A internacionalização da firma brasileira impacta em seu desempenho financeiro:
Estudo comparativo entre GERDAU e CSN.
Pedro Paulo Mendes Alves – FECAP
Prof. Dr. João Maurício Gama Boaventura - Universidade de São Paulo
Aline Kelly de Almeida – FECAP
Kelly Emanuela Bezerra Honório – FECAP
RESUMO
A internacionalização da firma e o aparecimento de empresas multinacionais não é um
acontecimento recente, datam do início da Idade Moderna as primeiras iniciativas em realizar
negócios além mar e dessa forma incrementar os lucros. Para as empresas brasileiras, em particular,
este fenômeno vem ganhando destaque a partir da década de 1990, com a abertura comercial do
país. O objetivo deste estudo é analisar o impacto da multinacionalização de empresas brasileiras,
particularmente nos casos da GERDAU e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em relação a seu
desempenho financeiro. Por meio de um estudo descritivo e comparativo empregando o índice de
internacionalização e a variação do desempenho financeiro desenvolveu-se uma análise da relação
entre o processo de multinacionalização e os indicadores de desempenho financeiro naquelas duas
empresas. Os resultados encontrados não permitiram concluir, nestes dois casos analisados, que haja
uma relação direta entre o processo de internacionalização e o desempenho financeiro, uma vez que
se observou um efeito positivo entre a variação do Índice de Internacionalização e a Receita Líquida,
e uma relação negativa entre o índice e a rentabilidade financeira.
Palavras-chaves: Internacionalização de empresas, desempenho financeiro.
ABSTRACT
The internationalization of the firm and the appearance of multinational companies are not a
recent event, date from de beginning from the Modern Age the first initiatives to realize businesses
beyond the sea and this way increase profits. For Brazilian companies, in particular, this
phenomenon has been gaining attention from the decade from 1990, with the commercial opening
of the country. The objective of this study is analyze the impact of the multinationalization of
Brazilian companies, particularly in cases of GERDAU and Companhia Siderúrgica Nacional (CSN),
regarding to financial performance. Through a comparative and descriptive study using the Index of
Internationalization and changes in financial performance has developed an analysis of the
relationship between process multinationalisation and financial performance indicators in the two
companies. The results do not allow to conclude, these two cases examined, there are a direct
relationship between the process of internationalization and the financial performance, once
observed a positive effect between the change of the Index of Internationalization and Net Income,
and a negative relationship between the rate and financial profitability.
Keywords: Internationalization of firms, financial performance.
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1.
INTRODUÇÃO
O comércio internacional é objeto de estudo e ação de governos e iniciativas particulares
desde os primórdios da Idade Moderna, época em que os povos considerados mais desenvolvidos e
ricos detinham a poder sobre as navegações e o comércio inter nações. Pode-se destacar o papel
fundamental exercido na economia mundial pela Companhia das Índias Orientais. É considerada
como embrião da empresa moderna (MICKLETHWAIT; WOOLDRIDGE, 2003). A corporação criada em
1599 em Londres com o aval da Rainha e Família Real (sócios majoritários) financiou a produção de
matérias-primas como chá, seda, porcelana, especiarias em países Asiáticos e Africanos com a
intenção de exportá-las para o mercado europeu atingindo lucros generosos.
Porém, o estudo de empresas internacionais1 apenas tornou-se tema de pesquisas
acadêmicas com o significante fluxo de investimentos entre os países no pós-Segunda Guerra
Mundial. Entre os pioneiros, Vernon (1966) foi acadêmico de destaque ao desenvolver o modelo de
ciclo do produto de Investimento Externo Direto (IED), enfatizando a importância do mercado
americano e da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) no crescimento das empresas locais.
A criação do periódico Journal of International Business Studies (JIBS) pela Academy of
International Business demonstra a relevância que o tema passa a ter no meio acadêmico na década
de 1960. Entretanto, Inkpen e Bemish (1994) relatam que as pesquisas ainda eram concentradas em
pesquisadores norte-americanos, responsáveis por aproximadamente de 93% das pesquisas no
período entre os anos 1970 e 1974. Os estudos nessa área passam a ter importância mundial
crescente nas décadas seguintes e principalmente no Brasil a partir dos anos de 1990, com a
abertura comercial do país.
