moro aqui. Parece evidente que você ainda não percebeu o que ele está tramando.
E não a culpo por isso. Meu avô é muito bom no que faz. Mas você vai me agradecer
quando resolvermos o problema.
— Agradecer? Oh, muitíssimo obrigada, Daniel Campbell. Agora posso ir embora?
Ignorando seus protestos, D.C. entrou com ela no elevador, já ocupado. Layna sentiu o
rosto esquentar quando um elegante casal de meia-idade os cumprimentou.
— Olá, D.C. - disse o homem. — Como vão as coisas?
— Melhores do que nunca. — Ele sorriu quando o casal deixou o elevador. — E vocês,
como estão? — perguntou, enquanto carregava Layna para dentro.
— Oh, ótimos — respondeu a mulher. — Espero que tenham um bom-dia.
Layna apertou os lábios quando as portas do elevador se fecharam. Pelo visto, a
vizinhança já estava acostumada a ver D.C. carregar mulheres para seu apartamento.
Pensando bem, por que sentir-se embaraçada por ser apenas mais uma na lista?
— Está mais do que claro que seu estilo de vida e o meu são completamente
incompatíveis — ouviu-se dizer em um tom de voz até bem calmo. — Apesar de termos
algumas ligações familiares em comum e morarmos na mesma vizinhança, acho que não
seria má idéia não nos vermos mais pelo resto de nossa vida.
— Ela respirou fundo, soltando o ar devagar. — Sei que isso já está ficando repetitivo,
mas quero que me ponha no chão.
Somente então D.C. se deu conta de quanto o perfume de Layna o envolvera. Um
perfume marcante, com um leve toque floral. Sexy demais para sua paz de espírito.
Ao virar o rosto para olhá-la, notou que seus lábios estavam a centímetros dos dela. Seria
fácil inclinar a cabeça e beijá-la mais uma vez...
Layna olhou para os lábios dele em um consentimento silencioso. Também estava
ansiosa para ser beijada por D.C. Por isso, quando o beijo finalmente aconteceu nenhum
dos dois ficou surpreso. Deixaram-se levar pela falta que haviam sentido um do outro,
desfrutando com prazer cada instante do beijo.
"Senti sua falta", Layna teve a impressão de ouvi-lo murmurar. Teria ele realmente dito
aquilo ou apenas pensado?, D.C. se perguntou. Pouco importava a resposta. Layna
estava em seus braços e, no momento, isso era mais importante do que qualquer outra
coisa.
Layna levou a mão à nuca dele acariciando-lhe os cabelos macios. Um breve gemido
havia acabado de escapar por entre seus lábios quando o elevador se abriu.
As portas permaneceram abertas durante algum tempo. Ao fazerem menção de se fechar,
D.C. encaixou o ombro pela fresta, obrigando-as a se abrirem novamente.
Para sua surpresa, assim que saíram do elevador Layna se adiantou e segurou seu rosto
entre as mãos, mantendo os lábios colados aos seus. A chama do desejo se mostrou
mais acesa do que nunca e, no íntimo, ambos sabiam que ela clamava para ser saciada.
Ao ouvir D.C. resmungar algo incompreensível, Layna afastou os lábios dos dele,
franzindo o cenho.
— O que foi?
— Estou tentando encontrar a maldita chave.
Se não abrisse aquela porta logo, acabaria fazendo amor com Layna ali mesmo, no
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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corredor.
— O quê? — Ela levou a mão à testa, como que se recuperando da onda de
sensualidade que a envolvera. — Espere. Isso é...
— Pronto — D.C. a interrompeu, abrindo a porta em frente ao elevador.
Levando-a para dentro, colou os lábios novamente aos dela e fechou a porta com o pé.
— Não, espere — pediu Layna.
— Conversaremos depois. — Fitando-a nos olhos, ofegante, acrescentou: — Agora temos
de terminar isso.
— Não, nós...
Layna não conseguiu terminar a frase. Os lábios de D.C. pareciam ter o poder de fazê-la
esquecer todos seus receios. Por isso, pela primeira vez na vida, ela se deixou levar pelo
desejo.
— Sim, conversaremos depois — murmurou, assim que conseguiu recuperar o fôlego,
puxando-o para si logo em seguida.
D.C. finalmente colocou-a no chão. Precisava tocá-la, beijá-la e ir até o fim. Mantendo-a
encostada na porta, começou a deslizar suas mãos de artista por aquele corpo mais do
que perfeito. Layna era desejável, sedutora e estava prestes a se tornar sua. Tirando o
suéter que a envolvia, traçou com os lábios o mesmo caminho que suas mãos haviam
percorrido.
Seus lábios deslizaram com urgência, como se uma parte dele tivesse receio de que
Layna fosse desistir ou desaparecer a qualquer instante. Queria tê-la por inteiro. A suave
curva dos ombros, os seios arredondados, a curva sensual dos quadris... A pele macia se
aqueceu sob seus lábios, deixando-o ainda mais excitado. Colou os quadris aos dela,
puxando-a para si com uma urgência crescente.
Ofegante, Layna apoiou as mãos naqueles ombros fortes. Ondas de desejo percorriam
seu corpo, indo se alojar na parte mais sensível de seu ser. Precisava saciar aquele calor
excitante, quase torturante. E só havia uma maneira de conseguir isso.
— Agora, D.C. Por favor...
As palavras saíram na forma de um murmúrio sensual, mas foram suficientes para fazê-lo
entender a mensagem.
Em questão de segundos, estavam sobre o tapete, livrando-se das roupas e de tudo que
pudesse impedi-los de se amarem livremente. Completamente.
Quando D.C. deitou sobre Layna, o calor daquele corpo' másculo a envolveu feito uma
acolhedora nuvem de sonho. Os olhos muito azuis fitaram-na com um intenso brilho de
desejo quando ele murmurou:
— Agora.
Então se uniram por completo. A luz que se insinuava pelas janelas iluminou os corpos
nus, umedecidos pelo suor do desejo. Levados pelo ritmo cada vez mais frenético da paixão, ambos se entregaram ao apelo sensual de seus corpos, unidos naquela espécie de
dança íntima, quase selvagem.
Quando a explosão do ápice finalmente os arrebatou, arrastou-os consigo para um mundo
fantástico. Um mundo onde não havia lugar para medos, dúvidas nem angústias. A
felicidade estava bem ali, mostrando sua força e indicando que valeria a pena lutar por
ela. O caminho podia até ser difícil e tortuoso, mas o resultado final sempre valia a pena.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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E os verdadeiros amantes sabiam disso melhor do que ninguém.
D.C. dormiria por um dia inteiro se tivesse chance. Porém, o pensamento logo
desapareceu de sua mente quando ele se virou e viu Layna deitada a seu lado.
Fechando os olhos por um instante, relaxou o corpo, acariciando os cabelos dela
preguiçosamente. Seus lábios se curvaram em um sorriso. Quem diria que por trás da
controlada srta. Drake se escondia uma gata selvagem? Estava mais do que satisfeito por
haver aberto a porta da gaiola imaginária que a mantivera cativa até então.
Layna despertou de um sono delicioso, mas manteve os olhos fechados. Ao se lembrar
do que havia acontecido, sentiu-se chocada. Como tivera coragem de se entregar tão
livremente a alguém que ela mal conhecia? Estava nua, deitada no tapete da sala de D.C.
e, até minutos antes, isso lhe parecera completamente normal.
Devia estar mesmo perdendo o juízo. Bastava que ele a tocasse para que todo seu bom
senso desaparecesse como que por encanto. Nunca agira assim em toda sua vida.
Todavia, estava se sentindo incrível.
"Nada mais do que uma reação física", disse a si mesma. Manteve os olhos fechados,
lutando para encontrar o bom senso perdido em algum canto de seu ser.
Havia se mantido no celibato por... Bem, por um longo tempo. O suficiente para seu corpo
acabar traindo suas convicções. Porém, ela era humana, e suscetível a certas necessidades básicas. Entretanto, chegara o momento de pôr um pouco de ordem naquilo tudo.
Abrindo os olhos, após tomar a decisão, sentou-se.
— Bem... — começou enquanto estendia o braço para pegar seu suéter.
"Deus, onde foi parar meu sutiã?", perguntou-se, olhando em torno de si. D.C. abriu os
olhos e ficou observando-a por algum tempo. Os cabelos longos estavam levemente
desarrumados e a pele dela nunca estivera tão rosada.
— O que está fazendo?
— Vestindo-me — Layna respondeu.
— Por quê?
Para o inferno com o sutiã, pensou ela. Não poderia perder tempo procurando por ele.
— Eu nunca... Isso foi apenas sexo, D.C.
— E o melhor que eu já tive — observou ele.
Layna respirou fundo. Dobrando os joelhos junto ao peito, olhou para ele. Sabia que
encontraria aquele sorriso charmoso no rosto dele. Se pelo menos ele não fosse tão
bonito, pensou, admirando aqueles cabelos fartos e os olhos muito azuis.
A idéia de amá-lo mais uma vez surgiu com a intensidade de um relâmpago em sua
mente. Não, não poderia se deixar levar novamente.
— Não costumo agir assim — declarou, vestindo o suéter. D.C. arqueou uma sobrancelha
e também se sentou.
— Nunca?
— Nunca — Layna confirmou. — Isso foi apenas... combustão espontânea, nada mais.
Como você mesmo disse, somos adultos e descomprometidos, portanto, não há nada a
ser lamentado. — Mas...
Ela se interrompeu ao sentir as mãos dele deslizando por baixo de seu suéter.
— Preciso ir embora, D.C. — falou, com a voz trêmula.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
41
— Está bem.
Ele mordiscou o lóbulo da orelha dela, fazendo-a estremecer.
— D.C, você não está entendendo... Isso foi um erro.
— E você não gosta de cometer erros, eu sei. Então vamos tentar de novo para ver se
acertamos dessa vez. — Dizendo isso, tirou o suéter de Layna e puxou-a para si. —
Estou mais do que disposto a tentar até acertarmos...
Deus, como ela fora parar na cama de D.C.?, Layna se perguntou muito tempo depois. Se
é que um colchão deixado no chão poderia ser considerado uma cama. Bem, pelo menos
era mais confortável do que o tapete da sala. Mas não menos perigoso.
Aturdida, olhou para o teto. Acabara se entregando mais uma vez, depois outra. Loucura.
Pura loucura. Claro que era responsável por suas próprias ações e pelo fato de haver se
deixado seduzir. Sem dúvida, participara daqueles últimos acontecimentos com muito
entusiasmo e não poderia culpar ninguém a não ser ela mesma.
O que aconteceria dali em diante?, era a pergunta que rondava sua mente. Não estava
acostumada a agir daquela maneira inconseqüente. Afinal, era uma mulher sensível e
com um plano de vida bem determinado para si mesma. Envolver-se dessa maneira com
D.C. acabaria fazendo-a se desviar de suas metas.
— Preciso ir embora.
Ao lado dela, D.C. gemeu em protesto.
— Layna, desse jeito você vai me matar.
Nas últimas horas, todas as vezes que ela dissera que tinha de ir embora ele a fizera
mudar de idéia amando-a mais uma vez.
— Estou falando sério. — Levou a mão ao peito dele quando D.C. puxou-a para si,
deitando-a sobre ele. — Isso tem de terminar.
— Vamos chamar apenas de "intervalo", está bem? — Ele beijou-lhe a ponta do nariz. —
Estou faminto. Quer comida chinesa?
— Já disse que preciso ir.
—
Tudo
bem,
então
comeremos
massa.
Precisamos
de
energia.
Como era possível que D.C. a fizesse sentir vontade de puxar os próprios cabelos e de rir
ao mesmo tempo?
— Você não está me ouvindo.
Ele sentou-se, ciente de que fazia muito tempo que não se sentia tão contente e relaxado.
— Layna, a essa altura dos acontecimentos, já sabemos que nos damos muito bem na
cama, no chão e no chuveiro também. Se me deixar agora, dentro de uma hora
estaremos desejando estar aqui juntos novamente. Então vamos ficar de uma vez e
comer alguma coisa, sim?
Layna segurou o travesseiro junto ao corpo nu.
— Isso não vai acontecer novamente.
— Fettuccine com molho de tomate está bem para você? Ela suspirou.
— Sim.
— Ótimo.
D.C. pegou o telefone e digitou o número do restaurante italiano onde ele costumava
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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fazer pedidos. Após dizer o que queria, desligou e olhou para Layna.
— O jantar chegará dentro de meia hora — avisou. — Tenho uma garrafa de vinho branco
lá embaixo.
Ficando de pé, vestiu o jeans e saiu. Layna continuou no mesmo lugar por um longo
tempo. Com um suspiro, passou a mão pelos cabelos. Tudo bem, agiria do modo mais
sensato. Jantaria civilizadamente com D.C. enquanto conversariam sobre assuntos
triviais.
Depois iria embora e nunca mais voltaria a vê-lo.
7
Não entendo como consegue viver no meio dessa bagunça — disse Layna, sentada à
mesa da cozinha, enquanto saboreava o fettuccine e o vinho.
D.C. partiu um pão italiano em dois e entregou metade a ela.
— Já pensei em contratar uma empregada — explicou — mas não gosto de ter ninguém
por perto quando estou trabalhando.
— Uma empregada não seria suficiente — salientou Layna. — Você precisaria de uma
equipe inteira para dar conta desta bagunça. Há quanto tempo está aqui?
— Dois meses.
— E ainda tem coisas guardadas em caixas? — Ela se surpreendeu.
D.C. levantou apenas um ombro.
— Vou arrumá-las mais cedo ou mais tarde.
— Como consegue pensar em meio a toda essa bagunça? Como se concentra para
trabalhar?
Ele sorriu com charme.
— Minha irmã diz que é porque fui forçado a obedecer muitas ordens durante a infância.
Sempre havia alguém querendo "pôr ordem" na Casa Branca.
Layna arqueou uma sobrancelha com elegância.
—
Não
rebeldia?
acha
que
já
deveria
ter
superado
esse
período
de
— Não vejo por quê. Você gosta de ver tudo no seu devido lugar, não gosta?
— Sim — ela admitiu. — Fui criada em um ambiente onde as coisas estavam sempre nos
seus devidos lugares. Isso torna a vida mais simples.
— Nem sempre "simples" é sinônimo de "satisfatório".
— Talvez — disse Layna. — De qualquer maneira, acho que concordamos com o fato de
que não temos quase nada em comum. Por isso é que essa... situação é um erro.
— Sermos amantes não é uma situação, é um fato. E só porque você gosta de tudo
"certinho" e eu não, não significa que eu a deseje menos por isso.
Layna respirou fundo.
— Não podemos ter um relacionamento, D.C.
— Já estamos tendo um, Layna.
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43
— Não considero sexo como um relacionamento propriamente dito — declarou ela,
espetando outra porção de fettuccine com o garfo.
— Parece-me que estávamos tendo algo bem próximo a um relacionamento antes de
fazermos amor — salientou D.C.
— Não — Layna refutou, embora, no íntimo, soubesse que ele dissera a verdade. — Não
quero ter um relacionamento sério. Não gosto das conseqüências que eles causam nas
pessoas.
D.C. franziu o cenho, desconfiado de que havia mais detalhes por trás daquela afirmação.
— Tais como?
— As pessoas se sentem pouco à vontade para dizer a verdade e acabam se enganando
entre si ou fingindo ignorar as decepções.
Layna hesitou, mas acabou chegando à conclusão de que seria melhor continuar sendo
sincera.
— Minha família não é muito boa em relacionamentos humanos. Meus pais mantêm um
casamento conveniente para ambos, mas não quero o mesmo para mim. Os Drake
tendem a ser... egoístas — declarou ela, por falta de um termo melhor. — Ficar com
alguém a um nível mais sério requer uma certa dose de compromisso e dedicação.
— Você teve uma infância difícil?
— Não, não.
Layna suspirou. Era difícil tentar explicar a alguém algo que nem ela mesma entendia
completamente.
—
Minha
infância
foi
muito
boa.
conforto e tive acesso a uma ótima educação.
Vivi
sempre
cercada
de
D.C. meneou a cabeça. Se alguém lhe fizesse a mesma pergunta, ele citaria aqueles
itens por último. Se é que os citaria. Mesmo tendo sido criado em meio ao complicado
mundo da política, não podia negar que recebera amor, atenção e compreensão de sua
família.
— Seus pais a amam? — perguntou levado por um impulso.
— Claro que sim.
O fato de se fazer a mesma pergunta desde muito tempo deixou Layna incomodada.
Tentando amenizar a sensação, tomou um gole de vinho.
— Não somos como a sua família — disse a ele. — Não temos aquela... sinceridade
latente nem aquelas demonstrações de afeto. É uma forma diferente de ser, só isso.
Muito diferente — acrescentou, voltando a olhá-lo. — Lembro-me de ter visto fotos de sua
família. Você com sua irmã, com seus pais... Sem pre demonstraram carinho uns pelos
outros. Isso é admirável, D.C. Infelizmente, não venho de uma família assim.
Preferiria pensar depois se fora o vinho que a deixara mais descontraída ou se fora o fato
de D.C. ser um bom ouvinte.
— O casamento de meus pais é conveniente para eles. Lideram suas próprias vidas,
tanto em conjunto quanto separadamente, e mantêm discretos casos extraconjugais. Os
Drake não provocam nem toleram escândalos. Até entendo esse tipo de atitude porque
também sou do tipo que prefere evitar tumultos.
D.C. se perguntou se Layna tinha noção de que a família dela a tornara uma pessoa
triste, ou se ela realmente achava que aquela atitude partia dela própria e era inevitável.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
44
— Você não evitou esse último em particular — disse a ela.
— Mas é exatamente o que estou tentando fazer!
E não estava tendo lá muito êxito, admitiu. Não estando ali, na cozinha da casa de D.C., e
vestida com o robe dele.
— É como as flores — citou ela.
— Que flores?
— As tulipas. Do meu ponto de vista, eu deveria replantá-las ordenadamente. E foi isso que
fiz. Porque era ordenado, era lógico. Já do seu ponto de vista, eu deveria espalhá-las pelos
vasos aleatoriamente, sem seguir nenhuma regra. Talvez esteja certo. As flores ficaram
mais bonitas do seu modo. Mas lido melhor com as coisas quando tenho um plano mais
específico em mente.
D.C. notou que Layna estava realmente abrindo o coração para ele. Não soube por quê,
mas sentiu vontade de aninhá-la nos braços e consolá-la.
— Mas você tem a liberdade de mudar de planos quando surge uma nova opção.
— Evito mudar de planos quando vejo que a mudança não trará vantagens consideráveis.
Meu objetivo de vida é me concentrar ao máximo na minha carreira. Gosto de ser solteira
e não me incomodo com isso.
— Eu também — afirmou D.C. — Mas também gosto de ficar com você, e não tenho a
mínima idéia do motivo. Você não faz meu tipo.
— Ah, não? — perguntou Layna, fingindo não se importar. — E qual é o seu tipo?
Os lábios de D.C. se curvaram em um sorriso.
— Você é culta, sofisticada, controlada e tem tendências a parecer um pouco esnobe. —
Continuou sorrindo mesmo quando ela o fuzilou com o olhar. — Pode-se dizer que meu
tipo é exatamente o contrário de tudo isso.
— E você é indelicado, autoritário, arrogante e tem tendências a parecer um pouco
egoísta — replicou ela. — Pode-se dizer que meu tipo é exatamente o contrário de tudo
isso.
— Bem, pelo menos essa parte já ficou clara entre nós. — D.C. tomou um gole de vinho,
não parecendo nem um pouco ofendido com o que acabara de ouvir. — Ainda assim,
continuo a desejá-la. E sei que tenho de pintá-la.
— Se acha que isso me lisonjeia...
— Não foi dito para lisonjeá-la. Eu poderia fazer isso se quisesse, mas você já deve estar
cansada de ouvir elogios de outros homens. É uma mulher bonita e sou lado retraído é
muito sexy do ponto de vista masculino. E mais excitante, ainda agora que sei o que há
por trás dessa atitude. Somos adultos livres com uma forte atração física um pelo outro.
Não é preciso que nosso nível de relacionamento se estenda, além disso, a menos que
queiramos.
Layna se manteve em silêncio por um momento. O que D.C. havia descrito parecia
perfeitamente sensato. Por isso não soube dizer por que sentiu receio e tristeza ao
mesmo tempo.
— Se continuarmos com isso, teremos de seguir certas limitações — disse a ele.
— Não gosto da palavra "limitações".
D.C. sentiu-se aborrecido ao ver Layna usar justamente aquela palavra enquanto estava
sentada à mesa, em sua cozinha, usando o robe que sua mãe lhe dera como presente de
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
45
Natal, anos antes. Ainda mais com o perfume do banho que haviam compartilhado,
depois de fazerem amor, ainda recendendo por seu corpo.
— Já sei — afirmou ele. — Enquanto estivermos juntos, não dormiremos com mais
ninguém.
Layna arqueou as sobrancelhas, surpresa com a maneira quase rude como ele dissera
aquilo.
— Eu não chamaria isso de limitação, mas de senso de respeito mútuo— salientou.
— Chame como quiser, mas ninguém vai pôr as mãos em você além de mim.
— Ei, espere um pouco...
— E se meu avô insistir em apresentá-la a Henry, o tal banqueiro idiota, quero que
descarte a idéia no mesmo instante.
— Não conheço nenhum Henry. — Layna começou a sentir-se frustrada novamente. — E
não faço idéia do motivo que o levou a pensar que seu avô iria querer me apresentar a
um banqueiro. Não estou com problemas na minha conta bancária.
D.C. respirou fundo, balançando a cabeça.
— Meu avô está pouco ligando para sua conta bancária, Layna. Ele quer lhe arranjar um
marido.
Ela arregalou os olhos e tomou um gole de vinho para umedecer a garganta que havia
secado repentinamente.
— O que disse?
D.C. sentiu uma certa onda de triunfo ao ver o choque estampado no rosto de Layna.
— Eu ia lhe explicar tudo, antes que acabasse caindo na armadilha. Ele está de olho em
você.
— Henry?
— Não! Você nem conheceu esse idiota ainda. Estou falando sobre meu avô.
Layna colocou o copo de vinho sobre a mesa.
—
Estou
me
sentindo
confusa.
Até
onde
sei,
homem na casa dos noventa anos, muito bem casado e feliz.
seu
avô
é
um
D.C. estreitou o olhar.
— Não, não está sendo ingênua deliberadamente. Vamos tentar de novo. Meu avô gosta
de você. Ele a considera uma jovem admirável e somente isso já seria suficiente para ele
decidir que você precisa de um homem admirável a seu lado. Você precisa se casar e ter
filhos. E só nisso que ele pensa, posso garantir. O velho MacGregor fica sempre
obcecado quando o assunto é casamento.
— Bem, ele nunca falou sobre isso comigo. Mencionou apenas algo sobre você estar
fazendo sua avó sofrer por ainda não haver se casado e formado uma família.
— Ah! Está vendo?
Layna se sobressaitou quando ele colocou o copo com força sobre a mesa.
— Então já testemunhou o que estou dizendo — continuou ele. — Minha avó não tem
nada a ver com isso. Meu avô é quem tem mania de casamenteiro. Ele usa essa desculpa
para conseguir que façamos sempre o que ele quer. Se não tomar cuidado, estará
trocando fraldas antes que se dê conta. Já vi isso acontecer antes. Ele se concentra em
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
46
cada um da família de uma determinada vez, como um projeto. Então coloca o parceiro
perfeito em nosso caminho, fingindo que não teve nada a ver com a história. Meu primos
caíram direitinho na armadilha, mas não é suficiente para ele. Enquanto ainda restar
algum de nós solteiro, ele estará agindo. O homem é impossível.
— Tudo bem, não vou discutir com você. Com certeza, conhece seu avô melhor do que
eu. Ainda assim, não consigo entender por que ele manipularia adultos inteligentes,
fazendo-os optar por algo tão sério quanto o casamento. Mas que seja assim —
completou ela, quando D.C. fez menção de protestar. — Não tenho a intenção de me
casar com ninguém. Portanto, essa história não tem nada a ver comigo.
— E exatamente aí que você se engana, e é onde ele vai pegá-la. — D.C. pegou o garfo
e o apontou para ela, antes de voltar a enfiá-lo na massa. — Ele voltou a síndrome de
casamenteiro para você, Layna. Confesso que é um alívio para mim. Pelo menos assim
ele me esquece um pouco. Mas acho justo avisá-la. Ele agirá com sutileza, dizendo que
conheceu o sujeito por acaso. Depois dará um jeito de apresentar vocês dois.
— Está falando de Henry?
— Sim. Então terá de dizer a ele que não está interessada em ninguém.
Layna não resistiu e sorriu para ele.
— Um banqueiro, você disse? Será que ele é bonito? Seu avô o descreveu?
— Isso, brinque mesmo. Quero ver se continuará rindo quando estiver fazendo os
preparativos para o casamento.
— D.C, acho que sou madura o suficiente para lidar com uma situação desse tipo. De
qualquer maneira, estou lisonjeada que seu avô esteja preocupado com meu futuro.
— Esse não passa de outro detalhe para fazê-la cair na armadilha — resmungou ele.
Layna ficou pensativa por um instante. Então empurrou o prato para o lado e se inclinou
para a frente.
— Quer dizer que foi esse o motivo que o levou a me tirar daquele jeito da casa de seus
pais e me carregar pela rua? Só porque seu avô disse que iria me apresentar a um
banqueiro? Isso está me parecendo uma crise de ciúme.
— Ciúme?! — D.C. se indignou. — É esse o agradecimento que recebo por tentar
protegê-la?
Com calma, Layna ficou de pé e levou o prato para a pia já cheia.
— Foi apenas uma observação.
— Então está precisando rever seus conceitos.
— Se é o que diz... — Ela levantou uma mão evasivamente. — Apenas me responda uma
pergunta: alguma vez você já ligou essa lava-louça?
— Não fiquei com ciúme. Apenas... Preocupado.
— Hum-hum.
Layna colocou o prato em um dos vãos da lava-louça vazia.
— Se eu houvesse ficado com ciúme, teria ameaçado acertar algumas contas com o tal
Henry.
— Sim, claro.
Devagar, ela começou a pôr as outras peças na lava-louça.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
47
— Depois teria ido atrás dele e perseguido o sujeito até o fim do mundo se fosse preciso.
— Ora, que emocionante. Já terminou seu jantar? Layna sabia que era ridículo, mas
gostou de sentir um arrepio pelo corpo quando D.C. se aproximou de repente e virou-a de
frente para ele.
— Não sou ciumento, apenas... territorialista.
— Ótimo. Então use seu termo que eu continuarei usando o meu.
Com um resmungo impaciente, ele enlaçou os braços em torno dela e praticamente a
levantou do chão. Um brilho de divertimento e de desafio surgiu ao mesmo tempo nos
olhos de Layna.
D.C. curvou os lábios e acabou sorrindo.
— O termo certo é o que menos importa no momento — disse, antes de beijá-la.
Não, ele não estava com ciúme, D.C. disse a si mesmo algum tempo depois. Estava
deitado na penumbra, com Layna dormindo a seu lado. Na verdade, estava apenas...
protegendo o que era seu. Temporariamente seu.
Gostava de ter Layna por perto, ainda que ela o houvesse obrigado a arrumar a cozinha
antes de deixar que ele a levasse novamente para o quarto.
Apreciava o modo como ela o olhava enquanto conversavam e ainda mais os olhares
sensuais que ela lhe lançava quando estavam fazendo amor. Gostava de ouvir aquela voz
levemente rouca quando discutiam sobre música ou sobre arte. E também quando ela
dizia seu nome enquanto faziam amor. Lamentava por ela haver tido tão pouco afeto
durante a infância. Esse tipo de coisa deixava marcas profundas nas pessoas. Segundo
ela, tratava-se de uma vantagem, mas não era assim que ele via essa condição.
Aquela falta de estabilidade e de amor a fizera descartar a possibilidade de algum dia ter
sua própria família. Para ele, essa era uma perspectiva lamentável.
Não que estivesse com pressa de formar uma família, apressou-se em dizer a si mesmo.
Mas algum dia certamente faria isso. Quando chegasse o momento e ele encontrasse a
mulher certa. Queria filhos e uma casa cheia de barulho e de cores. Não conseguia se
imaginar sem ter tudo aquilo.
Por isso, acreditava que em algum canto escondido do coração de Layna também
existisse o mesmo sonho. O sonho de ter alguém com quem compartilhar sua vida, seus
anseios, seu amor.
A imagem daquele lindo corpo coberto por seu roupão lhe voltou à mente. Os pés
descalços, o rosto sem maquilagem e, ainda assim, incrivelmente belo, o brilho inteligente
dos olhos verdes, o convidativo tom rosado dos lábios cheios...
Sentira-se tocado pelo modo sincero como ela declarara que não poderia haver nada
mais sério entre eles.
Como que contestando aquilo, ali estava ela, aninhada a seu lado e usando uma de suas
camisetas para se proteger do ar mais frio daquela noite de primavera. Haviam
descoberto pelo menos um ponto em comum: ambos preferiam dormir com a janela
aberta.
Não, ele não sentira ciúme, afirmou a si mesmo mais uma vez, passando um braço
possessivo sobre Layna e puxando-a mais para perto. Gostava da companhia dela, só
isso. E iria mantê-la por perto enquanto fosse possível. Nada mais.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
48
8
D.C . se afastou do retrato e observou-o com atenção, perplexo com o que conseguira
colocar na tela. Nunca tivera falsa modéstia a respeito de seu trabalho. De fato, já lhe
haviam dito por mais de uma vez que sua autoconfiança chegava a ser irritante.
O problema era que ele pintava o que sentia, via e sabia, ou o que gostaria de saber. Por
isso, era muito raro ficar desapontado com alguma de suas pinturas. E mais raro ainda
desprezar algo que o envolvera completamente e que ele fizera com o coração e com as
próprias mãos.
Entretanto, Layna o surpreendera. Depois que começara a pintar, resolvera deixar os
esboços de lado e trabalhar apenas com o que tinha na memória. Revivera momentos
que passara ao lado dela e lembrara-se das expressões, dos gestos e de tudo que
pudesse ajudá-lo a realizar a pintura.
Pretendia pintar outra aquarela depois daquela. No segundo trabalho, manteria cores
mais frias e discretas, combinando mais com a personalidade de Layna.
Esse primeiro trabalho demonstrava sua visão dela. Por isso, usara tinta a óleo, com tons
ricos, e um traçado moderno, com pinceladas mais soltas.
O retrato mostrava Layna na cama dela. A essa altura, já haviam dormido juntos muitas
noites, compartilhando a cama dela e a sua em tórridas noites de amor.
O rosto que ele retratara tinha um olhar marcante e os lábios delicados curvados em um
sorriso sedutoramente feminino. Os cabelos soltos espalhavam-se sobre os ombros e em
torno do rosto. Enquanto os pintava, lembrara-se de que Layna tinha o hábito de
desembaraçá-los com os dedos, quando se sentava na cama e mantinha o corpo coberto
pelo lençol, depois de fazerem amor. Em uma dessas vezes, ela olhara para trás e sorrira
para ele, ainda deitado.
Não sabia o motivo, mas aquele momento continuava muito vivido em sua memória. O
sorriso de Layna sugerira intimidade e a luz incidindo indiretamente sobre o ombro dela a
tornara ainda mais linda. Então, antes de se inclinar para beijá-lo, Layna cobrira os seios
com o braço. Não por embaraço, já que ele conhecia cada centímetro do corpo dela, mas
por puro hábito. Um gesto muito natural, segundo ele notou. E, por isso mesmo, mais do
que sensual.
Aquele momento de intimidade compartilhado de um modo especial recusava-se a sair de
sua lembrança. E fora nele que ele se inspirara para fazer aquele retrato. A pintura
parecia ter vida, olhando-o como se, a qualquer momento, fosse se inclinar para frente e
beijá-lo.
— Quem é você? — murmurou ele, chocado pela impressão de que não a conhecia tão
bem quanto imaginara.
Tomado por algo semelhante a uma onda de fúria, jogou o pincel sobre a mesa e foi até a
janela. Quando Layna começara a invadir sua vida dessa maneira? E como ele deixara
isso acontecer?
O que diabos faria com o fato de estar se apaixonando por uma mulher que ele nem tinha
certeza se existia? Quanto daquele retrato era realmente Layna e quanto era aquilo que
ele desejava que ela fosse?
Não tinha muita certeza do que queria dela, mas sabia que não era apenas sexo. Nunca
havia sido, por mais que a desejasse.
Layna já fazia parte de sua vida, assim como ele da vida dela, embora nenhum deles
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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parecesse disposto a querer admitir. A prova disso fora que ela o fizera arrumar a
bagagem deixada nas caixas por tanto tempo. Ele, por sua vez, comprara vários vasos
com bocas-de-leão de fortes tons variados e a fizera espalhá-las aleatoriamente pelo
pátio. Depois, haviam se sentado sob a luz indireta do sol para admirar o resultado. Ele
também havia comprado uma cama. Até deixara Layna convencê-lo a escolher um
modelo com cabeceira de ferro dourado e trabalhado, feminino demais para seu gosto.
Mas acabou tendo de admitir que ela estava certa porque a cama ficou simplesmente
perfeita em seu quarto. E o modo como resolvera agradecer-lhe pela escolha também fora
mais do que satisfatório... Naqueles últimos dias, haviam ido a uma ópera, uma partida de
futebol, uma exposição de Rembrandt e até mesmo ao zoológico. Por algum motivo,
aquela mistura de preferências e de estilos parecia harmonizá-los em uma perfeita união.
Impossível, lembrou a si mesmo. Aquele não era o momento certo e Layna não se parecia
com a mulher que ele sempre planejara ter em sua vida.
Foi então que a avistou atravessando a rua e andando pela calçada, vindo em direção ao
prédio. Notou que ela havia trocado de roupa depois do trabalho, pois sabia que ela usava
roupas formais enquanto trabalhava. Estava vestida com uma calça folgada de linho
creme e com um confortável blusão cor de uva. Carregava uma enorme bolsa de compras
com o logotipo da Drake's.
Um sorriso se insinuou nos lábios dele, mesmo enquanto tentava se convencer de que
preferiria ficar sozinho. Quando deu por si, já havia aberto a janela e se inclinado para
frente. O ruído fez Layna parar e olhar para cima. Colocou a mão por cima dos olhos,
protegendo-os do sol. Mesmo sabendo tratar-se de uma reação ridícula, não pôde deixar
de sentir uma onda de expectativa ao ver D.C. na janela do segundo andar.
— Oi — cumprimentou-o com um sorriso, tentando demonstrar um ar casual diante
daquele olhar intenso. — Ainda está trabalhando?
D.C. hesitou. Se respondesse que sim, Layna se desculparia com polidez, dizendo que
voltaria depois. Haviam combinado que não interromperiam o horário de trabalho um do
outro.
— Não — respondeu, por fim. — Pode subir.
Layna tinha uma cópia da chave; Enquanto a esperava, D.C. pensou em como aquilo
também acontecera sem que nenhum dos dois houvesse planejado. Como alguém que
acabara de acordar de um cochilo, ele passou as mãos pelos cabelos e pelo rosto. Aquela
situação parecia estar mesmo saindo de seu controle.
Estava começando a descer a escada quando Layna abriu a porta. Ele parou onde estava
e os dois se entreolharam por algum tempo, em silêncio.
"Puxa, como eu te quero", foi tudo que ele conseguiu pensar. "Quando isso vai terminar?"
—
Pensei
que
a
essa
hora
você
estaria
em
casa
—
disse
Layna, quebrando o silêncio. Suas mãos haviam ficado úmidas, fazendo-a desejar pôr
logo a sacola em algum lugar. — Vim apenas trazer isso para você.
"Oh, Deus. O que estou fazendo aqui?", perguntou-se.
— O que trouxe aí?
— Um novo jogo de lençóis de cama. — Layna sorriu. — Bem simples e com uma
estampa masculina o bastante para não desarmonizar o ambiente caótico de seu quarto
— brincou.
D.C. arqueou as sobrancelhas. Pelo visto, Layna já havia decidido pôr ordem no lugar. No
entanto, aquilo não o aborreceu. Não se importava em conviver com organização, desde
que não tivesse de realizá-la pessoalmente.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Obrigado — agradeceu a ela. — Traga aqui para cima.
— Estava em oferta — explicou ela, pensando se deveria mesmo subir. — Pode usar o
lençol como colcha, se quiser. De qualquer maneira, será melhor do que aquele que vem
usando, ainda que nunca se importe em forrar a cama.
Após um momento de hesitação, começou a subir os degraus. Quando chegou ao topo da
escada, entregou a sacola a ele.
— Sirva-se — gracejou.
— Ainda não lhe agradeci devidamente. Teria feito isso, se você não estivesse tão
ocupada em me criticar.
— Não foi uma crítica. Apenas um comentário. Deixando a sacola no chão, D.C. segurou
o braço dela, quando Layna fez menção de se virar.
— Aonde vai?
— Para casa. Da próxima vez em que sentir o impulso de lhe fazer um favor, prometo que
vou me controlar.
— Ninguém lhe pediu para comprar lençóis de cama para mim, nem para lavar meus
pratos ou comprar frutas frescas no mercado.
Layna cravou as unhas na palma das mãos, sentindo-se furiosa e embaraçada ao mesmo
tempo.
— Ok, um a zero para você — disse com perigosa calma.
— Tomarei o cuidado de não fazer mais nada disso. E também não vou aparecer sem
telefonar. Já notei que não sou bem-vinda, exceto quando você está disposto a ir para a
cama.
Os olhos de D.C. faiscaram. Sentiu uma onda de fúria tão intensa que teve de dar um
passo atrás, na tentativa de se controlar.
— Isso não tem nada a ver com sexo — disse apenas. Sem confiar em suas próprias
reações, girou sobre os calcanhares e voltou para o ateliê.
— Não mesmo?
A indignação levou Layna a segui-lo e a entrar na única área da casa para a qual ela
ainda não havia sido convidada.
D.C. se virou, pronto para discutir, mas flagrou-se olhando para Layna da mesma maneira
como estivera olhando o retrato dela, pouco tempo antes.
— Não sei — confessou, indo até a janela. — Veio em um de meus momentos de mau
humor, Layna. — Tentando se acalmar, apoiou as mãos no peitoril e inclinou-se para a
frente.
— Costumo ter muitos deles.
Ela observou que o mau humor dele se transformara em uma súbita tristeza. Lamentou
isso e também sua vontade de se aproximar e de acariciar os cabelos dele. Não tinha
obrigação de consolá-lo, nem tampouco de agüentar suas crises de mau humor.
Disse a si mesma que seria melhor ir embora e esquecer a experiência das últimas
semanas, considerando-a apenas como mais uma em sua lista de aprendizado de vida.
Em vez disso, porém, virou-se devagar e observou a parte do quarto de D.C. que ainda
era desconhecida para ela.
A energia dele parecia estar impregnada em cada canto. Desde as telas encostadas nas
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paredes até a absurda desordem das tintas e dos pincéis. O cheiro da tinta misturada ao
perfume dele recendia pelo ambiente, criando uma atmosfera que era o próprio retrato
imaginário do artista Daniel Campbell.
Aquela parte do quarto era bem ampla e iluminada. Devagar, Layna foi andando e
observando as telas expostas. Cores fortes, contrastes marcantes e traçados irregulares.
A personalidade de D.C. estava exposta ali, em seus trabalhos.
Não conseguia entender aquele tipo de arte. De fato, nunca conseguira. Porém, era como
se cada um daqueles quadros lhe transmitisse uma mensagem específica. Eles eram
capazes de lhe despertar emoções, tanto quanto o próprio artista.
— Estou vendo que você realmente tem muitas mudanças de humor — declarou. — Bem,
mas isso é o que o faz ser quem você é.
D.C. ficou observando ela andar pelo ateliê.
— E você é estável, equilibrada. Isso é o que a faz ser quem você é. O que diabos
estamos fazendo juntos, Layna?
Mais cedo ou mais tarde, aquela pergunta viria à tona, pensou ela, ainda examinando as
telas. E justamente quando ela havia se convencido de que aquilo não era importante.
— Costumo me fazer a mesma pergunta todas as vezes em que nos despedimos — disse
a ele. — Deu de ombros, determinada a ser prática. — É aquilo que dissemos no início:
apenas atração física.
— Tem certeza?
— Sim — Layna confirmou. Apontou para o quadro que ele havia terminado pouco antes
de ela aparecer em sua vida.
— Aquele ali é pura emoção. Paixão talvez. As cores parecem querer saltar da tela.
— Eu o batizei de Desejo — afirmou D.C.
— Sim. Por vezes, os desejos se encontram, então se separam subitamente.
— Mesmo quando o contrário é mais preferível. Venha até aqui. — Ele estendeu a mão
para ela. — Diga-me o que acha disto.
Layna atravessou o aposento, mas não segurou a mão que ele ofereceu. Sabia que tocálo seria um erro, ainda mais quando estavam prestes a terminar tudo. Deus, o aperto em
seu peito estava se tornando mais intenso.
— Diga-me o que acha disto — repetiu D.C, pousando as mãos sobre os ombros dela e
virando-a para a tela que ele havia acabado antes de ela chegar.
O choque de se ver diante de uma imagem tão exótica dela mesma a fez levar a mão ao
peito, em um gesto quase defensivo. Seu coração acelerou e sua boca secou de repente.
— Não era o que eu esperava pintar — D.C. se apressou em explicar. — Ou ver e sentir.
Havia acabado de pintá-lo quando fui até a janela e a vi atravessando a rua.
— Você me fez bonita demais.
— Mas você é bonita.
Layna não disse nada. Aquilo parecia íntimo demais, pensou, sentindo uma onda de
apreensão. A mulher daquele retrato não tinha máscara nem autodefesas. Além disso, a
mulher que D.C. pintara conhecia coisas que ela própria não conhecia.
— Não sou assim.
— Foi assim que eu a vi em um dos momentos guardados na minha mente. Cheia de
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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satisfação e sonhos a realizar. Não era ò que eu pretendia pintar — ele repetiu — , mas
essa imagem saiu de dentro de mim. — Tocou o rosto dela e deslizou os dedos até a
curva delicada de seu queixo. Então fez com que ela levantasse a cabeça devagar. —
Também me sinto intrigado. Por que não consigo deixar de desejá-la para terminarmos
com isso de uma vez?
— Era essa sua intenção?
— Droga. Sim — confessou ele. — Mas não está funcionando e estou começando a ficar
preocupado com você.
Dizendo isso, inclinou a cabeça até roçar os lábios nos dela. O beijo foi rápido e quase
casto, mas suficiente para acender a chama do desejo no corpo de Layna.
— Acho melhor passarmos algum tempo separados — sugeriu ela.
— Tem razão. — D.C. segurou o rosto dela entre as mãos.
— Estamos nos vendo constantemente há semanas. — Layna enlaçou os braços em
torno do pescoço dele. — Talvez seja melhor darmos algum tempo um ao outro.
— Sim — D.C. concordou.
Ela suspirou, encostando a cabeça no ombro dele.
— Não é isso o que eu quero — disse a ele.
— Nem eu.
— Não quero me apaixonar por você, D.C. Não estou preparada para isso, nem para
você. Seria um desastre.
— Sei disso. — Com os olhos fechados, ele encostou o queixo no alto da cabeça dela. —
Está muito perto de se apaixonar?
— Perto demais.
— Oh, Deus. Não podemos deixar isso acontecer. Arruinaria tudo justamente quando...
D.C. colou os lábios aos dela, sem terminar a frase. Layna não conseguiu mais raciocinar
direito. Sentira falta dos beijos e das carícias de D.C. Mais do que imaginara.
— Fique comigo, Layna.
Dessa vez, não havia urgência no pedido, apenas o desejo de compartilhar. E Layna foi
sensível o bastante para perceber isso e deixar que D.C. a carregasse até a cama. A
mesma que haviam compartilhado tantas vezes e que seria testemunha daquela paixão
mais uma vez.
Com sedutora paciência e com a luz do sol da tarde se insinuando através da janela, D.C.
começou a acariciá-la, liquidando qualquer esperança de defesa por parte de Layna.
O prazer surgiu como algo inteiramente compartilhado, tão natural quanto o ritmo
acelerado de suas respirações e a leve brisa que soprou as cortinas entreabertas até
alcançar seus corpos suados.
Layna estendeu os braços para ele. Queria mais do que aquelas carícias afetuosas e
sensuais. Em um convite silencioso, abriu mais os lábios para receber o beijo cálido que
ele lhe ofereceu.
Os contornos másculos do corpo de D.C. já lhe eram completamente familiares. Os
músculos rijos, as mãos firmes e carinhosas, os ombros largos... Porém, a certa altura ela
notou uma mudança na maneira como ele se aproximou. Pelo visto, D.C. também queria
mais do que aquelas carícias insinuantes. E estava demonstrando isso com o próprio
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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corpo.
Quando finalmente a possuiu por completo, ficou observando o efeito do desejo cada vez
mais intenso no semblante de Layna. Queria oferecer a ela o máximo de prazer, para ver
aquele brilho enevoado surgir nos olhos verdes no momento do êxtase e se desvanecer
em seguida, cedendo lugar a um doce sorriso de satisfação.
E foi isso o que aconteceu. Layna se rendeu até o último instante, deixando o nome dele
escapar com um gemido quando o ápice do prazer fez todo seu corpo estremecer. D.C.
seguiu-a pela trilha do êxtase, cobrindo os lábios dela em um beijo esmagador no
momento em que um grito de prazer ameaçou escapar de sua garganta.
Deus, como conseguiria viver sem Layna?, foi o último pensamento que passou por sua
mente, antes de deixar que seu corpo caísse sobre o dela, exausto. Exausto e satisfeito.
Aquilo não servira como resposta, pensou Layna, contendo a vontade de seguir seu
instinto e se aninhar junto dele. Se continuasse se deixando levar pelas sensações,
estaria perdida.
Precisava de espaço para pensar; planejar e principalmente se lembrar do que queria. Do
contrário, acabaria cometendo um erro para o qual não haveria conserto. Decidida, levantou-se e começou a se vestir.
Ainda com o olhar enevoado pela paixão que haviam acabado de compartilhar, D.C. a
observou em silêncio por um instante.
— Por que está fazendo isso? — perguntou, por fim. Layna manteve o olhar baixo,
concentrada em fechar os botões da blusa.
— Precisamos pensar melhor sobre isso. Vou para casa.
— Layna. Fique.
— Não. Estamos confundindo as coisas e está tudo acontecendo rápido demais.
D.C. também se levantou e vestiu o jeans.
— Você é importante para mim.
Layna o fitou no mesmo instante, com um brilho de emoção no olhar.
— Eu... preciso de um tempo — declarou, com um pânico crescente. — Não consigo
pensar direito quando estou perto de você. Vou ficar longe por alguns dias. Tudo isso
pode não passar de uma mistura de emoções e não quero correr riscos desnecessários.
— Como quiser.
D.C. enfiou as mãos nos bolsos. Se não o fizesse, seria bem capaz de tomá-la
novamente nos braços. Contudo, isso não resolveria o problema. De fato, serviria apenas
para deixá-lo mais desesperado.
— Não acha que é justamente esse o problema? — perguntou a ela. — O medo de correr
riscos?
— Não sei qual é o problema.
E isso era o que mais a assustava, pensou Layna. Bastava olhar para D.C. para se
esquecer de tudo. Passara a vida inteira planejando ter uma vida tranqüila e ordenada e
não pretendia jogar tudo aquilo para o alto. Não sem um bom motivo.
— Precisamos de algum tempo para pensar, antes que essa... situação se torne ainda
mais complicada — explicou a ele. — Vamos ficar longe um do outro por alguns dias, até
que nossas emoções se acalmem um pouco.
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D.C. encostou o ombro na parede, arqueando uma sobrancelha.
— E se elas não se acalmarem?
— Lidaremos com isso quando... Quando for preciso.
— Eu te quero, Layna.
— Eu sei. — Ela sentiu o coração acelerar, em uma resposta mais do que evidente. — Se
fosse somente isso, não teríamos nenhum problema.
— Mas isso não tem de ser um problema — argumentou D.C. — Desejar alguém não é
exatamente um problema, do meu ponto de vista.
— Mas é para mim. Tenho de ir, D.C. Preciso pensar.
Layna já estava quase chegando à porta quando ele a chamou, fazendo-a hesitar.
Todavia, ela não ousou se virar para olhá-lo. Com um breve aceno, correu escada abaixo
e partiu.
D.C. pensou em segui-la. Conseguiria alcançá-la antes que ela chegasse ao portão.
Então a traria de volta nem que tivesse de carregá-la nos braços, como no dia em que
haviam saído da casa de seus pais. Depois a levaria para a cama mais uma vez. Não
tinham nenhum problema quando estavam na cama. E depois, o que aconteceria?
Com um resmungo, afastou-se da parede e voltou para o ateliê. Dessa vez, evitou se
aproximar da janela. Não queria ver Layna indo embora.
Ao se virar, deparou com suas duas telas. Layna e Desejo. Em que altura dos
acontecimentos teriam elas se tornado a mesma coisa para ele?
9
Layna não foi para casa. Parecia estranho não haver sentido vontade de ir para o único
lugar onde se sentia resguardada e protegida.
Droga. Até D.C. aparecer em sua vida, ela havia sido uma pessoa satisfeita com sua vida
e com seu trabalho. Suas ambições eram simples e diretas. Faria da Drake's de
Washington um exemplo de sucesso, tornando-a a loja de departamentos mais refinada e
glamourosa da Costa Leste. Se conseguisse realizar isso, solidificaria sua própria
reputação e não seria mais considerada apenas mais uma Drake na família. Seria Layna
Drake, a bem-sucedida empresária com um olhar preciso para o ramo da moda.
Adorava viajar para Milão, Paris e Londres, para compa-' recer a desfiles de moda e
descobrir novos estilistas. E era boa no que fazia. Naqueles últimos anos, tivera chance
de mostrar alguns de seus talentos, desenvolver seu próprio estilo e aprender muito sobre
o mundo dos negócios. De fato, tinha mais facilidade para entender os negócios do que
as pessoas.
Com um suspiro, diminuiu o ritmo dos passos. Como iria saber se estava apaixonada?
Nunca tivera de enfrentar aquele tipo de sentimento antes. Os homens que haviam
entrado em sua vida eram amáveis, fáceis de lidar e... comuns, ela admitiu. Nenhum
deles a levara a sentir-se tentada a mudar o rumo de sua vida, a assumir um
compromisso e a alterar seus planos. Além disso, nenhum deles afetara seu coração.
Haviam sido relacionamentos bem mais seguros, concluiu. E por que não os mantivera?
