PRÁTICA DOCENTE E CRIANÇAS COM DESAFIOS DE
SOCIALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Silvia Regina Carvalhedo dos Santos Lourenço 1 - SEEDF
Maria do Socorro Martins Lima 2 - UNB
Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O trabalho parte do interesse em investigar a prática docente de uma professora do Centro de
Educação Infantil do bairro Recanto das Emas – Distrito Federal que lida com
comportamentos agressivos, de duas crianças de cinco anos de idade. O objetivo geral
consiste em identificar os elementos que impulsionam os conflitos de socialização das
crianças e como isso afeta a prática docente. Os objetivos específicos são: Verificar em que
circunstâncias ocorrem os conflitos e em que medida eles interferem na prática docente;
Identificar as intervenções da professora e da equipe de apoio na mediação desses conflitos.
Tomou-se como base leituras acerca do conflito, aqui tratado como atitudes agressivas como:
bater, chutar, empurrar, morder deliberadamente os colegas. Considerando que a infância é
uma construção social inventada e interpretada pela sociedade, é primordial o professor
entender como estão constituídos os comportamentos das crianças no contexto social do
presente século, em função de suas circunstâncias culturais, seu desenvolvimento e suas
necessidades educacionais para orientar a sua prática. Utilizou-se como instrumentos a
observação da rotina dos alunos na sala de aula, no recreio, no refeitório e demais espaços da
escola; com foco na interação professor-criança e entre as próprias crianças; entrevista com a
professora regente e diálogo informal com a orientadora educacional. O foco de análise foi no
relato da professora acerca de como seu trabalho é afetado; de como lida com estas crianças e
sobre como as crianças são conduzidas para solucionar esses conflitos no espaço escolar. As
conclusões apontam que os conflitos parecem surgir em decorrência de situações do contexto
familiar das crianças que vêm à tona no ambiente escolar, quando das interações e diante das
seguintes demandas: seguir regras, combinados, limites e condutas sociais desejadas em
termos de relacionamento com seus pares. Estas circunstâncias em geral são consideradas no
planejamento.
Palavras-chave: Infância. Conflitos. Prática docente.
1
Professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, pedagoga, aluna do Curso de Especialização em
Educação Infantil, Convênio entre Secretaria de Educação do Distrito Federal e Faculdade de Educação da UNB
– E-mail: [email protected]
2
Doutoranda em Educação: Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade de Brasília. E-mail:
[email protected]
ISSN 2176-1396
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Introdução
Através de relatos de vários profissionais percebe-se que no contexto da educação
infantil ocorrem com a criança inúmeras situações de conflitos nas interações com seus pares,
entre os quais se destaca a agressão física, como aquela que gera maiores desafios na
convivência escolar. Algumas crianças reagem dessa forma, ora pra se defender de algo que
lhes incomoda, ora de maneira gratuita e inesperada, sendo essa última uma situação curiosa e
inquietante para a professora e para as demais profissionais da escola, que, de certa forma,
causa desconforto no processo de ensino-aprendizagem, visto que a princípio, essa criança
recebeu as mesmas orientações educativas que as demais de sua turma, além de intervenções
tão logo a situação apareceu, sendo que não se obteve resultados favoráveis à sua mudança de
comportamento.
Sendo assim, surgiu a necessidade de investigar esta temática, a fim de melhor
compreender os processos que causam inquietações e até sofrimento na docente frente aos
comportamentos das crianças de um Centro de Educação Infantil, localizado no bairro do
Recanto das Emas no Distrito Federal.
Objetivo Geral
Identificar os elementos que impulsionam os conflitos de socialização das crianças e
como isso afeta a prática docente de uma professora do Centro de Educação Infantil do bairro
Recanto das Emas, pertencente à Secretaria de Educação do Distrito Federal.
Objetivos Específicos
Verificar em que circunstâncias ocorrem os conflitos e em que medida eles interferem
na prática docente;
Identificar as intervenções da professora e da equipe de apoio na mediação desses
conflitos.
