1
FRANCISCO E CLARA: UMA NOVA HUMANIDADE É POSSÍVEL*
Antônio Moser, OFM*
As cenas de violência dominam os Meios de Comunicação Social. O pior é que
também dominam a realidade. Apesar de todos os progressos, no sentido de
serem evitadas as grandes guerras, apesar das numerosas iniciativas no
sentido de se criar clima de reconciliação, apesar de todas as medidas de
segurança, os conflitos e a violência pairam, por toda parte, qual fantasma
ameaçador. Todos temem a todos e todos se defendem como podem. É a
exasperação de uma conflitividade difusa, que pervade todos os níveis do
humano, seja nas relações interpessoais, seja nas relações sociais. Cria-se,
destarte, o círculo da desagregação e do medo. Sem dúvida, são a
conflitividade e a violência indicadores muito expressivos de um "paraíso
perdido", presente nas várias mitologias. Mas seriam a raiz dos outros males
afins, ou somente duas manifestações de algo ainda mais profundo e decisivo?
Muitas são as abordagens tentando elucidar a dramaticidade da nossa história.
Cada uma se constitui numa tentativa de resposta, com alguma validade, mas
não totalmente satisfatória. Por isto as muitas abordagens talvez devam dar
lugar a um enfoque que as englobe e as integre, mas levando a outra
compreensão e apontando para outras soluções. Pensamos que isto seja
possível através de um enfoque de cunho antropológico e teológico, que faça
emergir a profundidade do humanum1, configurada na articulação
masculinidade-feminilidade.
É nesta linha de um enfoque diferente do usual que emergem Francisco e
Clara como expressões da esperança concreta de uma nova humanidade. Não
deixa de ser sintomático o êxito de filmes como “Irmão sol e irmã lua", ou então
simplesmente "Francesco", de L. Cavani. A acolhida entusiasmante por largos
setores da sociedade, particularmente de jovens, não estaria sugerindo que
Francisco e Clara encarnam o sonho de uma nova humanidade? Se, com eles,
já existiu o esboço de algo novo, isto poderá voltar a existir, e talvez de um
modo mais amplo, no sentido de novo relacionamento a nível interpessoal e
social. O segredo deste homem e desta mulher pode ser a chave de caminhos
inusitados, e nem sempre devidamente refletidos.
*
Texto extraído de: MOSER, Antônio. Francisco e Clara: uma nova humanidade é possível. In:
Moreira. A. Herança Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1996, p. 287-307.
*
1
Doutor em Teologia Moral, professor no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis.
Preferimos usar a palavra "Humanum ", no latim, por nos parecer muito mais rica e muito
mais profunda do que o "Humano”, na língua portuguesa. Queremos com isto acentuar
algumas características: ser total; com dimensões múltiplas como corpóreas, psíquicas,
culturais, religiosasetc. Talvez a expressão mais próxima do "humanum" seria a "Natureza
humana". Mas se trata de uma expressão muito comprometida com interpretações fixistas. Por
isto preferimos não recorrer a ela. Cf. sobre isto VIDAL, M. Moral de atitudes. L Aparecida: Ed.
Santuário, 1975, 31s; 137s. Ademais, a palavra "Humanum" nos parece mais apropriada para
designar o ser humano enquanto masculinidade e feminilidade. A "humanidade" resulta da
relação dialética entre homem/mulher.
2
1. As faces múltiplas da humanização-des-umanização
Há um evidente contraste entre o "paraíso", descrito nos primeiros capítulos do
Livro do Gênesis, e o mundo que conhecemos, seja do passado, seja do
presente. Ademais, o contraste independe da localização geográfica e social.
As localizações apenas imprimem níveis e cores diferentes, mas
fundamentalmente não alteram o quadro. É que o "paraíso" descreve um
projeto divino, e o mundo que conhecemos traduz a dramaticidade da nossa
história real, concretizada em contextos diferentes. Ainda que nesta história se
devam reconhecer sinais que fazem acreditar na viabilidade do projeto divino, o
que predomina, ao menos à primeira vista, são os sinais de des-humanização.
Com certeza a dramática história humana não pode ser compreendida de
maneira simplista. Ela é multifacial, tanto nas suas expressões, quanto na
complexidade de fatores que a determinam. Mas talvez algumas palavras
consigam dar uma idéia destas múltiplas faces, e algumas abordagens nos
ajudem a fugir do simplismo causa-efeito. Como palavras-chave que traduzem
nossa realidade podemos elencar a des-humanização, o ódio, a violência.
Como abordagens que nos ajudem a visualizar a complexidade dos porquês,
poderemos apresentar, a título de ilustração, uma de cunho psicanalítico, outra
de cunho político-social, outra de cunho teológico.
1.1. Humanização e des-humanização como processos
É muito significativo o modo como os primeiros capítulos do Gênesis abordam
os dois primeiros pecados. No primeiro, ao tratar do pecado de raiz2, vem
descrito o processo da tentação, do pecado, da culpabilização, da primeira
ruptura da harmonia entre o homem e a mulher, em conseqüência da ruptura
com os planos do Criador. No segundo caso, ao se configurar o primeiro
pecado histórico, após a expulsão do paraíso, a violência emerge como
epílogo. O processo se inicia com a des-humanização de Caím, articula-se com
a inveja e o ódio, para terminar na violência assassina3.
Ao encadearmos estas faces, não estamos querendo sugerir uma espécie de
leitura causal. Muito pelo contrário, queremos sugerir que nos encontramos
diante de fisionomias diferentes de uma mesma realidade humana, onde é
2
O primeiro pecado, também normalmente denominado de "pecado original", encontra-se
relatado no terceiro capítulo do Livro do Gênesis. No dizer do Catecisino da Igreja Católica, “a
doutrina do pecado original é por assim dizer 'o reverso' da Boa Notícia de que Jesus é o
Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação
é oferecida a todos graças a Cristo. A igreja, que tem o senso de Cristo, sabe perfeitamente
que não se pode atentar contra a revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de
Cristo" (Vozes, Paulinas, Loyola, Ave-Maria, 1993, n. 389). Trata-se, portanto, de um
referencial indiscutível para os cristãos. O problema todo consiste em como interpretar essa
realidade inconteste, e que atinge as raízes mais profundas do ser humano.
3
O relato do primeiro pecado "histórico" encontra-se no capítulo 4 do Livro do Gênesis, onde
vem descrito exatamente o processo do crescente ódio de Caím contra Abel, até culminar com
o homicídio. É interessante observar que todo o primeiro capítulo da recentíssima Encíclica
"Evangelium Vitae", do Papa João Paulo II, se constitui num longo comentário deste homicídio.
Foi na Encíclica que nos inspiramos para acentuar a idéia de um "processo" crescente de
des-humanização de Caim.
3
impossível definir o que vem primeiro e o que vem depois. As três faces se
reforçam mutuamente, traduzindo um mesmo mal que afeta a história humana.
Feita esta ressalva, porém, convém deter-se um pouco sobre estes
componentes, de des-humanização, violência e ódio.
