EDUCAÇÃO FAE-CAMPUS BH-UEMG EM FOCO Educação em Foco – ano 11, n. 11 (julho/2008) Belo Horizonte: Faculdade de Educação/Campus BH/UEMG, 1995 v. : il.; 21 x 15 cm Anual ISSN: 1519-3322 Educação – Brasil – periódicos 2 - Educação – América Latina Periódicos: I – Faculdade de Educação/CBH/UEMG COD - 370 Indexada em: • BBE: Biblioteca Brasileira de Educação (Brasília, INP) • Latindex: Sistema Regional de Información em Línea para Revistas Científicas de America Latina, el Caribe, Espana y Portugal. EDUCAÇÃO EM FOCO – Nº. 11 – 07/08 EXPEDIENTE A revista EDUCAÇÃO EM FOCO é editada semestralmente pelo centro de comunicação – FaE – Campus Belo Horizonte – UEMG - através de seu curso de Pedagogia e destina-se à divulgação de trabalhos relacionados a assuntos educacionais. Sobretudo aqueles ligados à escola pública. As opiniões emitidas nos artigos são de responsabilidade dos autores. Permite-se a reprodução total ou parcial dos artigos desta revista, desde que citada a fonte. Toda correspondência deve ser encaminhada ao seguinte endereço: EDUCAÇÃO EM FOCO Centro de comunicação – CenC FaE / CBH / UEMG Rua Paraíba, 29 – sala 704 BELO HORIZONTE – MG – 30130.140 CONSELHO EDITORIAL Prof. Dr. Almerindo Janela - Universidade do Porto (Portugal) Profª. Ms. Ana Teresa Drumond Rodrigues Profª. Ms. Belkiss Alves Nogueira Fonseca Profª. Dra. Eneida Maria Chaves – UFSJR Prof. Dr. José Carlos Libâneo – UFG Prof. Dr. Júlio César Furtado – UNIABEU Profª. Dra. Maria Inês Matos Coelho - UEMG Prof. Dra. Maria Aparecida da Silva – CEFET MG Profª. Maria Odília de Simoni – UEMG Prof. Dr. Mauro Henrique Nogueira Guimarães de Abreu – UFMG Prof. Dr. Max Haetinger – IESDE Profª. Ms. Santuza Abras – UEMG Prof. Ms. Tomaz de Andrade Nogueira – UEMG EDITOR Tomaz de Andrade Nogueira CAPA Prof. Silvestre Rondon Curvo/ Escola de Design da UEMG Ilustração - Monumento em bronze da figura de Apolo, representando o heroísmo mineiro, o cidadão e o estado na Homenagem à “Civilização Mineira” de Giulio Sarace. Inaugurado em 15/07/1930 – Praça da Estação/BH. FACULDADE DE EDUCAÇÃO Rua Paraíba, 29 BELO HORIZONTE - MG - Cep: 30130.140 Tele fax: (31) 3274 -3332 - e-mail: [email protected] Diretora Profª. Dolores Maria Borges de Amorim Vice-diretora Profª Lélia Lombardo Vieira Alves Coordenadora Profª. Ofélia de Souza Vieira Secretária Acadêmica Irene Machado de Abreu CENTRO DE COMUNICAÇÃO Rua Paraíba, 29 - sala 704 BELO HORIZONTE - MG - 30130.140 Tele fax: (31) 3274 3332 - e-mail: [email protected] www.centrodecomunicacaofae.blogspot.com Coordenador Prof. Tomaz de Andrade Nogueira Secretária Iolanda de Fátima Guilherme Estagiário Arthur Esteves da Costa UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS Rua Rio de Janeiro, 1801 - Bairro de Lourdes BELO HORIZONTE - MG - Cep: 30160042 Fone: (31) 3295 1500 - Fax: (31) 3296 3002 e-mail: [email protected] Reitora Profª. Janete Gomes Barreto Paiva Vice-Reitor Prof. Dijon de Moraes Jr. Chefe de Gabinete Ivan Arruda de Oliveira Pró- Reitor de Planejamento, Gestão e Finanças Prof. Mário Fernando Valeriano Soares Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação Profª Magda Lúcia Chamon Pró-Reitora de Ensino e Extensão Profª. Neide Wood de Almeida Diretora Geral do Campus Belo Horizonte Profª. Santuza Abras 5. 7. 8. 27. 50. 66. SUMÁRIO Editorial Normas para publicação Educação e formação humana na contemporaneidade: eixos da proposta do mestrado em Educação da FaE-UEMG Maria Inês de Matos Coelho Prédios escolares e suas marcas - o território das práticas curriculares José Cosme Drumond Apenas um olhar sobre a inclusão-exclusão na escola e na sociedade Frederico Antônio de Araújo Burnout entre docentes dos anos iniciais do ensino fundamental Mauro Henrique Nogueira Guimarães de Abreu 88. Formação de professores para o uso pedagógico de tecnologias de informação e de comunicação na prática da educação básica Cynthia Rúbia Braga Gontijo 107. Interface entre Educação e Saúde: descrevendo uma estratégia educativa propícia ao diálogo, reflexão e troca de experiências sobre sexualidade com adolescentes Maria José Nogueira 127. Professoras Principiantes: construção do saber profissional Gleicione Aparecida Dias Bagne de Souza EDITORIAL Faculdade de Educação/CBH/UEMG – perspectivas e possibilidades de trilhar novos caminhos rumo à melhoria da Educação em nosso país. Neste ano de 2008 o Centro de Comunicação da Faculdade de Educação que ocupa, no novo prédio, espaço físico mais condizente com suas produções e realizações, apresenta a Revista Educação em Foco com novo formato, diagramação diferenciada e edição semestral. Ultrapassando o período de crise que antecedeu este momento, as publicações da FaE/CBH/UEMG têm obedecido o cronograma estabelecido e se apresentado com maior regularidade. Com número crescente de publicações científicas na área da educação, a Revista Educação em Foco segue cumprindo seu objetivo de levar ao público leitor artigos, muitos deles oriundos de novos conhecimentos construídos e adquiridos através da qualificação de nossos docentes em Programas de Mestrado e Doutorado, ou da participação em projetos de Pesquisa e Extensão, da produção científica da equipe do Projeto de Mestrado Institucional da FaE/CBH/UEMG. Educação em Foco, número 11, traz matérias instigantes. No artigo “Formação de Professores para o uso pedagógico de Tecnologias de Informação e de Comunicação na prática da Educação Básica” a autora conclui que, embora os professores ressaltem a importância de formação para o uso das TICs, esta formação de modo geral ainda depende de iniciativas particulares de colegas que emergem como líderes conduzindo a um entusiasmo de alunos e professores sobre a matéria. Neste exemplar também pode-se encontrar o artigo “Prédios escolares e suas marcas – o território das práticas curriculares”. Nos resultados desta investigação chega-se a três arquiteturas: a do lugar da escola e das edificações propícias à realização do currículo; a da reordenação dos espaços a partir dos projetos de currículo e a da constituição de ambientes curriculares. O autor dá mais ênfase à primeira arquitetura, fazendo uma análise sobre as fachadas dos prédios como marco identitário da escola. No artigo “Apenas um olhar sobre a inclusão-exclusão na escola e na sociedade” o autor resgata historicamente a questão dos movimentos sociais e a educação sob um olhar para a inclusão e exclusão na escola e na sociedade, retomando a época dos anos sessenta até os dias atuais. E declara que “imaginar uma sociedade verdadeiramente múltipla e plural é ainda um sonho”, mas complementa: “quem disse que os sonhos não podem tornar-se EDUCAÇÃO EM FOCO 5 realidade, sobretudo quando não se sonha só?” O assunto “Burnout entre docentes dos anos iniciais do ensino fundamental” é outra matéria desta edição. O trabalho teve como objetivo verificar a existência dessa condição em docentes atuantes no Ensino Fundamental de Belo Horizonte e mensurar a associação entre variáveis sócio-demográficas, profissionais e psicossociais nas dimensões do Burnout (despersonalização, exaustão emocional e realização profissional). A equipe do Projeto de Mestrado Institucional contribui neste número com o artigo “Educação e Formação Humana na contemporaneidade: eixos da proposta do Mestrado em Educação da FaE/CBH/UEMG”. O texto visa provocar uma discussão dos aspectos básicos – educação e formação humana – que definem a proposta de Mestrado em Educação que está sendo criado na Faculdade de Educação-CBH-UEMG, recomendado recentemente pela CAPES, esclarecendo a perspectiva do Programa proposto. 6 Fazendo uma interlocução desejável e necessária com a área de educação, as autoras, pesquisadoras do Instituto René Rachou, apresentam o artigo “Interface entre Educação e Saúde: descrevendo uma estratégia educativa propícia ao diálogo, reflexão e troca de experiências sobre sexualidade com adolescentes”. A pesquisa de abordagem qualitativa, na perspectiva de pesquisa participante, foi realizada na Vila Cafezal, Aglomerado da Serra, região centro-sul de Belo Horizonte e seus resultados apontam para a viabilidade de um espaço propício à reflexão, ao diálogo e à troca de experiências nos vários campos do saber. Para finalizar, o artigo “Professoras principiantes: construção do saber profissional”. O texto explora o contexto do professor principiante, seus conflitos, incorporados a situações complexas que exigem presteza nas respostas, no que se refere à escola, à educação, ao currículo, aos alunos e ao próprio trabalho em si. O objetivo geral da pesquisa é identificar representações de ex-alunas da UFMG e da Universidade do Minho – em Portugal e informar-se acerca da formação inicial dos dois grupos no que tange às influências dessa formação nos enfrentamentos do cotidiano docente, bem como verificar se há aplicabilidade das disciplinas ofertadas na formação inicial e a relação das mesmas na atuação profissional. Como o leitor pode avaliar, este número 11º da Educação em Foco, como os que o antecederam, traz sete artigos que divulgam trabalhos de excelência, buscando frente às perspectivas e possibilidades que se apresentam, cada vez mais trilhar novos caminhos rumo à melhoria da educação em nosso país. Profa. Santuza Abras Diretora Geral do CAMPUS BH/UEMG EDUCAÇÃO EM FOCO NORMAS PARA PUBLICAÇÃO A remessa dos originais deve seguir os seguintes critérios: 1. A revista Educação em Foco é uma publicação semestral do Centro de Comunicação da Faculdade de Educação, Campus Belo Horizonte, Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG – e aceita para análise trabalhos científicos redigidos em Português, Espanhol e Inglês relacionados com Educação. 2. O trabalho será submetido ao julgamento de especialistas do Conselho Editorial, cujas áreas de competência estão relacionadas com o tema do texto. Os avaliadores não terão conhecimento do nome do autor e viceversa e serão publicados aqueles com pareceres favoráveis. 3. O trabalho reflete as opiniões de seu autor e não obrigatoriamente do Conselho Editorial. Ele deve ser inédito. Uma vez publicado na revista Educação em Foco, o artigo pode ser reproduzido com a indicação da fonte original. 4. O trabalho – com suas ilustrações, gráficos, tabelas e referências bibliográficas – deverá ter entre 15 e 20 laudas digitadas em espaço 1,5, em fonte tipo Arial, tamanho 12, com 30 linhas de 70 toques (máximo 42.000 caracteres). 5. Três cópias impressas do artigo deverão ser encaminhadas em uma única face e uma cópia digitada no programa Word for Windows, em CD, além de uma declaração autorizando sua publicação na revista. 6. Os trabalhos não serão devolvidos ao autor. 7. Na página inicial, deverão constar o título do artigo, o nome do autor/ autores, titulação, instituição onde trabalha/m e endereço completo – inclusive e-mail. 8. Acompanhando o artigo, um resumo com no mínimo 100 e no máximo 150 palavras. Ao resumo devem se seguir 3 a 5 palavras-chave. 9. Ao final do artigo, deve ser colocada a referência pertinente, de acordo com a ABNT. 10. Três exemplares do número da revista em que seu trabalho foi publicado serão fornecidos ao autor. 11. As colaborações deverão ser enviadas para o endereço: Educação em Foco – Centro de Comunicação – CenC – da FaE/CBH/ UEMG Rua Paraíba, 29 – sala 704 BELO HORIZONTE – MG – Cep: 30.130-140 Telefax: (31)3274-3332 - e-mail: [email protected] EDUCAÇÃO EM FOCO 7 EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO HUMANA NA CONTEMPORANEIDADE: EIXOS DA PROPOSTA DO MESTRADO EM EDUCAÇÃO DA FAE-UEMG1 Maria Inês de Matos Coelho2 FaE-UEMG, E-mail: [email protected] Ana Amélia Borges de Magalhães Lopes Anna Edith Bellico da Costa André Márcio Picanço Favacho Áurea Regina Guimarães Thomazi Bernardo Monteiro de Castro Cláudio Lúcio Mendes Isabel de Oliveira e Silva José Pereira Peixoto Filho 8 Júlio Flávio de Figueiredo Fernandes Regina Célia Pereira Campos Santuza Amorim Silva Vera Lucia Ferreira Alves de Brito 1 Este ensaio está articulado com os elementos apresentados em proposta de Mestrado em Educação da FaE-CBH-UEMG encaminhada à CAPES em 31 de março de 2008 e aprovada em 31 de julho de 2008. 