Revista Brasileira de História da Educação Respeite o direito autoral Reprodução não autorizada é crime Revista Brasileira de História da Educação Publicação semestral da Sociedade Brasileira de História da Educação – SBHE Revista Sociedade Brasileira de História da Educação – SBHE Conselho Diretor Dermeval Saviani (UNICAMP); Marta Maria Chagas de Carvalho (PUC-SP); Ana Waleska Pollo Campos Mendonça (PUC-Rio); Libânia Nacif Xavier (UFRJ). A Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE), fundada em 28 de setembro de 1999, é uma sociedade civil sem fins lucrativos, pessoa jurídica de direito privado. Tem como objetivos congregar profissionais brasileiros que realizam atividades de pesquisa e/ou docência em História da Educação e estimular estudos interdisciplinares, promovendo intercâmbios com entidades congêneres nacionais e internacionais e especialistas de áreas afins. É filiada à ISCHE (International Standing Conference for the History of Education), a Associação Internacional de História da Educação. Comissão Editorial José Gonçalves Gondra (UERJ); Marcos Cezar de Freitas (PUC-SP); Maria Lúcia Spedo Hilsdorf (USP); Maurilane de Sousa Biccas (USP). Secretaria – Maria Cristina Moreira da Silva Conselho Consultivo Membros nacionais: Álvaro Albuquerque (UFAC); Ana Chrystina Venâncio Mignot (UERJ); Ana Maria Casassanta Peixoto (SEDMG); Clarice Nunes (UFF e UNESA); Décio Gatti Jr. (UFU e Centro Universitário do Triângulo); Denice B. Catani (USP); Ester Buffa (UFSCAR); Gilberto Luiz Alves (UEMS); Jane Soares de Almeida (UNESP); José Silvério Baia Horta (UFRJ); Luciano Mendes de Faria Filho (UFMG); Lúcio Kreutz (UNISINOS); Maria Arisnete Câmara de Moraes (UFRN); Maria de Lourdes de A. Fávero (UFRJ); Maria do Amparo Borges Ferro (UFPI); Maria Helena Camara Bastos (PUCRS); Maria Stephanou (UFRGS); Marta Maria de Araújo (UFRN); Paolo Nosella (UFSCAR). Membros internacionais: Anne-Marie Chartier (França); António Nóvoa (Portugal); Antonio Viñao Frago (Espanha); Dario Ragazzini (Itália); David Hamilton (Suécia); Nicolás Cruz (Chile); Roberto Rodriguez (México); Rogério Fernandes (Portugal); Silvina Gvirtz (Argentina); Thérèse Hamel (Canadá). Diretoria Nacional Presidente: Diana Gonçalves Vidal (USP) Vice-presidente: Luciano Mendes de Faria Filho (UFMG) Secretária: Libânia Xavier (UFRJ) Tesoureiro: Jorge Luiz da Cunha (UFSM) Diretores Regionais Norte: Titular: Maria das Graças Sá Peixoto Pinheiro (UFAM), Suplente: Andréa Lopes Dantas (UFAC) Nordeste: Titular: Ana Maria de Oliveira Galvão (UFPE) Suplente: Jorge Carvalho do Nascimento (UFSE) Centro-Oeste: Titular: Maria de Araújo Nepomuceno (UCG) Suplente: Regina Tereza Cestari de Oliveira (UFMS) Sudeste: Titular: José Carlos de Souza Araújo (UFU) Suplente: Rosa Fátima de Souza (UNESP) Sul: Titular: Maria Elisabeth Blanck Miguel (PUC-PR) Suplente: Flávia Werle (UNISINOS) COMERCIALIZAÇÃO Editora Autores Associados Av. Albino J. B. de Oliveira, 901 CEP 13084-008 – Barão Geraldo Campinas (SP) Pabx/Fax: (19) 3289-5930 e-mail: [email protected] www.autoresassociados.com.br Indexada em/Indexed in: BBE – Bibliografia Brasileira de Educação (Brasil, Inep) EDUBASE (Brasil, FE/UNICAMP) Secretaria Rev. Bras. de História da Educação Faculdade de Educação Universidade de São Paulo Av. da Universidade, 308 – Bloco A – sala 219 CEP 05508-900 – São Paulo-SP Tel.: (11) 3091-3195 – ramal 282 E-mail: [email protected] Versão on-line/version online: http://www.sbhe.org.br/ ISSN 1519-5902 julho/dezembro 2005 no 10 H Revista Brasileira de ISTÓRIA da EDUCAÇÃO SBHE Sociedade Brasileira de História da Educação A publicação deste no 10 da Revista Brasileira de História da Educação contou com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq – Entidade Governamental Brasileira Promotora do Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Revista Brasileira de História da Educação ISSN 1519-5902 1º NÚMERO – 2001 Editora Autores Associados – Campinas-SP EDITORA AUTORES ASSOCIADOS LTDA. Uma editora educativa a serviço da cultura brasileira Av. Albino J. B. de Oliveira, 901 Barão Geraldo – CEP 13084-008 Campinas-SP – Pabx/Fax: (19) 3289-5930 e-mail: [email protected] Catálogo on-line: www.autoresassociados.com.br Conselho Editorial “Prof. Casemiro dos Reis Filho” Bernardete A. Gatti Carlos Roberto Jamil Cury Dermeval Saviani Gilberta S. de M. Jannuzzi Maria Aparecida Motta Walter E. Garcia Diretor Executivo Flávio Baldy dos Reis Coordenadora Editorial Érica Bombardi Assistente Editorial Aline Marques Revisão Edson Estavarengo Jr. Rodrigo Nascimento Leo Agapyev de Andrade Diagramação e Composição DPG Ltda. Projeto Gráfico e Capa Érica Bombardi Arte-final Érica Bombardi Impressão e Acabamento Gráfica Paym Sumário CONTENTS 7 EDITORIAL 9 ARTIGOS A Politicagem na instrução pública da Amazônica Imperial: combates à política d’aldeia Irma Rizzini O carteiro e o educador: práticas polítcas na escrita epistolar Ana Chrystina Venâncio Mignot 11 45 DOSSIÊ Arquivos escolares: desafios à prática e à pesquisa em história da educação Apresentação Diana Gonçalves Vidal 71 Arquivos e educação: a construção da memória educativa Maria João Mogarro 75 Arquivos ou museus: qual o lugar dos acervos escolares? Jacy Machado Barletta 101 Reconstituindo arquivos escolares: a experiência do GEM/MT Elizabeth Madureira Siqueira 123 O lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar Iomar Barbosa Zaia 153 Arquivos escolares virtuais: considerações sobre uma prática de pesquisa Wagner Rodrigues Valente 175 Os arquivos escolares como fonte para a história da educação Nailda Marinho da Costa Bonato 193 RESENHA História das Disciplinas Escolares no Brasil: contribuições para o debate Por Rita Cristina Lima Lages 221 ORIENTAÇÃO AOS COLABORADORES 229 Contents EDITORIAL 9 ARTICLES The local Politics on the public introduction in the Imperial Amazon combats the aldeia´s politics Irma Rizzini The mailman and the educator: political practices in epistolary writing Ana Chrystina Venancio Mignot 12 46 DOSSIER SCHOOLS ARCHIVES: CHALENGES IN RESEARCH IN HISTORY OF THE EDUCATION Presentation Diana Gonçalves Vidal 72 Archives and education: the constitution of the educational memory Maria João Mogarro 76 Archives or museum: what place the school files? Jacy Machado Barletta 102 Reconstituing school archives: the experience of GEM/MT Elizabeth Madureira Siqueira 124 The place of permanent archives into the center of memory of the schooler Iomar Barbosa Zaia 154 School archives virtues: considerations about a practice of research Wagner Rodrigues Valente 176 The school archives as a source for the history of the education Nailda Marinho da Costa Bonato 194 BOOK REVIEWS History of School Subjects in Brazil: Contributions for the debate By Rita Cristina Lima Lages 221 GUIDES FOR AUTHORS 229 Editorial A Revista Brasileira de História da Educação chega ao seu décimo número e continuamos investindo em mudanças necessárias para o aprimoramento do seu projeto editorial e acadêmico qualificando nosso impresso para os padrões nacionais e internacionais. Neste número foram incluídas as seguintes mudanças: a) na apresentação dos artigos passam a figurar em seqüência, o título em português, resumo, o título em inglês e o abstract; b) no final dos artigos, os leitores passam a ter informações sobre os endereços para contato com os autores; c) ainda no final do texto ficam explícitas as datas de envio e aprovação e reformulação dos artigos, dossiê e resenhas. Estamos ainda introduzindo novos procedimentos e instrumentos internos para a gestão da revista junto aos autores e pareceristas, buscando assim melhorar a eficiência da comunicação, para isto foi criado um novo e-mail: [email protected]. Investiremos no próximo trimestre na indexação da RBHE nas principais bases de dados da área da educação nacional e internacional. Pretendemos disponibilizar virtualmente na página da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE) os dez números já editados e as edições futuras, o que irá facilitar uma maior divulgação do nosso trabalho e possibilitar o acesso da produção realizada a um público maior, tanto no território nacional como também do exterior. Reiteramos ainda o convite a todos os pesquisadores da historiografia da educação brasileira para que continuem encaminhando de maneira contínua e sistemática artigos, propostas de traduções, participando da organização de dossiês temáticos e etc. 10 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 O editorial deste número comparece com dois artigos bastante instigantes e um dossiê composto por cinco artigos sobre o tema: arquivos e educação: a constituição da memória educativa. Figura também neste número uma resenha. Comissão Editorial A politicagem na instrução pública da Amazônia imperial combates à política d’aldeia Irma Rizzin* Resumo: Neste artigo a autora analisa os conflitos gerados pelas práticas do patronato e da politicagem na instrução pública primária da Amazônia brasileira (1870-1889), especialmente no interior do Pará e do Amazonas. Percebe-se, pelos discursos oficiais e denúncias nos jornais, de pais e moradores das pequenas localidades, que a interferência da política eleitoral na educação atingia diretamente o cotidiano escolar. Embora diversas iniciativas regulamentares tenham sido tomadas ao longo do Segundo Reinado, de forma a preservar a escola pública da sanha clientelista das autoridades, o uso politiqueiro da instrução persistiu até o final do Império, pejorativamente identificado à política d’aldeia, conforme destacam os relatórios de diretores da instrução e visitadores escolares. AMAZÔNIA; AMAZONAS; PARÁ; HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO; EDUCAÇÃO PÚBLICA; CLIENTELISMO. * Doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)/ (bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ). The local Politics on the public introduction in the Imperial Amazon combats the aldeia´s politics Irma Rizzin* Abstract: In this article the author analyses the conflicts that resulted from the practices of the local politics in the primary education system at Brazilian Amazon (1870-1889), particularly in the heart of Pará and Amazonas. It becomes clear from the official discourses and from the complaints by parents and inhabitants from small localities, published in newspapers, that the local election politics interfered directly in the daily school life. Despite the fact that several regulatory initiatives took place during the 19th century, in an attempt to protect the public school system from the clientalism of the Brazilian authorities, the negative influence of such local politics remained until the end of the Imperial period, as highlighted by the reports issued by the school principals and inspectors. AMAZON; AMAZONAS; PARÁ; HISTORY OF EDUCATION; PUBLIC EDUCATION; LOCAL POLITICS. * Doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)/ (bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ). a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 13 Introdução Seja um bom capanga eleitoral, será também um bom professor!1 A constituição, 8 ago. 1882 Ao longo do Segundo Reinado, o movimento de regulamentação da instituição escolar, de uniformização e profissionalização da prática docente, intensificou-se nas províncias do Pará e do Amazonas. O processo de afirmação da escola elementar, nas capitais e no interior, marcado pelos conflitos entre governo, população e professorado, sofreu a ingerência direta dos interesses políticos, eleitorais e do clientelismo do Estado. Este artigo debruça-se sobre as tensões geradas por esse processo, tornadas públicas por meio dos intensos debates propiciados pela imprensa local. Os jornais locais mostraram o quanto a imprensa estava comprometida com a educação popular na região, analisando, combatendo, propondo reformas ou enaltecendo as suas instituições educacionais. Um exemplo refere-se às colunas “a pedidos” ou “solicitados” dos jornais paraenses, as quais retratavam os conflitos envolvendo delegados literários, professores, professoras e seus cônjuges, alunos e pais. Aldrin Moura de Figueiredo (s.d., p. 3), muito propriamente, observa que as transcrições das cartas vindas de paragens distantes nas colunas das gazetas paraenses diminuíam as excessivas distâncias da região amazônica. Os contatos entre o interior e a capital eram amplos, quase sempre estabelecidos pelas relações políticas e partidárias, amparadas pelos laços familiares. Vários jornais do Pará e do Amazonas do período foram consultados, no entanto, privilegiamos para análise as cartas das gazetas paraenses A Província do Pará e A Constituição, pela atenção dada ao tema da instrução pública e, especialmente, pela publicação das cartas e abaixoassinados de pais e moradores a respeito das escolas públicas de seus 1. A Constituição, Belém, 8 de agosto de 1882 (Carta de um morador da Vila de Muaná, Pará, de 16 de julho de 1882). 14 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 filhos e protegidos. Sendo o primeiro simpatizante do partido liberal, e o segundo, órgão do partido conservador, não é difícil imaginar que a abordagem das ações educacionais na província estivesse condicionada às posições políticas de cada folha. As cartas refletem esse posicionamento, através do rodízio de denúncias contra a administração pública, de acordo com a situação dominante: liberais no poder, cartas e artigos acusatórios publicados n’A Constituição e vice-versa2. É impossível e até desnecessário entrar no mérito do que era verdadeiro ou falso; a publicação das cartas indica que tais ocorrências, algumas relacionadas a questões íntimas das vidas desses atores, eram possíveis e pertenciam à construção da experiência escolar na província. O fato de tornar público os conflitos do cotidiano escolar sugere que as vivências e as questões pertinentes à instrução pública eram de interesse de um grupo mais extenso do que o dos representantes do Estado. O Pará tinha um corpo significativo de escolas, alunos, docentes e inspetores; as relações entre estes níveis extrapolavam o interesse da Diretoria de Instrução, pois repercutiam nas famílias e fomentavam os embates partidários, quando a divulgação das denúncias tinha o claro propósito de demonstrar a decadência da instrução promovida pelo governo opositor. Os jornais amazonenses não recuaram ante o tema da instrução e da educação do povo, foco de discussões em todo o Império. Entretanto, os paraenses cederam espaço à crônica escolar de uma forma pouco freqüente na imprensa da província vizinha. Em todo o Império brasileiro, as províncias lutavam por firmar o modelo escolar e fomentar, entre a população, a aceitação e até a demanda da educação oferecida pelo Estado. Na Amazônia, a interiorização da escola pública tornou-se uma meta dos governos, sobretudo, a partir da década de 1870. O crescimento do número de escolas masculinas e femininas nas duas últimas décadas do Império é notório na região, nas capitais, cidades, vilas e povoados do interior. Em se tratando de uma extensa área geográfica, que ocupava cerca da metade do terri- 2. O jornal A Constituição foi fundado em 1874 e A Província do Pará em 1876, na cidade de Belém. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 15 tório brasileiro, com baixíssima densidade populacional, o esforço de disseminar a instrução popular é digno de nota. Outras características populacionais impunham dificuldades ao projeto educacional, como a diversidade étnica e as atividades a que as famílias se dedicavam, obrigando-as a uma mobilidade desfavorável à continuidade exigida pela formação escolar. A despeito dos obstáculos exaustivamente descritos pelas autoridades da instrução pública, a população do interior não necessariamente rejeitou o esforço educacional dos governos. Pais de famílias e demais moradores dos povoados, sobretudo no Pará, absorveram a escola como um projeto para seus filhos, cobrando dos poderes públicos tudo o que entendiam ser necessário para a plena formatação da escola. A escola pública da Amazônia imperial é uma instituição que desbravou os desertos da região, instalando-se nos locais onde houvesse 10 ou 15 crianças para estudar. Nascia enraizada na pequena localidade, pois geralmente a proposta de sua criação provinha do próprio local, por professores ou moradores. Embora fosse uma instituição do Estado no meio da selva, devendo atender às normas e exigências regulamentares, estava imiscuída na política local. Mas não ignorou as demandas e necessidades dos pais, correspondendo, por exemplo, à necessidade de mobilidade acarretada pelas atividades laborais de muitos, nos casos em que escolas eram transferidas de local em determinado período do ano. Nas décadas de 1870 e de 1880, o debate relativo à educação do povo expandiu-se do âmbito governamental, envolvendo a sociedade letrada de Belém e Manaus, sob a influência das idéias liberais e sob o domínio das paixões partidárias. A educação tornava-se uma prioridade para liberais e conservadores. Atentos às grandes questões do Século das Luzes, governantes e governados estavam com os pés fincados na terra local, utilizando intensamente os recursos oferecidos pelas instituições educacionais em benefício dos mecanismos eleitorais. As demissões e novas admissões de professores e funcionários das instituições educacionais públicas, nos períodos de mudança de gabinete, incendiavam as discussões nos jornais de Belém e Manaus. Os diretores da instrução pública não se cansaram de repudiar o envolvimento de 16 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 professores no processo eleitoral das cidades, vilas e povoados do interior. Pais de alunos e moradores das pequenas localidades do interior das províncias forçaram a abertura de nichos de participação nas questões da instrução oficial, através das cartas aos jornais e às diretorias de instrução pública. Para o “bem” ou para o “mal”, a educação do povo alcançou uma posição de destaque na região, no âmbito da população, do Estado e da Igreja. A política d’aldeia foi o grande vilão da instrução popular do Pará – raro é o relatório provincial que não a menciona. Como veremos a seguir, através da imprensa é possível perceber como essa política agia, como interferia no cotidiano na escola e como os familiares, tutores e protetores dos alunos reagiam a essa força com que os setores públicos e privados, ao mesmo tempo em que se empenhavam numa luta de resistência, eram atraídos por ela. Atribuía-se o fazer politica d’aldeia ou de botocudos ao adversário que, no âmbito da instrução pública, permitia a manutenção de práticas abusivas3. O termo remetia-se tanto às características das pequenas localidades quanto à vida selvagem de parte dos habitantes da província, que povoavam o imaginário das elites ilustradas de temores de serem confundidos com seres tidos por tão pouco civilizados. A expressão jocosa, usada no Senado pelo conselheiro Martinho Campos, quando chamou os paraenses de cidadãos de arco e flecha, fora rejeitada pela imprensa paraense, às vezes, de forma bemhumorada, como o fez o jornalista d’A Província do Pará ao comentar a notícia d’O Liberal do Pará, de que o frei Sebastiani quisera catequizar os paraenses no sermão dado na igreja de Nazareth, em Belém – “O culpado [pela idéa de catechisar-nos] é quem nos chama de cidadãos de arco e flexa, sem comprehender o mal que póde causar-nos a pilheria nos espiritos dos freis Sebastianis”4. 3. 4. A Província do Pará, Belém, 23 de outubro de 1877. O termo foi empregado quando o jornal analisava o critério da freqüência mínima para o fechamento de escolas, o qual, não teria sido respeitado pelo governo paraense. A Província do Pará, Belém, 11 de abril de 1885. O presidente do Amazonas José Paranaguá, em carta ao Barão de Loreto, comenta o assunto (Manaus, carta de 18 de janeiro de 1884. Arquivo Nacional, GF-Coleção Barão de Loreto). a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 17 Entre pais, chefes de família e mandões d’aldeia: imagens e usos da escola As três categorias citadas nesse título são referendadas na documentação em relação às povoações e escolas do interior. Dificilmente são encontradas referências às famílias das capitais, e as lideranças entre os moradores são sempre relativas às cidades, vilas e povoações afastadas do centro do poder público alocado em Belém e Manaus. São categorias extraídas do senso comum, que circulavam nos diversos textos relativos à educação, portanto, seus autores não se preocuparam em descrevê-las com maior acuidade. Pais e chefes de família são tratados aqui como duas categorias diferenciadas, porque pudemos perceber essa forma de uso nos textos. Os pais são geralmente lembrados quando se tenta expor a indiferença, a repugnância e a ignorância manifestadas quando se trata da instrução dos filhos, portanto a categoria surge carregada de negatividade. Os chefes ou pais de família, em sentido positivo, são lembrados como vítimas da incúria de professores e inspetores escolares, basicamente citados nas cartas de moradores publicadas nos jornais. O termo impõe uma respeitabilidade exigida pelos missivistas quando se sentem aviltados pela imoralidade ou incompetência dos executores da instrução. Os mandões são os chefes locais, sempre empregados pelos autores de forma pejorativa. Mandões podem ser os homens mais ricos da localidade, porém geralmente estão relacionados aos poderes do Estado, tais como, militares, representantes das câmaras municipais e juízes. Eles mandam na aldeia, outra referência negativa associada aos pequenos núcleos populacionais, sem deixar de evocar os traços indígenas dos modos de vida de grande parte da população. A indiferença dos pais pela instrução dos filhos é uma das principais causas atribuídas ao “atraso da instrução” na região, em todo o Segundo Reinado, especialmente no Amazonas. No período 1870-1889, os pais do interior serão lembrados principalmente por esse descuido, explicado pela “indiferença senão repugnancia pela instrucção da infância” nos lugares distantes e pouco povoados. Já nos grandes povoados, habitados por uma “população mais desenvolvida pela educação”, haveria maior recepção dos pais à instrução da infância, podendo-se ampliar o 18 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ensino público. Portanto, para o diretor da instrução amazonense, a educação oferecida deveria ser diferenciada, conforme as “necessidades da população”, posição defendida por outros administradores. No entanto, na hora do planejamento, as propostas iam de encontro às percepções dos gestores sobre as necessidades do povo. Assim, o diretor Ramos Ferreira propôs que o ensino nas escolas das pequenas localidades do Amazonas se restringisse ao estritamente necessário, priorizando-se o ensino moral e religioso5. A ênfase nesse tipo de formação denota bem qual era a imagem das elites letradas sobre a população que vivia “disseminada” na região. No relatório do ano seguinte (1872), Ramos Ferreira volta ao tema após analisar o estado da instrução no Amazonas, respaldado pelas visitas feitas a escolas do interior. Dentre as causas que concorriam para retardar o desenvolvimento da instrução pública na província, a primeira arrolada foi a “indifferença ou repugnância da população pela instrucção e educação da infância”6. Nesse ponto, o diretor acusa a ignorância dos pais, mas não se furta de expor um problema interno à educação oferecida pelas escolas, “a repugancia [provém] da demora prolongada dos meninos nas escolas, de onde sahem no fim de 8 ou mais annos com pouco ou nenhum resultado [Pará, 25 mar. 1875, anexo 3, p. 2]. A permanência de oito anos na escola é surpreendente quando está referindo-se a pais que não dariam importância à educação oferecida 5. 6. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. Em Amazonas, 25 mar. 1871, anexo IV, pp. 2-4. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Amazonas. Em Amazonas, 25 mar. 1872, anexo 3, p. 2. Nesse período, os conceitos de instrução e educação diferenciam-se e tornam-se objetivos do ensino público, como mostrou Alessandra Martinez (1997) ao analisar a instrução na corte. O diretor amazonense preocupou-se em distinguir os dois objetivos ao discorrer sobre o estado da instrução na província. Para Ferreira, “A instrucção tem por objetcto e fim principal o desenvolvimento da intelligencia e a acquisição de copia d’idéas que sirvão para alcançar novos conhecimentos no decurso da vida”, e, “A educação tem por objecto e fim principal os costumes, a repressão dos máos instintos e o desenvolvimento das qualidades nobres do coração, que, habituando o homem á incessante abstenção do mal e á pratica constante do bem, o habilitão para ser util, no decurso da vida, á si e á humanidade de que faz parte” (Amazonas, 25 mar. 1872. grifos meus). a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 19 pelo Estado. Pela documentação disponível, não é possível resgatar o tempo de permanência das crianças nas escolas, nem tampouco os resultados do ensino, a não ser pelos exames finais dos quais poucos obtinham resultado favorável, dificuldade vivida por outras províncias. Quanto aos anos de estudos, os relatórios informam que a continuidade dos estudos primários de 2o grau não despertava o interesse da população, no caso do Pará. Tal aspecto não pôde ser checado para o Amazonas, já que os relatórios oficiais desta província não empregavam a categoria tipo ou nível da escola na estatística escolar. Uma notícia publicada em 1873, no jornal da diocese do Pará, A Boa Nova, evidencia como a noção da importância formadora da escola podia ser apropriada por um chefe local, levando-o a “aconselhar” os pais a mandarem filhos e filhas às escolas. Segundo o jornal, o tenentecoronel residente no Mosqueiro conseguiu vencer a repugnância de muitos pais, tornando a freqüência escolar digna de nota para uma população tão diminuta. O mandão d’aldeia é transformado pelo olhar religioso no anjo tutelar desse povo, sobretudo por ter estabelecido um “cordão sanitário” no local contra as “perniciosas e subversivas doutrinas” divulgadas pelas idéias maçônicas da folha O Pelicano. O militar hospedava o bispo do Pará, dom Antonio de Macedo Costa, que buscou a tranqüilidade da bucólica ilha para cuidar da saúde e de seu fiel rebanho, tendo rezado missa e explicado o evangelho de modo a ser compreendido pelo povo da freguesia7. Ao discorrer sobre as casas escolares na capital, o presidente do Pará volta-se aos pais, indicando ter expectativas mais amplas com relação ao pai de família, esperando dele não só o reconhecimento da utilidade de instruir o filho, mas que tomasse “contas ao mestre, sendo o principal fiscal e cooperador da honrosa tarefa de desenvolver a instrucção” – “não é conveniente esperar tudo do Estado” –, defende Vicente de Azevedo, preocupado tanto com a fiscalização das escolas e 7. A Boa Nova, Belém, 1 de outubro de 1873. Este foi um período de debates efervescentes a respeito das querelas entre os maçons e os bispos do Pará e de Olinda, personagens da chamada questão religiosa. 20 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 dos professores quanto com a precariedade do ensino particular, irrelevante numericamente no Pará e no Amazonas em meados da década de 1870, e muito inferior ao ensino primário público até o final do Império8. A fiscalização das escolas pelos pais de família, tornando-os aliados dos governos na causa da instrução do povo, é defendida em mais dois relatórios oficiais da década de 1880. O diretor da instrução no Pará, insatisfeito com as lutas políticas que comprometiam a fiscalização dos inspetores permanentes, propõe o incremento da “inspeção amovível das escolas”, em que os “pais de família” teriam uma participação estratégica ao relatarem suas queixas e votos, a serem registrados no relatório do visitador e publicados no jornal oficial. As seções oficiais dos jornais, em que eram publicados os “despachos da presidência”, nos advertem que essa participação ocorria por iniciativa dos próprios pais, através das representações contra professores, cabendo ao governo capitalizar essa verve fiscalizadora das famílias. “As escolas, disse eu, são o direito das populações”, proclamou o diretor da instrução paraense em 1885, apresentando uma série de propostas para ampliar o número de escolas e garantir a freqüência dos alunos, chegando a propor que em cada localidade onde houvesse a aglomeração permanente de 120 habitantes fosse instalada uma escola elementar para cada sexo e que onde residisse 300 indivíduos, uma efetiva, também para cada sexo9. A extinção de escolas com menos de 20 alunos, do interior do Amazonas em 1877, sob a administração de Pereira da Silva, levou os moradores de Badajós a dirigirem um abaixo-assinado ao governo pedindo o restabelecimento das escolas masculina e feminina (Amazonas, 1878, p. 8, 25 ago. 1878, p. 17). Esse tipo de reação das famílias e protetores 8. 9. Pará, 15 de fevereiro de 1874, p. 18. José Verissimo (1892), diretor da instrução paraense em 1890, considerou excessivo e desnecessário o número de estabelecimentos particulares no Estado (34, sendo 15 internatos). Entretanto, comparado com o ensino primário público (417 escolas, freqüência de 9.240 alunos), o ensino primário particular estava bem aquém (freqüência de 1.680 alunos). Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Pará. Em Pará, 18 de abril de 1885, anexo A, pp.105-107. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 21 raramente é mencionado na documentação oficial, mas é um registro importante que assinala que os pais não permaneceram impassíveis ante as políticas de criação e extinção de escolas adotadas pelos corpos de deputados da Assembléia Provincial e pelos administradores. As cartas e abaixo-assinados publicados nos jornais indicam esse pressuposto, embora não saibamos que pais eram esses, suas condições de vida e atividades laborais, posição na comunidade, nível de escolaridade, dentre outras características. No relatório de 1879, o leitor é informado que o professor designado para a povoação de Badajós assumiu a cadeira em abril do mesmo ano, mostrando que os abaixo-assinados repercutiam nas decisões governamentais (Pará, 28 ago. 1879, p. 36). Pedidos de mudanças do local da escola também chegavam à Diretoria da Instrução, conforme é relatado em 1875 pelo presidente do Pará. Os habitantes de vila Franca, acordados com os professores, solicitaram e obtiveram autorização para alternar entre dois distritos o funcionamento das escolas: de janeiro a junho, no 1o distrito, e de julho a dezembro, no 2o, conforme a “conveniencia dos ditos moradores e em aproveitamento dos alunos”. Outra mudança foi concedida à professora da freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Tocantins, que a pedido dos moradores, passou para o lugar denominado São Benedito. As mudanças podiam estar relacionadas às atividades laborais das famílias, as quais, visando manter os filhos nas escolas, entraram em acordo com os professores e com a administração pública (Pará, 17 jan. 1879, p. 23). No decorrer dos anos, a instrução primária, que tanto preocupara seus defensores quanto aos meios de torná-la obrigatória, dá indícios de estar sendo incorporada pela população como um direito. É o que o indicam os pedidos ou abaixo-assinados requerendo a estatização de escolas primárias particulares, a criação de novas escolas e apresentando queixas de professores10. 10. A lei n. 1547 de 1883 previa no artigo 43 a subvenção pelo governo paraense à escola particular freqüentada por mais de 15 alunos, onde não houvesse escola pública ou subvencionada pela província, tendo direito a uma subvenção anual de 400$, não podendo recusar a matrícula aos alunos que a procurassem. Na discussão da lei pelos deputados provinciais, a opinião defendida pela maioria era a de 22 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 O conselho diretor da instrução do Pará – criado para auxiliar os diretores na avaliação das reclamações, pedidos etc. de professores, pais e demais envolvidos no ramo – recebeu em 1885 um abaixo-assinado de moradores da povoação Jauacá pedindo que a escola particular aberta pelo professor com a freqüência de 18 alunos fosse considerada elementar (pública). Outro abaixo-assinado é citado no relatório, agora para reclamar a respeito das faltas do professor elementar do lugar Tupinambá, solicitando que o mesmo “não continue a abandonar sua escola em prejuízo do serviço da instrucção publica” (Pará, 25 mar. 1886, p. 23). Ao final dos anos de 1880, os pedidos de criação de escolas provisórias chegaram a incomodar a Diretoria da Instrução paraense pelo tom imperioso e exigente dos solicitantes das mais longínquas localidades. O diretor Americo Santa Rosa considerou muitos deles “desarrazoados”, pois implicariam abrir escolas por todos os pontos da província, fomentando uma demanda que o governo não teria como atender11. Os abaixo-assinados, vindos das mais diversas localidades, evidenciam a crescente escolarização do Pará, decorrente não apenas de uma política de governo, mas instigada pela percepção da legitimidade do processo por uma parcela da população que passa a reivindicar a criação de escolas e o compromisso do professorado com o ensino. José Gondra e Daniel Lemos analisaram uma série de abaixo-assinados redigidos por moradores das diversas freguesias da cidade do Rio de Janeiro entre 1869 e 1888, quase todas afastadas da corte, localizadas em áreas onde o ensino público se apresentava mais precário. Para os autores, as reivindicações de moradores, pais de família, comerciantes, entre outros, evidenciam que a escolarização não pode ser reduzida a um movimento resultante de um projeto do Estado, sem considerar-se as demandas de parte da população no sentido da extensão da rede escolar. que a “confiança dos pais de família” era muito mais valiosa do que a da presidência na escolha das escolas a se tornarem elementares através do subsídio estatal (A Constituição, Belém, 27 jul. 1883. Assembléia Legislativa da Província do Pará, Sessão ordinária em 11 de abril de 1883, 2a discussão do projeto n. 1547). 11. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública da Província do Pará. Em: Pará 27 ago. 1889, p. 33. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 23 Os atos da Diretoria da Instrução, interferindo diretamente nas escolas à revelia dos interesses locais, acabavam por constituir-se fator de mobilização dos chefes de família em favor dos professores. Um exemplo contundente refere-se à reação dos pais de alunos que freqüentavam a escola masculina de Soure, no Pará. O professor normalista, tendo sido transferido para Quatipurú contra a sua vontade, conseguiu mobilizar as lideranças locais a seu favor. O reclamante anexou ao recurso interposto ao governo vários documentos comprobatórios de sua competência e seriedade, incluindo atestados do presidente da Câmara Municipal de Soure e de alguns proprietários e comerciantes, cujos filhos estudavam na dita escola da vila (A província do Paraná, 5 e 6 dez. 1885). A escola era freqüentada por crescido número de alunos, entretanto, o professor acionou apenas o testemunho dos homens cujas posições na escala social teriam condições de legitimar o seu pedido. Vimos, pela análise empreendida até o momento, vários pontos que, segundo os atores envolvidos na trama da instrução, emperravam a operacionalização das metas oficiais e das expectativas dos beneficiários do sistema. Entretanto, é o uso politiqueiro do serviço da instrução pública o maior problema identificado por aqueles envolvidos direta ou indiretamente nas questões relativas à difusão do ensino nas províncias, especialmente no Pará. Os combates ao patronato e à politicagem na instrução pública Richard Graham (1997, p. 86), no estudo sobre Clientelismo e política no Brasil do século XIX, ressalta que os presidentes de província exerciam um papel articulador do sistema clientelista entre as províncias e o governo central, com o objetivo de gerar dividendos eleitorais a favor do gabinete. O apadrinhamento constituía o principal instrumento de cooptação de partidários leais ao gabinete, levando os presidentes a intervir em numerosos assuntos, pequenos e grandes. Essa observação é corroborada pelas cartas de pais de família e moradores do interior, especialmente do Pará, que preferiam remeter suas queixas e reivindica- 24 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ções relativas às escolas públicas diretamente ao presidente da província, para daí serem encaminhadas à diretoria de instrução. O professor constituía alvo privilegiado das investidas dos reclamantes. O professor era um agente importante na dinâmica do clientelismo na instrução pública. Ora apresentado como acionador do patronato, ora como vítima do partidarismo, ele era uma peça sensível às condições políticas do momento, podendo mover-se ou ser movimentada de acordo com o jogo político em ação. Enfatizaremos nesta análise, a ação do clientelismo na profissão docente, nos aspectos que intervinham diretamente no cotidiano escolar, como a remoção, a demissão de professores e a nomeação de substitutos, nem sempre preparados para a função. É importante lembrar que as relações clientelísticas ocorriam por outras vias, que não apenas a ingerência direta da administração provincial e das autoridades locais, tão repetidamente chamadas de os mandões d´aldeia. As assembléias provinciais, sobretudo quando opositoras dos governos, podiam aprovar disposições movidas pelo clientelismo não favorável ao indicado pelos representantes governamentais. O deputado liberal e anticlerical, Joaquim Cabral, condenou a medida proposta pela assembléia paraense de maioria conservadora, em 1883, e presidida pelo polêmico cônego Siqueira Mendes12, de suprimir as cadeiras elementares de Cametá-Tapera e Pacajá e mandar dar gratificações a dois professores particulares das localidades. Cabral viu na medida um anacronismo com relação à época, assim expressando a sua indignação: “Quando no seculo XIX uma Assemblea prejudica o ensino publico para proteger a dous amigos politicos de um modo tão escandaloso, basta apontar o facto, dispensam-se os commentarios” (A Constituição, 11 jun. 1883)13. 12. Manoel José de Siqueira Mendes nasceu na cidade de Cametá, Pará, em 1825. Era presbítero secular, nomeado cônego da sé paraense. Foi lente de latim do Liceu de Belém, lente de teologia do seminário episcopal e fundou um colégio na capital, e outro em Cametá. “Foi deputado provincial por várias vezes, deputado geral e senador do Império e administrou sua província por três vezes, como vice-presidente” (Blake, 1895, vol. VI, p. 30). 13. Assembléia Legislativa da Província do Pará. Discursos pronunciados na sessão ordinária em 3 de abril de 1883. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 25 A imprensa, liberal ou conservadora, utilizou todas as armas de combate a essa prática, acusada de ser o maior entrave existente durante desenvolvimento da instrução popular. O combate à politicagem suscitava lutas apaixonadas por constituir-se uma arma poderosa contra os adversários políticos, os quais, sendo da situação, passavam a ocupar o lugar do abuso do poder em prol de seus interesses eleitorais. Portanto, tanto os governos de conservadores quanto os de liberais sofreram intensa campanha da imprensa adversária contra o uso da estrutura da instrução pública para beneficiar protegidos e punir opositores políticos. A retórica da necessidade de neutralidade na instrução provinha de políticos e administradores de ambos os partidos, liberal e conservador. O discurso indignado do deputado liberal da assembléia paraense, Joaquim Cabral, demonstra o sentimento de que, Se a instrucção deve ser objecto da politica larga e generosa de principios, deve tambem ser collocada fóra da acção da politicagem dos mandões. A instrucção é uma cousa séria, devia estar livre d’essas vergonhas (A Constituição, 21 ago. 1883, grifos meus)14. O presidente do Amazonas, na linha da defesa da neutralidade na instrução, discursou à Assembléia Provincial combatendo as “preoccupações partidarias”, que no país todo produziam graves males, devendo a instrução ser tratada tal qual um desses terrenos neutros, como a navegação, o comércio e a indústria (Amazonas, 7 mar. 1882, p. 18). Afora a posição ingênua da isenção política de outras esferas da administração pública, percebe-se, pelas denúncias, que o clientelismo na instrução pública, na região, extrapolava o aceitável para o período, levando aqueles que se sentiam prejudicados não só a denunciar, mas a pedir ou propor formas de proteger o magistério das investidas clientelísticas relacionadas ao partidarismo. A adoção do concurso público para a seleção de professores efetivos foi uma medida logo adota- 14. Assembléia Legislativa da Província do Pará, sessão ordinária em 13 de abril de 1883. 26 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 da pelos regulamentos, não obstante as escolas elementares ou provisórias continuaram a ser regidas por não concursados. No ano de 1878, a Província do Amazonas abriu concurso para cadeiras exercidas interinamente, sem contar com a inscrição de um só candidato, apesar das várias tentativas, a situação ainda foi registrada até meados do ano seguinte. Para um presidente, as cadeiras ficavam eternamente em concurso por falta de pessoas habilitadas para preenchê-las. O receio era causado pelas provas de capacidade exigidas pelo regulamento, diz o relatório (Amazonas, 1878, p. 7). No entanto, é forçoso lembrar que mesmo o professor efetivo (por concurso ou título de habilitação) tinha garantias bastante restritas no magistério, adquirindo a vitaliciedade após cinco anos de trabalho, período no qual estava sujeito às mudanças de governo e da política. Embora tenha sido muitas vezes burlada, a instituição do concurso denota o grau de preocupação e a vontade política de alterar o quadro de práticas tão denunciadas, como o patronato, a afilhadagem e os favores eleitorais da parte tanto de liberais quanto de conservadores15. Quando finalmente o governo amazonense conseguiu realizar o concurso para professores primários, o relatório de agosto de 1879 relaciona apenas três indivíduos aprovados, de sobrenome “Salgado”, gerando a suspeita de que, mais do que boa instrução, a família contava com bons protetores (Amazonas, 26 ago. 1879, p. 39). No primeiro relatório paraense do período tratado neste artigo, o presidente acusa “o patronato e a política” pelo embaraço no ensino da província, ao premiar-se a ignorância ao invés do mérito (Pará, 1870, p. 11). Abel Graça toca numa ferida conhecida de todo o Império brasileiro: a afilhadagem e o favorecimento político permeavam a administração pública do país, condicionando a distribuição de cargos à rede de favorecimentos dos protetores. O patronato, constituído pela proteção de indivíduos desejosos de ter um emprego público por não possuírem 15. Richard Graham (1997, p. 326) esclarece que o concurso, instaurado para algumas funções da estrutura de poder imperial, de forma a prevenir alguns dos piores abusos do sistema clientelista, não eliminava a importância de um protetor, pois uma carta de recomendação podia mudar os seus resultados. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 27 outros meios de vida, continuará a ser denunciado nos anos seguintes, e medidas para coibi-lo serão anunciadas. Segundo o presidente do Pará, Domingos José da Cunha Junior, homens que não possuíam escravos para a lavoura, ou indivíduos sem meios para seguirem a carreira comercial recorriam à cadeira de primeiras letras, não sem antes acionarem os seus protetores. O “manto afagador” da proteção afastava os mais habilitados das escolas e comprometia sua fiscalização e a disciplina, males anunciados no início da década de 1870 (Pará, 1 jul. 1873, p. 16). A criação da escola normal nesse período foi motivada pela intenção de habilitar os professores para o magistério e formar um corpo de candidatos aptos para a seleção de professores via concurso16. O Pará, com certeza, passou a contar com um professorado mais preparado para o magistério, contudo, a documentação mostra que o sistema clientelista soube adaptar-se às novas circunstâncias. Não era a falta de pessoal habilitado que alimentava o sistema, como muitas vezes tentou-se fazer crer. Na instrução, a prática clientelista era particularmente nefasta, pois a rede escolar, espalhada por territórios isolados pelas grandes distâncias, favorecia o abuso no exercício da função, como demonstram as cartas levadas aos jornais. Contudo, faltam, nesta análise, estudos que nos permitissem comparar o entrelaçamento entre o clientelismo e a instrução pública em outras províncias. Richard Graham afirma que o clientelismo sustentava todo ato político no país, visando, na sua articulação com o sistema político brasileiro, evitar que conflitos sociais eclodissem instaurando a desordem e a destruição de um modo de vida que favorecia os donos de terras. A prática clientelista envolvia tanto o preenchimento de cargos públicos quanto a proteção de pessoas humildes, mesmo os trabalhadores agrícolas sem-terra. Graham ressalta a importância das eleições nas vilas e cidades do século XIX, argumentando que as eleições testavam e ostentavam a liderança do chefe local, pois os votantes, em dois turnos, escolhiam as figuras mais proeminentes do local para formar os colégios eleitorais, os quais, por sua vez, escolhe- 16. O Pará e o Amazonas instalaram seus cursos normais no início das décadas de 1870 e 1880, respectivamente. 28 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 riam deputados para o congresso. A ressalva é pertinente ao nosso estudo, pois contribui para desvendar o envolvimento do cargo de professor público na política local, engendrada pelas lideranças dos povoados, vilas e cidades do interior do Pará e do Amazonas. No início da década de 1880, Corrêa de Freitas, tendo já bons anos de experiência à frente da Diretoria de Instrução do Pará, sentiu-se à vontade para classificar a política em duas categorias: a nacional, representada pela grande ou geral política, e a provincial ou local, denominada ironicamente de política pequena. Se a primeira é por ele glorificada e identificada como oriunda do “centro mais civilizado do país”, a segunda é política e geograficamente determinada pela maior ou menor proximidade das capitais das províncias. O diretor constrói uma espécie de geo-política da politicagem, calcada na maior ou menor distância da vida política dos centros urbanos principais, ou seja, a corte e as capitais. Quanto mais longe das capitais, mais pronunciada e ativa se apresenta a política pequena, fato negativo, pois é qualificada como, “Mesquinha e vingativa, e é capaz para chegar a seus fins de deprimir, injuriar e calumniar”17. Há mais de cinco anos dirigindo o ensino público na província, o diretor testemunhou os dissabores dos professores que não se amoldavam à vontade dos “potentados das localidades”, caracterizados por ele como “ignorantes e desarrazoados”. Corrêa de Freitas orientava os professores a não se envolverem com política, que não fossem chefes de partidos e mesmo políticos militantes, no que ele afirma ter sido seguido pela maioria. Deles esperava-se que fossem reservados em suas idéias políticas, garantindo a simpatia e a consideração dos “pais de família”. Tamanha reserva ou indiferença em relação à política partidária não implicava o desinteresse aos assuntos públicos, pois como Cidadãos brazileiros e interessados no desenvolvimento moral do paiz, os professores não devem ser indifferentes á marcha da administração publica, 17. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. Em Pará, 15 de fevereiro de 1881, anexo A, p. V. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 29 pois, como elementos do progresso, cumpre-lhes conncorrer com seus votos para que se firme e se mantenha no paiz uma politica ordeira, livre, progressista e honesta18. Nesse mesmo volume, no relatório apresentado pelo presidente José Coelho da Gama e Abreu, é descrito o envolvimento dos professores das pequenas localidades do interior com a política, referindo-se ao passado. O professor, em locais com diminuto pessoal, tornava-se ou era constituído chefe de partido, prática que se refletia diretamente no modo de reger as cadeiras e na relação com os alunos. Mais uma vez, as queixas dos interessados pressionaram o governo, as quais, segundo Gama e Abreu, levaram-no a sindicar as ocorrências e a corrigir os professores (Pará, 15 fev. 1881, p. ). A ação do governo junto à instrução primária, sobretudo nas pequenas localidades, encontrou analistas na imprensa amazonense que, por motivações diversas, se empenhavam em destrinchar os meandros do apadrinhamento político na educação. A patronagem nas nomeações dos professores das escolas primárias disseminadas pelo Amazonas foi flagrada pela Revista do Amazonas relacionou à dependência da imprensa local à “ação governamentiva”. No artigo “A instrucção publica, o jornalismo e o governo do Amazonas”, o autor acusa o atraso da instrução pública pelo fato de o povo não ler jornais, agravando a dependência da imprensa aos cofres provinciais. Com exceção das escolas da capital, e de algumas cidades e vilas, o esquema de nomeações funcionava através do empenho19. Na série “A educação e o Estado”, o jornal Commercio do Amazonas esquadrinha a relação entre o governo e o professor público pelo ponto de vista político, quando os governos tentavam transformar o cargo em instrumento eleitoral. O artigo desnuda a 18. Relatório da Diretoria Geral da Instrução Pública do Pará. Em Pará, 15 de fevereiro de 1881, anexo A, p. V. 19. Revista do Amazonas, 5 de juno de 1876, n.4. A revista lutava para manter-se com as assinaturas, as quais, não provinham de forma majoritária da capital. Eram 78 assinantes no total, sendo na capital 20, no Solimões 53, e no Rio Negro 5. 30 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 engrenagem da pressão política sobre os professores exercida por governantes do Amazonas, independente de suas posições partidárias, obrigando o professorado a recorrer a largo jogo de cintura caso não quisesse se sujeitar a queda de posição e encostamento em “lugares insalubres” como punição à desobediência. Na análise do colaborador, O povo segue maquinalmene o exemplo do chefe, o governo. Este é o primeiro a macular o alto caracter do professor publico, subgeitando-o [sic] aos revezes da politica, obrigando-o a abraçar este ou aquelle partido, e se elle reccusa a declarar-se, ou mesmo se se abraça qualquer delles, não terá o direito natural ao homem de conservar ou deffender suas opiniões; será obrigado a mudal-as tantas veses, quantas forem as defferentes opiniões dos homens que se acharem no poder; e, si o não fiser, dimittem-no; ou o que é peor, removem-no para logares longinquos, subjeitando-o, e sua familia, ás consequencias terriveis da permanencia em logares insalubres e baldos de todos aquelles recursos necessarios para a conservação da saude e da vida. Pelo menos foram estas as idéas dominativas até bem pouco tempo20. As críticas ácidas à administração da instrução e ao envolvimento do professorado nas artimanhas eleitorais não eram privilégio de liberais ou de conservadores. Sob a situação liberal, o governo paraense foi duramente atacado pela imprensa aclamada como neutra e pelos órgãos conservadores ou simpatizantes. Em 1883, um colaborador da Revista Familiar, sob o pseudônimo de Senior, dirigindo-se ao governo paraense, acusou a administração do ensino de ser uma ficção, como ocorria em outras províncias do Império. A figura do diretor da instrução pública, geralmente protegida dos achaques, foi tachada de chefe, a cujas inspirações partidárias submetia a sua “milícia” formada pelo professorado e pelo corpo de delegados literários. Aos adversários do diretor, infligiam-se penas, e 20. Commercio do Amazonas, Manaus, 26 de outubro de 1880. Segundo Santos et al. (1990, p. 63), o Commercio do Amazonas “caracterizou-se por ser um jornal aberto às diferentes correntes de opinião”. Os artigos de cunho educacional consultados revelam a postura crítica do jornal com relação aos atos do governo. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 31 aos seus representantes nas localidades, concediam-se favores, avultando o expediente da diretoria com justificativas de faltas e pedidos de licenças com vencimentos. Protegido pelo anonimato, Senior conclui seu artigo de maneira contundente, refletindo o sentimento geral da imprensa da época a respeito da necessidade de distanciar a instrução da política, pois, A magna questão da instrução publica deve ser alheia á politica; [...] que não venha a luta dos partidos que se debatem pôr difficuldades á boa ordem na administração do ensino. V.Exc. sabe que é somente o elemento partidario entre nós que a perturba, estraga e desmoralisa [Revista familiar, 18 fev. 1883, n. 3]. O jornal conservador A Constituição, na oposição ferrenha aos liberais no poder, fez suas as palavras de um morador de Muaná, Pará, revoltado com a manutenção na escola masculina de um “professor de chapa” sem conhecimento mínimo das matérias da instrução primária. O “Muanense” declarou que o ensino público no Brasil e, sobretudo, no Pará decaiu com a situação liberal, porque os “ouros na politicagem” sobrepujavam o “mérito do professor”, quando valeria mais a recomendação de que, “Seja um bom capanga eleitoral, será tambem um bom professor!” (A Constituição, 8 ago. 1882, carta de 16 jul. 1882). Temos um forte indício de que a denúncia contra o professor de Muaná, feita ao jornal, teve resposta imediata da Diretoria de Instrução, resultando na transferência do professor para a escola de Barcarena. A suspeita decorre de um abaixo-assinado de vinte pais de Barcarena contra o professor público que viera de Muaná, dirigido à Presidência da Província em outubro de 1882, ou seja, três meses após a denúncia do Muanense. Na carta enviada ao jornal A Constituição, os reclamantes informam que o dito professor já estivera em Muaná, onde teve o mesmo procedimento de desrespeito ao magistério (A Constituição, 25 fev. 1883, carta de 15 out. 1882). Já os “pais de Barbacarena”, não foram atendidos em seu pedido. Por uma carta remetida pelos pais ao redator, em março de 1883, o público é informado de que o diretor da instrução nada fez para atender ao abaixo-assinado enviado no ano anterior (A Constituição, 17 mar. 1883). 32 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Mesmo considerando a hipótese de que o autor da carta de Muaná estivesse defendendo um “amigo”, ou seja, o professor que fora preterido pelo diretor da instrução para ocupar a dita cadeira, é fato que o uso da instrução pública como “instrumento de política”, mais do que causar incômodo, afetou diretamente as escolas primárias, ao determinar a seleção, a remoção e a demissão de professores, afora a intimidação e a opressão por que muitos devem ter passado. Outros aproveitaram-se da situação, valendo-se do privilégio do cargo público/político para obter ganhos pessoais, como é corroborado pelas mais diversas denúncias contra professores. O Muanense, seguindo os discursos que defendiam o caráter apolítico da instrução, asseverou que na instrução “só deve reinar a neutralidade pelo amor á educação dos meninos, que são os nossos futuros cidadãos” (A Constituição, 8 ago. 1882). De julho a novembro de 1882, o jornal do Partido Conservador do Pará publicou em torno de cinco matérias com denúncias do uso partidário do diretor interino da instrução pública na província, Americo Marques de Santa Rosa, que pela informação do jornal, era chefe do partido liberal21. Além das denúncias do favorecimento de professores pela afilhadagem e pelo compadrio, como teria ocorrido em uma escola da capital e em todas da cidade de Vigia, há outras gravíssimas, como a interferência em concursos e exames públicos. Começando a denúncia, noticiando que, “Da Vigia nos escrevem”, o público é informado dos “efeitos desastrados” da administração de Santa Rosa. Além dos “títulos de afilhadagem” dos mestres, os alunos não foram interrogados sobre os rudimentos da moral e da religião nos exames escolares, levando os denunciantes a proclamar que “O povo vive descontente vendo, que sendo elle christão, estão ensinando aos meninos o despreso pela religião de todo este povo” (A Constituição, 28 nov. 1882). As denúncias do ano são fechadas com o tom irônico do título Ainda bílis, com críticas ácidas à “exclusão de amigos nossos do magistério”, à 21. Santa Rosa foi diretor interino da instrução até maio de 1884, quando solicitou exoneração do cargo. Em 1883, representou o Pará no Congresso Pedagógico da Corte (Pará, 7 jan. 1884; 24 jun. 1884). Ele voltou ao cargo em 1889. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 33 demissão acintosa de delegados literários e à reprovação nos exames de preparatórios de filhos dos adversários do diretor, com a subseqüente proteção de filhos dos seus amigos. De acordo com a lista publicada, entre 18 examinandos, somente dois eram conservadores (A Constuição, 30 mar. 1882). Nos dois anos seguintes, as denúncias do jornal conservador contra o diretor liberal continuam basicamente tratando das nomeações de professores “ignorantes” ou dedicados a outras atividades além do magistério22. O Liberal do Pará insiste na mesma problemática apontada por toda a imprensa, engajada ou neutra: era preciso proteger os professores dos “caprichos dos mandões d’aldêa e das violencias das paixões partidarias” (O liberal do Pará, 30 mar. 1883). O desacordo começava na identificação dos acionadores do sistema clientelista e das medidas para controlar os efeitos danosos ao ensino. A lei que reformou a instrução pública em 1880 criou alguns instrumentos, como a garantia de “inamovibilidade ao professor sem prejuizo de direito ao accesso por meio do concurso estabelecendo-se o processo administrativo para os casos de remoção e demissão definidos pela lei”23. A lei reformou o conselho diretor da instrução pública e buscou interessar as localidades na inspeção das escolas com a criação dos conselhos paroquiais. As denúncias posteriores à lei mostram que imensos foram os obstáculos encontrados no esforço de demover da instrução o ranço clientelístico, presente em toda a estrutura do Estado imperial. Tamanho desmonte jamais foi alcançado mas, sem dúvida, o embate fez parte do processo de construção da escola pública no Brasil. Nos anos de 1883 e meados de 1884, o jornal conservador, A Constituição, manterá o canal aberto para as denúncias de abusos e arranjos do professorado, porém, preservando a figura do diretor da instrução. Com a volta dos conservadores ao poder em 1984, esse papel de denun- 22. Esses aspectos, referentes à situação e à atuação dos professores, relatados nas cartas e abaixo-assinados de moradores ou pais de família, são analisados em Rizzini (2004). 23. Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. Em: Pará 18 de setembro de 1889, anexo, p. 32. Diretor: Americo Santa Rosa. 34 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ciante é restabelecido na imprensa liberal. Contudo, a imprensa conservadora não somente serviu de canal para as denúncias, pois abriu espaço nos editoriais e artigos para avaliações críticas da instrução no Brasil. Na série “Os conservadores e a instrução pública”, publicada em 1883 no jornal A Constituição, o colaborador buscou comprovar o progresso da instrução na gestão conservadora e analisou práticas que dificultavam o desenvolvimento da instrução pública no Pará, sobretudo o patronato e a afilhadagem sob o governo liberal, e defendeu a instrução inserida em “campo neutro”, acima de qualquer interesse partidário ou individual. O autor (anônimo) reconhece que liberais e conservadores possuíam princípios semelhantes, concernentes à importância da instrução para o progresso do país, mas desconfiava das reais intenções dos liberais, os quais sustentariam um discurso “só para inglês ver”. Assim, ele defendeu seu ponto de vista, afirmando que, Os liberaes, em these, sustentam estas mesmas verdades, constituindo-se amantes da instrucção, obreiros do progresso e regeneradores da sociedade; mas isto é só para inglez vêr: na pratica procedem de modo diverso, antepondo o progresso material ao moral, preferindo as despezas de méro luxo ás essenciaes e indispensaveis, a afilhadagem ás necessidades sociaes (A Consituição, 17 maio 1883). Um dos aspectos tidos por problemáticos, não só pelo autor dos artigos, mas por muitos diretores de instrução do Pará e do Amazonas, referia-se ao provimento das escolas elementares ou provisórias. A lei de 1880, aprovada por assembléia de maioria liberal no Pará, determinou que para o provimento das escolas elementares serão preferidos os professores normalistas, e na falta destes serão as cadeiras providas por cidadãos de reconhecida moralidade, que provem perante a presidencia da provincia idade maior de 21 anos, não terem sofrido condenação por crime infamante e não padecerem molestias que os incompatibilize com o magisterio. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 35 O articulista conservador observa que essa disposição vinha sendo fraudada (no período do governo liberal), pois “Por toda a parte são as escolas elementares dirigidas por individuos completamente ignorantes, com bem poucas excepções, contanto que sejam governistas” (A Constituição, 1 maio 1883)24. Após a queda do gabinete liberal em 1884, e a volta ao poder dos conservadores, o jornal liberal, A Província do Pará, reinicia a campanha crítica aos atos dos governos conservadores. Atacando a guilhotina colocada em praça pública pela situação conservadora, o jornal A Província do Pará denunciou, em 1885, as demissões na Secretaria de Instrução Pública, todos liberais, a exceção de um inspetor de alunos, preservado dos cortes por ser conservador (A província do Paraná, 11 out. 1889). A derrubada e remonta nas instituições educacionais da província, sobretudo as da capital, como o Instituto de Educandos Artífices, a Escola Normal e o Liceu, arrebataram as atenções dos jornalistas. O jornal informa que em 19 dias, a vice-presidência demitiu 100 empregados públicos, além das mais de 500 autoridades policiais, que ocupavam cargos de confiança. Professores e professoras da instrução primária também foram atingidos (A província do Paraná, 6 out. 1885). Segundo A Província do Pará, as duas províncias que compunham a “Amazonia brazileira” vinham tendo os diversos ramos da administração pública desorganizados pelas presidências, entulhando as repartições com “gente inepta”. Instituições, como os institutos de educandos artífices do Pará e do Amazonas, sofriam diretamente com a invasão dos afilhados, a começar pela direção, substituída por indivíduos despreparados (A província do Paraná, 27 nov. 1885). A instrução pública primária também foi atingida pelas nomeações apressadas, segundo notícia de 1885 publicada no jornal amazonense A Província, de tendência liberal. Novas escolas estavam sendo criadas em diversos distritos de paz do Amazonas, os quais já as possuíam, iniciativa que cabia à Assembléia Provincial tomar. Indivíduos analfabetos vinham sendo nomeados 24. O autor citou o artigo 4º da lei 1.030 de 7/5/1880. 36 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 interinamente, denúncia que, volta e meia, era lançada por opositores políticos, fossem eles liberais ou conservadores. O jornalista vê um trágico destino para o ensino primário na Província, ao proclamar que “Agora os discipulos passarão a ensinar o mestre” (A província, 27 set. 1885)25. O saldo final da politicagem na instrução do povo: a avaliação de diretores e visitadores Até o fim do Império, os agentes da instrução pública se debaterão com a trama política engendrada pelo revezamento entre liberais e conservadores no poder. Relatórios de visitadores escolares e diretores da instrução do Amazonas e do Pará, dos últimos anos do Império, denunciam os estragos causados pelos confrontos político-partidários dos agentes educacionais. Assim, ao apagar as luzes do regime, a diretoria de instrução do Amazonas emitirá um relatório pleno de denúncias graves contra os desmandos do ex-diretor sob a situação conservadora, o Vigário Geral da Província, cônego Raymundo Amancio de Miranda. O cônego fora convidado, em janeiro de 1887, para a direção da instrução pública, quando exercia o cargo de diretor do Instituto Amazonense de Educandos Artífices (Amazonas, 10 jan. 1887, p. 14)26. O ex-diretor fora destituído do cargo a bem da moralidade pública da administração por ter colocado a instrução à “margem de tudo”, no- 25. O jornal denuncia também a politicagem no Instituto de Educandos do Amazonas. 26. O relatório citado é de junho de 1889 (Amazonas, 2jun. 1889). Amazonense, Raymundo Amancio de Miranda nasceu em 1848, e cursou teologia no seminário de S. Sulpicio na França. No Brasil, recebeu as últimas ordens sacras e foi nomeado lente de moral do seminário de Belém, passando depois a capelão do colégio do Amparo para meninas desvalidas e professor de religião da Escola Normal. Posteriormente, no Amazonas, exerceu diversos cargos religiosos e públicos, tendo sido vigário-geral do Alto-Amazonas, diretor geral dos índios, vicepresidente da província por duas vezes em 1888 e diretor geral de instrução pública (Blake, Sacramento, vol. VII). A atuação dos sacerdotes na instrução pública das províncias amazônicas, durante o bispado de dom Antonio Macedo Costa, é analisada em Rizzini (2004). a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 37 meando pessoas sem habilitação, removendo professores sem critério algum, demitindo outros com diploma efetivo e fraudando concursos. Nunca um diretor de instrução da província fora tão atacado em relatório oficial. A sua condição de sacerdote e homem público, conservador na política e na religião, aliada aos seus atos polêmicos, suscitara protestos entre seus opositores. Amâncio de Miranda fora também vicepresidente em exercício no Amazonas, cargo pelo qual acumulara alguns desafetos, pelas remoções e nomeações feitas a toque de caixa, em julho de 188827. Somos informados pelo relatório do novo diretor da instrução, o advogado Agesiláo Pereira da Silva, ex-presidente da província, que o padre acumulava o ordenado de diretor com os vencimentos de presidente da província28. O relatório do (suposto) desmonte da instrução pública, causado pelos atos do cônego, revela-nos que ao final do Império, o sistema de ensino no Amazonas se mostrava frágil e suscetível à sanha clientelista de um diretor que tinha mais poder do que, se exigia ou do que era conveniente para o exercício do cargo. No segundo semestre de 1889, um relatório mais contundente foi produzido no âmbito da instrução pública do Amazonas. Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, visitador extraordinário das escolas públicas do Rio Solimões, apresentou à presidência um diagnóstico da instrução oficial em toda a província, em que o tom predominante é o da decadência29. Escolas abandonadas pelo poder público e pelos alunos, com móveis imprestáveis, professores e inspetores despreparados e sem respeito às leis compõem o quadro descrito pelo visitador, em que nem mesmo as 22 escolas da capital se salvavam dos abusos e da inércia dominantes no ramo. Embora conhecesse bem a política local, Bento Aranha evita no- 27. O jornal A Província do Pará (20 jul. 1888), que comungava as idéias do partido liberal, denunciou uma série de atos da administração interina do cônego. 28. Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Amazonas. Em Amazonas 2 jun.1889, p.24. Pereira da Silva assumiu a administração do Amazonas em maio de 1877, exercendo-a até meados de 1878. 29. Citado por Uchôa, (1966, pp. 191-196). Segundo Agnello Bittencourt (1973, p. 135), o jornalista amazonense Bento Aranha foi aprovado no exame de professor de primeiras letras em Belém (1865) e nomeado professor em Manaus (1874). 38 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 mear a facção e os governantes responsáveis pelo desmonte da educação. No entanto, data com precisão o período em que se deu o processo: na vigência dos regulamentos de 1873, 1881, 1886 e 1888, pelos quais, ao contrário de 1883, o presidente da província podia mandar instalar cadeiras do ensino primário nos distritos de paz onde não estivessem criadas por lei especial. Vê-se que Bento Aranha localiza o surgimento do problema na administração conservadora, atribuindo à iniciativa da presidência liberal a eliminação dos abusos através do regulamento de 1883, quando as cadeiras vagas ou criadas deveriam ser providas somente por concurso, até o término de sua vigência, em 1886. Nesse ano, o novo regulamento instituiu o provimento interino pelo presidente da província quando vagasse qualquer cadeira de instrução pública primária ou secundária, até o seu preenchimento efetivo por concurso. Se o quadro apresentado pelo visitador, ao fechar as cortinas da monarquia, era desolador, em períodos anteriores, a instrução também não fora poupada das críticas e propostas de mudanças. Em 1883, o presidente liberal José Paranaguá nomeou o conselheiro Joaquim Maria Nascentes de Azambuja inspetor extraordinário das escolas públicas de Parintins e Itacoatiara. Muito impressionou ao visitador que em povoações importantes, tão próximas da capital e com tantas crianças em idade escolar, o ensino público estivesse em condições tão desfavoráveis. Azambuja (1884) poupa pais e professores de críticas mais severas e centra sua atenção na precariedade das escolas, onde faltavam os materiais, compêndios e utensílios considerados indispensáveis ao ensino30. Pais, tutores e protetores retiravam as crianças dos estabelecimentos públicos, confiando a sua instrução e educação a “pessoas que não são da profissão, mas prestão seus serviços por caridade, ou affeiçao particular” (p. 120). O inspetor atesta que, mesmo em povoados próxi- 30. No regimento interno das escolas proposto à presidência, o inspetor arrolou como mobília necessária às escolas, a imagem do Senhor Crucificado, o retrato de V.M. o imperador, um relógio, um armário, uma mesa com estrado e uma cadeira de braços para o professor, cadeiras para os visitantes, uma esfera celeste e outra terrestre, um atlas, mapa do Brasil e outro da província do Amazonas, dentre outros materiais, como os relativos às prendas domésticas. a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 39 mos à capital, as famílias recorriam aos seus contatos ou laços para instruir seus filhos quando, por ineficiência daqueles que os regulamentos tentavam profissionalizar, os alunos nenhum aproveitamento obtinham. E lamenta que, em todo o interior da província, o pouco ou nenhum aproveitamento era a causa primeira da deserção nas escolas. Nesse ponto de seu relatório, o inspetor recusa o estereotipo da indolência da população, chegando a afirmar que a ela não se fazia a devida justiça. Os moradores que se decepcionavam com a escola oficial buscavam seus próprios meios para fazer educar os meninos. A ausência do aluno nas aulas, através da não matrícula, da baixa freqüência ou da deserção, constituiu um grave empecilho à propalada difusão da instrução pelo interior do Amazonas. O último relatório da diretoria de instrução do Pará disponível é da metade do ano de 1889, escrito por Americo Santa Rosa, diretor experiente pelos anos que já atuara na função. O tom do relatório não é otimista: Santa Rosa anuncia o atraso da instrução na província, em razão principalmente da “política transviada de seus generosos intuitos”, situação que segundo o diretor, todos deploram, mas poucos têm coragem de combater. O Pará, a despeito das inúmeras reformas e das leis promulgadas em prol da difusão da instrução pública, vê-se perto do final do século, à mercê das “paixões partidárias”, entregue aos “cálculos mesquinhos dos partidos”, na avaliação de Santa Rosa. Mais uma vez, a situação passada é acusada de golpear duramente a instrução, entregando-a a mãos inábeis, removendo professores de forma acintosa e cerceando suas garantias31. Os “inimigos da instrução” não deram trégua aos intuitos dos governos de promover a educação do povo, diriam conservadores e liberais, ao olhar para as agruras da instrução no Pará e no Amazonas. Instaurado o regime republicano, o diretor geral da instrução pública do Pará, José Verissimo (1892, p. V), anuncia o “triste estado da nossa instrucção publica”, inventariando como principal causa da situação do ensino em 1890, a “invasão do partidarismo, viciando a propria 31. Relatório da Diretoria da Instrução Pública do Pará. Em Pará, 18 set. 1889, anexo, p. 29. 40 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 fonte da instrucção publica, procurando sempre fazer do professorado um corpo, e das diferentes funções da alta administração da instrucção publica um fato eleitoral”. Considerações finais Nos últimos decênios do século XIX, os governos das províncias amazônicas começaram a investir na formação e profissionalização do professor primário, criando as escolas normais e estabelecendo regras para a seleção de professores em que a condição de normalista fosse pré-requisito para o provimento efetivo das cadeiras. Até o final do século, professores interinos continuaram sendo nomeados no interior do Amazonas e do Pará, tendo ocorrido, no entanto, um aumento gradativo no número de professores efetivos e vitalícios, reduzindo o caráter provisório e leigo do cargo. Possivelmente, até a mudança do sistema eleitoral na República, as cadeiras do interior mantiveram o seu humilde papel na hierarquia eleitoral, quando os regentes, de acordo com a sua renda anual, podiam ser eleitores de cargos provinciais e também nas assembléias paroquiais que, por sua vez, indicavam os eleitores da província, direitos políticos garantidos pela Constituição do Império. Para Cynthia Veiga (2002), a influência local do professor poderia explicar o “investimento na produção do lugar do professor como empregado público, favorecedor ou não das redes clientelísticas de poder, em detrimento de sua formação profissional” (p. 8). Muitas questões permanecem sem respostas com relação à escola pública do século XIX. O crescimento do número de escolas no interior estaria condicionado às práticas clientelistas? Apesar da tônica civilizadora e salvacionista dos discursos, teriam sido os arranjos políticos a principal motivação dos administradores e legisladores para a criação das escolas nas pequenas localidades do interior amazônico? Quem eram os moradores que solicitavam o estabelecimento das cadeiras, quais eram os seus motivos? Estariam prestando favores aos potentados locais ou aos pobres professores que dependiam do emprego para sobreviver, ou percebiam na instrução oficial possibilidades de ascensão so- a politicagem na instrução pública da amazônia imperial 41 cial de seus filhos e protegidos através da ocupação futura de cargos (eleitorais ou por indicação) na estrutura do Estado? Essas são questões em que, através da documentação tratada neste estudo, buscamos vislumbrar saídas, indicar hipóteses. As experiências provinciais de instrução elementar vêm sendo alvo de um número crescente de estudos nos últimos anos, mas a sua complexidade provocada pelas inúmeras implicações da instituição escolar junto das mais diversas instâncias da sociedade torna a temática extremamente rica de possibilidades de pesquisas a desenvolver. As implicações do clientelismo e a produção do lugar de professor como empregado público são, por exemplo, temas que permitem ampla exploração, por exporem a tensão entre as construções legais e as práticas sociais, políticas e culturais (Schueler, 2002). Referências bibliográficas AMAZONAS. Relatórios dos presidentes de província e dos diretores da instrução pública, 1870-1889. (RPAM). AZAMBUJA, Joaquim Maria Nascentes de. Doutrinas pedagógicas e elementos de instrucção publica organisadas pelo Conselheiro D’Azambuja para uso das escolas de ensino primario especialmente das Províncias do Amazonas e do Pará. Pará: Typ. do Livro do Commercio, s.d. [1884]. 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Não era um dos políticos, intelectuais, familiares, amigos e professores que escreveram a Anísio Teixeira para pedir, agradecer, cumprimentar, sugerir, cobrar, reivindicar, quando ele esteve à frente da Diretoria da Instrução Pública do Distrito Federal, entre 1931 e 1935. O remetente é o carteiro que entregava diariamente cartas de outros tantos remetentes que escreviam em defesa dos próprios interesses mas, na maior parte das vezes, o faziam para interceder por familiares e amigos. Entendendo que estas cartas fornecem pistas de uma dada cultura política que atravessa a vida pública brasileira e, em especial, o sistema educacional, durante as primeiras décadas do século XX, pretende-se examinar tanto nos suportes da escrita, no conteúdo das mensagens, bem como nas anotações feitas nas margens, como Anísio Teixeira procurou instituir novas práticas políticas na educação brasileira. ANÍSIO TEIXEIRA, CULTURA POLÍTICA. * Texto apresentado na mesa-redonda “Leitura, escrita e práticas educacionais”, por ocasião do 1º Colóquio Internacional de História do Livro e da Leitura do Ceará, promovido pela Universidade Estadual do Ceará e pela Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, em maio de 2004. ** Doutora em Ciências Humanas – Educação, pofessora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uerj e pesquisadora do CNPq. The mailman and the educator political practices in epistolary writing * Ana Chrystina Venancio Mignot** Abstract: Among the vast amount of documents assembled in the personal archive of Anisio Texeira (under guard of the Center of Research and Documentation of Brazilian Contemporary History - CPDOC, from Getulio Vargas Foundation), figures a letter that stares in face: in the text, the sender asks a job for a brother-in-law. He was not one of the politicians, scholars, relatives, friends or teachers that have written to Anisio Teixeira for asking, thanking, complimenting, suggesting, charging or claiming, while he was in charge of the Directory of Public Instruction from Brazilian Federal District, between 1931 and 1935. The sender was the mailman that daily had been delivering the letters signed by so many other senders, usually writing on behalf of their own interests or, as in most of the times, for interceding on behalf of relatives or friends. Such letters contain a set of tracks concerned to certain political culture remarkably present in Brazilian public life, in special, its educational system, during the first decades of XX Century. This paper analyzes the way Anisio Teixeira tried to institute new political practices in Brazilian education, focusing those letters writing supports and personal notes found in the margins. ANISIO TEIXEIRA, POLITICAL CULTURE, LETTERS. * Texto apresentado na mesa-redonda “Leitura, escrita e práticas educacionais”, por ocasião do 1º Colóquio Internacional de História do Livro e da Leitura do Ceará, promovido pela Universidade Estadual do Ceará e pela Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza, em maio de 2004. ** Doutora em Ciências Humanas-Educação, pofessora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uerj e pesquisadora do CNPq. o carteiro e o educador 47 Quando o carteiro chegou E o meu nome gritou Com uma carta na mão Ante surpresa tão rude Eu nem sei como pude Chegar ao portão. (Aldo Cabral e Cícero Nunes) Portador de papéis escritos para encurtar distâncias, amenizar ausências e comunicar saudades, entre 1931 e 1935, João Mourão Carvalhinho fez chegar a Anísio Teixeira um considerável volume de cartas. Por força do ofício, possivelmente era não só um profundo conhecedor da cidade, sabendo encontrar ruas, casas, vilas e becos com facilidade, mas um especialista capaz de reconhecer expectativas, alegrias e dores daqueles que o esperavam com ansiedade1. Como tantos outros carteiros retratados por Jacob Penteado, em Memórias de um postalista, devia acordar de madrugada, bater o ponto cedo e correr em busca do sustento “debaixo de chuva ou de sol ardente, sob pesados fardos, que nem burros de carga, sem horário de terminar, sujeitos a excesso de serviço, distritos enormes, dobrando, ou seja, fazendo também o serviço de colegas que faltavam, sem tempo para as refeições, vindos dos pontos mais distantes da cidade” (1963, p. 28). Graças a ele, sobre a mesa do gabinete do diretor da Instrução Pública do Distrito Federal descansaram cerca de mil mensagens, incluindose a correspondência oficial, telegramas, cartões de felicitações e postais, que os missivistas escreviam para pedir, agradecer, cumprimentar, sugerir, cobrar, e, que não só nos temas tratados, mas em sua materialidade, fornecem pistas que ajudam a compreender tanto quem escreveu, quem as recebeu, bem como o contexto no qual foram produzidas. 1. Observação feita por Zuenir Ventura no prefácio do livro Novos causos dos Correios, destacando que “os carteiros não são portadores das grandes notícias, não anunciam os acontecimentos extraordinários, nem as transformações históricas, mas são imprescindíveis [...] porque fazem a ligação sentimental entre as distâncias, são uma espécie de porta-voz afetivo do País” (2000, p. 9). 48 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 A nomeação constituiu-se em motivo de júbilo para os conterrâneos de Anísio Teixeira, levando-os a manifestar, por escrito, o orgulho em tê-lo em tão alto cargo2. A chegada à capital da República, em outubro de 1931, no entanto, foi precedida de intranqüilidade, pois com Getúlio Vargas no poder os educadores reunidos na Associação Brasileira de Educação (ABE) estavam decepcionados com os primeiros atos de Francisco Campos, que visavam reorganizar as universidades e o ensino secundário e também autorizar o ensino religioso nas escolas. Estavam, sobretudo, descontentes com a ameaça de descontinuidade da reforma de Fernando de Azevedo (O’Neil, 1975). Desde o início da gestão, havia um clima de disputas e conflitos políticos, soma-se a isto a insatisfação do magistério carioca que, segundo Paschoal Lemme (1988), se considerava o mais culto e capacitado de todo o país. A nomeação de um educador baiano para a Instrução Pública no Distrito Federal era inadmissível. A temporada de Anísio Teixeira nos Estados Unidos para aperfeiçoamento dos estudos também alimentava críticas e boatos sobre a americanização do ensino, tanto na organização escolar, como nos métodos de ensino. Para quebrar as resistências, ele retomou a política de pessoal e instituiu normas que visavam identificar o magistério como ocupação portadora de conhecimento especializado, ética e importância social, a exemplo de seu antecessor, que havia procurado imprimir um novo sentido na administração pública dedicando-se com afinco, entre outras questões, ao concurso para provimento do cargo de professores catedráticos da Escola Normal como estratégia de contraposição a interesses políticopartidários e uma tentativa de disciplinamento de um setor que era alvo constante de favores circunstanciais3. 2. 3. Ver a carta de Regina de Albuquerque Soares Bandeira: “Cidade de Bonfim, Bahia, 20 de outubro de 1931: Cordiaes saudações. Nesta data, tenho, a subida honra de dirigir-me a V.Ex.ª cujo fim é enviar-lhe o meu sincero parabens pela acertadissima escolha para Director Geral da Instrucção Publica do Rio. Como bahiana, sinto-me bem em dirigir estas linhas a V. Ex.ª, porque conheço a cultura, a intelligencia e a capacidade de V.Exª, [...]”. Sobre a política de pessoal de Fernando de Azevedo, ver o estudo de Liéte Accacio (2002), no qual analisa os concursos para o magistério. o carteiro e o educador 49 Anísio ia buscando tempo para ler e responder cartas, enquanto despachava processos, criava uma legislação de ensino, ampliava o número de matrículas, planejava novos prédios escolares, discutia a formação de bibliotecas escolares, elaborava diretrizes para a formação de professores, escrevia livros que viria a publicar durante e logo após sua gestão, participava ativamente da ABE, articulava o lançamento do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” de 1932, que teve elaboração, lançamento e repercussão registrados, em inúmeras cartas trocadas entre aqueles que o subscreveram, como pode ser visto na correspondência de Cecília Meireles, Hermes Lima, Venancio Filho e Paschoal Lemme também. Anísio integrou essa rede de escrita epistolar recebendo de Fernando de Azevedo a incumbência de ler, criticar, sugerir, modificar, aprovar, divulgar, debater e defender as idéias do documento considerado o divisor de águas da educação brasileira por sua intransigente defesa de uma escola pública, gratuita e laica para todos4. Em meio a esses desafios, Anísio justificava-se com os amigos pela falta de tempo para escrever cartas, como se pode ver nesta resposta: Imagino que V. esteja intrigado com o meu silêncio que já vai prolongando por mais tempo do que eu esperava. É que vim viver, no Rio, logo depois de minha chegada, um feriado de tão estranha intensidade dessa campanha de maldade e delapidação gratuita com que os nossos adversários nos procuram fazer aborrecer a educação, que não tinha ânimo para os abandonos de uma carta [...]. E adeus, meu caro Fernando. Mesmo quando estamos em silêncio, estamos unidos pelo mesmo drama de uma idêntica vocação pública, nesse país de ferozes interesses privados [Carta de Anísio Teixeira para Fernando de Azevedo, 11 nov. 1933]. Enquanto selecionava a correspondência que seria entregue ao então diretor da Instrução Pública, provavelmente, o carteiro admirava os 4. A respeito da correspondência dos signatários do “Manifesto dos Pioneiros” com Anísio Teixeira, consultar Simonini (2004). 50 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 envelopes com selos que indicavam a procedência das mais diferentes regiões do país, da própria cidade do Rio de Janeiro e até mesmo de países distantes. É possível também que decifrasse letras escritas à mão, muitas vezes ilegíveis. A leitura de manuscritos era uma habilidade testada em concurso para o cargo de carteiro e, para a referida prova, adotavase, segundo Jacob Penteado, o livro “Manuscritos – coletânea organizada pelo Bacharel Benedito da Lapa Trancoso, aprovado e adotado nas Escolas Públicas do Estado, por ato de 10 de junho de 1908, edição de Espíndola & Comp. – Rua Direita, 10º andar, onde havia trechos do Padre Vieira, Casimiro de Abreu, Bernardes, Castilho, Álvaro Guerra, Alberto Souza e do Autor” (1963, p. 42). Grande parte das cartas, no entanto, tinha uma letra que indicava boa educação e respeito pelo outro, civilidade, pois como lembrava o autor do livro Leitura manuscripta: “A caligraphia é um bom dote do homem, não é por certo o mais precioso, entretanto, merece bem qui não seja desprezado” (B.P.R., s.d., p. 10). No verso de muitos envelopes estavam nomes que permitiam supor que os remetentes ocupavam lugares de destaque na vida política e cultural. Monteiro Lobato, Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Afrânio Peixoto, Hermes Lima, Antonio Carlos, Belizário Penna, Pedro Ernesto, Assis Chateaubriand, Homero Pires e Amaral Peixoto corresponderamse com Anísio com maior ou menor freqüência. Outras cartas eram enviadas por amigos, familiares, pessoas comuns: mensagens de pais de alunos e de profissionais que atuavam nos bastidores das salas de aula, as professoras, que protestavam contra injustiças, denunciavam perseguições, sugeriam procedimentos administrativos, comentavam a reforma, ofereciam seus préstimos, encaminhavam livros e cartilhas, convidavam para atividades escolares e solicitavam reintegração, transferência e emprego. Protegidas no anonimato, algumas, sequer, traziam o remetente e assinavam suas reivindicações como “Uma professora” e “Uma interessada”5. 5. Cartas escritas provavelmente pela mesma professora, que fazem sugestões sobre o caso das substitutas, sugerindo como a classe das adjuntas deveria ser dividida, e apontando os inspetores e diretoras como os profissionais capazes de avaliar a capacidade e o valor do trabalho que vinha sendo desenvolvido por elas. o carteiro e o educador 51 Cartas de amor também vinham de São Paulo, enviadas por Emilinha Ferreira, com quem Anísio viria a se casar em 1932, e que preenchiam a solidão e faziam suportar melhor as incompreensões e mal-entendidos, como ele escreveu: “Aqui está, neste domingo suave e luminoso, a sua ultima carta, também suave e luminosa... Descansei toda a manhã e agora estou a te escrever e a ouvir música”, ou “A sua cartinha tão mimada tão affectuosa deu-me nova alma. Havia ficado um pouquinho afflicto, com todas aquelas queixas da sua ultima carta” (Cartas de Anísio Teixeira para Emilinha Ferreira, 29 nov. 1931 e 14 fev. 1932, respectivamente), em uma alusão às reclamações da noiva por causa das ausências prolongadas e da falta de notícias. Tratando do casamento que se aproximava ela demonstrava também apreensão com o trabalho dele: “Que estará se passando com Você? Nem mesmo os jornais me dizem nada a seu respeito. Soube pelo irmão de Lobo e por outro amigo q esteve aqui outro dia q Você tem soffrido uma guerrinha terrivel de certas professoras, é verdade?” (Carta de 27 fev. 1932)6. Umas cartas eram volumosas, exigindo talvez maior esforço do carteiro para transportá-las. Traziam “presentes de papel”7, como os livros enviados por intelectuais com quem Anísio tecia, por meio da troca epistolar, uma rede de idéias e afetos. Lidos e comentados, expressam uma prática de amizade materializada na escrita marcada pelas impressões de leituras, entre aqueles que se consideravam mutuamente leitores qualificados. Educação progressiva: uma introdução à filosofia da 6. 7. Sobre essas cartas de amor, consultar Cardoso (2004). Expressão usada por Venancio (2001) para a troca de livros entre intelectuais. Na correspondência de Monteiro Lobato para Anísio Teixeira, é possível observar essa troca: “Meu próximo livro, ‘O poço do Visconde’, será dedicado a você. Em outubro próximo estará aí. A leitura do livro espírita A grande síntese, que o deixava tonto, deslumbrado, maravilhado e inclinadíssimo a rescrevê-lo, tal a minha certeza de torná-lo três vêzes mais claro” ensejou a vontade de compartilhar a descoberta: “Quis mandar-te o livro, em vez de indicá-lo, mas não achei nenhum nas livrarias; estão tirando nova edição”, dizia em carta de 3 de junho de 1944. Anísio, por sua vez, agradecia tecendo comentários sobre os livros escritos por Lobato, pois, durante o período em que esteve em Caitités, confessava que só lhe restava dedicarse à leitura: “Vivo entre Dewey, Russel, Wells e Lobato [...] Vivo com eles mergulhado no futuro”, conforme carta de 7 de junho de 1937. 52 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 educação, de 1932, e Em marcha para a democracia, de 1934, foram objeto de comentários de alguns correspondentes, amalgamando um sentimento de grupo que ia à frente, na vanguarda: os pioneiros8. Parte dessa correspondência, a que manteve com intelectuais, tem despertado a atenção de historiadores e historiadores da educação, já tendo sido inclusive publicadas. Conversa entre amigos: correspondência escolhida entre Anísio Teixeira e Monteiro Lobato (Viana & Fraiz, 1985) traz uma seleção de cartas que se constituem em exercício da amizade alimentada através da palavra escrita, conforme assinalaram os organizadores. As descobertas, alegrias, decepções, dores e perdas dos dois epistológrafos estão retidas em folhas de papel e traduzidas em confidências da vida pessoal, comentários sobre os projetos profissionais, impressões sobre a cena política, como este: A sua carta chegou-me aqui já em plena revolução. Não se admire, pois, que venha com atraso lhe responder. Faltava liberdade de espírito e “liberdade de escrita” para escrever cartas. Hoje, segundo dizem, continua a faltar liberdade de escrita – há censura no correio para o estrangeiro –, mas já tenho liberdade de espírito bastante para lhe escrever toda uma página sobre um bath-tub americano enquanto fiquem a amadurecer os frutos da revolução brasileira, e os senhores ditadores, julguem que podemos dizer se os achamos ou não gostosos [Carta de Anísio Teixeira para Monteiro Lobato, 26 nov. 1930]. Na batalha da educação: correspondência entre Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo (1929-1971) (Vidal, 2000) reúne cartas trocadas 8. Hermes Lima, por exemplo, confessou em carta de 23 set. 1933: “Um dos meus prazeres atuaes é acompanhar o desenvolvimento intelectual do Gonçalo. Acho que a criança possue uma curiosidade natural para aprender: mas a escola asfixia, comprime, limita, como que parcializa essa curiosidade e certamente isso se faz porque ela ainda é um ambiente demasiado limitado, profundamente artificial, sem ligação nem contacto com a vida, com a rua, com a sociedade. Cada vez mais comprehendo o que significa renovar a escola e para isso de uma [segunda] e muito atenta leitura de sua ‘Educação Progressiva’ tirei os mais preciosos elementos. Na verdade, seu livro é luminoso e denso de observações que esclarecem e precisam, de modo singular, o assumpto”. o carteiro e o educador 53 desde quando Anísio retornou dos Estados Unidos até a sua morte. Elas expressam uma amizade que foi sendo tecida, ao longo dos anos, na atuação em favor da educação nacional. Essas publicações derivam, certamente, da compreensão de que as cartas de homens públicos podem revelar aspectos obscurecidos pela documentação oficial9. Habituado também a entregar cartas de pedidos endereçadas a Anísio Teixeira, o carteiro possivelmente não imaginava que esses seriam documentos preciosos e que um dia viriam a ser lidos por estudiosos interessados em compreender as práticas políticas que atravessaram a vida pública e o campo da educação na década de 193010. Assim como as que foram enviadas a outros homens públicos e que já foram objeto de estudo, elas permitem examinar a cultura política da época. Essas cartas também têm as marcas de quem as escreveu e daquele que as leu. Quem fazia os pedidos? Com que intenção? Quais eram os argumentos utilizados que justificavam as demandas? Quais foram os cargos mais cobiçados? O beneficiado pelo atendimento do pedido foi o próprio missivista? O pedido foi formulado por outra pessoa que extrairia do atendimento benefícios políticos também para si11? Respostas a essas questões envolvem observar que Esse objeto exige de seus estudiosos uma atenção muito especial ao suporte material da mensagem (cartões, telegramas, tipo de papel de carta); aos 9. Gómez chama a atenção para o fato de que as cartas são importantes fontes pois “sacan a a la luz la versatilidad de las informaciones y conocimientos que se puedem extraer de su interpretación y estudio. Se trata de fuentes que el historiador no puede expulsar de su taller salvo que quiera ser cúmplice de determinados silencios y olvidos; lo mismo que tampoco deberían hacerlo cuantos estudiosos se interesan por algún aspecto del devenir humano, ya sea el lenguaje, la escritura, la educación, la mentalidades o las costumbres” (2002, p. 16). 10. No descritor do arquivo pessoal de Anísio Teixeira é observada a expressiva presença desse tipo de documento, no período em que esteve no Rio de Janeiro: “A documentação diz respeito principalmente à discussão do ‘manifesto da escola nova’, às atividades da ‘Associação Brasileira de Educação’, a pedidos de emprego e a questões administrativas”. 11. Em torno dessas questões, Pinto (1998), Gomes (2000) e Heyman (1997) examinaram as cartas de pedidos para Nilo Peçanha, Gustavo Capanema e Filinto Müller. 54 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 códigos sociais utilizados (tratamento, forma de argumentação etc); e à correção lingüística (fluidez do texto, tipo de letra, ordenamento da página etc); dentre outros. Aspectos que em grande parte precisam ser considerados de forma correlacionada para que o conjunto documental examinado ou mesmo uma única carta ganhe significado. Esses cuidados remetem à atenção com que o estudioso tem de trabalhar, sobretudo se for considerado que a correspondência muitas vezes constitui um conjunto extremamente fragmentado de documentos de complexo tratamento analítico [Gomes, 2000, p. 20]. Seguir as anotações feitas nas margens, examinar rascunhos ou respostas que existam eventualmente na correspondência ativa de Anísio Teixeira podem ser pistas reveladoras de como este se movia no jogo de trocas de favores no exercício do cargo, no momento em que liderava a reforma que foi considerada por muitos de seus contemporâneos a mais corajosa de todas (ver Lima, 1974, por exemplo). Papéis arquivados Escritas em papéis brancos, azuis, cor-de-rosa, desbotados pelo tempo, as cartas recebidas por Anísio Teixeira, entre 1931 e 1935, estão guardadas em seu arquivo pessoal sob a guarda do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas12, que foi doado por sua família, que como muitas outras procurou, assim, imortalizar a trajetória de quase cinqüenta anos de vida pública do educador. A doação do arquivo ao CPDOC obedeceu a uma certa lógica que tem norteado as famílias de intelectuais e homens públicos: preservar a imagem, reparar injustiças, impedir o esquecimento, dar visibilidade a 12. O arquivo pessoal de Anísio Teixeira contém vasto conjunto documental composto de 34.000 documentos manuscritos, seiscentos documentos impressos, 502 fotografias, 199 cartões postais e quatro discos nos documentos audiovisuais, microfilmados, e está dividido nas séries documentos pessoais, correspondência, produção intelectual, legislação, temática, diversos e recortes de jornais. o carteiro e o educador 55 uma obra13. Relatando a doação do arquivo, Babi Teixeira, em entrevista concedida por ocasião do centenário de nascimento do pai, declarou que haviam doado praticamente todo o acervo ao CPDOC porque não tinham estrutura financeira para tratar um arquivo daquele nível. Ressaltou ainda que a criação da Fundação Anísio Teixeira, na Bahia, não faria com que esse arquivo fosse dali retirado: “Este arquivo permanecerá lá não só porque eu respeito muitíssimo o trabalho do CPDOC como não teríamos condições de fazer o mesmo tipo de tratamento. Além disto, o Centro aqui no Rio, tem uma visibilidade certamente maior do que a Fundação Anísio Teixeira” (Gondra, 2000, p. 77). O arquivo compreende, além do período no qual esteve no Distrito Federal, a presença de Anísio Teixeira a partir de 1924 na Diretoria da Instrução Pública da Bahia, no debate constituinte, suas atividades no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) e em muitas outras iniciativas que visaram reformar o país pela via da educação, como o debate sobre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), e sua participação na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e na Universidade de Brasília (UnB). Dimensões de sua vida pessoal estão presentes em cartas de sua mãe, pai, irmãos e filhos, em diários que registram suas viagens à Europa e aos Estados Unidos na década de 1920, além de fotografias, carteiras, agendas, receitas médicas, recibos diversos, escrituras de imóveis, comprovantes de viagens, notas fiscais, entre outros14. Esse mesmo cuidado de guardar seus papéis tiveram alguns educadores e educadoras 13. Em matéria assinada por Adriana Pavlova (“Guardiões às avessas”), a jornalista analisa o papel dos herdeiros ante os legados de artistas plásticos, escritores e personalidades públicas, destacando que para preservar a memória essas famílias têm dificultado acesso a documentos, divergido das propostas de pagamentos de direitos autorais ou simplesmente impedido a publicação de trabalhos que poderiam macular a imagem de Glauber Rocha, Di Cavalcanti, Garrincha, Silveira Sampaio, Tom Jobim, Pixinguinha, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Câmara Cascudo, Guimarães Rosa e Cecília Meireles, entre ourtros (O Globo, Segundo Caderno, 12 de fevereiro de 2002, pp. 1 e 3). 14. Ver descritor e análise do arquivo de Anísio Teixeira no CPDOC Heyman (2003). 56 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 que foram signatários do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”: Fernando de Azevedo, Lourenço Filho, Armanda Alvaro Alberto, Paschoal Lemme, Cecília Meireles, Delgado de Carvalho, Edgar Süssekind de Mendonça e Francisco Venancio Filho, que pretendiam, assim, provar que haviam participado da vida pública de seu tempo, legar um testemunho inconteste às gerações futuras, sobreviver em meio aos papéis, multiplicar a experiência e evitar o esquecimento. Arquiva-se a própria vida, afinal, segundo Artières, para ter a identidade reconhecida, controlar a vida, recordar e retirar lições do passado, preparar o futuro e inscrever a existência: “Arquivar a própria vida é desafiar a ordem das coisas: a justiça dos homens assim como o trabalho do tempo” (1998, p. 31). Guardar documentos de si mesmo, como assinalou Ribeiro, revela o desejo de perpetuar-se, mas, sobretudo, responde ao desejo de forjar uma glória. Assim, os arquivos pessoais encerram a intenção do titular de ser reconhecido pela posteridade por uma “identidade digna de nota” (Ribeiro, 1998, p. 35). A quantidade de documentos nesse arquivo não significa que ele não tenha sido resultado de uma seleção. Entendido como uma forma de escrita autobiográfica, arquivos pessoais envolvem censura, supressão, interdição, triagem. Arquivar é guardar. Guardar é também esconder. Neles existem silêncios, não ditos, interditos e são organizados objetivando a posteridade, deixando registros que permitam a elaboração futura de uma biografia edificante15. A farta documentação do educador, no CPDOC, não abrange toda a sua trajetória, mesmo porque seu acervo está distribuído por várias instituições de seleção, organização, preservação e produção de sua memória, como ressaltou Gondra: O acervo do Professor Anísio encontra-se disperso, distribuído entre imagens, lembranças de familiares, de companheiros de trabalho, dos adversários, artigos, livros, cartas, textos da imprensa, imagens, objetos pessoais, legislação, pareceres, projetos, textos de reforma e de criação de instituições, 15. Para análise de arquivos pessoais ver Mignot (1997, 2000 e 2002a) o carteiro e o educador 57 prédios, salas de aula. Dispersão igualmente repartida entre arquivos familiares e públicos, materiais e virtuais. Todos constituindo lugares nos quais a lembrança do professor Anísio pode surpreender, provocar, iluminar ou simplesmente passar despercebida [2000, p. 75]. A quantidade e diversidade de documentos no arquivo de Anísio Teixeira resulta também de um processo de inevitável seleção da família: “Nós, da família, guardamos algumas coisas pessoais dele, tipo assim: um chapéu, um sobretudo que ele usou, algumas medalhas, homenagens que ele recebeu, a pasta de trabalho encontrada junto ao seu corpo, mas muito pouca coisa”, como destacou ainda sua filha (idem, p. 78). Selecionados, depositados em outras instituições, no arquivo do CPDOC, existem lacunas: “O afastamento do titular da Secretaria Geral de Educação e Cultura do Distrito Federal é parcamente documentado, ainda que a correspondência de três de seus irmãos e de Nestor Duarte informe sobre o panorama político”16. O arquivo de Anísio Teixeira tem uma íntima relação com outros arquivos de educadores de sua geração, sob a guarda do CPDOC, o que permite delinear parte do diálogo da intelectualidade brasileira sobre a educação17. A correspondência de Anísio Teixeira com Lourenço Filho é particularmente importante. Se, na década de 1920, em estados diferentes, no Ceará e na Bahia, empreenderam as primeiras reformas, enfrentando problemas semelhantes para assegurar uma educação de qualidade para todos, no Distrito Federal estiveram juntos, procurando dar visibilidade à causa a qual dedicaram suas vidas, tendo como palco a cidade que era a vitrine do Brasil18. Durante o período no qual Anísio Teixeira foi o diretor da Instrução Pública, Lourenço Filho esteve à frente 16. Ver o descritor do arquivo Anísio Teixeira no CPDOC. 17. Essa perspectiva de análise dos arquivos desses educadores no CPDOC é mais detalhada por Heyman (1999). 18. Essa expressão, usada por Nunes (1999) em sua análise da reforma de Anísio Teixeira no Distrito Federal, sintetiza não só a importância cultural, política e econômica da então capital da República, mas também a visibilidade que a reforma da educação teria nessa cidade para aqueles que a promoveram. 58 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 do Instituto de Educação e as cartas trocadas permitem entrever como a formação de professores foi uma questão crucial para esses renovadores, levando-os a discutir e elaborar diretrizes que favorecessem uma escola que partisse dos interesses das crianças, em substituição às velhas práticas pedagógicas19. Assim como rascunhos, textos manuscritos, notas, bilhetes, cartões de visita e convites, as cartas no arquivo de Anísio Teixeira no CPDOC também resultam da dispersão, da acumulação possível e da seleção do titular ou de seus familiares, evidenciando que existem diferenças entre escrever, viver e guardar e que, como qualquer outra fonte, a correspondência é um objeto construído, inscrito no tempo e no espaço social, desde a origem, uma a uma, cartas esparsas, até sua descoberta, quando reunidas em um todo indissociável. Esse processo de construção de uma correspondência se mantém nos gestos de destruição (cartas queimadas ou jogadas), na erosão do tempo (cartas perdidas ou esquecidas) quanto às intervenções sucessivas para conservar os “papéis de família” [Dauphin & Poublan, 2002, p. 80]. Marcas da escrita, rastros de leitura Na correspondência recebida por Anísio Teixeira, em seu gabinete, é possível observar a letra bem desenhada e a atenção com os suportes da escrita pessoal20, que denotam que escrever cartas era para muitos um ritual que exigia disciplina e respeito às normas epistolares21. 