Fernando Rocha (segunda parte)
5. Que relação tu pensas que devem guardar entre si os fundamentos
freudianos com os achados das correntes pós-freudianas? Como achas
que devem ser ordenados esses distintos campos da teoria na
transmissão que se dá durante a formação analítica?
Fernando Rocha:
Na experiência de sua análise pessoal, o candidato a analista irá ter a
experiência dos conceitos desenvolvidos pela psicanálise a partir de Freud,
numa “psicanálise em ato”. Assim, acredito que seja sobretudo na análise
pessoal que se dá a experiência da transmissão da psicanálise.
A elaboração curricular, por sua vez, deverá manter a intenção de
ordenar aquilo que foi vivenciado na experiência viva da análise, através do
estudo teórico desses conceitos
fundamentais, a partir do estudo da obra
freudiana tais como: o inconsciente, a repetição, o recalque, a resistência, a
sexualidade, a pulsão, o narcisismo, o complexo de Édipo, transferência, entre
outros. A partir daí, o currículo institucional deverá propiciar aberturas para o
estudo das contribuições dos pós-freudianos, promovendo a pluralidade
teórica, assim como também o estudo das intersecções da psicanálise com os
demais saberes.
Como ser psicanalista não é uma questão de titulação, devemos marcar
a diferença entre uma Instituição de Formação de Psicanalistas e a Psicanálise
na Universidade. Uma Instituição de Formação tem que incluir em sua proposta
curricular a multiplicidade de percursos próprios a uma formação individual e,
portanto, diferenciada. Assim, tem que valorizar no seu projeto não a
transmissão académica dos princípios e conceitos psicanalíticos (isso cabe à
Universidade), mas a descoberta individual do inconsciente, a partir de um
percurso próprio e singular.
Portanto, a Clínica Psicanalítica poderá ser compreendida como um
lugar a partir do qual se interrogue – e daí advenha – o psicanalista e sua
formação, pensada como permanente.
6. Que papel tu atribuis à produção escrita na formação analítica?
Fernando Rocha:
Irei me limitar aqui, mais propriamente, à escrita da experiência clínica
que envolve a questão dos relatórios clínicos.
Quando se diz que o relato clínico é uma “tarefa impossível”, é no sentido
de que nele tentamos comunicar uma história de transferências, que é um
fenômeno inconsciente, logo, algo que é da ordem do processo primário. Esse
comunicar, no entanto, somente torna-se possível a partir de uma linguagem
simbólica, cuja expressão exige o processo secundário. Assim, o relato escrito
de uma experiência clínica psicanalítica pode ser entendido como um tipo de
criação reveladora de uma tentativa de
travessia de um caminho que,
perpassando a experiência do inconsciente – expressa na cena analítica por
intermédio da transferência / contratransferência –, chega ao escrito.
Tal aproximação, no entanto, não se faz alcançável na experiência
psicanalítica, pois se nela há um objeto – o inconsciente –, esta experiência é
da ordem da singularidade, constituindo-se em cada sujeito como uma
“viagem” única e imprevisível. Viagem, que como escreveu J. B. Pontalis é
“comparável a navegar à bússola: é somente a posteriori que se estabelecem
os mapas e os levantamentos. Mas estes são indispensáveis à elaboração de
uma experiência, de outra maneira não governável”.1[1][7]
Escrever, é então, tentativa de reinserção na ordem simbólica, já que a
transferência do vivido ao escrito não é um decalque de um dado.
Se as regras que organizam o campo psicanalítico voltam-se para que o
fenômeno da transferência e contratransferência possa se instaurar, como
relatar vivências que são da ordem do inconsciente?
Somos obrigados a
aceitar que a “transferência não se relata, não se escreve, nem se traduz; ela
não é um texto: daí a insuficiência básica de todo resumo de análise tome ou
não
a
forma
narrativa,
seja
história
de
caso
ou
disposição
fragmentos2[2][8]”.
1[1][7] J.B. Pontalis, Après Freud. Coll. “Idées”. Paris, Gallimard, 1968. 2[2][8] Entrevista com J. B. Pontalis, realizada por Marcelo Marques. Jornal de Psicanálise. Instituto de Psicanálise da SBPSP. Vol. 35. N 64/65, 2002, pg. 41 de
Concordamos com Viderman3[3][9], que considera o processo analítico
como uma possibilidade de inscrição pelo paciente de sua história, inscrição
esta que implicaria não uma história contada, (aquela que o paciente nos traz –
seu romance familiar), mas uma história construída em sua análise. Assim,
não é o passado que o paciente vai evocar através de todos os meios de
distorção que as defesas lhe impõem, mas seu próprio passado. E essa
passagem do definido para o possessivo marca a passagem da história à
construção mítica; de uma história objetiva irrecuperável à história imaginária.
