Entrevista de Gastão Pereira da Silva1 Dr. Gastão Pereira da Silva foi entrevistado em duas oportunidades: 12 de agosto e 17 de outubro de 1984. Estava doente e, embora preocupado com que seu estado interferisse na qualidade de seus pronunciamentos, gentilmente recebeu os entrevistadores. Dr. Gastão, um dos pioneiros da psicanálise no Brasil e um de seus maiores divulgadores em nosso país, é autor de muitos livros, entre os quais: Para compreender Freud, Vinte e cinco anos de psicanálise e Aplicações práticas da psicanálise. Participaram desta entrevista, realizada no quadro da pesquisa sobre Os primórdios da psicanálise no Brasil, os psicanalistas Marco Antonio Coutinho Jorge, Plínio Leite dos Santos Jr. e Teresa Palazzo Nazar. O texto definitivo não foi revisto pelo autor. Dr. Gastão Pereira da Silva – Antes de começar a entrevista, gostaria de dizer que não estou me sentindo bem. Pergunta – Vamos deixá-lo à vontade para que o senhor fale do que achar melhor e do que se lembrar. Dr. Gastão – Não tenho vontade de falar, não. Essa é a situação, mas faça a pergunta assim mesmo. P. - Gostaríamos que o senhor falasse do início do movimento psicanalítico no Brasil e de como se situava nele. Dr. Gastão – Quando comecei a me interessar por psicanálise, não havia quem conhecesse, realmente, o valor, o sentido da psicanálise. Existia apenas uma entrevista, já muito antiga, de Medeiros de Albuquerque a respeito do neurólogo de Viena. E esse foi o início. Depois, Medeiros de Albuquerque escreveu outro artigo, dizendo que eu escrevia um trabalho de ficção. Ele disse que meu lance em si não era valoroso, mas que tinha valor o fato de que eu abria caminho para ser um psicanalista. De modo que isso, para mim, foi uma grande coisa. P. – Medeiros de Albuquerque fazia parte do meio psiquiátrico da época? Dr. Gastão – Não, ele era jornalista, publicou em vários jornais da época. P. – Nesse início, já se fazia a distinção entre psicanálise e psiquiatria? Dr. Gastão – No princípio, havia muita confusão entre psicanálise e psiquiatria, porque confundiam as neuroses com as perturbações mentais, mas aos poucos isto foi sendo esclarecido, até que houve uma separação entre ambas. Porque a base da psiquiatria é orgânica. Ela tem em sua origem uma deficiência, talvez glandular ou de outro sistema do organismo. E a psicanálise, não, ela é unicamente psíquica. De modo que nós separamos o psiquismo do organismo. Daí, o que eu noto, ultimamente, é que os chamados médicos do meu tempo continuam não dando muita importância às doenças emocionais, e, como vocês sabem, a neurose é uma afecção emocional. Ela pode ter uma origem de caráter, pode ter 1 Entrevista publicada originalmente na revista Revirão, 1, Rio de Janeiro, Aoutra, julho de 1985, pp.139-149. uma origem na infância, pode ter uma origem em um traumatismo, até do nascimento, como também pode ser uma neurose de situação. Se eu saio daqui, por exemplo, e adquiro uma neurose por um conflito? Nesse caso, será resolvida com maior facilidade. Há outros casos mais difíceis. Agora, o que eu também acho, nesse sentido, é que, hoje, há uma barafunda muito grande entre psicologia e psicanálise. Há muito psicólogo sem adução. Isso é grave. Nós estamos falando em tese, não é? A finalidade da psicologia não é a psicanálise. Então, no curso de psicologia, eles dão Psicologia Clínica. Ainda não entendi bem o que é a Psicologia Clínica, porque ela teria que cair na psicanálise – não sei se estou dizendo demais, se estou avançando o sinal diante de pessoas que estudam a psicologia atual, que tudo passa, tudo é superado – então, se a psicanálise pode ser parte da psicologia – isso eu gostaria de saber – ou se é um complemento daquela. Porque a psicologia estuda a mente no seu sentido geral, no seu sentido genérico, e a psicanálise é a teoria do inconsciente. Sem o inconsciente não se faz nada. Eu entendo que a psicologia se faça, não resta dúvida, numa análise do paciente, de seu passado, seu presente, enfim, trata-se de fazer uma pesquisa total do organismo e, no fim, então, dar uma orientação. O sujeito chega, faz a consulta, expõe o caso e o psicólogo ouve, ouve e vai intervindo nas ocasiões oportunas. No fim, ele conclui, e a conclusão dá ao paciente, como se fosse uma receita médica, quer dizer: “Agora você vai ter que seguir o que está escrito para ficar livre disso. Tem que seguir isso, isso, isso...” P. – Professor, gostaria de saber se o senhor manteve contato com Freud. Dr. Gastão – Mantive. P. – Como era sua correspondência com ele? Dr. Gastão – Vou ler alguns trechos da última carta que recebi dele. “Devo-lhe muito por me haver remetido seu livro anterior, Para compreender Freud, e o mais novo, A psicanálise em doze lições, bem como por todos os esforços que V.Sª. tem