PROJETO LEITURA E DIDATIZAÇÃO MENSAGEM FERNANDO PESSOA Maior do que nós, simples mortais, este gigante foi da glória dum povo o semideus radiante. Guerra Junqueiro, Portugal As leituras estabelecidas a seguir tomam por base e procuram explorar as características do épico, gênero literário onde se abrigam as grandes aventuras humanas. As epopeias são narrativas geralmente associadas a feitos históricos de uma nação e, mesmo que nelas se destaquem heróis, eles estarão a serviço de um coletivo social específico. Homero, autor que teria vivido no século VIII a.C., na Antiguidade grega, é responsável por dois dos textos mais influentes dentro do gênero: A Odisseia e A Ilíada. De certo modo, essas duas narrativas de Homero acabaram por estabelecer as bases das histórias de aventuras, nas mais variadas épocas e nas mais variadas línguas. Em 1572, na Era Moderna, em pleno Renascimento português, Luís Vaz de Camões publicava Os lusíadas, que é considerado por muitos críticos e historiadores o maior épico em língua portuguesa. Centrado na viagem de Vasco da Gama às Índias, a epopeia lusitana que se desenvolve em dez cantos evoca a nação portuguesa às suas próprias características. Muito tempo depois, Mensagem seria responsável por um revigorar do gênero, em língua portuguesa. Ao modo modernista, Fernando Pessoa teria desenvolvido também um épico de evocação do país. Para tanto, sua obra passaria pelas etapas comuns ao gênero retumbante de Homero. Possíveis dialogismos trabalhados neste Projeto: 1. O mito (Leitura 1) I – Uma nação é a realidade; II – Ulissiponense: o mito e a cidade; III – O Encoberto e a gente surda e endurecida. 2. O obstáculo, a força e a astúcia (Leitura 2) I – Adamastor, de Camões e O mostrengo, de Pessoa. 3. Portugal (Leitura 3) I – O mar e as suas lágrimas; II – Sina, fado, destino. 1 LEITURA 1 – O MITO I – UMA NAÇÃO É A REALIDADE TEXTO 1 PRIMEIRO / O DOS CASTELOS A Europa jaz, posta nos cotovelos: De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando. O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apoia o rosto. Fita, com olhar sfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado. 2 O rosto com que fita é Portugal. PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 1. O primeiro poema de Mensagem procura estabelecer a posição de Portugal no continente europeu. Para tanto trabalha com a prosopopeia, também conhecida por personificação. Que características humanas podem ser lidas nesses versos? 2. Além de Portugal, que outros países são citados diretamente? 3. Além dos países citados diretamente, há, no poema, uma referência indireta a uma outra nação. a. De qual nação se trata? b. Por que, em sua opinião, Fernando Pessoa a utilizou em seu poema? 4. Procure explicar o uso dos adjetivos no verso: “Fita, com olhar sfíngico e fatal”. Com quais intenções, em sua opinião, o poeta os teria utilizado? 5. Destaque um verso que indique para onde olha o “rosto europeu”. Procure explicar as intenções do verso. TEXTO 2 PORTUGAL Avivo no teu rosto o rosto que me deste, E torno mais real o rosto que te dou. Mostro aos olhos que não te desfigura Quem te desfigurou. Criatura da tua criatura, Serás sempre o que sou. E eu sou a liberdade dum perfil Desenhado no mar. Ondulo e permaneço. Cavo, remo, imagino, E descubro na bruma o meu destino Que de antemão conheço: Teimoso aventureiro da ilusão, Surdo às razões do tempo e da fortuna, Achar sem nunca achar o que procuro, Exilado Na gávea do futuro, Mais alta ainda do que no passado. TORGA, Miguel. Poesia Completa II – Diário X-1968. Lisboa: Editora Dom Quixote, 2007. Após quatro décadas, o escritor Miguel Torga parece ter retomado algumas estratégias que se leem no texto 1. 6. Como se autodefine o eu lírico? 7. Miguel Torga, em seu poema, trabalha com “Portugal” em dois níveis. Destaque trechos em que Portugal é o interlocutor do eu lírico e trechos em que é o próprio eu lírico. 