Capitalismo e práxis a partir da luta pela moradia Fernanda Keiko Ikuta* Antonio Thomaz Júnior ** Resumo: A luta pela moradia pode representar hoje uma das frentes de oposição ao iníquo desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo? Como os movimentos de moradia estão enfrentando as repercussões do neoliberalismo e do atual contexto de domesticação das alternativas e do campo de conflitos? Preocupados com essas questões nos colocamos a pensar a práxis existente hoje na luta pela moradia popular na cidade de São Paulo. Concluímos que o capitalismo tem logrado reiterar sua hegemonia recriando formas de cooptação da subjetividade social, porém, das próprias fissuras dos mecanismos de dominação do capital nascem práxis criativas capazes de reinventar policiticidades: os movimentos de moradia participam desse processo criando dissensos que podem romper com o urbano instituído. Palavras-chave: luta pela moradia; conflito capital X trabalho; práxis; capitalismo. Capitalism and housing struggle praxis Abstract: Can the housing struggle represent today one of the opposition fronts to the uneven spatial-temporal development of capitalism? How are the housing movements facing the repercussions of the neo-liberalism and the current context of domestication of both the alternatives and the conflict field? As we are worried about these questions, we start to think about the existing praxis of popular housing struggle in São Paulo city. We agree that the capitalism has assured its hegemony by recreating ways to aggregate the social subjectivity, but it is clear that creative praxis is born from the cracks in the mechanisms of capital domination. Therefore this praxis is capable to reinvent policies as follows: the housing movements take part in this process by creating disagreements that could break up the instituted urban. Key words: housing struggle, capital-labor conflict, praxis, capitalism. A luta pela moradia no capitalismo atual David Harvey (2006) e Francisco de Oliveira (2007) afirmam que vivenciamos no capitalismo atual um contexto de domesticação das alternativas e do campo de conflitos. Esse contexto de indeterminação apontado por Oliveira (2007), quer dizer que as linhas entre classe e representação, interesses e representação não estão claras, “as relações são difusas e indeterminadas” (OLIVEIRA, 2007, p. 38). Sofrendo as conseqüências e repercussões da década, iniciada em 1990, de “desertificação neoliberal”, que se configurou como uma “época de informalização” e “devastação social” no Brasil (ANTUNES, 2005), há hoje uma incerteza, uma dificuldade de identificação, pairando no ar, ou, nas palavras de Oliveira (2007, p. 24), “uma densa * Doutoranda em Geografia pela Unesp/P. Prudente, membro do Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT). End. eletrônico: [email protected] ** Prof. Dr. do Deptº. de Geografia e Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unesp/P. Prudente, ooord. do Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT). End. eletrônico: [email protected] opacidade, uma neblina, um nevoeiro” que “desmancha a classe” (SILVA, 2007). Por essa perspectiva, que compartilhamos, a luta pela moradia hoje, assim como outras lutas sociais, ocorre num momento que amarga as repercussões do neoliberalismo em nosso país, e que depois desse período de “desmanche” do país, vêm se configurando como uma “era da indeterminação” (OLIVEIRA; RIZEK, 2007). Então, nos perguntamos como esse contexto é percebido na luta pela moradia. Essas grandes tendências parecem demarcar a práxis existente na luta pela moradia, uma vez que a nova agenda destrutiva do capitalismo também se reflete e produz uma nova agenda urbana. Neste contexto, há uma produção de novos mecanismos que o capital tem desenvolvido para expandir a sua sociabilidade para além da esfera da produção, atingindo com mais força sobre a esfera da re-produção. É preciso considerar então, as repercussões desses mecanismos para o trabalhador urbano envolvido na luta pela moradia, pois o trabalho é afetado na sua objetividade e na sua subjetividade, tanto dentro do trabalho como fora dele (cotidiano/re-produção). A materialização dessas grandes tendências confere à luta pela moradia particularidades espaciais e territoriais que não permitem um transplantar cego de uma ou outra tendência. Ao contrário disso, as saídas políticas, tanto do lado das políticas públicas urbanas quanto do lado dos movimentos sociais, são heterodoxas, híbridas, mas sem subtrair-se do âmbito do capital. E