O Tétum-Díli como língua não-pro-drop:
na senda do Caboverdiano
Sofia Deus 1
Centro de Linguística da Universidade Nova de Lisboa
Abstract
This study aims at analysing the properties associated with Tetum-Dili’s Null Subject Parameter
(NSP), in order to portray it as a non-pro-drop language. Our investigation demonstrates that, alike
Capeverdean, this language does not act uniformly regarding the different properties of the parameter.
Our analysis presumes that expletive subjects are not relevant for the NSP and that the EPP is
parametrized. It also assumes that SpecAgrP projects only when necessary, which does not occur with
expletive constructions. Finally, we support that the EPP is not a key-factor to characterize a language as
pro-drop or non-pro-drop.
Keywords: Null Subject Parameter, Tetum-Dili, expletives, EPP.
Palavras-chave: Parâmetro do Sujeito Nulo, Tétum-Díli, expletivos, PPA.
0. Introdução
Um dos objectivos fundamentais deste estudo consiste em descrever as
propriedades da língua Tétum-Díli, de forma a identificar o seu estatuto relativamente
ao Parâmetro do Sujeito Nulo (PSN) ou Parâmetro Pro-Drop. De igual modo,
almejamos comparar o comportamento do Tétum-Díli ao do Caboverdiano, no tocante
ao parâmetro sob análise, bem como contribuir para a discussão sobre a natureza dos
sujeitos nulos e sobre o estatuto do Parâmetro do Sujeito Nulo na gramática.
Para tal, devemos, assim, alongar-nos, no ponto um, na revisão da literatura
relevante para a análise deste parâmetro. De seguida, examinaremos as propriedades do
PSN de algumas línguas, como, por exemplo, o Caboverdiano. No ponto dois,
passaremos à descrição das propriedades do PSN do Tétum-Díli, as quais
compararemos com as do Caboverdiano. Finalmente, no ponto três deste texto,
procuraremos reconhecer o estatuto do Tétum-Díli quanto ao PSN.
Textos Seleccionados, XXVI Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa, APL, 2011,
pp. 226-241
* Gostaríamos de deixar um agradecimento muito especial ao nosso colaborador no trabalho com o Tétum-Díli,
Hercus dos Santos, bem como a Ana Madeira e ao grupo G4 (CLUNL) pelos diversos comentários e sugestões que
em muito enriqueceram o presente estudo. De igual modo, deixamos o nosso apreço aos reparos feitos pelos revisores
deste texto, que foram preciosos para o seu melhoramento. Quaisquer erros e/ou imprecisões que persistirem são
inteiramente da nossa responsabilidade.
1
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O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
1. O parâmetro do sujeito nulo
1.1. Os estudos desenvolvidos
Desde a investigação basilar conduzida por Perlmutter em 1971, o contraste entre
as línguas que permitem a omissão do sujeito em orações finitas, como o Português
Europeu (doravante PE) ou o Italiano, e as que não a consentem, como o Inglês e o
Francês, tornou-se foco de múltiplos estudos no âmbito da teoria linguística.
De entre estes, o trabalho desenvolvido por Rizzi (1982) assumiu uma importância
central para o desenvolvimento das investigações que se lhe seguiram. Neste estudo, o
autor caracteriza a propriedade do Sujeito Nulo como um fenómeno transversal às
línguas naturais e, assim, um parâmetro da teoria de Princípios e Parâmetros (cf.
Chomsky, 1981).
Por conseguinte, considerava-se que as línguas estavam tipologicamente agrupadas
naquelas que manifestavam todas as propriedades associadas ao PSN, como o PE, e nas
que não apresentavam este conjunto de propriedades, como o Inglês.
Deste modo, Rizzi (1982) procede à descrição das propriedades do PSN e aponta a
omissão fonética do sujeito em orações finitas como a primeira propriedade a ele ligada.
Nesta propriedade, consideramos os sujeitos argumentais e os sujeitos expletivos.
No primeiro caso, em línguas como o PE, tanto a presença de um SN referencial como a
sua omissão se revelam gramaticais (1) (3), o que já não se verifica no Inglês,
assumindo-se a sua omissão como agramatical (5) (7). Quanto aos sujeitos expletivos,
estes não são realizados foneticamente em PE (note-se que nos referimos à variedade
padrão da língua 2) (2) (4), sendo necessariamente expressos em Inglês (6) (8):
(1) Nós vivemos em Lisboa.
(3) Vivemos em Lisboa.
(2) Choveu em Lisboa.
(4) * Ele choveu em Lisboa.
vs.
(5) We live in Lisbon.
(7) * Live in Lisbon.
(6) * Rained in Lisbon.
(8) It rained in Lisbon.
A segunda propriedade do parâmetro considerada é a inversão livre sujeito-verbo.
