Leituras / Readings Saúde Mental Mental Health “Só quero ter porque não sou, só quero estar bem porque não estou”: Um olhar psico(pato)lógico sobre o consumo excessivo na sociedade actual1 Resumo / Abstract Neste trabalho analisamos o problema do consumo excessivo na sociedade actual numa perspectiva psicopatológica e psicodinâmica. Começamos por fazer uma referência às recentes alterações sociais e de que forma podem, de certo modo, influenciar a ocorrência neste fenómeno. Abordamos brevemente, do ponto de vista nosológico, a perturbação de compulsive buying ou excessive buying, e depois tentamos dar um entendimento para o significado Rui C. Campos Médico Psiquiatra Psicólogo Clínico. Professor Auxiliar, Departamento de Psicologia, Universidade de Évora Correspondência Rui C. Campos, Departamento de Psicologia, Universidade de Évora, Apartado 94, 7002-554 Évora, FAX: 266 768 073 e-mail [email protected] deste sintoma, tocando nas noções de necessidade, vicariãncia e sobre-compensação. Olhamos depois para o sintoma em diferentes estruturas mentais, com a depressiva, borderline ou histriónica e tocamos ainda na questão da identidade e busca do self-ideal. O texto foi anteriormente apresentado sob a forma de uma conferência, Universidade de Évora, 6 de Maio de 2010. Agradecemos ao Prof. Coimbra de Matos a leitura e comentário prévio ao texto referente a este artigo. 1 Palavras-chave: consumo excessivo, compulsão a comprar, narcisismo, necessidade, vicariância, sobre-compensação, relação de objecto, psicopatologia social We examined the problem of excessive buying in today society in psychopathological and psychodynamic perspectives. We begin by making a reference to recent social changes and how they can somehow influence the occurrence of this phenomenon. We address briefly, in a nosological point of view, compulsive buying Assistimos nas últimas décadas a profundas alterações a disorder or excessive buying, disorder and then we try to give an nível cultural, económico e social. As sociedades ocidentais understanding of this symptom meaning, developing the notion tornaram-se espaços de consumo, em que os bens materiais of need, vicariance and over-compensation. Then we look for the e a sua posse passaram a desempenhar um papel e a ter uma symptom in different mental structures, depressive, borderline and função e um significado importantes. Pode mesmo dizer-se histrionic, and we finalize touching on the issue of identity and que vivemos num espaço social do “ter para ser” e não tanto pursuit of ideal self. do “ser para ter”. Em que vale mais as coisas que se conseguem, e menos, a forma como se conseguem essas mesmas Key-words: bying, compulsive buying, narcissism, need, vicarian- coisas. Em que as pessoas, como diz o filósofo José Gil, vivem ce, over-compensation object relations, social psychopathology de pequenos prazeres, mas não de um desejo comum. Uma sociedade da informação e do seu excesso, e portanto da 50 Leituras / Readings Volume XII Nº2 Março/Abril 2010 incapacidade de a processar mentalmente e de lhe dar sentido, sentido de se poder considerar um quadro clínico, que teria onde há um empobrecimento afectivo compatível com uma simultaneamente componentes de uma perturbação do contro- sociedade das tecnologias, da eficácia, dos computadores, lo dos impulsos e de uma perturbação obsessivo-compulsiva. do pronto a pensar e a consumir Uma sociedade das com- Helga Dittmar, uma especialista na área, prefere a utilização pras, dos gastos, dos programas e do que está na moda. Um do conceito de comprar excessivo (execessive buying) em tempo de globalização, em que não há espaço para pensar, vez de compulsão para comprar (compulsive buying) ou adi- para desejar e para sonhar. ção a comprar (buying adition). Naturalmente que o termo As próprias actividades de lazer passaram a estar, sobretudo excessivo tem muito de subjectivo, porque o comportamento nas últimas duas décadas, muito ligadas, interdependentes de comprar pode ser visto num contínuo, desde o simples e mesmo, do consumo, especialmente, a partir da criação e proli- vulgar comportamento