A GREVE DO FIM DO MUNDO
Israel Pinheiro, professor Depto. Política/UFBa, membro do CD/Proifes
O governo Dilma, seguindo o espírito do anterior, já deu provas de que não está
indiferente à sorte dos deserdados, dando muita ênfase à escola publica, mesmo a
superior, que é muito cara. No entanto, há um momento em que um limite se estabelece,
não pelo governo mas por uma ordem poderosa que paira acima dele. A tese de que em
política, quem grita mais leva, é uma boa tese, mas inócua e depois muito perigosa,
quando endossada pela insensatez. Não entender, por exemplo, que o limite está em nós
mesmos enquanto categoria e grupo social é grave. Podemos fazer coisas de
consequências muito imprevisíveis dentro de um certo espírito juvenil. É com estes limites,
que todos nós temos que trabalhar. E quem mais conhece estes limites são os nossos
inimigos no próprio governo. Quando este limite for extrapolado, será sempre por um
grupo arrivista que em nome da classe se afasta dela, pretendendo radicalizar a luta da
classe, radicaliza somente o discurso classista, o que além de não prestar pra nada,
atrapalha muito e às vezes por muito tempo.
A greve e os partidos
Descolados do movimento real, sem a sua referencia como elemento básico de atuação,
passam a ter um discurso próprio, um discurso ruim porque reflete agora o mundo destas
pessoas, o mundo que aí está, um mundo elitista, conservador, individualista, onde o
poder é tudo e o resto não é nada. O poder da burocracia sindical, no nosso caso, que lhes
propicia dinheiro e espaço político, duas coisas fundamentais para seu real projeto de um
partido político nacional com o qual farão a “revolução socialista”, a redenção de todos
nós! Um “socialismo” à sua imagem e semelhança, vertical, autoritário, conservador;
tipicamente soviético porque os objetivos da liderança, do partido estão colocados acima
da sociedade. Não é parte da luta social, instrumentaliza-a em beneficio de seu projeto
partidário, um sujeito oculto no seu discurso. O objetivo primeiro da Andes nesta greve é
retomar as antigas secções sindicais que foram para o Proifes, transformadas em
sindicatos locais. São sindicatos grandes. Precisam colocar a mão na dinheirama para
sustentar partidos sectários, que por sua vez colocam sua máquina à disposição do
sindicato para fazer a greve do fim do mundo. São os que arregimentam as claques para
atacar assembléias de professores ainda não sob o seu estrito controle.
Os professores e os partidos
Os nossos professores que estão fazendo a greve por melhoria salarial, carreira, condições
de trabalho etc,etc, como ficam nesta historia toda? Literalmente a ver navios. A Andes, lá
no inicio da greve disse com todas as letras que mesmo se a proposta do governo fosse
boa, eles continuariam em greve. Então o professor Wellington Duarte da UFRN, nosso
diretor de comunicação no Proifes, sabiamente acertou na mosca:’’esta é a greve do fim
dos tempos,a greve do fim do mundo’’. Isto é, se depender dos andinos, esta greve só
termina com o mundo, com o final dos tempos. Uma não terminará sem o outro. Seu
objetivo único e explícito é desgastar, enfraquecer o governo Dilma. Portanto, quanto
mais longa, melhor. A imensa divulgação que a grande imprensa, principalmente a Globo,
está fazendo do discurso da Andes é porque ambos têm o mesmo objetivo político:
derrotar o projeto de um governo popular em curso desde o presidente Lula. É com imensa
tristeza que vemos hoje o rumo que tomou o nosso antigo sindicato nacional,
principalmente quando nos lembramos de seu glorioso passado dos anos 80 e 90, quando
esteve integrado ao que havia de melhor nas lutas sociais daqueles anos. O Proifes tem
presença e representatividade em nossas maiores universidades, está presente em 77
campi das nossas IFES e Institutos Federais, é interlocutor qualificado dos milhares de
professores que representa nas mesas de negociação, tem projeto de carreira e de ensino
superior, os quais vem discutindo em todas os fóruns onde tem assento. Nunca foi contra a
greve ou qualquer outra forma de luta social, apenas prioriza a negociação e o parlamento,
porque temos um governo democrático e um parlamento receptivo às teses do ensino
público.
A grande imprensa (quem diria!) nossa aliada..