Mesmo antes de nascer, todo ser humano traz consigo um potencial difuso,
que tanto pode levar à humanização, quanto à des-humanização. Este
potencial, originariamente de cunho bio-genético-espiritual, é trabalhado por
numerosos fatores, entre os quais se destacam os religiosos, culturais,
psicológicos, econômicos, políticos e sociais. É neste horizonte que se
compreende o humanum, seja sob o ângulo pessoal, seja sob o ângulo social;
seja na sua positividade, seja na sua negatividade. As pessoas e as
sociedades vão sendo moldadas, num processo contínuo e interminável, ainda
que não sempre retilíneo. De fato, existem avanços e recuos, marcados pela
complexa dinâmica da história, onde exercem um papel importante a cultura
envolvente, os interesses de classes, as coordenadas econômicas, políticas e
sociais, além da carga genético-hereditária. É neste jogo que se concretiza a
humanização ou, então, a des-humanização.
É importante atinar para o fato de este potencial não ser nem bom, nem mau
em si mesmo, como por vezes se pressupõe. As chamadas "paixões" se
caracterizam exatamente por sua ambivalência profunda: podem impulsionar a
vida, ou então a morte; o amor, ou então o ódio; a humanização, ou então a
des-humanização; a graça, ou então o pecado. Neste particular são muito
significativos a violência e o ódio, que no fundo remetem a um mesmo centro
propulsor, a agressividade.
A semântica pode elucidar o que estamos sugerindo: vis, que significa energia,
força, tanto recorda vir (homem), quanto violência; tanto recorda virtude, quanto
vício. Sem esta energia, de cunho selvagem, os seres humanos seriam
abúlicos. Se ela for mal canalizada, pelos fatores acima aludidos, emerge como
destrutividade. Bem canalizada, a mesma força gera luz e calor. Daí as
questões: seriam a conflitividade e a violência constitutivas do ser humano no
mundo? Seriam resultantes de fatores econômico-sociais? Seriam uma espécie
de sina, oriunda de uma primeira grande ruptura, teologicamente denominada
de "Pecado original"? Algumas abordagens explicativas do fenômeno nos
ajudam a elucidar a resposta.
1.2. Abordagens explicativas da agressividade e da conflitividade
Como acenamos acima, muitas são as abordagens possíveis. Preferimos
destacar três, que nos parecem mais significativas: uma de cunho psicanalítico,
outra de cunho político-social, e outra de cunho teológico.
a) Sob o ângulo psicanalítico, Freud, como iniciador da Psicologia do Profundo,
oferece um bom ponto de partida, apesar das conhecidas limitações inerentes
à sua abordagem. Para Sigmund Freud esta energia fundante denomina-se
sexualidade4. Muito mais abrangente do que o mero sexo, seja genético,
4
Sobre isto e sobre nossa interpretação de Freud, cf. FREUD, Sigmund. Cinco Lições de
psicanálise. A história do movimento psicanalítico. Esboço de Psicanálise. Seleção de Jayme
4
cromossômico, biofisiológico, psico-afetivo, sociocultural ou hormonal, a
sexualidade é uma energia que recobre o humano em toda a sua amplitude e
profundidade. Por um lado nos empurra amorosamente ao encontro dos outros,
por outro, nos empurra contra os outros; nos convida a viver e a com-viver; nos
convida a retrair-nos e a morrer. Por um lado revela-se como matéria, natureza,
instinto; por outro, como espírito, cultura, liberdade.
Foi tendo tudo isto em vista, que já Freud diagnosticava a ambivalência radical
da sexualidade. Sob o ângulo positivo, a sexualidade vem recordada por Eros,
o deus do Amor e da Vida; sob o ângulo negativo, ela vem caracterizada como
Thanatos, o ódio e a morte. De fato, ora a sexualidade se apresenta como
desejo de vida, ora de morte; ora como desejo de comunicação, ora de
isolamento; ora de construção, ora de destruição; ora de humanização, ora de
des-humanização. A questão básica que fica parece ser esta: quando a
sexualidade atua como Eros, quando atua como Thanatos?
Evidentemente que, pelas colocações anteriores, não podemos encontrar uma
resposta simples, mas antes, esperar uma resposta complexa, bipolar,
dialética. De qualquer forma, estas colocações já apontam para a sexualidade
como fator decisivo de humanização ou des-humanização; de amor ou ódio; de
paz ou de guerra; de vida ou de morte.
b) A abordagem política da sexualidade pode parecer surpreendente. Já há
muito, desde os estudos de Margareth Mead5, são acentuadas as dimensões
socioculturais da sexualidade. Embora de um ponto de vista biofisiológico ela
se concretize mais ou menos da mesma forma nas mais diversas realidades,
ela sempre é vivenciada de modo diferente nas várias culturas. A cultura
imprime certas marcas inconfundíveis na interpretação de gestos e
comportamentos. Entretanto, apesar desta consciência do papel da cultura na
vivência da sexualidade, à primeira vista, ela pouco teria a ver com o ângulo
político-social, A sexualidade apontaria muito mais para uma dimensão íntima,
pessoal, ou interpessoal. E, contudo, esta se constitui numa das mais
importantes conquistas da sexologia no seu estado atual6. Eros e Thonatos não
são pulsões que atuam somente sobre as pessoas individualmente: elas atuam
igualmente sobre o todo das relações sociais.
Salomão. São Paulo: Ed. Abril, 1974, sobretudo p. 105s; Cf. ainda, do mesmo autor, Cinco
lições de psicanálise e contribuições à psicologia do amor. Rio de Janeiro: Imago, 1973; ou
ainda, Freud, Três Ensaios sobre a teoria da Sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, 1973.
5
Cf, MEAD, M. Macho e Fêmea (um estudo dos sexos num mundo em transformação).
Petrópolis: Vozes, 1971.
6
Cf. MURARO, R.M. Sexualidade, libertação e fé. Petrópolis: Vozes, 1985.
5
A Politologia7 nos assegura que o primeiro contato entre os seres humanos,
seja enquanto pessoas, seja enquanto nações, é sempre de uma estranheza,
revestida de traços de agressividade. O diferente surge, originariamente, como
"inimigo". E nesta linha que certas abordagens teológicas propiciaram o
fenômeno da demonização da mulher. Basta que se pense na queima das
bruxas8. Todo este fenômeno da agressividade-conflitividade leva alguns
estudiosos a sustentar que a agressividade seria constitutiva do humano. Os
demais fatores (econômicos, políticos, sociais, raciais etc.) viriam apenas
"trabalhar" esta agressividade originária9.
Além destas constatações, convém não esquecer os estragos causados em
termos político-sociais por pessoas afetiva e sexualmente desequilibradas.
Como também não são negligenciáveis os estragos causados pela exploração
comercial e, particularmente, pela exploração política e ideológica da
sexualidade. Não só grande parte do comércio, como também grande parte
das manobras políticas se movimentam sobre esta base. A política seria uma
complexa rede de intrigas, acirrada pelos mais diversos interesses, mas que,
no fundo, sempre apontaria para o Eros e o Thanatos.