feito em prol da psicanálise e também pela sua participação nas traduções que tem feito com seu amigo Dr. Ninitch, introduzindo essa literatura nesse país. O meu nome é, ainda, pouco conhecido no Brasil e somente o seu esforço e de seu amigo Ninitch o tornará mais divulgado.” Depois de se referir ao envio de uma fotografia, diz o mestre: “Relembrando as minhas próprias lutas, com as resistências as mais amargas, desejo-lhe o êxito mais satisfatório. Cordialmente, seu Freud”. P. – Como foi que surgiu o seu interesse pela psicanálise? Dr. Gastão – Surgiu quando eu ia, em lombo de burro, longe, no interior – perdi quase toda minha juventude no interior, atendendo dia de sol, de chuva, qualquer dia. Descobri que não só o farmacêutico fazia o que eu fazia, como também o feiticeiro conseguia a mesma coisa. Enfim, um charlatão conseguia a mesma coisa. Depois de a gente estudar tanto, ver o fulano obter o mesmo resultado que a gente... P. – Então o senhor foi clinicar no interior como médico? Dr. Gastão – Fui como médico. Lá cliniquei, como médico, muitos anos. Certo dia caiu em minhas mãos Introdução à psicanálise, de Freud, e resolvi, porque achei uma literatura sedutora, que meu caminho era aquele. Depois de algum tempo, procurei escrever um primeiro livro: Para compreender Freud. Não sei se vocês já o viram. P. – Sim. Há várias edições desse livro. Dr. Gastão – São dezessete edições. Então, pedi a um alemão, mais destro, mais sabido, mais conhecedor da linguagem, para fazer uma tradução dos trechos principais do livro e mandei para Freud. Ele, em resposta, enviou esta carta. P. – O senhor manteve contato, aqui no Brasil, com outros psicanalistas... Dr. Gastão – Não. O psicanalista tem um defeito: fica muito isolado. O psicanalista não é uma pessoa de conversar. A não ser na psicanálise, que agora está surgindo, de grupo. grupo as pessoas podem se reunir. paciente. Num Até então, era o gabinete fechado entre o analista e o Freud também teve dez anos de isolamento, quando a teoria dele, como vocês sabem, foi repudiada de uma maneira muito sórdida. Atiravam pedras nele, chamavam-no de tudo quanto era nome feio, simplesmente porque ele deu como origem das neuroses o fator sexual. Houve, inclusive, aquela célebre polêmica que dizia que o histerismo não podia ser de homem, porque histero significa útero, mas ele provou, deu outro sentido ao histerismo: hoje, um homem pode ser considerado histérico, assim como uma mulher. P. – O senhor sempre teve em mente uma preocupação grande em divulgar a psicanálise, não foi? Dr. Gastão – Bom, o objetivo de Freud não era fazer conferências fechadas, em faculdades. Não era um academicismo que ele queria, mas sim que a psicanálise fosse popular, que se popularizasse. E a única pessoa, que eu tenha conhecimento, que popularizou Freud fui eu, que estou, atualmente, talvez com uns setenta ou oitenta livros publicados sobre ele. Agora, naturalmente, a psicanálise tem seguido um outro exemplo, um outro caminho, já há várias escolas e não é mais aquela psicanálise ortodoxa, aquela psicanálise antiga. Mas eu acho que a verdadeira psicanálise é a ortodoxa, mesmo porque tudo o mais são subterfúgios, quer dizer, são direções que acabam – não sei se estão de acordo – criando escolas. Uma é a de Jung, outra é a de Otto Rank, outra é disso, outra é daquilo etc., e há aí uma grande confusão, não se sabe mais nada. Eu continuo ortodoxo, mesmo porque, seja qual for o caminho que se seguir, tem que dar no Freud. Ele é a pedra fundamental de tudo. P. - É isso que o senhor chama de ortodoxo? Dr. Gastão – É. Isso é o que chamo de ortodoxo. P. – Psicanálise ortodoxa é aquela que segue os fundamentos de Freud. Dr. Gastão – É. Os homeopatas não receitam alopatia, só receitam a homeopatia, não é? Eu continuo. Mas esse ano parei de dar consulta, só de vez em quando uma palestra, ou qualquer coisa assim, enquanto estou com saúde. Infelizmente, o coração me pegou de vez, e eu, então, estou um pouco prejudicado nessa minha luta, mas continuo a ser freudiano. Já fui para o rádio, o teatro, o cinema, o jornal, fui a todos os meios de publicidade, para divulgar a psicanálise. Fiz cento e tantas novelas na Rádio Nacional, todas elas com fundamento psicanalítico. P. – O senhor escrevia o texto da novela? Dr. Gastão – Escrevi cento e tantas novelas! Eu as tive apresentadas durante 23 anos, na Nacional. Naquela época não se podia ter só consultório de psicanálise, a não ser que se fizesse charlatanismo, porque todo mundo achava que ia a um psicanalista quem não estivesse regulando bem da cabeça. De maneira que muitos e muitos clientes saíam. Eu nunca tive sala de espera por causa disso. Quando o cliente chegava, eu abria a porta e deixava-o entrar, porque muitos tapavam o rosto para não serem