Flashes da tradição e rupturas da invenção
Pilnik, Cléa
Tradição: Transmissão de doutrinas, de costumes, de lendas, durante longo espaço
de tempo, especialmente pela palavra.
Nesse trabalho vou desenvolver de forma mais livre a ideia de que já há um
precipitado de vivências e de informações culturais que dão suporte para existir
tradição suficiente para que as invenções da tecnologia da informática (TI) sejam
absorvidas nos consultórios dessa nova era, mesmo que o instrumental teórico seja
a nossa multifacetada psicanálise em crise.
Tentei ressaltar as ideias de tempo e transmissão diante da celeridade das
invenções. Já que na formação e na clínica psicanalítica essas duas variáveis são
fundamentais.
Intercalo situações e fatos para tingir o trabalho com as realidades que nos
impactam e para dar o tom de turbilhão que nos envolve em contradição com a
capacidade de assimilação e criatividade da nova geração.
Dos meados dos anos 70 à época contemporânea, já são quase quatro
décadas de uso de computadores pessoais (PCs) que formam um caldo cultural
onde os jovens de hoje circulam com facilidade, fazendo com desenvoltura a
apreensão da realidade com esse novo aparato. Esses mesmos jovens se pautam
por princípios éticos e normas dadas pelos pais ou responsáveis com facilidade
quanto ao uso das possibilidades e interdições dessa tecnologia.
Enfim, a tradição está sendo veiculada através da seleção feita pelos
núcleos familiares e de trocas com as comunidades que atingem e influenciam a
sociedade maior e que voltam esses valores para a interação com os indivíduos.
Comunicações
Minha neta Paola 17anos, 3ª série do II Grau:
- Vó, ganhei o prêmio com meu vídeo Autofilmografia noCachedYou +1'd this
publicly. Undo
Festival do Minuto. Vendi meus direitos autorais de um ano por R$4.000,00 para
a NET.
Passa-me o link e deslumbro-me com sua seleção e do seu profundo
conhecimento da filmografia universal, onde conseguiu expressar compactamente
sua história e o tema proposto em tão exíguo tempo.
Marina neta de 18 anos cursando Rádio e TV na faculdade:
- Vou ver o Show dos cantores: Ivete Sangalo e Michel Teló. Irão mais de trinta e
cinco mil pessoas.
Comento que adoraria ver a Ivete Sangalo com ela. Resposta:
- Vó eu não vou ver a Ivete, mas sim o Michel Teló.
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Não conheço esse cantor, mas uma semana depois sei que o mundo inteiro
jovem, do Japão a Israel está cantando: “Ai se eu te pego Ai, Ai”, em português.
Essas falas confirmam a existência da enorme possibilidade de difusão tanto de
valores populares como de incentivo à cultura diferenciada com extrema rapidez.
Minha neta Aline americana de 15 anos que assiste ao Gifted Program na “High
School”:
- Vó você sabe que esperar dois dias na minha idade é muito tempo. Por isso,
eu vou fazer logo meu primeiro milhão de dólares aos 18 anos e depois curtir.
Necessário se faz tempo para se expressar, tempo para se integrar, tempo para
se ouvir.
Uma jovem de vinte três anos, representante de duas décadas de contato
exaustivo com o computador, delineia uma nova tendência no meu consultório:
- Não sou da geração que vai se ralar dezesseis horas por dia para ter bens e
objetos, vou trabalhar menos e aproveitar mais a vida.
Assim é possível que a transmissão das metáforas cibernéticas dessa minha
paciente como futura mãe serão tranquilizadoras ao apresentá-las aos seus filhos.
Pois, essa geração de pais já senhores desses processos podem estar dominando
a rapidez das máquinas e não ao contrário.
Da máxima: tempo é dinheiro passamos para tempo é luxo.
Apreensão da nova tradição
Parece-me que estamos saindo de uma sociedade moderna criadora de
ansiedades neuróticas para a sociedade contemporânea criadora de angústias
psicotizantes onde o contato com a realidade é substituído pelo contato virtual.
Exemplo primoroso é a obra de Jerzy Kozinki, Videota, de 1971, onde o
protagonista foi criado aprisionado a um pequeno espaço e ao seu jardim tendo a
televisão como único contato com o mundo externo. Mais tarde foi produzido o filme
“Muito além do jardim” (1979). Suas emoções coartadas, sua fala repetiiva sobre
seu jardim transparece no seu esquálido repertório de linguagem que são
interpretadas e projetadas pelo desejo da protagonista e seu entorno como ricas
metáforas.
