POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Resumo O presente trabalho pretende problematizar alguns processos de formação docente tendo a educação à distância como campo de problema. Através dos conceitos de Rizoma e Educação menor indagamo‐nos sobre as possibilidades singulares de formação em um curso de licenciatura com formação específica ofertado na modalidade à distância. Desenvolvemos esta investigação a partir das Filosofias da Diferença, que acompanham esta denominação por constituírem uma ideia de diferença em si. À medida que o trabalho se desenvolve sua autora também se reforma e questiona‐se com relação à sua formação. Durante o trabalho acontece um adensamento estético entre a desconstrução de uma professora profeta para e reconstrução de uma professora militante. Perguntamos sobre o que pode acontecer com alguém que está em processo de formação acadêmica e professoral. Quais são os ângulos da experiência da autora que são afetados por tais experiências de formação? O método de pesquisa em que nos baseamos é a etnografia digital pelas prerrogativas que a acompanham em relação com este campo de estudo e trabalho. Palavras‐chave: Palavras chave: Formação docente, educação à distância, professor militante. Alexandra Domingues UFPEL [email protected] X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.1
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues I ‐ Introdução Este trabalho, que é uma investigação em curso, pretende problematizar alguns processos de formação docentes. No espaço que iremos denominar contemporaneidade. Indagamo‐nos sobre as possibilidades singulares de formação de professores na modalidade à distância. A partir da indagação que vimos construindo pretendemos aproximar os campos da virtualidade da Educação à distância ao campo do universo de formação de professores. À medida que o trabalho se desenvolve comporemos com os conceitos: O Rizoma e Educação Menor. Pretendemos desenvolver esta investigação a partir das filosofias da diferença, filosofias que acompanham esta denominação, por constituírem uma relação especial com a produção de diferença na palavra, no discurso e na sensibilidade. Compondo com Gilles Deleuze e os filósofos da diferença, permanece o desejo e a disposição a ampliar percepções e entendimentos sobre o que pode projetar‐se como pesquisa. O objetivo não é responder definitivamente a questões, mas problematizar a realidade (DELEUZE; PARNET. 1998). Quando o título do projeto propõe‐se a colocar‐se por entre as possibilidades ou impossibilidades de formação de um professor e do universo de formação dos seus alunos, começa‐se a pensar em algo parecido com o que Deleuze chama de estar no “entre”, entremeios, em modos de pensar a criação por dentro de algo que já existe e que mantém seu funcionamento, mas que pode de alguma forma resistir para tornar‐se outros. O meio nada tem a ver com uma média, não é um centrismo, nem uma moderação. Trata‐se, ao contrário, de uma velocidade absoluta. (DELEUZE; PARNET. 1998). Em um primeiro momento a pesquisa quis se direcionar para a formação continuada de professores, ou seja, professores que já possuem suas graduações e que por motivos dos mais variados, obrigatórios ou não decidem seguir estudando. A formação continuada parece poder se dar tanto com o objetivo de qualificação quanto com o objetivo de aprendizado. O sentido da qualificação aqui estaria mais direcionado à visão de mercado, onde o acadêmico se enlaça com o econômico e sua lógica produtivista. O sentido de aprendizado aqui parece estar mais ligado ou ao sentido “romântico” da profissão ou ao sentido empreendido por nosso referencial teórico o X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.2
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues desejo de aprender. Podemos notar em um primeiro momento de conversas e revisões bibliográficas que no espaço de formação continuada existe algo para além destas duas opções. Será que os professores em processo de formação continuada estariam buscando apenas qualificação ou aprendizado? Ou para além destes objetivos práticos o processo de formação profissional docente implicaria relações de formação existencial ou formas de vida. Seria possível enxergar limites entre a formação enquanto profissional e o existencial? Enquanto alguém se forma professor, algo além de um tipo de aprendizado esperado pode acontecer? O que mais pode acontecer com alguém que está em processo de formação acadêmica e profissional a partir das relações que se estabelecem? Ou melhor, que outros ângulos da minha experiência são afetados por tais experiências de formação? Em volta destas perguntas e tensionamentos, a pesquisa se redirecionou. Se pretendíamos falar de formação de professores, por que não antecipar um pouco esta relação subjetiva com o campo de aprendizado? Desta forma a partir de um novo olhar resolvemos voltarmo‐nos para o campo de trabalho da autora deste trabalho. Tal campo de trabalho que constitui uma regressão programada no campo problemático volta‐se para o campo da formação inicial de professores e acontece em um espaço rizomático e virtual: o campo da Educação à distância. II ‐ Desenvolvimento Existem duas experiências em Educação à distância que são anunciadas neste trabalho. Na primeira experiência, que