UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA Paula Cristina Estival de Lara O MANEJO DA TRANSFERÊNCIA NA CLÍNICA DE ADOLESCENTES. Curitiba 2010 Paula Cristina Estival de Lara O MANEJO DA TRANSFERÊNCIA NA CLÍNICA DE ADOLESCENTES. Monografia apresentada ao curso de Pós Graduação em Psicologia Clínica – abordagem psicanalítica - da Universidade Tuiuti do Paraná, como requisito parcial à obtenção do título de especialista. Orientadora: Prof.ª Ângela Mara Silva Valore. Curitiba 2010 TERMO DE APROVAÇÃO Paula Cristina Estival de Lara O MANEJO DA TRANSFERÊNCIA NA CLÍNICA DE ADOLESCENTES Esta monografia foi julgada e aprovada para obtenção do título de Especialista em Psicologia Clínica – Abordagem Psicanalítica, no curso de pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade Tuiuti do Paraná. _____________________________________________ Profª. Ângela Mara Silva Valore Universidade Tuiuti do Paraná - UTP _______________________________________________ Prof. Dr. Jorge Sesarino Universidade Tuiuti do Paraná – UTP Curitiba, outubro de 2010 Aos adolescentes, que com seu modo de trilhar a vida, continuam a me inquietar e questionar, minha experiência clínica. enriquecendo AGRADECIMENTOS Especialmente à professora e orientadora Ângela Mara Silva Valore por sua disponibilidade de horários, dedicação, e paciência na orientação e transmissão de todo seu conhecimento, que tornou possível a conclusão desta monografia. Aos professores da pós do núcleo de psicanálise, pela transmissão do conhecimento. Às amizades, pelo incentivo, e compreensão de minha ausência em muitos momentos. E a todos que de forma direta ou indireta contribuíram para a conclusão desta monografia. Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o outro. (O outro- Adriana Calcanhoto) SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO............................................................................................ 8 2. DESENVOLVIMENTO................................................................................ 9 1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA........................................................ 9 1.1. Transferência.............................................................................. 9 1.2. Adolescência............................................................................. 17 2. DISCUSSÃO CLÍNICA.................................................................... 24 3. CONCLUSÃO............................................................................................ 28 REFERÊNCIAS............................................................................................... 29 RESUMO O objeto deste trabalho refere-se ao manejo da transferência na clínica de adolescentes, verificando de que forma se apresenta o fenômeno da transferência. As fontes utilizadas são desenvolvidas com base no referencial teórico psicanalítico de Freud, Lacan, e autores contemporâneos, bem como recorte clínico, apresentado para observar o tema em questão articulado com a teoria. É necessário o estudo à medida que a transferência é algo imprescindível para um trabalho de análise, pois inclui no tratamento psicanalítico o psicanalista e o psicanalisante, ainda que não se situem em um mesmo lugar. O manejo da transferência é o modo pelo qual se torna possível trabalhar psicanaliticamente. Na adolescência, pelo modo que o adolescente encara os adultos, as autoridades, os discursos, ele tentará puxar o analista para algumas posições que venham tentar interditar o trabalho analítico, dessa forma o manejo na adolescência, dessa transferência, recai sobre alguns cuidados ao psicanalista. Palavras-chave: Psicanálise, transferência, adolescência. 