SOBRE O HUMOR: UM DIÁLOGO ENTRE FREUD E POSSENTI
Mauricio Eugênio MALISKA¹
Silvana Colares Lúcio de SOUZA²
RESUMO: O presente trabalho visa identificar e analisar os pontos concordantes presentes na articulação do
texto de Sigmund Freud (1905) Os chistes e sua relação com o inconsciente, com a obra de Sírio Possenti
(1998) Os humores da língua: análises linguísticas de piadas, em relação ao riso e ao humor. Para tanto, são
verificadas nas abordagens dos textos as relações estabelecidas entre o campo linguístico e o psicanalítico. Ao
refletir sobre as possíveis articulações entre os dois campos, Maliska (2003, p.17) ressalta que as possíveis
articulações teóricas entre Linguística e Psicanálise já percorreram diversos e diferentes caminhos. E que não é
nenhuma novidade dizer que Psicanálise e Linguística são campos do saber passíveis de cruzamentos,
convergências e também de divergências. O discurso humorístico como expressão de linguagem não pode ser
caracterizado como uma composição com o intuito apenas de nos fazer rir, evidentemente tem seus propósitos,
porém não se pode desconsiderar, é claro, o aspecto jocoso das piadas, pois, quem conta tem como objetivo
principal divertir o sujeito que as ouve. Portanto, busca-se compreender o funcionamento do discurso de humor
pensando-o como espaço que torna visível dois movimentos distintos do sujeito em relação à língua e ao
inconsciente. Embora Possenti (1998) volte-se para a análise dos traços linguísticos das piadas e Freud (1905),
por intermédio do chiste, mostre o funcionamento do inconsciente, no estudo verificou-se o diálogo possível
entre as duas teorias e a semelhança presente na intersecção do pensamento desses estudiosos. As articulações
demonstraram que o linguista se espelha no gesto freudiano.
PALAVRAS-CHAVE: Humor. Língua. Inconsciente. Psicanálise. Linguística.
1. Introdução
O humor, presente na sociedade, através das piadas, chistes, crônicas e outros gêneros,
normalmente, apresenta um teor relaxado, sendo muitas vezes, considerado como um gênero
inferior, não reconhecido. Porém, o riso, manifestação oriunda do discurso humorístico e tem
como característica a sua vivacidade é capaz de eclodir “verdades” e pode ser usado como
uma arma para desmascarar.
Bergson (1983, p.19) afirma que o riso é sempre grupal, sendo determinado por um
conjunto de atitudes que são discriminadas e colocadas como desvios perante uma
comunidade. A identificação de um ato cômico ou humorístico, através de um chiste ou piada,
aponta para a afirmação de gestos sociais que violam com uma conduta ideal. Freud (1977) já
assegurava que esses atos têm uma “intencionalidade” inconsciente, ou seja, o sujeito
efetivamente não tem nenhum domínio sobre aquilo que diz. Em relação à linguagem, desde
Freud, sabemos que a psicanálise caracterizou-se como o modo de processamento do
inconsciente. Lacan (1978) a revive na afirmação de que “o inconsciente é estruturado como
uma linguagem”. Diferentemente, no que se refere ao ato chistoso ou cômico, Possenti (1998)
vê a piada como um fenômeno da linguagem dotado de técnica e de forma, ele acredita que as
piadas podem ser encaradas como “peças linguísticas”.
Diante do exposto e para melhor compreensão, este trabalho parte do estudo teórico
das teorias de Freud (1905) e Possenti (1998) em relação aos chistes e ao humor, com a
tentativa de enquadrar as possíveis conformidades presentes no cruzamento do pensamento
desses estudiosos.
_________________
¹ Professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina
(UNISUL).
1
² Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa
Catarina (UNISUL).
2. Freud e os chistes
“Aquele que deixa, dessa forma, escapar
inopinadamente a
verdade na realidade está feliz em tirar a máscara”.
