Capitalismo e práxis a partir da luta pela moradia
Fernanda Keiko Ikuta*
Antonio Thomaz Júnior **
Resumo: A luta pela moradia pode representar hoje uma das frentes de oposição ao iníquo
desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo? Como os movimentos de moradia estão
enfrentando as repercussões do neoliberalismo e do atual contexto de domesticação das
alternativas e do campo de conflitos? Preocupados com essas questões nos colocamos a pensar a
práxis existente hoje na luta pela moradia popular na cidade de São Paulo. Concluímos que o
capitalismo tem logrado reiterar sua hegemonia recriando formas de cooptação da subjetividade
social, porém, das próprias fissuras dos mecanismos de dominação do capital nascem práxis
criativas capazes de reinventar policiticidades: os movimentos de moradia participam desse
processo criando dissensos que podem romper com o urbano instituído.
Palavras-chave: luta pela moradia; conflito capital X trabalho; práxis; capitalismo.
Capitalism and housing struggle praxis
Abstract: Can the housing struggle represent today one of the opposition fronts to the uneven
spatial-temporal development of capitalism? How are the housing movements facing the
repercussions of the neo-liberalism and the current context of domestication of both the
alternatives and the conflict field? As we are worried about these questions, we start to think
about the existing praxis of popular housing struggle in São Paulo city. We agree that the
capitalism has assured its hegemony by recreating ways to aggregate the social subjectivity, but
it is clear that creative praxis is born from the cracks in the mechanisms of capital domination.
Therefore this praxis is capable to reinvent policies as follows: the housing movements take part
in this process by creating disagreements that could break up the instituted urban.
Key words: housing struggle, capital-labor conflict, praxis, capitalism.
A luta pela moradia no capitalismo atual
David Harvey (2006) e Francisco de Oliveira (2007) afirmam que vivenciamos
no capitalismo atual um contexto de domesticação das alternativas e do campo de
conflitos. Esse contexto de indeterminação apontado por Oliveira (2007), quer dizer que
as linhas entre classe e representação, interesses e representação não estão claras, “as
relações são difusas e indeterminadas” (OLIVEIRA, 2007, p. 38). Sofrendo as
conseqüências e repercussões da década, iniciada em 1990, de “desertificação
neoliberal”, que se configurou como uma “época de informalização” e “devastação
social” no Brasil (ANTUNES, 2005), há hoje uma incerteza, uma dificuldade de
identificação, pairando no ar, ou, nas palavras de Oliveira (2007, p. 24), “uma densa
*
Doutoranda em Geografia pela Unesp/P. Prudente, membro do Centro de Estudos de Geografia do
Trabalho (CEGeT). End. eletrônico: [email protected]
**
Prof. Dr. do Deptº. de Geografia e Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unesp/P. Prudente,
ooord. do Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT). End. eletrônico:
[email protected]
opacidade, uma neblina, um nevoeiro” que “desmancha a classe” (SILVA, 2007). Por
essa perspectiva, que compartilhamos, a luta pela moradia hoje, assim como outras lutas
sociais, ocorre num momento que amarga as repercussões do neoliberalismo em nosso
país, e que depois desse período de “desmanche” do país, vêm se configurando como
uma “era da indeterminação” (OLIVEIRA; RIZEK, 2007).
Então, nos perguntamos como esse contexto é percebido na luta pela moradia.
Essas grandes tendências parecem demarcar a práxis existente na luta pela moradia,
uma vez que a nova agenda destrutiva do capitalismo também se reflete e produz uma
nova agenda urbana. Neste contexto, há uma produção de novos mecanismos que o
capital tem desenvolvido para expandir a sua sociabilidade para além da esfera da
produção, atingindo com mais força sobre a esfera da re-produção. É preciso considerar
então, as repercussões desses mecanismos para o trabalhador urbano envolvido na luta
pela moradia, pois o trabalho é afetado na sua objetividade e na sua subjetividade, tanto
dentro do trabalho como fora dele (cotidiano/re-produção).
A materialização dessas grandes tendências confere à luta pela moradia
particularidades espaciais e territoriais que não permitem um transplantar cego de uma
ou outra tendência. Ao contrário disso, as saídas políticas, tanto do lado das políticas
públicas urbanas quanto do lado dos movimentos sociais, são heterodoxas, híbridas,
mas sem subtrair-se do âmbito do capital. E justamente por não escaparem desse
domínio do capital, o iníquo desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo vai sendo
reiterado, também em sua vertente urbana. Assim, a análise da luta pela moradia precisa
incorporar elementos analíticos que dêem conta dessa nova e complexa dinâmica.
