A Confiança e as Relações de Compra: o Caso da Queiroz Galvão Alimentos Autoria: Marli de Fátima Ferraz da Silva Tacconi, Fernando Dias Lopes, Anathália Saraiva Martins Ramos RESUMO O setor de compras é uma área estratégica para a competitividade das organizações. Por esse motivo as empresas vêm procurando desenvolver boas relações com seus fornecedores, onde a confiança pode promover o fortalecimento dessas parcerias. Nesse sentido, esta pesquisa investigou o papel da confiança interorganizacional nas relações de compra da Queiroz Galvão Alimentos, a maior empresa de carcinicultura do Estado do Rio Grande do Norte. A base de sustentação teórica da pesquisa foi o modelo de estágios da confiança interorganizacional proposto pelos autores Zaheer e Harris (2006). A metodologia utilizada foi o estudo de caso, com uma abordagem qualitativa realizada através de entrevista em profundidade com o gestor de compras da fazenda de viveiros de camarão. Os resultados apresentaram que a perda da confiança inter-pessoal não é determinante para o fim dos relacionamentos, porque possui a possibilidade de trocar o indivíduo com o qual a empresa se relaciona, mas a perda da confiança interorganizacional tende a extinguir as relações entre as empresas. Outros diferenciais na escolha de um fornecedor em detrimento a outro foram: o tempo de relacionamento de compra, a reputação e a proximidade entre os fornecedores e a fazenda. Portanto, os dados sugerem que o desempenho logístico dos fornecedores e o tempo de relacionamento demonstraram-se como os principais combustíveis para as relações de compras e a confiança interorganizacional. INTRODUÇÃO A criação de camarão em cativeiro, conhecida como carcinicultura, é uma das principais atividades econômicas do Rio Grande do Norte – RN. Essa atividade surgiu nesse estado no período de 1978/1984 por iniciativa do próprio governo, sendo que não houve sucesso por causa da espécie utilizada (Penaeus japonicus) que não se adaptou as condições locais. Contudo, essa iniciativa permitiu o desenvolvimento de fazendas, laboratórios e experiências nessa atividade de camarão, fazendo com que técnicos e produtores envolvidos no setor começassem a utilizar espécies nativas (L. subtilis, L. paulensis e L. schimitti). Essas espécies também não apresentaram lucratividade adequada em relação aos custos de produção. A solução encontrada por um grupo de técnicos e produtores foi a utilização da espécie exótica Litopenaeus vannamei, ainda na década de 80, mas a sua viabilidade comercial surge a partir de 1995/1996 com o uso de tecnologias que foram utilizadas para intensificar as adaptações dessa espécie no país. Essa evolução permitiu a disseminação dessa atividade no Rio Grande do Norte que em 2004 se tornou o maior produtor e exportador do crustáceo no Brasil (LOPES; BALDI; CÁRDENAS, 2008). De acordo com dados da FIERN (2008) a maior empresa de carcinicultura no Estado do Rio Grande do Norte é a Queiroz Galvão Alimentos, antiga Potiporã, localizada no Município de Pendências, que se localiza aproximadamente a 203 Km de Natal, capital do estado. E um dos principais requisitos para a manutenção das vantagens competitivas dessa organização reside no setor de compras e suprimentos, permitindo o abastecimento seguro e a manutenção da qualidade dos camarões que cultiva e fornece. No passado, o papel do setor de compras era adquirir de um fornecedor os insumos necessários pelo menor preço possível. Essa visão tradicional de compras mudou significativamente para um foco mais moderno que se centra nos gastos totais e no desenvolvimento de relacionamentos entre compradores e vendedores, dentro de uma dinâmica estratégica (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2007). Encontrar a melhor estratégia para a cadeia de suprimentos de uma organização é um desafio. Organizações precisam definir meses antes suas demandas o que implica em enormes riscos financeiros de abastecimento, além da variação dos custos ao longo do tempo devido a 1 fatores externos a empresa (SIMCHI-LEVI; KAMINSKY; SIMCHI-LEVI, 2003), como por exemplo, as flutuações cambiais que impactam em importantes insumos que são utilizados na carcinicultura. Os benefícios da confiança nas transações econômicas têm sido fortemente enfatizados como um princípio importante, inclusive porque os relacionamentos entre empresas são unidades cada vez mais relevantes para explicar retornos acima do esperado (GULATI; SINGH,1998). Embora exista uma quantidade de literatura sobre confiança no contexto organizacional bem como pesquisas relacionando áreas tais como alianças, redes sociais e confiança interpessoal, os trabalhos científicos conduzidos com a confiança interorganizacional apresentam numerosas questões abertas para futuras pesquisas (ZAHEER; HARRIS, 2006). Alinhado nessa direção, o objetivo desta pesquisa foi investigar o papel da confiança interorganizacional nas relações de compra da Queiroz Galvão Alimentos. Nesse sentido, a primeira parte deste artigo ressalta as vantagens, os riscos e as nuances teóricas utilizadas em estudos sobre redes interorganizacionais; posteriormente se articula as características da confiança, enfatizando essas relações na gestão de compras e fornecimento. Em seguida apresentam-se a metodologia de estudo, as análises dos dados das relações de compra da empresa e as considerações finais. 1. AS REDES ENTRE EMPRESAS A busca por maiores oportunidades e competitividade as empresas têm utilizado as redes de cooperação como uma forma de obter a eficiência coletiva por meio de parcerias e alianças. Essas organizações são formadas por diversos motivos, as empresas podem estar buscando diminuir sua vulnerabilidade, reduzir o custo das transações, melhorarem sua reputação, visibilidade, imagem e prestígio, entre outros (RUFINO, 2003). Para Ebers e Grandori (1987) as formas de redes interorganizacionais devem ser consideradas como formas dinâmicas, não estáticas. Típicas de modelos recíprocos de comunicação e de troca, representando um modelo viável de organização econômica (POWELL, 1990). Por isso, as relações inter-firmas ou interorganizacionais vêm recebendo muita atenção (OLIVER, 1990; EBERS, 1997), especialmente em virtude do deslocamento na concepção e na natureza intrínseca da competição, que vem sendo caracterizada intensamente pelas constantes inovações tecnológicas e pela necessidade de velocidade para a entrada em novos mercados (DAS; TENG, 2000). Segundo Powell (1987) as formas híbridas, ou em rede, surgem porque as firmas buscam acordos em cooperação para ganhar acesso a novas tecnologias ou novos mercados, beneficiar-se das economias de escala em pesquisas e/ou produção, realizados de forma conjunta, para fazer uso de fontes de conhecimentos localizadas fora dos limites das firmas, para diluir o risco e para conseguir habilidades complementares. Zaheer e Harris (2006) descrevem que vários estudos empíricos examinam o papel da confiança na formação da estrutura interorganizacional. Eles ilustram a possibilidade da confiança como um importante papel na estruturação das relações interorganizacionais, embora algumas pesquisas nessa área tenham produzido resultados conflitantes. Nessa mesma direção, Ebers e Grandori (1987) e Oliver e Ebers (1998) destacam que o campo das pesquisas sobre as redes é caracterizado por um alto grau de teorias e conceitos heterogêneos, em um campo complexo e fragmentado. De maneira geral, no campo dos estudos organizacionais existem algumas diferentes abordagens e teorias para explicar as redes, que incluem: Economia Industrial, Economia Organizacional, Sociologia Organizacional, Teoria dos Jogos, Teoria da Dependência de 2 Recursos, Ecologia Populacional, Teoria Institucional e Abordagens de Redes Sociais, sendo que essas abordagens em parte se sobrepõem e em parte competem (EBERS, 1997). Na percepção de Das e Teng (2000) uma teoria adequada para esses estudos é a Teoria Baseada em Recursos porque reconhece e incorpora diferenças críticas, isto é, nas alianças estratégicas os parceiros pretendem obter acesso ao recurso de outras firmas em vez de empregar somente seus próprios recursos. Segundo esses autores, a Teoria dos Custos de Transação negligencia a criação de valor, e outras teorias como a Teoria de Agência, a Teoria do Comportamento Estratégico e a Teoria dos Jogos também são falhas por não distinguirem significativamente entre estratégias de firmas cooperativas e as estratégias das firmas individuais. Na visão de Kogut (2004) a Teoria dos Custos de Transação é a que se apresenta como uma boa explicação sobre como uma joint venture deveria organizar os limites de suas atividades com o de outras firmas, fixando-se na defesa de que as empresas negociam com base na forma que permita minimizar seus custos totais, onde a cooperação só ocorreria se permitisse a redução dos custos internos, melhoraria da lucratividade e/ou minimizar o posicionamento competitivo dos concorrentes. Para Ebers (1997) as pesquisas que examinam as condições que facilitam ou restringem a formação das relações em redes interorganizacionais têm sido, na maior parte, conduzida em análises no nível institucional ou no nível das relações. Os estudos em nível institucional utilizam dados passados sobre a formação das redes interorganizacionais para levantar particularidades do ambiente institucional e da instituição de domínio social, com as características da sociedade em que a rede é formada, tais como: político, legal, cultural e o impacto das condições ambientais regionais ou industriais. Os estudos no nível das relações enfatizam os atributos que caracterizam o conteúdo de ligação entre os atores, sejam indivíduos, grupos ou organizações. Ebers e Grandori (1987) apresentam que nesse caminho de concepção das redes interorganizacionais existe, principalmente, uma separação em duas visões alternativas e rivais. A primeira visão, freqüentemente enraizada na economia dos custos de transação, interpreta as redes como uma forma de organização híbrida ou intermediária em que algumas características de mercados e hierarquia estão presentes. Esta perspectiva tende a sugerir uma definição razoavelmente ampla das redes. A segunda visão difundida nos estudos em redes, em muitas áreas de administração, considera as redes inter-firmas como uma terceira forma organizacional com suas próprias características distintas, diferentemente das formas de mercado e hierarquia. Em contraste a essa primeira perspectiva, a segunda tende a definir as redes de forma mais estreita, porque seus proponentes tentam identificar traços organizacionais dos trabalhos em rede que não são típicos nem de mercado, nem de hierarquia. Ambas as visões, entretanto, oferecem um panorama limitado de uma variedade de formas de rede que podem ser encontradas na prática e que estão descritas nas pesquisas sobre redes. Isso se deve ao fato de que em ambos falta uma análise mais refinada dos mecanismos pelos quais as atividades das organizações dentro das redes são coordenadas, sendo eles peculiares de uma rede ou não (EBERS; GRANDORI, 1987). Conforme esses autores, as diferentes formas de redes interorganizacionais, por razões inerentes, podem ser uma forma menos estável de organização das transações empresariais do que as diferentes formas de organização das firmas individuais. Corroborando com Powell (1987) que descreve que as formas híbridas, ou redes interorganizacionais, não são sem inconvenientes. Uma preocupação nas formas híbridas é que um dos parceiros aproprie-se de uma parte desproporcional sobre o valor das relações, uma das partes pode ter custos de investimento mais vulneráveis, além de que o risco de uma parceria terminar e o parceiro poder copiar os recursos mais valiosos do outro. Contudo, a maioria das pesquisas enfoca 3 somente os resultados positivos da confiança interorganizacional, porque em geral, as evidências indicam que a confiança interorganizacional pode ajudar a alcançar vantagens nos resultados de desempenhos econômicos (ZAHEER; HARRIS, 2006). 