1 FRANCISCO E CLARA: UMA NOVA HUMANIDADE É POSSÍVEL* Antônio Moser, OFM* As cenas de violência dominam os Meios de Comunicação Social. O pior é que também dominam a realidade. Apesar de todos os progressos, no sentido de serem evitadas as grandes guerras, apesar das numerosas iniciativas no sentido de se criar clima de reconciliação, apesar de todas as medidas de segurança, os conflitos e a violência pairam, por toda parte, qual fantasma ameaçador. Todos temem a todos e todos se defendem como podem. É a exasperação de uma conflitividade difusa, que pervade todos os níveis do humano, seja nas relações interpessoais, seja nas relações sociais. Cria-se, destarte, o círculo da desagregação e do medo. Sem dúvida, são a conflitividade e a violência indicadores muito expressivos de um "paraíso perdido", presente nas várias mitologias. Mas seriam a raiz dos outros males afins, ou somente duas manifestações de algo ainda mais profundo e decisivo? Muitas são as abordagens tentando elucidar a dramaticidade da nossa história. Cada uma se constitui numa tentativa de resposta, com alguma validade, mas não totalmente satisfatória. Por isto as muitas abordagens talvez devam dar lugar a um enfoque que as englobe e as integre, mas levando a outra compreensão e apontando para outras soluções. Pensamos que isto seja possível através de um enfoque de cunho antropológico e teológico, que faça emergir a profundidade do humanum1, configurada na articulação masculinidade-feminilidade. É nesta linha de um enfoque diferente do usual que emergem Francisco e Clara como expressões da esperança concreta de uma nova humanidade. Não deixa de ser sintomático o êxito de filmes como “Irmão sol e irmã lua", ou então simplesmente "Francesco", de L. Cavani. A acolhida entusiasmante por largos setores da sociedade, particularmente de jovens, não estaria sugerindo que Francisco e Clara encarnam o sonho de uma nova humanidade? Se, com eles, já existiu o esboço de algo novo, isto poderá voltar a existir, e talvez de um modo mais amplo, no sentido de novo relacionamento a nível interpessoal e social. O segredo deste homem e desta mulher pode ser a chave de caminhos inusitados, e nem sempre devidamente refletidos. * Texto extraído de: MOSER, Antônio. Francisco e Clara: uma nova humanidade é possível. In: Moreira. A. Herança Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 287-307. * 1 Doutor em Teologia Moral, professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis. Preferimos usar a palavra "Humanum ", no latim, por nos parecer muito mais rica e muito mais profunda do que o "Humano”, na língua portuguesa. Queremos com isto acentuar algumas características: ser total; com dimensões múltiplas como corpóreas, psíquicas, culturais, religiosasetc. Talvez a expressão mais próxima do "humanum" seria a "Natureza humana". Mas se trata de uma expressão muito comprometida com interpretações fixistas. Por isto preferimos não recorrer a ela. Cf. sobre isto VIDAL, M. Moral de atitudes. L Aparecida: Ed. Santuário, 1975, 31s; 137s. Ademais, a palavra "Humanum" nos parece mais apropriada para designar o ser humano enquanto masculinidade e feminilidade. A "humanidade" resulta da relação dialética entre homem/mulher. 2 1. As faces múltiplas da humanização-des-umanização Há um evidente contraste entre o "paraíso", descrito nos primeiros capítulos do Livro do Gênesis, e o mundo que conhecemos, seja do passado, seja do presente. Ademais, o contraste independe da localização geográfica e social. As localizações apenas imprimem níveis e cores diferentes, mas fundamentalmente não alteram o quadro. É que o "paraíso" descreve um projeto divino, e o mundo que conhecemos traduz a dramaticidade da nossa história real, concretizada em contextos diferentes. Ainda que nesta história se devam reconhecer sinais que fazem acreditar na viabilidade do projeto divino, o que predomina, ao menos à primeira vista, são os sinais de des-humanização. Com certeza a dramática história humana não pode ser compreendida de maneira simplista. Ela é multifacial, tanto nas suas expressões, quanto na complexidade de fatores que a determinam. Mas talvez algumas palavras consigam dar uma idéia destas múltiplas faces, e algumas abordagens nos ajudem a fugir do simplismo causa-efeito. Como palavras-chave que traduzem nossa realidade podemos elencar a des-humanização, o ódio, a violência. Como abordagens que nos ajudem a visualizar a complexidade dos porquês, poderemos apresentar, a título de ilustração, uma de cunho psicanalítico, outra de cunho político-social, outra de cunho teológico. 1.1. Humanização e des-humanização como processos É muito significativo o modo como os primeiros capítulos do Gênesis abordam os dois primeiros pecados. No primeiro, ao tratar do pecado de raiz2, vem descrito o processo da tentação, do pecado, da culpabilização, da primeira ruptura da harmonia entre o homem e a mulher, em conseqüência da ruptura com os planos do Criador. No segundo caso, ao se configurar o primeiro pecado histórico, após a expulsão do paraíso, a violência emerge como epílogo. O processo se inicia com a des-humanização de Caím, articula-se com a inveja e o ódio, para terminar na violência assassina3. Ao encadearmos estas faces, não estamos querendo sugerir uma espécie de leitura causal. Muito pelo contrário, queremos sugerir que nos encontramos diante de fisionomias diferentes de uma mesma realidade humana, onde é 2 O primeiro pecado, também normalmente denominado de "pecado original", encontra-se relatado no terceiro capítulo do Livro do Gênesis. No dizer do Catecisino da Igreja Católica, “a doutrina do pecado original é por assim dizer 'o reverso' da Boa Notícia de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos graças a Cristo. A igreja, que tem o senso de Cristo, sabe perfeitamente que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo" (Vozes, Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993, n. 389). Trata-se, portanto, de um referencial indiscutível para os cristãos. O problema todo consiste em como interpretar essa realidade inconteste, e que atinge as raízes mais profundas do ser humano. 