justamente por não escaparem desse domínio do capital, o iníquo desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo vai sendo reiterado, também em sua vertente urbana. Assim, a análise da luta pela moradia precisa incorporar elementos analíticos que dêem conta dessa nova e complexa dinâmica. Nos últimos anos, o campo de forças onde os movimentos de luta pela moradia são obrigados a se moverem é, predominantemente, o campo da lógica gestionária do empreendedorismo social. Essa lógica foi disseminada pela política neoliberal fragmentadora e contra-insurgente, numa práxis que reitera a ordem do capital. O empreendedorismo social está presente nas políticas urbanas atuais que, amparadas na criação de mitos e imagens legitimadoras do individualismo, da competitividade e da impossibilidade, colaboram para a fragmentação na práxis desses movimentos e intensifica o imediatismo das lutas. Mas apesar da hegemonia dessa lógica gestionária do empreendedorismo social, das próprias fissuras dos mecanismos de dominação do capital nascem práxis criativas/revolucionárias que podem reconstruir sociabilidades e inventar novas politicidades (CECEÑA, 2006; SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2003). O próprio Harvey (2002, p. 4) aponta que as condições de um desenvolvimento geográfico e histórico desigual impõem dificuldades, mas também oferecem oportunidades para a organização e a ação políticas. Aí está a pertinência de nos colocarmos a pensar a práxis1 existente na luta pela moradia hoje, entendendo a práxis como uma categoria que oferece a possibilidade de pensar o instituído (a ordem dada) e o instituinte (o porvir) na luta pela moradia 2. Diante desse contexto histórico-geográfico de reiteração da ordem do capital, e das possibilidades criativas/revolucionárias que suas contradições oferecem, cabe perguntar como os movimentos de moradia popular estão enfrentando essa lógica do empreendedorismo social que intensifica o imediatismo das lutas. Quais as possibilidades da luta pela moradia representar hoje uma das frentes de oposição ao iníquo desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo? É esse o contexto histórico-geográfico que iremos considerar para nos debruçar sobre a luta pela moradia na cidade de São Paulo e entorno metropolitano, a partir do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do Movimento de Moradia do Centro (MMC) e do Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), cujas mobilizações se apresentam em plena efervescência, e sobre as políticas públicas urbanas a partir da década de 1990 até os dias atuais. Cabe esclarecer que estamos compreendendo a luta pela moradia a partir do conflito capital x trabalho, isto é, como uma componente da luta de classes. A luta pela moradia expressa, assim, territórios e práxis em disputa. Portanto, nossa perspectiva sobre os movimentos de moradia implica refletir a respeito do trabalhador/sem teto como um ser uno organizado na luta pela moradia. Territorialidades da luta pela moradia As mutações no capitalismo atual ocorrem com a criação de novas territorialidades do capital e do trabalho. Neste sentido, a dinâmica geográfica dos trabalhadores organizados na luta pela moradia é marcada por constantes reconfigurações territoriais, isto é, processos de des-re-territorializações. 1 A práxis, segundo Sánchez Vázquez (2003), é pensamento e ação, subjetiva e coletiva, revela conhecimentos teóricos e práticos - supera unilateralidades. 2 Pois a práxis se apresenta em diversas formas específicas e há graus de participação (indivíduo, grupo, sociedade) na práxis total (atividade pela qual o homem se produz e se cria a si mesmo). “Mas, ainda que a práxis total seja criadora, ou seja, humanizante, em suas formas ou níveis específicos pode oscilar [...] entre uma práxis propriamente criadora, e uma atividade reiterativa, mecânica” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2003, p.475, tradução nossa). O mito da “cidade-global” (FERREIRA, 2007), um projeto de modernização neoliberal-globalizadora da cidade, um padrão urbano hegemônico no atual governo de Serra/kassab, que na metrópole de São Paulo mimetiza os pólos de negócios e lazer dos países centrais (FIX, 2007, p. 161), legitima a produção de “ilhas globalizadas” que geram uma acelerada valorização fundiária e imobiliária. Grandiosos e luxuosos edifícios de escritórios, hotéis, cafés e restaurantes de “marca”, casas de espetáculo, shopping’s centers e centros culturais são alguns dos resultados dessa redefinição do