ISSN 1982 - 0283 Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização Ano XXIII - Boletim 7 - MAIO 2013 Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização Sumário Apresentação........................................................................................................................... 3 Rosa Helena Mendonça Introdução............................................................................................................................... 4 Riva Cusnir Valansi Texto 1 - Gestão da Alfabetização, Inclusão e Currículo......................................................... 10 Riva Cusnir Valansi Texto 2 - Incluir ou integrar: a diversidade na educação........................................................20 Leandra Cadinha Deister Texto 3 - Gestão compartilhada em educação: uma prática necessária.................................25 Euzinéa Miranda de Oliveira Bernardo Apresentação Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização A publicação Salto para o Futuro comple- A edição 7 de 2013 traz como tema Gestão menta as edições televisivas do programa para inclusão no ciclo de alfabetização e de mesmo nome da TV Escola (MEC). Este conta com a consultoria de Riva Cusnir Va- aspecto não significa, no entanto, uma sim- lansi, professora Inspetora Escolar da Secre- ples dependência entre as duas versões. Ao taria Municipal de Educação, Esporte e Re- contrário, os leitores e os telespectadores creação de Miguel Pereira, RJ. Os textos que – professores e gestores da Educação Bási- integram essa publicação são: ca, em sua maioria, além de estudantes de cursos de formação de professores, de Fa- Texto 1: Gestão da Alfabetização, Inclusão e culdades de Pedagogia e de diferentes licen- Currículo ciaturas – poderão perceber que existe uma interlocução entre textos e programas, preservadas as especificidades dessas formas distintas de apresentar e debater temáticas Texto 2: Incluir ou integrar: a diversidade na educação variadas no campo da educação. Na página eletrônica do programa, encontrarão ainda outras funcionalidades que compõem uma Texto 3: Gestão compartilhada em educação: uma prática necessária rede de conhecimentos e significados que se efetiva nos diversos usos desses recursos nas escolas e nas instituições de formação. Os textos que integram cada edição temática, Boa leitura! além de constituírem material de pesquisa e estudo para professores, servem também de base para a produção dos programas. 1 Supervisora Pedagógica do programa Salto para o Futuro (TV Escola/MEC). Rosa Helena Mendonça1 3 Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização INTRODUÇÃO Saber ler e escrever é estar alfabetizado? Riva Cusnir Valansi1 uma da outra, como reflexos sob ângulos opostos de um mesmo fenômeno: a comunicação através da língua escrita. Historicamente, a palavra alfabetizado de- Mas há diferenças fundamentais entre signa aquele que sabe ler e escrever, en- as habilidades e conhecimentos empre- quanto o vocábulo analfabeto refere-se ao gados na leitura e aqueles empregados que não sabe. São termos familiares, consi- na escrita, assim como há diferenças derados de universal compreensão, princi- consideráveis entre os processos envol- palmente, no âmbito escolar. vidos na aprendizagem da leitura e os envolvidos na aprendizagem da escrita Já a palavra letramento, recentemente in- (Smith, 1973, p.117). troduzida em nosso vocabulário, é utilizada com muita frequência nos meios acadêmi- A partir do asseverado por Smith, letramen- cos. Inicialmente, foi interpretada por mui- to pode ser entendido como uma forma de tos como o domínio da tecnologia de codi- reflexão sobre um fenômeno que vem acon- ficar e decodificar. Com o passar do tempo, tecendo nas sociedades centradas na escri- a expressão foi se aprimorando e passou a ta, em que é insuficiente estar alfabetizado. denotar uma concepção mais ampla de al- As demandas contemporâneas, impostas fabetização, entendida como processo de pela sociedade atual, determinam que os inserção e participação do indivíduo na cul- indivíduos relacionem a leitura e a escrita tura escrita. a outros contextos. Nessa perspectiva, letramento e alfabetização constituem processos Ler e escrever são processos frequente- diferentes, cada um com suas especificida- mente vistos como imagens espelhadas des, mas complementares e indispensáveis. 1 Professora Inspetora Escolar - Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Recreação de Miguel Pereira, RJ. Mestranda em Educação pela Universidade Del Salvador, Buenos Aires-Argentina. MBA em Gestão Empreendedora na Educação pela Universidade Federal Fluminense-UFF. Consultora da edição temática. 4 Assim, letramento é um processo de intera- duas modalidades fundamentais para uma ção entre os sujeitos e inicia-se muito cedo, condição de progressão e inclusão social e antes mesmo de o aluno ingressar na escola. cultural, permitindo o redimensionamento e Também não tem um final exato, previsto, a ressignificação da importância da aprendi- pois as pessoas vão desvelando sentidos e zagem; porém, para que o acesso à leitura e significados às experiências vivenciadas com à escrita ocorra, é relevante a promoção de o propósito de realmente edificar uma cul- situações, processos, condições e circuns- tura escrita. tâncias que viabilizem o desenvolvimento de habilidades, atitudes, competências e moda- De acordo com Val (2004), não se trata de lidades que levem o indivíduo a transpor o alfabetizar ou letrar, trata-se de “alfabetizar exigido pela alfabetização. letrando”. Quando se orienta a ação pedagógica para o letramento, isso não significa A partir de 1980, o conceito de alfabetização que o docente se descuide dos aspectos es- começou a ser reavaliado e revisto depois pecíficos da linguagem escrita. Não se pode dos estudos da psicogênese da língua es- pensar nos dois processos, alfabetização e crita. Este novo olhar foi influenciado pelas letramento, como sequenciais, ou seja, o le- pesquisas e experiências de Emília Ferreiro tramento como preparação para a alfabeti- e Anna Teberosky. Essa nova concepção de zação e a alfabetização como condição para alfabetização levou ao entendimento de que o letramento. Dessa forma, para o indivíduo não bastava mais só aprender a ler e a escre- atuar no mundo grafocêntrico não basta ver, pois as pessoas alfabetizadas não neces- que ele aprenda só a ler e a escrever, alfa- sariamente adquiriam competência leitora betizando-se através da técnica de codifica- e escritora. Diante do exposto e consoante ção e de decodificação. É imprescindível que com as ideias de Soares, depreende-se que ele se aproprie da escrita, de forma que seja a leitura, como tecnologia, baseia-se num capaz de fazer uso e identificar as funções conjunto de habilidades linguísticas e psico- das práticas sociais de leitura e escrita que lógicas que se estendem desde a habilidade circulam na sociedade. Portanto, na pers- de decodificar palavras escritas até a capaci- pectiva do “alfabetizar letrando”, a leitura dade de compreender diversos tipos de tex- propicia uma participação eficaz do cidadão tos escritos. A aquisição da escrita também no ambiente em que se encontra inserido, exige um conjunto de habilidades linguísti- possibilitando-lhe a compreensão do mundo cas e psicológicas, porém diferentes daque- circundante e facilitando-lhe o desenvolvi- las suscitadas pela leitura. Então, conclui-se mento da expressão oral adequada. Nesse que essas duas categorias, leitura e escrita, sentido, alfabetizar e letrar constituem-se não se opõem; complementam-se. 5 O desafio que se coloca hoje à escola é o de esses dois termos. Há, pois, que se diferen- conciliar alfabetização e letramento, asse- ciar a teoria da prática, articulando-as em gurando aos alunos a apropriação da lingua- dois momentos que, dialeticamente, se re- gem oral e escrita de forma convencional e a lacionam no conceito de práxis: a teoria e plena condição de uso da língua nas práticas a ação. E, a partir desta diferenciação, com- sociais de leitura e escrita. Para tanto, a arti- preender a especificidade do trabalho edu- culação entre alfabetização e letramento, na cativo escolar, para que se possa verificar a sala de aula, requer competência dos docen- possibilidade do desenvolvimento de com- tes no que se refere aos conhecimentos teó- petências a partir da escola. rico-metodológicos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem no que tange à Em primeiro lugar, é preciso considerar a re- alfabetização. alidade que os alunos vivenciam como parte relevante do processo de alfabetização. Essa “Todos nós refletimos na ação e sobre a ação, e nem por isso nos tornamos profissionais reflexivos” realidade, reproduzida no pensamento, adquire significado. A (re)criação da realidade no pensamento