2 Doutora em Educação, Professora Emérita da FaE-CBH-UEMG e Coordenadora do Programa de Pós-graduação stricto-sensu - Mestrado em Educação, na FaE-CBH-UEMG desde março de 2007. Os demais autores são todos Doutores e também são membros do corpo docente do Mestrado em Educação da FaE-CBHUEMG. EDUCAÇÃO EM FOCO RESUMO E ste artigo apresenta aspectos básicos da proposta de Mestrado em Educação da Faculdade de Educação – UEMG, que foi aprovada pela CAPES em julho de 2008. Com o objetivo de esclarecer a perspectiva do Programa aprovado, consideramos a sua viabilidade institucional e seu objeto de estudo - a relação entre formação humana e educação. A parte final do ensaio analisa o trabalho como categoria central na formação humana e as conseqüências que as mudanças no capitalismo contemporâneo têm para o mundo do trabalho e, especificamente, para formação humana e educação. PALAVRAS-CHAVE: Educação e Formação Humana / Trabalho, Educação e Formação humana / Políticas Públicas e Formação Humana / Educação e Inclusão social / Mundo do trabalho e Educação ABSTRACT T his paper presents the basic aspects of the UEMG’s Education Mastership proposal that has been approved by CAPES in July 2008. With the aim of clarifying the perspective of the approved Program, we consider its institutional viability and its study object - the relationship between human formation and education. The final part of the essay analyses the labor/work as a central category in human formation and the consequences that changes in the contemporary capitalism have to the world of the work and, specifically, to human formation and education. KEY-WORDS: Education and Human Formation / Labor, Work, Education and Human Formation/ Public Politics and Human Formation / Education and Social Inclusion / World of work and Education EDUCAÇÃO EM FOCO 9 INTRODUÇÃO Por que educação e formação humana na contemporaneidade?3 Educação e formação humana constituem um tema que tem sido cada vez mais referenciado como eixo de limites ou de possibilidades nos debates a respeito das questões e dos desafios da contemporaneidade. Práticas culturais e formas de sociabilidade são inquiridas quanto ao papel na luta por humanização, diante de realidades desumanizadoras. 10 Dialogando com Paulo Freire, compreendemos que as possibilidades de humanização como vocação histórica têm raízes na inconclusão dos seres humanos que se encontram “num permanente movimento de busca”. Essa é a base da relação entre educação e formação humana. A formação humana envolve historicamente processos humanizadores e desumanizadores, que tensionam a transformação de homens e mulheres em seres menos incompletos no esforço de “ser mais”. Trazendo, para esse diálogo, o pensamento de Larrosa (2000, p.12), abrimos um caminho para superar uma visão clássica em que “formar significa, de um lado, dar forma e desenvolver um conjunto de disposições preexistentes [...] e de levar o homem até a conformidade em relação a um modelo ideal do que é ‘ser humano’ que foi fixado e assegurado de antemão”. Formação é, então, pensada como “uma aventura”, “uma viagem aberta e interior” sem uma idéia prescrita de seu itinerário e sem modelo normativo de seu resultado, do que é “ser plenamente humano” (COELHO, 2008). Como explica Larrosa (2000, p.52-53), a experiência formativa com base na expressão alemã erfahrung seria “o que acontece numa viagem e que tem a suficiente força como para que alguém se volte para si mesmo, para que a viagem seja uma viagem interior”. Portanto, apostaríamos em estudar a formação como “um devir plural e criativo” (Ibid, p.139), o que implica considerar que nosso objeto “[...] é um alguém, a constituição desse alguém e [...] a eventual transformação desse alguém” (Ibid, p.52). 3 Este ensaio se baseia em documentos de APCN enviados à CAPES (FaE-UEMG, 2006, 2007, 2008) e em textos acadêmicos de Coelho (2005, 2008). EDUCAÇÃO EM FOCO O objetivo deste texto é problematizar e sistematizar algumas questões atuais que se articulam em área de estudos, que explicitam desafios para a pesquisa em Educação e Formação Humana e que definem a proposta de Mestrado em Educação da Faculdade de Educação UEMG4. A primeira parte do artigo apresenta os principais fatores da viabilidade institucional do programa. A segunda parte analisa concepções e razões que justificam a relação entre formação humana e educação como objeto de estudo na proposta. A parte final traz a questão do trabalho, como categoria central, e das conseqüências que as mudanças no capitalismo contemporâneo têm no mundo do trabalho e, especificamente, na formação humana e educação. O MESTRADO E SUA VIABILIDADE INSTITUCIONAL A proposta do Programa de Pós-graduação stricto-sensu em Educação (Mestrado) tem fundamentos e dá continuidade à atuação da Faculdade de Educação do Campus de Belo Horizonte da UEMG, que tem sido significativa na elaboração de conhecimentos, na abordagem crítica e construtiva dos problemas educacionais no estado e no país e na formação de profissionais da educação, primeiro, em nível pós-médio, no período de 1928 a 1970, e a partir desta data em nível superior; depois, a partir dos anos 80, expandindo o ensino de pós-graduação lato-sensu. O trabalho da FaE-UEMG foi reconhecido, em 20 de outubro de 2005, com o Diploma de Honra ao Mérito que foi atribuído pela Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH). Salientam-se, ainda, as atividades de pesquisa e de extensão, desenvolvidas pela FaE-UEMG na interface com órgãos públicos, instituições e processos educacionais formais e não formais e movimentos sociais. 4 A proposta do Mestrado em Educação da FaE-UEMG, aprovada pela CAPES em 31 de julho de 2008, resulta de estudos e projeto pedagógico, cujo desenvolvimento iniciado em abril de 2006, vem sendo coordenado pela Profa. Dra. Maria Inês de Matos Coelho. Vem se promovendo um processo de integração dos docentes, sua formação e produção acadêmicas conjuntas com vistas ao trabalho de organização e maturação dos grupos de pesquisa que irão responder pelas atividades regulares de ensino, pesquisa e orientação do Programa, cuja implantação se inicia. EDUCAÇÃO EM FOCO 11 Outro reconhecimento veio com a mais importante premiação do Ministério de Educação para programas de alfabetização, a Medalha Paulo Freire de 2005, criada por Decreto Federal no 4 834, de 8 de setembro de 2003, que a FaE-CBH-UEMG recebeu pelo Projeto Educação, Campo e Consciência Cidadã, inserido no Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA. Esse Projeto de extensão da FaE/UEMG, em parceria com o Departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa (DPE/UFV), a Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina - FAFIDIA/UEMG, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (FETAEMG) e o INCRA, visa promover a alfabetização/escolarização e a formação cidadã de jovens e adultos, trabalhadores do campo nos assentamentos e acampamentos dos movimentos sociais MST e FAETAEMG. 12 A experiência de pesquisa dos docentes tem sido construída no processo de qualificação, na prática de orientação de trabalhos de iniciação científica e de trabalhos de conclusão de curso de graduação, e em grupos de pesquisa, com apoio institucional e/ou de agências de fomento (FAPEMIG e CNPq). Na FaE-UEMG, atuam o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Psicologia e Psicopedagogia, o Núcleo de Estudos sobre Trabalho Docente, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em História da Educação, o Núcleo de Estudos e Pesquisas de Avaliação em Educação, e o Núcleo de Estudos sobre Educação, Comunicação e Tecnologia com interfaces com o Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologias Interativas de Aprendizagem e o Centro de Estudos e Pesquisa em Educação a Distância – CEPEAD/UEMG. Destaca-se o desenvolvimento de projeto de ensino e pesquisa, aprovado pela CAPES/CETEC, na área da Educação Profissional Integrada à Educação Básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos EPIEJA. Nele, a FaE-CBH-UEMG participa em parceria com o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais–CEFET-MG (coordenação), a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais–FaE-UFMG, o Centro Federal de Educação Tecnológica de Januária, em Minas Gerais-CEFET-Januária, e a Universidade Federal de Viçosa-UFV. EDUCAÇÃO EM FOCO Em 2006, através de convênio entre a FaE-CBH-UEMG e o Programa de Pós-graduação em Educação da UERJ (ProPed-UERJ), foi viabilizado o MINTER-Mestrado Interinstucional em Educação. Consolidam-se assim esforços institucionais de formar profissionais capazes de desenvolver ensino, pesquisa e extensão, de fortalecer o curso de graduação em Pedagogia, ensejando a capacitação em nível de mestrado de docentes que nele atuam, e de possibilitar intercâmbio com Programa de Pós-graduação, que é, avaliado, pela CAPES, como um dos quatro de excelência no país. Inicialmente aprovada pelo Conselho Departamental da FaE-CBHUEMG, a proposta foi também aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão e pelo Conselho Universitário da UEMG, em 21 de março de 2007, após um amplo processo de formulação e discussão, tanto na definição da área de concentração e da estrutura curricular quanto na composição do quadro docente, no Comitê Central de Pósgraduação stricto sensu da UEMG. A Resolução CONUM/UEMG nº 129/2007 de 21 de março de 2007 autorizou a criação do Programa. Há, portanto, um compromisso institucional da UEMG com a implantação do Programa de Pós-graduação stricto sensu em Educação Curso de Mestrado em Educação (PPGE), estando o mesmo definido como meta em seu Plano Estratégico (2008-2012) e como parte de Acordo de Gestão no âmbito do Governo do Estado de Minas Gerais. A proposta do Programa de Pós-graduação stricto-sensu - Mestrado em Educação - representa um estágio de maior desenvolvimento da área de educação no âmbito da UEMG. Embora tenha havido, ao longo dos últimos quinze anos, um aumento significativo no número de mestres e doutores, a própria UEMG enfrenta o desafio de ampliar a qualificação do corpo docente que, nos campi regionais, aínda é constituído, em mais de 50%, por especialistas e graduados. Portanto a Universidade precisa atuar para atender as demandas de formação de docentes no seu próprio âmbito. Também precisa atender necessidades de preparação de profissionais da educação de setores públicos, estadual e municipais, e privados nas micro-regiões em que se situam os seus campi em Minas Gerais, especialmente atendendo à necessidade de formação dos profissionais da Educação Básica. Na área de influência do Campus de Belo Horizonte, onde se situa o Programa, profissionais EDUCAÇÃO EM FOCO 13 graduados pela Faculdade de Educação, da Escola de Design, da Escola Guignard e da Escola de Música, unidades universitárias desse Campus, bem como por outras instituições de ensino superior, poderão contar com oportunidade de continuar e aprofundar a preparação para atuar como professores de educação básica e superior ou como profissionais, técnicos e pesquisadores, dos setores, público e privado. Com esse programa, busca-se possibilitar uma importante alternativa de construir formação teórico-investigativa com aqueles que, em razão de seu comprometimento social, retomam a problemática da formação humana e buscam respostas inovadoras para os desafios ligados à efetiva democratização da sociedade contemporânea. Alguns fundamentos desta proposta são aqui apresentados tendo como foco a relação entre Educação, Trabalho