vistos. P. – Ah! Era assim? Dr. Gastão – Isso já tem muitos anos. Mas a psicanálise, para mim, não pode sair de dentro daquela base. Tanto que eu fiz, numa ocasião, um curso básico de psicanálise por correspondência e foi um grande êxito. Parei porque não havia tempo nem material. Tornou-se muito caro tudo isso, muito cansativo. Mas, seja qual for o caminho que o analista tenha que seguir, ele não pode deixar de conhecer primeiro o inconsciente. E, na psicologia, não sei se você entra, também, no inconsciente, na pesquisa do inconsciente. Então, temos associações de idéias, interpretação de sonhos, interpretação de lapsos, tudo é motivo para ir pesquisar a causa da neurose em que o paciente se apresenta. Combatem muito Freud, inclusive Jung – que é um dissidente -, dizendo que nem toda neurose tem origem sexual. Excetuando-se as neuroses que eu disse de situação, quase toda neurose mais grave, a que leva o indivíduo a se concentrar mais, a silenciar, ou então a cair numa depressão muito grande, ela é de origem sexual. A sexualidade foi o grande escândalo da teoria de Freud. Felizmente hoje esse tabu desapareceu completamente. P. – Como eram os seus contatos aqui com as pessoas que começavam a lidar com a psicanálise? O senhor conheceu o psicanalista Karl Weissmann? Dr. Gastão – Foi meu aluno. P. – Fizemos uma entrevista com ele, que falou muito do senhor. Dr. Gastão – Eu apresentei o Karl Weissmann – se não é audácia dizê-lo – a Freud. O Karl Weissmann então disse, em uma carta que está na biografia de Ernest Jones, que ficaria muito contente se continuasse os estudos de psicanálise ao meu lado. P. – Quando começaram a se organizar os grupos que fundariam, posteriormente, as instituições psicanalíticas, o senhor não se vinculou a nenhum? Dr. Gastão – Não, porque naquele tempo, só havia a Associação de Psicanálise de Viena, da qual eu fazia parte, e me correspondia com Freud. Então, depois da guerra, criaram uma outra associação internacional, que eu combato. Dela fiz parte, mas depois desisti e saí, porque achei que aquilo era mais uma exploração. Bem, acontece que discordei logo depois do processo da análise didática. Por não aceitá-la, eu me retirei. P. – Por que o senhor não aceitou a análise didática? Dr. Gastão – Eu achei uma exploração. Só isso. Uma maneira de ganhar dinheiro, de tomar dinheiro. Não havendo uma escola, não havendo, naquela época, nenhuma instituição que pudesse proporcionar os conhecimentos analíticos, pelo menos os primeiros, os principais, eles resolveram fabricar psicanalistas segundo a importância recebida de cada um deles. Percebi que para a fundação da própria Sociedade Internacional visava-se mais o dinheiro, e, naturalmente, quem tinha dinheiro entrava, quem não tinha, não entrava. P. – Quer dizer que não tinha sustentação teórica? Dr. Gastão – Não, é claro que não tinha. Há umas indiscrições que eu não gostaria de estar citando. Eu discordei. Fiquei, naturalmente, muito isolado, porque discordava demais dos processos que eles usavam. Fui então para o rádio, o teatro, o cinema e o jornal. Foi o jornal que me fez, naturalmente. Enfim, fiz outras atividades para não explorar a parte financeira da psicanálise, que era um ideal muito grande que eu tinha e mantive até quando pude. De modo que é daí que vem esse meu isolamento – o próprio Garma, da Argentina, diz que não compreendia muito bem por que eu me isolava tanto. Mais isolado foi o Freud. Ficou dez anos sem ter quem lhe desse um apoio. Eu achei que aquilo era mais um meio de ganhar dinheiro do que um meio de crença e eu não queria transigir de meu ideal, que sempre foi esse – nunca, nunca deixei de dedicar-me à psicanálise, por coisa alguma. Sempre procurei seguir a psicanálise, e, mesmo quando tive que transigir, eu nunca transigi, preferia passar tudo quanto fosse agrura, tudo quanto fosse dificuldade, tudo quanto fosse obstáculo. Por isso cheguei a essa idade sem ser rico. Eu podia estar rico. P. – Quer dizer que a psicanálise não enriquece ninguém, pelo menos monetariamente? Dr. Gastão – A psicanálise de hoje, bom... P. – Sim, mas a psicanálise verdadeira, ela não enriquece ninguém? Dr. Gastão – Ah! Não. A psicanálise, quando ela é seguida, pelo contrário, até o dinheiro, em certos casos, atrapalha. Eu já dei muitas consultas gratuitas. O meu objetivo, em resumo, foi o seguinte: eu não tinha material para nada aqui, o material todo vinha de fora. Por isso comecei a imaginar como poderia arranjar material meu, brasileiro, para poder tirar conclusões, e vi que só era possível por meio de outros veículos de publicidade: um jornal, uma revista, o cinema, enfim, principalmente com o teatro. E foi aí que consegui toda essa divulgação maior da psicanálise. P. – Como era o pagamento da análise? Dr. Gastão – Eu