é um dos muitos modos de relação sujeito e objeto, cuja dimensão mais essencial é a compreensão da realidade enquanto relação humana e social. A partir de inúmeras pesquisas, tornou-se necessário compreender o conceito de com- Em segundo lugar, é preciso considerar que petência; atualmente entendido como a ca- a prática não fala por si mesma. Os fatos pacidade de agir em situações previstas e práticos ou fenômenos têm que ser identifi- não previstas, com rapidez e eficiência, arti- cados, contados, analisados, interpretados, culando-se conhecimentos tácitos e científi- pois a realidade não se deixa revelar através cos a experiências vivenciadas ao longo das da observação imediata. É imprescindível histórias pessoais de cada um. O conceito de ver além da imediaticidade, para a compre- competência tem sido vinculado à ideia de ensão das relações, das conexões, das estru- solucionar problemas após mobilização de turas internas, das formas de organização, conhecimentos, transferindo-os para novas das relações entre parte e totalidade, das situações; supondo, portanto, a capacidade finalidades que não se deixam conhecer nos de atuar gerando novas aprendizagens. primeiros momentos, quando apenas os fatos superficiais são percebidos e ainda não Embora os conhecimentos estejam integra- se constituem em conhecimento. Ou seja, o dos às competências, não se pode confundir ato de conhecer não prescinde do trabalho 6 intelectual e teórico que se dá no pensamen- não material. Este ato (ou conjunto de atos) to, que se debruça sobre a realidade a ser co- se traduz em resultados ou produtos; por- nhecida. É neste movimento do pensamento tanto, é orientado por finalidades e culmina que surgem as primeiras e imprecisas per- com resultados que, em princípio, se pre- cepções relacionadas com a dimensão empí- tendia alcançar, desde que as ações fossem rica da realidade, que se deixa parcialmente eficientes e eficazes. O que caracteriza a ati- perceber por aproximações sucessivas, cada vidade é seu caráter real, sua materialidade. vez mais específicas e, ao mesmo tempo, mais amplas, construindo-se os significados. Assim, o processo educativo escolar se configura como espaço de articulação com o Ao colocar a práxis como fundamento do co- conhecimento socialmente produzido, en- nhecimento, rechaçando ao mesmo tempo quanto produto, e como espaço de apre- a possibilidade de aprendizagem pela con- ensão das categorias de produção deste templação ou pela mera ação do pensamen- conhecimento, enquanto processos meto- to, Marx nos mostra que conhecer é conhecer dológicos. São, por excelência, espaços da objetos que se integram na relação entre o ho- produção teórica e do trabalho intelectu- mem e o mundo, ou entre o homem e a nature- al, sempre que possíveis articulados à prá- za, relação esta que se estabelece graças à ati- xis. Diante desta afirmação, é correto afir- vidade prática humana. Ressalta-se, então, mar que a escola é o lugar próprio para o que não se trata de reproduzir a realidade indivíduo aprender a interpretar o mundo, como ela se apresenta ao homem e, tam- tornando-se capaz de transformá-lo, a partir pouco, apenas pensar sobre a mesma. O que do domínio das categorias de método e de é pertinente é a transformação do conheci- conteúdo que o inspirem e que se transfor- mento a partir da atividade crítico-prática. mem em práticas de emancipação humana em uma sociedade cada vez mais mediada Ao discutir os conceitos de atividade e de pelo conhecimento. Assim, a prática social e práxis, Vázquez afirma que toda a práxis é ati- produtiva possibilita o desenvolvimento de vidade, mas já nem toda atividade é práxis. O competências que, por sua vez, mobilizam que é, então, atividade? A que se refere o conhecimentos, mas que com eles não se conceito de competência: à atividade ou à confundem. práxis? Atividade entendida como sinônimo de ação é o ato (ou conjunto de atos) através Todos nós refletimos na ação e sobre a do qual o sujeito modifica uma matéria-pri- ação, e nem por isso nos tornamos pro- ma, independentemente de qual seja a sua fissionais reflexivos. É preciso estabele- natureza, através do trabalho material ou cer a distinção entre a postura reflexiva 7 do profissional e a reflexão episódica de positivos pedagógicos complexos; suscitar e todos nós sobre o que fazemos (Perre- animar as etapas de um projeto como modo noud, 2002, p. 13). de trabalho regular; identificar e modificar aquilo que proporciona ou diminui o sentido Cabe às escolas, portanto, desempenhar aos saberes e às atividades escolares; criar com qualidade seu papel na criação de situa- e gerir situações-problema, identificar os ções de aprendizagem que permitam ao alu- obstáculos, analisar e reordenar as tarefas; no desenvolver as capacidades cognitivas, observar os alunos nos trabalhos; avaliar as afetivas e psicomotoras relativas à atividade competências em construção. intelectual, sempre articulada, mas não reduzida ao mundo do trabalho e das relações Esse é o grande desafio: fazer o professor sociais, possibilitando o desenvolvimento de perceber-se como organizador de situações competências na prática social e produtiva. didáticas e atividades que tenham sentido É papel do professor transformar sua pos- para os alunos e que sejam capazes de en- tura frente à classe, integrar as diferentes volvê-los e, ao mesmo tempo, gerar aprendi- disciplinas e estar aberto a aprender com zagens significativas. Na verdade, “ser pro- seus alunos. Para tanto, segundo Perrenoud, fessor é cuidar que o aluno aprenda, não é algumas qualidades profissionais precisam dar aula” (Demo, 2004). É, por conseguinte, ser construídas e mobilizadas pelo docente, elaborar propostas inclusivas que desenvol- a partir de uma postura reflexiva, no senti- vam as habilidades de todos os alunos, com do de proporcionar aos alunos o desenvol- ou sem dificuldades de aprendizagem, ajus- vimento de competências, tais como: orga- tadas às novas dinâmicas sociais, culturais, nizar o trabalho em meio aos mais vastos econômicas e tecnológicas relacionadas espaços-tempos de formação (ciclos, proje- ao mundo do trabalho e aos seus desafios, tos da escola); cooperar com os colegas, pais como também à pluralidade dos usos e fun- e outros adultos; conceber e dar vida aos dis- ções da cultura escrita. Textos da edição temática Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização2 O ciclo de alfabetização e a inclusão das crianças com necessidades educacionais especiais; a inclusão como princípio do processo educativo; estratégias de atendimento às crianças que não estejam progredindo conforme as definições dos direitos de aprendizagem; a inclusão das 2 Os textos desta publicação eletrônica são referenciais para o desenvolvimento dos assuntos abordados na edição temática Gestão para inclusão no ciclo de alfabetização, com veiculação no programa Salto para o Futuro/TV Escola nos dias 20 e 22 de maio de 2013. 8 crianças com dificuldades de aprendizagem. A sala de aula, a sala de recursos, atendimentos especializados, parcerias, concepção de gestão da equipe técnica da SME, avaliação e monitoramento e os espaços de formação continuada em exercício de professores na perspectiva da inclusão. Estes temas são abordados e discutidos com profundidade nos três textos da edição temática: Texto 1: Gestão da Alfabetização, Inclusão e Currículo O primeiro texto problematiza questões teórico-metodológicas relativas à implantação do Ciclo de Alfabetização no Município de Miguel Pereira/RJ, com destaque para a gestão para a inclusão de todas as crianças na escola. Texto 2: Incluir ou integrar: a diversidade na educação O segundo texto coloca em destaque teorias e práticas com inclusão educacional para todos os alunos, considerando a diversidade de ritmos e necessidades de cada um. 9 Texto 3: Gestão compartilhada em educação: uma prática necessária O terceiro texto destaca a importância da gestão compartilhada na criação de uma escola realmente inclusiva. Texto 1 Gestão da Alfabetização, Inclusão e Currículo1 Riva Cusnir Valansi2 O Ciclo de Alfabetização, implantado na rede avaliações diagnósticas, à autoavaliação da municipal de ensino desde 2001, é organizado prática pedagógica para reflexão coletiva, às num período constituído por três anos, vol- metodologias inovadoras adotadas, às estra- tado para o atendimento aos alunos a partir tégias diferenciadas para contemplar a di- dos seis anos de idade, com foco na alfabeti- versidade, à coerência e coesão do agir con- zação e no letramento. Sua organização trie- forme o documento curricular municipal e nal tem como propósito evitar a ruptura do o pretendido no projeto político pedagógico processo de aprendizagem e possibilitar ao das unidades escolares. Todo o trabalho de aluno um redimensionamento dos tempos subsídio aos professores alfabetizadores foi e espaços de aprendizagem, capacitando-o a possível devido ao redimensionamento da adotar posturas flexíveis frente ao desenvol- concepção de gestão implantado na rede vimento das capacidades necessárias para municipal, atualmente voltado para a inclu- consolidação do processo de alfabetização. são, em que todos os alunos e professores O sucesso desse tipo de organização, entre- são personagens principais nesse contexto e tanto, depende da existência de diversas me- necessitam ser atendidos em suas particula- didas e estratégias que permitam viabilizá-lo ridades emergenciais. e que não se encontram somente direcionadas ao ensino e à aprendizagem, mas sim Com o objetivo de reafirmar alguns princí- ao entorno educativo, à infraestrutura, à pios supracitados e normatizar condutas, foi formação continuada oferecida aos alfabeti- necessário o esclarecimento dos aspectos zadores, ao acompanhamento das ações do- sobre os quais ainda ocorrem controvérsias, centes e discentes pela equipe de coordena- equívocos e inadequações sobre os procedi- ção, ao monitoramento dos resultados das mentos pedagógicos recomendados para o 1 Relato sobre a experiência na rede pública municipal de Miguel Pereira/Rio de Janeiro. 