8. Em várias passagens o poeta trabalha com expressões que reúnem situações opostas entre uma leitura negativa e outra, positiva, que se fazem dentro da mesma situação. Com base nessa consideração, responda: a. Que características estão presentes no verso “Teimoso aventureiro da ilusão”? b. O que é, em sua opinião, estar “isolado na gávea do futuro”? 3 9. As palavras “passado” e “futuro” são utilizadas, nos dois poemas, para o desfecho das principais ideias. Que associações simbólicas normalmente são feitas com tais palavras? 10. Em sua opinião, os dois poetas tiveram as mesmas intenções ao utilizar as palavras “passado” e “futuro”? Justifique sua resposta com base em cada um dos textos. 11. No texto 1, como vimos, há uma personificação de Portugal feita por intermédio de uma figura de linguagem conhecida por prosopopeia. Em quais expressões, no texto 2, é possível ler a mesma figura de linguagem? Outro importante poeta português da contemporaneidade, Manuel Alegre, escreveu, em 1984, versos também intitulados Portugal Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal! PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 15. Há, no primeiro verso do poema O Infante, uma sequência gradativa com elementos que, para o eu lírico, determinam a história de Portugal. Quais são esses elementos? 16. Qual é o desejo de Deus que está embutido nas afirmações dos dois primeiros versos? TEXTO 3 PORTUGAL 4 E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. O teu destino é nunca haver chegada O teu destino é outra índia e outro mar E a nova nau lusíada apontada A um país que só há no verbo achar ALEGRE, Manuel. Chegar aqui. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1984. 12. A julgar pelo título, o pronome possessivo “teu” dos dois primeiros versos dizem respeito a Portugal. Qual é a característica daquele país que se destaca no poema de Manuel Alegre? Justifique sua resposta com elementos do próprio poema. 13. Destaque uma expressão em que se pode ler o passado e o presente de Portugal sintetizados. Justifique sua resposta com elementos do próprio poema. 14. A qual país está “apontada” essa “nova nau lusíada”, em sua opinião? TEXTO 4 I. O INFANTE Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 17. Quem realiza o desejo de Deus, sugerido nos primeiros dois versos? 18. Muitas vezes Portugal foi definido por historiadores como “Um império onde o sol jamais se punha”. Destaque, da segunda estrofe, um verso em que se lê uma indicação da extensão do império português. 19. O poema parece prestar contas dos feitos lusitanos para que o desejo divino fosse satisfeito. Antes de concluí-lo, contudo, o eu lírico faz uma espécie de reivindicação. Destaque o verso em que se lê tal solicitação e, dentro dele, o vocativo que confirma sua resposta. 20. De que maneira, em sua opinião, o poema Portugal, de Manuel Alegre (texto 3), faz a mesma reivindicação do poema de Pessoa (texto 4)? II – ULISSIPONENSE: O MITO E A CIDADE Assim como Camões, no Renascimento, Fernando Pessoa, em pleno amanhecer do século XX, também assumirá os temas – e os mitos – comuns às estruturas de Homero. Em seu auxílio há a História de Portugal dada às aventuras marítimas e grandes descobertas. Admitir Ulisses nas origens de Lisboa não é só prestígio 5 ou orgulho de um tipo patriótico, mas o reconhecimento de um espírito assinalado para a empresa realizada. Trata-se do espírito do herói grego encarnado no povo da cidade por ele fundada, por ele “fecundada”. Vejamos: 26. Apesar de serem poemas autônomos, é preciso enxergá-los como parte de um todo, já que estão ligados formando a epopeia proposta em Mensagem. Localize no poema O dos Castelos (texto 1) uma indicação do mito que lemos agora no texto 5. TEXTO 5 PRIMEIRO / ULISSES No século XVI, Camões já havia feito consideração ao nascimento mítico de Lisboa. Vejamos: O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus É um mito brilhante e mudo – O corpo morto de Deus, Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou, Foi por não ser existindo. Sem existir nos bastou. Por não ter vindo foi vindo E nos criou. 