19. Na análise da correspondência de Anísio Teixeira com os signatários do “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, Simonini (2004) assinalou que o então diretor da Instrução Pública recebeu cartas administrativas de Lourenço Filho, versando sobre as mudanças que deveriam ser operadas na formação de professores, além de cartas escritas dos Estados Unidos, para onde viajou a fim de observar o sistema educacional. 20. Sobre os suportes da escrita pessoal, consultar Hébrard (2000). 21. Entre estudos de manuais epistolares, ver Sierra Blás (2003) e Castillo Gómez (2002). o carteiro e o educador 59 O tom íntimo e afetuoso dos amigos mais próximos (“Meu caro Anísio”, “Querido Anísio”, “Meu querido Anísio”, “Caro Anísio”, “Grande Anísio”, “Meu grande amigo”, “Adeus, meu caro Anísio, um grande abraço do velho amigo”, “Abraço-o com amizade fraternal, profundamente, reconhecido”) contrasta com a formalidade das cartas que foram enviadas por remetentes mais distantes, que observavam a hierarquia e a importância do cargo: “Prezado Professor”, “Dr. Anísio”, “Exmo Sr. Anísio Teixeira”, “Atenciosamente”, “Cordialmente”, “Ao seu dispor”. Os papéis timbrados das cartas que hoje estão guardadas em seu arquivo pessoal indicam o lugar social dos remetentes, a rede de relações do titular e os interesses em jogo na pasta da educação. Nas cartas enviadas, por exemplo, por Fernando de Azevedo, durante toda a vida, é possível acompanhar nos suportes da escrita sua trajetória no cenário cultural e educacional do país. Elas trazem impresso o próprio nome do remetente ou os órgãos em que atuou, em São Paulo, cidade na qual permaneceu depois do cargo no Rio de Janeiro: Secretaria de Educação e Saúde, Secretaria Municipal de Educação e Cultura, Departamento de Educação, Instituto de Educação, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Centro Regional de Pesquisas Educacionais e, também, Companhia Editora Nacional, Biblioteca Pedagógica Brasileira e Academia Brasileira de Letras22. Em papéis timbrados os pedidos constituem um volume significativo. Na maior parte das vezes, escritas por políticos ou ocupantes de cargos públicos que cumpriam a função de intermediar a apresentação de postulantes aos mais diferentes cargos: Gabinete do Presidente da República, do presidente da Câmara dos Deputados, Gabinete do Interventor no Distrito Federal, Ministério da Educação e Saúde Pública, Gabinete do Ministro da Marinha, Diretoria da Limpeza Pública e Particular, secretário de Viação de Obras Públicas de Minas Gerais, 22. Os timbres em papéis de cartas enviadas de Gilberto Freire para José Lins do Rego foram examinados por Lima e Figueiredo Júnior, e no estudo de Simonini e Marques (2003), sobre os papéis timbrados das cartas de Fernando de Azevedo para Anísio Teixeira. 60 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 entre outros. Na linguagem, geralmente revestida de certa formalidade, o motivo da audiência seria apresentado pelo portador da própria missiva que “deseja expôr-lhes assumpto que se prende aos serviços dessa Directoria”, “tem assumpto a tratar junto a essa Directoria, conforme lhe exporá verbalmente”, ou “que deseja conversar com o amigo a respeito de assumpto que se prende aos serviços dessa Directoria” (Cartas de Francisco Vicente Bulcão Vianna para Anísio Teixeira, 29 jan. 1932, 11 nov. 1932, 11 nov. 1931 e 12 jan. 1932, respectivamente). Em outras, o tom era mais afetuoso, o texto mais longo, o motivo declarado, como esta que reiterou um pedido para o “aproveitamento como guardiã ou inspetora de alumnos” de uma mulher em dificuldades financeiras: Volto agora a insistir nesse pedido. Trata-se de uma moça grandemente prendada, educada na Inglaterra e que, com o fallecimento do marido, encontra-se na mais penosa das situações. Não fossem essas condições especiaes, acrescidas pela insistência de um amigo a quem nada posso negar e creio que o não importunaria ainda, certo de que se tivesse sido possível, a minha recommendada teria já obtido, de sua boa vontade, o amparo que deseja. Antecipando desde já os meus agradecimentos, aguardo com satisfação, as suas ordens” [Carta de Francisco Vicente Bulcão Vianna para Anísio Teixeira, 21 nov. 1931]. As palavras protegida e recomendada são comuns nas cartas de pedidos escritas por políticos, em favor das professoras, revelando, assim, uma lógica do apadrinhamento23, na qual pessoas com certa importância e proximidade de Anísio Teixeira teriam suas solicitações atendidas com maior sucesso. Atuando como mediadores, os políticos evidenciavam não só o próprio prestígio, mas também o do provedor, como se vê nesta carta do deputado baiano Homero Pires: “Não se pode ser importante... Se tivesse de lhe despejar à porta da rua os pedidos que me fa- 23. Sobre a lógica do apadrinhamento, ver Gomes (2000) e Heyman (1999) no caso das cartas de políticos para Anísio Teixeira, o estudo de Marques (2004). o carteiro e o educador 61 zem para os encaminhar a você, forçadamente a sua porta ficaria atravancada e você não sairia à rua”24. Os pedidos em favor de professores tiveram outros mediadores além dos políticos. Amigos e conterrâneos escreveram, também, em defesa de seus próprios interesses, mas, na maior parte das vezes, o fizeram para interceder por outros postulantes invocando a amizade que os unia, o trabalho desenvolvido juntos, a crença em ideais comuns. A situação financeira precária, a injustiça sofrida, a vontade de concluir estudos etc. justificavam o pedido de vagas para alunos na rede pública e as solicitações de emprego para os cargos de zelador, ajudante de rouparia, guardião, inspetor, servente, escriturário, enfermeiro escolar e professor. Para os que já exerciam o magistério, efetivação para substitutos e transferências de escolas, abonos de faltas, férias, licenças sem vencimento, entre outros. Fernando de Azevedo, que havia combatido intransigentemente a ingerência política na educação porque impedia que a sua reforma obtivesse sucesso, condenando de forma veemente os “parasitas dos cofres públicos”25, assim como Noemy da Silveira, Carneiro Leão, Mário Casassanta e Afrânio Peixoto, entre outros, também mediou pedido de um professor: “Já lhe havia escripto hoje. Volto para lhe dizer que o José Brandão, filho de um grande amigo de minha família, dr. Thomé Brandão, medico, me pede meu interesse junto a v. pela sua reintegração. Elle era professor, interino ou effectivo, de musica em Escola Profissional. Não seria possível reintegral-o? Ficar-lhe-ei muito grato pelo que for possivel fazer por elle” (Carta de Fernando de Azevedo para Anísio Teixeira, 14 out. 1933). 24. Entre as cartas mandadas pelo deputado, encontram-se as seguintes: “Abra, porém, uma exceção para o Dr. Jorge Machado, Livre Docente da Escola Normal, donde foi afastado recentemente, e que plenamente prestificou o seu direito em memorial dirigido ao Prefeito. Eu o recomendo com interesse a você” datada de 26 out. 1931, e “A professora D. Nair Viegas de Oliveira foi-me apresentada pelo Dr. Antonio [ilegível] Mendes meu amigo, filho do Dr. Pacheco Mendes os quaes ambos se interessam pela mesma professora e eu com elles, – todos esperando que você a acolha com a sua habitual boa vontade, o que será um favor”, de 8 jan. 1932, entre muitas outras. 25. Expressão utilizada em carta enviada em 26 jan. 1932. 62 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 As professoras que apelaram diretamente ao diretor da Instrução Pública lançaram mão de recursos argumentativos semelhantes aos dos políticos que invocavam a “boa vontade”, “a boa atenção”, “o vivo empenho” do educador. Certas de que ele tinha “sciência e consciência”, “espírito justiceiro”, “summa gentileza” para nomear, substituir, contratar, transferir demitir e escreveram para reivindicar cargos, mudanças de escolas e dispensa de estágio, por exemplo. A ampliação da rede escolar que visava não apenas aumentar o número de matrículas mas proporcionar um ensino de qualidade, uma preocupação marcante da reforma de Anísio Teixeira que pretendia sinalizar para o direito das crianças estudarem em prédios arquitetonicamente adequados ao desenvolvimento infantil (Nunes, 1999), parece ter significado apenas como o surgimento de maior número de postos de trabalho, o que justificava, para alguns, recorrer ao Estado protetor. Eva Schendel, que estava em dificuldades financeiras, pois com o casamento do irmão estava impedida de arcar sozinha com as despesas domésticas, pedia que lembrasse do seu nome “na primeira oportunidade em que puder ser aproveitada em colocação de 500$000, no mínimo” (Carta de Eva Schendel para Anísio Teixeira, 25 maio 1935). Confessandose profundamente interessada nos avanços da moderna pedagogia e no ensino da leitura, uma professora mineira, diplomada, com experiência no magistério, fluente em alemão e francês, ofereceu-se para trabalhar na futura Biblioteca Infantil, pois “Ultimamente, venho de preferir as nomeações do governo, que oferecem mais vantagens” (Carta de Armanda Cohanier para Anísio Teixeira, 26 abr. 1934). Duas professoras, no entanto, preferiram dirigir-se às mulheres de Anísio Teixeira e de Pedro Ernesto, para que intercedessem por elas. A primeira expressava confiança que a destinatária teria “vivo interesse por esta sua patricia, que actualmente está só no mundo, sem um parente forçado, sem um arrimo ou protecção”, para encaminhar a sua solicitação: “Preciso de um lugar cujo ordenado me seja sufficiente para eu me manter aqui. Rogo que se apresente uma opportunidade, estou certa de que a generosa D. Emilinha, não deixará de me proteger pedindo ao Dr. Anisio, a minha nomeação” (Carta de Maria Madalena Vieira para Emilinha Ferreira, 4 jun. 1935). A segunda apresentava-se como “uma o carteiro e o educador 63 professora que, a despeito das innumeras injustiças soffridas de superiores, permanece, de corpo e alma, na sua missão de professora, com funções multiplas, certa de não conseguir o que sempre desejou – a direcção de uma escola sua”, mas escrevia para obter recursos para a montagem de um gabinete dentário na escola em que atuava. Para ter sua pretensão atendida, argumentava que pertencia a uma numerosa e influente família que havia votado no candidato do prefeito na última eleição: Exma. Senhora Dr. Pedro Ernesto, [...] Dispusesse eu de tempo, e, certamente, não importunaria a V.Excia., mas ao par das lidas da escola e da casa, dediquei-me com muito amor, ao serviço de alistamento eleitoral, certa da necessidade imperiosa de votar e fazer votar todos os amigos ao meu alcance, dentre as minhas relações adquiridas por meu pae, durante os innumeros annos que teve como Intendente Municipal e Deputado Federal, dentre as relações de amizade decorrentes de varias profissões da família (onze irmãos professoras, médicos, advogados, dentistas, oficiaes do nosso Exercito) e dentre os Catholicos do populoso subúrbio de Meyer, tendo sido Secretaria da Liga Eleitoral Catholica, desse subúrbio, e da qual é Presidente meu irmão Honório, estendendo minha acção à Liga Eleitoral Catholica do Engenho de Dentro, da qual me fizeram membro à ultima hora com um mês antes do encerramento. [...] Perdoe, Exma Senhora Dr. Pedro Ernesto: Falo com V. Excia. com naturalidade de quem conhece V. Excia. intimamente: É fructo da sympathia que nos inspira, como o nosso digníssimo Interventor, a quem espontaneamente, dei, com meus manos, apoio, na eleição ultima, votando no Sr. Dr. Jones Rocha, por termos sido informados de que esse era o candidato de S. Excia [Carta de Olga dos Santos Pimentel para esposa de Pedro Ernesto, 27 ago. 1934]. Nem sempre a iniciativa das professoras de registrar suas pretensões com o próprio punho, na folha de papel em branco, significou abrir mão de mediadores. Alzira Ladeira Rodrigues Carvalho, por exemplo, ao pedir sua indicação para superintendente do ensino elementar ou particular, citou o nome de vários pessoas que já intercederam em seu favor, sinalizando assim para a sua rede de relações: o general Góes Monteiro, o ge- 64 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 neral João Francisco, Helvécio Gomes de Oliveira, arcepispo de Mariana, “cuja carta de recommendação entregou ao Dr. Amaral Peixoto que, gentilmente, se prestou a faze-la chegar às vossas mãos” (Carta de Alzira Ladeira Rodrigues Carvalho para Anísio Teixeira, 3 dez. 1933). As anotações feitas por Anísio Teixeira nas margens, os agradecimentos, as cópias ou rascunhos das respostas dadas, evidenciam que cartas não deixam apenas as marcas de quem as escreveu. O destinatário deixou também sobre as folhas de papel os rastros de suas leituras26. Muitas vezes ilegíveis, as anotações feitas por Anísio deixam entrever as maneiras como os pedidos foram lidos e encaminhados. Esclarecem o conteúdo da carta, a importância do remetente, as redes de relações e até mesmo direcionam a resposta a ser dada – “Pedido”, “Respondido”, “Confidencial”, “Providenciado”, “Informar os termos da lei”, “Examinar o caso”, “Agradeça-se”, “Sciente”, “Arquive-se”, ou ainda “Directora da Escola José de Alencar para substituir o Dr. Solano Carneiro”, “Ficou resolvido continuar D. Cecília Álvares Pessoa” e “Transferencia de uma contramestra da Escola Paulo de Frontin. Falar com D. Andréa”. Algumas respostas escritas por Anísio indicam que as pretensões eram lidas, avaliadas e até mesmo recusadas como na carta a Amaral Peixoto, por exemplo, na qual justificou com argumentos técnicos a impossibilidade de alugar ou comprar prédio situado na rua das Palmeiras, para instalar uma escola, visto que examinado pelo Inspetor Escolar do Distrito, “não foi julgado em condições de servir para séde de uma escola, pois trata-se de uma casa antiga, baixa e sem condições de adaptabilidade” (Carta de Anísio Teixeira para Amaral Peixoto, 24 dez. 1931). Entre os agradecimentos, muitos deles em cartões e papéis com monogramas, é possível perceber que os pedidos de nomeação ou intermediação para cargos eram atendidos. Cópias de cartas e rascunhos indicam também que ele lia os pedidos e, por vezes, os intermediava espe- 26. Para Camargo (2000, p. 204), “sujeitos que escrevem e lêem cartas deixam suas marcas, que podem indicar pistas para uma leitura da constituição do sujeito da escrita, na escrita”. o carteiro e o educador 65 cialmente para seus conterrâneos, que escreviam para que ele intercedesse junto a órgãos da administração sediados no Distrito Federal e junto à administração baiana, como se observa na carta datilografada enviada a uma professora: “Comunico-lhe que transmiti, com todo interesse, seu pedido ao Dr. Edgard Pitangueira, Diretor Geral de Instrução do Estado da Bahia” (Carta de Anísio Teixeira para Lourdes Lobão, 29 nov. 1931). Em meio a tantas cartas de pedidos que não trazem as marcas da leitura, uma destaca-se não só por sua bela caligrafia. Seria “uma carta respondida [...] [uma] cousa que se encerrou”, ou mais uma a responder “uma cousa viva, a falar ainda e a esperar”, como escreveu Anísio Teixeira um dia ao se desculpar com Monteiro Lobato27 pela falta de tempo para dar notícias? Nas duas páginas pautadas, amareladas, o remetente não se limitou a pedir emprego no âmbito da educação. Como muitos outros que consideravam o diretor da Instrução Pública com uma posição de destaque que o credenciava para conseguir favores até no gabinete presidencial para evitar demissões de cargo de fiscalização ferroviária, promoção no funcionalismo dos Telégrafos ou pensão para viúva, entre outros, o portador dos papéis que resistiram à triagem, à censura e ao descaso com os escritos das pessoas comuns tornou-se também mediador: Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1932. Exmo. Snr. Pr. Anísio Teixeira Respeitosas saudações. Sendo V. Exª o meu digno destinatário de maior destaque na situação presente, venho com o maior respeito vos fazer um pedido em favor de um dos meus cunhados. É ele portador da profissão de pintor e como se acha desempregado desejava prestar os seus serviços nos Próprios Municipais, onde já serviu há anos. 27. Carta de Anísio Teixeira para Monteiro Lobato, sem data. Reproduzida em Conversa entre amigos, no qual os organizadores esclarecem que foi enviada da Bahia, possivelmente, em 1936 (1986, p. 78). 66 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 O rapaz, que se chama Antonio de Medeiros, é reservista do Exercito, conta 25 anos de idade, é de conduta exemplar, muito trabalhador e reside comigo a rua Amorin, n. 32 na Estação da Piedade. Tenho certeza de que uma carta de V.Exª, para o vosso colega da Diretoria de Obras da Prefeitura, será plenamente satisfeita. Assim, rogo encarecidamente a V.Exª a concessão deste grande obsequio, pelo qual, desde já, me confesso sumamente agradecido. De V.Exª Amgo certo e Crd às vossas ordens, João Mourão Carvalhinho Vosso carteiro” Referências bibliográficas ACCÁCIO, L. O. Docentes e catedráticos: os concursos para professor da Escola Normal do Distrito Federal (1928-1930). Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. 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Rua São Francisco Xavier, 524 12º andar - Sala 12037-F - Maracanã CEP: 20550-900 Rio de Janeiro-RJ E-mail: [email protected] Recebido em: 10 de mar. de 2005 Aprovado em: 28 de ago. de 2005 DOSSIÊ Arquivos Escolares: desafios à prática e à pesquisa em história da educação Apresentação Os arquivos escolares têm emergido nos últimos dez anos como temática recorrente no campo da história da educação. Relatos de experiências de organização de acervos institucionais, narrativas sobre as potencialidades da documentação escolar para a percepção da cultura escolar pretérita (e presente), publicação de inventários e guias de arquivo, elaboração de manuais e reprodução de documentos (digitados ou digitalizados) vêm mobilizando investigadores da área, renovando as práticas da pesquisa e suscitando o uso de um novo arsenal teóricometodológico. O interesse pela singularidade no tratamento das diversas fontes para a produção historiográfica, manifesto em décadas precedentes, já tinha forjado um deslizamento em direção à história, à teoria da linguagem e à antropologia, dentre outras disciplinas, impelindo à busca de documentação sobre o passado educacional em arquivos públicos, institucionais e particulares, e mesmo à elaboração de documentos pelo recurso à história oral. O esforço de sistematização das informações e sua disponibilização, então iniciado, pela própria magnitude do projeto, demandaram a constituição de grupos de pesquisa, cujo funcionamento regular propiciou a extensão do mapeamento das fontes documentais. A esse movimento tem-se entretecido, mais recentemente, a preocupação com a preservação de acervos e a atenção aos primados da arquivística e da museologia, enredando os historiadores da educação na discussão sobre a cultura material, o exercício do arquivamento e do 72 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 descarte e as técnicas específicas de conservação de cada suporte ou objeto. Tais interlocuções têm ampliado ainda mais o horizonte do trabalho em história da educação, ao mesmo tempo provocando fissuras no que se considera a seara do historiador e questionando fronteiras disciplinares. Ao lidar com os arquivos mortos de escolas, os investigadores têm sido instados a mobilizar a comunidade escolar e atentar para seus anseios. A literatura vem demonstrando a importância em associar alunos, professores e funcionários à organização e manutenção dos acervos escolares, na certeza de que a perenidade dessas iniciativas repousa no seu acolhimento pelo efetivo da escola. Despontam, assim, argumentos em defesa da necessidade de integrar o funcionamento da secretaria à prática do arquivo permanente, gerando instrumentos de trabalho próprios ao universo documental da escola; e sobre a relevância em tornar o arquivo vivo, seja pela participação de alunos e professores na atividade de organização e guarda do acervo, seja pelo uso de alguns documentos escolares em sala de aula. Em contrapartida, a percepção de que os objetos e móveis localizados nas instalações escolares estão intrinsecamente ligados à constituição das práticas escolares atuais e antigas, tecendo com os documentos textuais e fotográficos múltiplas histórias da escola e da educação, tem levado pesquisadores a problematizar as balizas que tradicionalmente distinguem documentos arquivísticos e museológicos e a advogar o não desmembramento dos acervos escolares. Os artigos aqui reunidos exploram a interdisciplinaridade dessas iniciativas, trazendo matizes das discussões recentes, nas quais o entrelaçamento das atividades de campo à reflexão teórico-metodológica confere densidade à análise. São várias as abordagens. Ora, a ênfase recai sobre a tarefa metódica e minuciosa da organização do acervo, detalhando as ações realizadas e os obstáculos superados. Ora, o interesse volta-se para problematizar as relações entre arquivos, história e história da educação. Os autores são, todos, pesquisadores em história da educação, embora tenham distintas formações (história, pedagogia e matemática) e diversas inserções institucionais (professores e arquivistas). E participaram do I Encontro de Arquivos Escolares e Museus Es- dossiê 73 colares, realizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da Educação (NIEPHE), na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), entre 26 e 28 de julho de 2005. Com o objetivo de contribuir para a consolidação dos trabalhos sobre a temática, sistematizando e socializando o debate, o encontro congregou pesquisadores portugueses e brasileiros das várias regiões, na expectativa de propiciar intercâmbios e estimular ações conjuntas. A proposição do presente dossiê reitera esse convite, reconhecendo que os desafios à prática e à pesquisa em história da educação que o convívio com os arquivos escolares suscita vêm sendo enfrentados de maneiras variadas pelos investigadores da área. Diana Gonçalves Vidal Arquivos e educação a construção da memória educativa Maria João Mogarro* Resumo: Os arquivos escolares motivam profundas preocupações relativamente à salvaguarda e preservação dos seus documentos, que constituem instrumentos fundamentais para a história da escola e a construção da memória educativa. A sua importância tem vindo a ser reconhecida, conduzindo a uma reflexão sobre a sua preservação, as condições de instalação, a organização correcta dos documentos e o acesso às informações que nele estão contidas. Os arquivos escolares constituem o repositório das fontes de informação directamente relacionadas com o funcionamento das instituições educativas, o que lhes confere uma importância acrescida nos novos caminhos da investigação em educação, que colocam estas instituições numa posição de grande centralidade para a compreensão dos fenómenos educativos e dos processos de socialização das gerações mais jovens. Neste texto pretende-se reflectir sobre: o lugar dos arquivos escolares nas instituições educativas; os documentos, a sua natureza e as potencialidades para a investigação em educação; os arquivos escolares numa perspectiva interdisciplinar; os arquivos, a cultura escolar e a construção da memória educativa. CULTURA ESCOLAR; ARQUIVO; FONTES HISTÓRICAS; MEMÓRIA. * Professora coordenadora da Escola Superior de Educação de Portalegre e investigadora da Unidade de I&D em Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. Archives and education the constitution of the educational memory Maria João Mogarro* Abstract: School archives are the object of deep concern regarding the safety and preservation of their documents, which are fundamental to the history of the school and construction of the educational memory. Their importance is increasingly acknowledged, inspiring reflection about their preservation, installation conditions, the correct organisation of documents and access to the information they contain. School archives are the repository of the information sources directly related to the functioning of educational institutions, and this makes them all the more important in the new paths of research in education, that place these institutions at the centre of the stage in order to understand educational phenomena and the socialisation processes of the younger generations. In this paper we intend to reflect about: the role of school archives in educational institutions; documents, their nature and potential for research in education; school archives from an interdisciplinary point of view; archives, the school culture and the construction of the educational memory. SCHOOL CULTURE; ARCHIVE;HISTORICAL SOURCES; MEMORY. * Professora coordenadora da Escola Superior de Educação de Portalegre e investigadora da Unidade de I&D em Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. arquivos e educação 77 Os arquivos escolares motivam profundas preocupações relativas à salvaguarda e preservação dos seus documentos, que constituem instrumentos fundamentais para a história da escola e a construção da memória educativa. A sua importância tem vindo a ser reconhecida, conduzindo a uma reflexão sobre a sua preservação, as condições de instalação, a organização correcta dos documentos e o acesso às informações que nele estão contidas. Os arquivos escolares constituem o repositório das fontes de informação directamente relacionadas com o funcionamento das instituições educativas, o que lhes confere uma importância acrescida nos novos caminhos da investigação em educação, que colocam essas instituições numa posição de grande centralidade para a compreensão dos fenómenos educativos e dos processos de socialização das gerações mais jovens. Neste texto pretende-se reflectir sobre: o lugar dos arquivos escolares nas instituições educativas; os documentos, a sua natureza e as potencialidades para a investigação em educação; os arquivos escolares numa perspectiva interdisciplinar; os arquivos, a cultura escolar e a construção da memória educativa. O lugar dos arquivos escolares nas instituições educativas Os arquivos e os seus documentos têm adquirido uma importância crescente no campo da história da educação1. Eles possuem informações que permitem introduzir a uniformidade na análise realizada sobre os vários discursos que são produzidos pelos actores educativos – professores, alunos, funcionários, autoridades locais e nacionais têm representações diversas relativamente à escola e expressam-nas de formas diversificadas. O arquivo, constituindo o núcleo duro da informação sobre a escola, corresponde a um conjunto homogéneo e ocupa um lugar central e de referência no universo das fontes de informação que 1. Este artigo retoma e aprofunda ideias apresentadas no texto “Os arquivos escolares nas instituições educativas portuguesas. Preservar a informação, construir a memória” (Mogarro, 2005). 78 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 podem ser utilizadas para reconstruir o itinerário da instituição escolar. O cruzamento que se estabelece entre os dados obtidos, através da análise dos documentos de um arquivo escolar, permitem realizar correlações estreitas entre as diversas informações (também obtidas em fundos documentais externos à escola), revelando um elevado índice de coerência e lógica internas do fundo arquivístico e o papel central dos seus documentos para a compreensão da organização e funcionamento da instituição que os produziu (Mogarro, 2001, pp. XLIII-XLIV). Mas essas inteligibilidades só são estabelecidas pelos processos de investigação. No caso dos arquivos escolares, trabalhamos com documentos que estão depositados, na maior parte das situações, no silêncio desses mesmos arquivos e aí permanecem (resta saber se, de facto, ainda permanecerão) até que o investigador proceda a uma avaliação da sua pertinência para o processo de investigação, em função dos problemas previamente formulados (Mogarro, 2001, p. XXXVIII). Se é verdade que o historiador inventa as suas fontes, “construindo-as” em articulação com o objecto de estudo e inserindo-as nas realidades históricas (e educativas, no caso que aqui nos interessa) em que foram produzidas e utilizadas, no caso dos arquivos escolares estamos perante fontes de informação tradicionalmente consagradas (os documentos de arquivo), embora também tradicionalmente consideradas menores no campo da história e, por isso, secundarizadas (pela sua condição de serem escolares e, em consequência, revelarem os processos educativos). Essa condição tem vindo a ser gradualmente modificada, com a atenção crescente que têm assumido os aspectos da vida quotidiana e os “fazeres ordinários” da escola, dois dos novos objectos de um número assinalável de investigações historiográficas. As novas vertentes de análise e produção histórico-educativa obrigam a uma renovação dos olhares sobre os documentos de arquivos escolares e uma abertura teórico-metodológica que incorpore as estimulantes informações que eles disponibilizam. Os fundos desses arquivos são constituídos por documentos, geralmente em suporte de papel, organizados em livros, dossiês e avulsos, produzidos pelos actores educativos e pela própria instituição, no âmbito das suas actividades e a um ritmo que podemos considerar quase quotidiano. arquivos e educação 79 A importância do lugar do arquivo na instituição escolar tem acompanhado a afirmação desta instituição como um microcosmos com formas e modos específicos de organização e funcionamento. As escolas são estruturas complexas, universos específicos, onde se condensam muitas das características e contradições do sistema educativo. Simultaneamente, apresentam uma identidade própria, carregada de historicidade, sendo possível construir, sistematizar e reescrever o itinerário de vida de uma instituição (e das pessoas a ela ligadas), na sua multidimensionalidade, assumindo o seu arquivo um papel fundamental na construção da memória escolar e da identidade histórica de uma escola. No caso específico da situação portuguesa, a generalidade das escolas têm os fundos dos seus arquivos dispersos por vários espaços, como os sótãos, as caves, os vãos de escada e outros locais escondidos e desactivados, sem condições mínimas para albergarem os documentos de arquivo. Geralmente à guarda das respectivas secretarias e serviços administrativos, misturam-se documentos de origens diversas e utilidade também diversificada: a) documentos activos – ainda utilizados com regularidade, organizados (geralmente) e de acesso mais fácil; b) documentos semi-activos – cadastros de professores e de alunos, de que ainda são pedidos certificados a partir do original, estando identificados pela instituição e sendo localizados com relativa facilidade; c) documentos inactivos – nessa fase do seu ciclo de vida, os documentos encontram-se normalmente depositados em locais que não garantem as condições necessárias para a sua salvaguarda e preservação material, amontoando-se sem organização e misturando-se documentos de origem e natureza muito diversa. A importância dos arquivos escolares tem adquirido visibilidade em projectos desenvolvidos nos últimos anos e que estiveram na origem de publicações de referência, em Portugal (Nóvoa & Santa-Clara, 2003; Magalhães, 2001). Esse processo tem similitudes com o movimento que se tem consolidado no panorama da investigação brasileira, nessa área, constituindo exemplos significativos os trabalhos sobre instituições educativas e os seus arquivos, publicados por Moraes e Alves (2002), Vidal e Zaia (2002) e Vidal e Moraes (2004), assim como a publicação de importantes documentos relativos à presença feminina na educação es- 80 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 colar paulista da segunda metade do século XIX, por Maria Lúcia Hilsdorf (1999), que efectuou o levantamento de fontes nos arquivos do estado e da Universidade de São Paulo (USP). O conteúdo desta obra remete para a necessidade de perspectivar os arquivos escolares na sua articulação com outros arquivos de âmbito mais geral (nacionais, centrais, de ministérios etc.), mas que também integram documentos com conteúdos educativos e cuja importância tem de se articular com os períodos históricos em que foram produzidos e com as especificidades que então apresentavam os sistemas educativos. No caso português, a preocupação com a preservação e valorização do património histórico educativo é consensual, embora não encontre nos poderes instituídos a correspondência necessária para acções e decisões que se tornam urgentes. O levantamento efectuado em 1996, sob a coordenação de António Nóvoa, demonstrou que o estado de conservação da documentação de arquivo nas escolas secundárias portuguesas pode-se considerar maioritariamente razoável, situando-se nesse nível de apreciação 72,3% das instituições consideradas, seguindo-se 11,5% com nível bom, 10,3% apresentando um estado mau e 5,7% situando-se na categoria de “sem informação” (Nóvoa, 1997, p. 71). Contudo, O razoável estado de conservação da documentação poderá ... ser posto em causa a curto prazo, já que a capacidade de acondicionamento por parte da maioria das escolas é cada vez menor ... Esta situação tenderá a agravar-se muito rapidamente, uma vez que a capacidade de armazenamento de nova documentação é nula em cerca de metade das escolas e muito reduzida nas restantes ... O facto configura, portanto, uma situação de saturação e de ruptura total no que toca à capacidade de conservação de arquivos por parte da maioria das escolas. A muito curto prazo poderão intensificar-se os dois fenómenos negativos usuais nestas circunstâncias: a eliminação desregrada ou a manutenção desorganizada ou pulverizada dos mesmos [p. 74] Uma situação que não se alterou nos últimos anos, exceptuando-se os liceus em que houve uma intervenção sistemática de organização dos seus arquivos, no âmbito de projectos de investigação (Nóvoa & Santa-Clara, 2003). Ao pensarmos nas medidas a adoptar para o futuro, temos que ter arquivos e educação 81 em conta que os arquivos escolares ocuparam, em muitos casos, locais físicos diversos, porque passaram sucessivamente ao longo da história da instituição escolar a que pertencem; também nessas transferências poderá ter-se perdido a lógica organizativa que lhe teria sido conferida no início. Hoje apresentam-se geralmente com a documentação disposta ao sabor do acaso e evidenciando a desorganização arquivística que terá sido provocada pelas mudanças de localização ao longo do tempo (mas que também poderá ser original, conforme os casos). Assim, torna-se necessário realizar o levantamento de toda a documentação existente, elaborar seu inventário e organizar os arquivos segundo critérios técnicos e científicos. Nesse sentido, têm sido desenvolvidos esforços no âmbito de projectos relacionados com instituições educativas e em que a vertente arquivística e as preocupações técnicas com ela relacionadas assumem uma dimensão significativa (Vieira, 2003; Zaia, 2004), pois constituem o trabalho prévio e indispensável para a realização de pesquisas científicas e actividades pedagógicas. Há um longo caminho a percorrer, para a preservação e salvaguarda de documentos que contém informações valiosas para a história da escola e para o estudo da cultura escolar, constituindo um património fundamental na actualidade. Os documentos e as suas potencialidades para a investigação em educação Os documentos de arquivo (manuscritos e dactilografados, no caso dos mais recentes) reflectem a vida da instituição que os produziu. No entanto, as informações fornecidas por esses documentos têm, necessariamente, de ser cruzadas com os dados que se encontram em fontes de outra natureza, apresentando-se em suportes variados e sob formas diversificadas. Muitas dessas fontes de informação encontram-se no exterior da escola a que respeitam (e, consequentemente, do seu arquivo), sendo parte integrante de um universo que hoje é múltiplo e complexo. Esse universo engloba as fontes de informação mais tradicionais e consagradas, assim como aquelas que conquistaram recentemente o seu lu- 82 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 gar nesse contexto; integra fontes produzidas no interior das instituições, mas outras que lhes são exteriores; muitos dos seus documentos estão marcados pela materialidade dos seus suportes, outros pela oralidade com que os actores educativos expressaram os seus discursos. Ao localizar esses materiais, podemos estabelecer uma geografia documental sobre a escola: • textos legais e documentos emanados do poder central; • estatísticas oficiais; • relatórios técnicos, elaborados por inspectores, reitores e directores de escolas; • regulamentos, circulares, normas e outros textos gerados pela instituição escolar e de circulação interna, mas que também podem ser documentos que asseguram o fluxo de comunicação entre o organismo político de tutela e a própria escola; • documentos administrativos e pedagógicos, que constituem grande parte do acervo arquivístico de cada instituição educativa; • publicações exteriores à escola – livros, artigos de jornais e revistas, etc. São trabalhos científicos, pedagógicos e culturais, poesias, que muitas vezes surgem na imprensa regional e na imprensa pedagógica, da autoria de professores da instituição, os quais também publicaram livros, expressando através dessas diversas modalidades a sua cultura profissional; • equipamento, mobiliário escolar e objectos de diversa natureza; • materiais didácticos, que se encontram na escola mas também, em muitos casos, integram acervos exteriores à instituição; • trabalhos escolares de alunos que, geralmente, pertencem a espólios particulares e revelam o significado atribuído pelas pessoas à escola e aos processos educativos, ao longo dos seus percursos de vida; • fotografias e outros documentos de natureza iconográfica; • testemunhos orais de professores, alunos, funcionários e outros elementos que exerceram funções no sistema educativo, na escola e na comunidade. arquivos e educação 83 No seu conjunto, essas fontes de informação implicam ao investigador uma atitude necessariamente atenta aos contextos educativos e culturais em que foram produzidas e à selecção a que sucessivamente foram submetidas pelas gerações de actores sociais que as tutelaram, ocupando diferentes níveis de poder decisório sobre elas e sobre a sua preservação ou eliminação. Em consequência, esses documentos constituem produções múltiplas, que reflectem a própria multidimensionalidade e complexidade das realidades escolares e formativas, assim como a diversidade e pluralidade dos meios de intervenção dos agentes educativos. Estabelecendo um recorte específico neste universo das fontes de informação para a história da educação e para a história da escola, perspectivamos de forma particular os documentos que integram os arquivos escolares. O lugar que eles ocupam decorre da riqueza dos seus documentos e do leque de temas e problemas que é possível investigar, numa aproximação significativa aos quotidianos escolares e às práticas pedagógicas. A análise dos fundos documentais de arquivos escolares de instituições que asseguraram a formação em vários níveis de ensino (Mogarro, 2001a, 2003; Mogarro & Crespo, 2001), permitiu estabelecer a relação entre documentos de natureza diversificada e as investigações que eles permitiam (Mogarro, 2005), relação essa que se desenvolve no quadro seguinte. A relação entre os documentos e as investigações que, a partir deles, podem desenvolver-se não é unívoca e exclusiva. O quadro da seqüência pretende sublinhar a importância e a riqueza dos documentos de arquivo para os estudos sobre a instituição educativa, a cultura escolar, o currículo, registando as potencialidades de cada tipo de documento. No entanto, não se pode esquecer o necessário cruzamento das informações, que um documento pode conter, com as de outros documentos. Os seus contributos são fundamentais para um universo vasto de temas e problemas – a flexibilidade e agilidade que o investigador imprime ao processo de investigação se baseia na complementaridade da documentação em análise e na capacidade de usar a sua complexidade para trilhar novos caminhos nas suas pesquisas e na problematização das realidades educativas. O cruzamento de conteúdos é, nesse sentido, uma operação funda- 84 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Desenvolvimento de investigações a partir dos documentos de arquivo Documentos 1. Actas do Conselho Escolar • Actas diversas • • • • • 2. Livros de cadastro de professores; Processos de professores. • 3. Livros de Cadastro e de Matrícula dos alunos; Processos de alunos. • 4. Livros de Termos e Colecção de Pautas do Aproveitamento Escolar; Actas de Júris de Exame. • 5. Regulamentos internos; Ordens de serviço; • Avisos e Convocatórias; Actas do Conselho Escolar. 6. Listas de professores, alunos, turmas; • Divisão de turmas e de turnos; Horários; • Documentos sobre estágios, avaliação e outros elementos curriculares. 7. Folhetos; Brochuras; Convites; Anúncios. 8. Colecções de correspondência expedida e recebida; Circulares emanadas dos serviços centrais. 9. Relatórios (geralmente anuais). • Possíveis investigações Tensões entre professores: debates, conflitos, estratégias de coordenação, reflexão interna sobre a instituição, tomadas de posição individuais; Opções pedagógicas e curriculares; Formas de abordagem dos problemas disciplinares dos alunos; Orientações internas da vida da escola; Actividades extra-curriculares etc. Caracterização e evolução do corpo docente da instituição escolar: origem geográfica, formação académica e profissional, percurso e valorização profissional, anos de ligação à instituição Definição do perfil dos alunos que, ao longo dos anos, frequentaram a escola: origem geográfica, articulação com a comunidade e a região, idade de entrada e saída da instituição, relação quantitativa de géneros, estudo da formação das elites locais, sociais e económicas etc. Avaliação dos resultados alcançados pelos alunos e estabelecimento das taxas do seu sucesso/insucesso Apreensão da vida quotidiana escolar, dos valores, normas e regras, das questões disciplinares, das actividades extracurriculares; Conhecimento do trabalho docente (através dos registos institucionais e pessoais que o permitem) e das relações (de cumplicidade e/ou de conflito) entre professores. Caracterização do trabalho de gestão e de organização pedagógica da instituição escolar; Identificação de modalidades de governo interno dos agentes e sujeitos educativos, assim como da organização do tempo e do espaço escolares; Análise da interpretação institucional relativamente aos planos de estudo, aos saberes disciplinares e às práticas escolares, na perspectiva de apreensão dos sentidos que a escola atribuía à sua actividade formativa. Identificação de festas, espectáculos, exposições, manifestações e outras realizações muito diversificadas que marcaram o calendário escolar. • Caracterização das relações institucionais com os organismos da tutela e avaliação do grau de autonomia das instituições escolares face ao poder central. • Compreensão da imagem que a escola construiu sobre a sua actividade e funcionamento, na perspectiva da direcção da instituição; Conhecimento e análise das categorias utilizadas nesses documentos. • (continua) arquivos e educação 85 (continuação) Documentos 10. Livros de Sumários • Materiais escolares (manuais, inventários etc.); Inventário e ficheiros da • biblioteca escolar. • 11. Trabalhos de Alunos. • • • 12. Documentos relativos à gestão financeira e contabilidade da escola; Documentos relativos ao pessoal auxiliar. 13. Jornais e revistas da instituição escolar; Livros de curso e livros de finalistas; Outras publicações de professores e alunos. 14. Fotografias e imagens. • • • • Possíveis investigações Sistematização dos traços da história do currículo, das disciplinas escolares e das relações pedagógicas, permitindo a apreensão e identificação; Apreensão dos elementos do quotidiano na sala de aula e da natureza dos processos educativos que nela se desenvolve(ra)m; Identificação do sentido que marcou a evolução dos saberes e dos modelos culturais e pedagógicos presentes na escola. Análise dos mecanismos em que assentam os processos de ensinoaprendizagem e do significado dos rendimentos exigidos pelas diversas disciplinas aos escolares; Compreensão, do ponto de vista dos alunos (uma perspectiva só muito recentemente valorizada), das evoluções e as mudanças profundas que ocorreram no campo da educação; Valorização desse tipo de fontes de informação, que raramente têm sido conservadas pelo arquivo da própria instituição escolar e que têm despertado um interesse renovado nos novos caminhos da investigação em educação. Avaliação da gestão e dos critérios de aplicação do orçamento das escolas, remetendo para questões de economia da educação. Identificação das vozes (individuais e de grupo) de professores e alunos, a partir da análise dessas publicações, em que os autores expressam a sua visão do mundo, da profissão e da escola; Levantamento destas obras, que também raramente são guardadas no arquivo da instituição. Observação e análise de um variado leque de documentos iconográficos da/sobre a escola, que permite apreender a riqueza dos espaços, dos ambientes, dos objectos e das pessoas. Também essta documentação raramente se mantém no arquivo da instituição escolar a que diz respeito. mental. Por isso, o quadro apresentado fornece indicações importantes, mas não tem uma natureza prescritiva ou rígida e não reduz um conjunto de temas e problemas a um único tipo de documentos. Esses documentos permitem apreender a realidade educativa em que foram produzidos, mas podem ser lidos em perspectivas diversas e expressam, na sua materialidade e no seu conteúdo, a riqueza dos contextos de produção – isolados, são fragmentos do passado, cabendo ao historiador a tarefa de conferirlhes validade, coerência, lógica e unidade, no estabelecimento necessário de relações com outros documentos e acervos. 