Nos últimos anos, o campo de forças onde os movimentos de luta pela moradia
são obrigados a se moverem é, predominantemente, o campo da lógica gestionária do
empreendedorismo social. Essa lógica foi disseminada pela política neoliberal
fragmentadora e contra-insurgente, numa práxis que reitera a ordem do capital. O
empreendedorismo social está presente nas políticas urbanas atuais que, amparadas na
criação de mitos e imagens legitimadoras do individualismo, da competitividade e da
impossibilidade, colaboram para a fragmentação na práxis desses movimentos e
intensifica o imediatismo das lutas.
Mas apesar da hegemonia dessa lógica gestionária do empreendedorismo social,
das próprias fissuras dos mecanismos de dominação do capital nascem práxis
criativas/revolucionárias que podem reconstruir sociabilidades e inventar novas
politicidades (CECEÑA, 2006; SÁNCHEZ VÁZQUEZ, 2003). O próprio Harvey
(2002, p. 4) aponta que as condições de um desenvolvimento geográfico e histórico
desigual impõem dificuldades, mas também oferecem oportunidades para a organização
e a ação políticas. Aí está a pertinência de nos colocarmos a pensar a práxis1 existente
na luta pela moradia hoje, entendendo a práxis como uma categoria que oferece a
possibilidade de pensar o instituído (a ordem dada) e o instituinte (o porvir) na luta pela
moradia 2.
Diante desse contexto histórico-geográfico de reiteração da ordem do capital, e
das possibilidades criativas/revolucionárias que suas contradições oferecem, cabe
perguntar como os movimentos de moradia popular estão enfrentando essa lógica do
empreendedorismo social que intensifica o imediatismo das lutas. Quais as
possibilidades da luta pela moradia representar hoje uma das frentes de oposição ao
iníquo desenvolvimento espaço-temporal do capitalismo?
É esse o contexto histórico-geográfico que iremos considerar para nos debruçar
sobre a luta pela moradia na cidade de São Paulo e entorno metropolitano, a partir do
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do Movimento de Moradia do
Centro (MMC) e do Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), cujas mobilizações
se apresentam em plena efervescência, e sobre as políticas públicas urbanas a partir da
década de 1990 até os dias atuais. Cabe esclarecer que estamos compreendendo a luta
pela moradia a partir do conflito capital x trabalho, isto é, como uma componente da
luta de classes. A luta pela moradia expressa, assim, territórios e práxis em disputa.
Portanto, nossa perspectiva sobre os movimentos de moradia implica refletir a respeito
do trabalhador/sem teto como um ser uno organizado na luta pela moradia.
Territorialidades da luta pela moradia
As mutações no capitalismo atual ocorrem com a criação de novas
territorialidades do capital e do trabalho. Neste sentido, a dinâmica geográfica dos
trabalhadores organizados na luta pela moradia é marcada por constantes
reconfigurações territoriais, isto é, processos de des-re-territorializações.
1
A práxis, segundo Sánchez Vázquez (2003), é pensamento e ação, subjetiva e coletiva, revela
conhecimentos teóricos e práticos - supera unilateralidades.
2
Pois a práxis se apresenta em diversas formas específicas e há graus de participação (indivíduo, grupo,
sociedade) na práxis total (atividade pela qual o homem se produz e se cria a si mesmo). “Mas, ainda que
a práxis total seja criadora, ou seja, humanizante, em suas formas ou níveis específicos pode oscilar [...]
entre uma práxis propriamente criadora, e uma atividade reiterativa, mecânica” (SÁNCHEZ VÁZQUEZ,
2003, p.475, tradução nossa).
O mito da “cidade-global” (FERREIRA, 2007), um projeto de modernização
neoliberal-globalizadora da cidade, um padrão urbano hegemônico no atual governo de
Serra/kassab, que na metrópole de São Paulo mimetiza os pólos de negócios e lazer dos
países centrais (FIX, 2007, p. 161), legitima a produção de “ilhas globalizadas” que
geram uma acelerada valorização fundiária e imobiliária.