Seria pertinente, então, nomearmos relatório clínico aquilo que, dos
aspectos da experiência analítica, tornaram-se conscientes, o que possibilita
inferir que haja uma escolha do analista que, entre os vários aspectos
possíveis de serem relatados, escolhe apenas alguns e não outros. Portanto, o
relatório clínico é o momento de revelação de uma escolha deliberada do que
está escrito, traduzindo a possível implicação tanto teórica quanto subjetiva do
analista.
Escrever a experiência clínica psicanalítica seria, assim, impossível,
embora possamos escrever sobre uma experiência clínica. Podemos arriscar
dizendo que tal escrita – por pressupor uma escolha – constitui-se também
num momento de discriminação do analista, no qual ele, tomando distância da
situação clínica, pode melhor elaborá-la. Assim, o momento de escrever a
clínica é um momento de “descolamento”, de recuperação de seu próprio
nome, já que o analista esteve imerso nos movimentos transferenciais.
Podemos dizer, então, que o lugar de analista pressupõe uma
capacidade de identificação e de desidentificação constantes; capacidade de
deixar-se invadir, habitar pela transferência do paciente, podendo dela
discriminar-se. A impossibilidade de operar tal separação é reveladora de que
cabe ao analista interrogar-se sobre seus impedimentos.
Além disso, a produção escrita estando necessariamente submetida à
língua, revela-se insuficiente quando pretendemos expressar o oceano de
idéias que em nós habita. O confronto com essa impossibilidade conduz a uma
vivência de angústia que, se não for englobada como parte do processo de
produção criativa, levará à paralisia do próprio ato de escrever. Se todo ato
3[3][9] S. Viderman. La Construction de L´Espace Analytique. Éditions Denöel, Paris, 1970. criativo produz tensão, na produção escrita essa tensão vincula-se, em parte,
ao anseio de controlar o eventual leitor, na busca do impossível: fazê-lo ler
exatamente o que supomos ter escrito. Toda produção escrita nos conduz ao
confronto com os limites próprios dos códigos que permitem expressar uma
idéia. Esses limites nos levam, necessariamente, a uma vivência na qual
somos obrigados a fazer escolhas. Escolhas que implicam perdas.
Se não podemos esquecer das perdas, não podemos também negar que
a escrita, além de propiciar a discriminação do analista, pode conduzir ao
pensar sobre si mesmo e à reflexão teórica.
7. Acreditas que os Institutos deveriam estimular a investigação durante a
formação? Se fosse assim, qual a maneira que consideras mais
adequada para realizar isso? Crês que deveriam existir políticas
institucionais nas Sociedades formadoras – inclusive ao nível de obter
subsídios – nesse sentido?
Fernando Rocha:
Penso que a investigação psicanalítica, por excelência, é o próprio
trabalho clínico de investigação do inconsciente. Como aponta Freud, "Na
psicanálise tem existido desde o início um laço inseparável entre cura e
pesquisa" (....). "O conhecimento trouxe êxito terapêutico", mas (....) "é
somente pela execução do nosso trabalho analítico que podemos aprofundar
nossa compreensão [sobre] o que desponta da mente humana..." (Freud,
1927). Na medida em que a clínica se comprometa com a transmissão da
psicanálise, espera-se um compromisso que, através de apresentações, uma
circulação das experiências obtidas nos atendimentos da clínica produza
efeitos de pesquisa.
Acho importante que se organizem os mais diversos grupos de
pesquisa, sejam
sobre determinadas organizações psíquicas, tais como o
trabalho com a psicose, a questão da psicossomática, a relação pais-bebê,
sejam sobre o aprofundamento dos conceitos psicanalíticos, além de trocas
com outros saberes.
8. Acreditas que a psicanálise deva ter algum tipo de inserção cultural – as
chamadas interfaces como, por exemplo, a história, filosofia, música,
arte, política, literatura – nas quais a psicanálise realiza intercurso
científico com outras áreas do saber? Como pensas que deve ser essa
relação?
Fernando Rocha:
Não tenho dúvida quanto a importância da inserção cultural da
Psicanálise. Se o objeto da psicanálise é o inconsciente, não podemos ignorar
que o homem está inserido numa cultura.