1. INTRODUÇÃO O termo transferência segundo o Dicionário Aurélio, em uma de suas definições diz ser a ação ou efeito de transferir (-se). A partir dessa definição superficial, pode-se ainda dizer que a transferência enquanto fenômeno está presente em todos os relacionamentos, sendo fenômeno humano e universal. Freud já nos dizia de uma transferência na relação professor-aluno. Ao longo de sua obra, Freud foi percebendo e desenvolvendo o conceito desse fenômeno. Lacan inspirado em Freud, também desenvolveu o conceito de transferência. Dentro deste contexto, o presente trabalho tratará da parte histórica do conceito de transferência para a Psicanálise, a partir de Freud, até o desenvolvimento do conceito por Lacan, passando por conceitos como o de sujeito suposto saber, bem como da importância das entrevistas preliminares. Por fim, através desta discussão clínica, verificar-se-á as peculiaridades da fase da adolescência, que em análise, exigem que o psicanalista esteja atento para o favorável desenvolvimento do manejo da transferência, qual a sua função e posição na análise de adolescentes. 2. DESENVOLVIMENTO 2.1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1.1 Transferência A Psicanálise se diferencia de outros métodos, entre outras coisas, pelo conceito de transferência e pelo uso da associação livre. Essa diferenciação se deu primeiramente em relação aos métodos sugestivos de Breuer e Charcot. No entanto, a transferência não foi uma descoberta de Freud, mas sim o seu uso no trabalho psicanalítico que foi possível a partir do fracasso do método de Breuer. (STRYCKMAN,1997) [...] Depois que o trabalho de catarse parecia estar concluído, a moça subitamente desenvolvera uma condição de “amor transferencial”; ele não havia feito a ligação disso com sua doença e então se afastara desalentado. (FREUD, 1925 [1924], p. 33) No início, quando Breuer apenas relatava sobre o caso de sua paciente histérica, Freud tinha a impressão de que tudo que ouvia iria contribuir apenas no sentido da compreensão das neuroses. Entretanto, mais tarde Freud deu uma nova interpretação com a reconstrução do caso da jovem histérica. Foi mais pelo “acaso” e em conseqüência do erro de Breuer, que Freud começou a levar a transferência em questão e relacioná-la com a etiologia sexual das neuroses no tratamento psicanalítico. (STRYCKMAN, 1997) No tratamento desse caso, Breuer usou para com a paciente, de um rapport sugestivo muito intenso, que nos poderá servir como um perfeito protótipo do que chamamos hoje de “transferência”. [...] depois de ter aliviado todos os sintomas de sua cliente, Breuer deve ter descoberto por outros indícios a motivação sexual dessa transferência, mas que a natureza universal deste fenômeno inesperado lhe escapou, resultando daí que, como se tivesse sido surpreendido por um “fato inconveniente”, ele tenha interrompido qualquer investigação subseqüente. (FREUD, 1914, p.22) Stryckman (1997) nos afirma que foi a partir das influências de Charcot, Breuer e Chroback, que Freud pode observar no tratamento das neuroses a concepção sexual da transferência. A transferência “sexual” era a transferência de um saber sexual inconsciente, um saber sobre o objeto e, portanto a transferência era um fenômeno inconsciente, que atualizava o saber inconsciente. A transferência para Freud era um processo constituído pela fala e consistia na transferência do saber inconsciente para a pessoa do analista. O saber transferido era um saber sobre as coisas insabidas do próprio paciente, produzido na análise pela rememoração e repetição. Novas concepções da transferência são desenvolvidas por Freud, em conseqüência da resistência que por ele é notada de Breuer à transferência de sua paciente, e também em conseqüência do seu encontro com Fliess e depois da interpretação dos sonhos. Strickman afirma que: A transferência em sua seqüência de abertura é, para Freud, transferência sobre a pessoa do analista, pessoa que se ama e que sabe. O sujeito desloca, transporta, transfere (...), sobre o psicanalista as representações inconscientes, as fantasias, as lembranças infantis, as imagens de sua “série psíquica”. (1997, p. 266) Na obra Interpretação dos sonhos (1900) aparece pela primeira vez o termo transferência e seu autor Freud elabora uma nova concepção desta, elucidando que a mesma é constituída de restos diurnos vazios de sentido, puro material significante. Os sonhos manifestam uma transferência sobre o analista. Freud descobre que a transferência não era mais pensável como uma relação intersubjetiva, e por isso não poderia ser constituída por relação interpessoal e tampouco por deslocamentos nas representações dos sonhos. Com