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Desenvolvimento
Concepções de desenvolvimento que embasam os processos educacionais
Oliveira (2002) evidencia as contribuições de Vigotski e de Wallon para a
compreensão do desenvolvimento infantil. A autora declara que Vigotski enfatiza a formação
do sujeito a partir das experiências sociais “apropriando-se da linguagem do seu grupo social”
(OLIVEIRA, 2002, p. 133) e. além disso, destaca que Wallon acreditava que a reciprocidade
entre o comportamento e o modo de vida da criança interagindo com o seu meio social são
aspectos que vão influenciar diretamente em seu desenvolvimento. Sabe-se que as práticas
familiares interferem diretamente na educação da criança que por sua vez se reflete no
ambiente escolar.
Para Vigotski (2007) o que nos torna humano é a apropriação da linguagem em todos
os seus aspectos, onde podemos construir nossa identidade através das vivências e
experiências por meio das interações com outros seres humanos.
Percebe-se que nas concepções de um número significativo de docentes as teorias
acima embasam suas práticas pedagógicas quanto ao desenvolvimento de seus educandos,
todavia com as inúmeras oportunidades de formação continuada, pode-se vislumbrar um
movimento reflexivo na classe docente, onde novas possibilidades surgem no horizonte com a
teoria histórico-cultural que vem lançar um novo olhar para o desenvolvimento da criança, a
construção do conhecimento e a formação desse sujeito histórico.
Em Vigotski (2007) fica evidente que a construção do conhecimento, se dá na troca
com outros indivíduos e com ela mesma. As vivências com o outro serão internalizadas
refletindo em seu comportamento e, juntamente com as práticas sociais, oportunizarão a
criação de novos conhecimentos e realimentarão a própria consciência. Porém a criança é um
sujeito ativo, produtor de cultura e não internaliza o meio tal qual é, mas entra em contato
com ele e o produz.
Cabe ressaltar que no interior das escolas de educação infantil percebe-se que ocorrem
poucos momentos de reflexão crítica dos professores entre o conhecimento teórico e a prática
pedagógica, sobre as concepções de desenvolvimento e aprendizagem, que levam em conta a
influência da cultura e as interações sociais que o sujeito vivencia. Apesar dos inúmeros
cursos de formação continuada que são ofertados aos docentes da Secretaria de Educação do
Distrito Federal nesta área, ainda assim é possível perceber que não é simples assim se
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desconstruir algo que há décadas está enraizado na concepção desse educador, que outrora
fora formado para acreditar nas teorias biológicas ou genéticas.
Todavia, há entre os docentes atuam na educação infantil um pequeno universo que
tem um entendimento favorável da teoria histórico-cultural e que o utiliza em sua práxis,
vislumbrando uma concepção de criança que está imersa nas interações culturais do seu meio
produzindo e absorvendo cultura, dessa forma, esse educador permeia em seu planejamento
elementos que favorecem uma pedagogia crítica, mediadora e construtiva do processo de
ensino e aprendizagem.
Sabe-se que há diferenças entre concepção de criança e de infância. Conforme alguns
autores como Cohn (2005) os conceitos de criança e de infância mostram-se naturais, porém
carregam inúmeras complexidades que precisam ser desvendadas. Além disso, ela evidencia
como diferentes culturas se relacionam com a criança, nos mostrando o quanto é frágil a nossa
percepção sobre esse universo, nos fazendo conhecer uma nova perspectiva antropológica
sobre esse assunto.
Para a autora é importante se compreender antes, o que significa o conceito de pessoa
humana para poder entender melhor o que vem a ser a definição de criança e o seu universo.
Cohn afirma que a antropologia da criança deve ter a competência de apreender as diferentes
maneiras de se entender o que é ser criança em diferentes culturas. Ressalta que “a criança
não sabe menos, ela sabe outra coisa”, importando assim, compreender como essa criança
elabora essa cultura dando um sentido a ela. Dessa forma Toren (1993 apud COHN, 2005)
afirma que isso significa que elas têm um jeito particular de externar o que o adulto já sabe.