Batista Jr. (2002) argumenta que a o fenômeno da atuação internacional, embora não seja
recente em países desenvolvidos, está ganhando grande destaque no Brasil. É crescente a
quantidade de empresas nacionais que integram a pesquisa BCG 100 New Global Challengers do
Boston Consulting Group, acerca das 100 empresas de países emergentes com maior potencial de
internacionalização comercial e de Investimentos Diretos no Exterior (IDE).
No entanto, as publicações a respeito do assunto internacionalização de empresas no
ambiente acadêmico nacional são em sua maioria focadas a) nas estratégias utilizadas para inserção
em novos mercados e seus desdobramentos (VASCONCELLOS, 2008; MARIOTTO, 2007), b) processos
de entrada e c) produtos e marcas. Considerando a argumentação de Berk e Demarzo (2009) acerca
do propósito de perpetuar-se intrínseco às empresas surge o seguinte questionamento: Há relação
entre o grau de internacionalização da empresa e seu desempenho financeiro?
A relevância do tema aliada à necessidade de ampliar as pesquisas acerca deste, leva-nos a
investigar com profundidade o impacto da transnacionalização na performance de duas empresas
com significativa distinção de esforço em internacionalizar-se: Gerdau e Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN).
1
Para este estudo os termos empresas “internacionais”, “transnacionais” e “multinacionais” serão tratados como
sinônimos perfeitos independente das localidades operacionais, modalidade de atuação e organização.
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Identificar e analisar a relação entre tais fatores é uma forma de entender os benefícios e
custos gerados no processo de busca de novos mercados além fronteiras brasileiras. De forma
empírica, as relações que este estudo se compromete em analisar estão relacionadas às perspectivas
iniciais da empresa em se esforçar para tornar-se uma corporação multinacional e o impacto em seu
desempenho.
2.
2.1
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Internacionalização
Este estudo não pretende esgotar o assunto, mas entender como a internacionalização de
empresas é vista modernamente pela academia. Entre as teorias e abordagens de relevância
destacam-se a abordagem estratégica, paradigma eclético.
A abordagem estratégica que trata das questões de planejamento e estrutura, ou seja, da
arquitetura organizacional. Focaliza a multinacional como um todo e o conhecimento gerado dizem
respeito à organização. Porter (1989, p. 145) propôs essa abordagem, onde a prosperidade nacional
é criada e não herdada, sua competitividade dependerá da capacidade de inovação e modernização
de seus setores industriais. Esta capacidade de inovação se tornará uma vantagem, a partir do
momento que as pressões e desafios locais empurrarem as firmas na busca de melhorias. Um
ambiente competitivo, com fortes concorrentes, fornecedores agressivos e clientes exigentes, é
extremamente favorável para o desenvolvimento de vantagens competitivas.
São diversas as estratégias adotadas pelas firmas que ocupam posição de destaque no
mercado internacionalizado, mas em todas elas o modo de operação é idêntico. As empresas
ganham vantagens competitivas através da inovação, tanto em tecnologias como em novos modos
de fazer as coisas.
Algumas inovações criam vantagem competitiva por perceberem uma
oportunidade de mercado inteiramente nova ou atenderem a um segmento de
mercado que os demais ignoraram. [...] Nos mercados internacionais as inovações
que trazem vantagens competitivas antecipam necessidades tanto domésticas
como internacionais. (PORTER, 1989, p. 147).