de comprar, ao comportamento pato- feração dos grandes espaços comerciais, onde se pode comer, lógico, excessivo, disfuncional, irracional e mesmo com uma por exemplo, ir ao cinema, e naturalmente gastar bastante componente fortemente impulsiva em alguns casos. Natural- dinheiro. A facilidade na obtenção de crédito foi também um mente que é necessário ter em mente critérios de relevância factor que muito contribuiu para tornar o consumo apetecível e clínica para poder falar de uma perturbação psicopatológica. ilusoriamente fácil e sem custos. Assim, os comportamentos de As dimensões a considerar relativamente a este carácter ex- consumo, nomeadamente os comportamentos disfuncionais cessivo têm, no caso presente, a ver com a frequência com ou de consumo excessivo devem ser vistos como intimamente que ocorre, as consequências financeiras e a importância intrincados nas alterações, que podemos mesmo rotular de subjectiva que o sujeito atribui ao acto de comprar, conduzin- radicais, que se têm vindo a verificar em todo o tecido social do a deficits importantes do ponto de vista social, pessoal e que nos envolve. profissional. As pessoas com esta perturbação envolvem-se O fenómeno da compulsão a comprar, no seu termo original em comportamentos repetidos de consumo, impulsivos, fora anglo-saxónico compulsive buying, tem-se tornado cada vez do seu controlo que envolvem graves consequências pessoais, mais prevalente, independentemente do nível socioeconómico relacionais e financeiras. dos sujeitos, do seu vencimento e do seu crédito disponível, Note-se que muitas vezes o comportamento shopaholic, como fenómeno a que naturalmente não são alheias as alterações é designado por alguns, pode referir-se apenas ao acto de sociais antes referidas. Trata-se de um fenómeno com uma frequentar lojas, não necessariamente de comprar bens ma- relevância clínica significativa e que tem recebido nos últimos teriais de uma qualquer espécie. Para Dittmar[2], a compulsão tempos cada vez mais interesse por parte de clínicos e inves- a comprar seria composta por três elementos fundamentais: a tigadores. Apesar de se mostrar mais prevalente no sexo femi- presença de impulsos irresistíveis, uma perda do controlo sobre nino, verifica-se uma tendência para um aumento preocupante o comportamento e a manutenção do comportamento de con- nos sujeitos do sexo masculino mais novos. Aliás, sabe-se que, sumo excessivo independentemente das suas consequências e deixando de lado por momentos questões psicopatológicas, adversas. É o carácter de irresistibilidade que fundamenta existem diferenças de género nas orientações gerais para o a opinião de alguns autores de que esta perturbação tem consumo. Enquanto as mulheres tendem a focalizar-se mais um carácter obsessivo, porque em alguns casos o indivíduo no processo de comprar propriamente dito, muitas vezes vivido sentir-se-ia controlado por forças que não pode dominar, sente como agradável e prazeroso, os homens centram-se mais no mal-estar e considera o seu comportamento disfuncional. produto final adquirido do ponto de vista da identidade social, No entanto, em muitas situações o indivíduo sente excitação a compra de bens materiais está mais intimamente ligada ao e alivio, e algumas vezes, arrependimento, posteriormente género feminino. No entanto, este panorama tem vindo a alte- ao comportamento de compra, o que leva alguns autores a rar-se, sobretudo nos sujeitos mais jovens do sexo masculino, porem em causa a possibilidade de considerar a perturbação em que se regista cada vez mais um aumento do envolvimento como uma compulsão e a pôr a tónica numa componente de psicológico na actividade de comprar . adição. O comportamento pode ser muito prazeroso, pelo Voltando ao consumo excessivo e com um significado psico- menos inicialmente e pode ser usado para aliviar a tensão e patológico, recentemente alguns autores têm argumentado no regular o afecto. O que nos faz sentido pensar a nós, como [1] [2] 51 Leituras / Readings 52 Saúde Mental Mental Health desenvolveremos mais à frente, é que o comportamento de admirado, já que na