2 Professora Inspetora Escolar - Secretaria Municipal de Educação, Esporte e Recreação de Miguel Pereira, RJ. Mestranda em Educação pela Universidade Del Salvador, Buenos Aires-Argentina. MBA em Gestão Empreendedora na Educação pela Universidade Federal Fluminense-UFF. Consultora da edição temática. 10 Ciclo de Alfabetização da rede municipal. fletir coletivamente sobre os resultados al- Para tal, tornou-se imperativo transformar cançados em reuniões e oficinas em que tro- o sentido da escola, das práticas avaliativas, cas produtivas também foram evidenciadas. dos conteúdos curriculares, do trabalho pedagógico e da própria organização escolar. Foi criado, então, para o Ciclo de Alfabeti- Sendo assim, o Ciclo de Alfabetização pas- zação, um mapa conceitual que representa sou a se basear, recentemente, em conceitos e transparece a concepção ora apresentada, relevantes que permeiam todo o processo e, assim como a síntese dos processos sequen- por isso, tornaram-se norteadores das prin- ciais que ajudaram os docentes a efetuar os cipais ações: codificação, decodificação, lei- planos e planejamentos de ensino. O Ciclo tura e escrita, interpretação, compreensão, de Alfabetização passou a adotar uma “con- extrapolação, uso social. Essas sete ações cepção de inclusão”, assim como, uma “ges- ancoram a prática pedagógica dos professo- tão para a diversidade”. res que atuam no Ciclo e possibilitam aos mesmos uma organização de estratégias e A ideia de inclusão adotada no Ciclo de Al- metodologias em favor de usos diversifica- fabetização envolve todos os atores do pro- dos da leitura e da escrita, tornando-se pos- cesso sível, assim, a promoção e consolidação de alunos, pais, instituição, entre outros. Desta habilidades, competências e experiências forma, a compreensão sobre inclusão não numa perspectiva de democracia escolar e permite restrições, delimitações, frontei- respeito à inclusão. ras... A inclusão é voltada para aqueles que, ensino-aprendizagem: professores, envolvidos neste processo, apresentam uma Para tanto, necessitou-se discriminar quais ou outra dificuldade. Da mesma maneira, a conhecimentos e habilidades deveriam ser compreensão sobre gestão inclusiva extra- dominados pelos alunos nas diferentes eta- pola os domínios dos gestores da Secretaria pas do Ciclo, pois os objetivos e as metas, Municipal de Educação. Os professores e os simples e claras, é que forneceram as con- alunos envolvidos nessa empreitada, conse- dições para que os professores pudessem quentemente, assumem responsabilidades realizar as transposições didáticas da teoria de acordo com suas competências e habili- para a prática. Desta forma, coletivamen- dades dentro dessa concepção de educação. te, as escolas passaram a ter instrumentos eficientes para avaliar os conhecimentos Através da gestão da inclusão no pro- prévios suscitados pela experiência dos edu- cesso de alfabetização, ancoramos e credi- candos, elaborar o planejamento didático, tamos os sucessos que se vêm obtendo por estabelecer objetivos para a avaliação e re- meio da identificação das possibilidades in- 11 dividuais dos alunos e dos professores. Valo- meta primordial nesse contexto. Para ilus- rizou-se a elaboração de planos de trabalho trar essa visão, elaborou-se um mapa con- específicos capazes de atender a todos os ceitual que surgiu a partir da necessidade de alunos e aos professores diante de suas ne- formalizar e realizar a transposição didática cessidades e aspirações. Constata-se, cada da teoria, já tão conhecida pelos docentes vez mais, através da avaliação, do monito- municipais, para a prática, ainda um tanto ramento, dos gráficos, dos dados estatísti- desencontrada de significado, ou seja, teo- cos e das pesquisas externas que mais alu- ria e prática não andavam de braços dados nos, com ou sem dificuldades específicas, se nas práticas escolares. O mapa conceitual, apropriam da base alfabética da psicogênese então, funcionou como um alicerce para da leitura e da escrita. A partir do suporte basear a nova concepção de alfabetiza- oferecido aos professores e dos resultados ção inclusiva, possibilitando a organização positivos obtidos nas classes, os docentes das ações pedagógicas apresentadas pelos cumprem as metas ousadas estabelecidas professores que atuam nas três etapas (ou pela equipe técnico-pedagógica numa pers- anos) do Ciclo de Alfabetização e, também, pectiva sistêmica de ensino: “alfabetização forneceu uma identidade própria de traba- para todos”. Isto só foi possível porque, lho para facilitar a elaboração dos objetivos numa gestão para a diversidade, a escola e possibilitar que as metas traçadas fossem não é mais encarada como uma célula iso- alcançadas em sala de aula. O mapa concei- lada do sistema. Nessa nova concepção de tual a seguir deve ser entendido como um gestão, os atores do processo ensino-apren- diagrama bidimensional que procura mos- dizagem são os próprios partícipes deste sis- trar as relações hierárquicas entre conceitos tema inclusivo, que também executam suas de um corpo de conhecimento e sua própria ações, tanto de ensino como de aprendiza- estrutura. De uma maneira ampla, ele é ape- gem, através da visão holística. Assim, não nas um diagrama que indica relações entre se surpreendem com o forte compromisso conceitos. A ideia é identificar os conceitos- que assumem frente às consequências dos chave, organizá-los relacionando-os a algum trabalhos. Os novos e complexos desafios tipo de hierarquia e direcioná-los explicita- transfiguram-se em força propulsora para mente através de ligações às suas conceitu- que os avanços e conquistas alcancem a ações, dando significado à esquematização. 12 Mapa Conceitual do Ciclo de Alfabetização No quadro acima são apresentadas as três dos na Etapa I, a leitura e a escrita autôno- etapas de trabalho que compõem o Ciclo de ma de palavras e sentenças com fluência e Alfabetização - Etapas I, II e III. rapidez; a promoção da leitura e da escrita, com independência, de textos curtos, mes- Espera-se que na Etapa I (que representa o mo que com algumas hesitações e erros, e primeiro ano letivo do Ciclo), os alunos se a compreensão e a produção de textos, po- apropriem do princípio alfabético da língua. rém, contando ainda, com a ajuda do pro- Neste momento, o professor atua como mo- fessor. delo, criando oportunidades para que os alunos observem a relação entre o que se lê e os Já na Etapa III (que se refere ao terceiro ano signos presentes nos registros. do Ciclo) deverá acontecer a consolidação dos conhecimentos apresentados nas etapas Na Etapa II (que representa o segundo ano anteriores. Os alunos devem estar lendo e letivo do Ciclo), objetiva-se que os educan- escrevendo com fluência textos extensos e dos desenvolvam, respectivamente, a inter- complexos pertinentes à faixa etária; com- nalização dos conceitos, dos conhecimentos preendendo e produzindo diversos gêneros e dos conteúdos. Os alunos devem agregar textuais com autonomia e criatividade; en- ao acervo de conhecimentos, já consolida- tendendo os significados e usos das palavras 13 em diferentes contextos; utilizando a escrita prias ações. de acordo com as funções sociais exigidas pela sociedade letrada. Através do complexo processo mental que envolve capacidades de abstração, classifi- Conhecer a evolução do aluno na apropria- cação e categorização, é preciso observar ção do sistema de escrita através da identi- que conceituar e abstrair não são sinôni- ficação das hipóteses apresentadas por cada mos. A abstração contrapõe-se à concretiza- um auxilia o