No entanto é importante valorizar e compreender o ponto de vista da criança para entender
melhor como elas veem o mundo, como se percebem e como o adulto as vê.
No Brasil como no mundo o entendimento de infância está constituído há poucas
décadas, em decorrência dos avanços nas pesquisas sociais e biológicas que contemplam o
direito da criança como um ser pensante e criativo que merece todo o nosso respeito, pois se
trata de um ser humano como tal. Conforme Ariès (1986) com o advento das teorias do
desenvolvimento nos séculos XIX e XX começa a se pensar no conceito de criança, sendo que
no Brasil, inicia-se o processo da criação de creches e jardins de infância para atender a
necessidade das mães trabalhadoras que não tinham com quem deixar seus filhos enquanto
saíam para trabalhar. No entanto não se tinha uma concepção de educação formal para essas
crianças, o que ocorria de fato era só o cuidado com a higiene, alimentação devido a uma
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visão assistencialista por parte das autoridades vigentes. Então, inicia-se na década de oitenta
a compreensão do conceito de infância, no qual vê a criança como um ser de direitos
conforme está escrito na nossa Constituição de 1988, “assegurando-lhe o direito á vida,
alimentação, saúde, educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade, convivência
familiar e comunitária”. Ainda valorizando a infância a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(1996) infere em seu art. 29 que “A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem
como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade, em seus
aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da
comunidade”.
Nesse sentido considera-se que a criança em seu contexto social apresenta
peculiaridades próprias, externando seus pensamentos, emoções, desejos, criações e opiniões
conforme suas necessidades. Assim, há que se respeitá-la e criar espaços para que ela construa
diferentes vivências e experiências que venham a ser significativas para seu desenvolvimento.
A partir de então, para melhor entender seu desenvolvimento passaremos ao estudo dos
processos de socialização da criança.
Processos de Socialização na infância e agressividade no contexto escolar
É primordial para a condição humana que os indivíduos construam seus processos de
socialização, fundamentais para o fortalecimento dos grupos sociais e para o desenvolvimento
da sociedade, em meio á diversidade cultural, étnica, religiosa, de raça, gênero etc. Sendo
assim far-se-á necessário compreender o processo de socialização infantil.
De acordo com López (1995) a criança desde a mais tenra idade apresenta condições
para vivenciar o processo de socialização do qual fazem parte, “os valores, normas e formas
de agir do grupo social em que está inserida”. Sendo assim, esse processo se dá mediante a
interação da criança com seu ambiente social. Para o autor, o processo de socialização se
caracteriza pela interação entre os indivíduos pertencentes ao grupo social em que se está
inserido, sendo que a criança tem suas necessidades e irá se beneficiar desse processo
interativo, visto que ela produz e consome cultura, absorvendo os modos da cultura em que
está inserida e assim a sociedade se eterniza e constrói seu desenvolvimento. Sabe-se que a
família e a escola são instituições socializadoras, sendo que ambas apresentam aspectos e
valores típicos de sua alçada no tocante à socialização, que, no entanto, deve ser
complementar no que diz respeito à educação da criança.
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No seio familiar da criança são transmitidos valores, crenças e costumes que são
específicos da idiossincrasia dessa família, enquanto que na escola se constroem diferentes
saberes e conhecimentos, frutos da diversidade de seus agentes sociais, das vivências de seu
alunado e do conhecimento formal, além do contexto social em que se está inserido.
Segundo López (1995) existe basicamente três processos de socialização que a criança
dispõe para dar “sentido às inúmeras aquisições sociais que elas constroem” que são:
a) Processos mentais de socialização que visa à aquisição de conhecimentos,
valores, normas, costumes, pessoas, instituições, símbolos sociais, a linguagem, os
conhecimentos escolares, além de outras fontes de informação;
b) Processos afetivos de socialização, que são formas de vínculos que a criança
constrói com aqueles que são mais próximos dela, contribuindo para sua conduta
pró-social;
c) E por último os Processos condutuais de socialização que são a conformação
social da conduta da criança que requer o conhecimento dos valores, das normas,
hábitos sociais e do controle da sua própria conduta (LOPEZ, 1995, p.83).