Grandiosos e luxuosos edifícios de escritórios, hotéis, cafés e restaurantes de
“marca”, casas de espetáculo, shopping’s centers e centros culturais são alguns dos
resultados dessa redefinição do urbano (o novo monumentalismo arquitetônico) de uma
pequena parte da cidade de São Paulo. Há dois grandes eixos. Um dos eixos se refere ao
processo de “gentrificação” no Centro de São Paulo, e suas promessas são “a alta
cultura, o glamour dos velhos tempos, uma cidade civilizada e democrática, pois é
‘acessível a todos’”. Aqui pode ser dado como exemplo a Sala São Paulo.
O outro eixo privilegia a construção de novas centralidades na marginal do rio
Pinheiros, que está se transformando em um grande eixo de negócios e consumo, onde
“[se] promove novos arranha-céus, casas de show e bingos, um sky-line americanizado,
com vias expressas e túneis, (WISNIK et al., 2001, p. 21)3. A maioria dos edifícios da
marginal Pinheiros são “construídos como um investimento, para ser alugados” (FIX,
2007, p. 23).
Essas novas territorialidades do capital, interessantes apenas para os setores imobiliários
e fundiários tradicionais que obterão lucros extraordinários, desencadeiam processos
precarizantes que reconfiguram territorialmente os trabalhadores urbanos, sobretudo
des-territorializando-os (precarizando-os territorialmente).
Cabe
esclarecer,
que
a
desterritorialização,
antes
de
significar
desmaterialização/deslocamento, significa precarização territorial (HAESBAERT,
2004; 2007). Associamos o processo de desterritorialização aos “processos de
expropriação, precarização e/ou exclusão inseridos na lógica de acumulação
capitalista”. É dentro de uma condição de classe e num determinado contexto histórico
que a desterritorialização (precarização territorial) se processa (HAESBAERT, 2004;
2007).
É certo que o processo de precarização/desterritorialização dos trabalhadores
sem teto é intenso e de longa data. Mas hoje novas precariedades/desterritorialidades
3
Os empreendimentos mais emblemáticos entre os anos 1977 e 2003 são: “a) o Centro Empresarial São
Paulo (Cenesp) e a chamada ‘Bratkelândia’, na avenida Berrini; b) o São Paulo Office Park, o Centro de
Administração Philips (PSS), o World Trade Center e o Birmann 21; c) o Centro Empresarial Nações
Unidas (Cenu) e o Birmann 29; d) o Birmann 31” (FIX, 2007, p. 32).
são criadas como fruto dos novos mecanismos do capital, que alteram o modo de
pensar, planejar e viver a cidade e seus problemas urbanos.
Como
exemplos
de
processo
de
precarização/desterritorialização
dos
trabalhadores sem teto, pensando nos últimos anos, cabe citar: toda a intensificação das
desigualdades, as precariedades, a segregação sócio-espacial e o aprofundamento da
exploração: ou seja, a submissão dos trabalhadores à flexibilidade das relações de
trabalho, informalidade, desemprego estrutural, jovens à procura do 1º emprego, etc.
(precarização das relações de trabalho), as favelizações, o processo de gentrificação
(expulsão dos marginalizados do centro de SP, sobretudo na gestão Serra/Kassab), as
condições materiais do universo empobrecido dos trabalhadores sem teto e a
subjetividade apropriada que impera em suas mentes (não esqueçamos que o capital
também vende bens simbólicos) e dela que vem a debilidade da identidade de classe e
suas formas associativas.
Esses territórios em disputa nos revelam que, nos últimos anos, as
administrações públicas da cidade de São Paulo têm tomado um rumo que canaliza
recursos públicos para a valorização fundiária e imobiliária em áreas ultraprivilegiadas,
em contrapartida com a privação, não apenas de moradia digna, mas do conjunto das
condições básicas de vida, de quase metade dos paulistanos sujeitos à intensificação da
precarização estrutural do trabalho, da criação de novas precariedades e, portanto, ao
aprofundamento do desenvolvimento geográfico desigual. Há uma combinação de
mecanismos clássicos de precarização, de expulsão da classe trabalhadora que são
potencializados e redefinidos por novas reconfigurações econômicas e políticas.
Políticas públicas: o projeto urbano do capital
Neste item objetivamos discutir os projetos urbanos, do capital, em pauta hoje.
Qual é a cidade que se planeja? Quais os paradigmas, as formulações ideológicas, os
projetos políticos que regem a práxis (as ações e os discursos) do capital e do Estado no
urbano. Vemos duas correntes principais que, apenas aparentemente, são antagônicas:
1) um projeto urbano muito mais próximo aos ideais neoliberais e; 2) um projeto que
defende a “gestão democrática da cidade”. Vamos a eles.