professor a organizar as ativi- ção, pressupondo um maior grau de distan- dades propostas na sala de aula, permitindo ciamento em relação a uma circunstância uma intervenção na relação deste com a es- observável. Ainda assim, a experiência abs- crita, mobilizando uma aprendizagem para traída pode ser em algum momento ob- todos, ou seja, uma educação inclusiva; pois servada. No entanto, para conceituar tam- é possível ao professor oferecer apoio indi- bém é necessário classificar e categorizar. vidual ao educando de acordo com suas di- Meireles e Correa (2005) ressaltam que os ficuldades e o estágio em que ele se encon- conhecimentos mais básicos da associação tra. Essa diversidade pode ser aproveitada entre letras e sons não são suficientes para ao valorizar-se a troca de experiências e o que a criança domine o sistema de escrita conhecimento entre as crianças. O contexto de maneira correta e consistente. Faz-se ne- escolar tem de valorizar a interação. cessário que a criança conheça os aspectos ortográficos da língua e saiba lançar mão Uma vez finalizado o Ciclo de Alfabetização, dos mesmos, o que aparece como mais uma podemos considerá-lo bem sucedido se os fonte de dificuldades. A criança precisa ana- alunos dominarem as competências e habi- lisar a língua de maneira mais complexa, lidades que o garantem. No prosseguimen- assim como conhecer diferentes regras or- to da escolaridade, o trabalho com a língua tográficas. “Em alguns momentos precisará assumirá outros aspectos mais complexos atentar para a posição de determinada letra como a correção ortográfica, o domínio da na palavra, em outros precisará observar a sintaxe, a compreensão e a produção de tex- classe gramatical à qual a palavra pertence, tos, entre outros. O importante é que esteja entre outras estratégias que precisará utili- claro para os professores quais as compe- zar” (Meireles & Correa, 2005, p. 77). tências e habilidades específicas da alfabetização, de forma que possam traçar suas Neste estágio de complexidade, o compro- metas, elaborar planejamentos, promover a misso com o Ciclo de Alfabetização também avaliação e a correção de rumos através da envolve o trabalho com o desenvolvimento rotina da ação reflexiva sobre as suas pró- do raciocínio lógico. A Matemática e as de- 14 mais áreas do conhecimento também fazem em vista a (re) orientação das práticas de en- parte do processo de letramento e assumem sino. Ao avaliar, é importante que o profes- papéis importantes na consolidação dos sor valorize a possibilidade de interpretação processos de leitura e escrita e estão inse- das capacidades dos alunos através de crité- ridas, de forma marcante, em nossas vidas. rios que sinalizem progressivos avanços no Essa proposta para o Ciclo ressalta, portan- processo de alfabetização. As observações to, a relevância de um trabalho contextuali- sobre as sondagens dos conhecimentos pré- zado e a promoção da interdisciplinaridade vios auxiliam o professor a definir o que ele com as outras áreas deverá do levando os alunos conhecimento, pois, ao final do Ciclo, os alunos deverão ter adquirido as noções mais relevantes contidas na Proposta Curricular Municipal, sendo capazes de prosseguir os estudos com segurança e competência. Para que os alunos Para que os alunos possam desenvolver as habilidades propostas para cada etapa do Ciclo de Alfabetização, na concepção de alfabetização inclusiva, faz-se necessária uma avaliação que não se limite apenas aos resultados finais traduzidos em notas ou conceitos. introduzir, a se familiarizarem com conteúdos e conhecimentos; retomar, eventualmente, quando se tratar de conceitos ou de capacidades que já deveriam estar consolidadas em período anterior; trabalhar, siste- maticamente, para favorecer o desen- possam desenvolver volvimento as habilidades pro- alunos; pelos consolidar postas para cada etapa do Ciclo de Alfabe- as competências desenvolvidas no processo tização, na concepção de alfabetização in- de aprendizagem dos alunos, sedimentando clusiva, faz-se necessária uma avaliação que os avanços em seus conhecimentos e capa- não se limite apenas aos resultados finais cidades. traduzidos em notas ou conceitos. Deve-se ter como objetivo o conhecimento de cada Por isso é que, na formação permanen- aluno, o acompanhamento de seu desempe- te dos professores, o momento funda- nho durante as atividades de aprendizagem mental é o da reflexão crítica sobre a e o entendimento de seus avanços e dificul- prática. É pensando criticamente a prá- dades evidenciadas em cada etapa, tendo tica de hoje ou de ontem que se pode 15 melhorar a próxima prática. O próprio que o pedagógico se torne mais político e discurso teórico, necessário à reflexão vice-versa, revisando o modo como o conhe- crítica, tem de ser de tal modo concreto cimento vem sendo trabalhado e seleciona- que quase se confunda com a prática. O do como verdadeiro e legítimo. Assim, é per- seu “distanciamento” epistemológico da tinente afirmar, de acordo com Morin, que prática, enquanto objeto de sua análi- (...) o objetivo da educação não é o de transmi- se, deve dela “aproximá-lo” ao máximo tir conhecimentos sempre mais numerosos ao (Paulo Freire, 2006). aluno... É, justamente, mostrar que ensinar a viver necessita não só dos conhecimentos, mas Dessa forma, para o desenvolvimento de também da transformação, em seu próprio um trabalho eficaz e significativo no Ciclo, ser mental, do conhecimento adquirido em o professor, com sensibilidade, precisa cons- sapiência... A educação deve contribuir para a truir sua prática pedagógica considerando a autoformação da pessoa (ensinar a assumir a realidade de seus alunos. Através dos com- condição humana, ensinar a viver) e ensinar ponentes observáveis (registros reflexivos como se tornar cidadão (MORIN, 2000). e descritivos, trabalhos individuais e coletivos, portfólios, exercícios e relatórios), Ao contrário da crença fundamentada numa o professor tem condições para descrever epistemologia em que o ser humano tem fielmente os desempenhos de seus alunos uma “predisposição” para pensar, agir e para e oportunizar situações que os levem a su- julgar com bases racionais, que durante perar os descompassos e as inconsistências muitos anos influenciou a prática escolar de que surgirem durante o processo de alfabe- toda a humanidade, o movimento de refle- tização. Nesta visão, o professor não está xão: prática-teoria-prática permitiu a toda a somente interessado no resultado que o comunidade educacional transcender e crer aluno apresenta, mas, principalmente, em na construção do conhecimento pelo pró- todo o processo que ele realiza até chegar à prio aluno. O que se propõe é a inter-relação aquisição da hipótese alfabética. de quem ensina e de quem aprende, ambos envolvidos, íntima e pessoalmente, ao que Para finalizar, considera-se que a concepção se está ensinando e estudando, mediados da gestão da inclusão no Ciclo da Alfabeti- pelo ato de conhecer que assume uma natu- zação leva em conta que todo conhecimen- reza provisória, já que não existe o princípio to adquirido na escola não é neutro, o que da certeza absoluta quanto ao conhecer. torna necessária a (re)significação das questões relativas à produção, à organização e à Para isso é necessária uma outra forma distribuição do conhecimento, implicando de conhecimento, um conhecimento 16 compreensivo e íntimo que não nos se- conhecimento racionalizante; transformar pare e antes nos una pessoalmente ao o indeterminado e o incerto, em lugar do que estudamos (SANTOS, 1999). determinado e causal. Morin concebe essa epistemologia como pertencente e relacio- Nossa visão epistemológica, além de contra- nada ao “pensamento complexo” e, portan- por os pilares modernos, extrapola-os e abre to, necessária ao projeto de educação do espaço para a historicidade, para o caos, futuro. Nessa perspectiva, de acordo com a para a diferença, para a pluralidade dos mo- assertiva a seguir, é que podemos dizer que dos de viver de diferentes grupos e culturas. nossa proposta está ancorada na realidade É a sapiência de conviver com a presença do nosso contexto educacional: de vários métodos sem a pretensão de que eles, por si só, darão conta da totalidade dos Uma tal necessidade só pode impor-se aspectos que constituem o conhecimento, progressivamente ao longo de um ca- mas com a convicção de que são meios e minho onde apareceriam em primeiro instrumentos relevantes para a garantia do lugar os limites, as insuficiências e as conhecimento. Se há uma pluralidade de co- carências do pensamento simplificador, nhecimento, não é mais possível e viável a depois as condições nas quais não pode- existência de um método único. Valoriza-se mos evitar o desafio do complexo. (...) uma aprendizagem significativa, identifican- Não se tratará de retomar a ambição do do os conhecimentos prévios, diferenciando pensamento simples, que era controlar e os conteúdos e os integrando em uma inten- dominar o real. Trata-se de exercer um ção pedagógica voltada para o crescimento pensamento capaz de tratar o real, de humano de todos e de cada um. dialogar e de negociar com ele (MORIN, 1995). Sendo assim, a Gestão da Inclusão para o processo de Alfabetização é organizada com base em um enfoque globalizante, aberto, FONTES DE PESQUISA dinâmico, em constante construção e trans- Orientações para a organização do Ciclo Inicial formação. Introduzimos e oportunizamos de Alfabetização. Centro de Alfabetização, uma nova maneira de pensar a alfabetização Leitura e Escrita. Belo Horizonte: Secreta- no Ciclo, inspirados na antropologia, que é ria de Estado de Educação de Minas Gerais, capaz de alterar percepções, visões de mun- 2005. do, valores, saberes; instaurar, em lugar da competitividade, a cooperação; colocar a Parecer CNE/CEB Nº04/2008. Orientações sabedoria intuitiva e cotidiana em lugar do sobre os três anos iniciais do Ensino Fun- 17 damental de nove anos. Brasília, DF: Minis- BRASIL Leis de Diretrizes e Bases da Educa- tério da Educação/ Secretaria de Educação ção Nacional: Lei n. 9.394/96. Brasília: MEC, Básica, 2008. 