Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas 27 e 28 de setembro de 2011 ISSN 1982-0178 ASPECTOS CLÍNICOS E TEÓRICOS DO MÉTODO DE TRATAMENTO PSICANALÍTICO DO ESTUDO DO CASO DORA Marina Raeli Dias Merheb Leopoldo Fulgencio Faculdade de Psicologia Centro de Ciências da Vida [email protected] O Método de Tratamento Psicanalítico Centro de Ciências da Vida [email protected] Resumo: A presente pesquisa refere-se a um estudo sobre o método de tratamento psicanalítico considerando a história de vida do paciente, antes e depois do tratamento, buscando avaliar a eficácia do tratamento feito por Freud. Ao analisar o caso clínico como um exemplar procura-se também colocar em evidência o conjunto de problemas e soluções comentadas por Freud, explicitando: os aspectos que caracterizam o setting psicanalítico, os que caracterizam o tratamento psicanalítico, bem como, os problemas específicos (clínicos e teóricos) que esse caso clínico coloca em evidência. Os resultados esperados visam explicitar qual é o sentido, a natureza e a função da narrativa do caso clínico em psicanálise, colocando em evidência quais são os problemas teóricos e práticos iluminados pelo caso Dora, em específico, a questão do conflito psíquico e da transferência. Espera-se comprovar, com base nestas evidências, que o objetivo da apresentação dos casos clínicos é mostrar exemplarmente como um determinado problema é formulado e resolvido, seguindo a diretiva dada por Freud: “Ora, eu penso que o médico não assume somente deveres em relação a cada um de seus pacientes, mas também em relação à ciência. Em relação à ciência, não quer dizer, no fundo, outra coisa senão em relação aos numerosos doentes que sofrem ou sofrerão um dia da mesma coisa” [1]. Palavras-chave: Dora, conflito psíquico, transferência Área do Conhecimento: Psicologia – Tratamento e prevenção Psicológica - FAPIC. 1. OBJETIVO Nesta pesquisa pretendeu-se realizar um estudo sobre como Freud tratava de seus pacientes, tomando como objeto de análise o caso descrito e denominado por ele como caso Dora. Trata-se de colocar em evidência os parâmetros básicos do método de tratamento psicanalítico (determinações inconscientes, importância da sexualidade e do complexo de Édipo para a etiologia das neuroses, transferência e resistência); tanto para mostrar como Freud trabalhava em termos doe estabelecimento do setting analítico, neutralidade e tipos de interpretação ou intervenção, quanto para comentar qual a concepção de saúde e dos objetivos do tratamento psicanalítico. Este tipo de análise considerará, necessariamente, a história do paciente antes e depois do tratamento realizado por Freud, buscando explicitar que efeitos teriam sido produzidos pelo tratamento analítico. 2. METODOLOGIA Tratando-se de uma pesquisa teórica, seu método consiste em fazer uma análise estrutural, textual e conceitual do material bibliográfico estabelecido (textos de Freud e de comentadores dedicados ao caso Dora), seguindo o método hermenêutico de interpretação e leitura, no qual cada parte da obra deverá ser interpretada e analisada em função da compreensão geral em jogo, bem como este todo deverá ser iluminado pelo estudo de suas partes. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3.1. Introdução Como próprio de toda atividade cientifica, formular problemas exige uma relação com constructos teórica a fim de eleger e explicar o fenômeno apontado como o problema empírico daquela disciplina cientifica. O referencial teórico de um saber científico orienta a enunciação e a resolução de um problema, ou seja, toda enunciação e toda resolução depende de uma teoria. Na presente pesquisa, se propõe a estudar o conjunto de problemas empíricos apresentado por um caso clínico da psicanálise, a saber, o caso Dora [1]. Com objetivo de apresentar como Freud enuncia e encaminha suas soluções, bem como coloca em evidência alguns temas e problemas fundamentais para o método de tratamento psicanalítico, a saber, a transferência, a resistência e a etiologia sexual das neuroses. Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas 27 e 28 de setembro de 2011 ISSN 1982-0178 3.2. A psicanálise de Freud Freud [2], além de definir a psicanálise como sendo uma ciência natural, ao mesmo tempo, também a define como um procedimento de pesquisa (dos processos psíquicos inconscientes), um método de tratamento e um corpo de conhecimentos que caracterizam uma ciência construída a partir deste método . Essa definição procura delimitar seu campo de ação e seus objetivos. Por isso, Freud ao longo de sua obra sempre buscou especificar e limitar o campo de ação da psicanálise, bem como especificar quais os seus fundamentos e pilares de sua teoria e as técnicas fundamentais para o tratamento psicanalítico, a fim de esclarecer e nortear quem e o que pertence ao rol da psicanálise, fortalecendo, assim, sua disciplina como uma ciência. Afinal, sabe-se que toda disciplina cientifica se orienta para eleger os fenômenos que serão por ela observados e estudados, no intuito de delimitar e esclarecer seu próprio campo do saber, com o objetivo último de agir sobre eles. Freud apresenta, em diversos momentos de sua obra, uma descrição sucinta sobre quais são os conceitos fundamentais que caracterizam a teoria: “Os Pilares da Teoria Psicanalítica - A hipótese de processos anímicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e da repressão [Verdrängung], o valor dado à sexualidade e ao complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria e quem não está em condições de subscrever todos eles, não deveria se contar entre os psicanalistas” ([2], grifo meu). Segundo Fulgencio, o próprio Freud específica quais seriam os xiboletes da psicanálise, termo cujo significado diz respeito à “prova decisiva que faz julgar a capacidade de uma pessoa” de pertencer a um grupo (cf. Fulgencio [3]). Fulgencio retoma o uso desse termo para organizar e explicitar quais seriam parâmetros conceituais básicos que norteiam toda a pesquisa psicanalítica. Desta organização, Fulgencio [3] aponta como xiboletes da psicanálise: a divisão do psiquismo em consciente e inconsciente, a teoria dos sonhos, a sexualidade infantil e principalmente, o Complexo de Édipo. Há mais duas experiências fundamentais do tratamento clínico que são definidas por Fulgencio também como xiboletes, pela relevância que Freud atribui a elas em sua disciplina, a saber, a transferência e a resistência. O conjunto de xiboletes supracitados tem como intuito firmar os contornos do campo psicanalítico e delimitar sua prática. Além dos xiboletes, a psicanálise também pode ser compreendida através de outras conceitualizações que Freud especificou em sua obra e que revelam aspectos importantes sobre sua disciplina, tais como, quais doenças são passíveis de serem trata- das pela psicanálise, o que visa o tratamento psicanalítico, ou seja, o que se entende como cura, bem como, quais são as principais características do método de tratamento. 3.3. O paradigma de Freud Thomas Kuhn [4], filósofo e epistemólogo da ciência, ao caracterizar o que é uma ciência, a define como uma prática de resolução de problemas empíricos. Para o autor, cada ciência madura tem um paradigma (conjunto de crenças compartilhadas) que torna possível delimitar um determinado campo de problemas, bem como caracterizar o tipo de solução a ser procurada. De acordo com Kuhn [4], um dos elementos essenciais que constituem uma ciência seria a existência de um paradigma. Nesta linha, cada paradigma é composto por uma série de aspectos, são eles: um exemplar, ou seja, um problema básico a partir do qual todos os outros problemas daquele paradigma são pensados; uma teoria geral guia, que se aplique a todos os casos; um modelo ontológico ou metafísico, que serve de base para a observação, seleção e sistematização dos fenômenos observados; um modelo heurístico, que fornece os modelos e analogias aceitos e comumente válidos neste campo; e um conjunto de valores teóricos e práticos, que definem que tipo de pesquisa deve ser realizada naquele determinado campo. Sob essa perspectiva, a psicanálise de Freud pode ser analisada como sendo um paradigma (cf. [5,6 e 7]), uma ciência cujo objetivo, em última instância, é a resolução de problemas empíricos. Mais ainda, o seu método de tratamento pode ser analisado em termos da maneira como se formulam os problemas clínicos, bem como procura a sua solução. À luz das concepções de Kuhn sobre ciência e dos aspectos que ele dita sobre o que todo paradigma cientifico possui, Loparic [6] é um dos principais autores que realiza nesses termos uma leitura sobre a psicanálise freudiana. Procedendo assim, Loparic estipula definições, a partir dos principais aspectos que definem a psicanálise, do que seria o paradigma freudiano. Ele afirma que a generalização-guia