Desenvolvido por Dunning (1980), o Paradigma eclético reuniu contribuições de
diversas teorias da abordagem econômica. O autor defende que para uma firma iniciar sua produção
internacional, deve possuir algumas vantagens diferenciais sobre seus competidores. Dunning (1980)
procura explicar o movimento de internacionalização a partir de três grupos de vantagens que
influenciam na decisão de produzir no exterior: propriedade, localização e internalização. A respeito
desses grupos de vantagens Tanure e Duarte (2006) explicam que:
• Vantagens de propriedade: Específicas da firma. Podem ser vantagens
tangíveis, como a tecnologia, que pode ser comercializada; ou intangíveis,
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como: a capacidade de gerar tecnologia, as competências organizacionais, a
capacidade de empreendedorismo da firma, a experiência em produzir no
exterior, entre outros;
• Vantagens de localização: Relacionadas ao mercado que recebe o
investimento, com a vantagem de facilitar a obtenção de benefícios
econômicos existentes em locais diferentes, como: menores custos de
produção, mão-de-obra barata, capital, matérias-prima e outros insumos,
proximidade dos clientes reduzindo o custo transporte; e
• Vantagens da internalização: Caracteriza-se pela maior conveniência para a
firma transferir ativos utilizando sua própria estrutura e hierarquia, do que
utilizar-se de agentes externos.
De uma forma geral o paradigma eclético busca explicar os motivos pelos quais a firma abre
instalações de produção no exterior e não há a intenção de explicar como se dá a busca de mercados
no exterior. (DUNNING, 1980).
No entanto há outras abordagens para a explicação dos motivadores. Segundo Rocha (2003)
os sete principais fatores que podem ser considerados como estímulos em um processo de
internacionalização são:
• Busca de novos mercados: permite expandir as vendas além de um mercado
doméstico supostamente saturado, reduzindo barreiras comerciais e a
competitividade das importações, além de proporcionar a exploração de
economias de escala, possibilitando, também, usar sua tecnologia e sua marca
já estabelecida para vender outros produtos no novo mercado;
• Procura de recursos no mercado estrangeiro: as firmas podem instalar-se
em outros países para diminuir os custos dos bens e serviços que produzem, ou
para ter acesso privilegiado a recursos naturais, como: matéria-prima, mão-deobra mais barata, recursos financeiros, acesso a tecnologia e a fornecedores ou
clientes críticos;
• Busca de conhecimento especializado: a presença em mercados
internacionais gera a oportunidade de aprender a partir das diferenças, com o
acesso a habilidades técnicas e competitivas concentradas em clusters ou
aglomerações industriais;
• Redução do risco: pode ser proporcionada pela atuação em mais de um
mercado. Dependendo do país onde se destina a internacionalização da
empresa, diminui-se a exposição aos riscos econômicos, políticos e
operacionais inerentes à atuação somente doméstica, possibilitando, ainda, a
procura e acesso a moeda forte;
• Retorno sobre o investimento: em um mundo globalizado e muito mais
competitivo, muitas vezes é necessário a venda em grande escala. A tecnologia
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agregada em um produto torna-se obsoleta rapidamente, obrigando as empresas
a fazerem altos e constantes investimentos em P&D a fim de não perder
competitividade e participação de mercado. Como conseqüência, tem-se um
curto ciclo de vida para os produtos, forçando as empresas a comercializá-los
em mercados externos para cobrir os investimentos realizados; e
• Manobra competitiva: no âmbito global refere-se a uma empresa, que
compete com uma rival em vários países, ver-se obrigada a acompanhar a
entrada da rival em um novo país, para evitar perda de participação no mercado
internacional.
• Prestígio local: prevê que o sucesso internacional de uma empresa a torna mais
competitiva no local de origem. Alguns governos estimulam empresas estatais
e privadas a expandir seus negócios para obter os benefícios associados em
termos de tecnologia e know-how.
Para Bartlett, Ghoshal e Birkinshaw (2004) as empresas podem ser empurradas ou atraídas
pelos novos mercados. Segundo os autores, a busca por matéria prima em distantes pontos do globo
terrestre é uma realidade desde o início do século XX. Datam desta época empresas, principalmente
sediadas nos Estados Unidos, produtoras de Alumínio, Pneus e Óleo partiram mundo afora em busca
de furar novos poços de extração de petróleo, jazidas de bauxita entre outros produtos minerais.