2. CONFIANÇA Com relação à confiança entre os parceiros das redes interorganizacionais, os resultados percebidos como comportamento de confiança em relação a outra parte (como favorável ou desfavorável) influencia as expectativas dos atores para as próximas interações entre eles. Dependendo dos resultados percebidos, o crescimento das experiências entre os atores pode assim levar os dois a aumentar a confiança mútua ou resultar numa construção acima da desconfiança entre os parceiros. Como resultado de suas mudanças de perspectivas e percepções da honestidade de seus parceiros, as firmas podem adaptar o conteúdo (capacidade, volume) e/ou a forma de suas relações interorganizacionais (EBERS; GRANDORI, 1987). O conceito de confiança tem sido empregado freqüentemente de maneira bem generalizada, além de que em algumas pesquisas empíricas ela é tratada como uma dicotomia, verificando se existe ou não a confiança entre os parceiros (EBERS, 1997). A questão é que a confiança é um conceito amplo e complicado por várias conotações de uso comum, resultantes de pesquisadores que analisam gramaticalmente a confiança em uma variedade de dimensões de informações refinadas, lançando vários aspectos da confiança (ZAHEER; HARRIS, 2006). Conforme Zaheer e Harris (2006) numerosos pontos de convergência existem entre pesquisas sobre confiança interorganizacional e pesquisas sobre rede interorganizacional. Contudo, pouco cruzamento fértil tem ocorrido entre esses dois campos. Para eles isso é uma surpresa, porque a confiança é reconhecida como um elemento de importância social e invocado freqüentemente como a lógica para os benefícios das redes coesas. Por isso, esses autores examinaram diversos trabalhos empíricos sobre confiança interorganizacional e os resultados dessa investigação foram sintetizados em quatro áreas primárias das investigações sobre confiança, conforme a figura 01. Antec ede nte s e Na turez a O que é? C om o é cr iado? Na tur ez a da confia nça inter orga niz ac iona l Dese nvolvim ento da confianç a inter organiz aciona l - O pape l do hor iz onte de te mpo; - Assim etria da c onfianç a; - C onfianç a e e xerc er influênc ia . - Custo de cr ia çã o da conf ia nça ; - Pa pel da co nf ia nça inte r-pe ssoal; - Fa tor es institucionais R esulta dos e r elaç ões C omo tr aba lha ? P ape l da confianç a interor ganiza cional - Teor ia dos c ustos e transa ção/ fo rm as de orga niz açã o; - S ub stitutos ou com plem entar es? ; Alte rnativas a confia nça. Que r esulta dos? R esulta dos da c onfianç a inter organiza cional - Re sulta dos ec onômic os dire tos; - resultados inte rm ediá rios apa re nte s; - Efeitos indire to s. Figura 01: modelo de estágios da confiança interorganizacional: quatro temas empíricos Fonte: Zaheer e Harris, 2006, p. 170. As quatro áreas primárias do modelo de estágios da confiança interorganizacional são: O que é? Como é criado? Como trabalha? E que resultados? Essas investigações foram divididas em duas categorias, a dos antecedentes e natureza da confiança e a dos resultados e relações da confiança. Porém, em conformidade com os autores é importante evitar a humanização da organização, tratando a confiança interorganizacional como equivalente a confiança de um indivíduo que confia em um outro indivíduo. 4 Zaheer, McEvily e Perrone (1998) descrevem que a confiança interpessoal parece ser um ponto importante no desenvolvimento da confiança interorganizacional. Para eles a confiança é representada por três componentes que podem ser expressos de diferentes formas: cognitivo, comportamental e emocional, quer seja ela interorganizacional ou inter-pessoal. 2.1 Antecedentes e natureza da confiança As redes estratégicas são capazes de criar uma confiança baseada no conhecimento, resultante das consciências mútuas e equidade nas normas, além da confiança baseada nas preocupações com a reputação (GULATI; NOHRIA; ZAHEER, 2000). Segundo Powell (1990) a redução da incerteza, o acesso rápido a informação, a responsabilidade e a confiança estão entre os principais interesses que motivam os participantes nas redes de troca. A presença de confiança entre as organizações é um combustível extraordinário para as alianças que possuem uma considerável interdependência e coordenação das tarefas entre os parceiros, porque as empresas com conexões de rede prévias são mais propensos a ter uma consciência maior das regras, rotinas, e procedimentos que cada um deles precisa seguir (GULATI; NOHRIA; ZAHEER, 2000). Segundo Granovetter (1985) os laços entre as firmas entrelaçadas tornam-se imbuídos com elementos sociais que realçam a probabilidade do comportamento de confiança. Especialmente, porque o sucesso de uma rede depende significativamente sobre a escolha do parceiro que é digno de confiança (EBERS; GRANDORI, 1987). Uzzi e Gillespie (2002) enfatizam que as empresas podem influenciar suas competências e capacidades através das relações inter-firmas imersas em relações sociais e em redes, facilitando as transferências de recursos entre os atores. Powell (1990) propõe que quanto mais homogêneo for o grupo, maior é a confiança, tornando mais fácil a sustentação de arranjos de rede semelhantes, com a voluntariedade para participar em colaborações de longo prazo. Entretanto, quando a diversidade dos participantes aumenta, a confiança tende a diminuir As pesquisas sobre confiança usualmente assumem que a confiança entre duas alianças ou parcerias é simétrica. Que a “confiança gera confiança” em um círculo virtuoso, implicando em relações-fim de confiança e honestidade, potencialmente criando um reforçado ciclo de confiando e sendo confiado (ZAHEER; HARRIS, 2006). 2.2 Resultados e relações de confiança De acordo com Larson (1992) o significado da confiança e as normas de reciprocidade parecem refletir a realidade da troca econômica, tomando um lugar central e dando forma aos controles sociais. Corroborando, Gulati e Singh (1998) sugerem que a confiança pode reduzir a probabilidade das hierarquias de controle nas alianças. Para que se possa considerar que há relações entre firmas, isso implica que pelo menos algumas das atividades serão divididas entre as partes e é o resultado dessas alocações diretas entre os atores e as instituições é que determinam a forma de estrutura de governança (SOBRERO; SCHRADER, 1998). As relações inter-firmas possuem duas estruturas fundamentais que seriam a coordenação contratual, com as trocas mútuas de direitos entre as partes envolvidas, e a coordenação dos processos, com as trocas mútuas de informação entre as partes envolvidas (SOBRERO; SCHRADER, 1998). Gulati e Singh (1998) avaliando a influência da confiança como um dos fatores que podem afetar a escolha na estrutura de governança das alianças, concluíram que a repetição dos laços diminui o uso de controles hierárquicos nas alianças. Os resultados sobre a origem dos parceiros revelou algumas tendências interessantes. A comparação entre alianças locais e 5 de outras regiões foi amplamente consistente com a expectativa de que a confiança local é maior do que entre as alianças regionais. Há também algumas discussões na literatura sobre o papel das rotinas gerenciais nas relações interorganizacionais e o grau com que essas rotinas podem servir como mecanismos alternativos para a confiança. Focar como as expectativas, comportamentos, ações e resultados da interface interorganizacional são influenciados ou determinados pela confiança é importante para entender o papel da confiança nas relações interorganizacionais (ZAHEER; HARRIS, 2006). 