Não funcionara com seus pais? Deus, nem pensar. Não queria ter aquele mesmo tipo de
vida vazia. Na verdade, não queria nem mesmo se casar. Não fora isso que decidira
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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desde muito tempo?
Claro que sim, respondeu a si mesma, respirando fundo. Aquele era exatamente o ponto
principal da questão. Tudo que precisaria fazer seria afastar-se de D.C., acalmar suas
emoções e voltar à vida normal.
Tiraria alguns dias de folga e viajaria para um lugar tranqüilo. Qualquer lugar, decidiu,
finalmente voltando para casa. Pegou um caminho alternativo, para não correr o risco de
ter de passar diante do prédio onde D.C. morava. Por que o destino fora colocá-la apenas
a alguns quarteirões dele?
— Oh, aí está você!
Layna levantou a vista e forçou um sorriso ao ver Myra vindo em sua direção. Adiantandose um pouco, beijou o rosto da madrinha.
— Saí para fazer minha caminhada de fim de tarde — explicou Myra. — Estava mesmo
pensando em aproveitar para vir visitá-la.
Inclinando a cabeça, observou o rosto da afilhada com mais atenção. Layna estava um
pouco pálida e com o olhar triste.
— Oh, querida, está com algum problema?
— Não. Na verdade, não sei ao certo... Não, não estou — disse com mais firmeza. —
Venha, tia Myra. Vamos tomar um chá.
— Oh, com prazer.
Myra passou o braço pelo de Layna, enquanto atravessavam a trilha cercada de arbustos,
em direção à entrada da casa.
— Agora pode ir me contando o que a deixou triste. Ou seria quem?
— Não estou triste, tia. Apenas com muitos problemas para resolver. — Layna destrancou
a porta. — Fique à vontade na sala, enquanto vou preparar o chá.
— Oh, prefiro ficar na cozinha e lhe fazer companhia. Adoro sentir o aroma do chá sendo
preparado.
Isso evitaria que sua afilhada tivesse tempo de fortificar as próprias defesas, pensou ela.
— Também saiu para uma caminhada? — perguntou.
— Não. Sim. Na verdade, aconteceu por acaso.
Quando chegaram à cozinha, ela colocou a água para ferver e pegou um elegante pote
de chá. Como aprendera desde a infância, primeiro aqueceu um pouco o pote, antes de
medir as pequenas porções do forte chá Earl Grey.
— Pelo visto, a noite será linda — afirmou, por falta de algo melhor para dizer.
— Sim, com certeza — Myra anuiu. — Não vai demorar muito para começarmos a
"derreter" sob o calor intenso do verão de Washington. De qualquer maneira, maio é um
mês de temperatura amena. E é também um mês de romance. Está tendo um romance,
Layna?
— Não sei o que estou tendo.
Ela se manteve ocupada, pegando as xícaras e colocando um pouco de creme em um
potinho.
— Eu não queria um romance. Aliás, eu não quero — acrescentou.
— Por quê?
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— Não estou preparada para isso. Os Drake nunca souberam lidar com romances,
apenas com negócios.
— Que coisa mais ridícula para dizer.
— Por quê? — Layna virou-se, demonstrando haver ficado aborrecida de repente. —
Conhece meus pais e meus avós. Não venha me dizer que tiveram casamentos
românticos e felizes.
— Não, não posso dizer isso.
Myra suspirou, encostando-se na cadeira onde havia acabado de se sentar.
— Sua mãe foi um desapontamento para mim nesse aspecto. Casou-se com seu pai
porque achava seus estilos de vida compatíveis e porque achou que seria "divertido" ser a
sra. Drake. Não vou criticá-la. Ela fez o que desejava e leva uma vida que,
aparentemente, a satisfaz até hoje. Além disso, ela teve você — acrescentou com um
sorriso.
— Também não estou criticando minha mãe — disse Layna. — Só não quero o mesmo
que ela quis para si. Gosto de ser solteira e de ter o controle da minha própria vida. —
Virou-se para continuar preparando o chá. — Casamento e filhos não fazem parte dos
meus planos. Gosto das coisas como estão.
— Então por que está triste?
— Estou apenas confusa. Mas já estou resolvendo o problema.
— Está apaixonada?
— Não entendo o amor, tia Myra.
— Ele não existe exatamente para ser entendido, querida. Mas para ser sentido e
celebrado.
— Não quero senti-lo! — Layna alterou o tom de voz. Porém, suas mãos já não estavam
trêmulas quando ela carregou a bandeja para a mesa.
— Ele a assusta?
— Por que não assustaria? Não acha que minha mãe sentiu algo parecido com amor
quando teve um caso com o professor de tênis? E que meu pai também não sentiu algo
do gênero quando inventou aquelas viagens de negócios com sua assistente
administrativa?
Myra estufou as bochechas, antes de soltar o ar devagar.
— Então você soube.
— Claro que sim. Sobre esses e sobre os outros casos que eles tiveram. As crianças não
são tão ingênuas quanto os adultos querem que elas sejam. Eu me recuso a ter um
casamento desse tipo.
— Nem todos os casamentos são assim, querida. Herbert e eu compartilhamos mais de
cinqüenta anos de felicidade, amor e fidelidade. Ainda penso nele todos os dias e sinto
sua falta.
— Eu sei. — Emocionada, Layna tocou a mão dela sobre a mesa. — Mas vocês foram
uma exceção, tia Myra. Vejo isso acontecendo todo o tempo quando viajo a negócios.
Vejo casais alimentando mágoas por causa de pequenas decepções. Ou então me
deparo com mulheres inteligentes simplesmente perdidas, depois de haverem se
apaixonado. E muito raro um relacionamento dar certo hoje em dia.
— O medo de falhar bloqueia qualquer esperança de sucesso.
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— A cautela e o pragmatismo asseguram o sucesso.
— Oh... — Myra agitou uma mão, impaciente. — Você é jovem demais para se fechar
dessa maneira.
— Mas madura o bastante para reconhecer minhas limitações. — Layna riu, divertindo-se
com a careta de impaciência da madrinha. — Sou uma pessoa prática, tia Myra. Vou tirar
alguns dias de folga em um lugar tranqüilo. Quando voltar, tenho certeza de que eu e a
pessoa em questão teremos superado essa situação. Essa história fará parte do passado.
"É o que veremos, querida", pensou Myra, disfarçando o sorriso com um gole de chá.
— Ora, mas isso veio em boa hora — disse a Layna, colocando a xícara no pires. — O
motivo de minha visita era justamente perguntar se você tinha algum tempo livre. Estou
querendo fazer uma breve viagem para o norte, mas não estou mais em condições de ir
sozinha.
O que não passava de uma mentira, já que ela estava se sentindo mais em forma do que
nunca.
— Na verdade, tia Myra, eu estava pensando...
— Você sabe que eu detesto dar trabalho, mas já que estava planejando viajar de
qualquer maneira... — Myra sorriu, esforçando-se para demonstrar sua expressão mais
frágil. — Fico tão cansada e confusa nesses aeroportos hoje em dia. Depois tenho de
alugar um carro e contratar um motorista. As coisas são muito mais fáceis quando se é
jovem, minha querida. — Suspirou, com um ar vulnerável.
— Está bem, irei com você. Amanhã vou fazer os preparativos e poderemos partir depois
de amanhã, se quiser.
— Oh, Layna, você é tão boa para mim... Não sei o que faria sem você. Oh, aposto que
vai gostar de passar alguns dias em Hyannis Port. Daniel e Anna vão adorar revê-la.
— Os MacGregor? — Layna teve de usar todo seu autocontrole para não derramar o chá.
— Oh, tia Myra, não quero incomodá-los.
— Tolice! Eles vão adorar nos hospedar por alguns dias. Pode deixar que eu cuidarei das
passagens. — Myra se levantou no mesmo instante, mas levou a mão às costas, ao se
lembrar de que tinha de demonstrar cansaço. — Afinal, ainda estou em condições pelo
menos de usar o telefone — emendou. — Fico tão feliz que tenha aceitado, querida. Na
minha idade, nunca se sabe até quando será possível rever os amigos e as pessoas
queridas. — Acariciou a mão de Layna. — Acho que está na hora de eu ir andando.
Myra continuou se movendo devagar até sair da casa. Então, quando se encontrava a
uma distância segura, apressou os passos. Em seus lábios, dançava um sorriso de
determinação e, em seus olhos, surgira um brilho de desafio.
Teriam vinte e quatro horas para resolver a situação, pensou. Tempo mais do que
suficiente, se Daniel também fizesse a parte dele, claro.
Daniel olhou a paisagem através da janela de seu escritório e franziu o cenho. Por que
diabos aqueles dois estavam demorando tanto? Queria resolver aquele impasse de uma
vez por todas, mas não poderia entrar em ação antes que o primeiro jogador desse a
cartada inicial.
Não tinha dúvida de que tudo daria certo. Mais ainda depois que ficara sabendo que seu
neto Duncan resolvera visitá-lo por alguns dias. Ele era justamente a pessoa que faltava
para pôr um pouco de juízo na cabeça de D.C.
Pelo visto, o destino estava sorrindo para seus planos. E por que não deveria? Afinal,
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eram planos para unir pessoas que se amavam. Não diziam que o amor era o sentimento
mais importante do mundo? Pois ele o estava apenas louvando, nada mais. Não que
esperasse receber algum crédito por isso.
Se tudo desse certo, continuaria no seu canto, assistindo tudo "dos bastidores". De fato,
essa era a parte mais divertida do jogo. Além do mais, se os MacGregor soubessem a
verdade, seriam bem capazes de censurá-lo. Sua família costumava se aborrecer com
coisas tão curiosas...
— Vovô? Você está aí?
Daniel esfregou as mãos com animação e virou-se para saudar o segundo filho de sua
filha. Um belo rapaz, pensou Daniel. Alto, com a pele bronzeada como o pai e os mesmos
penetrantes olhos castanhos da avó. Da mãe, ele herdara a espirituosidade e do avô,
concluiu Daniel, com orgulho, o fraco por apostas.
Também tinha planos para Duncan, claro que tinha. Mas uma coisa de cada vez.
Duncan inclinou a cabeça, mostrando seu sorriso fácil enquanto cheirava o ar.
— O quê? Nenhum charuto por perto? Daniel ficou sério no mesmo instante.
— Não sei do que está falando.
— Não mesmo?
Duncan sentou-se na cadeira em frente à mesa do avô e esticou as pernas, tirando um
charuto do bolso. Olhando de soslaio para o velho Daniel, passou-o sob o nariz,
apreciando-lhe o aroma.
— Puxa, esse sim é o meu neto preferido. Daniel se adiantou, com um sorriso satisfeito.
— Ei, esse é meu.
Duncan colocou o charuto na boca, prendendo-o entre os dentes.
— Mas poderei dividi-lo com você, se me contar o que está tramando desta vez.
— Não estou tramando nada. Estou apenas esperando para cumprimentar minha velha
amiga e a afilhada dela.
— Uma afilhada... — Duncan tirou o charuto da boca e apontou-o para Daniel. — Tenho
certeza de que se trata de uma linda jovem solteira e em idade para se casar. Ela é rica,
vovô? Tem boa formação?
— E se tiver?
— Não estou interessado.
"Melhor assim", concluiu Daniel, sorrindo para o neto.
— Ela é uma ótima pessoa, Duncan. Linda feito uma pintura clássica. Vocês teriam lindos
filhos. Aliás, você já deveria estar pensando a esse respeito. Um rapaz com a sua idade...
—
Pode
ir
tirando
isso
dessa
sua
cabeça
casamenteira,
vovô.
Duncan colocou o charuto novamente na boca, satisfeito ao ver o ar quase lamentador do
velho MacGregor.
— Estou feliz assim. E não me faltam companhias femininas, se quer saber. De qualquer
maneira, eu mesmo quero encontrar uma esposa quando chegar o momento certo. E este
ainda está muito longe.
— Acabará se esquecendo de encontrar uma esposa se continuar navegando dia e noite
naquele seu barco-cassino.
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— Ah, então já soube da notícia? A Princesa Comanche é uma dama muito rendosa. Na
verdade, ela é a única dona do meu coração.
— Sim, eu já soube. Você sabe muito bem qual é sua vocação, Duncan Blade, mas
precisa de uma esposa e de filhos. Essa jovem que está vindo nos visitar tem um ótimo
tino para negócios. Espero vê-lo...
Daniel se interrompeu quando o ruído de uma movimentação vinda do lado de fora lhe
chamou a atenção. Aproximou-se da janela no mesmo instante.
— Oh, aí estão elas. Agora desça e se apresente. — Ele sorriu. — Quero que veja se não
fiz uma ótima escolha para você.
— Vou descer. — Duncan ficou de pé lentamente. — Mas não vá fazendo planos.
Estendeu o charuto na direção do avô, mas riu e guardou-o de volta no bolso quando
Daniel fez menção de pegá-lo.
— Muito engraçado — ralhou ele, com ar bravio. Porém, sorriu quando o neto deixou o
escritório.
— Você é justamente quem precisamos para colocar seu primo na linha — disse para si
mesmo.
Cantarolando a marcha nupcial, desceu para receber suas hóspedes.
Não poderia haver sido mais perfeito, pensou Daniel, algumas horas depois. Duncan
sentira-se muito à vontade na presença de Layna e chegara a flertar um pouco, fazendo-a
rir.
Era bom que se dessem bem, afinal, logo se tornariam primos. Queria que sua família
continuasse sendo feliz e unida.
— Duncan, leve Layna para passear no jardim — sugeriu ao neto. — Gosta de flores, não
gosta, Layna? Temos lindas espécies em nosso jardim. — Com uma piscadela,
acrescentou: — Elas ficam ainda mais bonitas ao pôr-do-sol.
— Ele tem razão.
Duncan ficou de pé, lançando um olhar fuzilante para o avô, antes de se virar e sorrir para
Layna.
— Quer caminhar um pouco? — perguntou em um tom gentil.
— Sim, claro. Obrigada.
Anna esperou até que os dois houvessem saído e inclinou-se para a frente na cadeira.
— Pode tirar esse brilho de expectativa do olhar, Daniel MacGregor. Aqueles dois não
estão nem um pouco interessados um no outro da maneira como você gostaria. Além
disso, eles não combinam.
Daniel mal resistiu ao impulso de dar uma piscadela para Myra, quando ela levou a mão
aos lábios para disfarçar um sorriso.
— Acho que os dois formam um bonito casal — disse com calma, conseguindo se manter
sério.
— Claro que formam! — Exasperada, Anna levantou as mãos em um gesto impaciente.
— Ambos são jovens e bonitos, mas seu faro casamenteiro falhou desta vez. Se tentar
unir esses dois, juro que vou impedi-lo, Daniel. — Levantou o dedo em riste, quando ele
fez menção de protestar. — Eles não foram feitos um para o outro. Qualquer idiota pode
ver que Layna não está feliz.
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— Bem, ela poderia estar muito feliz se não fosse tão teimosa — replicou ele, dando de
ombros. — O que ela precisa é aprender a pensar com o coração, como alguém que
conheci há mais de sessenta anos. Veremos se ela não sairá sorrindo daqui quando tiver
de partir, dentro de alguns dias.
Depois daquele comentário mais pessoal, Anna percebeu que não adiantaria lutar contra
a determinação de Daniel. Por isso, dirigiu-se à amiga.
— Myra, espero que pelo menos você seja capaz de ver que isso não passa de loucura.
Layna não merece esse destino.
— Quero apenas que ela seja feliz, Anna — respondeu Myra. — Sei que Layna está
esperando o momento certo para abrir o coração.
— Não para Duncan, tenho certeza — insistiu Anna. — Você mesma viu a maneira como
ela e D.C. olhavam um para outro no dia em que nos encontramos. Se Layna já não
estiver apaixonada por ele, está prestes a ficar. E vocês dois os colocaram juntos há
menos de um mês. Fazer Duncan se intrometer entre eles agora será um erro, senão um
desastre.
Quando Myra não conseguiu mais conter o riso, Anna estreitou o olhar. Respirando fundo,
olhou da amiga para o marido.
— O que vocês dois andaram aprontando? — perguntou, desconfiada.
— Digamos apenas que o primeiro ato está quase concluído — brincou Daniel. — D.C.
vai tratar de terminá-lo amanhã.
— D.C. está vindo para cá? — Anna se encostou na cadeira, pensativa. Então assentiu.
— Ótimo.
— Ótimo? — Daniel arregalou os olhos, pois esperava receber um sermão. — Você disse
"ótimo"?
— Isso mesmo. Ao menos uma vez concordo com você, embora não aprove suas táticas.
Mas discutiremos sobre elas depois. — Os lábios de Anna se curvaram em um sorriso. —
Teremos dias interessantes pela frente.
10
A última coisa que D.C. esperava ver quando saiu do carro, diante da mansão dos
MacGregor, localizada no alto de uma colina com vista para o mar, era seu primo
andando ao lado de Layna e com o braço em torno dos ombros dela.
De súbito, a angústia que o acompanhara durante toda a viagem se transformou em uma
intensa fúria.
Os cabelos de Layna estavam esvoaçando ao vento e suas faces mostravam um tom
rosado. D.C. deduziu que os dois haviam acabado de voltar de um passeio pelas colinas,
e isso o deixou ainda mais furioso.
Ainda estava observando-os quando Layna o avistou de repente e parou. No mesmo
instante, o saudável tom rosado sumiu de suas faces.
— Ei, D.C!
Animado, Duncan se aproximou e deu um grande abraço no primo.
— Eu não sabia que você estava vindo para cá.
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— Sim, eu notei. — D.C. se manteve sério. — O que diabos está contecendo aqui? — Ele
lançou um olhar fuzilante para Layna, que continuava no mesmo lugar.
— Eu... Eu trouxe tia Myra para passar alguns dias aqui — ela explicou.
— Você saiu da cidade sem dizer nada.
— Eu avisei que iria ficar fora durante alguns dias — lembrou Layna.
— Mas eu não sabia onde você estava.
— Foi uma decisão repentina. — Ela endireitou os ombros. — Minha decisão.
— Pelo visto, vocês já se conhecem — Duncan interveio.
— Não se meta, Duncan — retrucou D.C. — Isso é entre mim e Layna.
— Não há nada entre nós! — bradou ela. — Com licença, Duncan.
Dizendo isso, virou-se e seguiu em direção a casa.
— Podemos conversar um pouco? — perguntou Duncan, posicionando-se diante de D.C,
quando ele fez menção de seguir Layna.
A essa altura, já havia deduzido o que estava acontecendo.. Seu avô, "a velha raposa
MacGregor", havia aprontado outra de suas armações. Mas já que entrara no jogo, pelo
menos faria sua parte.
— Saia da minha frente. — D.C. cerrou os punhos, contendo a própria fúria. — Fique
longe dela, senão terá de acertar contas comigo!
Duncan arqueou uma sobrancelha, sem conseguir conter o riso.
— Oh, pare com essa tolice, D.C. Já passamos por esse tipo de situação antes. Por que
não nos certificamos primeiro do motivo de nosso... desentendimento?
— Ela é minha! — D.C. fitou o primo bem nos olhos. — E isso é tudo que você precisa
saber.
E isso era tudo que ele próprio precisava saber, pensou consigo. Layna era sua, e não
seria de mais ninguém.
— E mesmo? — Duncan riu, mesmo sabendo que corria o risco de levar um soco no
queixo. — Não me olhe como se Layna soubesse disso. Aliás, acho que vovô também
não está sabendo, porque ficou insistindo para que eu ficasse fazendo companhia a ela.
Talvez acabasse mesmo levando aquele soco no queixo, concluiu Duncan, ao ver D.C.
enrijecer o maxilar e estreitar o olhar.
— Não acredito — disse ele, por entre os dentes.
— Vovô acha que eu e Layna formamos um belo casal — falou Duncan, mantendo o ar
bem-humorado. — Ele pode até estar certo, quem sabe? Layna é linda, inteligente, fácil
para se conversar... Oh, e aquele sorriso sexy é de fazer qualquer homem se ajoelhar aos
pés dela.
De fato, Duncan quase desistiu da encenação quando D.C. o agarrou pelo colarinho e
praticamente o levantou do chão. Talvez fosse melhor lembrá-lo de que D.C. era mais
velho e que pesava bem mais do que ele.
— Você a tocou?
— Não costumo ter intimidades com mulheres que conheço a menos de um dia. Mas se
quiser consertar o estrago, primo, é melhor se apressar. Se quer mesmo ter um caso com
Layna, trate de...
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
62
Duncan teve de engolir o restante das palavras, quando D.C. começou a enforcá-lo com o
colarinho. Chegou a pensar se participar dos planos de seu avô não acabaria levando-o
para o hospital.
— Não quero ter um caso com ela, seu idiota. Estou apaixonado por Layna!
— E por que diabos não disse isso antes? — Duncan também gritou, notando que o
semblante do primo parecia o de alguém que acabara de acertar um soco em si mesmo.
Pelo visto, D.C. havia acabado de descobrir que estava apaixonado.
— Eu não tinha certeza — ele se justificou, em um tom de voz mais ameno.
— Então é melhor ir logo dizer isso a ela, em vez de ficar aqui discutindo comigo, que não
tenho nada a ver com essa história. — Duncan ajeitou o colarinho quando D.C. o soltou.
— Lutar com você seria mais fácil — confessou D.C, enfiando as mãos nos bolsos e
caminhando em direção a casa.
D.C. encontrou a família reunida no local que eles chamavam de "Sala do Trono", em
homenagem à suntuosa cadeira que Daniel ocupava para presidir os encontros familiares.
Segundo D.C. notou, dessa vez pareciam estar tendo uma pequena reunião para o chá
da tarde. E Layna havia se juntado a eles.
Quando ele entrou no aposento, ainda com um ar de fúria estampado no rosto, a avó se
levantou e adiantou-se para abraçá-lo.
— D.C.! Mas que boa surpresa!
— Eu avisei vovô de que viria ficar aqui durante alguns dias.
— Sim, é mesmo — confirmou Daniel, levantando-se da cadeira com dificuldade. — Com
toda essa agitação, acabei esquecendo de lhe dizer, Anna. Mas venha se juntar a nós,
rapaz. Talvez agora que está aqui essas mulheres me deixem tomar um pouco de uísque
misturado no chá. Onde está seu primo?
— Lá fora. Layna, preciso falar com você.
Ela já havia recobrado o ar frio e controlado de sempre.
— Sim, claro — respondeu, e continuou a tomar o chá.
— Em particular — salientou D.C., por entre os dentes.
— Não é conveniente agora. Sra. MacGregor, esses bolinhos estão maravilhosos.
— Obrigada. É uma de nossas receitas de família. — Anna lançou um olhar significativo
para Daniel, antes de voltar a se sentar. — D.C., esses são seus preferidos. Quer que eu
coloque alguns em um pratinho para você?
— Não, não quero nada, vovó. Ou melhor, quero sim. E com muita intensidade. Layna,
você vai me acompanhar até lá fora ou terei de carregá-la?
Ela o fitou por cima da borda da xícara. A chama desafiadora que encantara D.C. desde o
início voltara a brilhar nos olhos verdes.
— Acho melhor se sentar e tomar um pouco de chá — sugeriu ela. — Quando
terminarmos poderei ouvi-lo, se ainda tiver algo para me dizer.
— Pelo amor de Deus! — Ele se impacientou. — Você quer que eu me sente e tome chá?
Depois de haver acabado de flagrá-la flertando com meu primo?
Layna colocou a xícara no pires com um gesto firme.
— Eu não estava flertando com ele!
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Sou forçado a concordar — interveio Duncan, entrando no aposento com seu ar bemhumorado. — Mas eu tinha esperanças. Bolinhos?
Com um sorriso, ele se aproximou da mesa e começou a se servir do chá.
— Eu lhe disse para ficar fora disso, Duncan Ou quer que eu acerte seu queixo com o
soco que deixei de dar lá fora?
Layna se sobressaltou, chocada. Apressou-se em ficar de pé, enquanto Anna se servia
calmamente de mais um pouco de chá.
— Como ousa fazer um escândalo, ameaçar Duncan e me embaraçar na frente de sua
família? — ralhou Layna, indignada.
— Isso mesmo, não deixe que ele faça o que bem entender! — vibrou Daniel, acertando o
punho cerrado no braço da cadeira.
— Eu não teria feito nada disso se você houvesse aceitado ir até lá fora para conversar
comigo quando eu pedi — replicou D.C. — Aliás, foi sua teimosia que nos fez terminar
nesta situação.
— Chega de provocações. — Layna deu um passo à frente, com um brilho de fúria no
olhar. — Eu não teria vindo para cá se soubesse que você estava vindo. E já que esta é a
casa de sua família, então eu irei embora.
— Não irá a lugar algum até resolvermos esta questão.
— Ora, pelo menos nisso nós concordamos — declarou Layna. — Com licença — disse
aos outros, antes de passar por ele, com passos firmes.
D.C. segurou-a pelo braço, para conduzi-la até o lado de fora.
— Tire as mãos de mim — ordenou ela, falando por entre os dentes. — Posso muito bem
ir até lá fora sozinha. — Desvencilhando-se do contato, abriu a porta. — Pensei que você
já houvesse me humilhado o suficiente para alguém suportar, mas vejo que me enganei.
Desta vez, você passou do limite.
Enquanto falava, Layna continuou andando em direção ao jardim. No interior da casa,
quatro cabeças se enfileiraram diante da janela.
— Você foi humilhada? Você? Como acha que me senti quando cheguei para visitar meus
avós e a encontrei abraçada a meu primo?
Layna parou e virou-se para ele.
— Em primeiro lugar, eu não estava abraçada a ele. Estava apenas voltando de uma
caminhada com alguém muito gentil e simpático. De qualquer maneira, não é da sua
conta o que eu faço e nem com quem eu ando.
— Pense bem, Layna — disse ele, com perigosa calma.
— Já pensei, afinal, foi isso que vim fazer aqui, não foi? Cheguei à conclusão de que
temos de terminar o que quer que tenha havido entre nós.
— Nem pensar!
Sem que Layna esperasse, D.C. levou a mão à sua nuca e puxou-a para si, tentando
eliminar toda aquela frustração com um beijo ardente.
— Não devíamos estar espiando-os desse jeito — protestou Anna, posicionando-se
melhor diante da janela.
— Oh, mas veja só aqueles dois, Anna — argumentou Daniel, passando o braço pelos
ombros dela. — Nasceram um para o outro.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
64
— D.C. está perdido — lamentou Duncan, balançando a cabeça. — Desta vez, acho que
Cupido o acertou em cheio.
— Sua vez ainda vai chegar, meu rapaz — garantiu Daniel.
— Não se eu puder evitar.
Confiante em suas habilidades evasivas, Duncan mordeu outro bolinho e continuou
assistindo ao drama do primo.
Aos poucos, o beijo foi se tornando mais carinhoso, levando Layna a se render mais uma
vez ao calor dos lábios de D.C.
— Não — disse, segurando o rosto dele entre as mãos. — Não faça isso. Não é essa a
resposta.
— É a resposta do meu coração, Layna. — D.C. encostou o rosto ao dela. — Não vê que
se tornou dona do meu coração?
Layna se afastou um pouco e fitou-o nos olhos. Sentiu o coração acelerar ao notar que
D.C. estava sendo sincero em cada palavra.
— Não posso fazer isso. Não vou saber como lidar com a situação. Isso muda tudo,
entende? Deixe-me ir, D.C.
— Pensei que pudesse deixá-la ir. Na verdade, era o que gostaria de fazer, mas
simplesmente não posso.
Layna continuou ouvindo, com o vento agitando-lhe os cabelos e tornando-a ainda mais
linda.
— Acha que era a única que tinha planos definidos para a própria vida? Eu não queria
isso. Mas agora não consigo pensar em continuar vivendo sem você.
— Não vai dar certo, D.C. Talvez tenha dado enquanto existia apenas atração física e
tudo era mais simples.
— Não há nada de simples na maneira como eu a desejo, Layna. E se realmente não
sente nada, por que está chorando? — Com a mão forte, mas carinhosa, enxugou uma
lágrima que começara a rolar pelo rosto dela. — Sei que seu coração também está
vulnerável com tudo isso, e não quero magoá-la.
— Não pode garantir que isso não vai acontecer — declarou ela. — Talvez acredite que
não vai me magoar por causa de sua origem, de sua criação. Sua família é maravilhosa,
mas a minha é vazia. Não quero acabar como meus pais.
— Mas você é muito diferente deles!
— Sim, mas...
— Layna, nem mesmo nós somos os mesmos, desde que nos conhecemos. Tudo muda,
todos mudam. Não pode se impedir de ser feliz, prendendo-se à idéia de que sua vida
será como a de seus pais. Você é outra pessoa, com outras idéias.
Ela cruzou os braços, contendo as lágrimas.
— Sim.
— Já começamos a construir algo juntos. Nossas vidas se uniram de alguma maneira, em
algum ponto. Não notamos de imediato porque tudo aconteceu muito naturalmente. Agora, ô fato mais natural na minha vida é que eu te amo. — D.Q segurou o rosto dela entre
as mãos, com carinho. — Olhe para mim e saberá que não estou mentindo.
— Sim, eu sei — respondeu Layna, em uni murmúrio. — Eu também te amo, D.C. Mas e
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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se não der certo? E se eu não conseguir fazer com que dê certo?
— E se você for embora agora e nunca tentarmos? — ele respondeu com outra pergunta.
— Eu voltaria para a vida que havia escolhido para mim.
— Ela respirou fundo, deixando o ar escapar devagar. — Mas seria completamente infeliz
— concluiu. — Não quero fugir de você, nem de nós.
Os lábios de D.C. se curvaram em um sorriso.
— Então fique comigo. — Segurou as mãos dela entre as dele, diante do peito. — Nem
sempre aceitaremos seguir pela mesma direção, mas conseguiremos percorrer uma trilha
satisfatória para ambos. Tenho certeza disso.
Layna olhou para as mãos dele. Tão diferentes e tão complementares, pensou. As suas
pequenas, delicadas, as dele, fortes, acolhedoras. Pareciam perfeitas juntas.
— Nunca amei ninguém antes — confessou, voltando a fitá-lo nos olhos. — Não queria
admitir o sentimento porque estava com medo de enfrentar a mudança que isso causaria
na minha vida. — Segurou as mãos dele com mais firmeza.
— Mas agora quero ir até o fim, D.C. A seu lado.
Ele levou as mãos dela aos lábios.
— Case-se comigo, Layna. Vamos unir nossas vidas. Ela sorriu.
— Acho que já começamos. Só levei algum tempo para me dar conta de que era
exatamente isso que eu queria para mim.
— Isso é um "sim"?
Layna assentiu, rindo alto quando D.C. a abraçou e levantou-a do chão, rodopiando de
pura felicidade.
— Será bem-feito para o velho MacGregor ver que não pode manipular todos os netos
com seus planos casamenteiros
— falou ele. — Sabia que ele disse que não combinávamos?
Layna arqueou uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Sim. Aposto que ele terá uma grande surpresa quando souber da novidade —
acrescentou, antes de beijá-la mais uma vez.
Dentro da casa, Daniel sorriu, enxugando uma discreta lágrima.
Do Diário
de
Daniel Duncan MacGregor
Os anos vêm e passam com mais rapidez depois que um homem atinge uma certa idade.
A primavera cede lugar ao verão tão repentinamente que você mal vê as flores
desabrocharem antes que comecem a desvanecer. De fato, sem o amor de uma família,
acho que seria terrível suportar a passagem do tempo.
Sou um homem que não conhece a solidão e, cada dia de minha vida, agradeço ao
universo por isso. Agradeço pela mulher que tem compartilhado todos esses anos co-
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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migo, pelos filhos que criamos e pelos netos que esses filhos queridos nos deram. Mais
do que nunca, estou convencido de que, quando um homem recebe tantas dádivas, tornase responsável por cada uma delas.
Ainda ontem, vi meu neto se casar com uma linda jovem na mesma igreja onde o pai
dele, meu filho mais velho, casou-se há vários anos. As estações do ano se passam, e
com elas as gerações de uma família. Sei exatamente como meu filho se sentiu ao ver
meu neto dando aquele importante passo na vida. O orgulho, o inevitável sentimento de
perda, as esperanças para o futuro...
Bem, eu poderia ter dito a Alan para não se preocupar com o futuro de D.C. e Layna.
Afinal, fui eu quem decidiu uni-los desde o início. E a escolha não poderia ter sido mais
acertada. Aqueles dois nasceram um para o outro!
Mas não posso sair por aí falando para os outros a respeito de meus planos. Prefiro que
meu neto continue pensando que fez tudo por si só. Imagino que isso o torne uma pessoa
mais feliz.
Formam um belo casal, aqueles dois. Na verdade, um dos mais bonitos que já vi na
família. Quando trocaram as alianças, D.C. pareceu muito emocionado. Sim, tanto quanto
o próprio avô há sessenta anos... Layna ficou uma verdadeira princesa, com o tartan dos
MacGregor por cima do vestido de noiva e o véu usado pelas noivas da família sobre
aqueles cabelos dourados.
Ah, os lindos bisnetos que eles me darão... Bem, darão à avó deles, claro. Anna já está
até falando a respeito. A mulher não tem mesmo paciência! Eu disse a ela que, agora que
os vimos partir em lua-de-mel, precisamos deixar que comecem a nova vida com calma,
sem atropelamentos.
Aliás, hoje fui caminhar um pouco pelas colinas com minha Anna. Abaixo de nós, o mar
continuava agitado, como sempre. Acima, o céu me pareceu mais azul do que nunca.
Estranho, mas nunca foi tão bom sentir o vento batendo em meu rosto e a mão de Anna
junto à minha. Fizemos a mesma caminhada muitas vezes ao longo de nossa vida, mas
essa pareceu especial.
Do alto da colina, avistei a casa que construímos juntos. Alguns a chamam de forte,
outros de castelo. De certa forma, ela é um pouco das duas coisas. Uma construção
sólida, feita da melhor pedra nativa, com altas torres e a insígnia do meu clã esculpida na
porta da frente. Um homem não esquece suas raízes.
Mais do que uma casa, esse é o meu lar. O lugar onde Anna e eu tivemos nossas
desavenças, fizemos amor e tivemos nossos filhos. O lar onde os criamos e os vimos
crescer. Continua sendo o lugar que compartilhamos, embora nossos filhos já tenham tido
filhos, e alguns destes já nos tenham dado bisnetos. Graças a mim, claro.
Fico feliz ao ver todos caminhando rumo à felicidade. O lar e a família são pontos
importantes na vida de uma pessoa. Qualquer que seja a ocupação de um homem ou de
uma mulher nessa vida, acho que essa é a base para todo o resto. Mas, se é assim, onde
estão os bisnetos que ainda quero ter?, pergunto eu.
Não que não tenhamos feito certo progresso nesse sentido, mas nenhum homem é
imortal. Nem mesmo um MacGregor. A essa altura, já vi cinco de meus netos se casarem.
E alguns dos bisnetos que eu... ou melhor, que Anna tanto quer ter, já estão a caminho.
De fato, já temos quatro para nos tirar o juízo e mais dois a caminho. Mas, para dizer a
verdade, essa criançada só nos traz felicidade. Se pelo menos nos visitassem com mais
freqüência...
Bem, mas sei que os membros da família precisam levar sua própria vida. E é justamente
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
67
disso que estou cuidando. Do meu próprio jeito, claro.
Agora estou de olho no destino de Duncan, o segundo filho de minha querida Serena e de
Justin, meu estimado genro. Duncan precisa tomar um rumo na vida. O rapaz acha que já
tomou um, mas não é bem assim. Ele pensa que navegar de um lado para outro do
Mississippi, livre feito um pássaro, em um barco-cassino, é ter um rumo na vida. Imagine!
Porém, tenho de admitir que Duncan é muito inteligente, e cativante também. Comanda o
Princesa Comanche com mão firme, deixando a intuição para os bons negócios bem escondida por trás daquele sorriso fácil.
O outro problema de Duncan é que ele sempre se rende a um rosto bonito, qualquer que
seja sua origem. E, por Deus, isso pode se transformar na ruína de um homem. Mas o
que o rapaz pode fazer se tem o sangue dos Mac Gregor correndo nas veias?
Para ele, não servirá uma jovem tímida e formal. Duncan precisa de uma mulher decidida,
alguém com sangue quente nas veias. E eu conheço a candidata perfeita para conquistar
aquele coração aventureiro.
Tudo que fiz, em resposta àqueles que me chamam de manipulador, foi colocar os dois
juntos por algum tempo. O mesmo que fiz com a mãe de Duncan e o pai dele, há vários
anos. Pensar sobre aquilo me deixa até meio sentimental. Ver a história se repetir é como
ver um ciclo se fechar, dando ao filho de minha Serena a mesma chance que dei a ela. A
chance de conhecer o amor.
Vejamos como o rapaz lida com a situação. Mas, se ele não se decidir logo, levarei Anna
para passar alguns dias navegando pelo rio Mississippi, em um barco-cassino. Afinal,
também sou um homem que gosta de apostar.
*********************************
PARTE II
DUNCAN
11
Duncan Blade pensou nas apostas que teria nos dias seguintes. Não importava que os
resultados viessem a longo ou a curto prazo, desde que deixassem seu cofre
suficientemente recheado.
Gostava de vencer e apostar era algo que estava no seu sangue. Herança do lado
escocês dos MacGregor e de seus ancestrais da tribo comanche, claro. Porém, nada lhe
parecia mais natural do que navegar com seu Princesa Comanche, também resultado de
uma aposta que ele fizera.
Seus pais haviam freqüentado mais hotéis do que qualquer outra coisa ao longo do
casamento, e a sensação de liberdade como que passara a fazer parte de seu cotidiano.
Conhecia' Atlantic City, Las Vegas e Nova York, entre outras cidades.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
68
Ter um barco sempre havia sido seu maior sonho. Um sonho que ele concebera,
planejara e finalmente realizara. Sabia que contava com a confiança da família no que
dizia respeito a obter lucro com seu negócio. E não tinha intenção de desapontá-los.
De pé, nas docas de Saint Louis, continuou com as mãos nos bolsos traseiros do jeans,
enquanto admirava seu grande amor. O Princesa era mesmo uma beleza, pensou, com
um suspiro.
A instrumentação do barco era moderna, mas o design conservava detalhes antigos que
ele considerava essenciais para o charme de uma embarcação. Havia sido construído
como uma réplica dos barcos que costumavam navegar pelo rio no passado,
transportando passageiros, mercadorias e, principalmente, apostadores.
A pintura ainda estava fresca, fazendo o branco intenso do casco contrastar com as
bordas pintadas de vermelho. Além de beleza, havia também um aspecto de poder na
embarcação. E juntamente com ele uma espécie de aura de luxúria.
Duncan queria ver seus passageiros relaxados e satisfeitos durante os dias seguintes. A
comida seria de primeira e o entretenimento de muito bom gosto. As cabinas estavam
prontas para recebê-los, com sua decoração suntuosa, mas aconchegante. Além disso,
cada um dos três deques ofereceria uma belíssima vista do rio.
E o cassino... Bem, o cassino era o coração do barco. Os passageiros pagariam pela
viagem e também pela chance de apostar.
O Princesa Comanche navegaria de Saint Louis a Nova Or-leans, com paradas ao longo
de Memphis e de Natchez. Aqueles que preferissem permanecer a bordo durante as duas
semanas de viagem de norte a sul, e depois novamente para o norte, não teriam chance
de se sentirem entediados. Quer desembarcassem como vencedores ou não, Duncan
sabia que teria de cuidar para que eles não se arrependessem pelo dinheiro gasto na
viagem. Afinal, essa era a chave do negócio. Por enquanto, porém, restava-lhe apenas a
expectativa de outra jornada. A sua volta, a tripulação carregava carga e suprimentos sob
o sol intenso do mês de julho. Ainda tinha alguns papéis para assinar no escritório e
detalhes para verificar, mas queria ficar ali por mais algum tempo observando toda aquela
movimentação. A bordo do barco, outros membros da tripulação estavam lavando os
deques, retocando a pintura de alguns lugares, polindo corrimãos e limpando vidros.
À tarde, quando os passageiros começassem a chegar, o Princesa estaria brilhando. Com
certeza, todos ficariam encantados com a visão do barco, e ele, mais do que satisfeito.
Até o momento, tudo estava indo muito bem. Ou quase.
Por trás das lentes marrons de seus óculos escuros, seus penetrantes olhos castanhoclaros se estreitaram. A pessoa que ele contratara para entreter os passageiros ainda não
havia aparecido. Na verdade, ela já estava atrasada havia mais de vinte e quatro horas.
Se não aparecesse dentro das quatro horas seguintes, teriam de partir sem ela.
Aborrecido diante de tal perspectiva, tirou o telefone celular do bolso e ligou mais uma vez
para o empresário de Cat Farrell.
Enquanto esperava que a chamada se completasse, andava de um lado para outro, com
passos incertos. Sua aparência denotava sua herança: alto, pele bronzeada, olhos de um
intenso tom de âmbar e cabelos lisos, tão negros quanto os de seus ancestrais
comanches. No rosto marcante se destacavam as sobrancelhas espessas, bem
delineadas, e o nariz reto, logo acima dos lábios cheios que se curvavam para sorrir com
muita facilidade.
Porém, a última coisa que Duncan faria naquele momento seria sorrir.
— Cícero? Aqui é Duncan Blade. Onde diabos está minha contratada?
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69
Seguiu-se um barulho estranho do outro lado da linha. Pelo visto, o empresário ficara
surpreso com a notícia.
— Ela não chegou ainda? Não se preocupe, porque sei que ela é muito responsável. Algo
deve tê-la feito se atrasar pelo caminho, só isso. Ela chegará a tempo e vai surpreendê-lo,
posso garantir.
— Você me garantiu que ela estaria aqui ontem, ao meio-dia. Ela terá a primeira
apresentação esta noite. Será possível que não cumpre o trato com seus clientes?
— Sim, claro que cumpro! Mas é que Cat... Bem, ela tem um espírito um pouco
independente, sabe. Ainda assim, garanto que ela valerá todo o dinheiro que gastou com
a contratação. Até mais. O problema é que a contratou no início da carreira. Espere mais
um ano e...
— Estou pouco ligando para o ano que vem, Cícero. Eu lido com o presente e, até agora,
não vi sua cliente.
— Ela vai chegar, não se preocupe. Seu irmão gostou muito do trabalho dela, quando
esteve em Las Vegas.
— Meu irmão é muito mais paciente do que eu. Trate de fazê-la chegar em uma hora,
senão começarei a providenciar o rompimento do contrato. Prefiro contratar alguém mais
responsável.
Dizendo isso, desligou o telefone e voltou a guardá-lo no bolso, seguindo pelas docas em
direção ao barco.
De fato, seu irmão Mac havia aprovado Cat Farrell. E ele a contratara confiando no
julgamento do irmão, sem maiores questionamentos. Se Mac não houvesse falado
primeiro sobre ela, ele não teria aceitado a sugestão, ainda mais com a recomendação
extra de seu avô para que ele a contratasse mesmo sem conhecê-la pessoalmente.
Pela foto que vira dela, Cat era mesmo estonteante como todos diziam. Voluptuosa, sexy,
sensual... E pela fita cassete que Cícero lhe mandara como amostra, tinha uma voz que
combinava com aquela aparência. Mas nada disso adiantaria se ela não aparecesse.
Uma adolescente que vinha se aproximando pelas docas chamou sua atenção. Usava
jeans desbotado, uma mochila nas costas e um par de tênis gastos. O boné de beisebol
com estampa de zebra se encontrava puxado para frente, cobrindo uma parte de seu
rosto, oculto por um par de óculos escuros. Duncan deixou escapar um suspiro. Era uma
pena que os adolescentes houvessem perdido o senso de moda, pensou ele. Então
apressou os passos para detê-la, quando ela fez menção de entrar em seu barco.
— Sinto muito, querida, mas não pode entrar aí. Só aceitaremos passageiros a partir das
três horas da tarde. Além disso, terá de vir acompanhada por seus pais.
Ela parou de repente, mantendo as costas eretas. Viran-do-se para ele, abaixou os óculos
escuros com um dedo.
Duncan se surpreendeu ao se deparar com um belo par de olhos verdes com um matiz
dourado em torno das pupilas. Com mais alguns anos de idade, somente aqueles olhos já
seriam capazes de fazer os homens se ajoelharem aos pés dela, concluiu ele.
Para seu espanto, os belos olhos verdes o fitaram de alto a baixo, antes de se fixarem
novamente em seu rosto, com um brilho de arrogância que ele não pôde deixar de
admirar.
— E você? Quem é?
Deveria ser ilegal para uma mulher ter uma voz como aquela antes de completar vinte e
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
70
um anos, pensou Duncan. Aquele tom rouco e sensual ficaria melhor em uma mulher
experiente.
— Sou Blade. Ele é meu — explicou, indicando o barco com um gesto de cabeça. — Será
bem-vinda se quiser voltar com seus pais, mais tarde.
Os lábios dela se curvaram com o mesmo ar de arrogância que ela trazia no olhar.
— Quer verificar minha identidade, Blade? Minha carteira deve estar aqui em algum
lugar... — acrescentou ela, fazendo menção de abrir a mochila. — Mas já que estamos
um pouco atrasados, por que não pulamos essa parte? Sou sua contratada, coração.
Duncan estreitou o olhar.
— Sou Cat Farrell, e completei vinte e cinco anos no mês passado.
Podia até ser, concluiu Duncan. Se ele usasse um pouco de imaginação. Na foto que lhe
fora mostrada, não havia o mínimo sinal de sardas. E o rosto perfeito se encontrava cercado por uma sedosa cascata de cabelos avermelhados. Não estava vendo nada disso
ali, à sua frente. Além disso, perguntou-se como ela conseguira apertar toda aquela...
voluptuosidade sob a estranha capa que estava usando acima do jeans.
— Está atrasada — foi tudo que conseguiu dizer.
— Fiquei atrapalhada — explicou ela, com um sorriso. — Não deveria ter deixado Cícero
me indicar para aquela apresentação em Bakersfield. Acabei perdendo o vôo, tive de reservar outra passagem. Um horror! Ouça, o táxi está esperando com minha bagagem.
Poderia cuidar disso para mim? Vou dar uma olhada no cenário.
— Ei, espere. — Duncan segurou-lhe o braço, antes que ela acabasse fugindo. — Fique
aqui.
Sentiu uma onda de satisfação ao ver uma sombra de aborrecimento passar por aqueles
olhos inesquecíveis. Então foi até um dos homens da tripulação e pediu a ele que
cuidasse da bagagem de Cat e a levasse para bordo.
— Olharemos o cenário juntos — avisou, ao voltar para junto dela.
Segurando-a novamente pelo braço, conduziu-a até a rampa que levava ao barco.
— Depois, teremos uma rápida aula de como utilizar esse aparelho novo e estranho
chamado "telefone".
— Ninguém me disse que você era tão exigente — protestou Cat, contendo a vontade de
dizer algo mais sarcástico. Afinal, precisava do emprego. — Sinto muito, está bem? Quando viajamos, às vezes nos deparamos com imprevistos, e desta vez os meus
ultrapassaram a lista de possibilidades. Cheguei assim que pude.
"Maldito Cícero", pensou ela. Ele não lhe dera um tempo humanamente possível para
viajar da Califórnia para Missouri. Perder o vôo significara ter de disputar um lugar com
gaiolas de puddles e passageiros desistentes para conseguir chegar ali a tempo.
Nas últimas vinte e quatro horas, havia apenas cochilado e não comera nada além de um
sanduíche e de um copo de suco de morango. Como se não bastasse, seu novo patrão
ainda vinha censurá-la pelo atraso. Ela sabia melhor do que ninguém que estava
atrasada!
Porém, ele carregava os sobrenomes Blade e MacGregor. Juntos, eles seriam mais do
que suficientes para promover a ascensão que ela tanto esperava ter na carreira.
Seria uma boa cartada. Notou que os deques estavam impecáveis, assim como todo o
restante do barco. Os gradis feitos de ferro trabalhado dispostos em alguns lugares da
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
71
embarcação lembravam as românticas sacadas que ela vira em filmes e em fotos antigas.
Os vidros estavam completamente translúcidos. Só mesmo Duncan Blade para conseguir
ter um barco tão limpo e organizado.
Adiantando-se, ele abriu uma porta dupla pintada de vermelho e fez um sinal para ela
entrar. Cat assentiu, seguindo na frente. Mantendo as mãos na cintura, olhou o aposento.
Como o exterior do barco, aquele lugar também irradiava uma aura de charme e de
tradição. Várias mesas redondas estavam dispostas de modo a criar uma atmosfera
aconchegante, mas suficiente para manter os passageiros a uma distância civilizada uns
dos outros. As luzes indiretas contribuíam para tornar o lugar agradável e o carpete era do
mesmo tom de vermelho vivido das portas e da borda do barco.
O bar, localizado a um canto do salão, tinha um exótico balcão arredondado. Cat teve de
admitir que o lugar tinha estilo. Os copos estavam incrivelmente transparentes e o espelho atrás do balcão brilhava sob o efeito das luzes.
Ela caminhou até o palco, aprovando o chão de madeira impecavelmente encerado.
Sentiu uma onda de satisfação ao ver um pôster com sua foto pendurada em uma das
paredes laterais.
Chegando ao centro do palco, virou-se de frente para onde o público ficaria. Mantendo os
olhos fechados, respirou fundo e cantou os versos mais fortes de Woman in Love, de
Barbra Streisand.
De pé, no fundo da platéia, Duncan teve de se esforçar para não ficar boquiaberto. Cat
tinha uma voz poderosa demais para alguém com um porte físico tão delicado. O som
melodioso preencheu o ambiente por completo, sem que ela precisasse usar o microfone.
— Tem uma ótima acústica aqui — elogiou Cat.Duncan teve de respirar fundo para
responder:
— Também tem um belo par de flautas com você. Ela sorriu. Sabia muito bem o que
tinha. A voz era tudo o que ela tinha, e Cat pretendia usá-la para chegar ao topo.
— Obrigada, coração. Ainda preciso fazer algumas verificações quanto ao som. Se me
mostrar minha cabina, meu camarim e me arranjar um sanduíche, estarei pronta para o
trabalho em poucos minutos.
— Bem, terá uma apresentação dentro de.... — Ele olhou o relógio. — Dentro de oito
horas.
— Nunca perco o horário de uma apresentação — declarou Cat, tirando os óculos. —
Farei meu trabalho, Blade.
Ele assentiu, mesmo sem muita certeza de que deveria confiar nela.
— O camarim fica atrás do palco, entre o deque principal e o cassino.
— Muito esperto — disse ela, enquanto ele se aproximava. — Os passageiros comprarão
drinques aqui, começarão a peram-bular por aí e acabarão indo parar no cassino. Bando
de idiotas.
Duncan arqueou uma sobrancelha.
— Estou vendo que não gosta de beber nem de apostar.