se dá em um curso de pós‐graduação em nível de especialização observei, nos muitos encontros presenciais e conversas com os alunos, não só por seus discursos, mas também por suas atitudes, o quanto era desgastante lidar com questões da educação. Apesar de estar no campo de atuação das suas áreas profissionais, para os alunos a educação parecia desvincular‐se totalmente das suas práticas enquanto professores. Nos trabalhos e nestas interações era perceptível que o curso de Pós‐graduação era uma coisa, o trabalho em sala de aula era outra, e a vida cotidiana deles era ainda outra. Neste período pude perceber que a relação entre formação profissional docente e a formação existencial que ali se desconectavam, poderiam estar ligadas ou mais que isto, poderia imbricar‐se no que diz respeito ao que X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.3
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues persegue o campo singular da formação de um professor. A partir deste momento tais questões começaram a se mexer na minha cabeça, houve um pensamento desterritorializante. Seria possível o vínculo profissional de um professor em formação continuada estar tão distante do seu universo existencial? Na segunda e atual experiência que se dá em outra instituição de ensino superior, mas agora em um curso de graduação à distância, onde um grande percentual dos alunos está atuando em sala de aula como na minha outra experiência, porém existe uma pequena diferença. São alunos que possuem uma grande ligação com o campo e com o meio rural e através deste aprendizado formal poderão estabelecer uma referência de poder em suas comunidades e ou escolas onde já atuam desde algum tempo. Através de relatos de tutores presenciais, à distância e também de professores algumas questões ficaram evidentes: vários alunos em um primeiro momento procuraram o curso, pensando em visualizar algo prático para os seus cotidianos em uma linha mais técnica como um curso de agricultura ou algo do gênero. Muitos demonstraram surpresa ao serem surpreendidos com textos que consideravam a formação de professores. A partir disto alguns alunos perceberam estar no lugar errado, mas por questões adversas foram ficando. Sempre levando em consideração que estas questões adversas têm em conta a dificuldade de cursar uma graduação de nível superior e os pontos característicos que objetivavam um lugar de enunciação na comunidade. Tal observação dos tutores e professores pareceu me revelar uma hipótese: a de que se os alunos neste curso procuram uma formação imbricada no seu cotidiano de vida, e apesar de serem professores, ao encontrar uma literatura educacional ampliada resolvem abandonar o curso. Será então que a educação era lugar estranho nas suas práticas? Estes são os sinais que desenvolvem o trabalho. Questões existenciais de professores em formação, para, além disto, questões que se formam na formação e prática desta professora. A Educação à distância surge no Brasil, oficialmente em 1996 com a criação da secretaria de Educação à distância SEED, pelo Ministério da Educação. Esta modalidade de educação surge com o intuito de democratizar a educação pública podendo levá‐la aos lugares mais distantes das universidades e dos centros educacionais. Tal modalidade de educação adquire seu status de efetiva autoridade e regulamentação somente a partir do X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.4
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues decreto 5222 do ano de 2005 que revoga os decretos anteriores. Agora em fim estavam estabelecidas duas modalidades de educação no Brasil: A modalidade de educação presencial e a modalidade de Educação à distância. A modalidade de Educação presencial é a que todos nós conhecemos, e se estabelece em um espaço físico através de interações que podem ser consideradas concretas entre o professor e o aluno. Os recursos da Educação presencial variam geralmente, entre quadro, recursos tecnológicos e a fala do professor em uma interlocução com seus alunos. Conforme dados da Universidade Aberta do Brasil na Educação à distância pode haver espaços de interação presencial, mas a maioria do seu percurso é dada pela interação à distância. A Educação à distância parece estar consolidada no espaço contemporâneo da Educação. De acordo com a fundação Osvaldo Cruz, que se baseia em dados da ABED (Associação Brasileira de Educação à Distância) ao longo do ano de 2011, 2,5 milhões de brasileiros fizeram cursos à distância. Esse número inclui estudantes ligados a universidades e outras instituições de ensino ou que mantenham projetos com abrangência regional ou nacional. Difícil não relacionar as possibilidades da educação à distância com o conceito de Rizoma empreendido por Gilles Deleuze e Félix Guatarri no livro Mil Platôs. Bem mais especificamente no primeiro Platô (1992 a) que aborda as questões de uma possibilidade de interação rizomática com o campo da leitura e da escrita por dentro de uma fundamentação filosófica que neste intuito de pesquisa acaba se deslocando para o aprendizado. O rizoma não tem início nem fim, sua potência é o meio, aí que se encontra a força deste conceito, na velocidade do meio que falávamos na apresentação. Poderíamos dizer em uma análise ainda imatura, que a educação presencial fixa em seus comandos de sinetas, sirenes e outros sinais uma árvore enraizada e consolidada. Através destes sinais de início meio e fim é pretendido sempre ocupar um mesmo espaço‐tempo, um tempo idêntico e inalterado para todos, legitimado durante horas obrigatórias de um vínculo diário. Uma perspectiva arborescente, que possui uma direção única. Ou seja, na teoria filosófica de Deleuze e Guatarri eles nos apresentam através de uma escrita para além da dialética e da prescrição que a teoria filosófica ocidental desenvolve‐se presa como uma árvore. É como se tudo o que a filosofia abarca e desenvolve pertencesse a um único fundamento, um fundamento moral e enraizado na perspectiva psicanalítica de Freud X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.5