central do paradigma freudiano seria a teoria da sexualidade, os aspectos de seu desenvolvimento (a ativação progressiva das zonas erógenas) e as possíveis fixações [6]. Como modelo ontológico desse paradigma, ele designa as idéias que Freud atribui ao aparelho psíquico e seu funcionamento, dinâmico e estrutural, assim como toda teoria voltada as forças psíquicas determinadas por leis causais. Loparic [6] afirma que a metodologia desse paradigma é centrada na “interpretação do material transferencial à luz do complexo de Édipo ou de regressões Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas 27 e 28 de setembro de 2011 ISSN 1982-0178 aos pontos de fixação” e que seus valores epistemológicos básicos advêm das ciências naturais, tal como ocorre nas explicações causais da teoria e “o valor prático principal é a eliminação do sofrimento decorrente dos conflitos internos pulsionais, do tipo libidinal.” Define também, como matriz disciplinar, a matriz sexual, pois sabe-se que os fenômenos da psicanálise são buscados através dos conteúdos vividos na infância, principalmente os que tangem a sexualidade. Define, por fim, como já enunciado nessa pesquisa, a importância do complexo de Édipo para a psicanálise freudiana, em que todos os problemas de que ela trata devem passar pela análise daquele, que é estipulando como o problema base da teoria. Por essa razão, Loparic [6] declara que o paradigma de Freud deve então, ser nomeado como paradigma edípico ou triangular. 3.4. O caso clínico como exemplar Freud aponta para a principal relevância dos casos clínicos: “Ora, eu penso que o médico não assume somente deveres em relação a cada um de seus pacientes, mas também em relação à ciência. Em relação à ciência, não quer dizer, no fundo, outra coisa senão em relação aos numerosos doentes que sofrem ou sofrerão um dia da mesma coisa [1].” Freud preocupa-se com o compromisso de propagar e ensinar conhecimentos adquiridos na experiência de casos clínicos. Nesse sentido, o caso clínico apresenta-se como um exemplo de como formular problemas e solucioná-los, o que parece de acordo com o conceito de exemplar de Kuhn. Afinal, é no relato do caso clínico que o psicanalista destaca os principais fatos clínicos, apontando-os como fenômenos e, assim, tornando possível elaborar e enunciar os problemas que devem ser solucionados. O psicanalista, por fim, acaba por revelar as resoluções tomadas e seus possíveis êxitos, ensinando e demonstrando quais problemas que a psicanálise, enquanto ciência, pode solucionar e como faz para solucioná-los. 3.5. O caso Dora Dora, esse foi o nome que Freud elegeu para proteger a identidade de Ida Bauer, sua paciente, que teve seu processo clínico publicado como Fragmento da análise de um caso de histeria [1]. Esse relato do tratamento clínico inaugura o que seriam os cinco casos clínicos clássicos de Freud e estipula também uma nova ordem de produção científica dentro da psicanálise: a dos relatos dos casos clínicos. O relato do caso Dora é dividido em quatro partes: as notas introdutórias, o relato do primeiro sonho, o relato do segundo sonho e o posfácio. Em „Notas introdutó- rias‟, Freud descreve como conheceu a família de Dora, características importantes sobre seu círculo familiar e o início do tratamento - que para ele começava com a descrição da história da paciente tal como da evolução de seus sintomas feita por um parente próximo, que no caso Dora fora seu pai. A segunda parte trata-se do conjunto de análises e interpretações reunidas acerca do relato do primeiro sonho e a terceira é relativa ao relato e análises do segundo sonho. Freud reúne suas análises em torno desses dois sonhos e demonstra, assim, como a técnica de interpretação é importante para desvelar os desejos inconscientes infantis em torno do tema da sexualidade e de seu desenvolvimento. Dessa forma, Freud pôde detectar características psicopatológicas no desenvolvimento da paciente. Por fim, a quarta parte refere-se ao posfácio, onde Freud reúne explicações e justificativas para a incompletude de uma série de análises sobre Dora e comenta a interrupção repentina do tratamento por parte desta. Ele descreve seu fracasso por não compreender o que estaria evidente na relação com Dora e define um conceito que já havia se mostrado em outros textos, mas que nunca fora esclarecido e definido de forma rigorosa: a transferência. O caso Dora é apresentado por Freud