Podemos observar que a descoberta freudiana está impregnada pelo
interesse de Freud nas mais variadas áreas do saber, tais como a filosofia, a
mitologia, a literatura, a história, as artes, entre outras, interesse este que
muito contribuiu e enriqueceu seu pensamento. Ele foi leitor interessado de
Sófocles, Shakespeare, Goethe, Dostoievsky, e tantos outros. A escritora Lílian
Fontes nos lembra que a psicanálise se serve da literatura e a literatura da
psicanálise como auxiliares para a reflexão de seus conceitos. Assim, diz ela
“podemos falar da relação que Freud estabeleceu com a tragédia – as
tragédias de Sófocles, Shakespeare – de onde surgiram metáforas temáticas
sobre as quais ele criou o seu universo de análises. (...) Paralelamente,
podemos alegar que muitos romancistas da história da literatura serviram-se
dos conhecimentos da psicologia (psicanálise) para traçar o perfil de seus
personagens 4[4][10].
Também cedo Freud demonstrou interesse pela filosofia: ainda quando
estudante de medicina, seguiu seminários opcionais dessa disciplina e fez um
curso com Brentano sobre filosofia de Aristóteles. Em pontos importantes da
obra freudiana estão presentes, seja implícita ou explicitamente, o pensamento
de Nietzsche, dos pré-socráticos, de Kant, Newton, Darwin, Schopenhauer,
Platão, Hegel, Spinoza, ficando evidente a importância de todos esses saberes
na construção da psicanálise. Portanto, o intercurso da psicanálise com as
demais áreas do saber é fundamental para o seu progresso.
4[4][10] Lílian Fontes. A criação ficcional. O fluxo de consciência em Ulysses, de James Joyce e sua relação com a psicanálise. Rio, 2007. Artigo ainda não publicado. Xerox. Na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro são vários as
atividades que podemos citar como exemplos de interface da psicanálise com
outras áreas do saber. A revista TRIEB (da qual sou um dos editores,
juntamente com Viviane Frankenthal e Marci Doria Passos), desta sociedade,
tem se voltado para este tipo de reflexão e de troca. A TRIEB já publicou um
volume sobre as relações entre Psicanálise e Cinema 5[5][11], e seus dois
últimos números, ainda no prelo, são consagrados aos temas “Psicanálise e
Interface Social” e “Psicanálise e Literatura”. No volume dedicado à Psicanálise
e interface Social, são descritos vários exemplos do trabalho do psicanalista
que amplia seu exercício clínico para além do consultório: Na SBPRJ um grupo
de psicanalistas vem trabalhado em situações diversas e adversas e começa a
produzir reflexões sobre a psicanálise para além do divã e dos fartos recursos
financeiros. O programa da SBPRJ de interface social da psicanálise - PROPIS
- inclui variadas inserções em diferentes campos de atuação, mas procurando
manter sempre o lume da teoria psicanalítica.
No editorial deste volume da TRIEB, lembramos que essa intervenção
tanto pode ser centrada apenas no campo teórico, isoladamente, como junto a
outros saberes, num exercício interdisciplinar, auxiliando a pensar questões
que envolvem o ser humano e os enigmas de sua vida, seja através da arte, da
política, da universidade, enfim, das inúmeras possibilidades de expressão
humana. A prática clínica também pode se dar institucionalmente, em hospitais,
escolas, centros de atendimentos e outras formas de assistência. Neste
número da TRIEB foi aberto um espaço para a expressão daqueles
psicanalistas que têm operado psicanaliticamente em contextos de baixa
renda, demandas sofridas e muitas vezes urgentes.
Concordo com as colegas Liana A. de Melo Bastos e Munira A. Proença,
que afirmaram na TRIEB: “embora, durante algum tempo, muitos psicanalistas
tenham dado pouca relevância à preocupação freudiana com o social, na
atualidade, mais do que nunca, esta discussão não pode ser ignorada. Além da
crítica da contemporaneidade, cabe à psicanálise a elaboração de novas
5[5][11] Revista TRIEB. Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Rio, Relume Dumará, Volume III , N. 1 e 2, março/setembro de 2004. estratégias de atuação psicanalíticas no campo da prática individual e
social”6[6][12].
Assim se ampliam as possibilidades de atuação dos psicanalistas,
enfatizando “a dimensão ética da psicanálise e fazendo do ato psicanalítico um
ato público”7[7][13].