e Formação Humana. POR QUE EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO HUMANA?5 14 Considera-se que profundas mudanças no campo econômico, sociocultural, ético-político, ideológico e teórico marcaram as últimas décadas do século XX e o início do século XXI e continuam se ampliando de tal forma que se explicita uma tríplice crise. São vários os aspectos em crise, destacando-se os modelos produtivos na sua base material de produção e reprodução, os modos de produzir e fazer circular as mercadorias, as formas de socialização, a própria cultura, os modos de vida das pessoas, bem como os instrumentos de pensamento utilizados para explicar a realidade e planejar o futuro. Esta crise é definida por Mészáros (2002) como sendo o fim da capacidade civilizatória do capital, uma vez que, agora, para manter as taxas históricas de exploração, o capital tem que destruir um a um os direitos conquistados no contexto das políticas do Estado de bemestar social e subordina a ciência e a técnica aos processos de exclusão. Como resposta, há uma tendência de pensamento único, de solução 5 Esta parte do ensaio apresenta fundamentos da proposta desenvolvidos por Coelho (2006, 2008 ) e lados no documento da FaE-UEMG (2007, 2008). articulados no documento da FaE-UEMG (2007, 2008). EDUCAÇÃO EM FOCO única para a crise e, conseqüentemente, irreversível, que Bourdieu e Wacquant (2002) denominam de “nova língua” e que se constrói com as noções de globalização, reestruturação produtiva, sociedade pósindustrial, sociedade pós-classista, sociedade do conhecimento, Estado mínimo, reengenharia, qualidade total e empregabilidade. Portanto, esta é também uma crise do pensamento utópico. “Um pensamento alternativo de alternativas” se faz necessário, argumenta Sousa Santos (1999, 2003), afirmando que a reconstrução da tensão entre regulação social e emancipação social é condição para voltar a pensar e querer a transformação social emancipatória. Para esse autor (1999), há, de um lado, o peso inercial das estruturas, a reiteração das lógicas da dominação, as razões conformistas ou indolentes. De outro, o trabalho de subjetivar, amolecer, flexibilizar e, no limite, corroer os limites do possível a cada momento e cada situação através da formação de novas vontades sociais de emancipação. Logo, é necessário repolitizar e radicalizar os direitos humanos e a democracia, ou seja, reinventar a tensão entre democracia e capitalismo, para construir alternativas. Nessa perspectiva, a busca de projetos societários e educativos alternativos centra-se na idéia-força de que um outro mundo é possível e uma outra educação é possível. Nela, como fio condutor, o ser humano é o parâmetro da vida, do desenvolvimento, da economia, da educação, e de todas as práticas sociais. A referência deixa de ser, portanto, o lucro, o mercado, a competição, a concorrência. Tendo como ponto de partida a compreensão da crise da sociedade contemporânea, o desafio é construir formas alternativas de relações sociais e de cidadania e formação humana de cunho democrático, que tenham como referência o ser humano em suas necessidades, potencialidades e cultura vivida. Assim, caminhos são explorados para gerar um novo modelo civilizatório. Isso implica afirmar a educação, em todas as suas dimensões e espaços, como um processo social formador de todas as dimensões do ser humano. Mas que processo social formador é esse? De forma mais específica, “a questão que se põe é, então, que educação e que processos de conhecimento articulam o projeto societário inclusivo onde o ser humano é o parâmetro?” (FRIGOTTO, 2005, p.16). Consideramos, com Mészáros (2005), que a superação de uma EDUCAÇÃO EM FOCO 15 educação orientada pelo capital se desenvolve pelo confronto e pela alteração fundamental de “todo o sistema de internalização, com todas as suas dimensões, visíveis e ocultas” (grifos do autor, p.47). Um rompimento com a lógica do capital na área educacional se dá pela substituição de seus processos de internalização por uma alternativa concreta em que os indivíduos excluam criticamente as metas de reprodução objetivamente possíveis do capital e elaborem outras perspectivas de formação das dimensões humanas e humanizadoras a que têm direito. A omnilateralidade é o horizonte, como afirma Manacorda (apud GADOTTI, 1995, p. 58): 16 A omnilateralidade é, pois, o chegar histórico do homem a uma totalidade de capacidades e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidade de consumo e gozo, em que se deve considerar, sobretudo, o usufruir dos bens espirituais, além dos materiais de que o trabalhador tem estado excluído em conseqüência da divisão do trabalho. Educação e formação humana vinculam-se com omnilateralidade, autonomia e emancipação. Implicam, portanto, processos globais da formação do ser humano, cujos objetivos e características ultrapassam a idéia estreita de ensino como sistematização de conhecimentos e transmissão de conteúdos escolares. Como salienta Rodrigues (2001, p.249), “o Homem educado é aquele que atingiu a sua maioridade, que se emancipou de todos os que foram os condutores dos seus primeiros passos. Ao se emancipar, torna-se o condutor do próprio processo de reformação, de auto-desenvolvimento”. Por um lado, nesta concepção, é central “ter o ser humano e sua humanização como problema pedagógico”, como salienta Arroyo (2000, p. 14). Por outro lado, Paulo Freire (1986, p.25) argumenta que “além de um ato de conhecimento, a educação é também um ato político”. Portanto, [...] como experiência especificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço de reprodução da ideologia EDUCAÇÃO EM FOCO dominante quanto o seu desmascaramento (FREIRE, 1996, p. 110, grifos do original). Tomando como referência a formação humana, interessa-nos uma concepção alargada de educação que compreende essa prática “para além da escola” e do fenômeno educativo, em diferentes e múltiplos processos sociais. Nesse sentido como Arroyo (1998, p. 147) esclarece: [...] a escola não é o único espaço de formação, de aprendizado e de cultura. O fenômeno educativo acontece em outros espaços e tempos sociais, em outras instituições, nas fábricas, nas igrejas e terreiros, nas famílias e empresas, na rua e nos tempos de lazer, de celebração e comemoração, no trabalho [...] a educação acontece de formas muito diferenciadas (ARROYO,1998, p. 147). Nessa concepção alargada, a educação deve ser “universal não apenas no sentido de para todos, mas de dar conta da universalidade, pluralidade, omnilateralidade das dimensões humanas e humanizadoras a que todo indivíduo tem direito por ser e para ser humano” (Id., p. 155). Humanização como possibilidade “afirmada no anseio de liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela recuperação de sua humanidade roubada”, como defende Paulo Freire (1987, p. 30), deve ser o objeto de nossos esforços diante de uma realidade que insiste em nos desumanizar. Além de questionarmos as “visões estreitas de educação”, devemos segundo Adorno (1995, p. 140), fixar a função educacional como “uma exigência política”. Isso quer dizer, construir efetivamente a relação entre educação, emancipação e democracia. FORMAÇÃO HUMANA EM RELAÇÕES ESPECÍFICAS COM TRABALHO E EDUCAÇÃO6 O ponto de partida para compreender a formação humana é elucidar o que é o homem; quais são as determinações fundamentais que 6 Fundamentos desenvolvidos e apresentados por Coelho (2005, 2008) e no documento da FaE-UEMG (2008, tela 4). EDUCAÇÃO EM FOCO 17 demarcam o processo de tornar-se humano. Nesse processo são fundamentais o trabalho e a educação 18 Para a compreensão dos processos educacionais, é essencial entender a centralidade do trabalho. Isso significa entendê-lo como categoria fundante do homem como ser social, ou seja, a relação social básica e primeira que os homens estabelecem na relação com a natureza. Pelo trabalho, manifesta-se uma primeira dimensão de liberdade como autodeterminação, aquela que se dá quando os homens se livram das limitações impostas pela natureza. O que marca a centralidade do trabalho é que , ao atuar e transformar a natureza, os homens transformam a natureza em objetos e também transformam a si próprios. Há, portanto, no trabalho um princípio educativo. Em sua condição ontológica de categoria constitutiva do ser social, o trabalho diferencia-se da sua forma histórica, degradada e alienada, sob o domínio das relações capitalistas de produção. Considerando essa dimensão negativa do trabalho, é preciso buscar, como afirma Oliveira (2000, p. 67), “resgatar o trabalho como criação da autodeterminação humana, como recuperação do ser genérico, ou do que é propriamente o humano”. Essa é a perspectiva de pensar alternativo de emancipação social, desenvolvida por autores como Frigotto (1998), Antunes (1999, 2005) e Sousa Santos (1999, 2003), que enfrentam a polêmica com autores como André Gorz, Claus Offe, Jürgen Habermas e Robert Kurz, que vislumbram o desaparecimento do trabalho nos avanços tecnológicos e científicos dos meios de produção. A educação, meio para o desenvolvimento e emancipação do sujeito, assume o trabalho como princípio educativo e a formação omnilateral (MACHADO, 1989 e NOSELA, 1991; 1992). Para Frigotto (1989, p.27), assumir o trabalho como princípio educativo na perspectiva do trabalhador, implica superar a visão utilitarista, reducionista de trabalho. Implica inverter a relação situando o homem e todos os homens como sujeito do seu devir. Esse é um processo coletivo, organizado, de busca prática de transformação das relações sociais desumanizadoras e, portanto, deseducativas. A consciência crítica é o primeiro elemento deste processo que permite perceber que é dentro destas velhas e adversas rela- EDUCAÇÃO EM FOCO ções sociais que podemos construir outras relações, onde o trabalho se torne manifestação de vida e, portanto, educativo. Quanto ao vínculo entre trabalho e formação, é necessário entender que a omnilateralidade humana transcende em muito a esfera do trabalho embora nela tenha sua base histórica. Assim amplia-se o entendimento, que nos possibilitam Marx (1988) e Lukács (1978), de que, por intermédio do ato do trabalho, se realiza o salto ontológico do ser natural ao ser social. Como afirma Antunes (1995, p.84 - 85), o trabalho não poderá jamais ser confundido como o momento único ou totalizante, e a esfera do trabalho concreto é ponto de partida sob o qual se poderá instaurar uma nova sociedade e uma formação omnilateral. É fundamental considerar a dialética da centralidade do trabalho (MAAR, 2006). A situação concreta da sociedade do trabalho é determinada a partir de sua base econômica pela perspectiva da acumulação do capital, e é determinante seja dos indivíduos que atuam e trabalham na sociedade, seja das suas relações sociais, seja das suas relações com a natureza. A partir dessa concretude, é necessário decantar o trabalho como elemento contraditório essencial à reprodução da sociedade por um prisma humano. Por esse prisma pode-se configurar, como contraponto à sociedade vigente do trabalho, da formação social pela perspectiva do capital e suas determinações, uma configuração da sociedade pela perspectiva do trabalho, um “modelo” de sociedade contraposto e crítico em relação àquele do modo de produção capitalista. O sentido humanista, emancipatório, da centralidade do trabalho, não se efetiva na sociedade do trabalho, mas em uma sociedade pela perspectiva do trabalho. Nesta última o trabalho social não se vincula, como ocorre na sociedade do trabalho, à alienação nas relações entre os homens, nem à alienação nas relações com a natureza (MAAR, 2006). À vista dos aspectos apontados, a proposta do Mestrado em Educação EDUCAÇÃO EM FOCO 19 da FaE-CBH-UEMG norteia-se pela questão do trabalho no capitalismo contemporâneo e de suas implicações na formação humana. Discute as teorias que tentam desconstruir ou relativizar a centralidade do trabalho na sociedade e analisa como seu papel central, seja para a sustentação do capitalismo seja para a sua superação, não lhe é retirado pelas transformações tecnológicas e científicas e suas influências nas formas de exploração e acumulação do capital na contemporaneidade. Trata-se, portanto, de buscar compreender o significado das profundas mutações em curso no mundo do trabalho e os processos formativos humanos na atual fase destrutiva e regressiva do capital, analisando-os a fundo e atuando na perspectiva de luta pela superação desse sistema. O propósito é desenvolver pensamento alternativo de alternativas de relações sociais e processos educativos e de formação na perspectiva de construção de uma sociedade inclusiva, solidária e radicalmente democrática e, portanto, de uma cidadania efetiva e de uma educação humanizadora. 