como um caso de “petite hystérie”, devido ao fato de Dora não apresentar os sintomas mais graves da histeria. Os sintomas apareciam e desapareciam sem explicação, o que fez com que Ida duvidasse das competências médicas do psicanalista. Quando Ida é levada por seu pai para se consultar com Freud, em outubro de 1900, Philipp apresenta queixas de que sua filha estava com idéias confusas e sintomas de desânimo e irritabilidade, além de se utilizar de ameaças manipuladoras de suicídio. Tudo porque Ida exigia, contundentemente, que o pai se afastasse do casal de vizinhos e, em especial, cortasse relações com a Sra K. Philipp discordava em realizar a vontade da filha, pois argumentava sobre o sentimento de amizade e profunda gratidão à amiga Sra K, que lhe forneceu atenção e cuidados durante o período que sofrera com a tuberculose. Esses comportamentos de Ida eram conseqüentes a um evento ocorrido há mais ou menos dois anos e envolvia o casal Zellenka, a saber, a „cena do lago‟ em que o amigo de seu pai assedia mais uma vez Dora com propostas amorosas. Sob análise, Ida revela a Freud que seu pai só prefere não concordar com ela porque mantém uma relação amorosa em segredo com a Sra K. e não pretende se indispor com o Sr. K. Ela mesma sugere a compreensão de que a situação simbolizaria um „pacto‟ entre os homens e ela, Ida, seria a moeda de troca por seu pai ficar com a mulher do Sr. K. - o que causava em Ida, Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas 27 e 28 de setembro de 2011 ISSN 1982-0178 apesar da ternura que sentia pelo pai, muita fúria por ser utilizada dessa forma. É a partir desses eventos qe Freud começa a realizar suas interpretações, porém, o relato do caso não traz todas as confirmações que Freud gostaria de obter sobre as suas hipóteses, já que o tratamento foi interrompido antes do tempo previsto, de forma abrupta, por Ida, para a surpresa de Freud. Mesmo o caso sendo considerado por Freud como incompleto e reconhecido por ele como insuficiente para a apreciação de todas as suas interpretações, ele se torna um dos casos célebres e de maior relevância para a comunidade psicanalítica por trazer conceitos importantes. 3.6. Questões centrais abordadas por Freud no caso Dora Há três problemas centrais que podemos encontrar no caso Dora: a importância da sexualidade na etiologia das neuroses; a resistência, que, além de constituir uma dificuldade para o tratamento também se relaciona com conteúdos inconscientes conflituosos; e a transferência, um processo importante existente em toda análise e que deve ser interpretado e revelado ao paciente. Esses três pilares centrais também caracterizam o método de tratamento disponível à psicanálise na época em voga. No caso Dora, Freud entende que a histeria é causada principalmente por trauma psíquico de ordem sexual. Assim, ele tenta encontrar através das recordações de Dora, e das interpretações dos relatos de alguns de seus, sonhos algo que evidenciasse um trauma psíquico, numa época específica, quando Dura possuía por volta dos oito anos de idade, época em que seus sintomas histéricos começaram a aparecer. Portanto, Freud já admite, no caso, a idéia de um desenvolvimento sexual infantil, que é de suma importância no desenvolvimento da organização sexual adulta. o problema da resistência é abordado por Freud desde o início do tratamento, sendo que, à época Freud dispunha da tática de recorrer a uma anamnese realizada por um familiar ou por alguém próximo ao paciente, que conhecesse bem os detalhes de sua vida e do desvelamento de sua doença. Freud também se utilizava da técnica de interpretação dos sonhos para ultrapassar as resistências do paciente, uma vez que em sua “Interpretação dos sonhos”, Freud já postulava que os sonhos eram um dos caminhos mais seguros para a compreensão da dinâmica psíquica e dos desejos inconscientes do paciente. Uma das consequências da resistência foi a interrupção do tratamento de Dora, o que possibilitou a Freud, posteriormente, inaugurar de forma mais sistemática o conceito de transferência. Isso porque, em primeiro lugar, Freud percebe que seu fracasso clínico, que a- carretou no abandono, por parte da paciente, de seu tratamento, deve-se ao fato de não ter conseguido “dominar a tempo a transferência” ([1] p. 113), sem ser capaz, portanto, de identificar de maneira correta o estabelecimento de seu fenômeno e manejá-lo de maneira satisfatória, uma vez que a transferência é uma “exigência indispensável” [1] para o sucesso do tratamento. 