Em PE, a possibilidade de o sujeito surgir em posição pós-verbal é absolutamente
gramatical (9) (10), enquanto, em Inglês, este não é um fenómeno aceitável (11) (12):
(9) A Maria comprou um livro.
(10) Comprou a Maria um livro.
vs.
(11) Mary bought a book.
(12) * Bought Mary a book.
2
Ver Carrilho (2004), para uma análise mais aprofundada dos sujeitos expletivos nos dialectos do PE
(nomeadamente, do expletivo “ele”).
227
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Finalmente, o autor sustenta neste estudo que a presença de morfologia rica de
concordância verbal deveria ser percepcionada como outra propriedade do PSN (à
imagem do que já havia sido proposto por Taraldsen, 1978). No seguimento desta ideia,
uma língua como o PE tem uma morfologia de concordância verbal rica (13), ao invés
do Inglês, onde a morfologia de concordância verbal é manifestamente pobre (14):
(13)
Número
Pessoa
Singular
Plural
1ª
Eu compro
Nós compramos
2ª
Tu compras
Vós comprais
3ª
Ele/a compra
Eles/as compram
Número
Pessoa
Singular
Plural
1ª
I buy
We buy
2ª
You buy
You buy
3ª
(S)He buys
They buy
vs.
(14)
Para tal sustentação, Rizzi (1982) argumenta que a flexão verbal pode reger
adequadamente o Sintagma Nominal sujeito em línguas como o Italiano (ou PE) e, em
línguas como o Inglês, o mesmo não se verifica, sendo essa capacidade de regência da
flexão verbal que é relevante para a legitimação dos sujeitos nulos. Rizzi (1982) assume
que, nas línguas de sujeito nulo, a flexão verbal tem propriedades pronominais como os
clíticos, daí poder receber traços como [+pron] ou [-pron] – no primeiro caso, a flexão
tem propriedades de clítico, interpretação pronominal e tem que receber caso, ao passo
que, no segundo, não há distinção em relação a línguas de sujeito realizado. Para além
disto, Rizzi (1982) aponta que o facto de a categoria FLEX poder ser referencial ou não
será eventualmente uma condição do PSN.
Contudo, num estudo desenvolvido por Huang (1984), este autor considera que a
relação entre a flexão verbal “rica” e o sujeito nulo não constitui uma propriedade que
permita recuperar o conteúdo dos sujeitos nulos, argumentando, para tal, que
observamos línguas como o Chinês, o Japonês ou o Coreano, as quais não dispõem de
um sistema verbal de concordância sujeito-verbo ou objecto-verbo e, ainda assim,
legitimam pronomes nulos.
228
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
Huang (1984) avança, neste trabalho, com uma reformulação do PSN,
reorganizando-o em propriedades distintas: (a) um parâmetro que distingue as línguas
que permitem tópico nulo e as línguas que não permitem – Parâmetro do Tópico Nulo;
e (b) um outro parâmetro que diferencia as línguas que admitem sujeitos nulos em
orações finitas e as línguas que não admitem – Parâmetro do Sujeito Nulo (clássico).
Desta forma, estaríamos perante quatro tipos de línguas distintos: 1) línguas que
não permitem nem tópicos nem sujeitos nulos (ex. Inglês e Francês); 2) línguas que
permitem sujeitos mas não tópicos nulos (ex. Italiano e Espanhol); 3) línguas que
permitem tópicos mas não sujeitos nulos (ex. Alemão); e, finalmente, 4) línguas que
admitem ambos (ex. Chinês, Japonês e PE).
Para além disso, Huang (1984) propõe a existência de um parâmetro tipológico que
distinga as línguas naturais em dois tipos: (a) as línguas que são orientadas para o
discurso (como o Chinês) e (b) as que são orientadas para a frase (como o Inglês),
argumentando que as línguas orientadas para o discurso, como o Chinês, têm a regra da
omissão do tópico NP, a qual origina uma cadeia de tópico. Por outro lado, estas
línguas têm uma maior proeminência do tópico (noção mais discursiva) e as línguas
orientadas para a frase têm uma maior proeminência do sujeito (noção mais sintáctica).
De facto, neste estudo, Huang (1984) traz a lume várias questões importantes
relativas ao parâmetro sob análise e à forma de perspectivar a sua concepção. No
entanto, aquilo que este autor nos aponta parece ser que verificamos nestas línguas a
presença de tópicos nulos, que originam cadeias de tópicos, o que é distinto da omissão
de sujeitos NP, em questão no PSN. Assim, estaríamos perante dois parâmetros
distintos, visto que se encontram associados a um conjunto diferente de propriedades,
sendo semelhantes na omissão de sujeitos, mas distinguindo-se nos objectos nulos, por
exemplo.