Ainda conforme os autores, diversas empresas européias detentoras de vantagem
competitiva sobre seus concorrentes locais, em geral proporcionadas pelo uso de tecnologia
avançada ou preferência do mercado, viam seu crescimento estagnado. Tal fenômeno deve ao
pequeno mercado em que estão sediadas ser insuficiente para absorver qualquer aumento de
produção dessas firmas. Desta forma, a expansão além fronteiras é vista como único meio de trazer
crescimento positivo para os balanços empresarias. São exemplos dessa atração exercida pelos
novos mercados: Indústria de alimentos, automóveis e medicamentos.
Finalmente, o terceiro principal gatilho para a internacionalização trata-se da procura por
fatores de produção de baixo custo. Desde sempre o custo de se produzir é preocupação latente do
administrador. Particularmente com a redução das barreiras tarifárias entre os países Europeus e os
Estados Unidos na década de 1960 proporcionando travessias de oceanos em busca do menor custo.
Tal circunstância resultou a partir da década de 1980 em empresas multinacionais que possuem suas
operações mundiais e não mais domésticas como até então.
Neste estudo, adotou-se o conceito de internacionalização proposto por Bartlett et al. (2004)
em que as empresas encontram a internacionalização como forma de prover crescimento para seus
resultados ou utilizando-se de fatores operacionais externos obter vantagem competitiva em relação
a seus concorrentes.
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2.2
DESEMPENHO FINANCEIRO
Boshoff e Mels (1995) sugerem que o objetivo de medir o desempenho está associado à
maximização dos recursos investidos, propósito de qualquer organização, seja ela fundação, governo,
privada com ou sem fins lucrativos. Porém, não há um consenso sobre uma metodologia de
mensuração do desempenho das empresas. Venkatraman e Ramanujam (1987) entendem que o
desempenho pode ser classificado em três níveis distintos. A figura 1 apresenta os domínios de
medição do desempenho.
Figura 1: O domínio do desempenho da Empresa
Domínio de Desempenho Financeiro
Domínio de Desempenho Financeiro +
Operacional (Desempenho da Empresas)
Domínio de Efetividade Organizacional
Fonte: VENKATRAMAN E RAMANUJAM (1986)
Conforme esse esquema, o domínio interno, objeto de pesquisa deste estudo, deve ser
analisado a luz de indicadores estritamente financeiros. No entanto, Venkatraman e Ramanujam
(1987) classificam a análise da performance financeira em duas dimensões distintintas: crescimento
e rentabilidade. Acrescentam ainda que ambas as dimensões podem ser mensuradas por diversos
índices comumente utilizados por acadêmicos e executivos.
Berk e DeMarzo (2009) sugerem que o indicador mais importante ao se estudar a
rentabilidade de uma empresa é o Lucro Líquido. Também tratado como Demonstrativo dos
Resultados, esse indicador lista o somatório de receitas e despesas (ligadas ou não a operação) da
empresa ao longo de determinado período de tempo.
Entre outros indicadores de desempenho e valor de uma empresa, os autores, destacam a
margem operacional e margem do lucro líquido. A primeira trata da razão entre o resultado
operacional (lucro antes do pagamento de impostos) e suas receitas totais. Este indicador revela
quanto uma empresa lucra antes dos juros e impostos para cada unidade monetária em vendas.
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Comparando as margens operacionais de diferentes empresas de uma mesma indústria, pode-se
medir a eficiência relativa das operações das empresas ou sugerir tendências estratégicas das
empresas.
A razão entre o lucro líquido e a receita denomina-se margem de lucro líquido, que
demonstra a parcela de cada unidade monetária da receita que está disponível aos sócios após a
empresa pagar todos os seus encargos. Tal indicador dá mostras sobre a eficiência global da
organização (BERK; DEMARZO, 2009).
O crescimento de uma empresa pode ser medido por meio de indicadores que fornecem a
evolução de certos fatores dentro de um período de tempo determinado. São exemplos:
Crescimento do número de funcionários, variação da receita líquida, número de plantas, entre
outros.
Para Ross, Westerfield e Jaffe (2009) o Retorno sobre o Patrimônio Líquido representa “a
rentabilidade de todo o capital próprio da empresa, correspondendo à taxa de retorno de todos os
projetos acumulados”. É definido pela razão entre o Lucro Líquido e o Patrimônio Líquido (também
identificado como capital próprio).