3.7. O método de tratamento no caso Dora Freud já se utiliza das associações livres, premissa fundamental da clínica psicanalítica, e da técnica de interpretações dos sonhos como via principal para a investigação das manifestações inconscientes. Freud interpreta a associação livre do paciente e devolve essa interpretação imediatamente para ele, a fim de fazer surgir os efeitos da análise. À respeito da eficácia desse método de tratamento, torna-se difícil avaliá-la devido à sua interrupção prematura. Como Freud aponta, ele previa o reestabelecimento de Dora após um ano de tratamento e essa interrupção, então, impediu que a cura fosse alcançada. Para avaliação da eficácia do tratamento, através de suas consequências durante o período do tratamento, Freud adverte: “é certo que os sintomas não desaparecem enquanto o trabalho prossegue, e sim, algum tempo depois [1]”. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa, portanto, procurou realizar uma leitura que enquadrasse o caso Dora como um exemplar válido de uma teoria cientifica, investigando, a partir de exemplar teórico, conceitos mais abrangentes, de forma a validar a concepção kuhniana de que toda ciência se utiliza de exemplares para ensinar e divulgar à sua comunidade cientifica uma forma de enunciar e resolver problemas. Portanto, no caso da presente pesquisa, evidenciou-se que os problemas centrais do caso Dora podem beneficiar tanto na compreensão do método de tratamento psicanalítico, quanto na orientação e compreensão de certos conceitos fundamentais da psicanálise - expostos aqui com seus xiboletes. Sobretudo, o caso clínico tal como Freud se refere a ele, tem como compromisso cientifico ensinar a tratar enfermo e avançar na teoria e nas formas de prática clinica. Os problemas centrais apresentados no caso Dora, o papel da sexualidade na etiologia das neuroses, a resistência e a transferências referem-se a conceitos inacabados que irão ser elaborados ao longo de quase toda a obra psicanalítica, pois estão em constante reformulação. Observemos por exemplo que a noção de transferência é elabora por diversos textos psicanalí- Anais do XVI Encontro de Iniciação Científica e I Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da PUC-Campinas 27 e 28 de setembro de 2011 ISSN 1982-0178 ticos, e na psicanálise, mesmo após Freud, continua ganhando novas delimitações. O caso Dora trouxe muitas contribuições para o desenvolvimento da teoria psicanalítica, apresentou noções sobre a sexualidade que seriam publicadas em seguida, em Três ensaios sobre a sexualidade [8], tal como noções sobre a sexualidade infantil polimorfa e a bissexualidade inata do ser humano, além de compreensões à respeito da etiologia das neuroses. Esses conceitos, portanto, continuam a ser aprimorados a fim de dar conta do máximo de fenômenos clínicos e manifestações clínicas de que a psicanálise trata. O recorte do caso clínico realizado no presente estudo - que admite uma leitura do caso clínico como um exemplar do paradigma psicanalítico - auxilia em uma das possíveis compreensões dos objetivos do caso clínico, pois, dessa forma, é possível elucidar seus problemas centrais, o método de tratamento e a fundamentação teórica da qual o caso clínico é tratado. Isso faz com que seja possível compreender melhor as funções que Freud quis exercer com o relato do caso clínico. REFERÊNCIAS [1] Freud, S. (1905e). Fragment d’une analyse d’hystérie. In Sigmund Freud. Oeuvres complètes. (OCF.P) (Vol. 6). Paris: PUF [2] Freud, S. (1923a). Psychanalyse e Théorie de la libido. In Sigmund Freud. Oeuvres complètes. (OCF.P) (Vol. 16). Paris: PUF. [3] Fulgencio, L. 2008. O método especulativo em Freud. São Paulo: EDUC.. [4] Kuhn, T. S. (1970). A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975. [5] Loparic, Z. (2001). Esboço do paradigma winnicottiano. Cadernos de história e filosofia da ciência, 11(2), 7-58. [6] Loparic, Z. (2006). De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança paradigmática. Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, 8 (Especial 1), 2147. [7] Fulgencio, L. (2007). Paradigmas na história da psicanálise. Revista de Filosofia e Psicanálise Natureza Humana, 9(1), 97-128. [8] Freud, S. (1905d). Três ensaios sobre a sexualidade. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago.