Um passo adiante é um retorno às origens Renato R. P. de Carvalho as jornadas da ética, de novembro de 1988, apresentei um trabalho no qual mostrava que a formalização na obra de Lacan obedecia a um imperativo ético e que já havia sido estabelecida como propósito desde o Seminário 1. Hoje parto das fórmulas da sexuação, desenvolvidas no Seminário 19 ...ou pire, que constituem, pode-se dizer, a forma canônica da teoria freudiana, o ponto máximo da teorização de Lacan. Pela sua concisão e rigor lógico paradoxal, são da ordem do traço, da marca constitutiva inaugural, do retorno do recalcado, e devem servir de referência obrigatória para o psicanalista na sua prática e nas suas reflexões teóricas sobre os textos de Freud. Ei-las, N fórmulas paradoxais tanto na direção horizontal quanto na vertical. O paradoxo na direção horizontal indica a impossibilidade da relação sexual. Pelo fato de não se poder constituir um par com o todo e não-todo, abre-se uma hiância que serve de referência comum ao gozo e faz obstáculos à relação entre os sexos. A função fálica, expressão do complexo de castração inconsciente tem, como já havia dito Lacan na Significação do falo, uma função de nó. Freud, na década de 90 do século passado, estabelece os fundamentos da teoria analítica. Como marco inicial, pode ser considerado o artigo de 1890 "Tratamento psíquico" ou "Tratamento da alma" no qual ele dá um passo decisivo na constituição de um novo saber, distinto do saber da anatomia e da fisiologia do corpo. Afirma aí que "...aí palavras são, com efeito, o instrumento essencial do tratamento anímico "(1)- Existe um conjunto de doenças nervosas, entre as quais se destaca a histeria e para as quais o saber médico é absolutamente irrelevante. Só um tratamento pela palavra pode produzir resultados, eliminando sintomas sem deixar seqüelas. Apresenta também neste artigo, as primeiras indicações que chamara mais tarde de transferência, pivô da experiência analítica. 238 LETRA FREUDIANA -Ano XI - n s 10/11/12 Ura passo adiante é um retorno ás origens A partir desse ano, sua produção teórica se intensifica através de duas séries de artigos: os que o próprio Freud publicou e aqueles que foram dirigidos à Fliess e só vem à luz cinqüenta anos depois, verdadeiro retorno do recalcado, restos de uma relação transferenciai marcada pela idealização inicial e posterior decepção e frustração. É justamente no âmbito da correspondência à Fliess que surge com mais força na obra de Freud o real como furo no saber, lacuna, trauma psíquico, o qual faz limite à rede de representações que para aí converge. É nesta correspondência que se evidencia a tentativa de Freud de produzir uma escrita própria, única maneira de dar conta da impossibilidade da relação sexual e dos enigmas que a ausência de representação sexual inconsciente coloca para a teoria psicanalítica em elaboração. Mas Freud fracassa por tentar utilizar uma escrita neurológica na descrição de mecanismos e estruturas que são os do discurso. E Freud tinha plena convicção de que o saber do inconsciente é radicalmente outro, distinto do saber médico, e que entre corpo e inconsciente o "uso lingüístico oferece as pontes" (2) e marca a impossibilidade de recobrimento de um pelo outro. Por não conseguir "formular adequadamente os símbolos de sua ação "(3), Freud abandona esta tentativa e vai tentar dar conta do inominável recobrindo-o com a teoria edipiana e a sua correlata do complexo de castração, onde o falo, embora central, terá uma função de véu, de recobrimento do furo do Outro, assim como a fórmula da trimetilamina que vem recobrir o furo representado pelo fundo da garganta da Irmã no famoso sonho. Proliferam então as significações fálicas em tomo do -qp, falo imaginário. Lacan vem, nos últimos seminários, resgatar o que ficou esquecido do Freud das origens, reconciliando-o "après coup" com a função da castração, o objeto da psicanálise, como ele já havia antecipado em "Ciência e verdade" ao afirmar que o objeto da psicanálise é uma função do objeto a. Dois textos de Freud, da correspondência com Fliess, são paradigmáticos para ilustrar o que o Lacan das fórmulas da sexuação representa de continuidade e coerência com os primeiros passos de Freud. São eles: a segunda parte do "Projeto de psicologia" - "o caso Emma" - de 1895 e o Manuscrito K, de 1896. Antes de chegar a eles vejamos, de