Para fins compreensão do objetivo deste trabalho, este estudo irá considerar o constructo
financeiro multidimensional proposto por Venkatraman e Ramanujam (1987), empregando as
ferramentas ideais para mensuração de crescimento e rentabilidade dos resultados organizacionais
(BERK; DEMARZO, 2009; ROSS; WESTERFIELD; JAFFE, 2009).
3.
METODOLOGIA
Segundo Marconi e Lakatos (2003) o método comparativo se mostra mais adequado para
estudos com a “finalidade de verificar similitudes e explicar divergências”. Utilizando-se dessa
metodologia é possível compreender organizações em iguais ou diferentes estágios, neste caso a
relação entre o Índice de Internacionalização e o desempenho financeiro. As autoras ainda
acrescentam que os fatores presentes e ausentes podem, até certo ponto, sugerir causas e
explicações. Utilizando-se do estudo comparativo combinado com o descritivo “pode-se averiguar
analogia entre ou analisar os elementos de uma estrutura” (MARCONI; LAKATOS, 2003).
Para a operacionalização da variável internacionalização optou-se pela metodologia
desenvolvida pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD;
2002) aplicada no mercado brasileiro pelo Jornal Valor Econômico (VALOR ECONÔMICO; 2009) em
parceria com a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização
Econômica (SOBEET).
Para a realização da pesquisa foram consideradas 173 empresas brasileiras com atuação
internacional e Investimento Direto no Exterior superior a US$ 10 milhões. Tal indicador considera a
proporção (internos e externos) entre os três seguintes fatores:
•
Empregos;
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•
•
Ativos; e
Receitas.
Como síntese dos três indicadores utilizados na metodologia, utiliza-se o “Índice de
Internacionalização”, média simples da proporção externa/total dos três fatores, como
representação do esforço e presença internacional das empresas.
Quanto à operacionalização da variável desempenho financeiro foram utilizados indicadores
extraídos dos balanços contábeis publicados oficialmente pelas empresas com a aprovação da
Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia federal responsável pela harmonia e simetria
informacional do mercado de valores mobiliários brasileiro. Entretanto, Venkatraman e Ramanujam
(1987) argumentam que a variável desempenho financeiro configura-se como um constructo
multidimensional, e desta forma deve ser analisada sobre dois diferentes prismas: crescimento e
rentabilidade.
Desse modo o presente estudo utilizou-se dos seguintes indicadores de crescimento:
•
•
Receita Líquida;
Crescimento da Receita Líquida;
Para análise da rentabilidade apresentada pelas empresas foram utilizadas as seguintes
ferramentas contábeis:
•
•
•
•
4.
Lucro Líquido;
Margem Líquida;
Margem Operacional;
Retorno sobre o Patrimônio Líquido.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Ambas as empresas analisadas neste estudo comparativo estão em grande destaque no
mercado brasileiro. Protagonistas no mercado siderúrgico nacional, GERDAU e CSN foram
responsáveis pela produção de 24,5 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos no ano de 2008.
Segundo o Instituto Aço Brasil, as duas empresas aliadas representam cerca de 40% da produção
nacional de aço.
No entanto, as empresas possuem focos divergentes quanto ao mercado de atuação.
Enquanto a CSN assume seu compromisso com o mercado brasileiro em sua missão declarada:
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“MISSÃO: Destacar-se como um ícone de empreendedorismo e cidadania
para o Brasil e aumentar o valor da empresa para os acionistas de forma
sustentável, por meio do foco na indústria siderúrgica, mineração e infra-estrutura
que propiciam vantagem competitiva para o crescimento da empresa, oferecendo
produtos e serviços de qualidade, atuando de forma ética com empregados,
fornecedores, clientes e comunidades onde opera e em harmonia com o meio
ambiente.”(CSN, 2009).
A GERDAU afirma em seu planejamento a aspiração da conquista de novos mercados.