3 O relato do primeiro pecado "histórico" encontra-se no capítulo 4 do Livro do Gênesis, onde vem descrito exatamente o processo do crescente ódio de Caím contra Abel, até culminar com o homicídio. É interessante observar que todo o primeiro capítulo da recentíssima Encíclica "Evangelium Vitae", do Papa João Paulo II, se constitui num longo comentário deste homicídio. Foi na Encíclica que nos inspiramos para acentuar a idéia de um "processo" crescente de des-humanização de Caim. 3 impossível definir o que vem primeiro e o que vem depois. As três faces se reforçam mutuamente, traduzindo um mesmo mal que afeta a história humana. Feita esta ressalva, porém, convém deter-se um pouco sobre estes componentes, de des-humanização, violência e ódio. Mesmo antes de nascer, todo ser humano traz consigo um potencial difuso, que tanto pode levar à humanização, quanto à des-humanização. Este potencial, originariamente de cunho bio-genético-espiritual, é trabalhado por numerosos fatores, entre os quais se destacam os religiosos, culturais, psicológicos, econômicos, políticos e sociais. É neste horizonte que se compreende o humanum, seja sob o ângulo pessoal, seja sob o ângulo social; seja na sua positividade, seja na sua negatividade. As pessoas e as sociedades vão sendo moldadas, num processo contínuo e interminável, ainda que não sempre retilíneo. De fato, existem avanços e recuos, marcados pela complexa dinâmica da história, onde exercem um papel importante a cultura envolvente, os interesses de classes, as coordenadas econômicas, políticas e sociais, além da carga genético-hereditária. É neste jogo que se concretiza a humanização ou, então, a des-humanização. É importante atinar para o fato de este potencial não ser nem bom, nem mau em si mesmo, como por vezes se pressupõe. As chamadas "paixões" se caracterizam exatamente por sua ambivalência profunda: podem impulsionar a vida, ou então a morte; o amor, ou então o ódio; a humanização, ou então a des-humanização; a graça, ou então o pecado. Neste particular são muito significativos a violência e o ódio, que no fundo remetem a um mesmo centro propulsor, a agressividade. A semântica pode elucidar o que estamos sugerindo: vis, que significa energia, força, tanto recorda vir (homem), quanto violência; tanto recorda virtude, quanto vício. Sem esta energia, de cunho selvagem, os seres humanos seriam abúlicos. Se ela for mal canalizada, pelos fatores acima aludidos, emerge como destrutividade. Bem canalizada, a mesma força gera luz e calor. Daí as questões: seriam a conflitividade e a violência constitutivas do ser humano no mundo? Seriam resultantes de fatores econômico-sociais? Seriam uma espécie de sina, oriunda de uma primeira grande ruptura, teologicamente denominada de "Pecado original"? Algumas abordagens explicativas do fenômeno nos ajudam a elucidar a resposta. 1.2. Abordagens explicativas da agressividade e da conflitividade Como acenamos acima, muitas são as abordagens possíveis. Preferimos destacar três, que nos parecem mais significativas: uma de cunho psicanalítico, outra de cunho político-social, e outra de cunho teológico. a) Sob o ângulo psicanalítico, Freud, como iniciador da Psicologia do Profundo, oferece um bom ponto de partida, apesar das conhecidas limitações inerentes à sua abordagem. Para Sigmund Freud esta energia fundante denomina-se sexualidade4. Muito mais abrangente do que o mero sexo, seja genético, 4 Sobre isto e sobre nossa interpretação de Freud, cf. FREUD, Sigmund. Cinco Lições de psicanálise. A história do movimento psicanalítico. Esboço de Psicanálise. Seleção de Jayme 4 cromossômico, biofisiológico, psico-afetivo, sociocultural ou hormonal, a sexualidade é uma energia que recobre o humano em toda a sua amplitude e profundidade. Por um lado nos empurra amorosamente ao encontro dos outros, por outro, nos empurra contra os outros; nos convida a viver e a com-viver; nos convida a retrair-nos e a morrer. Por um lado revela-se como matéria, natureza, instinto; por outro, como espírito, cultura, liberdade. Foi tendo tudo isto em vista, que já Freud diagnosticava a ambivalência radical da sexualidade. Sob o ângulo positivo, a sexualidade vem recordada por Eros, o deus do Amor e da Vida; sob o ângulo negativo, ela vem caracterizada como Thanatos, o ódio e a morte. De fato, ora a sexualidade se apresenta como desejo de vida, ora de morte; ora como desejo de comunicação, ora de isolamento; ora de construção, ora de destruição; ora de humanização, ora de des-humanização. A questão básica que fica parece ser esta: quando a sexualidade atua como Eros, quando atua como Thanatos? Evidentemente que, pelas colocações anteriores, não podemos encontrar uma resposta simples, mas antes, esperar uma resposta complexa, bipolar, dialética. De qualquer forma, estas colocações já apontam para a sexualidade como fator decisivo de humanização ou des-humanização; de amor ou ódio; de paz ou de guerra; de vida ou de morte. b) A abordagem política da sexualidade pode parecer surpreendente. Já há muito, desde os estudos de Margareth Mead5, são acentuadas as dimensões socioculturais da sexualidade. Embora de um ponto de vista biofisiológico ela se concretize mais ou menos da mesma forma nas mais diversas realidades, ela sempre é vivenciada de modo diferente nas várias culturas. A cultura imprime certas marcas inconfundíveis na interpretação de gestos e comportamentos. Entretanto, apesar desta consciência do papel da cultura na vivência da sexualidade, à primeira vista, ela pouco teria a ver com o ângulo político-social, A sexualidade apontaria muito mais para uma dimensão íntima, pessoal, ou interpessoal. E, contudo, esta se constitui numa das mais importantes conquistas da sexologia no seu estado atual6. Eros e Thonatos não são pulsões que atuam somente sobre as pessoas individualmente: elas atuam igualmente sobre o todo das relações sociais. Salomão. São Paulo: Ed. Abril, 1974, sobretudo p. 105s; Cf. ainda, do mesmo autor, Cinco lições de psicanálise e contribuições à psicologia do amor. Rio de Janeiro: Imago, 1973; ou ainda, Freud, Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1973. 5 Cf, MEAD, M. Macho e Fêmea (um estudo dos sexos num mundo em transformação). Petrópolis: Vozes, 1971. 6 Cf. MURARO, R.M. Sexualidade, libertação e fé. Petrópolis: Vozes, 1985. 5 A Politologia7 nos assegura que o primeiro contato entre os seres humanos, seja enquanto pessoas, seja enquanto nações, é sempre de uma estranheza, revestida de traços de agressividade. O diferente surge, originariamente, como "inimigo". E nesta linha que certas abordagens teológicas propiciaram o fenômeno da demonização da mulher. Basta que se pense na queima das bruxas8. Todo este fenômeno da agressividade-conflitividade leva alguns estudiosos a sustentar que a agressividade seria constitutiva do humano. Os demais fatores (econômicos, políticos, sociais, raciais etc.) viriam apenas "trabalhar" esta agressividade originária9. Além destas constatações, convém não esquecer os estragos causados em termos político-sociais por pessoas afetiva e sexualmente desequilibradas. Como também não são negligenciáveis os estragos causados pela exploração comercial e, particularmente, pela exploração política e ideológica da sexualidade. Não só grande parte do comércio, como também grande parte das manobras políticas se movimentam sobre esta base. A política seria uma complexa rede de intrigas, acirrada pelos mais diversos interesses, mas que, no fundo, sempre apontaria para o Eros e o Thanatos. A dimensão político-ideológica da sexualidade, porém, é tão inusitada e tão importante, que vale à pena apresentá-la melhor. Partindo do exemplo dos Imperadores romanos, que se serviam de pão e circo para acalmar