De acordo com o mesmo autor, a partir do 3º ano de vida, a criança inicia a
compreensão dos valores e normas que orientam seu comportamento, conforme acreditam os
agentes sociais desse contexto onde vivem. A criança ao ingressar no ambiente escolar se
depara com um universo novo, diferente, cheio de pessoas que ela não conhece tanto os
adultos quanto as outras crianças, sendo que na escola há regras, normas, limites e figuras de
autoridade que não fazem parte do seu meio familiar, que a conduzirá a construir novas
experiências e vivências que podem ou não ser positivas para ela ou que lhe cause inúmeras
dúvidas, desconfiança quanto a essa fase de sua vida.
Nesse contexto a criança percebe que não é mais o centro da atenção, pois há outras
disputando o cuidado e atenção do docente. Há também uma ansiedade peculiar dessa faixa
etária em relação a ter que ficar longe da companhia da mãe ou da pessoa que é sua
referência, o que pode explicar comportamentos como: choro, medos, birras, apatia,
irritabilidade, agitação, gritos, mordidas, palavrões, brigas e agressões. O que pode ir
diminuindo e dando lugar à tranquilidade se diante de um ambiente de confiança, segurança,
carinho e respeito, de acordo com as estratégias afirmativas de acolhimento por parte daqueles
que atuam na escola. Todos esses aspectos podem ou não contribuir para um determinado
comportamento da criança e refletir na construção de suas interações com seus pares e com os
adultos. São eventos pertinentes da primeira infância, porém quando esses fatores citados
começam a ficar crônicos, há que se investigar tal situação para que essa criança possa
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receber ajuda a fim de superar esse quadro de sofrimento e para que o docente também se
beneficie de modo a melhor desenvolver seu trabalho.
Contudo, se a criança dentro do período de adaptação que cada escola estipula,
podendo ser duas semanas, um mês ou outro qualquer, superou suas angústias e medos por
meio das intervenções pedagógicas que contribuíram para a permanência e o sucesso dela na
escola, pode-se afirmar que esse quadro característico dessa fase é passageiro e logo será
superado.
No entanto, por outro lado se a professora perceber que não houve sucesso e a criança
permaneceu ou está mais agressiva, há que se entender como é o contexto familiar e escolar
em que ela está inserida para que possa encontrar as causas e ao mesmo tempo as soluções
necessárias para melhor conduzir esse processo.
O relato da professora é muito importante para que a escola invista na solução do
problema, pois de fato é uma tarefa de todos os envolvidos na educação dessa criança e, não
somente da docente. Se esse processo de socialização da criança está permeado de agressões
físicas, tanto aos seus pares quanto a docente deve-se ter um olhar sensível para esta causa,
porque esta criança está nos dizendo alguma coisa com esse comportamento.
Por outro lado, não se deve rotular a criança que por um motivo não conhecido faz uso
da agressão física, como uma pessoa que tem problema de conduta comportamental, visto que
em determinado momento ela está testando seus limites, força e inserção no grupo.
Quando agressão física é preocupante? A partir do momento que a criança dita
agressora a usa gratuita e indiscriminadamente como forma de afetar o outro. Agressão
consiste em “qualquer comportamento com intenção de ferir alguém física ou verbalmente”
(WEITEN, 2002 apud CANDREVA et. al., 2007, p. 387). Sendo assim, é possível que uma
criança de cinco anos possa ter esse entendimento, ou melhor, ter essa intencionalidade ao
agredir alguém?
Conforme os estudos da psicologia do desenvolvimento é possível perceber
comportamento agressivo na criança a partir dos dois anos de idade. Os estudiosos
caracterizam a agressão física de três formas:
a) agressão instrumental: é empregada para obter ou reter um brinquedo ou outro
objeto qualquer;
b) agressão reativa: é a retaliação raivosa em função de um ato intencional ou
acidental;
c) e por última a agressão ameaçadora: é gerada por um ataque de agressão
espontâneo (BERGER 2003 apud CANDREVA et. al, 2007, p 202).