— Não bebo com freqüência. Beber prejudica o raciocínio e apostar, quando se vai além
da medida, significa perder. Não gosto de perder.
— Nem eu. — Duncan a conduziu por outra porta e virou à esquerda, entrando por um
pequeno corredor. — Aqui está seu camarim.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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"Meu camarim", repetiu Cat, em pensamento. Menos de um ano antes, ela tivera seu
primeiro camarim. Aquilo ainda lhe provocava um arrepio de emoção. Nada mais de
dividir seu espaço com stnppers nem com grupos de dançarinos. Nada de brigar por um
lugar em frente ao espelho nem de ter de procurar suas roupas de palco em meio a uma
porção de outras.
Aquele camarim seria seu, pensou, observando o aposento impecavelmente organizado.
Espelho iluminado, penteadeira espaçosa, cadeira estofada em veludo, suporte com
cabides e... Deus salve a América! Um confortável sofá.
— E um pouco pequeno — disse e deu de ombros.
Na verdade, queria ter espaço para dançar e comemorar sua boa sorte.
— Mas conseguirei dar um jeito. Vou precisar de ajuda para trazer minhas roupas de
palco para cá.
— Você a terá — garantiu Duncan. — Mas venha conhecer tudo primeiro.
Cat o acompanhou com certa relutância. Teria gostado de se sentar naquele sofá macio e
de ficar ali por mais algum tempo, sorrindo consigo.
Em vez disso, seguiu Duncan até o cassino, com suas mesas forradas com feltro verde e
suas roletas brilhantes.
Aquele era o palco de Duncan Blade, pensou ela. Por mais que ele estivesse vestido
casualmente, e ele devia considerar que uma bermuda caqui e uma camiseta branca de
seda feitas por um alfaiate fossem uma roupa casual, Duncan era a perfeita imagem de
um tradicional apostador de barco. E ela não acreditava que ele tivesse o hábito de sair
com os bolsos vazios de lugares como esse.
— Duas apresentações por noite — disse ele, quando os dois voltaram para o corredor e
seguiram até o deque de trás, iluminado pela luz intensa do sol. — Poderá aproveitar
osdias como quiser. Encorajamos a tripulação a travar contato e a fazer amizade com os
passageiros. Tomará suas refeições nos deques inferiores junto com a tripulação. O
desjejum é das seis às oito, o almoço das onze à uma e o jantar das cinco às sete.
Garanto que não sentirá fome.
— É bom saber disso. Costumo ter um apetite voraz. Duncan olhou para ela. Cat parecia
ser magra, embora a foto que ele vira houvesse mostrado curvas muito atraentes.
Particularmente, apreciava os progressos em matéria de lingeries, e os verdadeiros
milagres que elas eram capazes de provocar em uma mulher.
— Pode usar a academia de esportes, também nos deques inferiores — continuou ele. —
Pagará por suas bebidas e, já que não toma bebidas alcoólicas com freqüência, nem
precisaria ser avisada. Porém, é minha obrigação avisar: se beber demais uma vez,
receberá uma advertência. Da segunda vez, terá de deixar o barco na parada seguinte.
Descendo por uma escada estreita, Duncan seguiu por outro corredor.
— Aqui ficam as cabinas dos passageiros. Temos condições de comportar uma média de
cem passageiros. — Abrindo uma das portas, ele disse: — Cabinas de primeira classe.
Então deixou que Cat examinasse o aposento.
— Ora, ora... — murmurou ela.
O aposento era mais espaçoso do que ela havia imaginado, com uma cama generosa e
uma confortável sala de estar. Os móveis pareciam antigos e, para seu maior espanto,
genuínos. Vasos com flores frescas decoravam o ambiente e uma delicada porta com
sacada oferecia uma bela vista do rio.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Deve custar uma fortuna — sugeriu.
— Você tem aquilo que consegue pagar — falou Duncan. — As pessoas vêm até aqui
para relaxar, para se divertir e oferecemos a elas aquilo que podem pagar.
— Aposto que sim.
Algum dia ela também ocuparia uma cabina como aquela, pensou Cat. E quando isso
acontecesse, deitaria nua na cama, feito um bebê, e riria até seu estômago doer. Então
poderia esquecer os apertados quartos de hotel onde já havia sido obrigada a dormir por
não poder pagar um lugar melhor.
— Bem, coração, já que empregados não devem ter a mordomia de ficar em uma cabina
como esta, onde fica a minha?
— No nível abaixo deste.
Duncan deu um passo atrás, mas quando Cat passou por ele, seus braços roçaram um
no outro. Até o perfume dele cheirava a riqueza, pensou ela, meio contrariada. Ela, por
sua vez, devia estar exalando um cheiro de horas de espera no aeroporto. Pensando
nisso, se não comesse logo alguma coisa, acabaria desmaiando e dando um vexame logo
nos primeiros minutos de seu novo emprego.
Contudo, não era a primeira vez que passava fome. Poderia esperar mais um pouco,
pensou enquanto seguia Duncan por outra escada. "Pense em outra coisa", disse a si
mesma. "Qualquer outra coisa."
Como no belo traseiro de Duncan, por exemplo. Definitivamente, ele mantinha a idéia de
primeira classe em todos os sentidos. Seu riso o fez olhar para trás.
— O que foi?
— Nada. Estou apenas admirando a paisagem daqui de trás. Duncan arqueou a
sobrancelha esquerda, uma habilidade que Cat sempre admirara. Então um sorriso
másculo iluminou o rosto dele, tornando-o mais atraente do que nunca.
"Puxa!", pensou Cat. "Mas que arma secreta. Mais eficaz impossível!"
— Da próxima vez, trocaremos de lugar — avisou ele, abrindo uma porta. — Esta é a sua
cabina.
O aposento tinha metade do tamanho do outro, e a pequena janela mal refletia um pouco
da luz do sol. Ainda assim, Cat gostou do espaço disponível, da cama de solteiro coberta
por um bonito lençol e do chão impecavelmente limpo. Sua bagagem já havia sido levada
para lá e estava ocupando mais da metade do quarto.
— Quando arrumar a bagagem, ele não parecerá tão pequeno — disse Duncan.
— Gostei daqui.
De fato, ela gostara muito. A cabina emanava um perfume de limpeza, e não haveria
bêbados brigando no quarto ao lado. Também não seria preciso encostar uma cadeira
contra a porta, para se proteger, e ela poderia dormir com os dois olhos fechados.
Examinou o pequeno banheiro e não viu o menor problema na banheira e no boxe
minúsculos. Por menores que fossem, seriam apenas para seu uso pessoal, pensou ela.
Durante as seis semanas seguintes, aquele lugar seria todo seu.
— Ficarei bem aqui - avisou a Duncan. — E quanto àquele sanduíche?
— Mandarei que preparem algo. — Ele consultou o relógio, notando que já estava com
uma hora de atraso na programação. — Descanse por uma hora. Pedirei a alguém para
verificar o som do salão. Manteremos o deque principal fechado até as quatro horas. Esse
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é todo o tempo que posso lhe oferecer para se aprontar, portanto, seja pontual.
— Estarei lá, coração. — Cat andou até a porta e se apoiou nela, em um convite
silencioso para que ele saísse. — Ah, e preciso de uma garrafa de água no palco —
avisou a ele. — Sem gás, sem sabor e sem gelo. Apenas água mineral fresca. Duncan
arqueou a sobrancelha novamente.
— Mais alguma coisa?
— Bem... — Cat curvou os lábios em um sorriso provocante, tocando a ponta do dedo na
camiseta dele. — Isso o tempo irá dizer. Obrigada pela recepção.
Pelo visto, ela gostava de brincar com fogo, pensou Duncan.. Mas ele também era bom
naquilo, Segurando o queixo dela entre o indicador e o polegar, inclinou a cabeça até que
seus lábios ficassem a centímetros dos dela. Adorou quando o olhar de Cat se tornou
apreensivo de repente.
— Você ainda não viu nada, doçura.
Dizendo isso, saiu da cabina com um sorriso dançando' nos lábios.
12
Duncan sempre gostara mais dos ares da noite. Principalmente daquele momento do
crepúsculo em que os tons intensos do céu começavam a ceder lugar a um azul cada vez
mais profundo.
Julho era um mês de dias quentes, com o sol se refletindo nas águas escuras do rio
Mississippi. Isso também significava noites quentes, permeadas por leves brisas
refrescantes.
Os passageiros já se encontravam a bordo do Princesa Comanche, e a festa de recepção
havia iniciado um período cheio de divertimento, de prazer e de recordações sobre a
época de aventura em que barcos como aquele costumavam navegar pelo rio.
Havia feito as saudações aos passageiros, sorrindo para todos e felicitando desde os
noivos que iriam passar a lua-de-mel a bordo até os apostadores sedentos pelo momento
de começarem suas apostas. Quando o fim do crepúsculo anunciou o início da noite,
Duncan sentiu-se tomado por uma onda de expectativa.
Boa parte de sua vida havia sido passada em hotéis e em lugares provisórios, localizados
em diferentes cidades e estâncias turísticas. Gostava da vida que levava naquela época.
Aprendera sobre os negócios da família e descobrira que tinha jeito para lidar com isso.
Mas também descobrira que preferia liberdade de movimentos e mudanças inesperadas.
Sua mãe costumava rir, dizendo que ele nascera com um século de atraso. O rio
Mississippi era seu verdadeiro lar.
Duncan finalmente assumira isso, navegando pelo rio com seu Princesa Comanche.
Enquanto o barco deslizava preguiçosamente sobre aquelas águas tranqüilas, ele dizia a
si mesmo que estava deixando todas as restrições para trás.
Se quisesse, também poderia pilotar o barco pessoalmente, algo que aprendera desde
muito tempo. Mas não era necessário no momento, pois confiava em sua tripulação. Não
era homem de entregar o controle nas mãos de outros sem que tivesse como reavê-lo
quando fosse preciso.
Por isso, escolhera com cuidado o capitão de seu barco e o restante da tripulação. Assim,
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poderia pelo menos desfrutar um pouco de cada viagem, sabendo que tudo estava indo
bem em seu barco.
Passou diante do cassino e cumprimentou sua gerente com um gesto de cabeça. Glória
Beene tinha um olhar preciso, uma mente brilhante e um charmoso sotaque sulista que
disfarçava toda sua eficiência. Além disso, preenchia muito bem o smoking de um
charmoso modelo feminino, que ela costumava usar durante o trabalho.
Duncan a havia "roubado" de Savannah, aumentado consideravelmente seu salário e
chegara até a pensar em ter um relacionamento mais... íntimo com ela. Porém, ambos
haviam descoberto que pensavam um no outro mais como parentes do que como
amantes.
— A noite será movimentada — disse Glória. — E com apostas em alta, espero.
— Os passageiros gostam de começar apostando nas máquinas, enquanto se aquecem.
Estamos com dois casais em lua-de-mel. Você vai logo identificá-los pelos olhares apaixonados que trocam a todo instante. Se eles aparecerem por aqui, quero que providencie
uma garrafa de champanhe para cada casal por nossa conta.
— Pode deixar.
— Vou verificar como estão os preparativos para a apresentação de Cat FarrelI, mas
estarei circulando pelo barco durante as próximas horas.
Duncan se retirou devagar, apreciando a música ambiente, o ruído das cartas sendo
manipuladas e o som das roletas sendo testadas pelos membros da tripulação.
Depois de conferir se tudo estava em ordem no barco, dirigiu-se ao deque principal. Ao
passar diante do camarim de Cat, olhou para o relógio e franziu o cenho. Não ouvira
nenhum ruído vindo lá de dentro ou da cabina desde que a deixara, horas antes.
Considerando o atraso da chegada, ele ainda não estava muito confiante de que ela seria
pontual.
Hesitou por um instante, mas decidiu bater à porta.
— Cinco minutos, srta. FarrelI.
— Estou quase pronta. Poderia me ajudar aqui, por favor? Duncan abriu a porta. E foi
como se alguém o acertasse de surpresa bem no queixo.
Cat estava de pé no centro do camarim, vestida com algo que somente uma alma muito
generosa chamaria de vestido. A cor era de um verde tão exótico quanto o dos olhos dela,
e deixava os ombros nus, formando uma espécie de moldura para abrigar os estonteantes
cabelos avermelhados.
O jeans desbotado não dera a ele o mínimo indício de que Cat tinha pernas esguias, mas
o vestido com uma generosa abertura lateral e os saltos altíssimos estavam sendo mais
ào que generosos em lhe mostrar isso.
— P-precisa de ajuda? — balbuciou ele, esforçando-se para disfarçar a surpresa.
Cat parou de tentar fechar o zíper e virou-se, oferecendo a ele a bela visão de suas
costas nuas.
— Você comprou o presente, coração — disse ela — agora me ajude a amarrar o laço.
Esse maldito zíper nunca colaborou comigo.
— Vejamos o que posso fazer.
Duncan se aproximou, notando que com aqueles lindos olhos enfatizados pela
maquilagem e com os lábios cheios pintados com um convidativo tom de vermelho, Cat
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não se parecia nem um pouco com uma adolescente. Ela exalava sensualidade por todos
os poros.
Em seu lugar, o que poderia um homem fazer senão desfrutar do momento?, pensou ele.
— Às vezes, é preciso abaixá-lo um pouco...
Ele forçou um zíper um pouco para baixo, fingindo ignorar o contato de seus dedos com a
pele dela.
— ...antes de subi-lo — completou, sem fechar o zíper. Cat não estremeceu sob o toque
da mão dele. Porém, ficou mais surpresa do que aborrecida quando, por uma fração de
segundo, desejou haver estremecido.
Lembrando a si mesma que sabia muito bem como lidar com aquele tipo de situação,
virou-se para Duncan com um sorriso sensual.
— Oh, isso me lembra que tenho estado meio em baixa, mas que prefiro estar no alto.
— Talvez não goste de ficar embaixo porque nunca tenha descido ao lugar certo —
insinuou ele. Sem resistir, deslizou os dedos pelas costas dela. — Bonitas costas, srta.
Farrell.
— Obrigada.
Oh, droga, ela realmente queria estremecer sob aquele toque.
— Tem um bonito rosto, Blade. Agora quer me ajudar com este vestido, antes que eu
perca o início do show? Meu chefe fica furioso quando me atraso.
— Testemunharei a seu favor, se for preciso.
Duncan ficou surpreso ao descobrir que preferiria despi-la e descobrir que outros
mistérios se encontravam escondidos por baixo daquela roupa folgada com a qual ela
estava vestida ao chegar.
A proximidade lhe permitiu perceber que Cat tinha noção do que se passava em sua
mente. E a menos que sua percepção estivesse equivocada, teve a impressão de ver um
brilho de curiosidade nos olhos dela.
Cat se manteve imóvel, embora o calor daqueles dedos roçando suas costas a fizesse
sentir o desejo de se virar e descobrir se eles eram mesmo tão experientes quanto
pareciam.
— Seria um erro — disse ela.
— Sim, eu sei.
Com relutância, Duncan fechou o zíper. Então deu um passo atrás, olhando-a por um
longo momento.
— Mas pelo que estou vendo daqui, acho que valeria a
Afastando-se, antes que acabasse voltando a tocá-la, abriu a porta do camarim.
pena.
— Boa sorte.
Seguindo um impulso, Cat deu um passo à frente e parou bem próxima a ele junto à
porta. Bem devagar, traçou o contorno dos lábios dele com o dedo e sorriu.
— Não sabe que não se deseja "boa sorte" a um artista, antes de ele entrar no palco? —
perguntou, com voz sedutora.
— Sim, eu sei — respondeu Duncan. — Mas não sei se teria coragem de mandá-la
"quebrar uma perna", como se diz por aqui, no meio artístico. Ainda mais se tratando das
suas — acrescentou, lançando um olhar significativo para as pernas dela, reveladas
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através da abertura do vestido.
Cat passou por ele, dirigindo-se ao palco. Não soube dizer se seu coração estava
acelerado pelo que acabara de acontecer ou pela expectativa da estréia. De qualquer
maneira, o importante seria manter as emoções à flor da pele. Afinal, tinha de transmitir
emoção em suas interpretações.
Por isso, em vez de bloquear as sensações que Duncan lhe despertara, usou-as como
combustível para sua preparação, enquanto esperava para entrar no palco.
Quando as luzes diminuíram, ela respirou fundo e seguiu em frente. Ao chegar ao centro
do palco, fechou os olhos e começou a cantar, soltando sua voz sensual e melodiosa.
Começou com suavidade, permitindo que apenas sua voz envolvesse a letra da música
com a energia emanada de seu coração, como acontecia sempre que ela cantava. Então
os acordes da música se juntaram à sua voz, formando um conjunto rico e harmonioso.
Uma outra luz se acendeu acima do palco, iluminando seu rosto. Manteve-se assim por
algum tempo, até iluminá-la por completo quando sua voz ganhou força, envolvida pelo
calor de sua interpretação.
"Pura sedução", pensou Duncan, assistindo-a do fundo da platéia. A voz de Cat poderia
até soar triste, enquanto clamava pelo amor de alguém, mas, ainda assim, era pura
sedução.
E o público também sentiu isso. As mulheres pareciam estar com lágrimas nos olhos,
enquanto os homens observavam Cat com indisfarçável ar de desejo. Deus, ela sabia
mesmo como fazer um homem desejá-la.
Em um gesto quase inconsciente, levou a mão aos lábios, onde ela o havia tocado.
Aquele simples toque fora capaz de acender uma chama em seu corpo. Cat era perigosa.
Provocante. E o pior era que ele tinha um fraco por mulheres perigosas e provocantes.
Ouviu a música até os aplausos entusiasmados indicarem o fim da primeira apresentação.
Então se virou e caminhou de volta para o cassino, onde sabia que as apostas giravam a
seu favor.
Cat não deu sinal de vida até o meio-dia. Depois da segunda apresentação, fora direto
para o camarim, onde tirara o vestido de palco e a maquilagem.
Sentindo o efeito de a adrenalina diminuir, dirigira-se à sua cabina. Após um banho
quente, entregara-se à maciez daquele colchão. Então dormira feito uma pedra.
Acordou com a luz do sol alto entrando pela pequena janela da cabina, o leve balanço do
barco e as exigências desesperadas de um estômago vazio.
Por volta de meio-dia e meia, já havia tomado banho e dirigiu-se em alerta total à cozinlia
do barco. Fez amizade com um dos cozinheiros logo que chegou ao local. Depois de
trabalhar em hotéis, clubes noturnos e até em espeluncas, Cat havia notado que era
essencial travar algum tipo de contato com quem cuidasse da comida. Sempre se comia
melhor dessa maneira.
Charlie era de Nova Orleans. Embora fosse cozinheiro, era magérrimo e carregava
consigo o peso de um generoso bigode e de três ex-esposas. Cat ficou sabendo de toda a
história a respeito delas, enquanto se deliciava com o camarão étouffée que ele lhe
servira.
Para acompanhar, apenas água mineral, como sempre. Cafeína costumava deixá-la
enérgica demais e outras bebidas nem sempre faziam bem à sua garganta.
Não se importou de comer e conversar em meio à agitação da cozinha. De fato, mal notou
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a movimentação dos garçons saindo e entrando do local.
O almoço estava sendo servido no salão do deque principal e também naquele reservado
para os tripulantes, mas ela preferia a cozinha. Ali, pelo menos tinha acesso a mais
"quantidade".
— Fale-me mais sobre nosso chefe, Charlie — disse, em um tom casual.
— Duncan?
Charlie acenou para um de seus ajudantes, para que este se certificasse de que os
cogumelos estavam sendo cortados devidamente.
— E um bom homem — continuou ele. — E muito esperto também. Costuma me dizer:
"Charlie, quero comida feita de sonho". — Divertindo-se com a lembrança, ele riu,
balançando a cabeça. — Ele gosta que a comida saia tão perfeita quanto poesia, e é o
que eu faço. Afinal, ele paga bem porque quer o melhor. E não aceita menos do que isso,
chère. Não Duncan Blade.
— Eu acredito — anuiu Cat, comendo outro pedaço de camarão.
— Ele tem um fraco por mulheres bonitas. Mas não se deixa envolver por elas, como eu.
Nenhuma delas conseguiu "fisgá-lo". Muito diferente de mim, que basta ver um rostinho
bonito para estar com uma aliança no dedo.
Cat riu.
— Mas não Duncan?
Charlie balançou a cabeça negativamente.
— Ele as conquista, mas as deixa de lado enquanto elas ainda estão suspirando alto.
— Nem toda mulher é tão sensível assim.
— Oh, mas todo mundo tem um ponto fraco, menina. Sempre. Eu, por exemplo, tenho
vários.
Mas não ela, Cat disse a si mesma ao sair da cozinha para ir andar um pouco pelo deque.
Quando uma mulher tinha motivos suficientes, podia encobrir aqueles pontos fracos até
que eles se tornassem praticamente inexistentes. Então seria ela a deixar os homens de
lado, enquanto eles ainda estivessem suspirando.
Quando se tinha de depender apenas de si mesma, era preciso ser rápida nos
pensamentos e nas ações.
Apoiando-se no gradil, ficou olhando as águas do rio ondulando com a passagem do
barco. Era bom estar longe de aglomerações. Longe de toda a loucura da cidade. Inspirar
aquele ar puro então era maravilhoso. Como se não bastasse, também havia o sol para
tornar os dias mais bonitos. Ela adorava o sol.
Seria até interessante aceitar mais empregos como esse, contando com o benefício de
viajar como turista. Charlie tinha razão, Duncan Blade não era sovina com os
funcionários. O salário que receberia pelas seis semanas de apresentação aumentaria
consideravelmente suas economias. Com sorte, logo deixaria de ter de se preocupar com
dinheiro.
Nunca mais voltaria a ser pobre, prometeu a si mesma. Nem se desesperaria ou sentiria
medo. Catherine Mary FarrelI estava a caminho da fama.
Do deque de cima, Duncan continuou a observá-la. Cat estava curvada sobre o gradil,
com os calcanhares cruzados displicentemente. Parecia tão satisfeita e à vontade feito
uma gata tomando sol.
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Então por que estava se sentindo tenso só de olhar para ela? Cat não aparentava o
mesmo aspecto sedutor da noite anterior. Não com aquele boné ridículo e os cabelos
presos em um rabo-de-cavalo caído às costas. A camiseta folgada encobria-lhe os
quadris, ou parte deles, e seus pés estavam descalços. O short curto, semi-escondido
pela camiseta, deixava à mostra um belo par de pernas.
Contudo, não era a aparência dela que o perturbava. Era sua... atitude. Cat continuou no
mesmo lugar, irradiando aquela autoconfiança absoluta e parecendo não dar a mínima
para quem a visse ali. Para ele, aquele tipo de atitude era sinônimo de estilo.
— Ei, Cat Farrell!
Ela se virou e, apesar da aba do boné e dos óculos escuros, levou a mão ao rosto,
protegendo-o do sol. Avistou Duncan no deque superior, com os cabelos muito negros
esvoaçando ao vento. A bermuda caqui e a camiseta azul mostravam um corpo atlético e
perturbadoramente másculo.
"Será que ele nunca parece menos do que perfeito?", Cat se perguntou.
— Ei, Duncan Blade — respondeu no mesmo tom bem-humorado.
— Quer vir até aqui?
— Por quê?
— Quero falar com você.
Ela sorriu. Apoiando os cotovelos no gradil, continuou olhando para ele.
— Venha você até aqui embaixo.
Duncan sabia que aquele era o tipo de atitude insignificante que poderia fazer alguém
perder toda uma batalha.
— Suba — disse apenas. — Para o meu escritório.
Ele ainda teve tempo de vê-la dar de ombros, antes de se afastar do gradil. Ficou
esperando com paciência, sabendo que ela precisava de algum tempo para ceder. Isso
acabaria acontecendo.
Atrás dele, alguns passageiros se encontravam deitados em espreguiçadeiras ao longo
do deque. Outros haviam escapado para lugares mais frescos do barco. Reunidos em pequenos grupos, contavam detalhes sobre suas vidas ou conversavam sobre a história do
rio.
A grande maioria, porém, e para sua maior satisfação, encontrava-se no cassino, ouvindo
o doce som das roletas.
Quando Cat chegou ao alto da escada, ele apenas fez um sinal para que ela o
acompanhasse até o lance seguinte.
— Qual o problema, chefe?
— Nenhum. Como foi sua manhã?
— Não sei. Dormi durante todo o tempo. — Quando chegou ao alto, Cat olhou em volta.
— Ainda bem que gosto das alturas.
— Venha.
Duncan abriu uma porta e ficou de lado, para que ela entrasse primeiro. Pelo visto, ele
não gostava de correr o risco de ser trancado por alguém, pensou Cat, contendo o riso.
O escritório não era muito grande, mas tinha janelas suficientes para criar a sensação de
espaço. Cat atravessou o aposento, deslizando a mão pela mesa de mogno. Então olhou
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para a pequena área com cadeiras dobráveis, antes de se aproximar de uma das janelas
e observar a paisagem.
— A vista daqui é maravilhosa — murmurou.
— Sim. Ela evita que eu fique maluco com tantos papéis. Quer tomar algo gelado?
— Água.
Assentindo, Duncan abriu um frigobar e pegou uma garrafa.
— Isso é só o que você bebe?
— Na maior parte das vezes — respondeu ela, com um sorriso.
Virou-se ao ouvir a água sendo despejada no copo.
— E então? Qual é o problema? — perguntou a ele.
— Examinei seu pôster de propaganda e os outros materiais esta manhã. — Duncan
entregou o copo a ela.
— E...?
— Bem, está tudo muito profissional e bem escrito, mas não oferecem detalhes. —
Sentando-se, esticou as pernas, cruzando os calcanhares, e olhou para ela.
— Conte-me mais.
— Por quê? — Cat quis saber.
— Por que não?
Ela também se sentou e cruzou as pernas.
-— Você me contratou e eu aceitei. O que mais precisa saber?
— Não sei de onde você veio.
— Sou do lado sul de Chicago. Duncan arqueou uma sobrancelha.
— Vizinhança difícil, não?
— Como sabe? — indagou Cat, com um súbito sorriso.
— Os MacGregor não costumam passear por aquele lugar com suas limusines.
"Um ponto de fragilidade", pensou Duncan, servindo-se de um pouco de água.
— Meu avô trabalhou em minas de carvão e passou boa parte da juventude em
vizinhanças tão difíceis quanto às do lado sul. Meu pai, descendente dos comanches,
lutou e fugiu de lugares que fariam seu bairro parecer um paraíso, pode acreditar. Venho
de uma família que não esqueceu suas raízes.
— Isso pode ser bom para você, Duncan. Quanto a mim, prefiro enterrar o passado. —
Olhando-o por trás dos óculos escuros, Cat tomou outro gole de água, antes de
perguntar:
— O que está realmente fazendo por aqui?
— Aventurando-me — respondeu ele. — Onde está sua família?
— Meu pai morreu. Foi atropelado por um motorista bêbado quando eu tinha oito anos e
ele vinte e nove. Minha mãe é garçonete em Chicago. O que isso tem á ver com meu
trabalho?
Em vez de responder, Duncan se inclinou para frente e tirou os óculos dela.
— Ei!
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— Gosto de ver os olhos da pessoa com quem estou conversando.
Dizendo isso, colocou os óculos sobre a mesa e encostou-se na cadeira, gostando do
brilho de indignação que surgira nos olhos dela.
— Aceitei um contrato de seis semanas com opção de estendê-lo para mais seis. Mas
antes de decidir aceitar ou não essa opção, quero saber com quem estou lidando.
Mais seis semanas?, pensou Cat. Seria o mesmo que ter trabalho garantido, um bom
salário e estada confortável por três meses. Poderia dobrar suas economias e também a
quantia do cheque que mandava para sua mãe todos os meses. Além disso, poderia
terminar na assinatura de um novo contrato com algum outro membro da poderosa família
MacGregor.
Porém, ao sorrir com polidez para Duncan, não demonstrou o menor sinal do que ia em
seus pensamentos nem da expectativa que parecera preencher seu peito.
— Bem, nesse caso, coração, minha vida é um livro aberto. O que deseja saber?
13
Duncan chegou à conclusão de que havia tocado no ponto certo. Dinheiro parecia ser o
assunto que Cat Farrell tratava com mais prazer e interesse. Com outra, teria abordado
seu objetivo de forma mais indireta, conduzindo-a cuidadosamente até o ponto desejado
com muito charme, delicadeza e uma boa dose de sagacidade.
Mas não acreditava que alguma daquelas táticas desse certo com Cat.
— Existe algum homem na sua vida? Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Ora, você vai mesmo direto ao que interessa, não?
— Tenho apenas boa percepção para ajustar meus passos aos da pessoa com quem
caminho, minha cara. Existe algum?
— Nenhum, a menos que eu queira.
Cat tomou outro gole de água, ganhando algum tempo para fazê-lo perceber que ela não
dissera nada além da verdade.
— Nenhum homem... até o momento — afirmou ele. — Não bebe com freqüência. Não
joga. Nada de vícios, Cat?
Um brilho provocador surgiu nos olhos dela.
— Foi o que eu disse? Você bebe, joga e aposto que tem sempre uma mulher disponível
quando quer. Por acaso isso significa que tenha vícios, Duncan?
— Boa pergunta. — Em um gesto evasivo, pegou uma moeda sobre a mesa e começou a
entrelaçá-la entre os dedos. — Você me deixou impressionado ontem.
— No camarim?
O sorriso dele demonstrou apreciação.
— Sim. E também no palco. Tem muito talento.
— Eu sei.
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— O fato de saber isso e usar é algo a seu favor. Mas aonde quer chegar?
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— O mais alto que conseguir, e depois mais alto ainda.
— Por que ainda não gravou nenhum disco?
Com a ponta da língua, Cat enxugou uma gota de água no lábio superior.
— Alguns produtores já andaram batendo à minha porta, mas não dei atenção a eles.
— Precisa de um novo empresário. Ela deixou escapar uma risada.
— Conte-me uma novidade, por favor — ironizou.
— Posso ajudá-la.
Devagar, Cat colocou o copo na mesa. A parte dourada de suas íris adquiriu um brilho
mais intenso.
— E o que quer como porcentagem?
Os dedos que manipulavam a moeda pararam de repente.
— Não faço barganhas em troca de sexo, se é isso que está pensando. Não pago por
isso nem brinco com o assunto.
Cat ficou em silêncio por algum tempo. Como algo dito em um tom de voz tão calmo
poderia ser tão desconcertante? Então suspirou. Por mais que fosse difícil, teve de admitir
que errara.
— Desculpe-me - disse a ele. — Ao longo da vida, não tive muitas pessoas se oferecendo
para me ajudar sem cobrarem algo em troca.
— O sexo deve ser feito por prazer. E negócios por... por um tipo diferente de prazer. Não
costumo ligar uma coisa a outra. Entendido?
— Perfeitamente.
Satisfeito, Duncan recomeçou a brincar com a moeda.
— Tenho alguns contatos no meio musical. Grave uma fita nos próximos dias. Vou
entregá-la à pessoa certa.
— Assim? — Cat estalou os dedos. — E por quê?
— Porque gostei de sua voz. E também de seu visual. Cat hesitou, tentando identificar
alguma intenção a mais por trás daquilo, mas não percebeu nada.
— Agradeço por isso. Muito.
Para selar o compromisso, estendeu a mão para ele. Riu com prazer quando a moeda
desapareceu por entre os dedos dele.
— Puxa, muito bom — elogiou. — Sabe mais algum truque?
— Mais do que você pode imaginar.
Divertindo-se com a reação dela, Duncan fez a moeda reaparecer entre dois dedos. Então
fechou as mãos rapidamente e voltou a abri-las em seguida. A moeda havia sumido.
Cat riu feito uma criança, inclinando-se para frente.
— Faça de novo — pediu. — Vou descobrir o truque.
— Quer apostar? Ela o fitou nos olhos.
— Tenho olhos muitos rápidos.
— Lindos olhos. Deixaram-me aturdido quando ainda estava pensando que você era uma
adolescente rebelde. E seus cabelos...
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A voz de Duncan se suavizou quando ele estendeu a mão e acariciou o rabo-de-cavalo
que ela havia jogado sobre um ombro. Mantendo os olhos nos dela, inclinou-se mais para
frente e tirou-lhe o boné.
— Maravilhosos — disse ele. — Onde está a moeda, doçura?
— O quê?
"Progressos", pensou Duncan, com um sorriso. Encostan-do-se na cadeira, levantou as
mãos vazias.
— Nada na manga — completou.
Ao se dar conta de que havia sucumbido ao charme dele por um perigoso instante, Cat
respirou fundo.
— Você é muito bom nisso.
— Eu sei — respondeu ele, usando o mesmo tom auto-confiante que ela costumava usar.
Pegou o boné. — Estenda a mão.
Quando Cat atendeu ao pedido, ele virou o boné, deixando a moeda cair. Porém, pegou-a
no ar antes mesmo de ela tocar a mão de Cat. E a moeda sumiu mais uma vez. Cat não
conseguiu conter o riso.
— Muito bom. Bem, estou me divertindo muito por aqui, mas ainda tenho de ensaiar
algumas músicas novas para esta noite.
Ficou de pé, surpreendendo-se quando Duncan também ficou e segurou-a pelos pulsos.
Algo se acendeu dentro dela, mas Cat se manteve impassível, com a cabeça erguida e
fitando-o nos olhos.
— Sentiu isso? — murmurou ele.
— O quê?
— A ligação.
— Talvez. Deixe-me ir.
Duncan continuou segurando-a o suficiente para deixá-la impaciente, então a soltou.
— Sem algemas, Cat.
— Melhor assim — afirmou ela. — Gosto de manter as mãos livres.
Dizendo isso, levou a mão à nuca dele e puxou-o para si, até que seus lábios se
encontrassem.
Esperava aquele sobressalto. Afinal, essa era a melhor parte de um beijo, não? Também
já esperava sentir aquele calor pelo corpo. Até então, nenhuma novidade.
Porém, não esperava acabar realmente gostando do beijo de Duncan. Mais do que lhe
provocar um calor pelo corpo, aos poucos o contato afetou-a por completo, deixando-a
zonza, vulnerável.
Flagrou-se desejando ir mais além, mas seu instinto de sobrevivência a fez recuar.
— Bem... — disse, disfarçando o tremor da voz e surpreendendo-se por não estar
conseguindo pensar com clareza.
— Bem... — Duncan repetiu, segurando-a pelo quadril, antes que ela pudesse escapar. —
Agora é minha vez.
Dizendo isso, manteve os lábios a centímetros dos dela. E se manteve assim até ouvir a
respiração de Cat acelerar e seus olhos brilharem de um modo diferente.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Então roçou os lábios nos dela com provocante lentidão. Cat o havia pegado de surpresa
segundos antes, e ele tinha receio de que aquilo se tornasse um hábito. Se não tomasse
alguma providência para permanecer no controle, ela iria comandar sua vida e o barco
antes do final da semana. E ele não tinha a menor intenção de deixar isso acontecer.
Sabia como oferecer prazer a uma mulher. Sabia como dar e receber. Devagar, deslizou
as mãos pelos lados da cintura e dos seios de Cat. Então levou-as às costas dela e
puxou-a mais para si. Lentamente, seus corpos foram se encontrando e se encaixando,
até permanecerem juntos. — Oh, droga...
As palavras de Cat soaram mais como um gemido do que como um protesto. Aceitando o
inevitável, enlaçou os braços em torno do pescoço dele.
Porém, Duncan continuou apenas brincando com seus sentidos. Mordiscou seus lábios,
acariciou-lhe os mamilos, tocou sua língua com a dele e mordiscou-Ihe a linha do queixo
até fazê-la estremecer com um gemido.
Então voltou a beijá-la com urgência, até que Cat tivesse a impressão de que o ar havia
sumido de seus pulmões. O pouco de sensatez que ainda restava na mente de Cat se foi
quando Duncan colou o quadril ao dela, evidenciando seu desejo. Com um gemido de
prazer, abriu mais os lábios, em um silencioso convite à sedução.
Duncan entendeu o recado. Com os dedos entrelaçados entre os cabelos de Cat e
mantendo o rosto curvado de encontro ao dela, aceitou a oferta de bom grado. Se Cat
queria que ele fosse além... Ele iria. Desejara fazer isso desde que a vira pela primeira
vez e ali estava Cat em seus braços, mais do que disposta a se render.
Então começou a ouvir seu próprio sussurro de rendição. Queria ter Cat para si, mas algo
lhe dizia que ir além poderia comprometê-lo de uma maneira que ele preferia evitar. Deus,
o que o fizera chegar a essa conclusão? E por que justo nesse momento?
Respirando fundo, afastou-se devagar, forçando-se a tornar o beijo mais gentil. Segurou o
rosto dela entre as mãos, enquanto se afastava, relutante.
Cat abriu os olhos lentamente e passou a língua pelos lábios. Sua respiração ainda
estava acelerada, mas ela se esforçou para não demonstrar quanto aquilo a afetara.
— Isso é que eu chamo de ligação — disse. O comentário fez Duncan rir.
— Funciona comigo. Vá até minha cabina depois do show dessa noite. Então faremos
uma... conexão — insinuou.
Cat suspirou. Não havia nada que ela quisesse mais, porém, seu lado racional voltara a
se acender, piscando um sinal de alerta em sua mente.
— Coração, você pode até ter instinto suicida, mas tenho interesses importantes demais
no momento para aceitar pular de um precipício junto com você.
Duncan segurou-a pela mão, mantendo-a no lugar.
— Isso não tem nada a ver com negócios, Cat.
— Já entendi essa parte. — Soltando a mão da dele, levou-a até o peito forte. — Talvez
possamos até levar isso adiante. Não, não é isso que eu quero dizer. — Saindo para o
lado, pegou o boné e os óculos sobre a mesa. — Você é um arrasador de corações,
Duncan, e não quero ter nenhuma ranhura no meu.
— De onde tirou essa idéia maluca? — protestou ele. — Nunca sequer rasurei o coração
de alguém.
Cat não conseguiu conter o riso, enquanto colocava os óculos.
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— Aposto que acredita mesmo nisso.
Levando um dedo aos lábios, beijou-o e soprou-o para Duncan. Então saiu logo dali,
antes que ela própria acabasse acreditando no que ele havia dito.
Duncan fez menção de ir atrás dela, mas se conteve. Seria chegar perto demais da
humilhação. Só o fato de se imaginar sentindo vontade de fazer aquilo deixou suas mãos
úmidas.
Precisava analisar melhor suas apostas com relação à vida. Aproximou-se da janela e
enfiou as mãos nos bolsos, encontrando a moeda em um deles. Desejar uma mulher era
algo fácil, natural, apreciável. Mas seduzi-la era tudo isso e um pouco mais. E ele não
tinha dúvidas de que conseguiria seduzir Cat Farrell, se quisesse.
Havia energia demais entre eles para ser desperdiçada sem sequer uma tentativa. Ela
estava errada, concluiu, franzindo o cenho. Ele não era um arrasador de corações. Nunca
havia magoado uma mulher. Quase sempre ia se afastando aos poucos, antes que as
emoções se tornassem mais intensas e perigosas.
Não havia motivo para mudar de atitude a essa altura de sua vida. Cat parecia um desafio
mais excitante do que as outras mulheres que ele tivera, e mais intrigante também.
Aquela espécie de sex-appeal explícito era capaz de deixar qualquer homem maluco.
Estava mais do que disposto a corresponder ao apelo sensual daquele olhar, desde que a
ligação transcorresse sob seus termos. Tudo que precisava fazer, pensou, seria
convencê-la de que seus termos eram aceitáveis.
Ainda refletindo sobre o assunto, tirou a moeda do bolso e jogou-a para o alto, pegando-a
no ar.
— Cara, eu ganho — murmurou, virando a moeda entre os dedos e sorrindo ao ver a
mesma face nos dois lados.
Ainda estava sorrindo quando o telefone tocou. Apoiando o quadril em sua mesa, pegou o
aparelho.
— Blade.
— Diga "alô" quando atender ao telefone! Onde estão seus bons modos?
O sorriso de Duncan se ampliou.
— Alô, vovô.
— Oh, assim está melhor. Como estão as coisas no barco?
— Quentes. Estamos a caminho de Memphis e o mundo parece prestes a pegar fogo de
tanto calor.
— Ah, pois eu estou sentindo uma ótima brisa vinda do oceano enquanto fumo um
maravilhoso charuto cubano.
— O que significa que vovó não está em casa -— deduziu Duncan.
— Arma saiu para tomar chá com algumas amigas. Já estou ficando aborrecido de ouvi-la
dizer que está com saudade de você.
Anna MacGregor nunca reclamava de estar com saudade dos netos, mas Duncan fingiu
que o avô havia dito a verdade.
— Irei passar alguns dias com vocês no outono.
— Achei que ela gostaria de fazer um passeio no seu barco.
— Oh, isso seria ótimo. Avise-me quando quiserem vir e eu mandarei estender o tapete
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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vermelho.
— Seu irmão contou a ela sobre a cantora que você contratou. Sua avó ficou morrendo de
vontade de ouvir a jovem cantar.
— O nome dela é Cat Farrell.
Duncan pressionou os lábios, ainda sentindo o sabor do beijo de Cat.
— Ela vale todo o dinheiro que gastei com o contrato.
— E eu não sei? Eu mesmo a ouvi cantar e lhe disse que valeria a pena.
— Sim, eu também gostei do estilo dela. Fez muito sucesso ontem à noite. Ouvi alguns
passageiros fazendo comentários sobre o show esta manhã.
— Ótimo, ótimo.
— Ela é meio temperamental — falou Duncan, como que para si mesmo.
— Os irlandeses costumam ser assim. Catherine Mary Farrell não é uma exceção.
Duncan estreitou o olhar, sentindo-se pouco à vontade, aliás muito pouco à vontade,
quando um súbito pensamento lhe ocorreu.
— Catherine Mary? Tudo que recebi a respeito dela era que se chamava Cat Farrell.
Como sabe seu nome completo?
— Ah, seu irmão me falou — emendou Daniel, censuran-do-se pelo deslize. — Mac o
mencionou e acabei gravando-o na memória porque o achei bonito. Catherine Mary.
Duncan tamborilou os dedos sobre o joelho.
— Então é isso. Aposto que ela manterá o segredo mesmo depois de se casar com o
pianista.
— O quê?! Que pianista?
— Aquele de quem ela está noiva — disse Duncan, sem titubear.
"Agora te peguei, velho MacGregor", pensou.
— O nome dele é Dabny Pentwhistle.
— Pentwhistle? Pentwhistle?! Como diabos uma mulher em seu juízo perfeito iria querer
ter um sobrenome desses? De onde veio o sujeito? Ela não estava noiva na semana
passada.
— Não? — Duncan arqueou uma sobrancelha. — E como você sabe?
— Porque eu... — Sentindo-se prestes a cair em uma armadilha, Daniel voltou atrás. —
Ora, estou velho demais para lembrar dos detalhes de tudo que faço. Sabe que me
interesso pelas coisas que acontecem no seu barco, não sabe? Isso significa que também
me interesso pelas pessoas que trabalham nele. Se a jovem quer se casar com um sujeito
com um sobrenome desses, o problema é dela, mas gosto de estar informado sobre o
que acontece por aí.
— Bem, agora você já está mais do que bem informado. Portanto, se estava tendo
alguma idéia idiota sobre me unir a Catherine Mary Farrell, pode esquecê-la.
— Idiota? Isso é jeito de falar com seu avô? Acho que estou precisando lhe dar umas
palmadas, rapaz.
— Já me disse isso antes. — Duncan riu. — Quando virão para cá?
— Assim que você ficar ao nosso alcance — brincou Daniel. — Mas veja se cria um
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pouco de juízo se eu não puder ir para lhe dar algum, meu rapaz. Deixar um Pentwhistle
qualquer lhe roubar uma verdadeira jóia é um pecado. A garota tem sangue nas veias,
pelo que seu irmão me disse. Ela merece alguém melhor.
— E eu sou a vítima?
— Ah! Um ingênuo, é o que você é! Vai arrasar o coração de sua avó passando todo o
tempo nesse rio quando já deveria estar pensando em formar uma família.
— E em dar netos para ela segurar no colo, certo? Já conheço essa história, Sr.
MacGregor. — Mesmo sob os protestos do avô, Duncan riu. — Oh, eu te amo, vovô.
— Deve amar mesmo — replicou Daniel, também rindo.
— Afinal, eu me preocupo com seu futuro. Quero ver meus netos casados e felizes antes
que eu me vá.
Duncan sabia bem quanto o avô era carinhoso com os netos.
— Nunca vai morrer Sr. MacGregor. E se isso acontecer, aposto que voltará para arranjar
o casamento de todos seus bisnetos. Agora vá se preocupar com lan ou com algum dos
outros, está bem? Eu estou ótimo.
— Está bem, está bem. — Daniel continuou rindo. — Volte a brincar com seu barquinho.
— Engraçado, mas era exatamente isso que eu tinha em mente. Mande um beijo para
vovó.
— Pode deixar. Pentwhistle... Que horror! — resmungou Daniel ainda ao telefone,
fazendo Duncan soltar uma gargalhada ao desligar.
14
Duncan acreditava em romances e na beleza dos sentimentos que eles traziam consigo.
Admirava os detalhes dos gestos que tornavam um relacionamento especial entre um
homem e uma mulher. Mac costumava dizer que o amor era sua religião e, embora
Duncan não fosse tão longe na consideração, admitia que sempre acreditara no poder
desse sentimento.
Segundo sua experiência de vida, as mulheres adoravam receber amor e atenção. Por
isso, mandou flores para a cabina de Cat quando atracaram em Memphis, um perfume
quando pararam em Natchez e uma delicada caixinha de jóias quando manobraram o
barco em Baton Rouge.
Não conseguira parar de pensar em Cat nem mesmo durante os momentos em que sua
atenção tivera de se voltar para o trabalho com o barco. Em todas as vezes que haviam
atracado, ele quisera levá-la para conhecer lugares exóticos. Também a convidara para
jantar na varanda de sua cabina, para uma caminhada pelo deque em uma noite
enluarada e para uma tranqüila ceia depois de uma das apresentações.
E todas às vezes a resposta de Cat fora a mesma: "Não, coração". Cat Farrell era mesmo
muito teimosa.
Aquilo não era apenas aborrecedor, pensou, enquanto observava as docas de Nova
Orleans, através da janela. Era também intrigante. O que sentiam um pelo outro era
impossível de ser ignorado. Pelo menos por ele.
Desde a conversa que haviam tido em seu escritório, quase uma semana antes, Cat não
havia lhe dado a mínima chance de tocá-la novamente. Não que ela o houvesse evitado,
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concluiu Duncan. Ela não era do tipo que agüentava ficar fechada em uma cabina, sem
ter contato com pessoas.
Sempre a encontrava perambulando pelo barco, conversando com alguém da tripulação
ou descansando em algum deque.
Nunca o evitava ou desviava o olhar quando se encontravam, pelo contrário. Por vezes,
chegara a lançar olhares e sorrisos provocantes para ele. Mas nada, além disso.
Não parecia nem um pouco afetada pelo que acontecera entre eles. Nem mesmo quando
Duncan se aproximava o suficiente para inspirar seu perfume, o mesmo com o qual ele a
presenteara.
Sim, aquilo o estava deixando maluco. Ela o estava deixando maluco! Mas estava longe
de admitir sua derrota.
Se a combinação do charme de Duncan Blade e de Nova Orleans não fosse suficiente
para amolecer o coração de uma mulher, não haveria esperança para o resto da
humanidade.
Deitada na cama, em sua cabina iluminada por uma tênue luz vinda da janela, Cat se
espreguiçou com languidez. Pelo ritmo do balanço do barco, sabia que haviam atracado.
Depois de uma semana a bordo, acostumara-se aos movimentos da embarcação, aos
sons e à sensação de estar no Princesa Comanche.
O ar de Nova Orleans devia estar bem ali, do lado de fora da janela, pensou consigo.
Doces típicos, lindas flores, jazz e turistas bêbados. O que mais uma mulher poderia
querer?
Teria horas para visitar a cidade, andar pelas ruas estreitas, dar uma olhada nas lojas de
quinquilharias, provar a comida que tornava a cidade famosa e ouvir os músicos de rua.
Seria bom sair um pouco do barco e ficar longe do "perigoso Duncan". Seus lábios se
curvaram em um sorriso. Passara a defini-lo assim, desde alguns dias. Um homem que
dispensava tantos cuidados com uma mulher, que era indiscutivelmente charmoso, bonito
e sexy, era tão perigoso para ela quanto um furacão. E ela não tinha a mínima intenção
de ser arrastada por um.
Duncan era muito perspicaz no que dizia respeito a mulheres, pensou enquanto entrava
no banho. O modo como ele a olhava com aqueles penetrantes olhos castanhos fazia
com que ela se sentisse o único foco de atenção para ele no mundo. Quando falava com
ela, usava um tom sedutor naquela voz aveludada, como se houvesse esperado por toda
a vida só para falar com ela. Como se não bastasse, o simples roçar de seus braços,
enquanto passavam um pelo outro, era suficiente para arrepiá-la por inteiro.
O implacável sedutor a estava deixando maluca. E ela não poderia se dar ao luxo de
experimentar nem sequer um instante de loucura. Não com os planos que tinha em mente
para sua carreira.
Enviar flores fora um clichê, tudo bem. Contudo, não era ingênua a ponto de não saber os
motivos para o acontecimento de um clichê como aquele. Se ficara tão indiferente ao
gesto, por que passara o dia se aproximando das flores para inspirar o perfume que elas
emanavam? E por que não conseguia parar de pensar em Duncan?
Deus, e o perfume que lhe dera? Nunca tivera um perfume original na vida. Do tipo que
vinha em vidros maravilhosos, custavam uma fortuna e faziam uma mulher se sentir uma
rainha. O pior fora que Duncan soubera exatamente o tipo de fragrância que ela preferia e
que combinaria com sua pele. Tudo isso tornara o presente simplesmente irresistível.
Chegou à conclusão de que ele já havia nascido com o conhecimento de como
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impressionar uma mulher.
A caixinha de jóias, porém, fora o que mais a tocara. Era tão inútil, tão supérflua e, ainda
assim, tão linda! Em sua vida, nunca tivera tempo nem dinheiro para gastar com
supérfluos. Por isso, até aquele momento, não tinha idéia de quanto era prazeroso
receber um presente daquele tipo.
Enrolada em uma toalha, atravessou a cabina e pegou a caixa deixada sobre sua
pequena penteadeira. Era toda de madrepérola branca, com detalhes em cor-de-rosa, e
estava vazia. De fato, ela não tinha nada para pôr ali dentro.
Um sorriso se insinuou em seus lábios, enquanto olhava para ela. Com um suspiro,
colocou-a de volta na penteadeira e começou a se vestir para o quente dia de verão.