verdade, não se sentiu amado e desiste do consumo excessivo pode ter diferentes significados, remeter afecto, procurando outros ganhos narcísicos, fazendo, aquilo para diferentes estruturas mentais, logo, em determinado caso que se designa por um investimento narcísico do outro, do o elemento compulsivo poderá ser mais importante, e noutro objecto, no sentido de ser apenas ele apreciado, fazendo do ser o elemento da perturbação dos impulsos. Os critérios de outro uma coisa, qual espelho mágico que devolve ou deve diagnóstico provisórios para uma possível inclusão futura nos devolver sempre uma imagem perfeita do sujeito. Imagem sistemas de classificação combinam, justamente, elementos que não é, nem pode nunca ser devolvida, porque o objecto obsessivo-compulsivos e de perturbação dos impulsivos. materno, aquele que podia ter olhado, contido nos braços e Mas independentemente de considerações nosológicas o que no espírito nunca o fez. Podia ter feito, mas não o fez, ou talvez gostaríamos aqui de afirmar é que o acto de comprar preenche não pudesse… sempre uma necessidade. Disto sabem muito bem os especia- Encontramos também a vicariância sexual, a outra forma de listas de marketing e que têm de vender os seus produtos, o vicariância, em que se sobrevaloriza o investimento sexual do que não é naturalmente o meu caso. Também têm falado muito objecto, a sedução, a erotização da relação, mas sempre, e sobre as necessidades e as recompensas do consumidor, as necessariamente também, uma fuga e uma defesa contra essa funções e o significado psicológico dos bens materiais, os relação na sua intimidade e plenitude; um curto-circuito da investigadores na área do consumo compulsivo. relação. Também é o outro que olha, que está lá para admirar Não é, por ora, tanto por aqui que pretendemos prosseguir esta o sujeito que se exibe erótica e sexualmente. Não devemos apresentação, mas antes, reflectir um pouco sobre o porquê de esquecer que o amor-próprio só é patológico quando é defen- algumas pessoas, mais do que outras, sentirem uma enorme sivo ou vicariante; o sujeito que se ama porque não foi amado necessidade de comprar? De que necessidade, ou necessi- e é incapaz de amar porque teme não ser correspondido; e dades falamos? Qual o significado deste sintoma? Para que isto porque o objecto primário e os demais objectos que se serve este comportamento? Diríamos, para já, que quando algo lhe seguiram não corresponderam ao seu amor. é excessivo no ser humano, no seu comportamento, nas suas O que hoje bem sabemos é que ao longo do desenvolvimento, emoções, genericamente na sua personalidade, esse carácter e para além das necessidades mais básicas de protecção e excessivo é sempre compensatório, tem sempre a função de prestação de cuidados, a criança tem diversas outras neces- compensar alguma coisa que falta, ‘se se precisa muito, é por- sidades, de afecto, proximidade, reconhecimento, valorização, que se teve pouco’… Como também se pode dizer, num outro autonomia. Quando por diversas razões, a criança, e mais sentido, que ‘só se mostra, só se exibe o que verdadeiramente tarde o adolescente e adulto, não vê satisfeitas estas e outras se sente que não se tem, ou teve…’. necessidades, que obviamente vão sofrendo alterações na Os mecanismos de vicariância ou substituição do que falta, e sua importância relativa ao longo do tempo, geram-se focos de sobrecompensação, são particularmente visíveis nas per- irritativos, fica o sentimento de insatisfação, o mal estar, a sonalidades de traça narcísica, que compensam um profundo sensação de boca seca num dia de verão, de frio num dia de sentimento de menos valia, uma profunda ferida narcísica com inverno porque o casaco não protege do vento gelado, numa a necessidade de serem admirados e com um comportamento palavra, fica a frustração. E esse amargo de boca, digamos arrogante e exibicionista e com sentimentos megalómanos e assim, não desaparece nunca, marca o registo mnésico para de superioridade, para esconder os de inferioridade. Voltam sempre e coloca o sujeito na posição de carência permanente. ‘as cosias’ ao contrário, digamos