Sigmund Freud
No texto Os chistes e sua relação com o inconsciente, Freud (1905) aborda os chistes
em seus vários mecanismos, associando-os àqueles presentes no sonho ─ condensação e
deslocamento ─ e à própria neurose. Esses mecanismos procuram inibir ou enganar a censura,
deslocando a energia psíquica e representando-a de forma indireta. Sua expressão é o
exercício da função lúdica da linguagem, ao contrário do sonho, que é o pensamento em
imagens.
A técnica de condensação se refere à economia. Entende-se o resultado de um
processo particular que deixa um segundo vestígio na verbalização do chiste – a formação de
um substituto responsável pelo efeito de humor. Freud (1916) reporta-se à condensação como
o “mecanismo que vai impedir a clara correlação entre o conteúdo manifesto e o conteúdo
latente”.
Ao falar sobre o mecanismo da condensação, reporta-se Freud (1916):
Entendemos, com isso, que o sonho manifesto possui um conteúdo menor do que o
latente, e é deste uma tradução abreviada, portanto. Às vezes a condensação pode
estar ausente; via de regra se faz presente e, muitíssimas vezes, é enorme. Jamais
ocorre uma mudança em sentido inverso; ou seja, nunca encontramos um sonho
manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente. A
condensação se realiza das seguintes maneiras: (1) determinados elementos latentes
são totalmente omitidos, (2) apenas um fragmento de alguns complexos do sonho
latente transparece no sonho manifesto e (3) determinados elementos latentes, que
tem algo em comum, se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho
manifesto. (...) a elaboração onírica, (...) procura condensar dois pensamentos
diferentes buscando (como um chiste) uma palavra ambígua, na qual dois
pensamentos se possam juntar (p.172-173).
Já no caso do deslocamento, Freud (1916) postula:
Manifesta-se de duas maneiras: na primeira, um elemento latente é substituído não
por uma parte componente de si mesmo, mas por alguma coisa mais remota, isto é,
por uma alusão; e, na segunda, o acento psíquico é mudado de um elemento
importante para outros sem importância. (p.174-175).
O autor ainda argumenta que um chiste de deslocamento depende muito mais do curso
do pensamento do que da expressão verbal. Reconhecia, assim, no chiste a “textura” própria
da formação do inconsciente. Ele ainda chamou a atenção acerca da importância da
linguagem, mas, basicamente, fundamentou, como condição essencial, seguir o fio da palavra.
A despeito dos neurologistas, para os quais interessava a afânise da palavra, déficit indicador
de algum distúrbio ou fenômeno, para Freud, em oposição, o interesse estava na referência
interna da palavra. É o sentido, o valor da palavra, que representa o sujeito do inconsciente
para outra representação. Freud (1977) afirma que um chiste é algo cômico do ponto de vista
inteiramente subjetivo, porque se liga à subjetividade humana. Mostra que a característica
distintiva do chiste é o ato do sujeito, portanto o cômico surge de algo que é realizado pelo
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sujeito. O pai da psicanálise evidencia que a comicidade surge através do feio, do pouco
observado, do que gera graça, nascendo assim, a caricatura.
Nos chistes é sublinhado o jogo de palavras, o aparente nonsense, a destituição de
sentido remetendo, a posteriori, a uma nova representação, a um outro significante para o
sujeito. Freud (1977) ressalta a “necessidade psicológica” do sujeito no processo formador
do chiste, tendência a uma significância. Assim, a atribuição de um sentido a um comentário
e a descoberta nele de uma verdade, até então inconsciente, são aspectos do chiste em seu
caráter revelador do “impossível”, do inacessível pelas vias comuns do pensamento. O chiste
promove um desconcerto, no entanto, é sucedido por um esclarecimento. Ultrapassa seu
próprio conteúdo, ensejando um passo a mais, passo de sentido ─ que na versão francesa
aparece uma homofonia: pas de sens, que significa um passo de sentido, mas ao mesmo
tempo um não sentido ─ sustentado pela própria cadeia significante. Mas a compreensão dos
chistes estaria vinculada ao conhecimento dos determinantes “subjetivos” de seu autor?