9. Ser reconhecido como psicanalista, poderíamos dizer, é um evento
marcado por diversos processos que não necessariamente coincidem com o
tempo regular de uma formação ou com o tempo em que a pessoa mesma se
reconheça, se “sinta psicanalista”. Como foi sua experiência pessoal com esse
processo? Quando foi que você “sentiu que era um psicanalista”?
Fernando Rocha:
Antes de falar sobre ‘se reconhecer’ ou ‘ser reconhecido’ como
analista, direi algumas palavras sobre como ‘conheci’ a Psicanálise: Saindo da
adolescência, andava às voltas com dúvidas vocacionais, quando um parente
me falou sobre um primo que “tratava seus pacientes com palavras”. Aquilo me
fascinou. Viajei para conhecer o tal primo psiquiatra-psicanalista de crianças e
que também era bom violonista. Foi ele quem, pela primeira vez, me
apresentou, me fez conhecer Freud.
Foi no processo de minha análise pessoal, no entanto, que se criaram
condições para que eu me ‘reconhecesse’ analista e onde pude questionar o
meu desejo de ser analista e descobrir o meu gosto pelo analisar. Mas este
desejo só foi “batizado”, quando recebi o meu primeiro paciente em análise.
Assim, acredito que a transmissão da psicanálise se dá, essencialmente, por
meio da experiência analítica, via transferência, quando o analista se oferece
como um lugar para que um saber se dê. Esse percurso analítico vai indicar
que cada um deverá refazer, por sua própria conta, o caminho da descoberta
freudiana.
6[6][12] Liana Albernaz de Melo Bastos e Munira Aiex Proença. Psicanálise e Interface Social. Na Revista TRIEB, no prelo. 7[7][13] Idem. No meu caso, houve primeiramente um auto-reconhecimento como
analista e, em seguida, o reconhecimento por parte dos pares, da instituição.
Penso que não basta ser reconhecido pela instituição para garantir a identidade
de analista.
Gosto muito da expressão “ofício de analista”, já que considero que ser
analista não é uma profissão, no sentido tradicional
do termo,
mas uma
função, um lugar que se ocupa quando se está em situação de análise com um
paciente. É a análise pessoal e a formação que devem nos preparar para
ocupar este “lugar de analista” - lugar do simbólico, de objeto da transferência , lugar que pode não estar sendo ocupado, mesmo quando se está sentado
na poltrona e há um outro no divã. É desse ‘lugar de analista’ que a linguagem
para o analista, antes de se prestar a informar, visa provocar, evocar no
paciente tudo aquilo que de sua história permanece inconsciente, porém
pulsante, à espera de uma expressão – produção de sentido.
Foi fundamental o reconhecimento por parte de meus pares, o
reconhecimento institucional,
na sedimentação da minha identidade de
analista. Não resta a menor dúvida que a prática clínica vai aprimorando, vai
afinando as nossas condições de ocupação desse lugar de analista. Mas
nenhum analista estará isento de sair dele, já que não é um lugar natural, pois,
como bem disse Daniel Widlöcher: conduzir-se como psicanalista é ser capaz
de desenvolver um modo específico de funcionamento mental que não nos é
natural e para o qual nos prepara nossa análise pessoal.8[8][14]
A leitura do interessante livro A Arte cavalheiresca do arqueiro
Zen9[9][15]i[i][i] nos incita a fazer uma analogia entre o arqueiro e o
psicanalista: o perfeito controle técnico do arco, pelo arqueiro, é apenas um
meio de acesso a um desenvolvimento interior que, por sua vez, repercute
sobre o saber: “ao mirar o alvo o arqueiro aponta para si mesmo”. Já a
identidade do psicanalista funda-se sobre uma relação com o próprio
inconsciente. Neste sentido, o ofício de analisar nos engaja inteiramente e
completamente. Acredito que a formação é interminável e que se ela foi válida,
8[8][14] Widlöcher, D. Psychanalyse aujourd´hui: un problème d´identité. L´identité du psychanalyste. Paris, PUF, 1979. 9[9][15] Herrigel, E. (1975). A arte cavalheiresca do arqueiro Zen. São Paulo: Pensamento.
não cessará de nos provocar, de nos manter em questionamento e portanto em
transformação, na maioria das vezes imperceptível. Acredito também que essa
transformação depende mais de nossa experiência de análise do que de
aquisições de “puro” conhecimento teórico. Sinto-me dentro deste processo de
formação interminável - formação para a vida.
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