“Missão: O Grupo Gerdau é uma empresa com foco em siderurgia que busca
satisfazer as necessidades dos clientes e criar valor para os acionistas,
comprometida com a realização das pessoas e com o desenvolvimento sustentado
da sociedade.”
“VISÃO: Ser uma empresa siderúrgica global, entre as mais rentáveis do
setor.”
Corroborando a divergência de mentalidade internacional, nos quadros 01 e 02, pode-se
compreender o esforço de crescimento internacional de ambas:
Quadro 1 – Índice de Internacionalização2
Empresa
Classificação
Índice
de Proporção no exterior em relação ao total - em %
Internacionalização
Empregos
Ativos
Receitas
– em %
2006 2007 2008 2006
2007
2008 2006 2007 2008 2006 2007 2008 2006 2007 2008
GERDAU
2
3
3
48,6
54,4
55,9
46,1
49,4
49,2
43,2
56,3
60,9
56,7
57,7
57,7
CSN
-
30
30
-
8,8
9,9
-
2,8
5,1
-
10,9
12,9
-
12,6
11,6
Fonte 1: Adaptado de SOBEET / Valor Econômico (2009)
Nas três últimas edições da classificação promovida pela SOBEET a GERDAU mostra-se
estável entre as três empresas mais internacionalizadas do país. Enquanto a CSN sequer esteve
presente na edição de 2006.
Enquanto a GERDAU apresenta cerca de 50% de seu quadro de funcionários residindo em
plantas e escritórios da empresa em terras estrangeiras, principalmente, Estados Unidos, Canadá,
Argentina, Chile, Peru, Europa e Ásia, a CSN chega ao auge da expatriação ou contratação de
funcionários fora do Brasil com 5% do total.
2
Em 2006 a CSN não atingiu os critérios mínimos de fluxo de IED exigidos pela SOBEET para figurar na
classificação.
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A variação crescente na relação de Ativos no exterior em relação ao total da GERDAU
representa a capacidade da empresa em expandir seu negócio em busca das novas oportunidades de
crescimento em outros mercados.
Representando a média dos três fatores de transnacionalização da firma, o Índice de
Internacionalização consolida em um indicador o esforço e presença de ambas as empresas do Brasil.
Adicionalmente, no quadro 02 estão listados os negócios de aquisição e fusão da GERDAU
com novas empresas fora do país:
Quadro 2 – Operações de Aquisição de empresas fora do Brasil – 2006 a 2008
2006
Empresa
Callaway Building
Products
Fargo Iron and
Metal Co
Sheffield Steel Co.
Siderperu
Pacific Coast *
2007
Operações Empresa
EUA
EUA
Peru
EUA
GSB Acero
Espanha
EUA
Grupo Feld
Operações
2008
Empresa
Operações
México
Corsa Controladora
México
República
Pacific Coast Steel
Dominicana
Valley Placers Inc. Venezuela
Corporación
Kalyani Gerdau * Ásia
Centroamericana del
Enco Materials Inc. EUA
Acero *
Ind. Nacionales **
EUA
Guatemala
Honduras
El Salvador
Nicaragua
Belize
Fonte: Elaborado pelos autores. * Joint Venture. ** Aliança Estratégica
Enquanto a GERDAU assinou contratos de negócios (seja aquisição, Joint Venture ou Aliança
Estratégica) com 14 empresas estrangeiras no período entre 2006 e 2008. A CSN não obteve
nenhuma aquisição internacional, limitando-se a aquisição de duas empresas no estado de Minas
Gerais.
Desse modo, pode-se concluir que GERDAU e CSN têm posturas diferentes quanto à visão do
mercado internacional e suas ações são direcionadas a diferentes objetivos. Enquanto a GERDAU
almeja presença mundial e status de empresa global, a CSN foca seus esforços na produção nacional
com pequena participação no exterior.
Entretanto, este estudo busca compreender a relação entre a variável interveniente,
internacionalização, e o desempenho financeiro de ambas as empresas. No quadro 03 encontram-se
os indicadores financeiros no período entre 2006 e 2008 das empresas.