as reivindicações sociais do povo, poderíamos dizer que os donos do poder, hoje mais do que nu se servem do mesmo mecanismo de alienação, só que agora mais explicita fundados sobre a exploração da sexualidade. Sob este prisma se compreende o empenho, ao menos consentido, para que os jovens façam muito sexo e consumas muita droga: com isto se alienam dos grandes problemas da nação. Compreende4 se ainda o empenho em transformar a mulher em objeto de cama e mesa: junta com os jovens, elas detêm dois terços do potencial revolucionário. Afastados os jovens e as mulheres das grandes decisões, os "dirigentes" pouco têm a temer em termos de eventuais transformações sociais profundas. Poder-se-ia, por fim, ainda recordar o papel político-ideológico desempenhado por certas campanhas de controle da natalidade, uso de preservativos, esterilização em massa, liberação do aborto. Até que ponto não se constituiriam em estratégias destinadas a "domesticar", ou mesmo a "eliminar", certas raças e classes sociais? O fato é que, ao longo da história, se percebe 7 Cf. DAHRENDORF, R. Classi e conflitto di classe nella società industriale. Bari: Ed. Laterza, 1971; CARTHY I.D.-EBLINGE. J. História natural de la agresión. México, 1967; CORNATON, M. Las raices biopsicológicas y psicológico-sociales de la violencia. Madrid, 1972. 8 Cf. DI GIORGI, Flávio. Desenraizamento e religiosidade dos oprimidos. Magia e Bruxaria. Cadernos do IFAN, v. 9, p. 7-19, 1994, 9 LORENZ, K. Das sogennante Boese. Zur Naturgeschichte der Agression. Wien: Scholler, 1966. 6 uma ligação profunda entre o modo como se vive a sexualidade e o modo como se articula a política. Assim, por exemplo, é sintomático que o desmoronamento dos grandes impérios coincidiram com a desagregação moral, particularmente no que se refere à sexualidade. Como também o surgimento dos grandes impérios se deu no contexto de uma vida sexual saudável. É certo que o ângulo político-social da sexualidade se evidencia mais na sua negatividade. Quem reina é o Thanatos, por vezes, disfarçado em Eros. Contudo, esta seria uma visão muito parcial do ângulo político-social da sexualidade. De acordo com a já assinalada ambivalência, se deduz que deve existir uma outra face da moeda. A mesma energia que se esconde por trás das forças tanáticas que dominam a sociedade, também movimenta as forças em favor da quebra de todo tipo de barreiras. É ela que está por trás da miscigenação das raças, dos movimentos de reconciliação, da aproximação dos povos. Cientificamente falando, é a sexualidade um dos fatores decisivos que movimenta a "socialização". Teologicamente falando, é ela que viabiliza o sonho de Deus da construção de uma única família, para além das barreiras nacionalistas, raciais, religiosas, ideológicas. Nenhuma barreira resiste à força do amor. c) Também a abordagem teológica é importante para elucidar o processo de humanização-desumanização, que nos preocupa. Pretendemos desenvolver mais a abordagem teológica numa segunda parte, no contexto masculinidade-feminilidade. Mesmo assim, convém fazer, já aqui, algumas observações que iluminam as perguntas surgidas acima, e de modo especial a última: seriam as múltiplas faces da des-humanização uma espécie de sina, oriunda de uma primeira grande ruptura, teologicamente denominada de "Pecado original"? A teologia não se propõe, evidentemente, a substituir as demais ciências. De alguma forma, ela até as pressupõe. Mas, com um ponto de partida diferente, o da fé, ela pretende chegar às razões mais definitivas da condição humana no mundo. Neste contexto não há como ignorar a doutrina cristã sobre o "Pecado original”10. É verdade que esta doutrina encontra certas resistências. E, contudo, não há dúvida que, quando bem interpretada e bem entendida, ela se constitui um referencial indispensável para fugir tanto de um otimismo ingênuo, quanto de um pessimismo radical. Ao que tudo indica, o pressuposto do qual se deve partir na leitura do livro do Gênesis não é o de que nos encontramos diante de um relato "histórico". Encontramo-nos antes diante de uma produção literária, de caráter teológico, que tem ante si um drama vivido e sentido. Esta reflexão teológica é feita num período que a humanidade já apresentava uma estrutura básica de vida social. Com isto se evidencia que a teologia do "pecado original" não aponta simplesmente para o passado, mas para uma condição na qual todos nascem. Muito mais preocupado em abrir caminhos para superar as sombras que refletem esta condição, do que em expressar causalidade, o autor sagrado nos 10 Cf. nota 2. 7 assegura que a raiz dos nossos males é muito profunda. É tão profunda que exige a intervenção salvífica do próprio Deus11. O Deus Criador e Salvador tem projetos para os seres humanos viverem e se humanizarem dentro da grande obra criadora. Estes projetos são certamente desafiadores, em consonância com a grandeza do ser humano, criado "um pouco inferior a um ser divino" (SI 8,6). A multiplicidade contrastante das criaturas faz pensar antes num caos inicial, do que propriamente num cosmos previamente harmonizado. Certamente há uma harmonia latente, tanto nos seres humanos, quanto no todo da Criação. Ela deve, contudo, ser explicitada. Cabe ao ser humano, como tarefa fundamental, harmonizar-se em meio ao turbilhão de suas "paixões" e ao turbilhão de forças selvagens dialeticamente polarizadas12. A harmonização é possível, mas apresenta certas exigências. A primeira delas passa pela consciência criatural: o ser humano deverá portar-se como administrador sábio, e não como "Senhor", já que Deus não renuncia à sua obra criadora. Pelo contrário, mesmo abrindo espaço para os seres humanos, no sentido de participarem ativamente no desdobramento desta obra, Deus mantém sua Senhoria sobre ela. Ele simplesmente confia a gerência aos seres humanos. A segunda exigência passa pela interdependência: ninguém é maior do que ninguém. Ninguém é maior ou melhor do que qualquer coisa, já que também estas últimas são frutos do A morte Deus. A terceira exigência passa pela colaboração: ninguém consegue nada sozinho. Tudo se torna possível mediante a "fraternização" resultante do amor, que começa em Deus, passa pela integração da masculinidade e feminilidade e perpassa todas as criaturas. O drama inicial e contínuo ao longo da história consiste na quebra destas pressuposições. É muito expressiva a descrição da primeira tentação: alimentar-se um fruto proibido para "ser como deuses"13. Afastando-se de Deus e dos seus projetos amorosos, os seres humanos passam a fugir de Deus, a lutar entre si e contra as demais criaturas. Em vez de se constituírem como "irmãos" e "irmãs” emergem como "inimigos" e "inimigas". A consciência criatural dá lugar à consciência de dominação; a interdependência dá lugar à concorrência; a fraternidade dá lugar à rivalidade e à violência. As energias que deveriam ser canalizadas para a cosmificação passam a gerar destruição. 