444 ARTIGOS O Édipo freudiano: o pai e a ficção Freud’s Oedipus: the father and the fiction Cristina Moreira Marcos Resumo: A resposta freudiana ao Pater incertus é a fabricação de uma ficção fundada no mito. O Édipo é a figura mediadora que enraíza a descoberta freudiana no mito. Como Freud o introduz, qual a sua necessidade e quais as consequências deste recurso à tragédia para a teoria e para a clínica, tais são as questões colocadas neste artigo. O recurso à tragédia de Sófocles e sua utilização teórica permitem o abandono da teoria do trauma de sedução e o surgimento da noção de verdade como uma estrutura de ficção. Para teorizar o que está em jogo na função do pai na experiência analítica é necessário introduzir o mito. É este discurso que permite a Freud abandonar o pai do trauma pelo pai do parricídio e introduzir a ficção no campo da Psicanálise, em detrimento do evento real. Palavras-chave: pai, Édipo, ficção. Abstract: The Freudian answer to the Pater Incertus is the construction of a fiction, based on a myth. Oedipus is the mediating character that roots the Freudian discovery on the myth. This paper deals with the way Freud builds this theory, the reason and the consequences of his use of tragedy to the theory and to the therapeutical practice. The use of Sophocles' tragedy and his use theory allows the abandonment of the seduction theory of trauma and the emergence of the concept of truth as a structure of fiction. To theorize what is at stake in the parent function in the analytic experience is necessary to introduce the myth. It is this discourse that allows Freud abandon the father of trauma by the father of parricide and enter the fictional field of psychoanalysis, rather than the actual event. Key-words: father, Oedipus, fiction. Psicanalista, Docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Minas, Membro da Coordenação do curso de especialização em Clínica Psicanalítica na Atualidade IEC/PUC-Minas, Doutora em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris 7. Rua Paschoal Carlos Magno, 68. Bairro: Ouro Preto. Belo Horizonte/MG. 31310510. Tel. (31)3498 4182/ (31)9163 4073. [email protected] http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 445 I O romance familiar A reposta freudiana ao Pater incertus é a construção de uma ficção fundada no mito. O Édipo é a figura mediadora que enraíza a descoberta freudiana no mito. Como Freud o introduz, qual a sua necessidade e quais as consequências deste recurso à tragédia para a teoria e para a clínica, tais são as questões colocadas neste artigo. Pode-se dizer que o uso da ficção para elaborar a teoria do pai é análogo ao uso da ficção pela criança no romance familiar? Tal como a criança, que constrói seu romance na busca de sua origem, Freud precisou construir seus mitos para fundar uma origem? Tanto nas narrativas da criança quanto nos mitos freudianos, o pai ocupa um lugar central. Freud nos indica a estreita relação entre o pai e a ficção, em um texto no qual se trata das elaborações fictícias da criança acerca da sua origem, Le Roman familial des névrosés (FREUD, 1909/1973). Uma questão nos acompanha ao longo da leitura deste texto: Por que a criança é levada a reescrever sua história em uma narrativa recompondo todos os elementos de sua vida em uma outra ordem diferente da realidade? Trata-se do esforço da criança em desvendar os enigmas que a rodeam, sua origem, sua relação com o sexual, a relação de seu pai com seu nascimento e seu lugar nas gerações. O romance familiar é uma narrativa construída para responder aos enigmas da origem, no centro dos quais "Édipo e a Esfinge", do pintor francês Jean-Auguste Dominique Ingres se encontra o enigma do pai. Diríamos que o romance familiar é uma tentativa de responder às questões sobre a origem, o nascimento, o lugar e a função do pai através da construção de uma narrativa fictícia. No romance, a criança torna-se narrador e herói de sua própria história; transformando os elementos, ela inaugura uma nova origem através da ficção. Quando a criança descobre que pater semper incertus, enquanto a mãe é certissima, o romance sofre uma modificação, a criança sabe que ela vem da mãe e começa a colocar em dúvida a relação do pai com seu nascimento, imaginando a mãe em situações de infidelidade. Para concluir, Freud afirma que todas estas ficções não são nem hostis, nem más, mas elas encobrem o carinho original da criança por seus pais, dando aos substitutos os traços e características dos pais verdadeiros. O esforço em substituir os pais revela a nostalgia dos tempos felizes em que eles eram os melhores. “Ele se afasta do pai, tal como o conhece agora, para voltarse para aquele pai em quem confiava, nos primeiros anos de sua infância, e sua fantasia não outra coisa senão a expressão do lamento de ver desaparecido este tempo feliz.” (FREUD, 1909/1973, p. 160) http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 446 No romance familiar, trata-se de um esforço da criança em responder ao