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Quadro 3 – Desempenho Financeiro Gerdau e CSN – 2006 a 2008
Indicador
GERDAU
Receita Líquida (Mil R$)
2006
2007
2008
2006
2007
2008
23.516.760 30.613.528 41.907.845 9.040.369 11.440.982 14.002.871
CSN
Crescimento Receita Líquida
10%
sobre ano anterior (%)
30%
37%
-10%
Lucro Operacional (Mil R$)
4.394.545
2.211.445
8.005.014
1.667.939 3.792.158
6.728.948
Margem Operacional (%)
19%
7%
19%
18%
48%
Lucro Líquido (Mil R$)
2.880.922
2.288.310
4.944.898
1.167.525 2.922.350
5.774.149
Margem de Lucro Líquido (%) 12%
7%
12%
13%
41%
Patrimônio Líquido (Mil R$) 9.964.638
Retorno sobre o Patrimônio
29%
Líquido (%)
11.420.008 25.043.578 6.124.144 7.542.261
6.662.589
20%
87%
20%
19%
27%
33%
26%
39%
22%
Fonte: Elaborado pelos autores.
Destacam-se as seguintes relações entre os indicadores financeiros de GERDAU e CSN:
•
Receita Líquida: Ambas as empresas apresentam crescimento estrito neste
indicador. No entanto, além de a GERDAU apresentar taxas de evolução bem
superiores à CSN no período, esta última possui apenas cerca de terço do valor
líquido recebido da GERDAU.
•
Lucro Operacional e Margem Operacional: Enquanto a GERDAU apresenta
oscilação do resultado de suas operações, com destaque para queda do
indicador de 2007 sobre o de 2006. A CSN possui tendência crescente e
evolução de sua eficiência operacional, o ano de 2008 realça forte diferença de
seus resultados com a GERDAU.
•
Lucro Líquido e Margem de Lucro Líquido: Embora a Receita Líquida da
GERDAU chegue a ser 3 vezes superior a da CSN, esta última apresenta
resultados líquidos superiores em dois dos períodos analisados.
Adicionalmente, a margem apresentada pela CSN demonstra pleno
crescimento.
•
Patrimônio Líquido: A GERDAU possui comportamento crescente de seu
capital próprio, ao passo que a CSN mantém esse indicador nos mesmos
valores durante todo o período de pesquisa.
•
Retorno sobre o Patrimônio Líquido: À medida que a GERDAU observa
redução até 20% do retorno sobre o capital próprio (de acionistas) investido na
empresa, a CSN apresenta forte crescimento deste indicador (inclusive para os
padrões nacionais), atingindo cerca de 90%.
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No quadro 4, pode-se analisar o comportamento da relação entre o Índice de
Internacionalização de ambas as empresas e o prisma de crescimento do constructo
desempenho financeiro.
Quadro 4 – Variação da Receita Líquida e Índice de Internacionalização
Indicador
GERDAU
2006
2007
Variação da Receita Líquida sobre ano
anterior
9,8%
Índice de Internacionalização
48,6%
30,2%
54,4%
2008
CSN
2006
2007
2008
36,9%
55,9%
-9,9%
-
26,6%
8,8%
22,4%
9,9%
Fonte: Elaborado pelos autores.
Quando analisada a relação entre as variáveis no caso da GERDAU, percebe-se que ambas
estabelecem relação direta de crescimento. Enquanto há variação positiva no Índice de
Internacionalização da empresa observa-se forte crescimento da Receita Líquida.
No caso da CSN, ao passo que a empresa obteve índice insignificante de internacionalização
de seus processos em 2006, suas receitas apontavam evolução negativa, isto é, a organização
constatava redução em suas vendas em comparação ao período de 2005. No entanto, nos períodos
de 2007 e 2008 a empresa iniciou processos de internacionalização significativos. Em contrapartida a
CSN constata crescimento em seus recebimentos já no ano de 2007, com Receita Líquida cerca de
30% superior a 2006. Desta forma, corroborando a relação positiva entre as variáveis.