A dimensão político-ideológica da sexualidade, porém, é tão inusitada e tão
importante, que vale à pena apresentá-la melhor. Partindo do exemplo dos
Imperadores romanos, que se serviam de pão e circo para acalmar as
reivindicações sociais do povo, poderíamos dizer que os donos do poder, hoje
mais do que nu se servem do mesmo mecanismo de alienação, só que agora
mais explicita fundados sobre a exploração da sexualidade. Sob este prisma se
compreende o empenho, ao menos consentido, para que os jovens façam
muito sexo e consumas muita droga: com isto se alienam dos grandes
problemas da nação. Compreende4 se ainda o empenho em transformar a
mulher em objeto de cama e mesa: junta com os jovens, elas detêm dois terços
do potencial revolucionário. Afastados os jovens e as mulheres das grandes
decisões, os "dirigentes" pouco têm a temer em termos de eventuais
transformações sociais profundas.
Poder-se-ia, por fim, ainda recordar o papel político-ideológico desempenhado
por certas campanhas de controle da natalidade, uso de preservativos,
esterilização em massa, liberação do aborto. Até que ponto não se
constituiriam em estratégias destinadas a "domesticar", ou mesmo a "eliminar",
certas raças e classes sociais? O fato é que, ao longo da história, se percebe
7
Cf. DAHRENDORF, R. Classi e conflitto di classe nella società industriale. Bari: Ed. Laterza,
1971; CARTHY I.D.-EBLINGE. J. História natural de la agresión. México, 1967; CORNATON,
M. Las raices biopsicológicas y psicológico-sociales de la violencia. Madrid, 1972.
8
Cf. DI GIORGI, Flávio. Desenraizamento e religiosidade dos oprimidos. Magia e Bruxaria.
Cadernos do IFAN, v. 9, p. 7-19, 1994,
9
LORENZ, K. Das sogennante Boese. Zur Naturgeschichte der Agression. Wien: Scholler,
1966.
6
uma ligação profunda entre o modo como se vive a sexualidade e o modo
como se articula a política. Assim, por exemplo, é sintomático que o
desmoronamento dos grandes impérios coincidiram com a desagregação
moral, particularmente no que se refere à sexualidade. Como também o
surgimento dos grandes impérios se deu no contexto de uma vida sexual
saudável.
É certo que o ângulo político-social da sexualidade se evidencia mais na sua
negatividade. Quem reina é o Thanatos, por vezes, disfarçado em Eros.
Contudo, esta seria uma visão muito parcial do ângulo político-social da
sexualidade. De acordo com a já assinalada ambivalência, se deduz que deve
existir uma outra face da moeda. A mesma energia que se esconde por trás
das forças tanáticas que dominam a sociedade, também movimenta as forças
em favor da quebra de todo tipo de barreiras. É ela que está por trás da
miscigenação das raças, dos movimentos de reconciliação, da aproximação
dos povos. Cientificamente falando, é a sexualidade um dos fatores decisivos
que movimenta a "socialização". Teologicamente falando, é ela que viabiliza o
sonho de Deus da construção de uma única família, para além das barreiras
nacionalistas, raciais, religiosas, ideológicas. Nenhuma barreira resiste à força
do amor.
c) Também a abordagem teológica é importante para elucidar o processo de
humanização-desumanização, que nos preocupa. Pretendemos desenvolver
mais a abordagem teológica numa segunda parte, no contexto
masculinidade-feminilidade. Mesmo assim, convém fazer, já aqui, algumas
observações que iluminam as perguntas surgidas acima, e de modo especial a
última: seriam as múltiplas faces da des-humanização uma espécie de sina,
oriunda de uma primeira grande ruptura, teologicamente denominada de
"Pecado original"?
A teologia não se propõe, evidentemente, a substituir as demais ciências. De
alguma forma, ela até as pressupõe. Mas, com um ponto de partida diferente, o
da fé, ela pretende chegar às razões mais definitivas da condição humana no
mundo. Neste contexto não há como ignorar a doutrina cristã sobre o "Pecado
original”10. É verdade que esta doutrina encontra certas resistências. E,
contudo, não há dúvida que, quando bem interpretada e bem entendida, ela se
constitui um referencial indispensável para fugir tanto de um otimismo ingênuo,
quanto de um pessimismo radical.
Ao que tudo indica, o pressuposto do qual se deve partir na leitura do livro do
Gênesis não é o de que nos encontramos diante de um relato "histórico".
Encontramo-nos antes diante de uma produção literária, de caráter teológico,
que tem ante si um drama vivido e sentido. Esta reflexão teológica é feita num
período que a humanidade já apresentava uma estrutura básica de vida social.
Com isto se evidencia que a teologia do "pecado original" não aponta
simplesmente para o passado, mas para uma condição na qual todos nascem.
Muito mais preocupado em abrir caminhos para superar as sombras que
refletem esta condição, do que em expressar causalidade, o autor sagrado nos
10
Cf. nota 2.
7
assegura que a raiz dos nossos males é muito profunda. É tão profunda que
exige a intervenção salvífica do próprio Deus11.
O Deus Criador e Salvador tem projetos para os seres humanos viverem e se
humanizarem dentro da grande obra criadora. Estes projetos são certamente
desafiadores, em consonância com a grandeza do ser humano, criado "um
pouco inferior a um ser divino" (SI 8,6). A multiplicidade contrastante das
criaturas faz pensar antes num caos inicial, do que propriamente num cosmos
previamente harmonizado. Certamente há uma harmonia latente, tanto nos
seres humanos, quanto no todo da Criação. Ela deve, contudo, ser explicitada.
Cabe ao ser humano, como tarefa fundamental, harmonizar-se em meio ao
turbilhão de suas "paixões" e ao turbilhão de forças selvagens dialeticamente
polarizadas12.
A harmonização é possível, mas apresenta certas exigências. A primeira delas
passa pela consciência criatural: o ser humano deverá portar-se como
administrador sábio, e não como "Senhor", já que Deus não renuncia à sua
obra criadora. Pelo contrário, mesmo abrindo espaço para os seres humanos,
no sentido de participarem ativamente no desdobramento desta obra, Deus
mantém sua Senhoria sobre ela. Ele simplesmente confia a gerência aos seres
humanos. A segunda exigência passa pela interdependência: ninguém é maior
do que ninguém. Ninguém é maior ou melhor do que qualquer coisa, já que
também estas últimas são frutos do A morte Deus. A terceira exigência passa
pela colaboração: ninguém consegue nada sozinho. Tudo se torna possível
mediante a "fraternização" resultante do amor, que começa em Deus, passa
pela integração da masculinidade e feminilidade e perpassa todas as criaturas.
O drama inicial e contínuo ao longo da história consiste na quebra destas
pressuposições. É muito expressiva a descrição da primeira tentação:
alimentar-se um fruto proibido para "ser como deuses"13. Afastando-se de Deus
e dos seus projetos amorosos, os seres humanos passam a fugir de Deus, a
lutar entre si e contra as demais criaturas. Em vez de se constituírem como
"irmãos" e "irmãs” emergem como "inimigos" e "inimigas". A consciência
criatural dá lugar à consciência de dominação; a interdependência dá lugar à
concorrência; a fraternidade dá lugar à rivalidade e à violência. As energias que
deveriam ser canalizadas para a cosmificação passam a gerar destruição.
2. Deus os quis diferentes, fecundos e no amor
Com certeza, as três abordagens feitas acima nos deixam ainda mais
perplexos quanto à raiz da dramaticidade da nossa história humana e quanto a
caminhos possíveis de construção de uma nova realidade. Cada uma intui
algo, certamente válido, mas de forma muito setorial. Nada há de
11
Cf. MESTERS, C. Paraíso terrestre: saudade ou esperança. Petrópolis: Vozes, 1971.