3. A CONFIANÇA E AS RELAÇÕES ENTRE FORNECEDORES E COMPRADORES Vários estudos ressaltam os resultados sobre o desempenho da confiança interorganizacional, que são particularmente importantes para as relações entre compradores e fornecedores, sugerindo que é a confiança quem coloca um papel chave na determinação de uma orientação de longo prazo entre as organizações (ZAHEER; HARRIS, 2006). Zaheer; McEvily; Perrone (1998) procuraram explicar, com base nas relações entre fornecedor e comprador, como: a confiança opera no nível de análise individual e organizacional; como a confiança nesses dois níveis está relacionada; e particularmente como os mecanismos em que esse inerente fenômeno no nível individual se traduz em um resultado no nível organizacional, no desempenho. Para eles a confiança inter-pessoal e interorganizacional nas relações de compra funciona conforme a figura 02. Organização do fornecedor S1 A B Organização do comprador B2 B1 S1 – Boundary Spanner Principal B1 - Boundary Spanner Principal B2 - Boundary Spanner Secundário A - Confiança interorganizacional B – Confiança inter-pessoal Figura 02: Confiança interorganizacional e inter-pessoal. Fonte: Zaheer; McEvily; Perrone, 1998, p. 142. Conforme a figura 02, o termo confiança inter-pessoal funciona como uma confiança colocada pelo indivíduo Boundary Spanner em outro individuo oposto ao membro e o termo confiança interorganizacional seria a extensão da confiança colocada em um parceiro organizacional pelos membros de uma organização local. Boundary Spanner é conhecido como campeão de redes, relações estratégicas, catalisadores, dentre outros. É um membro organizacional que liga sua empresa com o ambiente externo, facilitando o desenvolvimento de redes de conhecimento, a troca de informações (BIK-KAY, 2003). Para Zaheer; McEvily; Perrone (1998) os resultados apóiam amplamente a tese de que a confiança nos relacionamentos de troca influencia o processo de negociação e desempenho. A facilitação no processo de negociação e a redução do conflito entre comprador e fornecedor foram certamente resultado da confiança. Da perspectiva do indivíduo boundary-spanning nas compras organizacionais, significa que o comprador confia mais em um típico fornecedor com quem trata; mais a organização compradora possui uma maior confiança na organização fornecedora. Implicando que os efeitos da confiança no contexto das relações interorganizacional são distintos na análise de nível individual e organizacional. 6 Para estes autores a descoberta mais impressionante é que a confiança inter-pessoal e interorganizacional operam de forma completamente diferente dentro das relações de troca. A confiança interorganizacional está fortemente associada com as negociações de baixo custo e a redução dos conflitos, mas a confiança inter-pessoal não estava relacionada a redução de conflitos, mas apresentou uma associação convincentemente positiva para a redução dos custos da negociação. Elas estão relacionadas, embora empírica e teoricamente distintos, porque a confiança interorganizacional emerge como um condutor que estimula o intercâmbio de desempenho, negociação e conflito, enquanto que a confiança interpessoal exerceu pouca influência direta sobre aqueles resultados. Contudo, ressaltam que a implicação destes efeitos recíprocos é que, embora a confiança interorganizacional possa parecer ser a influência mais importante nas relações de troca, a confiança inter-pessoal deve também ser considerada por seus efeitos na confiança interorganizacional. De acordo com Friedberg e Neuville (2003) as “parcerias industriais” de subcontratação envolvem implicações gerenciais em dois níveis de análise. O Primeiro é que a maneira como essas redes sociais são estruturadas e funcionam influencia diretamente na avaliação do fornecedor pelo Departamento de Compras e em suas estratégias e decisões de compra. Seja a priori e posteriori os procedimentos de avaliação que são a base das decisões de compra são enviesadas. Eles não fornecem um retrato fiel das lacunas entre os compromissos de contrato dos fornecedores e a sua eficácia no desempenho. Eles refletem em lugar disso as perspectivas dos gerentes de linha e dos operadores sobre a capacidade dos fornecedores de gerir e manter um controle superior as inevitáveis falhas entre seus compromissos contratuais e o seu desempenho real, perspectiva essa que é consideravelmente influenciada, pelo nível de confiança e cooperação que se caracteriza no campo das suas relações dia-a-dia com esse ou aquele fornecedor. O procedimento de avaliação somente indiretamente cria sanções ao processo industrial do fornecedor. Como conseqüência, a manufatura de veículos não necessariamente contrata com o melhor fornecedor possível, mas com aquele cujo representante tenha sido capaz de estabelecer um relacionamento de confiança e cooperação com suas próprias técnicas e operações de gestão. O que os procedimentos da avaliação medem realmente é a capacidade do fornecedor em cooperar e encontrar soluções para os distúrbios do dia-a-dia que ameaçam mesmo o fluxo da produção (FRIEDBERG; NEUVILLE, 2003). 4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Nas ciências sociais, Chizzotti (1998) destaca a importância de mostrar a complexidade dos fenômenos singulares, a imprevisibilidade e a originalidade criadora das relações interpessoais e sociais com o uso de pesquisas qualitativas, que valorizam os fenômenos, a partir da análise dos significados que os indivíduos dão às suas ações. Nessa direção esta pesquisa teve um foco qualitativo utilizando o tipo estudo de caso. Que segundo Triviños (1987), é um dos tipos de pesquisa qualitativa dos mais relevantes, por ser uma categoria de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa profundamente. O instrumento utilizado foi a entrevista estruturada, fundamentada em conformidade com os roteiros de entrevista das pesquisas de Nascimento (2006) e Rocha (2008). A realização da entrevista ocorreu em outubro de 2008, na fazenda de viveiros de camarões da Queiroz Galvão Alimentos, localizada no município de Pendências, no Estado do Rio Grande do Norte, com o Sr. José Eudson de Souza, gestor do setor de compras da fazenda, com duração aproximada de duas horas, que foi gravada para posterior análise. Para análise da entrevista utilizou-se o Método de Análise de Conteúdo, definido por Bardin (1977, p. 42) como “um conjunto de técnicas de análises das comunicações visando obter, por procedimentos [...], indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens”. 