assim. Por vezes mesmo, Ao contrário do que se pensava no passado, e como nos quando presente um narcisismo mais perverso, um ataque ensina Coimbra de Matos (Comunicação pessoal), não é uma e destruição da auto-estima do outro para se sentirem, eles certa dose de frustração que é útil e mesmo necessária, por- mesmos, menos desvalorizados. que promotora do desenvolvimento e impedidora do desejo Existem fundamentalmente dois tipos de vicariância, para além de fixação nas diversas etapas desenvolvimentais; o que é da narcísica a sexual. Em todo o caso, o seu significado, a sua necessário não é tornar a situação actual desagradável, de função, é de suprir a insuficiência do laço afectivo. No primeiro modo a não ser desejada, mas sim que o futuro seja visto como caso o sujeito exibe-se e faz-se admirar ou faz tudo para ser desejável, de forma a que o progresso seja aliciante. Não é a Leituras / Readings Volume XII Nº2 Março/Abril 2010 estação que é inóspita, mas o comboio do progresso que pode o ego, ou ainda, entre outros, um significado cleptomaníaco, ser fascinante. Não é a frustração das necessidades orais, por sendo sinónimo de descarga libidinal. exemplo, que provoca a separação da criança à mãe, mas sim O significado do acto consumista patológico pode igualmente ser a promoção da autonomia. Frustração é sempre desaponta- diverso. Não é claramente independente deste facto a evidência mento, simplesmente não é boa. O problema não está em não de que os bens comprados por estas pessoas não serem ao frustrar, na gratificação excessiva portanto, mas na gratificação acaso, também eles terem simbolicamente um significado, inadequada. Como nos diz ainda Coimbra de Matos, não é a como aliás também, os objectos roubados a que nos refería- frustração da vida juvenil que promove a saída da adolescência, mos anteriormente. Este valor simbólico dos bens de consumo mas o fascínio pela vida adulta. Como a planta que precisa de é também, como é sabido, muito explorado pelos especialistas chuva, mas vem sol; o que está mal não é o excesso de sol, de marketing. Porque será que aparece uma mulher esbelta mas a falta de chuva, e de uma luz fosca por detrás das nuvens. num anúncio a lâminas de barbear? Ou porque não bebem A intolerância à frustração, diríamos nós, resulta do excesso leite, mas qualquer outra coisa, os adolescentes que aparecem de frustração, histórica, basal, estrutural; não resulta da falta num anúncio para promover um produto para sujeitos dessa de frustração, mas da necessidade não satisfeita. faixa etária? Os artigos mais comprados pelos compradores O que é sempre importante compreender na situação psico- compulsivos podem ser entre outros e mais comummente, patológica do comprar excessivo ou noutra qualquer é que o roupas, sapatos, maquilhagem, por exemplo, ou também, mas sintoma, o comportamento disfuncional, a emoção dolorosa, menos, música e artigos electrónicos[2]. a fantasia bizarra, têm, sempre, um significado que deve ser Por outro lado, importa também dizer, que a mesma necessi- entendido, procurado. Com o acto consumista o sujeito pre- dade pode ser compensada de formas diferentes por sujeitos enche uma necessidade, mas essa necessidade que o sujeito diferentes. As mulheres poderão comprar mais, os homens procura preencher pode variar de pessoa para pessoa. Este poderão ter outros comportamentos compensatórios, por entendimento da Psicopatologia é naturalmente mais rico e exemplo, algumas formas de comportamentos de risco, ou compreensivo do que a mera necessidade, essa também com- simplesmente, algumas actividades socialmente aceites, su- pulsiva, de enquadrar e classificar sintomas, sem compreender blimadas, como por exemplo os desportos radicais. o seu sentido à luz de uma história passada, de uma estrutu- Mas quais as necessidades psicológicas, por detrás do acto ração da personalidade, obedecendo a uma nosologia estrita de comprar? O mesmo é dizer, quais as funções psicológicas e fechada que impede a reflexão. Todo e qualquer fenómeno que este tipo de comportamentos pode ter? Não será por psíquico, é preciso não