12
Cf. MOSER, A. O problema ecológico e suas implicações éticas. Petrópolis: Vozes, 1984,
37s.
13
Cf. Gn 35.
8
surpreendente nisto, já que cada ciência tem sua perspectiva e sua
metodologia próprias.
A Psicologia do Profundo, na intuição do seu fundador, atribui os desequilíbrios
de todo tipo ao modo como se estrutura a sexualidade, seja no nível do Inconsciente, seja no nível pessoal, seja ainda no nível das estruturas
psicossociais introjetadas... A superação destes desequilíbrios pressupõe uma
reorganização sobretudo ao nível do inconsciente pessoal. O acento quase que
exclusivo sobre o inconsciente na sua dimensão pessoal representa um limite
significativo. A compreensão predominantemente negativa da religiosidade
representa outro hiato mais significativo ainda. É tão verdade que Jung, por
exemplo, já sentiu a necessidade de falar de um plano coletivo, e destaca a
importância do fator religioso na superação dos desequilíbrios14.
A abordagem político-ideológica, com razão, ressalta a força dos mecanismos
sociais. Os desequilíbrios resultam, ou ao menos são acirrados, por estruturas
socieconômicas e políticas inadequadas. O processo de humanização se torna
muito difícil sem o desmonte destas estruturas e a construção de outras mais
adequadas. As várias correntes libertadoras destes últimos decênios souberam
valorizar o prisma social, evidenciando inclusive sua importância na gestação
de uma compreensão religiosa. Contudo, como fica sempre mais evidenciado
no momento atual, existem outras dimensões, como a da cultura e a pessoal,
que não podem ser negligenciadas.
A abordagem tradicional do pecado original parece não iluminar
suficientemente a dinâmica histórica. Trata-se de um horizonte que não pode
ser perdido de vista. Contudo, sozinho, não responde aos porquês de uma
história humana tão dramática, nem abre caminho para uma superação onde
transpareça a atuação do ser humano.
É tendo em vista estas contribuições e, ao mesmo tempo, os seus limites, que
julgamos conveniente buscar outro caminho, já conhecido na tradição, mas
deixado nas sombras. Trata-se de evidenciar o humanum enquanto se
concretiza como masculinidade e feminilidade e abre novas perspectivas em
termos de humanização-desumanização. A leitura dos primeiros capítulos do
Gênesis nos oferece algumas coordenadas antropológicas e teológicas
importantes. Em primeiro lugar, ali vem ressaltada a pluriforme diversidade da
obra criadora. Em segundo lugar, as diferenças apresentam-se sob o signo da
fecundidade. Em terceiro lugar, emerge o Amor como substrato fundamental do
processo de humanização.
2.1. Na riqueza das diferenças
14
"Ao longo dos últimos trinta anos - escreve K. JUNG em 1932 - tem-me consultado gente de
todos os países civilizados da terra... Não houve entre meus clientes na segunda metade da
vida - quer dizer, depois dos trinta e cinco anos - um só cujo problema, em última análise, não
fosse o de encontrar uma perspectiva religiosa para a vida. Posso dizer com segurança que
todos eles adoeceram em virtude de terem perdido aquilo que as religiões vivas de todas as
idades têm dado aos seus seguidores, e que nenhum deles foi realmente curado sem ter
readquirido esta perspectiva religiosa (Citado por White, V Deus e a psicanálise. Lisboa:
Moraes Editora, 1964, p. 97-98).
9
Reconhecidamente uma mesma realidade permite leituras diversas e até
contrastantes. Ela depende muito do lugar social de quem a faz. Assim se
compreende que, mesmo dentro do campo teológico, uns se inclinem mais
para a leitura harmonizante da Criação; outros busquem na alteridade uma
compreensão mais polarizada; outros ainda se voltem mais para uma leitura de
cunho dialético. As mesmas possibilidades se apresentam também quando se
trata especificamente do humanum concretizado na masculinidade e na
feminilidade. Pelos pressupostos apresentados, e por razões que surgirão
nesta segunda parte, fica claro que nos inclinamos mais para estes dois últimos
tipos de leitura: o da alteridade e o da dialeticidade.
Como já acenamos anteriormente, uma das conquistas da antropologia sexual
contemporânea vem constituída pela percepção da sexualidade como energia
englobante e multifacial. Por um lado, cada uma destas faces constitui uma
dimensão própria na pessoa; por outro, cada uma só pode ser compreendida
na articulação com as demais. Isto já no plano pessoal. A mesma dialética se
faz mais perceptível quando se entende o ser humano nas suas múltiplas
relações "ad extra", tanto as outras pessoas, quanto com o conjunto da
Criação. Por um lado cada ser se apresenta como original, único e irrepetível;
por outro, cada um só existe enquanto sub-siste numa relação com o diferente.
Entretanto, é na relação masculinidade-feminilidade que esta dialética atinge
uma forma quase paradoxal. Por um lado constatam-se semelhanças; por outro
diferenças notáveis. Destes fatos emergem algumas questões fundamentais:
onde se localizam as diferenças e as semelhanças? Como se articulam
masculinidade e feminilidade? Qual o sentido teológico profundo desta
articulação? Qual o móvel secreto da humanização ou des-humanização?
Há semelhanças que logo saltam à vista e que servem de anteparo aos
movimentos unissex, bem como aos movimentos homossexuais. Assim,
sabermos que até pela 8a semana o sexo do embrião humano permanece
aparentemente indiferenciado. Ademais, tanto os testículos, quanto os ovários,
produzem hormônios masculinos e femininos. Tudo é questão de
proporcionalidade15.
No plano socioeconômico e cultural as coisas se complicam ainda mais. Como
Simone de Beauvoir16 mostra muito bem, os papéis sociais atribuídos ao
"homem” e à "mulher" são bastante comprometidos por uma determinada
situação socioeconômica e cultural, que serve de substrato para o plano
ideológico. O homem quer que a mulher seja toda ternura, doçura, intuição,
dependente, porque desta forma mantém a mulher na submissão. Com a
pretensa posse exclusiva da racionalidade, do espírito de iniciativa, da
objetividade, da agressividade, comanda os destinos do mundo. É neste
equívoco, ciosamente cultivado, que se esconde uma das chaves de
interpretação para a violência brutal que domina nossa história. Calcando a
15
Cf. BOFF, L. O rosto materno de Deus. Ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas
formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1979, p. 61s.
16
BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980.
10
mulher e o lado feminino do humano, o homem simplesmente abafa a
feminilidade, mata a ternura nele mesmo.
Claro que também a mulher dispõe de mecanismos de dominação. Mas esta
constatação só vem reforçar nossa tese central, que não é nem androcêntrica,
nem ginocêntrica. Ela se apóia na pressuposição de que uma das raízes mais
profundas dos nossos desequilíbrios pessoais e sociais encontra-se
exatamente o desequilíbrio da relação masculinidade-feminilidade.