2. Deus os quis diferentes, fecundos e no amor Com certeza, as três abordagens feitas acima nos deixam ainda mais perplexos quanto à raiz da dramaticidade da nossa história humana e quanto a caminhos possíveis de construção de uma nova realidade. Cada uma intui algo, certamente válido, mas de forma muito setorial. Nada há de 11 Cf. MESTERS, C. Paraíso terrestre: saudade ou esperança. Petrópolis: Vozes, 1971. 12 Cf. MOSER, A. O problema ecológico e suas implicações éticas. Petrópolis: Vozes, 1984, 37s. 13 Cf. Gn 35. 8 surpreendente nisto, já que cada ciência tem sua perspectiva e sua metodologia próprias. A Psicologia do Profundo, na intuição do seu fundador, atribui os desequilíbrios de todo tipo ao modo como se estrutura a sexualidade, seja no nível do Inconsciente, seja no nível pessoal, seja ainda no nível das estruturas psicossociais introjetadas... A superação destes desequilíbrios pressupõe uma reorganização sobretudo ao nível do inconsciente pessoal. O acento quase que exclusivo sobre o inconsciente na sua dimensão pessoal representa um limite significativo. A compreensão predominantemente negativa da religiosidade representa outro hiato mais significativo ainda. É tão verdade que Jung, por exemplo, já sentiu a necessidade de falar de um plano coletivo, e destaca a importância do fator religioso na superação dos desequilíbrios14. A abordagem político-ideológica, com razão, ressalta a força dos mecanismos sociais. Os desequilíbrios resultam, ou ao menos são acirrados, por estruturas socieconômicas e políticas inadequadas. O processo de humanização se torna muito difícil sem o desmonte destas estruturas e a construção de outras mais adequadas. As várias correntes libertadoras destes últimos decênios souberam valorizar o prisma social, evidenciando inclusive sua importância na gestação de uma compreensão religiosa. Contudo, como fica sempre mais evidenciado no momento atual, existem outras dimensões, como a da cultura e a pessoal, que não podem ser negligenciadas. A abordagem tradicional do pecado original parece não iluminar suficientemente a dinâmica histórica. Trata-se de um horizonte que não pode ser perdido de vista. Contudo, sozinho, não responde aos porquês de uma história humana tão dramática, nem abre caminho para uma superação onde transpareça a atuação do ser humano. É tendo em vista estas contribuições e, ao mesmo tempo, os seus limites, que julgamos conveniente buscar outro caminho, já conhecido na tradição, mas deixado nas sombras. Trata-se de evidenciar o humanum enquanto se concretiza como masculinidade e feminilidade e abre novas perspectivas em termos de humanização-desumanização. A leitura dos primeiros capítulos do Gênesis nos oferece algumas coordenadas antropológicas e teológicas importantes. Em primeiro lugar, ali vem ressaltada a pluriforme diversidade da obra criadora. Em segundo lugar, as diferenças apresentam-se sob o signo da fecundidade. Em terceiro lugar, emerge o Amor como substrato fundamental do processo de humanização. 2.1. Na riqueza das diferenças 14 "Ao longo dos últimos trinta anos - escreve K. JUNG em 1932 - tem-me consultado gente de todos os países civilizados da terra... Não houve entre meus clientes na segunda metade da vida - quer dizer, depois dos trinta e cinco anos - um só cujo problema, em última análise, não fosse o de encontrar uma perspectiva religiosa para a vida. Posso dizer com segurança que todos eles adoeceram em virtude de terem perdido aquilo que as religiões vivas de todas as idades têm dado aos seus seguidores, e que nenhum deles foi realmente curado sem ter readquirido esta perspectiva religiosa (Citado por White, V Deus e a psicanálise. Lisboa: Moraes Editora, 1964, p. 97-98). 9 Reconhecidamente uma mesma realidade permite leituras diversas e até contrastantes. Ela depende muito do lugar social de quem a faz. Assim se compreende que, mesmo dentro do campo teológico, uns se inclinem mais para a leitura harmonizante da Criação; outros busquem na alteridade uma compreensão mais polarizada; outros ainda se voltem mais para uma leitura de cunho dialético. As mesmas possibilidades se apresentam também quando se trata especificamente do humanum concretizado na masculinidade e na feminilidade. Pelos pressupostos apresentados, e por razões que surgirão nesta segunda parte, fica claro que nos inclinamos mais para estes dois últimos tipos de leitura: o da alteridade e o da dialeticidade. Como já acenamos anteriormente, uma das conquistas da antropologia sexual contemporânea vem constituída pela percepção da sexualidade como energia englobante e multifacial. Por um lado, cada uma destas faces constitui uma dimensão própria na pessoa; por outro, cada uma só pode ser compreendida na articulação com as demais. Isto já no plano pessoal. A mesma dialética se faz mais perceptível quando se entende o ser humano nas suas múltiplas relações "ad extra", tanto as outras pessoas, quanto com o conjunto da Criação. Por um lado cada ser se apresenta como original, único e irrepetível; por outro, cada um só existe enquanto sub-siste numa relação com o diferente. Entretanto, é na relação masculinidade-feminilidade que esta dialética atinge uma forma quase paradoxal. Por um lado constatam-se semelhanças; por outro diferenças notáveis. Destes fatos emergem algumas questões fundamentais: onde se localizam as diferenças e as semelhanças? Como se articulam masculinidade e feminilidade? Qual o sentido teológico profundo desta articulação? Qual o móvel secreto da humanização ou des-humanização? Há semelhanças que logo saltam à vista e que servem de anteparo aos movimentos unissex, bem como aos movimentos homossexuais. Assim, sabermos que até pela 8a semana o sexo do embrião humano permanece aparentemente indiferenciado. Ademais, tanto os testículos, quanto os ovários, produzem hormônios masculinos e femininos. Tudo é questão de proporcionalidade15. No plano socioeconômico e cultural as coisas se complicam ainda mais. Como Simone de Beauvoir16 mostra muito bem, os papéis sociais atribuídos ao "homem” e à "mulher" são bastante comprometidos por uma determinada situação socioeconômica e cultural, que serve de substrato para o plano ideológico. O homem quer que a mulher seja toda ternura, doçura, intuição, dependente, porque desta forma mantém a mulher na submissão. Com a pretensa posse exclusiva da racionalidade, do espírito de iniciativa, da objetividade, da agressividade, comanda os destinos do mundo. É neste equívoco, ciosamente cultivado, que se esconde uma das chaves de interpretação para a violência brutal que domina nossa história. Calcando a 15 Cf. BOFF, L. O rosto materno de Deus. Ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 61s. 16 BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980. 10 mulher e o lado feminino do humano, o homem simplesmente abafa a feminilidade, mata a ternura nele mesmo. Claro que também a mulher dispõe de mecanismos de dominação. Mas esta constatação só vem reforçar nossa tese central, que não é nem androcêntrica, nem ginocêntrica. Ela se apóia na pressuposição de que uma das raízes mais profundas dos nossos desequilíbrios pessoais e sociais encontra-se exatamente o desequilíbrio da relação masculinidade-feminilidade. Com certeza existem diferenças que remetem ao "nascimento": diferenças biológicas, hormonais, psicológicas... Não há como negar a importância do fator biológico na determinação das diferenças comportamentais. Se não podemos falar de uma programação genética fixa, própria para cada sexo, podemos, contudo, falar de matrizes diferentes no homem e na mulher17. Mas, com certeza, também existem diferenças que se estabelecem de acordo com as culturas e a evolução histórica. A questão que fica é a de como se articulam estas semelhanças e diferenças. Alguns estudiosos acentuam as diferenças, outros as semelhanças. Alguns falam em polaridade; outros em complementaridade; outros em reciprocidade; outros em analéptica18. Polaridade significa marcar as diferenças como oposição. A atração sexual entre homem e mulher se explicaria pela força dos contrários. Complementaridade significa acentuar a insuficiência de cada um, isoladamente. Reciprocidade significa um movimento dialético, onde se reconhecem momentos de polaridade e de complementaridade, mas se acentua o face-a-face. O fato é que ninguém consegue se integrar sozinho. É pelas diferenças que nós nos conhecemos. É convivendo com os outros diferentes que nós nos "construímos" diferentes e semelhantes ao mesmo tempo. 2.2. Na fecundidade A integração da sexualidade é um desafio primordial para qualquer ser humano. E ela passa sempre pela reciprocidade. Isto é válido tanto para os que vivem no matrimônio, quanto para os que vivem no celibato; tanto no plano interpessoal, quanto social. Ao contrário do que ocorre com o animal, no caso do ser humano a integração não é automática. É sempre uma aventura dramática. Mas o que significa integrar a própria sexualidade? Como alcançá-la? O texto do Gênesis, ao dizer que Deus criou o ser humano como varão/mulher, nos oferece um bom ponto de partida. O humanum não equivale nem só ao homem, nem só à mulher. "Ela é osso dos meus ossos, e carne da minha carne" (Gn 2,23) é a primeira e mais sensacional descoberta de Adão. A mulher tematiza mais a feminilidade, mas não a esgota. Pois há elementos de feminilidade também no varão. O varão tematiza mais a masculinidade, mas não a esgota, pois ela também está na mulher. Sendo assim, a mulher 17 BOFF, L. O rosto materno... op. cit. 52. 18 Id., ibid., 71-72. 11 "perfeita" não é aquela que anula os elementos atribuídos primordialmente à masculinidade, mas aquela que os integra, sem perder sua feminilidade. O varão "perfeito" não é aquele que anula os elementos atribuídos primordialmente à feminilidade, mas aquele que os integra em si, sem perder sua masculinidade. Destarte, se evidencia que o humanum não é constituído por uma mônada: é bipolar. O feminino que existe como dimensão em cada homem-varão e em homem-mulher exprime um pólo de obscuridade, de terra, de sentimento, de receptividade, de poder gerador, de vitalidade do humano. O masculino no homem varão e mulher exprime o outro pólo do humano que é de luz, de sol, de tempo, de impulso, de poder suscitador, de ordem, de exterioridade, de objetividade e de razão19. É interessante observar que já Platão no seu Banquete narra haver Zeus inicialmente criado o Homem como ser andrógino: homem e mulher ao mesmo tempo, juntos, colados. Mas, diante da força deste ser, Zeus achou por bem separá-los. O homem e a mulher juntos são tão fortes quanto os deuses. Como também o são cada homem e cada mulher que trabalham adequadamente a relação masculino-feminino. Jung, por sua vez, afirma que cada varão traz em si uma anima e cada mulher um animus. Quer com isto assumir numa linguagem moderna o que já era intuição muito antiga. À luz destas colocações se compreende melhor que o "sede fecundos" se constitua num mandamento primordial, e paralelamente a esterilidade compreendida como maldição. Pelo que vimos se deduz, antes de mais nada, que o sentido profundo das diferenças aponta para a fecundidade. E é no cultivo das diferenças, mas articuladas, que se dá a fecundidade, em todos os níveis, inclusive social. A diferença dos sexos e a pluralidade de raças e culturas se constituem num grande desafio, mas também numa condição inegociável para a fecundidade. A antropologia bíblica não é homo, mas é heterossexual. É na diversidade que se concretiza a fecundidade. Claro que não se trata de uma fecundidade meramente reprodutiva e biológica, embora esta seja a mais evidente. Existe igualmente uma fecundidade espiritual, de quem não gera nada, mas dá condições para que o amor e a vida surjam e se desenvolvam. Deus não é procriador, mas está na origem de toda fecundidade20. A integração ou des-integração da sexualidade se dá, portanto, exatamente nesta interação contínua entre homem e mulher, entre masculinidade e feminilidade. O varão e a mulher se fazem um sob o olhar do outro, e isto também num plano social. A integração pessoal pressupõe um clima social favorável. O clima social no qual vivemos, marcado pelo individualismo, pelo isolamento e pelo nacionalismo, explica muitos casos de desintegração patente, tanto naqueles que vivem no celibato, quanto naqueles que vivem no 19 20 Id. Ibid., 65-66. Cf. MOSER, A. Paternidade responsável e mentalidade contraceptiva. Petrópolis: Vozes, 1976, 12-17. 12 matrimônio, tanto para os que vivem na abstinência, quanto para os que vivem relações carnais. 2.3. No Amor sem limites Teoricamente, a integração masculino-feminino é facilitada pelo matrimônio. Mas como o matrimônio não é uma ilha, nem tudo fica resolvido automaticamente. Pois o êxito ou fracasso no matrimônio não depende apenas dos cônjuges, ou do quadro estritamente familiar. Sobre eles incidem, com força, outros fatores, mormente econômicos, sociais, políticos e religiosos. Também a vida no celibato, mesmo "por causa do Reino", coloca um desafio primordial para a integração para as diversas dimensões próprias do ser humano. Pois quem opta por ele renuncia a um certo exercício da sexualidade, mas não à sexualidade mesma. Não renuncia ao amor; não renuncia à amizade. Renuncia à posse afetiva, renuncia ao prazer genital e ao que se denomina de amor conjugal. Mas o celibatário precisa buscar outras formas de amor, em sintonia com a renúncia "por causa do Reino". Não busca substitutivos, mas formas diferentes de integração. Quanto mais clara for a opção pelo Reino, mais fácil se torna a "canalização" das energias sexuais. Quanto menos clara a opção, tanto mais difícil a integração. Neste processo há algo que não se explica, mas que se pode vivenciar e constatar. De qualquer forma, sempre sobra a pergunta sobre o móvel último da relação homem/mulher, masculino-feminino. Qual é a força que deve empurrá-los um ao encontro do outro? É nesta altura que o Amor surge como componente central de um relacionamento integrador. A mais tradicional abordagem teológica já o apresenta nesta condição: Deus é Amor; criou tudo por Amor e para o Amor. Os projetos de Deus são de comunhão em todos os níveis. Por aí se percebe por que o pecado pode ser definido como desamor e quem odeia vem denominado de "homicida" por São João21. Agora, retomando a intuição de Freud sobre Eros e Thanatos, percebemos que Teologia e Psicologia do Profundo não se opõem naquilo que elas tematizam como mais fundamental. Apenas os pontos de partida são diferentes e uma mesma compreensão se situa em níveis diferentes. Com efeito, quando a sexualidade vem entendida e vivenciada apenas como pulsão de vida ou de morte, ela não passa de uma força selvagem, profundamente ambivalente. Para se tornar força geradora de vida ela deve ser "revestida" de outros elementos. O primeiro deles é o Logos: "Quando o Eros é deixado a si mesmo aparece a exuberância incontrolada dos sentimentos e das paixões, o sentimentalismo, o desbragado das emoções, o delírio das pulsões, o êxtase orgiástico do prazer. Quando se permite ao Logos impor sua dominação aflora a rigidez, a inflexibilidade, a tirania da norma, a dominação da ordem, o rigor da disciplina"22. O Eros conjugado com o Logos gera ao mesmo tempo ternura e vigor. 21 Cf. 1João 3,14. 22 BOFF, L. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 28. 13 Contudo, nem o Logos explica suficientemente o quase milagre de uma geração profunda. Esta exige ainda outro componente espiritual, que é o Não que o amor se situe fora do âmbito da ambivalência, que caracteriza a realidade humana. É sintomático observar que amor e ódio também se articulam dialeticamente. O Eros jamais consegue anular o Thanatos, apenas pode absorvê-lo numa outra dinâmica. Para se visualizar melhor esta relação dialética, convém recordar os diferentes níveis do amor. Num primeiro nível ele se apresenta simplesmente como atração, de cunho psicofísico; é o Eros na sua manifestação imediata. É aqui que se localiza o "erotismo". Num segundo nível ele se aprese como Philia, ou seja, é o mesmo Eros, mas "trabalhado" por outras energias e outras dimensões do humano. É aqui que se situa a "amizade", uma das formas amor. No terceiro nível o Eros se apresenta como Agape, no sentido joaneu do termo 23. A este último nível, porém, nem todos terão acesso. Ele está reservado àquelas pessoas que, como Francisco e Clara, encontram em Deus o eixo central de sua vida. Seu amor não começa nem termina neles mesmos. Impulsionados pela mística24, mergulham profundamente no divino, e, por isto mesmo, profundamente no humano. A verdadeira comunhão consigo e com os outros pressupõe a comunhão com a origem de todo Amor, que é o próprio Deus. 3. Francisco e Clara: símbolos de uma nova humanidade Por mais que se queiram evitar as abstrações, em se tratando de sexualidade e afetividade, isto se torna muito difícil. Ainda que por trás de um texto sempre se escondam as experiências do Autor, nenhuma linguagem é capaz de traduzir melhor o que significa integrar sua sexualidade, do que os exemplos plásticos de quem o conseguiu com êxito admirável. Indiscutivelmente, Francisco e Clara se constituem num dos mais acabados exemplos de humanização de um homem e de uma mulher. São como que duas legendas. Ele é a expressão masculina do Evangelho; ela a expressão feminina. Os dois juntos são uma imagem humana do rosto ao mesmo tempo paterno e materno do próprio Deus. Por isto estão indissoluvelmente ligados entre si na recordação da cidade de Assis: " ... é realmente difícil separar esses dois nomes, esses dois fenômenos... Francisco e Clara, essas duas lendas... Francisco e Clara25. Diante destas duas figuras, que tão bem se completam, ao mesmo tempo que mantêm sua identidade própria, importa perguntar-se pelos segredos de sua realização. Os dois vivem numa mesma cidade, num mesmo tempo, nascidos 23 São João é o Evangelista que mais acentua o Amor, que ele prefere chamar de Agape. Quer acentuar as dimensões totalizantes da entrega a Deus, ou ao próximo, mas na perspectiva de Deus. Isto transparece tanto no seu Evangelho, quanto nas suas duas cartas. 24 Cf. GEBARA, I. Mística e política na experiência das mulheres. Grande Sinal, v. XLIV (1990) p. 42: "Mística seria uma espécie de energia vital que leva a agir a partir de uma motivação fundamental, a partir de um certo número de valores dos quais não se pode abrir mão sem o risco de perder a própria vida... Expressa a transcendência da vida, existencial e independentemente da pressão dos conceitos". 25 Cf. Discurso improvisado do Papa João Paulo II às Clarissas de Assis, aos 12 de março de 1986. Fontes Clarianas (tradução, introduções, notas e índices por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap), CEFEPAL, Petrópolis, 1993, 228. 14 num berço semelhante. Por isto, antes de mais nada é interessante recordar suas experiências fontais. Entretanto, só isto não é suficiente para desvendar os segredos de sua humanização e para considerá-los símbolos de uma nova humanidade. De acordo com a temática que nos ocupa, faz-se mister perguntar-se como integraram os valores da masculinidade e da feminilidade. Com isto podemos, talvez, chegar a entender melhor o relacionamento dos dois, o relacionamento humanizante de um homem e de uma mulher, e como isto pode ser significativo em termos da construção de uma nova humanidade. Encontramo-nos diante de uma experiência singular, limitada, mas ilustrativa. 3.1. Como nascem as roseiras Sabidamente o equilíbrio psicológico de uma pessoa depende muito do contexto em que vive. Depende sobretudo das experiências fontais em termos afetivos. "A utopia evangélica de Francisco e Clara não foi vivida no ar mas em condições históricas e sociais concretas26. É neste sentido que convém recordar o berço destas duas figuras singulares. Vivendo no final do século XII e nos inícios do século XIII, Francisco e Clara não encontraram um contexto sociopolítico dos mais favoráveis27. Pelo contrário, conheceram as turbulências próprias de um período de transformações profundas em todos os sentidos. Ocupação, guerra de libertação, tratados de paz, sonhos de grandeza e incertezas sobre o futuro, ao mesmo tempo que despertam as mais profundas energias, desafiam as sínteses pessoais e sociais. Se Francisco e Clara não encontram um contexto social dos mais favoráveis, encontram, porém, uma atmosfera familiar que os marca profunda e positivamente. Mesmo o fato de Francisco romper com o pai28 não significa que este lhe tenha deixado marcas negativas. Até, pelo contrário, do pai teria herdado "a coragem, o gosto pela viagem, pela aventura, pela luta, pela conquista de glória e posições e até a prodigalidade (pois era rico)”29. Francisco rompeu com alguns traços da personalidade do pai, muito