86 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Os arquivos escolares numa perspectiva interdisciplinar No contexto da diversidade de fontes de informação, os arquivos escolares corporizam a referência fundamental, pois que os seus documentos constituem, exactamente pela sua específica natureza, o “núcleo duro” do processo investigativo e garantem uma solidez acrescida e a validade das conclusões no fim de um percurso de investigação. Os documentos de arquivo são os mais tradicionais como base da escrita da história, mas os novos caminhos da investigação em educação não deixam de conferir-lhes esse lugar de centralidade, de matriz de referência, pela consistência das suas informações e pela segurança que transmitem aos investigadores. As novas fontes de informação expressam a preocupação com as vozes dos actores sociais e educativos (privilegiando os testemunhos orais e as lógicas narrativas de natureza pessoal) ou com a materialidade associada às práticas (como os objectos móveis que fazem parte dos espólios museológicos das escolas), mas a configuração da identidade histórica e institucional passa necessariamente pelo arquivo, enquanto repositório do processo de “escrituração” da escola. O arquivo escolar garante, em cada instituição, a unidade, a coerência e a consistência que as memórias individuais sobre a escola, ou os objectos isolados por ela produzidos e utilizados, não podem conferir, por si sós, à memória e identidade que hoje se torna fundamental construir. Mais uma vez, somos conduzidos a sublinhar a necessidade de articular e cruzar as informações de cada tipo de documento com as de outros documentos que se revelem pertinentes para o estudo a realizar. Estabelece-se assim o diálogo entre as diversas fontes de informação, entre os vários documentos, numa perspectiva de complementaridade e articulação entre eles. Essa perspectiva, exercida sobre os documentos de um arquivo entre si e também entre documentos de natureza diversa (comparar os dados recolhidos no arquivo escolar com as estatísticas oficiais, relativamente ao número de professores ou de alunos de uma instituição, por exemplo), é extensível aos próprios arquivos, pois, como já referimos anteriormente, outros fundos podem possuir documenta- arquivos e educação 87 ção relativa aos temas educativos a investigar e que complementem os dados recolhidos no arquivo escolar. Certamente que os arquivos do Ministério da Educação possuem uma vastíssima documentação sobre as diferentes escolas e esses documentos não se encontram, muito provavelmente, nos fundos guardados nas próprias instituições. O Arquivo Nacional da Torre do Tombo tem também, nos seus fundos tão diversificados, documentos fundamentais para a compreensão da educação em Portugal. Numa dimensão mais local, também podem-se encontrar documentos de conteúdo educativo nos arquivos dos organismos e associações que se situam na localidade onde funciona(ou) a escola. Nos arquivos municipais estão depositados fundos sobre as instituições escolares e a evolução do sistema educativo, sendo possível, a partir da sua análise, reconstruir as dinâmicas de relacionamento entre as escolas e a comunidade envolvente e o papel que os professores desempenharam na sociedade local, por exemplo. Outra vertente significativa e que permite o cruzamento de dados é constituído pelos periódicos (jornais e revistas) de dimensão local e regional que, de forma regular e ao longo dos séculos XIX e XX, publicaram notícias de natureza educativa, expressando assim a importância que o modelo escolar assumia na sociedade contemporânea. Essa imprensa constitui uma importante fonte de informação, cujos dados podem correlacionar-se com a documentação dos arquivos escolares. No registo mais íntimo da vida privada, os arquivos particulares de antigos alunos e professores guardam espólios constituídos por materiais muito variados, geralmente produzidos pelos próprios proprietários do arquivo. A conservação desses documentos ao longo de uma vida e a emoção com que são revisitados pelos seus detentores/produtores evidencia a importância que as pessoas atribuem aos processos escolares e formativos nas suas histórias de vida, assim como aos percursos profissionais, no caso dos professores. Esses espólios integram materiais e trabalhos escolares, fotografias, publicações, produtos decorrentes da actividade docente, que são documentos que normalmente não se encontram nos arquivos das instituições escolares. Por isso, complementam de uma forma particularmente feliz os arquivos das escolas onde esses alunos e professores viveram ciclos da sua formação e do 88 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 exercício da profissão, tornando-se hoje insubstituíveis para construir uma imagem mais rica, completa e objectiva da educação, particularmente no caso português. A atenção que os historiadores da educação crescentemente vêm atribuindo aos arquivos escolares radica numa atitude de diálogo plural, em que a questão das fontes de informação emerge como uma prioridade no quadro teórico-metodológico da história da educação e da história cultural. Torna-se urgente localizar, sistematizar, organizar e divulgar essas fontes, problematizando-as e validando-as, de forma que elas possam alimentar os novos temas e objectos de estudo incluídos no campo científico da história da educação: os alunos, nas suas especificidades (como a atenção renovada que tem sido dada à infância), os professores e a profissão docente, a formação de professores, as instituições escolares, a educação não formal, as questões de género, os públicos escolares minoritários, os quotidianos escolares, os saberes pedagógicos, a circulação e a apropriação de modelos culturais e as formas que os veiculam. Essas temáticas pressupõem a utilização de abordagens adequadas e o reforço das relações interdisciplinares que os historiadores da educação têm vindo a desenvolver. Hoje, eles têm à sua disposição um vasto leque de instrumentos metodológicos para colocar a serviço das suas pesquisas e estudos. A crise dos paradigmas da ciência moderna e a relativização dos modelos teóricos anteriormente dominantes libertou os processos investigativos dos constrangimentos que limitavam a sua flexibilidade ante o objecto estudado. Contudo, é necessário ressalvar que as teorias não perderam a sua importância, apenas o império que detinham sobre os processos de pesquisa e de investigação. A pluralidade e a diversidade das abordagens científicas, com os seus quadros conceptuais, metodológicos e instrumentais, conduzem a aproximações e cruzamentos interdisciplinares, motivados por essa posição prévia de flexibilidade relativamente ao objecto de estudo e pela necessidade de compreender, pelas formas e estratégias mais adequadas, os sentidos e as racionalidades internas dos fenómenos educativos. Duas correntes metodologicas têm-se afirmado como portadoras de significativas potencialidades para os novos caminhos da história da arquivos e educação 89 educação: os modelos etnometodológicas e os instrumentos da nova história cultural. Os primeiros realçam o papel dos indivíduos na construção das relações sociais, deslocando o primado das estruturas para a importância do conceito de rede, das comunidades de pertença e das estratégias singulares. Em aliança com as perspectivas antropológica e sociológica, possibilitam a apreensão dos actores educativos e das experiências de vida, valorizando o nível micro da análise histórica. Podese, assim, reconstruir os modos como os indivíduos produzem o mundo social, desenvolvendo estratégias de aliança e de confronto, redes de solidariedade ou atitudes de conflito. Nesse sentido, a análise histórica procura a subjectividade inerente às relações sociais e os sentidos e estratégias que são desenvolvidos pelas comunidades, grupos e indivíduos (Chartier, 1994), adequando-se de forma particularmente assertiva aos contextos educativos. Supera-se, desse modo, um olhar exclusivamente macro, que privilegiou os mecanismos de poder e de controlo. Entre esses dois níveis de análise (micro e macro), um outro tem assumido relevância: as abordagens meso, que incidem sobre as instituições educativas, o universo de produção dos documentos arquivísticos, como já referimos. A mesoaboradagem privilegia as relações com o nível macro das decisões políticas (de que os textos legais constituem os dispositivos de suporte) e integra a dimensão micro, englobando as perspectivas que os actores educativos, nomeadamente os professores, apresentam sobre a sua instituição, a sua profissão e as práticas sociais. Os historiadores da educação só recentemente têm vindo-se a ocupar da arqueologia material da escola, dando atenção aos silêncios da história do ensino e superando o esquecimento da intra-história da escola e da especificidade própria das instituições educativas. Por seu lado, a nova história cultural e intelectual tem assumido uma importância crescente no campo científico da história e também da história da educação. Os seus instrumentos teóricos e metodológicos permitem abordagens adequadas às novas problemáticas, contribuindo para a compreensão dos discursos produzidos pelos actores educativos no interior do espaço social que ocupam. A geração do linguistic turn está na origem de uma viragem, que propõe um movimento de translação dos olhares dos historiadores, no sentido da externalidade dos proces- 90 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 sos educativos para a internalidade do trabalho escolar e da abordagem contextual para a análise textual das práticas discursivas. A linguagem e os textos ocupam um lugar central nessa nova perspectiva historiográfica e os trabalhos de Roger Chartier e de Michel Foucault, entre outros, deram contributos decisivos para a sua afirmação. Os textos e os discursos não são objectos que revelam uma realidade que se encontra oculta sob eles, mas constituem eles próprios, enquanto modos de expressão da linguagem e das estruturas mentais, sistemas de construção dessa realidade, que prescrevem tanto como a descrevem, sendo produtos materiais da mediação entre as realidades pessoais e sociais. Nesse sentido, a pesquisa histórica não se centra apenas na materialidade dos factos, mas também nas comunidades discursivas que os interpretam e os inscrevem num tempo e num espaço determinados. A atenção dos cientistas incide na experiência e nas formas como esta se constitui em práticas discursivas dos actores educativos (directores, professores, alunos), que interpretam e reinterpretam o seu mundo, conferindo sentido às suas experiências escolares e profissionais e registando as suas ideias nos documentos que chegam até nós, guardados nos arquivos. Os textos, os documentos, são acontecimentos e produtos históricos, relacionando-se de forma complexa com os seus vários contextos de produção e de recepção, ao mesmo tempo em que constituem elementos essenciais para a reconstrução dos contextos em que foram elaborados, difundidos, (re)apropriados e utilizados. A problemática das fontes de informação primárias e dos arquivos escolares coloca-se, de forma premente, no centro deste quadro teórico-metodológico. Situamo-nos numa zona de fronteira, de cruzamento, das novas perspectivas da história da educação, da história cultural, da história social e também das ciências da educação. Assiste-se a uma renovação das problemáticas teóricas e de uma reinvenção dos terrenos de pesquisa, das fontes de informação, das práticas de investigação e do apetrechamento metodológico, em que a perspectiva historiográfica se afirma ante as antigas abordagens de matriz essencialmente sociológica. A afirmação de uma história que se reclama de um pensamento cultural crítico estabelece uma agenda de diálogo entre as preocupações do presente e as arquivos e educação 91 realidades do passado, num esforço de compreensão em que se interrogam estas últimas para alcançar a inteligibilidade dos tempos presentes. Os arquivos, a cultura escolar e a construção da memória educativa No interior de estruturas complexas, como são as escolas, as pessoas estabelecem relações de poder e de comunicação, transmitem e apreendem uma cultura e são, por sua vez, produtoras de culturas. Constitui-se, assim, um universo específico, do qual nos foram deixados, ao longo do tempo, documentos e testemunhos que possibilitam o conhecimento, a apreensão da vida das instituições. Em consequência, dá-se uma atenção renovada ao trabalho interno de produção de uma cultura escolar, que tem especificidades próprias e não pode ser olhada como o mero prolongamento das culturas em conflito na sociedade, apesar de relacionar-se com elas. Nessa perspectiva, o exercício do arquivo integra-se no processo de conhecimento e compreensão da cultura escolar. Os fundos arquivísticos são constituídos por documentos específicos, produzidos quotidianamente no contexto das práticas administrativas e pedagógicas; são produtos da sistemática “escrituração” da escola e revelam as relações sociais que, no seu interior, foram sendo desenvolvidas pelos actores educativos. A instituição escolar constitui o universo de uma cultura própria e sedimentada historicamente, sendo também a produtora dos traços/ documentos dessa cultura. Esses documentos configuram, na sua diversidade e variedade, o património educativo de cada instituição – o espaço físico (edifício e zona envolvente) corporiza esse universo, os espólios arquivístico, museológico e bibliográfico integram os documentos, portadores de informações valiosas e que nos trazem, do passado até ao presente, aspectos da vida da escola e que tornam possível escrever o itinerário da instituição. No âmbito de processos de investigação, a análise desses documentos e a comparação que se estabelece entre as informações que, no seu conjunto, fornecem, permite-nos conferir sentidos 92 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ao passado e compreender também a constituição/consolidação da cultura escolar, na teia das relações que esta estabelece com as outras culturas presentes na sociedade (Chartier, 1988, 1994). Conceito amplo e abrangente, a cultura escolar apresenta uma natureza profunda e fundamentalmente histórica. A perspectiva da escola como entidade produtora de uma cultura específica, original, tem vindo a ocupar, nos últimos anos, a atenção de historiadores da educação que têm sublinhado as virtualidades desse conceito, considerando-o um poderoso instrumento de análise das realidades educativas, em várias das suas vertentes (Julia, 1995, 2000; Chervel, 1996, 1998; Viñao, 1998, 2001; Berrio, 2000). Não cabe neste artigo estabelecer as diferenças que as suas perspectivas apresentam, mas tão só realçar a importância desse conceito e os aspectos convergentes das várias abordagens Constituída por um conjunto de teorias, saberes, ideias e princípios, normas, regras, rituais, rotinas, hábitos e práticas, a cultura escolar, na sua acepção mais lata, remete-nos também para as formas de fazer e de pensar, para os comportamentos, sedimentados ao longo do tempo e que se apresentam como tradições, regularidades e regras, mais subentendidas que expressas, as quais são partilhadas pelos actores educativos no seio das instituições. Os traços característicos da cultura escolar (continuidade, persistência, institucionalização e relativa autonomia) permitem-lhe gerar produtos, que lhe dão a configuração de uma cultura independente. Essa cultura constitui um substrato formado, ao longo do tempo, por camadas mais entrelaçadas que sobrepostas, que importa separar e analisar. O exercício do arquivo tem um espaço importante nesse processo historiográfico de investigação sobre a cultura escolar. Constituído fundamentalmente por documentos escritos, o arquivo ocupa um lugar central que decorre da directa relação da escola com o universo da cultura escrita. A escrita tem, ela própria, uma posição de grande centralidade no quotidiano escolar (na gestão administrativa, nas relações pedagógicas, na construção de saberes, nas relações sociais), estando presente em toda a vida da instituição. É essa íntima relação que o arquivo reflecte, na materialidade dos seus documentos e de forma mais consistente e lógica que os outros espólios, compreendendo-se assim o lugar central que ocupa na vida e na história da escola. arquivos e educação 93 Nos últimos anos do século XX assistiu-se, em Portugal, como no Brasil, à emergência de um significativo interesse pela escola e pelo seu passado. Os novos olhares que foram dirigidos, pelos investigadores da história da educação, sobre o património e a história da escola privilegiaram também as memórias dos actores educativos e desenvolveram projectos de investigação e intervenção sobre essas temáticas. Por seu lado, um conjunto significativo de iniciativas, de natureza e objectivos muito diversos, evidenciaram a dimensão mais vasta desse interesse, enraizando-o numa procura social de identidade e de recuperação da memória em torno da escola. A identificação desse movimento profundo contribuiu para a necessidade de valorizar e recuperar os documentos que a escola foi produzindo sobre ela própria, quotidianamente, na actividade regular com que foi tecendo a sua própria história. As iniciativas indicadas têm sido protagonizadas por pessoas e instituições preocupadas com essa problemática e podemos traçar a evolução desse movimento centrando a atenção num exemplo específico. Em Portalegre (Portugal), a comunidade educativa deu visibilidade a esse seu interesse com a realização, entre 1998 e 2001, de encontros, exposições e publicações sobre o património educativo e a cultura escolar (Mogarro, 2001b, 2001c), tendo-se também efectuado a sua divulgação em congressos e encontros internacionais, nacionais e locais (Mogarro, 2003b, 2002; Mogarro & Crespo, 2001). Uma segunda fase inicia-se em 2002, com um processo de reflexão sobre o trabalho realizado e que conduziu à elaboração e implementação de um projecto de investigação e de intervenção designado por Rede de Museus Escolares de Portalegre (REMEP) (Mogarro, 2003c). Esse projecto não se limita, contudo, aos objectos materiais que integram o património educativo de uma instituição escolar; no seu âmbito, assume-se uma perspectiva mais alargada, concebendo-se os vários espólios (arquivístico, museológico e bibliográfico) de forma articulada, embora salvaguardando sempre a especificidade técnica que decorre da natureza dos documentos de cada um desses espólios e dos respectivos suportes. A designação desse projecto compreende-se também pelo reconhecimento da importância que os objectos materiais têm e que se liga ao poder da visibilidade que eles conferem aos acontecimentos do passado 94 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 e aos fenómenos sociais. Com eles, o cidadão comum e as populações em geral evocam as recordações da sua infância e juventude, as histórias da sua vida, as recordações, o seu passado que é trazido até ao presente. O sucesso que essas iniciativas têm tido junto das comunidades constitui um factor determinante para a atenção e apoio que as entidades locais (como alguns municípios) têm vindo a dar a mostras, exposições e criação de museus escolares. Esse sucesso é também um indicador importante a ter em conta na organização do trabalho científico sobre essas temáticas, no que se refere ao estabelecimento de parcerias, à adopção de atitudes e procedimentos e à divulgação de realizações e objectivos. Com a formação de uma rede de museus escolares em Portalegre2 pretende-se contribuir para a construção e consolidação de uma memó- 2. A REMEP instituiu-se com a assinatura de um protocolo entre as instituições fundadoras, estatuto que decorre da posição de cada uma no sistema educativo, a nível local: as escolas são as detentoras dos respectivos fundos históricos, outros organismos tutelam essas mesmas escolas ou desenvolvem projectos de investigação e intervenção, nesse âmbito. O protocolo foi assinado pela Câmara Municipal de Portalegre, a Direcção Regional de Educação do Alentejo (DREA), a Escola Secundária Mouzinho da Silveira, a Escola Secundária de S. Lourenço, os Agrupamentos de Escolas n.º 1 e n.º 2 de Portalegre, o Instituto Politécnico de Portalegre e a Escola Superior de Educação. A constituição dessa rede permite enraizar institucional e socialmente o projecto, envolvendo o governo autárquico, as escolas e os decisores educativos, a nível local e regional. A REMEP é constituída por núcleos escolares, que funcionam de forma articulada entre si, segundo as actuais concepções que defendem que o passado e os seus testemunhos materiais pertencem às comunidades herdeiras dos produtores desses mesmos materiais. Foram assim constituídos núcleos na Escola Secundária Mouzinho da Silveira (antigo Liceu), na Escola Secundária de S. Lourenço (antiga escola técnica) e estuda-se a constituição do núcleo da escola primária, a partir das equipas que desenvolvem trabalho nos dois Agrupamentos de Escolas da cidade de Portalegre; a viabilidade de outros núcleos também está a ser analisada, como o da antiga Escola do Magistério Primário, já extinta e cujo arquivo se encontra à guarda do Instituto Politécnico local. Esses núcleos são constituídos por equipas de professores das próprias escolas, que se propõem fazer o levantamento e a organização dos respectivos espólios e desenvolver actividades com base nos seus documentos, nomeadamente envolvendo os alunos de cada instituição. Com funções de coordenação da rede, funciona uma comissão constituída por uma responsável científica (a autora), um representante do município (Câmara Mu- arquivos e educação 95 ria educativa e, por esse meio, de uma identidade. Nesse sentido, importa aprofundar a ligação das escolas aos seus itinerários históricos, numa perspectiva de valorização dos percursos institucionais e da uma cultura escolar, promovendo a relação da população com o seu passado escolar e criando um sentimento de pertença a uma entidade colectiva. O mesmo projecto pretende reforçar a relação entre a escola e a comunidade, tomando como referência esse elemento comum a (quase) todas as pessoas – a escola, a memória da escola e da infância, assim como os objectos materiais que convocam essa memória. Os públicos escolares (e aos jovens em geral) constituem também uma preocupação dos projectos dessa natureza, visando-se promover uma formação enraizada na evolução do sistema educativo, das suas instituições e dos processos de ensino-aprendizagem, numa perspectiva de continuidade que forneça referências às inovações da actualidade. Os alunos já têm sido envolvidos em actividades dessa natureza e as temáticas do património educativo e da cultura escolar devem ser incorporadas nas práticas educativas, em conteúdos curriculares e em trabalhos desenvolvidos pelos alunos, nomeadamente ao nível da sala de aula ou de clubes sobre a história da escola (Vidal & Zaia, 2002). Nessas actividades é fundamental utilizar os documentos da própria instituição, numa relação directa entre o tempo presente e o passado que lhe está subjacente. Mais uma vez, o lugar central do arquivo adquire visibilidade e pertinência nicipal), um representante do Instituto Politécnico, um representante da Direcção Regional de Educação e um representante de cada um dos núcleos escolares. Essa comissão é ainda integrada por três técnicos especializados, respectivamente, em arquivo, museologia e biblioteca/documentação. A natureza dos documentos existentes nos espólios das escolas conduziu exactamente à necessidade de reunir especialistas em vários domínios do conhecimento, para uma adequada e eficaz orientação no processo de levantamento e organização dos fundos históricos das escolas. Essa comissão coordenadora deverá também organizar e dirigir um Centro de Memória Educativa e Cultural, que terá como uma das tarefas prioritárias a constituição de uma base de dados do património educativo das escolas da cidade, disponibilizando informação e apoiando projectos de investigação e intervenção, relacionados com essas temáticas. 96 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 O desenvolvimento sustentável desses projectos implica uma programação de actividades culturais, eventos diversos e publicações para recuperar a memória educativa, dinamizando a realidade cultural e pedagógica actual. Nesse contexto, ganha novo sentido a realização de exposições e mostras educativas e culturais, permanentes ou temporais, com fundos museológicos e arquivísticos das instituições e outros fundos, obtidos por empréstimo. Mesmo sendo realizações locais, esses projectos devem assumir a comunicação permanente com outros espaços. As suas finalidades visam também criar condições para a investigação no âmbito da cultura e da educação, da história e das memórias (constituição de centro de dados e recursos documentais, elaboração de projectos relacionados, realização de conferências e encontros, anteriormente referidos), de forma a fomentar o estudo e difusão de novos conhecimentos, tanto localmente como à dimensão nacional. Contudo, deve incentivar-se a integração dessa temática em projectos nacionais de investigação e em projectos de cooperação internacional, nomeadamente entre Portugal e o Brasil. Retomando a questão dos arquivos escolares, não podemos deixar de sublinhar novamente o lugar de referência que eles ocupam no conjunto dos espólios escolares. A tarefa de recuperar, preservar, estudar e divulgar o património educativo, nomeadamente os arquivos escolares, adquire um novo sentido e urgência, que passa pela necessidade de definir orientações e dar consistência ao movimento que hoje se faz sentir, tanto a nível social como científico, sobre a escola, a sua história e memória. Referências bibliográficas BERRIO, Julio Ruiz (org.). La cultura escolar de Europa. Tendências históricas emergentes. Madrid: Biblioteca Nueva, 2000. CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1988. . L’ histoire aujourd’hui: doutes, défis, propositions. València: Universitat de València & Asociación Vasca de Semiótica, 1994. arquivos e educação 97 CHERVEL, André. Des disciplines scolaires à la culture scolaire. STURM; DEKKER; ALDRICH; SIMON (orgs.). 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Endereço para correspondência Maria João Mogarro Praça da República – Apartado 125 Código Postal: 7301 - 957 Portalegre Codex Portugal [email protected] Recebido em: 1 set. 2005 Aprovado em: 10 dez. 2005 Arquivos ou museus Qual o lugar dos acervos escolares? Jacy Machado Barletta* Resumo: O artigo traz uma discussão sobre a manutenção de objetos tridimensionais nos arquivos de instituições escolares, demonstrando que esses documentos originários dos fazeres cotidianos da escola devem ser considerados documentos de arquivo. Isso é justificado pela ligação direta deles com as atividades-fim da instituição escolar. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO; ARQUIVÍSTICA; ESCOLA CAETANO DE CAMPOS; ARQUIVOS ESCOLARES; RECURSOS PEDAGÓGICOS; MATERIAIS ESCOLARES; MATERIAIS PEDAGÓGICOS. * Historiógrafa do Centro de Documentação e Memória (CEDEM) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Mestre em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), no Programa História da Educação e Historiografia. Especialista em Métodos e Organização de Arquivos pela Escola de Comunicação e Artes da USP. Archives or museum What place the school files? Jacy Machado Barletta* Abstract: The article brings a discussion about the maintenance of three dimensional objects in the files of school institutions, demonstrating that those original documents you do daily of the school, file documents should be considered. That is justified for their direct connection with the activities end of the school institution. HISTORY OF THE EDUCATION; ARQUIVÍSTICA; SCHOOL CAETANO DE CAMPOS; SCHOOL FILES; PEDAGOGIC RESOURCES; SCHOOL MATERIALS; PEDAGOGIC MATERIALS. * Historiógrafa do Centro de Documentação e Memória (CEDEM) da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Mestre em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), no Programa História da Educação e Historiografia. Especialista em Métodos e Organização de Arquivos pela Escola de Comunicação e Artes da USP. arquivos ou museus 103 O conhecimento especializado é um dos sintomas da modernização da sociedade ocidental contemporânea, havendo diversas leituras sobre esse fenômeno. Neste artigo defendemos a contramão desse movimento. Em vez de uma visão compartimentada, demonstraremos a necessidade e as vantagens de um trabalho holístico, no que diz respeito aos arquivos escolares. Esta abordagem é parte de minha dissertação de mestrado, na qual discuto alguns pressupostos da arquivologia e da museologia, para determinar os recursos pedagógicos e o lugar desses materiais no arquivo escolar. Entre arquivos e museus A arquivologia tem como razão de ser a existência da informação social materializada em suportes físicos. Em 1984, o Conselho Internacional de Arquivos (CIA) definia a arquivologia como a disciplina que tem por objetivo os arquivos e os procedimentos técnicos aplicados aos documentos em suas fases corrente, intermediária e permanente. Seu objeto, os arquivos, é definido como o conjunto de documentos, quaisquer que sejam suas datas, suas formas e seus suportes materiais, produzidos ou recebidos por pessoas físicas e jurídicas, de direito público ou privado no desempenho de suas atividades. Portanto, desde que uma instituição jurídica ou uma pessoa física acumule documentos voluntariamente, eles passam, naturalmente a constituir um arquivo. Os princípios arquivísticos que formam a base de sua teoria arquivística tradicional e que a diferenciam de outras ciências documentárias e da informação são descritos por Bellotto (2002, p. 20) como: 1 – princípio da proveniência – que fixa a identidade do documento ante seu produtor; ele determina que o arquivo deve ser organizado segundo as atividades e competências de seu produtor. Arquivos originários de instituições distintas não podem ser mesclados entre si; 104 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 2 – princípio da organicidade – os arquivos devem refletir a estrutura, as funções e as atividades da entidade produtora/acumuladora em suas relações internas e externas; 3 – princípio da unicidade – apesar de sua diversidade quanto a forma, gênero, tipo ou suporte, os documentos de arquivo conservam seu caráter único. Cada um deles estabeleceu uma relação de função com o contexto no qual foi produzido; 4 – princípio da indivisibilidade ou integridade arquivística – um fundo arquivístico deve ser preservado integralmente, sem dispersão, mutilação, divisão. Não é concebível a alienação ou a destruição de documentos sem autorização de quem os produziu. Nem a adição indevida de documentos; 5 – princípio da cumulatividade – o arquivo é uma formação progressiva, natural e orgânica. O CIA entende como documento o conjunto constituído por um suporte e pela informação que ele contém. A informação arquivística, segundo Lopes (1998, p. 49), tem as seguintes propriedades: a) sua natureza é orgânica, isto é, possui relação umbilical com o produtor; b) é original, logo, possui unicidade; c) tem sua capacidade de ser avaliada em termos de idade e de utilização; d) sua primeira particularidade é a natureza limitada de seus suportes – convencionais ou eletrônicos; e) sua segunda particularidade refere-se à noção de acumulação das informações produzidas ou recebidas por um indivíduo ou um organismo, desde que sejam informações capazes de ter significação; f) sua terceira particularidade refere-se às atividades geradoras, que podem ser administrativas, técnicas ou científicas; g) sua quarta particularidade refere-se ao fato de ser a primeira forma tomada por uma informação registrada, quando de sua formação. arquivos ou museus 105 As atividades de uma instituição indicam, de maneira confiável, o universo informacional dos documentos produzidos por ela. As atividades denominadas meio sustentam as estruturas, definindo a política da organização, e gerenciam os recursos financeiros, humanos, patrimoniais etc.; são todas as atividades que geram documentos e informações administrativas e burocráticas. As atividades-fim são as que definem o perfil da instituição; os documentos e informações produzidos nessas atividades vinculam as funções formais às funções práticas, sendo portanto a razão da existência da organização. É nos documentos relativos às atividades-fim de uma organização escolar que encontraremos as fontes para estudo e pesquisa da cultura escolar, ou seja, das atividades que norteiam a transmissão do conhecimento, que, como sabemos, é variável segundo o tempo, o lugar, a comunidade, as idéias políticaas em jogo etc. Fazendo parte de um universo não contemplado por normatização legal, esses documentos sobrevivem ao acaso, diferente dos administrativos, que, sob legislação, são preservados como comprovantes dessas ações. Enquanto o arquivo trata documentos acumulados naturalmente, segundo as atividades e funções de uma instituição, o museu abrigará coleções criadas artificialmente, sendo elas produtos da cultura material humana ou da natureza. O museu em sua trajetória histórica caracterizou-se por ser um espaço físico no qual objetos são expostos como suportes para estudos, para demonstrações e para disseminar o conhecimento. Apesar de ocorrer ao longo do tempo variações do conceito quanto à natureza de objeto museológico, o mesmo não acontece com a razão de sua existência, ou seja, as coleções. Segundo Ceravolo (1998) os objetos de museu são itens com forma e conteúdo investigados e “decifrados”, pois as informações não estão no próprio objeto. Por exemplo, um livro ou um manuscrito só têm sentido dentro de um contexto: No museu, o objeto é decodificado a partir de referências que são extraídas tanto de sua materialidade presente (materiais empregados, técnicas de produção, dimensões, formato, cor etc.), como referências não presentes nesse suporte, como sua história e proveniência e seu contexto cultural/natural. Ou 106 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 seja, o objeto é entendido a partir de suas relações com outros objetos em um dado meio. No que tange à documentação de museus, tais referências tornam-se dados do objeto, sobre o objeto e ao redor do objeto a serem registrados [Ceravolo, 1998, p.48]. Portanto, o objeto museológico sofre alterações de valor e significado quando transferido de seu contexto primário para o museu, pois não é sempre que ele carrega consigo informações sobre seu uso e função. Sua materialidade não serve de referência exata. Ao objeto juntam-se cargas simbólicas que vão além de sua materialidade. Ele faz a ponte entre o visível ilimitado e o visível da experiência pessoal (Meneses, 1980, p. 48). No museu o objeto passará por uma determinada forma de “leitura” que tentará recuperar evidências de sua verdadeira funcionalidade ou simbolismo; essas “leituras” são questionamentos de terceiros, que irão determinar, de certa forma, se esse objeto é um documento ou não: Ou seja, a atribuição de valor de documento ao objeto de museu é dada pelo contexto institucionalizado (o museu), que por si atribui valor de testemunho e prova àquele suporte, como também por sua análise e interpretação, essas a serem investigadas [idem, p.49]. Com um olhar mais didático e técnico Santos (2000), pesquisador da Biblioteca Nacional e do Instituto Mackenzie, diz que ao desconhecer seu destino e o do mundo, e preocupado em registrar sua trajetória, o homem passou a colecionar algumas coisas até para garantir sua sobrevivência. Essas ações irão ser legitimadas na criação dos museus, onde serão buscadas a reconstrução, preservação e difusão da memória. Assim o homem transmite às próximas gerações sua vivência, criando um sentido social, transformado em patrimônio cultural. Portanto, o museu é uma instituição que trabalha com coleções, que nada mais são que agrupamentos ou reunião de objetos, feitas de maneira artificial, por aquisição (compra, doação, permuta etc.). Objetos retirados de seu contexto e uso primário, transformados em produtos de valor financeiro, alimentando determinado mercado. Diferente das instituições arquivísticas, uma das funções do museu é a exposição arquivos ou museus 107 de suas coleções ao público. E o ato ou intenção de colecionar dependerá de políticas de preservação, ou seja, a integridade física original do objeto deverá permanecer tão intacta e utilizável quanto possível. Uma política de preservação deverá propor alguns pontos, conforme Santos (2000, p. 25): • Facilitar a preservação por meio de técnicas apropriadas; • Permitir o acesso a todo tipo de acervo, levando em conta as técnicas de preservação; • Disseminar informações, as mais completas possíveis, sobre a existência dos acervos; • Promover a divulgação dos acervos por meio de produtos, assegurando uma ampla divulgação. Assim, como podemos observar, enquanto o documento arquivístico é produzido ou acumulado naturalmente, como prova de atividades e funções de pessoa física ou jurídica, os documentos museológicos considerados uma espécie de recipiente de informações a serem desvendadas são colecionados artificialmente e a compreensão sobre esses objetos dependerá de pesquisa. Os arquivos escolares Desde a década de 1980 vem aumentando, no Brasil, o interesse de historiadores da educação em estudos sobre as práticas escolares, fazendo uso das categorias de apropriação e representação de Roger Chartier e das estratégias e táticas de Michel de Certeau. Em ambos os casos, é necessário fazer não só a ampliação do conceito de fontes, como também a disponibilização delas. A importância desses documentos, principalmente os encontrados nos arquivos de instituições escolares, vem sinalizada nas palavras de Vidal (2004, p. 11): Tomados em sua materialidade, esses objetos permitem não apenas a percepção dos conteúdos ensinados, a partir de uma análise dos enunciados e 108 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 das respostas; mas o entendimento do conjunto de fazeres ativados no interior da escola. Assume destaque, por exemplo, a maneira como o espaço gráfico da página de exercício, do caderno ou da prova é organizado; utilizando-se de formulas indicativas de início ou encerramento de atividades ou dia letivo; definindo uma hierarquia de saberes... [...] Esses objetos culturais e muitos outros, individuais e coletivos, necessários ao funcionamento da aula trazem as marcas da modelação das práticas escolares, quando observados na sua regularidade. Mas portam índices das subversões cotidianas a esse arsenal modelar, quando percebidos em sua diferença, possibilitando localizar vestígios de como os usuários lidam inventivamente com a profusão material da escola e das mudanças, às vezes imperceptíveis, que impetram nessas mesmas práticas escolares. O concurso de outras fontes como fotografia, autobiografias, história oral e de vida, para citar algumas, pode, ainda aumentar a compreensão desses “fazeres com” e da constituição de corporiedades nos sujeitos da escola. No início da década de 1990 houve uma reconfiguração da historiografia educacional, acompanhada de intensa reflexão conceitual e metodológica sobre pontos que sempre foram os mais frágeis dessa disciplina: a não problematização dos seus procedimentos e objetos. Os novos interesses do campo de pesquisa escolar estavam agora na organização e no funcionamento das escolas, na construção do conhecimento escolar, no currículo e nas disciplinas, agentes educacionais (professores, alunos), categorias de análise como gênero e temas sobre a profissão docente, formação de professores e práticas de leitura e escrita. Houve um deslocamento da pesquisa: da história das idéias para as práticas educacionais. Essa nova maneira de ver e questionar as fontes enfatizando a materialidade do saber-fazer e do como fazer deu suporte sólido para uma história da cultura e dos saberes escolares, transformando a instituição escolar no produto histórico dos dispositivos legais (estratégias) e das práticas dos agentes que deles se apropriam (táticas), de acordo com as novas definições criadas por De Certeau (1982). Segundo Anne-Marie Chartier (2000), há necessidade de se investir na pesquisa dos fazeres do cotidiano escolar para que o conhecimento arquivos ou museus 109 dessas experiências possa auxiliar no desempenho positivo dos futuros profissionais da educação: Assim, os trabalhos científicos, os textos e as ferramentas profissionais, os debates de idéias em torno das apostas presentes ou das missões futuras da escola são dos gêneros discursivos que somente tomam sentido se relacionados a uma realidade escolar supostamente conhecida, designada sem cessar mas descrita, a não ser de maneira incidental ou indireta. O que é invocado, mas ausente, é o que se faz na escola, o que se faz hoje ou o que é sempre feito, enfim, a prática escolar (2000, p. 157). Então quais são essas práticas e quais as fontes que informam sobre essas práticas no cotidiano escolar? De que se compõe um arquivo escolar? Ele reflete a cultura escolar? Sobre essas questões Mogarro (2005, p. 105) tem respostas: Os fundos arquivísticos [de uma escola] são constituídos por documentos específicos, produzidos quotidianamente no contexto das práticas administrativas e pedagógicas; são produtos da sistemática “escrituração” da escola e revelam relações sociais que foram sendo desenvolvidas pelos actores educativos. A instituição escolar constitui o universo de uma cultura própria e sedimentada historicamente, sendo também a produtora dos traços/documentos dessa cultura. Esses documentos configuram, na sua diversidade e variedade, o patrimônio educativo de cada instituição – o espaço físico (edifício e zona envolvente) corporiza esse universo; os espólios arquivístico, museológico e bibliográfico integram os documentos, portadores de informações valiosas e que trazem, do passado até o presente, aspectos da vida da escola e que tornam possível escrever o itinerário da instituição. E mais adiante finaliza: Constituída de um conjunto de teorias, idéias e princípios, normas, regras, rituais, rotinas, hábitos e práticas, a cultura escolar remete-nos também para 110 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 as formas de fazer e de pensar, [...]. Os traços característicos da cultura escolar (continuidade, persistência, institucionalização e relativa autonomia) permite-lhe gerar produtos que lhe dão configuração de uma cultura independente. Essa cultura constitui um substrato formado, ao longo do tempo, por camadas mais entrelaçadas que sobrepostas, que importa separar e analisar [idem]. No caso dos arquivos escolares, o estudo das práticas escolares só será possível se incluirmos os documentos arquivísticos nos mais variados suportes, não mais somente o papel, mas os brinquedos, os componentes de um laboratório, filmes, fotografias, equipamentos para fins diversos etc., enfim os materiais didáticos ou pedagógicos. Se levarmos em conta que as novas teorias arquivísticas consideram documento arquivístico aquele que se relaciona organicamente com a instituição, podemos inferir que esses materiais representantes das práticas escolares podem sim ser tratados dentro dos preceitos arquivísticos. Hoje, geralmente, esses documentos são encontrados em espaços físicos semelhantes a um “limbo”, e de lá muitas vezes o destino deles é o lixo. Os materiais didáticos ou pedagógicos, encontrados nos arquivos escolares, são a prova do princípio que defende a colocação nos arquivos, determinados objetos. Embora colecionados ou adquiridos, eles refletem as práticas dos métodos pedagógicos, ou seja, as atividadesfim da instituição escolar, que vinculam as funções formais às suas práticas. Apesar de não serem considerados documentos arquivísticos, no seu significado mais purista, trazem em si informações inegáveis do funcionamento dessa instituição. Há diversos exemplos de organizações que, por força de suas atividades-fim, têm em seu arquivo objetos tridimensionais. Visitando diversos arquivos judiciais, para fins de pesquisa, encontrei uma imensa massa documental “arquivística” de provas circunstanciais de crimes. Há uma gama de objetos, apresentados como prova criminal (desde armas até bicicletas, aparelhos eletrônicos, aparelhos domésticos etc.). Completando essa idéia, o Museu do Crime, na Academia de Polícia de São Paulo, nada mais é do que um arquivo de provas circunstanciais. arquivos ou museus 111 Outro exemplo encontra-se no próprio Arquivo Nacional. São os registros de patentes, que estão acompanhados do objeto em questão. Há exemplos mais próximos ao nosso meio como os documentos científicos produzidos nas universidades. Em abril de 2003, realizou-se uma exposição no Centro Universitário Maria Antonia, em que a artista plástica Leda Catunda expunha peças que faziam parte de sua tese de doutorado. Portanto, documentos tipologicamente diferenciados dos textuais ou iconográficos, encontrados comumente nos arquivos. Ainda, a produção científica na universidade conceberá uma gama variada de materiais científicos com os quais só agora os arquivistas começam a se preocupar, Odile Welfelé comenta: Os materiais documentais da ciência não se encontram nos ministérios nem nos lugares sociais dos grandes organismos de pesquisa, eles estão nos laboratórios, lá onde a ciência se elabora, se transforma, trabalha. Freqüentemente a palavra arquivo é mal aplicada para qualificar o que a atividade científica engendra. Esta palavra que nos é familiar é totalmente estrangeira neste universo. O que resulta da observação, da reflexão e da experimentação passa por diferentes formas e suportes antes de resultar em quaisquer linhas sobre o papel (o artigo). A atividade de pesquisa produz certamente, e este é o objetivo prioritário, os papéis, mas ela produz também outras coisas: culturas de células sobre plaquetas, coleções (de rochas, de insetos, de genótipos), máquinas, protótipos, bases dados, cartas, gráficos, animais, filmes e [...] papéis: relatórios de atividades, demandas financeiras, teses, correspondência sobre temas de pesquisa. [apud Brito, 1999, p. 104]. Anne Cooke, especialista australiana em arquivos escolares, em seu artigo “What do I do with the rowing out?” (1991) reflete sobre a interconexão de arquivos e museus escolares, defendendo a idéia de que os arquivos escolares recebam outros documentos além dos textuais. O próprio título já nos sugere o questionamento: “O que é que eu faço com os remos?” Sugestiva interrogação quando a arquivista se deparou com essas peças usadas pelos atletas da escola e, consultando a bibliografia, principalmente os manuais arquivísticos, percebeu que ninguém tratava desse assunto. Portanto, fica a critério do profissional dar o destino que bem quiser às peças. 112 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Tanto na Austrália como no Brasil, a inexistência de uma política de preservação para os documentos escolares faz com que a avaliação documental fique sob a responsabilidade da própria escola, que, descartando seus documentos sem critérios técnicos ou científicos, está sujeita a equívocos por vezes irreversíveis. Cooke alerta para outras formas de destruição dos registros escolares: as mudanças na direção ou na propriedade da instituição, as reformas e construções dos prédios escolares e a grande demanda por espaços. Na tentativa de recuperar informações que foram perdidas, a escola acaba recebendo doações de documentos de tipos, gêneros e suportes diversificados como: programas de esportes, fotografias, jaquetas de times de futebol, medalhas e troféus. Segundo a autora esses itens não podem ser descartados só porque não são considerados pela ortodoxia documentos arquivísticos. Além do valor sentimental do doador, tais documentos podem trazer informações valiosas sobre a escola que foram perdidas justamente pelas razões apontadas. Anne Cooke (1991) consegue visualizar uma boa convivência entre o arquivista e as peças consideradas de museu. Para ela, a política de arquivos e a política de museus só diferem pela terminologia específica. Elas têm muito em comum. Há uma série de razões para que o arquivista se disponha a montar o que chama de arquivo-museu. Ela considera principal a questão de diferenciar uma peça de museu de uma peça de arquivo, já que, por vezes, ocorre sobreposição de áreas. Se o documento é textual, é considerado de arquivo. Se não são textuais e têm uma relação intrínseca com a instituição, eles podem estar tanto em um museu quanto em um arquivo, sem causar problemas, como é o caso da placas comemorativas, troféus e flâmulas. Obviamente, a autora defende que o tratamento técnico seja diferenciado tanto no quesito acondicionamento quanto nos quesitos classificação e descrição. Segundo ela esse tipo de trabalho já é um fato comum na vida de um arquivista de escola, pois poucos administradores sabem distinguir um arquivo de um museu. Há muitas experiências, desse tipo, bem-sucedidas na Austrália. Em minha experiência, de mais de quatro anos organizando e tentando preservar, em sua integridade, o acervo da Escola Caetano de Campos, antiga Escola Normal de São Paulo, encontrei, além dos docu- arquivos ou museus 113 mentos administrativos, vasto material pedagógico que sobreviveu ao descaso público: equipamentos pertencentes aos laboratórios de física, química e biologia; peças e quadros didáticos dos Museus de História Natural e Escolar; equipamentos para projeção de fotos, slides e filmes; brinquedoteca e o que se denomina como espólio institucional (mobiliário administrativo, objetos de decoração etc.). Em sua maioria, importados da Europa e América do Norte, no século XIX, para a aplicação do método intuitivo, além de outros para uso das novas diretrizes pedagógicas da década de 1930. Tendo em vista essa experiência, considero que a utilização de materiais de apoio didático como fonte se faz necessária, assim como são necessários novos critérios de tratamento de arquivos e de conceitos de documento arquivístico. Um dos diferenciais significativos dos acervos escolares é a grande massa documental existente e a variedade de suportes da informação (filmes, brinquedos, discos, equipamentos, mobiliários, fotografias etc.). Dessa forma, novos tipos e gêneros documentais vêm se juntar aos arquivos, ampliando o conceito de documento para a pesquisa histórica e para a arquivística. Atualmente os teóricos definem documento como qualquer informação orgânica fixada em um suporte. Segundo Lopes (1996, p.71): É orgânica a informação que pertence à pessoa ou organização que a acumulou. Enfatiza-se a originalidade, lembrando que os arquivos devem ser formados por informações que sejam específicas dos seus acumuladores. Subentende-se que as informações arquivísticas não são, somente, as textuais. Abrem-se novas possibilidades de considerar como documentos de arquivos registros em suportes os mais diversos, como, por exemplo: lâminas preparadas para microscopia, portadoras de informações orgânicas, no caso de fazerem parte de dossiês de pesquisa. A (re)definição de arquivo, no sentido de informação registrada, que Lopes elabora nesse mesmo texto – acervos compostos por informações orgânicas originais, contidas em documentos produzidos ou recebidos por pessoa física ou jurídica, decorrentes do desenvolvimento de suas atividades, sejam elas de caráter administrativo, técnico ou científico – 114 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 vem reforçar o uso dos mais diversos documentos arquivísticos como fonte de informação histórica, pois para ele a unidade de informação será o dado, em vez do fato, facilitando as opções de fontes documentais que poderão ser mais bem trabalhadas. O acervo da Escola Caetano de Campos como prática A Escola Caetano de Campos, antiga Escola Normal de São Paulo, nasceu de um projeto de lei apresentado na sessão da Assembléia Provincial em 29 de janeiro de 1843, e somente aprovado pela lei n. 310, que correspondia a lei n. 34, de 16 de março de 1846. Instalada em edifício contíguo à Catedral da Sé, após oito meses (9 de novembro de 1846) apenas um professor ministrava todas as aulas e acumulava a função de diretor. Extinta em 1867 por emenda ao projeto orçamentário, em seus vinte anos de existência formou apenas 18 professores, sendo criticada pela sua inoperância. Reaberta em 1874, pela lei que tornara obrigatório o ensino escolar na Província de São Paulo (lei n. 9, de 22 de março de 1874), ganha uma seção destinada às mulheres, além de um enriquecimento de disciplinas. No ano de 1878 é novamente fechada. Finalmente, a lei n. 130, de 25 de abril de 1880, dará existência definitiva à Escola Normal, por intermédio de um ex-aluno, Laurindo Abelardo de Brito, que se tornou o 43º presidente da Província. Nascem também as primeiras idéias de construção de uma sede própria, mas naquele momento ela se instalará em parte do edifício da sede do Tesouro Provincial e depois em um sobrado na Rua da Boa Morte. A freqüência feminina foi garantida e a grande inovação era a criação de duas escolas primárias anexas, uma para cada sexo, que serviam de curso prático aos futuros professores. Apesar de algumas alterações, introduzidas pela lei n. 81, de 6 de abril de 1887, pouco mudou a situação do curso normal até o fim do Império. Logo após a proclamação da República, em janeiro de 1890, o doutor Antônio Caetano de Campos, médico consagrado, foi nomeado diretor da Escola Normal de São Paulo. Apesar de ter permanecido apenas arquivos ou museus 115 vinte meses no cargo, o dr. Caetano de Campos participou das reformas para qualificação e expansão do ensino público que, segundo Tanuri (1979, p. 84), teve Rangel Pestana como mentor intelectual do projeto. Tais mudanças foram iniciadas ainda na sede da Rua da Boa Morte, antes mesmo da construção do edifício da Praça da República. A restruturação da Escola Normal de São Paulo fez parte da crença dos republicanos paulistas de ver a Instrução como alicerce das instituições democráticas e instrumento de transformação social e reforma política (Tanuri, 1994, p. 42), colocando para o Estado a responsabilidade de desenvolver a instrução popular. Inicia-se, assim, a restruturação da Escola Normal para transformá-la em escola modelo, como determinava o projeto de Rangel Pestana. A nova escola que surgia trazia, além de inovações curriculares, a prática de ensino dentro de padrões aplicados na Europa e principalmente nos Estados Unidos. A escola modelo propunha um ensino primário de longa duração, integral e graduado, dividido em três graus de ensino. Implícita em sua denominação estava a idéia de que nela seria prudentemente testada a reforma que depois se estenderia a todo o ensino público primário. Nela foram introduzidas as propostas de processos intuitivos de ensino, inspiradas nas teorias de Pestalozzi. Como diretor da Escola Normal, no Relatório de 1890, Caetano de Campos justificava a necessidade da reforma do ensino: A educação do homem moderno exige uma notavel somma de conhecimentos, que resultam syntheticamente das noções encyclopedicas hauridas em diversos ramos do estudo. Se torna-se impossivel aprender, e peior do que isso, ensinar ás creanças tudo quanto póde ser necessario á vida, mesmo pondo de parte as especialidades profissionaes, é entretanto praticavel o dar á inteligencia um gráu de maturidade que prepare suficientemente o homem novo para entrar na vida social com seguros cabedaes para o êxito. Para isso é necessario antes de tudo acostumar a creança a raciocinar por si, na medida de suas forças physiologicas, sobre todas as coisas que caem debaixo de seus olhos. 116 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Mas para que tudo isso pudesse ser concretizado, era necessário, além de um espaço físico adequado um edifício amplo, iluminado que desse visibilidade e projeção aos novos rumos que a República dava à instrução, a introdução, em seu interior, de uma quantidade imensa de novos materiais escolares que concentravam em si os modernos usos pedagógicos, e de mestres já formados dentro desses princípios. Isso foi resolvido pela construção do prédio da Praça da República, inaugurado em 2 de agosto de 1894, pela contratação de professores formados nos Estados Unidos e pela importação de material didático, exigido pelo novo método. Em 1976, a Escola Caetano de Campos teve sua vida transformada, com o perigo de destruição de seu prédio para dar lugar a uma estação do metrô. A atitude radical dos órgãos públicos propiciou uma larga campanha e um processo judicial para impedir sua destruição. Vencida essa etapa, o prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT) e a escola transferida e desmembrada para outros dois lugares, no bairro da Aclimação e na Praça Roosevelt. O que sobreviveu de seu acervo, com essa mudança, pode ser em um primeiro momento dividido em: 1 - espólio: coleção de objetos pertencentes ao dr. Caetano de Campos, ao professor Gomes Cardin, peças que faziam parte do funcionamento da escola na Praça da República, como: objetos de decoração (pinturas, crucifixo, mobiliário etc.), mobiliário administrativo (secretaria, diretoria, relógio de ponto), porta-bandeira, retratos de personalidades etc.; 2 - biblioteca: constituída de livros didáticos e paradidáticos de todas as áreas, literatura infantil e obras de referência, trabalhos de alunos, livros em braile, e manuais de uso didático, adquiridos desde o século XIX; 3 - hemeroteca: jornais editados pela própria escola, jornais editados por outras escolas nacionais, jornais de escolas estrangeiras, jornais da grande imprensa, coleção de recortes de jornais, destacandose a coleção de pastas suspensas, tematizadas, com material que arquivos ou museus 117 vai desde recortes de jornais até material de uso didático, colecionados a partir de 1936 até a década de 1970; 4 - arquivo: conjunto de documentos produzidos e recebidos pela instituição no exercício de suas funções; dele fazem parte documentos da área contábil, livros de atas de diversas instâncias, livros de termos de compromisso e posse de funcionários e professores, livros de pontos, livros de matrículas, prontuários de alunos, documentos pessoais de alunos, registros de diplomas, planos de aula etc.; 5 - acervo iconográfico: fotografias avulsas e álbuns que mostram o universo institucional durante seus mais de cem anos; 6 - mobiliário de caráter pedagógico: mobiliário da sala de leitura, suportes de mapas, mesas cadeiras, vitrinas do Museu Pedagógico, armários expositores; 7 - materiais didáticos ou recursos pedagógicos: • quadros didáticos, mapas; • brinquedoteca; • discoteca; • iconográficos e/ou áudio visuais (fotografias, filmes, slides); • equipamentos (cinema, projetores, vitrolas, gramofones, estereoscópios, globos terrestres, microscópios etc.); • laboratórios: física, biologia, química. A importância desse material – arquivístico, bibliográfico e museológico – revela-se de diferentes maneiras. Uma delas é que raramente encontramos reunida essa diversidade de materiais, de épocas distintas. Outra é seu significado para o estudo de uma história cultural da educação e, portanto, uma história cultural da sociedade – que parte de objetos, formas e códigos para encontrar os grupos sociais, que se utilizam deles. Concordo com Cooke (1991) quando critica os manuais tradicionais e os arquivistas de modo geral que, além de não se disporem a solucionar esse problema, desprezam qualquer discussão sobre o assunto, preferindo manter no esquecimento seus armários de objetos, ou simplesmente enviá-los para museus. 