Com certeza existem diferenças que remetem ao "nascimento": diferenças
biológicas, hormonais, psicológicas... Não há como negar a importância do
fator biológico na determinação das diferenças comportamentais. Se não
podemos falar de uma programação genética fixa, própria para cada sexo,
podemos, contudo, falar de matrizes diferentes no homem e na mulher17. Mas,
com certeza, também existem diferenças que se estabelecem de acordo com
as culturas e a evolução histórica. A questão que fica é a de como se articulam
estas semelhanças e diferenças.
Alguns estudiosos acentuam as diferenças, outros as semelhanças. Alguns falam em polaridade; outros em complementaridade; outros em reciprocidade;
outros em analéptica18. Polaridade significa marcar as diferenças como
oposição. A atração sexual entre homem e mulher se explicaria pela força dos
contrários. Complementaridade significa acentuar a insuficiência de cada um,
isoladamente. Reciprocidade significa um movimento dialético, onde se
reconhecem momentos de polaridade e de complementaridade, mas se
acentua o face-a-face. O fato é que ninguém consegue se integrar sozinho. É
pelas diferenças que nós nos conhecemos. É convivendo com os outros
diferentes que nós nos "construímos" diferentes e semelhantes ao mesmo
tempo.
2.2. Na fecundidade
A integração da sexualidade é um desafio primordial para qualquer ser
humano. E ela passa sempre pela reciprocidade. Isto é válido tanto para os que
vivem no matrimônio, quanto para os que vivem no celibato; tanto no plano
interpessoal, quanto social. Ao contrário do que ocorre com o animal, no caso
do ser humano a integração não é automática. É sempre uma aventura
dramática. Mas o que significa integrar a própria sexualidade? Como
alcançá-la?
O texto do Gênesis, ao dizer que Deus criou o ser humano como varão/mulher,
nos oferece um bom ponto de partida. O humanum não equivale nem só ao
homem, nem só à mulher. "Ela é osso dos meus ossos, e carne da minha
carne" (Gn 2,23) é a primeira e mais sensacional descoberta de Adão. A
mulher tematiza mais a feminilidade, mas não a esgota. Pois há elementos de
feminilidade também no varão. O varão tematiza mais a masculinidade, mas
não a esgota, pois ela também está na mulher. Sendo assim, a mulher
17
BOFF, L. O rosto materno... op. cit. 52.
18
Id., ibid., 71-72.
11
"perfeita" não é aquela que anula os elementos atribuídos primordialmente à
masculinidade, mas aquela que os integra, sem perder sua feminilidade. O
varão "perfeito" não é aquele que anula os elementos atribuídos
primordialmente à feminilidade, mas aquele que os integra em si, sem perder
sua masculinidade.
Destarte, se evidencia que o humanum não é constituído por uma mônada: é
bipolar.
O feminino que existe como dimensão em cada homem-varão e em homem-mulher
exprime um pólo de obscuridade, de terra, de sentimento, de receptividade, de poder
gerador, de vitalidade do humano. O masculino no homem varão e mulher exprime o
outro pólo do humano que é de luz, de sol, de tempo, de impulso, de poder suscitador,
de ordem, de exterioridade, de objetividade e de razão19.
É interessante observar que já Platão no seu Banquete narra haver Zeus
inicialmente criado o Homem como ser andrógino: homem e mulher ao mesmo
tempo, juntos, colados. Mas, diante da força deste ser, Zeus achou por bem
separá-los. O homem e a mulher juntos são tão fortes quanto os deuses. Como
também o são cada homem e cada mulher que trabalham adequadamente a
relação masculino-feminino. Jung, por sua vez, afirma que cada varão traz em
si uma anima e cada mulher um animus. Quer com isto assumir numa
linguagem moderna o que já era intuição muito antiga.
À luz destas colocações se compreende melhor que o "sede fecundos" se
constitua num mandamento primordial, e paralelamente a esterilidade
compreendida como maldição. Pelo que vimos se deduz, antes de mais nada,
que o sentido profundo das diferenças aponta para a fecundidade. E é no
cultivo das diferenças, mas articuladas, que se dá a fecundidade, em todos os
níveis, inclusive social. A diferença dos sexos e a pluralidade de raças e
culturas se constituem num grande desafio, mas também numa condição
inegociável para a fecundidade. A antropologia bíblica não é homo, mas é
heterossexual. É na diversidade que se concretiza a fecundidade. Claro que
não se trata de uma fecundidade meramente reprodutiva e biológica, embora
esta seja a mais evidente. Existe igualmente uma fecundidade espiritual, de
quem não gera nada, mas dá condições para que o amor e a vida surjam e se
desenvolvam. Deus não é procriador, mas está na origem de toda
fecundidade20.
A integração ou des-integração da sexualidade se dá, portanto, exatamente
nesta interação contínua entre homem e mulher, entre masculinidade e
feminilidade. O varão e a mulher se fazem um sob o olhar do outro, e isto
também num plano social. A integração pessoal pressupõe um clima social
favorável. O clima social no qual vivemos, marcado pelo individualismo, pelo
isolamento e pelo nacionalismo, explica muitos casos de desintegração
patente, tanto naqueles que vivem no celibato, quanto naqueles que vivem no
19
20
Id. Ibid., 65-66.
Cf. MOSER, A. Paternidade responsável e mentalidade contraceptiva. Petrópolis: Vozes,
1976, 12-17.
12
matrimônio, tanto para os que vivem na abstinência, quanto para os que vivem
relações carnais.
2.3. No Amor sem limites
Teoricamente, a integração masculino-feminino é facilitada pelo matrimônio.
Mas como o matrimônio não é uma ilha, nem tudo fica resolvido
automaticamente. Pois o êxito ou fracasso no matrimônio não depende apenas
dos cônjuges, ou do quadro estritamente familiar. Sobre eles incidem, com
força, outros fatores, mormente econômicos, sociais, políticos e religiosos.
Também a vida no celibato, mesmo "por causa do Reino", coloca um desafio
primordial para a integração para as diversas dimensões próprias do ser
humano. Pois quem opta por ele renuncia a um certo exercício da sexualidade,
mas não à sexualidade mesma. Não renuncia ao amor; não renuncia à
amizade. Renuncia à posse afetiva, renuncia ao prazer genital e ao que se
denomina de amor conjugal.
Mas o celibatário precisa buscar outras formas de amor, em sintonia com a
renúncia "por causa do Reino". Não busca substitutivos, mas formas diferentes
de integração. Quanto mais clara for a opção pelo Reino, mais fácil se torna a
"canalização" das energias sexuais. Quanto menos clara a opção, tanto mais
difícil a integração. Neste processo há algo que não se explica, mas que se
pode vivenciar e constatar. De qualquer forma, sempre sobra a pergunta sobre
o móvel último da relação homem/mulher, masculino-feminino. Qual é a força
que deve empurrá-los um ao encontro do outro? É nesta altura que o Amor
surge como componente central de um relacionamento integrador. A mais
tradicional abordagem teológica já o apresenta nesta condição: Deus é Amor;
criou tudo por Amor e para o Amor. Os projetos de Deus são de comunhão em
todos os níveis. Por aí se percebe por que o pecado pode ser definido como
desamor e quem odeia vem denominado de "homicida" por São João21.