O desenvolvimento humano requer dedicação, constância e tempo, esses são
os elementos que dão confiabilidade às tradições e alimenta a expansão da energia
psíquica através de lealdades e críticas mediante a moral e ética de sua época. É
nesse espaço que se faz importante a psicanálise.
A tradição faz contraponto com a filosofia da pressa, do imediatismo e do
consumismo.
Essas pressões vertem em nossos consultórios pacientes com crises de
ansiedade aguda, a chamada síndrome do pânico. Ou, como um paciente que
devido a diversos estresses acabou se refugiando em crises de amnésia temporária.
Além dos distúrbios alimentares e das adições essas são, de forma reduzida, as
sintomatologias atuais.
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Sabemos que metáforas são muito mais do que floreios linguísticos, pois é
através delas que constituímos e reconhecemos o arcabouço de nossa
personalidade para podermos nos aproximar e dar voz aos nossos pensamentos.
A imagem do computador de alta velocidade incorporada em grande parte à
psicologia atual, bem como grande parte da cultura cibernética, é uma dessas
forças poderosas e constitutivas. Já há um número de características cibernéticas
que fizeram o seu caminho em modelos cognitivos da mente e do self.
A todo instante vemos a atual geração que domina a linguagem cibernética
valendo milhões no mercado financeiro, mas que não se distanciam dos problemas
ético-sociais como aparecem nas revistas Veja, Isto é e no caderno Link do jornal
Estado de S.Paulo de abril. Esses estampam em suas capas e na primeira página
jovens entre 13 e 31 anos como representantes emblemáticos dessa realidade.
Fabio Herrmann, 1979, no seu livro Andaimes do real, teoriza “ tudo que se
diz, consciência expressa, tomado como dito de si mesmo, e o que se é, é-se no
objeto. ... Toda percepção valiosa é de si-mesmo-no-objeto, a consciência
prestigiada pela atenção analítica resume-se na presentação de objetos que
signifique os modos de apropriação e presentação realizados. Ver é ver-se, na
situação analítica.”
Discussões sobre globalização, mundo virtual e a tecnologia da computação
já estão sendo exploradas “ad nauseam”, mas falta à psicanálise a apreensão
desses conhecimentos e dos seus desdobramentos. É através da capacidade de
nomear os objetos e fantasiar que estruturamos e damos forma aos desejos e assim
conquistamos a realidade que se nos apresenta. Livros, seminários e todos os
recursos midiáticos de que dispomos transformam-se em uma fonte na qual nos
alimentamos dessas imagens linguagens.
Isaias Melsohn dizia-se ser reconhecido nos meios filosóficos como
psicanalista e no meio psicanalítico como filósofo. Ele corrobora a ideia de que ao
adquirmos a linguagem sempre haverá um fora, dentro, onde as percepções,
sensações e o imaginado se faz presente na ausência. Ao termos consciência
podemos contar com esse cabedal imagético da linguagem para poder transformálo em conhecimento.
Invenções X Inovações
Alain de Botton, filósofo inglês, cultuado e polêmico escritor propaga a
ideia, em seu novo livro “Religião para Ateus”, que a cultura é o melhor instrumental
que temos no lugar das religiões. Entretanto, pretende que se torna necessário
resgatar alguns ensinamentos religiosos para a vida moderna, no projeto
denominado Ateismo2.0. Tal qual a psicanálise que necessita das teorias clássicas
para partir para sua reinvenção.
Botton também sugere que na vida contemporânea os museus de arte
seriam as novas igrejas, onde deveríamos achar significados, consolos e redenção
através da sedução dos nossos sentidos pela beleza. E diz mais: “o grande desafio
dos museus de arte é encontrar coleções que possam começar a servir às
necessidades da psicologia tão efetivamente quanto, por séculos, eles serviram
àquelas da teologia.” Então, para Botton é um erro dizer que se faz “arte pela arte”
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sendo “... um dos mais mal-interpretados slogans estéticos. ” A arte deveria ser,
segundo ele, direcionada explicitamente para algum objetivo humanístico.
Aaron Swartz (2012) de 26 anos afirma que informação é poder. Essa
máxima é extremamente valorizada pela nova geração tornando as universidades
cada vez mais defasadas academicamente e que transmitem com sua metodologia
bastante ultrapassada os novos conhecimentos de forma entediante. Botton criou
então, “The School of Life”, onde os cursos têm os seguintes nomes: Morte,
Mudando o mundo, Ambição e etc, onde o principal foco é tornar as pessoas mais
sábias. Na livraria desse espaço as seções são divididas em “para aqueles que se
preocupam a noite”, “ser feliz mesmo casado” e a loja é chamada: Química da Alma.