6 Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecundá-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre. PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 21. “O mito é o nada que é tudo.” A qual mito o verso se refere? 22. Destaque expressões que descrevem o tal mito do poema com antíteses, ou seja, com ideias de sentidos opostos. 23. Que outra palavra é utilizada no poema para indicar o mito de Ulisses? 24. A segunda estrofe constrói um jogo paradoxal (existir sem existir, ter vindo sem ter vindo) para registrar a presença do mito na história portuguesa. Explique os motivos que levaram o poeta a produzir tal estratégia. 25. Localize o sujeito e comente o uso literário do verbo fecundar, utilizado na terceira estrofe. TEXTO 6 E tu, nobre Lisboa, que no Mundo Facilmente das outras és princesa, Que edificada foste do facundo Por cujo engano foi Dardânia acesa; Tu, a quem obedece o Mar profundo, Obedeceste à força Portuguesa, Ajudada também da forte armada Que das Boreais partes foi mandada. CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 27. Destaque os termos utilizados por Camões para descrever Lisboa, capital portuguesa. 28. Pesquise e apresente informações acerca da cidade perdida de Dardânia, que se lê em “Por cujo engano foi Dardânia acesa.” 29. Destaque um verso em que se pode ler o surgimento de Lisboa. 30. A definição da palavra “facundo” – usada também para a descrição de Ulisses no épico de Homero, A Odisseia –, nos dicionários correntes, passa por sinônimos como “elegante”, “grandiloquente”, “eloquente” ou ainda “iluminado”, “aquele que tem luz”, “claro” etc. Comente o uso dessa palavra na estrofe de Camões. Apoie seu comentário com o próprio texto. III – O ENCOBERTO E A GENTE SURDA E ENDURECIDA Há dois momentos em Mensagem em que Fernando Pessoa evoca dois escritores para destacar o fenômeno sebastianista na cultura portuguesa: Bandarra e Vieira. Trata os autores como entidades que possuem anunciações para outros tempos e, dessa forma, praticamente os mitifica. 7 O mito se escorre pela realidade e a intensifica. O mesmo se dá ao avesso quando personagens históricos se mitificam. Há vários exemplos: Vasco da Gama, Nuno Álvares, Fernão de Magalhães, D. Dinis, entre outros. Fiquemos com a mais inspiradora mitificação de todas: a de D. Sebastião. Sobre ele, o próprio Fernando Pessoa escreveu o seguinte artigo: TEXTO 7 8 O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico – como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar. D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade. O cavalo branco tem mais difícil interpretação. Pode ser Sagitário, signo do zodíaco, e conviria, em tal caso, perceber o que a referência indica, perguntando, por exemplo, se há referência à Espanha (de quem, segundo os astrólogos, Sagitário é signo regente), ou se há referência a qualquer trânsito de planeta no signo de Sagitário. O Apocalipse, porém, fornece outra hipótese sobre este assunto. De difícil interpretação, também, é a Ilha. PESSOA, Fernando. Sobre Portugal – Introdução ao problema nacional (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. 31. Como Fernando Pessoa define “mito” no texto 7? 32. Que outro sentido Fernando Pessoa atribui a D. Sebastião? 33. Que outra expressão é usada para explicar o fenômeno do sebastianismo? 34. O texto 7 se encerra com uma provocação: “De difícil interpretação, também, é a Ilha”. Apresente algumas possibilidades para uma boa interpretação desse último símbolo revelado por Fernando Pessoa. TEXTO 8 QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 35. Quem fala pela voz poética, no poema D. Sebastião, rei de Portugal? 36. Com base nas explicações de Fernando Pessoa, dadas no texto 7, explique o verso do texto 8 “Ficou meu ser que houve, não o que há”. 