Comparando o determinante da neurose ao do chiste, Freud (1977) salientou a
importância em “compreender” a condição da pessoa envolvida nessa formação do
inconsciente, a quem ocorre o chiste. Em alguns tipos de chistes, um de seus motores, é a
dificuldade do sujeito em criticar ou criticar com a agressividade direta etc.
É possível apenas através de um projeto tortuoso a liberação da energia psíquica
advinda do humor. Enquanto, no que denominamos cômico, não há necessidade da
interlocução, no chiste há uma necessidade de contá-lo a alguém, necessidade ligada,
imprescindivelmente, à elaboração do próprio chiste a partir dos obstáculos da razão. O
chiste não se realiza sozinho e só se conclui com a transmissão da ideia a alguém. Na própria
estruturação do chiste encontraríamos três pessoas: o autor, aquele a quem o chiste vem; a
segunda pessoa sobre quem o chiste versa ou seu objeto e a terceira pessoa, aquela que o
escuta. Apesar do prazer envolvido em sua elaboração, a própria pessoa a quem ocorre o
chiste não consegue rir dele, ela dispensa da pessoa que foi objeto do chiste, mas não
dispensa de alguém para escutá-lo. É exatamente a terceira pessoa a quem é comunicado o
resultado do chiste. A terceira pessoa avalia a “tarefa da elaboração do chiste”, incidindo em
uma espécie de julgamento dos propósitos dele, portanto, é preciso que exista nela
“benevolência” e neutralidade, “ausência de qualquer fator” que possa inibir sua
comunicação. O chiste exige uma plateia própria; e, neste sentido, é necessário um “acordo
psíquico” entre o autor e aquele que o escuta, as mesmas inibições internas só superadas com
a conclusão do chiste. O ouvinte quando escuta deve ter o hábito de criar semelhante inibição
a que a primeira pessoa superou para elaborá-lo, é isto que provoca o riso. A colaboração da
terceira pessoa, do ouvinte, faz parte da realização do chiste. Presenteada com o chiste, ela
constitui a possibilidade de emergir o prazer. O processo se passa então entre a primeira e a
terceira pessoa. A atenção apanhada desprevenida somada à descarga inibitória liberada se
completa a partir da surpresa do chiste.
Referindo-se a Freud, Posssenti (2000, p.145) observa quanto o prazer que os chistes
provocam e afirmando que “talvez nos rimos mais francamente daqueles [chistes] que ora
nos são de difícil uso, porque requerem comentários mais extensos e, mesmo com tal ajuda,
não produziriam o efeito original”.
A explicação de Freud (1977) parece claramente apropriada. De outro modo, é como
se afirmasse que os chistes que dependem da atualidade, quando são repetidos em outros
momentos que não aquelas em que são produzidos, precisam ser explicados para serem
compreendidos e produzirem, assim, algum efeito de prazer, de que o riso é uma testemunha.
Além disso, quando preciso explicá-los os chistes automaticamente perdem a força, ou
seja, o riso, pois uma das suas características fundamentais é a descoberta de seu “sentido”
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pelo ouvinte. Essa descoberta se dá por um efeito de sentido e esse efeito depende das
condições de produção e da cena enunciativa que irão produzir o efeito de sentido.
Considerado como elemento fundamental, que mesmo autores defendendo que a piada
se trata de um gênero oral, não implica necessariamente que a reprodução esteja excluída.
Porém, é incontestável que, escrita, a piada distancia-se de seu momento e de um conjunto de
condições relevantes de produção de sentido.
3. Possenti e os humores da língua
Na obra Os humores da língua: análises linguísticas de piadas, Possenti (1998) voltase para a análise linguística de textos humorísticos, na busca de demonstrar como se processa
o humor em um texto. Nesse livro, ele propõe analisar os traços linguísticos das piadas, pois
acredita que os linguistas poderiam ver nos chistes e nas piadas as propriedades essenciais das
línguas naturais, tanto de sua estrutura quanto de seu funcionamento. O autor ainda alerta para
o fato de que não se pode ignorar que o humor é produzido a partir de mecanismos
linguísticos.
Possenti (1998, p.13) deixa claro, já na introdução, que considera interessantes "as
explicações linguísticas, isto é, a descrição do que é especificamente linguístico na piada". O
linguista introduz algumas observações de Delia Chiaro (The language of jokes, 1992) a
respeito de obras que tratam do humor, tais como: são muitas as obras que versam sobre o
assunto; existem várias razões que levam as pessoas a rir (os aspectos fisiológicos,
sociológicos, psicológicos do humor), e que, atualmente já existe um número razoável de
autores que se dedicam aos estudos dos aspectos linguísticos do discurso humorístico. Além
disso, o autor defende que se a linguística for boa, ela servirá para analisar diversas
manifestações da linguagem, e ocasionalmente do humor. Pois, não existe uma linguística do
humor, e sim linguistas que trabalham sobre ou a partir de dados colhidos em textos de
humor, que podem ser sintáticos, morfológicos, fonológicos, regras de conversação,
inferências, pressuposição, etc.
Inicialmente o autor também revela que os discursos explorados nas piadas são
geralmente temas controversos e que pontuam visões estereotipadas sobre um problema.
Também é ressaltado por Possenti (2000) que as piadas são interessantes de serem estudadas
porque elas apresentam os problemas numa visão sintetizada, sendo mais facilmente
compreendidas por interlocutores não-especializados. Além dessas razões, para o autor, “as
piadas interessam como peças textuais, pois mostram com clareza um domínio da língua
complexo, geralmente acionam mais de um mecanismo linguístico”. Ele ainda acrescenta
“O fato é que o discurso humorístico consegue dizer o que não pode/deve ser dito,
provavelmente porque não há um juízo de valor sobre quem conta ou quem ouve piadas.”
(POSSENTI, 2000).
As piadas funcionam como o lugar onde as leis morais e éticas, que regem a sociedade
são suspensas. Dentro dessa abordagem, Possenti (1998), ao tratar sobre algumas “falácias” a
respeito do humor, rebate a afirmativa de que o humor teria uma função crítica. Não nega,
porém, a existência de um certo tipo específico de humor crítico. Segundo o autor, o humor
parece estar muito mais ligado ao fato de se poder dizer, através dele, algo que é mais ou
menos proibido do que, necessariamente, a um propósito crítico, revolucionário ou contrário a
certos costumes arraigados.
Ao refletir sobre a função do texto e do leitor no processo de leitura e interpretação,
Possenti (1998, p.52) explica que os textos humorísticos supõem uma espécie de controle de
sua interpretação, isto é, se não acontecer a compreensão necessária do efeito humorístico,
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eles perderão sua função principal: serem percebidos como textos humorísticos. O texto
humorístico desautoriza outra leitura por requerer uma técnica que conduz ao humor? Não se
nega, com isso, a possibilidade de outras interpretações, mas a argumentação de Possenti
(1998) afirma que há uma técnica. Não há como ignorar o papel do texto e do leitor no
processo de leitura e interpretação. Parece certo dizer que nenhum texto é unívoco e que
nenhum leitor pode “impor a qualquer texto qualquer interpretação”. Dessa forma, de acordo
com Possenti (1998, p.17), o meio que desencadeia o riso são chaves linguísticas, poderíamos,
portanto, pensar em um contraste diante da Análise do Discurso, para quem o sentido é
polissêmico e aberto a vários desdobramentos. Pois, quanto ao chiste e as piadas, o efeito de
humor requereria realmente apenas um sentido? Não poderíamos pensar em mais de um
sentido? Isso invalida o efeito de humor? É uma técnica ou não?
Possenti (1998) também evidencia a duplicidade de sentidos de palavras ou de outro
tipo qualquer de expressão, pois, segundo ele, essas não dependem jamais de uma ação
interpretativa livre do leitor. Segundo o autor, pode-se mostrar que o duplo sentido depende
sempre de um princípio, de uma regra ou de uma teoria, às vezes parecendo agir apenas
localmente, mas que é sempre a mesma. Portanto, de uma forma ou de outra, segue-se um
princípio, uma regra ou uma teoria também nos procedimentos de descoberta que revelam
sentidos inesperados no material linguístico. A conclusão óbvia é que uma língua não é como
nos ensinaram: clara e relacionada diretamente a um fato ou situação que ela representa como
um espelho. Praticamente cada segmento da língua deriva para outro sentido, presta-se a outra
interpretação, por razões variadas. Pelo menos, é o que as piadas mostram. E elas não são
poucas. Ou, no mínimo, nós as ouvimos muitas vezes. (POSSENTI, 2000, p. 93-94).
4. Considerações sobre o método
Para fins de análise, primeiramente foi necessário realizar uma pesquisa bibliográfica
pontual das abordagens teóricas do texto de Freud (1905) Os chistes e sua relação com o
inconsciente, com as considerações teóricas apontadas por Sírio Possenti (1998) em Os
Humores da língua – análise linguística de piadas. As leituras, portanto, permitiram
selecionar, recolher, analisar as ideias mais relevantes e convergentes entre os autores, bem
como contemplar reflexões dos mesmos.
5. Convergências
Freud (1905) é um dos teóricos que formou a base do pensamento dos estudos sobre o humor.
O autor já atribuía valor aos chistes muito antes de publicar o texto Os chistes e sua relação com o
inconsciente. Na obra a relação da linguagem com as formações do inconsciente são indiretamente
abordadas. Possenti (1998) é também um teórico do humor, porém contemporâneo e sua discussão
gira em torno do funcionamento da língua e os aspectos especificamente linguísticos dos discursos
humorísticos. Porém, frequentemente recorre a Freud (1905), debruça-se na obra do psicanalista e o
coloca como interlocutor em vários momentos do seu livro, Os Humores da língua. Como podemos
perceber na seguinte fala de Possenti (2000):
“Freud me ajudou mais do que Lacan e sua soberania do significante, porque este
tende a esquecer da história que aquele faz funcionar a todo o instante. Por isso,
meus poucos trabalhos no campo põem em primeiro plano o linguístico/textual”.
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Inicialmente um dos pontos mais significativos da intersecção de ideias entre os
autores parte da teoria de Freud (1977) sobre os mecanismos do prazer que o chiste provoca.
Freud (1977) já observara que o chiste consiste, essencialmente, numa certa técnica. Não é o
assunto que determina o efeito do humor ─ o sentido de um texto é engraçado porque há uma
certa maneira como ele, linguisticamente, é construído. Freud (1977) cita algumas técnicas de
chiste como a abreviação, o uso múltiplo do mesmo material e o jogo de palavras ou duplo
sentido. Conclui, explicando que jogo de palavras é uma forma de condensação sem formação
de substituto e o uso múltiplo de um mesmo material é um caso especial de condensação.
Logo, a condensação é a categoria mais ampla. Assim, todas essas técnicas tendem obedecem
ao princípio da economia, “economizamos na expressão da crítica ou na formalização do
juízo” (Freud, 1977). O autor também apresenta algumas outras formas utilizadas na
elaboração dos chistes, como o nonsense, raciocínios falhos (silogismo), a estupidez, o
automatismo, a unificação, o trocadilho a resposta pelo contrário, o cinismo e a analogia.
Freud (1977) diz que os chistes podem explicar os mecanismos da mente e as organizações
psíquicas, revelando o inconsciente humano, caracterizando-os por sua comicidade, desconcerto e
brevidade. Para ele, o prazer psíquico era proporcionado pela brevidade da piada, uma
brevidade de tipo especial.