“Cidade-Empresa”, “Cidadão-Cliente”: o projeto de modernização neoliberalglobalizadora da cidade
O projeto de modernização neoliberal-globalizadora da cidade enfatiza a
incorporação da “cidade-empresa” e do “cidadão-cliente” ao mercado global. Para tanto,
as cidades devem se constituir em territórios de produtividade, competitividade e
consenso, a ser alcançadas com um modelo de planejamento e gestão que transplanta
conceitos e técnicas empresariais para o urbano, a exemplo do planejamento
estratégico. É um projeto de total submissão ao mercado.
E o que dá sustentabilidade a esse projeto urbano é a presença do Estado e sua
parceria com o setor privado, por meio de uma postura de submissão às propostas dos
grupos internacionais, cujos representantes nacionais têm a hegemonia da vida
econômica do país. O “Estado mínimo da falsa utopia neoliberal” (OLIVEIRA, 2007, p.
286) somente é mínimo no que concerne a deixar de lado as necessidades de grande
parte dos trabalhadores e a viabilizar a privatização dos serviços relacionados à infraestrutura, e à flexibilização e terceirização das relações de trabalho. Sem embargo, se é
verdade que o Estado se ausenta do social, também é que ele se faz muito presente para
que haja mais e mais mercado.
Para permitir que o mercado se realize integralmente, o Estado faz suas parcerias
com o setor privado e estreita suas relações com as agências multilaterais (Banco
Mundial, BID), que não exercem apenas um papel de financiadoras, mas funcionam
também como centros de decisões (impondo regras, formas, rotinas) e comunicação
articulados escalarmente. Em São Paulo, hoje, no atual governo Serra/Kassab, temos
uma gestão pública terceirizada, ou seja, um governo local atento aos grandes interesses
privados.
A opção por seguir um projeto de modernização neoliberal-globalizadora da
cidade prioriza as inversões vinculadas ao mercado global - feita para um “cidadãocliente”, pois se trata de “converter em empreendedores muitos mais dos que já são e, a
todos, em co-partícipes de uma empresa cada vez mais integrada, da qual simplesmente
seja pouco recomendável ficar à margem” (TRAFUL, 2002, p. 12, tradução nossa). Há
nas políticas urbanas um predomínio da lógica gestionária do empreendedorismo social,
e essa lógica é fragmentadora, ela intensifica o imediatismo das lutas, e é contrainsurgente, numa práxis que reitera a ordem do capital.
“Gestão democrática das cidades”
O governo municipal de São Paulo entre os anos 2001 e 2004, sob
responsabilidade da prefeita Marta Suplicy, do Partido dos Trabalhadores (PT), pode ser
entendido, segundo alguns autores, como um governo que deu mais ênfase a uma
política social mais humana e mais justa, voltada aos pobres e com maior abertura do
poder público para a participação da dita sociedade civil. Defende-se que neste governo
foi criada uma nova geração de políticas sociais e do trabalho cuja estratégia seria
alcançar o desenvolvimento com inclusão social (POCHMANN, 2002; GASPAR et al.,
2006 ).
A estratégia de inclusão social, avaliada como um diferencial do governo Marta
Suplicy, foi fundamentada, via Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e
Solidariedade, por três grandes blocos programáticos (redistributivos; de capacitação
ocupacional e geração de ocupação e renda para acesso ao crédito; e de apoio ao
desenvolvimento local e à reorganização do mercado de trabalho direcionados para os
excluídos), especialmente pobres e desempregados, no entendimento dos programas
(POCHMANN, 2002). Além desses programas sociais, a criação das Subprefeituras no
governo Marta é tomada como um sistema de democratização do Estado. A
descentralização era vista como parte de uma proposta democrática: o Orçamento
Participativo se integrava às Subprefeituras. (GARIBE, 2006, p. 27). Desse projeto de
descentralização destacamos a participação que era considerada como um elemento
fundamental para a implantação de uma “gestão democrática da cidade”. Ou seja,
considerava-se que o governo Marta estava iniciando uma abertura do poder público
para a participação da denominada sociedade civil.Todavia, não houve uma
participação social efetiva como se propôs. O que houve sim foi uma convivência
pacífica entre a ação participativa e reivindicativa dentro dos canais de participação, por
exemplo, nos Orçamentos Participativos, e a percepção de que os movimentos sociais
permaneceram atados à mobilização das redes pessoais como maneira de acesso ao
Estado (TEIXEIRA; TATAGIBA, 2005, p. 73).