esquecer, tem uma causalidade múltipla acaso, e importa dizer desde já, que a co-morbilidade entre o e complexa, articulando-se e inter-dependendo de factores da consumo compulsivo e a depressão é elevada. Os objectos vida actual, do passado vivido e desejado e da fantasia, das comprados como ‘tapa-buracos’, para preencherem o vazio defesas organizadas e das principais linhas de estruturação interno; uma função anti-depressiva, porque o indivíduo se da personalidade . Quisemos com este parêntesis alertar sente carente, em falta, e precisa de se sentir preenchido, para o facto mais que evidente, mas nem sempre aceite por cheio, de se sentir bem, de se animar, de se ‘por para cima’, todos, de que o mesmo sintoma tem diferentes significados porque na realidade interna e profunda não se sente, e em em diferentes pessoas. alguns casos nunca sentiu; precisa escapar de sentimentos Veja-se o caso do roubo, por exemplo. Pode ter claramente dolorosos ou pelo menos ser capaz de os tolerar. Tanto podem um significado anti-depressivo, anaclítico. Apropriando-se de ser objectos a comprar, como um comportamento alimentar objectos que não lhe pertencem, o sujeito tenta suprir o ob- compulsivo, encher-se de alimento, por exemplo, desde que jecto de relação primária que sente que lhe faltou. Vinga-se no faça o sujeito sentir-se preenchido, aconchegado, desde que exterior, no social, afastando a sua agressividade do objecto sacie a necessidade oral. Pensamos que a componente com- que realmente mereceria a sua retaliação[4]. Pode também ter pulsiva, das duas componentes que referimos anteriormente um cunho neurótico, de descarga de enorme tensão, qual como associadas ao quadro clínico do comprar excessivo, panela de pressão que serve para que a inibição extrema, as pode estar mais directamente relacionada com este fundo exigências implacáveis de um super-ego tirano não destruam depressivo. Nas palavras de uma paciente “é como algumas [3] 53 Leituras / Readings Saúde Mental Mental Health pessoas que podem comer quando se sentem uma lástima. É a tomar conta de um conjunto de crianças órfãs. Para além confortante. É um comprar confortante” . Ou, nas palavras de de apresentar depressão evidente e períodos de colorido outra: “Parece que eu compro coisas por impulso se me sentir hipomaníaco, gasta muito para além das suas possibilidades, bem. Se me sentir realmente bem, posso comprar coisas. Ou endividando-se muito, para que, nas suas palavras, nada falte posso comprar coisas para me porem para cima, mas não é às crianças como lhe faltou a ela. Tende também a apresentar sempre nem com todas as coisas. Se me sinto uma lástima, comportamentos alimentares de tipo compulsivo[6]. compro coisas, para me animar…”[5]. Note-se que também nos Mas num outro sentido, diferente, dissemos atrás, que o quadros maníacos, e genericamnete nas personalidades de comportamento de consumo excessivo podia ter também fundo hipomaníaco, podemos igualmente encontrar comporta- um cunho de adição que o aproximaria das perturbações mentos compulsivos de compra de objectos, comportamentos do controlo dos impulsos. É possível tecer um paralelo com que podem ter consequências graves. E o que é a mania, se alguns comportamentos de risco, como o consumo de subs- não a verdadeira negação da depressão? Do ponto de vista tâncias, do ponto de vista interno, da sua função, de busca psicodinâmico ela é o oposto da depressão; é também uma de sensações, da regulação do afecto, na excitação extrema defesa contra ela, é o seu reverso, é a tentativa, muitas vezes e também nas reacções físicas intensas. Alguns compradores psicótica, na mania propriamente dita, ou menos grave, na compulsivos podem mesmo apresentar sintomas de absti- hipomania, de negação do sofrimento psíquico depressivo, nência. Repare-se na descrição de um paciente: “É como um porque a mania implica sempre uma perda do contacto com sabor na boca, uma secura, boca seca, um som nos meus a realidade. Por isso ela é mais grave que a depressão. ouvidos. Às vezes até a minha visão se ofuscava. Tinha de Não parece ser sequer discutível que o humor tenha