Todavia, os dados fornecidos por línguas como o Chinês, o Japonês e o Coreano
contribuíram para que Rizzi repensasse alguns aspectos da sua concepção inicial do
PSN. Nesse sentido, Rizzi (1986) procede a uma reformulação da teoria de pro,
decompondo-a em duas condições distintas - legitimação e identificação de conteúdo - e
ainda numa regra adicional de interpretação arbitrária.
Para este autor, até esta altura, a teoria unificava as duas condições acima referidas
através da regência e de [AGR] forte ([±pron]), mas deveria separá-las. Desta forma, a
primeira condição desta teoria é a condição de licenciamento de pro. O esquema de
licenciamento de pro contém um parâmetro com valores múltiplos («multivalued»), ou
seja, é um esquema parametrizável. pro é legitimado através da regência (atribuição de
caso) por parte de um núcleo que pertença a um grupo de licenciadores específicos em
cada língua, ou seja, o parâmetro refere-se especificamente ao tipo de categorias que,
em cada língua, legitimam pro. A segunda condição é a identificação dos traços
específicos de pro, a partir do contexto foneticamente realizado. Assim, o conteúdo de
pro poderá ser recuperado, nas línguas de sujeito nulo, através de AGR.
229
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
A esta teoria, Rizzi (1986) acrescenta ainda uma regra de interpretação arbitrária
que pode ser aplicada tanto na sintaxe como no léxico. Com esta proposta para uma
teoria de pro, cria-se a possibilidade da ocorrência de pro expletivo, ou seja, um
pronome sem qualquer conteúdo referencial. Este pro expletivo é licenciado por AGR
através de regência e de marcação de caso, mas não é marcado tematicamente, não
precisando de ser identificado, nem podendo, assim, ter interpretação arbitrária, nem
conteúdo.
Tendo em conta esta nova formulação do PSN, o autor enquadra as línguas
existentes em conformidade com a mesma. Nesta nova tipologia de línguas, estamos
perante quatro padrões distintos. Por conseguinte, o primeiro tipo é de línguas como o
Italiano ou o PE, em que pro pode ocorrer como um não-argumento, como um quasi
argumento e ainda como um argumento referencial. O segundo é de línguas como o
Yiddish, onde pro ocorre como um não-argumento ou como um quasi argumento. O
terceiro tipo é de línguas como o Alemão, em que pro só pode ocorrer como um nãoargumento. Finalmente, o quarto tipo é de línguas como o Inglês, onde não há lugar à
ocorrência de pro.
Assim, Rizzi (1986) assume que ambas as condições são parametrizadas e que a
diferença entre as línguas está no uso que fazem da opção de recuperação de traços de
concordância ou “φ-features”. Por conseguinte, as línguas podem escolher explorar
plenamente a opção de recuperação (oferecida pelo núcleo de ligação), explorá-la
apenas parcialmente ou não a explorar de todo.
A teoria aqui desenvolvida por Rizzi abala a concepção que se tinha até então do
próprio PSN, formulando duas condições essenciais para a ocorrência destes sujeitos.
Ademais, o autor vem ainda clarificar com este estudo de que modo as diferentes
línguas (como o Italiano, o Inglês ou o Chinês) gerem estas duas condições em
conjugação com as suas próprias especificidades, abrindo um novo horizonte de
discussão no que respeita à ocorrência de pro referencial e de pro expletivo em línguas
com propriedades muito distintas, como, por exemplo, a presença de morfologia de
concordância verbal “rica” ou “pobre”.
Todavia, perante estes estudos, uma questão persistia sem resposta, ou seja,
importava apurar quão “rico” deveria ser um paradigma de flexão verbal, de forma a
permitir a recuperação dos traços específicos de pro.
Uma proposta para solucionar esta questão foi avançada por Jaeggli & Safir (1989),
assumindo a designação de Hipótese da Uniformidade Morfológica. Com esta hipótese,
os autores pretenderam justificar a possibilidade de se omitir o sujeito pronominal nas
línguas de sujeito nulo e a impossibilidade de tal suceder em línguas como o Inglês.
A uniformidade morfológica a que se refere esta proposta não corresponde à noção
de morfologia rica, defendida amplamente até então, sendo abandonada pelos autores,
que decidiram explorar a propriedade da uniformidade. Neste sentido, entende-se que
um paradigma flexional numa dada língua é morfologicamente uniforme sse tiver
apenas formas flexionais derivadas ou não derivadas. Por conseguinte, e de acordo com
230
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
esta proposta teórica, os sujeitos nulos só serão permitidos em línguas que tenham
paradigmas flexionais morfologicamente uniformes.
Para assegurarem esta proposta, os autores argumentaram que, efectivamente, as
línguas de sujeito nulo contêm paradigmas que são morfologicamente uniformes e que a
propriedade da uniformidade nos permite uma justificação global do fenómeno do
sujeito nulo em línguas muito díspares.