não visava lucro, tinha outros meios de subsistência, como o jornal, que me serviu muito. Eu me formei e estudei às custas, pode-se dizer, do jornal, do rádio, do teatro etc. Com o que ganhava lá, sustentava a psicanálise e nunca fiz preço de psicanálise. Uma pessoa chegava e dizia: “Oh! Doutor, gostaria de me tratar com o senhor, mas não tenho dinheiro, só ganho cento e tantos mil réis por mês, ou cinqüenta mil réis”. Naquele tempo, eu dizia: “Não, fica aí”. Resultado: eu entrava às oito da manhã lá no consultório, saía às oito da noite e às vezes sem um resultado pecuniário compensador. P. – O senhor acha, então, que o ideal seria o psicanalista ter outro meio de subsistência e exercer a psicanálise livre dessa questão? Dr. Gastão – Não, não digo isso, mas é preciso ser honesto consigo mesmo. Ninguém vive de ar! Pode até dar consultas bem caras, mas a questão é distinguir a exploração do verdadeiro ideal a que ele se dedicou. P. – Há pouco o senhor falava da psicanálise de hoje, da psicologia, dessa série de escolas que existem. Como é que o senhor encara isso? O que o senhor vê por aí? Dr. Gastão – Cada um de per si. Um se trata por uma escola, outro se trata por outra escola. Mas eu não sei quais os resultados que eles podem obter com as escolas A, B, C ou D. De forma que é uma resposta um pouco difícil de dar. Mas acho que, quando tudo falha, cai-se no Freud, na certa. Sem Freud não há psicanálise, sem Freud não há psicologia. Mas a psicologia tem esse sentido que eu disse. É diferente da psicanálise, porque nela se dá uma orientação à pessoa, e na psicanálise não se dá orientação alguma. A pessoa fica entregue a um relax, a quase uma hipnose, e a gente fica ouvindo e tirando as conclusões. O hipnotismo também não dá resultado, porque a pessoa acorda e esquece tudo o que disse. A psicanálise nasceu com o hipnotismo, mas ele foi abandonado porque durante a hipnose a pessoa falava, falava, falava e quem ficava conhecendo tudo era o analista, o analisando não conhecia nada. De modo que Freud achou mais prudente fazer um relax mais profundo, de uma maneira mais calma, mais tranqüila, para a pessoa ir falando aquilo que vinha à mente, sem nenhuma condenação, e ir tirando as conclusões. No Jung há até umas 100 perguntas para saber onde é que está o complexo. Ele pergunta à pessoa, por exemplo: no mar, o que é? Mar lembra peixe, céu lembra nuvem, e por aí vai, quando chega no complexo a pessoa titubeia e custa a responder: aí está o ponto que deve ser combatido. O que não tem nada a ver com Freud, isso Freud já tinha abordado. P. – Atualmente se fala de psicanálise com crianças, psicanálise com adolescentes, psicanálise com adultos. Como o senhor vê esses “departamentos” de psicanálise? Dr. Gastão – Eu acho que na psicanálise há especialidades como em qualquer outro ramo da Medicina. Por exemplo, tem a Melanie Klein, que só trabalha com crianças. Acho que a psicanálise com crianças é uma especialidade um pouco delicada, mas há necessidade de sabê-la, porque é por intermédio da infância que podemos tirar alguma conclusão mais tarde. Outros seguem outros caminhos, cada um segue aquele que acha melhor. Todo dia estão surgindo – você vê pelo jornal, principalmente o Jornal do Brasil, que publica muito – escolas novas, caminhos novos. P. – No entanto, o senhor parece achar que a psicanálise é uma só. Dr. Gastão – A psicanálise é uma só. P. – Então como é que se vai abordar especificamente a criança... Dr. Gastão – Como é que se vai resolver qual foi a causa que está predominando no inconsciente? Descoberta, transformado o inconsciente em consciente, nós conseguimos, às vezes, uma melhora, outras vezes, a cura. Depende. E vejo que a pesquisa, toda ela, é do inconsciente. P. – E o inconsciente não tem idade. Dr. Gastão – O inconsciente não tem idade. Bom, ela também influi um pouco, não é? Até os cinqüenta e poucos anos, a psicanálise ainda pode dar algum resultado, mais ou menos positivo. Mas quanto mais moço for o paciente, melhor. P. – O senhor colocou a psicanálise em relação à psicologia. Como vê a psicanálise em relação à Medicina? Dr. Gastão – Não tem nada uma coisa com a outra. A psicanálise não tem nada a ver, em absoluto, com a Medicina. É completamente separada. No meu livro Vinte e cinco anos de psicanálise está tudo que senti, que presenciei, que observei sobre este assunto. P. – Eu me lembro de ter lido, não sei se foi num livro seu, tenho a impressão que sim, que havia uma espécie de oposição entre a sua postura e a do Dr. Júlio Porto-Carrero. Parece que ele achava que a psicanálise era um ramo da Medicina. Dr. Gastão – Ah! Isso é a rivalidade que há entre todas as profissões. O Porto-Carrero era um grande professor, acredito que da Academia. Era professor de Medicina Legal e fazia