urbano (o novo monumentalismo arquitetônico) de uma pequena parte da cidade de São Paulo. Há dois grandes eixos. Um dos eixos se refere ao processo de “gentrificação” no Centro de São Paulo, e suas promessas são “a alta cultura, o glamour dos velhos tempos, uma cidade civilizada e democrática, pois é ‘acessível a todos’”. Aqui pode ser dado como exemplo a Sala São Paulo. O outro eixo privilegia a construção de novas centralidades na marginal do rio Pinheiros, que está se transformando em um grande eixo de negócios e consumo, onde “[se] promove novos arranha-céus, casas de show e bingos, um sky-line americanizado, com vias expressas e túneis, (WISNIK et al., 2001, p. 21)3. A maioria dos edifícios da marginal Pinheiros são “construídos como um investimento, para ser alugados” (FIX, 2007, p. 23). Essas novas territorialidades do capital, interessantes apenas para os setores imobiliários e fundiários tradicionais que obterão lucros extraordinários, desencadeiam processos precarizantes que reconfiguram territorialmente os trabalhadores urbanos, sobretudo des-territorializando-os (precarizando-os territorialmente). Cabe esclarecer, que a desterritorialização, antes de significar desmaterialização/deslocamento, significa precarização territorial (HAESBAERT, 2004; 2007). Associamos o processo de desterritorialização aos “processos de expropriação, precarização e/ou exclusão inseridos na lógica de acumulação capitalista”. É dentro de uma condição de classe e num determinado contexto histórico que a desterritorialização (precarização territorial) se processa (HAESBAERT, 2004; 2007). É certo que o processo de precarização/desterritorialização dos trabalhadores sem teto é intenso e de longa data. Mas hoje novas precariedades/desterritorialidades 3 Os empreendimentos mais emblemáticos entre os anos 1977 e 2003 são: “a) o Centro Empresarial São Paulo (Cenesp) e a chamada ‘Bratkelândia’, na avenida Berrini; b) o São Paulo Office Park, o Centro de Administração Philips (PSS), o World Trade Center e o Birmann 21; c) o Centro Empresarial Nações Unidas (Cenu) e o Birmann 29; d) o Birmann 31” (FIX, 2007, p. 32). são criadas como fruto dos novos mecanismos do capital, que alteram o modo de pensar, planejar e viver a cidade e seus problemas urbanos. Como exemplos de processo de precarização/desterritorialização dos trabalhadores sem teto, pensando nos últimos anos, cabe citar: toda a intensificação das desigualdades, as precariedades, a segregação sócio-espacial e o aprofundamento da exploração: ou seja, a submissão dos trabalhadores à flexibilidade das relações de trabalho, informalidade, desemprego estrutural, jovens à procura do 1º emprego, etc. (precarização das relações de trabalho), as favelizações, o processo de gentrificação (expulsão dos marginalizados do centro de SP, sobretudo na gestão Serra/Kassab), as condições materiais do universo empobrecido dos trabalhadores sem teto e a subjetividade apropriada que impera em suas mentes (não esqueçamos que o capital também vende bens simbólicos) e dela que vem a debilidade da identidade de classe e suas formas associativas. Esses territórios em disputa nos revelam que, nos últimos anos, as administrações públicas da cidade de São Paulo têm tomado um rumo que canaliza recursos públicos para a valorização fundiária e imobiliária em áreas ultraprivilegiadas, em contrapartida com a privação, não apenas de moradia digna, mas do conjunto das condições básicas de vida, de quase metade dos paulistanos sujeitos à intensificação da precarização estrutural do trabalho, da criação de novas precariedades e, portanto, ao aprofundamento do desenvolvimento geográfico desigual. Há uma combinação de mecanismos clássicos de precarização, de expulsão da classe trabalhadora que são potencializados e redefinidos por novas reconfigurações econômicas e políticas. Políticas públicas: o projeto urbano do capital Neste item objetivamos discutir os projetos urbanos, do capital, em pauta hoje. Qual é a cidade que se planeja? Quais os paradigmas, as formulações ideológicas, os projetos políticos que regem a práxis (as ações e os discursos) do capital e do Estado no urbano. Vemos duas correntes principais que, apenas aparentemente, são antagônicas: 1) um projeto urbano muito mais próximo aos ideais neoliberais e; 2) um projeto que defende a “gestão democrática da cidade”. Vamos a eles. “Cidade-Empresa”, “Cidadão-Cliente”: o projeto de modernização neoliberalglobalizadora da cidade O projeto de modernização neoliberal-globalizadora da cidade enfatiza a