No entanto, ressalta-se que não há proporção na relação identificada neste estudo. Destacase que mesmo com aumento nos processos de internacionalização da CSN no ano de 2008, não
variação proporcional no incremento de suas receitas.
No quadro 05 observa-se o comportamento entre o Índice de Internacionalização e a
dimensão rentabilidade do desempenho financeiro da GERDAU e da CSN:
Quadro 5 - Índice de Internacionalização e rentabilidade - CSN
Indicador
GERDAU
Margem de Lucro Líquido
Margem Operacional
2006
12%
19%
2007
7%
7%
2008
12%
19%
2006
13%
18%
2007
26%
33%
2008
41%
48%
ROE
Índice de Internacionalização
29%
48,6%
20%
54,4%
20%
55,9%
19%
-
39%
8,8%
87%
9,9%
CSN
Fonte: Elaborado pelos autores.
Com relação à CSN todos os indicadores observados na relação entre o Índice de
Internacionalização e a rentabilidade da empresa sugerem interdependência entre os fatores. Á
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medida que o processo de internacionalização é deflagrado na CSN, as ferramentas utilizadas
apontam crescimento concomitante.
Enquanto os indicadores financeiros de rentabilidade da CSN apontavam para confirmação
do impacto estudado por este trabalho, os dados financeiros da GERDAU contradizem relação entre
o processo de internacionalização e rentabilidade. Observa-se que no ano de 2007 a empresa
conquistou crescimento em seu índice de internacionalização, porém as três ferramentas contábeis
utilizadas (Margem de Lucro Líquido, Margem Operacional e Retorno sobre o Patrimônio Líquido)
indicaram retrocesso em sua rentabilidade.
5.
CONCLUSÃO
As principais teorias sobre internacionalização de empresas tendem a revelar a decisão de
atuar no mercado externo como sendo um processo complexo e de risco elevado devido à
necessidade de adaptação operacional, ora por requisitos globais, ora por exigências locais de onde a
empresa está inserida. Apesar disso, sabe-se que o mundo globalizado oferece inúmeras
oportunidades às empresas que resolvem atuar no mercado externo. Apesar das ameaças
relacionadas aos riscos e barreiras para se estabelecer fora do cenário doméstico, há uma tendência
dessas empresas se beneficiarem substancialmente da expansão global (CZINKOTA; RONKAINEN;
DONATH, 2004, p. 03).
Bartlett, Ghoshal e Birkinshaw (2004) argumentam que entre esses benefícios há destaque
para três: necessidade de procura de matéria prima, oportunidade de crescimento não possibilitada
pelo mercado doméstico e vantagem operacional sobre os concorrentes utilizando-se dos recursos
em localidades geográficas que lhe permitam algum tipo de ganho.
Venkatraman e Ramanujam (1987) classificaram o constructo do desempenho financeiro das
organizações em: crescimento e rentabilidade. Buscando compreender os postulados apresentados,
este estudo analisou a relação entre o Índice de Internacionalização, mensuração dos processos
organizacionais externos ao país sede da empresa, e o desempenho financeiro das organizações,
mais precisamente GERDAU e CSN.
Constatou-se relação positiva entre o esforço de conquistar novos mercados e a dimensão
crescimento de ambas as empresas, corroborando a racionalidade da empresa em respeito aos
argumentos de Bartlett, Ghoshal e Birkinshaw (2004). No entanto, constatou-se, nos casos da
GERDAU e da CSN, que não há relação direta entre o Índice de Internacionalização e a faceta
rentabilidade do desempenho financeiro da empresa. Desta forma, não é possível confirmar relação
direta entre a internacionalização da firma e seu desempenho financeiro, pelo menos quanto aos
casos analisados.
Essas conclusões, aliadas à metodologia aqui empregada, parecem vislumbrar um promissor
campo de pesquisa. Ademais, ainda é relativamente elementar a produção acadêmica acerca desta
temática no Brasil. Desse modo, sugere-se que novas pesquisas: a) façam uso de outras medidas de
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internacionalização e desempenho financeiro; c) estudem períodos de tempo diferentes e mais
extensos; d) analisar o processo de internacionalização após estar consolidado.
6.
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