Sendo que os alunos não acham monótonas suas aquisições e participações.
Alain de Botton cultua a erudição com leveza para ser compreendido em suas
posições inventivas. Assim, ousa difundir suas ideias através do escrever e de
fundar “The School of Life”.
Digo eu, não seria o caso de levar a sério as tentativas renovadoras das
sociedades de psicanálise, mesmo que em algumas ocasiões fossem frustrantes e
frustradas?
Ao passarmos por um crivo crítico e inovador, para inventarmos um novo
vértice e um polêmico fazer na psicanálise, abrimos espaços para alguns perigos,
que não necessariamente irão acontecer, mas estão lá, e precisamos ter
consciência deles. Assim, podemos sair de um perfeccionismo teórico onde a
psicanálise oferecia interpretações e soluções para todas as situações humanas,
mesmo que encapsulada em uma rede de modéstia através de questionamentos
que só visavam certificar a correção do projeto psicanalítico, para uma perspectiva
pressionada pela crise para achar uma resolução bombástica de curto prazo. Mas,
cumpre-se fazer essa cotação entre os pares com cuidado, reflexão e mesmo com
certa nostalgia. A escolha não será só de exclusões, mas sim de integração de
alguns segmentos que possam sedimentar a base atual para se alcançar um
patamar inovador.
Muito além da crítica corrosiva, por medo de quebra dos cânones clássicos,
fica o desejo de invenção.
Se pensar é transgredir radicalizo e me tranquilizo: não há invenções, mas
sim inovações que causam rupturas no cabedal teórico ou prático do já conhecido.
Resumo
Nesse trabalho vou desenvolver a ideia de que já há um precipitado de vivências e
de informações culturais que dão suporte para existir tradição suficiente para que as
invenções da tecnologia da informática sejam absorvidas nos consultórios dessa
nova era, mesmo que o instrumental teórico seja a nossa multifacetada psicanálise
em crise. Tentei ressaltar as ideias de tempo e transmissão diante da celeridade das
invenções. Já que na formação e na clínica psicanalítica essas duas variáveis são
fundamentais. Intercalo situações e fatos para tingir o trabalho com as realidades
que nos impactam em contradição com a capacidade de assimilação e criatividade
da nova geração. Passo por um crivo crítico e inovador, através de alguns autores
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para defender a ideia de inventarmos um novo vértice e/ou um polêmico fazer na
psicanálise, mesmo que abrindo espaço para alguns perigos dos quais precisamos
ter consciência. Preconizo que só assim, poderemos sair de um perfeccionismo
teórico onde a psicanálise oferecia interpretações e soluções para todas as
situações humanas, mesmo que encapsulada em uma rede de modéstia através de
questionamentos que só visavam certificar a correção do projeto psicanalítico, para
uma perspectiva pressionada pela crise para achar uma resolução em curto prazo.
Cumpre-se fazer essa cotação entre os pares com cuidado, reflexão e mesmo com
certa nostalgia. A escolha não será só de exclusões, mas sim de integração de
alguns segmentos que possam sedimentar a base atual para se lançar a um novo
patamar. Muito além da crítica corrosiva, por medo de quebra dos cânones
clássicos, fica o desejo de invenção. Se pensar é transgredir radicalizo: não há
invenções, mas sim inovações que causam rupturas no cabedal teórico ou prático
do já conhecido.
REFERÊNCIAS:
Botton, Alain de (2012 inverno). Entrevista na revista Plastic Dreams. pp 38-43
_____________(2012). Religião para ateus. São Paulo: Intrinseca.
_____________(1997). Como Proust pode mudar sua vida. São Paulo: Intrinseca.
_____________ ( 2011, 3 de de dezembro). Ateismo2.0. Entrevista para globo.com.
Herrmann, Fabio, (1979). Andaimes do real. (pp 16-116). São Paulo: E.P.U..
ISTOÉ (2012, 14 de abril) Os milionários dos aplicativos. pp 84-88
Kosinky, Jerzy (1971). Videota. Rio de Janeiro: Arte Nova
Melsohn, Isaias. (2001). Psicanálise em nova chave. São Paulo: Perspectiva
____________(2007, junho) Linguagem e percepção no processo analítico.
Entrevista. IDE, 44, pp126-134.
Veja (2012, 11 de abril). Os filhos da inovação. pp 93-102
Swartz, Aaron. (2012,16 de abril). Hacker réu. Entrevista no caderno Link, O Estado
de S. Paulo. p1
Cléa Palatnik Pilnik
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