7 Utilizando-se as etapas básicas desse tipo de estudo, primeiro realizou-se a pré-análise, que se refere à organização do material; seguindo pela exploração do material e tratamento dos resultados, que submete o material a um estudo aprofundado, orientado pelas hipóteses e referenciais teóricos, usando procedimentos como a codificação e a categorização; e inferência e interpretação, que diz respeito ao aprofundamento da análise, que o pesquisador perante os resultados pode fazer inferências a respeito do problema, hipótese e objetivos (BARDIN, 1977). 5. AS RELAÇÕES DE COMPRAS DA QUEIROZ GALVÃO ALIMENTOS Na área de carcinicultura, o grupo Queiroz Galvão trabalha em sistema verticalizado desde a criação das larvas no laboratório, passando pela engorda das pós-larvas nos viveiros da fazenda, onde se realizou a pesquisa, posteriormente realiza o beneficiamento, embalagem e entrega do produto. Sendo que sua produção é escoada em media 20% para o mercado nacional e a o restante para o mercado internacional, especialmente para os Estados Unidos e Europa, possuindo uma filial na Espanha, a Potiporã Food. A Queiroz Galvão Alimentos surgiu em 26 de março de 2002, inicialmente com o nome de Potiporã Aquacultura Ltda, localizada na Rodovia RN 118 – Km 48, Conjunto Independência. Essa organização é formada somente com capital nacional e atualmente emprega 810 funcionários e produz e exporta camarões preservados e processados. Essa empresa investe em alta tecnologia e em profissionais especializados, sobretudo nas áreas de zootecnia e engenharia de pesca, para o cultivo dos camarões que são realizados em 241 viveiros, com aproximadamente 4 ha cada, localizados no delta do Rio Assu. A fazenda possui 960 ha de lâminas d’água, com capacidade produtiva de 8.200 toneladas por ha/ano. O comprador entrevistado foi o Sr. José Eudson de Souza, que é o responsável pelo setor de compras da Queiroz Galvão Alimentos. O entrevistado nasceu na cidade de Pendências no estado do Rio Grande do Norte, possui o segundo grau completo e sua carreira profissional começou nessa mesma empresa, onde já trabalha a mais de seis anos. A Queiroz Galvão Alimentos utiliza na gestão de compras e suprimentos o sistema de gestão administrativo Microsiga. O processo de compras da empresa começa com a requisição de compra, que normalmente é realizada pelo coordenador da área, por meio de fax, e-mail ou verbalmente dependendo da gravidade da situação. Se a última compra de um mesmo item tiver sido realizada dentro de um período máximo de 90 dias e sem nenhum acréscimo no preço, a compra pode ser realizada de forma direta com o último fornecedor utilizado. Contudo, se houver um aumento de qualquer valor, uma nova cotação deverá ser feita com uma possível entrada de novos fornecedores na cotação. Realizada a análise da última compra e caso o último fornecimento não se enquadre dentro dos critérios para a compra direta, passa-se a verificação do valor da aquisição. Se a quantidade a ser comprada for até duzentos reais a compra também poderá ser realizada de forma direta do tipo “encontrou-comprou”. Se o valor da compra girar em torno de duzentos a três mil reais, o comprador deverá seguir o procedimento de realizar no mínimo três cotações de preços que podem ser obtidas por telefone. Se o valor for acima de três mil reais o procedimento exigido pela instituição é que a cotação seja realizada por fax ou e-mail com no mínimo três fornecedores para que a cotação fique registrada em papel. Uma vez realizada as três cotações o processo de escolha programado pelo sistema Microsiga recai na escolha do menor preço. Contudo, nem sempre as compras são realizadas pelo menor preço de aquisição, mas conforme o discurso do entrevistado seria pelo menor custo de propriedade (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2007). Como pode ser verificado nas palavras do Sr. Eudson “Por exemplo: essa caneta vem de Pernambuco, só que pra comprar essa caneta eu tenho que pagar cinco por cento sobre o valor, mas o sistema não 8 entende isso. Tem, ainda, o custo do frete que fica mais barato comprar aqui (no Estado) do que comprar fora”. Quando isso acontece o comprador possuí a flexibilidade de desmarcar o primeiro fornecedor no quesito preço de aquisição, e marcar o segundo menor preço. Nesses casos o comprador precisa justificar na tela do sistema porque está comprando com um fornecedor diferente do que o escolhido pelo sistema. Se o fornecedor de menor preço (que o sistema determina) for o escolhido, é emitido o pedido e a requisição é repassada ao fornecedor por telefone, fax ou e-mail. Se o fornecedor escolhido não é o mesmo que o sistema Microsiga escolheu o processo possuirá outros trâmites. Primeiro passa por uma aprovação pelo gerente de área, que no caso pode ser o gerente de produção ou o de infra-estrutura. Se essa aprovação for positiva, o processo segue para uma segunda aprovação pelo gerente geral. Se o gerente geral aprovar a escolha do fornecedor o processo volta para o comprador e ele emitirá o pedido e passará para o fornecedor, que está orientado a só enviar uma mercadoria diante do pedido. Em conformidade com os dados coletados, o processo de compras da Queiroz Galvão Alimentos está ilustrado na figura 03. Início Análise da última compra Requisição de compra Menos que 90 dias e no mesmo valor. Mais de 90 dias ou ou acréscimo no acréscimo no valor Análise do valor da compra Entre R$200,00 e R$ 3.000,00 Compra direta Menos de R$200,00 Maior que R$3.000,00 Cotação por telefone com 3 fornecedores Cotação por fax ou e-mail com 3 fornecedores Seleção do fornecedor Menor preço 2º menor preço Aprovação do gerente de área Sim Emissão do pedido Aprovação do gerente geral Fim Não Emissão do pedido Não Sim Figura 03: Processo de compras e suprimentos da Queiroz Galvão Alimentos Fonte: Dados da pesquisa, 2008. 