psicanálise na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. No princípio, ele se achava o “senhor” da psicanálise. Não admitia que outros pudessem colaborar também. Mas acabamos muito amigos, terminamos com toda essa rixa, chegamos a um acordo. Ele, realmente, é um grande valor. Deixou, na história da psicanálise, um nome famoso, um nome inesquecível. Isso tudo são bobagens, tolices, coisas que nada têm a ver propriamente com a ciência. Ele dizia para mim: “O Gastão precisa escrever um livro para compreender a si mesmo”. Agora, se eu for falar sobre a oposição que ele me fez, precisaremos de três ou quatro entrevistas. A oposição foi muito grande. Fui muito atacado, fui violentamente atacado. P. – Gostaria que o senhor falasse um pouco mais sobre isso. Dr. Gastão – Não posso especificar. Eles achavam que eu estava inventando, que Freud nunca dissera isso, nunca dissera aquilo. P. – Eles quem? Dr. Gastão – Os que escreviam, os opositores. Tive muitos opositores. Me chamavam de tudo, mas eu nunca dei importância, nem nunca respondi a ninguém. Sempre foi hábito meu não responder. E é assim. P. – Gostaria que o senhor falasse sobre a palavra do analisando. Como vê a questão da transferência e da interpretação? Dr. Gastão – Isso depende do preparo do cliente. Você não pode, por exemplo, falar do complexo de Édipo pra uma pessoa analfabeta, porque ela não vai entender. Você tem que arranjar uma série de rodeios. Imagine você dizer: “Isso tudo é porque você amou sua mãe!” O sujeito levanta e agride o psicanalista. De um certo modo, tudo é agressivo em psicanálise. Sexo sempre foi um tabu tremendo, coisa que, hoje, não é mais. Eu escrevi um livro, O tabu da virgindade, que não tem mais sentido hoje. Até pela liberdade, que eu acho natural, não há necessidade disso. Há necessidade de cada um ser dono de si, cada um ir levando a sua. P. – O senhor acha que sexo não é mais tabu? Dr. Gastão – É, em determinado ponto, e não é em outro. É para uns, e para outros, não. Isso depende muito do temperamento, da educação que a pessoa recebe, da formação que a pessoa teve. É uma questão muito individual, uma maneira de ver. Mas antigamente não era maneira de ver, era amplo, todo mundo via, todo mundo falava, mas não abertamente, como hoje. Naquele tempo era um círculo fechado, não se falava em público, falar em sexo era a mesma coisa que falar uma coisa tremenda. P. – O senhor disse que Freud, quando fazia as conferências dele, não tinha interesse em fazer uma coisa acadêmica. Ele queria atingir o maior número possível de pessoas. Como o senhor vê a divulgação da teoria da psicanálise ampliando-se a vários níveis de especialização profissional? Dr. Gastão – Dependendo de cada um, da interpretação que cada um dá e da maneira como escreve e explica. Porque tudo é difícil e tudo é fácil e nada mais difícil do que escrever fácil. Hoje, por exemplo, o que posso dizer do Para compreender Freud é que obteve alcance do grande público justamente por eu ter reduzido lá todos os pensamentos complexos da obra de Freud. É claro que isso não pode ser para qualquer pessoa, mas uma pessoa de cultura mediana já pode ler psicanálise e entender. P. – O senhor acha que para ser psicanalista há necessidade, especificamente, de ser médico ou psicólogo? Ou qualquer pessoa pode ter acesso à psicanálise, no sentido de exercer a prática? Dr. Gastão – Atualmente estou fora disso. Soube que houve uma legislação para psicólogos e médicos, e para ser psicanalista haveria a necessidade de ser médico ou psicólogo. Eu não concordo. Não sei se essa lei caiu ou está vigorando. P. – A lei foi submetida ao Congresso, mas não foi aprovada. Dr. Gastão – Nem poderia ser! Não poderia deixar de ser assim! P. – Karl Weissmann também comentou isso. Dr. Gastão – Pois é, o Karl Weissmann é um bom exemplo de que isso não é necessário. O que temos é o seguinte: há muitos médicos com grande cultura médica, mas analfabetos em psicologia e em psicanálise. A maioria está assim. Na classe médica cada um segue no seu setor. Se você falar em Gastão Pereira da Silva, disser que é psiquiatra, a um obstetra, por exemplo, ele não vai saber quem é. Talvez se falar a um psiquiatra e a um psicanalista eles conheçam, de maneira que isso é uma divulgação que interessa a cada um deles, e é despertada pela maneira pela qual a pessoa expõe. Por exemplo, o título de um livro tem muita importância: Para compreender Freud é um título muito feliz. Deu muitas edições isso. O leitor se pergunta: “para compreender, como? Acho Freud um homem tão complicado, como é que eu vou compreender?” Então, ele vai ler e encontra todas as soluções. P. – O senhor teve algum contato pessoal com um analista de São Paulo chamado Durval Marcondes? Dr. Gastão – Tive, e muito. Grande