forma muito resumida, os principais avanços de Freud a partir de 1893. Nesse ano, nos artigos "Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos", Freud estabelece, pela primeira vez, que o trauma é psíquico e ligado a afetos penosos de horror, vergonha, dor psíquica e angústia. Tem eficácia permanente e permanece como corpo estranho no psiquismo. Utiliza, pela primeira vez, o termo recalque. O sujeito recalca o que não quer se lembrar. A relação entre sintoma e causa, ou trauma é simbólica. Na conversão histérica o uso lingüístico ofereceria as pontes que permitiriam atender ao propósito de expressar o estado psíquico mediante o corporal. Nos sujeitos histéricos haveria uma cisão da consciência ou dupla consciência. Em 1894, sobressai o artigo "As neuropsicoses de defesa". Nele é introduzido o conceito de defesa para explicar o mecanismo do recalque e a cisão da consciência. A defesa se dá em relação a uma representação inconciliável. Nas histéricas surgem LETRA FREUDIANA - Ano XI - n" 10/11/12 239 Um passo adiante é um retorno às origens esforços defensivos no sentido de afugentar a coisa - das Ding - de não pensar nela. A tarefa defensiva do eu é insolúvel. O traço de memória e o afeto aderidos à representação não podem ser extirpados. O que a defesa consegue é debilitar a representação e dirigir parte do afeto ao corpo. O corpo investido pelo afeto vem se substituir à representação, mecanismo da metáfora, um significante no lugar de outro significante. Ao mesmo tempo, nesta substituição, tem a sua função orgânica inibida, como dirá Freud muito mais tarde. O corpo significante, sintomático, é agora a lembrança da representação, traço mnêmico que tampona a coisa protegendo o sujeito da angústia. O trauma é um núcleo real inassimilável que se faz representar pelo traço mnêmico, seja por um efeito no corpo orgânico, mibição da função, seja por um retorno contínuo da sensação alucinatória. O real está além do retorno e do sintoma. Está aí aberta a via para toda a elaboração posterior de Freud do "Além do princípio do prazer" e para o que Lacan virá desenvolver sobre o real, a repetição e o gozo. O sintoma difere do ataque histérico por estar ligado à rede de representações, enquanto no ataque a excitação ligada ao corpo busca retornar ao representante da representação sem se ligar à cadeia associativa. É como se o ataque procurasse representar diretamente o real, o trauma, que está fora da cadeia significante, embora seja a sua causa. O ataque é uma caricatura do gozo sexual, como foi observado por Freud. A posição de Freud quanto à origem da histeria, nesse texto, difere da que ele vai assumir dois anos mais tarde no "Manuscrito K." Neste, ele afirma que o sintoma primário da histeria é uma "exteriorização de terror com lacunaspsíquicas "(4). Estas lacunas psíquicas são como "ausências de representação"(5). É como se a lacuna e o terror fossem anteriores ao sintoma histérico. Este último só vai se manifestar "a posteriori" pelo recalque e pela repetição, como veremos ilustrado de forma magistral no exemplo da análise de Emma. Além disso, escreve Freud no "Manuscrito K", "o recalque não acontece por formação de uma representação contrária hiperintensa, mas sim por reforço de uma representação — limite que, desde então, substitui a recordação recalcada dentro do processo de pensamento. É lícito chamá-la representação — limite porque, por um lado, pertence ao eu consciente e, por outro, constitui um fragmento não desfigurado da recordação traumática''(6). E Freud acrescenta: "Toda vez que o acontecimento traumático se desafoga em uma exteriorização motora, esta mesma passa a ser a representação - limite e o primeiro símbolo do recalcado. Por isso, não se deve supor que em cada repetição do ataque primário é sufocada uma representação; trata-se, em primeiro lugar, de uma lacuna no psiquismo"(7). Freud nunca mais mencionará a noção de lacuna no psiquismo e de representação - limite. Só, muito mas tarde, Lacan recuperará estes conceitos mostrando que o significante é que produz o furo, permanecendo na sua borda. Para isso se utilizará de uma operação topológica, um corte circular no plano projetivo, cuja borda é a banda de Moebius, representação do significante rodeando o furo. 240 LETRA FREUDIANA -Ano XI -n» 10/11/12 Um passo adiante é um retomo às origens Em 1895, Freud avança ira teorizacão