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Em se tratando de criança em idade pré-escolar é compreensível o uso da agressão seja
física ou verbal na disputa de um brinquedo, de um espaço ou da atenção de alguém e até
mesmo uma reação mais raivosa em função de um esbarrão ou de uma fala ofensiva do outro.
No entanto, fica evidente que a escola e a família não devem se eximir da
responsabilidade de conduzir a criança a buscar novas formas de resolver conflitos, abolindo
então esse comportamento por meio de diálogo e de bons exemplos dados pelos adultos que
estão mais próximos dela.
Metodologia e instrumentos
Os instrumentos utilizados foram a entrevista com a professora; e 6 (seis) sessões de
observação no contexto da escola, cada uma com a duração de 60 (sessenta) minutos. Foi
utilizado o Diário de Campo para o registro das observações das situações de sala de aula e
dos demais contextos escolares (refeitório, parquinho, quadra, sala de vídeo, entrada animada
e saída as escola) durante as interações entre as crianças e a professora e todo o trabalho
docente. Algumas situações eventuais foram registradas por meio de gravações no celular. A
entrevista com a professora foi desenvolvida a partir de um roteiro previamente definido.
Posteriormente foi realizado um diálogo informal com a orientadora educacional a partir da
observação e dos problemas relatados pela professora.
A Gravação dos episódios interativos
A gravação dos episódios interativos entre as crianças foi realizada a partir de
situações de sala de aula e em outros espaços da escola, como o refeitório, local onde é
servido o lanche das crianças, durante 20 minutos, diariamente totalizando 1 hora. Outro
momento de observação ocorreu no parque de areia, por aproximadamente meia hora diária,
totalizando 1h e 30 minutos e na quadra onde ocorreram atividades dirigidas e outras
atividades livres, de acordo com a rotina de horário para uso desse espaço, totalizando 20
minutos. Todos esses momentos foram acompanhados pela pesquisadora in lócu e de toda a
dinâmica de sala de aula e demais espaços da escola, por onde as crianças circulam e
interagem com todos os envolvidos.
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Na observação das crianças o foco estava nas interações aluno-aluno, professora-aluno
acerca de como surgem os conflitos e de como a docente intervém. Além de verificar também
como os conflitos afetam a prática docente.
A Entrevista
Por meio deste instrumento procurou-se esclarecer como os episódios de agressões
físicas afetam sua prática, como são construídas as estratégias interventivas e que tipo de
apoio a orientadora educacional oferece à professora e aos alunos para auxiliar na solução do
problema. Assim, buscaram-se informações relacionadas ao histórico dos episódios que
envolvem os conflitos dessas duas crianças no ambiente escolar e os problemas que geraram
esses conflitos; que tipos de sentimentos são evocados na professora frente à situação; que
tipo de ajuda a escola oferece para as crianças e para a professora e que estratégias
interventivas foram adotadas pela professora para ajudar esses educandos.
Diálogo informal com a orientadora educacional
O objetivo dessa conversa foi buscar informações acerca das famílias das duas
crianças e conhecer as orientações e atividades desenvolvidas com as crianças quando são
atendidas pela orientadora.
Considerações finais ou conclusão
A pesquisa evidenciou que os conflitos parecem surgir em decorrência de situações
vivenciadas no ambiente familiar que vêm à tona no ambiente escolar, quando das interações
entre as crianças e diante das demandas apresentadas pela professora como: seguir regras,
combinados e condutas sociais desejadas em termos de relacionamento com os demais
colegas.
De acordo com o relato da professora, as situações de agressões físicas são as
principais causas de estresse na sala de aula, tanto para ela quanto para a turma e
principalmente para as crianças vitimas das agressões.
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Pergunta 1 “Como essa situação afeta sua prática pedagógica”?