9 Realizada a compra, o comprador deverá informar ao setor de logística para programar o recebimento e armazenamento. Durante a fase entre a solicitação e o recebimento do material, os compradores precisam fazer ligações constantes para verificar o andamento o pedido. Segundo o Sr. Eudson esse acompanhamento é utilizado especialmente para os produtos críticos, que podem parar a produção e causar grandes prejuízos. O acompanhamento das compras é um custo para as organizações que poderia ser eliminado caso os fornecedores prestassem serviços logísticos de alto nível. Mas na prática o que se verifica é o receio de compradores sobre o nível de excelência em serviços logísticos prestados por seus fornecedores. A avaliação de desempenho do fornecedor foi descrita como uma análise feita informalmente pelo comprador com base no tempo de atendimento do pedido nos últimos meses, mas não é estruturada ou formalizada. A substituição dos fornecedores das cotações ocorre quando a qualidade do produto passa a não atender as especificações ou ocorrem alterações substanciais nos preços. Quando um fornecedor aumenta os preços o procedimento é abrir uma nova cotação. Sendo que usualmente negocia-se com o atual fornecedor para verificar a possibilidade do “atual fornecedor chegar ao preço do concorrente de menor preço”, demonstrando uma preferência por manter relações de longo prazo com os fornecedores. Com relação à procura por novos fornecedores, ela é realizada através de visitas dos compradores ao comércio em cidades vizinhas ou por meio de vendedores que visitam a fazenda e, então, passam a integrar o cadastro geral de fornecedores. A empresa não possui nenhum fornecedor integrado através de sistemas de intercâmbio eletrônico de dados e não apresentou nenhuma rede de compartilhamento de conhecimentos internos com a rede de fornecedores externos. Entretanto, alianças estratégicas entre fornecedores e fabricantes podem ter um impacto significativo no desempenho da cadeia de suprimentos (SIMCHI-LEVI; KAMINSKY; SIMCHI-LEVI, 2003). Um ponto que merece destaque é que importantes insumos como as larvas para a fazenda e o camarão para a unidade de beneficiamento são fornecidos pelo próprio grupo Queiroz Galvão. Atualmente, o setor de compras e o almoxarifado estão distanciados fisicamente na fazenda. A perspectiva é que se aproximem com o objetivo de facilitar a verificação do recebimento de produtos e facilitar a troca de informações entre esses dois departamentos, reduzindo o tempo de deslocamento do comprador. Em casos nos quais o responsável pelo setor de compras pede um produto com diversas especificações que não tem como estarem descritas na nota fiscal é necessário que o comprador faça a verificação no ato de recebimento da mercadoria e essa mudança no layout tende a melhorar a eficiência no processo. No intuito de investigar a confiança baseando-se no modelo dos estágios de Zaheer e Harris (2006), os tópicos a seguir estão divididos em “antecedentes e natureza” e “resultados e relações” da confiança. 5.1 Antecedentes e natureza da confiança nas relações de compra da Queiroz Galvão Alimentos No levantamento foi questionado se a empresa possuía relações de confiança com alguns fornecedores e o entrevistado respondeu: “Eu preciso dele e ele precisa de mim. A gente esta criando uma relação de companheirismo. O que é relação de companheirismo? O fornecedor A tem um produto a R$ 200.000,00 e B a R$ 200.000,00, só que eu sei que o fornecedor A me entrega na data que eu preciso e que é um fornecedor mais antigo, com mais tempo. Eu vou preferir o fornecedor A ao B, porque é a mesma faixa de preço. Com preço diferente, as normas da empresa me dizem que tem que ser o menor preço e se eu quiser escolher o segundo menor preço, eu tenho que justificar”. 10 Quando argumentado sobre o que leva a empresa a adquirir confiança em um fornecedor sua resposta foi: “Sempre ter atendido em tempo hábil e com produtos de boa qualidade [...] Porque tem fornecedores que a gente compra desde que iniciou a fazenda, mas que a gente compra porque é o jeito, não tem outra opção”. A Queiroz Galvão possui um grande porte que a coloca em posição de vantagem sobre muitos de seus fornecedores, criando nas empresas fornecedoras o medo de perder as boas relações que existem entre eles. Como pode ser verificado nas palavras do comprador: “Eu preciso dele e ele precisa de mim, qual é o fornecedor que não quer vender para a Potiporã? Qual é o fornecedor que quer perder um cliente desse porte? Eu prefiro acreditar que quando ele (o fornecedor) não cumpre o desempenho é porque não dá mesmo. Por dificuldade mesmo, não dá mesmo. Porque é assim, o vendedor vive de vendas, de comissão, de salário, ele não vai deixar de vender por má vontade, eu acredito que ele vai fazer o possível para atender bem”. Quando questionado sobre a existência de “maus vendedores” o argumento do entrevistado foi: “Tem vendedor que é assim, mas é muito raro. Se ele for ruim a gente fala com o gerente de vendas, nos sempre estamos em busca do desconto – muitas vezes o vendedor diz: eu só estou autorizado a dar 5% de desconto [...] então peço para falar com chefe dele pra ver se eu consigo alguma coisa? Às vezes dá certo, as vezes não”. A questão do tempo de relacionamento com os fornecedores e a geração de confiança ao longo desse período mostrou-se pertinente em virtude da resposta do entrevistado: “Eu tenho um contato a seis meses com o fornecedor durante esses seis meses ele está me atendendo, não tem porque trocar de fornecedor se ele está me atendendo e tem o menor preço. Entre dois fornecedores de mesmo valor eu opto pelo que vem me atendendo a mais tempo”. O papel da reputação do fornecedor, sua imagem no mercado, no momento de uma contratação demonstrou-se pertinente. Segundo o Sr. Eudson “Influencia, se alguém diz que ele não cumpre com o que fala, até que ele me prove o contrário vou acreditar no outro. Porque, provavelmente, ele pode quebrar comigo”. Nesta mesma direção, Gulati, Nohria e Zaheer (2000) descrevem a confiança baseada na preocupação com a reputação, porque a imagem que é disseminada de uma empresa no mercado influencia em suas relações organizacionais. Para Rocha (2008) a referência que se toma para firmar ou não uma relação com outra organização é a percepção de como o parceiro age através de sua reputação. A proximidade das fontes de suprimentos foi destacada pelo comprador. A empresa prefere comprar com os fornecedores localizados próximos a fazenda, destacando Mossoró, que é uma cidade próxima. Porque segundo o Sr. Eudson “Tem velocidade” de resposta. “Comprando uma coisa até cinco horas da tarde de hoje, amanhã pela manhã eu já tenho certeza que estarei recebendo. [...] uma vez que o fornecedor tenha o produto. Tenho que me certificar se ele tem o produto