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues que constitui sua análise a partir de um todo moralizante e redutor do pensamento e da ampliação subjetiva dos nossos desejos. Poderíamos dizer aqui que o psicanalista Freud desde seus estudos e do compartilhamento de suas crenças acaba por minar possibilidades diferentes de pensamento, conduta e criação. Vejamos com os filósofos: Os sistemas arborescentes são sistemas hierárquicos que comportam centros de significância e de subjetivação, autômatos centrais como memórias organizadas. Acontece que os modelos correspondentes são tais que um elemento só recebe suas informações de uma unidade superior e uma atribuição subjetiva de ligações preestabelecidas. (DELEUZE; GUATARRI, 1992ª. Pág 26). Partindo desta ideia é mais fácil entender, porque ainda é nutrida em nós certa aversão às práticas de educação à distância. Sua perspectiva de ensino parece diferente. Porém em que medida a Educação à Distância se distância da Educação Presencial? Não podemos ser ingênuos em afirmar que ela se desvincula totalmente à perspectiva arborescente da educação presencial, afinal ela é instituída a partir de uma compreensão governamental de uma necessidade social e democrática, ou seja, algo que deve chegar para todos. Porém sua vontade de conexão e de ampliação de tempos inaugura alguma coisa, rizomática no âmbito do ensino. Qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê‐lo. (DELEUZE; GUATARRI. 1992ª Pág. 15). São pontos de conexão ligados sem um tempo igualitário, tornando possível alguma coisa de um aprendizado deslocado das posições físicas. É como se houvessem ramificações empreendidas a partir destas interações virtuais que não acontecem por acaso, mas que inauguram outros modos de aprender. Na perspectiva da árvore, a perspectiva arborescente, podemos pensar figurativamente no sistema arbóreo mesmo, uma árvore nasce, cresce plantada, alicerçada por suas raízes, junto a terra, tudo o que é necessário para sua sobrevivência é encontrado por ali, a água da chuva, os movimentos das raízes a alimentam e conduzem seu crescimento. A árvore depende das raízes e somente a partir das raízes a árvore é capaz de se proliferar, criar galhos, flores, folhas, frutos. Este modo de pensar o crescimento de uma árvore é tentadoramente romântico e parece fazer valer toda a espera de um crescimento natural. Nascimento, crescimento, proliferação, naturalização. Se tentarmos aproximar este pensamento árvore da conduta de pensamento ocidental é possível realizar um modo de produção de uma realidade X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.6
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues hierarquizada em um ponto responsável pela condução de pensamentos e de modos de ser que legitimam condutas para vivenciar o cotidiano. É curioso como a árvore dominou a realidade ocidental e todo o pensamento ocidental, da botânica à biologia, a anatomia, mas também a gnoseologia, a teologia, a ontologia, toda a filosofia...: o fundamento‐raiz, Grund, roots e fundations (DELEUZE, GUATARRI, 1992ª Pág. 28 e 29). O Rizoma sem começo, sem fim, porém com meios e interconexões. Conforme vínhamos aproximando os campos rizomático, virtual e à distância pretendemos agora delinear um pouco do conceito de virtual que empreendemos para este trabalho. Para pensar o campo do Virtual com Gilles Deleuze é preciso ampliar os sentidos, em especial: a visão e o pensamento. O filósofo desdobra o conceito de virtualidade a partir da ideia de duração empreendida por Bergson. A duração para Bergson (1999, p. 172) existe no campo do durável, do que acontece e perdura em um tempo singular e variável. De acordo com a perspectiva filosófica a que nos referenciamos a duração de Bergson, está contida no campo do Acontecimento, que é algo individual e coletivo. O conceito de realidade e acontecimento em Deleuze se articula entre real virtual e real atual. É como se fossem planos que são inseparáveis. Um real visível e um real invisível. O virtual é o plano das forças. O virtual em EaD é o visível, é o campo de trabalho. Já o atual não está no campo das forças, é atualizado. Portanto o atual no campo da EaD está no campo da atualização. A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades (LEVY, 1996. Pág. 16). Em todo o acontecimento, há de fato o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é designado quando se diz: pronto, chegou a hora, e o futuro e o passado do acontecimento só são julgados em função desse presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e pré‐individual, neutro, nem geral nem particular, eventum Tatum...; ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel que o representa, sempre desdobrado em passado‐futuro, formando o que convém chamar de contra‐efetuação. Em um dos casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que escapa num ponto tornado presente numa relação determinável comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida, a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.7