Agora, retomando a intuição de Freud sobre Eros e Thanatos, percebemos que
Teologia e Psicologia do Profundo não se opõem naquilo que elas tematizam
como mais fundamental. Apenas os pontos de partida são diferentes e uma
mesma compreensão se situa em níveis diferentes. Com efeito, quando a
sexualidade vem entendida e vivenciada apenas como pulsão de vida ou de
morte, ela não passa de uma força selvagem, profundamente ambivalente.
Para se tornar força geradora de vida ela deve ser "revestida" de outros
elementos. O primeiro deles é o Logos: "Quando o Eros é deixado a si mesmo
aparece a exuberância incontrolada dos sentimentos e das paixões, o
sentimentalismo, o desbragado das emoções, o delírio das pulsões, o êxtase
orgiástico do prazer. Quando se permite ao Logos impor sua dominação aflora
a rigidez, a inflexibilidade, a tirania da norma, a dominação da ordem, o rigor da
disciplina"22. O Eros conjugado com o Logos gera ao mesmo tempo ternura e
vigor.
21
Cf. 1João 3,14.
22
BOFF, L. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1981, p. 28.
13
Contudo, nem o Logos explica suficientemente o quase milagre de uma
geração profunda. Esta exige ainda outro componente espiritual, que é o Não
que o amor se situe fora do âmbito da ambivalência, que caracteriza a
realidade humana. É sintomático observar que amor e ódio também se
articulam dialeticamente. O Eros jamais consegue anular o Thanatos, apenas
pode absorvê-lo numa outra dinâmica. Para se visualizar melhor esta relação
dialética, convém recordar os diferentes níveis do amor. Num primeiro nível ele
se apresenta simplesmente como atração, de cunho psicofísico; é o Eros na
sua manifestação imediata. É aqui que se localiza o "erotismo". Num segundo
nível ele se aprese como Philia, ou seja, é o mesmo Eros, mas "trabalhado" por
outras energias e outras dimensões do humano. É aqui que se situa a
"amizade", uma das formas amor. No terceiro nível o Eros se apresenta como
Agape, no sentido joaneu do termo 23. A este último nível, porém, nem todos
terão acesso. Ele está reservado àquelas pessoas que, como Francisco e
Clara, encontram em Deus o eixo central de sua vida. Seu amor não começa
nem termina neles mesmos. Impulsionados pela mística24, mergulham
profundamente no divino, e, por isto mesmo, profundamente no humano. A
verdadeira comunhão consigo e com os outros pressupõe a comunhão com a
origem de todo Amor, que é o próprio Deus.
3. Francisco e Clara: símbolos de uma nova humanidade
Por mais que se queiram evitar as abstrações, em se tratando de sexualidade e
afetividade, isto se torna muito difícil. Ainda que por trás de um texto sempre se
escondam as experiências do Autor, nenhuma linguagem é capaz de traduzir
melhor o que significa integrar sua sexualidade, do que os exemplos plásticos
de quem o conseguiu com êxito admirável. Indiscutivelmente, Francisco e Clara
se constituem num dos mais acabados exemplos de humanização de um
homem e de uma mulher. São como que duas legendas. Ele é a expressão
masculina do Evangelho; ela a expressão feminina. Os dois juntos são uma
imagem humana do rosto ao mesmo tempo paterno e materno do próprio
Deus. Por isto estão indissoluvelmente ligados entre si na recordação da
cidade de Assis: " ... é realmente difícil separar esses dois nomes, esses dois
fenômenos... Francisco e Clara, essas duas lendas... Francisco e Clara25.
Diante destas duas figuras, que tão bem se completam, ao mesmo tempo que
mantêm sua identidade própria, importa perguntar-se pelos segredos de sua
realização. Os dois vivem numa mesma cidade, num mesmo tempo, nascidos
23
São João é o Evangelista que mais acentua o Amor, que ele prefere chamar de Agape. Quer
acentuar as dimensões totalizantes da entrega a Deus, ou ao próximo, mas na perspectiva de
Deus. Isto transparece tanto no seu Evangelho, quanto nas suas duas cartas.
24
Cf. GEBARA, I. Mística e política na experiência das mulheres. Grande Sinal, v. XLIV (1990)
p. 42: "Mística seria uma espécie de energia vital que leva a agir a partir de uma motivação
fundamental, a partir de um certo número de valores dos quais não se pode abrir mão sem o
risco de perder a própria vida... Expressa a transcendência da vida, existencial e
independentemente da pressão dos conceitos".
25
Cf. Discurso improvisado do Papa João Paulo II às Clarissas de Assis, aos 12 de março de
1986. Fontes Clarianas (tradução, introduções, notas e índices por Frei José Carlos Corrêa
Pedroso, OFMCap), CEFEPAL, Petrópolis, 1993, 228.
14
num berço semelhante. Por isto, antes de mais nada é interessante recordar
suas experiências fontais. Entretanto, só isto não é suficiente para desvendar
os segredos de sua humanização e para considerá-los símbolos de uma nova
humanidade. De acordo com a temática que nos ocupa, faz-se mister
perguntar-se como integraram os valores da masculinidade e da feminilidade.
Com isto podemos, talvez, chegar a entender melhor o relacionamento dos
dois, o relacionamento humanizante de um homem e de uma mulher, e como
isto pode ser significativo em termos da construção de uma nova humanidade.
Encontramo-nos diante de uma experiência singular, limitada, mas ilustrativa.
3.1. Como nascem as roseiras
Sabidamente o equilíbrio psicológico de uma pessoa depende muito do contexto em que vive. Depende sobretudo das experiências fontais em termos
afetivos. "A utopia evangélica de Francisco e Clara não foi vivida no ar mas em
condições históricas e sociais concretas26. É neste sentido que convém
recordar o berço destas duas figuras singulares. Vivendo no final do século XII
e nos inícios do século XIII, Francisco e Clara não encontraram um contexto
sociopolítico dos mais favoráveis27. Pelo contrário, conheceram as turbulências
próprias de um período de transformações profundas em todos os sentidos.
Ocupação, guerra de libertação, tratados de paz, sonhos de grandeza e
incertezas sobre o futuro, ao mesmo tempo que despertam as mais profundas
energias, desafiam as sínteses pessoais e sociais.
Se Francisco e Clara não encontram um contexto social dos mais favoráveis,
encontram, porém, uma atmosfera familiar que os marca profunda e
positivamente. Mesmo o fato de Francisco romper com o pai28 não significa que
este lhe tenha deixado marcas negativas. Até, pelo contrário, do pai teria
herdado "a coragem, o gosto pela viagem, pela aventura, pela luta, pela
conquista de glória e posições e até a prodigalidade (pois era rico)”29. Francisco
rompeu com alguns traços da personalidade do pai, muito voltado para os bens
materiais, e por isto fechado aos apelos do espírito. O fato é que Francisco e
Clara nascem e crescem num ambiente de "nobreza", com tudo o que isto
significa em termos de virtudes e vícios. Eles nascem e crescem no
denominado "Século do Amor", cantado em prosa e verso por tantos jograis.
Cavalheiros e Damas não povoam apenas os castelos, mas também os sonhos
26
Cf. RITO, H. Utopia de Clara e Francisco. REB, setembro 1994, p. 601.
Cf. MAZZUCO, V. Francisco de Assis e o modelo de amor cortês-cavaleiresco. Petrópolis:
Vozes, 1994, 30; 64s.