enigma do sexo e da origem, de modo que a resposta encontrada inclua a criança ela mesma. A narrativa formulada a ajuda a responder à questão do seu lugar na história, a se situar em relação às gerações e à diferença entre os sexos, a partir de uma elaboração ficcional. Verifica-se que, ao final destas elaborações, as dúvidas que permanecem são aquelas acerca do pai, sua relação com o nascimento e sua função. Trata-se de dar uma resposta à abstração da paternidade, de se construir uma origem. A narrativa constrói uma nova origem ficcional para a história da criança, ao mesmo tempo que a leva ao mundo do intelecto, da razão, do pensamento, ao invés de permanecer no mundo da sensação e da sensualidade da mãe. II Do acontecimento à ficção A dúvida sobre o pai encontra, no romance familiar, uma tentativa de resposta ao enigma. Freud, por sua vez, se apoia sobre o mito na busca de uma resposta ao enigma do pai e, a partir da tragédia de Sófocles, traça o núcleo de sua teoria das neuroses, em um movimento que lhe permite abandonar a teoria da sedução em prol da fantasia. No momento em que ele se encontra diante de um limite da teoria, o mito surge como solução possível. Freud se apropria do mito, discurso recalcado da racionalidade científica, situando-o no centro de sua elaboração do saber. Em um primeiro momento, Freud entende como verdadeira a cena da sedução contada pelas histéricas. De fato, este evento traumático lhe fornece o elemento no qual apoiar sua teoria psíquica centrada no trauma e no recalque e, neste sentido, constitui a revelação da lembrança esquecida como objetivo da Psicanálise. Portanto, o pai como sedutor lhe serve como uma luva, daí sua resistência em abandoná-lo. Segundo Michel Silvestre, “o apoio do pai impõe-se a Freud por dar conta da irrupção do desejo no mundo do sujeito” (SILVESTRE, 1993). É o pai quem tem por função abrir, ao sujeito, as portas do desejo. À questão: "de onde vem o desejo?", Freud pode responder a partir do pai, na medida em que, na teoria da sedução, ele incarna o desejo, daí seu efeito traumático. Inicialmente, Freud busca descobrir graças à interpretação – decifração do sintoma e das outras formações do inconsciente – o trauma recalcado. No momento em que ele deve abandonar sua primeira teoria substituindo o trauma pela fantasia, a verdade surge como estrutura de ficção. A partir daí, o evento pertence ao registro da fantasia, de tal modo que ele se transforma em uma suposição, uma construção, não mais da ordem da exatidão, mas da ordem da verdade. O abandono do pai sedutor como trauma da neurose introduz, na Psicanálise, a verdade como efeito, possuindo uma estrutura de ficção. Não que o pai tenha perdido seu lugar na teoria: se ele desaparece como pai sedutor, ele retorna ao centro do complexo de Édipo como aquele que detém a chave da sua entrada e da sua saída. A função do pai torna-se, assim, estrutural, e o pai permanece como aquele que presta contas da irrupção do desejo no sujeito. No Édipo, é o pai que ocupa o primeiro plano da cena, ele está no centro da intriga, é ele quem introduz a Lei da proibição do incesto, marcando a entrada do sujeito no mundo da cultura, é ele quem designa a mãe como objeto do desejo através da sua interdição. A dissolução do complexo não determina o fim da influência do pai na estruturação psíquica, mas sua introjeção no sujeito com o nascimento do supereu. Complexo nuclear da neurose, o Édipo é percebido por Freud como a estrutura que organiza o desejo humano em torno da diferença entre os sexos e as gerações. Le père dans cette structure est l'élément qui embraye, c'est-à-dire, qui met en communication les pièces et la machine. Instalado no centro do Édipo, o pai permite o seu acesso e sua saída. Designar o que deve ser desejado, a mãe, e mantê-la como objeto desejável através da sua interdição, ser o apoio das http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 447 identificações, garantir a diferença entre os sexos e das gerações, tais são os elementos em jogo no Édipo, cujo elemento central é o pai. A primeira referência que Freud faz ao Édipo encontra-se em La Naissance de la psychanalyse (FREUD, 1895/1986), precisamente em uma carta a Fliess, na qual ele confessa seus sentimentos incestuosos em relação à sua mãe e sua hostilidade em relação ao seu pai, postulando a hipótese de seu caráter universal. É interessante notar que, alguns meses antes, Freud havia contado a seu amigo um de seus sonhos, no qual se revelava um sentimento carinhoso em relação à sua filha Matilde, que ele interpreta como a realização de seu desejo de ver confirmada a sua hipótese do pai como promotor da neurose. A existência dos sentimentos incestuosos também neste sonho não é mencionada na carta. No texto inaugural da Psicanálise, L'Interprétation des rêves (FREUD, 1900/1971), Freud afirma a existência de um desejo incestuoso e assassino presente no indivíduo. Entretanto, o complexo de Édipo deverá esperar longo tempo para ser formalizado como um conceito essencial à teoria das neuroses e indissociável do complexo de castração. Em L'Interprétation des rêves, Freud refere-se à tragédia de Sófocles, depois de haver constatado a importância dos pais na vida do indivíduo e afirma a existência de um sentimento afetuoso por um e do ódio pelo outro. “A antiguidade nos deixou, para confirmar esta descoberta, uma lenda cujo sucesso completo e universal só pode ser compreendido se admitimos a existência universal de tendências semelhantes na alma da criança. Quero falar da lenda do Édipo Rei e do drama de Sófocles. ” (FREUD, 1900/1971, p.227). Para Freud, se o Édipo nos comove, não é pelo contraste entre a vontade dos deuses e a dos homens, mas devido ao material utilizado para ilustrar este conflito; seu destino nos comove porque poderia ter sido o nosso. À época do nosso nascimento, o oráculo pronunciou contra nós a mesma maldição, a existência de impulsos sexuais em relação à mãe e do ódio em relação ao pai. Matando o pai e casando com sua mãe, Édipo realiza nosso mais secreto desejo da infância. Esta realização do desejo nos assusta porque, ao contrátio de Édipo, nós conseguimos desviar da nossa mãe nossos desejos sexuais e esquecer nosso ódio por nosso pai. A confirmação da existência deste drama na alma humana é clara para Freud: os sonhos são as testemunhas desses desejos. No próprio texto de Sófocles, Freud localiza uma referência aos sonhos que atesta a existência desses desejos: Jocasta consola Édipo, inquieto devido ao oráculo, lembrando-lhe que todos os homens já tiveram um sonho parecido que, segundo ela, não possuem nenhuma significação. Jocaste: Fará sentido o padecer humano, se o Acaso impera e a previsão é incerta? Melhor viver ao léu, tal qual se pode. Não te amedronte o enlace com tua mãe pois muitos já dormiram com a mãe em sonhos. Quem um fato assim iguala a nada faz sua vida bem mais fácil. (VIEIRA, 2009, p.84) Freud pensa que o mito de Édipo origina-se de sonhos arcaicos e assinala que o sonho do incesto é a chave da tragédia e o complemento do sonho da morte do pai. Os sonhos, via régia do inconsciente, conduzem assim ao Édipo. Apoaindo-se sobre o mito, para dizer aquilo que o romance das histéricas já exprimia, Freud acrescenta um novo elemento que atenua o dizer de suas pacientes, substituindo o pai perverso pelo pai morto. O Édipo permite a Freud tomar uma distância em relação ao discurso das histéricas, de modo que ele consegue se livrar da teoria da sedução. A tese da perversidade de todos os pais, útil mas também impossível de se sustentar, pode enfim ser abandonada. Através do Édipo, o campo da Psicanálise modifica-se, o mito surge no lugar do trauma, a ficção no lugar do acontecimento, a verdade no lugar da certeza, o pai morto no lugar do pai perverso. Não se trata mais de um evento http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 448 real, mas sim de uma construção, a substituição do pai perverso pelo pai morto modifica o que está em jogo na direção do tratamento. III Freud e o texto Longe de fechar a questão do pai, o mito do Édipo não faz nada além de propô-la. Qual é o pai que se desenha na tragédia de Sófocles ? A resposta mais evidente, ao menos a de Freud, é o pai do parricídio. O pai freudiano coincide com o pai do parricídio, mesmo que as relações de paternidade e de filiação na tragédia não se reduzam ao pai morto. As diversas figuras do pai circulam na peça, mudando de lugar e revelando, a cada movimento, uma nova função. Mesmo que Freud tenha localizado em Laios o pai por excelência e que, a partir deste personagem, ele tenha construído sua teoria, as outras figuras paternas não são desprovidas de importância na peça. Podemos dicernir ao menos três figuras do pai na tragédia de Sófocles: Édipo, enquanto rei; Políbio, enquanto pai adotivo, e Laios, enquanto pai assassinado. Como afirma Jean Bollack, em L’Œdipe-roi de Sophocles : les textes et les interprétations (1991), no início da peça, Édipo é representado como um rei-pai que se dirige a seus filhos, a seus protegidos, para salvá-los. Aliás, isto já havia acontecido na cena da Esfinge. O modo como ele se dirige aos tebanos revela como sua função de pai é absolutamente ligada a sua função como salvador. Dito de outro modo, ele é pai na medida em que permanece como salvador do seu povo, sem isto, ele perde sua posição de soberano. A entrada em cena, no início da peça, do personagem principal é acompanhada de um sinal da relação (“criança”) que caracteriza o papel do rei-pai (v.1). Ao mesmo tempo, ele se desenvolver como um símbolo: Édipo vem a seus protegidos (“por isso eu vim”, v.7, ver o final, v.1527), como o salvador “aparece àqueles que salva”. (BOLLACK, 1991, p.2) A soberania de Édipo é colocada à prova pela crise que atravessa a cidade. Se ele não permanece como salvador, ele é condenado a cair. (BOLLACK, 1991, p. 15) Uma relação singular se estabelece entre Édipo e Tirésias. Na medida em que não está sob o poder de Édipo, Tirésias não se identifica ao povo e não se dirige ao rei-pai como a um salvador. Detentor de um saber que escapa ao rei e situado do lado dos deuses, o adivinho se dirige ao homem Édipo, não ao soberano, "Desde suas primeiras palavras, o adivinho manifesta uma resistência e um descontentamento surdos. Tirésias fala enquanto homem de Deus para Édipo, não para o rei, que se espanta, pelo seu destino individual que ele recusa identificar com aquele da cidade ." (BOLLACK, 1991, p.204.) Embora Tirésias não ocupe o lugar do pai, ele é aquele que sabe a verdade. Trata-se, na sua relação com Édipo, de uma posição bem particular. Édipo dirige-se a Tirésias como seu último recurso: para saber que ele é o assassino, é necessário colocar a questão aos deuses e assim concluir sua ação. Ora, Édipo permanece na sua posição de rei quando se dirige ao advinho, entretanto Tirésias representa um saber que lhe escapa. Tão hábil na arte de decifrar enigmas, Édipo é incapaz de alcançar a verdade do incesto e do parricídio. O rei o deixa dizer, porque, fechado em seu papel, ele pensa que o insulto é um estratagema destinado a esconder um jogo de conspiração, o adivinho fala para nada (v.365). Tirésias, levado ao extremo, falará agora que pretende-se não escutá-lo, impondo a palavra, como há pouco o seu silêncio. Ele revela o incesto como o cúmulto de todos os seus feitos (v.366s.), sem que Édipo pudesse, nesse momento, compreender alguma coisa, não escutando nada além do insulto e surdo ao conteúdo. (BOLLACK, 1991, p. 220) http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 449 É Édipo quem tem a tarefa de salvar seu povo, entretanto, o saber que o torna capaz de fazêlo está nas mãos de Tirésias. A outra figura do pai mais evidente na peça é Políbio, o pai adotivo. Bollack afirma que o par Políbio-Édipo exibe a relação pai-filho como uma filiação fictícia. Não que ele tenha sido enganado por sua esposa, Políbio sabe que ele é um pai adotivo, entretanto, ele encobre esta verdade e assegura Édipo quando este lhe interroga acerca da sua origem. Neste caso, o pai é representado como um lugar que se funda sobre uma construção fictícia. Um homem ébrio, já muito alto, num festim chamou-me filho putativo. Muito abalado, a duras penas, eu me contive esse dia. Alvoreceu. Interroguei meus pais. Sentido o ultraje, reagiram contra quem o pronunciara. Deixaram-me feliz, mas logo aquilo voltou-me a atormentar, e sempre mais. (VIEIRA, 2009, p. 75) A partir daí a inquietude assola Édipo – "que eu sou um falso filho de meu pai". O deus interrogado não lhe fornece a resposta procurada, mas suas predições provocam a fuga de Édipo, persuadido de que elas se aplicavam a Políbio e a Mérope. A questão sobre a filiação é então deixada de lado. Fui em sigilo a Delfos, de onde - flâmeo Foibos, sem dar-me o prêmio da resposta, me despediu, mas num lampejo, disse-me o que previa: miséria, dor, desastre. Faria sexo com minha própria mãe, gerando prole horrível de se ver; seria algoz do meu progenitor. (VIEIRA, 2009, p. 76) O horror do oráculo faz de Políbio e de Mérope seus verdadeiros pais e coloca fim a uma interrogação sobre sua identidade. A resposta do deus liga a relação parental ao futuro e não ao passado, ela depende de uma conduta e não de uma origem. "(…) sua origem está no que tu farás, eu não digo pai, mas vítima, eu não digo mãe, mas esposa". (BOLLACK, 1991, p. 479) Ora, para Freud, não há dúvida, o pai na tragédia é Laios. E quem é ele? É o pai morto, pelo filho, mas é necessário precisar, sem que o assassino o saiba. Aliás, o assassino é aquele que possuía um outro pai do qual buscou se afastar a fim de evitar o parricídio. Toda a narrativa se desenvolve de modo que o assassinato seja considerado como uma legítima defesa, Édipo foi vítima de uma ofensiva à qual devia responder. A narrativa, vemos, se organiza de modo a mostrar que Édipo foi vítima de uma ofensa à qual era natural responder, (sem que seja necessário lhe atribuir um caráter iracível), e que ele foi conduzido a atingir o mestre após ter sido inicialmente atingido por ele, dando-lhe assim a ofensiva pela ofensiva e infringindo-lhe um castigo que ultrapassava, em muito nas suas consequências, o mal que o outro havia podido lhe fazer. (BOLLACK, 1991, p. 196) Laios não é nada além de um nome para Édipo, que acredita nunca tê-lo visto. Ele só é situado como pai a partir do assassinato. Através deste ato, Édipo situa-se ao lado do pai, será o rei em seu lugar e será aquele que deve reparar o crime. Mesmo se Édipo torna-se rei por ter triunfado em desvendar o enigma da Esfinge e não pelo assassinato, é o assassinato que faz dele o vingador de Laios, como um filho teria feito para honrar o pai. “Não é por pais distantes, por Laios, que ele luta; ele é ele mesmo concernido pela sujeira. Pois o assassinato, qualquer que seja ele, lhe fará http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 450 pagar por seu crime, se ele não o castiga. Os interesses de Laios são então os seus.” (BOLLACK, 1991, p. 73) Laios é um pai que não se sabe pai, ele não é assassinado enquanto pai. É somente a partir da descoberta do assassinato que ele é representado enquanto tal. A definição do pai é então aquele que foi assassinado pelo filho, como o havia dito o deus, a relação de paternidade e filiação é definida pelo ato, ela não está dada de início, mas é construída a partir do ato. Embora o pai freudiano seja evidente na peça, Laios é o pai do parricído, a tragédia coloca em cena múltiplas questões sobre o que é um pai – uma relação fictícia, uma adoção, um morto, um nome. O par pai-filho exibe uma relação fundada sobre a construção, sobre a crença na palavra. O recurso à tragédia de Sófocles não somente permitiu a Freud fundar uma nova teoria do pai, a teoria do parricídio, mas também inaugurar uma nova versão do Édipo. É importante observar que Freud faz poucas referências à tragédia ela mesma: algumas páginas na L'Interprétation des rêves (FREUD, 1900/1971), em uma conferência na Introduction à la psychanalyse (FREUD, 1916-1917/1947) e no Abrégé de psychanalyse (FREUD, 1940 [1938]/1985), os dois últimos tendo um caráter essencialmente pedagógico, a fim de apresentar as descobertas fundamentais da Psicanálise. Freud apropria-se do mito sofocliano em um movimento de distorção e de apagamento, executando o assassinato do texto que surge deformado e descolado em um novo lugar, o texto freudiano. Para construir um mito para si, com sua própria língua, impõe-se a necessidade de matar o texto, seu autor e sua tradição. Dito de outro modo, trata-se de matar o pai. Escrever o texto é inventar o pai; escrever seu assassinato é realizá-lo. “O ato que faz traço pela escritura é rejeição do fundador.” (CERTEAU, 1975, p.333) Sonho de Freud, como o disse Lacan, a versão freudiana do Édipo submete a tragédia a todo um trabalho de deformação, de deslocamento e de condensação. Não escapa a uma leitura atenta o fato de que o texto de Sófocles aparece no texto freudiano deformado. Em “L'Interprétation des rêves” Francis Bacon - Oedipus and the Sphinx (after Ingres), 1983 (FREUD, 1900/1971), o comentário concernente ao Édipo é precedido de um resumo da peça que, como é frequente neste casos, apresenta-a de outro modo. Omissões e inexatidões marcam a narrativa freudiana da tragédia: não há uma palavra sobre o suicídio de Jocasta ou sobre a Esfinge, uma referência a um conselho inexistente que o oráculo teria dado a Édipo de se afastar da sua pátria, a substituição de Creonte por mensageiros no início da peça. Sem falar na negligência completa da construção da trama e da narrativa, de todas as reviravoltas e de todos os desenvolvimentos absolutamente essenciais a Édipo-Rei. http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 451 É notável que Freud não tenha se consagrado a um trabalho sobre o texto sofocliano ele mesmo. Este é objeto de substituições e transformações, através das quais Freud pode destacar os dois crimes primordiais da humanidade, o incesto e o parricídio. Se o Complexo de Édipo é um sonho de Freud, Édipo-Rei seria como um resto diurno, o elemento a partir do qual o trabalho do sonho pode ser feito, e que, consequentemente, só pode surgir deformado. Aliás, se o sonho é a realização de um desejo recalcado, o desejo realizado neste sonho de Freud não seria a construção da teoria psicanalítica? A deformação do texto de Sófocles operada por Freud nos interessa particularmente na medida em que, assim procedendo, Freud tem que se haver com uma tradição deslocada. Não pensamos que Freud tenha se identificado a Sófocles elaborando na sua teoria analítica o que o outro construiu na tragédia. A relação entre os dois é menos uma identificação a um autor clássico que lhe fornece os fundamentos de suas hipóteses do que uma superação tal como Freud postula entre pai e filho. Sófocles é, por assim dizer, uma espécie de pai intelectual que se trata de matar e comer e, assim, transformá-lo. O pai como progresso da civilização, como uma sublimação, deriva do pai entendido não somente como um homem que está no lugar do pai real, como Jacob o é para Freud, mas também como uma rede simbólica, como toda uma herança – textos, livros, autores, tradições, leituras – que é preciso fazer sua para ultrapassá-la. Se Freud localiza Laios na peça como o pai morto, assassinado pelo filho, ele nada diz sobre a relação entre Laios e seu próprio pai. Na tragédia grega, Laios é um filho sem pai, órfão desde sua infância. Obrigado a fugir, ele encontra refúgio ao lado do rei Pelopes, que o acolhe como a um filho. Como seu pai, Édipo é também um filho sem pai que sofre de um constante não pertencimento. Como Laios poderia ter transmitido a paternidade? (BALMARY, 1979) O crime também está presente na história de Laios que, tendo se apaixonado por Crisípio, filho de Pelopes, rapta-o e o violenta. Por vergonha, Crisípo comete suicídio, e Pelopes lança sobre Laios uma maldição que diz respeito à paternidade: tu não terás descendência. O estupro do jovem Crisípo é seguido de uma segunda falta, a violação do interdito de não engendrar, e, em uma tentativa de anular o ato do engendramento, a terceira falta é cometida, expor o recémnascido à morte. Negado pelo próprio pai, Édipo é sem nome e sem origem, o único traço de seu pertencimento é uma marca no corpo, os pés transpassados, sinais da morte à qual ele foi exposto. Desconhecido e rejeitado, ele concluirá inversamente o ato fracasso de seu pai. Como encontrar o lugar do filho fora do lugar do pai? É a paternidade que é posta em questão. Criança sem lugar, Édipo não compreende a lógica simbólica da relação pai-filho, nem a distância entre o pai e o genitor, de tal modo que a questão “De quem eu nasci?” permanece sem resposta. Se Políbio o chama de filho, é porque houve um outro pai que o havia abandonado. A diferença entre o genitor e o pai permanece para Édipo como um enigma. Do mesmo modo, Laios não pode se dizer pai de ninguém e Políbio não se encontra em seu verdadeiro lugar. Podemos pensar que Freud desconhecia estas versões do mito e por isto ele não procedeu a uma leitura da falta cometida por Laios e do seu lugar na tragédia. Entretanto isto importa pouco na medida em que ele não está interessado em uma interpretação rigorosa do mito, mas em sua apropriação para construir sua própria versão do Édipo. Na realidade, esta atitude de Freud corrobora com nossa leitura: o mito é o discurso que torna possível a teoria, e é em relação a ela, e não à tragédia, que ele deve ser compreendido. Freud não procede a uma interpretação do Édipo. Na verdade, ele afirma que este mito era supostamente tão transparente que não demandava uma decifração. De fato, é sua versão do mito que pede para ser interpretada, tal qual o conteúdo manifesto de um sonho do qual o conteúdo http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 452 latente será desenvolvido em “Totem e tabu”, no qual se trata da transformação do pai morto em símbolo mais poderoso do que ele saberia sê-lo em vida. A questão da transmissão entre as gerações, a relação entre a paternidade e a filiação, a falta do pai e do filho já estão presentes na versão freudiana do Édipo, e Freud fará a construção de uma outra versão do pai, “Totem e tabu”, para abordá-las. Segunda referência literária no texto freudiano, “Hamlet” exibe o drama de outro modo. Os desejos e as fantasias permanecem recalcados, embora sejam sentidos pelo efeito de inibição que eles desencadeiam, como nos neuróticos; ao passo que em “Édipo-Rei”, eles se realizam, mesmo se o autor do crime não o sabe. O tema do parricídio está massivamente presente também em L’interprétation des rêves, obra marcada pela morte do pai de Freud. No prefácio à segunda edição, Freud confessa que este livro era um pedaço da sua autoanálise. Para mim, este livro tem uma outra significação, uma significação subjetiva que eu compreendi somente quando a obra havia terminado. Eu compreendi que ele era uma parte da minha autoanálise, minha reação à morte de meu pai, o acontecimento mais importante, a perda mais sentida na vida de um homem. Tendo descoberto que era assim, eu não me senti mais capaz de apagar os traços desta influência. (FREUD, 1900/1971, p. 9) Vemos, nesta obra, como ele está implicado em seu texto, fazendo dos seus próprios sonhos a matéria de seu livro. O medo de Freud de ter dado um passo para além do campo da ciência está atrelado ao modo como o lugar singular da produção do texto, sua enunciação, se faz presente na obra, visto que o material a partir do qual ele escreve constituía-se, entre outros, de seus próprios sonhos. Eu me esforcei em expor, neste volume, a interpretação do sonho. Assim procedendo, eu não creio ter saído do domínio da neurologia. (...) A publicação desta obra tornou-se difícil em função do material tão particular do qual ela tratava. (...) Para comunicar meus próprios sonhos, era necessário me resignar a expor aos olhos de todos mais da minha vida privada do que o que me convinha e que não se pede a um autor que não é poeta, mas homem de ciência. Esta necessidade penível era inevitável. (FREUD, 1900/1971, p. 13) Este comentário de Freud revela, efetivamente, uma ultrapassagem do campo da ciência. Freud não poderia ter feito de outro modo: para falar do que estava em jogo na experiência psicanalítica, neste caso sua autoanálise, era necessário afastar-se dos métodos tradicionais da ciência. Freud não propõe o Édipo como uma explicação com a qual todo sujeito deve se conformar, mas como um mito, dito de outro modo, como uma estrutura que busca dizer o real, que busca responder ao limite do saber com o qual Freud se vê confrontado. O pai freudiano tem a tarefa de transmitir ao sujeito a verdade da castração. O recurso à tragédia de Sófocles e sua utilização teórica permitem o abandono da teoria do trauma de sedução e o surgimento da noção de verdade como uma estrutura de ficção. A introdução do Édipo na Psicanálise modifica seu campo: do trauma ao mito, da certeza à verdade, a direção do tratamento é modificada e a função do pai, deslocada. O evento traumático buscado pela interpretação é substituído por uma construção, e o pai, antes significado como lugar da encarnação do desejo, é, a partir daí, aquele que abre a via do desejo para o sujeito. A partir do Édipo, é a dimensão da ficção que faz sua entrada na Psicanálise. Os sonhos, os mitos, os romances, têm valor teórico na medida em que eles comportam uma parte de verdade da http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 453 experiência do tratamento que não poderia ser dita de outro modo. O discurso científico, incapaz de dizer o que se passa nesta experiência, deve aceitar em seu seio os discursos recalcados, para poder dizer a experiência analítica. Deste modo, a forma tomada pela teoria é indissociável de seu conteúdo. A questão do pai na Psicanálise exige uma formalização fundada no mito e na ficção para fazer avançar a teoria. Dito de outro modo, para teorizar o que está em jogo na função do pai na experiência analítica, é necessário introduzir o mito. É este discurso que permite a Freud abandonar o pai do trauma pelo pai do parricídio e introduzir a ficção no campo da Psicanálise, em detrimento do evento real. Ele poderia tê-lo feito de outro modo? Certamente não. Anos mais tarde, Freud construirá seu próprio mito, “Totem e tabu”, para falar do pai. Ainda é preciso dizer que, utilizando o mito como resposta ao limite do saber, a Psicanálise o ultrapassa, na medida em que ela introduz aí o inconsciente, este ponto de fuga do saber. Ora, o Édipo coloca em evidência o reconhecimento do saber inconsciente, modifica a função paterna e a direção do tratamento. IV Considerações Finais O caráter incerto e enigmático do pai, deixando sua marca nas hipóteses e teorias, sempre acompanhou Freud, e seu esforço parece ter sido o de perseguir este enigma. O pai freudiano traz em si uma dimensão de ficção, resultado de um trabalho de escrita e de fabricação textual que se aproxima da literatura. Por que utilizar o mito e a literatura para construir um saber que não é de ordem literária? De fato, Freud (FREUD, 1900/1971) faz referência à Psicanálise como uma ficção teórica em L’Interprétarion des rêves e afirma a similitude entre os estudos sobre a histeria e os romances, mas ele sempre buscou situar sua teoria no domínio da ciência. Entretanto, os relatos de caso, combinação da descrição dos sintomas e da história do sofrimento dos pacientes, convidam-nos a supor uma relação com a literatura, hipótese reforçada pelos sentimentos confessados de Freud. Desde o início, vemos como a ficção, o romance e o mito impõem-se à teoria analítica, dos relatos de casos ao ensaio sobre Moisés. Freud está completamente implicado em seu texto, ele revela suas dúvidas, suas angústias, suas hesitações. Michel de Certeau (CERTEAU, 1987) define a ficção como um texto que declara sua relação com o lugar singular de sua produção. Ora, os textos freudianos são a exibição do lugar mesmo onde o saber se constitui; longe de negá-lo, o texto o revela. Efetivamente, podemos dizer que a Psicanálise articula-se sobre o retorno do recalcado, de tal modo que ela substitui o discurso objetivo por um discurso que toma forma de ficção. “Trazendo o indivíduo ao que, do outro (do inconsciente) o determina sem que ele o saiba, a Psicanálise traz o sonho e o mito para o primeiro plano. Estes discursos excluídos pela razão tornam-se o lugar onde se elabora a teoria.” (CERTEAU, 1987, p. 116-117) Segundo Certeau, a ficção e o mito são o que torna pensável a teoria. Situando o recalcamento em seu centro, é a partir do recalcado da razão que a teoria será elaborada. No discurso freudiano, a ficção retorna na seriedade científica, enquanto objeto da Psicanálise e enquanto forma. Evidentemente, isto comporta um paradoxo: de um lado, a teoria avança a partir do recalcado do discurso científico e, de outro, ela deve encontrar seu lugar na ciência. Ao mesmo tempo em que Freud quer fundar uma disciplina científica, ele tende em direção à ficção. Ele permanece assim fiel à descoberta do inconsciente, na medida em que é a partir de uma perda do saber que a Psicanálise pode avançar. No limite da teoria, introduzido pelo sofrimento do outro, Freud responde com um saber que situa, em seu centro, o não saber. http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 454 Freud sustenta seu discurso não através de uma autoridade científica, mas por “um retorno ao literário que lhe retira a seriedade”: é uma perda de saber. Segundo Certeau (CERTEAU, 1987), a escrita freudiana faz o que ela diz: a partir do inconsciente, descoberta de um saber que se subtrai à consciência, o caminho para a elaboração da teoria é aberto por uma perda do saber. O autor acrescenta que, se a seriedade científica parece faltar no texto freudiano, isto vem de uma “tomada a sério do funcionamento dialogal próprio ao tratamento”. Uma parte muito rigorosa da teoria psicanalítica deve-se à confissão da surpresa de Freud diante do que os pacientes lhe traziam. A maneira como Freud escuta as histéricas modifica sua escrita, de tal modo que a pura descrição dos fenômenos patológicos não é suficiente. A descrição dos quadros mórbidos não é capaz de dizer o que se passa no espaço da direção do tratamento. Algo lhe escapa, e é a partir deste ponto de fuga do saber que a narrativa e o texto vão fazer sua aparição na teoria para ocupar aí um lugar central. O romance psicanalítico, se podemos dizer assim, revela a relação da teoria com seus limites. Não se trata de um simples recurso retórico, mas de uma necessidade da teoria diante de seus limites. A escrita, sua forma e seu estilo tornam-se, não só parte importante da teoria psicanalítica, mas aquilo a partir de que a teoria pode responder a seus impasses e limites. Esta ideia de um limite próprio ao saber que torna necessária a intervenção do mito já está presente nos diálogos de Platão (IPPERCIEL, 1998), nos quais o mito surge no momento em que é necessário lidar com uma hiância no saber. A originalidade da Psicanálise consiste em ter feito deste ponto de fuga o fundamento mesmo de seu saber, o saber inconsciente. De fato, o inconsciente permite radicalizar o que o mito e a literatura introduzem, esta ideia de um saber que não se sabe, de um ponto de não saber interno ao saber, autorizando a fazer dele o nó em torno do qual o saber se organiza. O mito e o recurso à literatura têm, em Psicanálise, menos uma função de esclarecimento persuasivo do que de uma necessidade interna da teoria. Eles não vêm simplesmente confirmar resultados e hipóteses, mas impõem-se como o que faz avançar a teoria, como o que permite abandonar a teoria do trauma em prol da teoria da fantasia, deixando aberta a via de formulação do complexo de Édipo e, consequentemente, do complexo de castração. O Édipo constitui-se, assim, como uma figura mediadora que enraiza a descoberta freudiana no mito. A referência a Sófocles tem função de autoridade para Freud, mesmo se ele já constatou suas hipóteses nas histéricas ou nos relatos de sonhos. Não somente a tragédia é esta figura de validação e de garantia de sua teoria como ela será o passo mais fundamental para abandonar a teoria da sedução e para fazer avançar a Psicanálise. Dirigindo-se a estes discursos, Freud faz face ao não saber, ao mesmo tempo em que coloca no centro da elaboração do saber o saber inconsciente. Se todas as versões freudianas do pai falam do desejo e da lei, do caráter ambíguo e duplo do pai, se todas elas se baseiam no mito, elas não poderiam reduzir-se a ele. A teoria freudiana do pai ultrapassa o mito. Suas versões não são a ler como mitos, elas fundam um saber. O Édipo não se reduz a um mito, ele o ultrapassa, funcionando como uma estrutura a partir da qual o desejo se organiza na medida em que ele é efeito da relação do sujeito com a linguagem. Sem o inconsciente, o Édipo se resumiria a um simples mito. Ora, não podemos pensar o Édipo distante do conceito do inconsciente. A teoria freudiana do pai tem suas raízes no mito, desde a velha história do Édipo, o desejo pela mãe e o ódio contra o pai, passando pela fundação da cultura a partir do assassinato do pai em “Totem e tabu”, até o romance histórico concebido em Moisés. O Édipo apresenta-se como o discurso que torna possível o progresso da teoria confrontada a seus impasses, de modo que ele se constitui como a resposta de Freud aos limites encontrados em sua prática clínica. Para dizer as palavras das histéricas, o discurso científico não é mais suficiente. O mito e a literatura, discursos recalcados da racionalidade científica, fazem-se necessários. Menos do que uma explicação ou uma ilustração do que se passa na experiência analítica ou do que a teoria constrói, o Édipo é a forma discursiva que permite passar do pai sedutor ao pai do http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf 455 parricídio, que desloca o campo psicanalítico da exatidão à verdade e que permite à ficção retornar na seriedade da teoria, tanto como conteúdo quanto como forma. REFERÊNCIAS BALMARY, M. L'homme aux statues. Freud et la faute cachée du père. Paris : Grasset, 1979. BOLLACK, J. L'Edipe roi de Sophocle : les textes et ses interprétations, Vol. 1, Lille: PUF, 1991. CERTEAU, M. L’écriture de l’histoire. Paris : Gallimard, 1975. FREUD, S. (1986). Paris: PUF. (1895) La naissance de la psychanalyse. (1900) L'interprétation des rêves.(1909) "Le roman familial des névrosés". In: Névrose, psychose et perversion. (1940 [1938]) Abrégé de psychanalyse. ________. (1997) Paris: Petite Bibliothèque Payot. (1912-1913) Totem et tabou. (1916-1917) Introduction à la psychanalyse. IPPERCIEL, D. La vérité du mythe. Revue Philosophique du Louvain. v. 2, n. 96, 1998. SILVESTRE, M. Demain la psychanalyse, Paris: Seuil, 1993. VIERIA, T. Édipo Rei de Sófocles. São Paulo: Perspectiva, 2009. Recebido em : 07 de outubro de 2010 Aprovado em : 11 de dezembro de 2010 http://www.uva.br/trivium/edicao1-dez-2010/artigos/1-o-edipo-freudiano-o-pai-e-a-ficcao.pdf