37. Os três últimos versos fazem uma espécie de exaltação da loucura. a. Qual é o sentido da palavra “loucura”, na segunda estrofe? b. Você concorda com o questionamento do poema? Comente livremente sua resposta. c. Reescreva, ao seu modo, o verso “Cadáver adiado que procria?” LEITURA 2 – O OBSTÁCULO, A FORÇA E A ASTÚCIA I – ADAMASTOR, DE CAMÕES E O MOSTRENGO, DE PESSOA É na Odisseia, de Homero, que podemos ler a gigantesca deformidade de Polifemo, ciclope vencido pela astúcia de Ulisses. Gigante de um só olho, habitante da Sicília, capturou Ulisses e doze de seus homens e os fechou em uma cova para, depois, devorá-los. Ulisses consegue estabelecer diálogo à base de vinho quando o monstro confessa algumas de suas proezas. Já embriagado, é vencido pelo herói, que lhe cega o olho e consegue fugir com a metade dos homens que levara, deixando seis deles nas entranhas do ciclope. 9 O clímax da cena se dá à noite e no interior do abrigo de Polifemo. Ulisses inventa um nome estratégico para levar a cabo seu plano. Apresenta-se ao gigante como Oútis que significa Ninguém1. No final do episódio, contudo, Ulisses revela seu verdadeiro nome. É o suficiente para Polifemo, filho de Posêidon, denunciá-lo ao pai, que condenará o herói à mesma escuridão do filho. Essa história fixou mais uma etapa dentro das regras de composição das epopeias. É preciso testar a força e a astúcia do herói que representa um povo. Para tanto, será usado um obstáculo a ser superado. O obstáculo é responsável pelo clímax, dentro das narrativas de aventura. TEXTO 9 ODISSEIA O ENCONTRO – DIÁLOGO INICIAL Ulisses e alguns de seus homens aproximam-se do ciclope Polifemo a fim de roubar-lhe suprimentos (ovelhas, cabras, queijo etc.) para seguirem viagem. Monstro não comparável aos humanos […] […] Os meus imploram Que, tomados os queijos e atraídos Cabritos e ambos, de embarcar tratemos: Fora certo o melhor, mas eu quis vê-lo […] Ei-lo, de lenha para a ceia, à porta A grossa atira estrepitosa carga; Tremendo no interior nos ocultamos. […] E dá conosco e diz: “Quem sois vós outros? Navegais por negócio, ou ruins piratas Os mares infestais, expondo as vidas Para infortúnio e dano de estrangeiros?” […] “Dos Gregos somos que, da pátria em busca, Desde Ílios furacões nos remessaram A estranhas plagas, por querer de Jove; No exército servimos de Agamemnon, Cuja glória a qualquer mundana eclipsa, 10 “Há aí um trocadilho, pois as duas sílabas de oú-tis podem ser substituídas por uma outra forma de dizer a mesma coisa: me-tis. Ou e me são em grego as duas formas da negação, mas se oútis significa ‘ninguém’, mêtis significa ‘astúcia’ […].” Jean-Pierre Vernant, O Universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 104. 1 Pois destruiu tal povo e tal cidade. […] Ei-lo, sevo e em silêncio, a dous agarra, No chão como uns cãezinhos os machuca, E o cérebro no chão corre espargido; Os membros rasga, e lhes devora tudo, Fibra, entranha, osso mole ou meduloso, Qual faminto leão: chorando as palmas, Em desespero e grita, a Jove alçamos. Pleno de humanas carnes o amplo ventre, Leite bebe o Ciclope a grandes sorvos, E entre as ovelhas na caverna estira-se: Vingança cogitada, invoco a Palas; Trás longo meditar, melhor conselho Este me pareceu: de um tronco pego Oleagíneo e verde, grosso e longo, […] Sorteiam-se os que atrevam-se comigo No olho o pau enterrar-lhe pontiagudo, Enquanto sopitado em sono esteja; […] Inda esquarteja dous; eu perto exclamo, Taça a lhe oferecer de roxo vinho: “De carne humana estás, Ciclope, farto; Ora da nossa nau prova a bebida. […] Recebe a taça, com delícia a empina, E pede mais: “Dá-me de novo, dá-me; O nome teu me digas, para haveres Dom que te aprazirá. […] Renovo a taça ardente, que três vezes Néscio esgotou. Sentindo-o já toldado, Brando ajunto: “Ciclope, não me faltes À promessa. Meu nome tu perguntas? Eu me chamo Ninguém, Ninguém me chamam Vizinhos e parentes.” O ímpio e fero Balbuciou: “Ninguém, depois dos outros Último hei de comer-te; eis meu presente.” O ATAQUE Para se vingar do monstro que devorou alguns de seus marinheiros, Ulisses tenta cegá-lo. […] 11 12 O oleagíneo troço, inda que verde, Em brasa tiro, e um deus nos acorçoa; No olho fincam-lhe os meus o pau candente, […] Cálido sangue espirra; O vapor da pupila afogueada As pálpebras queimava e