1996. Proposta Curricular Municipal do Ensino BECKER, Fernando. Modelos pedagógicos Fundamental dos Anos Iniciais. Miguel Pe- e modelos epistemológicos. In: SILVA, Luiz reira: Secretaria Municipal de Educação, Heron e outro (orgs.). Paixão de Aprender II. Cultura e Esporte, 2011. Petrópolis: Vozes, 1995. Gestão Curricular – fundamentos e práticas. CORRÊA, M. F. Como os adultos aprendem Lisboa: Ministério da Educação/Departa- a ler? Dissertação de Mestrado. Belo Hori- mento da Educação Básica, 1999. zonte: Instituto de Psicologia/Universidade Federal de Minas Gerais, 2009. UNESCO. Declaração de Salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas espe- DEMO, Pedro. Desafios modernos da educa- ciais. Brasília: CORDE, 1994. ção. 13ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes. 2004. MORIN, E. Articular os saberes. In: ALVES, N. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes e GARCIA R. L. (orgs.). O sentido da escola. necessários à prática educativa. São Paulo: Reencontro com Edgar Morin. Paz e Terra, 1996. MORIN, E. Por uma reforma do pensamento. In: PETRAGLIA, Izabel Cristina. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. Secretaria da Educação Especial. Documento Subsidiário à Política de Inclusão. Brasília, DF: MEC, 2005. GADOTTI, M. Pedagogia da Práxis. 4ª ed. São Paulo: Cortez / Instituto Paulo Freire, 2004. LIMA, Elvira de Souza. Currículo e desenvolvimento humano. In: MOREIRA, Antonio Flávio e ARROYO, Miguel. Indagações sobre currículo. Brasília: Departamento de Políticas Públicas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, nov. 2006. REFERÊNCIAS MEIRELES, E. de S. & Correa, J. Regras conARROYO, Miguel G. Administração da educação é um problema político. RBAE, Porto Alegre, 1(9): 122-8 jan. /jun. 1983. textuais e morfossintáticas na aquisição da ortografia da língua portuguesa por criança. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21(1), p. 77-84, 2005. 18 MORIN, Edgar. A educação e a complexidade fia e Ciências Sociais da Universidade Fede- do ser e do saber. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995; ral do Rio de Janeiro, de 04 a 06 de setembro Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2000. de 1995. Publicado na Oficina do CES – Centro de Estudos Sociais de Coimbra, Portugal, MOREIRA, Marco A. Mapas conceituais e 1999. aprendizagem significativa. O Ensino, Pontevedra, Espanha & Braga, Portugal, n. 23 a SOARES, Magda. Letramento e alfabetiza- 28, p. 87-95, 1988. ção: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, n. 25, p. 5-17, jan./fev./ SACRISTÁN, J. Gimeno e GÓMEZ, Pérez A. I. mar./abr. de 2004. Compreender e transformar o ensino. 4. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2005. SMITH, F. Psycholinguistics and Reading. London: Holt, Rinehart & Winston, 1973. SOUSA SANTOS, B. de. A construção multi- VAL, Maria G. C. O que é ser alfabetizado e letrado? In: Carvalho, Maria A. F. & Mendonça, Rosa H. (orgs.). Práticas de leitura e escrita. Brasília: Ministério da Educação, 2006. p. 13-17. cultural da igualdade e da diferença. Palestra proferida no VII Congresso Brasileiro de VÁZQUEZ, Sanchéz A. Filosofia da práxis. 2. Sociologia, realizado no Instituto de Filoso- ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1977. 19 Texto 2 Incluir ou integrar: a diversidade na educação Leandra Cadinha Deister1 A diversidade humana é indiscutível e a es- âmbito escolar para, numa visão holística, cola, apesar de ser um espaço sociocultural buscar garantir ao aluno as respostas que, com várias diferenças, nem sempre reconhe- individualmente, cada um deles necessita. ceu sua existência ou não a considerou totalmente em sua complexidade. Sempre foi e continua sendo um desafio possibilitar processos pedagógicos de qualidade para todos, a partir e para as diferenças. Então, o que de fato é a inclusão? Tantos conceitos, tantas leituras, tantas definições, mas a melhor explicação para o termo talvez seja aquela que vem do coração, ou seja, da sensibilidade de cada um em aceitar o próximo do jeito que ele é, respeitando-o em suas limitações, dificuldades, necessidades e aspirações. Logo, a inclusão deve estar voltada para a nossa capacidade de entender e perceber o outro, de compartilhar e, acima de tudo, de compreender e aceitar as diferenças existentes entre todos os indivíduos, pois não somos iguais. Torna-se imperativo desconstruir antigas práticas sociais, valores, concepções e crenças que acentuavam a discriminação no Podemos designar o termo “inclusão” com o sentido de “estar com”. Diante dessa perspectiva, a educação inclusiva deve ser aquela em que todas as pessoas são acolhidas, sem exceção, sem discriminação, valorizando um novo modelo de atuação dos sujeitos em suas interações com o mundo. Para a educadora Maria Teresa Eglér Mantoan, a “Inclusão é o privilégio de conviver com as diferenças”. Sendo assim, a ideia fundamental da inclusão deve ser a adaptação do sistema escolar às necessidades dos alunos e não a tentativa de tornar os alunos iguais para o sistema. Ou seja, a inclusão propõe um único sistema educacional de qualidade para todos os alunos, com ou sem deficiência, com ou sem dificuldade de aprendizagem. Uma escola inclusiva necessita promover o desenvolvimento dos seus 1 Mestranda em Educação pela Universidade Del Salvador, Buenos Aires, Argentina; Pós-graduada em Psicopedagogia, pela Universidade Severino Sombra; Pedagoga pela Universidade Veiga de Almeida; Setor de Inspeção Escolar da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte de Miguel Pereira. 20 alunos, independentemente de suas limita- conduzem à compreensão do que vem a ser ções. Dessa forma, o currículo precisa ser re- a verdadeira inclusão na sala de aula, me- pensado, reavaliado e desenvolvido de modo diante a diversidade. Essa nova visão do aco- que não prestigie minorias nas unidades lhimento num contexto inclusivo serve de escolares. As propostas curriculares devem aprendizado significativo para todos os en- visar ao atendimento das individualidades volvidos no processo ensino-aprendizagem, de cada educando, viabilizando a progres- pois a convivência das crianças que mani- são de habilidades e aptidões para que não festam dificuldades com aquelas que não mais ocorra a segregação e a discriminação apresentam gera a conscientização de que na trajetória escolar, uma vez que o próprio todos nós somos diferentes e, assim, ressal- vocábulo ta que cada um apre- “inclusi- vo” já traz implícita a concepção de exclusão, pois só se inclui alguém que já foi excluído. Então, ao se falar sobre inclusão escolar, faz-se necessário o repensar constante sobre o sentido que se dá à educação inclusiva, conforme as solicitações urgen- Os sistemas educacionais precisam avaliar suas posturas e viabilizar mudanças de paradigma que proporcionem ao aprendiz tornar-se o centro do processo educacional, considerandose todas as suas capacidades, habilidades e potencialidades. senta uma maneira e um tempo para aprender. Conclui-se, então, que a individualidade e a subjetividade tornam cada 21 ser único. Os sistemas cacionais edu- precisam avaliar suas posturas e viabilizar mudanças de paradigma tes da sociedade em que proporcionem que estamos inseri- ao aprendiz tornar- dos. Diante do exposto, considera-se que a se o centro do processo educacional, con- adaptação curricular para a eficácia de um siderando-se todas as suas capacidades, trabalho pedagógico inclusivo necessita ser habilidades e potencialidades. Diante das diversificada para contribuir com o