20 Nesse sentido, a área de concentração em Educação e Formação Humana problematiza a pluralidade dos tempos, espaços e relações nos processos educativos e de constituição humana considerando como fundamentais as vivências existenciais na formação dos seres humanos como sujeitos culturais, sociais, éticos, coletivos, espaciais, históricos, de memória. O conjunto das experiências vividas e os significados a elas conferidos pelos que as vivenciam são considerados numa perspectiva de ampliar a compreensão da relação entre educação, formação humana e emancipação (FaE-UEMG, 2008, tela 5, p.1). São duas as Linhas de Pesquisa. A linha de pesquisa Sociedade, Educação e Formação Humana considera a formação humana como um conceito amplo, que abrange o ser humano em seu desenvolvimento físico, psíquico, intelectual, cultural, social nas relações com educação e trabalho. Suas reflexões assinalam que os processos formativos da infância e as relações adultas do mundo do trabalho não são distintos, mas, na perspectiva da formação humana, merecem ser pensados de forma completamente imbricada, pois mesmo que sofram as determinações histórico-culturais das construções humanas, trazem o potencial de mudança, de crescimento e aprendizagem de cada sujeito. São investigados processos globais da formação do ser EDUCAÇÃO EM FOCO humano em vínculo com emancipação e autonomia, cujos objetivos e características ultrapassam a idéia estreita de ensino como sistematização de conhecimentos e transmissão de conteúdos escolares. Investiga a construção de subjetividade, de exercício da sociabilidade e de produção de conhecimento, as exigências formativas e a socialização necessária e implicações para a educação considerando os aspectoshistóricos, econômicos e políticos da sociedade contemporânea. Os trabalhos buscam desenvolver construção teórica interdisciplinar das relações entre formação humana, processos de construção e socialização de conhecimento, processos de aprendizagem, de produção de subjetividades, de constituição de identidades pelos sujeitos e as práticas educativas em múltiplos espaços, escolares e não escolares (FAE-UEMG, 2008, tela 5, p.2). A linha de pesquisa Educação, Trabalho e Formação Humana considera o trabalho como práxis humana, ou seja, o trabalho em sua dimensão de constituição do gênero humano e das sociedades humanas em suas múltiplas possibilidades; as condições sociais e históricas das dimensões produtivas, reprodutivas e destrutivas do trabalho e da força de trabalho e de sua heterogeneidade. Assume-se como perspectiva o trabalho como princípio educativo, norteador dos processos de humanização, de atualização histórica do próprio homem e pressupondo a dupla dimensão do trabalho - a de produção do conhecimento e a da produção de mercadoria - analisa a constituição do ser trabalhador e as transformações dos processos de formação humana decorrentes das mudanças do mundo do trabalho e das relações sociais bem como as implicações que essas têm para a educação em múltiplos espaços, escolares e não escolares. São estudados os usos sociais do tempo de trabalho; os saberes, as qualificações e as competências no campo de construção política e de reconhecimento social; os processos educativos de trabalhadores e de movimentos sociais, as perspectivas históricas da profissionalização e do trabalho docente, a educação de jovens e adultos (EJA), as políticas de educação profissional integrada à educação básica e EJA e a apropriação de tecnologias contemporâneas de informação e comunicação em processos e práticas educacionais (FAE-UEMG, 2008, tela 5, p.2). O desafio deste Mestrado em Educação da FaE-UEMG é enfrentar a questão de nosso tempo: como promover processos de humani- EDUCAÇÃO EM FOCO 21 zação apesar da crise e da desumanização? Propõe-se investigar, por um lado, que dimensões da personalidade, da subjetividade e identidade, que valores, culturas e saberes, que concepções, condutas e competências, os tempos e experiências múltiplas formam; que relação conflitiva e tensa há· entre esses múltiplos tempos e dimensões da formação humana. Por outro lado, processos educativos alternativos são pesquisados visando contribuir para a definição de princípios teórico-metodológicos que fundamentem as práticas educativas e a formação docente (FAE-UEMG, 2008, tela 5, p.1). Considerações finais 22 Alguns aspectos inovadores marcam a construção dos fundamentos e das linhas de pesquisa do Mestrado em Educação e Formação Humana da FaE-CBH-UEMG. Esse Programa está fundado na compreensão de que a articulação do campo da educação (formal e não-formal) com a sociedade (civil e política), por meio de participação compartilhada entre cidadãos ativos de distintas instituições é um dos principais caminhos para gerar um novo modelo civilizatório, tendo como referência o ser humano em suas necessidades, potencialidades e cultura vivida. Orienta-se pela perspectiva histórico-crítica, ou seja, leva em consideração os contextos sócio-político-culturais do país e seus efeitos na determinação de políticas públicas educacionais específicas (FaE-UEMG, 2008, tela 4, p.13). Neste sentido, vale a distinção feita por Popkewitz (1997, p.13): “O estudo das práticas de reforma do ensino contemporâneo implica a colocação de fatos específicos do ensino dentro de uma formação histórica que pressupõe a existência de relações entre poder e conhecimento. Assim, a atenção é dirigida às condições históricas, práticas institucionais e epistemologias, mais do que aos discursos e textos em si”. Ao trabalhar a questão da educação e formação humana nos processos socioculturais e escolares atuais, pode-se contribuir para reflexões e pesquisas sobre as teorias, as práticas e as políticas educacionais no Brasil, que orientam a formulação de planos e ações educativas. Pode-se ainda atuar criticamente para desenvolvimento de práticas no marco de transformações sócio-culturais e educacionais almejadas em nosso país. Nesse sentido, a formação de profissionais da educação EDUCAÇÃO EM FOCO é fundamental em projetos emancipatórios que tenham como prioridade a mudança social, qualifiquem seu sentido e significado, pensem alternativas para um novo modelo econômico não excludente que contemple valores de uma sociedade em que o ser humano é centro das atenções. A Pós-graduação pode e deve contribuir para a formulação e implementação de políticas educacionais que venham atender às demandas da sociedade brasileira. Assim, o programa proposto visa propiciar um espaço de discussão e de aglutinação de propostas, resultantes de estudos e pesquisas, buscando contribuir para a formulação e implementação de políticas educacionais que venham atender às demandas da sociedade brasileira (FaE-UEMG, 2008, tela 4, p.13). A perspectiva que se tem da proposta é que a sua implementação poderá tornar-se importante alternativa de formação de pessoas e de produção de conhecimento em campo inovador de processos educacionais sintonizados com a dignidade humana. 23 EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIAS ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1995. ANTUNES, Ricardo Adeus ao Trabalho ? Cortez, São Paulo.1995. ________________ O Caracol e sua Concha: Ensaios sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005. 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Assim, neste trabalho, busco analisar a primeira arquitetura, focando nos edifícios que constituem os prédios escolares, incluindo-se uma análise sobre as fachadas, como marco identitário da escola. PALAVRAS-CHAVE: Política de currículo; arquitetura escolar; espaço escolar. INTRODUÇÃO Este trabalho é parte de resultados de investigação sobre espaços e currículos realizada em escolas de Belo Horizonte para subsidiar a elaboração de minha dissertação de mestrado em educação. Os resultados desta investigação mostraram que os espaços constituídos com 1 Este artigo é parte de pesquisa de Mestrado em Educação desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da UERJ na linha de pesquisa Cotidiano e Cultura Escolar, sob a orientação da Drª Alice Ribeiro Casimiro Lopes. 2 Professor da Faculdade de Educação da Universalidade do Estado de Minas Gerais, Mestre em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação-UERJ, doutorando em Educação pela UFMG. EDUCAÇÃO EM FOCO 27 finalidade educativa resultam em três arquiteturas: arquitetura do lugar da escola, as edificações e instalações constituídas para tornar realizável o currículo; uma segunda arquitetura produzida pela reordenação dos espaços a partir dos projetos de currículo implementados; e uma terceira arquitetura que se refere à constituição de ambientes curriculares. Assim, neste trabalho busco analisar a primeira arquitetura, focando nos edifícios que constituem os prédios escolares, incluindo-se uma análise sobre as fachadas, como marco identitário da escola. 28 Os prédios escolares são os identificadores das escolas e carregam significados históricos, políticos e pedagógicos uma vez que a arquitetura de cada escola é um programa (Escolano, 1998) que se sustenta em sentidos políticos, narrativas educacionais, ideológicas e representações sobre alunos, aprender e ensinar, além de representações sobre práticas profissionais. A arquitetura escolar constitui espaços de subjetivação de uma certa ordem específica no projeto moderno de sociedade. Seus espaços são mapeados nas práticas cotidianas, como estratégia discursiva que sustenta a organização e controle de seus usos pelos sujeitos nas redes intersubjetivas. Esse mapeamento visa produzir a territorialização dos espaços, conforme a descreve Certeau (1990), analisando as práticas espaciais urbanas e funciona como dispositivo da política curricular local de cada escola. Assim, as redes são produzidas no cotidiano escolar, no interior das edificações constituídas como prédios escolares e nelas se inserem, também, as táticas espaciais dos (as) alunos(as) como dispositivos de intervenção nas práticas de poder, nas salas de aula, nos espaços de usos comuns e na produção de territorializações, em que podem produzir transgressões, bem como atribuições de sentidos semelhantes ou diferentes dos propostos nas políticas curriculares internas. Mas, voltemos à questão deste trabalho que trata, especificamente, dos prédios escolares, como dispositivos curriculares. Um edifício escolar carrega marcas e expressa discursos que são apreendidos pela sociedade e a ele são atribuídos sentidos e representações de várias ordens culturais, políticas, pedagógicas e educativas. Os prédios escolares são, pois, o lugar e o território de produção de polí- EDUCAÇÃO EM FOCO ticas locais e das conseqüentes práticas curriculares e se constituem, assim, como espaços de produção de subjetividades de professores, alunos, pais, gestores, funcionários nas redes intersubjetivas cotidianas que se constituem