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues singularidades, sem relação comigo nem com um momento determinável como presente, salvo com o instante impessoal que se desdobra em ainda‐futuro e já‐passado. (ZOURABICHVILI, 2007). III ‐ MÉTODO DE PESQUISA O subtítulo deste projeto fala de método de pesquisa, e não de metodologia de pesquisa. Este não é um acaso, é algo intencional, que pretende fazer menção ao modo de pesquisa que os filósofos que vimos investigando e tentando aproximar do trabalho sugerem em seus livros. Os filósofos Deleuze e Guatarri escreveram brilhantemente de uma forma única e porque não dizer devastadora. No meu processo de formação entrei em contato com algumas formas de pesquisa, e muitas vezes cheguei a me perguntar para o que elas serviam (KASTRUP,2009). Foi sempre um tal de não saber onde encaixar o que, junto de uma boa vontade de deslocar um método onde pudessem ser aplicadas todas as dúvidas como uma receita culinária, onde se fosse colocado isso sairia aquilo e onde fosse colocado aquilo sairia isso. Lia as pesquisas, ouvia as pessoas falando sobre elas, entendia que a metodologia de pesquisa era algo impossível de ser desviado no processo de produção de conhecimento. Mas ao mesmo tempo sempre me questionava por onde? Bom, à medida que os estudos foram avançando e fui me encontrando com o que para mim pareceria importante pesquisar, me dei por conta de que as pesquisas quantitativas não tinham muito a ver com o universo de curiosidade com o qual eu pretendia me relacionar, então fui tentar conhecer algum método que pudesse delinear meu processo. A Etnografia (ANDRÉ, 2007) sem dúvida ocupou grande espaço de interesse, pois poder estar junto ao que se pretende pesquisar, conhecendo todo um universo se inaugura em um processo de muita curiosidade. As culturas diferentes, os saberes de outrem, sempre tão desencontrados dos saberes tão enraizados na nossa sociedade, são capazes de exercer um enorme fascínio. A etnografia é a arte e a ciência de descrever um grupo humano, suas instituições, seus comportamentos interpessoais, suas produções materiais e suas crenças. (ANGROSINO, 2009,p.30). Porém ao conhecer os autores das filosofias da diferença, pude descobrir outra forma de fazer pesquisa, a forma a que muitos pesquisadores dos campos da área da filosofia, das artes, da literatura e de tantos outros campos de sensibilidade e X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.8
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues aprendizado têm se apoiado: a cartografia. Esta palavra vinda da geografia e conceituada como um mapa da terra é reproduzida nesta forma de pensamento como um mapa diferenciado, um mapa de conceitos, acontecimentos, encontros e saberes que objetivam uma criação, ou seja, escrever cartograficamente implica uma ideia de trazer junto aos estudos, às pesquisas, questões que vão inquietando e partilhando do viver. Um método de pesquisa que partilha da vida e encontra eco na etnografia. No livro As Pistas do Método da Cartografia (2009) Virgínia Kastrup, buscando referências no conceito de cartografia, apresentado por Gilles Deleuze e Félix Guatarri em Mil Platôs (1992a, 1992b) nos apresenta outra forma de fazer pesquisa, uma forma que traz consigo alternativas rizomáticas para a investigação. Tais formas vem relacionar‐se com nosso olhar que se indaga nos processos da formação de professores em Educação à distância. Pois à medida que aproximamos a pesquisa da vida, a agenciamos com nossas questões, através da cartografia podemos aproximar os questionamentos iniciais que se referiam à aproximação do campo virtual da educação à distância para o campo da formação entrelaçada às possibilidades de uma, Educação menor, conceito que desenvolverei adiante. Logo, a cartografia será a atitude investigadora que se articulará com a abordagem etnográfica utilizada geralmente no espaço da internet. São abordagens etnográficas rediscutidas no campo dos ambientes da internet. Utilizamos como referencial para os modelos de pesquisa na internet o livro Métodos de Pesquisa para a Internet (AMARAL; FRAGOSO; RECUERO; 2012). As autoras ressaltam em seu livro, que os pesquisadores que defendem uma etnografia mais tradicional, alguns vindos da antropologia clássica, foram e ainda são um pouco receosos em imaginar que possa ser feita um etnografia em um espaço não físico e sem interação total com o campo de pesquisa, alguns consideram inconcebível este modo de pesquisa, pois se predispõe ao erro na análise empírica. Porém as autoras evidenciam que este pesar deveria se desfazer à medida que a internet ocupa diversos espaços de interação e informações para a conduta de uma pesquisa do tipo empírica. Conforme o livro: A etnografia encarna a percepção mais convincente para a indagação e a compreensão de interações e inter‐relações sociais geradas na Internet, como resposta à intermediação tecnológica, à pluralidade de paradigmas metodológicos, assim como a diversidade e à complexidade das matizes etnográficas que se apresentam nas vivências da rede, que é, em síntese, X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.9