27
28
Cf. 1 CELANO 6,13s, onde vem narrado um dos episódios mais decisivos da conversão de
Francisco: seu pai, irado por vê-lo desfazer-se dos bens, exigiu, diante do bispo de Assis, que
tudo lhe fosse devolvido. Francisco "despiu-se imediatamente, jogou ao chão suas roupas e as
devolveu ao pai. Pode-se dizer que Francisco rompeu sociologicamente com seu pai Pedro
Bernardone, mas não rompeu afetivamente com seu arquétipo de pai. Cf. TEIXEIRA, F.C.M.,
São Francisco e o feminino, em Cadernos Franciscanos, 2. Petrópolis: Vozes/CEFEPAL, 1991,
28.
29
TEIXEIRA, F.C.M. op. cit, 28.
15
dos jovens de então30. O que ocorre com Francisco e Clara não é uma rejeição
do seu contexto e do seu tempo, mas uma canalização: uma mesma mística de
fundo, a mística do seu tempo, mas em direção diferente31.
Isto, certamente, teria sido muito difícil sem um berço paterno e materno de
amor. De um modo mais explícito no que se refere a Francisco, as fontes
afirmam que seus pais "o amavam com muita ternura”32. Como vimos acima,
Francisco assume certos traços do pai. E estes traços jamais desaparecerão
de sua personalidade. Apesar de extremamente terno, é um homem decidido,
que toma decisões refletidas, e uma vez assumidas vai até o fim. Isto fica
patente nas grandes opções de sua vida: nenhuma barreira é capaz de detê-lo.
Mas é sobretudo a figura da mãe que marca Francisco de modo mais decisivo.
Dela se diz que era "amiga de toda honestidade, mulher de uma fé profunda,
de um férvido amor a Deus, de uma grande caridade para com o próximo, de
uma pureza, mansidão e generosidade a toda prova”33. Ela foi, certamente, a
primeira figura feminina que deixou nele os traços da cortesia, da reverência,
da sensibilidade pelo belo e pela natureza, a compaixão pelo sofredor. Algo de
muito parecido ocorre igualmente com Clara. Ainda que se fale pouco de seu
pai e de sua mãe, a mulher que Clara foi seria quase inexplicável sem o
"berço" que teve.
3.2. Quando as roseiras florescem
Contexto familiar e social podem favorecer o processo de humanização. Mas
há sempre um longo caminho que as próprias pessoas têm que percorrer para
atingir esta meta. Francisco e Clara não só tinham raízes implantadas num
clima, até certo ponto propício, como "trabalharam" sua sexualidade,
integrando em si o que à primeira vista pode parecer o oposto.
"O amor em si não é nem masculino, nem feminino. Ele transcende essa dualidade de expressão. O masculino e o feminino, por sua vez, se tornam formas
de concretização do amor. Há, portanto, um modo masculino e um modo
feminino de amar, ou, em outras palavras, homem e mulher expressam o amor
de formas diferentes, empenhando cada um nessa expressão todo o seu ser
com todas as suas diferenças e características34.
Nem Francisco nem Clara deixaram seu modo, respectivamente, masculino e
feminino, de amar. Mas ambos assimilaram, de modo extraordinário, os valores
comumente atribuídos ao outro sexo. Por isto, num primeiro momento, convém
separá-los, para depois ressaltar melhor a reciprocidade.
30
Cf. MAZZUCO, V. op. cit., 102s.
31
Cf. Id., op. cit., 47s.
32
Leg3C, 2.
33
Cf. FRANCCHINETTI, V. San Francesco d'Assisi nella storia, nella legenda e nell'arte.
Milano, 1926,11-12.
34
TEIXEIRA, C.M. op. cit, 26.
16
Francisco traduz uma espiritualidade que privilegia o cunho materno como
paradigma de amor que deve unir os irmãos em sua fraternidade. "Amar",
"nutrir", "servir", "dar a própria vida", são termos eminentemente matemos. Pois
são eles os termos-chave de uma das determinações encontradas na Regra
dos Frades Menores: "E onde quer que estiverem e se encontrarem os irmãos,
mostrem-se familiares entre si. E, com confiança, manifeste um ao outro as
suas necessidades, porque, se uma mãe ama e nutre seu filho carnal, com
quanto maior diligência não deve cada um amar e nutrir a seu irmão
espiritual"?35 Como bem anota São Boaventura, seu biógrafo oficial, Francisco
"parecia ter carinho de mãe" para com seus companheiros: "Ele os gerava
todos os dias, como uma mãe, em Cristo"36. Os que exerciam algum cargo na
Ordem, eram comparados a uma mãe, e ele mesmo se compara à mulher
estéril que gerou muitos filhos, ou então, à "galinha que gerou muitos
pintainhos"37.
O que Francisco não apenas prescreveu, mas viveu com intensidade, vai aparecer também na sua concepção de virtude. As virtudes por ele vividas e
decantadas, não só são femininas, mas são denominadas de "senhoras". É o
que transparece, de modo sintético, na oração-poema de São Francisco:
Salve rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a santa e pura
simplicidade! Senhora Santa pobreza, o Senhor te guarde por tua irmã, a humildade!
Senhora santa caridade, o Senhor te guarde por tua santa irmã a obediência!
Santíssimas virtudes, guarde-vos todas o Senhor, de quem procedeis e vindes38.
O equilíbrio masculinidade-feminilidade, porém, vai aparecer de um modo
ainda mais evidente no Cântico das Criaturas, onde Francisco derrama sua
"alma": a simetria perfeita entre os elementos masculinos e femininos da
Natureza (sol-lua e estrelas; vento-água; fogo-terra; pecado-morte corporal),
aberta e fechada pelos louvores ao Criador, só poderia irromper de uma
personalidade harmônica39.
Algo de muito parecido se deve dizer de Clara. Francisco encama mais
nitidamente os valores "solares", ou seja, assimilou harmonicamente atributos
da feminilidade, mas personaliza a masculinidade. Clara encarna mais
nitidamente os valores "lunares", ou seja, assimilou harmonicamente atributos
da masculinidade, mas personaliza a feminilidade40. Ela se considera a
"esposa" de Jesus Cristo crucificado; assume atitudes maternas em relação às
35
36
37
38
RnB, 6,8.
LM, 8,1; 3,7-8.
2C 24; Leg3C, 63.
SdVi, 1-4.
39
"Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o irmão sol...
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e as estrelas... Louvado sejas, meu Senhor, pelo
irmão o vento, pelo ar... Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água... Louvado sejas, meu
Senhor, pelo irmão Fogo... Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã a mãe terra..."
40
Cf. PEDROSO, J.C. Clara, a mulher. Cadernos Franciscanos, 2, op. cit., p. 39.
17
co-irmãs, mas também em relação aos frades; suas imagens literárias são
perspassadas de roupas, flores e espelhos, componentes bem femininos,
Contudo, a integração da masculinidade fica bem patente nas atitudes que
assumiu: ao fugir de sua casa paterna e resistir às pressões dos parentes; ao
enfrentar papas e cardeais quando se tratava de defender a pobreza e a vida
fraterna; ao ser a primeira mulher na história da vida religiosa a escrever, ela
mesma, a Regra e o Testamento; ao enfrentar corajosamente os sarracenos;
ao traçar o rosto feminino do próprio franciscanismo.