Concomitantemente, defendem ainda que a noção de concordância “rica” é em si
limitada, a não ser que incorpore a teoria da identificação local de pro, que envolve a
regência por um elemento que atribua caso, o qual, por sua vez, contenha concordância
forte. Os casos de identificação não-local podem ser reduzidos a casos de identificação
local, se um processo de herança for permitido em línguas em que o controlo aparente
de pro é encontrado.
Esta hipótese teórica é uma proposta valiosa, dada a explanação que descreve do
funcionamento do PSN nas línguas naturais. A Hipótese da Uniformidade Morfológica
caracteriza-se pelo facto de “dar um passo em frente” em relação à noção de morfologia
rica, que exibia algumas fraquezas, nomeadamente o facto de ser muito difícil definir
quando uma língua se caracteriza por ter paradigmas flexionais que sejam
morfologicamente ricos ou quando esse não é o caso.
No entanto, os problemas levantados por esta hipótese são inúmeros. Embora os
autores advoguem que a sua proposta oferece uma solução generalizada para as línguas
naturais, este não é, efectivamente, o caso. Se, por um lado, diversas línguas sem
qualquer morfologia de flexão verbal vedam a possibilidade de pro-drop, como sucede
com o Sueco, o Dinamarquês, o Caboverdiano ou o Tétum-Díli, por outro, também
existem línguas que, apesar de não terem um paradigma de flexão verbal uniforme,
permitem pro-drop, tal como, por exemplo, o Kokota das Ilhas Salomão, como nos
documenta Palmer (1999).
A partir dos anos noventa, houve, assim, a necessidade de enveredar por outra
explicação para esta relação entre a omissão e/ou realização fonética do sujeito e a
morfologia de concordância verbal.
Na verdade, tem-se desenvolvido, até à data, um conjunto crescente de estudos que
apontam outro caminho para esta questão. Nesse sentido, entre muitos outros, os
trabalhos de Barbosa (1995 e 2009), Alexiadou & Anagnostopoulou (1998), Platzack
(2004), Holmberg (2005) e Holmberg et al., (2009) advogam, cada um com as suas
especificidades, que, em línguas pro-drop com flexão verbal rica, a morfologia de
concordância verbal funciona de forma semelhante a um afixo, comportando-se como
um clítico pronominal.
1.2. O estatuto das línguas
Dada a volumosa investigação sobre as propriedades do PSN (de que dão conta as
propostas que descrevemos) e também a complexidade dos dados de línguas tão
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XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
díspares como as referidas, a partir dos anos noventa, surgiu a forte convicção de que o
estudo deste parâmetro teria que ser revisto.
«(…) parece ser pouco plausível que os sujeitos nulos em orações finitas derivem
exclusivamente de um parâmetro da Gramática. A fenomenologia dos sujeitos
nulos talvez só possa ser devidamente explicada pela interacção de diversos
princípios e parâmetros. Estaríamos na realidade perante a manifestação de uma
série de factores, cujos efeitos cruzados produzem resultados complexos. Ao
considerarmos estruturas que tradicionalmente não eram tidas em conta na análise
dos sujeitos nulos, deparamo-nos com uma complexidade de comportamentos que
aponta para um tratamento um pouco diferente do habitual.»3
No seguimento desta ideia, e após um olhar clínico sobre todos os estudos até aqui
descritos, poderemos desaguar numa outra interpretação do parâmetro, isto é,
poderemos considerar que, de facto, nem todas as propriedades observadas por Rizzi
(1982) integram o PSN, tendo as mesmas manifestações diversas, consoante as línguas
sob análise. Optando por esta reinterpretação do parâmetro, abandonaremos a ideia
convencional de que todas as línguas são “bem-comportadas” no que toca ao PSN,
encaixando forçosamente nas designações de língua pro-drop (manifestando todas as
propriedades do parâmetro, como o PE) ou língua não-pro-drop (não apresentando esse
conjunto de propriedades, como o Inglês).
Com efeito, multiplicaram-se recentemente os estudos neste campo, os quais
demonstraram, de forma decisiva, que existem línguas que apresentam “características
mistas” em relação ao PSN, surgindo, por conseguinte, novas designações para as
mesmas, para além das designações acima referidas.
O conceito de língua de sujeito nulo parcial ou língua semi-pro-drop veio espelhar
esse desenquadramento face às concepções anteriores e passou a evidenciar-se em
estudos relativos a línguas muito díspares. Por conseguinte, os trabalhos desenvolvidos,
por exemplo, relativamente ao Oevdalian (Rosenkvist, 2008 e 2009), ao Hebraico
Moderno (Melnik, 2007; Shlonsky, 2009), ao Iídiche (Prince, 1998), ao Finlandês (Dal
Pozzo & Guesser, 2010) e a esta língua em conjugação com o Português do Brasil e o
Marathi (Holmberg et al., 2009) revelaram que estaríamos perante línguas deste género.