118 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Diante de todos esses argumentos, pode-se dizer que o recolhimento de objetos nos arquivos só vem trazer benefícios para a pesquisa. É na disponibilização de um acervo, em sua totalidade, que residirão informações mais completas e com menor risco de equívocos. Encerrando este artigo trago a palavra de três pesquisadores, de épocas e linhas distintas, que respondem às inquietações por ele apontadas. Mesmo que discorde do proposto por Felgueiras (2005), museu no lugar de arquivo, comungo com a idéia de união e não-desmembramento de documentos escolares, quando a autora finaliza um artigo, dizendo: Tendo em conta que sobre as práticas escolares muito se desconhece e são mesmo escassas as fontes de informação sobre aspectos da vida na escola e, ainda, a necessidade de obter informações capazes de elucidar sobre objectos e material didáctico – que hoje nos parecem como estranhos –, consideramos o modelo de compreensão dos objectos arqueológicos adequado ao estudo da realidade escolar. E a razão parece simples: só o conjunto permite interpretar o todo e as partes que o compõem. [...] A escola aparece como uma realidade bem definida, onde se entrelaça um conjunto de funções e relações de que os respectivos materiais, sejam objectos ou documentação (impressa, manuscrita, oral) são condição para perceber e explicar. Há neles interdependência e complementaridades várias. Nesta perspectiva, não é mais defensável o desmembramento de coleções, só porque são documentação. Esta é já uma visão que encontramos em alguns directores/as de arquivo. Mas defender esta perspectiva implica o enquadramento, no museu escolar, de um centro de documentação que contemple arquivo e biblioteca histórica [Felgueiras, 2005, p. 100] As outras palavras vêm citadas no artigo de Nunes e Carvalho (1993, p. 33) e são de Lucien Febvre: A história faz-se com documentos escritos, sem dúvida. Quando estes existem. Mas pode fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com tudo o que a habilidade do historiador lhe permite utilizar para fabricar o seu mel, na falta das flores habituais. Logo, com palavras. Signos. Paisagens e telhas. Com as formas do campo e das ervas daninhas. Com os eclipses da arquivos ou museus 119 lua e a atrelagem dos cavalos de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos geólogos e com as análises de metais feitas pelos químicos. Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem. E de Marc Boch: Seria uma grande ilusão imaginar que a cada problema histórico corresponde um tipo único de documentos, especializado para esse uso... Que historiador das religiões se contentaria em consultar os tratados de teologia ou as recolhas de hinos? Ele sabe bem que, sobre as crenças e as sensibilidades mortas, as imagens pintadas ou esculpidas nas paredes dos santuários, a disposição e o mobiliário das tumbas têm pelo menos tanto para dizer quanto muitos escritos. Os historiadores há muito reconheceram a importância de outras fontes, não textuais, para assegurar maior fundamento e profundidade a suas pesquisas, incluindo qualquer tipo de vestígio ou registro deixados pelo homem. A arquivística, como disciplina auxiliar das ciências humanas, especialmente da história, tem acompanhado seus passos, embora em ritmo mais lento. Tal postura envolve riscos que podem comprometer futuras investigações, nos diversos campos do conhecimento, já que a avaliação e a organização de documentos inclui uma responsabilidade maior do arquivista. Reconhecer que nem todos os objetos, mas determinados conjuntos de objetos, que por estarem ligados diretamente às funções primordiais de uma instituição, devem integrar os seus arquivos, trará para a arquivística propósitos de renovação calcados na sintonia com as principais reflexões e demandas do tempo presente. Nesse sentido, a intenção desse artigo foi exatamente contribuir para uma discussão mais atenta sobre o lugar dos objetos nos arquivos, tão necessária aos profissionais que, isolados, não dispõem de base técnica e metodológica para encaminhar procedimentos apropriados e solucionar essa questão. Trancadas em armários, muitos deles trazem informa- 120 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ções fundamentais para o conhecimento. Preservar documentos significa, antes de tudo, dar acesso ao seu conteúdo pleno. Referências Bibliográficas BELLOTTO, H. L. Prefácio In: Inventário dos acervos das Escolas Técnicas Estaduais do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2003. . Arquivística – objetos, princípios e rumos. São Paulo: Associação de Arquivístas de São Paulo, 2002. BRAZIER, J. Archives/objects/museums: Points of intersection. Camberra: Australian Science Archives Project, 1995. BRITO, V. M. 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Incorpora uma breve análise da contribuição bibliográfica regional e nacional, seguida dos levantamentos documentais junto aos principais acervos de Mato Grosso: Arquivo Público de Mato Grosso, Arquivo da Casa Barão de Melgaço e também no interior dos arquivos escolares – Escola Normal “Pedro Celestino” e Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Müller”. Ao lado da organização das fontes escritas, o GEM investiu também na constituição de um Banco de Vozes de professores e funcionários ligados às principais instituições escolares do Estado. Ao final, o artigo elenca a produção de Instrumentos de Pesquisa, assim como apresenta um panorama da produção científica gerada no interior do GEM, tanto as publicadas quanto as que se encontram no prelo. EDUCAÇÃO; HISTÓRIA; ACERVOS ESCOLARES. * O Grupo Educação e Memória (GEM) é coordenado pelo professor doutor Nicanor Palhares Sá, responsável pela linha da história da educação do programa de pósgraduação em educação do Instituto de Educação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). ** Doutora em história da educação, membro do GEM da UFMT, curadora da Casa Barão de Melgaço e coordenadora da Editora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). E-mail: [email protected]) Reconstituing school archives the experience of GEM/MT* Elizabeth Madureira Siqueira** Abstract: Rocking of the essays developed for the Group of Research “Education and Memory”, tied with the Instituto de Educação (IE), Program of Post-Graduation in Education, to the long of the last ten years. It incorporates one brief analysis of the regional and national bibliographical contribution, followed with the documentary surveys together to the main quantities of Mato Grosso: Public Archive of Mato Grosso, Archive of the House Barão de Melgaço and also in the interior of the pertaining to school archives Escola Normal “Pedro Celestino” e Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Müller”. To the side of the organization of the written sources, the GEM also invested in the constitution of a bank of voices of professors and on employees to the main pertaining to school institutions of the state. To the end, the article presents the production of research instruments, as well as presents a panorama of the generated scientific production in the interior of the GEM, as much published how much the ones found in “prelo”. EDUCATION ; HISTORY; SCHOLAR QUANTITIES. * O Grupo Educação e Memória (GEM) é coordenado pelo professor doutor Nicanor Palhares Sá, responsável pela linha da história da educação do programa de pósgraduação em educação do Instituto de Educação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). ** Doutora em história da educação, membro do GEM da UFMT, curadora da Casa Barão de Melgaço e coordenadora da Editora da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). E-mail: [email protected]) reconstituindo arquivos escolares 125 O “GEM” e o norte investigativo Durante o século XIX e a primeira metade do XX, Mato Grosso foi considerado distante, se comparado à realidade litorânea de onde emanavam as diretrizes civilizatórias. Região situada nos “confins do mundo”, a província mato-grossense estava inserida no território da “barbárie”, ainda inexplorado, pois sua população, “indolente e voltada para os prazeres mundanos”, não conseguia arrancar suas visíveis potencialidades (Galetti, 2000). Esse tom discursivo preconceituoso, veiculado inicialmente pelos viajantes estrangeiros e reforçado pelos governantes, era inicialmente introjetado e, mais tarde compartilhado também pelas autoridades ligadas à Instrução Pública – inspetores e dretores regionais. Esses enunciados procuravam reproduzir naqueles “confins do mundo” um modelo de escola e de ensino modernos, cuja matriz provinha dos referenciais prussianos e franceses, transladados e reinventados, no Oitocentos, na corte (RJ). A vulgarização dessa proposta educacional única e sua realização nas diversas partes do território brasileiro foram concretizadas em andamento e forma diferenciados. Investigar como ela se materializou em Mato Grosso, constituiu-se uma das principais preocupações do GEM que procurou, através de estudos, leitura e do levantamento de fontes documentais, fazer fulgurar a constituição da escola moderna no sertão oeste, fronteira já qualificada como a “chave e o propugnáculo do sertão do Brasil”, no dizer colonial. Esse exercício buscou recuperar a trajetória silenciada dos territórios afastados dos centros hegemônicos, onde os eflúvios civilizatórios não conseguiram ali realizar-se de forma plena e no ritmo e andamento desejados pelas elites dirigentes. Foi nessa perspectiva que o GEM se empenhou em reescrever a história da educação de Mato Grosso, tendo por base não somente novas fontes e teorias, mas, principalmente, o respaldo na necessidade de timbrar a identidade educacional de uma parte do território brasileiro e, nessa medida, colaborar na ampliação de uma história nacional, heterogênea e plural. Essa assertiva assenta-se no pensamento de Habermas: “[...] o que nos faz diferentes é a nossa própria história, e o que nos iguala é o nosso esquecimento (Habermas apud Souza, 2000, p. 15). 126 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 As fontes documentais perseguidas pelo GEM deveriam responder a algumas indagações formuladas a partir do percurso de Mato Grosso e sua ressignificação por diferentes óticas. Concordamos com Vidal quando considera que: “As categorias históricas, assim, conferem um sentido ao passado, incorporado pela escrita historiográfica, no duplo registro de uma condição da pesquisa de campo e de uma recriação da análise pelo manuseio das fontes” (Vidal, 2004, p. 28). Dialogar com a empiria, a partir de uma análise histórica processual sustentada por indagações e formulações teóricas contemporâneas, foi suficiente para que o GEM implementasse o desafio de dar suporte à inscrição de uma nova história da educação de Mato Grosso. Momentos distintos da historiografia educacional do Mato Grosso A produção historiográfica mato-grossense no que concerne à história da educação pode ser dividida em dois momentos pontuais: o primeiro datado da primeira metade do século XX, esteve a cargo de intelectuais de formação variada, que se predispuseram a traçar, pela vez primeira, a trajetória educacional mato-grossense; o segundo surgiu pós1995, quando se constituiu, no interior da pós-graduação em educação da UFMT, um grupo de pesquisa que, apoiado na produção historiográfica anterior, procedeu a avanços substantivos não só no que concerne à ampliação das fontes e teorias, mas, também, na formulação de inovadores questionamentos à empiria. A produção historiográfica dos primeiros tem como produto final textos de cunho eminentemente político-administrativos, visto que a base de apoio documental teve como centralidade uma única tipologia, a legislação – colonial, imperial e republicana – e sua escrita isenta de qualquer proposta metodológica. Em contrapartida, as indagações formuladas por esse grupo acompanhavam interesses próprios da época. Os escritos gerados por esse grupo têm como representantes: Virgílio Corrêa Filho, com Questões de Ensino (Corrêa Filho, 2001); Gervásio Leite, em Um século de Instrução Pública: história do ensino primário em reconstituindo arquivos escolares 127 Mato Grosso (Leite, 1971); Rubens de Mendonça, com Evolução do Ensino em Mato Grosso (Mendonça, 1977), e Humberto Marcílio, em sua interessante História do Ensino em Mato Grosso (Marcilio, 1963). A preocupação desses historiadores, profissionais formados em direito, medicina ou engenharia, visou pontuar momentos marcantes do percurso educacional de Mato Grosso, tomando por parâmetro balizas cronológicas e político-administrativas. O cerne das análises enfoca a legislação emanada dos governantes e administradores e suas reformas de ensino, visto que as questões por eles formuladas assentavam-se na inexistência de qualquer informação anterior sobre o contexto educacional e, por isso, procuraram, ao arremedo da historiografia brasileira da primeira metade do século XX, privilegiar os atos normativos e a política educacional. O segundo grupo, cuja produção historiográfica data da última década do século XX e composto de intelectuais formados e pós-graduados em pedagogia, filosofia e história, vem produzindo um tipo de historiografia bastante diferenciada daquela oriunda do primeiro grupo, porque a base empírica e seus questionamentos apontam para outros paradigmas. Acatamos as competentes reflexões formuladas por Maria Cecília Cortez Christiano de Souza sobre essa questão, quando considera que: “o passado é constituído e continuamente reconstruído a partir de uma problemática do presente” (Souza, 2000, p. 16). No desenvolvimento de seus trabalhos, novas indagações foram postas para o GEM, as quais deveriam ser respondidas tendo por base referenciais metodológicos capazes de tornar mais compreensível os diversos momentos do processo educativo, não mais entendido enquanto derivação das ações político-administrativas, mas, sim, como prática docente cotidiana. Vidal reforça que essas novas problemáticas desfocaram não só o olhar dos historiadores da educação, de um campo meramente político-administrativo, para o fazer escolar, como tornaram obrigatório a busca de novas fontes: Julia convidava os historiadores da educação a se interrogarem sobre as práticas cotidianas, sobre o funcionamento interno da escola. [...] propunha uma história das disciplinas escolares, constituída a partir de uma ampliação das 128 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 fontes tradicionais. [...] Pretendia, [...] a aproximação entre estas e os estudos voltados ao interior das instituições de ensino [Vidal, 2004, p. 30]. Por essa perspectiva, o GEM investiu na ampliação do universo documental, procedendo, concomitantemente, à necessária releitura da historiografia “clássica” regional e nacional, através da formulação de contemporâneos questionamentos sobre a empiria. Assim, as pesquisas no âmbito da pós-graduação ganharam uma nova direção, pois os objetos de investigação passaram a ter, como centralidade, novas problemáticas: instituições escolares, questão de gênero, cultura escolar, metodologias de ensino, sistema de vigilância, arquitetura escolar, análise do discurso educacional, eugenia no interior do processo educativo, civismo e patriotismo nas escolas, laicização do ensino, profissão docente, dentre outras1. Da corte ao sertão: um diálogo possível Fazendo uma interlocução com Vidal, acordamos: [...] interessava-me pela “mil maneiras de fazer com” (Certau) os materiais e métodos que eram postos em circulação na escola, questionando como os 1. Nessa direção, foram defendidas, junto ao programa de pós-graduação da UFMT, as seguintes dissertações de mestrado: Laci Maria Araújo Alves. “Nas trilhas do ensino (Educação em Mato Grosso 1910-1946)”, defesa em 1997; Elizabeth B. Lannes Bernardes. “Mulheres cuiabanas na Primeira República”, 1998; André Paulo Castanha. “Pedagogia da Moralidade: O Estado e a Organização da Instrução Pública na Província de Mato Grosso (1834 – 1873)”, 1999; Edmar Joaquim dos Santos. “A educação física higienista em Mato Grosso (fase de implantação) 19101920, 1999”; Carlos Américo Bertolini. “Encenações patrióticas: a educação e o civismo a serviço do Estado Novo (1937-1945)”, 2000; Elizabeth Pippi Rosa. “Cartilha do Dever: a instrução pública primária em Mato Grosso nas primeiras décadas republicanas (1891-1910)”, 2002; Euclides Poubel e Silva. “Origens do Conselho Estadual de Educação”, 2003; Regina Aparecida Versoza Simião. “Processo de profissionalização docente em Mato Grosso (1930-1960)”, 2004; Emilene Fontes de Oliveira Xavier. “Cultura e civismo no Grupo Escolar “Leônidas de Mattos” (Santo Antônio de Leverger/MT)”, 2004; Dimas Santana Souza Neves. “Controle e vigilância na construção da cultura escolar em Mato Grosso”, 2004. reconstituindo arquivos escolares 129 alunos e professores deles se utilizaram, como subverteram os dispositivos que lhes estavam inscritos, na concepção da escola como um lugar de produção de uma cultura específica, em que constantemente atualizavam-se “estratégias modeladoras e táticas de subversão” [Vidal, 2004, p. 14]. Se subversões ocorriam na corte, o ludíbrio era ainda maior quando se tratava de Mato Grosso, onde, muitas vezes, a maioria de sua população não respondia ou, até mesmo, repudiava peremptoriamente as diretrizes educacionais que lhe eram impostas. Exemplar é o episódio, ocorrido entre os anos de 1873-74, quando o presidente da província aprovou a instalação de duas escolas noturnas, idealizadas pelo inspetor-geral da Instrução Pública, protonotário apostólico Ernesto Camilo Barreto, clérigo baiano que abominava as “orgias” noturnas e diurnas presentes no cotidiano da maioria das famílias, especialmente daquelas pobres, onde o hábito das rodas de cururu, siriri e umbigada, além da beberagem e jogatina imperavam. Retirar essa população do ócio, impondo-lhe um novo ritmo “civilizado”, tornava-se o grande objetivo, e o espaço escolar, sem dúvida, passou a ser visto como “laboratório” ideal. Depois de inaugurar, com muita pompa, dois cursos noturnos, nomeando como regentes homens probos e cultos, ambas as escolas foram fechadas “por falta absoluta de alunos”. Ao cerrar as portas destes “templos da civilização”, o clérigo assim se expressou: Instituição tão útil, porém, e proveitosa aos que pelos labores da vida não podem durante o dia curar da alimentação do espírito, foi abandonada pelos próprios a quem interessava. Nenhum aluno matriculou-se nessas escolas de instrução primária. Não se diga que estávamos neste ramo, como em Genebra, onde um vogal da sociedade helvética, querendo experimentar o seu método de ensino para adultos, procurando, por toda a cidade, adultos analfabetos, não encontrou senão um, e esse mesmo não era suíço, mas italiano [Siqueira, 2000, p.]. A avaliação do inspetor-geral dos estudos comungava com os ideais da escola moderna porquanto, “Colocada como um espaço de transmissão de saberes universais, a idéia era transformar a escola em 130 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 suporte de relacionamentos impessoais, graças aos quais, se pensava, os alunos se libertavam de pertinências sociais particulares e locais” (Souza, 2000, p. 29). Para que essa transformação se processasse, não bastava matricular crianças e adultos nas escolas; o importante seria instruílos e educá-los dentro dos princípios modernos, e os livros didáticos eram considerados um dos seus mais importantes instrumentos. Vidal (Vidal, 2004) informa terem sido o primeiro e segundo livros de leitura, do Barão de Macaúbas, adotados nas escolas do Rio de Janeiro; indagava-se, teriam esses mesmos compêndios circulado em Mato Grosso? Mesmo distante geograficamente, as lições de Abílio César Borges ali chegaram doadas pelo autor que, em correspondência, ponderou que seus ensinamentos serviriam para retirar da “barbárie” a população matogrossense: Em 1874, tendo-me sido comunicado que as escolas dessa Província padeciam falta absoluta de livros, porque o Tesouro provincial em penúria não permitia fornecê-los desses principalíssimos instrumentos do ensino, sem os quais bem pouco valem escolas, ofereci para as mesmas 1.200 exemplares dos meus compêndios escolares. Lendo agora nos jornais a notícia do crime nefando praticado aí por mãe bruta e feroz, que à sua própria filha, na flor dos anos, arrancara fria e calculadamente a vida, cravando-lhe no seio a faca filicida, e tendo para si que praticava um ato de sublime virtude com punir assim uma falta da infeliz filha, que mais do que punição mereceria compaixão; crime esse que não é senão a continuação de muitos outros igualmente atribuídos à completa ignorância em que jaz imersa a maior parte da população dessa Província; no desejo de concorrer para que vão penetrando alguns raios de luz nessas trevas espessas que ainda aí envolvem os espíritos, resolvi fazer novo oferecimento de três mil exemplares dos ditos meus livros para serem distribuídos pelos alunos pobres mato-grossenses, que freqüentam as escolas. Esses livros acham-se à disposição de V. Exa., e serão entregues a quem V. Exa. determinar [Siqueira, 2000, p. 232]. No que tange aos métodos de ensino, a província de Mato Grosso acompanhou, mesmo levando-se em conta relativa defasagem cronológica, as orientações metodológicas emanadas da corte. Nos primeiros anos reconstituindo arquivos escolares 131 da década de 1870, as escolas públicas primárias ainda não possuíam um método de ensino claramente definido, na ótica de Camilo Barreto: Ainda não pude compreender qual o método de ensino aplicado nas escolas. [...] pelo que vi e presenciei o sistema não é nenhum dos métodos mencionados, é não ter sistema. A variedade e não a uniformidade rege as escolas. Cada qual ensinando pelo modo por que aprendeu, e cada um aprendeu pelo que mais lhe convém. Nenhuma ordem na distribuição do tempo, nem nas matérias do ensino. As sessões de leitura, de escrita, de aritmética e de doutrina, em vez de se sucederem, tornam-se simultânea, estes escrevem, enquanto aqueles rezam, lêem uns enquanto outros se ocupam em fazer contas [Siqueira, 2000, p. 215]. Assim, o ensino simultâneo-mútuo, ministrado pelo método lancasteriano, fora indicado aos professores mato-grossenses pela diretriz emanada do Regulamento da Instrução Pública do ano de 1873. Sua realização, no entanto, não se efetivou, apesar de todos os esforços despendidos pelo protonotário Camilo Barreto que, pessoalmente, se predispôs a ministrar aulas de metodologia aos professores mato-grossenses: Não tenho necessidade de encarecer o método simultâneo, aplicado ao ensino primário, ele já está julgado pelas nações mais adiantadas e pelos nossos mais distintos professores e pedagogistas. [...] já está ele admitido e em execução entre nós na 1ª cadeira de instrução primária da paróquia da Sé, regida pelo cidadão Manuel Teixeira Coelho, e se não em todas as escolas desta capital, isto é somente devido à falta de casas e das mobílias e utensílios indispensáveis ao sistema. Todos os professores desta capital e de Vila Maria [Cáceres] assistiram aos exercícios pedagógicos, e se os não puderam desenvolver ainda em suas respectivas escolas, é isso devido ao que deixei referido [Siqueira, 2002, p. 311]. Entusiasmado com os efeitos multiplicadores do moderno método, o mesmo clérigo e seu sucessor, à frente da instrução pública, se empenharam em montar, em Cuiabá, uma escola modelar, contando com espaço físico suficiente para que o ensino mútuo pudesse se realizar. Ela, 132 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 no entanto, não progrediu, vigorando, na maioria dos estabelecimentos de ensino primário, o método misto. Nos “confins do mundo”, com uma população majoritariamente analfabeta e miscigenada, a alfabetização em massa, propugnada pelo método lancasteriano, seria, na visão dos administradores do século XIX, sem dúvida, uma excelente solução. Faria Filho elucida-nos sobre as principais condições exigidas para implementação do método mútuo: [...] ao incidirem sobre a organização da classe, sobre a necessidade de espaços e de materiais específicos para a realização da instrução na escola, sobre a necessidade de formação dos professores e, finalmente, ao estabelecerem o tempo e a questão econômica como elementos basilares do processo da escola [Faria Filho, 2000, p. 142]. Em que espaços escolares os pressupostos da escola moderna foram implantados em Mato Grosso? Crianças de que faixa etária e escala social freqüentavam a escola? Quais aquelas que prosseguiam os estudos? Os métodos de ensino aplicados em Mato Grosso eram similares àqueles adotados na corte, ou eles sofreram uma adaptação à realidade sertaneja? Que livros didáticos eram adotados? Havia uma produção didática regional? Quando o segmento feminino ingressou na carreira do magistério? Qual a sua formação e quem eram essas professoras? Qual o nível cultural dos docentes? Que trajetória foi realizada pelas instituições escolares? Foi em busca dessas e de muitas outras respostas que o GEM investiu no levantamento sistemático de fontes, iniciando o percurso com a organização da documentação oficial, para mais tarde, tendo por base os seus “silêncios”, procurar desvendá-los através das informações contidas nos acervos privados – institucionais, pessoais e familiares – para, depois, investir na produção de novas fontes, tendo por base a história oral. O trabalho com a documentação pública Os documentos somente se transformam em monumentos, à medida que são utilizados e referendados pelo historiador (Le Goff, 1990). reconstituindo arquivos escolares 133 Entendemos que os arquivos escolares, localizados, sistematizados e preservados em diferentes acervos documentais – tanto os de caráter público, como privados – deram novo estatuto à história da educação, visto que capazes de fazer fulgurar, no interior de um processo mais amplo, o cotidiano das escolas. Foi em busca da recomposição das fontes oficiais, agora ampliadas com o rastreamento das institucionais e privadas, que o GEM investiu na sistematização de documentos relativos à história da educação de Mato Grosso e que, certamente, serviram de apoio não somente às pesquisas educacionais pertinentes ao contexto regional, mas, também, àqueles trabalhos que buscaram relacionar e cotejar nacionalmente realidades escolares diferenciadas. O universo empírico, trabalhado ao longo de quase 10 anos (19962005), permitiu ao Grupo de Pesquisa em História da Educação constituir um banco de dados que abarca os períodos imperial e republicano (1822-1950). Inicialmente, privilegiou-se a documentação manuscrita e impressa, catalogada em verbetes ou resenhas indicativos das informações contidas em cada documento, esclarecendo sobre sua localização no interior dos respectivos acervos. Ao lado desse trabalho, esforços subseqüentes foram envidados na transcrição e digitação das fontes, privilegiando-se, especialmente, a legislação, os relatórios dos governantes e autoridades responsáveis pela condução da instrução pública, assim como os documentos especialmente relevantes que colaboram para dar maior visibilidade e domínio às práticas escolares – processos, discursos, artigos veiculados em periódicos, correspondências, livros de registro de material escolar, orçamentos etc. Essas informações encontram-se hoje disponibilizadas virtualmente, podendo os interessados ter abreviadas suas investigações documentais. Em especial, esse instrumental está servindo, ao longo dos últimos oito anos, para amparar as pesquisas desenvolvidas no âmbito da pós-graduação em educação, apresentando-se como elemento facilitador do desenvolvimento de monografias, dissertações e teses. Concordando com as reflexões de Amorim, quanto à importância do trabalho de sistematização de fontes, pois “ele permite que o documento cumpra sua finalidade, ajudando a completar a cadeia necessária à criação científica” (Amorim, 2000, p. 90). 134 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 As fontes do poder executivo Os documentos gerados e produzidos pelos poderes públicos, por muito tempo, constituíram-se nas únicas fontes aceitas e consideradas legítimas para embasar o métier do historiador. Entretanto, não era sua natureza que determinava, em última instância, a produção de um conhecimento “oficialesco”, comprometido com uma história factual, cronológica e notoriamente política, mas, sim, a forma como ela era apropriada e inquirida pelo pesquisador. Do século XIX ao XXI, ocorreu uma importante alteração na concepção de leitura e apropriação dos documentos, visto que o investigador, que num primeiro momento se limitava apenas a copiar o documento sem exercer sobre ele qualquer intervenção, passou a formular interrogações e questionamentos à empiria, nela buscando respostas para suas indagações, estas, sim, inovadoras. Nessa medida, os documentos gerados pelos poderes públicos mantiveram, com essa transformação, o mesmo status, sendo que o pesquisador é quem alterou as perguntas a eles proferidas. O GEM, nos idos de 1995/2003, arrolou, no interior dos arquivos oficiais, um expressivo conjunto documental, tendo sido seu primeiro investimento realizado junto às fontes oficiais depositadas no Arquivo Público de Mato Grosso. Ali foram levantados, resenhados, transcritos e digitalizados códices e documentos avulsos relativos ao Império e à Primeira República. O resultado desse trabalho frutificou em dois importantes instrumentos de pesquisa: Memória: catálogo de documentos relativos à história da educação mato-grossense (período Imperial), publicado em 1996 (Sá & Siqueira, 1996), e um CD-ROM contendo a documentação republicana, 1890 a 1950 (Sá & Siqueira, 2004). No primeiro caso, o catálogo recebeu uma organização cronológica e no segundo, o CD-ROM, a ordenação obedeceu à entrada por instituição tendo, em seu interior, a sistematização cronológica. Após esse trabalho inicial, o GEM investiu na transcrição e digitalização dos documentos considerados relevantes, que, hoje, encontram-se à disposição dos pesquisadores junto ao banco de fontes do GEM. reconstituindo arquivos escolares 135 O acervo legislativo Considerando que a documentação emanada do poder executivo mantém estreita relação com a do legislativo, um segundo trabalho de levantamento centrou esforços na organização dos dados escolares e educacionais gerados no interior das fontes parlamentares provincial/ estadual. Para tanto, foram catalogados: livros de atas das sessões legislativas (1835-1950), projetos de lei e emendas, assim como a coleção da legislação. Esse esforço frutificou em catálogos temáticos, assim como toda a legislação imperial e republicana foi resenhada e ordenada cronologicamente, integrando os CDS-ROM de Império e de República. As decisões parlamentares apresentaram-se como muito importantes para se vislumbrar as prioridades políticas no que tangia aos assuntos educacionais, assim como tornou clara a, até então invisível, luta partidária travada no parlamento que incidia decisivamente na criação e manutenção de escolas, atingindo, da mesma forma pendular, a nomeação e demissão de diretores e mestres, que ficavam à mercê do jogo político. O mesmo ocorria com as reformas educacionais, que acompanhavam o ritmo dessa ciranda. Uma preciosa documentação, a processual, foi localizada no interior do acervo parlamentar, e algumas de suas peças – as relativas aos inspetores/diretores de ensino – contaram com depoimentos de professores. O testemunho de muitos mestres colaborou para tornar mais próximo o fazer escolar no tocante aos métodos de ensino e até mesmo aos castigos físicos e ao processo de fiscalização e vigilância no fazer escolar. Esse material, apesar da cautela com que deve ser “lido”, visto que propositadamente instruído, visando ao afastamento de autoridades educacionais desafetas politicamente, transformou-se em esclarecedoras pistas indicativas daquilo que se passava no interior dos estabelecimentos escolares. Do mesmo modo, foi uma importante referência para a reconstituição de dados biográficos dos mestres e administradores, visto iniciar cada depoimento com uma apresentação do depoente (Siqueira, 2000). Não bastava consultar os documentos gerados e produzidos pelos poderes públicos – legislação, relatórios de governantes e inspetores/ 136 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 diretores da instrução pública, regulamentos, atos normativos, processos etc. Eles, sem dúvida, elucidavam pegadas importantes do processo educacional, porém eram insuficientes para desvendar o cotidiano escolar, as práticas pedagógicas, as relações estabelecidas no interior das salas de aula e, tampouco, ofereciam suporte para se conhecer mais profundamente o universo social e cultural dos professores, alunos e demais agentes envolvidos no processo educativo. Vestígios da documentação oficial apontaram alguns acervos públicos escolares “perdidos” Foi a partir da organização das fontes documentais oriundas dos poderes executivo e legislativo que o GEM certificou-se da inexistência de dados sobre alguns importantes estabelecimentos públicos escolares, criados no século XIX: o Liceu Cuiabano (instituído no final de 1879 e instalado nos primórdios de 1880) e a Escola Normal de Cuiabá, intitulada mais tarde Escola Normal e Modelo Barão de Melgaço, instalada no primeiro distrito da capital mato-grossense, na primeira metade do século XIX. Essas escolas conviveram, durante muitos anos, num mesmo espaço físico, o Palácio da Instrução, porém ali não se conseguiu localizar qualquer documento. Investigando junto aos antigos professores e diretores, ficou-se sabendo que os citados arquivos escolares estavam depositados, o da Escola Normal, na Escola do 1º e 2º graus “Presidente Médici”, criada pós-1907, e o do Liceu Cuiabano, no edifício que hoje abriga o centenário estabelecimento, instalado num portentoso edifício construído durante o Estado Novo. O GEM deu início a um trabalho de arranjo e catalogação desses acervos, que serviram de base para a elaboração de dissertações de mestrado2. 2. Elizabeth de Sá Poubel Silva. “A Escola Normal de Cuiabá (1910-1916): contribuição para a História da formação de professores em Mato Grosso”, 2000, Maria Inês Zanelli. “A criação do Liceu Cuiabano na província de Mato Grosso: o curso de línguas e ciências preparatórias e a formação dos intelectuais”, 2001 e Rosinete Maria dos Reis. “Palácios da Instrução: institucionalização dos Grupos Escolares em Mato Grosso (1910-1927)”, 2003. reconstituindo arquivos escolares 137 No ano 2000, ingressaram na pós-graduação em história da educação dois membros ligados profissionalmente ao Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) (de Mato Grosso e de Cuiabá) que escolheram como temática de dissertação a Escola de Aprendizes Artífices, fase embrionária desste centro, em Mato Grosso (1909-1910), e o Aprendizado Agrícola Gustavo Dutra, atual CEFET-Cuiabá), estabelecimento rural (construído na BR-364, Serra de São Vicente), instituído durante o Estado Novo e que recebia alunos sob o regime de internato. Nesse esforço, foram localizados e sistematizados importantes papéis relativos ao ensino público federal em Mato Grosso3. De posse da documentação gerada pelos poderes executivo e legislativo estaduais, acrescida dos dois importantes acervos escolares federais, o GEM prosseguiu na busca de novas fontes, as de caráter privado, uma vez que as investigações do grupo tinham ainda que pontuar as questões relativas à cultura e cotidiano escolares. Da documentação oficial à documentação privada: Os acervos privados institucionais O terceiro esforço do GEM teve como meta o levantamento e sistematização da documentação educacional existente nos acervos privados institucionais, depositados no Arquivo da Casa Barão de Melgaço, entidade quase centenária que abriga as duas agremiações culturais mais antigas de Mato Grosso: o Instituto Histórico e Geográfico de Mato 3. Nádia Cuiabano Kunze. “A Escola de Aprendizes Artífices em Mato Grosso (19101937)”, 2005 e Abimael Antunes Marques. “O Aprendizado Agrícola Gustavo Dutra: seu papel e importância no contexto agrícola de Mato Grosso”, 2005. Já havia sido defendido, no ano de 1997, uma dissertação de mestrado intitulada “O Aprendizado Agrícola Gustavo Dutra: a maior dádiva de Mato Grosso (1942 – 1964)”, de Luciane Neuvauld, no entretanto, trabalho pioneiro foi desenvolvido, enquanto tese de Doutorado, defendida junto ao programa de pós-graduação em Educação/UFMT, no ano de 1999, pela historiadora Matilde Araki Crudo, intitulado “Aprendizes do Arsenal de Guerra de Mato Grosso: Trabalho infantil e educação (1842 – 1899)”, primeira instituição federal no cenário educacional de Mato Grosso. 138 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Grosso (IHGMT, instalado em 1919) e a Academia Mato-Grossense de Letras (instituída em 1921). No interior do arquivo, composto por uma biblioteca de mais de 10.000 volumes e um riquíssimo acervo de periódicos4, além de fotografias, móveis e objetos, foram localizados livros de registro dos sócios, acompanhados de dados biográficos, nos quais se verificou a presença de muitos docentes. Importantes dados avaliativos referem-se aos pareceres que o IHGMT emitia nos livros didáticos de história e de geografia, apresentados por autores regionais. Tratava-se das primeiras propostas de levar para as escolas primárias e secundárias conhecimentos concernentes à realidade de Mato Grosso. Dois deles foram aprovados e passaram a ser adotados nas escolas públicas e privadas de Mato Grosso: o Quadro Chorographico de Matto Grosso, de autoria de Estevão de Mendonça (Mendonça, E. 1906), e também O Município de Cuiabá (Terceiro Livro de Leitura), de autoria da professora Amélia de Arruda Alves (Alves, 1949). A organização, sistematização e informatização do arquivo da Casa Barão de Melgaço receberam o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)/Projeto Norte, através da UFMT, e foram executadas por um membro do GEM, curadora da Casa Barão de Melgaço. O resultado final desse trabalho foi a produção de um CD-ROM contendo um minucioso catálogo comentado. A potencialidade dos acervos institucionais e sua contribuição para a reconstituição de fontes pertinentes à educação, também mereceu apreço por parte de Casasanta Peixoto que sobrelevou a importância da biblioteca da Academia Mineira de Letras que, “embora não organizada, possui volumes contendo vida, obra, discursos de personalidades no campo da cultura, algumas delas de destaque na história da educação” (Peixoto, 2000. p. 79). Um outro importante filão educacional da Casa Barão de Melgaço foi encontrado junto ao arquivo do extinto Instituto de Pesquisas D. 4. Duas dissertações de mestrado tomaram este acervo de periódicos como objeto: “O ensino laico: entre a cruz e a espada: polêmica sobre o ensino laico veiculado pelo periódico “A Cruz” (1910-1924)”, de Marize Bueno de Souza Soares, 2002, e “Educação na revista feminina A Violeta”, de Gisleine Crepaldi Silva, defendida no ano de 2003. reconstituindo arquivos escolares 139 Aquino Corrêa, incluindo cerca de 6.000 papéis que, depois de sistematizados, foram dispostos em grandes pastas e caixas, sendo seu catálogo organizado em três grandes chamadas cronológicas: Colônia, Império e república. No bojo deste expressivo conjunto de fontes, foram encontrados papéis que diziam respeito ao ensino informal, ministrado na capitania de Mato Grosso pelos engenheiros portugueses que ali se fixaram e foram responsáveis pelo comando das fortificações, a exemplo de Ricardo Franco de Almeida Serra, que se dedicou a ensinar geometria e matemática aos oficiais e soldados dos batalhões de fronteira. Foi também localizada, no período imperial e republicano, uma expressiva documentação concernente às instituições escolares, a exemplo de códices e papéis avulsos pertinentes ao mais antigo curso secundário e confessional de Mato Grosso, o Seminário Episcopal da Conceição, instituído no ano de 1853, graças às ações do primeiro bispo diocesano de Cuiabá, o paulistano dom José Antônio dos Reis. Através de sua sistematização, puderam ser recuperados dados biográficos dos seus docentes, ao longo de quase oitenta anos, assim como conhecidos os métodos de ensino, plano de estudos, livros didáticos e grade horária. Documentos relativos a outras instituições de ensino a cargo da Igreja católica também foram sistematizados, a exemplo dos relativos ao Asilo Santa Rita (internato e externato do sexo feminino) e ao Liceu Salesiano São Gonçalo em seus trabalhos missionários junto aos grupos indígenas regionais. Cada um destes filões documentais redundaram em dissertações de mestrado5. Os acervos privados Além dos acervos institucionais, o Arquivo da Casa Barão de Melgaço congrega uma volumosa e diversificada documentação priva- 5. Recorreram a essa documentação: Adilson José Francisco. “Apóstolos do Progresso: a prática educativa Salesiana no processo de modernização em Mato Grosso (1894 1919)”, 1998; Arilson Aparecido Martins. “O Seminário Episcopal da Conceição: da materialidade física à proposta pedagógica”, 2000; Ivone Goulart Lopes. “O Asilo Santa Rita de Cuiabá: releitura da práxis educativa feminina católica (1890 –1930)”, 2002. 140 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 da pertencente a professores, intelectuais, políticos e personalidades ligados à história, literatura e cultura mato-grossense, doada pelos familiares após o falecimento dos titulares. Esse é o caso das coleções documentais que pertenceram à Família Mendonça: Estevão (historiador e primeiro diretor da Biblioteca Pública Estadual), Rubens (historiador e literato); dos papéis acumulados por Ramiro Noronha, um dos integrantes do Serviço Nacional de Proteção aos Índios (SPI) e responsável pela abertura dos postos e escolas indígenas de Mato Grosso, na primeira metade do século XX; os de Luis-Philippe Pereira Leite (historiador e cartorário); e os acervos privados da Família Rodrigues, compostos por uma diversificada e volumosa documentação acumulada por dois eméritos professores cuiabanos, Firmo Rodrigues (1871-1944) e sua filha Maria Benedita Deschamps Rodrigues (1908-2001), apelidada “Dunga Rodrigues”. O acervo da Família Rodrigues A coleção da Família Rodrigues – Firmo José Rodrigues e Dunga Rodrigues – constitui-se um dos mais importantes e completos conjuntos documentais abrigados no arquivo da Casa Barão de Melgaço. Isso se deve ao fato de que a família, após o falecimento da última titular, em 2001, doou, de forma pródiga e à escolha da Curadoria da Casa Barão de Melgaço, um patrimônio volumoso e bastante diversificado no que tange à natureza documental. Assim, foram recolhidos: a biblioteca familiar, os papéis avulsos, os periódicos, as fotografias, o mobiliário e até os objetos. Esse rico patrimônio, único no Estado pela sua diversidade, é capaz de recuperar não somente a trajetória desses dois mestres – através dos seus livros didáticos e paradidáticos, dos escritos avulsos e diários de viagem –, mas, também, o cotidiano de ambos, trazendo a lume um intrincado universo intelectual e social em que atuaram por quase dois séculos. Ao lado disso, a coleção incorpora, além de documentos dos titulares, papéis avulsos, objetos, fotografias e mobiliário que pertenceram aos seus pais e avós. O arranjo e sistematização da coleção documental da Família Rodrigues mereceram estudos sistemáticos e uma metódica específica reconstituindo arquivos escolares 141 na classificação dos mais de 10.000 papéis escritos, cerca de 850 fotografias, mais de 470 peças de jornais, além do diversificado mobiliário e grande número de objetos. Para tanto, a curadora da Casa Barão de Melgaço buscou capacitação junto ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB)/Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), em curso específico sobre acervos privados, ministrado junto ao Arquivo Público de São Paulo, no ano de 2003, sob a regência da professora doutora Ana Maria de Almeida Camargo e de outras renomadas historiadoras e documentalistas. Todo o acervo mereceu uma única metódica de arranjo, tendo por base 10 grupos: atuação profissional; documentos de família; documentos pessoais; formação intelectual; produção intelectual; relações familiares; relações sociais; transações comerciais e financeiras; universo de interesse e sem vínculo aparente. No interior desses grupos foram estabelecidos subgrupos e séries. Assim, o conjunto documental manteve uma sistemática única, elemento facilitador de seu arranjo e consulta. No que tange especificamente ao setor educacional, a documentação apresenta-se como reveladora, visto que uma série completa de documentos iluminou o entendimento da cultura escolar, tanto no que diz respeito às modalidades de ensino, aos livros didáticos utilizados, quanto também aos métodos de ensino adotados nos séculos XIX e primeira metade do XX. Digna de nota é a documentação referente à Escola Militar da Praia Vermelha, onde Firmo José Rodrigues estudou no final do século XIX, no interior da qual foram encontrados cadernos manuscritos das aulas de positivismo ministradas por Benjamin Constant e minuciosamente anotadas em quatro brochuras; das lições, da Escola Normal Pedro Celestino e Asilo Santa Rita, onde Dunga Rodrigues cursou o primário; da Escola Normal Pedro Celestino, onde ela complementou seus estudos. Enquanto mestre, pudemos encontrar brochuras contendo anotações e programa de aulas, relação e nota de alunos, planos de curso, sabatinas e convites e discursos de formatura, das quais os titulares foram, por vezes, paraninfos. Uma série ilustrativa de fotografias emoldura a correspondência de Firmo e de Dunga com outros professores, seus contemporâneos. Nessas missivas, pudemos vislumbrar os livros que encomendavam, aqueles que pediam por empréstimo, as dificulda- 142 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 des salariais, informações sobre administradores escolares, carreira docente, assim como a influência da política nacional e regional na vida da categoria. Esses dados educacionais foram enriquecidos com os exemplares da biblioteca familiar, acumulada ao longo de quase dois séculos, cujas obras são capazes de recuperar não somente o universo de leitura dos dois professores, mas servem também para distinguir os livros que foram por eles compulsados durante o período de formação escolar e em seu cotidiano didático, visto que anotados. Além desses entrecruzamentos, a produção literária das duas personalidades, por sua natureza farta, apresenta-se como relevante para fazer fulgurar o universo intelectual e formas de escrita e produção literária da época, por se tratar de artigos, muitos deles inéditos, versando sobre o cotidiano escolar, social e da cidade, incluindo também muitos dados biográficos e práticas docentes de antigos professores. Esses textos, muitos deles publicados no formato de livros6 ou artigos integrantes de periódicos regionais, uma vez entrecruzados com a produção intelectual inédita dos titulares, – abundante no interior dos papéis avulsos –, emolduram um universo social ampliado e representativo não só deles e de seus familiares, mas descortinam facetas do social e cultural representativas de todo um conjunto de professores que atuou no cenário mato-grossense durante a segunda metade do século XIX e primeira do XX. Tanto pai quanto filha, quando já idosos, deixaram escritos preciosos cuja temática versa sobre 6. Firmo Rodrigues publicou, em dois volumes, “Figuras e Coisas de nossa Terra” e “Diário de uma viagem”, ambos editorados após sua morte. Dunga deixou um expressivo número de publicações: “Reminiscência de Cuiabá”, “Os vizinhos”, “Roteiro Musical da Cuiabania: o movimento musical em Cuiabá”, “Roteiro Musical da Cuiabania: Antônio Simaringo: vida e composições”, “Roteiro Musical da Cuiabania: Antonio Pedro de Figueiredo: vida e composições”, “Roteiro Musical da Cuiabania: José Mamed da Silva Rondon: vida e composições”, “Marphysa (ou o cotidiano de Cuiabá nos tempos do Candimba, das touradas do Campo do Ourique e das esmolas do Senhor Divino)”, “Cuiabá: roteiro de lendas”, “Uma aventura em Mato Grosso”, “Cuiabá ao longo de 100 anos”, “Lendas de Mato Grosso”, “Movimento musical em Cuiabá”, “Colcha de retalhos”, “A situação lingüística do francês”. (Tese para o concurso à cadeira de francês do Colégio Estadual de Mato Grosso). reconstituindo arquivos escolares 143 seu próprio percurso escolar, enriquecida de comentários hilariantes sobre os mestres, seus trajes, maneiras de falar e andar, rigor na aplicação de sabatinas e até mesmo comentários sobre sua vida particular. Descrições idênticas foram temáticas de diversas crônicas jornalísticas tendo como assunto os colegas de turma, sua inserção na sociedade e prosseguimento na carreira após a finalização dos estudos secundários. Da mesma forma, essa importante coleção documental serviu para compreender a evolução das noções de tempo, solidariedade, estética e espacialidade introjetadas não somente por esses mestres, mas de extrema significação para toda a sociedade mato-grossense de, pelo menos, duas gerações. O mobiliário da Família Rodrigues é o retrato de uma Cuiabá singela, rústica e onde a vida estava muito mais voltada para fora do que para dentro das residências. A convivência mais recorrente tinha como palco o fundo das casas, as largas e aconchegantes varandas. Essas conversas familiares eram entoadas ao som de melodiosas músicas tocadas ao piano, instrumento farto na cidade e que ali chegava, no século XIX, trazido pelos vapores que do Estuário do Rio da Prata atingiam o centro da América do Sul, e, mais tarde, pela Ferrovia Noroeste do Brasil, até Campo Grande, sendo baldeadas para Cuiabá por via fluvial. Dunga Rodrigues, que estudou música e lecionou durante boa parte da sua vida, registrou de forma vibrante, em diversos escritos esparsos, muitos deles inéditos, a vida e obra de suas professoras, assim como elencou diversas produções e composições musicais, muitas inéditas, até então. Ensaios também versam sobre festas típicas cuiabanas, especialmente as juninas, conversas travadas nas varandas ou até mesmo nas rodas de cadeiras colocadas nas calçadas, regadas pelo tradicional guaraná ralado, refresco ou um licor, quando a ocasião era comemorativa. Destaque deve ser feito às crônicas relativas às relações de poder fortemente presentes no contexto mato-grossense, especialmente na primeira metade do século XX, onde a violência e o coronelismo saltavam aos olhos. As discussões e avaliações políticas eram uma constante no viver do cuiabano, pois, a cada eleição, os empregos e a segurança das famílias eram colocados em xeque. Não somente o contexto regional é recuperado pela documentação, mas também o nacional e até mesmo o internacional, visto que esses dois 144 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 mestres implementaram estudos superiores fora de Mato Grosso, mais especificamente no Rio de Janeiro, empreendendo viagens internacionais, a trabalho ou lazer. As anotações manuscritas nos envelhecidos diários são reveladoras das dificuldades encontradas por esses dois professores cuiabanos em sua adaptação fora de Mato Grosso, no tocante às relações sociais, aos passeios e até mesmo na culinária. Mais instigantes são os diários de viagens internacionais, cuja escrita revela o estranhamento dos “sertanejos” diante do mundo europeu, norte-americano, ou asiático. Ao lado dessas pontuais anotações, extensas missivas descrevem, aos amigos e parentes mais próximos, o roteiro da viagem, os atropelos nos aeroportos, portos e também nas estações rodoferroviárias. Os muitos escritos de si e para si são acompanhados, no entrecruzamento da extensa documentação, de fotografias, cartões, bilhetes, cartas e telegramas, filão documental capaz de vislumbrar as representações desses professores perante as novas paisagens e ambientes. Certamente, na torna-viagem, os conhecimentos adquiridos eram, sem dúvida, repassados no cotidiano de sala de aula e também nas elegantes vestimentas usadas nos salões de baile, e até mesmo nos novos móveis e adornos de suas residências. Objeto de projeto amparado pela Lei de Incentivo à Cultura Estadual (Secretaria de Estado de Cultura – SEC), o resultado final se consubstanciou no arranjo e sistematização deste acervo familiar, seguido da referência (verbete) de cada peça documental. Esse instrumento de pesquisa encontra-se hoje disponível no CD-ROM: Patrimônio Vivo de Firmo e Dunga Rodrigues, disponibilizado no início do ano de 2005. O acervo eclesiástico Um investimento paralelo foi executado por um dos membros do GEM no assessoramento às atividades de arranjo e catalogação do acervo documental da Cúria Metropolitana de Cuiabá, projeto coordenado pela historiadora doutora Maria Adenir Peraro. No trabalho com esse acervo puderam ser recuperadas importantes informações relativas à atuação educacional da Igreja católica. Diversos códices e papéis avulsos reconstituindo arquivos escolares 145 complementaram a documentação depositada no arquivo da Casa Barão de Melgaço, referente ao Seminário Episcopal da Conceição. Outras instituições educativas também tinham seus papéis depositados no arquivo da Arquediocese de Cuiabá, a exemplo do Asilo Santa Rita, instituição educacional que mantinha regular ensino primário feminino sob as modalidades de internato e externato, e também do Liceu de Artes e Ofício, instituído pelos salesianos. Farta documentação relativa aos trabalhos educacionais e catequéticos efetivados no interior das missões indígenas também foi encontrada no mesmo arquivo. Além da documentação específica das instituições escolares, outra massa documental foi de extrema importância para o reconhecimento dos atores educacionais de todo o século XIX e primeira metade do XX, visto que no arquivo da Cúria Metropolitana estão depositados e em bom estado de conservação livros de batismo, casamento, crisma e óbito. Além dos documentos escritos, uma significativa quantidade de fotografias torna ainda mais concreta a atuação da Igreja católica em Mato Grosso. Ao final desse trabalho, foi gerado um catálogo, publicado em papel, tendo sido todo o acervo microfilmado. Atualmente esses microfilmes estão sendo digitalizados, o que colaborará não somente para a preservação dos documentos originais, mas estará garantido o pleno acesso a essa documentação pelas gerações futuras. A produção de novos documentos através da história oral A investida atual do GEM está centrada na constituição de um banco de vozes de antigos professores, ex-alunos e servidores dos estabelecimentos escolares de Mato Grosso utilizando o aporte da história oral. Num primeiro momento, foram escolhidos para serem entrevistados professores com idade cronológica acima de 75 anos que pudessem relatar sobre suas práticas e experiências como alunos e, também, enquanto docentes. Em contrapartida, o projeto não deixou de registrar as falas de diretores e inspetores escolares, personalidades que participaram do processo educacional assumindo funções administrativas e cujo olhar difere, em muito, daquele ilustrativo das memórias docentes e discentes. 