um pa- chegar a alguma coisa para me manter de pé, e às vezes penso pel fundamental no acto de comprar. Num estudo realizado mesmo que vou ter um ataque, um ataque de ansiedade, mas no Reino Unido, verificou-se que enquanto as compradoras não... Vou gastar dinheiro… e depois quando gastei o dinheiro, comuns tendiam a experimentar um ligeiro aumento das emo- começo a sentir-me mais em baixo”[2]. A extrema excitação ções positivas a seguir ao acto de comprar, e depois mais um sentida por algumas pessoas quando compram torna legítima, ligeiro aumento já em casa, nas compradores compulsivas apesar das evidentes diferenças, a aproximação à experiência as mudanças nestas emoções eram muito mais extremas; cleptomaníaca., de se apoderar do objecto quando dele não registava-se um aumento brutal das emoções positivas do precisa verdadeiramente, o frenesim, o acto de o possuir, de momento pré consumo para o momento a seguir ao acto de se apoderar dele, a excitação, a descarga durante o acto, e comprar, e depois um decréscimo significativo num momento por fim o alívio. posterior, já em casa . No limite, e olhando de outro prisma para esta questão de uma O cunho depressivo da personalidade associado à compulsão certa equivalência entre o comprar compulsivo e os compor- a comprar e o carácter vicariante e compensatório de alguns tamentos de risco, acting-out (passagem ao acto) ou agir, que comportamentos é, pensamos, muito bem ilustrado por um cunham ou dão cor à estrutura borderline da personalidade, caso que acompanhámos há alguns anos, de Maria, uma pode ver-se que na realidade, algumas pessoas compram o mulher de 39 anos. Viveu a infância sozinha com uma mãe que não podem, simplesmente porque sim, porque querem e deprimida, na sequência da morte do marido, durante a gra- acham que têm direito, e isso basta, de forma pouca pensa- videz de Maria, marido esse que a traía com outra mulher com da. A capacidade de pensar é, aliás, absolutamente vital para quem teve um filho. Maria vivia na pobreza e numa profunda a saúde psicológica e o seu comprometimento associa-se infelicidade. Passou fome e chegou mesmo a pedir esmola. directamente ao adoecer mental. Recorda um acontecimento da sua adolescência em que O acting-out alivia o sofrimento depressivo, mas como ocorre estando à janela viu passar uma pessoa com sacos cheios de numa atitude de evacuação, impede a atitude reflexiva[4]. Pode comida, pensando, que também ela gostaria de comer aquilo também ser visto como uma defesa contra a depressão, que que quisesse. Conta-o com mágoa e revolta. Casa com um assim deixa de ser vivida no plano interior mas que se agrava marido profundamente passivo e continua a viver com esta e perturba ainda mais o sujeito. mãe numa relação de cunho simbiótico. Resolve dispor-se Diga-se que vivemos numa sociedade em que tudo deve ser [2] [2] 54 Leituras / Readings Volume XII Nº2 Março/Abril 2010 oferecido, nada deve ser procurado, sociedade preguiçosa, Veja-se também agora, e ainda de acordo com o mesmo autor, porque simbolicamente ao sabor da lei da mãe e pouco da lei a recente ideia de mobilidade a última expressão do despo- do pai[1]. Intuímos também um certo traço infantil, anaclítico tismo, em que o indivíduo é apenas uma peça deslocável, destas personalidades aditas ao consumo, como que vivendo tem um valor dependente da bolsa, desconhecendo o que num ‘estado infantil da mente’, pelo menos numa dada área do lhe pode acontecer. A empresa, Estado ou instituição não se funcionamento psíquico, e perdoem-me a inexactidão da metá- compadecem com as necessidades, direitos e expectativas do fora que utilizo, mas pensava na noção de Meltzer de estados trabalhador. O mercado, a especulação financeira comanda a sexuais infantis da mente. É esta mesma característica, infantil, vida do cidadão. O indivíduo não pode traçar a sua carreira, é que torna, ou melhor, que ajuda a colocar o sujeito numa po- a incontrolabilidade total do seu próprio destino. E acrescen- sição passiva, deponente, mas de contínua exigência perante taríamos nós, que ao mesmo tempo, é a própria identidade o exterior, os