incorporação da “cidade-empresa” e do “cidadão-cliente” ao mercado global. Para tanto, as cidades devem se constituir em territórios de produtividade, competitividade e consenso, a ser alcançadas com um modelo de planejamento e gestão que transplanta conceitos e técnicas empresariais para o urbano, a exemplo do planejamento estratégico. É um projeto de total submissão ao mercado. E o que dá sustentabilidade a esse projeto urbano é a presença do Estado e sua parceria com o setor privado, por meio de uma postura de submissão às propostas dos grupos internacionais, cujos representantes nacionais têm a hegemonia da vida econômica do país. O “Estado mínimo da falsa utopia neoliberal” (OLIVEIRA, 2007, p. 286) somente é mínimo no que concerne a deixar de lado as necessidades de grande parte dos trabalhadores e a viabilizar a privatização dos serviços relacionados à infraestrutura, e à flexibilização e terceirização das relações de trabalho. Sem embargo, se é verdade que o Estado se ausenta do social, também é que ele se faz muito presente para que haja mais e mais mercado. Para permitir que o mercado se realize integralmente, o Estado faz suas parcerias com o setor privado e estreita suas relações com as agências multilaterais (Banco Mundial, BID), que não exercem apenas um papel de financiadoras, mas funcionam também como centros de decisões (impondo regras, formas, rotinas) e comunicação articulados escalarmente. Em São Paulo, hoje, no atual governo Serra/Kassab, temos uma gestão pública terceirizada, ou seja, um governo local atento aos grandes interesses privados. A opção por seguir um projeto de modernização neoliberal-globalizadora da cidade prioriza as inversões vinculadas ao mercado global - feita para um “cidadãocliente”, pois se trata de “converter em empreendedores muitos mais dos que já são e, a todos, em co-partícipes de uma empresa cada vez mais integrada, da qual simplesmente seja pouco recomendável ficar à margem” (TRAFUL, 2002, p. 12, tradução nossa). Há nas políticas urbanas um predomínio da lógica gestionária do empreendedorismo social, e essa lógica é fragmentadora, ela intensifica o imediatismo das lutas, e é contrainsurgente, numa práxis que reitera a ordem do capital. “Gestão democrática das cidades” O governo municipal de São Paulo entre os anos 2001 e 2004, sob responsabilidade da prefeita Marta Suplicy, do Partido dos Trabalhadores (PT), pode ser entendido, segundo alguns autores, como um governo que deu mais ênfase a uma política social mais humana e mais justa, voltada aos pobres e com maior abertura do poder público para a participação da dita sociedade civil. Defende-se que neste governo foi criada uma nova geração de políticas sociais e do trabalho cuja estratégia seria alcançar o desenvolvimento com inclusão social (POCHMANN, 2002; GASPAR et al., 2006 ). A estratégia de inclusão social, avaliada como um diferencial do governo Marta Suplicy, foi fundamentada, via Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade, por três grandes blocos programáticos (redistributivos; de capacitação ocupacional e geração de ocupação e renda para acesso ao crédito; e de apoio ao desenvolvimento local e à reorganização do mercado de trabalho direcionados para os excluídos), especialmente pobres e desempregados, no entendimento dos programas (POCHMANN, 2002). Além desses programas sociais, a criação das Subprefeituras no governo Marta é tomada como um sistema de democratização do Estado. A descentralização era vista como parte de uma proposta democrática: o Orçamento Participativo se integrava às Subprefeituras. (GARIBE, 2006, p. 27). Desse projeto de descentralização destacamos a participação que era considerada como um elemento fundamental para a implantação de uma “gestão democrática da cidade”. Ou seja, considerava-se que o governo Marta estava iniciando uma abertura do poder público para a participação da denominada sociedade civil.Todavia, não houve uma participação social efetiva como se propôs. O que houve sim foi uma convivência pacífica entre a ação participativa e reivindicativa dentro dos canais de participação, por exemplo, nos Orçamentos Participativos, e a percepção de que os movimentos sociais permaneceram atados à mobilização das redes pessoais como maneira de acesso ao Estado (TEIXEIRA; TATAGIBA, 2005, p. 73). Enfim, acreditamos que, no limite, este projeto sugere ser possível pensar numa missão civilizadora do capital. Enquanto o projeto da “cidade-global” é um projeto de submissão absoluta ao mercado, o projeto que defende