e que não está apenas tentando pegar o pedido”. O relacionamento com os diferentes fornecedores é realizado muitas vezes sem contratos formais. Como é o caso de um dos importantes insumos da fazenda que é a ração, que possui preços tabelados para a Queiroz Galvão Alimentos por períodos de até seis meses. Quando um fornecedor realiza alterações no preço desse insumo, são realizadas reuniões que envolvem desde à Gerencia Geral até a Diretoria para nova formalização de preço. Com a Petrobras, a empresa já possui contrato de fornecimento, provavelmente em função de seu baixo poder de negociação. Essa lógica se alinha a cadeia na qual a Queiroz Galvão Alimentos se insere. Conforme Baldi e Lopes (2008) os produtores de camarão cultivado preocupam-se basicamente com a produção, em virtude do camarão brasileiro ser comprado e não “vendido”. A negociação é fundamentada no menor preço porque não possui agregação de valor. Nessa dinâmica, os reguladores de troca são caracterizados pelos mecanismos de mercado. 11 Desta forma, a Queiroz Galvão Alimentos prefere trabalhar sem um contrato formal para manter a flexibilidade na decisão de compra, podendo mudar de fornecedor no caso de oportunismo. Porque muitos dos insumos que compram possuem oscilações ao longo do ano e, portanto, os fornecedores não estipulam um preço fixo por um período de tempo. Apesar de manter certa exclusividade em alguns produtos, não descarta um fornecedor alternativo em caso de necessidade. Mantendo sempre um contato com outros fornecedores de um mesmo insumo, que em um caso de necessidade poderá não encontrar quem forneça rapidamente o material. Conforme declarado pelo entrevistado: “Sempre com um pé atrás e uma bala na agulha”, não confiando 100% em seus fornecedores. Na pesquisa de Rocha (2008) realizada na carcinicultura Norte-Riograndense, a principal evidência da confiança baseada na boa vontade se manifestou com a ausência de contrato nas relações empresariais. Uma hipótese que se levanta é a de que o fato decorra da questão de dependência/poder entre as organizações parceiras para a inexistência de contratos formais. Com relação ao desenvolvimento da confiança, perguntou-se ao entrevistado se a confiança está focada na pessoa com quem se está negociando ou na empresa com a qual se está negociando. A resposta inicial foi: “É porque veja, não adianta nada eu ter um bom laço de amizade ou conhecimento da pessoa. Mas se ele disser: “tenho o produto”, mas a loja dele não tem o produto essa confiança que eu tenho nele, embora o conheça pessoalmente, não vai fazer com que a loja dele tenha o produto”. Por outro lado comentou: “Claro, se ele disser que tem você pode acreditar que tem. Pode acreditar que tem”. Em função dessa resposta, foi questionado se ele, então, iria acreditar na palavra do fornecedor. A resposta do comprador foi: “Vou acreditar na palavra dele, sendo 50% na palavra do vendedor e 50% na loja. Eu preciso desse produto pra segunda-feira o vendedor diz: “eu não tenho aqui, mas eu consigo pra chegar à minha loja amanhã até dez horas”. Dependendo do tamanho da loja que está me vendendo eu vou acreditar nele”. Em seguida, o entrevistado comenta: “Eu falo vou comprar esse produto com você, mas só passo amanhã (o pedido), ele tem como deixar reservado, mas ele por uma coisa ou outra não deixa reservado esse produto, amanhã quando eu passo (o pedido), outro vendedor vendeu para outro cliente e aí não tem mais no estoque deixando a gente na mão. Esse vendedor é desatento, ele perdeu a venda, eu deixei de comprar, perdi a confiança naquele vendedor” e complementa “Mas geralmente chegando na loja a gente já sabe com quem conversar, tem o nome de um atendente que é sempre bom a gente ter, que a gente cria laços. O cara já trabalha na empresa e eu vou dar prioridade. Esse comentário corrobora com Zaheer, Mc Evily e Perrone (1998) que sugere que a confiança inter-pessoal seria um ponto importante, mas que exerce pouca influência direta no desempenho, na negociação ou na resolução de conflitos das relações interorganizacionais. 5.2 Resultados e relações da confiança nas relações de compra da Queiroz Galvão Alimentos Com relação aos resultados que as relações de compra pautada na confiança geram para a empresa, a resposta do pesquisado foi: “Gera um companheirismo, porque a gente fica mais satisfeito, onde ambas as partes sairão ganhando. Eu tenho interesse em comprar e ele em vender. Eu preciso dele e ele precisa de mim”. Uma das perguntas foi sobre a possibilidade de comprar de um fornecedor que apresenta um preço muito baixo, mas que a empresa não conhece e não possui muitas informações. O comprador respondeu: “Não, deixo esse novo fornecedor na relação de cadastro e ao longo do tempo, uns seis meses depois verifico se é possível comprar com ele [...] Normalmente não tem credibilidade, aceito o cadastro, posso testar, mais desconfio do seu serviço ou produto”. 12 A questão se a confiança em um desempenho esperado supera o menor preço foi descrita pelo entrevistado da seguinte forma: “Se o fornecedor tem o menor preço e promete me entregar em um dia e me entrega dez dias depois, numa próxima compra, mesmo ele tendo o menor preço eu vou optar pelo segundo. Claro, porque eu vou acreditar que o segundo vai me atender em tempo hábil, respeitando as diferenças. Eu não vou deixar de comprar por um real para comprar por cem, mas se a diferença é mínima, que geralmente é. Agora mesmo: acabei de negociar um rolamento para uma máquina de despesca, que é uma máquina que coloca no viveiro se essa máquina parar não vai ter produção e eu vou ter que dar um jeito. Amanhã de manhã, esse rolamento tem que estar aqui dentro. Se ele (o fornecedor) disser que vai estar, amanhã tem que estar. Não tem isso de amanhã ser sábado, se ele disser que vai estar, tem que estar”. Para Bowersox, Closs e Cooper (2007) os compradores devem se concentrar no Custo Total de Propriedade em oposição ao foco exclusivamente no preço de compra. Por isso, as modernas estratégias de compras exigem a consolidação de volumes de compras em uma quantidade pequena de fornecedores confiáveis. Nesse sentido, perguntou-se ao entrevistado se ele concordava que nem sempre é melhor escolher pelo menor preço, mas é muito mais uma questão da confiança que existe nas relações de compra. Sua resposta foi: “É porque, sei lá, eu optei pelo menor preço e ele promete me entregar terça-feira e me entregou hoje, sexta-feira. Eu perdi três dias de