outros e o estado omnipotente, omnipresente que fica em risco, que periga gravemente. e salvador. Esperam que alguém resolva os seus problemas, Não queríamos deixar de abordar, de forma mais específica que o objecto provisor dê, alimente, satisfaça a necessidade, nesta apresentação, ainda, a questão da identidade, da pro- que apesar de inconsciente, é histórica e jamais esquecível cura da identidade, melhor dizendo, ou dito de outro modo, porque a sua satisfação é sentida como imprescindível. Não da busca ou da aproximação a um self ideal. O que parece é a necessidade de comprar, foi a necessidade do passado verificar-se nas pessoas com comportamentos compulsivos jamais satisfeita, mas de que o sujeito não abdica e que marca de consumo, é que quanto maior a discrepância entre o self o seu acontecer anímico. real e o self ideal maior a motivação para o consumo, que é Note-se ainda e também o carácter ilusório e artificial da ne- visto como um meio para a construção da identidade. A sym- cessidade da aquisição de alguns bens, em parte gerado pelos bolic self-completion theory proposta por Wicklund e Gollwit- meedia, mas que só tem efeito porque é assimilado por quem zer[7] afirma que quando percebemos dúvidas ou limitações está mais susceptível; funcionando isto como uma espécie de no nosso auto-conceito, aumenta a nossa motivação para mecanismo de chave-fechadura. A chave só encaixa na fecha- compensarmos essas limitações, e por vezes, fazêmo-lo de dura certa. Parece que alguns sujeitos como que se retirariam, forma simbólica, por exemplo comprando e usando bens que quase que podíamos dizer para um mundo de fantasia, longe simbolizam os aspectos da identidade mais fragilizados, como da realidade dolorosa, onde tudo é possível ter sem dificulda- no caso do adolescente que compra o casaco de cabedal de des, e tudo é preciso ter, por vezes num mecanismo que tem motoqueiro, símbolo de masculinidade, para compensar o laivos de semelhança com a retirada esquizóide. sentimento de se sentir pouco masculino e mostrar aos outros Naturalmente que o outro lado da moeda é justamente a e a si mesmo que é de facto um homem. realidade, da qual dizia que alguns parecem querer fugir, e Duas noções voltam à calha, o valor simbólico dos bens que é bom que tentemos não clivar, uma realidade da injustiça, são comprados e a necessidade de compensar, diríamos, com- da desigualdade absoluta, da corrupção, esse cancro social pensar a falha narcísica, a falha na auto-estima e no mesmo metastisado e incurável, a instabilidade laboral, uma sociedade passo a necessidade de exibir alguma coisa, como referimos em que vemos que uns têm tudo e outros não têm nada, o antes, sucesso, riqueza, estatuto, por exemplo, aspectos que que alimenta a inveja e a revolta. Note-se por exemplo, como podem ser ilusoriamente conseguidos pelo acto de comprar e nos alerta Coimbra de Matos (comunicação pessoal) numa pelos objectos que se compram. Muitas vezes, e este aspecto comunicação recente, que a depressão não tem apenas raízes não é negligenciável, os chamados ganhos instrumentais e de infantis, podendo gerar-se também de situações posteriores de realização (achievement) estão por detrás do comportamento opressão, impasse e obstrução de alternativas possíveis, que de consumo excessivo. Nas palavras de uma paciente: “Boa, mimetizam as condições que geram a personalidade melan- posso comprar isto. As pessoas vão pensar que tenho dinheiro cólica na infância. É o caso do assédio moral no ambiente de para comprar roupa. Na verdade não tinha mas as pessoas trabalho ou mobing. O medo, a insegurança e imprevisibilidade, pensavam que sim. Tinha a ver coma a imagem que eu dava associados à total incontrolabilidade de expectativas e invisibi- para a sociedade. Eu parecia, não uma pessoa rica, mas uma lidade de referências, conduzem ao desespero e desistência. pessoa que podia dar-se ao luxo de comprar roupas. Eu tenta- 55 Leituras / Readings Saúde Mental Mental Health tiva, toda eu, dizer às pessoas, eu não sou uma dona de casa. nível for, seja qual for a sua origem do ponto de vista genético- Sou