do inconsciente como um outro saber, diferente do saber da consciência, um saber furado. No "Projeto" e na "Psicoterapia da histeria" o saber inconsciente é apresentado como ama inteligência superior estruturada em tomo de um núcleo traumático. A compulsão histérica, da ordem da repetição e do gozo, aponta para o trauma, que produz efeitos "a posteriori" de angústia e excitação sexual conforme mostrado no caso Erama. Emma não pode entrar só em lojas. Recorda-se que, aos doze anos, entrou em uma loja para comprar algo e viu dois empregados que riam entre eles. Foi tomada de pânico e deixou a loja correndo. Sobre isto, pensou rirem de seu vestido e que um dos empregados sentira-se sexualmente atraído por ela. Ela reconhece que também se sentira sexualmente excitada. Esta cena é representada pelos pontos pretos. Posteriormente, recordou-se que aos oito anos foi por duas vezes a uma confeitaria comprar doces. O confeiteiro lhe tocou o órgão genital por cima do vestido. Apesar disso ter acontecido na primeira vez, ela retorna à loja. Culpa-se de ter voltado ali como querendo provocar o atentado pela segunda vez. Esta segunda cena está representada pelos círculos em branco. A descarga sexual não estava vinculada ao atentado sexual quando este ocorreu. A lembrança suscitou um afeto que não pôde ser suscitado quando ocorreu na qualidade de experiência. Foi recalcada uma recordação que só-depois - nachtraglich - se tornou traumática e produziu afeto de angústia e descarga sexual. A roupa, elo associativo entre as duas cenas, vem velar o gozo impossível, que não se inscreve e que retorna na compulsão histérica. Como dissemos anteriormente, o sintoma histérico só se manifestou aprés-coup, como diria Lacan, pelo recalque e pela repetição significante. O recalque faz do real uma realidade sexual e institui o trauma em sua função de causa. É extraordinário esse esquema. Toda a cadeia associativa converge para um ponto ao qual está ligada uma seta que aponta para um vazio. Na década de 70, Lacan vai mostrar que o real - o objeto a, o ser aão é pré-discursivo mas está situado além do significante. O gozo sexual se produz só-depois, vinculado à cadeia significante, sendo aí essencial a função do recalque e da repetição. Só-depois, na segunda cena, é que a LETRA FREUDIANA -Ano XI -n« 10/11/12 241 Um passo adiante é um retorno às origens primeira cena recalcada vai produzir os efeitos de excitação sexual e angústia associados. Mas à primeira cena se liga a seta que aponta para o real e para um gozo além, o gozo do ser ou do Outro como designa Lacan. NQ "Manuscrito K"r Freud vai se questionar também sobre a origem do desprazer eficaz no recalque e afirma que só uma teoria correta da sexualidade poderia esclarecer este enigma. Escreve: "minha opinião é que dentro da vida sexual tem que existir uma fonte independente de desprazer; presente ela pode dar vida às percepções de asco, dar força à moral, etc"(9). A relação sexual é impossível, diz Lacan. Este caráter de impossibilidade estrutural, lógico, é a fonte do desprazer. Por isso, a experiência sexual é traumática e, em seu âmago, é marcada pela recusa - Versagung - que é o que permite a captura do objeto no campo pulsional. Este objeto de uma recusa primordial é, do lado masculino, a mãe a partir da qual se produz uma série de objetos substitutos insatisfatórios. Do lado feminino, a situação não é mais confortadora. Ora, vemos claramente o papel representado pelo furo, lacunas no psiquismo, trauma, a ausência de representação do sexo feminino, nestes textos inaugurais de Freud. E é justamente deste lugar vazio, ...ou pior, que parte de Lacan no seu Seminário 19. Para falar disso, vai recorrer à lógica, ao conceito de função e ao de variável pois a variável X em matemática é a marca de um lugar vazio. Salta aos olhos nos textos de Freud a dificuldade de definir o masculino e o feminino, o que ele faz de modo precário atribuindo aos homens uma suposta atividade e às mulheres uma passividade. A questão da sexualidade feminina é um enigma que ele tentará deslindar ao longo de sua obra. Em Fantasmas histéricos e sua relação com a bissexualidade ele vai mostrar que o sintoma histérico encobre sempre dois fantasmas: um de caráter masculino e outro de caráter feminino. Na histérica convivem, em conflito, os dois sexos. Lacan muda o eixo desta abordagem mostrando