VERSÃO HIPERBÓLICA DO TEOREMA DAS PARALELAS: UMA INICIAÇÃO AO ESTUDO DO MODELO DO SEMIPLANO BECK, Vinicius Carvalho1; 1 Licenciado em Matemática - UFPEL Mestrando em Meteorologia - UFPEL [email protected] INTRODUÇÃO O objetivo deste trabalho é apresentar uma demonstração da versão hiperbólica do Teorema das Paralelas euclidiano, o qual afirma que dado uma reta e um ponto fora dela, existe uma única reta que passa pelo ponto dado paralela a reta dada. Na Geometria Hiperbólica, pelo ponto dado passam infinitas retas paralelas a reta dada. Na verdade, o Teorema das Paralelas é um resultado que caracteriza a Geometria Hiperbólica, construída aqui com base no Modelo do Semiplano, que utiliza um subconjunto do plano complexo para deduzir as proposições, e por se tratar de uma construção euclidiana, a consistência do modelo recai na consistência da Geometria Euclidiana. Definição (semiplano superior): Chamamos de semiplano superior o conjunto Noções (ponto e ângulo): As noções de ponto e ângulo adotadas no modelo do semiplano são exatamente as mesmas noções de ponto e ângulo no plano complexo. Definição (conjunto ): Chamaremos de conjunto o conjunto formado por todas as retas euclidianas perpendiculares ao eixo dos números reais, o qual por abuso de linguagem, denotaremos por . Definição (conjunto ): Chamaremos de todos os círculos com centro em algum ponto do eixo o conjunto formado por . Definição (reta hiperbólica): Chama-se reta hiperbólica qualquer elemento que pertença a . Teorema (Determinação de Retas Hiperbólicas): Dois pontos distintos , determinam uma única reta hiperbólica que passa por eles. Demonstração: Existem dois a considerar. Primeiramente, vamos considerar . Como as partes reais de e são idênticas, então existe uma única reta euclidiana que passa por eles, e esta reta é perpendicular ao eixo . Assim, a reta hiperbólica passa por e e é única, pois a reta euclidiana utilizada em sua construção é única. Suponha agora que . Os pontos e determinam uma única reta euclidiana que passa por eles, digamos . No entanto, como , não é perpendicular a . Tomemos a mediatriz de , a qual denotaremos por . A mediatriz corta o eixo em algum ponto, digamos . Agora vamos considerar o círculo euclidiano , com centro em e raio . Como , então , e portanto, . Assim, é uma reta hiperbólica que passa por e e é única, pois o círculo euclidiano utilizado na sua construção é único. CQD O teorema apresentado mostra que, analogamente ao que acontece na Geometria Euclidiana, dois pontos também determinam uma única reta na Geometria Hiperbólica, apesar de a noção de reta hiperbólica ser bastante distinta da noção de reta euclidiana. Definição (retas hiperbólicas paralelas): Duas retas hiperbólicas são ditas paralelas se os conjuntos que as definem são disjuntos. Teorema (Teorema das Paralelas Hiperbólico): Por um ponto hiperbólico fora de uma reta hiperbólica , passam infinitas retas hiperbólicas paralelas à . Demonstração: Vamos considerar dois casos. Primeiro, suponha que esteja contida numa reta euclidiana . Neste caso, existe uma reta euclidiana paralela a que contém o ponto . Assim, a reta hiperbólica é disjunta da reta hiperbólica , e portanto, e são paralelas. Para construir outra reta hiperbólica que passa por e é paralela a , tomemos um ponto entre e . Como , então existe um círculo euclidiano centrado em que passa por e . Assim, a reta hiperbólica é paralela a e passa por . Como existem infinitos pontos entre e , logo, pelo mesmo processo podemos construir infinitas retas hiperbólicas paralelas a que passam por . Suponha agora esteja contida em um círculo euclidiano . Neste caso, começamos considerando o círculo euclidiano concêntrico a que passa por . Vamos denotar tal círculo por . Assim, a reta hiperbólica é paralela a e passa por . Para construir outra reta hiperbólica paralela a e passando por , iniciamos por tomar um ponto situado entre e . Em seguida, consideramos o círculo euclidiano com centro em que passa por e , o qual existe pelo fato de que . Assim, é uma reta hiperbólica disjunta de , e portanto, e são paralelas e passa por . Como existem infinitos pontos em entre e , logo, existem infinitas retas hiperbólicas paralelas a que passam por completa a demonstração. que podem ser construídas da mesma forma. Isto CQD O teorema demonstrado neste trabalho é de grande importância na Geometria Hiperbólica, pois a partir dele são demonstrados muitos resultados bastante distintos daqueles apresentados na Geometria Euclidiana, como por exemplo ““Retângulos não existem”, “A soma dos ângulos internos de qualquer triângulo é menor do que 180º”, “Todos os triângulos semelhantes são congruentes”, dentre outros. O modelo do semiplano permite demonstrar o Teorema das Paralelas Hiperbólico em linguagem simples, pois os argumentos utilizados são de natureza euclidiana. REFERÊNCIAS [1] ANDRADE, Plácido Francisco de Assis. De Euclides a Poincaré. Notas do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE, 2007. Disponível em http://www.mat.ufc.br/gmat/livros/euclides.pdf [2] BARBOSA, João Lucas. Geometria Hiperbólica. Instituto de Matemática Pura e Aplicada, Rio de Janeiro, 2003. Disponível em http://www.essentiaeditora.iff.edu.br/index.php/vertices/article/viewFile/53/4 1 [3] MOREIRA, Ana Cláudia da Silva. Geometrias sob a Axiomática de Hilbert. Universidade Estadual de Campinas, 2006. Disponível em http://www.ime.unicamp.br/~eliane/ma241/trabalhos/sobhilbert.pdf [4] PANSONATO, Claudia C.; BINOTTO, Rosane. Isometrias do Plano Hiperbólico. Publicações do 1º Colóquio de Matemática da Região Sul, Santa Maria – RS, 2010. [5] von FLASH, Rodrigo Aguiar. A Geometria Hiperbólica e o Disco de Poincaré: A Consistência dos Axiomas Hiperbólicos e uma versão do Teorema de Pitágoras. Monografia de Graduação, Instituto de Matemática da Universidade Federal da Bahia, Salvador-BA, 2009. Disponível em http://www.colmat.ufba.br/monografias/Monografia_Rodrigo_von_Flach_2009_2.pd f