Resposta: “(.....) “Afeta na metodologia de ensino...” (....) “Ao trabalhar os
conteúdos em sala”. (....) “Perde muito tempo para acalmá-los”. (....) “O trabalho
atrasa”. (....) “Todo o planejamento do dia não dá tempo pra fazer o trabalho que
eu gostaria que fosse”.
Pergunta 2: Que sentimentos esses episódios evocam em você e por quê?
Resposta: “(....) Me sinto impotente e as vezes até incapaz por não conseguir as
vezes controlar a turma, pois isso acaba me cansando psicologicamente”. “(...) Eu
gostaria muito que a família se envolvesse nesse processo junto comigo”.
(Informação obtida da observação ou da entrevista)
Para López (1995) atores sociais como: pais, irmãos, amigos, avós, professores e
algumas instituições, como a escola, além das mídias de massa, dos livros, brinquedos dentre
outros, têm papel preponderante no processo de socialização da criança, daí a grande
responsabilidade desses agentes de construírem modelos saudáveis cujas referências
favoreçam ao bom desenvolvimento psíquico e social da criança.
Conforme Vigostski (2007) o processo de construção de conhecimento da criança se
dá em meio às interações sociais que ocorrem no contexto no qual ela está inserida,
apropriando-se do objeto da cultura por meio da vivência com os mais experientes como os
adultos e com seus pares.
Se o processo de socialização da criança depende dos fatores acima citados,
principalmente da família, qualquer que seja a sua constituição, sendo a primeira referencia
para a criança, como será possível uma criança se desenvolver segura em um ambiente em
que os adultos negligenciam suas necessidades básicas? Este se constitui num importante
ponto de reflexão quando da formação dos professores ou mesmo quando da elaboração do
seu planejamento.
Pois quando López (1995) afirma que a socialização da criança é transmitida pela
sociedade através da aquisição de costumes, normas, valores, pelo saber e comportamentos
que também são exigidos da criança, foi possível perceber que o contexto familiar das
crianças investigadas se perdeu na transmissão dos valores universais como autoridade,
respeito, limites, afeto, condutas socialmente desejáveis, vínculos afetivos frágeis com os pais
nos primeiros três anos de vida, pois de acordo com o relato dos familiares foi nesse período
que a turbulência foi maior para todos os envolvidos.
Por outro lado deve-se respeitar todo esforço feito por aqueles profissionais que
receberam as crianças na escola, pois a princípio agiram de acordo com suas referências
sociais e com o intuito de beneficiar seu processo educativo procuraram fortalecer a
continuidade do trabalho de parceria da escola com essas famílias e elaborar atividades
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pedagógicas pertinentes a essa demanda quando da elaboração de seu planejamento e na
prática docente.
Diante dos fatos percebeu-se que ainda é precoce vislumbrar resultados positivos na
mudança de comportamento das crianças em tão pouco tempo, após as intervenções da
professora e do Serviço de Orientação Educacional, visto que será um processo contínuo e em
longo prazo para que ocorram as primeiras transformações significativas no contexto familiar
e escolar. Estes conhecimentos podem agregar um novo olhar que venha a contribuir para a
ressignificação de conceitos acerca desse tema e para reorientar a prática dos professores,
favorecendo o trabalho docente e o desenvolvimento global de crianças com essas
características.
REFERÊNCIAS
ARIÉS, P. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ª ed. Rio de
Janeiro: Guanabara, 1986.
BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil, 1988.
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CANDREVA, Thábata. et al. Jogo e emoções: implicações nas aulas de Educação Física
Escolar. Rio Claro: Motriz, , v.13 n.2 p.128-136, abr./jun.2007.
COHN, Clarice. Antropologia da criança. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LÓPEZ, Félix. Desenvolvimento Social e da Personalidade. In: COLL, Palacios; Marchesi, A.
Desenvolvimento Psicológico e Educação. Vol.II. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
OLIVEIRA, Zilma Ramos de. Educação Infantil: Fundamentos e Métodos. 7ª ed. São Paulo:
Cortez, 2002.
VIGOTSKI, Lev Semionovich. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes,
2007.
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prática docente e crianças com desafios de socialização na