Nos trabalhos de Rosenkvist (2008 e 2009) sobre o Oevdalian, este linguista
observa que os sujeitos de 1ª (wįð) e 2ª pessoas (įð) do plural são, em geral, nulos e que
todos os outros pronomes referenciais e mesmo os não-referenciais são
obrigatoriamente realizados (tal como acontece noutras línguas vernáculas germânicas,
como o Bávaro ou o Frísio).
Melnik (2007) e Shlonsky (2009) apresentam investigações que esclarecem que, em
Hebraico Moderno, os sujeitos referenciais podem ser omitidos em orações finitas nas
3
Lobo (1995), pp. 2-3.
232
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
1ª e 2ª pessoas do passado ou do futuro e os sujeitos nulos não-referenciais são possíveis
em quase todos os contextos finitos.
Em Holmberg et al. (2009) e em Dal Pozzo & Guesser (2010), são analisadas
línguas como o Finlandês, o Português do Brasil e o Marathi. Nestes estudos,
demonstra-se que estas são línguas de sujeito nulo parcial no sentido de Holmberg
(2005), ou seja, línguas que permitem um sujeito referencial nulo, desde que este (i) seja
controlado por um antecedente numa oração mais alta ou (ii) tenha uma interpretação
genérica.
Nas investigações desenvolvidas sobre o Iídiche, Prince (1998) clarifica que, nesta
língua, os pronomes de qualquer pessoa e número podem ser nulos, desde que ocorram
em orações matriz declarativas, numa posição pré-verbal e que não surjam após um
COMP preenchido. A excepção a estas restrições existe com os pronomes expletivos
nulos, que podem ser omitidos pré ou pós-verbalmente.
Para além destas denominações e das análises desenvolvidas por estes linguistas,
surge ainda, em estudos relacionados com o Caboverdiano de Costa & Pratas (2008) e
de Alexandre (2009), uma outra designação muito semelhante, ou seja, a indicação
desta língua como uma língua não-pro-drop de sujeito argumental. Nestes trabalhos,
são expostas as propriedades do PSN do Caboverdiano, para, assim, se legitimar tal
designação.
No que respeita à propriedade de omissão fonética do sujeito em orações finitas, os
sujeitos referenciais nulos são proibidos em orações matriz (15a) nesta língua. Contudo,
os sujeitos expletivos são obrigatoriamente nulos (15b).
(15a) N sta duenti. / * Sta duenti.
Estou doente.
(15b) Sata txobe na Lisboa.
Está a chover em Lisboa.
Quanto à inversão sujeito-verbo, a inversão não é possível (16a), excepto com
verbos inacusativos com argumentos indefinidos (16b) (16c).
(16a) * Le Djon livru.
Ler Djon livro.
(16b) (dja) Txiga tres omi.
(TMA) chegar três homens
(16c) * (dja) Txiga Djon.
(TMA) chegar Djon.
Para além deste aspecto, deve ainda salientar-se que, em construções passivas, o
sujeito pode ocorrer numa posição pós-verbal (17) (cf. Alexandre, 2009).
233
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
(17) Dipos di un sumana di buska, atxadu
un mos na
Depois de uma semana de busca encontrado um rapaz em
kebra kanela.
[praia de] ‘quebra canela’.
Em Caboverdiano, no tocante à presença de morfologia rica de concordância
verbal, é de evidenciar a total inexistência de flexão verbal em qualquer pessoa, número
ou tempo (18).
(18)
Número
Pessoa
Singular
Plural
1ª
N kanta
Nu kanta
2ª
Bu kanta
Nhos kanta
3ª
E kanta
Es kanta
Finalmente, importa referir, para ultimar a caracterização do PSN desta língua, que,
quanto aos sujeitos nulos em orações encaixadas, os sujeitos referenciais nulos são, no
geral, proibidos. Contudo, poderão e deverão ocorrer em alguns contextos encaixados
(19) (20).
(19)
a) Kenha ki ta
atxa m-e
spertu labanta mo.
Quem KI TMA achar COMP-ser esperto levantar mão
«Quem acha que é esperto ponha a mão no ar.»
(quem = suj. encaixado)
b) Kenha ki ta
atxa ma
el e spertu labanta mo.
Quem KI TMA achar COMP 3SG ser esperto levantar mão
«Quem acha que ele/ela é esperto ponha a mão no ar.»
(quem ≠ suj. encaixado)
(20)
a) Ningen ka
ta
atxa
livru ki
perdeba.
Ninguém NEG TMA encontrar livro REL perder TMA
«Ninguém achou o livro que tinha perdido.»