Enfim, acreditamos que, no limite, este projeto sugere ser possível pensar numa
missão civilizadora do capital. Enquanto o projeto da “cidade-global” é um projeto de
submissão absoluta ao mercado, o projeto que defende uma “gestão democrática” para a
cidade se sustenta na idéia da humanização do mercado, já que ele, segundo essa
perspectiva, é inexorável. Na verdade, não se vislumbram mudanças sociais efetivas, ao
contrário, corrobora-se a racionalidade do mercado por meio da propagação de um
discurso falacioso de ação radical e, até mesmo, revolucionária, justificada na “gestão
democrática”.
Nem cidade-global, nem cidade democrática... São Paulo dos últimos anos, uma
gestão híbrida reiterando o capital
Vimos acima, que o projeto de “gestão democrática da cidade” não consegue
escapar do âmbito do mercado. Da mesma maneira, o discurso dos empreendedores da
modernização neoliberal-globalizada da cidade é capaz de alterar-se, de apropriar-se de
discursos e de práticas outras para que seus interesses sejam logrados e legitimados. A
“cidadania”, a participação da sociedade civil na gestão pública e a busca do consenso
(paz social) são questões, aparentemente opostas aos ideais do novo modelo
modernizador que é completamente descompromissado com as iniqüidades que causa.
Contudo, por vezes, são questões que acabam sendo incorporadas no discurso, e em
determinadas ações, dos que ostentam o mito da “cidade-global”. Por exemplo: as novas
centralidades para negócios e consumo e o processo de gentrificação poderiam ser
identificadas com os ideários da “cidade-empresa” porque ambos pretendem incluir a
cidade no circuito global, um pelo lado econômico e o outro pela “alta cultura”. Mas
uma parte dos gestores urbanos defende que a renovação urbana do centro de São Paulo
também pode se realizar como uma cidade civilizada e democrática, acreditando que ela
pode ser para todos: são princípios mais próximos da segunda corrente, a da “gestão
democrática”, o que delata não haver um purismo paradigmático nas gestões.
Por outro lado, o projeto de “gestão democrática”, por meio dos Conselhos
Municipais e do Orçamento Participativo, que se propunham como canais de abertura
do poder público, na verdade funciona mais como um ambiente favorável a crença na
neutralidade do Estado e a despolitização dos movimentos sociais, já que a participação
atendeu à legitimação das políticas públicas.
Nesse sentido, esse panorama didático nos permite perceber que a gestão de São
Paulo apresenta várias facetas que mesclam instrumentos, discursos e ações do projeto
de modernização neoliberal-globalizadora e do projeto de “gestão democrática da
cidade”, conformando-se em uma gestão que, na verdade, é híbrida. Essa gestão híbrida
- com graduações entre ser mais ou menos “humanizada”, ou social, como preferem
outros, mais ou menos “democrática”, mas cujo cerne não deixa de ser a “utopia da
cidade-mercadoria” (HARVEY: 2006) - se dissemina sob diferentes nomenclaturas que
mascaram seu ideal de atender as imposições atuais do capital. Ou seja, mais que um
antagonismo puro entre a opção por uma “cidade global-neoliberal” e uma cidade regida
pela “gestão democrática”, poderíamos delatar a tendência a uma gestão híbrida, cuja
base não consegue ir além do estreito âmbito do capital.
A gestão híbrida tem, ainda, o efeito de debilitar as múltiplas resistências que
surgem como respostas a modelos que mantêm o status quo e não permitem realizar
transformações sociais capazes de garantirem uma sociedade efetivamente mais justa.
Contra os territórios do capital: os projetos urbanos do trabalho... pela construção
de uma práxis criativa
Apesar dos projetos urbanos hegemônicos analisados acima, há ainda as utopias
dos trabalhadores que foram ex-lideranças sindicais, trabalhadoras que foram
domésticas a vida inteira, trabalhadores da construção civil, jovens que nunca tiveram
um emprego formal e nem um passado de militância política. São esses trabalhadores
organizados nos movimentos sociais que, em meio à fragmentação, à cooptação, aos
diversos conflitos internos, à persistência da luta, revelam a existência de uma
complexidade que ainda requer ganhar voz e que, talvez, mas que nos convidar ao
pretensioso exercício de seu desvelamento, cumpra o papel de nos colocar a reimaginar
o urbano atual. Alguns movimentos sociais assumem iniciativas conflitivas e até de
resistência, que podem se configurar como práxis de outros projetos urbanos, os
projetos do trabalho para colocar-se contra os territórios do capital, ou seja, que se
confrontem à lógica urbana/social em vigor.