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues seu objeto de estudo. Não obstante, sua análise dependerá da finalidade e da natureza que lhe for atribuída. (GEBERA, 2008, P.2). Aliando o método cartográfico ao modo de pesquisa etnográfica para a internet, desenvolveremos o trabalho a partir de uma Etnografia Digital pelas prerrogativas que o acompanham. Pretende‐se explorar e expandir as possibilidades da etnografia virtual através do constante uso das redes digitais, postando o material coletado. Outro objetivo é a criação de narrativas audiovisuais colaborativas em uma linguagem que sirva como material de estudo, mas atinja também um público extra‐acadêmico. (AMARAL; FRAGOSO; RECUERO. 2012. P. 198‐199). Para tanto a questão que direciona nossa pesquisa aponta para os processos de formação de professores e se desenvolve a partir da indagação que pretende aproximar os campos da virtualidade da Educação à distância ao campo do universo de formação de professores, em uma perspectiva rizomática e menor. CONCLUSÃO PROVISÓRIA: IV ‐ Por ser rizomático e virtual podemos propor que seja menor? Além dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guatarri que nos acompanham desde a apresentação inicial do trabalho chamamos para compor parte significativa deste trabalho o filósofo e professor Sílvio Gallo (2008), o qual, dentre os intercessores deste projeto, escolhemos para acompanhar todo o desenvolvimento desta pesquisa. Gallo (2008) a partir da obra Kafka, por uma literatura menor (DELEUZE;GUATARRI.1977) faz uma comparação entre professores militantes e professores profetas. A partir da ideia de professor militante e professor profeta começo a construir a última parte deste trabalho, apresentando um pouco do livro do professor Sílvio Gallo, o qual se chama Deleuze e a Educação (2008). De acordo com o desdobramento do livro delineio o traço para a apresentação de outro dos conceitos centrais deste trabalho, o conceito de educação menor. Mencionando o menor, aproveito para compartilhar alguns aspectos da minha conduta de pesquisa que me faz utilizar de todos os meios de aprendizado inseridos pelas facilidades da internet. You Tube, facebbok, moodle, blogs, interatividade. Tudo faz parte X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.10
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues desta construção. Como venho dizendo, além de todos os outros meios de aprendizado já recorri inúmeras vezes ao Youtube, canal de comunicação que todos nós conhecemos, à procura de falas e palestras sobre o campo das filosofias da diferença, depois que me interessei pelo conceito de Educação menor não poderia ser diferente com o professor Sílvio Gallo, pois sua maneira clara e cuidadosa de se expressar acaba por beneficiar o entendimento relacionado a filósofos tão complexos como Deleuze e Foucault, o professor ao qual me refiro, também é um importante estudioso da pedagogia libertária (GALLO, 2007). Deleuze não fez seus estudos e pesquisas no campo da Educação. Ao contrário Deleuze teve sempre em vista tensionamentos de ordem filosófica e conceitual para este ramo do saber. No entanto se imaginarmos que a Educação também pode operar para além do campo da reflexão (GALLO, 2008) encontramos em Deleuze um grande plano de deslocamento para devires educacionais. Deleuze lecionou por mais de 40 anos na França, e tinha com ele uma observação: a de que as aulas eram espaços‐
tempo muito especiais e significativos, por concentrar extensos acontecimentos em tão pouco tempo. Ele menciona nos vídeos do seu abecedário, onde responde a perguntas de Claire Parnet, sua ex‐aluna, que para dar aula era necessária muita inspiração, muita preparação e principalmente muito desejo com o objeto de ensino. Partindo da contribuição de Deleuze, assim como a Filosofia a Educação precisa ser criadora, para não se aprisionar no campo da reflexão deixando acumular perspectivas arborescentes de caráter predeterminados para o aprendizado. Escrever sobre educação em relação à filosofia Deleuziana trás encontros sensíveis e literários, e durante esta produção, algumas boas lembranças vem à tona. Ocorreu‐me agora uma lembrança, a de um poema de Manoel de Barros, um poema que diz mais ou menos assim: “não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas” (BARROS, 2003 p. 30). Aí reside um dos segredos externados ao pensar a educação por dentro da filosofia. Não queremos falar do mesmo, queremos olhar a vida com a educação, para além de tudo usar borboletas. Ao observar a força do pensamento de Deleuze, na obra X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.11
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues Kafka por uma literatura menor, Sílvio Gallo (2008) que observa a amplitude das possibilidades de uma literatura menor, resolve operar através deste livro quatro deslocamentos para a educação. Tais deslocamentos assumem a possibilidade de não se encarregarem de certezas. Gallo propõe deslocamentos para que pensemos a educação através da filosofia. Deslocamentos são impulsões para o pensamento. À medida que se deslocam, estes conceitos podem sofrer alterações, e sofrendo alterações podem precisar ser modificados a qualquer momento, o transitório diferenciando‐se do arbóreo para constituir‐se de forma rizomática. Sílvio Gallo (2008) resolve operar com quatro deslocamentos que aparecerão brevemente neste trabalho. Aproximando filosofia e educação, iremos nos deter a apenas um. Falaremos do deslocamento para uma educação menor, a partir dele as ideias sobre professores profetas e professores militantes são trazidas à discussão. Deleuze e Guatarri escreveram neste livro, Kafka por uma literatura menor (1977), que a escrita precisaria se dar com tamanha força, ou melhor, potência, nas palavras deles, que fosse capaz de elevar o escritor a uma espécie de Devir cão que o fizesse escavar buracos, ou de um Devir rato fazendo sua toca, um buscar incessante dos seus pontos de devir animal, de um devir criativo, que fizesse o escritor ser capaz de criar a partir de suas zonas mais afetivas e sensíveis, as zonas mais animais do seu íntimo. Digamos aqui, que o devir pode ser entendido como um tornar‐se. Para pertencer e se saber através do que se escreve ou do que se ensina, deslocando para o nosso campo de investigação, seria um tornar‐se o que pretendemos criar. Este livro desconstrói a ideia de uma literatura romântica ancorada nos limites impostos pelo esperado, pelo que parece possível, digamos assim. Deleuze e Guatarri (1977) enxergam na escrita de Kafka outros signos, diferentes dos que fixam uma escrita óbvia e previsível a qual nos acostumamos. Os escritos de Kafka constroem um devir revolucionário à medida que desconstroem sua própria língua para, operar criações com o improvável. Kafka é um judeu tcheco que precisa escrever em alemão em razão da ocupação deste exercito em seu território. Sílvio Gallo (2008) vai além trazendo esta ideia para o campo da educação discorrendo sobre os professores como pessoas, que poderiam se diferir entre X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.12
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues professores profetas e professores militantes (NEGRI, 2001), logo o que o autor quer falar é que quando Kafka desconstrói sua língua para poder falar, o que está sendo feito é revolucionar o possível, resistindo ao esperado. E o que isto tem a ver com o processo de formação docente? Ou melhor, onde estas questões se inserem nesta pesquisa e nas questões existenciais de formação que pontuamos desde o início dele. O que queremos percorrer, entender e analisar são as possibilidades, limites e encontros entre o que acontece enquanto nos formamos professores, o que nos acontece subjetivamente? Será que um curso em Educação à distância com formação específica também pode dar conta das questões existenciais que queremos ponderar? Será que um curso, como este pode operar posições menores de para seus futuros professores? E para, além disso, depois da formatura sabendo que temos um tipo de educação, que nos aguarda poderemos saber lidar com o que temos e operar diferenças por dentro do que temos? O conceito de Sílvio Gallo nos ensina que não adianta mais sustentar nosso trabalho em reflexões acerca dos problemas amplos, complexos e genéricos da educação, precisamos criar com o que temos e a partir do que nos desperta durante a nossa formação possibilitar algo para além da reflexão. Kafka foi capaz de construir uma literatura menor, um falar menor por dentro de uma literatura maior, que naquele momento era imposta a ele. Vejamos com Deleuze e Guatarri: uma literatura menor, não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior (DELEUZE; GUATARRI, 1977, p. 25). Gallo se utiliza de Antônio Negri (2001 apud GALLO, 2008), filósofo e Cientista político de nacionalidade Italiana, que estudou e escreveu com Deleuze e Guatarri, para discorrer sobre esta ideia de professores militantes e profetas. Ele trás Negri (2001 apud GALLO, 2008) mencionando que vivemos um tempo de professores profetas, que de cima da sua imperiosa sabedoria, trazem a ideia de um mundo novo através de suas visões. Um professor profeta não vive as misérias do lugar que ele ocupa, de tão impregnado em suas ideias construídas ele não é capaz de conseguir enxergar a possibilidade de alguma transformação por menor que seja em seus modos de ver e vivenciar a educação. A ideia de profetas que anunciam de seus ideais individuais, na opinião dos autores, encontra‐se em vias de total superação. A educação X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.13