(ninguém = suj. encaixado)
b) Ningen ka
ta
atxa
livru ki-e
perdeba.
Ninguém NEG TMA encontrar livro REL-3SG perder TMA
«Ninguém achou o livro que ele/ela tinha perdido.
(ninguém ≠ suj. encaixado)
234
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
Note-se que, em Caboverdiano, os sujeitos referenciais nulos não são opcionais mas
obrigatórios, em orações encaixadas onde haja leitura conjunta com um operador-wh
(19) ou com quantificadores como ningen (20) 4.
Depois de analisarmos, de uma perspectiva atenta, as propriedades do PSN do
Caboverdiano, bem como de outras línguas, é agora objectivo deste trabalho
desenvolver uma pesquisa similar relativamente ao Tétum-Díli. Todavia, esta é uma
língua por investigar a este respeito. Por conseguinte, duas questões surgem de imediato
para a realização do nosso trabalho: i) como se comporta o Tétum-Díli no que toca às
propriedades do PSN; ii) com base nesse comportamento, qual será o seu estatuto
relativamente ao PSN. É com o claro intuito de responder a estas questões que as
secções seguintes apresentam o estudo desenvolvido para a caracterização do PSN do
Tétum-Díli.
2. O Tétum-Díli
Em Timor-Leste, existe uma variedade de línguas e dialectos muito considerável 5.
De entre as dezasseis línguas faladas, destaca-se claramente o Tétum, língua da qual
também existem variedades muito distintas.
O Tétum-térique é uma variedade da língua hoje falada essencialmente na região de
Soibada, sendo também percepcionada como uma variedade utilizada especialmente em
contextos literários e mais eruditos. Outra das variedades desta língua é o Tétum
ocidental ou “Belunês”, o qual é de influência malaia e é falado na região oriental do
Timor indonésio (portanto, perto da fronteira com Timor-Leste) e ainda nos distritos de
Balibó e Suai. Finalmente, existe ainda a variedade conhecida como Tétum-Díli
(designação equivalente às de Tétum-praça ou de Tétum-oficial), que é língua franca
nacional, sendo oficial a par do Português e língua materna dos falantes do distrito de
Díli. Neste estudo, é esta última variedade que nos propomos investigar, pela sua nítida
relevância no panorama linguístico, social, político e educacional de Timor-Leste.
Antes de avançarmos para a descrição das propriedades do PSN desta língua, será
relevante apontar algumas das suas características linguísticas mais gerais. Assim,
devemos referir que o Tétum-Díli é uma língua SVO desprovida de morfologia de
flexão verbal, quer de número, quer de pessoa ou de tempo, ou seja, as formas verbais
são completamente invariáveis. Como tal, a ordem de palavras numa frase tétum é de
extrema importância, visto ser a posição das mesmas que determinará a sua função.
Importa ainda salientar que o Tétum-Díli é uma língua apenas com pronomes fortes, ao
contrário de línguas como o Português Europeu ou ainda o Caboverdiano.
«Os pronomes não mudam de forma segundo a sua relação com o verbo. Por outras
palavras, não há a distinção feita em português entre eu e me, ele e o, nós e nos,
etc.» 6
4
Os exemplos em (15), (16), (18), (19) e (20) foram retirados do estudo de Costa & Pratas (2008).
Para uma leitura um pouco mais extensa sobre o enquadramento linguístico do Tétum-Díli, veja-se, a título de
exemplo, o capítulo 1 de Deus (2009).
5
235
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
2.1. As propriedades do PSN do Tétum-Díli
2.1.1. Omissão fonética do sujeito em orações finitas
Em Tétum-Díli, não é possível omitir sujeitos referenciais em orações matriz (21).
Se o mesmo for omitido, a oração torna-se agramatical.
(21)
*(nia) hakarak deskansa lalais
liu
de’it, maibé, bainhira nia para,
*(ele) querer descansar depressa muito apenas mas quando ele parar
nia iis
kotu i nia mate.
ele respiração cortar e ele morrer
«(…) ele quis descansar apenas um instante, mas, logo que ele parou, ele expirou e
ele morreu.»
Assim, em PE, a frase “ele parou, expirou e morreu” é gramatical. Contudo, para
que o seja em Tétum-Díli, o sujeito deverá surgir expresso diante de cada uma das
formas verbais, como em (21). Note-se que, nesta língua, os sujeitos referenciais nulos
não são possíveis em contextos matriz, nem em contextos de subordinação, nem de
coordenação.
À imagem do Caboverdiano, poderão, todavia, ocorrer sujeitos referenciais nulos
em contextos encaixados co-indexados com um operador-wh (22) 7. Assim, quando o
sujeito da oração encaixada é nulo nestes contextos (22a e 22b), ele tem
necessariamente uma leitura conjunta com o operador-wh. Ao passo que se for expresso
(22c e 22d), o sujeito da encaixada é disjunto de “quem”.