Dora, especialmente depois de um primeiro sonho relatado, Freud (1905) diz seguramente que a transferência se trata da repetição de fatos da realidade, de fantasias que são substituídas de uma pessoa anterior para o analista. [...] são reedições, reproduções das moções e fantasias que, durante o avanço da análise, soem despertar-se e tornar-se conscientes, mas com a característica [...] de substituir uma pessoa anterior pela pessoa do médico. (FREUD, 1905 [1901], p.111) Em A dinâmica da transferência Freud (1912) relaciona a transferência à forma pela qual o sujeito vive sua vida amorosa. O analisante integraria o analista em uma de suas séries psíquicas já estabelecidas. Aquilo que é transferido seriam as idéias, esperanças conscientes do analisante e tudo o que foi recalcado e se tornou inconsciente. Sobre a origem das forças impulsionadoras da neurose que provinha da vida sexual, Freud (1914) a constatou com o surgimento da transferência, que aparecia em formas de afeição ou hostilidade, em formas sexuais, apesar de não serem provocadas nem pelo paciente e nem pelo analista. Apesar de Freud (1912) fazer uma distinção entre dois tipos de transferência, a positiva e a negativa, Chemama (2005) nos afirma que toda transferência é composta de aspectos positivos e negativos, e cabe ao analista fazer a distinção delas. Ademais, o referido autor afirma que a transferência seria composta por dois conteúdos, um deles admissível conscientemente e o outro encontrado no inconsciente. Os conscientes seriam os sentimentos amigáveis, amistosos ou de hostilidade, e os inconscientes remeteriam às fontes pulsionais. Sobre a transferência positiva ainda nos explica que ela permite que o paciente fale mais livremente sobre as coisas que lhe são mais difíceis. Em relação à transferência negativa, denomina como sendo aquela que tem em seu conteúdo sentimentos hostis, agressivos, de desconfiança na relação com o analista. A transferência, tanto na sua forma positiva como negativa, entra a serviço da resistência; mas nas mãos do médico torna-se o mais poderoso dos instrumentos terapêuticos e desempenha um papel que não pode deixar de ser hipervalorizado na dinâmica do processo de cura. (FREUD apud LAPLANCHE,1998) “[...] Cada associação isolada, cada ato da pessoa em tratamento tem de levar em conta a resistência e representa uma conciliação entre as forças que estão lutando no sentido do restabelecimento e as que se lhe opõem, [...]” (FREUD, 1912, p.115) Quando as resistências eram vencidas, Freud (1914) explicou que na transferência, reações repetitivas levarão o paciente ao despertamento de lembranças. Essas eram idéias de Freud sobre a resistência, idéia que manteve na primeira tópica, após isso o conceito mudou. Para que o paciente não fique estagnado em uma compulsão à repetição, Freud (1914) nos ensina sobre o manejo da transferência como sendo o principal modo de transformar a repetição num motivo para recordar. Durante a análise, desde que o paciente, que demanda pela mesma, respeite as condições necessárias para esta, a função do analista, na transferência, poderá suscitar novos significados transferenciais aos sintomas do paciente, transformando sua neurose comum em uma neurose de transferência, na qual será possível o trabalho analítico. Sobre a neurose de transferência, Freud (1914) elucida que ela é a região intermediária que permite a intervenção do analista. A neurose de transferência para Stryckamn (1997) é um sintoma que é produzido na análise pela fala do paciente, através da sua demanda. Stryckman (1997) nos explica que Freud influenciou Lacan em sua concepção dialética da transferência. A idéia de que a transferência envolveria a relação do sujeito ao seu saber inconsciente fez com que Lacan desenvolvesse o conceito de Sujeito Suposto Saber. Sobre esse conceito Chemama (2005) instrui que na procura pela análise o paciente dirigindo-se ao analista já o coloca em uma dimensão transferencial, está se dirigindo a alguém a quem supõe um saber. O analista é colocado na posição daquele que sabe. Stryckman (1997) esclarece que no início da análise o sujeito demanda algo que venha aliviar seu sofrimento e supõe ao analista um saber sobre esse sofrimento e uma resposta para aliviá-lo. O analista, pela sua presença real e pela sua fala devolve para o sujeito aquilo que lhe foi direcionado, dessa forma o eixo imaginário inicial de uma análise, é quebrado. A função do analista reenvia ao analisante a sua própria mensagem invertida, aquilo que escutou devolve enquanto enigma para o analisante, para que seja simbolizado o imaginário da transferência. Viana (2007) nos instrui dizendo que quando instalado o sujeito suposto saber o psicanalista não deve se colocar e responder de uma posição de alguém que sabe tudo ou de alguém que não sabe nada, mas permitir que o psicanalisante se questione sobre o seu sintoma. Maud Mannoni dá uma boa explicação da dimensão imaginária da transferência: Testemunha de acusação, confidente, conselheiro, o psicanalista é visto como um juiz, perseguidor ou salvador supremo. Ele é a pessoa a quem nos dirigimos depois dos fracassos, dos dissabores, das ilusões perdidas, aquele a quem queremos agarrar-nos, mas também aquele de quem queremos servir-nos para fomentar querelas pessoais. Ele é, o terceiro e desejamos que tome partido. (2004, p.35) No entanto Lacan ao contrário de Freud descreve a transferência de um ponto de vista estrutural. Ainda para Lacan, segundo Stryckamn (1997) a transferência não é mais uma atualização sobre a pessoa do analista, de fantasias infantis, emoções, como dizia Freud, mas sim uma atualização da realidade do inconsciente, atualização esta que é causada pela presença real do analista. Na sua forma estrutural, a transferência tem a ver com uma experiência dialética, onde o discurso produzido pelo sujeito do inconsciente simplesmente com a presença do analista encaminha a fala, ou seja, a presença real do psicanalista, presença que faz ato, faz com que haja a dimensão simbólica da transferência, dimensão de demanda, onde se pode trabalhar psicanaliticamente. Não há relação entre dois sujeitos na transferência, a transferência separa a causa do desejo, do lado do analisante, da imagem produzida do analista. Lacan observa que, Numa psicanálise, [...], o sujeito propriamente dito constitui-se por um discurso em que a simples presença do psicanalista introduz, antes de qualquer intervenção, a dimensão do diálogo. (1998, p. 215) O simbólico da transferência só é possível de ser instalado quando for dada a possibilidade de o sujeito se referir ali em análise, em que é alcançada a partir das entrevistas preliminares. Viana (2007) afirma que para se dar início a uma análise, é preciso que o analista tome uma decisão, decisão de aceitar ou não um sujeito em análise. Para se poder decidir usa-se das entrevistas iniciais ou preliminares, dispositivo analítico recomendado por Freud e seguido por Lacan. Ademais, a autora nos diz que esse período das entrevistas serve de meio para se escutar a queixa do paciente, para ver se a transferência se estabelecerá, permitindo que se enuncie uma dimensão de análise pela via de escutar do sujeito sobre uma atualização do seu mito, concluindo algo sobre uma leitura estrutural. Há um tempo de compreender, que implica na questão diagnóstica, e de concluir, que é quando o analista toma sua decisão” (QUINET, 2002) A postura do analista, nesse primeiro momento, na análise, deve ser uma postura de alguém que escuta, não se preocupando em interpretar tudo precipitadamente, sendo que quem deve dar sentido à sua fala é o próprio analisante, mantendo segundo Freud (1912) uma “atenção uniformemente suspensa”. “O psicanalista não dá razão nem a retira, sem emitir juízo, escuta.” (MANNONI, M., 2004, p.10) Portanto as entrevistas preliminares são dispositivos analíticos essenciais e decisivos, servem para investigar os motivos que trazem o paciente à consulta, e essa importância deve ser ainda mais valorizada na idade da adolescência. 1.2. Adolescência Para Carleti (2007) a adolescência é uma fase onde os valores são colocados à prova, ocorrem confrontos entre aquilo que foi transmitido pelos pais e o que o adolescente vem experimentando. É também um período de resignificações de todas as transformações que ocorrem. Transformações referentes ao estatuto, às mudanças no corpo. Convém ressaltar ainda o entendimento de Kaufmann, A adolescência é um só-depois; se não é uma repetição do que se passou na infância, induz uma revivescência de todas as experiências traumáticas precoces. Todas as carências afetivas, as insuficiências de investimento da criança, eventualmente mudas nos primeiros anos, serão reativadas pelo impacto da puberdade e o trabalho da adolescência. (1996, p.8) Para Chassaing (2004) a adolescência é o cruzamento de caminhos entre o íntimo e o social, momento em que as possibilidades quanto ao biológico e a linguagem, o público e o privado vão se reencontrar. Rassial (1999) propõe hipóteses diagnósticas sobre a adolescência a partir do Real, do Simbólico e do Imaginário. Para o autor essas três dimensões se nodulam diferentemente na adolescência. Dentro deste contexto, o Real na adolescência aparece com a puberdade fisiológica, ou seja, são as transformações do corpo que vem extrapolar a imagem pré-concebida. Esse real traz um aspecto catastrófico, aparece como uma doença ou como um acidente, afeta também a imagem do Outro, que até então são seus pais, e é sobre tudo isso que o sujeito adolescente vai elaborar suas questões. Já o registro do Imaginário tem um novo desenvolvimento na adolescência e aparece para sustentar a mudança na imagem do corpo, e a consistência do Outro, que era encarnado pelos pais. O que é experienciado aqui é a sensação de que “isto não passa nunca”. Ainda, sob a ótica deste autor, a adolescência é o momento em que o Imaginário “conta para dar sentido à vida, ao preço irremediável à imagem infantil do corpo.” (1999) Por último, no registro do Simbólico é que vai ser possível ao adolescente a aposta da “cura pela palavra”. Aparece uma mudança de posições na adolescência, há uma prioridade do laço fraterno ao laço parental, ocorre a “saída da família” para a “entrada no social”, acontece a recolocação dos discursos cotidianos. Octave Mannoni (2004) complementa que, a adolescência é um período em que “normalmente” o adolescente se opõe aos pais, aos adultos, às autoridades, à sociedade. Opõe-se também ao saber que contesta e confronta. Segundo Rassial (1999) quando o adolescente vai para a análise em um primeiro momento ele tenta colocar o psicanalista na mesma posição que qualquer outro adulto, de um adulto que o rejeita e que é incapaz de entendê-lo e entender sua demanda. O adolescente questiona, desconfia da capacidade do psicanalista de ouvilo, coloca-o na mesma posição em que colocaria qualquer outro adulto, a quem contesta e se opõe. O psicanalista nesse primeiro momento deve deixar que o adolescente diga do seu sintoma, que pode não vir a ser o mesmo para seus pais, ou para o seu meio. O sujeito adolescente pensa de modo sistemático; constrói teorias abstratas, exige uma lógica sem falhas, censura aqueles que não seguem às premissas que colocam até o fim. Esse modo de pensar leva o adolescente a tentar colocar o psicanalista na posição de mestre. Freqüentemente o adolescente demanda ao psicanalista que lhe dê idéias, que lhe dê sugestões. Para o adolescente, segundo o seu modo de pensar, o psicanalista seria aquele que teria resposta para tudo, alguém sem defeitos. Na concepção de Rassial (1999), o psicanalista deve conter-se em querer tudo explicar, deve abrir mão de ser tomado como um sujeito que tudo sabe. Ao invés disso deve propiciar que as questões do adolescente sejam abertas e deixálas abertas, deixá-lo com a sua demanda. Dessa forma o sujeito suposto saber é constituído no analista, através da dimensão imaginária da transferência. Na visão desse mesmo autor, o discurso analítico é aquele que convida o sujeito a ultrapassar, através de sua fala, os discursos constitutivos, institucionais e cotidianos, em prol (...) de um discurso que, na própria análise, permanece virtual. (1999, p.83) Rassial instrui que a abstinência permite à transferência, ser uma alavanca na análise das determinações simbólicas, e não o que ela é num primeiro tempo, um obstáculo imaginário. (1999) Há ainda uma terceira posição, que o adolescente, na transferência, tentará puxar o analista, à posição de cúmplice. Ao se separar do discurso dos adultos, o psicanalista corre esse outro risco de ser colocado na posição de cúmplice, pelo adolescente. Isso pode vir acontecer segundo Rassial quando “ao compadecer-se sob um modo histérico com a solidão do adolescente, [...], corre o risco de erotizar a relação analítica” (1999, p.163). Se por ventura o psicanalista vier narcisicamente aceitar ocupar algumas dessas posições colocadas pelo adolescente, este é colocado numa posição de objeto, e há o que pode ser chamado de contratransferência, pois há um inverso de posições e a estrutura da análise fica perversa, ou como ensina o autor citado acima, ocorre a erotização da relação analítica. Como vemos o adolescente sempre vai tentar colocar o analista em alguma posição que venha interditar a análise, ou levá-la ao seu fracasso, pelo seu modo de pensar, pelas incertezas que o tomam, pela constante desvalorização dos adultos. Ainda no entendimento daquele autor, essa contestação não depende se foi o próprio adolescente quem procurou uma análise ou se o adolescente foi encaminhado por terceiros. Octave Mannoni (2004) nos instrui que raríssimas vezes o adolescente vem por ele mesmo procurar a ajuda da análise. Entretanto, mesmo que a procura desta análise tenha sido feita por iniciativa dos pais, pode se ter bons resultados. E ainda, essa autora explica que: quando a oposição aos adultos, às autoridades, à sociedade, é apresentada por uma criança no momento da puberdade, o psicanalista pode acolhê-la em análise pela demanda dos pais, mas quando se trata de um sujeito adolescente, a situação não é mais a mesma e tem-se um problema delicado. Um adolescente que tenha entrado em análise pela demanda dos pais pode denotar uma demissão da parte deles ao procurar o psicanalista, e este pode ser visto como um traidor ao adolescente, por estar a serviço dos pais. A respeito desse problema delicado em que os pais acabam procurando o analista para o adolescente, Rassial (1999) nos instrui que é preciso que a demanda dos pais seja isolada da demanda do adolescente. Há ainda outros riscos nesse tipo de análise, em que os pais procuram o psicanalista para o adolescente. Um seria o risco do psicanalista se envolver no conflito entre o adolescente e a família, o outro seria dele ser tomado como um aliado da família ou um defensor do adolescente contra os pais. (MANNONI, O., 2004) Ademais para o autor, em se tratando de análises de adolescentes, há as que podem ser mais favoráveis e sem problemas delicados para o analista, são aquelas em que o adolescente procura por ele mesmo um psicanalista, sem a interferência de seus pais e até mesmo sem o consentimento deles. Todavia, uma análise só é legitima quando o sujeito se autoriza por si mesmo, pois como explica Rassial (1999, p.171) “[...] se há autorização ela não pode provir do outro.” Ainda, a análise de adolescente não se trata de uma cura analítica no sentido estrito da palavra cura, em psicanálise, de fazer cair um sintoma, pois o adolescente está ainda se apropriando desse sintoma que é o que garante seu ser. Pelo contrário, o discurso analítico permitirá que o adolescente recoloque o sintoma numa relação com a língua, pela ordem simbólica provida do lado do Outro. O sintoma que é produzido na adolescência denota um final e um começo. Final de um processo e a entrada na vida adulta. “[...] momento em que o significante se confessa enganador e o simbólico frágil”. (RASSIAL, 1999, p. 208) Esse autor ainda afirma que o psicanalista deve manter-se em sua solidão, que afeta seu ato. O ato do psicanalista não deve estar ligado a nenhuma demanda externa, a nenhuma exigência da sociedade ou de terceiros, contudo ele deve manter-se em sua solidão, não a que afeta o seu ser, mas a que afeta o seu ato. Em seu papel, tem de autorizar o seu paciente a desvendar o fantasma que funda seu desejo deixando agir um desejo que não capta outra coisa senão as palavras. Mas em se tratando de análises de adolescentes, esse mesmo autor nos instrui que o que deve ser priorizado são as desconstruções das figuras imaginárias do Outro para só após isso ser possível a análise do fantasma. É na adolescência que acontece o “desmoronamento da consistência parental imaginária do Outro”, e com a mudança da imagem do corpo, há a reformulação de sua posição, onde o Outro e o objeto recebem novo valor psíquico. (1999, p.49) A promessa da análise de adolescentes é bem limitada; o que pode ser mudado é a possibilidade do ato exceder o fantasma de um novo jeito, que não a passagem ao ato psicótica, e que o sujeito envolva-se no seu desejo. Ademais, nessa relação do psicanalista com o adolescente, para que realmente aconteça o início da cura analítica, ainda que com objetivo e prioridades diferentes da análise de adultos, é preciso que o psicanalista não economize na análise das transferências imaginárias para ser possível a transferência simbólica, que permitirá ao sujeito adolescente se engajar no processo analítico enquanto sujeito do seu desejo. Por fim, explica que a temporalidade para o adolescente é diferente, o tempo é regido por uma lógica ligada à apropriação do sintoma, ordenado pela repetição, reprodução e invenção. Quando finalmente o adolescente se apropria do seu sintoma e isso realmente acontece, marca-se o fim da adolescência, enquanto período de funcionamento psíquico. E mais, Rassial afirma que, “[...] o analista seria aquele que permitiria ao adolescente não se tornar um adulto normal”. (1999, p.172). 2.2. DISCUSSÃO CLÍNICA Mariana, 17 anos procura o atendimento incentivada pela tia, a quem se refere como amiga, a quem conta e confia seus questionamentos e pensamentos. É essa tia quem paga suas sessões e que durante algumas entrevistas iniciais estava sempre presente no discurso de Mariana como aquela que lhe dizia o que fazer: “minha tia disse que, minha tia disse para...”. Até a segunda entrevista inicial a tia a acompanha até o consultório e permanece na sala de espera, após isso, Mariana já vem sozinha. Os pais de Mariana, segundo ela mesma, não sabem de sua procura pelo atendimento. Acham besteira procurar ajuda de uma psicóloga. A queixa inicial de Mariana recai sobre sua vida ser um paradoxo, sobre o fato de seus pais terem lhe imposto uma religião. Queixa-se também de se sentir frustrada por ver seus pais falaram de um jeito correto de viver, mas que eles mesmos não vivem. Quando questionada pela psicóloga do que espera do atendimento, Mariana disse esperar encontrar uma amiga, com quem pudesse conversar. Nesse momento, a psicóloga deveria ter questionado sobre esse significante: amiga, ao invés disso aceitou tacitamente. A dimensão imaginária da transferência ocorreu e esta não foi simbolizada. O risco de que tanto nos advertiu Rassial (1999) foi vivenciado, o risco de perverter a relação, risco de uma contratransferência. Houve uma inclinação de ir contra a transferência, ou de simplesmente ignorá-la em sua presença. Durante o período de entrevistas Mariana conta sobre suas aventuras amorosas. Relata sobre beijos triplos, com amigos gays. Diz também estar namorando de “mentirinha”, sendo ela lésbica e o namorado gay. Diz não gostar de meninos, e inventou o namoro falso para sua mãe parar de “enchê-la” para arranjar namorado. A respeito de sua sexualidade, a psicóloga pergunta se Mariana acha que a pode escolher e esta responde que não sabe, pois nunca tinha pensado nisso. Entretanto, rindo diz que acha que pode. Mariana fazia coisas para a mãe ver. Aos 12 anos diz ter fumado pela primeira vez, esperando que a mãe a pegasse fumando. Aos 13 anos diz ter perdido a virgindade em um carro no pátio da escola, na tentativa que a mãe a visse. Aos 14 anos diz ter tido sua primeira namorada. Após essas tentativas frustradas, fez algo maior, diz ter tentado suicídio. Escrevia tudo o que fazia em um diário e tinha como plano, ao terminar de escrever, se matar. Contudo, afirma na ocasião que ao falar nisso, tudo pareceu sem sentido. Conta que em um determinado dia deixou sua mochila aberta em seu quarto, enquanto dormia no sofá da sala. O pai pega seu pendrive, onde tinham vídeos com a namorada da ocasião. Foi nesse momento, segundo Mariana que seus pais souberam de tudo o que ela tinha feito, e que confessou tudo o que fez. Na sessão seguinte disse que não pensava mais em se relacionar com meninas, porque tinha escolhido mudar. Esses acting-outs não foram simbolizados na transferência. Sobre o suicídio diz ter tomado 120 comprimidos do seu anticonvulsivante, e