3.3. Quando a Philia se transforma em Ágape
É verdade que as fontes franciscanas tendem, em algumas passagens, a
mostrar alguns ressaibos negativos de Francisco em relação às mulheres41.
Isto encontraria uma tríplice explicação: na linha de o próprio Francisco
distanciar os frades de uma concepção que vê na mulher um objeto de prazer;
na linha de os biógrafos estarem preocupados com possíveis mal-entendidos
dos discípulos, que afinal nem sempre teriam a mesma mística do Mestre; na
linha de uma sublimação do feminino, por parte de Francisco. Contudo,
nenhum biógrafo ousa negar a profunda amizade que caracterizou o
relacionamento de Francisco e Clara. Como, aliás, igualmente, nenhum deles
ousou questionar a amizade de Francisco com a "Irmã Jacoba", com a qual
mantém vínculos tais que não hesita em pedir que ela lhe enviasse "daquele
doce que me preparou tantas vezes, quando eu ia a Roma”42.
Pelo contrário, o que se ressalta é que, já antes de Clara deixar a família, "é
grande o desejo de Francisco de encontrar Clara e de falar com ela para ver
se, de algum modo, lhe seja concedido arrancar ao mundo perverso essa
nobre presa e reivindicá-la para o seu Senhor43. São muitos os episódios que
falam da grande amizade e dedicação de Clara por Francisco e também do
carinho que ele tinha por ela. Clara considerava Francisco como seu inspirador,
uma espécie de arquétipo de homem-de-Deus, que a fascinava. Francisco, por
sua vez, retribuía este sentimento, de modo cavalheiresco44. Se diz mais, que
"ele a visita, mas é ela quem o visita mais vezes, regulando a freqüência dos
encontros, de maneira que aquela atração divina não fosse percebida pelas
pessoas e que não surgissem murmurações públicas que a manchassem45.
41
Cf. TEIXEIRA, C. op. cit., 25. Cf. tb. MONTES, I.S. Lo feminino en la vida y espiritualidad de
Francisco de Asís. Selecciones de Franciscanisino 63 (1992), p. 449, fala neste particular de
uma tríplice tensão entre realidade histórica, textos de Francisco e textos dos biógrafos. Na p.
453 atribui a misoginia de Francisco ao clichê hagiográfico medieval".
42
Id. ibid., 23s. Jacoba de Settesoli era uma nobre romana, que merecera a afeição toda
especial de Francisco. Foi a única pessoa, cuja presença ele pediu junto ao leito de morte. A
frase "mande-me também daquele doce que me preparou tantas vezes, quando eu ia a Roma"
é bem expressiva desta admiração recíproca.
43
Legenda de Santa Clara, 5.
44
Cf. TEIXEIRA, C. op. cit., 21.
45
Legenda de Santa Clara, 5.
18
É nesta altura que cabe uma interrogação de fundamental importância para o
nosso tema: como explicar uma amizade ao mesmo tempo tão grande e tão
pura entre um homem e uma mulher? Aqui aparece o segredo de Francisco e
Clara: ambos eram atraídos por uma realidade superior. Como observa a
Legenda de Santa Clara, não era um quem atraía o outro, mas "o Pai dos
espíritos atraía a ambos, embora de modos diversos”46. Aqui se percebe
melhor o que diferencia Eros e Ágape: o primeiro centra as pessoas em si
mesmas, ou no seu relacionamento; o segundo os refere a Algo que
transcende a ambos. Por trás do Ágape esconde-se sempre uma mística.
Tanto para Francisco como para Clara, só Deus é o sumo Bem e todo Bem. "O
varão, ou respectivamente a mulher, não podem ser o absoluto do coração
humano47. Contudo, nem a mística, nem a mediação do Absoluto operam um
corte na ternura e no amor: simplesmente o referem a um Amor maior.
Este foi o segredo de Clara e Francisco. Por isto "entre ambos existem amor e
relações de ternura extraordinária, mas ao mesmo tempo uma transparência de
intenções e convergência no amor de Deus contra toda e qualquer suspeita48.
E esta é a maior contribuição que eles deram à humanidade: o caos no qual
vivemos pode se transformar em cosmos. Muito depende do como se vivencia
o amor.
Conclusão
Ao tentar um diagnóstico do momento atual, dificilmente alguém deixa de falar
em crise. No que se refere ao nosso sistema de convivência, esta crise vem
descrita como "estrutural". Os componentes desta descrição quase sempre
trazem palavras-chave: vazio, medo, ansiedade, agressividade, insatisfação
generalizada. Mas, como é próprio de momentos assim, também são
rastreados valores emergentes. O cansaço produzido pelo império da razão
provoca uma busca do que é intuitivo; o excesso do machismo provoca a
busca de arquétipos femininos e de tudo o que afeta à subjetividade. "A
sociedade mundial no que afeta o relacionamento homem-mulher está
sofrendo um deslocamento do seu eixo de gravidade. De uma sociedade
patriarcal, assentada sobre o pre-domínio do varão e da racionalidade, está
passando para uma sociedade pessoal, centrada sobre a força nucleadora da
pessoa e do equilíbrio de suas qualidades49.
Ninguém que tenha consciência da complexidade do humano, sobretudo no
que se refere aos mecanismos sociais, seria tão ingênuo de colocar o
relacionamento masculinidade-feminilidade como eixo único propulsor de uma
nova realidade. Da mesma forma, ninguém pode imaginar que pessoas, por
46
Ibid.
47
BOFF, L. São Francisco de Assis... op., cit., 45.
48
ld., ibid.
49
Id., O rosto materno de Deus, op. cit. 13.
19
mais extraordinárias que sejam, consigam imprimir sozinhas um novo ritmo à
história. É preciso dizer, com todas as letras, que Francisco e Clara
vivenciaram uma experiência espiritual e humana muito singular. Contudo,
certas pessoas, entre as quais se elencam Francisco e Clara, expressam
aspirações humanas profundas, e neste sentido abrem caminho para outro
modo de viver. Ninguém poderá questionar a força mítica de figuras que se
transformam em símbolos, mesmo em termos de transformações mais amplas.
Isto ocorre sobretudo quando conseguem des-velar algo de mais palpável
nesta força poderosa e misteriosa denominada sexualidade. Pois "a
sexualidade em seu fundo permanece talvez impermeável à reflexão e
inacessível ao domínio humano. Talvez seja esta opacidade que faz... com que
ela não possa ser reabsorvida nem em uma ética, nem em uma técnica, porém
somente representada simbolicamente, graças ao que de mítico resta em
nós50.
Comparada com a esfinge de Édipo, a sexualidade detém tanto os segredos do
caminho da felicidade, quanto da destruição. Ela devora a quem não desvenda
seu segredo. Abre, porém, amplos horizontes, e oferece mesmo as chaves da
felicidade, para quem consegue compreendê-la como energia fundamental ao
serviço do Amor. Daí podermos sustentar que nos encontramos diante de um
desafio decisivo.
50
RICOEUR, P. A maravilha, o descaminho e o enigma. Rio: Paz e Terra, n. 5, 36.
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Francisco e Clara: Uma nova humanidade é