146 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Essa experiência, extremamente rica, proporcionou ao grupo de pesquisa a possibilidade de ter aclarados alguns aspectos da prática escolar até então obscuros ou mesmo omissos pela documentação oficial, institucional e também privada. Nessa medida, foi a partir das memórias orais, que novas fontes foram constituídas. Esse exercício, inédito para o GEM, exigiu estudos preliminares e seminários que auxiliaram o grupo para a adoção de uma metodologia apropriada e correta nesse campo. O professor doutor Antônio Montenegro, ligado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi o orientador do grupo de pesquisa. Leituras, discussões, troca de experiências e, principalmente, confabulações teóricas embasaram o GEM em seu novo investimento. A história oral foi utilizada como uma técnica capaz de fazer fulgurar lembranças de antigos profissionais da educação que, num esforço de articulação entre o passado e o presente, ressignificavam sua vivência escolar e profissional, fazendo emergir lembranças preciosas de um passado remoto, a exemplo dos mestres, dos livros didáticos, dos métodos, dos recreios e festas escolares. Além disso, esses profissionais, em sua releitura, implementavam o mais fantástico dos movimentos, tecendo numa única teia entre o passado e o presente, fazendo fulgurar aquilo que Benjamin advertiu por tantas vezes: “essa articulação do passado não significa reconhecê-lo como realmente foi. Significa apoderar-se de uma recordação para transformar o presente” (Benjamin apud Souza, 2000, pp. 39-40). Nessa medida, os depoimentos dos antigos mestres da educação ecoaram, para os docentes e pesquisadores do GEM, como incentivo para as transformações no presente. Foram exercícios muito enriquecedores, pois, para os depoentes, apresentaram-se como uma forma de valorização de sua sabedoria e experiência e, para os entrevistadores, um repensar sobre o presente tendo por base os contributos do passado. O primeiro passo foi realizar um levantamento dos professores, acima de 75, ainda vivos, em condições de oferecerem suas memórias. Para isso, foram escolhidos docentes oriundos de diversas camadas sociais e etnias, que residissem na capital e fora do estado. O passo seguinte teve por base estudos biográficos dos entrevistados através da elaboração de dossiês individuais. Em seguida, elaborou-se um roteiro de entrevista, seguido de sua realização. O resultado foi excelente, uma reconstituindo arquivos escolares 147 vez que os professores e administradores foram filmados com câmara digital, além de terem seus depoimentos gravados em fitas cassete. Quase uma meia centena de entrevistas foi realizada, digitada e digitalizada. Paralelamente às memórias recolhidas pelas entrevistas, outros materiais foram fornecidos espontaneamente pelos depoentes e serviram para ilustrar e materializar ainda mais suas falas: cadernos de anotação de aula, palmatórias, livros didáticos, sabatinas, fotografias avulsas, álbuns escolares etc. Ao final da série de entrevistas, cada depoente recebeu uma cópia do CD-ROM contendo sua fala, a partir do qual ele autorizou ou não a veiculação das informações. Atualmente, o GEM possui um banco significativo de vozes, o qual está sendo utilizado como fonte para embasar dissertações de mestrado e teses de doutorado que têm como limite cronológico a primeira metade do século XX. Considerações finais Iniciado com o objetivo de localizar e sistematizar documentos concernentes à educação de Mato Grosso, ao longo dos séculos XIX e XX, o GEM, com seus esforços, conseguiu não só ampliar as fontes – tanto no que diz respeito à quantidade quanto à sua natureza e tipologia. Nesse movimento, montou um banco de dados cujas referências são capazes de amparar trabalhos de pós-graduação, nas mais variadas vertentes. Esses esforços despendidos pelo GEM ao longo de quase uma década, fizeram fulgurar inúmeros acervos escolares, constituídos a partir de peças soltas e desconectadas, aos moldes de um grande quebra-cabeça, cujas estampas podem ser pinçadas no interior dos mais diversos acervos: públicos (estadual/federal), privados institucionais e também nos pessoais e familiares. Referências bibliográficas ALVES Amélia de Arruda. O Município de Cuiabá. Terceiro Livro de Leitura. 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Fernando Corrêa, s\nº - Cidade Universitária - Coxipó Cuiaba, MT – Brasil CEP: 78068-385 Rua 4, 630 – Bairro Esperança 78068-385 Cuiabá - MT [email protected] Recebido em: 1 set. 2005 Aprovado em: 10 dez. 2005 O lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar* Iomar Barbosa Zaia** Resumo: O texto tem como proposta principal apresentar algumas questões relacionadas ao tratamento de arquivos educacionais históricos dentro das instituições de ensino no que diz respeito ao acesso à informação para o desenvolvimento de pesquisas. Entende-se que, para além das práticas de pesquisa, há também as práticas do arquivo que relacionam preocupações quanto à preservação do suporte documental, sua organização e seu acesso. O tratamento, neste texto, dessas questões toma como base as experiências acumuladas na participação em três projetos organizados por docentes da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) como pesquisadores do Centro de Memória da Educação (CME-FEUSP), ao longo de quase uma década. EDUCAÇÃO; MEMÓRIA; ARQUIVOS ESCOLARES. * Este texto tem por base as duas oficinas realizadas entre 26 e 28 de julho no 1º Encontro de Arquivos Escolares e Museus Escolares, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), organizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da Educação (NIEPHE). ** Arquivista do Centro de Memória da Educação (FEUSP) e doutoranda em história da educação pela FEUSP, área de história e historiografia da educação, subárea de arquivos escolares. The place of permanent archives into the center of memory of the schooler * Iomar Barbosa Zaia** Abstract: The text has as main proposal to present some questions related with the treatment of historical educational archives inside of the education institutions in that it says respect to the access to the information by the development of researches. One understands that, for beyond the practical ones of research also has the practical ones of the archive that relates concerns about the preservation of the documentary support, its organization and its access. The treatment, in the present text of these questions takes as base the experiences accumulated in the participation in three projects organized for professors of the College of Education of the Universidty of São Paulo (FEUSP) as researchers of the Center of Memory of the Educacion (CME-FEUSP), throughout almost one decade. EDUCATION; MEMORY SCHOOL;ARCHIVES. * Este texto tem por base as duas oficinas realizadas entre 26 e 28 de julho no 1º Encontro de Arquivos Escolares e Museus Escolares, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), organizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da Educação (NIEPHE). ** Arquivista do Centro de Memória da Educação (FEUSP) e doutoranda em história da educação pela FEUSP, área de história e historiografia da educação, subárea de arquivos escolares. o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 155 A pesquisa atual em história da educação tem levado muitos pesquisadores para dentro de instituições de ensino com a finalidade de levantar nos arquivos escolares informações sobre, entre outros propósitos, seu funcionamento interno, as relações que estabelece com a comunidade local (quer seja com o bairro ou com a cidade) e suas relações com o estado. Objetivando encontrar informações que auxiliem no desenvolvimento de seus projetos individuais ou ainda na ausência de recursos, muitas vezes passam despercebidas para os pesquisadores questões básicas relacionadas à conservação do arquivo, sua organização e o acesso à informação. Com base na experiência acumulada no trabalho de organização de arquivos do Centro de Memória da Educação Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (CME-FEUSP) e na participação em três projetos que privilegiaram a organização de arquivos escolares, dividi este texto em três partes: a primeira discorre sobre os projetos que viabilizaram a organização dos arquivos escolares; a segunda, aprovada a organização do arquivo escolar, relaciona-se à escolha do espaço que abrigará os documentos encontrados, ou seja, a organização de Centros de Memória dentro de escolas e o acesso a eles; e a terceira, a necessidade e os cuidados em organizar arquivos históricos/permanentes dentro do Centro de Memória Escolar, atentando para as diferenças existentes entre a organização desse centro e um arquivo histórico no que diz respeito ao permanente diálogo com as áreas da informação. Os projetos Foram três os projetos desenvolvidos por docentes da FEUSP que dão subsídio à reflexão que segue: a) “Pesquisa sobre o ensino público profissionalizante no estado de São Paulo: memória institucional e as transformações histórico espaciais-regionais”; b) “Preservando a memória do ensino público paulista: a organização do Centro de Memória da Escola de Aplicação (1959-1999)”; e c) “Lugares de memória: parceria entre o CEFAM de Santo André e o CME-FEUSP”. 156 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 O primeiro projeto1, “Pesquisa sobre o ensino público profissionalizante no estado de São Paulo: memória institucional e as transformações histórico espaciais-regionais”, teve como objetivo principal realizar a guarda da documentação que se encontrava nas escolas técnicas mais antigas do estado de São Paulo. A idéia surgiu da preocupação com a documentação que havia servido de base para as pesquisas de doutoramento da professora doutora Carmen Sylvia Vidigal Moraes, que, com apoio do CME-FEUSP e do CEETPS, elaborou um projeto que foi enviado à FAPESP em 1997 e aprovado em 1998. A princípio, nove escolas foram escolhidas para participar do projeto2. Parte dos professores e alunos de cada uma das escolas foram convidados a envolver-se com as atividades propostas, que foram: fazer o levantamento da documentação, localizando-a dentro e fora da escola; participação em oficinas de conservação preventiva dos documentos (higienização e acondicionamento); e conceituação arquivística (apresentação da terminologia básica, bem como dos princípios e correntes de pensamento); avaliação; e discussão do melhor espaço dentro da escola que poderia abrigar os arquivos. A quantidade de documentação encontrada, a participação efetiva dos professores, a credibilidade do projeto junto à direção da escola e a divulgação do trabalho entre os membros da comunidade escolar e local foram fatores importantes para o desenvolvimento do projeto e o desempenho das atividades em cada escola. O projeto foi encerrado em dezembro de 2001 e teve, como produto final, a publicação de dois instrumentos de pesquisa3. 1. 2. 3. A pesquisa foi realizada com parceria do Centro Estadual de Educação Tecnológica aula Souza (CEETEPS), apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e desenvolveu-se entre 1998 e 2002. Escolas técnicas oficiais escolhidas entre as mais antigas do estado de São Paulo, duas na capital e sete no interior (Amparo, Campinas, Franca, Jacareí, duas em Santos, Sorocaba). Trata-se de um álbum de fotografias recolhidas em cada uma das escolas e um inventário sintético de fontes. Ver: Moraes e Alves (2002a, 2002b). o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 157 O segundo projeto, “Preservando a memória do ensino público paulista: a organização do Centro de Memória da Escola de Aplicação (19591999)”, sob orientação da professora doutora Diana Gonçalves Vidal, desenvolveu-se ao longo de quatro anos (2000-2003)4 com o mesmo objetivo do anterior: promover o encontro entre pesquisa e atividade pedagógica, por meio da integração dos diferentes agentes das práticas escolares na produção do conhecimento histórico, bem como a organização de um Centro de Memória Escolar. Além disso, conseguiu ampliar as discussões sobre as atividades pedagógicas para a educação fundamental e proporcionar o trabalho com alunos menores, estimulando-os à pesquisa. Em um segundo momento, o Centro de Memória da Escola de Aplicação foi aberto para estágio com alunos da pedagogia, licenciatura da FEUSP e do ensino médio, bem como estreitou laços com a equipe de funcionários da secretaria da escola em uma co-responsabilidade na organização e no acesso rápido às informações do arquivo. O projetou encerrou suas atividades em 2003 com três publicações5, contudo suas atividades seguem seu curso com apoio da equipe de funcionários, com o trabalho de bolsistas do Centro de Memória da Educação e, sobretudo, com o desenvolvimento de estágios dos alunos de cursos da licenciatura, cooperando para a continuidade da organização do arquivo. O terceiro projeto, “Lugares de memória: parceria entre o CEFAM de Santo André e o CME-FEUSP, desenvolveu-se entre agosto de 2003 e julho de 2004 e teve um começo bastante inusitado, pois se originou a partir do momento em que três professoras doCentro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (CEFAM) participaram, na qualidade de alunas especiais, do curso de introdução aos estudos da educa- 4. 5. O projeto também recebeu apoio financeiro da FAPESP, além de recursos de projetos da Pró-Reitoria de Cultura e do Fundo de Cultura e Extensão. A primeira é referente a uma agenda escolar com fotografias encontradas no arquivo e passagens da história da escola; o segundo, um manual sobre conservação preventiva (higienização e acondicionamento); e o terceiro, um CD-ROM com banco de imagens, instrumentos de trabalho e instrumentos de pesquisa. Ver: Zaia (2004) e Zaia e Moreira (2004). 158 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ção na licenciatura da FEUSP. O empenho e a satisfação do grupo por ter conseguido transpor os muros da universidade acabou despertando o interesse do CME-FEUSP no sentido de pensar uma parceria entre eles. Havia muito interesse sobre a USP, por parte dos alunos do CEFAM, Repetidas vezes essas professoras contavam, em meio às discussões no curso de licenciatura, os comentários feitos por seus alunos no CEFAM de Santo André: “Professora, como é a USP?”, “É grande lá dentro?”. Vista apenas como um local cercado próximo à margem do rio Pinheiros, a USP é tida como de pouco acesso àqueles que não tiveram condições de passar no vestibular ou que nunca haviam pensado na possibilidade de se candidatar. Tal envolvimento levou a equipe do CME-FEUSP a buscar meios de levar os alunos do terceiro e do quarto anos de magistério para conhecer a Faculdade de Educação. A alternativa encontrada foi proporcionarlhes a oportunidade de cumprir parte do seu estágio curricular obrigatório dentro de espaços de “memória” vinculados à Faculdade de Educação: o Centro de Memória e Documentação da Escola de Aplicação, o Museu da Educação e do Brinquedo, o Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos, além da biblioteca e no próprio CME-FEUSP. Foram selecionados 72 alunos, entre mais de 370 interessados, que passaram por oficinas de formação e assistiram a palestras antes de desenvolverem projetos de pesquisa em cada um dos locais. Eles documentaram as atividades educacionais realizadas, promoveram discussões de textos, entrevistas e pesquisas pela internet e apresentaram todas as informações acumuladas em uma palestra na Semana de Educação da FEUSP. Esse foi um fato inédito, visto que esse evento só contava com a participação de alunos bolsistas da graduação ou pósgraduandos. Outro resultado desse estágio foi a organização, realizada pelos próprios alunos e as três professoras, de uma exposição com documentos do arquivo do CEFAM. Essa exposição teve a finalidade de investigar as origens e a história da própria escola que seria fechada no final de 2003. o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 159 O centro de memória dentro da escola [...] não apenas as tradicionais fontes legais e estatísticas vêm sendo revisitadas, como uma parcela consistente dos investigadores da área, individual e coletivamente, tem se lançado ao desafio de ampliar a massa documental à disposição do campo, o que em alguns casos vem conduzindo à constituição de Centros de Memória e Documentação [...]. VIDAL, 2004 Na organização de um centro de memória escolar foi necessário compreender que para sua execução é preciso atentar para três questões essenciais: a) qual documentação pretende-se recolher? – procurando com isso definir o “lugar” de guarda; b) como envolver a comunidade escolar nesse trabalho? – questão definida como a “conquista”; c) quais são as atividades desse espaço? – pensando nesse momento em dois conjuntos de operações que relacionam atividades de trabalho e atividades de pesquisa e que serão mais bem explicitados na terceira parte deste texto. Pensou-se em reunir documentos de diferentes suportes, formatos e tipos documentais recolhidos no “arquivo morto”6 da escola, bem como recebidos por meio de doação (ou permuta), que foram ou são acumulados durante o desenvolvimento de projetos de pesquisa e recebidos por ex-professores, ex-funcionários e ex-alunos. Dessa maneira, pretendeuse acumular em um único espaço toda a sorte de informação relaciona- 6. Entende-se por “arquivo morto” de uma escola todos os documentos acumulados de forma aleatória em diferentes espaços da instituição. Esses documentos freqüentemente podem ser encontrados na biblioteca (quando a instituição possui uma), em quartos de depósito de materiais de limpeza, em “vãos” de escadas, dentro de caixas em “cantos” da sala de materiais utilizados em aulas de educação física, fanfarra e até mesmo em banheiros desativados. 160 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 da à instituição de ensino independentemente de sua origem7, de seu tipo8 e de seu suporte9. Se tal operação por um lado facilita o trabalho dos pesquisadores, que poderão encontrar reunidas, em um só lugar, informações valiosas para a realização de seus trabalhos, por outro, a reunião desses materiais sobrepõe atividades que são de diferentes áreas, pois a problemática não está apenas na reunião dos materiais, mas sobretudo na falta de critérios para tal atividade. Ao reunir documentos do arquivo, livros, peças do mobiliário e, em um momento posterior, organizar base de dados referenciais da documentação acumulada é fundamental ter clareza das diferenças de tratamento de cada um dos materiais recolhidos dentro da escola, atentando para as práticas específicas de cada uma das áreas envolvidas quer seja de biblioteca, museu, arquivo ou centro de documentação. Considerando o discurso dentro das preocupações em história da educação, Hilsdorf (1999), ao expor como trabalhou com a série Ofícios diversos da capital do Arquivo do Estado, relata seu empenho, desde a década de 1970, na continuidade de uma linha de investigação que tem como objetivo a localização e a utilização de novas fontes documentais para a pesquisa em história da educação. Ao citar Frostick (1993) e ao descrever as atividades de organização do projeto do Museu Vivo da Escola Primária em Portugal no artigo “A história e seus registros: o museu como registro”, Felgueiras (2000) também fala da importância de possuirmos não somente o caderno escolar, mas também a carteira onde as crianças sentavam de maneira que seja possível recuperar não só uma forma de interpretação, mas várias. Felgueiras (2000, p. 83) aponta que: 7. 8. 9. A origem da informação pode ser, como já vimos, por meio de compra, doação, permuta ou passagem natural. Esta última é entendida como resultado natural das atividades e funções da própria instituição, pois representa, de maneira geral, o que podemos encontrar no “arquivo morto” da escola. O tipo documental deverá ser entendido exatamente como é definido pelo Dicionário de Terminologia Arquivística (1996): “[...] configuração que assume uma espécie documental, de acordo com a atividade que a gerou [...]”. O suporte documental é, ainda segundo o Dicionário de Terminologia Arquivística (1996), “material sobre o qual as informações são geradas”. o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 161 [...] em exposições sobre história social da educação, Elizabeth Frostick considera-se que se pode criar um efeito de mais proximidade se se usar relatórios escolares, livros de exercícios, ao lado de outros objetos. Ler nomes, em especial, escritos em documentos familiares, aumenta a imediaticidade. Torna-os reais. Julia (2001, p. 17) e Certeau (1982, p. 43), ao discorrerem sobre as práticas do historiador, afirmam que todo e qualquer objeto serve à pesquisa histórica. De acordo com o primeiro, o “historiador faz flecha com qualquer madeira” e, para o segundo, “em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em documentos certos objetos distribuídos de outra forma”. As idéias dos autores possuem um duplo significado para o trabalho que foi desenvolvido nos arquivos escolares de nossos projetos: por um lado, servem como base para ampliação dos objetos da investigação e, portanto, corroboram com a ampliação dos usos do objeto dentro do acervo escolar, transformando tudo em documento significativo para a pesquisa em história da educação, independentemente do seu formato, tipo e suporte; por outro, de não menor importância, essas idéias instigaram-nos a pensar sobre o desenvolvimento de procedimentos avaliativos da massa documental encontrada nas escolas, pois se não se pode guardar tudo, é possível, desde que estabelecidos critérios de conservação e eliminação, manter de forma mais adequada e acessível à pesquisa aqueles documentos esquecidos nos “cantos” da instituição. Em relação à biblioteca, Belotto (1986, p. 3) diz “tratar-se de instituição responsável pela reunião por compra, doação ou permuta, de documentos múltiplos, produzidos por fontes múltiplas e resultantes de atividades, pesquisa ou criação artística, técnica ou científica, com fins culturais”. Na maioria das escolas, não encontramos bibliotecas organizadas, mas apenas “amontoados de livros” que correspondem ao que restou da biblioteca escolar. Em todos os projetos, procuramos desenvolver, com auxílio de bibliotecárias, atividades de mutirão para higienização e tombamento dos livros, organizando-os tanto fisicamente como em base de dados, possibilitando, embora de forma precária, o acesso à informação. A diferença da biblioteca para o arquivo, segundo essa mesma autora (idem, ibidem), é que nele se reúnem “documentos, por passagem natu- 162 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ral, oriundos de uma só fonte geradora, e, em geral, constituídos em exemplar único, congregados em séries ou em grupos”. Esse conjunto documental, em contexto escolar, corresponde ao arquivo morto da escola. Nesse caso, a nossa experiência dentro da escola foi mais intensa, por tratar-se da área com a qual mais dialogamos ao longo de todas atividades e que, no neste texto, ganhou espaço de discussão em sua terceira parte. Quanto ao museu, no entendimento de Felgueiras (2000, p. 83): [...] ao caráter de “registro” que o objeto e o documento escrito possuem, o museu confere-lhes uma outra significação ao expô-lo. Acrescenta-lhe uma leitura segundo determinadas concepções históricas e estéticas, organizada segundo técnicas disponíveis. Propõe uma leitura desses registros no sentido de mostrar a sua evolução e as transformações sociais, que lhe estão na origem. No contexto da escola, muitas vezes, o centro de memória não possuirá um museu na sua concepção tradicional, mas pode comportar apenas uma sala de sensibilização onde são expostas peças que foram deixadas na escola ao longo de toda a sua existência e, portanto, são portadoras de informações que, somadas aos documentos, contribuem para a constituição da memória institucional. O importante é frisar a função social e educativa do museu/sala de sensibilização em contexto escolar. Assim, a escolha da organização de um centro de memória nas escolas possibilitou a organização de coleções provenientes de pesquisa ou recolhidas por meio de doações, jamais possíveis apenas com a organização do arquivo permanente/histórico. Procurou, também, recolher peças do mobiliário da escola ou doadas por ex-alunos e ex-funcionários com a intenção, para além da problemática que envolve o alargamento do conceito de documento arquivístico, que toma como base à diversidade de suporte no qual foi gerado10. Portanto, no centro de memória escolar, atentou-se para a guarda dos documentos independentemente de suas características particulares, porém relacionados com a história institucional e respeitando os pra- 10. Sobre esse assunto, ver: Barleta (2005). o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 163 zos previstos na legislação de guarda documental. Além disso, buscou-se a reunião de todos esses materiais, “aconselhando-se” sempre, para sua organização, com as outras áreas envolvidas oferecendo para a comunidade escolar um novo espaço que favorece o desenvolvimento de atividades pedagógicas como foi o caso do projeto da Escola de Aplicação. Depois de definido o “lugar” gerenciador do conjunto documental, parte-se para a conquista, ou seja, a sensibilização da comunidade escolar para o desenvolvimento desse novo “empreendimento”. É preciso chamar a atenção da direção da escola, dos professores, dos funcionários, dos pais e alunos sobre a importância de organizar o centro de memória dentro da escola. Optamos, no CME-FEUSP, por chamar de sensibilização essa primeira etapa do processo de organização do centro de memória escolar. Nela, o grupo proponente da organização elabora a forma como pretende envolver a comunidade: ele poderá organizar exposições temporárias no pátio da escola, utilizando documentos encontrados na escola que, no cotidiano, não despertaram nenhuma curiosidade nos alunos, funcionários e professores, mas que na exposição ganharam um significado dentro da escola. Essa etapa ainda possibilita a organização de concursos entre os alunos para elaboração de logomarcas para o centro de memória, palestras para a divulgação dos objetivos e finalidades do trabalho com os documentos. Após a sensibilização, quando possível no espaço disponibilizado, espera-se que ele seja subdividido em diversos setores que simbolizem a organização das atividades, assim entendidos: sala de consulta, sala para higienização e acondicionamento, reserva técnica, arquivo intermediário, depósito temporário, arquivo permanente. A sala de consulta corresponde ao espaço destinado à pesquisa, bem como onde podem ser feitos os trabalhos de sensibilização da comunidade escolar por meio de exposições de trabalhos, workshops e atividades pedagógicas com alunos e estagiários. Presta-se, também, a exposição de peças e fotografias que, no trabalho de levantamento do acervo, forem sendo encontradas, bem como para a realização de entrevistas com ex-funcionários e ex-alunos. As atividades de higienização e acondicionamento acontecem em uma sala escolhida para elas. A necessidade de separar sala de consulta e sala de atividades técnicas para a guarda e conservação de arquivos 164 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 justifica-se por localizar no espaço os papéis que o aluno da instituição escolar pode desenvolver dentro do centro de memória da escola. Assim, de acordo com o papel desenvolvido, ele saberá a priori onde deve permanecer. Se estiver acompanhado dos colegas de sala e de um professor responsável, ele poderá ultrapassar o espaço definido para a sala de consulta, pois está ali para auxiliar no tratamento do arquivo, portanto, como auxiliar do trabalho técnico de guarda e preservação do acervo. Porém, se sozinho ou com poucos amigos, saberá que, na qualidade de pesquisador, não poderá ultrapassar o espaço da sala de consulta e deverá solicitar à pessoa responsável o documento que deseja consultar. Quanto à reserva técnica, trata-se de espaço destinado à guarda dos materiais de consumo e apoio às atividades (trinchas, borrachas, papéis de pH neutro, entre outros). Já o arquivo intermediário tem como finalidade a guarda da documentação que não prescreveu os prazos previstos pela tabela, podendo ser consultada a qualquer momento e ficando restrito à secretaria da escola, bem como ao espaço destinado ao depósito temporário e ao arquivo permanente. O primeiro, depósito temporário, sinaliza a presença de documentos que foram selecionados e destinados à eliminação, mas em decorrência do cumprimento dos prazos aguardam sua prescrição; o segundo, arquivo permanente, trata-se do espaço destinado à guarda definitiva e, portanto, só pode ser acessado por responsável pela organização ou secretaria da escola. Quanto às atividades que podem ser desenvolvidas dentro do centro de memória escolar, destacam-se o conjunto de operações que atendem à secretaria da escola – definida como atividades de trabalho; o conjunto de operações – denominadas de atividades de pesquisa; e outro conjunto de atividades que privilegiam o trabalho com os alunos e professores – denominadas de atividades pedagógicas. Quanto ao primeiro e ao segundo, veremos como foram desenvolvidos na terceira parte desse texto. Quanto às atividades pedagógicas, trata-se das atividades que foram desenvolvidas no Centro de Memória da Escola de Aplicação11. 11. Ver: Uehara (2004). o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 165 As atividades foram desenvolvidas com os mais variados grupos de alunos, de diferentes áreas e níveis (ensinos fundamental, médio e superior). Foram desenvolvidas com alunos investigações sobre os espaços escolares, desenvolvimento de acondicionamentos dos documentos, pesquisas na internet, passeios pelos espaços escolares para a análise de fotografias antigas desses espaços encontradas no arquivo. Além dessas, foram desenvolvidas atividades com estagiários dos cursos de pedagogia da FEUSP e com alunos da licenciatura de outras unidades da USP (todos os anos), com alunos do ensinos fundamental e médio da Escola de Aplicação (durante o desenvolvimento das atividades do projeto de organização do centro de memória da escola – 2000/ 2004); e com alunos do magistério do CEFAM de Santo André (projeto Lugares da Memória – 2003/2004). O arquivo histórico/permanente dentro do centro de memória escolar Sendo um universo arqueológico, o fundo de arquivo é, com raras exceções, um desafio que acena com o caótico que lhe imprimiram o tempo e o desuso em que caíram seus elementos. Assim, no sentido do desafio e da descoberta, o trabalho de arquivo, especialmente quando se trata de acervos históricos, é invariavelmente fascinante. (PAES, 2003) O fascínio do trabalho dentro do arquivo, sua atração (Farge,1991) alcança a escola. A principal escolha dentro de sua “caixa-preta” (Julia, 2001) é a massa acumulada que persistiu em não desaparecer dos corredores da escola, dos banheiros desativados, do vão embaixo das escadas, dos quartos de limpeza, enfim, de toda sorte de lugares que atrapalhassem, o menos possível, as atividades diárias de seus funcionários. São dois aspectos e dois olhares. Os aspectos sempre presentes só foram acordados por causa dos olhares que sobre eles recaíram. O primeiro aspecto diz respeito à responsabilidade atribuída à secretaria da 166 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 escola em ser a guardiã (e, portanto, responsável) por todos os papéis que estejam na secretaria ou acumulados em “cantos” da escola. É a secretária que, depois de todas as investidas dos visitantes ou dirigentes, terá que ser consultada ou comunicada de todo tipo de atividades com os documentos escolares. O segundo aspecto recai sobre o “arquivo morto”, termo comumente utilizado que, dentro da escola, se refere aos muitos espaços em que encontramos documentos acumulados: banheiros desativados, vãos embaixo de escadas, quartos de guarda de materiais de limpeza, dispensas dos refeitórios, salas desativadas próximas à lanchonete, porões, sala de materiais da fanfarra, “cantos” da biblioteca em atividade (ou desativada), entre outros. Assim, os documentos em fase corrente e fase intermediária12 mais comumente são encontrados na secretaria da escola, já a documentação em fase permanente/histórica13 será localizada no arquivo morto. Já os dois olhares14, que podemos identificar atualmente sobre a documentação dentro da escola, são frutos dos aspectos apontados anteriormente. O primeiro sempre existiu: relaciona-se ao tradicional “amontoado” de documentos em diferentes cantos do espaço escolar, que classifica o acervo como o seu “arquivo morto”, como vimos. Esse olhar ignora as questões para sua conservação e disponibilização, pois mantém na escola os amontoados de documentos apenas para fins legais. O segundo, mais atual, considera o documento, existente nesses espaços escolares, portador de informações valiosas para a pesquisa his- 12. Os termos fase corrente e fase intermediária , relacionam-se ao ciclo vital dos documentos que, segundo o Dicionário de Terminologia Arquivística (1996), se referem à sucessão de fases por que passam os documentos: desde o momento em que são criados até a sua destinação final. 13. Também se relaciona ao ciclo vital dos documentos e trata-se da terceira fase em que o documento, após avaliado, será mantido permanentemente para fins de testemunho (pesquisa). 14. Quanto aos olhares sobre o acervo escolar, refiro-me à forma como os pesquisadores, comunidade escolar e órgãos dirigentes têm entendido a massa documental acumulada no interior da instituição de ensino de acordo com as experiências vividas nos projetos apresentados na primeira parte. o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 167 tórica, entendimento que se aproxima e tenta transformar o “arquivo morto” em arquivo permanente ou histórico. Porém, na prática da pesquisa, peca ou ignora os fundamentos da ciência da informação no momento em que realiza a ordenação dos documentos para melhor satisfazer as necessidades imediatas e que são relacionadas ao assunto de sua pesquisa. Quanto ao primeiro olhar, cabe ressaltar que há uma tendência indicando para a sua superação, posto o número significativo de pesquisas que estão em desenvolvimento na área. No entanto, não se extinguirá rapidamente, visto que há ainda muito para se fazer na organização dos arquivos escolares. No entanto, a existência de muitas pesquisas em história da educação relacionadas às analises que transpõem os muros escolares, como evidencia o 1º Encontro de Arquivos Escolares e Museus Escolares, realizado na FEUSP, entre os dias 26 e 28 de julho de 2005, sob responsabilidade do Núcleo Insterdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da Educação (NIEPHE), pelo número de inscritos e de participantes, indica as preocupações dos pesquisadores com algumas questões relacionadas à guarda e ao acesso à informação. A primeira diz respeito à conservação preventiva dos documentos que soma atividades de higienização e acondicionamento do conjunto documental. No trabalho com as escolas, percebemos que se trata de uma atividade demorada, especialmente na Escola de Aplicação, por envolver crianças menores. Porém, para além de uma atividade técnica, surgiram atividades pedagógicas desenvolvidas com alunos e professores a partir de indagações de como fazer conservação preventiva com crianças15. 15. Uehara (2004) discorre sobre o trabalho de conservação preventiva com crianças: “A higienização e o acondicionamento de documentos, embora fundamentais para a preservação da memória através da conservação de documentos, não são processos que podem ser considerados simples, ao contrário, são trabalhosos e morosos. Então, como agir? Como trabalhar com alunos que, devido a sua idade, ainda não têm uma construção pronta da causalidade, do tempo ou mesmo do espaço? Como incutir em suas mentes a necessidade de um trabalho cuja importância consistia em preservar o passado visando o futuro? Mais do que isso, como sensibilizá-los para a relevância de uma atividade de caráter social, posto que os desejos infantis os colocavam sempre no caminho do prazer e da satisfação de seus egocentrismos?” 168 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Outra questão se relaciona à organização do arquivo. Superada a idéia de ordenação lógica, aquela de organizar a documentação utilizando critérios próprios relacionados aos objetivos da pesquisa individual16, o entendimento ocorrerá por meio da compreensão de que a documentação não nasceu com o objetivo de pesquisa, mas sim para atender necessidades de funções e atividades da instituição com fins administrativos e jurídicos, só se tornando histórica depois de um longo prazo. Assim, inicialmente, essa documentação atende a questões administrativas e jurídicas que, no que respeita a organização do arquivo, gera um conjunto de operações para que ela atenda sua finalidade imediata. Esse conjunto de operações recebeu o nome, nos projetos realizados nas escolas, de atividades de trabalho. Além disso, após servirem às atividades e prescritos os prazos, essa documentação tem um valor histórico, o conjunto de operações para que ela atenda da melhor forma possível o pesquisador recebeu o nome de atividades de pesquisa. As atividades de trabalho relacionam-se à confecção de planos de classificação, termos e editais de eliminação, tabelas de temporalidade, listagens de espécies e tipologias documentais, cartas de doação, entre outros. No projeto realizado na Escola de Aplicação, alguns instrumentos foram elaborados ou complementados com base no trabalho realizado pelo Sistema de Arquivos da Universidade de São Paulo (SAUSP). O primeiro deles foi o plano de classificação que, segundo Couture e Rousseau (1998, p. 146 ), é um instrumento que permite aplicar o primeiro grau do princípio da proveniência [...] e respeitar o princípio da universalidade que preconiza que o arquivista apreenda, compreenda, estruture, classifique, arrume e descreva a informação orgânica e registrada de forma global [...] antes de passar a outra fase mais detalhada que é a da aplicação do segundo grau do princípio de proveniência [...]. 16. Essa “organização” segue sempre um mesmo padrão: começa com o levantamento dos documentos do arquivo, depois avança para uma catalogação segundo sua natureza e, por fim, são ordenados cronologicamente de acordo com os temas que “supostamente” os documentos sugerem. o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 169 O princípio de proveniência de que falam os autores subdivide-se em dois aspectos. O primeiro está baseado na atividade intelectual de reconstruir uma representação histórica do funcionamento da instituição ao longo de sua existência, ou seja, da construção dos fundos17 uns em relação aos outros por meio do resgate das informações contidas em tipos documentais como atas de reuniões da diretoria e regimentos internos. Muitas vezes, as escolas, após terem organizado seus arquivos, possuem mais de um fundo. O segundo, também atividade intelectual, tem como objetivo ordenar dentro dos fundos já estabelecidos os documentos em suas unidades de instalação e séries. Trata-se de uma etapa que exige um detalhamento maior dos responsáveis pela organização. Outros dois instrumentos de trabalho, que se somam às preocupações de avaliação e organização, são: a tabela de temporalidade e o termo de eliminação. A tabela recupera as atividades-fim e meio da instituição que são organizadas intelectualmente no plano de classificação, como foi apresentado. Trata-se de “instrumento que agrupa as regras e prazos de conservação adotados por uma organização ou por um estado e que permite difundi-las, aplicá-las, administrá-las e controlá-las” (Couture & Rousseau, 1998, p. 45). Na Escola de Aplicação/FEUSP, a tabela de temporalidade foi organizada inicialmente pela comissão setorial do SAUSP designada para levantar as tipologias na escola e definir, segundo legislação estadual vigente, o prazo para cada uma. Nosso trabalho nesse arquivo incidiu, principalmente, em auxiliar nessas duas atividades. O termo de eliminação é constituído por um “conjunto de informações obrigatórias que acompanham os documentos a serem eliminados, legitimando sua destruição” (Belloto & Camargo, 1996, p. 73). Segundo Bernardes (1998), é elaborado no momento da avaliação dos documentos gerados e encontrados no arquivo cujas técnicas de 17. Segundo o Dicionário de Terminologia Arquivística (1996), “Fundo: unidade constituída pelo conjunto de documentos acumulados por uma entidade que, no arquivo permanente, passa a conviver com arquivos de outras”. 170 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 seleção devem considerar não somente o conteúdo da informação, mas também sua natureza e forma. Para além do valor de prova sobre a avaliação realizada no arquivo, esse documento também serve à pesquisa, pois nele são recuperadas informações sobre o que uma sociedade, segundo suas leis num dado período, preferiu conservar e o que ela entendeu que poderia ser eliminado. Quanto aos instrumentos de pesquisa que podem ser elaborados, destaca-se, para o trabalho junto ao acervo escolar, a elaboração dos mais simples (guias e inventários) para os mais complexos (catálogos e normas de consulta). Na Escola de Aplicação, foram produzidos inventários e catálogos a partir do arquivo. As informações que compõem o inventário se relacionam a sua espécie e ao seu suporte, até informações mais específicas como: nome dos professores, diretores, finalidade, quando a tipologia deixa de existir, o motivo que levou ao seu desaparecimento, entre outros. Foi organizado, também, um catálogo de correspondências do primeiro período da Escola de Aplicação (1958-1972)18. O terceiro questionamento relaciona-se à disponibilização das informações existentes na documentação consultada. Na ausência de critérios internos das escolas e de leis específicas para o acesso aos documentos, buscamos nas escolas onde desenvolvemos atividades a adoção de informações contidas no decreto n. 2.910, de 29 de dezembro de 1998. Esse documento estabelece normas para a salvaguarda de documentos de natureza sigilosa que assegura os direitos de privacidade de instituições e pessoas envolvidas. No caso das escolas, tal medida se aplica apenas aos processos (prontuários) de alunos e professores e fichas de acompanhamento de alunos produzidas por coordenação pedagógica ou psicólogos. O decreto declara que todo documento de caráter sigiloso só poderá ser consultado pelo público com identificação, para fins de concessão de credencial, das pessoas interessadas, com ciência do responsável imediato. Na au- 18. Para maiores informações sobre o trabalho desenvolvido com as correspondências da Escola de Aplicação, ver: Silveira (2004). o lugar do arquivo permanente dentro de um centro de memória escolar 171 sência do titular, o poder é transferido para algum membro da família, representado por procuração lavrada em cartório. Considerações finais Finalmente, a discussão anterior procurou expor experiências que resultaram do tratamento dos documentos de arquivos de escolas públicas de São Paulo no que se relaciona ao recolhimento sistemático de todo tipo de material dentro da escola que possa servir para as investigações; a organização do arquivo histórico escolar; e, por fim, o cuidado no acesso dessa informação. No primeiro caso, ressaltar a importância da organização de centro de memória dentro da escola. Ele pode possuir o arquivo permanente/ histórico da instituição de ensino por se tratar de significativo conjunto documental para a pesquisa institucional. A partir das preocupações com esse arquivo, a maioria das pesquisas realizadas ou em realização dentro das escolas públicas demonstra que surgiu a necessidade de recolhêlo e nasceu, assim, a idéia de organizar um centro de memória escolar capaz de contemplar não somente os documentos administrativos e legais, mas também peças, quadros, mapas, cadernos de alunos e outros tipos documentais. Pretendeu-se, com base na prática do historiador da educação atual preocupado com a localização e utilização de novas fontes documentais para a pesquisa historiográfica em educação, reafirmar a necessidade do diálogo constante com a museologia, arquivologia, biblioteconomia, buscando procedimentos básicos relacionados à conservação, organização e divulgação do arquivo escolar. E finalmente, quanto à organização do arquivo permanente/histórico, reiterar que é preciso buscar, constantemente, informações sobre os cuidados com a divulgação de informações encontradas nos documentos, prestando atenção aos prazos de prescrição dos documentos previstos em lei, na divulgação de nomes que evidencie situações que relacionam pessoas e possam gerar constrangimento, a exposição de fatos escolares recentes sem a permissão da direção da escola, entre outros. 172 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Referências Bibliográficas BARLETA, J. M. Materiais escolares: o lugar dos objetos no arquivo. Dissertação (Mestrado) – Faculade de Educação, Universidade de São Paulo, 2005. BELLOTO, Heloisa L.; CAMARGO, Ana Maria de. Dicionário de terminologia arquivistíca. São Paulo: Associação dos Arquivistas Brasileiros.: Núcleo Regional de São Paulo, 1996. CATANI, D. B.; SOUSA, C. P. 