produção”, referindo-se que esse atraso pode trazer prejuízos e transtornos graves para a organização. Fornecedores comprometidos com o sucesso de uma organização são muito importantes, mas requerem o desenvolvimento de bons relacionamentos, com o compartilhamento de informações e recursos que possibilitem resultados melhores. Essa perspectiva contrasta com o foco apenas no preço e destaca o conceito das compras eficazes (BOWERSOX; CLOSS; COOPER, 2007). Com relação às garantias realizou-se uma pergunta se a empresa acredita que seu parceiro agirá de acordo com o que se comprometeu sem necessitar de outras garantias, como o contrato. O respondente utiliza uma frase anteriormente citada: “Confio, mas com um pé atrás e uma bala na agulha”. Para Friedberg e Neuville (2003) nas relações inter-firmas a confiança e o oportunismo não se excluem, mas coexistem. Em caso de perda de confiança com algum fornecedor o procedimento da empresa para os desentendimentos é a substituição do mesmo, quando possível. Quando não, procuram conversar para chegar a um acordo e minimizar os problemas de fornecimento. “reclama-se, mas não tem muito jeito, só tem esse fornecedor”. Declarando uma relação pautada em trocas de mercado. Na visão de Granovetter (1985) a imagem dos atores atomísticos competindo em um mercado impessoal, meramente visando o lucro, apresenta-se como imprópria num cenário onde as empresas estão inter-relacionadas em redes de relações sociais, transacionais e profissionais com outras organizações. Analisando a entrevista, verifica-se que conforme trechos descritos pelo comprador entrevistado os principais pontos-chave nas relações de compra foram: • “em primeiro lugar o menor preço”; • “a confiança”; “companheirismo”; • “a distancia entre a fazenda e o fornecedor também é muito importante”; • “reputação” com base na opinião de outros clientes; • “bom atendimento”; • “conhecer pessoalmente, 50% no histórico do vendedor e 50% na empresa”; • “a questão do prazo de entrega é muito importante e a qualidade na entrega”; • “bom estoque” e “atender em tempo hábil”, que está relacionado a capacidade de fornecimento que permite velocidade de resposta; e • “seis meses já dá pra dizer se o cara é confiável ou não”, o tempo de relacionamento com o fornecedor. 13 As relações entre compradores e fornecedores podem se configurar como unicamente transações de mercado, entretanto esse tipo de acordo de curto prazo desempenha uma necessidade de negócio, mas não conduz a vantagens estratégicas de longo prazo (SIMHILEVI; KAMINSKY; SIMCHI-LEVI, 2003). 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Queiroz Galvão Alimentos utiliza em sua gestão de compras e suprimentos um programa informatizado de gestão que norteia o processo decisório. Por outro lado, a empresa não possui intercâmbio eletrônico de dados com seus fornecedores, como também não apresenta rede de compartilhamento de conhecimentos internos com a rede de fornecedores externos. A Queiroz Galvão Alimentos utiliza uma cadeia produtiva verticalizada o que permite um fluxo de informações “mais seguro” entre alguns diferentes elos da cadeia. Sendo que as relações com os fornecedores, que não fazem parte do grupo Queiroz Galvão, não estão integrados no regime de parceria, visto que não apresentaram a socialização de conhecimentos ou estabelecimento de estratégias conjuntas. A política institucional é pela ação de barganha, na busca do menor preço de aquisição. Porém, na prática organizacional o menor preço nem sempre é viável, ou gera os menores custos operacionais, como se verificou no processo de compras da fazenda, que permite a flexibilidade de optar por outro fornecedor que não é o de menor preço. O porte da empresa e o volume de compras tende a colocar a empresa em posição de vantagem frente aos seus fornecedores, que temem perder um cliente representativo. Esse pode ser o motivo pelo qual a empresa prefere trabalhar sem contratos formais com a maioria de seus fornecedores, corroborando com a pesquisa de Rocha (2008), de forma a manter a flexibilidade na decisão de compra e potencializando o poder de barganha, Na percepção do gestor de compras a confiança interorganizacional está diluída igualmente entre a pessoa, com quem ele se relaciona, e a organização fornecedora. Contudo, quando perde a confiança inter-pessoal existe a possibilidade de contato com um novo indivíduo nessa mesma organização, para realizar as negociações. A relação de compra pautada na confiança gera entre comprador e fornecedor um companheirismo onde ambas as partes ficam satisfeitas, descrito como “um precisa do outro”. Apresentaram-se também como diferenciais na escolha de um fornecedor em detrimento a outro, o tempo de relacionamento de compra, a reputação e a proximidade entre os fornecedores e a fazenda. A diferença de preço entre os diversos fornecedores geralmente é mínima, sugerindo que a confiança e o desempenho esperado superam o menor preço de aquisição, especialmente em produtos “críticos” para o processo produtivo. Pois, segundo o comprador a empresa nem sempre escolhe pelo menor preço, porque muitas vezes é mais uma questão de confiança ou companheirismo que existe nas relações interorganizacionais. Entretanto, declarou que confia nos fornecedores “com um pé atrás e uma bala na agulha”. Acrescentando que quando perde a confiança interorganizacional com algum fornecedor, se possível, nunca mais compra com ele. A perda da confiança inter-pessoal possui a possibilidade de trocar o indivíduo com o qual a empresa se relaciona, mas a perda da confiança interorganizacional tende a extinguir as relações entre as empresas. Este estudo é um estágio exploratório e os resultados ainda são preliminares, mas realizada a análise, o desempenho logístico dos fornecedores e o tempo de relacionamento demonstraram-se como os principais combustíveis para as relações de compras e confiança interorganizacionais. 14 REFERÊNCIAS BALDI, Mariana; LOPES, Fernando Dias. Primar Orgânica – inovação em tempos de crise. Cadernos EBAPE.BR (FGV), v. VI, p. 1-16, 2008. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições, 1977. BIK-KAY, Christine. The role of public-private clean diesel R&D partnerships in the regulatory process. 2003. 182 f. Master of Science (Technology and Policy and Máster os Science in Civil and Environmental Engineering) – Massachusetts Institute of Technology, United States, 2003. 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