a sobrancelha; […] O urro tremendo ecoa nos penedos; Assustados fugimos; ele, o tronco Todo em sangue arrancado, o lança fora Na veemência da dor, bramando horrível Pelos Ciclopes, que em vizinhas grutas Sobre ventosos cumes habitavam. Aos gritos acudindo, eles à entrada O que o aflige indagam: “Polifemo, Por que a noite balsâmica perturbas E nos rompes o sono com tais vozes? Acaso ovelha ou cabra te roubaram, Ou por dolo ou por força alguém matou-te?” “Amigo, do antro Polifemo disse, ousado que por dolo, não por força, Matou-me, foi Ninguém.” – Replicam logo: “Se ninguém te ofendeu, se estás sozinho, Morbos que vem de Jove não se evitam; Pede que te alivie ao pai Netuno.” Com isto vão-se andando, e eu rio n’alma De que meu nome e alvitre os enganasse. Gemebundo o Ciclope e dolorido, […] A FUGA Depois de cegar o monstro e desviar o rebanho para seu barco, Ulisses consegue fugir. […] Distante um pouco da caverna e pátio, O meu largo e desprendo os mais carneiros; Salvos do monstro, à pressa o desviado Gordo rebanho para a nau guiamos, Onde em pranto ansiosos companheiros Nos receberam. Por acenos vedo Esse lamento, e mando que o lanoso Gado se embarque e o saldo mar cortemos. O DESFECHO – DIÁLOGO FINAL Ulisses, de dentro de sua nau, retoma o diálogo com Polifemo que, na margem, urrava de dor e raiva. Dito e feito, e verberam já remeiros O encarnecido ponto, quando ao longe, Mas a alcance de gritos, o invectivo: “Não devoraste, Polifemo, os sócios De um homem sem valor; cruel e iníquo, De hóspedes em teus lares te sustentas; Júpiter castigou-te e os mais celestes.” […] […] “Se o perguntarem, O olho, dirás, vazou-te o arrasa-muros Ítaco Ulisses, de Laertes nado.” Trovejou Polifemo: “Encheu-se o agouro Ah! de Telemo Eurímides, profeta. Que envelheceu famoso entre os Ciclopes! Apagar-se-me a vista às mãos de Ulisses Vaticinou-me: um forte e ingente e belo Varão sempre cuidei que Ulisses fosse; Mas, falso embriagando-me, a pupila Furou-me um pífio imbele e pequenino! Hóspede, eis os presentes, vem tomá-los; Meu genitor confessa-se Netuno, Rogo-lhe que a viagem te encaminhe. Seja vontade sua, há de sarar-me; De outro deus nem mortal socorro espero.” “Pudesse eu, repliquei-lhe, de alma e vida Privar-te e remeter-te ao reino imano, Como nem mesmo o genitor Netuno O olho te sarará.” Súplices palmas Ele à sidérea abóbada levanta: “Ó rei Netuno de cerúlea coma, Se teu sou na verdade, ó pai, te imploro Que seu país não veja o arrasa-muros Ítaco Ulisses, de Laertes nado; Ou, se é fatal que à pátria amiga torne, Só de toda a campanha, em vaso alheio, Tardio aporte, e em casa encontre penas.” HOMERO. Odisseia – em verso português por Manoel Odorico Mendes. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/odisseiap.html>. Acesso em: 23 fev. 2010. 1. Destaque do texto 9 expressões que foram usadas para definir Ulisses. 13 2. Destaque, agora, expressões que foram usadas para identificar os gregos. 3. Recurso comum ao texto épico, também na epopeia de Homero notam-se dois planos: o físico e o dos deuses. A partir do texto 9, responda: a. Quem são os protagonistas no plano físico? Que papel exercem na narrativa? b. Quem são os deuses protagonistas? Que postura lhes é atribuída por Homero? 4. Como pudemos ver, os grandes épicos possuem como característica a presença mítica de deuses e entidades que atuam em um plano mágico e normalmente se valem de forças e astúcias maiores que as humanas. Recupere o texto 7 e destaque a estratégia que Fernando Pessoa utiliza para explicar e, de certa forma, reforçar a mitificação de D. Sebastião. 14 5. A força, a astúcia, a coragem, o espírito de defesa do coletivo, a fidelidade à pátria e o orgulho nacional definem um herói clássico. Associe essas cinco características a passagens do texto 9. Vejamos, agora, o obstáculo monstruoso criado por Fernando Pessoa em Mensagem. TEXTO 10 IV. O MOSTRENGO O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse, “Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tetos negros do fim do mundo?” E o homem do leme disse, tremendo, “El-Rei D. João Segundo!” “De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?” Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso, “Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?” E o homem do leme tremeu, e disse, “El-Rei D. João Segundo!” Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes, “Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu; E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!” PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 6. Descreva, com suas palavras, a cena exposta nas três estrofes do poema O mostrengo. 7. Reescreva, ao seu modo, as falas do mostrengo e as respostas do navegador português. 8. Depois de pesquisar, apresente as informações que conseguiu para o personagem histórico D. João Segundo. 9. Depois de muito questionado pelo mostrengo, na terceira estrofe, o navegador português fará uma declaração na qual se autodefine. Destaque os versos em que se lê essa autodefinição. 10. Em sua opinião, é possível ler, na declaração do navegante, características de um herói clássico, como as apresentadas na questão 5? Justifique sua resposta com elementos do texto 10, de Fernando Pessoa. 11. Aproxime a primeira pergunta d’O Mostrengo, do texto 10 à primeira pergunta do ciclope Polifemo, do texto 9, baseando-se em suas semelhanças. 12. Aproxime, agora, as respostas dos “heróis” às perguntas do Mostrengo e de Polifemo. Em que são semelhantes? 13. Os dois heróis, tanto o de Fernando Pessoa como o de Homero, conseguem superar o obstáculo. Em sua opinião, qual deles teve maior sucesso? 15 Os versos reunidos no texto 11 pertencem a um dos mais importantes vínculos d’Os lusíadas, de Luís Vaz de Camões, com as epopeias clássicas. Trata-se do encontro dos navegantes portugueses liderados por Vasco da Gama com o gigante Adamastor. TEXTO 11 OS LUSÍADAS (CANTO V: 39-43,49-50) Não acabava, quando hũa figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura; O rosto carregado, a barba esquálida Os olhos encovados, e a postura Medonha e má e a cor terrena e pálida; Cheios de terra e crespos os cabelos, A boca negra, os dentes amarelos. 16 Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso, Que um dos Sete milagres foi do mundo. Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, Que pareceu sair do mar profundo. Arrepiam-se as carnes e o cabelo, A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo E disse: – Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas, Pois os vedados términos quebrantas E navegar meus longos mares ousas, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Nunca arados d’estranho ou próprio lenho; Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do úmido elemento, A nenhum grande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mi que apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento, Por todo o largo mar e pola terra Que inda hás-de sojugar com dura guerra. Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, Inimiga terão esta paragem, Com ventos e tormentas desmedidas; E da primeira armada que passagem Fizer por estas ondas insofridas, Eu farei de improviso tal castigo Que seja mor o dano que o perigo! […] Mais ia por diante o monstro horrendo, Dizendo nossos Fados, quando, alçado, Lhe disse eu: – “Quem és tu? Que esse estupendo Corpo, certo me tem maravilhado!” A boca e os olhos negros retorcendo E dando um espantoso e grande brado, Me respondeu, com voz pesada e amara, Como quem da pergunta lhe pesara: “Eu sou aquele oculto e grande cabo A quem chamais vós outros Tormentório Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo, Plínio e quantos passaram fui notório. Aqui toda a Africana costa acabo Neste meu nunca visto Promontório, Que pera o Polo Antártico se estende, A quem vossa ousadia tanto ofende! CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 14. Destaque do texto 11 a caracterização física feita pela voz poética assim que os navegadores encontram o gigante. 