desen- demandas atuais, aponta-se a qualificação volvimento de todos os envolvidos: alunos, da equipe escolar como um aspecto impor- professores, pais, diretores, instituição. tantíssimo e fundamental para a garantia de transformação que a escola necessita, a fim A atualização de concepções e a ressignifica- de atender a todos de forma igualitária. Vale ção do processo de construção do indivíduo salientar que a liderança do gestor também influencia na construção da escola numa criança de fato se sinta incluída. Então, res- concepção inclusiva. salta-se a necessidade de o docente utilizar práticas flexíveis e recursos didáticos que A concepção da inclusão vem, ao longo dos possibilitem um aprendizado significativo anos, buscar a não exclusão escolar e pro- para todos os alunos, pois tanto aquelas por ações que garantam o acesso e a perma- com necessidades especiais quanto as que nência do aluno com deficiência no ensino são ditas “normais” passam pelas mesmas regular. No entanto, o paradigma da segre- fases de aprendizagem, principalmente em gação ainda é forte e enraizado nas escolas. relação à escrita e à leitura. Algumas demo- Estas, com todas as dificuldades e desafios ram um pouco mais para a consolidação que enfrentam, acabam por reforçar o dese- de conceitos e conteúdos, exigindo, dessa jo de manter alunos com dificuldades e/ou forma, mais esforço e dedicação do profis- necessidades especiais em espaços especia- sional da educação. O ritmo de assimilação lizados. Mas incluir é possibilitar a todos os e de aprendizagem varia de criança para alunos, com ou sem dificuldades, o acesso à criança, e deve ser respeitado, portanto, o aprendizagem. Quanto mais apoio o aluno docente precisa levar o aluno a evoluir sem- receber de seu professor e de outros agentes pre dentro de suas capacidades e não deixar escolares, maior será a chance de sucesso que ele fique à margem esperando amadu- na aprendizagem. recimento. A educação inclusiva possibilita aos que são Nossa sociedade está organizada de maneira discriminados pela classe social, pela cor, que o acesso aos serviços é sempre dificul- pelo credo ou pela deficiência o direito de tado. Não existe inclusão se a sociedade se ocupar o seu espaço na sociedade. E ter um sente no direito de escolher quais deficien- lugar no mundo significa reconhecer o lugar tes podem ou não ter acesso a determina- do outro. dos serviços. O grande diferencial no atendimento deve ser o ouvir. As pessoas precisam É preciso que fique bem clara a diferença falar por si mesmas, pois só elas sabem de entre integração e inclusão, pois são termos suas necessidades. A partir daí, os sistemas com significações distintas. Em relação devem desenvolver ações que modifiquem e à integração é o próprio aluno quem deve orientem as formas de se pensar a integra- se adaptar aos espaços que o circundam, ção e a inclusão. procurando se integrar às circunstâncias da vida. Na inclusão, deve haver um apara- A escola ainda se caracteriza pela visão da to, um acolhimento dirigido para que essa educação que delimita a escolarização como 22 privilégio de poucos, legitimando um pro- de conhecimento, de experiências formais e cesso de exclusão através de suas políticas e não formais e, sobretudo, de vida. A educa- práticas educacionais que reproduzem uma ção deve ter um caráter abrangente, favo- ordem social. E isso precisa mudar. recendo os alunos, independentemente de suas dificuldades. Isso exige mudança de A integração se dá quando o professor ela- postura e, principalmente, de concepção. bora um projeto educacional para cada alu- Para que a inclusão seja uma realidade, é no deficiente, ou seja, elabora um planeja- necessário incorporá-la totalmente. As es- mento que possibilite a integração de todos colas necessitam criar diferentes estraté- os alunos, de acordo com as necessidades gias, medidas preventivas que possibilitem e peculiaridades de cada grupo e de cada a melhora do comportamento, da interação criança. A escola toda precisa ser prepara- social e a aprendizagem como um todo. da e viver essa inclusão e essa integração e, para isso, é necessária a maturidade de todo É imprescindível focar na formação profis- o grupo, além de formação permanente de sional do professor para que ele busque se todos os envolvidos no processo de aprendi- aprofundar nas discussões teóricas e práti- zagem. Dessa forma, os estudos suscitarão cas. Torna-se essencial que os professores se vários questionamentos às equipes peda- apropriem de uma fundamentação teórica gógicas, tornando-se necessária, também, sólida para posterior transposição para a uma avaliação da realidade e da demanda a prática pedagógica, pela interação teórica ser trabalhada. e prática capaz de viabilizar o atendimento eficaz das necessidades de seus alunos. Aliada a esse contexto escolar, encontra- Assim, será possível proporcionar subsídios se também a dificuldade do ponto de vista significativos à sua ação pedagógica, com econômico, principalmente nos pequenos vistas à melhoria do processo ensino-apren- municípios. Os entraves na formação das dizagem. É importante que a escola asses- equipes, as adaptações dos transportes e sore o professor para a resolução de proble- escolas, a ideia de que essas pessoas são mas no cotidiano na sala de aula, de forma improdutivas dificultam a entrada para a que este se sinta seguro e capaz de criar al- escola e a inserção no mercado de trabalho. ternativas que possam beneficiar a todos os alunos com os quais trabalha. É necessário Por isso, as mudanças e as iniciativas, por utilizar currículos e metodologias flexíveis, mais simples que sejam, são fundamentais levando em conta a singularidade de cada para o processo de inclusão. E a escola deve aluno, respeitando seus interesses, suas ser vista como espaço de construção e troca ideias e desafios para novas situações. E, 23 também, investir na proposta de diversifica- REFERÊNCIAS ção de conteúdos e práticas que possam melhorar as relações entre professor e alunos, além de saber avaliar de forma continuada e permanente, dando ênfase na qualidade do conhecimento e não na quantidade, oportunizando o desenvolvimento da criatividade e a valorização da cooperação e da participação. Ministério de Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial. Brasília, DF: MEC – SEEDSP, 1994. MONTOAM, Maria Tereza Eglér e colaboradores. Integração de pessoas com deficiência. Editora Memnon edições científicas Ltda., 1997. A possibilidade de aprender a ler e a escrever Ministério da Justiça. Declaração de Sala- representa uma conquista para qualquer ser manca e linha de ação sobre necessidades humano. Sabendo-se que a inclusão é um di- educativas especiais. Brasília, DF: Corde, reito, ressalta-se que o professor, ao alfabe- 1997. tizar letrando numa alfabetização inclusiva, necessita oferecer diferentes materiais. As- Congresso Nacional. Lei de Diretrizes e Ba- sim, ao alfabetizar, o professor precisa refle- ses da Educação Nacional, 1996. 24 tir, discutir e pensar numa possibilidade de alfabetização para todos. Congresso Nacional. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado É importante a valorização maior das metas e não dos obstáculos encontrados pelo caminho, priorizando as questões pedagógicas e não apenas a questão biológica, com a expectativa de que tudo será resolvido pela saúde. Federal, 1988. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CNB n.2 de 11 de setembro de 2001. Brasília, DF. FIGUEIRA, E. A Imagem do Portador de Deficiência Mental na Sociedade e nos Meios de Pode-se concluir que para o processo de in- Comunicação. Ministério da Educação - Se- clusão escolar ser satisfatório e atender à cretaria de Educação Especial. diversidade é preciso que haja uma transformação no sistema de ensino, com o pro- Poso, Juan Ignácio. Aprendizes e mestres: a pósito de beneficiar toda e qualquer pessoa, nova cultura da aprendizagem. Trad. Emani levando em conta a especificidade do sujeito Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2002. e não mais as suas deficiências e limitações. Texto 3 Gestão compartilhada em educação: uma prática necessária Euzinéa Miranda de Oliveira Bernardo1 Cadáver bem vivo Robert Dilts conta a história de um homem que acreditava ser um cadáver. Seu psiquiatra, em um esforço de provar sua crença equivocada, perguntou se cadáveres sangram. O homem disse, “Não, não sangram”. O homem então concordou com um experimento, e o bom doutor espetou seu dedo com uma agulha. O homem olhou para seu dedo sangrando e disse: “Eu estava errado, cadáveres sangram” (Will McDonald & Richard Bandler)2. 