mestre! Morreu outro dia. Ele era como eu, um psicanalista independente. Manteve sempre uma revista famosa. P. – Durval Marcondes chegou a fundar a primeira sociedade brasileira de psicanálise, não é isso? Dr. Gastão – Ele ia fundar um instituto de psicanálise, do qual eu era um dos componentes. Mas, depois, a política mudou e ele veio a falecer. Ficou por isso mesmo. Hoje, há várias instituições em São Paulo. Duas ou três eu conheço, pois tenho sido convidado para ir lá falar sobre psicanálise. De vez em quando eles me chamam e eu vou, nunca me nego a isso. Mas, como eu dizia, em São Paulo tem umas três ou quatro faculdades que formam, por mês, 8, 10, 12 analistas. E o Conselho Nacional de Medicina não pode fazer nada contra, não há legislação especial sobre a psicanálise. Até hoje, não houve. De maneira que eles vivem às turras. O Conselho vai em cima, eles se defendem, ficam nessa luta, que já era tempo de ter acabado. P. – O senhor chegou a tomar conhecimento de Lacan? Dr. Gastão – Só superficialmente. Apesar de ortodoxo, reconheço que os problemas psicanalíticos são infinitos nas interpretações, mas me abstive de tomar conhecimento de outras teorias. P. – O senhor se lembra do período em que foi fundada a Sociedade Internacional de Psicanálise aqui no Brasil? Dr. Gastão – Ah! Aquilo já foi. Eu fiz parte da primeira vez, já faz quase uns 30 anos. P. – Quem mais fazia parte dessa sociedade? Dr. Gastão – Éramos três ou quatro. Não passou da fundação. Depois, então, Ernest Jones achou que devia mandar um analista credenciado da Europa, para vir aqui fazer a formação de psicanalistas. E aí, naturalmente, como veio do estrangeiro, afluíram muitos... Mas houve uma coisa que eu também votei contra: cobravam uma fortuna por mês ao médico, o que eu achava um absurdo. Aquele alemão, o Kemper, se encheu de dinheiro aqui e depois foi embora para a Alemanha. Isso aqui é uma fonte de dinheiro para os outros. P. – A mulher dele também era psicanalista. Dr. Gastão – Era porque ele achava que era. Ele era muito procurado, como todo estrangeiro que trazia uma credencial de Londres e essa coisa toda. E achava que, quando não podia fazer uma análise, ela podia. Eu mesmo sofri, certa ocasião, de uma angústia muito forte, e procurei-o, achando que ele poderia me ajudar. Fui lá com a tal angústia, coisa que nunca me deixou, pois hoje ainda a sinto. Eu disse ao Kemper: “Estou com uma angústia muito forte, me sentindo assim, e tal. Será que isso pode influir como projeção nos clientes que eu possa ter?” E ele respondeu: “Você pode continuar clinicando desde que eles não notem que você está com angústia”. Quer dizer, isso não é resposta que se dê. Eu diria: “Se você está com angústia, procure primeiro se refazer um pouco, faz um tratamento, uma análise”, mas não o que ele me disse! P. – Dessa época, o senhor tem alguém conhecido com quem mantenha contato? Dr. Gastão – Não sei. Essa é uma pergunta difícil, porque me isolei muito. Até pouco tempo tinha o Durval Marcondes, que para mim era o mais antigo. P. – Uma coisa que se observa é que o número de figuras femininas no início da psicanálise no Brasil é muito pequeno. O senhor apontaria aí alguma situação particular? Dr. Gastão – É uma situação da mulher. Ela tornou-se, naturalmente, mais emancipada do que era antes. Antigamente era assim: “Você pode casar com quem quiser, desde que se case com fulano!” Hoje, não. A mulher pode expressar o que pensa, assim como os homens. Tem liberdade de pensamento, de ação. Tem a sua emancipação, segundo o critério que ela adota na formação moral que possa ter. P. – Como o senhor vê a necessidade de análise para o analista? Dr. Gastão – Todo analista é analisado, ao meu ver, pela análise. Quando você faz a análise de uma pessoa, você está sendo analisado, também, pela própria pessoa. Meu segredo é esse. P. – Se eu disser alguns nomes de pessoas da sua época, no começo da prática da psicanálise, o senhor fala alguma coisa sobre o contato que teve com eles? Franco da Rocha, por exemplo. Dr. Gastão – Eu não tive contato com Franco da Rocha. Foi um grande homem, um grande psicanalista, um grande psiquiatra. Considero-o um dos grandes da galeria dos psicanalistas. P. – Neves-Manta. Dr. Gastão – Neves-Manta também tentou seguir a psicanálise, mas, depois, ficou na psiquiatria. Nós somos, mesmo, os precursores disso. Três ou quatro. Eu estou esquecendo muito os nomes próprios. Mas o que interessa é o fato, não a pessoa. É justamente o conjunto desses fatos que constitui o que vocês estão pretendendo, querendo. Exatamente isso. Talvez, hoje, eu seja o decano dos analistas, porque o mais antigo que eu morreu há poucos meses. Sempre fui um ortodoxo, nunca mudei minha opinião. De modo que discordei muito desses desdobramentos dos conhecimentos