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A confecção de bases de dados, incluindo documentos escolares e arquivos pessoais de professores, em CD-ROM, deve ser considerada como tema de discussão, sobretudo em tempos em que novas práticas do fazer do historiador são estabelecidas, especialmente, com o uso de fontes digitalizadas. ARQUIVOS ESCOLARES; ARQUIVOS PESSOAIS; HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA; MATEMÁTICA ESCOLAR * Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Católica de Santos (UNISantos) School archives virtues considerations about a practice of research Wagner Rodrigues Valente* Abstract: This text aims to analyze the usage of private and school archives, departing from the investigation practices that have been applied by History of the Brazilian Mathematical Education Research Group (GHEMAT). The creation of database of school documents, teachers’ private archives, in CD-ROM, might be considered as a subject to be discussed right now, since new procedures have been established the change of historians’ procedures, especially with the usage of digital sources. SCHOOL ARCHIVES; PRIVATE ARCHIVES; HISTORY OF MATHEMATICS EDUCATION; SCHOOL MATHEMATICS. * Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Católica de Santos (UNISantos) arquivos escolares virtuais 177 Preliminares A organização e disponibilização de fontes de pesquisa contidas em arquivos escolares e arquivos pessoais de professores tem grande possibilidade de ser realizada como parte constituinte de projetos de pesquisa. Reunir pesquisadores de vários níveis acadêmicos, no âmbito de um projeto maior, constitui um desafio e, ao mesmo tempo, condição importante para a investigação histórica na elaboração de bancos de dados a serem utilizados por inúmeros projetos integrados. Essa forma de trabalho busca romper com práticas de pesquisa individuais que, após utilizarem materiais e documentos, selecionados cuidadosamente, para dar sustentação empírica às teses, dissertações e monografias, abandonam essas fontes à sua própria sorte, dificultando sobremaneira o seu uso por outros pesquisadores. Desse modo, a todo tempo, torna-se necessário refazer o trajeto que pode levar a tais materiais. Porém, nem sempre é possível encontrá-los uma vez mais nas mesmas condições de utilização, tampouco nos mesmo lugares. Explica-se: processos de deterioração, mudanças físicas de locais de guarda, por exemplo, apagam, às vezes por completo, o caminho de acesso aos documentos. Este texto – quase um relato de pesquisa – intenta problematizar o uso de arquivos escolares e pessoais, a partir das práticas de investigação que vêm sendo realizadas pelo Grupo de Pesquisa de História da Educação Matemática no Brasil (GHEMAT), vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Sobre arquivos escolares No texto “Cultura e práticas escolares: uma reflexão sobre documentos e arquivos escolares” (VIDAL, 2004), a historiadora da educação Diana Vidal percorre sinteticamente a trajetória teórico-metodológica que leva os estudos históricos sobre educação a considerar, contemporaneamente, o papel dos arquivos escolares. Vidal ressalta, de início, que: 178 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 [...] a investigação histórica em educação no Brasil, especialmente a partir dos anos 1990, vem se interrogando acerca da propriedade em conceber escola como produtora de uma cultura própria e original, constituída e constituinte, também, da cultura social [2004, p. 1]. Isso posto, a autora destaca que a partir daí emergem temas para investigação tais como “a constituição do currículo, a formação das disciplinas escolares, o cotidiano institucional, o exercício diário de professores e professoras, alunos e alunas, a materialidade da escola e os recursos metodológicos” (idem, p. 2). Considerando essas temáticas de pesquisa, tornam-se necessários, para o trabalho historiográfico, dois tipos de investimentos: um deles, o de balizamento teórico; o outro, se endereça a localizar, sistematizar, organizar, socializar e problematizar as fontes para a pesquisa em história da educação. Assim, não apenas as tradicionais fontes legais e estatísticas vêm sendo revisitadas, como uma parcela consistente dos investigadores da área, individual e coletivamente, tem se lançado ao desafio de ampliar a massa documental à disposição do campo, o que em alguns casos vem conduzindo à constituição de Centros de Memória e Documentação; e de se inserir no debate epistemológico que tal ampliação envolve. Nesse percurso, os arquivos escolares têm chamado cada vez mais a atenção dos historiadores da educação brasileira e se constituído em tema de discussão [idem, p. 2]. O GHEMAT constitui um grupo que vem trabalhando na perspectiva apontada por Vidal. Fundado no ano de 2000, o grupo tem dado ênfase, em grande medida, em seus projetos, ao trabalho de construir fontes de pesquisa considerando os arquivos escolares, os arquivos pessoais de professores de matemática e a produção didático-pedagógica ligada ao ensino dessa disciplina. A construção de bases de dados para a pesquisa histórica do ensino de matemática, saliente-se, vem sendo realizada pelo GHEMAT a partir de projetos de pesquisa. Esses projetos incluem subprojetos de pósdoutoramento, doutoramento, mestrados e iniciação científica. Todos arquivos escolares virtuais 179 eles se orientam pela necessidade do estudo de práticas do ensino de matemática ocorridas em cotidianos escolares passados. São sempre os objetivos dos projetos, é bom frisar uma vez mais, que orientam a montagem, organização e disponibilização dos documentos escolares para a pesquisa. Em termos de arquivos escolares, foram já construídas algumas bases para a pesquisa. Elas incluem provas e exames, livros didáticos e documentação escolar. A base de dados Os exames de admissão ao ginásio, 1931-1969 Em meio aos documentos que compõem os arquivos das escolas, em geral, somente aqueles mais recentes apresentam-se organizados. Papéis antigos, documentação de várias décadas já passadas, nem mesmo lugar para guarda, muitas vezes, têm. Como diz Ribeiro (1992, p. 54), apenas os prontuários dos alunos, por constituírem documentação probatória, representam exceção. As escolas têm necessidade e obrigação de manter o conjunto das pastas de documentos de cada aluno atual e de outros tempos organizado, em ordem alfabética e pronto para ser consultado. No interior dos dossiês de cada aluno é possível encontrar exames e provas, sempre que esses papéis pedagógicos tenham ganho status de documentos probatórios. Os exames de admissão constituem exemplo disso. Há também provas parciais e exames em dossiês de alunos que, por exemplo, foram transferidos de estabelecimento de ensino; em muito menor quantidade há, ainda, documentos que envolvem alguma querela sobre notas e avaliações, o que obrigou a guarda de exames e provas com o fim de constituição de processo administrativo. Assim, aqui e ali, contando com acasos e circunstâncias que resultaram na preservação de exames e provas, é possível compor conjuntos desses documentos para fins de estudo da cultura escolar. O que podem informar os exames e provas? Como tomá-las como fontes de estudo para história da cultura escolar? Os exames e provas escolares são documentos valiosos para, por exemplo, estudo da apropriação realizada pelo cotidiano escolar das reformas 180 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 educacionais. Essa documentação cria a possibilidade, dentre tantas outras coisas, de análise dos conteúdos selecionados pelos professores como mais significativos de seu trabalho pedagógico com os alunos; os exames e provas podem revelar também a concepção de avaliação dominante num determinado contexto histórico; podem ainda, através da análise dos enunciados dos exercícios e questões, possibilitar a leitura que o cotidiano escolar realiza de uma determinada época histórica; de parte dos alunos, as provas são instrumentos importantes para análise de processos de resolução de exercícios e questões de um determinado conteúdo escolar, além de possibilitar, através de inventário das notas obtidas pelos alunos, o estudo do desempenho dos alunos de diferentes épocas escolares, numa dada disciplina. Em realidade, os exames e provas concentram sobre a forma de exercícios e questões todos os objetivos explícitos do processo de ensino-aprendizagem de uma determinada disciplina. Ou dizendo como Chervel (1990), as provas poderão permitir uma leitura das finalidades reais do processo pedagógico, a partir das finalidades de objetivo. Em particular, o exame de admissão constituiu por décadas a linha divisória entre o ensino primário e a escola secundária; funcionou como um verdadeiro rito de passagem no processo de seleção à continuidade dos estudos, representada pelo ingresso no ginásio acadêmico, que teve procura intensificada a partir dos anos 1930. Os Exames de admissão ao ginásio, 1931-1969 constituem um conjunto de três CD-ROMs que abriga cerca de três mil provas digitalizadas de matemática e português, dos exames de admissão realizados no mais antigo ginásio público da capital de São Paulo1. O material foi concebido no interior do projeto de pesquisa “Uma história da educação matemática no Brasil, 1920-1960”2 que teve apoio da Fundação de Amparo À Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). 1. 2. O primeiro ginásio público em São Paulo, o Ginásio do Estado da Capital, inicia suas aulas no dia 19 de dezembro de 1894. Ao longo de sua história, vários nomes teve o estabelecimento: Gymnasio de São Paulo, Colégio de São Paulo, Colégio Estadual Franklin Delano Roosevelt, Colégio Estadual Presidente Roosevelt, Colégio Estadual de São Paulo, Escola Estadual de 2º Grau de São Paulo. Atualmente denomina-se Escola Estadual de São Paulo (Nadai, 1989). A utilização dessa base de dados foi feita por Rita de Cássia Gomes Machado, em sua dissertação de mestrado intitulada Uma análise dos exames de admissão ao arquivos escolares virtuais 181 A matemática do ginásio – livros didáticos para as reformas Campos e Capanema Com a criação da Comissão Internacional para o Ensino de Matemática, em Roma, no ano de 1908, iniciaram-se as discussões internacionais de modernização do ensino de matemática. Elas começaram a ter impacto no Brasil, mais incisivamente, a partir do final dos anos 1920. O palco principal das discussões a respeito da modificação do ensino de aritmética, de álgebra e de geometria é o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Pela iniciativa do então diretor do estabelecimento, professor Euclides Roxo, é analisada e aprovada pela congregação da escola, a proposta de fusão dos ramos matemáticos, que constituíam até então, vale lembrar, disciplinas autônomas, numa única disciplina denominada “matemática”. Assim, a partir de 1929, lecionada no Colégio Pedro II, ficou caracterizada uma nova disciplina escolar, colocada na grade curricular da instituição-modelo para o ensino secundário do país: a matemática. Nesse mesmo ano, Euclides Roxo lançou o primeiro livro didático de seu Curso de mathematica elementar”. O livro continha a proposta didático-pedagógica de fusão da aritmética com a álgebra e a geometria que, de acordo com a interpretação do autor, expressou o ideário internacional de modernização do ensino de matemática. Esse momento histórico é estudado no texto organizado por Valente (2004). Dentre outras coisas, procurou-se mostrar, ao analisar o livro didático de Roxo, como o autor elaborou uma proposta completamente inovadora para o ensino da aritmética, da álgebra e da geometria. Roxo apresentou esses ramos matemáticos fundidos no Curso de mathematica elementar. O livro deveria, assim, constituir referência para a disciplina recém criada a ser ensinada nos primeiros anos do ensino secundário. Com a revolução conduzida por Getúlio Vargas, criou-se o primeiro secundário (1930-1970): subsídios para a história da educação matemática. Da base também fez uso, para trabalho de iniciação científica, a aluna Danila Farias Brito Ribeiro, no texto Uma análise do desempenho dos alunos na prova de matemática do exame de admissão ao secundário, 1930-1970. Esses trabalhos estão disponíveis no endereço: <www.pucsp.br/edmat/ghemat>. 182 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Ministério da Educação e Saúde Pública que, através do ministro Francisco Campos, convocou Euclides Roxo para estruturar o ensino da matemática em nível nacional no secundário. Roxo aproveitou a experiência desenvolvida no Colégio Pedro II e fez constar da primeira reforma nacional do ensino, que ficou conhecida como “Reforma Francisco Campos”, o ensino de matemática para todas as cinco primeiras séries do curso fundamental. Dividido em fundamental e complementar, o ensino secundário extinguirá, a partir da reforma, as antigas disciplinas autônomas aritmética, algebra e geometria. A Reforma Francisco Campos ensejou a publicação de inúmeros livros didáticos para atender à criação da nova disciplina matemática. O primeiro deles, referência para a própria elaboração da reforma, foi o de Euclides Roxo, publicado em 1929. Professores-autores de livros didáticos de matemática publicaram suas obras para todas as séries do curso fundamental de cinco anos. Surgiram, desse modo, as coleções em cinco volumes. Autores do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, dentre outros estados, lançaram coleções, cursos de matemática, compostos para atenderem série a série, de acordo com a Reforma, o ensino de matemática. O Curso de mathematica elementar, de Euclides Roxo, referenciou o nascimento da disciplina matemática. Com a reforma nacional do ensino, em 1931, a publicação de vários cursos de matemática irá atestar como se desenvolveu a disciplina a partir da proposta inicial, como ela se transformou e se estabilizou, até a chegada de uma nova revolução no ensino desse saber com o Movimento da Matemática Moderna (MMM). O período entre 1930-1960 compreendeu duas grandes reformas nacionais do ensino brasileiro: as conhecidas como Reforma Francisco Campos e Reforma Gustavo Capanema. Esta, a exemplo da primeira, leva o nome do ministro que sucedeu Campos, a partir de 1934, no Ministério da Educação e Saúde Pública. A partir de cada uma dessas reformas são publicadas levas de livros didáticos, com o fim de atender às suas determinações didático-pedagógicas. Depois de Roxo, Jacomo Stávale, Cecil Thiré, Mello e Souza, Agricola Bethlem, Algacyr Maeder e tantos outros publicaram livros didáticos de matemática, todos explicitamente mencionando estarem em consonância com a Reforma Francisco Campos. Esses mesmos autores e outros mais rescreverão suas arquivos escolares virtuais 183 obras didáticas a partir de 1942, com a vigência da Reforma Gustavo Capanema. Em 30 de junho de 1931, nos termos do decreto 19.890 de 18 de abril do mesmo ano, ficaram estabelecidos os conteúdos e a metodologia que deveriam parametrizar o ensino da nova disciplina criada com a fusão da aritmética, da algebra e da geometria. Dentre os livros didáticos de matemática, considerados verdadeiros best-sellers, pela quantidade de exemplares que venderam, estão as obras de Cecil Thiré e Mello e Souza, Jacomo Stávale, Algacyr Maeder, Agricola Bethlem, para citar alguns dos mais importantes. Todos eles publicaram livros com a entrada em vigor da Reforma Francisco Campos. A base de dados, em CD-ROM, A matemática do ginásio – livros didáticos para as reformas Campos e Capanema apresenta uma digitalização parcial das obras didáticas de matemática, que tiveram inúmeras edições após a Reforma Campos e Capanema. Além disso, apresenta uma análise desses livros com o intuito de permitir verificar como ficou configurada, no período, a nova disciplina que teve origem na proposta de Euclides Roxo. Como analisar essas obras, tendo em vista que foram elaboradas a partir da interpretação de seus próprios autores, das recomendações da reforma? Uma primeira análise diz respeito aos conteúdos. Em que medida os livros atenderam à reforma em termos do conjunto de saberes que seriam ensinados na nova disciplina? Tal questão não apresenta maiores dificuldades, já que uma comparação simples entre o texto legislativo e o índice dos livros didáticos pode responder à pergunta. Problema bem mais complexo diz respeito à análise metodológica. A Reforma Francisco Campos, de modo pioneiro, introduziu a nova disciplina matemática em âmbito nacional, com seus conteúdos e indicou, além disso, o modo segundo o qual esses conteúdos deveriam ser tratados didaticamente. Através de suas “Instruções Metodológicas” a reforma deixou claro que a proposta não se resumia apenas a um reordenamento de conteúdos de ensino. Tratava-se, também, de indicar uma mudança radical em termos didático-metodológicos. Assim, ficou posta a questão de como abordar a metodologia dos livros didáticos de matemática criados para atender à Reforma Francisco Campos. Uma análise das “Instruções metodológicas” revelou que as recomendações didáticopedagógicas estavam alicerçadas em quatro grandes categorias: 184 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 • a introdução do conceito de função, desde a primeira série do curso fundamental, e o seu desenvolvimento como conceito unificador dos ramos matemáticos (aritmética, álgebra e geometria); • um curso de geometria intuitiva que progressiva e articuladamente à aritmética e à álgebra caminharia para a geometria lógico-dedutiva; • o uso do método heurístico para a introdução e desenvolvimento dos conteúdos de ensino; • a utilização de questões práticas, definidas nas “Instruções” como “[...] as aplicações no domínio das ciências físicas e naturais, bem como no campo da técnica, preferindo-se exemplos e problemas que interessem às cogitações dos alunos”. Assim, a análise dos livros didáticos de matemática, escritos para atender às recomendações da Reforma Francisco Campos apresentada, buscou, prioritariamente, verificar em que medida os autores desenvolveram as suas obras levando em conta essas quatro categorias relativas ao método de exposição dos conteúdos de ensino matemático. Se a Reforma Francisco Campos expressou quais deveriam ser os conteúdos e a metodologia a ser empregada para a condução da nova disciplina matemática, a Reforma Gustavo Capanema apenas elencou os conteúdos da disciplina que deveriam ser ensinados nas diferentes séries do ensino secundário. Com ela, disciplina ganhou novas feições. A análise das coleções evidencia que a apropriação que os autores fizeram da nova reforma traduziu-se pela manutenção em separado dos ensinos de aritmética, álgebra e geometria, mesmo sob o manto de uma única disciplina chamada matemática. Os autores de livros didáticos de matemática, que com a Reforma Francisco Campos foram desafiados a escreverem propostas integradas do ensino dos três ramos matemáticos, com a Reforma Gustavo Capanema tiveram que reorganizar suas coleções. Entre as coleções analisadas para a Reforma Francisco Campos, perduram para a Reforma Gustavo Capanema as obras de Cecil Thiré, Mello e Souza e Euclides Roxo, Jacomo Stávale e Algacyr Maeder. Como a Reforma Gustavo Capanema não trazia orientações metodológicas para o ensino de matemática, a análise dos livros didáticos produzidos em acordo com essa arquivos escolares virtuais 185 reforma optou por verificar os conteúdos abordados em cada coleção e por tecer comparações entre essas obras e aquelas escritas para a Reforma Francisco Campos. Como se teria modificado a matemática escolar nos anos 1940 pela ótica dos livros didáticos? O uso dos livros didáticos como fontes de pesquisa para escrita da história da disciplina matemática no Brasil deve levar em conta que uma disciplina nasce, se desenvolve, se estabiliza, se transforma e pode até vir a morrer. A matemática no Brasil, enquanto disciplina escolar, nasceu no Colégio Pedro II e referenciou-se ao nascer, na obra do professor Euclides Roxo. No entanto, a transformação e estabilização da disciplina ocorreram nas décadas seguintes. Os anos de 1930 a 1950 marcaram o desenvolvimento da matemática escolar e sua estabilização até a chegada, em nível internacional, da matemática moderna. A disciplina matemática nessa época esteve, em enorme medida, marcada pelas determinações das reformas nacionais. O estudo dos livros didáticos, campeões de vendagem no período, representa a possibilidade de verificar como os autores e o meio escolar se apropriaram das orientações normativas da legislação para a condução da disciplina. Muito diferentes, em suas determinações, no que tange ao ensino de matemática, as duas reformas parametrizaram a publicação de inúmeras coleções didáticas que se espalharam pelo Brasil, num período de enorme crescimento desse segmento editorial. Como essas obras interpretaram nos anos 1930 a Reforma de Francisco Campos? Como os autores modificaram seus textos para darem conta das determinações da Reforma Gustavo Capanema nos anos de 1940? Como se desenvolveu e ficou estabilizada a disciplina matemática no período? O material dessa base de dados tem a intenção de fornecer subsídios para responder a tais 3. A base de dados A matemática do ginásio – livros para as reformas Campos e Capanema, produzida no âmbito do Projeto “Uma história da educação matemática no Brasil, 1920-1960” foi utilizada para elaboração das dissertações de Ciro Braga, O processo inicial de disciplinarização de função na matemática do ensino secundário; de Inara Martins Passos Pires, Livros didáticos e a matemática do ginásio: um estudo da vulgata para a Reforma Francisco Campos e de Walter Fernandes Sório, Um estudo do “Curso de mathematica elemenar” de Euclides Roxo: contribuição para a história da educação matemática no Brasil. Todos esses trabalhos estão disponíveis no endereço: <www.pucsp.br/edmat/ghemat>. 186 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 questões3. Sobre a elaboração da Coletânea de Documentos Virtuais do Arquivo Escolar do Colégio Pedro II O projeto de pesquisa “Estudos históricos sobre a educação matemática no Brasil”, 1950-2000, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) privilegia, em seu desenvolvimento, o trato com arquivos escolares e pessoais. Do mesmo modo que em projetos de pesquisa anteriores, desenvolvidos pelo GHEMAT, parte substancial do trabalho nesse projeto organiza-se a partir de um inventário e construção de bases de dados documentais digitalizados. Um inventário preliminar feito no arquivo escolar do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, mostrou a existência de grande quantidade de documentos importantes para estudo da trajetória histórica de profissionalização do professor de matemática, no Brasil. Provas, exames de concursos à cátedra de matemática e de desenho, atas e documentos registrando os debates sobre a educação matemática constituíram, de início, o ponto central de atenção. No entanto, à medida em que o projeto foi sendo desenvolvido, constatou-se a necessidade de alargar a base de dados a ser digitalizada. A consulta ao arquivo mostrou que, para além da documentação relativa à educação matemática no colégio padrão do ensino secundário, um outro enorme conjunto de papéis poderia ser adicionado à base, contendo elementos importantíssimos para a história de educação brasileira. Assim se explica que, o que originalmente seria uma coletânea de documentos sobre educação matemática, acabou por transformar-se numa coletânea de documentos para a história da educação. A coletânea reúne elementos ímpares para a história da educação brasileira e, também, especificamente, para a história da educação matemática. Há, por exemplo, toda uma documentação a respeito de con- 4. Esse material referenciou a pesquisa de mestrado de Rosemeiry de Castro Prado intitulada Do engenheiro ao licenciado: os concursos à cátedra do Colégio Pedro arquivos escolares virtuais 187 cursos para a cátedra de matemática do Colégio Pedro II, em dois momentos históricos importantes: o primeiro, antes da existência das faculdades de filosofia; o segundo, após anos de seu funcionamento na formação de professores de matemática4. Vale destacar, ainda, a digitalização de um conjunto grande de atas da congregação do Colégio Pedro II, que reúne material para estudos de diferentes temas presentes no cotidiano da escola-modelo para o ensino secundário brasileiro5. Sobre o uso de documentos virtuais na prática da história A disponibilização de bases de dados em CD-ROM, ou pela internet, coloca em tela questões para a prática da pesquisa histórica, que lança mão de documentação digitalizada. São os problemas relativos à preservação do patrimônio documental, e sua progressiva deterioração que vêm motivando iniciativas em todo o mundo de elaboração de bibliotecas e acervos virtuais. Desse modo, historiadores vão defrontando-se, mais e mais, com o uso de referências documentais digitalizadas em sua prática intelectual. Além disso é, de fato, muito cômodo e prático poder rapidamente, ter à mão, documentos originalmente de difícil acesso e, muitas vezes, raros que demandariam tempo enorme para serem consultados. Incluase, ainda, a economia com gastos financeiros a serem empenhados na busca de um material, de um documento, ou de uma série deles. 5. 6. II e as modificações do saber do professor de matemática do ensino secundário. O trabalho constitui um dos produtos parciais do projeto “Estudos históricos sobre educação matemática no Brasil, 1950-2000”, financiado pelo CNPq. Como os demais trabalhos, a dissertação pode ser consultada na página: <www.pucsp.br/edmat/ghemat>. Esses documentos foram utilizados por Jane Cardote Tavares, em sua dissertação de mestrado, defendida na PUC-SP, com título A congregação do Colégio Pedro II e os debates sobre o ensino de matemática. Utilizamos o livro através de sua tradução do italiano para o francês, em 2002, feita por Nadia Mansouri, publicado pela Presses Universitaires de France (PUF-Paris). 188 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Não obstante toda a facilidade de trabalho com documentos virtuais, surgem problemas para a prática historiográfica. Rolando Minuti, no livro Internet et le métier d’historien6 chama-nos a atenção para dois deles: O primeiro problema metodológico fundamental que se coloca face a um documento digitalizado que se quer utilizar como fonte é sua ausência material, sua natureza de objeto virtual [2002, p. 69]. A partir dessa afirmação, o autor pondera que o trabalho do historiador ao manejar suas fontes exige que elas sejam identificáveis, estáveis e inalteradas e, assim, sejam suscetíveis de serem analisadas, criticadas e interpretadas (idem, p. 71). Desse modo, as fontes do trabalho histórico não devem sofrer alterações e, quando isso acontece, deve haver certificações precisamente registradas. Minuti objeta que a natureza do documento digitalizado é diferente daquela cujo suporte é o papel, por exemplo. Segundo esse autor, o documento digitalizado é, em sua essência, plástico. Ele está sujeito a mudanças e alterações que podem não deixar traços identificáveis (idem, p. 72). Relativamente a esse tema, a pesquisadora Rosely Curi Rondinelli aponta vários estudos recentes que vêm abordando as questões que dizem respeito aos “conceitos de fidedignidade e de autenticidade do documento eletrônico arquivístico” (2005, p. 64). Um outro problema que se apresenta ao historiador, quando trabalha com materiais digitalizados – que estamos chamando simplesmente de virtuais – , está relacionado à mediação mecânica e eletrônica para o uso do documento (Minuti, 2002, p. 73). Explica-se: com o passar do tempo, crescem as dificuldades de acesso a documentos digitalizados através de sistemas operacionais que vão sendo substituídos por novas versões e novos aparatos tecnológicos. Pode-se concluir, dessa forma, que o documento digitalizado é muito mais frágil relativamente àqueles em papel, que até hoje é possível encontrar, com cerca de quinhentos anos (idem, p. 74). arquivos escolares virtuais 189 Ao que tudo indica, vive-se uma transição, um momento em que está por ser normatizada e estabilizada uma nova etapa de trabalho para o historiador, em meio ao mundo das fontes digitalizadas. Essa nova etapa precisa ser capaz de dar respostas a questões sintetizadas por Minuti, tais como: • como tornar estável um material que, por sua natureza virtual, tende à variabilidade e mobilidade? • qual o melhor meio para conversão do patrimônio documental em bases digitalizadas? A construção de arquivos e bibliotecas virtuais tem sido realizada, segundo Rolando Minuti, por intermédio de iniciativas individuais “às vezes excelentes, às vezes discutíveis”; e de iniciativas institucionais, que têm crescido enormemente. Considerações finais As investigações realizadas pelo GHEMAT incluem, como uma de suas etapas fundamentais, a construção de bases de dados com documentação virtual. Todos os papéis digitalizados estão sempre integrados em CD-ROM por mecanismos de busca que viabilizam o seu uso por outros pesquisadores com temáticas e problemas de pesquisa que podem ser completamente diversos daqueles que originalmente conduziram a digitalização. É comum, como já se enfatizou, que as pesquisas de mestrado, doutorado, e mesmo de iniciação científica, depois de se acercarem de fontes documentais, que consumiram boa parte do tempo da investigação para serem encontradas, não deixem disponíveis esses materirais para outros investigadores. Eles acabam servindo para a produção do trabalho acadêmico individual, obrigando outros pesquisadores a refazerem o percurso utilizado para o encontro e organização desses materiais. Somem-se os muitos casos em que o ato de refazer o périplo para encontro dos documentos fracassa quando o que estava disponível num arquivo morto, por exemplo, deixou de existir por ter sido, com o tem- 190 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 po, descartado ou mesmo deteriorado. Infelizmente, a organização e disponibilização de bases digitalizadas de documentos não tem status de produção acadêmica, isto é, não confere grau de mestrado, por exemplo. Esse é um elemento que, também, não estimula procedimentos como o de organização dos dados para uso de outrem. Assim, as fontes descartadas depois do uso, com o dispêndio de grande quantidade de horas de trabalho para terem sido encontradas e organizadas, são perdidas ou deixadas à própria sorte, no lugar onde foram encontradas originalmente. E, muitas vezes, esses lugares não reúnem qualquer condição para a preservação documental. Alargar a noção de documento arquivístico em educação, como quer Vidal (2004, p. 11) é condição fundamental para a preservação dos objetos culturais produzidos pela escola e que poderão transformar-se em fontes de pesquisa da história da educação. Isso inclui, parece-nos, realizar ações pelos grupos interessados na produção histórica da educação que visem a constituição de bases de dados virtuais no seio mesmo da própria pesquisa,. A prática de pesquisa do GHEMAT reúne vários pesquisadores em torno de projetos mais amplos, colocando como fase fundamental para o trabalho do grupo a atividade de coleta, organização, sistematização e digitalização de fontes documentais que servem a todos os trabalhos ligados aos projetos. Esse trabalho, inclui, ainda, a disponibilização das bases de dados a todos aqueles investigadores interessados nas pesquisas sobre história da educação. Referências bibliográficas CHERVEL, A. História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria e Educação, n. 2, Porto Alegre, 1990. MINUTI, R. Internet et le métier d’historien. Paris: PUF, 2002. Nadai, E. O ginásio do estado em São Paulo: uma preocupação republicana (1889-1896). 160f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1987. arquivos escolares virtuais 191 RIBEIRO, M. V. T. Os arquivos das escolas. In: NUNES, C. (coord.). Guia preliminar de fontes para a história da educação brasileira. Brasília: INEP, 1992. p. 4764. RONDINELLI, R. C. Gerenciamento arquivístico de documentos eletrônicos. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005. VALENTE, W. R. (org.). O nascimento da matemática do ginásio. São Paulo: Annablume/FAPESP, 2004. VIDAL, D. G. Cultura e prática escolares: uma reflexão sobre documentos e arquivos escolares. Escola de Aplicação: o arquivo da escola e a memória escolar. CD-ROM, FEUSP/FAPESP, 2004. Endereço para correspondência Wagner Rodrigues Valente Rua Oswaldo Cruz, 429 Apto. 95 Santos-SP CEP: 11045-101 [email protected] Recebido em: 1 set. 2005 Aprovado em: 10 dez. 2005 Os arquivos escolares como fonte para a história da educação Nailda Marinho da Costa Bonato* Resumo: O texto trata do uso e do potencial dos arquivos escolares como fonte para a pesquisa na área de história da educação. Reflete sobre a necessidade de preservação desses acervos, o que deve ser preservado, o conceito de arquivos escolares e a legislação pertinente a sua guarda. Aponta algumas ações que vêm sendo desenvolvidas pelos pesquisadores dessa área do conhecimento visando esse tipo de arquivo, tendo em vista o diálogo necessário com a história, a arquivologia e a informática. ARQUIVOS ESCOLARES; HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO; LEGISLAÇÃO; PRESERVAÇÃO. * Professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutora em Educação na área de História, Filosofia e Educação pela UNICAMP. The school archives as a source for the history of the education Nailda Marinho da Costa Bonato* Abstract: The text relates the use and the potential of the school archives as source for the research in the area of the history of the education. It reflects on the necessity of the preservation of these collections, which must be preserved, the concept of the school archives and the legislation pertinent to their guard. It points some actions that have been developed by the researchers of this area of the knowledge who are aimed at this type of archive, keeping the necessary dialogue with the history, the archivistic and the computer science in mind. SCHOOL ARCHIVES; HISTORY OF THE EDUCATION; LEGISLATION; PRESERVATION. * Professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Doutora em Educação na área de História, Filosofia e Educação pela UNICAMP. os arquivos escolares como fonte para a história da educação 195 O I Congresso Brasileiro de História da Educação contou com um eixo temático intitulado “Fontes, categorias e métodos de pesquisa em história da educação”; nele, foram apresentados trinta trabalhos. Ficou evidente a ampla utilização por parte dos pesquisadores de fontes oficiais como séries legislativas, relatórios, pareceres, discursos de autoridades políticas, entre outras, para compreender-se o fenômeno educativo. Porém, observa-se, na investigação educacional, a emergência de novas fontes, tais como a fotografia, o material escolar, relatos de viajantes, diários íntimos, arquivos escolares, fontes orais, ao lado de produtos culturais como a literatura e a imprensa pedagógica. Essas e outras como cartuns, jornais, semanários e revistas, livros didáticos, imagens de filmes também se destacaram no segundo congresso1 como novas fontes trazidas ao trabalho do historiador da educação.2 Sólis (1992) classifica os documentos como: textuais (manuscritos, datilografados, impressos, microfilmados etc.), iconográficos (fotos, slides, desenhos, croquis, gravuras, pinturas etc.), cartográficos (mapas e plantas), gravações sonoras e audiovisuais, entre outros. A espécie documental, para ele, pode ser definida a partir das funções que desempenham e para as quais são produzidos os documentos: “documentação técnica, contábil, pessoal, previdenciária” ou apenas “resumos, relatórios, fichamentos, correspondência, memorandos, comunicados internos, registros médicos e escolares etc.” (p. 55, grifo meu). Neste artigo, vou tratar do uso dos arquivos escolares como fontes para a história da educação no Rio de Janeiro. Antes, faz-se necessário trazermos o conceito de arquivo. Em 1898, o Manual de arranjo e descrição de arquivos, elaborado pela Associação dos Arquivistas Holandeses define arquivo como: Conjunto de documentos escritos, desenhos e material impresso, recebidos ou produzidos oficialmente por determinado órgão administrativo ou por 1. 2. Os congressos foram realizados por iniciativa da Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE). O primeiro na cidade do Rio de Janeiro e o segundo em Natal. Fundada em setembro de 1999, a SBHE congrega pesquisadores e docentes da área de história da educação. Ver Xavier (2000) e Araújo (2002). 196 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 um de seus funcionários, na medida em que tais documentos se destinam a permanecer na custódia desse órgão ou funcionário [p. 13]. A lei brasileira n. 8.159, de 8 de janeiro de 1991, que dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados e dá outras providências apregoa, em seu art. 2º, que para fins dessa lei, consideram-se arquivos: os conjuntos de documentos produzidos e recebidos por órgãos públicos, instituições de caráter público e entidades privadas, em decorrência do exercício de atividades específicas, bem como por pessoa física, qualquer que seja o suporte da informação e natureza dos documentos [apud Mattar, 2003, p. 99]. Analisando a referida lei em uma palestra proferida no III Colóquio do Museu Pedagógico, em 2003, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), o especialista em direito Ruy Hermann Araújo Medeiros, entende que a Lei não se contentou com a origem e o produtor do documento, nem tampouco tratou apenas do documento público, mas em seu conceito de documento envolveu os documentos produzidos e recebidos por órgãos públicos; os documentos produzidos e recebidos por instituições de caráter público e entidades privadas; os documentos produzidos e recebidos por pessoa física; e também o suporte da informação ou natureza do documento (papel, filme, documento, documento público, documento privado). Sendo assim, a lei alargou o conceito de documento, sendo mais abrangente do que aquele trazido pelo manual, indo além do domínio da burocracia para o domínio geral da cultura, pois reconhece a necessidade de proteção de documentos não burocráticos, oficiais. Considerando essa conceituação legal de arquivo, podemos dizer que o arquivo escolar é um conjunto de “documentos produzidos ou recebidos por escolas públicas ou privadas, em decorrência do exercício de suas atividades específicas, qualquer que seja o suporte ou informação ou a natureza dos documentos” (Medeiros, 2003). Medeiros explica, ainda, que as escolas particulares exercitam a liberdade de ensino, mas exercem múnus (ofício) público, pois para isso são autorizadas ou reconhecidas. Esse fato tem grande importância para a real compreensão dos arquivos das escolas particulares, sobretudo sobre os arquivos escolares como fonte para a história da educação 197 seus arquivos permanentes. Com isso, podemos entender que esses arquivos, no que dizem respeito aos atos decorrentes de múnus públicos, são de interesse público. Mesmo que não esteja na conceituação legal de arquivo público, quando uma escola particular (privada) é extinta, seus arquivos devem ser transferidos à guarda pública; assim, os arquivos escolares da rede privada serão públicos por destinação, porém essa transferência é quanto aos documentos que decorram de atribuições públicas exercidas pela escola particular, tipo os relativos a transferências, históricos escolares, atos de colação de grau, entre outros. Por exercerem múnus público, as escolas estão obrigadas a preservarem seus arquivos. Os arquivos das escolas públicas ficam nestas ou, após algum tempo, os seus conjuntos documentais permanentes são confiados a arquivo público3. A opção por deixar os documentos nas escolas ou de, decorrido algum tempo, transferi-los para um arquivo central ou regional será objeto de opção normativa da administração pública. Observe-se que há níveis de autonomia de União, Estado, Distrito Federal e municípios. Os arquivos escolares têm por finalidade serem meio de prova de direito de pessoas ou da administração. Mas também têm função informativa para administração pública, pois a ela podem oferecer informações, por exemplo, “da evolução do oferecimento do número de vagas, de repetência, evasão escolar, etc.” Mas, os documentos escolares têm também valor histórico-cultural. Para os historiadores, tais documentos são fontes para a história da educação, manifestação ou representação da memória, nos diz Medeiros. Concretamente, os arquivos escolares apresentam múltiplas possibilidades de pesquisa científica. Através desses acervos é possível conhecer as atividades administrativa e pedagógica de transformação da educação ao longo do tempo. Na pesquisa para a produção da minha 3. No município do Rio de Janeiro, as escolas são responsáveis pela sua documentação até sua extinção. Quanto às escolas estaduais, um projeto de organização e recuperação da documentação referente às escolas extintas do estado do Rio de Janeiro foi desenvolvido pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) em convênio com a Secretaria Estadual de Educação. O projeto teve a participação de estagiários das escolas de arquivologia e educação, porém não foi concluído. 198 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 tese doutorado4, um ofício recebido da Diretoria Geral de Instrução Pública, datado de 1925 e assinado por Antonio Carneiro Leão5, para a diretora da Escola Paulo de Frontin foi de grande valia. Nele, o diretor comunica a nomeação de uma comissão para rever os programas dos cursos profissionais tendo em vista as “exigências da pedagogia moderna”, o qual transcrevo abaixo. Directoria Geral de Instrucção Pública Districto Federal, 23 de janeiro de 1925. Sra. Directora da Escola Paulo de Frontin Esta Directoria desejando estabelecer uma relação mais intima entre o ensino das differentes matérias e os trabalhos das officinas resolveu promover a revisão dos programmas do curso de adaptação, de modo que a cultura ahi ministrada obedeça á verdadeira finalidade de uma escola profissional. Para isso faz-se também necessario uma revisão no programma de trabalhos das proprias officinas. Nomeada uma comissão para proceder taes estudos, que esta Directoria receber dos Srs. Directores de Escolas Profissionais as suggestões que o conhecimento, a longa experiência e o interesse pela instrucção profissional lhes merece de modo a ser possível a elaboração de um trabalho que, dentro das exigências da pedagogia moderna e das possibilidades technicas do nosso meio, corresponde mais realmente as nossas necessidades actuaes. Assim, Sra Directora, deveis remetter até 15 de Fevereiro proximo futuro todas as suggestões e modificações que julgueis proveitosos ao bom andamento do ensino profissional na Capital do Brasil. Saudações O Director Geral A. Carneiro Leão 4. 5. A tese estuda a escola profissional para o sexo feminino tendo como fonte privilegiada a imagem fotográfica de Augusto Malta, contratado pela prefeitura na gestão de Pereira Passos (1902-1906) permanecendo na função até 1936. Esse tipo de escola foi instituída na esfera pública de ensino do Distrito Federal na Primeira República como Instituto Profissional Feminino (1898), Primeira Escola Profissional Feminina [Bento Ribeiro] e Segunda Escola Profissional Feminina [Rivadavia Correa] (ambas em 1913) e Escola Profissional Paulo de Frontin (1919). Diretor da Diretoria Geral de Instrução Pública Municipal no período de 1922-1926. os arquivos escolares como fonte para a história da educação 199 No artigo “Arquivo escolar: fonte de pesquisa histórica” João Valdir Alves de Souza informa que o “arquivo morto” (sic) da Escola Estadual Lauro Machado, localizada no município de Turmalina, Alto Jequitinhonha, uma região nacionalmente conhecida pelos seus indicadores de pobreza, possui documentos totalmente inéditos e de inestimável valor para se estudar e conhecer a história da educação local. E, para corroborar sua afirmação, analisa o livro de Termos de visitas das autoridades escolares em forma e conteúdo. No termo de abertura feito por um inspetor regional a 12 de junho de 1913, consta que o livro se destinava à “Inspecção technica” da “escola do sexo masculino” do então “districto de Piedade de Minas Novas.” Sousa diz nos que “às vezes um documento é mais relevante pela forma como foi elaborado do que pelos conteúdos que porta” (1998, p. 16). Cobrindo os períodos de 1913 a 1939, 1939 a 1972, 1973 a 1986 nele é possível identificar também as modificações sofridas no que se refere aos registros por parte dos inspetores. Um documento escolar pode caracterizar-se como fonte e objeto de pesquisa. De acordo com Medeiros: Ali, nos documentos, estão memórias individual e coletiva da educação. Não toda, é claro. Mas também não só memória, mas memórias: Memória do papel. Memória da tinta. Memória da letra. Memória da pena. Que tinta é aquela? Por certo uma daquelas obtidas com receita, que passou de professor a professor, ou de pai a pai, de aluno a aluno, antes da disseminação da tinta industrial [2003, p. 6]. Mas o que vem a ser documento? Nos arquivos escolares, o que merece ser preservado? Vidal diz nos que é importante “guardar peças que permitam perceber facetas do cotidiano (e não simplesmente reponham a lógica organizacional e legal das instituições) e referenciar as informações contidas nos documentos (desenvolvendo índices, guias de fontes, dicionários e thesaurus)” (2000, p. 41). Uma amostra significativa do que os historiadores da educação entendem por documento está no artigo “Arquivo Fernando de Azevedo: instrumentos e pesquisa em fonte primária” Paulilo, Silva, Vidal et al., 1999, em que os autores, ao tratarem das mudanças trazidas pela refor- 200 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ma, nos apresentam as multiplicidades de elementos que naquele momento passaram a fazer parte da cultura e das práticas escolares. Assim se expressam: Caracterizada por uma intensa renovação da materialidade escolar e dos métodos pedagógicos, a reforma Azevedo introduziu nas escolas novos objetos como, por exemplo, projetores de imagem fixa e em movimento, caneca, sabão, e escovas de dentes e ressignificou antigos, como tabuleiros de areia, vasilhas, tubos de ensaio, pretendendo transformar o ensino “de verbalista em ativo” e concorrendo para preservar condutas higiênicas, de forma a disciplinar gestos, olhares e corpos de alunos e alunas [idem, p. 203]. O arquivo Fernando de Azevedo faz parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Univesidade de São Paulo (USP). O objetivo de seus pesquisadores a partir de um projeto iniciado em 1996 é: “Fazer um inventário desta materialidade e conhecer a diversidade metodológica, investigando as estratégias de modelação postas em uso no espaço e perscrutando suas diferentes apropriações por professoras, professores, alunos e alunas, dentre outros [...]” As perguntas são: quantas escolas guardaram esse tipo de material? Será que seus arquivos espelham essa transformação? Será que esse material foi guardado? Ainda encontramos os arquivos como memória educacional de uma época? Concordo com Medeiros quando diz que ao historiador da educação não bastam os documentos escritos oficiais. Fontes orais, cadernos escolares, desenhos, antigos livros didáticos e atlas escolares, filmes, fitas cassete e fotos, também nos interessam. O acervo arquivístico de uma escola é formado, essencialmente, em decorrência de atividades administrativas e de suas práticas pedagógicas formais e informais. As primeiras produzem documentos de secretaria, porém é no cotidiano da sala de aula, locus principal das atividades pedagógicas, onde são “produzidos” materiais diretamente relacionados ao processo ensino-aprendizagem. Isto posto, podemos perguntar se a lei 8.159 protege qualquer tipo de documento, fruto dessa relação, da eliminação arquivística? Por exemplo, documentos importantes para estudar-se o cotidiano das escolas, mas que não são de interesse público nem administrativo? os arquivos escolares como fonte para a história da educação 201 Belloto, em 1991, preocupada com a descrição documental, chama atenção dos arquivistas para levarem em consideração que a documentação produzida é assustadoramente crescente e de grande diversidade, em razão do surgimento de novas espécies documentais, novos testemunhos, novas fontes, afetando à pesquisa histórica. Esse fato constitui-se um desafio para a produção dos instrumentos de pesquisa, pois essa nova realidade vem ameaçando a sua tipologia e a sua estrutura clássica. Pergunta ela: “Será que guias, inventários, catálogos e índices tradicionais refletem as novas fontes, as inquietações dos novos pesquisadores e as novas temáticas da história? (Belloto, 1991, p. 106). Sabemos que a elaboração de um instrumento de pesquisa não é tarefa fácil e nem rápida, exigindo várias etapas anteriores no trato com a documentação, por isso, é preciso que os arquivistas entrem nessa discussão o mais rápido possível, para que no caso de uma organização técnica dos arquivos escolares não se percam documentos de valor inestimável para o estudo da história. Para tentar resolver esses e outros problemas colocados, Vidal preocupada com o descarte documental6 tendo como foco os arquivos escolares, aponta a necessidade de um diálogo entre arquivistas e historiadores. Esse diálogo faz-se urgente, principalmente, se considerarmos as mudanças paradigmáticas que vêm ocorrendo nos últimos anos no campo da pesquisa historiográfica. Creio que, inicialmente, quatro aspectos devem ser analisados na construção dessa “política” [de preservação e descarte documental] atinentes às mudanças que vêm se operando nos últimos anos no campo historiográfico: o interesse pelo cotidiano e pela materialidade dos objetos culturais e a necessidade do descarte e da referenciação documental. [...] vou me restringir à discussão acerca principalmente dos arquivos escolares... [Vidal, 2000, p. 38]. 6. Toda documentação eliminada, seja por um motivo de avaliação ou por motivo de deterioração, deve ser registrada na “lista de eliminação”, sendo autorizada pela autoridade competente e assinada pelos envolvidos no processo. 202 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 No caso dos arquivos escolares, o processo de avaliação de documentos7 e a produção da tabela de temporalidade8, dois procedimentos definidores do ciclo de vida dos documentos, podem gerar perdas documentais inestimáveis considerando que o saber/fazer da arquivologia ainda se funda no paradigma de conhecimento tradicional. Nesse sentido, a fala de Vidal é significativa ao trazer a origem da arquivologia. Criada no fim do século XIX e dirigida principalmente para garantir o fluxo corrente de informações em empresas e órgãos públicos, a Arquivologia percebe o documento na sua importância institucional e legal. As tabelas de temporalidade que constitui pretendem assegurar sua vida pelo prazo necessário à função que o ocupa na hierarquia da instituição. Nesse sentido, o descarte se faz sempre que o documento perde a “validade”. Preserva-se, em geral, um exemplo, quando os documentos são do mesmo tipo, toda a documentação que repõe a organização (organograma) e remete à constituição histórica da empresa ou instituição, ou que informa sobre algumas de suas personagens principais (diretores, presidentes, dentre outros). A lógica é a da história política e econômica. Todo o cotidiano das relações pessoais estabelecidas tende a se perder [idem, ibidem]. Assim, tendo em vista a tradição arquivística, no que se refere aos arquivos escolares, num processo de descarte, os primeiros documentos que podem ser eliminados do arquivo, entendido como morto, são os “cadernos de alunos, planos de aula, diários de classe”. No entanto, o Diário Oficial, por se tratar de um documento oficial produzido pelo 7. 8. No Manual de levantamento da produção documental, produzido pelo Arquivo Nacional, 1986, encontramos a seguinte definição de avaliação: “Estabelecimento de preceitos capazes de orientar a ação dos responsáveis pela análise e seleção de documentos, com vistas à fixação de prazos para sua guarda ou eliminação, contribuindo para a racionalização dos arquivos” (apud Vidal, 2000, p. 33). Tabela de temporalidade é um instrumento de destinação de documentos que deve ser aprovado por autoridade competente, que determina os prazos que os documentos devem ser mantidos nos arquivos correntes e intermediários até a sua destinação final, ou seja, indica a época em que os documentos devem ser reproduzidos, eliminados ou recolhidos ao arquivo permanente (idem, p.34) os arquivos escolares como fonte para a história da educação 203 poder público, não é descartado, dessa forma “pilhas e pilhas de Diário Oficial atolam os arquivos, multiplicadas nas unidades escolares”. Isto eu pude constatar em alguns arquivos nos quais pesquisei. Ao jogar-se fora a documentação de professores e alunos, personagens de uma nova história, junto jogam-se possibilidades de estudar-se o cotidiano, por exemplo, dessas escolas. Sólis (1992), pelos mesmos motivos, é outro pesquisador que vem juntar-se a Vidal, quando critica a organização arquivística clássica dada aos documentos. Para ele, a forma de avaliação e arranjo adotados para a documentação arquivística, de um modo geral, fez com que se perdessem, de uma forma ou de outra, muitas fontes sobre nossa história social e econômica, desprezando-se registros documentais probatórios do cotidiano, do trabalho, da cultura do povo, do cidadão não ilustre. E, então, louva a revisão historiográfica feita pelos “modernos historiadores que possibilitou o repensar das teorias arquivísticas”. Assim, por exemplo, a história econômica, a história social, a história do cotidiano, a história das mentalidades, e acrescento, a história da educação, utilizam séries documentais como fontes “que permitem avaliar os processos históricos em seu conjunto – e não em momentos ou fatos pinçados ao acaso, segundo a ‘versão oficial’”. Essa possibilidade, diz ele, eliminou, diria eu minimizou, a disputa entre os arquivistas e historiadores e “permitiu o desenvolvimento da arquivologia moderna” (1992, p. 59). Considerando a discussão posta anteriormente, no caso dos arquivos escolares, reivindico junto com Vidal, que seja feito um trabalho em parceria entre arquivistas, historiadores e “informatas”, visando apresentar propostas de implantação e implementação de critérios de avaliação, recuperação, preservação, conservação, classificação, arranjo e descrição9, organização e acesso a esse tipo de acervo. Isto contribuirá para que documentos importantes para o estudo da história da educação 9. Onde se elaboram os instrumentos de pesquisa. Entendidos como um meio de disseminação e recuperação da informação são produzidos em arquivos no processo de arranjo e descrição de documentos. São instrumentos de pesquisa: guias, catálogos, índices, inventários, repertórios, tabelas de equivalência, entre outros. 204 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 não sejam eliminados; e, também, para minimizar o trabalho do pesquisador na busca dessas fontes. Vasculhando arquivos escolares e educacionais: uma trajetória Resgato em minha trajetória profissional, o meu contato mais sistemático10 com arquivos escolares e educacionais. O primeiro encontro aconteceu em 198711, quando participei da equipe que realizou um “Diagnóstico das bibliotecas e arquivos escolares”,12 que tinha como um de seus objetivos: “fazer um levantamento de dados da realidade arquivística das escolas estaduais no município de Niterói.” Entre 1990 e 1991, tive a oportunidade de trabalhar, como técnica de pesquisa, com a Série Educação, no Arquivo Nacional. Continuando a trajetória, elaborei individualmente ou em equipe, projetos de avaliação, organização e de pesquisa13 com esse tipo de acervo. Destaco os projetos: “Arquivo, educação e cidadania“, desenvolvido no município de Queimados, Rio de Janeiro, como parte do programa de extensão “Escola Cidadã: uma experiência em construção”, da UNIRIO; e, “Arquivos escolares: limites e possibilidades para a pesquisa”, que visou mapear e elaborar um diagnóstico da situação em que se encontravam os arquivos escolares no Rio de Janeiro, no que se refere ao tipo de fonte, grau de conservação, arranjo e descrição, quantificação, 10. Digo sistemático, porque vinha trabalhando em escolas desde 1980 como professora do ensino fundamental e orientadora educacional, duas funções propiciadoras de produção de documentos e de consultas aos arquivos das escolas. 