alguém e posso ir comprar estas roupas, posso fazer isso, evolutivo. O sujeito sente-se sempre incompleto, precisa de não sou uma dona de casa. Acho que pensava que as roupas se completar. Tudo remete afinal, e sempre para o narcisismo me podiam dar confiança…” . deficitário, porque algo de muito importante faltou e a partir No limite assistimos a uma profunda difusão da identidade, ser daí o sofrimento, a ferida aberta com urgência de ser sarada, o sempre e consecutivamente alguma coisa que não se é, mas buraco interno, que precisa ser cheio. Assim se justifica o título que se deseja ser, porque o que se é não serve; simbolicamen- desta conferência. Cremos poder pensar, pois, que muitos te falando, o vestido que está curto, ou as calças apertadas, de facto diriam, se pudessem…, se soubessem… ‘só quero ou que simplesmente não ficam bem, não assentam bem, ter porque não sou, só quero estar bem, porque não estou’. [5] estão fora de moda, e é preciso comprar outra. Esta difusão da identidade é própria, justamente, das sociedades do consumo, em que o sujeito se dilui numa amálgama fusional, no acontecer vivencial da globalização e da homogeneização que nos querem impor. Basta, basta com a falácia da igualdade, baste de mentira e de hipocrisia. Ergamo-nos que já é hora. Naquilo que devíamos ser iguais não podemos ser, e depois querem domesticar-nos, obrigar-nos a ver, olhar e pensar todos da mesma forma. Não há espaço para ser único, diferente… Lembro-me do que dizia há já alguns anos uma paciente que acompanhei com uma personalidade com características borderline, quando lhe interpretava que os papeis nas relações são diferentes consoante o tipo de relação, dizia portanto essa paciente, “mas nós somos todos iguais”, ao que lhe respondi, Referências “não, somos todos diferentes!”. Registe-se ainda, e mesmo para terminar, o significado das [1] Campos, R. C. (2008). ‘Porque nunca gostaram de mim...a minha compras excessivas nas personalidades de cunho mais his- dor não tem fim’: Uma reflexão sobre a depressão e o acting-out triónico; as roupas, os sapatos, as jóias, os perfumes e os na sociedade actual. Revista Portuguesa de Psicanálise, 28(2), acessórios para captar a atenção, o olhar do outro sobre si, 63-79. sobre o seu corpo, para seduzir, para erotizar; num registo [2] Dittmar, H. (2004. Understanding and Diagnosing compulsive relacional superficial, imaturo e egocêntrico; falha falo-narcísica buying. In R. H. Coombs (Ed.), Handbook of adictive disorders: A ou na auto-imagem sexuada; o outro que existe para admirar, practical guide (pp 411-450). New Jersey: John Wiley & Sons. para mostrar desejo. O ‘raciocínio’ inconsciente é: “Já que não [3] Campos, R. C. (1999). O adoecer depressivo: Síntese descritiva posso ser amada, porque nunca pude, então pelo menos sou do modelo teórico de Coimbra de Matos de compreensão da desejada; porque também nunca fui olhada”. E é o frenesim patologia depressiva e do seu tratamento, Revista Portuguesa de nas lojas, as marcas, as roupas sempre vistosas, a necessidade Pedopsiquiatria, 15, 1-27. de uma aparência jovem; a incapacidade e a impossibilidade [4] Matos, M. (1996). Adolescer e delinquir. Análise Psicológica, 14(1), de encarar o envelhecimento, o mito da juventude, aliás muito 23-29. [5] Dittmar, H., & Drury, J. (2000). Self-image – is it in the presente nos nossos dias, a fantasia que se pode ser sempre bag? A qualitative comparison between “ordinary” and “excessive” jovem e bonito, porque na verdade o self é pouco robusto, é consumers. Journal of Economic Psychology, 21, 109-142 frágil; fantasia que sem a aparência física nada mais o sujeito tem para mostrar. Parece que por mais voltas que dêmos vamos sempre desembocar no mesmo lugar, no narcisismo, ou melhor dizendo, na insuficiência da compleição narcísica do sujeito, seja a que 56 [6] Campos, R. C. (2004) Maria sem mãe, Maria sem pai; Maria dos outros ou de si: Estudo de um caso clínico de depressão. Revista Portuguesa de Psicossomática, 6(2), 99-110. [7] Wicklund, R. A., & Gollwitzer, P. M. (1982). Symbolic self-completion. Hillsdale: Eribaum.