Sabia muito bem o que o perigoso Duncan estava tramando. Tratava-se de uma espécie
de campanha de sedução, cuidadosa e estrategicamente planejada. E ela era o prêmio
que ele esperava conquistar.
"Essa é a especialidade dos arrasadores de corações", pensou consigo.
Dando de ombros, escolheu uma camiseta branca e um short preto. Ainda bem que sabia
como lidar com Duncan, concluiu, enquanto calçava um par de sandálias pretas de
tirinhas. Guardou um pouco de dinheiro no bolso, antes de pegar o boné e os óculos
escuros.
Quando abriu a porta, Duncan estava prestes a bater.
— Ótimo. Ainda bem que já está pronta.
Cat se sobressaltou ao se deparar justo com ele, que estivem tão presente em seus
pensamentos nos últimos minutos. Aquilo chegava a ser irritante.
Mesmo assim, colocou os óculos escuros com um ar casual e inclinou a cabeça.
— Por que eu não estaria?
— Porque raramente sai da cama antes do meio-dia. Ela sorriu.
— Se sabe disso, por que pretendia bater à minha porta às nove horas da manhã?
— Porque queria acordá-la. Mas já que está acordada, vestida e pronta, teremos mais
tempo. Agora vamos.
— Para onde?
— Nunca esteve em Nova Orleans?
Com um súbito movimento, fechou a porta da cabina.
— Não — respondeu Cat. — Mas esse era meu plano inicial.
— Melhor ainda. Começamos pelos doces típicos no Café du Monde, como os turistas
que se prezam devem fazer. Essas sandálias são confortáveis?
— Sim. Mas meu plano inicial era sair sozinha, coração.
— Então mude-o — sugeriu Duncan, conduzindo-a até o deque por onde sairiam. —
Passei muito tempo em Nova Orleans. Esse é um dos meus lugares preferidos. —
Continuou falando enquanto seguiam em frente. — A cidade fica mais bonita à noite, mas
há muito que se fazer por aqui em um dia de verão. A atmosfera é toda especial. Gosta
de frutos do mar?
— Gosto de comida de qualquer espécie — confessou Cat, fazendo-o rir.
— Conheço um ótimo lugar onde poderemos almoçar.
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— Ouça, Duncan...
Ele parou e se virou para ela. Segurando-a pelos ombros, fitou-a nos olhos ao dizer:
— Passe o dia comigo, Cat.
"É o que mais quero!", ela sentiu vontade de gritar. Porém, limitou-se a soltar um suspiro
resignado.
— Por que não? Mas você vai pagar as contas.
O passeio se revelou mais agradável do que Cat esperava. Duncan era uma ótima
companhia e levou-a para conhecer os melhores lugares da cidade.
No French Quarter, os prédios eram grandes, elegantes e curiosamente femininos, com
suas varandas de ferro trabalhado e peitoris enfeitados com flores. Os aromas eram ricos,
permeados por uma leve atmosfera de Antigüidade. Ruas estreitas, parques verdejantes e
calçadas convidativas para lentas caminhadas.
Cat experimentou alguns doces e tomou um gole do café au lait de Duncan. Deliciou-se
ao ouvir o sotaque afrancesado das pessoas que passavam por eles e o ruído dos cascos
dos cavalos puxando carruagens em direção a Jackson Square.
Contando sempre com os comentários bem-humorados de Duncan, conheceu artistas de
rua e riu muito da imitação que um deles fez de Elvis.
Deixando-se levar pelo clima do passeio, andaram de mãos dadas durante a maior parte
do tempo. Estavam caminhando sob uma alameda com árvores frondosas quando Cat se
adiantou para observar três garotos sapateando em uma praça. Estavam com os rostos
suados, mas continuavam movendo os pés com precisão e sincronismo perfeitos. Notou
que Duncan deixou algumas notas, em vez de moedas, na caixinha que eles haviam
deixado ao lado, para arrecadar algum dinheiro.
— Esses garotos devem arrecadar uma boa quantia no fim do dia — disse a ele.
— Eles merecem. Está pronta para almoçar? Cat riu.
— Coração, eu sempre estou.
Ela esperava que ele fosse levá-la a um restaurante fino, com toalhas de Iinho sobre as
mesas e garçons discretamente eficientes. De fato, estava preparada para não
demonstrar o mínimo espanto se isso acontecesse. Em vez disso, porém, Duncan a levou
para uma lanchonete lotada, com mesas sem nenhuma toalha. Os guardanapos eram de
papel e o menu ficava exposto em uma lousa atrás do balcão. Cat sempre se sentia mais
à vontade em lugares como aquele.
A mulher que se encontrava atrás do balcão era enorme e usava um avental que mais
parecia uma tenda. A mistura de cores chamativas do tecido lembrou a Cat uma pintura
abstrata.
O rosto redondo, cor de chocolate, tinha uma pele finíssima como seda e os dentes muito
brancos logo se mostraram em um amplo sorriso quando ela avistou Duncan.
— Oh, meu garoto bonitão! Venha até aqui me dar um beijo. Ele riu, aproximando-se e
dando um sonoro beijo no rosto dela.
— Bonjour, Mama. Ça va?
— Oui, oui. Estou melhor do que nunca. Quem é a garota que você trouxe para me
visitar?
— Cat, esta é Mama. Ela é a melhor cozinheira aqui da região.
— Cat? Um nome diferente. Combina com ela. Vou lhe oferecer um almoço inesquecível,
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chère.
— Estou contando com isso. — Cat respirou fundo. — O aroma vindo da cozinha está
maravilhoso.
— Eu sei — falou Mama, segurando a barriga, enquanto ria. — Leve sua garota para uma
mesa, Duncan. Vou preparar a refeição de vocês — avisou e se encaminhou para a
cozinha.
— Não precisamos fazer o pedido? — perguntou Cat, ocupando uma das mesas com ele.
— Sempre como o que ela me oferece. — Duncan sorriu com charme. — Garanto que
nunca me arrependi. Você também vai gostar.
Duncan não poderia ter dito algo tão certo, concluiu Cat, minutos depois, enquanto comia
camarão assado na brasa, uma porção de arroz exoticamente temperado e pão de milho.
Seu único comentário quando Duncan pegou dois camarões do prato dele e colocou no
seu foi um resmungo de aprovação, já que se encontrava com a boca cheia.
Enquanto bebericava a cerveja, ele observou Cat terminar o almoço. Já havia feito aquilo
antes, mas sempre parecia divertido vê-la se deliciar com a comida. Cat parecia ter o
mesmo apetite que um pedreiro depois de um dia de trabalho.
— Comendo desse jeito, como consegue não ser tão gorda quanto Mama? — perguntou,
com ar de riso.
— Hum, é que não me apego a nada, nem a comida — explicou com a boca cheia. —
Mas adoro comer.
Duncan sorriu e tomou outro gole de cerveja.
— E melhor deixar um espaço para a sobremesa. Mama faz uma torta de nozes
imperdível.
— Torta de nozes? — Cat olhou para a vitrine repleta de doces, ao lado do balcão. —
Com uma bola de sorvete para acompanhar?
Duncan assentiu, surpreso.
— Sim, se você quiser.
— Eu quero.
Quando o prato ficou vazio, Cat se encostou à cadeira.
— Oh, que maravilha — disse com um suspiro.
— Nunca deixo de vir visitar Mama quando tenho chance. — Ele se inclinou para frente.
— Vem cá. Está com um pouco de molho no lábio.
Passou o polegar pelo canto dos lábios dela e deixou-o ali, enquanto a fitava nos olhos.
Em silêncio, aproximou-se devagar até que seus lábios tocassem os dela. Levou a mão
ao pescoço delicado, acariciando-lhe os cabelos da nuca com dedos gentis.
Cat sentiu o coração disparar. Lá estava Duncan Blade tentando enfeitiçá-la novamente.
E o pior era que tinha grandes chances de conseguir.
Em vez dos aromas do almoço recém-terminado, Cat passou a sentir um delicioso
perfume de colônia pós-barba. Parecia bom demais para ser verdade.
Mas ainda estava no controle, disse a si mesma, abrindo os lábios. Claro que poderia
interromper o beijo quando quisesse. Só que ela não queria. Pelo menos por enquanto.
— Duncan! Deixe a garota comer em paz! — ralhou Mama, com um ar brincalhão.
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Querendo conservar consigo um pouco do sabor dos lábios de Cat, ele os mordiscou,
antes de interromper o beijo. Continuou olhando para ela, ao se ajeitar na cadeira.
— Ela quer sorvete junto com a torta de nozes, Mama.
— Ora, e acha que eu já não trouxe?
Rindo, tirou os pratos sujos e colocou a sobremesa diante deles. Então deu uma
piscadela para Cat.
— Ele tem uma boca feita para beijar, não?
— Sim. — Determinada a não suspirar, Cat pegou o garfo de sobremesa. — O beijo dele
não é nada mal — acrescentou, provando uma primeira porção da torta. — Hum... Mas
isso aqui é o que eu realmente chamo de "nada mal". Que delícia!
— Ela tem um ótimo apetite — afirmou Mama, dando um tapinha no ombro de Duncan. —
Seja esperto desta vez e fique com essa.
— Eu deveria apresentá-la a meu avô — falou ele, quando Mama se afastou. — Eles
pensam do mesmo jeito.
— E mesmo?
Cat comeu outro pedaço de torta, perguntando-se o que uma simpática cozinheira negra
de Nova Orleans poderia ter em comum com o poderoso magnata escocês.
— Sim — confirmou Duncan. — Os dois acham que devo me casar e ter uma porção de
filhos. Sempre que os encontro, eles insistem no mesmo assunto.
Cat pegou uma porção do sorvete e outro de torta e ar-queou as sobrancelhas,
observando aquele rosto atraente.
— Não parece precisar de ajuda nesse assunto, coração.
— Diga isso a eles.
Tomando outro gole de cerveja, decidiu que seria interessante ver a reação de Cat ao
saber do mais novo plano do velho MacGregor.
— Meu avô a escolheu para mim.
Ela pestanejou. Pela primeira vez, desde que haviam se conhecido, Duncan a viu ficar
completamente perdida.
— Hum?
— Meu avô. Ele quer que eu me case com você. Cat riu alto e voltou a se concentrar na
torta.
— Conte outra piada.
— Estou falando sério. "A garota tem um olhar preciso, bons antecedentes e
principalmente sangue nas veias", disse ele, imitando os trejeitos de Daniel.
— Como ele pode saber? Fui apenas apresentada a ele, nada mais.
— Ficaria espantada se descobrisse quanto ele sabe a seu respeito. Meu avô é terrível.
Achei que seria justo informá-la do que ele tem em mente.
Cat tamborilou os dedos sobre a mesa, tentando imaginar se aquilo tudo fazia algum
sentido. Não, não fazia.
— Você faz tudo que seu avô lhe manda fazer?
— Não. Portanto, pode ficar tranqüila. Isso não foi uma proposta de casamento. Eu
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mesmo só descobri o que ele estava tramando quando me telefonou há alguns dias para
saber "como estavam indo as coisas".
Com um sorriso, Duncan começou a comer a sobremesa.
— Mas eu o peguei na própria armadilha - confessou. — Disse a ele que você estava
noiva de um pianista chamado Dabny Pentwhistle.
— Pentwhistle? De onde tirou um nome tão horrível?
— Meu avô quis saber o mesmo. E ficou muito desapontado com você, doçura —
acrescentou, apontando o garfo para ela. — Ele disse que não entende como pode estar
perdendo tempo com um pianista com um nome desses. Mas ele não acreditou na
história por muito tempo. Ele é muito esperto. Acabou de arranjar o casamento de meu
primo D.C.
— Arranjar o casamento? O que é isso? A Escócia medieval?
— É o clã dos MacGregor — respondeu Duncan, com um sorriso. — O problema é que
D.C. e Layna formavam realmente um casal perfeito. Meu avô tem um olho clínico para
esses detalhes. E já fez isso antes, começando por meus pais.
Cat se perguntou se Duncan iria mesmo comer toda aquela sobremesa.
— Ele arranjou o casamento de seus pais?
— Não. Apenas deu um jeito para que eles se conhecessem. O resto foi por conta deles.
Só que ele tem "trabalhado" com a segunda geração nos últimos anos. Pelo visto, sou a
mais nova vítima.
Cat não estava entendendo muito bem aquela loucura, mas assentiu.
— Mas você pretende arruinar a média de vitórias dele?
— Pretendo levar minha própria vida, fazendo minhas próprias escolhas. — Duncan tocou
a mão dela sobre a mesa. — Porém, tenho de reconhecer que ele tem bom gosto.
— Hum... Curioso. — Cat deu de ombros e terminou a sobremesa. — Tem uma família
muito estranha, coração.
— Você não viu nada, minha querida.
Depois do delicioso almoço, voltaram a passear pelas ruas da cidade. Quando o calor se
tornava quase insuportável, entravam em uma loja, fingindo interesse por algum produto,
apenas para se refrescar no ar-condicionado.
Estavam passando diante de uma doceria quando Cat parou de repente. O modo como
ela olhou para uma fileira de bombas de chocolate fez Duncan rir.
— Não acredito que já esteja com fome.
— Não estou agora, mas vou ficar — avisou ela. — Então por que não nos prevenirmos?
Cat riu quando ele comprou a bandeja inteira para ela. Gostava de Duncan. Realmente
gostava do jeito dele. Todo aquele charme associado ao desejo que ele lhe despertava
pareciam uma combinação difícil de resistir.
"Prepare-se, garota", avisou a si mesma ao entrarem em outra loja. "Não se renda se
quiser sair inteira dessa história."
A loja tinha uma porção de quinquilharias e de jóias nas vitrines. Pedras coloridas e
cristais se encontravam expostos em delicadas caixas de vidro, ou impeçavelmente
arrumadas em prateleiras também de vidro.
Ao fundo, havia três portinholas cobertas com cortinas. Ali os mais curiosos e, na opinião
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de Cat, mais ingênuos, podiam se consultar com alguém que lia a sorte.
Cat perambulou pela loja, enquanto Duncan examinava uma das caixas de vidro
expostas. Ao ouvir um ruído diferente, olhou na direção dele e avistou Duncan apontando
para um enfeite. Cat balançou a cabeça negativamente, indicando que não o queria.
Segundo ela notara, Duncan adorava gastar.
Pouco depois, ele tocou-a no ombro. Quando Cat se virou, ele colocou uma delicada
corrente de ouro em seu pescoço.
— O que é isso?
Franzindo o cenho, ela examinou o pingente amarelo em forma de um pequeno cilindro. A
pedra reluzente era belíssima e tinha uma curiosa cor de chá recém-preparado.
— Citrina — disse Duncan, com um sorriso charmoso. — Estimula a comunicação e a
projeção da voz. É uma pedra excelente para cantores.
— Tolice — falou Cat, mas sem soltar a pedra. — Não acho que acredite mesmo nessas
coisas.
— Querida, sou descendente dos celtas e dos comanches.
Sei o que estou falando, pode acreditar. De qualquer maneira, a pedra combina muito
com você, Catherine Mary.
Duncan sentiu uma onda de prazer ao ver o espanto estampado no rosto dela. Porém,
este logo cedeu lugar ao embaraço e até ao aborrecimento, segundo ele percebeu.
— Como sabe meu nome completo?
— Alguém me contou. Quer ler a sorte?
— Oh, isso é besteira — protestou Cat.
— Ora, não vai doer.
Dizendo isso, Duncan levou-a até o balcão e pagou por uma leitura de mãos.
— Ótimo. Você tem mesmo muito dinheiro para gastar — ironizou Cat.
Ela nunca se considerara uma pessoa supersticiosa nem acreditara naquele tipo de
adivinhação. Por isso, entrou com indiferença na salinha e sentou-se diante da jovem
sorridente que lhe tomou a mão. Sabia que ela lhe diria algo sobre fazer uma longa
viagem e conhecer um homem maravilhoso.
— Tem uma mão forte — começou a mulher, sorrindopara ela. — E uma alma velha.
Cat revirou os olhos e fitou Duncan, de pé a um canto da salinha.
— Já sofreu perdas, decepções e lutou muito na vida.
— Quem não lutou? — replicou Cat, mas a mulher continuou analisando a palma de sua
mão.
— Escolheu desde cedo o rumo de sua vida e raramente costuma olhar para trás. Prefere
se manter sempre voltada para o futuro. Inclusive com relação às suas paixões e ambições. Procura sempre tomar decisões com seu lado racional. Acha mesmo que seu
coração é invulnerável?
Ao ouvir aquilo, Cat fitou a mulher nos olhos.
— Alguém tem um coração que não seja? — indagou ela, com ironia.
— O seu é confiável — afirmou a mulher. — Você é uma pessoa segura, talentosa. Seu
coração a levará aonde você quer chegar. — Ela franziu o cenho, olhando para o rosto de
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Cat, ao invez de examinar a mão dela. — Você canta?
Cat sentiu um arrepio que quase a fez recolher a mão. Mas acabou dando de ombros,
entendendo a charada.
— Meu amigo aqui deve tê-la informado muito bem.
— Pode confiar nele também — continuou a mulher, sem dar atenção à ironia de Cat. —
Ele tem um coração tão seguro quanto o seu, embora também seja receoso. Mudanças e
decisões, riscos e recompensas... Tudo dependerá de você. Não precisa ficar sozinha, a
menos que essa seja realmente sua opção de vida. A família é um centro para você. Seu
referencial, onde quer que você esteja. Tem muitos caminhos a seguir, com muitas portas
abertas pela frente — acrescentou ela, com um sorriso bondoso. — Portas que antes
estavam fechadas, ou que pareciam estar.
Cat continuou ouvindo, sem desejar dizer mais nada. A mulher continuou examinando a
mão dela por mais alguns segundos, antes de voltar a falar.
— Não tem medo do trabalho, por mais duro que ele seja, mas espera receber um
pagamento justo em troca. E econômica, embora sonhe em um dia não ter de ser.
Generosa com assuntos e pessoas que considera importantes. Só há uma pessoa que
preencherá devidamente seu coração, e essa pessoa já se encontra em seus
pensamentos.
Cat jogou os cabelos para trás, quando os dois saíram da loja.
— Aquilo foi muito astuto de sua parte, Duncan. Quanto teve de gastar para conseguir
deixar a mulher tão bem informada?
— Eu não fiz nada — respondeu ele, mantendo-se muito sério.
Aquilo que a princípio deveria diverti-los por alguns minutos também o deixara intrigado.
— Ah, pare com isso! — ralhou Cat, com um gesto de mão.
— Não fiz nada mesmo — insistiu ele, enfiando as mãos nos bolsos, em vez de segurar a
dela, como vinha fazendo até então. — Sugeri aquilo por impulso, pensando que fazer
algo diferente iria nos divertir um pouco.
— Espere um pouco.
Cat tocou o ombro dele e estreitou o olhar, observando-o com atenção. Ou Duncan era
um ótimo ator ou ficara mesmo tão aturdido quanto ela.
— Bem, aquilo foi estranho — disse a ele.
— Sim, foi.
O caminho de volta ao barco foi feito praticamente em silêncio.
15
O Princesa Comanche ficou atracado em Nova Orleans durante dois dias e seguiu viagem
na segunda noite. A festa Mardi Gras, feita tradicionalmente para celebrar a viagem e
saudar os passageiros que costumavam embarcar em Nova Orleans, estava repleta de
risos, brindes e música agradável.
Enquanto circulava pelo barco, Duncan verificou se estava tudo bem nos deques,
cumprimentou os novos passageiros e conversou um pouco com os que haviam
permanecido para a viagem de uma semana de volta ao norte. Porém, não viu Cat em
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nenhum momento.
De fato, somente quando não a encontrou, enquanto seguia sua rotina pelo barco, foi que
se deu conta de que a estiverá procurando.
Seguindo a intuição, foi até a cozinha. Os preparativos para o jantar estavam indo de
vento em popa. Em um gesto automático, pegou um pedaço de cenoura fatiada. Estava
mas-tigando-a quando Charlie o cumprimentou.
— Ei, chefe, não acha que já está meio grandinho para ficar roubando cenouras em
cozinhas alheias? — brincou ele.
— Estou apenas de passagem. Como está o peixe que pedi que incluísse no cardápio?
— Está pronto e saboroso. Temperei com alho especial, para dar mais sabor. Quer provar
um pedaço? A menos que tenha um encontro com alguma dama esta noite, claro. Alho
não é algo recomendável antes de um encontro — brincou o cozinheiro, mexendo uma das
panelas. — Ouvi dizer que estamos com belas mulheres de Nova Orleans. Um grupo de
irmãs, é isso?
— Sim, o grupo Kingston. Quatro lindas loiras - completou Duncan, com uma piscadela e
outra mordida na cenoura. — Eu as vi na chegada, Charlie. Por acaso está procurando a
quarta esposa?
— Não haverá nenhuma quarta — refutou o cozinheiro. — Não vou mais cair na
armadilha do casamento.
— Já ouvi isso antes. Viu Cat por aí?
— Ela também passou por aqui ainda há pouco. O apetite da garota é mesmo
surpreendente. Entreguei o jantar a ela antes do show, como de costume. Ela gosta de
pratos apimentados como você. Também separei um pedaço de torta de morangos para
ela levar para a cabina. Se você se apressar, acho que ainda a encontrará no caminho.
— Está bem, Charlie. Até mais.
Duncan fez menção de se retirar, mas o beep em seu bolso começou a vibrar. Ao olhá-lo,
verificou o código. Estavam precisando dele no cassino.
— Cat terá de ficar para mais tarde — disse a si mesmo.
Duncan não conseguiu ter mais nenhum tempo livre até o meio da segunda apresentação
de Cat.
Dois de seus melhores empregados estavam passando mal, depois de terem comido
pratos com temperos fortes durante o passeio na cidade. Por isso, estavam com falta de
empregados especializados em lidar com as mesas do cassino.
Duncan ficou algum tempo em uma das mesas, lidando com as apostas e entretendo os
passageiros que haviam decidido apostar na sorte. Entre eles, as irmãs Kingston.
Elas eram mesmo lindas, pensou ele. Bem-humoradas, espirituosas e loiríssimas. Em
outras circunstâncias, estaria mais do que disposto a flertar com quatro lindas loiras que o
chamavam de "bonitão" a todo instante. Porém, seus pensamentos teimavam em ir para
longe dali.
Naquele horário, Cat deveria estar se apresentando com outro daqueles vestidos
estonteantes. Sua voz melodiosa estaria preenchendo o salão, deixando iodos encantados. Enfeitiçados.
Foi então que se deu conta de que não queria apenas vê-la, mas também ouvi-la.
Gostaria de ficar em uma mesa discreta, no fundo da platéia, apenas ouvindo-a cantar.
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— Duncan, bonitão, não vai me ajudar a ter mais sorte? — insinuou uma das irmãs
Kingston.
A pergunta o trouxe de volta à realidade.
— Bem, no que diz respeito à sorte, não há como receber ajuda.
— Oh. — Ela pareceu lamentar. — Talvez eu só seja boa mesmo em outros tipos de jogo.
"Mensagem recebida", pensou Duncan. Alto e claro. A loira fizera uma insinuação quase
direta, mas o que diabos estava acontecendo com ele? Nunca recebera uma insinuação
de uma bela mulher e não sentira vontade de corresponder ao flerte. De fato, sentiu-se
até aliviado quando Glória apareceu para tomar seu lugar.
— Vamos mudar de líder, senhoras - brincou a gerente. O coro de "aah" que recebeu em
resposta a fez rir alto.
— Despeça-se logo, Duncan, antes que elas não o deixem partir.
— Boa noite, senhoras. Agora é com você, Glória — disse à gerente.
— Pode deixar, chefe. Pode ir até o salão assistir ao restante do show, se quiser. Sei que
seus pensamentos devem ter estado por lá durante as últimas horas.
— Você é muito perspicaz - afirmou ele, tocando a ponta do nariz dela. — Glória cuidará
bem de vocês - disse aos jogadores e se retirou, seguido por quatro pares de entristecidos olhos azuis.
— Ele já é comprometido?
Glória arqueou uma sobrancelha, fitando a loira do outro lado da mesa.
— Sim, querida. Mas nem ele mesmo sabe disso. Senhoras, façam suas apostas.
"Porque eu já fiz a minha", pensou, rindo consigo. Duncan entrou discretamente no salão,
acostumando-se à luz fraca enquanto a voz de Cat chegava até seus ouvidos. Ela
cantava algo sobre amar o homem errado, mas havia mais indignação do que tristeza em
sua interpretação.
Pretendia ficar no fundo da platéia e pedir um conhaque enquanto ouvia Cat cantar.
Porém, algo o impeliu a permanecer no mesmo lugar, em um local menos iluminado.
Cat sabia que ele estava ali. Poderia jurar que ela mudara o tom da interpretação depois
que ele entrara no salão. Mas qual não foi seu espanto quando Cat o avistou mesmo em
meio às pessoas e naquele lugar pouco iluminado. O olhar de ambos se encontrou e Cat
o sustentou enquanto continuava a cantar. Duncan franziu o cenho. Era como se a
canção contasse a história dos dois, saindo com emoção dos lábios de Cat e batendo
contra sua pele feito uma brisa gelada.
Somente quando os aplausos ecoaram pelo salão foi que Cat se deu conta de que
deveria interromper aquela espécie de ligação que fizera com Duncan. Seus olhares se
sustentaram por mais alguns segundos, até que ela abaixou o microfone e sorriu para a
platéia, agradecendo pela ovação. Precisava se concentrar em seu público e não no
perigoso Duncan Blade. Afinal, estava ali para entreter os passageiros.
Somente quando Cat começou a conversar com as pessoas da platéia foi que Duncan
descobriu que ainda estava contendo o fôlego. Com charme, ela pediu que iluminassem
um casal sentado a uma mesa da frente e que estava celebrando as bodas de prata. Fez
algumas piadinhas suficientes para fazer todos caírem na risada, antes de começar a
cantar uma música em homenagem ao casal.
No meio da canção, desceu do palco e tocou o rosto e os cabelos do homem. Quando ele
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já estava suficientemente enrubescido, sentou no colo dele, fazendo todos caírem na
gargalhada.
Duncan também não conseguiu deixar de rir. Cat era mesmo muito boa no que fazia.
Tinha o poder de fazer os homens se ajoelharem aos pés dela e ficarem assim até que
ela se cansasse deles.
E era justamente isso o que estava fazendo com ele. A única diferença era que ele
também pretendia fazer o mesmo com ela.
Encostando-se na parede, continuou assistindo à apresentação até o final.
Quando estava prestes a se retirar do palco, Cat se surpreendeu ao ver Duncan de pé no
corredor que ia dar no camarim, fitando-a com olhar penetrante. Para sair dali, teria de
passar por ele.
Entretanto, a consciência de haver ficado surpresa deixou-a ainda mais determinada a
não demonstrar quanto à presença dele a afetara.
— Não costuma ficar por tanto tempo - disse, abrindo a garrafa de água que sempre
mantinha próxima do palco. — Resolveu verificar se estou trabalhando direito?
— Eu queria vê-la.
Duncan disse apenas aquilo porque era a verdade, e porque sabia que iria afetá-la.
— Bem... Agora já viu.
Cat fez menção de seguir em frente, mas parou quando ele lhe segurou o pulso.
— Vamos lá para fora.
— Não, obrigada. Preciso trocar de roupa.
— Não, não precisa. Gosto de vê-la usando esses vestidos provocantes.
Cat estava trajando um vestido preto com um generoso decote na frente e outro nas
costas.
— Estou cansada, Duncan.
— Não, não está.
Ele podia sentir a energia emanando de Cat. Energia intensa o suficiente para incendiá-lo
de desejo. Fitando-a nos olhos, levou a mão dela aos lábios.
— O clima está agradável nos deques e temos uma bela lua cheia. Venha caminhar um
pouco comigo. Prometo não tocá-la a menos que você queira.
Aquilo era sinal de complicação, pensou Cat. Sim, porque ela queria que Duncan a
tocasse. Pensando bem, talvez houvesse chegado o momento de agir de forma diferente.
— Está bem, vamos caminhar um pouco. Será bom respirar ar fresco. O salão ficou muito
lotado esta noite.
Passaram por entre as mesas até chegarem ao lado de fora.
— Aposto que ofereceu o "Feliz bodas de prata, garoto!" mais interessante da vida
daquele passageiro — brincou Duncan, fazendo-a rir alto.
Jogando os cabelos para trás, Cat respirou fundo, sentindo o refrescante ar da noite.
— Eu e a esposa dele combinamos tudo antes do show. Ela me deu cinqüenta dólares
pela encenação.
— Se queria pregar uma peça nele, ela deve ter achado que o pagamento foi mais do que
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justo. Vamos para o deque superior — sugeriu ele. — Assim ficaremos mais perto da lua.
— Fiquei sabendo que as irmãs Kingston estão louquinhas por você — falou Cat,
enquanto subiam a escada.
— Estão?
— Elas estavam conversando no deque principal e, por acaso, ouvi o que disseram. Aliás,
tudo que elas fizeram foi dar risinhos e suspirar por sua causa.
— Nada melhor para um homem do que fazer as mulheres rirem e suspirarem por ele.
Duncan subiu com facilidade até o terceiro deque, dando graças por encontrá-lo vazio.
— Aposto que sim - anuiu Cat, aproximando-se do gradil e se apoiando nele. — Puxa,
essa vista é espetacular. Realmente incrível. Adoro olhar o rio à noite.
— Este é meu lugar preferido - confessou Duncan. — Estava esperando por uma
oportunidade de trazê-la até aqui para ficar um pouco comigo à noite. — Devagar, virou-a
de frente para ele.
— Não é exatamente aqui que você quer me ver, Duncan.
— Bem, digamos que esse é um dos muitos lugares. Ele deslizou as mãos pelos braços
dela, mas não fez menção de puxá-la para si.
— Você cantou para mim — sussurrou ele. O coração de Cat acelerou, deixando-a alerta.
— Canto para todos que estejam assistindo ao show. Esse é meu trabalho.
— Você cantou para mim — repetiu ele, com o mesmo tom calmo e controlado. — Aquilo
me fez desejá-la tanto que todo meu corpo esquentou. — Deslizou os dedos pelos
ombros dela, até alcançar-lhe o pescoço delicado. — E me fez ver quanto você também
me deseja.
Duncan inclinou a cabeça até que seus lábios ficassem a centímetros dos dela.
— Mas terá de me pedir, já que prometi que não faria nada sem que você também
quisesse.
— Sempre mantém sua palavra, Duncan?
— Sim.
— E eu nunca peço — declarou Cat.
Levando as mãos aos cabelos dele, puxou-o para si e o beijou. Duncan sabia que
naquele momento ela poderia fazê-lo se ajoelhar aos pés dela se quisesse. Mas, para seu
espanto, isso não o perturbou.
Os lábios de Cat eram como uma chama de luxúria, invadindo seu ser e fazendo-o desejar
mais, muito mais. Sabia que, se não se controlasse, despiria Cat ali mesmo e faria amor
com ela a céu aberto. Por isso, interrompeu o beijo e segurou-a pelos ombros.
— Minha cabina está logo atrás de nós.
Cat olhou para trás e deixou que um sorriso insinuante curvasse seus lábios. O desejo era
algo que sempre a levava a agir feito uma adolescente curiosa em descobrir o amor.
— Eu sei - disse a ele.
Duncan segurou a mão dela, levando-a consigo. Então circundou-a, enfiando uma mão no
bolso para pegar a chave. Depois de abrir a porta, olhou para ela, em um convite
silencioso.
Cat hesitou. Mas apenas por uma fração de segundo.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
100
Duncan havia deixado a luz do abajur acesa e a janela aberta, recebendo a luz prateada
do luar. Embora estivesse sentindo o coração bater com força, Cat andou pelo aposento,
fingindo interesse pelos detalhes.
Viu uma mesinha com vários porta-retratos, cadeiras con-fortavelmente estofadas em
azul, uma cômoda e uma pequena estante repleta de livros e com mais alguns portaretratos.
A cama ocupava boa parte do espaço, e parecia tão convidativa quanto o sorriso de Duncan
naquele momento, pensou Cat.
— Bonito lugar.
Olhando por cima do ombro, ficou surpresa e encantada ao mesmo tempo quando viu
Duncan acender as velas azuis de um candelabro.
— Você é mesmo do tipo romântico, não? — perguntou a ele.
Ele apagou o fósforo e em seguida a luz do abajur. Os dois ficaram em meio à penumbra
da luz das velas e do luar.
— Tem algum problema com isso? — questionou Duncan.
— Não. Acho que não.
Entretanto, aquilo a deixou um pouco receosa. Tentando disfarçar o nervosismo, levou a
mão às costas, preparando-se para abrir o zíper do vestido.
— Não.
Duncan deu um passo a frente. Com delicadeza, deslizou o dedo desde a base do
pescoço dela até o início do decote.
— Eu quero despi-la.
Cat deixou os braços caídos ao lado do corpo.
— E o que está esperando?
— Nada. — Ele beijou-a na curva sensível do pescoço. — Nada mesmo. Hum... Esse
perfume é provocante demais.
Cat se esforçou para pensar com clareza.
— Ganhei-o de você, esqueceu? Duncan riu.
— Acho que acertei em cheio.
Por mais que Cat estivesse se esforçando para controlar a respiração, ela estava ficando
cada vez mais alterada.
— Já o sentiu em mim antes — disse a ele, fechando os olhos quando Duncan lhe
mordiscou a orelha.
— À distância em que eu estava não foi suficiente para sentir que era tão bom. —
Roçando os lábios nos dela, ele perguntou: — Deseja que eu diga o que quero fazer com
você ou prefere a surpresa?
"Oh, meu Deus", foi tudo que ela conseguiu pensar.
— Não me surpreendo facilmente.
— Então vejamos o que posso fazer a esse respeito... Duncan mordiscou os lábios dela
de forma provocante uma, duas, três vezes. Até separá-los com a língua, iniciando uma
dança sensual que fez Cat estremecer.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
101
Ela nunca havia sido beijada daquela maneira. Nenhum homem passara tanto tempo
provocando-a e com tanta paciência. Quando Duncan levou as mãos ao zíper de seu
vestido, ela sentiu um delicioso arrepio de expectativa.
Porém, ele apenas insinuou as mãos pelo vão, acariciando as costas dela com
sensualidade. Era como se quisesse sentir cada centímetro do corpo dela, tornando
aquela primeira vez muito especial.
A torturante antecipação foi deixando-a cada vez mais envolvida pela onda do desejo.
Tanto que Cat ficou aliviada quando Duncan finalmente fez o vestido deslizar por sobre
seus ombros e ir parar no chão.
Com a mesma paciência, ele traçou com o dedo o contorno do sutiã preto de renda.
— Incrível... — sussurrou, descendo a mão devagar até alcançar a parte de baixo da
lingerie. — Sim, incrível...
— Vejamos se posso dizer o mesmo.
Esforçando-se para disfarçar o tremor das mãos, Cat ajudou-o a se livrar da jaqueta e
desabotoou-lhe a camisa. A luz das velas refletida sobre aquela pele bronzeada lembrou
a ela uma estátua de bronze de um deus grego.
Umedecendo os lábios, antes de levantar a vista, falou:
— Sim, incrível. Incrível...
De súbito, Duncan levantou-a nos braços.
— Prometo que vai ficar ainda melhor.
16
Cat esperava beijos tórridos, mãos impacientes, e até agradeceria por isso. Mas quando
Duncan deitou-a na cama e se posicionou acima dela, suas mãos não demonstraram
urgência. Apenas o desejo de oferecer prazer.
Duncan curvou os lábios quando ela gemeu, arqueando o corpo de encontro ao dele.
Deixando-se levar por um impulso, acariciou-a das formas mais ousadas, cumprindo a
promessa de surpreendê-la. E os gemidos entrecortados de Cat denunciaram que ele
estava tendo sucesso.
Deixando uma trilha de beijos e de carícias provocantes pelo corpo dela, Duncan foi se
mostrando um amante mais do que generoso. E isso também deixou Cat surpresa.
Desesperada por mais, enlaçou os braços em torno dele e puxou-o para si. Então
insinuou o corpo sob o dele, indicando o que queria.
— Venha, Duncan. Agora.
Um brilho diferente surgiu nos olhos dele. Cat estava linda com os cabelos espalhados
pelo travesseiro e o olhar turvo de desejo. Queria que ela fosse sua mais do que qualquer
coisa no mundo. E seu desejo também não podia esperar.
— Olhe para mim, Cat.
Quando ela obedeceu, ele finalmente a possuiu. Mantendo o olhar no dela, deliciou-se ao
ver os olhos verdes se estreitarem um pouco enquanto um leve gemido escapou-lhe por
entre os lábios. Sem esperar por ele, Cat começou a se mover, levada pelo ritmo cada
vez mais intenso do desejo e da ânsia de saciá-lo.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
102
Duncan se uniu a ela naquela dança frenética, até sentir o clímax arrebatar Cat em um
longo estremecimento marcado por um gemido mais intenso.
Cat era sua afinal. A partir dali, ele também estava pronto para se entregar, e foi o que
fez, deixando-se levar pelo estremecimento de prazer que também o arrebatou e o fez
pertencer a Cat.
Bem, estava feito, pensou Cat, quando sua mente e seu coração voltaram ao ritmo
normal. Todas as boas intenções e os conselhos que dera a si mesma haviam sido
atirados pela janela e jogados no rio.
Um ponto de vantagem para Duncan, concluiu. Não apenas entregara seu corpo, mas em
algum ponto, ao longo do caminho, também deixara com ele boa parte de seu coração.
Sabia muito bem o que aconteceria dali em diante. Duncan havia conseguido o que
queria. Haviam tido um caso, ainda que breve e muito discreto. Afinal, ele era o chefe e
não podia se arriscar ser motivo de fofoca entre os tripulantes.
Quando seu contrato terminasse, Duncan a descartaria da vida dele, provavelmente
dando-lhe algum presente de bom gosto para marcar a despedida. Então seria o fim da
história.
Homens como Duncan Blade não faziam planos a longo prazo para cantoras itinerantes.
Portanto, seria melhor se preparar porque, quando chegasse o momento certo, seria
melhor partir antes que ele tivesse a chance de mandá-la embora.
Determinada a seguir as regras daquele jogo em particular, deslizou a mão pelas costas
de Duncan e se espreguiçou.
— Hum... Incrível, Duncan Blade. Incrível. Ele também se espreguiçou.
— Estou me sentindo feito um gato de desenho.
— O quê? — Cat se surpreendeu.
— Sim, aqueles gatos de desenhos animados que são atingidos por uma martelada e que
ficam vendo uma porção de estrelas. E assim que estou me sentindo.
Ela riu alto e estava prestes a abraçá-lo quando lembrou a si mesma que seria melhor
agir com mais cautela.
— O que acontece quando ele pára de ver estrelas?
— Oh, então acontece tudo de novo...
Dizendo isso, Duncan puxou-a para si e beijou-a longamente. Quando ela começou a se
render mais uma vez, ele abraçou-a e a manteve bem junto de si.
— Gosta de assistir desenhos? — perguntou Cat, fingindo que o gesto dele não a afetara.
Duncan assentiu.
— E bom para relaxar. Quem consegue pensar nas preocupações assistindo Tom e Jerryl
— Tico e Teco... — acrescentou ela.
— Quem diria que a sofisticada Cat Farrell é fã de Tico e Teco?
— Ei, é preciso ser muito sensível para gostar dos desenhos da Disney! — protestou ela.
Ali estava outra ligação, pensou Duncan, ainda que em outro nível.
— Minha prima, Cybíl, e eu costumamos ter longas conversas sobre desenhos. Ela é
desenhista — disse ele.
— E mesmo?
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103
— Hum-hum. E muito talentosa.
Duncan deitou-a sobre ele, até que seus corpos ficassem moldados um ao outro.
— Quer ter uma longa conversa sobre um assunto bem mais interessante? — insinuou
ele.
— Acho que não seria nada mal - respondeu Cat, sentindo o coração acelerar.
Roçando o corpo sobre o dele com sensualidade, mordis-cou-lhe o queixo.
— Pronto para receber outra martelada? — brincou.
— Mais do que você imagina. — Após uma breve pausa, ele acrescentou: — Traga suas
coisas para cá.
— Hum-hum. O quê?! — Cat se afastou com um sobressalto.
— Sua bagagem - explicou Duncan. — Traga tudo para cá.
— Ei, sobre o que está falando? — Ela se sentou.
— Quero passar mais tempo a seu lado. Então, para que ficar dois deques abaixo do
meu?
Sentando-se, Duncan começou a acariciar o ombro dela.
— Para manter a discrição. Se eu me mudar para cá, a tripulação e os passageiros vão
logo perceber. O barco não é tão grande assim.
— E daí?
Duncan virou-a de frente para ele e acariciou um seio de Cat quando o lençol caiu e foi
parar na cintura dela.
—
Somos
adultos,
Cat.
Já
passamos
morar escondido dos pais. Quero que venha para cá.
da
fase
de
ter
de
na
"Pense rápido!", ela ordenou a si mesma, sabendo que seu maior desejo no momento era
aceitar a proposta.
— Você tem uma cama bem maior, uma belíssima vista, mãos muito experientes... —
acrescentou com um leve gemido. — Mas se eu aceitar me mudar para cá, a cabina de
baixo terá de continuar sendo minha. Não quero que a alugue para mais ninguém.
Duncan fitou-a nos olhos.
— Quer ter uma rota de fuga, é isso?
— Será melhor assim, coração. Se algum de nós decidir pôr um ponto final na história,
voltarei para lá e pronto. Nada de mágoas nem de ressentimentos, certo?
Ele hesitou por um instante.
— Está bem — disse por fim.
Então puxou-a para si e amou-a mais uma vez.
Nenhum dos dois quis pôr um ponto final no relacionamento. Cat esperava que isso fosse
acontecer, pelo menos por parte de Duncan. Porém, quanto mais tempo passavam juntos,
mais sentiam falta da companhia um do outro quando estavam separados.
Cat tentou se convencer de que se tratava apenas de atração física, já que o desejo de
ambos parecia insaciável.
Quando estavam em Natchez, Duncan a surpreendeu com uma reserva em um luxuoso
hotel da cidade. Chegando lá, passaram boa parte da noite fazendo amor na enorme
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
104
banheira de hidromassagem.
Na noite seguinte, ambos se surpreenderam com o ímpeto com que fizeram amor
encostados à porta do camarim de Cat, minutos antes do show. Tanto que a voz dela se
manteve um pouco trêmula durante toda a primeira apresentação.
Duncan continuou presenteando-a com flores e com presentes sem muita importância.
Cat não conseguia entender por que ele mantinha aquele hábito. Afinal, ela já pertencia a
ele e não havia motivo para Duncan ficar se preocupando com detalhes para conquistá-la.
De fato, já fazia três semanas que os dois haviam se tornado amantes, pensou ela,
aninhando-se na cama que ela já considerava tão sua quanto de Duncan.
Haviam navegado de um extremo a outro do rio, estavam voltando com novos
passageiros e, no entanto, a ligação entre eles continuava mais intensa do que nunca. E
ela não tinha a mínima idéia do que fazer a respeito daquilo.
"Aproveite o momento, Cat", era o que dizia a si mesma sempre que começava a pensar
nisso.
Espreguiçando-se, pensou se não seria melhor dormir um pouco mais. Estavam
atracados em Saint Louis e Duncan estava no porto, cuidando de assuntos profissionais,
como sempre, àquela hora da manhã.
Ela teria o dia inteiro de folga e não estava com a mínima vontade de ir até a cidade. A
tarde, trabalharia na gravação da fita que Duncan lhe pedira, embora não estivesse muito
convencida de que ele realmente estivesse com intenção de fazer algo àquele respeito.
Ainda assim, decidira cuidar de sua própria carreira e despedira Cícero. Preferiria
trabalhar sozinha a ter um empresário que mais a atrapalhava do que ajudava.
No entanto, seria melhor procurar outro agente. O salário que estava ganhando pelo
trabalho no Princesa Comanche lhe permitiria contratar alguém mais competente, que
pudesse escolher os locais de suas apresentações com mais profissionalismo.
Não pretendia voltar a se apresentar nas espeluncas onde já tivera de cantar para ganhar
alguns trocados. O sacrifício não valia a pena. Não depois de todo o desgaste que aquilo
lhe provocava.
Estava tendo a chance de desfrutar um pouco da boa vida e gostara da experiência. De
fato, nunca se sentira tão bem em toda sua vida, pensou, espreguiçando-se novamente e
leva ntando-se ao perceber que não voltaria a dormir.
Após se vestir, saiu para o deque, estreitando os olhos quando a luz intensa do sol
atingiu-a em cheio. Colocando os óculos escuros, seguiu em frente. O calor estava muito
intenso mesmo àquela hora da manhã. A luz do sol se refletia nas águas do rio, fazendo-o
parecer uma estrada repleta de contas brilhantes.
Aproveitando que a maioria dos passageiros ainda se encontrava dormindo ou
desfrutando o ar-condicionado das cabinas, resolveu fazer uma pequena caminhada
antes do desjejum.
Às vezes, quando estava andando sozinha pelo barco, como naquele momento, gostava
de imaginar que ele era seu. Antes de começar aquele trabalho, não tinha idéia de que
acabaria gostando tanto de navegar pelo rio Mississippi. Sabia que sentiria falta de tudo
aquilo quando seu contrato terminasse.
Mas nada durava para sempre, lembrou a si mesma. Por isso, devia aproveitar ao
máximo cada momento. Assim, pelo menos lhe restariam as boas lembranças.
Estava virando um corredor quando parou de repente, ao avistar Duncan no deque,
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
105
abraçado a uma bela loira.
Estreitando o olhar, cravou as unhas na palma das mãos. Ninguém traía Cat Farrell.
Ninguém!
Sentiu vontade de ir até lá e de dizer boas verdades aos dois. O único detalhe que a
conteve foi seu orgulho próprio. Não daria a Duncan o prazer de saber quanto a magoara.
Por isso, respirou fundo e seguiu em direção a eles, como se não estivesse dando a
mínima para o que acabara de ver.
— Bom dia, seu traidor.
O sorriso que Duncan mostrara ao vê-la desapareceu de repente.
— Hum?
— Quem diabos pensa que é?
O orgulho próprio acabou não sendo tão forte assim. Além disso, ela sentiu uma onda de
triunfo ao empurrá-lo pelo peito.
— Acha que pode acabar de dormir comigo e ir logo abraçando uma mulher com idade
para ser sua...
— Minha mãe - completou ele, segurando a mão com a qual ela estava prestes a
esbofeteá-lo. — Mamãe, essa é Cat Farrell. Aquela sobre quem eu estava lhe falando.
"E sobre quem escondeu certos detalhes", pensou Serena. Mesmo assim, estendeu a
mão para Cat com um sorriso amável.
— Como vai, Cat?
Boquiaberta e sentindo o rosto esquentar, Cat aceitou o cumprimento. Acertaria algumas
contas com Duncan depois.
— Peço mil desculpas pelo que disse, sra. Blade.
— Oh, por favor, não se preocupe com isso. — Serena riu. — Todo mundo está sujeito a
cometer enganos.
O comentário deixou Cat mais à vontade. A mãe de Duncan era adorável e não havia
como não se sentir relaxada na presença dela. Embora ela houvesse dito aquilo por
desaforo, Serena não parecia madura o suficiente para ter um filho da idade de Duncan.
Não com aqueles invejáveis cabelos loiros e os olhos de um exótico tom de lilás. A roupa
de seda es-voaçante a tornava ainda mais elegante e sua pele rosada parecia tão
saudável quanto a de uma mulher de trinta anos.
— Agora vejo quanto me enganei - disse Cat. — A senhora realmente não parece ter
idade para ser mãe de Duncan. É muito jovem e bonita.
— Já gostei dela — gracejou Serena olhando para o filho. — Duncan não estava
esperando receber nossa visita - explicou a Cat. — O pai dele e eu decidimos pegar o
barco no meio do trajeto e descansar um pouco, antes de irmos para o oeste. Temos de
resolver alguns negócios em Las Vegas.
— E isso não é tudo — acrescentou Duncan, parecendo estar se divertindo com as
reações de Cat. — Meus avós também estão aqui. Viajarão conosco até chegarmos
novamente a Nova Orleans.
"Maravilhoso", pensou Cat, com ironia.
— Que bom — foi tudo que conseguiu dizer. — Bem, se me derem licença, preciso... —
interrompeu-se quando um homem se aproximou deles.
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Era alto e tinha a pele bronzeada. Um elegante par de óculos escuros ocultava uma parte
do rosto que parecia ser enigmático, embora emanasse uma aura de simpatia. Alguns fios
prateados se misturavam aos cabelos muito negros.
Categoria foi a primeira palavra que surgiu na mente de Cat, ao vê-lo. Em seu próprio
tempo, aquele homem deveria ter sido o campeão dos arrasadores de corações
femininos, pensou ela.
— Justin, querido... — Serena estendeu a mão para ele.— Venha conhecer Cat Farrell, a
cantora sobre quem Duncan nos falou.
Então aquele era o pai de Duncan. Bem, não era de admirar que o filho dele fosse um dos
homens mais atraentes que ela já lia via conhecido. Vinha de uma família geneticamente
privilegiada.
— E um prazer — disse ele, segurando a mão dela com firmeza. — Tanto Mac quanto
Duncan falaram sobre seu talento. Espero que aceite fazer uma temporada no Comanche
Atlantic City.
Cat não tinha a mínima idéia do que ele estava falando, mas aceitou de imediato.
— Oh, será um prazer, Sr. Blade.
Deus, precisava dar um jeito de sair dali antes que acabasse dando outro vexame.
— Com licença, mas tenho um trabalho para fazer. Espero que voltemos a nos ver antes
de partirem.
— Pode ter certeza disso — respondeu Serena quando ela se afastou.
— Vamos entrar antes que acabemos derretendo sob esse sol — sugeriu Duncan. —
Quero me certificar de que vovô e vovó já estão se acomodando. Também preciso pegar
os papéis que você quer examinar, papai. — Tomou a mão da mãe. — Depois lhe
contarei mais detalhes sobre o que está querendo saber, Sra. Blade — avisou,
entendendo o olhar de curiosidade com o qual Serena passara a olhá-lo desde que Cat se
retirara.
— Melhor assim - aprovou ela.
Uma hora depois, Serena interrompeu um gole de seu chá gelado e caiu na gargalhada.
— Ele fez isso? — perguntou a Duncan. — Colocou vocês dois juntos do mesmo jeito que
fez comigo e com seu pai no passado?
— Mais ou menos — respondeu ele. — E o pior é que acho que terei de agradecer a ele
por isso.
— Não, por favor — pediu Justin, levantando a mão. — Você criaria um monstro.