11. Formada em pedagogia em 1983 estava, naquele momento, no último período do curso de arquivologia, na Universidade Federal Fluminense (UFF). 12. Subprojeto do “Projeto de integração para a melhoria dos cursos de graduação na área do Centro de Estudos Gerais (CEG) da UFF”. 13. Muitos não foram concretizados por motivos independentes de nossa vontade. Em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto “A revitalização do arquivo do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (IERJ)”, atual Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ); e “Memória da educação: implantação do Arquivo Histórico do Colégio Salesiano”. os arquivos escolares como fonte para a história da educação 205 local de instalação, recursos humanos e materiais, informando a pesquisadores e ao público em geral das condições de acesso e uso desses acervos. Como recorte, trabalhou-se com escolas fundadas no século XIX. A busca de fontes para o desenvolvimento da tese de doutorado também me levou aos arquivos escolares. Atualmente oriento uma dissertação de mestrado em que a pesquisa terá como fonte esses arquivos14. No período passado, orientei uma monografia de graduação que trata do uso dos arquivos públicos como fonte de pesquisa por parte dos estudantes de ensino médio da rede pública de ensino do estado do Rio de Janeiro15. Os arquivos escolares como fonte e objeto de pesquisa Ora, é sabido que a preocupação por parte de profissionais, legisladores e administradores de arquivos ainda não surtiu o efeito desejado por pesquisadores e o público em geral, quando se vêem diante da necessidade de pesquisá-los. Ainda hoje, o pesquisador para construir seu conhecimento esbarra, entre outras coisas, na desorganização dos arquivos. Assim, expressões como “foi impossível encontrar tal documento”, a “pesquisa foi prejudicada devido a deterioração de fontes necessárias”, são comuns aos nossos ouvidos. Para Lopes (1992), em “Fontes documentais e categorias de análise para uma historia da educação da mulher”, vasculhar arquivos [escolares] para o desenvolvimento de pesquisa é uma tarefa árdua. Encontrar “livros de atas, livros de punições, livros de matrículas [...] é o que todas sonhamos, quase com volúpia”, diz-nos. Porém, levanta algumas questões sobre o acesso a essas fontes: “Mas é possível? Esse tipo de material estará disponível? Pelo menos em quantidade que dê para se ter um certo corpus? Às vezes sim, às vezes não”. Ela responde-nos afirmando: “E é isso que tem colocado um desafio bastante interessante para a história (dessa) educação” (Lopes, 1992, p. 6). 14. Projeto da mestranda Luciene de A. Simonini, intitulado “Semana de educação (1928-1935): do projeto da Associação Brasileira de Educação ao trabalho realizado nas escolas”. No momento, a pesquisa está fazendo o levantamento das escolas e seus arquivos. 15. Monografia desenvolvida por Denize Marinho, aluna do curso de arquivologia da UNIRIO. 206 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 A fala do Sr. José, funcionário da Conservatória Geral do Registro Civil, personagem criado por José Saramago em seu livro Todos os nomes, ao vasculhar o arquivo de uma escola na busca da “mulher desconhecida”, é ilustrativa das condições de preservação, conservação e acesso de grande parte dos arquivos escolares nos quais pesquisei; e representativa do trabalho que tive de empreender na busca dos documentos. Abrir uma caixa, desatar um maço, cada movimento que fazia levantava uma nuvem de pó, a tal ponto que, para não acabar asfixiado, teve de atar o lenço sobre o nariz e a boca, um processo preventivo que os auxiliares de escrita eram aconselhados a seguir de cada vez que tinham de ir ao arquivo... [1997, p. 111]. No meu caso, usei máscara, luva cirúrgica e jaleco para proteção, mas valeu a pena, pois a busca não foi infrutífera. A sensação do encontro com as fontes é gratificante. Ainda é Saramago com o sr. José que nos ajuda a ilustrar o sentimento do pesquisador quando encontra o que busca. [...] havia umas quantas secretárias, um número igual de cadeiras, armários, arquivos, ficheiros, o coração do Sr. José sobressaltou-se ao vê-los, era disto que tinha vindo à procura, fichas, verbetes, registros, averbamentos, anotações, a história da mulher desconhecida na época em que tinha sido menina e adolescente, supondo que depois deste não houve outros colégios em sua vida. [...] O primeiro verbete apareceu ao cabo de meia hora. A menina deixara de usar franja, mas os olhos, nesta fotografia tirada aos quinze anos, conservavam o mesmo ar de gravidade dorida [idem, pp. 98 e 111, grifos meus]. Em algumas escolas, o espaço destinado à documentação acumulada é identificado como arquivo morto. Até hoje, essa é uma velha e incorreta denominação para a documentação de caráter permanente, sugerindo a existência de uma documentação sem utilidade e descartável. Quanto a essa questão, no artigo intitulado “Memória da educação: preservação de arquivos escolares” (Bonato, 2000), publicado na revista Presença pedagógica, digo ser importante buscar parcerias com arquivos públicos, entendendo essa ação como uma possibilidade de preser- os arquivos escolares como fonte para a história da educação 207 vação dos arquivos escolares: “dessa maneira, não teremos mais o ‘arquivo morto’, expressão utilizada erroneamente para caracterizar a documentação acumulada, que se encontra geralmente desorganizada e sujeita a agentes destruidores como fungos, insetos, anóbios, poeira, e até mesmo o próprio homem” (Bonato, 2000, p. 47). Ribeiro (1992), em “arquivos das escolas”, trata desses arquivos a partir dos resultados de um “Diagnóstico dos arquivos privados na cidade do Rio de Janeiro”, realizado em 1985, pelo extinto Programa Nacional de Preservação da Documentação Histórica (Pró-Documento). Das escolas objetos daquele diagnóstico, duas incluídas na amostra de trinta, haviam acabado de criar pequenos museus, em que já realizavam exposições sobre sua própria história. Essa mesma atenção não é dedicada aos arquivos, estes “últimos apenas emprestam documentos para a exposição, permanecendo, no entanto, literalmente, como ‘arquivo morto’” (p. 48). As escolas possuíam “arquivos ‘ativos e inativos’ (ou ‘mortos’), denominações que [revelavam] o predomínio de uma noção limitada da sua importância para a administração e, principalmente, para o conhecimento científico” (p. 53). De acordo com Ribeiro, não existia nas instituições educativas, com raras exceções, um sistema de arquivos baseado na teoria das três idades: corrente, intermediário e permanente. Essa teoria16, presente na legislação brasileira, também se aplica aos arquivos escolares. Um regimento interno de uma escola, enquanto estiver em vigor será documento corrente, pois será consultado frequentemente. Documentos esco16. “Conforme a Teoria das Três Idades, os arquivos passam por três estágios de evolução: arquivo corrente ou da primeira idade – constituído de documentos em curso e consultados freqüentemente. De natureza administrativa, atendem às necessidades imediatas para as quais foram produzidos e por isso se conservam junto aos órgãos produtores; arquivo intermediário ou de segunda idade – nos quais os documentos não são mais consultados tão freqüentemente, porém ainda podem ser solicitados para retomada de alguma questão pelo órgão que os produziu. Já foram avaliados e aguardam destinação final de acordo com a Tabela de Temporalidade dos Documentos; arquivo permanente ou de terceira idade – constituído de documentos que perderam todo o valor de natureza administrativa, mas que se conservam definitivamente em razão de seu valor histórico ou probatório, de acordo com a avaliação documental; documentos para fins de pesquisa [...] (Bonato, 2000, p. 47). 208 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 lares de alunos que concluíram [o ensino fundamental ou médio], durante algum tempo serão documentos intermediários, pois poderão ser consultados para informações. Históricos escolares de alunos, após algum tempo como documentos intermediários serão preservados de forma permanente em razão do valor histórico, probatório e informativo [Medeiros, 2003]. Em conseqüência do quadro apresentado por Ribeiro (2002), o que os historiadores costumam denominar de arquivo histórico não se constitui concretamente um arquivo permanente. Devendo ser definido por um criterioso processo de avaliação documental, o arquivo permanente, conforme aquela teoria, é constituído por conjuntos de documentos de terceira idade, acumulados organicamente de modo que retrate as atividades da escola. Para a realização da tese busquei, coletei e resgatei documentos inéditos “esquecidos” não apenas em instituições oficiais de acervos arquivísticos, mas também em arquivos escolares17, entendendo que esses acervos ainda não foram devidamente explorados pelos pesquisadores. Na pesquisa utilizo a análise documental como procedimento metodológico, nesse sentido, alguns autores, ao teorizarem sobre esse procedimento na área de ciências humanas, entendem documento como “quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de informação sobre o comportamento humano” (Philipps apud Lüdke & André, 1986, p. 38). Leis, regulamentos, normas, pareceres, cartas memorandos, diários pessoais, autobiografias, jornais, revistas, discursos, roteiros de programas de rádio e arquivos escolares, são relacionados (grifo meu). Esses últimos constituem acervos arquivísticos, contendo diversas espécies documentais, tais como as que encontrei no processo de pesquisa: dossiês de alunos, esses de volume mais expressivo; livros de atas de exames, de ocorrência, de fichas de matrícula, de estatística de alunas, de notas, de ponto de professores, “Índice das alumnas exter- 17. Os acervos escolares foram os seguintes: os arquivos das escolas municipais Rivadávia Correa, Bento Ribeiro, Orsina da Fonseca e do Colégio Estadual Paulo de Frontin. os arquivos escolares como fonte para a história da educação 209 nas”; portarias; diários de classe; guias de remessa de documentos; fotografias; justificativas de faltas de professores; ofícios, cartas e memorandos recebidos; atestados de freqüência de professores; relação alfabética de alunas; programas de aula de ginástica e canto orfeônico; fichas de pedidos de transferência de professores para outras escolas e de licença especial; declaração para exame de madureza; relação de prématrícula; Diário Oficial do Estado, esse em grande quantidade, como bem apontou Vidal. Porém, essa documentação, não sem exceções, estava desorganizada e sujeita a toda sorte de destruição, principlamente a referente ao período pesquisado em razão de o local de guarda ser inadequado. Essa situação dificultou muito a consulta, tornando-se muitas vezes um trabalho penoso. Freqüentemente, temos de limpar e organizar a documentação antes de começar a pesquisa sobre a temática, o que demanda um longo tempo. Conforme o diagnóstico mencionado por Ribeiro (1992), os arquivos escolares geralmente são precários, cerca de dois terços dos espaços onde estão guardados os documentos são inadequados, pois têm problemas de ventilação e iluminação, excesso de umidade, poeira etc. Conseqüentemente, estão presentes na documentação poluentes atmosféricos, insetos, fungos, anóbios, traças, entre outros problemas detectados e causadores do processo de destruição. Diz jocosamente Ribeiro: “Os insetos, roedores e microorganismos, também se ‘interessam’ por estes arquivos, freqüentando-os muito” (p. 55). Em grande parte dos arquivos, o acondicionamento dos documentos é feito em pastas, envelopes, encadernados, caixas de papelão; mas, são também encontrados empilhados e sem nenhuma proteção. Em razão do quadro descrito dificilmente encontrou-se um instrumento de pesquisa para recuperação da informação/documento. O acesso aos documentos muitas vezes era feito pela memória dos funcionários responsáveis. Pelo que pude constatar, o quadro não se alterou muito nesses anos. Encadernações com capas soltas, folhas acidificadas, rasgadas e coladas são exemplos a serem trazidos, quanto à situação dos documentos. Em mais da metade dos arquivos, havia documentos sendo danificados, e por isso merecendo cuidados especiais; documentos em estado tão 210 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 crítico que se tornaram irrecuperáveis até pelo processo de restauração18, o que é lamentável. A falta de recursos financeiros e materiais, de mão-de-obra especializada para o trato da documentação, provocando o manuseio inadequado, vem aliar-se aos fatores relacionados. Fica evidente que a forma de preservação19 e conservação20 da documentação por parte das escolas podem constituir-se uma barreira no processo de pesquisar em seus arquivos. Quero registrar que em algumas escolas a documentação mais antiga estava, mesmo que de forma frágil, cuidada e identificada; pacotes, envelopes e caixas, trazendo datas-limite e tipo de documento, surgiram; em certos casos, a documentação mais recente estava bem organizada. Por ter valor probatório e, em conseqüência, ser consultada com certa freqüência, a série documental dossiês de alunos, é um exemplo. Realmente, foi um desafio vasculhar esses arquivos. Porém, pude encontrar documentos pouco ou nada explorados, que ajudaram a pensar o meu objeto de estudo: a educação profissional feminina. Chamo atenção para o uso dos arquivos escolares como fontes para a história da educação, da seguinte forma: 18. As ações de conservação preventiva são aconselhadas por serem mais econômicas, dando uma longevidade ao documento, evitando com isso uma intervenção mais radical como a restauração. Esse processo é muito mais caro e agressivo, fragilizando o suporte de papel. Embora conceitualmente seja entendida como: “um conjunto de procedimentos que visa recuperar, o mais próximo possível, o estado original de uma obra ou documento” (Silva, 1998, p. 9). 19. Aqui destacamos o conceito de preservação trazido por Silva (1998): “[...] toda ação que se destina a salvaguardar ou a recuperar as condições físicas e proporcionar permanência aos materiais dos suportes que contêm a informação. É o ‘guardachuva’, sob o qual se ‘abrigam’ a conservação, a restauração e a conservação preventiva” (p. 9). 20. Tecnicamente conservação é entendida como “um conjunto de procedimentos que tem por objetivo melhorar o estado físico do suporte, aumentar sua permanência e prolongar-lhe a vida útil, possibilitando, desta forma, o seu acesso por parte das gerações futuras”. Já conservação preventiva “abrange não só a melhoria das condições do meio ambiente nas áreas de guarda do acervo e nos meios de armazenagem, como também cuidados com o acondicionamento e o uso adequado dos acervos, visando retardar a degradação dos materiais. É, pois, um tratamento de massa, feito em conjunto” (idem, ibidem). os arquivos escolares como fonte para a história da educação 211 O arquivo de uma escola tem por finalidade armazenar a documentação de interesse da escola que venha auxiliar a administração e o ensino, assim como permitir o levantamento de dados para pesquisa educacional e histórica da instituição e da comunidade na qual ela está inserida. [...] Esse tipo de acervo arquivístico representa um patrimônio documental, que integra a memória da instituição escolar que o gera e é parte da memória educacional brasileira [Bonato, 2000, p. 45]. A falta de interesse pela preservação de acervos escolares e o entendimento de seu uso como fonte para a pesquisa é uma preocupação de vários educadores. Geralmente, como vimos, as escolas não têm como uma prioridade salvaguardar seus registros documentais, sendo esse um dado do contexto escolar que deve ser considerado e analisado pelos pesquisadores da área de história da educação. As condições de acesso às fontes, quando disponíveis, constituem-se uma barreira para a pesquisa em história da educação; essa concepção pode ser verificada em Lüdke e André (1986), Lopes (1992). Em geral as escolas não mantêm registro de suas atividades, das experiências feitas e dos resultados obtidos. Quando existe algum material escrito, ele é esparso e consequentemente pouco representativo do que se passa no seu cotidiano. É evidente que esse fato também é um dado do contexto escolar e deve ser levado em conta quando se procura estudá-lo [Lüdke & André, p. 40] Se por um lado, muitos querem livrar-se dos documentos, por outro lado, temos de louvar aqueles que a despeito das dificuldades como a falta de apoio oficial, recursos humanos, materiais e financeiros tentam proteger seus acervos da destruição e dão apoio à pesquisa científica. Se uma escola não me ofereceu nenhuma atenção, em outras – embora sem uma estrutura própria para a pesquisa acadêmica como, por exemplo, condições de fotocopiar documentos no local por falta de equipamento – no arquivo havia um local destinado à pesquisa com mesa e cadeira à disposição. Noutras, a reprodução dos documentos foi realizada com muita presteza pelos próprios funcionários, mediante a minha solicita- 212 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 ção. Esses são dados significativos que merecem ser relatados. O diagnóstico do Pró-Documento detectou exemplos positivos como o caso de um diretor de uma escola que, embora soubesse que os diários de classe devessem ser preservados durante cinco anos, orientou os funcionários da secretaria no sentido de mantê-los guardados por tempo indeterminado, pois os diários “contêm informações que comprovam o trabalho dos professores”. Outro caso exemplar, o de uma funcionária responsável pelo arquivo que era identificada, inclusive por membros do corpo docente, como alguém que tem “mania de papel velho”. Segundo ela, sempre houve pressões, “felizmente não atendidas pela direção, para a retirada dos documentos do arquivo e eliminação de parte deles” (Ribeiro, 1992, p. 55). É interessante destacar que em uma das minhas instituições educativas a denominação “arquivo morto” foi suprimida por sua diretoria adotando-se “Arquivo Permanente do Colégio Estadual Paulo de Frontin”. Apesar do exposto, fica evidente que o descarte documental acontece de forma aleatória, assistemática, para desocupar espaço, sendo uma ação dos próprios profissionais das escolas e, geralmente, sem uma orientação técnica, seja ela qual for. Problemas graves detectados pelo citado diagnóstico, em relação aos arquivos escolares, foram: a eliminação indiscriminada de documentos por aqueles que deviam preservá-los e a perda por acidente ou negligência. Percebe-se que nem todas as escolas são receptivas à guarda e preservação da sua documentação, depende muito da direção daquele momento. Acredito que se deva fazer um trabalho de sensibilização com os profissionais de ensino sobre a importância da preservação e uso dos documentos dos arquivos de suas escolas, já que não temos ainda uma política eficaz de guarda e recolhimento dessa documentação, uma política arquivística oficial mais incisiva, que atenda ao clamor em torno da preservação desse tipo de acervo, como acontece com os arquivos médicos21. 21. Entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2005, aconteceu no Arquivo Nacional o “I Encontro de Arquivos Médicos: políticas, práticas e inovação”, com o objetivo de “discutir aspectos relacionados às políticas e ações voltadas à gestão da os arquivos escolares como fonte para a história da educação 213 Preservar significa conservar preventivamente a documentação, independentemente do seu suporte. E, aqui, recuperamos novamente a necessidade do diálogo trazida por Vidal entre arquivistas, historiadores da educação e informatas. Para esse diálogo, devem ser convidados também os profissionais da educação e os responsáveis pelas políticas públicas de proteção ao patrimônio documental, tendo em vista os arquivos escolares. Preservar não significa guardar tudo, mas “avaliar” a documentação, descartando o desnecessário e criando condições mínimas de sobrevivência do suporte físico (materialidade) e da informação do documento. [...] A polêmica me parece maior em torno dos princípios da conservação e do descarte e é nesse sentido que o diálogo deve ser estabelecido prioritariamente [Vidal, 2000, p. 39]. O que falta para os arquivos das escolas, quando existem, é uma política arquivística orientadora de sua preservação e organização. Vasculhando o arquivo da Escola Rivadavia Correa, deparei-me com um documento que informava sobre a organização do arquivo daquela escola, na década de 70, sob a orientação de técnicos do Arquivo Nacional. O que estou dizendo é que a arquivologia não se encontra presente nas escolas enquanto saber específico no trato da documentação escolar. Sem dúvida nenhuma que esse fato só reforça a necessidade do diálogo proposto por Vidal, pois isso implica também no olhar sobre a formação do profissional arquivista, do pedagogo e dos professores. Como professora dos cursos de graduação em pedagogia 22 e em arquivologia23, dificilmente encontrei um aluno querendo fazer sua monografia de final de curso tendo como tema os arquivos escolares. informação e da documentação no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).” O evento foi promovido pelo Conselho Nacional de Arquivos (CONARq), o Ministério da Saúde, a Fundação Osvaldo Cruz e o Instituto de Cardiologia de Laranjeiras. 22. Desde 1995. 23. Desde 1997. 214 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Uma parceria necessária O fato é que essa quantidade de documentos que pode de forma sistematizada ser posta à disposição da comunidade acadêmica para o aprofundamento de estudos e pesquisas está em processo deterioração, em condições de guarda que dificulta seu manuseio e acesso tanto para o pesquisador externo quanto para a própria administração das escolas. Já que não há ainda uma política efetiva e oficial de gestão24 e recolhimento25 dessa documentação nas esferas de poder, tampouco um centro da educação para abrigá-la, algumas ações têm que ser tomadas. É fato inquestionável, a necessidade de sensibilizar autoridades e dirigentes das instituições educativas em torno da preservação dos arquivos escolares, assim como, envolver arquivistas, informatas e historiadores da educação na discussão. Mas, fazer um trabalho educativo envolvendo alunos e professores e toda a comunidade escolar na questão, é também uma outra iniciativa que deve ser tomada para tentar-se resolver as questões postas neste texto. Na área acadêmica, iniciativa como a do Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas em História da Educação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (NIEPHE/FEUSP), que realizou no período de 26 a 28 de julho o I Encontro de Arquivos Escolares e Museus Escolares, merece aplausos. O encontro teve como objetivo “reunir as investigações e os trabalhos realizados e em andamento de forma a propiciar um espaço para trocas de experiência e reflexão teóricometodológica”, referente ao trato da documentação desse tipo de acervo, como explicitado em sua chamada para participação no evento. 24. Gestão de documentos: “Aplicação de princípios de economia e eficácia na criação, manutenção e uso de documentos, além de sua eliminação. Tem como objetivo obter uma documentação que reflita, da maneira mais completa possível, tanto as políticas quanto as rotinas dos órgãos; visa, ainda, ao aperfeiçoamento e à simplificação de todo o ciclo documental, desde sua criação até a destinação final.” (Brasil, 1986) 25. No Dicionário de terminologia arquivística, encontramos a seguinte definição técnica de recolhimento: “Passagem de documentos do arquivo intermediário para o arquivo permanente” (1996, p. 64) . os arquivos escolares como fonte para a história da educação 215 Um outro caminho possível é que se estabeleça efetivamente um trabalho de parceria entre arquivo-escola/escola-arquivo. É sabido que o potencial didático-pedagógico do patrimônio documental contido nas instituições arquivísticas vem sendo pouco explorado pelas instituições escolares. Para Bellotto: No que concerne aos serviços de assistência educativa, o papel dos arquivos tem sido pouco explorado entre nós, embora a pedagogia brasileira venha sendo renovadora e progressista. Porém, nos modernos métodos didáticos não foram incluídos os usos possíveis da documentação de arquivo [1991, p. 150]. Se por um lado, as escolas não estão indo aos arquivos, por outro não há, por parte dos arquivistas, um número significativo de projetos oficiais de assistência educativa a escolares. Ainda é a própria Bellotto quem nos impulsiona a pensar sobre a questão de que “a abertura dos arquivos públicos a um novo público – o escolar, o dos alunos – pode trazer benefícios didáticos surpreendentes” (idem, ibidem); destacamos alguns exemplos dessa parceria. Buscando dar visibilidade à sua função socioeducativa, o Arquivo Nacional do Canadá, desenvolveu alguns projetos com estudantes de escolas públicas daquele país, visando a valorização dos arquivos por parte de estudantes e professores, através do ensino de história. A importância e, na verdade, a existência do documento arquivístico era demonstrada, por exemplo, trabalhando-se temas referentes à história local; os documentos surgiam como pedras fundamentais para a aula (Blais & Enns, 1989/1990, p. 62). Nessa linha de ação, no nosso Arquivo Nacional, temos a Revista do estudante: a história através dos documentos: publicação para colaborar com o ensino da história do Brasil. Em sua apresentação, dizem os organizadores: “Queremos também colaborar com o ensino da história do Brasil na sala de aula. Por isso, escolhemos uma série de documentos para contar alguns momentos da história de nosso país” (2002, p. 3). Outras instituições de memória, em um momento ou outro, também já desenvolveram projetos trazendo o estudante do ensino fundamental para o arquivo, como a Fundação Casa de Rui Barbosa, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. O projeto “O Arquivo vai à escola”, por 216 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 exemplo, do Arquivo Público do Distrito Federal, teve como objetivo: “capacitar os professores da rede pública de ensino na utilização de documentos de arquivo no processo ensino-aprendizagem”; e, ainda, “divulgar, entre professores e estudantes, a importância dos arquivos não só como fonte para a história, mas também como instrumento para a construção da cidadania”. Tendo como eixo central “A ocupação do espaço no Distrito Federal”, a dinâmica de trabalho constituía-se da seguinte forma: a cada encontro utilizava-se um suporte documental diferente que abordasse o tema. Fotografias, documentos textuais, depoimentos orais e filmes do acervo do Arquivo Público do Distrito Federal foram trazidos e discutidos à luz de textos teóricos. No final de cada encontro, era dado aos participantes um exercício elaborado a partir dos documentos explorados no dia. O curso teve ação multiplicadora; assim, ao seu término, os professores participantes apresentaram trabalhos para os colegas de suas regionais mostrando as diferentes formas de utilizar-se documentos de arquivo em sala de aula26. Acredito que isso possa também ser feito com documentos do próprio arquivo da escola, visando que se perceba a importância da documentação produzida e acumulada por ela, não apenas no concernente à necessidade administrativa, mas também, no seu caráter histórico-cultural. Se o estudante e o professor, referências da comunidade escolar, perceberem a importância dessa documentação como memória da escola, provavelmente ajudarão na sua preservação e compreenderão a importância da gestão documental e da implantação do “arquivo permanente”, dentro das condições existentes. Os arquivos escolares devem ser otimizados dentro da própria escola através de projetos com a participação de todos. Pode ser um exemplo, a exposição realizada pelo Colégio Paulo de Frontin. Intitulada “80 anos de memória”, foi organizada a partir do próprio acervo do colégio, do grêmio estudantil, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Contou com a participação da direção, professores e alunos e a colaboração de ex-alunos e alunas, conforme o cartaz de sua divulgação. A 26. Conforme o Boletim Informativo do Arquivo Público do Distrito Federal. os arquivos escolares como fonte para a história da educação 217 exposição, realizada em 1999, foi uma demonstração de que o colégio, pelo menos com aquela diretoria, se preocupava em preservar sua história, apesar das dificuldades. Ainda com Ribeiro, os arquivos escolares também podem ser usados no processo ensino-aprendizagem, nas aulas de várias disciplinas, para conhecer-se a realidade local onde a escola se situa, as ruas, o bairro, as famílias. Através dos dossiês de alunos, pode-se estudar a origem familiar, traçar o perfil dos alunos e suas modificações ao longo do tempo; dos álbuns fotográficos pode-se extrair as diferenças das indumentárias, os uniformes, visualizar práticas e elementos próprios da cultura escolar em determinado momento; apenas para citar algumas possibilidades de uso dessa documentação pela própria escola, pelo aluno, pelo professor. Provas, programas e relatórios podem nos proporcionar uma reflexão sobre as atividades pedagógicas desenvolvidas ao longo do tempo, suas modificações e seus motivos. Para o autor: O colégio que cria o seu museu, que envolve os seus alunos na organização de exposição, na coleta de depoimentos das pessoas mais velhos ou que, utopia possível, organiza o seu arquivo, pondo-o à disposição da comunidade em geral e da comunidade escolar em particular, este colégio está de fato contribuindo para a consolidação de valores essenciais para a formação da cidadania [1992, p. 63]. E segue, com seu pensamento, fazendo-nos a significante indagação, transcrita a seguir, que nos leva à reflexão: De outra parte, os alunos que aprendem a cuidar e a preservar tudo o que, material ou imaterial diz respeito a sua vida escolar ou não, como alguns dos seus livros e cadernos mais importantes, suas agendas, algumas redações e provas, não estará incorporando hábitos decisivos para a formação da sua personalidade e, desta forma, cultivando valores significativos da sua história de vida que a maioria de nós não aprendeu, na escola, a valorizar? [idem, ibidem]. 218 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 Considerações finais Esse texto é apenas uma contribuição que se abre à discussão. Pelo exposto, fica evidente que devemos lutar pela preservação e organização dos arquivos escolares, tendo em vista a sua função social e científica. Mas, quero registrar que, pela minha experiência com arquivos ao longo de vários anos27, a situação apresentada não é exclusiva desse tipo de acervo. Referências bibliográficas ARAÚJO, M. M. de. O cultivo de uma historiografia engajada com a história e a memória da educação brasileira. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 2., Natal. Anais..., 2002. ASSOCIAÇÃO dos Arquivistas Holandeses. Manual de arranjo e descrição de arquivos. Tradução de Manoel Adolpho Wanderley. 2. ed. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1973. BELLOTTO, H. L. Arquivos permanentes: tratamento documental. São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. BLAIS, G.; ENNS, D. “Intensificando o ‘nobre sonho’: programação pública nos arquivos canadenses”. Acervo. Revista do Arquivo Nacional, v. 4, n. 2, v. 5, n. 1. p. 55-68, 1989-1990. BONATO, N. M. C. A Escola Profissional Feminina através da imagem fotográfica. 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Configurações de um campo de pesquisa, orientações teórico-metodológicas, leis, regulamentos, currículos, programas, livros didáticos, métodos, impressos, memória, sujeitos evidenciando o vivido, o produzido. São alguns dos elementos que se unem, se acomodam nesse amálgama ainda em formação, nessa nova orientação de pesquisa dentro da história da educação. Tais elementos emergem à superfície pelos nove artigos que compõem o livro História das disciplinas escolares no Brasil: contribuições para o debate, organizado por Marcus Aurelio Taborda de Oliveira e Serlei Maria Fischer Ranzi. Constituindo-se um suporte para os artigos subseqüentes, o texto de Circe Maria F. Bittencourt propõe-se, em uma primeira abordagem, a dar conta do processo de configuração do campo de pesquisa sobre disciplinas escolares. Conforme a autora, o crescimento dos estudos que tomam as disciplinas como objeto de investigação evidencia-se nos anos de 1970 e 1980, em um momento em que se passa a repensar o papel da escola em suas especificidades e como espaço de produção de saber e não como mero lugar de reprodução de conhecimentos expostos externamente. Que fator então teria levado a direcionar o foco das análises para a escola, isto é, considerá-la ponto de partida para reflexões? Considera-se aí que massificação do ensino teria levado a escola a viver um momento de crise no que tange à definição do seu papel. A escola, a partir de então, recebendo um público heterogêneo, uma vez pensada e criada pela e para a elite, precisava, conseqüente- 222 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 mente, tomar uma nova direção. É sintomático, portanto, segundo Circe Bittencourt, querer apreender e compreender os novos tempos da escola em uma dimensão histórica. Questões de permanências e de rupturas, principalmente em relação aos currículos, são, nesse contexto, erigidas. Logo, as disciplinas escolares tornam-se objeto de interesse dos pesquisadores, na tentativa de compreender ou justificar o papel de cada uma delas nesse processo de reorganização pelo qual passava a escola. Diante desse quadro a autora vislumbra o surgimento de pesquisas em vários países concomitantemente. Em um segundo momento do artigo, ela aborda a diversidade de enfoques no tratamento das disciplinas escolares, tendo em vista as diferentes concepções dos autores a esse respeito. Nesse sentido, destacam-se, principalmente, as propostas por Yves Chevallard. Esse autor concebe a disciplina escolar unilateralmente, como mera transposição didática do saber científico, o que confere à didática o objetivo fundamental de criar formas de transpor o conhecimento de modo que evite a distância entre o saber erudito e o que será ensinado. Contrapondo fortemente essa visão, encontram-se as concepções defendidas por André Chervel e Dominique Julia, os quais concebem a escola como lugar de produção de cultura, a saber, uma cultura escolar. Trazer à tona a experiência, as apropriações feitas pelo sujeito escolar, para construir, assim, uma história das disciplinas de determinada instituição escolar tem sido um dos objetivos comuns, almejados pelos pesquisadores. Tal objetivo seria comum se esse sujeito não fosse Descartes, dando-nos o seu parecer, ou melhor, apresentando suas críticas sobre os saberes ensinados no Colégio De La Flèche, uma das mais importantes escolas da Europa da qual ele era aluno. Eis, pois, uma das propostas do artigo de Kazumi Munakata, cuja fonte para a investigação é um relato autobiográfico do sujeitoaluno, no caso Descartes. Assim, Munakata inicia a análise das disciplinas escolares do Colégio De La Flèche, dentre as quais merecem destaque: as línguas, a eloqüência e a poesia, as matemáticas, a teologia, a filosofia, a jurisprudência, a medicina e as outras ciências. O texto desdobra-se em seguida em uma análise do percurso dos saberes na França, da forma como se configuram e se (re)configuram historicamente. Ao concluir o texto, o autor sugere que, nas tentativas de rupturas ou permanências do currículo vigente, é necessário que se leve em conta o modo histórico pelo qual ele se estabelecera. resenha 223 Fornecendo uma análise mais descritiva, Alcione Luís P. Carvalho objetiva verificar a influência de um sistema teórico – a teoria do ciclo gegráfico – elaborada por Willian Morris Davis, na Geografia escolar brasileira, pelo viés dos manuais de metodologia de ensino de geográfico. A propósito, chama a atenção do leitor, no desdobramento do título “O irresistível apelo pedagógico da teoria do ciclo geográfico o uso do adjetivo irresistível”. Nessa frase, ele remete à idéia de apropriação, de uma aceitação por parte de quem foi dada a ocasião de uma relação com tal teoria. Nesse caso, seriam os sujeitos escolares, professores e alunos, sobretudo, a quem os manuais didáticos se destinam. Entretanto, aprofundando a interpretação, verifica-se que a expectativa criada pelo uso dessa palavra não é respondida ao longo do trabalho. Na verdade, trata-se de uma investigação unilateral, ou seja, o autor estuda apenas dos conteúdos dos livros, o que, aliás, ele apresenta claramente como o objetivo do seu estudo. Afinal, quem não resistiria, então, ao apelo da teoria? Não teria o autor, talvez, deixado escapar a sua apropriação da teoria em questão? Ao concluir que o sistema teórico de Davis teve influência decisiva e predominante na disciplina acadêmica geomorfologia por meio dos manuais de ensino, o autor fornece pistas claras da sua concepção unilateral de disciplina escolar, ou seja, apenas como uma transposição didática de conteúdos. Em contrapartida, a análise das reformas curriculares e criação de novas disciplinas escolares aproxima o estudioso da fala de Viñao Frago1 quando ele diz que as disciplinas escolares são espaços de poder, de um poder a ser disputado. Mas a quem é delegado o poder de incluir ou retirar disciplinas de um currículo escolar? Ainda sobre esse tema, trazendo para o debate o ensino das disciplinas de humanidades, Maria do Carmo Martins analisa as mudanças operadas no currículo escolar pela ditadura militar brasileira (1964-1985) que substituiu as tradicionais disciplinas história e geografia prescrevendo aquelas de estudos sociais (ES), educação moral cívica (EMC) e organização social e política brasileira. O fato é que, dado o caráter epistemológico e científico de tais disciplinas, elas não en- 1. VIÑAO FRAGO, A. Historia de la educación e historia cultural: possibilidades, problemas, cuestiones. Revista Brasileira de Educação, São Paulo: ANPED, 1995. 224 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 contram respaldo na comunidade acadêmica do país, e, conseqüentemente, não chegam a se configurar como disciplinas acadêmicas e tornaram-se, na realidade, áreas de formação de professores, estabelecendo-se em forma de licenciaturas curtas. Analisar historicamente currículos escolares permite, conforme a autora, vislumbrar: a configuração dos saberes escolares no momento de sua proposição, os diferentes sujeitos envolvidos no processo, os jogos de interesse e as relações de poder que são estabelecidas. Nesse sentido, a criação de novas disciplinas pela ditadura militar brasileira deverá ser entendida, além de vinculada aos objetivos de ensino, também voltada para a formação profissional em caráter acelerado, o que viria a demonstrar o esforço de modernização que as elites políticas e culturais do país desejavam implantar no período. Até que ponto uma norma legal, que estabelece novos parâmetros de ensino, poderá alterar as práticas dos professores e prenunciar um novo estatuto para uma disciplina escolar? Valendo-se do depoimento de professores, Marcos Aurelio Taborda de Oliveira realiza um estudo sobre a redefinição de parâmetros para a prática escolar de educação física, após a criação de uma norma que orienta novos padrões de referência de alcance nacional, realizando, porém, um recorte de espaço e tempo bem específicos, a saber, a rede municipal de ensino de Curitiba, entre o início dos anos de 1970 e o início dos anos de 1980. Ao analisar o conteúdo do novo programa e as práticas dos professores, o autor direciona o foco para a questão das rupturas e continuidades no funcionamento da educação física como disciplina escolar. Analisando, pois, o programa oficial, Taborda de Oliveira verifica que o discurso idealizador de assepsia social, de saúde, de uma sociedade moralmente higienizada significava retomada do que já estava estabelecido. Porém, uma nova forma de higienismo evidenciava-se, manifestada, agora, pelo viés das práticas esportivas como higienadoras. O autor adverte, contudo, que, analisando o programa oficial, não seria prudente delimitar o velho e o novo higienismo, pois existiria mais uma linha de continuidade. Em contrapartida, percebe-se claramente que a criação dos novos parâmetros significou uma linha divisória, não só para uma (re)configuração da disciplina escolar de educação física, como também para uma afirmação profissional dos professores. Uma disciplina que antes funcionava em caráter de improvisação conquista resenha 225 então um novo lugar dentro da instituição escolar, ascendendo também, e por isso, a corporação de professores a um novo estatuto profissional. O que o autor procura enfatizar em suas análises é o fato de os professores terem-se constituído como sujeitos ativos e determinantes de todas essas transformações. O processo de mudanças não aconteceu à revelia, para eles; mas, a partir deles, com eles e de acordo com as expectativas deles. Diante de todas essas considerações, cabe reconhecer aqui – mesmo que parcialmente, pois a proposta oficial é externa à escola – a aplicação do conceito de André Chervel2, quando ele afirma que as disciplinas escolares se formam no interior da escola, pelas ações dos agentes que dela fazem parte, confirmando, portanto, uma cultura escolar. Trazendo para o debate as etapas históricas da matemática como um saber escolar no Brasil, desde os tempos dos colégios da Companhia de Jesus até a década de 1960, Wagner Rodrigues Valente marca sua presença na história das disciplinas escolares. Primeiramente, faz-se necessário problematizar se era intenção do autor, ao usar o termo etapas históricas, direcionar o leitor para os momentos determinantes da matemática como saber escolar, ou para uma análise histórica dos momentos determinantes. Na realidade, o leitor é conduzido por esses dois norteamentos. Com efeito, iniciando pelo Brasil colônia, o autor, em meio a entrelaçamento de vozes, localiza a matemática dentro da obra pedagógica jesuítica, a qual se orientava para uma educação humanista clássica. Naquele quadro, no qual imperava a formação de cultura geral, a matemática, quando ensinada, prestava-se a uma função especulativa, sendo reorientada posteriormente para um saber técnico de formação de militares para a defesa da colônia. Segundo o autor, ocorreu naquele período a elaboração dos dois primeiros livros de matemática do Brasil, o que vinculou, a partir daí, o ensino de matemática aos livros didáticos. Uma mudança de status da disciplina ocorreu no pós-independência, quando planejavam criar universidades no país, e a matemática veio a se integrar em uma cultura escolar clássico-literária, ocorrendo, portanto, uma valorização das ciências no currículo escolar. 2. CHERVEL, A. A história das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria e Educação, Porto Alegre, 1990. 226 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 A propósito, um dado importante que concorre para reforçar o conceito de cultura escolar é a ação de um agente escolar. Nesse caso, Valente destaca a influência do professor de matemática Raja Gabaglia, do Colégio Pedro II, no processo de consolidação da matemática como disciplina escolar. Em seguida, situando a matemática a partir das reformas educacionais Francisco Campos e Capanema, o autor deixa aberto um convite à investigação sobre o impacto do Movimento da Matemática Moderna no quotidiano escolar brasileiro. As dificuldades, de acordo com Dominique Julia3, no fazer de uma história das disciplinas escolares, “reside em que se deve manter juntos todos os fios dessa história sem abandonar nenhum deles”. Essas dificuldades parecem, no entanto, ser bem superadas pela pesquisadora Deise C. L. Picanço, quando se propõe a realizar um estudo sobre o espanhol como disciplina escolar no Paraná. Para compor a sua pesquisa, apela para fontes tais como: legislações, editais, currículos, programas, livros didáticos, jornais, revistas, depoimento de sujeitos envolvidos “pessoal ou profissionalmente com o ensino de espanhol”. No trato dessas fontes, entrelaçam-se vozes como as de Viñao Frago, Bakhtin, Roger Chartier, entre outras. Posto isso, ao analisar, historicamente, a configuração do espanhol como disciplina escolar, a autora apresenta, inicialmente, um breve panorama sobre o ensino de línguas no Brasil, situando nesse contexto como os fatores políticos e econômicos contribuíram para as continuidades e as rupturas do espanhol como saber escolar. À guisa de exemplo, a criação, nos anos de 1990, do bloco econômico Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), que determinou o ingresso do espanhol em várias escolas públicas e particulares, consolidando-o, então, como uma disciplina escolar. Questões de rupturas, também apontadas nos métodos de ensino de línguas (verifica-se um diálogo estabelecido com a lingüística), são construídas a partir das apropriações feitas pelos sujeitos escolares. Ao realizar esse procedimento na construção de seus estudos a autora fornece pistas sobre a sua orientação investigativa. 3. JULIA, D. Disciplinas escolares: objetivos, ensino e apropriação. In: LOPES, A. C. (org.). Disciplinas e integração curricular: histórias e políticas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. resenha Com a proposta de delinear o percurso da física na perspectiva dos livros didáticos utilizados no Brasil, Wagner Wuo empenhouse em traçar, primeiro e brevemente, a história das ciências, ou melhor, daquilo que identificamos hoje, segundo o autor, como ciência natural, remontando às origens, ou seja, às especulações dos filósofos gregos. O autor aponta os séculos XVI e XVII como os períodos nos quais se estabeleceu a noção de ciência tal qual a identificamos hoje. Nessa época, foram assentados os fundamentos conceituais, metodológicos e institucionais da ciência moderna, considerando, principalmente, as elaborações de Galileu, Descartes, Newton e Leibniz. Estes dois últimos foram os responsáveis pelo extraordinário impulso da física como ciência. Centrando-se no seu objetivo de analisar os livros didáticos, o autor preocupouse com a forma segundo a qual os diferentes conteúdos da física – como trabalho, força, inércia etc. – são aí tratados. Refere-se o autor a proximidades e/ou distâncias do tratamento da física, com o saber científico, não omitindo, contudo, a aplicação dos manuais de ensino no plano escolar. Para essa aplicação é colocada em evidência, de um lado, a importância da apresentação do conteúdo como um facilitador da atividade pedagógica, e, do outro, a dinâmica do professor, a sua apropriação do conteúdo como o fator determinante no processo ensino-aprendizagem. Por fim, ao desenvolver um estudo sobre a constituição, organização e finalidade da disciplina escolar história no Paraná nas três últimas décadas do século XX, balizada pelas questões o que ensinar, como ensinar, e para quem ensinar, na perspectiva do professor, as pesquisadoras Serlei M. F. Ranzi e Cleusa M. Fuckner remetem o estudioso imediatamente à idéia de um saber escolar sempre em construção. As autoras inferem que os professores são portadores diferentes representações dos professores sobre a disciplina história: existem aqueles que trabalham a história com múltiplas visões sobre o passado e outros que, na direção da concepção tradicional, pensam que a disciplina deve estudar a evolução da humanidade. Direcionando o estudo para a plasticidade da prática dos professores, ou seja, como eles se apropriam diferentemente de uma proposta pedagógica oficial, e para a hipótese da existência de tensão e conflito entre o que é formalmente proposto e os agentes chamados a cumprir a norma, no caso, os professores, as autoras direcionam os 227 228 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 pesquisadores, subliminarmente, é claro, para os conceitos de estratégia e tática, definidos por Michel de Certeau4. Segundo esse autor as estratégias – nesse caso, as formalidades – seriam elaboradas por aqueles que detêm o poder, para fazer perpetuar esse poder; e as táticas, as ações de sobrevivência dos agentes chamados a obedecer, “os diferentes modos de fazer” com essas formalidades. Concluindo, se a intenção dos organizadores desses estudos sobre a história das disciplinas escolares era fornecer subsídios para o debate, deve-se assinalar que a publicação desses artigos – uns mais horizontais e descritivos, outros verticalizando em suas análises e dialogando com conceitos da pesquisa histórica – ultrapassam o objetivo pretendido contribuindo para estabelecer e fortalecer a perspectiva de investigação que se quer fazer presente. Rita Cristina Lima Lages Mestranda em educação Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 4. CERTEAU, M. de. A invenção do quotidiano. São Paulo: Vozes, 1994. Orientação aos Colaboradores A Revista Brasileira de História da Educação publica artigos, resenhas, traduções e notas de leitura inéditos no Brasil, relacionados à história e à historiografia da educação, de autores brasileiros ou estrangeiros, escritos em português ou espanhol, reservando-se o direito de encomendar trabalhos e compor dossiês. Os artigos devem apresentar resultados de trabalhos de investigação e/ou de reflexão teórico-metodológica. As resenhas devem discorrer sobre o conteúdo da obra e efetuar um estudo crítico, além de poder versar sobre textos recentes ou já reconhecidos academicamente. As notas de leitura devem trazer uma notícia de publicação recente. Seleção dos trabalhos Os artigos são submetidos a dois pareceristas ad hoc, sendo necessário a aprovação por parte de ambos. No caso de divergência dos pareceres, o texto será encaminhado a um terceiro parecerista. A primeira página deve trazer o título da matéria, sem indicar nome e inserção institucional do autor. Deve conter também o resumo em português ou espanhol e o resumo em inglês (abstract), com extensão máxima de sete linhas, e cinco palavras-chave em português ou espanhol e em inglês. Em folha avulsa, o autor deve informar o título completo do artigo em português e em inglês, seu nome, titulação e instituição a que está vinculado, projetos de pesquisa dos quais participa, endereço, telefone e e-mail. As resenhas e notas de leitura são avaliadas pela Comissão Editorial. Normas gerais para aceitação de trabalhos Os originais devem ser encaminhados em três vias impressas e uma cópia em disquete, observando-se o formato: 3cm de margem superior, inferior e esquerda e 2cm de margem direita; espaço entre linhas de 1,5; fonte Times New Roman no corpo 12. Os trabalhos remetidos devem respeitar a seguinte padronização: Extensão mínima e máxima, respectivamente: • Artigos – de 30 mil caracteres a 60 mil caracteres (aproximadamente de 15 a 30 páginas). Cada resumo que acompanhar o artigo deverá ter, no máximo, 700 caracteres (contando 230 revista brasileira de história da educação n° 10 jul./dez. 2005 espaços). Para contar os caracteres no Word, no item “Ferramentas”, a opção “Contar palavras”. Para as palavras-chave, consultar as Bases de Dados: Lilacs, Medline, Sport Discus. • Resumos e abstracts – os resumos e abstracts dentro de cada artigo não devem ter mais de 4 linhas cada. • Resenhas – de 8 mil caracteres a 15 mil caracteres (aproximadamente de 4 a 8 páginas). • Notas de leitura – de 2 mil caracteres a 4 mil caracteres (aproximadamente de 1 a 2 páginas). As indicações bibliográficas, no corpo do texto, devem vir no formato sobrenome do autor, data de publicação e número da página entre parênteses, como, por exemplo, (Azevedo, 1946, p. 11). As referências no final do texto devem seguir as normas da ABNT NBR 6023:2002. Notas de rodapé, em numeração consecutiva, devem ter caráter explicativo. Vale notar que todas as citações devem vir entre aspas e não devem estar em itálico, salvo trechos que se deseja destacar. A Comissão Editorial não aceitará originais apresentados com outras configurações. A revista não devolve os originais submetidos à apreciação. Os direitos autorais referentes aos trabalhos publicados ficam cedidos por um ano à Revista Brasileira de História da Educação. Serão fornecidos gratuitamente aos autores de cada artigo cinco exemplares do número da revista em que seu texto foi publicado. Para as resenhas e notas de leitura publicadas, cada autor receberá dois exemplares. Os originais devem ser encaminhados à Comissão Editorial, com sede no Centro de Memória da Educação – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. Av. da Universidade, 308 – Bloco B – Terceira Fase – Sala 40, CEP 05508-900, São Paulo-SP. Informações adicionais podem ser obtidas no e-mail: [email protected] ou no telefone (11) 3091-3194, das 13h às 18h.