em seu interior. Mas são, também, dispositivo de subjetivação nas redes cotidianas das comunidades humanas em que se inserem. ARQUITETURA DO LUGAR DAS PRÁTICAS CURRICULARES: OS PRÉDIOS ESCOLARES E SUAS MARCAS O prédio escolar é o identificador da escola, do serviço escolar como diz Souza Lima: O prédio escolar se confunde com o próprio serviço escolar e com o direito à educação. Embora colocado no rol dos itens secundários dos programas educativos, é o prédio da escola que estabelece concretamente os limites e as características do atendimento. E é ainda objeto concreto que a população identifica e dá significado (1995 p. 75). Novembro/2005 Ilustração nº 01- Fachada interna da Escola Estadual Francisco Brant - Belo Horizonte – MG Os prédios escolares têm características arquitetônicas que lhe são próprias, características identitárias do lugar da escolarização, assim EDUCAÇÃO EM FOCO 29 como outras construções identificam suas atividades. É possível distinguir entre as construções urbanas, os templos, os hospitais, os edifícios governamentais, pela sua arquitetura própria, específica indicadora de suas funções. Há, pois, uma dialética função e lugar arquitetônico, que, historicamente, vieram constituindo, no imaginário social, uma representação de prédios próprios para as funções e serviços. Assim, têm-se, no imaginário social, representações de prédios escolares, que foram forjadas na compreensão social deste lugar vinculado a sua natureza institucional, sua dependência administrava, o nível de ensino, a época histórica de sua construção, dentre outros fatores. A identidade dos prédios escolares é definida pelas características arquitetônicas específicas de acordo com a sua vinculação administrativa, tornando possível identificá-los pelas redes que constituem: a) prédios escolares pertencentes à rede pública; b) prédios escolares confessionais pertencentes às igrejas cristãs; c) prédios escolares leigos e privados. 30 Maio/2005 Ilustração nº 02 - Colégio Santo Agostinho em Belo Horizonte – MG Para a identificação adequada dos prédios escolares, é preciso levar em consideração, pois, os fatores natureza institucional, época histórica de EDUCAÇÃO EM FOCO sua construção e sua inserção no conjunto arquitetônico urbano da época, como diz Faria Filho (2000, p39 ): Um lugar é sempre definido, ou constituído em referência a outro lugar, estabelecendo-se sempre uma relação de lugares identificados singularmente. Nesse sentido, podemos dizer que o lugar da educação escolar no centro da cidade- lugar dos palácios- não é o mesmo que nos subúrbios- lugar dos pardieiros (op.cit. p. 39). Embora o autor esteja referindo-se à construção de prédios escolares, em Belo Horizonte, no período da Primeira República, sua afirmação explica, ainda hoje, no século XXI, a questão da impregnância arquitetônica de elementos de origem das entidades mantenedoras e seus conceitos sobre escola, educação escolar e sujeitos em formação. De resto, um prédio construído no inicio do século XX possui características do seu tempo, assim como num prédio contemporâneo é possível lerem-se as concepções atuais da escolarização, arquitetura e condicionantes sociais, culturais, econômicos e políticos determinantes das formas de sua construção. Julho /2005 Ilustração nº 3- Escola Estadual Pedro II – Belo Horizonte – MG - Escola situada na área central EDUCAÇÃO EM FOCO 31 O contexto histórico faz com que os prédios escolares tenham características diferenciadas pela época, como qualquer outra construção. As concepções arquitetônicas fazem com que sua construção seja distinguida das outras construções pela sua finalidade institucional, como já havia constatado Melo (1961, p 58): (...) a evolução das construções para o ensino (elementar) decorreu, essencialmente, da transposição para a arquitetura dos modernos conceitos pedagógicos, traduzida, com maior evidência, pela ‘humanização’ das construções se nos for lícito usar tal expressão para indicar sua redução à escola infantil, e pelo abandono do formalismo meramente decorativo com que eram previamente tratadas (Mello. Op.cit. p.58). AS FACHADAS: IDENTIFICADORES DOS PRÉDIOS ESCOLARES 32 A leitura dos espaços através da fotografia foi componente das técnicas utilizadas na elucidação das questões de pesquisa, em dois movimentos articulados com o restante das atividades, observações sistemáticas e entrevistas. Ilustração nº 04 - Foto sobre pintura com ilustração do Instituto de Educação de Minas Gerais em Belo Horizonte. EDUCAÇÃO EM FOCO As fachadas das escolas foram registradas para serem analisadas comparativamente. Os conteúdos das fachadas traduzem as concepções arquitetônicas de cada época, identificam, como já foi dito, as escolas, como lugares sociais de realização de atividades educativas formais, evidenciando a posição de importância que a instituição tem para a sociedade e quais representações elas passam dos projetos de governo, nos períodos em que foram elaboradas, no caso das escolas públicas. A observação das fachadas das escolas públicas permite apreender o movimento descrito por Faria Filho (op.cit), no qual são identificadas as políticas de valorização arquitetônica dos grupos escolares, em Belo Horizonte, durante a Primeira República e reafirmado por Wolf (2004) em São Paulo, cuja característica principal é a pujança dos elementos, como mostra a fotografia do Instituto de Educação do Estado de Minas Gerais, cuja construção data de 1906. Como diz Faria Filho, analisando o caso de Minas Gerais, há um fundamento político que preside esse movimento: Em Minas Gerais, mais especificamente em Belo Horizonte, a atuação republicana não foi diferente. A escola, o prédio escolar, utilizando-se da linguagem arquitetônica, deveria inscrever-se no espaço da cidade, materializando e dando a ver as projeções político-culturais republicanas que se queria imprimir à/na nova capital mineira (Faria Filho, op.cit.). O exemplo é importante para mostrar que a construção de prédios escolares públicos são circunstanciados em conjunturas políticas, o que produz uma variabilidade de princípios, elementos e materiais que constituem as edificações das escolas. A ilustração de escola construída na década de 1990 inserida a seguir mostra resultados distintos do movimento registrado por Faria Filho (op.cit.). EDUCAÇÃO EM FOCO 33 Outubro 2005 Ilustração nº 05- Fachada de Escola Pública em Belo Horizonte-MG, construída na década de 1980, com arquitetura simplificada. 34 Essas fachadas, como a da ilustração, mostram outro movimento descrito por Souza Lima (op.cit.) que evidencia as políticas de construção das edificações escolares no modelo que, em Minas Gerais, ficou conhecido como modelo CARPE, no qual os princípios arquitetônicos são a simplicidade e a funcionalidade dos espaços, sem adereços e com mínimas áreas livres. O imaginário social, hoje, possivelmente atribua a esse modelo a representação do que seja a escola pública em Minas Gerais, pelo menos, uma vez que o modelo CARPE, ainda, é prevalente nas edificações das escolas públicas. As fachadas permitem, também, a leitura de concepções educacionais que, possivelmente, influíram na sua elaboração arquitetônica, embora não permitam que sejam descritas as práticas curriculares que ocorrem no seu interior. A relação entre o pensamento pedagógico da época da construção e da regulamentação legal pode oferecer indícios sobre as concepções que presidiram a elaboração das fachadas e dos edifícios escolares. No entanto, para serem evidenciadas as práticas curriculares no seu interior, talvez seja necessário fazer um estudo arqueológico. Isso pode ser aplicado a todas as escolas atuais. EDUCAÇÃO EM FOCO Junho/2005 Ilustração nº 06 - Colégio Arnaldo - Escola confessional em Belo Horizonte - MG As fachadas das escolas particulares, também, recebem influências da mesma natureza que as escolas públicas, na elaboração de suas fachadas. Outros fundamentos, entretanto, podem ser notados nessas escolas, como nas escolas católicas que têm fachadas pujantes à maneira descrita por Faria Filho (op.cit.) para as escolas públicas. Essas fachadas contêm elementos de arquitetura religiosa e lembram, em muitos casos, os mosteiros e conventos. Outra característica identitária dessas escolas confessionais católicas construídas em Belo Horizonte é a composição do conjunto arquitetônico com a presença de um templo. As escolas mais recentes estão sujeitas, em suas fachadas, aos movimentos arquitetônicos de cada época, embora não seja notada a adoção do modelo CARPE pelas instituições privadas de ensino. Atualmente, é possível notar a preocupação em distinguir as fachadas das escolas infantis, tanto nas escolas particulares, quanto nas escolas públicas. Essa distinção está, em muitos casos, em apor, na parte externa, elementos pictóricos que sejam identificáveis com a infância. EDUCAÇÃO EM FOCO 35 Ressalte-se, entretanto, que alguns centros públicos e privados de educação infantil têm fachadas mais elaboradas, embora marcadas com esses elementos que trazem as representações atuais da infância. Essa tendência de colocar elementos específicos com simbolismos infantis nas fachadas produz um movimento que poderia ser chamado de diferenciação identitária da escola infantil, distinguindo-a das outras edificações destinadas aos outros níveis de ensino. Novembro/2005 36 Ilustração nº 07 - Centro Municipal de Educação Infantil do Bairro Jardim América - Belo Horizonte- MG Fevereiro/2006 Ilustração nº 08 - Centro de Educação Infantil EIA - Escola Infantil particular em Belo Horizonte A variação arquitetônica de fachadas e formas externas, bem como da organização espacial do entorno dos prédios escolares, como EDUCAÇÃO EM FOCO jardins, áreas de acesso, áreas de recreação, é visível até a década de 1970, quando passam a constituírem-se as redes escolares públicas com modelos de prédios definidos nos órgãos centrais (Souza Lima, op.cit.), ou que foi, também, registrado por Faria Filho (op.cit.), nas análises sobre as construções de prédios escolares à época da Primeira República, em Belo Horizonte. No caso de Belo Horizonte, o período que vai da Primeira República, até a década de 1960, indica a preocupação com a qualidade arquitetônica dos edifícios escolares públicos que trazem a marca, em alguns casos, de elementos da monumentalidade arquitetônica estatal (Frampton, 1997). O autor analisa a relação política e arquitetônica com a produção de edificações em que são inscritos elementos ostentatórios para que, simbolicamente, a pujança dos prédios seja relacionada ao poder estatal. Essas características são encontradas no prédio do Instituto de Educação de Minas Gerais, cujos elementos externos de fachada e internos são semelhantes aos presentes no conjunto dos edifícios da sede do governo do Estado. Outras edificações escolares públicas da época trazem elementos de fachada ou de interior semelhantes, obedecendo a critérios dos ideais republicanos, como diz WollF (1992, p 48): A arquitetura escolar pública nasceu imbuída do papel de propagar a ação de governos pela educação democrática. Como prédio público, deveria divulgar uma imagem de estabilidade e nobreza das adminsitrações. O investimento para atingir esses objetivos residia na composição de sua aparência. Um dos atributos que resultam dessa busca é a monumentalidade, conseqüência de uma excessiva preocupação em serem as escolas públicas edifícios muito “evidentes”, facilmente percebidos e identificados como espaço da ação governamental. A busca de um “tipo” escolar também responderá, em , por este ideal, ainda que não resultando de uma intenção à priori( apud Faria Filho, op.cit., p 38). EDUCAÇÃO EM FOCO 37 Ilustração nº 09- Instituto de Educação de Minas Gerais – Belo Horizonte – MG (Acervo: CENC/FAE/UEMG) 38 A presença dessa perspectiva