15. Durante a descrição, Adamastor, o gigante, será comparado com o Colosso, de Rodes. Pesquise sobre o assunto e apresente o resultado de suas buscas. 16. Os navegadores reagem com certa admiração quando deparam com o gigante Adamastor. E quanto à reação do gigante? Será também de admiração? Extraia expressões do texto 11, que confirmem sua resposta. 17 17. Estabeleça uma comparação por semelhança entre a recepção dada aos marinheiros pelo gigante Adamastor, no texto 11 e as recepções dos monstros que estão nos textos 9 e 10. 18. Como o gigante do texto 11 se autodefine? 19. Aproxime o texto 11 do texto 1 e revele uma semelhança de estratégia para a realização das descrições nesses dois textos. 20. É possível concluir que, assim como o Mostrengo e Polifemo, Adamastor exerce o papel de obstáculo – etapa típica das epopeias – na narrativa de Camões? Justifique sua resposta com trechos do próprio texto. 21. A penúltima estrofe do texto 11 se inicia com: “Mais ia por diante o monstro horrendo, / Dizendo nossos Fados, quando, alçado,”. Lembrando que a palavra “fado” significa “destino” ou “sorte”, quais são, afinal, os fados da esquadra de Vasco da Gama anunciados pelo gigante? 18 TEXTO 12 O MONSTRO AQUERONTE O pensador, e um dos maiores escritores argentinos, Jorge Luis Borges escreveu um curioso glossário para as monstruosidades mitológicas e literárias referenciais de onde extraímos o seguinte trecho: “[…] é maior que uma montanha. Seus olhos são chamejantes e a boca é tão grande que nove mil homens caberiam nela. Dois réprobos, como dois pilares ou atlantes, mantêm-na aberta; um está de pé, outro de cabeça para baixo. Três gargantas conduzem ao interior; as três vomitam fogo que não apaga. Do ventre da besta sai a contínua lamentação de incontáveis réprobos devorados. […] No interior de Aqueronte há lágrimas, trevas, ranger de dentes, fogo, ardor intolerável, frio glacial, cães, ursos, leões e serpentes.” Jorge Luis Borges e Margarida Guerrero. O livro dos seres imaginários. 8. ed. São Paulo: Globo, 2000. A criação fantástica de Borges sugere imensas e variadíssimas histórias que, contadas, poderiam justificar todo o conteúdo descrito no interior de Aqueronte, o monstruoso rio mitológico, temeroso obstáculo para qualquer viajante. 22. Pesquise sobre o Aqueronte (rio do infortúnio) e, utilizando estratégias semelhantes às usadas nos textos 9, 10 e 11, desenvolva uma breve narrativa de aventura, cujo protagonista tenha em Aqueronte, descrito no texto 12, seu principal obstáculo. Seu herói poderá ser bem-sucedido ou não, dependendo, para isso, de suas características. LEITURA 3 – PORTUGAL I – O MAR E AS SUAS LÁGRIMAS TEXTO 13 X. MAR PORTUGUÊS Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 1. Explique o título “Mar português”. Como se justifica o adjetivo “português” atribuído ao “mar”? 2. Quem é o interlocutor do poema? 3. Qual é a “pena”, na pergunta “Valeu a pena?”? 4. Apesar do tom lírico, é possível reconhecer elementos épicos no poema “Mar português”? Justifique sua resposta com elementos do próprio poema. 5. A segunda estrofe demonstra distanciamento temporal dos feitos portugueses. A que conclusão chega o eu lírico? 19 TEXTO 14 AO LONGE O MAR O cancioneiro popular português contemporâneo registra inúmeros exemplos da presença do “mar” na cultura lusitana de todos os tempos. Procure a canção "Ao longe o mar", de Pedro Ayres Magalhães, do grupo de música português Madredeus. Para consultá-la, busque a letra em http://letras.terra.com.br/madredeus/152424/ e assista ao videoclipe oficial em http://www.youtube.com/watch?v=hCUO QYruotI&feature=PlayList&p=B9757C30CA326BAD&index=77. 6. Logo na primeira estrofe parece haver um jogo temporal. Destaque-o. 7. Em “Vem da névoa saindo / A promessa anterior” há uma imagem recorrente na literatura portuguesa que ora estudamos. De que promessa anterior se trata? 