voltado para os bens materiais, e por isto fechado aos apelos do espírito. O fato é que Francisco e Clara nascem e crescem num ambiente de "nobreza", com tudo o que isto significa em termos de virtudes e vícios. Eles nascem e crescem no denominado "Século do Amor", cantado em prosa e verso por tantos jograis. Cavalheiros e Damas não povoam apenas os castelos, mas também os sonhos 26 Cf. RITO, H. Utopia de Clara e Francisco. REB, setembro 1994, p. 601. Cf. MAZZUCO, V. Francisco de Assis e o modelo de amor cortês-cavaleiresco. Petrópolis: Vozes, 1994, 30; 64s. 27 28 Cf. 1 CELANO 6,13s, onde vem narrado um dos episódios mais decisivos da conversão de Francisco: seu pai, irado por vê-lo desfazer-se dos bens, exigiu, diante do bispo de Assis, que tudo lhe fosse devolvido. Francisco "despiu-se imediatamente, jogou ao chão suas roupas e as devolveu ao pai. Pode-se dizer que Francisco rompeu sociologicamente com seu pai Pedro Bernardone, mas não rompeu afetivamente com seu arquétipo de pai. Cf. TEIXEIRA, F.C.M., São Francisco e o feminino, em Cadernos Franciscanos, 2. Petrópolis: Vozes/CEFEPAL, 1991, 28. 29 TEIXEIRA, F.C.M. op. cit, 28. 15 dos jovens de então30. O que ocorre com Francisco e Clara não é uma rejeição do seu contexto e do seu tempo, mas uma canalização: uma mesma mística de fundo, a mística do seu tempo, mas em direção diferente31. Isto, certamente, teria sido muito difícil sem um berço paterno e materno de amor. De um modo mais explícito no que se refere a Francisco, as fontes afirmam que seus pais "o amavam com muita ternura”32. Como vimos acima, Francisco assume certos traços do pai. E estes traços jamais desaparecerão de sua personalidade. Apesar de extremamente terno, é um homem decidido, que toma decisões refletidas, e uma vez assumidas vai até o fim. Isto fica patente nas grandes opções de sua vida: nenhuma barreira é capaz de detê-lo. Mas é sobretudo a figura da mãe que marca Francisco de modo mais decisivo. Dela se diz que era "amiga de toda honestidade, mulher de uma fé profunda, de um férvido amor a Deus, de uma grande caridade para com o próximo, de uma pureza, mansidão e generosidade a toda prova”33. Ela foi, certamente, a primeira figura feminina que deixou nele os traços da cortesia, da reverência, da sensibilidade pelo belo e pela natureza, a compaixão pelo sofredor. Algo de muito parecido ocorre igualmente com Clara. Ainda que se fale pouco de seu pai e de sua mãe, a mulher que Clara foi seria quase inexplicável sem o "berço" que teve. 3.2. Quando as roseiras florescem Contexto familiar e social podem favorecer o processo de humanização. Mas há sempre um longo caminho que as próprias pessoas têm que percorrer para atingir esta meta. Francisco e Clara não só tinham raízes implantadas num clima, até certo ponto propício, como "trabalharam" sua sexualidade, integrando em si o que à primeira vista pode parecer o oposto. "O amor em si não é nem masculino, nem feminino. Ele transcende essa dualidade de expressão. O masculino e o feminino, por sua vez, se tornam formas de concretização do amor. Há, portanto, um modo masculino e um modo feminino de amar, ou, em outras palavras, homem e mulher expressam o amor de formas diferentes, empenhando cada um nessa expressão todo o seu ser com todas as suas diferenças e características34. Nem Francisco nem Clara deixaram seu modo, respectivamente, masculino e feminino, de amar. Mas ambos assimilaram, de modo extraordinário, os valores comumente atribuídos ao outro sexo. Por isto, num primeiro momento, convém separá-los, para depois ressaltar melhor a reciprocidade. 30 Cf. MAZZUCO, V. op. cit., 102s. 31 Cf. Id., op. cit., 47s. 32 Leg3C, 2. 33 Cf. FRANCCHINETTI, V. San Francesco d'Assisi nella storia, nella legenda e nell'arte. Milano, 1926,11-12. 34 TEIXEIRA, C.M. op. cit, 26. 16 Francisco traduz uma espiritualidade que privilegia o cunho materno como paradigma de amor que deve unir os irmãos em sua fraternidade. "Amar", "nutrir", "servir", "dar a própria vida", são termos eminentemente matemos. Pois são eles os termos-chave de uma das determinações encontradas na Regra dos Frades Menores: "E onde quer que estiverem e se encontrarem os irmãos, mostrem-se familiares entre si. E, com confiança, manifeste um ao outro as suas necessidades, porque, se uma mãe ama e nutre seu filho carnal, com quanto maior diligência não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual"?35 Como bem anota São Boaventura, seu biógrafo oficial, Francisco "parecia ter carinho de mãe" para com seus companheiros: "Ele os gerava todos os dias, como uma mãe, em Cristo"36. Os que exerciam algum cargo na Ordem, eram comparados a uma mãe, e ele mesmo se compara à mulher estéril que gerou muitos filhos, ou então, à "galinha que gerou muitos pintainhos"37. O que Francisco não apenas prescreveu, mas viveu com intensidade, vai aparecer também na sua concepção de virtude. As virtudes por ele vividas e decantadas, não só são femininas, mas são denominadas de "senhoras". É o que transparece, de modo sintético, na oração-poema de São Francisco: Salve rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a santa e pura simplicidade! Senhora Santa pobreza, o Senhor te guarde por tua irmã, a humildade! Senhora santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã a obediência! Santíssimas virtudes, guarde-vos todas o Senhor, de quem procedeis e vindes38. O equilíbrio masculinidade-feminilidade, porém, vai aparecer de um modo ainda mais evidente no Cântico das Criaturas, onde Francisco derrama sua "alma": a simetria perfeita entre os elementos masculinos e femininos da Natureza (sol-lua e estrelas; vento-água; fogo-terra; pecado-morte corporal), aberta e fechada pelos louvores ao Criador, só poderia irromper de uma personalidade harmônica39. Algo de muito parecido se deve dizer de Clara. Francisco encama mais nitidamente os valores "solares", ou seja, assimilou harmonicamente atributos da feminilidade, mas personaliza a masculinidade. Clara encarna mais nitidamente os valores "lunares", ou seja, assimilou harmonicamente atributos da masculinidade, mas personaliza a feminilidade40. Ela se considera a "esposa" de Jesus Cristo crucificado; assume atitudes maternas em relação às 35 36 37 38 RnB, 6,8. LM, 8,1; 3,7-8. 2C 24; Leg3C, 63. SdVi, 1-4. 39 "Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmão sol... Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas... Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão o vento, pelo ar... Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água... Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão Fogo... Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a mãe terra..." 40 Cf. PEDROSO, J.C. Clara, a mulher. Cadernos Franciscanos, 2, op. cit., p. 39. 