nos programas arquitetônicos de escolas públicas, ainda, pode ser notada em edificações modernistas como no caso do Colégio Estadual Central, hoje Escola Estadual Governador Milton Campos, com projeto de Oscar Niemeyer, em que as posições de Wollf (op.cit.) são claramente vislumbradas, como a monumentalidade, agora moderna, além da localização que permite seu imediato vislumbre. Dezembro/2005 Ilustração nº 10 - Escola Estadual Governador Milton Campos – Belo Horizonte – MG EDUCAÇÃO EM FOCO A grande pressão pela escola, a partir da década do 1960 (Arroyo, 1980 e 1986); (Campos, 1985; Campos, 1989) leva os governos estaduais a adotarem medidas de emergência para ampliar as vagas a fim de atender as crianças em idade escolar. As alternativas encontradas foram a adaptação de espaços como galpões, construções abandonadas, construções de prédios com materiais alternativos ou a transformação de espaços internos, como áreas de recreação, bibliotecas, laboratórios em sala de aula, como relata Souza Lima (op.cit.). A partir da década de 1960, foram constituídos grupos especiais como a CARPE – Comissão de Construção, Ampliação e Reformas de Prédios Escolares, em Minas Gerais; Fundo Estadual de Construções Escolares (FECE ), em São Paulo, que se encarregaram de desenvolver projetos arquitetônicos para a construção de prédios escolares que pudessem atender à demanda crescente, conforme as análises de Souza Lima (op.cit.) apontam: a) os governos passam a relacionar ambientes e instalações como parte das reivindicações populares e chegam à seguinte equação: “... se todos têm o mesmo direito à educação, as escolas também devem ser parecidas em todos os lugares” ( Souza Lima, op.cit. p 78). b) a utilização racional da rede de escolas públicas, adotando mecanismos que distribuem adequadamente a população, através do planejamento do acesso, cujo mecanismo central é a prévia vinculação de níveis de escolarização a localidades definidas; c) pelo fato de este mecanismo não ser suficiente para atender à demanda, a construção de novos prédios segue a política de correspondência entre escola e moradores, na mesma estrutura urbana; d) em decorrência das novas concepções educacionais surgidas na década de 1960 e consolidadas na Lei 5.692 de 1971, fica claro que todas as experiências que uma criança do 1º grau poderia desenvolver poderiam ser feitas numa sala de aula comum; e) as reivindicações populares têm efeito prático sobre a escola, como diz Souza Lima: ...ao se popularizar, ou melhor dizendo, quando setores diri- EDUCAÇÃO EM FOCO 39 gentes, situados nos aparelhos de Estado, cedem à pressão das reivindicações populares e das necessidades do crescimento econômico, as escolas sofrem uma mudança qualititiva, justificada teoricamente, tanto pela ótica da pedagogia, quanto pela ótica da psicologia social como de adequação dos valores populares (op.cit. –p 78). f) ao analisar as depredações de que são alvo os prédios escolares, os dirigentes educacionais concluem que as construções escolares são inadequadas porque a simplicidade passou a ser o padrão das construções: ostentatórias para os padrões construtivos do bairro, resultando numa arquitetura que agride a população. Logo os prédios escolares deveriam ser muito simples, empregando materiais similares aos utilizados nas habitações dos moradores, não se indagando das razões da baixa qualidade dessas construções” ( Souza Lima, op.cit, p 80). 40 g) para o atendimento à demanda e ao princípio de “educação para todos”, passam-se a adotar as medidas espaciais /temporais /pedagógicas: 35 (trinta e cinco) alunos por classe em três turnos. Assim, a localização dos prédios escolares das redes públicas dentro dos espaços comunitários visa sustentar a constituição de programa arquitetônico, com o objetivo de produzir certa identificação com a população usuária. Busca-se aliar simplicidade dos espaços e despojamento das construções, padronização de projetos de construção, definição da sala de aula como espaço essencializado da atividade pedagógica, modelo pedagógico trinta e cinco alunos /classe, em três turnos de funcionamento. Tudo isto define padrões da concepção da arquitetura oficial para os prédios escolares públicos atuais, como reitera Souza Lima: ... interessa examinar a questão dos prédios escolares e sua arquitetura em dois níveis: 1º- o da rede de escolas, enquanto conjunto igualmente articulado de unidades que se espalha no território, obedecendo a uma certa lógica de distribuição da demanda; 2º- o da rede EDUCAÇÃO EM FOCO escolar, enquanto conjunto articulado de unidades que se corporifica num edifício e seu entorno. O primeiro nível refere-se à tipologia de escolas. É nesse nível, isto é, de rede, que se pode examinar as escolas, enquanto componentes de um sistema de serviços educativos, adotados por uma determinada sociedade. O segundo nível refere-se diretamente à arquitetura escolar, ou seja, à expressão simbólica e material de um lugar em que supostamente se desenvolverá o processo educativo de jovens e crianças. Como pressuposto desse processo, a arquitetura escolar terá organizado internamente os espaços segundo as necessidades dos diferentes grupos que nele convivem, buscando assegurar condições para que determinadas relações e comportamentos sejam estimulados (Souza Lima, op.cit. p. 80). É preciso apontar a importância dos pressupostos decorrentes das decisões governamentais, a partir da década do 1970, sobre a construção dos prédios escolares, em rede e suas conseqüências atuais sobre os projetos educativos. Dentre elas está a uniformização arquitetônica, que surge como solução ao atendimento à demanda pela escolarização fundamental, nas décadas de 1960 e 1970 e se consolidam na década de 1980, como sustenta Souza Lima (op.cit.) e vem sustentada por uma visão pedagógica uniformizada, decorrente da Lei 5.692 de 1971. A partir daí, tornam-se visíveis as tendências uniformizadoras de projetos educativos, podendo ser identificados nas legislações nacionais e nas formulações de propostas pedagógicas globais que sugerem um tipo de pedagogia desenvolvida a partir da equação trinta e cinco alunos /classe por três turnos. Janeiro/2006 Ilustração nº 11 - Escola Estadual Ordem e Progresso – Belo Horizonte - MG: Modelo CARPE EDUCAÇÃO EM FOCO 41 A idéia da uniformização pedagógica é sustentada pelas tentativas de garantir que todas as práticas educativas sejam realizadas uniformemente em todas as escolas. A estratégia fundante dessa perspectiva é a produção de uma política curricular em que sejam uniformizados níveis, etapas e práticas curriculares em todo um sistema educacional. Essas políticas são utilizadas pelo Estado e, em alguns casos, por redes escolares particulares, buscando garantir a implementação de princípios de formação por meio de dispositivos curriculares unificados que incluem as formas e conteúdos espaciais. Os lugares produzidos para a escolarização são, também, dispositivos curriculares que compõem, articulados com outros, as políticas de currículo. Na arena política que se constitui em cada escola, são produzidas estratégias curriculares de tal forma que a uniformização pedagógica original tenha seus dispositivos alterados, inclusive na produção dos espaços. 42 Essas equações educativas identificam a lógica da constituição da arquitetura dos prédios escolares atuais e suas conseqüências sobre as tentativas de constituições de práticas educativas diferenciadas que possam ter surgido e que venham a surgir. Outro ponto importante: a identificação entre tempo histórico e arquitetura dos lugares da escolarização que se configuram, materialmente, nos prédios escolares constituídos a partir das concepções educativas e a conjugação das concepções arquitetônicas vigentes à época de sua construção, como já foi dito, no caso da Primeira República (Faria Filho; Wolff) e a partir da década de 1970 (Souza Lima). Ou seja, o lugar da escolarização que se concretiza nos prédios escolares são as expressões simbólicas e materiais de um lugar em que se desenvolve um processo educativo num dado espaço social histórico em que há sujeitos sociais, com objetivos e interesses definidos nas suas relações sociais concretas. É possível, pois, categorizar a arquitetura do lugar da escolarização, a partir do tempo, da sua construção, da sua vinculação institucional pública ou privada e dos níveis de escolarização que realiza, ou melhor dizendo, as escolas públicas, durante grande parte do século XX, no Brasil, têm suas construções definidas a partir de critérios de ordem arquitetônica, mas sem a coerência interna constatada, a partir de 1960, com seu padrão unificador descrito por Souza Lima (1995), já EDUCAÇÃO EM FOCO descrito e consolidado na década seguinte. Embora possam ser observadas características comuns entre os prédios, não há, anteriormente, um critério político de uniformização tão permanente e duradouro para a construção dos prédios de escolas públicas. Não havia, anteriormente, definição política para a constituição de redes de edificações com características arquitetônicas ou utilização de materiais uniformes, como ocorre a partir da década de 1970, com a formatação das redes escolares públicas. O modelo consagrado a partir da década de 1960, ou seja, a integração entre a arquitetura dos prédios escolares e o modelo pedagógico viabilizador da “lógica trinta e cinco alunos por turma” prevalece nas representações dos sistemas educacionais e tornou padrão de referência. As edificações dos prédios escolares públicos, ainda, buscam esse modelo, em Minas Gerais. Por outro lado, as escolas confessionais que foram instaladas em Belo Horizonte, no período que vai da fundação da cidade até a década de 1970, têm em sua arquitetura formas bem semelhantes às utilizadas nas construções dos conventos, a que podem ser aplicados os mesmos princípios descritos por Wollf (apud Faria Filho, op.cit.) para os prédios escolares públicos, ou seja, a edificação “deveria divulgar uma imagem de estabilidade, e nobreza das administrações”. Essas escolas compõem, via de regra, o conjunto arquitetônico composto pelo convento e pela capela ou igreja. Janeiro/2006 Ilustração nº 12 - Colégio Sagrado Coração de Jesus - Conjunto convento, colégio e capela EDUCAÇÃO EM FOCO 43 A variação arquitetônica dessas edificações, tal como ocorre com as escolas públicas, a partir de 1970, como já foi dito, é muito evidente, embora mantenham os princípios descritos por Wollf (apud Faria Filho, op.cit) de serem evidentes. A influência do modelo trinta e cinco alunos por classe, por três turnos, implantado a partir de 1970, na rede pública, pelo menos sob o ponto de vista arquitetônico, não é visível, nas escolas confessionais, embora não se possa dizer o mesmo, com relação ao possível uso de outros dispositivos do modelo com implicações nas políticas curriculares. Fato semelhante ocorre com a arquitetura das escolas vinculadas a empresas leigas, cuja presença torna-se marcante, em Belo Horizonte, como de resto no Brasil, a partir da instalação da ditadura militar, em 1964, conforme dados dos órgãos públicos do sistema educacional , tanto estadual, quanto nacional. 44 As edificações são o lugar prático em que a escolarização se torna prática, nas quais, também, o currículo se processa. É onde se realizam os processos formativos dos sujeitos e, evidentemente, as edificações são elementos que podem influir na constituição de sua identidade. A arquitetura fornece os lugares de produção das subjetividades dos sujeitos e, no caso da escola, nas relações escolares específicas, em redes de intersubjetividades, que se constituem nas práticas de seus atores. CONSIDERAÇÕES FINAIS A criação arquitetônica das edificações constitui um programa (Escolano, 1998), como já foi dito, cuja produção se sustenta os vários discursos que podem ser extraídos de suas marcas temporais, podendo evidenciar seus pressupostos pedagógicos, políticos, culturais e ideológicos. Os processos discursivos produzidos pelas novas políticas curriculares que circulam no espaço/tempo no interior das edificações podem produzir um movimento de reordenação arquitetônica nos espaços escolares, assim como os espaços podem produzir reordenações nas práticas curriculares. Há, também, a produção do ambiente curricular no interior dos espaços, com as produções das decorações desses espaços nos quais circulam discursos de várias ordens. Finalmente, é preciso considerar que essas arquitetações são produções culturais sujeitas a mudanças históricas e que compõem as políticas curricu- EDUCAÇÃO EM FOCO lares, como já foi dito, também. Assim, os espaços escolares, como dispositivos curriculares, compõem as práticas educativas no cotidiano escolar, na produção das subjetividades em seu interior. O espaço educa, como diz Faria Filho (2002), não, apenas, na sua dimensão material, mas também na sua dimensão simbólica, como produção cultural. Embora deva-se considerar que na sua dimensão educativa a escola, - portanto seus espaços- , também, realizem segundo Frago (1998) o que Foucault atribuía como a tripla função produtiva, simbólica e disciplinar do trabalho a que deve ser acrescida uma quarta, a função de vigilância e controle. A interpretação dos espaços escolares pode suscitar discursos de várias ordens, portanto, pode-se dizer que os espaços escolares incitam a polissemia discursiva, tal como o currículo. A questão arquitetônica e espacial das escolas deve ser analisada, também, sob o ponto de vista da constituição dos sujeitos que estabelecem as redes intersubjetivas em seu interior. O papel dos espaços escolares, com as demarcações, mapas, territórios, transgressões, delinqüências produzidas em seu interior são, ao mesmo tempo, produções subjetivas e produtoras de subjetividades consubstanciadas nas práticas de poder em redes de intersubjetividades. Os espaços são o território prático dessas redes intersubjetivas, nas quais se consubstanciam, no interior das escolas, práticas constitutivas dos sujeitos sociais. Analisando a questão dos sujeitos sob o ponto de vista da relação inclusão/exclusão e práticas espaciais, convém refletir sobre como a escola moderna está na ordem da inclusão /exclusão no contrato social da modernidade e se ela é um dispositivo de ultrapassagem ou cristalização das desigualdades conseqüentes à modernização. Os processos de inclusão no contrato social moderno (Souza, 2006) de determinados grupos sociais pressupõem a produção da exclusão de outros. Assim a escola, ao receber a tarefa legal de tornar-se espaço de equalização social, com objetivo de ser instrumento de formação de todos como cidadãos pode ficar, pelas suas limitações institucionais, tateando entre as possibilidades e impossibilidades de se desincumbir dessa tarefa, podendo estar mergulhada nas incertezas de seus limites EDUCAÇÃO EM FOCO 45 espaciais e institucionais, uma vez que sua ação é circunscrita e delimitada, sem a garantia de efeito imediato sobre a vida social. Os efeitos da escola podem significar incluir como excluir, sem que seja possível optar por um ou por outro resultado de sua ação. O lugar arquitetado, produzido em épocas distintas, com ou sem marcas de modas educacionais, pode ser limitador ou viabilizador de práticas curriculares. A arquitetura é um programa no qual se inscrevem discursos curriculares, políticos, culturais. Ou como diz Escolano: A arquitetura escolar é, também, por si mesma um programa, uma espécie de discurso que institui na sua materialidade um sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância, marcos para aprendizagem sensorial e motora e toda uma semiologia que cobre diferentes símbolos estéticos, culturais e também ideológicos (Escolano, 1998, p.26). 46 A partir das várias leituras dos programas arquitetônicos que, no decorrer da investigação, foram surgindo, podem ser destacadas algumas questões que ficaram muito evidentes. Uma primeira é, como constatam Faria Filho (2000) e Souza Lima (1995), que o Estado, em alguns momentos, assume uma clara opção por interferir na arquitetura escolar. Essas políticas estatais são produtoras de efeitos sobre produção arquitetônica das escolas, constituindo programas arquitetônicos com marcas bem evidentes. Faria Filho destaca a criação dos grupos escolares durante a Primeira República, em Minas Gerais, com uma proposta de programa arquitetônico que veicula o ideário republicano, sendo produzidas edificações com elementos de suntuosidade muito fortes. Souza Lima, por sua vez, destaca o programa urdido no período de governos militares, que se estabelece nas décadas de 1960 e 1970 e que tem enraizamentos, até hoje, em Minas Gerais. Esse programa tem características quase opostas ao modelo anterior e se constitui por uma arquitetura despojada e funcional, e que pode produzir conseqüências nas políticas curriculares, ao propor que se destine um metro quadrado de área por aluno, em salas de aula com trinta e cinco alunos. Os espaços de circulação são exíguos e lugares de convivência coletiva parcimoniosos. Grande parte de edifícios escolares públicos de Minas Gerais, ainda hoje, é constituída com a arquitetônica EDUCAÇÃO EM FOCO semelhante à descrita por Souza Lima (1995). Em outros momentos, entretanto, a presença estatal não é tão evidente. É ponto importante a ressaltar sobre os edifícios escolares a questão apontada por Frago (1998) sobre a possível longevidade das edificações, se se considerar que muitos podem ultrapassar historicamente as práticas educacionais a que se destinavam seus espaços arquitetônicos originais. Assim, as novas políticas educacionais e as novas concepções do trabalho educativo podem ser inibidas ou determinar a rearquitetura de seus espaços originais. A investigação realizada constatou que isso ocorre tanto nestes casos, quanto nos casos da instalação das escolas recém-cosntruidas, quando há a instalação da escola, com os sujeitos em seu interior. Os espaços originais são refeitos porque, no seu interior, os espaços são constituídos pelos atores sociais escolares, em suas redes cotidianas, a partir de critérios de um mapeamento elaborado para viabilizar a política curricular implementada na escola. Com o tempo, novas demarcações espaciais vão sendo elaboradas, em um movimento produzido nas redes cotidianas, com suas variações e imprevisibilidades. Ressalte-se, ainda, que, embora os espaços definidos pela arquitetura do lugar possam ser limitadores, por si mesmos, de práticas curriculares diferentes daquelas que serviram de princípio para as origens das concepções arquitetônicas, novas práticas curriculares podem implicar em rearquitetura desses espaços, nos momentos de sua emergência. A ocupação desses espaços, mesmo pelos seus primeiros usuários, redefine o projeto arquitetônico inicial, como já foi dito, o que vai ocorrendo nos movimentos historicamente constituídos pelas novas necessidades espaciais que vão surgindo nesse movimento. Contrário à delimitação de práticas possíveis nos lugares possíveis, pode-se identificar o movimento sustentado pela lógica de que é possível produzir novos espaços, sempre que seja necessário. As marcas espaciais - arquitetônicas, de reelaboração espacial e decorativa - são práticas metafóricas de natureza variada, pois traduzem concepções que integram outras concepções e produzem o lugar prático da escola e do currículo. A escola é um lugar social específico e um lugar arquitetado sui generis e como tal não é uma imitação EDUCAÇÃO EM FOCO 47 de outros lugares sociais materializados em arquitetura. Mas pode ser lugar metafórico relacional a outros lugares sociais, sem, entretanto, replicá-los. Assim, é o lugar arquitetônico que, variadas as épocas e as intenções sociais, imitam a casa que Bachelard chama de primeiro mundo do homem, imitam os pardieiros e os palácios, como diz Faria Filho (op.2000). A escola é uma metáfora da casa e em seu interior há praticas metafóricas do lugar da casa, mas há práticas metafóricas de lugares da religião, das artes, dentre outros. Assim, cada escola constitui sua identidade individual, através de práticas metafóricas de outros lugares que se materializam nas redes intersubjetivas internas, de tal forma que não há uma escola exatamente igual a outra, embora as semelhanças sejam evidentes. Isto porque as práticas dos sujeitos nos seus espaços internos é que produzem sua marca identitária individual, em um cotidiano que é tecido em redes intersubjetivas. 48 Ao pensar a escola como uma produção da sociedade como lugar para a conformação de subjetividades, é possível que se tenha de refletir sobre os espaços escolares para além de serem dispositivos curriculares. Se for pensada a escola como um dispositivo de bio-poder, na perspectiva de Foucault (1999) como mecanismo moderno de conformação subjetiva, a produção do lugar arquitetônico da escola e as práticas espaciais podem ser, assim, analisadas. Os espaços são, então, dispositivos de controle, de governo do outro, dispositivos para a produção de corpos dóceis (Foucault, 1998). Aqui, cabe outra investigação não feita neste trabalho, se for pensado fazer análises dos espaços escolares, considerando-se que a escola é uma produção da modernidade, a partir da concepção do bio-poder como dispositivo moderno do poder disciplinar. Corpo docente e corpo discente, corpo administrativo são denominações utilizadas nos discursos educacionais que podem estar na mesma lógica discursiva para a idéia de população, ou seja, “novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças, se não infinito pelo menos necessariamente numerável” (Foucault, op.cit. p 292). EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIAS ARROYO, M. G. Na Carona da Burguesia -Retalhos da História da Democratização do Ensino. Educação em Revista. Belo Horizonte: (3), 1986. ___________. Operários e educadores se identificam: que rumos tomará a educação brasileira.: Educação e Sociedade. 