nas fórmulas da sexuação que o sujeito está dividido entre duas posições: a de um gozo todo-fálico e a de um nãd-todo. Além do primeiro, o segundo. O de que se trata,portanto, não é de uma bissexualidade mas sim de um bi-gozo, um todo fálico e outro não-todo, o gozo do Outro. Esta divisão do sujeito, entre os dois gozos, é também coerente com a Ichspaltung ou clivagem-do-eu freudiana. Para Freud, no final de sua obra, a menina só se torna mulher tomando por referência a castração e esbarrando na inveja do pênis como obstáculo intransponível da sua análise. O furo representado pela falta de representação do sexo feminino é recoberto pela lógica fálica. Já, para Lacan, é o significante que produz o furo como seu exterior. O falo simbólico (o) não tampona o vazio mas fá-lo surgir como seu além. Masculino e feminino são valores sexuais inconscientes, recebidos em todas as línguas. É na lógica que ele vai buscar os meios de articular esta questão. A relação sexual faz questão para o ser falante. Mas se existem questões é porque devem existir respostas, diz Lacan, e justamente a função o x é escrita para tentar responder, de um modo articulado pela lógica, a estas questões. É claro que, para a lógica, se coloca a função da verdade que só pode ser semi-dita e portanto se confronta com o vazio, assim como no esquema do 242 LETRA FREUDIANA - Ano XI - n s 10/11/12 Um passo adiante é um retorne às origens caso Emma a rede de representações aponta para o vazio que ela mesma cria como exterior. No Seminário ...ou pire, Lacan diz que, pelo fato da relação sexual ser impossível, ela deve ser escrita e para isso utiliza a função ox. Por que uma função? Porque está articulada a uma lógica simbólica e tem como argumento uma variável X que marca um lugar vazio a ser ocupado assumindo valores, homem ou mulher, todo ou não todo. Em relação a esta função Lacan diz: . produz a relação do significante ao gozo . faz barragem à relação sexual . é o retorno do recalcado A cada sessão, com cada paciente, o psicanalista está recriando a psicanálise em trabalho solitário da estrutura do inconsciente. As fórmulas da sexuação, os maternas dos quatro discursos e a topologia, lhe servem de referência para a sustentação de uma posição ética que é a do desejo. Estas fórmulas de Lacan são um retorno às aspirações da origem da psicanálise, momento em que Freud, na sua clínica da histeria, se defronta com o real que faz furo na fala, o inominável, lacuna na psique, diante do qual a histérica vai responder com um rico repertório de sintomas e ataques entre os quais se destacam as exteriorizações de horror, como diz Freud, e a mudez, que denunciam a proximidade da coisa. Concluo com o sonho de uma paciente: "Estou em uma casa no segundo andar. Ouço barulhos no primeiro andar, desço e vejo dois cachorros enormes, que devem ter entrado pela janela. Tento gritar mas a voz não sai. Penso que, se gritar forte, acordarei Acordo gritando". Referências (1) FREUD, S. - Tratamiento psíquico (tratamiento dei alma). Amorrortu editores, 1, Buenos Aires, 2* .ed., 1988,p.ll5 (2) FREUD, S. -Sobre ei mecanismopsíquico defenômeno histéricos.Amorrortu editores, 3,Buenos Aires, 2'.ed, 1988, p.35 (3) LACAN, J. - O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de Freud. Zahar editores, Rio de Janeiro, 1979,p.313 (4) FREUD, S. - Manuscrito K. Las neurosis de defensa (Un cuento de na vida d). Amorrortu editores.l, Buenos Aires, 21 .ed., 1988,p.269 (5) ANDRÉ, S. - O que quer uma mulher? Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, 1987, p.61 (6)ib.(4) (7)ib. (8) FREUD, S. - Proyecto de psicologia. Parte II. Psicopatologia. Amorrortu editores, 1, Buenos Aires, 2* .ed., 1988, p.402 (9) ib.(5) p.262 LETRA FREUDIANA -Ano XI -n« 10/11/12 243 Um passo adiante é ura retomo às origens Bibliografia Além dos textos das referências foram consultadas as seguintes obras: FREUD, S. Sobre Iapsicoterapia de Ia histeria. Amorrortu editores, 2, Buenos Aires, 2* .ed., 1988, p.261/309 FREUD, S. Lasfantasias histéricasy su relación con Ia bissexualidad. Amorrortu editores, 9, Buenos Aires, 2'.ed., 1988, p.137/148 LACAN, J. Le séminaire, livre XIX,...ou pire. Inédito. LACAN, J. Le séminaire, livreXX, Encore. Éditions du seuil, Paris, 1975. MILLOT, C. Nobodaddy.A histeria no século. Jorge Zabar editor, Rio de Janeiro, 1988. 244 LETRA FREUDIANA -Ano XI -D» 10/11/12