uma “gestão democrática” para a cidade se sustenta na idéia da humanização do mercado, já que ele, segundo essa perspectiva, é inexorável. Na verdade, não se vislumbram mudanças sociais efetivas, ao contrário, corrobora-se a racionalidade do mercado por meio da propagação de um discurso falacioso de ação radical e, até mesmo, revolucionária, justificada na “gestão democrática”. Nem cidade-global, nem cidade democrática... São Paulo dos últimos anos, uma gestão híbrida reiterando o capital Vimos acima, que o projeto de “gestão democrática da cidade” não consegue escapar do âmbito do mercado. Da mesma maneira, o discurso dos empreendedores da modernização neoliberal-globalizada da cidade é capaz de alterar-se, de apropriar-se de discursos e de práticas outras para que seus interesses sejam logrados e legitimados. A “cidadania”, a participação da sociedade civil na gestão pública e a busca do consenso (paz social) são questões, aparentemente opostas aos ideais do novo modelo modernizador que é completamente descompromissado com as iniqüidades que causa. Contudo, por vezes, são questões que acabam sendo incorporadas no discurso, e em determinadas ações, dos que ostentam o mito da “cidade-global”. Por exemplo: as novas centralidades para negócios e consumo e o processo de gentrificação poderiam ser identificadas com os ideários da “cidade-empresa” porque ambos pretendem incluir a cidade no circuito global, um pelo lado econômico e o outro pela “alta cultura”. Mas uma parte dos gestores urbanos defende que a renovação urbana do centro de São Paulo também pode se realizar como uma cidade civilizada e democrática, acreditando que ela pode ser para todos: são princípios mais próximos da segunda corrente, a da “gestão democrática”, o que delata não haver um purismo paradigmático nas gestões. Por outro lado, o projeto de “gestão democrática”, por meio dos Conselhos Municipais e do Orçamento Participativo, que se propunham como canais de abertura do poder público, na verdade funciona mais como um ambiente favorável a crença na neutralidade do Estado e a despolitização dos movimentos sociais, já que a participação atendeu à legitimação das políticas públicas. Nesse sentido, esse panorama didático nos permite perceber que a gestão de São Paulo apresenta várias facetas que mesclam instrumentos, discursos e ações do projeto de modernização neoliberal-globalizadora e do projeto de “gestão democrática da cidade”, conformando-se em uma gestão que, na verdade, é híbrida. Essa gestão híbrida - com graduações entre ser mais ou menos “humanizada”, ou social, como preferem outros, mais ou menos “democrática”, mas cujo cerne não deixa de ser a “utopia da cidade-mercadoria” (HARVEY: 2006) - se dissemina sob diferentes nomenclaturas que mascaram seu ideal de atender as imposições atuais do capital. Ou seja, mais que um antagonismo puro entre a opção por uma “cidade global-neoliberal” e uma cidade regida pela “gestão democrática”, poderíamos delatar a tendência a uma gestão híbrida, cuja base não consegue ir além do estreito âmbito do capital. A gestão híbrida tem, ainda, o efeito de debilitar as múltiplas resistências que surgem como respostas a modelos que mantêm o status quo e não permitem realizar transformações sociais capazes de garantirem uma sociedade efetivamente mais justa. Contra os territórios do capital: os projetos urbanos do trabalho... pela construção de uma práxis criativa Apesar dos projetos urbanos hegemônicos analisados acima, há ainda as utopias dos trabalhadores que foram ex-lideranças sindicais, trabalhadoras que foram domésticas a vida inteira, trabalhadores da construção civil, jovens que nunca tiveram um emprego formal e nem um passado de militância política. São esses trabalhadores organizados nos movimentos sociais que, em meio à fragmentação, à cooptação, aos diversos conflitos internos, à persistência da luta, revelam a existência de uma complexidade que ainda requer ganhar voz e que, talvez, mas que nos convidar ao pretensioso exercício de seu desvelamento, cumpra o papel de nos colocar a reimaginar o urbano atual. Alguns movimentos sociais assumem iniciativas conflitivas e até de resistência, que podem se configurar como práxis de outros projetos urbanos, os projetos do trabalho para colocar-se contra os territórios do capital, ou seja, que se confrontem à lógica urbana/social em vigor. Com as ocupações, os movimentos desafiam a lei da propriedade privada, entram na disputa por territórios, muitas vezes territórios estratégicos para o poder e pressionam