(22)
a) Se maka hanoin katak maka matenek, foti
liman.
Quem é que pensar COMP é que esperto levantar mão
«Quem pensa que é esperto 8, levante a mão.»
b) Se
maka hanoin katak han bolu, foti
liman.
Quem é que pensar COMP comer bolo levantar mão
«Quem pensa que come bolo, levante a mão.»
(quem = suj. encaixado)
c) Se
maka hanoin katak nia
maka matenek, foti
liman.
Quem é que pensar COMP ele/ela é que esperto levantar mão
«Quem pensa que ele/ela é esperto, levante a mão.»
d) Se
maka hanoin katak nia
han bolu, foti
liman.
Quem é que pensar COMP ele/ela comer bolo levantar mão
«Quem pensa que ele/ela come bolo, levante a mão.»
(quem ≠ suj. encaixado)
6
Hull (2005), p. 26.
Note-se que, em Tétum-Díli, os verbos de cópula não têm realização fonética.
8
Na frase Nia matenek. («Ele é esperto.»), por exemplo, estamos perante um sujeito frásico com caso nominativo, o
que demonstra que existe uma estrutura oracional inerente a este tipo de adjectivos. O que aqui temos é uma
construção predicativa, sendo que o mesmo tipo de construção surge dos exemplos 29 a 32.
7
236
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
Ao contrário do Caboverdiano, em Tétum-Díli, os sujeitos referenciais nulos são,
todavia, proibidos se o antecedente for um quantificador (23). Deve salientar-se que
nesta língua, os quantificadores como ninguém, alguém ou todos não são expressos
através de uma palavra, como em PE ou em Caboverdiano, mas através de uma
expressão.
(23)
a) La iha ema ida maka hetan
livru sira-ne’ebé maka *(nia) halakon.
não haver pessoa uma que encontrar livro PL qué que perder
«Ninguém encontrou os livros que perdeu.»
b) Ema hotu-hotu hetan
livru sira-ne’ebé maka *(sira) halakon.
pessoa todo
encontrar livro PL qué que perder
«Todos encontraram os livros que perderam.»
2.1.2. Inversão sujeito-verbo
Em Tétum-Díli, não é possível a inversão sujeito-verbo com nenhum tipo de
verbos, mesmo quando o sujeito é indefinido (24) (25) (26).
Inversão com verbos transitivos:
(24a) lafaek fó
nia an
atu labarik.
crocodilo oferecer ele próprio para rapaz
(24b) * fó
lafaek
nia an
atu labarik.
oferecer crocodilo ele próprio para rapaz
«(…) ofereceu o crocodilo transporte ao rapaz (…)»
Inversão com verbos inergativos:
(25a) lafaek
mehi. / (25b) * mehi lafaek.
crocodilo sonhar /
sonhar crocodilo
«(…) tinha sonhado o crocodilo.»
Inversão com verbos inacusativos:
(26a) labarik ida to’o. / (26b)* to’o labarik ida.
rapaz um chegar /
chegar rapaz um
«(…) chegou um rapaz (…)»
Em Tétum-Díli, não existem construções passivas, ao contrário do que sucede em
9
PE . O que se observa é uma transformação constante das estruturas passivas em activas
(27a) (27b) (27c) e (27d) ou uma topicalização do paciente (27e):
9
Cf. Hull & Eccles (2005), pp. 116-118.
237
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
(27)
a) Ema
hola
livru tolo.
Pessoas comprar livro três
«Foram comprados três livros.»
b) Ana halo bolu xokolate. / c) Ana maka halo bolu xokolate ne’e.
Ana fazer bolo chocolate / Ana é que fazer bolo chocolate este
«O bolo de chocolate foi feito pela Ana.»
d) Ana halo bolu xokolate. / e) Bolu xokolate ne’e, Ana maka halo.
Ana fazer bolo chocolate / Bolo chocolate este Ana é que fazer
«Foi feito um bolo de chocolate pela Ana.»
2.1.3. Presença de morfologia rica de concordância verbal
Em Tétum-Díli, tal como em Caboverdiano, não há qualquer tipo de morfologia de
flexão verbal de pessoa, de número ou de tempo (28) 10.
(28)
Português Europeu
Tétum-Díli
Eu falo
Ha’u ko’alia
Tu falas
Ita / O ko’alia
Ele/Ela/Você fala
Nia ko’alia
Nós falamos
Ita / Ami ko’alia
Vós falais
Imi ko’alia
Eles/Elas/Vocês falam
Sira ko’alia
Se todas as propriedades do Tétum-Díli até agora analisadas parecem substanciar o
seu estatuto como língua não-pro-drop, vejamos a propriedade que se segue.
2.1.4. Construções expletivas
O Tétum-Díli nunca tem sujeitos não-argumentais – expletivos – foneticamente
realizados. Assim, esta língua requer que os sujeitos expletivos sejam omitidos em
estruturas com o verbo existencial haver (29), em construções com extraposição do
sujeito (30) e em algumas construções impessoais (31) (32):
Estruturas com o verbo existencial haver:
(29) Foufoun, iha de’it kolega timoroan uitoan,
maibé agora iha barak ona.
Princípio haver só colega timorense um pouco mas agora haver muito já
«No princípio, havia poucos colegas timorenses, mas agora há muitos.»
Construções com extraposição do sujeito:
10
Cf. Deus (2009).
238
O TÉTUM-DÍLI COMO LÍNGUA NÃO-PRO-DROP: NA SENDA DO CABOVERDIANO
(30) (Maka)
importante atu…
Isto mesmo/é que importante que
«É importante que…»
Construções impessoais:
(31) Tarde.
(32) (Maka)
tais.
Tarde
Isto mesmo/É que tais
«(…) era tarde.» «São tais.»
2.2. O Tétum-Díli e o Caboverdiano
Ao longo da nossa análise, tornou-se evidente a proximidade existente entre o
Tétum-Díli e o Caboverdiano, no tocante às suas propriedades do PSN, e daí o recurso a
uma comparação entre ambas as línguas e às investigações desenvolvidas em relação ao
Caboverdiano.
Na verdade, foi de extremo interesse verificar que são diversos os pontos em que as
duas línguas se tocam, tais como a impossibilidade de sujeitos referenciais nulos em
orações matriz, a omissão do sujeito em orações encaixadas e ainda em construções
expletivas e a ausência de inversão sujeito-verbo e de um paradigma verbal rico.
Todavia, houve um claro ponto de distanciamento entre as duas línguas, a saber, a
inversão sujeito-verbo com verbos inacusativos com argumentos indefinidos, a qual é
possível em Caboverdiano, mas interdita em Tétum-Díli.
Esta semelhança entre ambas as línguas torna-se obviamente relevante, ao
considerarmos uma proposta para um enquadramento do Tétum-Díli, relativamente ao
PSN, visto que o seu estatuto vai muito ao encontro do que já foi delineado por diversos
linguistas para o Caboverdiano.
3. O estatuto do Tétum-Díli
Após um estudo atento de todas as propriedades do seu PSN, propomos neste
trabalho que o Tétum-Díli é claramente uma língua não-pro-drop.
Esta proposta pressupõe, assim, que os sujeitos expletivos não são relevantes para o
PSN, mas apenas os sujeitos referenciais, de acordo com análises já apresentadas por
vários linguistas.
McCloskey (1996), por exemplo, propõe que o EPP é parametrizado. A distinção é
feita entre línguas em que o EPP pode estar inactivo e línguas em que está activo, o que
implica a não-universalidade do EPP. No primeiro tipo de línguas, SpecIP será
projectado apenas quando necessário, sendo que a sua projecção poderá ser requerida
pelo Princípio da Projecção, no caso de sujeitos argumentais. No caso de sujeitos
expletivos, a sua projecção não é necessária e, portanto, não é projectado.
No mesmo sentido, Pratas (2007) e Costa & Pratas (2008) propõem que, estando o
EPP sujeito a variação paramétrica, a posição de Spec,TP é apenas projectada quando é
necessário, o que não acontece nas construções expletivas. Num artigo recentemente
239
XXVI ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
submetido, Costa & Pratas (2008) sugerem ainda que os mecanismos de legitimação dos
sujeitos expletivos nulos são independentes dos de sujeitos nulos referenciais (contra
Rizzi, 1982), não fazendo parte do mesmo fenómeno.
Por conseguinte, a presente análise propõe que, estando o EPP sujeito a variação
paramétrica e sendo o valor deste parâmetro negativo em Tétum-Díli, a posição Spec,TP
não é projectada nas construções expletivas. Assim, assumimos que o EPP não é
decisivo para determinar a existência da categoria vazia pro.
Resta, finalmente, justificar a impossibilidade de inversão com verbos inacusativos
no âmbito desta proposta. No entanto, note-se que este factor não é um impedimento ao
estatuto não-pro-drop do Tétum-Díli. Se adoptarmos a perspectiva de que os sujeitos
referenciais nulos e expletivos nulos fazem parte do mesmo fenómeno, a ausência de
inversão é um ponto que inclusivamente favorece o argumento não-pro-drop. Contudo,
se, por outro lado, virmos os sujeitos referenciais nulos e os expletivos nulos como
fenómenos diferentes, a ausência de inversão não se poderá assumir como um
argumento contra o estatuto não-pro-drop desta língua.
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