Nessa direção, Possenti (1998) se espelha no gesto freudiano, assinalando que os
textos humorísticos podem ser explicados a partir de técnicas. O autor utiliza-se de
mecanismos linguísticos, dentre os quais se destacam os clássicos níveis linguísticos, como
fonologia, morfologia, léxico, dêixis e sintaxe, e procedimentos como pressuposição e
inferência, além do conhecimento prévio, da variação linguística da tradução e das chaves
linguísticas para a explicação desse gênero. Ele quer fazer na linguística o mesmo que Freud
(1905) fez na Psicanálise, ou seja, analisar as piadas desde um ponto de vista técnico,
repudiando análises sociológicas, psicológicas e outras.
Tomaremos como exemplo uma anedota que foi registrada por Freud (1977), mas
analisada pelos dois autores, Freud (1977) e Possenti (1998), a fim de visualizar
comparativamente como um e outro a analisa.
Ex: Um conhecido especulador da bolsa, também banqueiro, caminhava com um
amigo na principal avenida de Viena.
Quando passaram por um café, disse: - Vamos entrar e tomar alguma coisa? Seu
amigo o conteve: Mas, Herr Hofrat, o lugar está cheio de gente!
Freud (1977) afirmou que o chiste acima foi construído usando o mecanismo de
deslocamento, ou seja, mudando a ênfase de um elemento relevante, que diz respeito ao
desejo inconsciente. Lacan (1978), mais tarde, desenvolverá a equivalência do deslocamento à
da metonímia. Já, Possenti (1998) classificou a piada com base no mecanismo linguístico. A
ambiguidade na palavra tomar deriva para uma piada lexical.
Dentro desse paradigma, percebe-se uma incongruência no ponto de vista dos autores,
pois Freud (1977) não quer mostrar o funcionamento de uma piada do ponto de vista social,
linguístico, cultural, etc.; mas sim, fazer ver através do chiste, o funcionamento do
inconsciente como fator determinante para esse tipo de prazer. Já Possenti (1998) dedica-se a
analisar os traços linguísticos das piadas; para o autor, o importante é analisar como o riso é
linguisticamente provocado e não por qual motivo ele é deflagrado. Ele também acrescenta
que “para admitir a presença do inconsciente não deve excluir qualquer manobra consciente
do sujeito”. (POSSENTI, 2000).
Freud (1977) explica que o humor abre uma brecha na censura social e exprime um
pensamento que não poderia ser vinculado de maneira direta, pois provocaria reação imediata
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de quem é alvo do ridículo e, mesmo, também, porque essa liberação direta de opinião iria
resultar numa constatação puramente irada e sem graça, apesar de verdadeira (o julgamento
aqui seria apenas uma denúncia, que poderia provocar adesões e consentimento, mas não o
riso). Possenti (1988, p.49) então, ratifica a afirmação acima acrescentando que o que
caracteriza o humor é muito provavelmente o fato de que ele permite dizer alguma coisa mais ou
menos proibida, mas não necessariamente crítica, no sentido corrente, isto é, revolucionária, contrária
aos costumes arraigados e prejudiciais.
Ao citar a função fundamental do humor, Possenti (1998, p.37) não nega, porém, a
existência de uma voz crítica indireta. Para o autor “as piadas só ocorrem num solo fértil de
problemas” particularmente naqueles cultivados durante séculos de disputas e de preconceitos. Freud
(1977) denomina o chiste como “a habilidade de encontrar similaridades entre coisas dessemelhantes,
isto é, descobrir similaridades escondidas”. Assim, o chiste pode criticar tudo em poucas palavras;
além disso, é considerado como um tipo de resposta pronta.
Temos, assim, mais uma ideia convergente. Para ambos os autores, o que desencadeia o riso é a
linguagem. Freud (1977, p.13) ressalta o caráter articulado do efeito humorístico e o situa como
inteiramente dependente da linguagem e acrescenta que “para entender uma piada é preciso ser da
paróquia”, isto é, ela não tem efeito em todos os lugares, em todos os momentos, nem para todas as
pessoas, sendo indispensável determinado referente, um código, um acervo comum situado no
simbólico, na cultura, para captar o sentido. Nesse aspecto, Possenti (1998) explica que são
necessários tanto o conhecimento linguístico como o conhecimento de mundo para que se
compreenda uma piada.