o poder público com suas reivindicações. Podemos citar: a decisão do MTST de ocupar terrenos urbanos e construir acampamentos bem posicionados estrategicamente; e a ocupação de edifícios na região central da cidade de São Paulo pelo MMC e pelo MSTC. Esses prédios ocupados estão localizados na região central, área onde o poder público municipal e os grandes empreendedores imobiliários têm outros projetos urbanos reservados (a re-qualificação, a gentrificação). Com os atos de manifestação pública, os movimentos denunciam e dão visibilidade à situação de precariedade na moradia e em outras condições de existência dos sem teto, e muitas vezes também às situações de repressão estatal sofrida (violência policial, despejo determinado por ações judiciais de reintegração de posse). Com a formação política, os movimentos avançam na possibilidade da construção de uma identidade coletiva entre seus militantes, na autonomia e no fortalecimento dos seus projetos políticos. Porém, na dinâmica dos movimentos há dificuldades, desafios, e há contradições e fissuras internas. São exemplos: a existência de hierarquia entre as lideranças e a base; a vulnerabilidade da organização da base quando uma liderança é tirada de cena; a ausência de consciência da própria práxis; a disputa entre os movimentos. Além dessas fragmentações internas à luta pela moradia, há uma série de instrumentos e mecanismos de todos os tipos (econômico-financeiros, culturais, e até bélicos) utilizados pelos sujeitos dominantes para re-afirmar o domínio absoluto do capital e fragmentar e fragilizar os trabalhadores no cotidiano e na luta (por meio de novos mecanismos para atingir a subjetividade social). Ou seja, são fragilidades e fissuras produzidas pela práxis reiterativa do capital para reiterar sua hegemonia econômica, política, cultural. Harvey (2002) e Mészáros (2002) nos apontam que a grande força do capitalismo atual é seu intento de nos convencer de que “não há alternativa” (à racionalidade suprema do mercado, à competitividade, ao individualismo de mercado, ou seja, “não há alternativa” à ordem posta). A pauta e a agenda estão dadas e os produtos são os indivíduos isolados e com a generalizada sensação de impotência. Esses processos ofuscam a consciência que os movimentos poderiam ter de sua própria práxis e, por isso, dificultam a articulação orgânica entre os movimentos sociais e a ampliação da luta pela moradia “para além das quatro paredes”, num projeto político que, de fato, represente uma contra-insurgência aos territórios do capital, isto é, que seja uma luta a mais pela construção de uma nova sociedade. Todavia, dialeticamente, dessas contradições (capital e movimentos) outras práxis, que não reiterativas, podem se constituir. Os movimentos se organizam contra os territórios do capital, por exemplo: com a Ocupação Prestes Maia do MSTC que contesta o Estado através da ocupação (e a posterior continuidade da luta); com as ocupações e as ações integradoras do MTST a exemplo da implantação de experiências como o rururbano que rompem com as divisões administrativas como cidade-campo, centro-periferia; a não filiação partidária, etc. Considerações finais Concluímos então, que, o capitalismo atual se sustenta no desenvolvimento de novos mecanismos do capital que, com cada vez mais sutileza, escamoteiam a ampliação e a maior complexidade das diferenças entre as classes e que quer nos fazer crer que não há alternativas para sua ordem urbana e territorial. Todavia, das próprias fissuras dos mecanismos de dominação do capital nascem práxis criativas/revolucionárias (na crítica e na ação de determinados movimentos de luta pela moradia que são capazes de criar conflitos e dissensos, alterar ou destruir componentes da ordem dada, romper com o urbano instituído), ou seja, que podem reconstruir sociabilidades e inventar novas politicidades. Referências: ANTUNES, Ricardo. A desertificação neoliberal no Brasil (Collor, FHC e Lula). 2 ed. Campinas: Autores Associados, 2005. CECEÑA, Ana Esther. Sujetizando el objeto de estudio, o de la subversión epistemológica como emancipación. In: CECEÑA, Ana Esther (org.). Los desafíos de las emancipaciones en un contexto militarizado. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2006, p. 13-43. FERREIRA, João Sette Whitaker. O mito da cidade-global: o papel da ideologia na produção do espaço urbano. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Editora Unesp; Salvador: Anpur, 2007. FIX, Mariana. 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