— Bem, não posso deixar de admitir que ele tem muito bom gosto — Duncan afirmou. —
Ela é sensacional. — Sentado atrás da mesa de seu escritório, encostou-se na cadeira. —
Profissionalmente falando, ela é impecável. E um milagre que ainda não tenha gravado
um disco e não esteja no topo das paradas. Acho que tudo isso é culpa do empresário
incompetente que ela tinha antes. Mas nós daremos um jeito nisso.
— Nós? — indagou Serena.
— Nossa família tem contatos — ele disse simplesmente. — E pretendo usá-los. Sei que
Cat nasceu em um meio pobre e que cresceu sem muita instrução, mas não há motivo
para não chegar ao topo com uma voz maravilhosa como a dela. Esse é o aspecto
profissional do trabalho. Quanto ao pessoal, ainda não tenho muita certeza de nada. Cat é
uma
pessoa...
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107
incomum, e nunca senti pcàcJtoinguém o que sinto por ela.
Franzindo o cenho, pegoiMim papenimbrado com o símbolo do clã dos MacGregor e enüegoi>Oyà secr-pai. Os sentimentos eram o principal assunto no momento, pensou ele.
Cat o afetara de uma maneira que ele nunca esperara ser possível.
— Talvez o fato de ela não ser como ninguém que conheci é que faça com que eu a veja
de um modo especial — continuou. — Vou estender o contrato por mais seis semanas
para nos dar chance de nos conhecermos melhor. Do ponto de vista profissional, é uma
ótima decisão. Ela tem o dom de cativar o público. Pessoalmente, porém, ainda não sei.
"Parte de você já sabe, meu filho", pensou Serena, reconhecendo aquele brilho diferente
nos olhos dele. Tocando a mão de Justin, observou o rosto do filho por mais algum
tempo. Dali em diante, tudo que Duncan precisaria fazer seria sintonizar a mente ao
mesmo que seu coração estava sentindo.
Ela não teria muito tempo, Serena pensou consigo, ao se afastar da família por alguns
minutos para ir procurar Cat.
Queria ter uma idéia mais precisa de quem era a jovem que se apoderara do coração de
seu filho. Embora houvesse conseguido saber alguns detalhes por meio de seu pai, enquanto o censurava por estar interferindo na vida de Duncan, precisava saber mais.
Quem era Cat FarrelI? Seria o coração dela generoso o suficiente para abrigar o amor de
seu filho?
Sorriu consigo ao chegar à porta do salão de apresentações. Para não acabar sendo
direta demais, decidiu seguir o exemplo de seu pai e tramar uma aproximação mais sutil.
Abrindo a porta do salão, parou de repente. Parou e apurou os ouvidos.
Cat estava sentada ao piano, a um canto do palco. Ela tocava bem. Não chegava a ser
uma exímia pianista, mas tinha estilo suficiente para criar uma atmosfera musical
adequada para sua voz. Deus, e que voz. Cat cantava não apenas com a garganta mas
com o coração.
Quando ela terminou de cantar, Serena flagrou-se com os olhos marejados de lágrimas.
— Parece jovem demais para ter uma voz e uma interpretação tão maduras - disse,
aproximando-se com um sorriso. Quando Cat se virou para olhá-la, completou: — Você
canta muito bem.
Esforçando-se para não parecer embaraçada com os elogios, Cat virou-se na banqueta.
— Gosto de cantar, e acho que isso é fundamental.
— Sem dúvida. E com sua voz isso se torna um verdadeiro presente divino. Chorei
enquanto a ouvia cantar.
— Oh, esse é o mais tocante dos elogios - confessou Cat. — Obrigada.
— Sei que estou interrompendo seu trabalho — afirmou Serena, mas mesmo assim subiu
ao palco para ir se sentar na banqueta do piano, ao lado de Cat. — Vim convidá-la para
se unir a nós no jantar desta noite.
— Mas é um evento em família, não é?
Cat não entendia nada sobre tradições familiares, mas sabia muito bem o que era se
sentir "uma estranha no ninho".
— Gostaríamos muito que viesse — insistiu Serena. — Eu soube que já conheceu meu
pai.
— Sim, fui apresentada a ele quando estava em Las Vegas. Ele é um homem muito
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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impressionante.
— Sim, é mesmo. — Serena sorriu. — Ele ficou encantado por você.
Mesmo surpresa, Cat assentiu e falou:
— Duncan deve ter contado que foi ele quem me indicou para este trabalho, não?
— Sim, para atender aos propósitos dele. Meu pai é assim mesmo. Está no sangue e ele
não consegue evitar — explicou, com um sorriso gentil. — Espero que não se sinta
ofendida.
— Não. Apenas surpresa.
— É mesmo? E por quê? — Serena quis saber.
— Não esperava que ele fosse se interessar em me considerar uma pretendente
adequada para o neto dele — Cat foi direto ao assunto.
— Bem, se ele estivesse aqui com certeza diria: "imagine!" Garanto que ele está
procurando alguém com força de caráter e determinação. Você tem ambas as coisas.
Além disso, é sensível e tem admiração pelo senso de família.
Cat arqueou as sobrancelhas.
— Mal completei o colegial, Sra. Blade. Desde aquela época, meu único propósito tem
sido ganhar o suficiente para não passar fome. A única pessoa que tenho como família é
minha mãe, por quem sinto muito carinho.
— Sobre isso, meu pai diria: "Cat Farrell tem brio". Não há como fazê-lo mudar de idéia
quando ele toma uma decisão.
Cat olhou para as próprias mãos e em seguida para as de Serena. A mãe de Duncan
tinha as mãos de uma verdadeira dama. Assim como o rosto, a educação... Começou a
deduzir o que estava acontecendo.
— Já entendi — disse. — A senhora quer que eu vá embora antes que Duncan comece a
achar que o avô dele fez uma boa escolha?
Serena estava dedilhando as teclas do piano mas parou de repente e olhou para Cat.
— O que a fez pensar isso?
— Está óbvio demais — respondeu Cat. — Sei muito bem qual é o meu lugar e de onde
venho. Meu pai era um homem comum que teve a infelicidade de morrer antes de
completar trinta anos de idade. Minha mãe é uma garçonete que nunca teve a chance de
ser outra coisa na vida. E eu canto para sobreviver. Seu pai pode estar velho e
sentimental, mas não a senhora.
— Entendo. — Serena tornou-se pensativa. — Se eu lhe oferecesse... digamos... dez mil
dólares para você ir embora, o que diria?
Um brilho de indignação surgiu nos olhos verdes de Cat.
— Eu a mandaria para o inferno, Sra. Blade.
Para seu total espanto, Serena inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
— Oh, eu sabia que iria gostar de você. Soube disso desde o momento em que apareceu
no deque e desafiou Duncan daquela maneira. Cat, já que não me conhece, não ficarei
ofendida se me considerar uma esnobe, mais interessada em etiqueta do que na
felicidade de meu filho, porém... — Ela parou um instante, tornando-se muito séria. —
Você deveria ter mais auto-estima do que quer aparentar ter.
— Não estou entendendo o que a senhora está querendo dizer.
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109
— Estou dizendo que a única pessoa que a está considerando pouco interessante e
atraente é você mesma. — Com gentileza, pousou a mão sobre a de Cat. — Eu amo meu
filho. Ele é um belo rapaz em todos os sentidos. Como eu poderia não me sentir feliz por
saber que você também o ama?
— Eu não disse que amo Duncan. — Cat endireitou o corpo, como que tomada por uma
onda de apreensão. — Eu não disse isso.
— Não, não disse — confirmou Serena, com outro sorriso gentil. — Mas se algum dia
descobrir que o ama, eu ficaria feliz por ele. Agora vou deixá-la voltar ao trabalho. —
Ficou de pé com elegância. — Pense sobre o jantar, está bem?
Serena estava quase passando pela porta quando Cat a chamou:
— Sra. Blade?
— Sim?
— Quando vi tudo isso... — ela fez um gesto, indicando o ambiente em torno de si —
...imaginei que Duncan fosse uma pessoa de sorte. Mas agora me dou conta de que
ainda não tinha visto nada.
Serena sorriu, apreciando o comentário.
— Gostei mesmo de você, Cat — disse e saiu, parecendo mais do que satisfeita.
17
Cat não esperava se apaixonar durante uma viagem de seis semanas pelo rio Mississippi.
Tampouco tinha idéia de que iria se sentir assim por um homem na casa dos noventa
anos. Mas foi exatamente isso o que aconteceu: apaixonou-se por Daniel MacGregor.
Ele era direto em tudo que fazia e dizia, lembrando muito seu próprio jeito de ser.
Também era temperamental, e Cat sempre gostara de trocar desafios com alguém com
sangue quente como ela.
For outro lado, o velho MacGregor não passava de um sentimental corn uma queda pelo
lado romântico da vida. E, para ela, a combinação parecia simplesmente irresistível.
Entretanto, não teve a mesma certeza quanto ao temperamento de Anna MacGregor. A
avó de Duncan parecia emanar dignidade, serenidade e uma força de caráter que não
combinava muito com aquela aparência frágil. Aquela força era algo que não podia ser
ensinado, Cat concluiu. A pessoa já nascia com ela ou não.
Serena herdara aquele mesmo aspecto da mãe. Imaginou que todas as mulheres da
família houvessem herdado, incluindo as que haviam entrado para o clã por causa do
casamento.
Bem, ela própria nunca seria uma lady, nem desejava ser. Também não linha a menor
intenção de se casar. Gostava de ser livre e independente e pretendia continuar assim.
No entanto, seria bom se pudesse se encontrar com Daniel MacGregor de vez em quando
para trocar algumas farpas com ele.
— Não conhece nem sequer uma balada escocesa? Que espécie de cantora é você
afinal?
— Uma cantora normal, sr. MacGregor.
Com freqüência, Daniel ocupava uma das mesas quando o salão se encontrava vazio.
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110
Dava sempre um jeito de criticar o repertório de Cat, dizendo que ela deveria cantar mais
músicas do repertório celta.
— Isso significa que não consegue cantar nada diferente?— Ele arqueou as sobrancelhas
grisalhas. — Ora, pois fique sabendo que existem algumas canções escocesas capazes
de fazer o mais machão dos homens chorar feito criança! — Após uma pausa,
acrescentou: — Com essa sua voz, qualquer homem com sangue escocês nas veias está
propenso
a
se
apai
xonar por você.
Deliberadamente, Cat passou a mão pelos cabelos.
— Todos se
Daniel riu alto.
apaixonam
por
mim
de
uma
maneira
ou
de
outra.
— É uma jovem insolente, Cat Farrell, mas gosto do seu jeito. Por que diabos não está
tentando fisgar meu neto?
Tratava-se de uma pergunta perigosa, e Cat preferiu sair pela tangente.
— Porque já estou tentando fisgar o avô dele. Afinal, porque pegar um peixe pequeno se
posso ter acesso a um tubarão?
Daniel pareceu mais do que satisfeito em ouvir aquilo. Cocou a barba grisalha, fitando-a
com um brilho diferente no olhar.
— Ele lhe dará lindos bebês.
— Dará ao senhor, é o que quer dizer — retrucou ela. — Já entendi o que quer, sr.
MacGregor. — Aproximando-se, beijou-o no rosto. — Não ficará feliz enquanto não tiver
bisnetos suficientes para encher um auditório.
— Anna adora crianças. — Lembrando-se de que a esposa não estava por perto, Daniel
tirou um charuto do bolso. — E se preocupa dia e noite com nosso Duncan.
— Sua esposa não parece ser uma pessoa tão preocupada assim.
Cat pegou uma caixa de fósforos sobre o balcão do bar e a entregou a ele. Sorriu
enquanto observava Daniel acender o charuto.
— Se fugir comigo, coração, não terá mais de se preocupar em fumar escondido.
— Está tentando seduzir meu avô de novo?
Duncan entrou no salão, experimentando a mesma sensação esquisita de orgulho que o
dominava sempre que via os dois juntos. O que, aliás, vinha acontecendo com bastante
freqüência.
— Eu teria conseguido convencê-lo a ir comigo para Veneza, se você não tivesse
aparecido — disse Cat.
Sem que ela esperasse, Duncan se aproximou e deu-lhe um beijo de tirar o fôlego.
— Isso sim faz mais o meu gênero! — aprovou Daniel, batendo o punho cerrado na mesa.
— Não a deixe escapar, garoto.
— Tomarei cuidado — respondeu Duncan, pensando que realmente não conseguia mais
se imaginar longe de Cat. — O salão abrirá dentro de vinte minutos, vovô — avisou, sem
deixar de olhar para ela. — Vá passear em outro lugar.
— Isso não é jeito de falar com seu avô — ralhou Cat.
— E sim, depois que o flagrei tentando roubar minha mulher.
— Ei, era a mulher quem estava tentando roubá-lo — salientou ela. Quando tentou se
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111
afastar, Duncan segurou-a pelo braço. — Preciso trabalhar, coração.
— Sou o chefe, lembra? Com licença, vovô, mas preciso ter uma reunião de negócios
com minha contratada. — Enquanto conduzia Cat em direção ao camarim, disse por cima
do ombro: — A propósito, vovó está vindo para cá. Se eu fosse você, daria um jeito nesse
charuto.
— Muito obrigado pelo gentil aviso — resmungou Daniel, apagando o charuto de imediato
e abanando a fumaça diante do rosto.
Então sorriu com um ar sentimental, ao ver Duncan saindo com Cat. Estava disposto a
apostar que teriam um novo casamento antes do fim do verão.
— Duncan, eu estava conversando com seu avô.
— E o que sempre a encontro fazendo nos últimos dias.
— Sou louca por ele.
— Eu também — confessou Duncan. — Mas...
Ele trancou a porta e abraçou-a, encostando-a contra a parede. Então deslizou as mãos
pelo corpo dela, fitando-a com um olhar significativo.
— Bem... — murmurou Cat, sentindo o coração bater mais forte.
"Mantenha suas reações sob controle, Cat Farrell. Não pense nem sinta mais do que
pode controlar."
— Por que não disse antes?
Enlaçou os braços em torno do pescoço dele, preparando-se para receber um beijo
ardente. Porém, Duncan segurou o rosto dela entre as mãos e apenas roçou os lábios
nos dela, provoca ndo-a.
Queria ouvir a respiração entrecortada de Cat, como sempre acontecia quando ele a
amava devagar, criando uma doce tortura de expectativas. Gostava de vê-la se render
aos poucos, quase com relutância, até finalmente se entregar por completo, sem receios.
Às vezes, faziam amor com urgência, como se fosse a última vez. Em tais momentos, a
paixão nunca parecia ser completamente saciada. De outras vezes, amavam-se entre
risos e insinuações descontraídas. E de outras ainda, o amor se fazia com infinito carinho
e ternura. Era assim que Duncan queria amá-la naquele momento.
Com um suspiro, Cat rendeu-se àqueles braços fortes e carinhosos. Ser amada por
Duncan era sempre uma novidade. Ele parecia guardar uma doce surpresa na manga
para cada vez que se encontrassem com mais intimidade.
Beijou-o nos lábios, enquanto ele a carregava até o sofá, e gemeu baixinho quando as
mãos experientes começaram a acariciar seu corpo.
Duncan adorava ver a pele de Cat esquentar sob seu toque. Os lábios convidativos
sussurraram seu nome, antes que ele os tomasse em um longo beijo possessivo.
Ouviu a respiração alterada de Cat, mas queria mais. Mais do que excítação e desejo
incontrolável. Ele queria amor.
— Aceite-me, Cat — murmurou junto aos lábios dela. — Prometo que nunca a magoarei.
Por que ele dissera aquilo?, ela se perguntou, mesmo rendida aos beijos e às carícias de
Duncan. Não era possível que ele acreditasse que nunca a magoaria. Não quando estava
lhe tirando uma barreira de proteção que ela demorara tanto tempo para construir, e da
qual tinha receio de se livrar.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
112
Tentou se afastar um pouco para pensar, mas as mãos e os lábios de Duncan eram
persuasivos demais. Experientes demais.
Quando deu por si, já estava dividindo com ele a parte mais sensível e preciosa de seu
ser. Unidos em um abraço íntimo e sensual, entreolharam-se quando o ímpeto do clímax
pareceu intenso demais para ser contido.
— Desta vez está sendo diferente — murmurou Duncan,ofegante.
Cat apenas assentiu, antes que um gemido irrompesse em sua garganta e os lábios de
Duncan cobrissem os seus mais uma vez.
Com ele, chegou ao ápice e foi além, antes que a calmaria voltasse a reinar em seu
corpo. Mas não em seu coração.
— Foi diferente — repetiu Duncan.
Cat pegou um robe e o vestiu, aflita para recobrar a clareza de pensamento que ele
parecera lhe roubar minutos antes.
Não dissera que Duncan era suicida? E ali estava ela, andando com ele à beira do
precipício.
— Não, não foi — respondeu.
Ele inclinou a cabeça para o lado, fitando-a com atenção.
— Por que a assusta tanto saber que me importo com você? E que é importante para
mim?
— Isso não me assusta.
Tentando ocupar as mãos com alguma coisa, pegou uma escova e começou a pentear os
cabelos.
— Qualquer que seja sua opinião a esse respeito, não durmo com um homem que não
signifique nada para mim.
— Não foi o que eu quis dizer. — Duncan começou a se vestir enquanto continuava a
falar. — Você é habilidosa em mudar os fatos para aquilo que lhe convém, Cat. Mas
também sou habilidoso em enfatizar o que realmente é importante. No momento, você é o
mais importante para mim.
— Tudo bem. — Ela o olhou através do espelho. — Gosto da idéia de ser importante na
vida de alguém. — Deixando a escova sobre a penteadeira, virou-se para ele. — Você
também é importante, Duncan. Era isso que queria ouvir? Claro que é, do contrário eu
não estaria mais com você. Mas não complique as coisas, por favor.
— Engraçado, juro que pensei que as estava facilitando. O que sente por mim?
— Muitas coisas. Sinto desejo, mas acho que isso já está mais do que evidente. Gosto de
estar com você. — Sorrindo, aproximou-se e colocou as mãos sobre o peito dele. —
Gosto de seu estilo, de seu rosto bonito e simplesmente adoro seu corpo.
O brilho de divertimento que ela esperava ver nos olhos dele não apareceu. Continuaram
se entreolhando por alguns segundos, antes de Duncan quebrar o silêncio.
— E se não houvesse sexo?
— E difícil dizer. — Ela deu de ombros, indo arrumar os cosméticos sobre a penteadeira.
— É difícil dizer quando o temos com tanta... freqüência. Mas, pelo bem do argumento...
— Virou-se para ele. — Eu continuaria gostando de você. E uma pessoa muito agradável
e não tenho muitos amigos. Nunca fico em um lugar por tempo suficiente para fazer
amizades duradouras e assumir os riscos que elas envolvem. Mas você é uma exceção.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
113
Duncan arqueou uma sobrancelha. Estranho que estivesse se sentindo contente e irritado
ao mesmo tempo.
— Então somos amigos?
— Não somos? — Cal sorriu.
Acho que sim. — Duncan deu a ela o mesmo sorriso fácil que ela lhe dera.
— Bem, doçura, logo estaremos atracando e tenho trabalho a fazer
— anunciou ele, mudando de repente de tom.
Nos veremos por aí.
— Cat sentiu-se aliviada ao notar que um novo motivo de discussão se
esvaíra sem maiores conseqüências.
— Oh, e Duncan? É muito bom trabalhar com você, coração.
Ele sorriu ao abrir a porta. Mas quando a fechou atrás de si, estreitou o olhar
e tornou-se sério de repente.
Sempre se considerara um homem de sorte, mas que tipo de sorte era aquela que o fazia
se apaixonar perdidamente por uma garota que não seguia nenhum padrão?
O amor era uni jogo que ele só esperava jogar quando estivesse preparado. Porém, as
cartas já haviam sido distribuídas e, dali em diante, ele teria de cuidar para que Cat não
desse a cartada final. Sim, porque quando Duncan Blade entrava em um jogo, era para
vencer
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
114
18
Durante o resto da semana, Duncan deixou o jogo prosseguir, mas manteve algumas
cartas na manga.
Não estava sendo exatamente um sacrifício, pensou consigo enquanto se encaminhava
para o cassino. Quanto mais Cat relaxava, mais... demonstrativa ela se tornava.
Além disso, gostava de ver o jeito divertido com que ela flertava com seu avô, e a maneira
como ela foi se aproximando gradualmente de sua avó. Em uma das vezes, chegara até a
ver as duas debruçadas no gradil do deque central. Ao observá-las de longe, teve quase
certeza de que a sexy Cat Farrell e a serena Anna MacGregor estavam trocando
segredos. Um verdadeiro milagre.
Precisava falar com Cat, mas ainda não havia encontrado uma oportunidade adequada
durante toda aquela tarde. Revira o contrato dela, para se lembrar dos detalhes da
proposta. Pareceu-lhe justo fazer isso antes de falar com o empresário de Cat para
renová-lo.
Além disso, havia também a notícia sobre o telefonema que recebera pela manhã de
Reed Valentine, da Valentine Re-cords. Tinha certeza de que Cat ficaria contente ao
saber que a fita que ela gravara deixara o produtor entusiasmado.
Não queria dar a notícia a ela sem um clima especial. Uma notícia como aquela merecia
um contexto mais requintado, e ele já havia tomado duas providências com relação
àquilo. Cat receberia a boa notícia após a segunda apresentação daquela noite.
Ao pensar nisso, um sorriso curvou seus lábios bem no momento em que passava por
uma mesa de apostas. Uma das irmãs Kingston lhe segurou a mão.
— Oh, sentirei falta disso — insinuou ela, mostrando seu melhor sorriso. — Não acredito
que nosso passeio tenha de terminar amanhã.
— Espero que tenha gostado.
Com qual delas estaria mesmo falando?, ele se perguntou. Cindi? Sandi? Candi?
—
Oh,
adorei
cada
minuto.
Já
estamos
a viagem de novo no próximo ano. É muito divertida.
pensando
em
fazer
— Fico contente que tenham gostado. Está tendo sorte? Ela não desviou os olhos muito
azuis dos dele.
— Não tanto quanto eu gostaria. Duncan riu, entendendo a indireta.
— Estou me referindo às apostas.
— Nisso também, mas pelo menos me distrai.
Ele estava prestes a fazer um comentário quando viu Cat entrar no cassino. Então todo o
resto sumiu de sua mente.
— Com licença.
A loira ficou olhando ele se afastar e suspirou alto.
—
Algumas
querem
toda
a
sorte
do
mundo
desabafou ela para a pessoa que estava organizando as apostas.
só
para
si
—
Enquanto Duncan se aproximava, Cat o observou com atenção. A imagem lembrou a de
um felino se esgueirando com habilidade por entre as mesas, em meio ao som sedutor de
fichas e de roletas. Sim, sem dúvida aquele era o mundo de Duncan.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
115
— Ei, nunca veio até aqui — disse ele, segurando a mão dela e brincando com seus
dedos.
— Eu não tinha motivo. Nem tenho, mas...
— Nunca quebra nenhuma das regras que impõe para si mesma? — perguntou ele.
— Todo o tempo, coração.
— Quer jogar?
— Só tenho vinte minutos até o início do show.
— E tempo mais do que suficiente. — Avistando uma mesa vazia, fez um sinal para irem
até lá, satisfeito por Cat ter ido visitar seu lugar preferido. — Venha. Pertenço a longa
linhagem de apostadores.
— Oh, claro que sim — zombou ela.
— Bem, uma curta linhagem então. Minha mãe gostava de jogar. Foi assim que conheceu
meu pai.
— E mesmo? — Cat se surpreendeu. — E quem venceu?
— Os dois. Vou lhe emprestar cem dólares em fichas.
— Posso cobrir minhas apostas.
— Ótimo, então está com crédito. — Com habilidade, Duncan separou um grupo de
fichas. — Está especialmente deliciosa esta noite, doçura.
Cat sorriu, disfarçando o arrepio que o elogio lhe provocara. O vestido azul-marinlio com
detalhes prateados moldava cada curva de seu corpo, deixando-a mais feminina do que
nunca.
Enquanto fazia pequenas apostas e via Duncan manipular as cartas com destreza, Cat
notou que ele era mesmo muito bom naquilo. De fato, Duncan era bom em qualquer tipo
de jogo. Só que ela também era. A diferença era que ela jogava para sobreviver. Por isso,
nunca podia se dar ao luxo de perder. Não podia perder tempo nem dinheiro, e muito
menos seu coração.
Durante o jogo, começou a perder as apostas, mas isso não foi o que mais a incomodou,
já que se tratava de apostas pequenas. Sua maior preocupação era estar perciendo
terreno para Duncan. Cada vez que se encontravam, ele parecia ter o poder de induzi-la a
ceder um pouco mais. Por isso, tinha a inquietadora impressão de estar começando a
perder o controle do jogo.
— E muito bom nisso, Duncan — disse, enquanto ele arrumava as fichas.
— E meu trabalho.
— Bem, já que perdi trinta dólares em apenas cinco minutos, acho que está na hora de
parar. Desse jeito, acabarei perdendo o vestido antes do show.
— Poderemos jogar apostando peças de roupa depois — insinuou Duncan.
Cat sorriu e inclinou-se sobre a mesa, na direção dele. Com esse jogo ela sabia lidar.
— Vim apenas para lhe dizer que terei uma surpresa para seu avô no final da segunda
apresentação. Achei que você iria gostar de ver do que se trata.
— E o que é?
— Vá até o salão na hora do show e descobrirá. — Cat olhou de soslaio para a loira
sentada à outra mesa. — Isto é, se conseguir se livrar de seu harém, claro.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
116
— Sabe que sou todo seu, doçura.
— Sim — anuiu ela, tocando o rosto dele, antes de endireitar o corpo. — Mas quero
confirmar isso depois. Afinal, preciso recuperar minha perda no jogo de alguma maneira.
Dizendo isso, retirou-se mexendo os quadris com tanta sensualidade que fez Duncan
engolir em seco. Definitivamente, ele teria cie se encontrar com ela depois.
Quando Cat terminou a segunda apresentação, notou que Duncan havia entrado no salão
minutos antes e estava fazendo companhia aos avós, em uma das mesas. Havia
combinado o tempo certo com Anna, por isso saiu do foco das luzes do palco quando as
pessoas começaram a se dispersar.
Por experiência, sabia que alguns passageiros ficariam no bar e outros às mesas. Porém,
considerava que aquela seria uma apresentação exclusiva. Talvez por isso estivesse
sentindo aquele frio de antecipação no estômago.
— Não entendo qual é seu problema, rapaz — resmungou Daniel. — Essa garota foi feita
para você!
— Daniel.
Anna apenas suspirou. Também havia chegado à mesma conclusão, mas não queria que
o marido acabasse dizendo algo que atrapalhasse o andamento das coisas.
— Deixe Duncan em paz. Ele já é um adulto.
— E exatamente esse o problema! Quando é que ele vai cumprir sua obrigação? Quando
decidirá criar juízo e se casar, como alguém da idade dele deve fazer? Se ele deixar essa
garota escapar, eu... Ora, não estará honrando o sangue que tem nas veias! — bradou,
cruzando os braços e encostando-se na cadeira.
Sabendo que aquilo deixaria seu avô morrendo de inveja, Duncan tirou um fino charuto do
bolso e colocou-o na boca. Ao acendê-lo, soltou uma generosa baforada, divertindo-se
com o brilho de indignação e de desejo que viu nos olhos de Daniel.
— Quem disse que vou deixá-la escapar?
— Se tivesse um pouco mais de percepção, veria... — Daniel se interrompeu se repente,
parecendo desistir de dizer algo. Disfarçando, deu um tapinha nas costas do neto e continuou: — Hah! Então é isso! Eu não lhe disse que o rapaz era brilhante, Anna? Não
avisei para não se preocupar?
— Constantemente, Daniel. — Anna pousou as mãos sobre as do neto, olhando-o com
uni ar carinhoso. — Gosto muito dela, Duncan.
— Eu sei. Mas o mantenha fora disso, sim, vovó? Deixe que eu resolva tudo sozinho.
— Me manter fora?!
Daniel protestou com tanta ênfase que algumas cabeças se voltaram em sua direção.
— Ora, seu ingrato, pois não estaria nisso se eu...
— O quê, Daniel? — Anna o interrompeu com o mais doce dos sorrisos. — Não interferiu
na vida de outro de nossos netos, interferiu?
— Ah. Não, claro que não. Não fiz nada. Eu quis apenas dizer... Dizer o que disse! —
Daniel achou melhor se retirar, antes que acabasse se deixando levar por seu sangue
quente. — E melhor irmos andando, querida. Precisa descansar.
— Espere um pouco. Quero terminar meu vinho.
Então levantou o copo, fazendo o gesto que havia combinado com Cat. Entendendo o
sinal, ela voltou para o centro iluminado do palco.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
117
— Daniel MacGregor? Tenho algo para você.
— Ora, então o que está fazendo parada aí? Venha até aqui e me dê, seja lá o que for.
— O que quero lhe dar sairá daqui — ela apontou para o palco — e daqui — levou a mão
ao coração.
Então Cat cantou para ele a antiga balada escocesa Loch Loman. Mantendo os olhos
nos,dele, notou um brilho de lágrimas mesmo a distância. E sentiu os seus também
ficarem marejados em resposta.
Duncan havia aceitado, ainda que parcialmente, a idéia de estar apaixonado por Cat. Mas
vê-la ali, cantando com tanto sentimento para o homem que ocupava um lugar tão
importante em seu coração foi demais para ele. Se já não soubesse, naquele momento
teria de admitir que estava apaixonado por ela.
Porém, não sentiu o choque que imaginou que sentiria quando algum dia se descobrisse
apaixonado. O sentimento parecia preencher seu peito de uma maneira acolhedora, e
graças a Cat. De súbito, deu-se conta de quanto sua vida mudaria dali em diante. Tudo
que restava fazer seria encontrar uma maneira de ter Cat a seu lado para sempre.
Ouviu o avô suspirar a seu lado e pegar um lenço para enxugar as lágrimas quando a
música terminou.
— Essa menina é incrível — disse Daniel.
Cat desceu do palco e beijou-o no rosto.
— Sentirei sua falta, Daniel. De verdade.
— Ora, ora...
Para surpresa de Cat, o velho MacGregor sentou-a no colo dele e a abraçou.
— Duncan, vamos caminhar um pouco — sugeriu Anna. Pegando a mão do neto, afastouo da mesa. — Essa menina está precisando de amor — afirmou quando Duncan olhou
para trás e avistou Cat abraçada a seu avô.
— Tenho amor para oferecer a ela — disse à avó. — Mas ainda preciso convencê-la
disso.
Anna acariciou a mão dele.
— Aposto em você.
Duncan sabia que Cat estava cansada. Notou isso nos olhos dela quando levou-a até sua
cabina. Ela não era do tipo que demonstrava as emoções com freqüência. Para alguém
assim, passar por tal experiência devia ser muito desgastante.
— O que fez para homenagear meu avô foi muito comovente.
— Adoro seu avô.
De fato, Cat andava preocupada com o fato de estar se importando tanto com pessoas
com as quais não teria ligação depois de algum tempo.
— Acho que o sentimento é mútuo — respondeu Duncan. — Se não fosse por minha avó,
e por quase setenta anos na diferença de idade entre vocês, eu ficaria preocupado.
Cat riu, disfarçando um bocejo quando voltou a ficar séria.
— Eu não ficaria tão tranqüilo assim, se fosse você — brincou.
Duncan abriu a porta e ficou de lado para ela entrar primeiro. Cat se surpreendeu ao ver a
cabina iluminada pelas velas de um candelabro e um brilho de cristais vindo da mesa.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
118
— O que é isso?
— Achei que aceitaria quebrar outra regra. Aproximando-se do balde prateado deixado
sobre a mesa, tirou dele uma garrafa gelada.
— Champanhe? — Cat assobiou ao ver a etiqueta. — E do melhor. O que vamos
celebrar?
— Já chegarei lá. Quer o champanhe agora?
— Não gosto de beber, mas champanhe francês tem de ser uma exceção à regra. Foi por
isso que não quis que eu trocasse de roupa depois do show? Queria que eu estivesse
devidamente vestida para honrar o champanhe?
— Não. Na verdade, pedi que não mudasse de roupa porque eu mesmo queria despi-la.
No momento certo, claro.
Com habilidade, Duncan abriu a garrafa, provocando um breve estampido. Depois de
encher duas taças, entregou uma a ela e brindou:
— A sua privilegiada garganta. Cat riu, provando o champanhe.
— Meu Deus, como pude viver até hoje sem provar isso? — disse, fechando os olhos por
um instante.
— Estamos chegando na última semana de seu contrato. Cat deu graças por já haver
engolido a bebida, do contrário, provavelmente teria se engasgado.
— Sim, eu sei. Foi uma ótima experiência.
— Quero prolongar a temporada.
Ela sentiu o coração começar a bater mais forte.
— Ora, então vamos brindar a isso também — propôs.
— Queria conversar com você, antes de telefonar para seu empresário.
— Eu o despedi, Duncan. Portanto, pode falar diretamente comigo.
— Você o despediu? — Duncan apertou os lábios, antes de assentir. — Foi uma atitude
sensata, mas precisará de alguém para rèpresentá-Ia.
— Ninguém bateu à minha porta nos últimos tempos, coração. Mas tentarei arranjar um
empresário quando for preciso.
— Já está sendo, Cat. Reed Valentine quer marcar uma reunião e combinar os detalhes
de uma gravação experimental no estúdio dele, em Nova York. Quando você puder, claro.
Cat sentiu o ar fugir de seus pulmões. De repente, tudo pareceu estar distante, exceto as
fortes batidas de seu coração.
— Reed Valentine? Da Valentine Records? Uma reunião comigo? Por quê?
— Puxa, quantas perguntas. — Duncan riu. — Reed quer marcar uma reunião porque
ficou muito impressionado com a fita que você gravou.
— Você a enviou para ele?
— Eu lhe disse que mandaria para um de meus contatos. Cat tentou recuperar o fôlego,
mas teve dificuldade. Valentine Records? Não era possível!
— Não está acreditando em mim, Cat? Não brinco com coisas como essa.
— Não é isso. Claro que acredito, mas é que estou com falta de ar.
Preocupado, Duncan se aproximou dela. Cat havia ficado muito pálida de repente.
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119
— Sente-se um pouco.
— Não. Sim. Quer dizer, não. Preciso de um pouco de ar. Entregou a taça de champanhe
a ele e saiu para a varanda.
Estava zonza, sentindo-se como se houvesse tomado toda a garrafa de champanhe de
um só gole. Apoiando-se no gradil, ficou olhando as águas calmas do rio.
— Não era o que você queria?
Mantendo-se de costas para Duncan, Cat fechou os olhos, ao senti-los cheios de
lágrimas.
— Esperei por isso durante toda minha vida, Duncan. E tudo que eu sempre quis. Eu
queria uma chance, apenas uma chance para provar que posso ser alguém. —
Interrompeu-se um instante, contendo a vontade de chorar. — Preciso de um minuto,
Duncan. Está bem? Me dê apenas um minuto.
Em vez de deixá-la, porém, Duncan virou-a de frente para ele. Então notou os olhos dela
marejados de lágrimas.
— Pensei que soubesse quanto isso significava para você, mas vejo que me enganei. —
Falando com gentileza, enxugou uma lágrima que rolou pelo rosto dela. — Eu deveria ter
encontrado uma maneira melhor de lhe dar a notícia.
— Não, tudo bem. Não se preocupe com isso.
Cat ficara assustada com a possibilidade que Duncan estava lhe oferecendo.
— Apenas me deixe sozinha por um minuto, sim? — pediu mais uma vez. — Preciso me
recompor.
— Não, não precisa. — Ele se aproximou mais dela. — Precisa se dar mais liberdade,
Cat.
Ela respirou fundo, mas acabou soluçando alto. Então encostou o rosto junto ao peito
dele, abraçando-o com firmeza.
— Isso é tudo para mim — confessou. — Tudo! Mesmo que mudem de idéia e que
detestem meu trabalho, já terá sido suficiente. Pelo menos poderei dizer que tive uma
chance. Nunca vou poder retribuir o que fez por mim, Duncan.
— Não há nada a retribuir. Cat...
— É tudo — ela repetiu, afastando-se e segurando o rosto dele entre as mãos. — Oh,
estou tão agradecida, Duncan. — Beijou-o com paixão. — Deixe-me mostrar...
— Cat, não estou à procura de gratidão.
— Mas preciso lhe oferecer a minha. — Ela o beijou mais uma vez. — Deixe-me
agradecer, por favor.
19
Cat havia agido como uma feiticeira, pensou Duncan, à luz do dia. Mais do que nunca ele
sentira o que era estar sob o poder daquele feitiço.
Sentira vontade de dizer a ela que a amava e de pedir que Cat ficasse a seu lado para
sempre. Mas não lhe parecera justo propor isso em um momento em que ela se
encontrava envolvida por um conflito emocional. Por isso, preferira esperar por uma
oportunidade mais apropriada.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
120
Esperaria até a noite. Então o ar estaria mais ameno e ambos se encontrariam sozinhos
acima do rio. Além disso, aquele intervalo de tempo lhe daria chance de pensar com
cuidado em como se dirigir a ela, e quais as palavras e o tom que deveria usar. Gostaria
de ter mais segurança quanto à reação que Cat teria, mas era impossível prever.
Provavelmente, aquele par de alianças pesaria em seu bolso durante todo o dia.
Comprara as jóias depois de se despedir de seus avós, que haviam partido pela manhã.
Pelo visto, a melhor maneira de fazer o tempo passar seria preenchê-lo com trabalho.
Cat havia se preparado durante toda a manhã e pensara muito sobre o que acontecera.
Só havia uma resposta para aquilo. Duncan lhe dera algo que ela desejara durante toda a
vida. E sem lhe cobrar nada em troca.
A única maneira de retribuir o que ele fizera seria sair da vida dele de tuna forma rápida e
honesta. Nada de mágoas nem de ressentimentos, disse a si mesma, enquanto subia a
escada em direção ao escritório dele.
Suas pernas estavam trêmulas. Parou um instante, censu-rando-se pela falta de
autocontrole e também admitindo para si mesma que sua atitude não estava sendo nobre.
Aquilo era uma fuga.
Não sabia como lidar com o que sentia por Duncan, essa era a verdade. E por que diabos
deveria saber? Nunca amara antes.
Por isso, seria mais justo terminar tudo antes que ela acabasse indo além. Antes que
começasse a pensar que havia um lugar para ela na vida de Duncan Blade. Claro que
não havia.
Poderia esperar mais uma semana, até o final do contrato, mas achou que seria covardia
de sua parte. A atitude mais decente e profissional seria dar a ele tempo suficiente para
colocar uma pessoa em seu lugar. Não iria retribuir o que Duncan fizera atrapalhando o
negócio que ele administrava com tanto zelo, nem tampouco arruinando a vida dele.
Problema seu que houvesse acabado se apaixonando por ele. Abrira seu coração demais
e, dali em diante, teria de pagar o preço por sua insensatez. Ao pensar nisso, porém, a
possibilidade de realizar o sonho que ela alimentara durante tanto tempo não lhe pareceu
mais tão animador.
Então lembrou a si mesma que Cat Farrell era uma mulher de palavra, que enfrentava as
responsabilidades em períodos bons ou ruins da vida. Foi pensando nisso que chegou ao
escritório de Duncan e o viu através da janela. Seu peito pareceu apertado de repente.
Oh, Deus, ele era tão perfeito em todos os sentidos. Duncan era gentil e carinhoso, tinha
integridade, e era ambicioso, como ela.
O perigoso Duncan, arrasador de corações, pensou. Com certeza, ele já teria esquecido
seu nome antes do final do verão.
Respirando fundo, jogou os cabelos para trás e entrou no escritório.
— Tem um minuto, chefe?
Duncan se encostou na cadeira, deixando de lado os papéis que estivera lendo.
— Acho que posso arranjar algum tempo para você — brincou. — Como está se
sentindo?
— Ainda nas nuvens. Viu quando seus avós partiram?
— Sim. Eles vão passar um dia em Nova Orleans, antes de pegarem um vôo para Boston
e irem visitar minha irmã e meus primos. Disseram que irão visitar meus tios Caine e
Diana. Aposto que vovô não perderá a chance de perseguir meu primo Ian por alguns
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
121
dias, censurando-o por ele ainda estar solteiro. "Um jovem e brilhante advogado ainda
solteiro? Imagine!" — ele imitou a maneira como Daniel costumava falar. — Acho que
depois também passarão por Maine, para que o velho MacGregor possa importunar um
pouco o lado Campbell da família.
Cat sorriu.
— Isso o mantém rejuvenescido.
— Então ele vai ficar com noventa anos para sempre porque nunca vai parar com isso.
— A família é a vida dele.
— Eu sei — anuiu Duncan. — Aprendeu a conhecê-lo bem rápido.
— Aprendi a amá-lo bem rápido. Aliás, a amar todos vocês. Recebi um convite de Daniel
— contou, com um brilho de satisfação no olhar. — Ele me disse para visitar Hyannis Port
quando quiser. Já vi fotos do castelo que ele construiu por lá. E fascinante.
—
Então
daremos
um
jeito
para
que
o
Não até que ela tivesse certeza de poder sair com o coração
conheça
pessoalmente.
intacto de uma visita como aquela, pensou Cat. Provavelmente, isso nunca aconteceria.
Sentando-se e cruzando as pernas, preparou-se para mostrar o desempenho mais
importante de sua vida.
— Não quero interromper seu trabalho por muito tempo, mas há alguns assuntos sobre os
quais precisamos conversar.
— Está bem. Eu ia procurá-la mais tarde de qualquer maneira. — Duncan abriu uma
pasta e pegou o contrato. — Coloquei apenas uma cláusula a mais, com um aumento
garantido de cinco por cento no seu salário a partir do dia em que ele começar a valer.
Todo o resto continua igual ao contrato anterior. Se não quiser assiná-lo sem alguém para
aconselhá-la, poderemos procurar um advogado em Nova Orleans, ou em algum dos
portos onde pararmos na volta para Saint Louis.
— Não tenho receio de assinar um contrato feito por você, Duncan. Mesmo assim, tenho
o hábito de ler absolutamente tudo antes de assinar qualquer documento.
— É o correto. Então fique com este e leia-o novamente.
— Não é preciso porque não vou assinar.
Duncan ficou segurando os papéis no ar por alguns segundos, antes de colocá-los sobre
a mesa.
— O que disse?
— Não quero o prolongamento do contrato. Até onde sei, quando atracarmos em Saint
Louis, no próximo fim de semana, estarei livre do contrato.
— Tire os óculos.
— Está muito claro aqui — protestou Cat.
— Se quer falar de negócios, quero que me olhe nos olhos.
Hesitante, ela tirou os óculos e pendurou-os na blusa. Duncan fitou-a com atenção, em
busca de detalhes que apenas um apostador sabia observar. Se Cat estava blefando,
também era uma ótima atriz, pensou ele.
— Quer negociar novas condições?
— Não foi o que eu disse. Tenho uma nova oportunidade pela frente, coração, e graças a
você. Não há motivo para eu passar mais seis semanas em um barco sendo que eu
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
122
poderia estar em Nova York.
— Entendo. Mas se leu seu contrato, Cat, já deve estar sabendo que tenho o direito a
essa última opção. Portanto, você terá de cumpri-la.
Bem, ela não achara mesmo que Duncan iria facilitar as coisas.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
123
— Espero que me deixe sair sem maiores problemas, em nome dos velhos tempos.
Duncan ficou de pé e abriu o frigobar. Pegou duas garrafas de água. Estava se sentindo
como se houvessem jogado um balde de água fria sobre sua cabeça.
— Estamos falando de negócios, Cat. Não tem nada a ver com o fato de estarmos
dormindo juntos. Quer um copo?
Cat pegou a garrafa com um gesto um tanto brusco. De certa forma, aquilo aliviou um
pouco a apreensão de Duncan. Ela não estava tão indiferente quanto queria demonstrar.
O que Cat queria afinal? O que estaria se passando pela mente dela?
— Está bem, nada de favores. E justo — afirmou Cat, tomando um generoso gole de
água na própria garrafa. — Se é assim, então me processe.
— Primeiro vamos tentar resolver isso como profissionais. Notou que ela enrubesceu
ligeiramente ao ouvir aquilo.
Se ainda havia um pouco de emoção ali, ele poderia utilizá-la.
— Você está querendo ir para Nova York se encontrar com Valentine. Não a culpo por
isso. Quando chegarmos a Saint Louis, você pode ir... — Ele levantou a mão quando ela
fez menção de falar. — Conseguirei alguém para se apresentar no seu lugar por uma
semana. Então voltará para Nova Or-leans, onde o barco estará atracado, e cumprirá o
restante de seu contrato. Assim, não haverá prejuízo para ninguém.
— Não gostei da proposta.
— E pegar ou largar — disse Duncan.
— Prefiro largar. — Cat ficou de pé.
— Sente-se.
— Não me diga o que fazer.
— O negócio está concluído. Agora vem a parte pessoal, e eu disse para você se sentar.
Sem deixar de olhá-lo, Cat tomou outro gole de água, mas se manteve de pé.
— Decidiu agir assim agora, Duncan? Seu ego ficou ferido ou algo do gênero?
— Acha mesmo que vou deixá-la ir embora assim, sem mais nem menos?
— Sim, porque se não deixar, vou ferir muito mais do que seu ego. Ouça, foi divertido e
lhe devo muito pelo que fez. Mas está na hora de pôr um fim na história.
— E isso é o que você sabe fazer melhor, não? Mudar de um lugar para outro.
— Sim.
Antes que ela pudesse impedir, uma sombra de arrependimento surgiu nos olhos de Cat.
— Desculpe-me por ter de pensar mais em mim agora. Mas não vou esquecê-lo, coração.
Foi então que ela cometeu o erro de sorrir e de tocar o rosto dele. Seu sorriso
desapareceu de imediato quando Duncan lhe segurou o pulso.
— Está trêmula, coração.
— Não, não estou — refutou ela. — Está frio aqui, só isso.
— Por que está tremendo, Cat?
— Você está me machucando.
— Não, não estou. — Os dedos dele mal estavam circundando o pulso dela. — Você, por
outro lado, está fazendo o possível para me magoar. Por quê?
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
124
— Não quero magoá-lo, Duncan. — A emoção deixou-a com a voz trêmula. — Droga,
deixe-me ir embora!
— Nem pensar. Então quer me deixar? Sem mágoas nem ressentimentos? Pois está
mentindo. Não é tão boa atriz quanto imaginou ser.
— Estou vendo que não tem muita experiência em levar foras, não é?
Duncan arqueou uma sobrancelha.
— Ah, então é isso. Está querendo me dar o fora antes que eu possa fazer isso com você.
— Mais ou menos.
— Cat, pare de agir feito criança e vamos colocar as cartas sobre a mesa, está bem? Eu
te amo e você vai se casar comigo.
— O quê?! Você ficou maluco?
— Quero ficar com você, portanto, acostume-se à idéia — avisou ele.
Ela estreitou o olhar.
— Quem diabos você pensa que é? Oh, estou sem ar. — Levou a mão ao peito, tentando
recuperar o fôlego. — Droga — resmungou.
— Engraçado, teve essa mesma reação ontem à noite, quando lhe contei sobre Valentine.
Algo que você disse haver desejado durante toda a vida. — Duncan se aproximou mais
dela. — Existe algo mais que você desejava com a mesma intensidade, Cat?
— Não. Fique longe de mim. Preciso de um pouco de ar.
— Você não irá a nenhum lugar. — Segurando-a pelo braço, fez com que ela se sentasse
na cadeira. — Temos uma tradição na minha família. — Ele tirou uma moeda do bolso.
— Cara, você se casa comigo, coroa, você pode partir.
— Oh, claro — respondeu Cat, em vim tom evasivo.
— Combinado.
— Ei, mas eu não...
Duncan jogou a moeda para o ar e pegou-a no dorso da mão.
— Cara. Venci. Quer um casamento suntuoso ou uma cerimônia mais simples?
Cat não disse nada. Já havia recuperado o fôlego e seu coração não estava mais
parecendo querer escapar de seu peito. Duncan estava aborrecido. Podia notar isso nos
olhos dele. Por trás daquele sorriso irônico havia fúria, indignação.
— Duncan, pessoas sensatas não decidem se casar jogando cara ou coroa.
— Meus pais decidiram assim, e eu também decidirei. A não ser que prefira apostar.
— Não faço apostas.
Apoiando as mãos na cadeira dela, Duncan se inclinou para a frente.
— Eu te amo, Cat.
— Pare com isso — pediu ela, em um fio de voz.
— Eu te amo — ele repetiu. — É suficiente para mim. Eu sabia que algum dia isso
aconteceria, quando eu estivesse no lugar e no momento certo, diante da pessoa certa.
Quando acontecesse, seria suficiente para mim. Eu te amo, Catherine Mary. Agora diga
que não me ama.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
125
— Não.
— Não o quê?
— Oh, afaste-se de mim, Duncan. Como posso pensar direito com seu rosto a
centímetros do meu?
— Apenas responda — insistiu ele, roçando os lábios nos dela. — Mas seja convincente.
— Não vai dar certo.
— Não foi o que eu lhe perguntei.
— Eu estava lhe fazendo um favor.
— Muito obrigado — ironizou ele. — Agora responda.
— Afaste-se, Duncan. Está me sufocando.
Ele sorriu e se afastou, depois de ver a resposta nos olhos dela.
— Está bem. Dar a resposta de pé faz mais o seu estilo. Cat ficou de pé, sem se importar
com a provocação.
— Quero continuar com minha carreira.
— Eu também.
Ela notou que Duncan falara sério. Enfiando as mãos nos bolsos, falou:
— Não preciso de uma casa no campo com uma cerca pintada de branco.
— Pelo amor de Deus! Essa idéia sempre me aterrorizou. A maneira como ele disse
aquilo fez Cat rir.
— Está falando sério?
— Completamente. Eu costumava ter pesadelos com cercas brancas.
— Duncan! Estou tentando ser sincera com você. Preciso que também seja sincero
comigo porque pode acabar me magoando mais do que imagina.
O olhar dele se tornou terno.
— Eu lhe disse que nunca faria isso. E sou um homem de palavra.
Cat respirou fundo.
— Tem certeza de que é isso que quer?
— Certeza absoluta. — Duncan tirou do bolso a caixinha com as alianças. — Adivinhe o
que tenho aqui?
— Ah, meu Deus. Você é mais rápido do que imaginei. Estou com as mãos suadas. Isso
só acontece quando fico real mente nervosa. — Em um gesto infantil, enxugou-as no
short.
— Tudo bem, coração, foi você quem pediu por isso. Lembre-se que eu lhe dei todas as
chances para desistir. Eu te amo e, para mim, isso também é suficiente.
Duncan sorriu.
— Aceito correr o risco. Afinal, nunca tive medo de apostar — disse ele, abrindo a
caixinha.
Uma das alianças era lisa e a outra tinha uma delicada pedra de citrina no centro.
— Oh, meu Deus — murmurou Cat, ao vê-la.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
126
— Quer apostar que acertei no tamanho? — brincou Duncan.
— Não quero mais saber de apostar com você. Sempre acabo perdendo.
Ele enfiou a aliança na mão direita de Cat. O tamanho ficou perfeito.
— Desta vez, você saiu ganhando — ele disse e beijou a mão dela logo acima do anel. —
Negócio fechado?
— Parece que sim. Mas quero ver aquela moeda. Duncan arqueou uma sobrancelha.
Girando a moeda entre os dedos, fez com que ela desaparecesse.
— Que moeda?
Do Diário
de
Daniel Duncan MacGregor
Há momentos que marcam a vida de um homem com a mesma precisão com que um
diamante é capaz de cortar um vidro. A primeira paixão por uma mulher. A primeira troca
de um olhar apaixonado. O primeiro filho, nascido do ventre dessa mesma mulher e
sendo colocado em seus braços... E os acontecimentos da vida do filho, preenchendo a
desse homem com alegrias e tristezas, risos e lágrimas.
Há muitas lembranças assim na minha vida. De fato, muitas para contar e poucas das
quais eu me arrependo. E, de alguma maneira, todas elas compartilhadas com a minha
família.
Outro desses momentos felizes aconteceu recentemente. Vi uma jovem por quem me
afeiçoei muito entrar para a família que formei com minha Anna. Nos últimos dias do
verão, ela fez a meu neto Duncan a promessa de que seria dele. Na verdade, passou a
ser também nossa.
Quando trocaram os votos de casamento e o primeiro beijo como marido e mulher, ela se
inclinou na minha direção e disse: "Obrigada, sr. MacG". — Foi assim que ela passou a
me chamar carinhosamente desde então. — "Obrigada por me escolher para ele."
Ela não é mesmo especial? Não ligo para esse tipo de coisa, mas um homem gosta de
ser elogiado de vez em quando.
Aqueles dois terão lindos filhos. Não que estejamos com pressa, embora Anna, como
sempre, já tenha cogitado a idéia. De qualquer maneira, pelo menos fizemos nossa parte
para colocá-los no caminho certo.
Agora, aqui estou eu diante da janela do meu escritório. Daqui, posso ver as últimas rosas
do jardim de Anna se desvanecendo. Logo o inquieto vento do outono começará a soprar
as pétalas, levando-as para longe. O tempo continua passando, por mais que às vezes
desejemos que ele ande um pouco mais devagar.
Mas se ele não nos dá ouvidos, eis mais um motivo para que não seja desperdiçado.
Ainda tenho netos que precisam ser encaminhados na vida e não posso perder tempo.
Ainda assim, é melhor me manter calado quanto a esse assunto. Outro dia, Anna ralhou
comigo só porque comentei por alto que já estava na época de nosso lan começar a
pensar em casamento.
Tudo bem que ele seja um brilhante advogado, mas a vida de um homem não se torna
completa apenas com a profissão. Deus, parece que foi ontem que o vi andando pela
casa com passinhos incertos, louco para pôr as mãos no vaso de cristal da avó. Nosso
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
127
Ian sempre teve admiração por coisas belas.
Por isso, eu não poderia escolher para ele menos do que uma bela dama. Acho que ela
será o complemento perfeito para o caráter dócil e gentil do meu neto. Está mais do que
evidente que ele está doido para formar uma família. Afinal, não comprou uma casa há
pouco tempo? O que leva um homem a comprar uma casa senão o desejo de formar uma
família?
É admirável que ele já tenha todos os móveis e outros detalhes na casa. Mas o que
realmente forma um lar é a presença da família. Digo isso por experiência própria.
Portanto, o mínimo que posso fazer por meu neto querido é indicar a ele a direção a
seguir, e deixar que continue o caminho por si próprio. Ou pelo menos deixá-lo pensando
que está fazendo isso por si próprio.
*******************************
PARTE III
IAN
20
As vezes, o dia parecia não ter horas suficientes, pensou Ian. Detestava ter de viver
apressado, fosse por um motivo profissional, por prazer ou por outra razão qualquer do
dia-a-dia.
Tinha de admitir que andava a tarefado demais ultimamente. Como se não bastasse o
desgaste diário, ainda era preciso encontrar disposição para enfrentar o trânsito intenso
de Boston no horário de pico.
Mas depois dessa uma última tarefa, finalmente poderia ir para casa. Ou melhor, para seu
novo lar. Só de pensar na elegante construção cercada por um belo jardim sentiu um
sorriso se insinuando em seus lábios e ignorou o barulho a seu redor.
Ao longo dos últimos dois meses, havia visitado lojas de móveis e de departamentos, para
que a decoração ficasse exatamente do jeito que ele queria.
Todas as vezes em que colocava a chave na fechadura e entrava na casa, com suas
paredes bege e as portas envernizadas, sentia que os dias de barulho e de agitação nos
apartamentos acima e abaixo do seu se encontravam muito distantes.
Não que não gostasse de compartilhar o espaço com outras pessoas. Afinal, fora criado
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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em meio a uma família numerosa. Porém, sempre sonhara em ter seu próprio lugar.
Ficaria eternamente grato à sua prima Júlia, que o ajudara a escolher aquela casa perfeita
e aconchegante.
Ele queria um lugar com uma atmosfera antiga e estável, e conseguira encontrá-lo.
Dignidade, estilo e caráter. A necessidade de ter tudo aquilo parecia estar no sangue dos
MacGregor.
Crescera com dignidade, estilo e caráter e estava acostumado a lidar com isso tanto em
casa quanto no trabalho. O escritório de advocacia MacGregor defendia essas três
virtudes, assim como seus pais, seus avós e a família que se formara a partir deles.
Juntamente com os pais e a irmã, ele fazia parte do respeitado escritório de advocacia.
Pretendia deixar sua marca na empresa e contribuir para manter aquelas tradições. Com
o tempo, talvez até conseguisse seguir os passos de seu pai e de seu tio e ir para
Washington.
De vez em quando a imprensa divulgava alguma nota citando que lan MacGregor estava
treinando para a política. Comentavam que ele vinha de uma linhagem familiar favorável a
isso, já que seu pai fora chefe do Departamento de Justiça e seu tio o presidente dos
Estados Unidos.
Segundo alguns jornalistas mais ousados, ele tinha um porte seguro, penetrantes olhos
azuis e um semblante de traços marcantes que faziam as mulheres suspirarem e os
homens confiarem nele.
Certa vez, quando ele ainda estava estudando em Harvard, um tablóide publicara uma
foto dele vestido apenas com uma sumária tanga. O resultado fora um aumento incrível
na venda dos jornais e o título de "Gato de Harvard". O apelido pegara, para seu
embaraço e para divertimento da família. No entanto, tentara encarar o fato com bom
humor. Afinal, que outra escolha ele tinha?
De qualquer maneira, sentira uma doce vingança com aqueles que haviam dito que ele
era apenas mais um rosto bonito tentando usar o prestígio dos MacGregor para conseguir
subir na vida. A doce vingança viera com a primeira colocação na turma em que ele se
formara. Ian conseguira realizar seu intento com razoável facilidade. Gostava de leis
desde que se entendia por gente e mostrar isso aos outros nunca fora difícil para ele.
Por isso, depois de mostrar que era competente, tornara-se o membro mais jovem da
empresa. E esse era seu maior problema. Por ser o mais jovem participante da empresa,
às vezes lhe entregavam serviços mais apropriados para um boy do que para um
advogado que se classificara em primeiro lugar na turma de formatura.
Ao entrar em uma rua secundária, diminuiu a velocidade e procurou por algum
estacionamento, mesmo sabendo que seria difícil encontrar um por ali. Por fim, conseguiu
estacionar a quatro quarteirões de seu destino. Um pouco mais e poderia ler deixado.o
carro em casa e voltado a pé, pensou com ironia.
Após pegar a pasta e sair andando, tentou relaxar e chegou até a olhar algumas vitrines
no caminho até a Brightstone's.
Corriam os primeiros dias do outono. Ele sempre considerara que aquela época tinha um
clima perfeito na Nova Inglaterra. Enquanto andava, prometeu a si mesmo que se
presentearia com uma taça de vinho quando chegasse em casa. Então sentaria em sua
poltrona preferida e desfrutaria de seu pequeno reino.
Com as pontas do sobretudo balançando ao vento, parou diante da Brightstone's e
observou o prédio antigo feito de tijolos vermelhos. A livraria era uma verdadeira
instituição em Boston. Na cidade, a Brightstone's era sinônimo de bons livros.
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Ainda se lembrava da época em que ia até ali com sua mãe e saía correndo direto para a
seção de livros infantis. Os funcionários eram sempre muito prestativos e discretos, deixando os clientes à vontade.
De fato^ as horas agradáveis que passara ali o levaram a pensar seriamente em montar
uma biblioteca em um dos cômodos que ainda estavam vazios em sua nova casa.
Ao entrar na livraria, ficou contente ao notar o mesmo ambiente que ele conhecera na
infância. O teto alto, o assoalho impecavelmente polido e a maravilhosa variedade de
livros expostos.
Lembrava-se de que o segundo andar abrigava livros de história, biografias e outros de
autores locais. O terceiro andar, no entanto, era seu lugar preferido: o precioso recanto
dos livros raros.
Ao observar a quantidade de pessoas presentes, imaginou que o negócio estivesse indo
bem. Cerca de um ano antes, ouvira dizer que a antiga instituição de Boston estava com
sérios problemas financeiros e com dificuldade para competir com as megastores.
Alguns clientes estavam examinando as prateleiras de livros enquanto outros se
encontravam acomodados nas cadeiras acol-choadas e nas mesas de leitura. Aquilo era
novo, não?, Ian se perguntou. Notou que um pequeno café havia sido montado ao lado da
escada que dava acesso aos andares superiores.
A tranqüila música new age tocando ao fundo tornava o ambiente ainda mais agradável.
Parecia bem diferente da seleta música clássica que ele costumava ouvir ali quando
visitava a livraria durante a infância.
Curioso, seguiu em frente e notou que a ala infantil continuava como antes. A única
diferença era que haviam acrescentado uma grande caixa com brinquedos plásticos para
as crianças e alguns pôsteres com cenas de contos de fada.
Ao se aproximar da escada, o delicioso aroma de café invadiu suas narinas, levando-o a
desejar tomar uma xícara da bebida. "Muito perspicaz", pensou ele. Seria difícil alguém
sair dali resistindo à tentação de tomar uma xícara de café e de comprar um livro.
Convencendo-se de que não tinha tempo para nenhuma das opções, encaminhou-se para
a área administrativa e chamou a atenção de um funcionário.
— Sou Ian MacGregor e vim falar com Naomi Brightstone. Ela está à minha espera.
— A srta. Brighstone se encontra no escritório dela, no segundo andar. Quer que eu o
acompanhe até lá, senhor?
Pelo visto, os funcionários prestativos e bem-educados continuavam sendo uma das
marcas registradas da livraria. Ian sorriu e balançou a cabeça negativamente.
— Não, obrigado. Irei sozinho.
— Então vou apenas avisá-la de que o senhor está subindo.
— Eu agradeço. Ian começou a subir a escada e, de repente, lembrou-se
de sua mãe lhe sorrir naquele mesmo lugar e dizer que, se ele fosse paciente durante as
compras, depois iriam tomar sorvete. Sem dúvida, uma boa lembrança.
Notou que o segundo andar já não parecia mais tão inti-midador como no passado.
Talvez porque ele não fosse mais um garoto com oito anos de idade.
O ambiente estava mais iluminado e as prateleiras, antes de madeira escura, haviam sido
substituídas por outras de cerejeira. Duas longas mesas com cadeiras confortáveis criavam um ambiente mais reservado, semelhante ao de uma biblioteca. No momento, estava
sendo usado por um casal de estudantes adolescentes mais interessados um no outro do
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que nos livros abertos diante deles.
A visão o fez curvar os lábios em um sorriso saudoso. Também havia tido seus namoricos
na época da escola, só que geralmente na biblioteca da escola, um local bem menos
agradável do que aquele.
De fato, namoro era algo que se tornara raro em sua vida nos últimos tempos. Faltava-lhe
tempo até mesmo para isso. Mas não vontade. Sentia falta de uma agradável e carinhosa
companhia feminina.
— Sr. MacGregor?
Ele se virou ao ouvir o chamado. Aquela deveria ser Naomi Brightstone, deduziu,
observando a morena que veio em sua direção. Estava vestida com um elegante tailleur
vermelho e sapatos de salto da mesma cor. Os cabelos muito negros se encontravam
presos em uma trança caída às costas, deixando o rosto atraente emoldurado apenas por
uma discreta franja.
Os lábios cheios estavam ressaltados por um batom da mesma cor da roupa e seus
brincos eram simples argolas douradas. A mão que ela ofereceu a ele não tinha nenhum
anel ou pulseira no pulso.
— Srta. Brightstone?
— Sim. — Ela sorriu. — Lamento não haver descido para recebê-lo.
— Não tem problema. Acabei me atrasando um pouco porque não consegui sair do
escritório no horário marcado.
— Venha até meu escritório — convidou ela. — Deseja alguma coisa? Café? Cappuccino
— Aquele cappuccino é mesmo tão bom quanto parece pelo aroma?
Dessa vez o sorriso dela iluminou também os olhos acinzentados.
— E melhor. Principalmente se for acompanhado por um cie nossos biscoitos de avelã.
— Eu me rendo.
— Não vai se arrepender. — Ela voltou pelo corredor e continuou falando. — Mandarei
alguém trazê-lo até aqui. Desculpe-me pela confusão, nossa reforma ainda não terminou.
— Percebi as modificações. Ficou muito bom.
— Obrigada. — Naomi olhou para ele, antes de abrir uma porta. — Estamos tendo uma
resposta muito boa dos clientes.
O escritório dela aparentava haver sido recentemente reformado. As paredes eram de um
tom perolado e dois quadros estrategicamente posicionados davam um colorido agradável
ao aposento. A mesa de cerejeira era pequena e elegante, provavelmente para combinar
com o estilo e a altura, mais ou menos um metro e sessenta, de Naomi Brightstone.
Com um sorriso, ela indicou uma das cadeiras.
— Sente-se, por favor. Vou pedir o cappuccino.
Ian se acomodou e aproveitou a chance para observá-la melhor. Nos documentos em sua
pasta constava que Naomi era filha dos donos. Segundo seus cálculos, ela pertencia à
quarta geração que administrava a Brightstone Books.
Pensara que ela fosse mais velha, e não uma bela mulher na casa dos vinte anos, cheia
de elegância e estilo. E de belas formas, pensou consigo, observando com interesse o
modo como as curvas femininas preenchiam o tailleur vermelho.
Quando ela desligou o telefone, sentou-se na cadeira diante dele e uniu as mãos sobre o
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colo.
— Já vão trazer — avisou. — Agradeço por haver concordado em me encontrar aqui. A
livraria está tomando todo meu tempo esses dias.
Ian notou que a voz de Naomi era tão suave e tranqüila quanto seu olhar.
— Sei bem o que é isso — disse a ela. — Fico feliz que minha vinda tenha ajudado. Na
verdade, a livraria fica no caminho para minha casa.
— Oh, isso é muito bom. Sua secretária disse que os papéis para eu ler e assinar já
ficaram prontos.
— Sim — Ian confirmou. — Está tudo discriminado como seu pai pediu. — Curioso, ele
abriu a pasta e examinou os papéis. — Ele pretende se aposentar?
— Mais ou menos. Ele e minha mãe querem ter mais tempo para ficar na casa de inverno,
no Arizona. Talvez até se mudem para lá de forma permanente. Meu irmão e a família
dele já fizeram isso.
— E você não pensa em ir morar no oeste?
— Não. Eu adoro Boston. — "E a Brightstone", completou ela, em pensamento. — Assumi
muitas responsabilidades na livraria no último ano.
— A reforma foi idéia sua?
— Sim. — Naomi havia lutado por aquilo com muito empenho. — O mercado muda e com
ele as exigências e as expectativas dos clientes. Era hora de mudar.
Ficou de pé ao ouvir uma batida à porta. Ao pegar a bandeja entregue por um rapaz,
agradeceu e voltou para junto da mesa.
— O café, por exemplo — continuou ela, entregando a xícara a Ian — , é o tipo de serviço
que as pessoas gostam deter em uma livraria hoje em dia. Elas não vêm até aqui apenas
para procurar livros, mas também pela atmosfera do lugar.
— Sorrindo novamente, sentou-se segurando a outra xícara.
— E pelo ótimo café — acrescentou.
— Bem, no momento meu voto vai para o último item — disse Ian, após o primeiro gole.
— Está ótimo. Conferi a documentação e as notas da contabilidade e posso dizer que
suas alterações já estão surtindo efeito.
— Aumentamos as vendas em cinqüenta por cento nos últimos nove meses — salientou
Naomi, preferindo não pensar, pelo menos no momento, no custo de tudo aquilo. —
Minha previsão é de que teremos um aumento de mais quinze por cento nos próximos
seis meses.
— Eu adorava vir aqui quando era criança.
— Veio à Brightstone's no ano passado? Ian balançou a cabeça negativamente.
— Mas prometo que virei mais vezes de agora em diante. — Ele colocou a xícara sobre a
mesa e entregou os papéis a ela. — É melhor ler os documentos. Responderei às dúvidas
que surgirem.
— Obrigada.
Naomi aceitou os papéis e pegou um delicado óculos de leitura com armação dourada.
Quando ela o colocou, Ian não pôde deixar de conter o fôlego por um instante. Sempre
tivera um fraco por mulheres que usavam óculos.
Tentando se ocupar com algo, pegou a xícara novamente e disse a si mesmo para se
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manter na linha. Naomi Brightstone era uma cliente.
Mesmo assim, não conseguiu deixar de admirar o brilho de inteligência dos olhos
acinzentados por trás das lentes cristalinas. Como se não bastasse, aqueles lábios
pintados de vermelho pareciam um convite a um longo beijo. O corpo muito feminino
levemente curvado para a frente, coberto pelo tailleur em estilo militar. Os sapatos
elegantes... Puxa, ela tinha belas pernas.
O andamento da documentação os levaria a se encontrarem de novo, e ele não sabia se
conseguiria resistir àquela tentação. Os MacGregor não eram conhecidos por serem bemcomportados.
De qualquer maneira, concentrou-se no cappuccino, tentando ignorar aquele delicioso
perfume que teimava em invadir suas narinas quando ele afastava a xícara do rosto.
Talvez não houvesse nenhum problema em convidá-la para jantar. Ou melhor, almoçar.
Encontrá-la à luz do dia seria mais seguro, mais profissional. Um almoço casual, durante
o qual ele nem sequer pensaria em roçar os lábios junto à orelha dela para descobrir se o
perfume que ela usava era mesmo tão bom quanto parecia.
Ela usava unhas curtas, bem cuidadas, mas sem nenhum esmalte. Também não usava
nenhuma aliança, indício de que não era comprometida.
Pensando em qual seria a melhor maneira de abordar o assunto do almoço, continuou a
olhá-la enquanto ela se mantinha concentrada em ler o documento.
Naomi leu cada linha e suspirou. Todos aqueles termos legais significavam muito para
ela. Se estivesse sozinha, provavelmente seguraria os documentos junto ao peito e
choraria. Ou gritaria de alegria. Todavia, ao terminar de lê-los, limitou-se apenas a deixálos sobre a mesa e a tirar os óculos.
— Tudo parece estar em ordem — afirmou.
— Alguma pergunta?
— Não, entendi tudo. Estudei um pouco de leis comerciais.
— Ótimo. Pode assiná-los agora, se quiser. Precisa de uma testemunha. Depois vou
mandá-los para seus pais, em Scotts-dale. Quando eles também assinarem, o acordo
estará legalmente aprovado.
— Vou chamar minha assistente — anunciou Naomi. Cinco minutos depois, Naomi
estendeu uma mão firme para ele.
— Obrigada mais uma vez.
— Não precisa agradecer. Estou apenas fazendo meu trabalho. Ouça, tenho uma lista
aqui comigo. Meu avô... você já se encontrou com ele.
— Sim, várias vezes — confirmou ela. Com outro daqueles doces sorrisos, acrescentou:
— Ele e sua avó vêm sempre aqui quando estão em Boston.
— Ele está à procura de algumas primeiras edições — explicou Ian. — Pediu que eu visse
o que você pode fazer quanto a isso, quando soube que eu estava preparando seu novo
contrato.
— Oh, será um prazer. Vamos até o terceiro andar. Se não tivermos o que ele está
procurando, faremos uma pesquisa.
— Ótimo.
Naomi se adiantou até a porta, mas olhou-o com ar de curiosidade quando Ian continuou
no mesmo lugar.
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— Seu perfume é maravilhoso — disse ele.
— Oh.
Ela abaixou o olhar, enrubescendo. As mãos que até então haviam permanecido firmes
uniram-se em um gesto nervoso.
— Obrigada. Ele é... novo. Isto é, eu apenas... Bem, vamos. Ao seguir logo atrás dela, Ian
curvou os lábios em um sorriso. Naomi era ainda mais encantadora do que parecera a
princípio.
21
Naquele momento, nem mesmo o Grand Canyon seria um buraco grande o suficiente
para ela se enterrar, pensou Naomi. Somente o fato de estar cercada por livros, um lugar
mais do que seguro para ela, e de ter de manter seu desempenho profissional
mantiveram-na firme até a partida de Ian MacGregor.
Depois de localizar dois livros da lista e de prometer uma pesquisa quanto ao terceiro,
despedira-se com um formal aperto de mãos e ficara olhando ele descer a escada em
direção à saída.
Então voltara para seu escritório, fechara a porta devagar e deitara a cabeça na mesa.
Era mesmo uma idiota.
Até quando continuaria procurando um lugar para se esconder sempre que um homem
atraente lhe demonstrava interesse? Não deveria ser esse um dos benefícios da mudança
que fizera em si mesma? Afinal, deixara de ser uma garota tímida e desajeitada para se
tornar uma mulher segura e elegante. A mesma que quase se enterrara no buraco mais
próximo só porque Ian MacGregor havia elogiado seu perfume.
Uma semana se passara desde então, e ela ainda não se recuperara por completo. Havia
conseguido encontrar o terceiro livro. O volume se encontrava sobre sua mesa, impecavelmente embalado e pronto para ser entregue por um mensageiro ou pessoalmente. No
entanto, continuava reunindo coragem para dar a notícia a Ian. Era mesmo uma idiota.
Depois de todo o trabalho que tivera, não era possível continuar agindo assim. A reforma
da Brightstone's não fora o único projeto que ela colocara em andamento. Fizera também
uma reforma em si mesma ao longo do último ano.
Perdera peso, depois de se convencer de que deveria parar de alimentar sua timidez e a
insatisfação consigo mesma, e começara a procurar a mulher escondida dentro dela. Uma
mulher que ela não apenas conseguira encontrar, mas de quem passara a gostar.
Uma dieta equilibrada e exercícios físicos se tornaram um hábito depois que ela
entendera que os anos frustrados de sua adolescência não haviam passado de uma
espécie de fuga. Não fora apenas seu guarda-roupa que mudara, pensou ela, recordando
mentalmente o processo. Na verdade, demorara meses até trocar as roupas recatadas
por modelos mais femininos e ousados, criando um estilo mais atraente. Começara a usar
cores mais marcantes, lembrou, olhando para o blazer e a calça de linho verde-limão.
Nada mais de cinza e marrom.
E essas não haviam sido as únicas mudanças. Aprendera a selecionar e a aplicar
maquilagem, perdera o medo de aglomerações e aprendera a se apresentar ao mundo
com uma aparência atraente, dinâmica e profissional.
Jurara a si mesma que nunca mais se permitiria ser tímida nem evitaria as pessoas, como
fizera durante toda sua adolescência simplesmente porque não conseguia ser sofisticada
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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como sua mãe, nem extrovertida e confiante como seu irmão. A Brightstone's precisava
de alguém com estilo e personalidade, e ela se tornara essa pessoa. Vinha sentindo muito
orgulho de seu desempenho. De fato, achava até que havia se saído bem em seu
encontro com Ian MacGregor. Ele era justamente o tipo de homem que a faria dar um
vexame antes mesmo de conseguir cumprimentá-lo.
O "Gato de Harvard". Sem dúvida, ele merecia o título. Era tão bonito, tão elegante e...
Bem, quando sorria era simplesmente irresistível. Duvidava que ela houvesse sido a primeira mulher a sentir o coração acelerar na presença dele.
Ainda assim, saíra-se bem. Haviam tomado café, conversado, falado de negócios... E
bastara um elogio mais pessoal para fazê-la agir feito uma idiota, concluiu com desânimo.
Deus, ela até enxubescera! Justo ela que pensava já haver superado aquela fase. E tudo
por causa de seu perfume.
"E por que diabos usa perfume, Naomi?", perguntou-se. "Você o usa para que as pessoas
notem sua presença, para que se sinta mais feminina e confiante."
Um homem como Ian deveria estar acostumado a fazer elogios daquele tipo às mulheres.
Com certeza, esperava ver uma reação mais natural e sofisticada, talvez até com algum
indício de flerte, e não uma mulher enrubescida feito uma adolescente tímida.
Apostava que ele havia rido até chegar em casa naquele dia. Ou pior: sentira pena dela.
Só de pensar, sentiu uma onda de indignação. Passara a maior parte de sua vida sendo
alvo de divertimento ou da piedade de alguém e não queria mais aquilo para si. Até
mesmo as pessoas da família haviam agido assim, embora dissessem que a amavam.
Quando se era "o patinho feio" em meio a uma família de cisnes, era difícil reunir forças
para dar a volta por cima.
Sua mãe ficara atônita quando a vira pedir conselhos sobre roupas e maquilagem. Antes
de os dois partirem para o Arizona, seu pai lhe dera um forte abraço e, para sua surpresa,
não a chamara de "minha menina", como era de hábito, mas de "minha linda". Podia até
parecer ridículo, mas aquilo a fizera sentir-se como uma princesa.
Haviam lhe confiado a gerência da Brightstone's porque sabiam que ela era inteligente e
que iria trabalhar até ter uma estafa, se fosse preciso. E também porque ela travara uma
longa e árdua batalha até convencê-los a ficarem do lado dela.
Seu pai não queria realizar aquelas mudanças porque, segundo ele, elas gerariam gastos
que poderiam deixá-los com dificuldades financeiras. Porém, o amor que ela tinha pela
livraria foi transmitido em cada um de seus argumentos. Até que, por fim, ele acabara
concordando e confiando nela.
Por isso, não poderia decepcioná-los. E não iria fazê-lo, disse a si mesma. Um breve
vexame na presença de lan não seria suficiente para desanimá-la. Além disso, era
provável que ele até já houvesse esquecido dela.
Portanto, se quisesse continuar convencida de que se tornara uma nova mulher, teria de
enfrentar a situação. Teria de rever o irresistível lan MacGregor.
Em um impulso, pegou o livro sobre sua mesa e se dirigiu à porta. Não telefonaria para
ele, mas faria melhor: entregaria o livro pessoalmente.
Quando Naomi entrou no simpático prédio de dois andares que abrigava o escritório de
advocacia MacGregor, convenceu-se de que estava calma.
Tivera tempo de renovar o batom antes de sair do carro e fizera suas dez respirações
para acalmar os nervos.
O grande problema era sua reação à presença de lan. Uma reação que começara a se
manifestar desde o instante em que o encontrara no segundo andar da Brightstone's,
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sorrindo ao ver um casal de adolescentes namorando.
Sua reação fora semelhante às que ela costumava ter no passado, quando se via diante
de um homem bonito, desejável e completamente fora de seu alcance. No entanto,
manteve-se calma ao entrar no escritório, dizendo a si mesma que lan estava interessado
apenas em negócios.
Sorriu para a mulher sentada à mesa da recepção.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-la?
— Sou Naomi Brightstone. Eu tenho...
Ela se interrompeu ao ouvir uma gritaria vinda da porta.
— Eu venci! A justiça triunfou mais uma vez e o mundo está salvo para nossos filhos!
A mulher que dissera aquilo, uma bela morena trajando um tailleur lilás, lançou um sorriso
radiante para Naomi.
— Oh, desculpe-me — disse ela. — Geralmente agimos com mais sobriedade por aqui.
Sou Laura Cameron.
— Sou Naomi Brightstone. Meus parabéns, qualquer que tenha sido o motivo.
— Obrigada. Está esperando... Brightstone? Da livraria?
— Sim, isso mesmo.
— Oh, adoro aquele lugar! Sempre adorei. — Laura prendeu atrás da orelha uma mecha
que havia escapado de seu penteado. — O novo café ficou maravilhoso.
O frio que Naomi sentira no estômago se amenizou um pouco.
— Obrigada. Temos muito orgulho dele.
— Estamos trabalhando em algo para você, não? Ou melhor, Ian está trabalhando.
— Sim. Passei apenas para...
— Sou a irmã dele.
— Sim, eu sei. Seu avô queria um livro. — Naomi tirou-o da bolsa. — Eu tinha um
compromisso aqui perto e resolvi trazê-lo pessoalmente — mentiu, na falta de uma
explicação melhor.
— Oh. Quer que eu entregue ou prefere falar com lan?
— Bem, eu...
Sentiu o rosto esquentar, mas sobressaitou-se quando seu telefone celular começou a
tocar.
— Oh, ele sempre me assusta — disse a Laura, forçando um sorriso. — Com licença,
sim?
Ela tirou o pequeno aparelho da bolsa e o atendeu.
— Alô?
— Naomi? Aqui é Ian MacGregor.
— Oh. — Dessa vez seu rosto corou. — Que curioso.
— O quê?
— Bem, eu estava prestes... Estou com o livro que você pediu.
— Ótimo, então mataremos dois coelhos com uma caja-dada. Seus documentos também
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já ficaram completamente prontos. Queria avisá-la de que irei entregá-los esta tarde. Posso passar pela livraria quando sair do escritório.
— Na verdade, não será necessário. Eu...
— Oh, não há problema. Ela fica no caminho para minha casa, lembra?
— Sim, eu me lembro. Mas é que estou na recepção.
— De onde? Daqui? — Ele riu alto. — Então fique aí. Sem dar tempo para ela responder,
ele desligou e a deixou olhando para o aparelho, confusa.
— Era seu irmão — disse a Laura.
— Sim, notei que era ele. — Laura riu. — As maravilhas da tecnologia... — acrescentou,
perguntando-se o que significaria aquele tom rosado nas faces de Naomi.
lan apareceu na recepção quase em seguida. Sim, ela era mesmo exatamente como ele
se lembrava. Aproximando-se, estendeu a mão, notando que Naomi ainda estava
segurando o celular.
— Pode desligar agora — avisou com um sorriso estonteante.
— Oh, sim, claro — anuiu ela, notando que, de fato, não desligara o aparelho.
"Que ótimo", pensou. "Vexame número um."
— Eu saí para resolver alguns assuntos e aproveitei para vir entregar o livro de seu avô.
— Ótimo. Vamos subir.
— Não quero interromper seu trabalho.
— Não estará interrompendo nada.
Olhando para a irmã, lan arqueou uma sobrancelha.
— Eu já estou de saída — Laura se apressou em dizer. — Até logo, Naomi. — Ela se
despediu com um sorriso e saiu.
— Deve estar ocupado — insistiu Naomi enquanto o seguia escada acima.
— Tenho alguns minutos disponíveis. Não pensei que fosse encontrar o livro tão
rapidamente.
— Temos ótimas fontes — explicou Naomi. — O preço foi aquele que lhe falei, o mais
alto, infelizmente.
— Tudo bem. Meu avô quer muito esse volume — afirmou lan, conduzindo-a por um
corredor.
O perfume dela continuava divino, pensou ele. Mas dessa vez tomaria o cuidado de não
fazer nenhum comentário direto.
— Entre e sente-se — disse, abrindo uma das portas.
O escritório de lan era elegante e bem clássico. Uma ampla janela dava vista para a rua,
onde as folhas das árvores estavam começando a adquirir o tom amarronzado típico do
outono.
Vendo-se sem uma escapatória educada, Naomi ocupou uma das duas cadeiras em
frente à mesa.
— Vocês têm um bonito prédio.
— Meu pai o construiu antes de se casar com minha mãe. Ainda estava trabalhando no
acabamento quando minha mãe abriu um escritório aqui. Os dois começaram o escritório
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de advocacia com um estilo mais aconchegante e familiar, combinando com o próprio
estado de espírito deles na época.
— Sem dúvida, tiveram sucesso.
— Que tal um café? Se bem que o que vou lhe servir não chegará nem aos pés do que
tomei na Brightstone's — gracejou ele.
— Não precisa se incomodar. Eu preciso mesmo...
— Vou pegar os papéis — anunciou Ian.
Não a deixaria ir embora antes que tivesse a chance de pôr sua proposta em prática.
Naomi conteve o fôlego quando Ian ocupou a cadeira a seu lado, e não a outra atrás da
mesa, como ela esperava.
— Tenho cópias para você — continuou ele. — Os originais terão de ficar no tribunal. O n
núncio não é completamente oficial até que seja reconhecido pelo juiz, mas você já pode
se considerar sócia majoritária da Brightetone Books. Meus parabéns.
Naomi abriu a boca para agradecer com polidez, mas não conseguiu falar, devido à
emoção. De fato, tudo que conseguiu fazer foi fechar os olhos.
— Tudo bem com você? — perguntou Ian, em um tom gentil. Ela assentiu, mantendo a
mão nos lábios até conseguir conter a vontade de chorar.
— Sim. Desculpe-me.
— Não precisa se desculpar.
Tomou a mão dela antes mesmo de se dar conta do que fizera. Surpresa, Naomi levantou
a vista para ele.
— Deve ter sido uma notícia importante para você — Ian deduziu.
— A melhor que já recebi — ela confessou. — Pensei que estivesse preparada. Eu estou
— corrigiu-se. — Estou preparada para o trabalho, mas é que ouvir alguém dizer isso com
todas as palavras foi um pouco demais para mim. Muito obrigada. — Ela sorriu. — Ainda
bem que estou sentada.
— Sei como se sente. Foi como me senti no primeiro dia em que entrei neste escritório e
me sentei atrás desta mesa. Aquele dia foi muito importante para mim. Fiquei sentado ali
durante meia hora, mais ou menos, apenas com um sorriso dançando nos lábios. Senti
uma espécie de euforia e de medo ao mesmo tempo.
— Exatamente — anuiu Naomi, relaxando a mão na dele. — É muita responsabilidade
assumir algo que faz parte da tradição da família por tanto tempo.
— Sim, eu sei. O que pretende fazer para comemorar? — Comemorar? — Ela franziu o
cenho. — Acho que apenas voltarei para o trabalho.
— Não seria justo, depois de tanto esforço. Que tal um jantar?
— Jantar? Sim, vou preparar um quando chegar em casa. Ian olhou-a por um instante,
então meneou a cabeça. Tudo bem, teria de ser um pouco mais direto.
— Naomi, eu gostaria de levá-la para jantar se você não tiver outro compromisso esta
noite.
— Oh. Bem... Não, acho que não. Hum... — "Pelo amor de Deus, não comece a
gaguejar!", gritou para si mesma, em pensamento. — Não precisa se sentir obrigado a...
— Deixe-me colocar de outra maneira: quer jantar comigo esta noite? — perguntou Ian,
adorando ver aquele tom rosado nas faces dela.
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— Ah... sim, obrigada. Seria um prazer.
— Ótimo. Sete horas está bom para você?
— Sim.
— Quer que eu a apanhe na livraria ou em seu apartamento?
— Na... no meu apartamento. Vou lhe dar o endereço.
— Já o tenho nos arquivos — lembrou ele.
— Oh, sim, claro. Não fica longe da livraria. Vou a pé para o trabalho todos os dias. Gosto
da vizinhança.
"Pare de falar e saia logo, antes que acabe dando algum outro vexame!"
— Preciso voltar — anunciou, ficando de pé. Sobressaltou-se ao notar que sua mão ainda
estava entre as dele. — Para o trabalho — acrescentou. — Na livraria.
Ian não entendeu por que ela parecia tão nervosa.
— Você está bem?
— Sim, estou. Obrigada.
— Vou acompanhá-la até a saída.
— Não é preciso. — Aflita, Naomi afastou a mão da dele. — Conheço o caminho.
— Naomi — ele a chamou antes que ela passasse pela porta.
— Hum?
— O livro.
— Livro? Oh. — Amaldiçoando-se, ela voltou e entregou o livro a ele. — Acabei
esquecendo de entregá-lo. Até logo.
— Até a noite.
— Sim, até a noite — ela disse e saiu em seguida.
Ian enfiou as mãos nos bolsos, equilibrando-se sobre os. calcanhares. Talvez a
finalização do documento a houvesse deixado nervosa. Ou seria sua presença? Bem, não
seria nada mal se a bela e eficiente Naomi Brightstone se sentisse um pouco nervosa na
sua presença. Isso indicaria que ela não era indiferente a ele.
Voltando à mesa, apertou o botão do interfone e pediu à sua secretária que reservasse
uma mesa no Rinaldo's para as sete e meia.
Guardando os papéis na pasta, saiu assobiando para o tribunal. Fazia tempo que não se
sentia tão ansioso por um encontro.
lan estava terminando de ajeitar a gravata quando o telefone tocou. Ele o ignorou, não
querendo perder tempo com nenhuma conversa. Ainda teria de passar em uma
floricultura antes de ir apanhar Naomi.
Porém, quando ouviu no viva-voz da secretária eletrônica um "Por que diabos esse rapaz
não está em casa?", dito com um carregado sotaque escocês, riu consigo e tirou o fone
do gancho.
— Estou em casa, mas não por muito tempo.
— Já estou acostumado. Meus netos nunca têm tempo para mim.
Ian sorriu, reconhecendo muito bem o tom de "vítima" do velho MacGregor.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
139
— Sua avó anda muito preocupada com você.
— É mesmo?
Ian pressionou a língua contra a bochecha. Conhecia aquela história.
— Quando virá visitá-la?
— Vovô, estive aí o mês passado para o casamento de Duncan, lembra?
— E daí? Estamos em um novo mês. Ian suspirou.
— Verei o que posso fazer.
— Pois trate de ver logo. Acha que gosto de viver com sua avó choramingando pelos
cantos da casa? O que vai fazer, saindo a essa hora?
— Vou jantar com uma linda garota, e graças a você.
— A mim? Mas não fiz nada. Não vá dizer para sua avó que andei me intrometendo na
sua vida. Só o que fiz...
— Relaxe, homem — brincou Ian, rindo. -— Não o acusei de estar tentando me arranjar
um casamento. Desta vez, foi apenas coincidência. Pediu que eu procurasse seus livros
na Brightstone's durante minha reunião com Naomi, lembra?
— E daí? Um homem não tem direito de se interessar por livros raros? — perguntou
Daniel, fingindo indignação.
— Claro, vovô. — Ian revirou os olhos. — Naomi levou a obra de Walter Scott ao meu
escritório hoje, e justo quando eu pretendia entregar a documentação pronta para ela.
Então aproveitei para convidá-la para jantar.
— Bem, sendo assim...
Sentado à mesa de seu escritório, em Hyannis Port, Daniel teve de se conter para não dar
um grito de triunfo. O rapaz podia até ser esperto, porém não mais do que o avô.
— É uma garota interessante, a jovem Naomi — disse, em um tom evasivo. — É
educada, inteligente...
— E apenas um jantar, vovô. Não comece.
— Começar o quê? Estou apenas dizendo que é bom que vá jantar com uma jovem
interessante. Que mal há nisso?
— Mal nenhum. — Ian olhou para o relógio. — Preciso ir andando, senão chegarei
atrasado.
— Então o que está esperando? Saia logo, rapaz, mas lembre-se de telefonar para sua
avó qualquer hora dessas. Assim ela me deixará um pouco em paz.
Daniel desligou e esfregou as mãos. Com Ian parecia estar sendo mais fácil do que com
os outros.
O primeiro drama de Naomi começou com o que vestir, depois com o que faria nos
cabelos. Por fim, escolheu um vestido preto simples, com um discreto adorno em volta do
decote, mangas justas e saia estreita, acima dos joelhos. Depois escovou os cabelos
vigorosamente, deixando-os soltos sobre os ombros.
Esperava estar com uma aparência elegante, mas casual o suficiente para não
demonstrar quanto hesitara para escolher a roupa. Depois de se maquilar com cuidado,
colocou o colar de pérolas herdado de sua avó e calçou os sapatos pretos de salto alto.
Eles poderiam até deixá-la com os pés doloridos até o final da noite, mas pelo menos a
fariam sentir-se muito feminina. Em seguida, aplicou atrás das orelhas algumas gotas do
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
140
perfume que Ian elogiara.
— Pronto — disse a seu reflexo, no espelho. — Você está ótima, mas não aja como uma
idiota, pelo amor de Deus. Um advogado irresistível a convidou para celebrar um
momento especial de sua vida. Não estrague tudo com sua maldita timidez. Oh, meu
Deus!
—
Ela
conteve
o
fôlego
ao
ouvir
a
campainha. — Tudo bem, respire fundo.
Fechando os olhos, respirou fundo dez vezes, como sempre. Estava mais calma e
sorridente quando abriu a porta. Tentou se manter assim mesmo ao descobrir que Ian
estava tão lindo quanto um príncipe de conto de fadas.
— Que adorável.
— Obrigado — agradeceu ele. — Você também está. Naomi riu.
— Eu me referi às flores — explicou.
— Oh, sim. — Ian olhou para o buquê de rosas champanhe. — São para você.
— Obrigada — ela agradeceu, aceitando o buquê. — Entre um pouco. Vou colocá-las em
um vaso. Sinta-se à vontade.
Não seria difícil, pensou Ian, observando a sala com uma decoração prática e
aconchegante, como o escritório de Naomi.
Ela voltou com o vaso pouco depois, satisfeita por não haver corado, mesmo tendo sido
as primeiras flores que ela recebera de alguém que não pertencia à sua família. Quando
estivesse sozinha, poderia suspirar quanto quisesse.
— Gostei de seu apartamento — disse Ian.
— Oh, eu quis uma decoração prática, que combinasse com meu jeito. Também não quis
perder a aparência original do prédio. Gosto de construções antigas.
— Eu também — afirmou ele. — Na verdade, comprei uma casa antiga há poucos meses.
O chão estala, as torneiras vazam de vez em quando, mas eu a adoro.
Naomi sorriu.
— Quer tomar um drinque antes de sairmos?
— Não, obrigado. É melhor levar um casaco — aconselhou lan. — Está ficando frio lá
fora.
— Oh, está bem.
Naomi foi até o armário onde guardava alguns casacos, no hall de entrada. lan a seguiu e
ficou bem atrás dela, disposto a ajudá-la a vestir o casaco.
Naomi ainda estava se felicitando por estar agindo com naturalidade quando, ao se virar,
deparou-se com ele a centímetros de distância. O sobressalto a fez perder o equilíbrio,
inclinando-a para trás.
lan amparou-a a tempo de ela não acabar dentro do armário. Então sorriu com charme.
Sim, Naomi se sentia nervosa em sua presença. E isso não era adorável?
— Sinto muito — mentiu. — Eu não queria assustá-la.
— Eu não ouvi você se aproximar — explicou ela.
— Deixe-me ajudá-la com o casaco.
Naomi ficou surpresa com a intensidade das batidas de seu coração. Em outra época,
uma situação como aquela seria mais do que suficiente para ela sair correndo e ir afogar
as mágoas em um pacote gigante de batatas fritas.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
141
No presente, porém, ela era uma mulher sofisticada. Ou pelo menos queria ser. Por isso,
entregou o casaco a lan e virou-se de costas, ordenando a si mesma para manter a
calma.
Com mais rapidez do que propriamente elegância, afastou-se dele e pegou a bolsa.
— Vamos?
No restaurante, sob o efeito de alguns goles de vinho, foi bem mais fácil demonstrar
naturalidade.
Ian era uma companhia maravilhosa. De fato, Naomi ficou surpresa ao descobrir quantas
coisas os dois tinham em comum.
— Gosto do ritmo tranqüilo e envolvente das músicas new age — disse ela, enquanto
conversavam sobre preferências musicais. — Por isso sempre deixo algumas tocando no
som ambiente da livraria. — De vez em quando, também ponho músicas típicas. Elas
animam a clientela sem incomodar.
— Você foi ao festival celta no último verão?
— Passei quase um dia inteiro por lá — respondeu Naomi.
— Eu também. — Ian ofereceu a ela um pedaço de seu cogumelo portabello grelhado. —
Achei as músicas maravilhosas e também as danças.
— Eu adoro música celta. — Sem pensar, Naomi se inclinou para a frente, aceitando o
cogumelo que ele oferecera no garfo. — Hum, isso está muito bom.
— Quer mais um pouco?
— Não, obrigada. Tenho um fraco por qualquer comida italiana.
— Eu também — falou Ian. — Aliás, sei fazer uma deliciosa galinha picala.
— Gosta de cozinhar?
Ele assentiu, comendo outra porção de cogumelo.
— Eu também — continuou Naomi, impressionada com a quantidade de vezes em que
aquela frase estava se repelindo ao longo da conversa. — Poderei fazer meu molho de
queijo para acompanhar sua galinha pícata qualquer dia desses.
— Então precisamos marcar esse dia quanto antes. Quando Naomi respondeu apenas
com um sorriso, Ian se aconselhou a ir com mais calma. Seu avô não era o único
MacGregor dado a "planos mirabolantes". E ele já tinha um em mente.
— Na verdade, Naomi, tenho uma proposta de negócios para lhe fazer.
— Negócios?
Ela franziu o cenho, enquanto os pratos de entrada foram retirados, antes de o garçom
servir os seguintes.
— Sim. Espero que a idéia lhe pareça tão agradável quanto pareceu para mim. Quero
remodelar um dos cômodos vazios da minha casa e transformá-lo em uma biblioteca.
Tenho um design em mente, mas gostaria de ouvir suas opiniões. Também agradecerei
se puder me ajudar a organizar minha coleção de livros.
— Sim, com prazer.
Naomi tentou disfarçar o desapontamento, dizendo a si mesma que seria melhor assim.
Claro que Ian só se interessaria por ela profissionalmente. O que mais ela esperava?
— Está interessado em livros raros por motivos comerciais?
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
142
— Não, não. Quero apenas uma biblioteca, não um museu.
— Ele riu. — Pensei em um lugar aconchegante, com uma boa variedade de livros. Quero
começar com os livros que já tenho, depois partirei para as novidades.
— Será um prazer ajudá-lo. Se me der uma lista com o que já tem, ou com o que está
procurando, começarei a trabalhar nisso amanhã mesmo.
— Ótimo. Tem algum tempo disponível para ir à minha casa, ver o aposento e ouvir sobre
o design que tenho em mente?
— Sim, quando você quiser.
— Que tal no sábado às seis da tarde?
Naomi achou o dia e o horário um tanto inusitados, mas se limitou a assentir, aceitando a
proposta.
O vento estava intenso quando Ian parou o carro em frente ao prédio onde Naomi
morava. As árvores faziam uma espécie de bale, enquanto, no rádio, a música suave
parecia embalá-las invisivelmente.
Para Ian, a noite pareceu perfeita.
— Obrigada pelo jantar — Naomi agradeceu, quando ele abriu a porta do carro para ela.
— Foi uma ótima comemoração — acrescentou, segurando os cabelos que teimavam em
lhe cobrir o rosto.
— Para mim também.
Naomi ficou surpresa quando Ian segurou sua mão, conduzindo-a até a entrada do
prédio. Sem dúvida, aquilo parecia mais íntimo do que segurar seu braço.
Deveria convidá-lo para entrar? Não, nem pensar. Não havia se preparado para algo
assim, e não queria acabar acrescentando outro vexame à sua desastrosa coleção.
Achando que seria indelicado pedir que ele não fosse em frente, deixou que lan a
acompanhasse até a porta de seu apartamento. Atrapalhando-se um pouco para
encontrar as chaves na bolsa, sorriu para ele quando finalmente conseguiu encontrá-las.
— Bem, obrigada mais uma vez pela noite agradável.
Quando foi abrir a porta, derrubou as chaves no chão. Os dois quase colidiram ao se
abaixarem ao mesmo tempo para pegar o objeto. lan hesitou um instante e entregou o
chaveiro a ela.
Naomi estava prestes a agradecer quando lan se aproximou e beijou-a nos lábios. Por um
instante, ela não moveu sequer um músculo, levando lan a pensar se entendera errado o
brilho que vira segundos antes nos olhos dela. Mas quando os lábios macios se abriram
sob os seus, em meio a um suspiro, ele não resistiu. Entrelaçou os dedos naqueles
cabelos sedosos e, com um breve gemido, puxou-a para si.
Naomi sentiu como se o chão houvesse sumido debaixo de seus pés. No entanto, foi
impossível ter certeza de qualquer coisa, com aqueles lábios firmes exigindo uma
resposta dos seus.
As chaves caíram mais uma vez no chão, provocando um breve tilintar, antes de ela levar
as mãos ao peito de lan. Um peito amplo, forte, protetor... Aos poucos, deixou-se levar
pelas sensações e colou seu corpo ao dele.
Ficou zonza, como se tudo aquilo não fosse real. Não era possível que ela, que até pouco
tempo se considerava um "patinho feio", estivesse ali, nos braços de um homem maravilhoso, sendo beijada a ponto de perder o fôlego.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
143
Quando lan se afastou devagar, ficou esperando Naomi abrir os olhos e voltar a fitá-lo.
Deliciou-sc ao ver um brilho de desejo nos olhos acinzentados. Os lábios, com o que
restava do batom ligeiramente borrado, pareceram-lhe mais convidativos do que nunca.
De fato, teve de se conter para não esmagá-los em outro beijo ainda mais ardente.
Ao segurá-la pelos ombros, sentiu Naomi estremecer.
— Preciso fazer isso de novo.
— Oh.
Naomi o fitou com um olhar tão surpreso que o fez sorrir. Ian beijou-a novamente, dessa
vez com mais intensidade. Sentiu a mesma onda de desejo que experimentara durante o
primeiro beijo. O leve gemido de Naomi deixou-o maluco.
A hesitante carícia dos dedos dela em sua nuca, enquanto os lábios tímidos se
insinuavam sob os seus, fez com que ele sentisse o sangue correr mais rápido nas veias.
Ciente de que estava prestes a exigir mais, achou melhor se afastar.
Sem dizer nada, abaixou-se e pegou as chaves. Então abriu a porta para ela.
— Boa noite, Naomi.
Sem desviar os olhos dos dela, Ian entregou-lhe as chaves.
— Boa noite — Naomi respondeu. — Obrigada mais uma vez.
Ela entrou rapidamente no apartamento e fechou a porta atrás de si.
Ian continuou no mesmo lugar por algum tempo, pensando se não errara ao beijá-la
daquela maneira precipitada. Ou teria errado ao interromper o beijo? Então ouviu o som
das chaves caindo novamente no chão, do outro lado da porta.
Com um sorriso satisfeito, ele saiu andando pelo corredor. Não, não errara. Precisaria
voltar a beijar a encantadora srta. Brightstone. E quanto antes melhor.~
23
Não tem sequer um chocolate?
Parando de mexer a panela com molho, lan olhou por cima do ombro para sua prima
Júlia. Ela estava linda, ainda que em um avançado estágio da gravidez e, por isso
mesmo, também mais impaciente do que nunca.
— Você comeu todos da última vez em que esteve aqui. Estreitando o olhar, Júlia
continuou a vasculhar os armários da cozinha.
— Poderia pelo menos ir ao supermercado de vez em quando, não?
— Há frutas frescas na geladeira, mas, infelizmente, nenhum chocolate. Prove isso —
pediu, pegando um pouco do molho ern uma colher e oferecendo a ela.
Chegando à conclusão de que sua busca seria mesmo inútil, Júlia foi até ele e colocou a
mão por baixo da colher, para não deixar cair o molho enquanto o experimentava.
— Está ótimo — elogiou. — E a sobremesa? Ian riu, colocando a colher na pia.
— Cullum nunca lhe dá comida?
— Não é culpa minha. É o Júnior aqui quem quer chocolate. — Ela apontou para o ventre
avantajado. — Acabei de receber um chute de protesto. Não tem nem mesmo um docinho
qualquer?
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
144
— Sinto muito, mas meu estoque acabou. Com Travis era sorvete, não era? Litros e litros.
— Ele ainda adora sorvete — disse Júlia, com um sorriso maternal. — A primeira palavra
que ele disse foi "sô", então vi que o menino tinha futuro porque daquilo para "vete" seria
um passinho. — Quando lan riu alto, ela falou: — Está com um bom humor e tanto
ultimamente.
— Sim, eu sei. Conheci uma garota especial.
— Sim, essa é a resposta costumeira. Naomi Brightstone?
— Ela mesma. Ei, como sabe?
— Laura e eu andamos fofocando — confessou Júlia, com seu costumeiro tom sincero.
— Bem, ela logo estará aqui, portanto...
— Cullum e Travis já devem estar chegando para me apanhar. Não vou estragar seu
encontro, prometo. Onde está o projeto da biblioteca?
— Lá em cima. Eu o estava examinando ontem à noite.
— Ora, quero dar uma olhada nisso.
— Vamos lá.
lan desligou o fogão e passou o braço pelos ombros dela, enquanto se encaminhavam
para a escada.
— Se não fosse por você e Cullum, eu nunca teria conseguido esta casa.
— Ei, você também não ficou de braços cruzados — lembrou ela. — A reforma ficou ótima,
lan. Sei que muitas pessoas acham besteira um rapaz solteiro morar em uma casa grande
como esta.
— Mas você não — completou ele.
— Não há nada melhor do que uma casa para morar. Você tem mais chances de mudá-la
quando e como quiser. — Deslizando a mão pelo corrimão, ela continuou: — Esta casa
ficou muito parecida com você. Alegre, dinâmica, com um olho no passado e outro no
futuro. — Ela suspirou. — Acho melhor eu não subir esta escada — disse, olhando para
cima. — Não estou mais enxergando meus pés ultimamente.
— Eu trarei o projeto aqui para baixo. Por que não se senta um pouco na sala?
— Não preciso me sentar — falou Júlia, colocando as mãos na altura dos rins. — Preciso
de chocolate.
— Da próxima vez, terei chocolate para lhe oferecer, prometo. Enquanto Ian foi pegar o
projeto, Júlia ficou andando pela sala. Fora sincera ao dizer que a casa havia ficado muito
parecida com seu primo. Sentia-se satisfeita por ha vê-lo ajudado a escolhê-la e depois
por ver Ian se apaixonar pelo lugar. Seu primo precisava de um lar.
— Calma, Júnior — murmurou e levou a mão ao ventre quando o bebê chutou com mais
força. — Papai já deve estar chegando, e provavelmente trazendo uma grande caixa de
bombons para nós.
Ao ouvir a campainha, ela foi atendê-la o mais rápido que o peso de Júnior lhe permitiu.
A primeira reação de Naomi, quando Júlia abriu a porta, foi de puro espanto.
— Ah, você deve ser Naomi — disse ela, com um sorriso simpático. — Oi, sou Júlia,
prima de Ian.
— Sim, eu sei. Ouvi uma palestra sua durante um almoço da revista Mulheres e
Empresárias há alguns anos.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
145
— Oh, sim. Bem, com certeza eu estava bem mais magra naquela época. —Tocando o
ventre, Júlia deu um passo atrás. — Entre. Ian acabou de subir para pegar o papel com o
design da biblioteca. Meu marido e a equipe dele farão a maior parte do trabalho.
Ela era bonita, pensou Júlia. Um pouco tímida, mas com um corpo maravilhoso e belos
olhos. Precisava observar os detalhes porque suas primas Laura e Gwen iriam querer
saber sobre eles depois.
— Então você se tomou a nova gerente-geral da Brightstone's?
— Sim — confirmou Naomi.
— Vocês vendem bombas de chocolate no café da livraria?
— Sim, e são maravilhosas. Júlia gemeu.
— Calma, Júnior. Ele está desesperado por chocolate — explicou com um sorriso quando
Naomi lhe lançou um olhar preocupado. — Mas ainda terá de ficar aqui dentro por dois
meses, não se preocupe.
— Ele quer chocolate? Bem, acho que tenho um pacotinho com bolinhas de chocolate
aqui na bolsa...
Júlia se adiantou e segurou o braço dela.
— Está falando sério?
— Sim. Sempre deixo um chocolate na bolsa para o caso de não ter tempo de almoçar.
Aquilo era outra coisa que Naomi aprendera nos últimos tempos: não era preciso se privar
de chocolates e outras coisas do gênero. Bastava saber se controlar para não cometer
excessos.
Abrindo a bolsa, encontrou o pacotinho.
— Oh, se me der isso — disse Júlia com urgência — , juro que darei seu nome ao bebê.
Seja ele menino ou menina.
— Foi o que me disse quando estava esperando Travis e quis meu sundae de caramelo
— falou Ian, terminando de descer a escada.
— Ei, seu nome não é Travis? — perguntou Júlia, com ar inocente.
Naomi riu, entregando o pacotinho de doce a ela.
— Divirta-se.
— Nunca esquecerei disso — prometeu Júlia, abrindo a embalagem quase com
desespero e jogando um punhado de bolinhas na boca. — Hum... Isto está maravilhoso...
Estão vendo? Ele está feliz agora.
— Ele está chutando? — perguntou Ian, aproximando-se. Colocando a mão na barriga da
prima, ele riu.
— Ei, e direto do meio de campo para o gol — brincou. — Sinta isso, Naomi.
Antes que ela pudesse reagir, Ian colocou a mão dela sob a dele, na barriga de Júlia.
Passado o embaraço inicial, Naomi realmente sentiu o bebê mexendo.
— Oh! Isso é maravilhoso — murmurou.
Quando seu olhar encontrou o de Júlia, as duas trocaram uma espécie de sentimento que
somente duas mulheres poderiam compreender.
— Aí está Cullum — anunciou Júlia, quando ouviram duas curtas buzinadas do lado de
fora. — Eu disse a ele para tocar a buzina se Travis estivesse dormindo no banco de trás.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
146
Vou levar o esquema do design, lan. Eu e Cullum o examinaremos esta noite. — Pegando
o rolo de papel da mão do primo, ela sorriu para os dois. — Foi um prazer conhecê-la,
Naomi. E obrigada pelo doce.
— E uma pena que não possa conhecer Travis hoje — lamentou lan, enquanto os dois
olhavam Júlia caminhar em direção ao carro. — Ele é incrível. Mal fez dois anos e já fala
feito um papagaio.
— Você gosta de crianças, não?
— Sim, muito. — lan fechou a porta quando o carro partiu. — Na minha família, é melhor
gostar delas, se não quiser ficar maluco. Temos uma porção delas pulando por aí e outras
sempre a caminho. Júlia está esperando o segundo e meu primo Mac e a esposa estão
perto de ter o primeiro. Obrigado por ter vindo — acrescentou, de repente, segurando-a
pelos ombros e beijando-a nos lábios.
Quando Naomi deu um passo atrás, ele arqueou uma sobrancelha.
— Algum problema?
— Não, nenhum.
Exceto pelo detalhe de que, ao chegar, ela já havia se convencido de que lan só a beijara
depois do jantar porque era o que as pessoas costumavam fazer ao fim de um encontro.
— Então deixe-me lhe servir um cálice de vinho.
— Acho melhor não. Eu vim dirigindo. Pensei que iríamos apenas olhar o aposento que
você quer reformar.
lan conduziu-a por um corredor e um delicioso aroma de molho lhe invadiu as narinas.
Quando entraram na cozinha, notou que ele estava preparando algum tipo de massa.
— Oh, está esperando alguém — deduziu, ao notar o tamanho das panelas. — Prometo
que não vou demorar.
lan parou de manusear a garrafa de vinho tinto e olhou para ela.
— Naomi. Era você que eu estava esperando — disse com paciência.
— Oh.
Depois de encher dois cálices, entregou um a ela.
— Pode tomar. Até você ir embora, o efeito mais forte já terá passado. Depois de convidála para vir até aqui no sábado à noite, achei que o mínimo que eu poderia fazer seria lhe
oferecer um jantar.
— Não precisava ter todo esse trabalho. Vim apenas para ver seu projeto.
— Hum-hum. — Ian se encostou no balcão. — Será que terei de ficar pensando em uma
desculpa toda vez que quiser jantar com você?
— Eu... não. Claro que não.
Naomi olhou para o vinho, antes de voltar a fitá-lo.
— Talvez seja melhor eu perguntar se está interessada na minha biblioteca ou mais
especificamente em mim — salientou ele.
Naomi desviou o olhar do dele no mesmo instante. Aquela timidez era realmente
adorável, pensou Ian.
— Bem, de minha parte, estou muito atraído por você. Gosto de sua companhia e gostaria
de passar mais tempo com você. — Deixando o copo de lado, aproximou-se e roçou os
lábios nos dela. — Quero conhecê-la melhor. E também quero você.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
147
A respiração de Naomi se tornou acelerada.
— Você me quer para quê?
Com os lábios ainda sobre os dela, Ian abriu os olhos. Afastando-se um pouco, balançou
a cabeça, como se não estivesse acreditando no que ouvira. Então deixou uma trilha de
beijos ao longo do queixo dela.
Voltou a beijá-la em seguida, insinuando a língua por entre os lábios dela. Aturdida,
Naomi arregalou os olhos por um instante, mas logo se viu rendida à sensualidade de seu
próprio corpo e ao calor dos braços de Ian.
Seria mesmo verdade que ele a desejava?, perguntou-se, sentindo as pernas trêmulas.
Um delicioso calor envolveu seu corpo quando ele tornou o beijo mais íntimo, colando o
corpo ao dela.
Ian não queria apressar as coisas, mas a resposta de Naomi o deixara maluco.
Encostando-a junto ao balcão, esmagou os lábios macios em um beijo abrasador.
Deslizou as mãos pelos quadris arredondados e foi subindo devagar, até encontrar os
seios eretos e deliciosamente arredondados.
Sentiu o coração de Naomi batendo forte abaixo de sua mão.
— Por que não deixamos para nos conhecer melhor depois? — perguntou, roçando os
lábios na curva sensível do pescoço dela. — Nossos sonhos, histórias e esperanças, tudo
isso pode esperar. Mas eu não, Naomi. Eu quero você.
— Sim. Não. Espere um pouco.
Naomi estava assustada com a intensidade de seu próprio desejo.
— Vamos optar pelo "sim" — sugeriu Ian.
— Não, por favor. — Ela levou as mãos ao peito dele, tentando afastá-lo com delicadeza.
— Por favor — repetiu. — Sinto muito.
Felizmente, só começou a tremer quando ele se afastou.
— Acho que apressei um pouco as coisas — Ian admitiu.Tomou um generoso gole de
vinho. — Pensei que estivéssemos indo no mesmo ritmo.
Ele ficara aborrecido, pensou Naomi. Estava tentando não demonstrar, mas havia um
brilho de fúria nos olhos azuis.
— Acho que não estamos no mesmo ritmo — confirmou ela. — Pensei que houvesse me
convidado para vir até aqui apenas para olhar o projeto.
— Não entendeu por que eu a beijei daquela maneira na outra noite? — indagou Ian. — E
o modo como você correspondeu ao beijo? Não me diga que também não entendeu?
Ela estava certa. Ian havia realmente ficado aborrecido.
— Nâo sei.
Sua voz tornou-se tensa e ela cruzou os braços, lutando para conter uma estranha
sensação de embaraço e dúvida ao mesmo tempo.
— Eu não sei — repetiu. — Não tenho nenhuma experiência nesses assuntos. Sinto
muito se nunca faço o que você espera que eu faça.
O aborrecimento de Ian cedeu lugar a um ar surpreso.
— Você nunca...? Nunca?
— Não. Preciso ir embora — anunciou Naomi, sentindo que o embaraço vencera sua luta
interior.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
148
Passando por ele, seguiu em direção à sala. — Naomi, espere. Droga! — Ian alcançou-a
no hall. — Espere! — Segurou-a pelos ombros. — Espere um instante, sim?
— Não vou pedir desculpas novamente — avisou ela, por entre os dentes.
— Não. Desta vez, sou eu quem pedirá se me der um minuto — declarou Ian.
Soltando-a, ele passou as mãos pelo rosto. Precisava voltar a respirar normalmente.
Ficara aturdido e, para seu maior espanto, excitado com a revelação de Naomi.
— Desculpe-me — disse a ela.
Naomi nunca havia sido tocada. Deus, e pensar que ele fora com tanta "sede ao pote".
— Naomi, sinto muito se fui precipitado. Devo tê-la deixado assustada.
— Sim, um pouco.
— Não agirei assim de novo. Prometo. — Tocou o rosto dela com delicadeza. — Nem vou
forçá-la a nada. Por que não damos um passo atrás e esquecemos o que aconteceu?
Como ele poderia pedir a ela que esquecesse tudo aquilo?, Naomi se perguntou. Depois
de olhá-lo em silêncio por um instante, fechou os olhos e respirou fundo dez vezes.
— E que tipo de passo atrás seria esse?
— Tomaremos o vinho lá em cima, enquanto olhamos o cômodo que quero transformar
em biblioteca. Vou lhe mostrar uma cópia do projeto e depois jantaremos.
— Não está bravo?
— Não, claro que não. — Ian sorriu. — E espero que você também não esteja. Promete
ficar e me dar outra chance de... de conhecê-la melhor?
— Sim, está bem. — Naomi mostrou um breve sorriso. — Eu ficarei.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
149
— Ótimo. Vou pegar o vinho.
Ian voltou para a cozinha, pensando em como um banho gelado lhe faria bem naquele
momento. Levaria algum tempo para conquistar a confiança de Naomi. E com certeza não
melhoraria a situação se dissesse a ela que passara a desejá-la ainda mais ao saber que
ela nunca tivera ninguém.
— Cuidado, MacGregor — murmurou para si mesmo, pegando os cálices. — Muito
cuidado.
24
Não adiantaria continuar sentindo-se embaraçada por haver contado a lan que ela era
inexperiente em questões amorosas. Claro que uma mulher mais sensata teria dito
apenas que queria mais algum tempo ou que não estava certa quanto aos próprios
sentimentos. Mas ela, como sempre, metera os pés pelas mãos.
Algumas mulheres chegariam até a trocar mais alguns beijos ousados, antes de
confessarem que não queriam ir além. "Depois, meu bem. Quem sabe depois?", seria o
que provavelmente diriam.
Tais promessas eram feitas com um tom de voz sensual, mantendo a "vítima" hipnotizada
sob o efeito de um olhar sedutor e de unhas longas e perfeitamente manicuradas passeando devagar por seu rosto.
Naomi se convenceu de que aquele tipo de habilidade feminina era algo que ela nunca
teria nem em seus mais remotos sonhos, e muito menos na realidade.
Ainda assim, não adiantaria ficar embaraçada por haver confessado que nunca estivera
com alguém em um caráter mais... íntimo. De fato, aquilo até servira para amenizar o
clima tenso que começara a nascer entre ela e lan.
O lado político de lan era realmente bastante eficaz, pensou ela. Tanto que, ao chegarem
ao cômodo onde seria a biblioteca, nem parecia que os dois haviam trocado um beijo
tórrido na cozinha, minutos antes.
Sentira-se tão embaraçada que ainda estava tendo dificuldade para se lembrar daquilo,
mesmo depois de alguns dias. Melhor assim, disse a si mesma. Pelo menos isso a livrava
de sentir aquelas perturbadoras sensações pelo corpo. Trabalhar era um meio muito mais
interessante e menos perigoso de passar o tempo.
Com as mãos cruzadas diante de si, continuou de pé, observando a área que ela e sua
equipe haviam preparado para a realização do novo evento mensal da Brightstone's,
intitulado: "A Noite da Mulher".
A autora convidada daquela noite de quarta-feira estava mantendo a platéia bem ocupada
com comentários espirituo-sos e a leitura de pequenos trechos de seu livro Como
Sobreviver a Si Mesmo.
Risos espontâneos ecoavam pelo salão, atraindo a atenção de alguns transeuntes que
acabavam entrando na livraria para ver o que estava acontecendo.
Naomi previu que teria um bom lucro naquela noite, depois dos autógrafos. Sem deixar de
prestar atenção em cada detalhe, aproximou-se da mesa onde seriam dados os autógrafos. Os livros estavam impeçavelmente arrumados e as canetas à disposição. Um belo
arranjo de flores se encontrava em uma mesinha ao lado, e seria oferecido à autora ao
final da noite.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Pelo visto, sua primeira noite de eventos estava sendo um grande sucesso. Depois de
murmurar a seu coordenador de eventos para que se certificasse de que o nome da
autora seria anunciado nos alto-falantes, ao final da palestra, virou-se. E esbarrou
diretamente em Ian.
— Desculpe-me. — Ele a segurou pelos braços para ajudá-la a manter o equilíbrio. —
Parece que tenho o hábito de viver assustando-a desse jeito.
— Eu não estava olhando...
Naomi o fitou nos olhos e, de repente, conseguiu se lembrar muitíssimo bem do beijo que
haviam trocado no último encontro.
— Conseguiu reunir uma boa quantidade de pessoas esta noite.
— Sim. — Ela olhou para as pessoas, que haviam acabado de explodir em outra
gargalhada. — Ela é SheJIy Goldsmith.
— Eu vi o anúncio no jornal. A idéia foi sua?
— Trabalhei junto com meu coordenador de eventos — explicou Naomi. — Veio assistir à
palestra?
Ele arqueou uma sobrancelha quando as pessoas começaram a aplaudir.
— Se vim, devo estar um pouco atrasado.
— Oh, com licença um instante.
Ela se afastou e foi cumprimentar a autora com um aperto de mãos. Naomi também
possuía um tino político, pensou Ian. O "obrigada" dito ao microfone foi seguro e caloroso,
antes de se seguir a um convite ao público para que se dirigisse à mesa de autógrafos.
Ela estava muito sexy trajando um camisão de seda azul-turquesa e uma confortável
calça preta de crepe. Os cabelos estavam presos em um coque elegante junto à nuca,
com alguns fios caídos sobre as têmporas.
Ao olhar para aquele pescoço delicado, Ian lembrou-se de como fora bom roçar seus
lábios nele. Então balançou discretamente a cabeça, censurando-se por estar pensando
aquilo..
Saíra do escritório decidido a ir direto para casa. E o que estava fazendo ali? Por que
cedera à tentação de passar pela livraria só para ver Naomi? Não havia prometido a si
mesmo que daria mais espaço e tempo a ela?
No entanto, ali estava ele, somente alguns dias depois de quase haver feito amor com
Naomi na cozinha de sua casa, sorrindo e implorando por um pouco de atenção. Aquilo
era desmoralizante demais. Onde estava seu sangue MacGregor? Provavelmente perdido
no brilho daqueles olhos acinzentados, concluiu.
Notando que a eficiente srta. Brightstone ficaria ao lado da autora durante o restante do
evento, Ian decidiu peram-bular um pouco pela livraria.
Pelo canto dos olhos, Naomi o viu se afastar e tentou conter o impulso de correr até ele.
Pelo visto, lan fora até ali somente por curiosidade. Depois de satisfazê-la, nada mais
justo do que ir embora.
Voltando a assumir seu ar profissional, virou-se quando alguém tocou seu ombro para
cumprimentá-la.
Já passava das nove horas quando o evento finalmente terminou. Naomi considerou as
duas horas do evento muito produtivas. Valera a pena aquelas quarenta horas de trabalho
que haviam tido para preparar a livraria.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Acompanhando sua convidada até a porta, despediu-se com um sorriso e com outro
agradecimento.
Dali em diante, tudo que mais queria era um lugar para se sentar e fechar os olhos por
pelo menos quinze minutos.
— Ótimo trabalho.
lan não perdera tempo ao vê-la ficar sozinha. Trazia na mão uma sacola com o logotipo
da Brightstone's.
— Não pensei que ainda estivesse aqui — falou Naomi, disfarçando a surpresa.
— Fiquei andando pela livraria durante o evento — explicou ele, com um sorriso
charmoso. Mostrando a sacola, completou: — Queria acrescentar mais alguns livros à
minha coleção.
— A Brightstone's agradece pela sua preferência — brincou Naomi, repetindo a frase que
costumavam dizer aos clientes. — Encontrou tudo que queria?
"Encontrei você, não encontrei?"
— Parece que sim — foi tudo que lan respondeu. — Como serviço extra, realizei um
pouco de espionagem para você.
— Espionagem?
— Bem, na verdade, andei ouvindo algumas conversas por aí. Conseguiu deixar seus
clientes bastante satisfeitos. Havia um grupo de mulheres examinando a nova seção de
ficção. Estavam elogiando o evento desta noite e já falando em comparecer ao do
próximo mês.
— Ótimo. — Naomi sorriu. — Era essa minha intenção.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Já terminou ou ficará por aqui mais algum tempo?
— Sim, eu já terminei. Graças a Deus. — Ela suspirou, aliviada.
Ian riu.
— Que tal eu comprar uma xícara do maravilhoso café da Brightstone's para você? — Ao
vê-la hesitar, Ian resolveu deixar de lado a promessa que fizera a si mesmo e falou: — Eu
gostaria de lhe mostrar as mudanças que eu e Culium fizemos no design original da
biblioteca.
— Está bem. Quer ir lá para cima?
Onde ele poderia ficar sozinho com ela?, Ian se perguntou. Não sabia se seria uma boa
idéia.
— No café estará ótimo para mim.
— Está bem. Mas o café será por conta da Brightstone's — avisou ela. — É o mínimo que
podemos fazer por um cliente tão fiel.
Naomi seguiu na frente, notando que o canto reservado para as crianças precisaria de
uma boa arrumação. Se Ian não estivesse com ela, com certeza para ria para recolher os
brinquedos e os livros espalhados.
— Está cansada? — ele perguntou com gentileza.
— Hum? Oh, na verdade estou apenas um pouco ansiosa, só isso. Autorizei o orçamento
para a propaganda e a promoção deste evento. Quase pude ver as caretas que meu pai
estava fazendo ao telefone.
— Mas ele lhe deu um bocado de liberdade, não?
— Sim. Ele confia em mim. Será bom poder mostrar a ele que não cometemos um erro.
Quando chegaram ao café, ela ficou satisfeita ao ver que vários clientes ainda
continuavam na livraria. Um grupo de mulheres reunidas em uma mesinha estava rindo e
falando sobre o livro de Shelly Goldsmith.
— Vamos até ali. — Ian levou Naomi até outra mesa, em um canto mais reservado. — Foi
sorte termos encontrado uma mesa vaga. Parece que a Brightstone's se tornou um lugar
ainda mais freqüentado ultimamente.
— Sim, é verdade. — Ela sorriu.
— Está deixando sua marca registrada neste lugar, Naomi. Eu a observei enquanto
estava trabalhando. Você é muito boa no que faz.
Naomi não soube se sentiu-se mais lisonjeada com o elogio ou com o fato de Ian tê-la
observado sem que ela visse.
— Isso é tudo que eu sempre quis fazer — confessou a ele.
— Alguns de nós já nascemos com uma determinada vocação. Essa é a sua.
— Sim, é. — Naomi fez um sinal para a garçonete que passava por eles. — Estamos com
muito movimento hoje, não, Tracy?
— Não parei nem um instante desde as cinco e meia. Deseja alguma coisa, srta.
Brightstone?
— Dois cappuccinos, por favor — pediu Naomi, olhando para Ian e vendo-o assentir.
— Pode deixar. Deveria provar um pedaço daquele "pecado de chocolate", srta.
Brightstone. Também está trabalhando há várias horas.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Oh, eu...
— Nós dividiremos um pedaço, obrigado — Ian respondeu por ela.
— Oh, Deus. Seis milhões de calorias — exagerou Naomi, fazendo-o rir.
— Querida, aposto que você perdeu mais do que isso durante esse evento. De quem
herdou sua aparência?
O "querida" a havia deixado meio perdida e o tom estranho da pergunta contribuíra ainda
mais para isso.
— O que disse?
— A cor de seus cabelos. Tem cabelos muito negros, como os da minha mãe. Tem
sangue indígena na família?
-— Sim — respondeu Naomi. — Meu pai é descendente longínquo da tribo cherokee. Na
minha família, há uma mistura deles com italianos, franceses, ingleses e galeses, por
parte da minha mãe. Ela adora dizer que os filhos dela são mestiços.
— Tenho sangue comanche por parte de mãe, mas Laura foi quem mais herdou a cor
indígena da família.
— Sua irmã é muito bonita.
— Sim, é verdade.
— Aliás, toda sua família tem traços bonitos — salientou Naomi. — Sempre que vejo a
foto de algum de vocês, em um jornal ou revista, fico estarrecida. Você se parece com
seu pai. Acho que no futuro você será uma mistura do respeitável estadista com o "Gato
de Harvard".
Ela arregalou os olhos quando Ian fez uma careta, ao ouvir o apelido. Deus, como tivera
coragem de dizer aquilo?, ela se perguntou.
— Desculpe-me — disse a ele. — Que coisa mais idiota para dizer.
Ian inclinou a cabeça, surpreso ao notar que ela ficara mais embaraçada do que ele.
— Se negou o que disse então é porque não sou nem um pouco atraente nem tenho
esperança de ter sucesso na vida pública?
— Não, claro que você é atraente e...
Naomi se interrompeu, tendo a certeza de que o Grand Canyon não seria fundo o suficiente
para eía se enterrar de vergonha.
Ian riu alto. Tanto que Tracy sorriu ao se aproximar e ver a cena. Já estava mesmo no
tem de a srta. Brightstone arranjar uma companhia interessante.
— A imprensa adora inventar histórias e imagens sensacionalistas para ganhar dinheiro
com isso — disse ele, partindo um pedaço do bolo de chocolate e oferecendo a ela. — Já
me acostumei com isso.
Naomi o aceitou, lembrando-se que Ian fizera a mesma coisa quando haviam jantado
juntos.
— Não sei se eu conseguirei me acostumar — disse ela. — Tenho lidado com a
imprense. Divulgar os eventos da livraria, dar entrevistas, esse tipo coisa. E necessário
para o negócio, rms não posso dizer que me acostumei com isso.
Ian provou o bolo.
— O nome deste bolo é muito aprpriado. Ele é mesmo um pecado.
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— Pois terá de pecar sozinho — falou Naomi, tomando um gole do cappuccino. — Eu vou
parar por aqui.
— Só mais um pedaço — murmurou ele, oferecendo outra tentadora porção a ela.
Quando Naomi o aceitou, Ian ficou satisfeito ao ver que conseguia tentá-la. Por isso
mesmo, se quisesse sobreviver à noite, seria melhor voltar a tratar de negócios.
— Veja o projeto e me diga o que acha. — Abrindo a pasta, tirou um papel e abriu-o sobre
a mesa. — Vou levá-lo para Cullum amanhã, para que ele possa começar imediatamente.
— Você trabalha rápido.
— Geralmente — insinuou ele, então voltou a olhar o desenho. Naomi tirou os óculos da
bolsa e os colocou, deixando Ian hipnotizado.
— Está maravilhoso. Oh, deixou o console, como eu sugeri.
— Foi uma ótima sugestão. Obrigado.
— Fico feliz por haver ajudado de alguma maneira. Tem muito espaço disponível e isso é
muito bom. A lareira e as poltronas confortáveis deixarão o lugar muito convidativo para
uma boa leitura.
Ian imaginou os dois fazendo exatamente aquilo. Sentados nas poltronas confortáveis,
lendo, tomando vinho e ouvindo música suave ao fundo. Então deixaria seu livro de lado a
certa altura, beijaria Naomi e...
"Controle-se, MacGregor." Limpando a garganta, perguntou:
— Faria alguma outra mudança?
— Não. Acho que está perfeito assim. Eu adorei, Ian.
— Eu também. — Ele sorriu.
O discreto aviso de que a livraria fecharia dali a quinze minutos fez Naomi levantar a vista.
— Deus, não imaginei que fosse tão tarde — disse.
— Tem mais alguma coisa para fazer?
— Não. Na verdade, prometi a mim mesma que me daria folga até o meio-dia de amanhã.
— Quer ir ao cinema? — perguntou Ian, em um impulso.
— Cinema?!
— Agora estamos com cafeína suficiente no organismo. Não conseguiremos dormir logo.
Então por que não ir ao cinema?
— Bem, eu...
— Ótimo. — lan guardou o desenho na pasta. — Meu carro está lá fora. Eu a levarei para
casa depois.
Quando deu por si, Naomi já estava saindo da livraria com lan segurando sua mão com
uma perturbadora intimidade.
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lan se considerava um homem paciente. Sabia como esperar e valorizava tudo que era
conquistado aos poucos, mas com segurança.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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Por isso, estava apreciando cada instante que passava ao lado de Naomi. Sempre achara
prazeroso ficar na companhia de uma bela mulher, principalmente se ela, além de linda,
também fosse inteligente e sensível. Naomi era tudo isso e um pouco mais.
Naquelas últimas semanas, foram a concertos, a cinemas e saíram para passeios a pé,
algo que ambos apreciavam. Foram a restaurantes finos e a outros mais populares. E,
como se não bastasse tanto tempo juntos, às vezes ficavam conversando ao telefone até
tarde da noite.
Ian acabou se dando conta de que, exceto na adolescência, nunca experimentara um
relacionamento tão intenso, maravilhoso e... frustrante em toda sua vida.
Por uma ou duas vezes, quando testara até que ponto poderiam chegar, Naomi recuara
feito um coelho assustado. Aquilo o fez pensar com seriedade que, se os dois se
tornassem amantes, ele seria o primeiro da vida dela. Seria um enorme prazer, claro, mas
também teria de assumir a responsabilidade por isso.
A situação não era tão simples quanto parecia. Mas ele era paciente, repetiu a si mesmo
enquanto observava a biblioteca praticamente pronta. Sempre se empenhara com
cuidado naquilo que achava que valia a pena.
Cullum havia feito um belíssimo trabalho, pensou, admirando as estantes de cerejeira,
prontas para receber seus livros. Haviam sido fixadas em lugares e em alturas diferentes,
criando o efeito que Ian desejara desde o início. O resultado fora um lugar aconchegante
e moderno ao mesmo tempo. Perfeito para seu gosto.
Naomi o ajudara a escolher as poltronas e as cadeiras ricamente estofadas. Sentando-se
em uma delas, ele suspirou. Havia um pouco dele em cada canto daquele lugar. E
também de Naomi.
Passou as mãos pelos cabelos castanhos quando um súbito pensamento lhe ocorreu com
a intensidade de um relâmpago: estava apaixonado por Naomi.
Não podia continuar negando aquilo para si mesmo. De fato, tinha quase certeza de que
se apaixonara por ela desde a primeira vez em que a vira. Acreditava em amor à primeira
vista, em destino marcado para o encontro de um grande amor e coisas desse tipo.
Parecia tolice, mas a intuição sempre lhe dissera que aquilo era algo possível de
acontecer. E ali estava ele, como a maior prova disso, completamente apaixonado.
Ficando de pé, começou a andar de um lado para outro. Não podia usar seus sentimentos
para pressionar Naomi. Mas tinha certeza de que, se dissesse que a amava, ela se
entregaria a ele. Então poderia convencê-la a se casar e a ficar com ele para sempre.
Entretanto, seria esse o desejo de Naomi?
Enfiou as mãos nos bolsos e foi até a janela olhar a paisagem. A decisão final teria de ser
dela.
Naomi não sabia o que deveria fazer. Leu mais uma vez o papel que Júlia lhe entregara
com um endereço anotado e olhou novamente para a suntuosa casa feita de tijolos. Uma
casa a apenas alguns quarteirões da de Ian.
Gostaria de estar com ele naquele momento. Ele estaria arrumando os livros, segundo lhe
dissera. Ela suspirou. Os livros que haviam selecionado juntos.
Ian lhe pedira para ir ajudá-lo com a parte final da arrumação, e ela iria para lá assim que
tivesse uma chance. Ele dava muita importância àquele tipo de detalhe, e isso o tornava
ainda mais especial.
Porém, já havia prometido ir até ali para participar do que Júlia chamara de "Dia das
Garotas". Havia feito uma bonita amizade com Júlia nas últimas semanas, enquanto combinavam os detalhes sobre o projeto da biblioteca de Ian. Por isso não tivera coragem de
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recusar o convite quando Júlia a abordara.
Pegando o embrulho com o logotipo de uma famosa do-ceria da cidade, saiu do carro e
se dirigiu a casa. Sorriu consigo quando a idéia de "antes tarde do que nunca" lhe veio à
mente. Nunca havia participado de uma reunião de garotas quando estudara no colégio.
Sabia que elas conversavam sobre festas, rapazes e sexo, mas nunca tivera facilidade
para fazer amizade com aquelas garotas que ela considerava modernas demais para seu
gosto.
Portanto, ali estava sua chance de resgatar o tempo perdido, pensou, enquanto se
encaminhava para a porta.
— Ei! — Júlia avançou sobre a caixa antes mesmo de abraçá-la. — O que trouxe?
— Bombas de chocolate.
— Eu te amo, garota. Chegou na hora certa porque acabamos de colocar as crianças
para dormir.
— Oh, e eu que estava com esperança de conhecer Travis...
— Vai conhecê-lo, não se preocupe. Ele e o Daniel de Laura nunca ficam fora de ação por
muito tempo. — Júlia conduziu Naomi até a sala ampla e lindamente decorada. — Já
conhece Laura, não é?
— Sim. Olá, Laura.
— Oi. Fico contente que tenha vindo. — Laura estava sentada sobre o tapete, comendo
um pacote de batatas fritas. — O que trouxe na caixa?
— Bombas de chocolate.
— Oh, meu Deus. Me dê isso aqui
— Não seja tão apressada — ralhou Júlia. — Esta é nossa prima Gwen, Naomi.
— Já ouvi falar muito a seu respeito — declarou Gwen, ievantando-se da cadeira onde
estivera pintando as unhas dos pés. — Vou sempre à sua livraria. Branson vai participar
de um dos encontros com autores, no próximo mês.
— Branson Maguire? — perguntou Naomi. Quando Gwen assentiu, ela continuou: — Oh,
ele é muito bom. Tenho todos os livros dele na minha coleção particular, e autografados
por ele.
— Sabia que a parte psicológica de Não Faça Mal foi baseada em Gwen? — Laura
perguntou.
— Não a parte psicológica — Gwen corrigiu, rindo. — Apenas a parte relativa à aplicação
da psicologia. Muito bem, ternos chocolate quente, musse de chocolate, chocolate em
barras e bolo de chocolate.
— Júlia escolheu o menu — salientou Laura, olhando de soslaio para Naomi.
— Júnior escolheu. — Júlia abriu sobre a mesa a caixa que Naomi levara. — Oh, ele vai
adorar isso. Sente-se, Naomi, e ganhe algumas calorias.
Uma hora depois, Naomi já não tinha certeza se voltaria a comer chocolate pelo resto da
vida. Permitira-se uma extravagância que nunca mais cometera nos últimos três anos,
mas considerou que também nunca havia rido tanto na vida.
Nem mesmo na época da adolescência, tivera a chance de se reunir com colegas, sentar
no chão e conversar sobre assuntos sérios e banais, dando a ambos o mesmo grau de
importância.
Parecia engraçado, mas em um tempo suficiente para devorarem uma caixa cheia de
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bombas de chocolate, ela conseguira ganhar três amigas de verdade.
— Hum... — Júlia lambeu o chocolate dos dedos. — Espere até ver a biblioteca de Ian —
disse a Gwen. — Ficou incrível.
— Cullum fez um trabalho fantástico na disposição das prateleiras — acrescentou Laura,
servindo mais chocolate quente.
— Ei, também ajudei no design — protestou Júlia. — E ela também — apontou para
Naomi.
— Não fiz muita coisa. Ian já sabia o que queria.
— Ele já arrumou os livros? — Júlia indagou. — Eu me lembro que a coleção dele é bem
considerável.
— Ele está fazendo isso hoje — respondeu Naomi.
— E... como estão as coisas entre vocês? — Júlia quis saber.
— Oh, muito bem. Ian é um ótimo amigo.
— Amigo? — Laura riu. — Eu não diria que a maneira como ele a estava olhando quando
os vi juntos era a de alguém que queria apenas amizade.
— Ian não pensa em mim desse jeito.
— Desde quando?
Naomi deu de ombros, decidindo que mais um pedaço de chocolate não faria mal.
— Ele até pensava, mas não me vê mais assim.
— Com licença. — Júlia levantou a mão. — Somos amigas agora, não somos? — Sem
esperar pela resposta, ela assentiu. — Ótimo. Naomi, você ficou maluca?
— Não sei o que está querendo dizer.
— Ian está louco por você, querida. Gwen, você não viu os dois juntos, mas conhece Ian
muito bem, não é?
— Sim, claro — anuiu Gwen, admirando o esmalte já seco das unhas dos pés.
— Bem, e na sua opinião médica, já que conhece o paciente, qual seria o diagnóstico
para alguém que passa todo o tempo livre em companhia de uma garota, fala
constantemente sobre ela, fica com um brilho diferente nos olhos quando a vê e prepara
jantares para dois?
— Hum... — Gwen apertou os lábios. — Na terminologia médica, chamaríamos isso de
"patologia amorosa".
Júlia levou a mão ao ventre, contendo os chutes de Júnior.
— Está vendo?
— Oh, e ele está agindo diferente no escritório também — interveio Laura. — Na semana
passada, eu o ouvi dizer à secretária que não transferisse nenhum telefonema para ele,
porque estava trabalhando em uma documentação importante, exceto se fosse a srta.
Brightstone.
— Patologia amorosa em estágio final — disse Gwen, com expressão séria. — Um tipo de
patologia que até hoje espanta a ciência médica.
— Ah, parem com isso. — Sem saber se ria ou chorava, Naomi optou por mais um
pedaço de chocolate. — lan me trata como uma irmã.
— O caso deve ser grave — observou Gwen. — Se der mais detalhes, posso até sugerir
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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algum tipo de tratamento.
— Ele me beija no rosto — continuou Naomi. — Dá tapinhas na minha cabeça. De vez em
quando me olha de um jeito que me faz pensar "Agora vai acontecer", mas nada acontece. Antes de contar a ele que eu nunca tinlia dormido com ninguém, ele me beijou com
um ardor que vocês nem imaginam, mas agora... O que foi Laura?
A irmã de lan soltara uma gargalhada.
— Oh, coitado do meu irmãozinho!
Confusa, Naomi ficou de pé. Olhou para as três em silêncio, até que uma lágrima rolou
por seu rosto.
— Oh, minha querida. Desculpe-me — disse Laura, levando a mão ao peito. — Duvido
que esteja sendo engraçado para você, ou para ele, mas é que lan pertence à família.
Não pude conter o riso. Gwen? — Olhou para a prima, pedindo ajuda.
— lan está assustado com a idéia de ser o primeiro homem de sua vida — afirmou Gwen.
— Isso é besteira.
— Não, não é. lan é muito sensível e deve estar com medo de assustá-la ou de magoá-la.
Se estiver tão apaixonado quanto penso que ele está, não deve estar sendo fácil tratá-la
como uma irmãzinha, dando-lhe tapinhas na cabeça. Com certeza está esperando que
você dê o passo seguinte, indicando a ele que pode ir em frente.
Naomi ficou em silêncio, olhando para os três rostos sorridentes à sua frente.
— Vocês acham mesmo que...? — Naomi sorriu, com olhar vago.
— Oh-oh, dra. Maguire, acho que temos outro caso de patologia amorosa. — Júlia sorriu,
dando uma piscadela para as primas. — Isso pode acabar virando uma epidemia.
Já estava escurecendo quando Naomi parou o carro diante da casa de lan. As luzes se
encontravam acesas. Estaria ele na biblioteca, ainda arrumando os livros?, ela se
perguntou.
Durante a conversa com as garotas tudo parecera muito animador, mas, no trajeto até ali,
ela começara a analisar a situação com mais cuidado. Já não tinha tanta certeza do interesse de ían.
Ele era tão charmoso e atraente. Poderia ter as mulheres que quisesse com um estalar de
dedos. Por que iria se interessar justo por ela?
— Pare, pare — disse a si mesma. — Essa era a maneira como você costumava pensar,
Naomi. E uma mulher diferente agora. Mais segura e sofisticada.
Respirou fundo dez vezes, mas dessa vez o relaxamento não pareceu funcionar como
das outras vezes. "Excesso de chocolate", concluiu.
Mesmo assim, seguiu em frente e tocou a campainha. ían apareceu à porta descalço,
trajando um jeans desbotado e uma camiseta com o logotipo do curso de Direito de
Harvard. O sorriso com que a saudou preencheu o peito de Naomi feito um afago
carinhoso.
— Oi. Não pensei que a veria mais hoje.
— Eu deveria ter telefonado — disse ela. — Estava com Júlia e...
— O "Dia das Garotas", eu sei. — Ele ficou de lado para ela entrar. — Elas fazem isso
uma vez por mês. O que diabos vocês fazem nessas reuniões?
— Pintamos as unhas, comemos chocolate, falamos sobre rapazes...
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— É mesmo? E o que falam sobre nós?
— Ah... Posso tomar alguma coisa?
— Sim, claro. Deixei uma garrafa de vinho na biblioteca e estou louco para lhe mostrar o
que fiz por lá.
O receio de acabar sucumbindo ao desejo de tomá-la nos braços o fez manter as mãos
nos bolsos enquanto subiam a escada. Ao chegarem à porta, Ian olhou para ela.
— Feche os olhos.
Quando Naomi o obedeceu sem questionar, ele a levou até o interior do aposento.
— Pode abri-los agora.
Ao abrir os olhos, Naomi levou a mão ao peito.
— Oh, Ian... Ficou maravilhoso.
Com os olhos brilhando e um sorriso dançando nos lábios, observou as estantes repletas
de livros.
— E os móveis também chegaram! Oh, eu adorei — disse e olhou para ele.
— Eu queria que você fosse a primeira pessoa a ver — confessou Ian, voltando a enfiar
as mãos nos bolsos. — Vou pegar o vinho.
Mantendo a mão ainda junto ao peito, Naomi reuniu toda coragem que lhe restava e
perguntou:
— Ian, você quer ir para a cama comigo?
Ele se virou no mesmo instante, derramando vinho na camiseta.
— O quê?!
— Eu não quis parecer rude ou colocá-lo em uma situação difícil. E que... eu gostaria de
saber se você ainda se sente atraído por mim. Se não se sentir, tudo bem. Mas se ainda
me quiser e estiver se contendo só porque nunca estive com um homem antes, pode
parar agora mesmo. Prefiro que pare de ser tão consciencioso, se for assim que estiver
agindo.
Naomi não soube mais o que dizer. Ian continuou a olhá-la, com a garrafa de vinho na
mão, um copo vazio na outra e uma mancha de vinho em sua camiseta preferida.
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lan colocou a garrafa de volta na mesa.
— Não quer que eu seja consciencioso?
— Não sobre isso — respondeu Naomi. Ele deixou o copo ao lado da garrafa.
— Não quer que eu fique longe de você? Naomi sentiu um arrepio pelo corpo.
— Não se você ainda... Se ainda me quiser.
lan sentiu a boca secar. Desejara Naomi desde o primeiro instante, e ali estava ela,
oferecendo a ele o amor que não oferecera a nenhum outro homem. Teria de ser muito
cuidadoso para não quebrar a magia daquele momento que deveria estar sendo muito
importante para ela.
Curvou os lábios em um sorriso, ao se aproximar dela.
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— A testemunha deve responder à questão com "sim" ou "não" — falou, usando um tom
jurídico. — Quer que eu fique longe de você?
— Não. — Naomi continuou fitando-o nos olhos.
— Ainda bem.
No segundo seguinte, ela já estava nos braços dele, tendo de ficar na ponta dos pés para
alcançar aqueles lábios sedentos e exigentes.
— Isso responde à sua pergunta? — murmurou lan, bei-jando-a na base do pescoço.
— Que pergunta?
— Se eu ainda te quero. — Deus, como ele desejara poder fazer aquilo. — No caso de
não haver notado minha primeira resposta, deixe-me repeti-la... — Beijou-a novamente
até que Naomi ficasse sem fôlego. — Entendeu agora?
— Sim.
Naomi enlaçou os braços em torno do pescoço dele.
— Está me deixando louco há semanas — confessou Ian.
— Eu... É mesmo?
— Pensando bem, estava me matando mesmo.
— Pensei que houvesse decidido ser apenas meu amigo.
— Já somos amigos. — Tomando-a nos braços, Ian começou a andar em direção ao
quarto. — Mas isso só me fez desejá-la mais.
Um brilho de emoção surgiu nos olhos de Naomi, que tocou o rosto dele com carinho.
— Estou com um pouco de receio, Ian. Não sei muito bem o que fazer.
Ele virou o rosto, beijando a palma da mão dela.
— Não se preocupe com isso. Confie em mim, Naomi. Não vou machucá-la, e se quiser
que eu pare, é só dizer.
— Não vou querer que pare.
Ele sorriu, acionando o interruptor com o cotovelo. Preferiria amá-la à luz de uma lareira
ou de candelabros, mas não sabia se agüentaria esperar tanto tempo.
Naomi estava um pouco trêmula, mas os adoráveis olhos acinzentados continuaram
firmes nos seus. A confiança que ele pedira a ela estava ali, estampada neles. Jurou a si
mesmo que, por mais que o desejo estivesse ardendo em seu corpo, não faria nada para
perder a confiança de Naomi.
Quando voltou a beijá-la, mordiscou-lhe os lábios macios.
— Adoro sua boca — murmurou. — É tão sexy... Naomi abriu os olhos, surpresa com a
excitação que aquilo lhe provocara. Ian sorriu, adorando ver cada reação que ela estava
tendo.
— Nem imaginou, não é? — perguntou a ela. — Pois sempre tive vontade de fazer isso.
lan continuou mordiscando os lábios dela até deixá-la louca de desejo. Com um gemido
abafado, puxou-o mais para si, beijando-o com sensualidade.
O sangue começou a correr mais rápido pelas veias de lan. "Devagar, devagar", ordenou
a si mesmo. A reação de Naomi poderia até ser a resposta a toda fantasia sexual, mas
ela continuava intocada. Além disso, havia dado sua palavra.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
161
Diminuindo a intensidade do beijo, começou a soltar os cabelos dela, presos em uma
trança caída às costas. Queria vê-los soltos, em suas mãos, espalhados sobre seus
travesseiros... Um agradável perfume de xampu lhe chegou às narinas, quando ele os
soltou por completo.
Entrelaçando os dedos nas mechas sedosas, afastou-se um pouco. Então, fitando-a nos
olhos, começou a levantar o suéter dela.
A primeira reação de Naomi foi tentar se cobrir, mas lan tocou-lhe as mãos com as dele.
Esforçando-se para recuperar o fôlego, ela sentiu o tecido subir devagar, deixando sua
pele exposta ao ar mais frio do ambiente e ao calor do olhar de lan.
Sentiu o coração acelerado quando ele deslizou a ponta do dedo pelo contorno de seu
sutiã de renda. Cravando as unhas na palma das mãos, enquanto as mantinha ao lado do
corpo, ordenou a si mesma para relaxar e ser corajosa o suficiente para fazer o que
desejava.
Respirando fundo, levou as mãos à camiseta de lan e também o fez tirá-la. Deus, como
ele era lindo. Músculos firmes, pele levemente bronzeada... Sem pensar, levou as mãos
ao peito dele, mas se afastou quando ele estremeceu.
Sorrindo, lan pegou as mãos dela e as colocou de volta em seu peito.
— Tire os sapatos — pediu a ela.
Naomi notou que o coração dele estava tão acelerado quanto o dela. E aquele peito forte
sob seus dedos...
— Meus sapatos?
— Sim, tire-os.
— Hum-hum.
Fascinada com o calor daquele corpo másculo, apoiou-se nele enquanto tirava os
sapatos. Porém, voltou a ficar tensa quando Ian começou a abrir o zíper de sua calça.
— Relaxe — murmurou ele junto a seu ouvido, antes de beijá-la mais uma vez.
Enquanto se beijavam, a calça de Naomi já havia ido parar no chão. Ainda brincando com
os lábios dela, Ian tomou-a nos braços e deitou-a na cama.
Naomi adorou sentir o calor daquele corpo másculo sobre o seu, contrastando com a
frieza do lençol junto às suas costas. As mãos experientes de Ian começaram a acariciar
cada parte de seu corpo, fazendo-a gemer baixinho e aninhar-se sob ele, desejando...
algo mais.
Porém, antes que pudesse se dar conta do que era, fechou os olhos com um suspiro
quando Ian começou a percorrer a mesma trilha sedutora com os lábios.
Ian nunca havia sido tão cuidadoso ao amar alguém. Tampouco desejara uma mulher
com tanta intensidade. Queria dar a Naomi todo o prazer que ela merecia sentir, mesmo
sendo sua primeira vez. Despertaria nela toda a sensualidade que nem ela mesma
deveria conhecer. De fato, isso estava sendo mais fácil do que conter sua própria
urgência de torná-la completamente sua.