que por conta desses comprimidos diz ter abortado. Em relação ao aborto, aos 16 anos afirmou ter engravidado de um professor e então abortado por conta da grande quantidade de remédios que tinha ingerido. A respeito das convulsões, diz ter desde os 3 anos de idade, aos 13 anos foi ao neurologista que lhe receitou remédio. Ainda durante o período de entrevistas diz ter tido nova convulsão. Fez exames neurológicos e nenhuma lesão foi detectada. Relata lembrar-se de algumas vezes ter forçado desmaios e que depois desmaiava de verdade, lembra-se que sua avó também fingia desmaiar. Na semana em que aconteceria a 17ª entrevista, a tia de Mariana telefona para a psicóloga, alegando querer saber como iam os atendimentos e se Mariana estava freqüentando e fazendo os pagamentos. A psicóloga diz à tia que nada lhe será dito sobre os atendimentos a Mariana, mas sim, que ela estava vindo ao consultório. Na sessão com Mariana, é contado pela psicóloga que sua tia havia telefonado e perguntado se ela estava vindo para os atendimentos e se estava fazendo os pagamentos. Mariana ficou surpresa e chorou. Conta que, espera sinceramente, que essa atitude da tia tenha partido de seus pais, e não da própria tia, em quem mais confiava e que segundo Mariana, era a única que via sua mudança. Diz não saber o porquê do telefonema e se pergunta quando os pais irão acreditar nela. Mariana continua indo aos atendimentos, há mais de um ano desde a data inicial da análise. As questões sobre sua sexualidade não foram mais faladas, porém as relacionadas ao comportamento do seu pai e de sua mãe, e de sua relação com eles, tomam conta das falas de Mariana. Faltou em algumas sessões - umas justificando esquecimento, outras por conta dos pagamentos, por não ter dinheiro para pagar a sessão - mas retornava na semana seguinte. E outras vezes foram necessárias que a própria psicóloga fizesse contato telefônico. Após a última falta de Mariana, em fevereiro de 2010, esta não entrou em contato e nem retornou na semana seguinte. A psicóloga também não o fez, deixando desconhecido o motivo que levou Mariana a não voltar. Em relação ao recorte clínico apresentado, pode-se dizer que não houve um manejo da transferência, do jeito esperado, na adolescência. Rassial (1999) nos alerta que o psicanalista deve ter uma atitude profissional sustentada pela análise e pela supervisão. O caso em questão estava sendo levado em supervisão, mas a análise da psicóloga estava no começo, e muitas das questões levantadas pela paciente, passaram sem serem significadas, o que fez com que a escuta da psicóloga estivesse muito prejudicada. Muito foi ouvido, e pouco foi escutado. 3. CONCLUSÃO A presente monografia procurou demonstrar a imprescindibilidade do manejo da transferência no trabalho psicanalítico. Por todo o visto pode-se dizer que este manejo trata-se do analista não aceitar, nem rejeitar a demanda do paciente, mas colocar este para “trabalhar”, fazendo com que ele fale sobre a mesma. Todavia, acolhendo a demanda, produz-se a transferência. Importante ressaltar que é através da transferência que o inconsciente aparecerá, e sem ela não há análise. No que tange a adolescência, fase em que o adolescente se opõe aos pais, à autoridade, ao saber, o psicanalista é convocado a não recuar da abstinência de seu ato, mas de estar atento para as posições em que esse adolescente tentará colocá-lo, com o intuito de tentar interditar o trabalho analítico. Por fim, toda a questão do manejo da transferência na clínica de adolescentes trata-se de que o analista leve a sério sua análise pessoal, sua supervisão, pois quanto mais este é analisado, mais ele sente a transferência, não indo às vias de fato. 4. REFERÊNCIAS CARLETI, P.C. A Lei paterna como tratamento possível do adolescente em conflito com a lei. In: BASTOS, R.; ÂNGELO, D.; COLNAGO, V. Adolescência, violência e a lei. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007. p.243-256. CHASSAING, J. L. “Mais tarde” é agora! In: Corrêa, A. I. (org.) Mais tarde...é agora! 2 ed. Salvador: Ágalma, 2004. p. 37-45. CHEMAMA, R. Dicionário de Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. 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