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues encontra um momento onde precisamos operar como professores militantes que, de dentro de suas tocas, ou seja, salas de aula procuram seu lugar de criação e de resistência no sentido de ultrapassar uma visão totalitária e impregnada de verdades, para construir uma educação diferente. Muitas vezes aquele professor envolto em seu manto de crítica opera como um professor profeta, pois criticando sempre o presente ele anuncia uma luta tardia, que promete um mundo novo no futuro. O professor profeta vê a partir da crítica presente a possibilidade de um mundo novo. Será que esta questão de criticar o presente não estaria predisposta ao que falamos antes sobre a reflexão. No livro conversações, Deleuze fala, sobre a reflexão na filosofia: “sempre que se está numa época pobre, à filosofia se refugia na reflexão “sobre”... Se ela mesma nada cria, o que poderia fazer se não refletir sobre? Então reflete sobre o eterno, ou sobre o histórico, mas já não consegue ela própria fazer movimento” (DELEUZE, 2010a, p. 156). Olhando desta forma, a reflexão parece tencionar o presente, mas paralisar as ideias. A reflexão não causa o movimento, a criação. A reflexão aproxima‐se da posição do professor profeta, porém a ideia de professor militante se diferencia da ideia de reflexão, pois provoca diferença, opera criação. Pelo menos, deseja isso. Pois o professor militante não é aquele que anuncia um novo, um porvir, mas é aquele que de dentro de suas zonas de dificuldade e miséria se propõe a produzir a possibilidade do novo, o professor militante seria aquele que, vivendo com os alunos o nível de miséria que estes vivem (esta miséria não precisa ser necessariamente a econômica), poderia, de dentro desse nível de miséria, de dentro dessas possibilidades, buscar construir coletivamente (GALLO, 2008, p. 61). Tudo isso tem a ver com a ideia de educação menor, pois subverte a lógica do mesmo. Deleuze e Guatarri (1977) viram como importantes três características para que uma literatura pudesse ser vista como menor. Foram elas a desterritorialização da língua, a ramificação política, e a de valor coletivo. A desterritorialização está ligada a ideia de que toda a língua possui um território e junto com ele uma tradição, uma produção de realidade, a literatura menor a desconstrói, ou melhor, a desterritorializa. A segunda X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.14
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues característica, ligada à ramificação política, é bem peculiar e trarei sua explicação através de Sílvio Gallo, que escreve: Não que uma literatura menor traga necessariamente um conteúdo político expresso de forma direta, mas ela própria, pelo agenciamento que é, só pode ser política. Sua existência é política: seu ato de ser é antes de tudo um ato político em essência. Uma literatura maior estabelecida, não é política, necessariamente. Até pelo contrário, pois comumente aparece‐nos como um agenciamento apolítico (como se isso fosse possível). A literatura maior não se esforça por estabelecer elos, cadeias, agenciamentos, mas sim para desconectar os elos, para territorializar‐se no sistema das tradições a qualquer preço e a toda força. Para a literatura menor, o próprio ato de existir é um ato político, revolucionário: um desafio ao sistema instituído. (GALLO, 2008, p. 63) E a terceira característica, e a mais complexa para entender e aplicar, diz respeito à que, nas literaturas menores todos os escritos e pensamentos adquirem um valor coletivo, o que fazemos nas práticas menores deixa de ser individual, para tornar‐se singular. Tentemos trazer agora estas ideias para o campo da educação, será possível subverter uma educação maior instituída em uma educação menor? Ainda, será possível constituir em menor uma educação que se compõe a partir de uma Educação maior como é o caso da Educação à distância? É preciso que fique claro que não trazemos uma alternativa ao que existe, mas trazemos ideias para compor o que é possível. Não sei se é perceptível, mas a educação maior é aquela que está presente, nas políticas públicas educacionais, aquela presente nos parâmetros e currículos para a educação nacional, definida pela LDB (BRASIL, 1996), ou seja, aquela educação que é construída e bem pensada para caminhar objetivamente para chegar a um único lugar. A educação maior é aquela que está prevista nos grandes projetos governamentais, que trata todos os lugares como iguais sem ter conhecimento, sobre as suas zonas de subdesenvolvimento, achando que todos têm as mesmas necessidades. É a mesma educação partilhada pelos ideais do professor profeta. Já a educação menor, é aquela que resiste, que se revolta contra os fluxos instituídos, que não quer imperar nem criar dogmas, mas escavar buracos em suas salas de aula traçando objetivos de criação e diversidade. Se a educação maior e construída, objetiva sempre chegar aos gabinetes para impor‐se, a educação menor pretende estar nas salas de aula, atuar politicamente no lugar do micro, do imperceptível, nas coisas que X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.15
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues acontecem todos os dias no cotidiano do professor. Se formos deslocar as características de uma literatura menor para a educação menor, em primeiro lugar, pensando na desterritorialização, os manuais de dizer como fazer, como se portar e o que fazer com a educação desabaria por terra, pois estes são responsáveis por uma forma de controle que produz modos de ser onde as pessoas são convidadas a pensar e a agir da mesma forma por todo o sempre. A educação menor nos põe a pensar que ninguém pode ser obrigado a aprender da mesma forma e ser visto como um objeto obrigado a comportar‐se sem diferença. No entanto é preciso enxergar, que através das políticas públicas constituíram‐