E por fim, há também que se ressaltar o caráter de autoridade e reconhecimento que
Possenti (1998) dá a explicação de Freud (1977) a respeito de uma das características para a
produção do prazer derivada do chiste, que é a descoberta do seu sentido pelo ouvinte.
Como Freud está discutindo a questão do prazer que os chistes provocam, e não,
propriamente, suas condições de produção ou de recepção, estende-se um pouco
mais sobre o tema, afirmando, por exemplo, que “talvez nos rimos mais francamente
daqueles [chistes] que ora nos são de difícil uso, porque requerem comentários mais
extensos e, mesmo com tal ajuda, não produziriam o efeito original”. E ainda
comenta o seu ponto de vista e concordância, “o comentário de Freud parece
absolutamente pertinente. Posto em outros termos, é como se dissesse que os chistes
que dependem da atualidade, quando são repetidos em outras circunstâncias que não
aquelas em que são produzidos, precisam ser explicados para serem compreendidos
e produzirem, assim, algum efeito de prazer, de que o riso é uma testemunha”
(POSSENTI, 1998).
Considerações Finais
Com base no comparativo entre as abordagens teóricas do texto de Freud (1905) Os
chistes e sua relação com o inconsciente, com a obra de Sírio Possenti (1998) Os humores da
Língua: análises linguísticas de piadas é possível perceber através das reflexões aqui
estabelecidas, as possibilidades de articulação e as inúmeras convergências entre os estudos
da linguística e da língua com o estudo psicanalítico a respeito do riso e do humor.
O humor é próprio do ser humano, ou seja, só o homem pode rir e fazer o outro rir. Não há
humor fora do ser humano; o rir é uma característica humana, “é um fenômeno de descarga da
excitação mental e uma prova de que o emprego psíquico dessa excitação tropeça
repentinamente contra um obstáculo.” (FREUD, 1977, p. 170).
Dentro desse prisma constata-se também que nada o que se diz nas piadas é gratuito e
sem importância. Possenti (2000, p.25) destaca que as piadas são interessantes para os
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estudiosos, pois só há piadas sobre temas socialmente controversos, ou seja, elas são uma
ótima fonte para tentar reconhecer (ou) confirmar diversas manifestações culturais e
ideológicas, valores enraizados.
Embora Possenti (1998) volte-se para a análise dos traços linguísticos das piadas e Freud
(1905), por intermédio do chiste, mostra o funcionamento do inconsciente, consta-se que os dois
campos de saber se relacionam com notável fluidez. Através das conceituações nas abordagens foi
possível evidenciar o atravessamento na Linguística pela Psicanálise.
Referências
BERGSON, Henri. . O Riso. Ensaio sobre a significação do cômico. 2º Ed. Rio de Janeiro,
Zahar, 1983.
CHIARO, Delia. The language of jokes; analyzing verbal play. London: Routledge, 1992.
FREUD, Sigmund. Sonhos (1915-1916). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XV.
FREUD, Sigmund. Os Chistes e sua relação com o Inconsciente. (1905). In Edição Standard
Brasileira das Obras completas de Sigmund Freud V 8. RJ. Imago Editora, 1977.
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Rio de Janeiro:
Perspectiva, 1978.
MALISKA, Maurício Eugênio. Entre Linguística & Psicanálise - O Real Como Causalidade
da Língua em Saussure. Curitiba, Juruá, 2. Ed, p. 17, 2003.
POSSENTI, Sírio; Humor de circunstância, 10/2008, Filologia e Linguística Portuguesa, Vol. 9,
pp.333-344, São Paulo, SP, BRASIL, 2000.
______. Os humores da língua: análises linguísticas de piadas. Campinas, SP Mercado de
Letras, p.152, 1998.
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