25 Dialogar gestão: uma discussão pedagógica sentidos e significados que liga e reúne, ao envolvente para educadores reflexivos, que invés de separar e dividir, portanto, o diálo- se propõem a analisar criticamente o desen- go não é um instrumento que busca levar as volvimento educacional na atualidade, utili- pessoas a defender e manter suas posições, zando-se de estudos voltados para pesquisa como acontece na discussão e no debate, investigativa. Trata-se de assunto polêmico ao contrário, sua prática está voltada para e intrigante, mas muito mais instigante e estabelecer e fortalecer vínculos e ligações necessário para o cotidiano escolar, tendo e para a formação de redes. Daí o nome de em vista a necessidade de se alinhar com a “redes de conversação”, propostas para as evolução dos recursos humanos. experiências de reflexão conjunta, geração de ideias, educação mútua e produção com- No seu sentido etimológico, a palavra “diá- partilhada de significados. logo” representa um movimento circular de 1 Pedagoga; Pós-graduada em Psicopedagogia; Doutoranda em Humanidades e Artes com menção em Ciências da Educação, oferecido pela UNR - Universidad Nacional de Rosario, Argentina, em parceria com a Progredir Projetos Educacionais. Participou na elaboração da Proposta Curricular Preliminar do município de Miguel Pereira, Rio de Janeiro, onde é professora da Sala de Recursos. 2 No livro An Insider’s Guide to Submodalities. Tradução: Virgílio Vasconcelos Vilela. A proposta deste texto, em forma de diálo- acontece, de que forma favorece o ambien- go, é a de oportunizar possibilidades para te de aprendizagem) é um estudo de funda- a construção de uma nova concepção de mental relevância para quem deseja experi- gestão com ênfase na diversidade. Rever mentar e arriscar “mudar suas concepções”. conceitos e valores é o primeiro passo para viver essa mudança paradigmática, confor- Longa é a trajetória de luta dos educadores me dito, ainda que de maneira implícita, no a favor deste novo fazer pedagógico, que se texto de Will McDonald e Richard Bandler. consolidou com a democratização da sociedade e a ampliação/fortalecimento dos É, sem dúvida, um ato de coragem e de pos- movimentos sociais de forma reorganizada sível internalização, quando abordado com (final da década de 1970 e início dos anos ‘adultez’ e ‘madurez’. É ainda, um exercício 1980). “desafiador” e urgente em face das múltiplas complexidades de uma sociedade tão Até este período histórico, a concepção de diversa que é a que compõe a natureza hu- gestão escolar se pautava num modelo clás- mana. sico de “administração” empresarial, concebido como processo meramente técnico, de- Numa certa feita, li uma frase que dizia que terminado e burocrático. A aceitação deste “a gente muda quando a dor de não mudar modelo de gestão parecia unânime. O lema fica maior que a dor de mudar” e resolvi, do “fazer” se consolidava nos sistemas edu- então, transladá-la, pensando em educação. cativos em detrimento ao “ser”. Produtivi- Foi assim que percebi que a “dor da mudan- dade, valorização da economia do tempo e ça” é uma “dor de crescimento” capaz de dos recursos faziam parte deste pacote. promover possibilidades do “ser” se lançar para viver a mágica da transformação, em Tal concepção foi sustentada pela adoção que o conhecimento se concretiza através e aplicação de normas extremamente rígi- da busca pela identidade educativa. das, onde a postura do gestor tinha de ser autoritária, centralizadora, hierarquizada, Concepções de gestão: modelo tradicional versus modelo atual impositiva e com uma relação de estrutura completamente vertical. Esta “concepção de administração” de prática controladora era tida como racional e Conhecer um pouco da história da educa- necessária para se alcançar os resultados ção (origem da gestão, como acontecia e/ou esperados. Para tanto, funções eram exerci- 26 das de forma linear, fragmentada e rotinei- no contexto educacional brasileiro quanto ra, com ênfase na competitividade e indivi- no latino-americano. Sua origem vem da dualização do saber. Tal práxis ainda se faz Grécia Antiga (demo = povo e kracia = go- presente em alguns Sistemas Educacionais, verno), que, num sentido genérico ou glo- e pode ser bem exemplificada quando vimos bal, significa “governo do povo, pelo povo o “foco” das ações coletivas em detrimento e para o povo”. Foi a partir do processo de das individuais. redemocratização política do país e do fim da ditadura militar que novas abordagens Para nossa alegria, fatos e fenômenos deixa- administrativas, com enfoques mais des- ram de expressar toda a riqueza de sua re- centralizados e participativos, influencia- presentatividade com o passar dos tempos, ram os debates educacionais. Neste pro- sinal das primeiras mudanças significativas cesso de democratização, destacaram-se as para a diversidade, não só em se tratando de eleições diretas para os cargos executivos, linguística, mas também de cultura da evo- incluindo-se a Presidência da República. lução humana. Desencadeiam-se, também, as primeiras manifestações para eleições diretas dos diri- Eis que surge, então, o termo “gestão”, que gentes de instituições de ensino eleitos pela traz consigo não apenas uma substituição comunidade. Despontava, neste momento, de cunho terminológico, mas conceitual e o movimento para “democratizar a gestão paradigmático. A primeira e a mais simples na escola”, através de discursos favoráveis é aquela que faz a transposição do conceito à luta contra a intolerância e o autoritaris- do campo empresarial para o campo educa- mo, buscando a participação, o diálogo e a cional (a fim de submeter a administração construção de novas formas de se fazer ou- da educação à lógica de mercado). A segun- vir. Esta mudança de paradigma aponta para da aborda um novo conceito de gestão, que uma ótica globalizadora, dinâmica, interati- ultrapassa este que era voltado para a admi- va, problematizadora, horizontal, complexa, nistração com o envolvimento e a partici- com objetivos comuns e corresponsabilida- pação da comunidade nas decisões tomadas de com os resultados alcançados. na escola (LUCK, 2000). Neste momento, o “encontro” com a Gestão Compartilhada, Na Gestão Compartilhada, a prática peda- ou Gestão Democrática, é experimentado e gógica está associada à participação dos consolidado. professores e pais nas decisões a respeito do processo educativo, que abrange composi- A palavra democracia tem sido uma das ção de instâncias colegiadas (conselhos es- mais pronunciadas nos dias atuais, tanto colares, grêmios estudantis). É uma gestão 27 a favor das eleições para os cargos adminis- tuição Federal, 1988) fez com que a gestão trativos, com introdução de mecanismos compartilhada se consagrasse componente que favoreçam a eliminação da burocracia e democrático no Sistema Educacional Brasi- a flexibilização normativa e organizacional leiro e as mudanças paradigmáticas que en- do sistema. Não se trata apenas da mudan- volvem a gestão nos impulsionaram a viver ça da prática, mas sim da mudança de con- um “renovo”: torna-se inevitável não aten- cepção da ótica fragmentada para a ótica de tar para “diversidade” e/ou “para além da conjunto; da limitação de responsabilidade diversidade”. para sua expansão; da centralização da autoridade para sua descentralização; da ação Características individuais e de grupos so- episódica por eventos para o processo dinâ- ciais são ultrapassadas. O foco passa a ser mico, contínuo e global; da burocratização e a “gestão para valorização das diferenças”. Trabalhar a diversi- hierarquização para a coordenação e horizontalização; da ação individual para a coletiva. A favor da gestão para diversidade A reflexão coletiva sobre a prática cotidiana, exercício necessário a todo bom educador, talvez seja a condição primeira para gestar a diversidade. dade é viver a inteireza de uma relação de interdependência que transcende o corpo e alcança a alma numa magnífica entrega do “fazer” para que o outro “seja”. O desafio da diversidade permeia as discusNão há receita já pronta para servir em sões educacionais/pedagógicas, portanto, todas as “deve” fazer parte da pauta dos Encontros circunstâncias, mas existem ideias, de Formação Continuada articulados pela experiências e equipe diretiva, a saber, pelo gestor educa- inovações que podem ser utilizadas cional. com a condição de que aprendamos a escutar e a refletir juntos Para se desvendar os segredos de uma ges- (Koïchiro Matsuura, Diretor-Geral, tão para diversidade é necessário se consi- UNESCO). derar alguns princípios norteadores, tendo em vista que não se dorme “administrador” A legitimação da UNIVERSALIZAÇÃO DO EN- e se acorda “gestor para diversidade” como SINO DE QUALIDADE PARA TODOS (Consti- num toque de mágica. 