se e vem constituindo‐se importantes ganhos para a Educação, não a queremos a demonizar, mas poder desenvolver traços de criação com ela. Aí que o campo da Educação à distância como modalidade de ensino que apesar de ser idealizado em um esforço de preencher espaços aonde a educação presencial não chega e com isso baratear custos para o governo parece compor se de forma interessante para por em pensamento uma Educação menor. Que por ser à distância consegue resistir pelo menos aos espaços tempo igualitários se configurando assim em um princípio de diferença. A outra característica que deslocamos é a da ramificação política. Na educação menor, se começamos a desterritorializar as receitas das imposições dos grandes projetos educacionais; deixamos de ver a política como algo que denúncia injustiças ou trás para si, apenas causas grandiosas. A política é trazida do cotidiano destas relações que se estabelecem em sala de aula para outras formas de aprendizado menos mecanizados e distanciados do dia a dia. Se desterritorializamos a sala de aula e deslocamos o modo apolítico de pensá‐la a educação passa a desenvolver‐se com um valor coletivo, ela deixa de parecer pertencer somente ao professor, ao ministério da educação, para partilhar conosco, das nossas vidas, da nossa formação. Lembremos que não falamos aqui da política partidária, mas da política aparente nos escritos de Deleuze e Foucault que se assume como vida a partir das decisões que tomamos enquanto agentes de produção das nossas próprias realidades contemporâneas. O aluno, junto ao professor como processo e militante de uma educação que ele cria ao mesmo tempo em que aprende. Assim todo o ato singular se coletiviza e todo o ato coletivo se singulariza. Num rizoma, as singularidades desenvolvem devires que implicam hecceidades. “Não há X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.16
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues sujeitos, não há objetos, não há ações centradas em um ou outro; há projetos, acontecimentos, individuações sem sujeito. Todo o projeto é coletivo. Todo o valor é coletivo. Todo o fracasso também” (GALLO, 2008, p. 69). Na educação menor, não há os sujeitados, mas criadores. As ideias de educação menor, encontro, e filosofias da diferença não querem recompor o mesmo, o que estabelecido está. Tais ideias querem aliar‐se ao novo e poder repensar os processos de formação de professores como campo de experimento, concretamente, em contextos pontuais. A Educação à distância é sem dúvida um terreno fértil para pensar nestes processos. Com as ideias que trouxemos, não queremos trazer manuais nem formas mirabolantes para a educação, queremos apenas compartilhar uma experiência de uma professora em formação, um curso de licenciatura em educação à distância e ideias que pretendem se arriscar na experimentação do que é ensinar, do que parece ser professor, pensando e repensando a educação por dentro da filosofia e das artes. A partir destes pensamentos constituir espaço para pesquisa e criação de saberes no campo das filosofias da diferença para a Educação. REFERÊNCIAS ABED, Associação Brasileira de Educação à distância. Site da Associação Brasileira de Educação à distância. Brasil 2013. Disponível em: http://www.abed.org.br/site/pt/. Acesso em 10 ago. de 2013. ALVES, Lucineia. Educação á distância: conceitos e história no Brasil e no mundo. RBAAD. Rio de Janeiro. 2011. AMARAL, Adriana; FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel. Métodos de pesquisa para a Internet. Porto Alegre: Editora Sulina. 2012. BARROS, Manoel. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Mato Grosso do Sul: Editora Alvorada. 2003. BERGSON, Henry. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes. 1999. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka – por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.17
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POR ENTRE OS ESPAÇOS DE FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR MILITANTE. DOCÊNCIA E SUBJETIVAÇÃO EM EaD. Alexandra Domingues DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. vol. 1. São Paulo: Ed. 34, 1992a . DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e esquizofrenia. vol. 5. São Paulo: Ed. 34, 1992b. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010a. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O Anti‐Édipo. Trad. Luiz B. L. Orlandi. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010b. DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. [Organização e tradução de Roberto Machado]. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. GALLO, Sílvio. Deleuze e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. GALLO, Silvio. Pedagogia libertária: anarquistas, anarquismos e educação. São Paulo: Imaginário; Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007. KASTRUP, Virgínia. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa‐intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009. LEVY, Pierre. O que é o virtual? [Tradução de Paulo Neves]. São Paulo: Ed. 34, 1996. NEGRI, Antonio. Exílio. São Paulo: Iluminuras, 2001. UAB, Universidade Aberta do Brasil. Site da Universidade Aberta do Brasil. Brasil, 2013. Disponível em: http://www.uab.capes.gov.br/. Acesso em 28 de out. de 2013. X ANPED SUL, Florianópolis, outubro de 2014. p.18
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