17 co-irmãs, mas também em relação aos frades; suas imagens literárias são perspassadas de roupas, flores e espelhos, componentes bem femininos, Contudo, a integração da masculinidade fica bem patente nas atitudes que assumiu: ao fugir de sua casa paterna e resistir às pressões dos parentes; ao enfrentar papas e cardeais quando se tratava de defender a pobreza e a vida fraterna; ao ser a primeira mulher na história da vida religiosa a escrever, ela mesma, a Regra e o Testamento; ao enfrentar corajosamente os sarracenos; ao traçar o rosto feminino do próprio franciscanismo. 3.3. Quando a Philia se transforma em Ágape É verdade que as fontes franciscanas tendem, em algumas passagens, a mostrar alguns ressaibos negativos de Francisco em relação às mulheres41. Isto encontraria uma tríplice explicação: na linha de o próprio Francisco distanciar os frades de uma concepção que vê na mulher um objeto de prazer; na linha de os biógrafos estarem preocupados com possíveis mal-entendidos dos discípulos, que afinal nem sempre teriam a mesma mística do Mestre; na linha de uma sublimação do feminino, por parte de Francisco. Contudo, nenhum biógrafo ousa negar a profunda amizade que caracterizou o relacionamento de Francisco e Clara. Como, aliás, igualmente, nenhum deles ousou questionar a amizade de Francisco com a "Irmã Jacoba", com a qual mantém vínculos tais que não hesita em pedir que ela lhe enviasse "daquele doce que me preparou tantas vezes, quando eu ia a Roma”42. Pelo contrário, o que se ressalta é que, já antes de Clara deixar a família, "é grande o desejo de Francisco de encontrar Clara e de falar com ela para ver se, de algum modo, lhe seja concedido arrancar ao mundo perverso essa nobre presa e reivindicá-la para o seu Senhor43. São muitos os episódios que falam da grande amizade e dedicação de Clara por Francisco e também do carinho que ele tinha por ela. Clara considerava Francisco como seu inspirador, uma espécie de arquétipo de homem-de-Deus, que a fascinava. Francisco, por sua vez, retribuía este sentimento, de modo cavalheiresco44. Se diz mais, que "ele a visita, mas é ela quem o visita mais vezes, regulando a freqüência dos encontros, de maneira que aquela atração divina não fosse percebida pelas pessoas e que não surgissem murmurações públicas que a manchassem45. 41 Cf. TEIXEIRA, C. op. cit., 25. Cf. tb. MONTES, I.S. Lo feminino en la vida y espiritualidad de Francisco de Asís. Selecciones de Franciscanisino 63 (1992), p. 449, fala neste particular de uma tríplice tensão entre realidade histórica, textos de Francisco e textos dos biógrafos. Na p. 453 atribui a misoginia de Francisco ao clichê hagiográfico medieval". 42 Id. ibid., 23s. Jacoba de Settesoli era uma nobre romana, que merecera a afeição toda especial de Francisco. Foi a única pessoa, cuja presença ele pediu junto ao leito de morte. A frase "mande-me também daquele doce que me preparou tantas vezes, quando eu ia a Roma" é bem expressiva desta admiração recíproca. 43 Legenda de Santa Clara, 5. 44 Cf. TEIXEIRA, C. op. cit., 21. 45 Legenda de Santa Clara, 5. 18 É nesta altura que cabe uma interrogação de fundamental importância para o nosso tema: como explicar uma amizade ao mesmo tempo tão grande e tão pura entre um homem e uma mulher? Aqui aparece o segredo de Francisco e Clara: ambos eram atraídos por uma realidade superior. Como observa a Legenda de Santa Clara, não era um quem atraía o outro, mas "o Pai dos espíritos atraía a ambos, embora de modos diversos”46. Aqui se percebe melhor o que diferencia Eros e Ágape: o primeiro centra as pessoas em si mesmas, ou no seu relacionamento; o segundo os refere a Algo que transcende a ambos. Por trás do Ágape esconde-se sempre uma mística. Tanto para Francisco como para Clara, só Deus é o sumo Bem e todo Bem. "O varão, ou respectivamente a mulher, não podem ser o absoluto do coração humano47. Contudo, nem a mística, nem a mediação do Absoluto operam um corte na ternura e no amor: simplesmente o referem a um Amor maior. Este foi o segredo de Clara e Francisco. Por isto "entre ambos existem amor e relações de ternura extraordinária, mas ao mesmo tempo uma transparência de intenções e convergência no amor de Deus contra toda e qualquer suspeita48. E esta é a maior contribuição que eles deram à humanidade: o caos no qual vivemos pode se transformar em cosmos. Muito depende do como se vivencia o amor. Conclusão Ao tentar um diagnóstico do momento atual, dificilmente alguém deixa de falar em crise. No que se refere ao nosso sistema de convivência, esta crise vem descrita como "estrutural". Os componentes desta descrição quase sempre trazem palavras-chave: vazio, medo, ansiedade, agressividade, insatisfação generalizada. Mas, como é próprio de momentos assim, também são rastreados valores emergentes. O cansaço produzido pelo império da razão provoca uma busca do que é intuitivo; o excesso do machismo provoca a busca de arquétipos femininos e de tudo o que afeta à subjetividade. "A sociedade mundial no que afeta o relacionamento homem-mulher está sofrendo um deslocamento do seu eixo de gravidade. De uma sociedade patriarcal, assentada sobre o pre-domínio do varão e da racionalidade, está passando para uma sociedade pessoal, centrada sobre a força nucleadora da pessoa e do equilíbrio de suas qualidades49. Ninguém que tenha consciência da complexidade do humano, sobretudo no que se refere aos mecanismos sociais, seria tão ingênuo de colocar o relacionamento masculinidade-feminilidade como eixo único propulsor de uma nova realidade. Da mesma forma, ninguém pode imaginar que pessoas, por 46 Ibid. 47 BOFF, L. São Francisco de Assis... op., cit., 45. 48 ld., ibid. 49 Id., O rosto materno de Deus, op. cit. 13. 19 mais extraordinárias que sejam, consigam imprimir sozinhas um novo ritmo à história. É preciso dizer, com todas as letras, que Francisco e Clara vivenciaram uma experiência espiritual e humana muito singular. Contudo, certas pessoas, entre as quais se elencam Francisco e Clara, expressam aspirações humanas profundas, e neste sentido abrem caminho para outro modo de viver. Ninguém poderá questionar a força mítica de figuras que se transformam em símbolos, mesmo em termos de transformações mais amplas. Isto ocorre sobretudo quando conseguem des-velar algo de mais palpável nesta força poderosa e misteriosa denominada sexualidade. Pois "a sexualidade em seu fundo permanece talvez impermeável à reflexão e inacessível ao domínio humano. Talvez seja esta opacidade que faz... com que ela não possa ser reabsorvida nem em uma ética, nem em uma técnica, porém somente representada simbolicamente, graças ao que de mítico resta em nós50. Comparada com a esfinge de Édipo, a sexualidade detém tanto os segredos do caminho da felicidade, quanto da destruição. Ela devora a quem não desvenda seu segredo. Abre, porém, amplos horizontes, e oferece mesmo as chaves da felicidade, para quem consegue compreendê-la como energia fundamental ao serviço do Amor. Daí podermos sustentar que nos encontramos diante de um desafio decisivo. 50 RICOEUR, P. A maravilha, o descaminho e o enigma. Rio: Paz e Terra, n. 5, 36.