psicanalíticos em outras psicanálise com psicologia, coisas absolutamente diferentes. atividades, confundindo Psicologia é uma coisa, psicanálise é outra. P. – Houve uma mistura dessas duas coisas? Dr. Gastão – Houve e continua havendo. Eu continuo sempre ligado ao ortodoxismo. Sou um freudiano desde que conheci a psicanálise e, até agora, não mudei. É como o homeopata que fica no classicismo da homeopatia e não admite que se faça outra terapêutica. Assim também tem acontecido comigo. P. – O que aconselharia a uma pessoa jovem que lhe dissesse que quer ser psicanalista? Dr. Gastão – É uma resposta difícil. Primeiro, segundo o que penso, o analista é nato. O sujeito que não tenha uma tendência toda ela voltada para o problema, não adianta estudar, aquilo não resulta em coisa alguma. O conselho que eu daria primeiro é fazer análise, para saber em que ponto ele se encontrava ou se encontra, para chegar então à conclusão se seria um psicanalista ou não. Enfim, um psicanalista não se fabrica. Isso é uma tendência natural, uma tendência inata, um processo de dedicação todo especial, todo diferente das outras manifestações. Eu acho que ele não precisa fazer supervisão. Basta a psicanálise ser exercida conforme foi dito por Freud, conforme ela é. Essa coisa de renovação nunca dá bom resultado, sempre dá confusão. P. – Como o senhor vê a psicanálise hoje? Dr. Gastão – Eu preciso procurar um tema que dê para explicar a psicanálise de hoje, porque nunca vi tanta confusão. Não é propriamente a psicanálise de hoje, há uma mescla, uma mistura de linhas. Cada qual querendo se sobressair mais e querendo, naturalmente, se afastar o máximo possível dos princípios fundamentais, que são os de Freud. De modo que eu acho que, no momento, nem é bom falar nisso. A confusão é grande, é geral. P. – Daria para o senhor falar mais sobre como foi o início do movimento psicanalítico aqui no Brasil? Dr. Gastão – Propriamente não houve movimento psicanalítico no Brasil. Até então nada se tinha feito e nada se tinha instituído, nada se tinha pensado em relação a esse fato. Fui eu, através de Freud, que divulguei popularmente a psicanálise entre a massa, pois até então era privilégio de doutores, de professores, de faculdades. E Freud sempre combateu isso. Ele sempre quis que a psicanálise fosse popularizada o máximo possível. Naquele movimento houve alguns amigos, mas agora não me lembro dos nomes deles. Queríamos fundar uma instituição psicanalítica, o que não foi possível porque as discordâncias, pretensões, vaidades, orgulhos etc. impediram. Mas movimento no sentido em que você está perguntando, não houve. Pelo contrário, a psicanálise foi combatida, sofreu um pouco de hostilidade. E isso perturbava qualquer movimento que se pudesse fazer nesse sentido. P. – A hostilidade era mais em função do quê? Dr. Gastão – A psiquiatria não aceitava a psicanálise. Havia uma guerra, como há até hoje. Hoje já se confunde o psiquiatra com o psicanalista. Mas eu ainda estou com Freud. E a psicanálise nunca será mucama da psiquiatria. São duas atividades absolutamente diferentes. P. – No começo havia essa briga muito séria? Dr. Gastão – No começo e hoje em dia se confunde muito psiquiatria com psicanálise e com outras coisas. Há uma salada de psicanálise, psicologia e tantas e tantas teorias, que vão naturalmente nascendo e tomando vulto. Hoje a psicanálise é um balcão, de um modo geral. Sem querer ofender os psicanalistas, que são os verdadeiros psicanalistas. P. – Por falar nisso, quais os discípulos de Freud que mais seguiram os preceitos dele? Dr. Gastão – Jung. Foi o principal. Quem está na primeira linha é o Jung. Nós também temos o Otto Rank. P. – Mas o Jung não brigou com o Freud? Dr. Gastão – Isso é um problema a ser desenvolvido. Não houve briga entre os dois, apenas o Jung achava que nem tudo era sexual. Então procurou seguir o Freud discordando dele nessa questão básica que é a sexualidade, que hoje em dia também é muito confundida com genitalidade. Genitalidade é uma coisa e sexualidade é outra. Daí é que vem o fato de o Jung ser talvez um dos maiores psicanalistas de todos os tempos. Outra coisa: a cultura de Carl Jung era bem mais sólida do que a de Freud. P. – E Melanie Klein? Dr. Gastão – Gosto muito dela. A psicanálise infantil, eu nunca tentei. Melanie Klein era uma grande psicanalista nesse sentido, especializado, quero dizer. É a tal coisa que a gente não pode deixar de dizer. São psicanalistas divergentes, como o meu ponto de visto é ortodoxo. A diferença do Jung para com o Freud é que a cultura do Jung era maior do que a dele. Freud foi um psicanalista ocidental e o Jung não, ele foi ao Oriente, andou por países diferentes. A vantagem do Jung sobre o Freud é justamente esse conhecimento oriental que ele