Naomi mantinha os olhos fechados e a respiração ofegante. O suspiro quase de alívio
que ela soltou quando ele finalmente abriu seu sutiã fez Ian estremecer de desejo.
Os seios perfeitos preencheram suas mãos como se houvessem sido feitos para ficarem
ali para sempre, saciando seu prazer. Naomi ergueu o quadril instintivamente quando
seus polegares circundaram os mamilos rosados.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
162
Um sorriso de satisfação se insinuou em seus lábios quando uma expressão de puro
prazer surgiu no rosto de Naomi. Então para seu maior encantamento, ela abriu os olhos
ene-voados de desejo e lhe perguntou:
— O que devo fazer?
O sorriso voltou a brotar nos lábios dele.
— Apenas relaxe.
Com a boca, acariciou-lhe os mamilos até deixá-los túrgi-dos e mais rosados, feito duas
frutas tenras. Naomi gemia e estremecia sob seu toque, levando-o a ter de se esforçar
para manter o controle.
Em meio a outro beijo, deslizou a mão cada vez mais para baixo e começou a acariciá-la
com mais intimidade, para que Naomi se acostumasse a compartilhar as novas
sensações.
Quando ela gemeu alto, estremecendo sob o poder de seus dedos experientes, Ian
afundou o rosto junto àqueles cabelos perfumados, contendo o desejo que queimava mais
do que nunca em seu corpo.
Naomi relaxou um pouco, mas sua respiração continuou ofegante. Nada a havia
preparado para aquela doce explosão dos sentidos. Ansiosa por mais, buscou o rosto de
Ian e puxou-o para si até que seus lábios se encontrassem.
Adorou deslizar as mãos pelas costas dele e sentir-lhe a pele úmida sob o efeito do
desejo. Querendo que ele sentisse o mesmo prazer que estava lhe dando, roçou os lábios
pelo pescoço e pelos ombros fortes, enquanto insinuava o corpo sob o dele, em um
convite silencioso.
Com um gemido, Ian se afastou apenas o suficiente para se livrar do restante da roupa e
voltou para junto dela, mais do que pronto para amá-la. Depois de um longo beijo cheio
de expectativa, ele a ergueu com delicadeza e tomou Naomi para si.
A doce barreira da inocência o tornou ainda mais gentil. Cobrindo os lábios dela com os
seus, abafou-lhe o sobressalto com um beijo carinhoso e sedutor. Naomi era sua afinal.
Somente sua, pensou ele, amando-a pela primeira vez.
Naomi suspirou, aninhada nos braços de Ian. Estavam assim desde algum tempo,
enquanto o ritmo de seu coração e de sua respiração voltava ao normal.
— Tudo bem com você?
— Hum-hum — foi tudo que Naomi conseguiu dizer, fazendo-o rir.
— Como está se sentindo?
— Hum... leve e meio zonza. — Ela suspirou. — Incrivelmente relaxada. Pensei que me
sentiria estranha, mas estou me sentindo ótima. Fiz tudo certo?
Ian arqueou uma sobrancelha.
— Não. Você foi um grande desapontamento para mim. Acho que terei de pedir para que
me deixe agora mesmo.
Naomi arregalou os olhos, fitando-o no mesmo instante. Porém, voltou a relaxar ao ver
um sorriso preguiçoso dançando nos lábios dele.
— E provável que eu melhore com um pouco de prática
— disse ela, em um tom de desculpa.
— Bem, sendo assim, pretendo lhe dar outra chance de treinamento muito em breve. —
Ian beijou-a na ponta do nariz.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
163
— Quer aquele vinho agora?
— Sim.
Naomi fingiu não observar quando ele levantou-se da cama e saiu nu do quarto. Mas
quando ele se retirou, ela levou a mão ao peito. Como conseguira despertar um desejo
tão intenso em um homem tão completamente perfeito como Ian?
Melhor não questionar, disse a si mesma. Então, dando-se conta de repente de que
também estava nua, puxou mais o lençol para cima no momento em que Ian entrou no
quarto.
Ele parou por um momento, então balançou a cabeça.
— Como diabos conseguiu ficar virgem com um corpo e um rosto como esses?
Naomi enrubesceu, tornando-se ainda mais sexy aos olhos dele.
— Acho que ninguém se interessou realmente por mim. Ele riu, carregando os copos e o
vinho para a cama.
— Fale sério. Não deve ter prestado atenção ao que acontecia à sua volta.
— Talvez. Sempre fui desajeitada com rapazes, com homens em geral.
Tomou um generoso gole de vinho, tentando se manter relaxada.
— Pois acho que os homens com quem se encontrou eram os verdadeiros desajeitados
da história. Tem um corpo e tanto.
— Eu sempre quis ser alta e esguia, mas comecei a me desenvolver cedo. Foi muito
constrangedor.
— Por quê?
— Oh, acho que você teria de ser uma garota para entender o que é ser uma adolescente
e de repente...
— Desenvolver lindos seios — completou ele, sorrindo.
— Os homens adoram seios, Naomi. Nós os consideramos um dos mais perfeitos dons
da natureza.
Foi a vez de Naomi rir.
— Passei anos tentando esconder os meus — confessou.
— E continua fazendo isso — salientou Ian, abaixando o lençol até a cintura dela e rindo
quando ela se sobressaltou.
— Assim está bem melhor. Gostou do vinho?
— E ótimo.
Sem se importar com o que ele diria, ela cobriu os seios novamente. Não conseguiria ficar
ali nua e tomando vinho como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Sinto muito pelo vinho ter manchado sua camiseta. Conseguirá remover a mancha se a
lavar logo.
— Acho que vou mantê-la daquele jeito como lembrança da melhor noite da minha vida.
Um brilho de satisfação surgiu nos olhos de Naomi.
— Foi muito gentil em dizer isso. Como pode ter se interessado por mim?
Mesmo já tendo se acostumado à sinceridade de Naomi, Ian não se preparara para uma
pergunta como aquela.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
164
— Você tem lindos seios.
Ela arregalou os olhos. Então, entendendo o brilho de divertimento nos olhos dele, riu
alto.
— Bem, sorte minha.
Ian deslizou o dedo pelo rosto, o pescoço e o ombro dela, descendo em direção ao lençol.
— Quando terminar seu vinho, acho que poderemos ter aquela sessão de treinamento.
Naomi tomou um gole de vinho.
— Tudo bem, mas desta vez quero ir para a biblioteca.
— Foi a vez de ela ver um ar de espanto no rosto de Ian. — Faço tudo bem melhor
quando estou cercada de livros.
A imagem sensual que surgiu na mente de Ian despertou-lhe de imediato uma nova onda
de desejo.
— Naomi?
— Sim?
— Termine logo esse vinho.
Ela tomou o restante da bebida de um só gole.
— Pronto.
Era simplesmente maravilhoso ter Naomi daquele jeito, aninhada e adormecida em seus
braços em meio à penumbra. Era o que ele queria não apenas naquele momento, mas
para sempre em sua vida. Engraçado como ela entrara em sua vida sem avisar e passara
a fazer parte dela de uma forma tão completa.
Conseguia imaginá-los ali, deitados naquela cama, ano após ano. Com filhos
adormecidos, um cão deitado no tapete da sala.
A vida seria um pouco agitada com a profissão que eles tinham, mas seria compensador
no final das contas. Conseguiriam criar os filhos, manter o casamento e ser felizes para
sempre. Podia até parecer romântico demais, mas era o que ele queria.
Tudo que precisaria fazer seria continuar sendo paciente para não precipitar o andamento
das coisas. Afinal, fora agindo assim que ele conseguira se aproximar de Naomi.
Dera a ela espaço suficiente para se acostumar a compartilhar sua intimidade com ele.
Por fim, ela se aproximara não apenas por vontade própria, mas tomada por um desejo
arrebatador. Sentia o corpo esquentar só de lembrar o modo ardente como haviam feito
amor pela segunda vez.
Dali em diante, daria a Naomi algumas semanas, antes de lhe sugerir que fosse morar
com ele. Seria um passo de cada vez, para não correr o risco de perder o que
conquistara. Era a melhor maneira de lidar com alguém sensível e inexperiente como ela.
Sabia controlar sua própria impaciência e suas necessidades quando o resultado final era
recompensador. No caso de Naomi, era mais do que isso. Era sua própria vida.
Sim, daria espaço a ela, pensou, ainda que a puxando mais para si. Depois disso, teriam
uma vida inteira juntos.
27
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
165
lan desligou o telefone e balançou a cabeça. Seu avô andara entrando em contato com
ele bem mais do que o normal nos últimos tempos. Tanto que aquele era o terceiro
telefonema em menos de duas semanas.
Pelo visto, precisaria mesmo arranjar algum tempo para ir a Hyannis Port, pensou,
virando-se novamente para seu computador. Estava estudando um documento que teria
de levar ao fórum, mas seus pensamentos teimavam em se voltar para Naomi a todo
instante. Pensando bem, talvez fosse uma boa idéia levá-la para passar um final de
semana com seus avós. Porém...
Tinha certeza de que, se o velho MacGregor a visse, começaria uma de suas "campanhas
de casamento" no mesmo instante. Falaria sem a mínima discrição sobre casamento e o
dever de continuar o clã dos MacGregor.
Ian sorriu, mudando uma das frases na tela. Mal sabia o velho MacGregor que era
exatamente isso que o neto dele tinha em mente.
Ao ouvir uma batida à porta, levantou a vista. Era sua mãe.
— Está ocupado?
— Não muito.
Diana entrou no aposento com sua costumeira elegância e os cabelos negros presos em
um coque, destacando seu rosto bonito. Colocou uma pilha de papéis sobre a mesa de
Ian.
— Bem, agora está — brincou.
— Não me diga que é o caso Perinsky? Ela sorriu.
— Acertou. Desta vez ela está determinada a processar um mercado vizinho por não ter
sua marca preferida de chá. Disse que isso é violação de direitos civis.
— Laura se entende melhor com ela — salientou Ian, olhan-do-a com um ar esperançoso.
— Mas a sra. Perinsky gosta mais de você. — Sorrindo, Diana sentou-se na beirada da
mesa. — Acho que ela tem uma queda por você, querido.
— Ela pesa cem quilos, mamãe. No mínimo.
— Sei que não é fácil, Ian, mas ela tem sido nossa cliente desde antes de você nascer.
— Antes de você nascer, é o que quer dizer — corrigiu ele, fazendo Diana rir mais uma
vez.
— E possível. De qualquer maneira, ela é apenas uma mulher solitária em busca de
atenção. Se der um pouco a ela, entregar-lhe alguns doces e conversar com calma, talvez
a faça desistir dessa tolice.
— Posso tentar. Mas ficará me devendo essa.
—
Uma
refeição
com
a
comida
da
mamãe
Ian pensou por um momento. Qualquer coisa envolvendo
nos
a sra. Perinsky exigia uma grande recompensa.
— Uma torta de damasco de sobremesa ajudaria bastante. Ela sorriu.
— Posso dar um jeito nisso. Domingo está bom para você?
— Está se você incluir mais uma pessoa no cardápio.
— Naomi?
— Sim — ele confirmou. — Tudo bem para você?
deixaria
quites?
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
166
— Sim, claro. Gosto muito dela.
— Estou apaixonado por ela.
— Oh.
Sentindo os olhos se encherem de lágrimas, Diana levou a mão ao rosto. Ian se levantou,
preocupado, e segurou-a pelos ombros.
— Pensei que havia dito que gostava dela.
— Sim, eu gosto. — Tocando o rosto dele com carinho, continuou: — É que nunca pensei
que algum dia veria meu filhinho dizer algo assim. Estou muito feliz por você, lan.
— Não está dizendo isso só para me agradar?
— Não, estou realmente feliz. — Diana enxugou uma lágrima. — Uma parte de mim ainda
o considera um garotinho, e a outra se orgulha do lindo rapaz que você se tornou. —
Segurando o rosto dele entre as mãos, falou: — Essa foi a primeira vez que o ouvi dizer
que está apaixonado. Por isso, sei que está falando muito sério.
— Sim, estou.
— Naomi é uma garota de sorte. — Diana o beijou com carinho. — E digo isso com
conhecimento de causa.
— Então deixe escapar alguns elogios sobre o ótimo filho que eu sou e coisas do gênero
quando estivermos jantando.
— Oh, isso será fácil.
— Mas seja sutil, está bem? — pediu ele. — Naomi é muito tímida e não quero deixá-la
embaraçada.
Surpresa, Diana arqueou as sobrancelhas.
— Ainda não disse a ela o que sente?
— Estou trabalhando nisso. Mas já tenho tudo planejado.
— lan, minha única crítica com relação a você é que sempre planeja as coisas com
cuidado demais. Muito à Ia Daniel MacGregor.
— Ora, funciona com ele. Além disso, não acha que será divertido quando eu apresentar
a ele a garota com quem vou me casar sem que ele tenha interferido na conquista?
Diana apertou os lábios, lembrando-se da lista de livros que Daniel lhe entregara para que
lan fosse procurar. Claro que seria bem mais fácil o próprio Daniel telefonar para a livraria
e pedi-los.
— Sim, será muito divertido — respondeu, achando melhor deixar o filho com a impressão
de que agira por conta própria.
Naomi acrescentou à pilha mais um volume do último livro de suspense de Branson
Maguire. Havia criado um interesse ainda mais especial pelo trabalho dele depois de se
tornar amiga da esposa dele e de sua família. Ele tivera lindas filhas com Gwen. Os filhos
de Laura também eram umas gracinhas. Ah, e também havia Travis. Bem, tinha de
admitir uma preferência especial pelo enérgico filho de Júlia.
Pegando outro volume de Busca Mortífera e colocando-o na pilha artesanal que estava
formando no centro da livraria, pensou em como vinha imaginando com freqüência como
seria ter seus próprios filhos.
Se não fizesse nada para estragar o relacionamento, Ian poderia acabar até apaixonado
por ela. Não era impossível. Aliás, nada mais era impossível.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
167
Ian a desejava e ela sabia que ele sentia algo intenso por ela. Não havia motivo para não
ser amor. O mesmo que ela sentia por ele. Algum dia, ainda o veria segurar seu rosto
entre aquelas mãos carinhosas e dizer: "Eu te amo, Naomi".
— Naomi?
O súbito toque em seu ombro a fez voltar os pensamentos ao presente e lançar um olhar
confuso para Júlia.
— Fez boa viagem? — brincou ela. Naomi sorriu.
— Júlia! Ei, deve estar prestes a dar à luz — disse, olhando para o ventre avantajado da
amiga. — Não deveria estar dirigindo por aí.
Júlia revirou os olhos.
— Ah, meu Deus, até parece Cullum falando. Aliás, não se preocupe porque foi ele quem
me trouxe. Está procurando uma vaga para estacionar lá fora. Eu estava inquieta em
casa, e deixando Cullum maluco, coitado. Então ele teve a brilhante idéia de me trazer até
aqui para que eu comesse algumas bombas de chocolate.
— Então vamos até o café — sugeriu Naomi, fazendo um sinal para que Júlia a seguisse.
— Está bem. Oh, isso está ótimo — elogiou Júlia, apontando para a pilha de livros. —
Bran venderá todos em um piscar de olhos.
Naomi passou o braço pelo dela, enquanto seguiam em frente.
— Estamos contando com isso. Já leu o livro?
— Não estou conseguindo me concentrar direito para ler — disse Júlia. — Também fiquei
assim quando estava esperando Travis. Mesmo assim, coloquei um exemplar na bolsa
que vou levar para o hospital. Parece engraçado, mas assim que dou à luz, consigo ficar
horas parada e concentrada.
— Você vai adorar o livro de Branson.
— Tenho certeza de que sim. Ei!
Júlia parou de repente, apoiando-se em um balcão e derrubando alguns livros no chão.
— Ele está chutando? — perguntou Naomi. — Quer se sentar?
— Não, Júnior não está chutando. Está é querendo conhecer o mundo mesmo. Não é de
admirar que estou esquisita desde a manhã.
Naomi arregalou os olhos.
— Agora?
— Não exatamente neste minuto. — Júlia se inclinou, surpresa com a intensidade da
contração. — Mas logo. Oh, droga, acho que não dará tempo de comer a bomba de
chocolate.
Naomi correu para pegar uma cadeira e a trouxe para perto de Júlia.
— Sente-se um pouco. Vou chamar Cullum.
— Boa idéia. — Júlia sentou-se devagar. — E Naomi? Diga a ele para não demorar
porque eu acho que Júnior não vai perder muito tempo.
Duas horas depois, Naomi estava andando de um lado para outro, em uma sala de
espera repleta de membros da família MacGregor. Não entendia como eles conseguiam
ficar tão calmos. Como podiam ficar ali sentados, rindo e contando histórias sobre a
família?
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
168
A mãe de lan ocupava uma das cadeiras, enquanto conversava animadamente com o expresidente e a mulher dele. Os parentes de Júlia estavam a caminho de Boston, sendo
informados pelo celular sobre o andamento do parto.
Caine estava em seu próprio celular, rindo enquanto falava com os futuros bisavós. E Ian,
segundo ela percebeu, não se encontrava em nenhum lugar por perto.
Quando Gwen abriu a porta dupla que dava acesso à sala de parto, Naomi se adiantou,
esquecendo-se de que não pertencia à família.
— Como ela está? O que aconteceu?
Então arregalou os olhos ao ouvir uma voz enfurecida vinda de algum lugar lá dentro.
— Não me ensine como respirar, Murdoch! Seu idiota! Sei muito bem como respirar. Por
que não troca de lugar comigo?
Gwen riu, dando de ombros.
— Ela está ótima, como pode ver. Quer dizer, ouvir. — Olhando para os outros rostos
expectantes, avisou: — Vou voltar para lá. Júlia está pronta para iniciar o parto. Portanto,
preparem os. charutos. Oh, olá, Ian — disse ela.
— Perdi alguma coisa? — perguntou ele, ofegante, depois da corrida desde o
estacionamento.
— Quase — Gwen respondeu, abrindo novamente a porta dupla.
— Não me diga para não empurrar ainda, seu idiota! Está despedido!
— Esta é a terceira vez que Júlia despede o obstetra. Com Travis, foram cinco. — Rindo,
Gwen voltou para a sala de parto.
— Ela deve estar sentindo muita dor — observou Naomi, unindo as mãos. — Deve estar
assustada.
— Assustada? — repetiu Ian. — Júlia? E pouco provável.
— O que sabe a esse respeito? — Ela se indignou, fazendo alguns membros da família
olharem na direção dos dois. — Nem mesmo estava aqui — completou em um tom mais
baixo de voz. — Onde esteve?
— Ocupado com uma mulher capaz de comer dois quilos de doce em dez minutos. Saí
correndo assim que me avisaram pelo celular. Quer um pouco de água?
— Não, não quero. Desculpe-me, mas é que nunca estive em uma situação assim antes.
Estou um pouco nervosa. Por que ninguém mais está nervoso por aqui?
— Passamos por isso com uma certa freqüência ao longo dos últimos anos — explicou
lan. — Querida, por que não se senta?
— Não consigo ficar sentada. — Naomi fechou os olhos, fazendo sua respiração de
relaxamento. — Sinto muito — desculpou-se, voltando a olhá-lo. — Eu não deveria ter
falado com você daquela maneira ainda há pouco.
— Pode dizer o que pensa quando quiser. Mas não pensei que faria isso aqui — admitiu
lan. Passando o braço pelos ombros dela, levou-a até uma cadeira vazia. — Liguei para a
livraria quando recebi o recado sobre Júlia. Queria avisá-la sobre o que estava
acontecendo, mas sua assistente me disse que você já tinha vindo para cá.
Naomi sentou-se, tentando relaxar.
— Acha que ainda vai demorar?
— É difícil dizer — respondeu lan. — Com Travis, Júlia demorou... Deixe-me ver... Cerca
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
169
de uma década.
— Catorze horas — corrigiu Laura. — • Três horas a menos do que demorei para ter meu
primeiro filho.
— Para mim, todo parto parece demorar uma década — falou ele. — Onde está Bran?
— Candidatou-se a mártir — respondeu Caine, rindo. — Disse que ficaria com todas as
crianças e pediu para que rezássemos por ele. Tome, beba isso.
Ele entregou um copinho com chá para Naomi.
— Oh, obrigada.
Embaraçada demais para dizer que não queria tomar nada, ela bebericou o chá enquanto
ouvia a conversa e os risos. Só se deu conta de que estava mais calma, ao tomar o último
gole do chá.
Gwen apareceu à porta novamente, com o rosto suado e uni sorriso satisfeito.
— Senhoras e senhores, quero anunciar o nascimento de Fiona Joy. A mãe, o pai e a filha
estão passando bem. Ela é linda!
Algumas mulheres da família enxugaram as lágrimas com discrição. Porém, logo todos
estavam falando novamente, abraçando-se e comemorando a novidade.
Naomi foi beijada e quase esmagada por tantos abraços calorosos. Quando o pai de lan
lhe ofereceu um charuto, ela olhou para a caixa de charutos, não acreditando que aquilo
realmente estivesse acontecendo.
Antes que pudesse agradecer e rejeitar com polidez, como pretendia, lan tomou-a nos
braços e rodopiou com ela.
— Não é maravilhoso, Naomi?
— Sim, claro — respondeu ela, sem fôlego e meio zonza. De fato, os MacGregor
formavam uma família bastante inusitada.
28
Sim, aquela era a família mais incrível que Naomi já conhecera. E já haviam praticamente
permitido que ela se tornasse parte dela, ao aceitarem que ela participasse de um momento tão importante quanto o nascimento da filha de Júlia.
Também ficara do lado de fora do berçário, olhando o lindo bebê no colo do pai
orgulhoso. Quando Caine anunciara que iriam sair para comemorar, ela também fora
levada com eles, em meio a risos e comentários bem-humorados. Nenhum deles a olhava
como se ela fosse alguém de fora, que não tinha o direito de participar daquela alegria.
Eram sinceros, amorosos e, acima de tudo, honestos. Com um peso na consciência, foi
obrigada a admitir que não vinha agindo como eles. Pelo menos não com Ian.
Mas, enquanto estavam indo para a casa dele, naquela noite, ela decidiu que voltaria a
agir da forma correta.
— Pode ter certeza de que teremos outra reunião familiar amanhã — avisou ele, ao
destrancar a porta. — Provavelmente liderada pelo velho MacGregor, que não perderá
tempo em bisbiihotar a vida dos netos e dizer que o novo bebê se parece com ele. Se
D.C. e Layna vierem também, terão de ouvi-lo cobrar outro bisneto. — Achando melhor
prepará-la para o que iria acontecer, acrescentou: — Então ele se voltará para você.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
170
— Para mim?
Nervosa, Naomi foi até o sofá e afofou as almofadas que já estavam mais do que fofas.
— "Por que uma bela jovem como você ainda não se casou?" — disse Ian, imitando os
trejeitos e o sotaque escocês do avô. — "Não gosta de crianças? O que diabos está esperando para tê-las?"
Pensou que Naomi riria, mas ela continuou séria quando se virou para ele.
— Ian, isso não está certo. Você, sua família... Têm sido tão gentis comigo.
— E o que há de errado com isso?
— Não tenho sido honesta. Você nem me conhece direito e me deseja apenas
fisicamente.
— Protesto! — bradou ele, como se estivesse em um tribunal.
Quando Ian se aproximou e fez menção de beijá-la, ela tocou os lábios dele.
— Não, por favor. Eu não deveria tê-lo feito pensar que eu sou realmente essa pessoa
que você está vendo. — Abrindo os braços e voltando a abaixá-los, completou: — Nem
eu mesma ainda me convenci disso. Por isso acho que não estou sendo justa com você.
— Naomi, não sei do que está falando. Estou olhando para você e tocando em você —
falou Ian, segurando-a pelos ombros.
— Mas só porque mudei a superfície. Há dois anos, duvido que olharia para mim. E por
que deveria? Ninguém havia olhado até então. Eu era desengonçada e estava
começando a ter problemas de obesidade porque achava mais fácil comer feito uma
desesperada do que assumir que nunca conseguiria ser como minha mãe.
— Como sua mãe?
— Sim. Alta, esguia e muito feminina. Por isso, eu vivia comendo sem parar e me
escondendo na livraria.
— Naomi, muitas adolescentes passam por esse estágio.
— Não foi um estágio, Ian. Foi uma condição e um sintoma do que havia dentro de mim.
Só tentei mudar porque comecei a perceber que estava sendo injusta comigo mesma.
Queria encontrar o que realmente havia dentro de mim, para então tentar gostar de mim
mesma.
— E conseguiu. Não há nada de errado com você.
— Sim, há! — Impaciente, ela se afastou. — Ainda não consigo decidir o que vestir pela
manhã sem verificar meu computador. — Oh, Deus, teria de criar coragem e continuar
falando. — Tenho todo meu guarda-roupa arquivado no computador, com os acessórios,
os sapatos e o batom adequados para cada modelo. Mantenho outro arquivo indicando a
freqüência de uso, para não repetir as roupas em intervalos curtos de tempo.
— É mesmo? — Ian inclinou a cabeça. — Mas isso é brilhante!
— Brilhante?! E ridículo! Qualquer mulher normal apenas abre o guarda-roupa e escolhe
uma combinação de roupa. Na semana passada, tive um problema no computador e
entrei em pânico. Felizmente, consegui consertá-lo a tempo. — Ela suspirou. — Patético.
Não que você não esteja sempre fascinante, mas não acho que precise se preocupar
tanto com isso.
— Você não entende, Ian. É bonito e sempre foi. Não sabe o que é crescer sendo o
"patinho feio" da família. Ainda mais tendo pais bonitos e elegantes como os meus. Meu
irmão, então, parece um astro de cinema.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
171
— Naomi. — Ele a segurou pelos ombros novamente. — Você é muito bonita.
— Não. Só consigo ficar apresentavel quando me arrumo com muito cuidado. Mas estou
contente mesmo assim. Qualquer coisa é melhor do que voltar a ser como eu era antes.
— Acredita mesmo nisso, não?
Com paciência, Ian a levou até um espelho com moldura de madeira, preso à parede do
hall. Virando-a de frente para o reflexo dos dois, perguntou:
— O que está vendo ali?
— Você. Apenas você. Nenhum hon n me quis antes de você, Ian.
Pela primeira vez, o impacto de sab aquilo o afetou de uma maneira que ele não soube
explicar.
— Nunca me senti assim em toda minha vida — confessou Naomi, expondo o que ele
identificou como culpa. — Sempre estive um passo atrás dos outros em tudo, e nunca
pensei que alguém se importaria comigo o suficiente para me mostrar um caminho
alternativo.
— Naomi.
— Deixe-me terminar. — Virando-se, olhou-o de frente. — Não quero continuar pensando
que sou algo que não sou. Uma parte de mim continua sendo aquela garota desengonçada que nunca teve um namorado nem mesmo nos tempos do colégio. E que passou
toda a adolescência escondida no meio dos livros porque aquele era o único lugar que a
fazia sentir-se segura. Ainda é.
Ian continuou a ouvi-la, deixando que ela desabafasse.
— Você foi o primeiro homem a me dar flores, o primeiro que preparou um jantar para
mim e que se interessou pelo que eu tinha a dizer. — Sentindo um aperto na garganta,
esforçou-se para continuar: — Foi o único que me beijou, que me tocou...
Ian respirou fundo. Fora o primeiro homem na vida de Naomi não apenas fisicamente,
mas também emocionaImente. Ela estivera adormecida, feito uma borboleta esperando
para abrir as asas ao ser libertada. Mas ele a soltara no ar antes que ela se sentisse
segura para voar.
Oh, Deus. O que ele fizera? O que faria dali em diante?
— Está enganada se pensa que é uma pessoa diferente daquela que conheci. Esse é
apenas um lado que já existia em você, mas que se encontrava escondido. E foi você
mesma quem o encontrou, Naomi, não eu.
Puxando-a com delicadeza, abraçou-a e manteve o queixo apoiado no alto da cabeça
dela. Deu-se conta de que teria de dar a ela mais do que algum tempo. Teria de deixá-la
livre, para que Naomi aprendesse a se conhecer melhor e se aceitar.
Depois de apertá-la junto de si uma última vez, forçou-se a dar um passo atrás.
— É uma mulher linda e fascinante, Naomi.
— Você é o único que acha isso.
O brilho de lágrimas nos olhos dela o fez sentir um aperto no peito.
— Não acho que esteja prestando atenção suficiente. Pensando bem, talvez eu tenha
monopolizado demais seu tempo livre nas últimas semanas.
— Meu tempo livre?
— Sim. Você ainda estava ocupada com a reforma da livraria quando pedi que me
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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ajudasse com a biblioteca.
Falou devagar, passando por ela e voltando para a sala. Daria a Naomi apenas seis
meses, disse a si mesmo. Seis e nem mais um dia. Então iria procurá-la onde quer que
ela estivesse.
— Não lhe dei muita chance de se acostumar à sua nova vida — continuou. — Talvez
tenhamos sido precipitados e tenha chegado o momento de diminuirmos o ritmo.
Naomi abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. A dor em seu peito estava intensa
demais até para ela conseguir respirar.
— Acho que terá de ser mais específico, Ian. Não tenho experiência suficiente com
relacionamentos para ter certeza de que entendi o que você está querendo dizer.
— Estou apenas sugerindo uma diminuição no ritmo, Naomi. Talvez algum tempo de
intervalo.
— Não quer mais me ver?
— Sim, ainda quero vê-la. Estou dizendo apenas que nosso relacionamento não precisa
exatamente ser exclusivo. Você deveria conhecer outras pessoas.
— Outras pessoas — repetiu Naomi.
E ele, outras mulheres. Ian queria se encontrar com outras mulheres. Claro. Ela deveria
haver se preparado para isso.
— Acho que é uma decisão muito sensata. — Curvou os lábios em um sorriso. — Não
temos sorte por eu também ser
uma pessoa sensata? Aposto que, no meu lugar, muitas mulheres ficariam aborrecidas e
até furiosas com uma sugestão como essa. Mas eu não sou como elas, não é?
— Não, não é. Você é uma em um milhão. Naomi riu.
— Uma em um milhão — repetiu.
"E mesmo assim ainda não suficiente", pensou.
— Bem, tivemos um longo dia — disse de repente. — Estou cansada. Vou para casa.
— Naomi. Não quero que vá embora esta noite.
— Mas eu não quero ficar. — Antes que ele protestasse, ela se encaminhou para a porta
e virou-se uma última vez para ele. — Fui honesta com você, Ian. E quero terminar sendo
honesta. Estou apaixonada por você. Sempre estive, desde o começo.
Antes que Ian pudesse alcançá-la, Naomi saiu e fechou a porta com firmeza.
— Eu sei — disse ele, com um suspiro, sabendo que seria melhor deixá-la sozinha para
pensar. — Só que não teve outra alternativa em nenhum momento, Naomi. Mas agora
terá.
Ian passara um dia infeliz, depois dois e finalmente sucumbira ao desânimo de toda uma
semana. Mas não pegara o telefone para ligar para Naomi, nem fora até a casa dela,
como tivera vontade inúmeras vezes.
Seis meses fora o que prometera a si mesmo. Deus, como agüentaria? Apenas uma
semana se passara desde que a tinha visto pela última vez e, no entanto, mais parecia
um ano.
Levantou-se de sua cadeira, no escritório, e foi até a janela, como vinha fazendo com
enervante freqüência nos últimos dias. Fez uma careta de impaciência quando alguém
bateu à porta.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
173
— Droga, já disse que estou ocupado!
— Isso é jeito de falar com seu avô, rapaz?
Ian se virou quando Daniel e Arma estavam entrando no escritório.
— E assim que trata seus clientes, sr. Advogado? Ou esse carinho só é dedicado aos
membros da família?
— Desculpe-me, vovô.
Aproximando-se, abraçou o avô e beijou a avó com carinho.
— Não vamos tomar seu tempo — prometeu Anna, lançando um olhar de aviso para o
marido, que já se sentara como se estivesse em casa. — Viemos apenas nos despedir.
— Despedir? Mas vocês chegaram há poucos dias.
— Essa mulher não consegue parar quieta em um lugar — resmungou Daniel.
— Está com saudade da sua cama tanto quanto eu, Daniel
— ralhou ela. — Iremos ver o bebê de júlia e depois voltaremos para casa.
— Sentirei saudade de vocês.
— Então por que não vai nos visitar com mais freqüência?
— protestou Daniel. — Anda ocupado demais com sua bela garota para ter tempo de
visitar os avós, não é?
— Irei vê-los dentro de algumas semanas. Não ando ocupado com nenhuma garota no
momento.
— E por que não? — Daniel se espantou. — Onde diabos está Naomi?
— No trabalho, creio eu. Por quê?
— Todos na família estão falando sobre ela. — Daniel uniu a ponta dos dedos. — Exceto
você. Por que não os vi juntos desde que cheguei se ouvi dizer que estavam andando até
de mãos dadas?
— Demos algum tempo um para o outro.
— Tempo? E por que diabos fizeram isso? Vocês nasceram um para o outro!
lan arqueou uma sobrancelha.
— Como pode saber isso se só a encontrou algumas vezes na livraria?
— Ora, conheço a família dela, não conheço?
— Oh, Daniel. — Anna suspirou, balançando a cabeça. — Eu deveria ter imaginado.
— Imaginado o quê? — indagou Daniel, fingindo um ar inocente.
— Aprontou outra de suas ciladas, não foi, vovô? — lan estreitou o olhar. — Mandou
minha mãe me entregar aquela lista com segundas e até terceiras intenções. — lan forçou
um sorriso, olhando para o teto. — E eu acreditei feito um idiota.
— Ora, tudo que eu fiz foi lhe pedir um favor. Se você gostou do que viu quando chegou à
livraria, o problema não é meu.
— Tem razão — admitiu lan. — Gostei do que vi.
— E o que tem a dizer quanto a isso, rapaz?
— Obrigado.
Daniel pestanejou, com ar desconfiado.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— Obrigado?
— Sim. Por haver tido bom gosto ao escolher a mulher com quem pretendo me casar.
— Hah! Está vendo, Anna? Pelo menos um de nossos netos sabe apreciar a astúcia e o
bom gosto do avô. Por isso é que lan sempre foi meu preferido.
— Júlia era sua preferida há menos de dois dias — lan lembrou a ele. — Ouvi quando
disse isso a ela.
— Ora, a garota havia acabado de ter um bebê. Precisava de um pouco de incentivo. Mas
agora é você quem está precisando, meu rapaz. — Adquirindo um ar sério, Daniel perguntou: — O que quis dizer com "espero me casar"? Eu teria preferido ouvir "com quem
vou me casar".
— Estou dando algum tempo a ela. Na verdade, alguns meses.
— Meses?! — Daniel quase rugiu a palavra. — Ele ficou maluco, Anna! O que está
esperando afinal? Vá atrás da garota!
— Daniel, deixe lan em paz.
— Nem pensar! Só quero saber uma coisa: está apaixonado por ela ou não?
— Sim. Mas prefiro resolver isso do meu jeito, vovô.
— Pois é o jeito mais idiota que já vi!
— Com licença — disse Caine, aparecendo à porta. — Este é um lugar de trabalho. As
brigas de família não são permitidas antes das seis horas da tarde.
— Não vai acreditar no que seu filho me disse — gritou Daniel. — Deve ter herdado sua
cabeça dura! E melhor ter uma conversa com ele, ou lavarei minhas mãos quanto a esse
assunto.
— Que boa idéia, qualquer que seja o assunto — ironizou Caine. — Pode deixar que eu
vou falar com ele.
Caine beijou os pais e fechou a porta, depois que eles se despediram do neto e foram
embora.
— Sente-se filho. Seu avô tem razão em achar que devemos conversar. Quero saber por
que você anda jogando sapatos em todo mundo desde a semana passada.
29
Ian obedeceu, mas não gostou muito da idéia. Sem dizer nada, tamborilou os dedos sobre
a perna, fitando o pai nos olhos.
A teimosia sempre fora algo muito forte no caráter de seu filho, pensou Caine. Mas era
também o que o fazia ter tanta personalidade.
— O que está havendo entre você e Naomi?
Ir direto ao que interessava era uma atitude bem típica de seu pai, pensou Ian.
— Acho que tenho idade suficiente para resolver esse assunto sozinho, papai.
— Eu sei. Mas enquanto não o resolve, conte-me o que está acontecendo.
Ian levantou-se da cadeira.
— Droga. Estou fazendo o que é melhor para ela.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
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— E o que é melhor?
— Dar um tempo a ela.
— É isso que você considera o melhor, Ian? Está apaixonado por ela. E não tente negar.
Estou vendo isso no seu rosto. Sei como é porque também fiquei assim quando conheci
sua mãe.
— Eu sei. Vi isso durante toda minha vida. Mas tenho de dar esse tempo a Naomi. Ela
precisa saber o que quer.
— Tem certeza de que ela não sabe? Perguntou isso a ela?
— Naomi nunca conheceu outro homem além de mim. Teve problemas de auto-afirmação
na adolescência e agora acha que me apaixonei não por ela, mas pela imagem que ela
criou de si mesma ao adotar um novo visual. Quero me casar com ela, mas acho que ela
merece a chance de conhecer outras pessoas para ter certeza do que realmente quer.
— E você disse que a amava o suficiente para dar essa chance a ela?
— Se eu dissesse que a amo, ela não teria ouvido o resto. Naomi pensa que está
apaixonada por mim.
— Só pensa? — Caine arqueou uma sobrancelha.
— Como diabos ela pode saber?
— Pergunta interessante. Como você sabe que a ama?
— Ora, eu nunca quis passar o resto da minha vida ao lado de alguém antes —
respondeu lan, começando a andar, de um lado para outro. — Consigo ver como será
nossa vida dentro de um ano, dez anos, até cinqüenta. — Parando de repente, olhou para
o pai. — Não acha que estou certo? Não seria justo tirar vantagem da inexperiência de
Naomi e pedi-la em casamento em um momento delicado como esse.
— A minha opinião importa de alguma maneira?
— Claro que sim.
— Então vou lhe dizer o que penso. — Caine ficou de pé e pousou a mão no ombro do
filho. — Você é um cabeça-dura.
— O quê?
— Por mais que eu não queira, tenho de concordar com seu avô. Você é um cabeça-dura,
lan. Não está dando à mulher por quem se diz apaixonado nem mesmo o crédito de
conhecer a própria mente e o coração. Está tomando por ela uma decisão que não lhe
cabe. Se minha opinião tem alguma importância para você, acho que deve ir procurá-la. E
quanto antes melhor.
lan não estava muito convencido de que o pai e o avô estavam certos. Mesmo assim, ali
estava ele, sentado na escadaria do prédio onde Naomi morava.
Pensara em ir à livraria, mas logo descartara a idéia. Se iam falar sobre o futuro do
relacionamento, o lugar de trabalho não seria o ambiente mais apropriado.
Porém, quando as horas foram passando e ela não apareceu, começou a se perguntar se
teria tomado a decisão mais acertada. Se houvesse ido à livraria, pelo menos teria a
certeza de encontrá-la por lá.
Já estava pensando em ir embora quando ouviu passos se aproximando. Ao levantar a
vista, notou que Naomi parará de repente ao vê-lo. Após um momento de hesitação, ela
continuou vindo em sua direção.
— Oi, Ian.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
176
— Trabalhou até tarde hoje.
Deus, como aquele perfume era maravilhoso.
— Sim — respondeu ela, tirando as chaves da bolsa.
— Eu gostaria de falar com você. Posso acompanhá-la?
— Acho que agora não é um bom momento.
Nunca haveria um bom momento, pensou Naomi. Não quando a simples visão daquele
rosto bonito lhe causava tanta angústia.
— Por favor, Naomi. Precisamos conversar. Ela respirou fundo.
— Está bem. Mas terá de ser breve porque preciso me trocar.
— Por quê?
— Tenho um encontro.
A mentira fora terrível, e com certeza a deixaria com sentimento de culpa depois. Mas,
naquele momento, pareceu-lhe mais importante manter o orgulho do que a honestidade.
— Com um homem?
O ar de espanto no rosto dele a fez sentir um aperto no peito. Sem responder, seguiu até
a porta de seu apartamento e abriu a porta.
— O que você quer, Ian? — perguntou, pendurando o casaco no cabide ao lado da
entrada e notando que ele a havia acompanhado.
"Que se case comigo e me dê filhos", pensou ele, desesperado.
— Acho que não fui muito claro naquela noite.
— Não, não foi.
— Não lhe expliquei os motivos que me levaram a tomar aquela decisão.
— Acho que não havia muito o que explicar — falou Nao-mi. — Eu disse que você havia
conhecido apenas meu lado exterior e você concordou, só isso.
— Ah, meu Deus. Então foi isso que você pensou? Sinto muito, Naomi. — Ian tentou
segurá-la pelos ombros, mas ela se afastou. — Está tudo errado. Deixe-me explicar
melhor.
— Estou com um pouco de pressa no momento, Ian.
— Seu encontro terá de esperar — replicou ele. Enfiando as mãos nos bolsos, seguiu até
a sala sob o olhar surpreso de Naomi.
— Quando tivemos aquela conversa e você me disse que nunca havia estado com mais
ninguém...
— Você já sabia que eu nunca havia estado com ninguém.
— Não estou falando apenas de sexo — declarou ele, com impaciência, virando-se para
olhá-la. — Sexo é apenas uma parte do relacionamento, Naomi. Há também o
companheirismo, os momentos de alegria, sentar-se para conversar até tarde da noite,
assistir a filmes de mãos dadas. São coisas que as pessoas costumam fazer quando
estão apaixonadas. Coisas que você nunca fez com outra pessoa além de mim.
Certo de que havia recobrado o autocontrole, aproximou-se dela e continuou:
— Eu queria lhe dar tempo para que você pudesse pensar. Para que tivesse certeza de
que queria continuar fazendo todas essas coisas apenas comigo.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
177
— Me dar tempo?
Naomi gostaria de poder mostrar um daqueles risos sarcásticos que as mulheres mais
experientes costumavam dar em momentos como aquele, mas esse não era seu estilo.
— Disse que queria se encontrar com outras mulheres para me dar tempo? — indagou,
confusa.
— Eu nunca disse que queria me encontrar com outras mulheres! — bradou Ian.
Abaixando o tom de voz, prosseguiu: — Mas achei que seria bom você conhecer outros
homens. Pelo visto, não perdeu tempo em pôr meu conselho em prática.
— Você queria que eu conhecesse outros homens — repetiu Naomi devagar, sem deixar
de olhá-lo.
— Eu não queria! — Os olhos azuis de Ian brilharam com fúria. — Mas era o que você
precisava. Como eu poderia pedi-la em casamento se você não tinha nenhum ponto de
referência com relação a mim? Não tinha alguém com quem me comparar, entende? Eu
estava apenas tentando ser justo com você.
— Justo comigo? Justo? — Naomi sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. — E por isso
decidiu arrasar meu coração? Para ser justo comigo?
— Não! Eu queria protegê-la.
— De quem? De você? De mim? Como teve coragem de tomar uma decisão dessas por
mim?
— Não tomei. Não exatamente...
— Não me toque! — avisou Naomi, quando ele fez menção de se aproximar.
Ian passou a mão pelos cabelos. Nunca tinha visto Naomi ficar tão furiosa.
— Naomi...
Ela se afastou, antes que ele acabasse tentando tocá-la novamente.
— Deve me achar uma grande idiota.
— Claro que não. Eu apenas...
— Uma desculpa muito lamentável para uma mulher incapaz de confiar na própria mente
e no próprio coração — continuou ela, andando pela sala, com um brilho de fúria no olhar.
Parando de repente, voltou a encará-lo. — Achou que a única maneira de eu descobrir se
realmente te amava seria dormindo com outros dez homens? Ou vinte talvez? Que número tinha em mente?
— Não quero que durma com mais ninguém!
— Oh, claro. Não estamos falando apenas de sexo. Então deixe-me anotar exatamente
quantos jantares românticos, passeios ao cinema e outras coisas do gênero eu devo
fazer, antes de ser considerada suficientemente capaz de decidir o que pensar e o que
sentir.
Dizendo isso, Naomi abriu a bolsa e pegou um bloco de notas.
— Está bem, já chega! — Ian se indignou. Adiantando-se, tirou o bloco da mão dela e o
deixou de lado. — Pouco me importa o que é justo ou não para você. Não vou passar os
próximos seis meses esperando enquanto você sai por aí com outros homens.
— Seis meses — repetiu ela. — Era esse o prazo? Planejou tudo com detalhes, não?
A combinação de fúria e de satisfação pelo que ele dissera fez Naomi experimentar uma
nova sensação. De poder talvez.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
178
— Muito bem, talvez seja melhor voltarmos a nos encontrar em abril então.
Encaminhou-se para a porta, pensando em abri-la, mas terminou com as costas junto a
ela, com o rosto de Ian a centímetros do seu.
— Esqueça o que eu disse — pediu ele, segurando a mão dela. — Esqueça tudo. Não
quero ficar longe de você nem mesmo por seis minutos, e muito menos por seis meses.
Vai se casar comigo, e se depois achar que tudo aconteceu rápido demais, problema seu.
— Está bem, aceito a responsabilidade pela decisão — afirmou Naomi, tomada por uma
coragem que nunca havia sentido antes.
— Trate de arrumar suas coisas agora mesmo porque... — Ian se interrompeu de repente,
dando-se conta de que talvez estivesse indo longe demais. — Tudo bem para você?
— Sim. — Usando o que lhe restava de coragem, Naomi o segurou pelo colarinho. — Seu
bobo — disse e puxou-o para si, até seus lábios se encontrarem.
Ian se surpreendeu, mas logo se rendeu ao beijo, colando o corpo de Naomi ao seu.
Deus, como sentira falta dela. O perfume, os cabelos macios em suas mãos, os lábios
macios sob seus...
— Nos últimos tempos, ganhei o apelido de cabeça-dura na família — disse ele, quando
voltaram a se olhar.
— Sim, combina mais com você — falou Naomi, com um brilho de pura felicidade no
olhar. — Estou muito brava com você, Ian MacGregor — acrescentou, beijando-o no
rosto, no queixo e no pescoço.
— Sim, estou vendo. Não vou reclamar se continuar brava assim por algum tempo. —
Segurando o rosto dela entre as mãos, fitou-a nos olhos. — Eu te amo, Naomi.
Ela fechou os olhos, contendo a onda de emoção que a envolveu. Em seus sonhos,
imaginara que seria assim. Mas nunca tivera certeza de que seus sonhos se tornariam
realidade. Quando voltou a olhar para o rosto bonito de Ian, sorriu.
— Eu te amo — repetiu ele. — E não apenas pela sua aparência, mas por quem você é.
— Oh, Ian, fiquei tão infeliz sem você.
— Também não fiquei nada bem. Naomi olhou-o com um ar maroto.
— Espero que tenha sofrido o suficiente para se dar conta de que não deve ficar
decidindo o que é melhor para mim.
— Eu sou o melhor para você, doçura.
— Ora, mas que falta de modéstia! — Ela deu um tapinha no ombro dele. — Mas tem
razão. Eu te amo demais para conseguir viver sem você.
— Então vamos unir nossa vida hoje mesmo — disse Ian, beijando-a com paixão.
— Aceito sua sentença, sr. Advogado.
Do Diário
de
Daniel Duncan MacGregor
Dizem que quando um homem envelhece as lembranças dos fatos mais antigos se
tornam mais claras do que as dos acontecimentos mais recentes. Talvez seja verdade.
Nora Roberts – AMOR NUNCA É DEMAIS - The MacGregor Grooms
179
Ainda me lembro, como se fosse hoje, do dia em que conheci minha Anna. E do olhar frio
e desinteressado que ela me lançou. Ah, mas ela não continuou desinteressada por muito
tempo. Não mesmo.
Eu era bem jovem na época. Cheio de disposição e de energia. Um jovem escocês
metido em uma sociedade desconhecida e à procura de uma esposa.
Quando eu menos esperava, lá surgiu Anna, trajando seu lindo vestido azul. Decidi que
ela seria minha desde o primeiro instante, mas levei algum tempo para convencê-la disso.
Lembro-me daquela noite com todos os detalhes. As luzes, a música, as cores... O
perfume que havia no ar quando eu trouxe Anna até esta colina, para mostrar o lugar
onde construiria a casa onde iríamos morar...
Foi com a mesma empolgação que sujei as mãos com terra, ao plantar uma pequena
árvore para celebrar o nascimento de meu primeiro filho. Sim, têm um pouco de razão os
que dizem que as lembranças de um velho vão longe. Mas o que me diriam essas
mesmas pessoas se eu contasse que me lembro com a mesma nitidez do que aconteceu
na semana passada?
Outro de meus netos se casou na última semana. Garanto que posso descrever com
detalhes o perfume das flores que enfeitavam a igreja, o brilho da luz que entrava pelas
janelas e o som melodioso da música que acompanhou Naomi até o altar. Ela estava
linda, com seu vestido branco e o suntuoso tartan de nosso clã sobre a saia armada, além
do longo véu usado pelas noivas da família. De fato, o véu formou um belo contraste
acima daqueles cabelos muito negros.
Também costumam dizer que as noivas têm um brilho especial. E Naomi comprovou isso.
Só pode ser amor o que faz brotar aquele ar de felicidade no semblante de uma mulher.
No altar, parecendo um verdadeiro príncipe, Ian a esperava com um indisfarçável sorriso.
Talvez devessem dizer que os noivos também ficam com um brilho especial no dia do
casamento. Sim, porque não consigo imaginar outra definição para o que vi no rosto do
meu neto enquanto olhava Naomi caminhar em sua direção.
Felizmente, ele não é tão cabeça-dura quanto parece. Tive certeza disso quando o vi
fazer aquela linda declaração de amor. Segurou as mãos de Naomi assim que a música
terminou e, antes que o padre pudesse falar algo, ele disse: "Eu te amo, Naomi". E em um
tom tão alto e claro quanto o dos sinos que anunciavam o casamento do lado de fora da
igreja.
O rapaz sabe mesmo como conquistar uma mulher. Duvido que algum par de olhos não
tenha se enchido de lágrimas naquele instante. Incluindo os meus, claro. Mas ninguém
precisa saber desse detalhe.
Foi um bom ano para nossa família. Três casamentos e um bebê são uma boa média
para os MacGregor. Fiz o melhor que pude e não me arrependo de nada. Afinal, a
felicidade continua a reinar entre nós. E mais forte do que nunca.
Agora que o ano está terminando, verei outra temporada de neve, provavelmente sentado
diante da lareira com minha Anna. Que mal haverá em fazer mais alguns planos de
casamentos enquanto isso, pergunto eu?
Afinal, logo entraremos em um novo ano, e o que não me falta são netos com os quais me
preocupar.
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