28 A reflexão coletiva sobre a prática cotidiana, construção de um Projeto Político Pedagógi- exercício necessário a todo bom educador, co rumo à diversidade. Um projeto que seja talvez seja a condição primeira para gestar claro tanto para as escolas quanto para as a diversidade. secretarias de educação. Um projeto com identidade e com a astúcia de uma águia Parafraseando Isaac Newton, ao dizer que que mira sua presa, não abrindo mão dela. para toda ação há sempre uma reação opos- Assim, o gestor mira seus objetivos (a cur- ta e de igual intensidade, as nossas ações to, médio ou longo prazo) e não abre mão resultam em efeitos impactantes para as deles. pessoas que nos cercam. E todo gestor que se propõe a trabalhar “com” e “para” a di- A experiência com a diversidade faz parte versidade precisa atentar para esse fato. Isto do processo de socialização, humanização significa entender a flexibilidade como outra e desumanização presente na produção de condição indispensável para garantir seu saberes, práticas, valores, linguagens, repre- trabalho. sentações de mundo... Trata-se de uma relação estreita entre OLHAR e TRATO PEDAGÓ- Promover espaços para discussões coletivas, GICO, contrária, portanto, à concepção de tendo a participação da comunidade escolar educação etnocêntrica. Elvira de Souza Lima com “voz e vez”, é também tarefa a ser arti- (2006, p. 17) escreve assim: culada pelo gestor. (...) a diversidade é norma da espécie huCompete ao gestor compreender e fazer a mana: seres humanos são diversos em escola compreender a sua função social. suas experiências culturais, são únicos Além de pensar, é preciso fazer a escola em suas personalidades e são também pensar numa Educação para transformação diversos em suas formas de perceber e pleno desenvolvimento dos indivíduos. Em o mundo. Seres humanos apresentam, suma, o céu é o limite para o gestor que res- ainda, diversidade biológica. Algumas pira a diversidade. dessas diversidades provocam impedimentos de natureza distinta no processo desenvolvimento das pessoas (as comumente chamadas de “portadoras de ne- O agregamento desses valores no corpo da cessidades especiais”). Como toda forma escola (administrativo, técnico, pedagógi- de diversidade é hoje recebida na escola, co e comunidade) passa a ser a “senha”, o demanda óbvia, por um currículo que “mapa do tesouro”, o estar “pronto” para atenda a essa universalidade. 29 O trabalho com a diversidade faz mudar o diversidade. Vieira (2002) transferiu de for- olhar. Ele fica “vibrante”, “contagiante”, ma grandiosa a responsabilidade dos pilares “encorajador”, “ousado”. Faz gerar a tercei- da educação ao sistema de gestão da escola, ra visão – uma espécie de “chacra frontal” ou seja, aprender a conhecer, aprender a fazer, – que nos permite “enxergar” o que parecia aprender a conviver e aprender a ser (UNESCO obscuro, focando na “essência do outro”. 1999) não é função apenas dos sistemas educacionais, mas competência a ser conquista- A capacidade de pensar um planejamento da pelo gestor educacional. para diversidade exige saber que a evolução e a transmissão dos conhecimentos se pro- 1. Aprender a conhecer o mundo contem- pagam velozmente e que a formação do pro- porâneo e relacioná-lo com as deman- fessor não dá conta dessa demanda, caben- das de cada escola (sua clientela – seus do assim ao gestor investigativo possibilitar sonhos, suas necessidades, seus direi- a construção de um currículo renovador e tos – seus profissionais, sua vizinhan- atento à diversidade. ça, suas condições etc.); Pimenta (2002) afirma que a formação inicial, 2. Aprender a planejar e fazer (construir, por melhor que seja, não dá conta de colo- realizar) a escola que se quer (o seu car os profissionais da educação à altura des- projeto pedagógico); ta responsabilidade. Desta forma, evidencia uma das competências descritas por Perre- 3. Aprender a conviver com tantas dife- noud (2000), que é a de o docente adminis- rentes pessoas, definindo e partilhan- trar sua própria formação contínua. Não te- do com elas o projeto da escola; mos aqui a intenção de aprofundar o debate a respeito dos conceitos de “competência” e 4. Aprender a utilizar, sem medos, as pró- “habilidade”, mas ressaltamos ser esta uma prias potencialidades de crescimento tarefa relevante para o gestor educacional. e formação contínua. No livro Gestão da Escola, Desafios a Enfren- Vasconcelos (1995) confirma essa hipótese, tar, Vieira (2002) aborda a educação contem- quando diz que o planejamento é o proces- porânea e os aspectos que influenciaram so de tomada de decisões sobre a dinâmica esse sistema. Dos fatores destacados, um é da ação escolar e que é uma previsão siste- bastante pertinente para a reflexão de que a mática e ordenada de toda a vida escolar do escola por si só não garante os desafios para aluno. 30 A perspectiva de uma prática que envolve um ambiente de estudo e de formação que singularidades e aspectos culturais/sociais fortaleça as relações de “empatia” no grupo. do meio dependerá do “olhar” do gestor. Estamos à procura de um gestor que tenha consciência de que a escola acolhedora é Para Sacristan (2000), planejar é ir além de aquela que se compromete com “o outro”, atender os objetivos e conteúdos do currículo, tornando a escola aberta, viva, que compar- tornando assim o contexto de sala de aula tilha um currículo construído para além dos um ambiente em que a aprendizagem ocor- muros escolares: para a diversidade. ra de acordo com os ideais da realidade. Nesta perspectiva, torna-se essencial que o gestor esteja envolvido pela diversidade para Referências construir um projeto pedagógico que valori- ARROYO, Miguel G. Administração da edu- ze as diferenças e especificidades do seu sis- cação é um problema político. RBAE, Porto tema educativo, operacionalizados através Alegre, 1(9): 122-8 jan. /jun. 1983. da criação de projetos. BRASIL, Secretaria de Educação FundamenO trabalho por projetos traz, na sua essên- tal. Parâmetros Curriculares Nacionais. Plu- cia, uma dinâmica de prática educacional ralidade cultural, orientação sexual. Secreta- associada a propostas de reformas na esco- ria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/ la brasileira que favorece as mudanças nas SEF, 1997. concepções de ensino-aprendizagem e no fazer pedagógico. Repensar a práxis coletivamente é atender à demanda da diversidade. É buscar uma BRASIL. Constituição Federal de 1988. ______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira. Lei nº 9.394/96. pedagogia de acolhimento onde TODOS pos- CAVALCANTE, Meire. Como criar uma esco- sam se desenvolver não só intelectualmente, la acolhedora. In: Nova Escola, mar. (ed. 180) mas também enquanto pessoas humanas. São Paulo, Abril, 2005. Ao gestor, cabe realizar seu trabalho pau- FREIRE, Paulo. A escola. Instituto Paulo Frei- tado numa gestão democrática, com olhar re: www.paulofreire.org voltado para todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem; cabe direcionar GADOTTI, Moacir e ROMÃO, José Eustáquio o trabalho de forma integrada, objetivando (orgs.). Autonomia da escola: princípios e a transformação da escola; cabe propiciar propostas. 5 ed. São Paulo: Cortez, Instituto 31 Paulo Freire, 2002 (Guia da Escola Cidadã). para educadores. Porto Alegre: Artes Médicas LÔBO, Yolanda L. Administração escolar: li- Sul, 1999. ções anisianas. Rio de Janeiro, 1999. SILVA, Claudia Lopes da. O papel do diretor ZUNG, Acácia K. A. A teoria da administra- escolar na implantação de uma cultura educa- ção educacional: ciência e ideologia. Cader- cional inclusiva a partir de um enfoque sócio- nos de pesquisa, São Paulo, (48): 39-46, fev. histórico. São Paulo, 2006. 1984. UNESCO. A Organização das Nações Unidas LÜCK, Heloísa. Ação integrada: administra- para a Educação, a Ciência e a Cultura www. ção, supervisão e orientação educacional. 23 unesco.org.br, 1999. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. UNESCO. Declaração de Salamanca e EnquaSACRISTAN, Gimeno. O Currículo, uma refle- dramento da Ação na Área das Necessidades xão sobre a prática. Porto Alegre: Editora Art- Educativas Especiais. Ministério da Educa- med, 2000. ção e Ciência de Espanha: Salamanca, Espanha, 1994. SAGE, D. D. Estratégias administrativas para 32 a realização do ensino inclusivo. In: SATAIN- VIEIRA, Sofia Lerche. Gestão Escolar, desafios BACK, S.; SATAINBACK, W. Inclusão: um guia a enfrentar. 2002. Presidência da República Ministério da Educação Secretaria de Educação Básica TV ESCOLA/ SALTO PARA O FUTURO Supervisão Pedagógica Rosa Helena Mendonça Acompanhamento pedagógico Soraia Bruno Coordenação de Utilização e Avaliação Mônica Mufarrej Fernanda Braga Copidesque e Revisão Magda Frediani Martins Diagramação e Editoração Equipe do Núcleo de Produção Gráfica de Mídia Impressa – TV Brasil Gerência de Criação e Produção de Arte Consultora especialmente convidada Riva Cusnir Valansi E-mail: [email protected] Home page: www.tvbrasil.org.br/salto Rua da Relação, 18, 4o andar – Centro. CEP: 20231-110 – Rio de Janeiro (RJ) Maio 2013 33