adquiriu. Quais são aqueles que realmente são sinceros, colocam o idealismo acima de tudo? Os outros querem projeção pessoal e sobretudo dinheiro. Eu não aceito isso. Não tomei nem nunca gostei de tomar conhecimento fora dos pontos de vista fundamentais de Freud. Fiquei preso a esses princípios. Sem querer estou falando, eu não ia falar. P. – Freud, referindo-se à psicanálise, teria dito que ela era a peste. Como o senhor entende esta afirmação? Dr. Gastão – Não é fácil dar uma interpretação dessa afirmação. Peste porque, naturalmente, a psicanálise empesteava o ambiente, foi tremendamente combatida. Daí a expressão peste, essa peste. Eu estou entendendo assim, não sei se é bem essa a pergunta. P. – Tem a ver com o momento em que Freud chegou aos Estados Unidos e falou para a pessoa que estava ao seu lado que os americanos não sabiam que ele estava trazendo a peste para eles. Ele chamou a psicanálise de peste. Dr. Gastão – Eu não sei por que a psicanálise foi recusada e continua sendo. Daí ele chamar de uma peste, como se o ambiente psicológico fosse empesteado por esse processo. P. – A que o senhor atribui o fato de a psicanálise estar sempre sendo recusada, desde a época de Freud até hoje? Dr. Gastão – À questão da sexualidade. Só. Mais nada. Ao desentendimento que existe entre genitalidade e sexualidade. P. – O senhor não acha que Freud poderia estar se referindo à psicanálise como peste no sentido em que estaria modificando os conceitos da época? Dali para a frente as coisas teriam que ser diferentes? Dr. Gastão – Modificando, não. Empesteando. A questão da sexualidade é muito importante na psicanálise e é muito mal compreendida. A maioria das pessoas não compreende o que são propriamente a bissexualidade e a genitalidade. São duas coisas diferentes que estão em guerra uma com a outra. P. – Acho que o senhor já respondeu por que não quis se filiar a nenhuma das sociedades psicanalíticas: elas não eram condizentes. Dr. Gastão – Meu livro Vinte e cinco anos de psicanálise traz toda essa discussão que houve, todos esses debates entre os analistas. P. – Como o senhor vê essa tentativa de monopólio da psicanálise pela Sociedade Internacional? Dr. Gastão – Eles querem monopolizar, mas nunca conseguiram. Há inúmeras sociedades que concorrem com a Internacional. A Internacional é apenas um tabu. Mais nada. Não há diferença alguma entre ela e as outras. Tudo depende da direção que se der no curso da própria psicanálise em si. P. – Dos livros que escreveu, qual o senhor mais gosta? Dr. Gastão – O fundamental é Para compreender Freud. Esse deu mais de 10 edições. P. – O senhor acredita que a análise, para ser eficiente, tem que ser individual? Dr. Gastão – Nunca aceitei a psicanálise em grupo, por não achá-la eficiente. Durante 30 anos, inúmeros clientes que tive tentaram fazer análise de grupo e voltaram a fazer análise individual. P. – Freud alguma vez mencionou algo a esse respeito? Dr. Gastão – Que eu saiba, não. P. – E quanto à questão do tempo da sessão de análise? O senhor acha que há necessidade de ser de 45 minutos? Dr. Gastão – Eu, por exemplo, nunca contei o tempo que o analisando levava. Por uma razão muito simples: usando os processos que uso, o processo ortodoxo, o processo das associações livres, a interpretação dos sonhos, eu podia deixar de lado essa questão de horário. Muitas vezes é como os garimpeiros fazem em seu trabalho: lavam uma porção de pedras, mas pedra preciosa não tem nenhuma. Só vem cascalho. Eu comparo muito a psicanálise com o trabalho dos garimpeiros. Perde-se um tempo enorme, várias e várias sessões, para se pegar um detalhe e desse detalhe, então, desenvolver a interpretação. Por exemplo, analisando 40 ou 45 minutos, às vezes não havia nada que eu pudesse aproveitar, e aí ia continuando até um ponto. P. – Nunca aconteceu de ser menos de 40 minutos? Dr. Gastão – Aconteceu. Ah! Aconteceu. Nas neuroses atuais, por exemplo, não é necessário o tempo de 40 minutos. [...] A homossexualidade é dificílima de curar. Por exemplo, o caso de Nijinski. Na minha opinião ele ficou louco justamente por haver a Rômula atuado de tal forma no espírito dele, que o afastou da homossexualidade. A homossexualidade é que mantinha a vida dele. P. – A escolha sexual dele era essa. Dr. Gastão – Era essa. Eles se casaram aqui no Rio de Janeiro. A homossexualidade, ser homossexual, tornar-se um homossexual é tão difícil quanto deixar de ser homossexual. Era o que Freud dizia. Um dos problemas maiores que temos dentro da psicanálise, justamente, é o homossexualismo. Eu gostaria de propor a vocês que voltassem quando quisessem, para que pudéssemos conversar assim, sem nos fixarmos em um determinado ponto, conversar sobre psicanálise de uma maneira geral, porque não é brincadeira, são 30 anos!