Pois bem, com todos estes apetrechos e qualificações, o Proifes foi marginalizado pela
grande imprensa: não estava fazendo a greve. O mesmo aconteceu com todos os seus
sindicatos federados. A APUB, pese a todos os esforços de sua diretoria, não conseguiu
colocar cinco linhas na imprensa até o dia 29/05, quando entramos em greve. Aí a coisa
mudou da água para o vinho. A greve era o único que contava. Era o mascote da grande
imprensa. Porque a Andes abandona uma negociação que está tendo um curso normal e o
Proifes não, este é um tema fundamental para a imprensa, quando o assunto dela é a
informação, a respeitabilidade do leitor. Mas como não é, nenhuma questão importante
que envolve todo este processo que se arrasta a meses, veio à tona na grande imprensa.
Portanto, definitivamente não somos aliados da direita brasileira, tão bem representada
pela Globo e cia. que resolveu por um fim ao atual projeto político do governo petista. A
Andes é sua grande aliada no nefando projeto. A greve da Andes é para desgastar o
governo. Por isto não pode terminar nunca, pelo menos enquanto estiver no seu controle.
Esta é a mesma imprensa que aprovou o golpe militar de 1964, os 21 anos de ditadura e
todos os governos anteriores a Lula. Agora travestida de fiel escudeira de uma greve de
professores, uma classe que ao longo do tempo, vem agüentando todas as pancadas de
todos os regimes. É muita ironia ou pelo menos alguma coisa aqui está muito estranha.
Quem viver, verá.
Os professores só apóiam a greve!
Mas voltando ao paroquial, os andinos, completamente isolados dentro da APUB nas
últimas gestões, ressurgem agora com algum apoio entre os professores, principalmente os
novos. Um apoio, o dos professores, à greve e não ao discurso supostamente identificado
com estes que se entendem donos da greve. É sintomático o fato de que alardeiam
assembléias com duzentos, trezentos ou mais professores e não conseguem quorum para
uma de cento e vinte professores para modificar um artigo do estatuto da APUB que eles
dizem estar prejudicando a greve. Os professores conseguem diferenciar a questão política
de interesse geral (a greve) de um discurso ideológico completamente apartado de seus
interesses dentro do movimento paredista. Assim que a greve para os nossos andinos não
é a mesma coisa que para os e a grande massa de professores que acorreu às primeiras
assembléias para fazer a greve, não. Por isso, se depender só dos andinos, essa greve
não termina tão cedo, independente de seus resultados imediatos na mesa de negociação
com o governo. O que está posto, portanto, é a clareza, o discernimento dos professores
quanto ao comportamento “particular” de seus “líderes”.
O momento é de decisão
Todos sabermos que se as três entidades (Andes, Proifes e Sinasefe) que negociam a
greve com o governo rejeitarem a sua proposta o certo é que o governo a retirará e
ficaremos sem nada para os próximos três anos. Então os professores estão diante de um
dilema de signo positivo: radicalismo versus negociação. Conquistas parciais e
economicamente relevantes ou nada. O Proifes, na sua tradição de uma entidade
propositiva, vai pelo caminho das conquistas parciais como primeira opção por entender
que a nossa capacidade para arrancar do governo o que consideramos de direito é muito
limitada no imenso tabuleiro dos interesses políticos que estão em jogo na questão
específica de reajuste dos servidores públicos. Evidentemente que é inaceitável uma
proposta em que uma parte da categoria, ainda que minoritária, não tenha reajuste
suficiente para cobrir a inflação dos três anos do acordo. Mas o que está em jogo, repito, é
a questão de interesse geral. O governo já disse reiteradas vezes que não tem mais
recursos para essa proposta pelo fato também de este reajuste ser o maior entre as
categorias do serviço público. Há aqui também um problema de equidade. O nosso
reajuste não vai poder estar muito acima dos demais. Os andinos não estão nem ai para
toda esta peroração em torno da política, do que podemos fazer, do que pode ser feito
etc.etc. O que eles querem é a greve do fim do mundo. Dizer que mesmo se a proposta do
governo for boa, eles continuam em greve é muito grave para a situação que está posta. É
mais do que suficiente para sabermos com quem estamos labutando, quem são eles e o
que querem. Portanto fiquemos atentos aos acontecimentos que se aproximam e as
decisões que temos que tomar. Sejam quais forem, têm que ser decisões nossas, da pauta
que é publica e não a do sujeito oculto, mas é verdade bastante insinuado, muito pouco
dissimulado, ultimamente.
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