Com as ocupações, os movimentos desafiam a lei da propriedade privada,
entram na disputa por territórios, muitas vezes territórios estratégicos para o poder e
pressionam o poder público com suas reivindicações. Podemos citar: a decisão do
MTST de ocupar terrenos urbanos e construir acampamentos bem posicionados
estrategicamente; e a ocupação de edifícios na região central da cidade de São Paulo
pelo MMC e pelo MSTC. Esses prédios ocupados estão localizados na região central,
área onde o poder público municipal e os grandes empreendedores imobiliários têm
outros projetos urbanos reservados (a re-qualificação, a gentrificação). Com os atos de
manifestação pública, os movimentos denunciam e dão visibilidade à situação de
precariedade na moradia e em outras condições de existência dos sem teto, e muitas
vezes também às situações de repressão estatal sofrida (violência policial, despejo
determinado por ações judiciais de reintegração de posse). Com a formação política, os
movimentos avançam na possibilidade da construção de uma identidade coletiva entre
seus militantes, na autonomia e no fortalecimento dos seus projetos políticos.
Porém, na dinâmica dos movimentos há dificuldades, desafios, e há contradições
e fissuras internas. São exemplos: a existência de hierarquia entre as lideranças e a base;
a vulnerabilidade da organização da base quando uma liderança é tirada de cena; a
ausência de consciência da própria práxis; a disputa entre os movimentos.
Além dessas fragmentações internas à luta pela moradia, há uma série de
instrumentos e mecanismos de todos os tipos (econômico-financeiros, culturais, e até
bélicos) utilizados pelos sujeitos dominantes para re-afirmar o domínio absoluto do
capital e fragmentar e fragilizar os trabalhadores no cotidiano e na luta (por meio de
novos mecanismos para atingir a subjetividade social). Ou seja, são fragilidades e
fissuras produzidas pela práxis reiterativa do capital para reiterar sua hegemonia
econômica, política, cultural.
Harvey (2002) e Mészáros (2002) nos apontam que a grande força do
capitalismo atual é seu intento de nos convencer de que “não há alternativa” (à
racionalidade suprema do mercado, à competitividade, ao individualismo de mercado,
ou seja, “não há alternativa” à ordem posta). A pauta e a agenda estão dadas e os
produtos são os indivíduos isolados e com a generalizada sensação de impotência. Esses
processos ofuscam a consciência que os movimentos poderiam ter de sua própria práxis
e, por isso, dificultam a articulação orgânica entre os movimentos sociais e a ampliação
da luta pela moradia “para além das quatro paredes”, num projeto político que, de fato,
represente uma contra-insurgência aos territórios do capital, isto é, que seja uma luta a
mais pela construção de uma nova sociedade.
Todavia, dialeticamente, dessas contradições (capital e movimentos) outras
práxis, que não reiterativas, podem se constituir. Os movimentos se organizam contra os
territórios do capital, por exemplo: com a Ocupação Prestes Maia do MSTC que
contesta o Estado através da ocupação (e a posterior continuidade da luta); com as
ocupações e as ações integradoras do MTST a exemplo da implantação de experiências
como o rururbano que rompem com as divisões administrativas como cidade-campo,
centro-periferia; a não filiação partidária, etc.
Considerações finais
Concluímos então, que, o capitalismo atual se sustenta no desenvolvimento de
novos mecanismos do capital que, com cada vez mais sutileza, escamoteiam a
ampliação e a maior complexidade das diferenças entre as classes e que quer nos fazer
crer que não há alternativas para sua ordem urbana e territorial. Todavia, das próprias
fissuras
dos
mecanismos
de
dominação
do
capital
nascem
práxis
criativas/revolucionárias (na crítica e na ação de determinados movimentos de luta pela
moradia que são capazes de criar conflitos e dissensos, alterar ou destruir componentes
da ordem dada, romper com o urbano instituído), ou seja, que podem reconstruir
sociabilidades e inventar novas politicidades.
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