20 8. Por que a voz poética da canção “Ao longe do mar”, de Pedro Ayres Magalhães, permaneceu parada a olhar quando avistou ao longe o mar? Haverá algum elemento misterioso que se escondeu nessa cena? O que você acha? II – SINA, FADO, DESTINO A cultura portuguesa sempre esteve muito vinculada ao conceito de destino em suas mais variadas extensões: sina, fado, acaso, estrela, fortuna, sorte, fatalidade etc. Em Mensagem, Fernando Pessoa evoca um futuro necessário a partir de um passado que parece ter inventado o destino e não apenas sofrido os acasos e as fatalidades que se veem em seu presente. TEXTO 15 QUINTO / NEVOEIRO Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, Define com perfil e ser Este fulgor baço da terra Que é Portugal a entristecer — Brilho sem luz e sem arder, Como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro… É a Hora! Valete, Fratres. PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Saraiva, 2010. (Clássicos Saraiva). 9. Uma série de expressões antagônicas (antíteses e paradoxos) é usada para definir Portugal na primeira estrofe. a. Destaque-as. b. Por que, em sua opinião, Fernando Pessoa utilizou o recurso das antíteses para definir Portugal nesse último poema de Mensagem? 10. O que faz de Portugal um nevoeiro, nos dizeres do eu lírico? 21 11. O jogo de antítese segue pela segunda estrofe e parece consolidar o “nevoeiro”. Destaque-as. 12. Retomando o texto 3, Portugal, de Manuel Alegre, notamos que o pronome “outro”, duas vezes utilizado no segundo verso, está associado a “índia” e “mar” (O teu destino é outra índia e outro mar). Explique o significado desse pronome no verso em destaque levando em consideração as ideias contidas no poema Nevoeiro, de Fernando Pessoa. Também no Brasil, o cancioneiro popular registra variados aspectos da cultura literária típicos das epopeias. Diferente, contudo, da cultura marítima lusitana, as epopeias nacionais estão mais ligadas às condições geopolíticas brasileiras, como o êxodo rural, a má distribuição de renda etc. Vejamos: TEXTO 16 A TERCEIRA LÂMINA Procure a canção "A terceira lâmina", do cantor e compositor paraibano Zé Ramalho. Para consultá-la, busque a letra e assista ao videoclipe oficial em http://vagalume.uol.com.br/ze-ramalho/aterceira-lamina.html. 13. Destaque dos versos de Zé Ramalho expressões e passagens típicas de uma epopeia. a. Evocação nacional: b. A viagem: QUENTAL, Antero de. Antologia. Organização de José Lino Grunewald. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/bv000027.pdf>. c. Características do herói clássico: 15. Destaque expressões que indiquem o estado de “nevoeiro” pelo qual passa o interlocutor do poema. d. O obstáculo: e. A superação do obstáculo: 14. Aparentemente, ao modo brasileiro, a canção de Zé Ramalho também trata da saga de um povo. Comente, com base nos estudos aqui realizados, a transposição que o compositor fez dos épicos para cenários brasileiros. 22 Ainda no final do século XIX, outro grande nome da literatura portuguesa, Antero de Quental, evocou o povo português em um novo momento. Naqueles tempos realistas, ao lado de outros poetas e intelectuais, Antero de Quental lutava por novos espaços e novos debates dentro do ambiente literário e condenava toda e qualquer forma antiquada de comportamento estético e político. Guardados os momentos históricos, o impulso de renovação parece ter o mesmo espírito da obra Mensagem, de Fernando Pessoa. Vejamos: TEXTO 17 A UM POETA Tu, que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno, Surge et ambula2 Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afugentou as larvas tumulares… Para surgir do seio desses mares, Um mundo novo espera só um aceno… Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções… Mas de guerra… e são vozes de rebate! 2 Em latim. Tradução: “Ergue-te e anda”. Ergue-te, pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! 16. Destaque expressões que convocam o povo português a uma reação e a um novo despertar. 17. Pesquise o significado de “Surge et ambula” e justifique o uso da epígrafe no poema. 18. É possível ler nos versos de Antero de Quental o derradeiro verso — “É a Hora!” — da Mensagem, de Fernando Pessoa? Justifique sua resposta a partir dos estudos realizados. 23