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Frederico Antônio de Araújo1 RESUMO O 50 presente estudo resgata historicamente a questão dos movimentos sociais e a educação sob um olhar para a inclusão e exclusão na escola e na sociedade, retoma a época dos anos sessenta até os dias atuais. Trabalha a inclusão-exclusão sob a ótica de uma construção. Recupera alguns exemplos de inclusão na escola e na sociedade, mas aponta para novas necessidades e novas demandas de inclusão. Discute, à luz de diferentes enfoques teóricos, os conceitos inclusão e exclusão, fundamentando-se em Mannheim (1982), Giroux (1983, 1987), Saviani (1984), Mizukami (1986), Gohn (1992) entre outros. A conclusão a que se chega é a de que: imaginar uma sociedade de iguais, resguardadas as diferenças, independentes de cor, raça, sexo, religião, gênero, “orientação sexual”, imaginar uma sociedade verdadeiramente múltipla e plural é ainda um sonho. Mas, quem disse que sonhos não podem tornar-se realidade, sobretudo quando não se sonha só? PALAVRAS-CHAVE: Educação; Sociedade; Movimentos Sociais; InclusãoExclusão. INTRODUÇÃO Nos últimos anos muito se tem falado sobre inclusão, sobre sociedade inclusiva, sobre educação inclusiva, sobre como levar a sociedade como um todo, incluindo a sociedade civil e a “sociedade política”, a reconhecer em suas mentes e corações da necessidade emergente de 1 Licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985) e em Pedagogia pelo Curso de Pedagogia do Instituto de Educação de Minas Gerais (1986). Professor de Pesquisa, de Avaliação Educacional e de Medidas Educacionais (19862007) na Faculdade de Educação/CBH/UEMG. Atualmente é aluno do Mestrado Interinstitucional (MINTER) em Educação pelo PROPED/UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ). EDUCAÇÃO EM FOCO se colocar na atual agenda de debates as questões sobre uma verdadeira sociedade inclusiva. Muito se tem falado também da necessidade de democratizar o país, ou melhor, redemocratizar o país, da consolidação da democracia no Brasil. Juntamente a esse discurso ouvem-se, também, os discursos de consolidação e democratização do ensino no país. Se nós olharmos atentamente para a questão da inclusão-exclusão na escola, como também na sociedade, por exemplo, podemos perceber que sempre, direta ou indiretamente, falou-se em inclusão. Entretanto, quando e quanto mais se falou e mais se fala em inclusão na escola e na sociedade, menos includentes foram: a sociedade e a escola. Ao longo da história, pelo menos da história da educação mais recente, moderna e contemporânea, sempre se falou em inclusão. Mesmo lá, na antiguidade, quando Sócrates afirmava que um escravo poderia aprender tal como um homem livre, ali, Sócrates já fazia um discurso em defesa da inclusão do excluído em uma sociedade excludente. No Brasil, até o Governo Militar falava em inclusão, em democratização e redemocratização do país, em inclusão do Brasil entre as grandes nações, enriquecê-lo e, assim, redemocratizá-lo. Essa foi a época no Brasil em que mais se falou em democratizar o país, em democratizar o ensino, em democratizar a escola, em incluir nas escolas os excluídos, possibilitando-lhes o acesso à cultura e à formação para o trabalho. Mas, foi exatamente nessa época, que menos democracia houve. O Ato Institucional número 5 (AI-5), a exemplo, na política e na repressão social, o chamado Milagre Brasileiro, na economia e na educação, a Lei Diretrizes e Bases 5692 de 1971 (Lei 5692/71) representavam exatamente isto: sob a égide do discurso da democracia, da igualdade de oportunidades, de uma economia rica e desenvolvimentista para todos, de uma sociedade democrática e includente, em uma “corrente pra frente” já anunciada com o tricampeonato de futebol de 1970 o estado ditatorial se perpetuou por muitos anos. Ali, naquela época, muito se falava em democracia. Sobretudo em escola democrática, mas na verdade muito pouco se democratizou e muito pouco se fez. O final da década de sessenta e toda a década de setenta foi de um quadro de horror, de silêncio da sociedade civil, de EDUCAÇÃO EM FOCO 51 medo pelas ruas. Exceto uma ou outra atitude meio que “rebelde”, de resistência ou “resiliência”, um ou outro grito de rebelado, de revoltado, de excluídos, seja na música, nas artes plásticas, nas práticas pedagógicas isoladas, na produção intelectual. As críticas ao regime e ao sistema eram ainda tímidas, mas muito, muito sublinearmente bastante severas. 52 Os anos oitenta começam efervescentes. A pressão pelas “Diretas Já”, a criação de partidos de tendências mais críticas, mais de esquerda, o fim do bipartidarismo instaurado, que dividiu o parlamento nacional em apenas dois partidos: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) de tendências conservadoras e nacionalistas, compromissada com o regime; e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) que aglutinou diferentes tendências ideológicas e políticas, de centro, de centroesquerda e de esquerda, contrárias ao regime militar. Somado a isso, a legalização do (PCB) Partido Comunista Brasileiro, a Anistia ampla, geral e irrestrita, a retomada e fortalecimento dos movimentos sociais e as greves em níveis nacionais, principalmente em setores fortes na economia, como também na educação. As novas demandas sociais emergiam e já não podiam ser abafadas, nem silenciadas nos porões da ditadura. MOVIMENTOS SOCIAIS – UMA TRAJETÓRIA DE ESTUDOS As pressões do exterior e as novas políticas internacionais que começavam a surgir foram decisivas para fazer eclodir mudanças, que ocorreriam a partir da década de 80, principalmente relativas aos movimentos sociais interessados nessas mudanças. Os gritos dos excluídos começam a ficar ensurdecedores. Um trabalho bastante interessante sobre a questão dos movimentos sociais nos anos oitenta e a educação foi publicado em 1992 e escrito por Gohn. Nesse trabalho a autora aborda a discussão, em uma perspectiva histórica, dos movimentos sociais, ampliando o debate para dimensões mais dinâmicas da realidade brasileira, bem como apontando perspectivas de mudanças e de transformação na sociedade e na educação. EDUCAÇÃO EM FOCO A autora de “Movimentos Sociais e Educação”, conclui o seu livro com uma pergunta: E nos anos 90? Os movimentos cessarão? O debate está aberto. As conquistas são irreversíveis. Os novos espaços conquistados nas leis e no interior dos órgãos públicos entraram para a história, mas a população está desmotivada para continuar participando. Nossa hipótese é a de que somente ações educativas de massa poderão reverter esse cenário de descrença na ação coletiva (GOHN, 1992, p. 114). Maria da Glória Gohn (1992) levantava um leque de demandas a partir dos movimentos sociais, dos movimentos e das demandas educacionais na sociedade. Algumas dessas demandas apontadas pela autora, talvez, já tenham sido resolvidas satisfatoriamente no decorrer da década de noventa e na virada do milênio, entretanto, muitas outras demandas educacionais ainda estão por se resolver. 1. A Educação Ambiental; 2. Educação sobre o patrimônio histórico cultural; 3. Educação para a cidadania; 4. Educação sanitária e de saúde pública; 5. Educação popular; 6. Educação de menores e adolescentes; 7. Educação de minorias étnicas: índios; 8. Educação contra discriminações: sexo, idade, cor, nacionalidade; 9. Educação para deficientes; 10. Educação para o trânsito e de convivência em locais públicos; 11. Educação contra o uso de drogas; 12. Educação sexual; 13. Educação contra o uso da violência e pela segurança pública; 14. Educação para geração de novas tecnologias. Além dessas demandas apontadas por Gohn (1992), ainda têm aquelas relacionadas com educação escolar: 1. Educação infantil: creches e pré-escolas; 2. Ensino de 1º e 2º graus; 3. As demandas da Universidade: 4. As demandas por novas leis educacionais do ensino; e 5. Ensino Noturno. (Os grifos são nossos). Trazendo essas questões levantadas, essas demandas apontadas, para os dias atuais, mais de uma década depois, após a virada de um novo milênio, será que algumas respostas foram encontradas, algumas soluções já foram dadas para tantos problemas e demandas? Como está a questão dos movimentos sociais hoje, no Brasil? Novas questões foram construídas? Como as demandas foram resolvidas, se é que foram resolvidas? EDUCAÇÃO EM FOCO 53 O livro de Gohn, (1992) pode ser bastante elucidativo, apontando para diferentes estudos e temas de pesquisa, diferentes caminhos e diferentes metodologias. Movimentos de massa podem construir, reconstruir, dar novos significados, com muito mais força do que em movimentos isolados de pequenos grupos, mas que não se excluem do conjunto dos movimentos sociais. Volta-se a inquirir: qual ou quais dessas demandas foram atendidas na/pela sociedade brasileira, de forma, verdadeiramente, satisfatória? Como têm sido as práticas de educação e que relações essas práticas têm com os movimentos sociais? Como ficam as questões referentes aos movimentos de cultura afro-brasileira e dos grupos de tradição afro-brasileira? Como a sociedade brasileira e, mais especificamente, a escola brasileira tem tratado as demandas educacionais sobre a Educação de minorias étnicas? E sobre a Educação contra discriminações? Sobre a intolerância religiosa? Contra a violência e a favor de uma educação pela cidadania? 54 Os anos noventa e os primeiros anos deste novo milênio trazem novas necessidades e novas demandas construídas pelos movimentos sociais e pela educação, além das já citadas, não podemos deixar de mencionar sobre a educação religiosa e os movimentos sociais e culturais. Como tem sido implementada a educação religiosa nas escolas? Dentro disso, como fica a questão sobre a religiosidade e historicidade afro-brasileiras? É importante ressaltar as conquista e os avanços alcançados, bem como ressaltar novas demandas e novas necessidades da educação brasileira. As demandas por novas leis educacionais do ensino foram, em parte, atendidas, a despeito dos problemas advindos da Lei Diretrizes e Bases da Educação Nacional número 9394, de dezembro de 1996. Muitas questões podem ser feitas, e muitas estão por se fazer, referentes às demandas levantadas por Gohn (1992), como também, podemos levantar novas questões. Algumas demandas ao mesmo tempo intrigantes e perigosas, clamando por aproximações críticas e de conteúdo teórico mais significativo, de conteúdo extremamente atual. Demandas referentes às etnias e à negritude: a questão dos negros e da raça negra é merecedora de uma aproximação mais clara e objetiva dos EDUCAÇÃO EM FOCO seus problemas. Mas, também, demandas sobre a inclusão-exclusão na escola em todos os sentidos são cada vez mais gritantes na educação e no ensino brasileiros. Na década de 90 e, mais recentemente, na virada do milênio, novas discussões sobre inclusão e ensino foram construídas. Os encontros internacionais sobre educação, os fóruns internacionais de economia, os gritos dos excluídos de todo os gêneros, tipos, raças e etnias e sexualidade começaram a ser ecoados por todos os cantos do planeta. O Encontro de Salamanca, na Espanha, em meados da década de 90 passada, mais precisamente entre 7 e 10 de julho de 1994, foi um divisor de águas sobre o olhar da Pedagogia e da Educação para as questões inclusão, principalmente para a inclusão dos “Portadores de Necessidades Especiais”. A sociedade e a escola, dentro dela, deverão criar mecanismos sólidos de inclusão. Inclusão aqui não significa apenas colocar nos espaços, mas permitir o acesso e a permanência com qualidade requerida pelos e dos indivíduos. O que seria a verdadeira inclusão. O documento gerado pelo encontro de Salamanca – “A Declaração de Salamanca” - Sobre Princípios, Políticas e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais – foi o resultado de discussões e debates de representantes de 88 governos e 25 organizações internacionais, reafirmando o compromisso com a educação para todos, reconhecendo a necessidade e urgência na busca de mecanismos de provimento para a educação de jovens e adultos com necessidades educacionais especiais no ensino regular, re-endossando a Estrutura de Ação em Educação Especial. Dois anos mais tarde, aqui no Brasil, em 1996, a LDBN 9394/96, inclui em seu Capítulo V, da Educação Especial, o artigo 58 que diz: “Entende-se por educação especial, para efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos portadores de necessidades especiais”: “§ 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela da educação especial. EDUCAÇÃO EM FOCO 55 § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. § 3º A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa etária de zero a seis anos, durante a educação infantil”. A Lei 9394/96 ainda diz que os sistemas de ensino deverão assegurar aos educandos com necessidades especiais: currículos, métodos, técnicas e recursos educativos compatíveis para atender as suas necessidades; terminalidade específica e aceleração para os superdotados; professores com especialização adequada e capacitação para o exercício do trabalho; educação especial para o trabalho, visando a efetiva integração na vida em sociedade e no mundo do trabalho. 56 É dentro deste contexto que a educação inclusiva vai se delineando a partir da segunda metade dos anos noventa. Não só a educação, mas também as cidades foram construindo suas soluções para permitir que o cidadão, portador de necessidades especiais, sinta-se, de fato, um cidadão de verdade. No dia 12 de março de 2007, no programa “Cidades e Soluções” o jornalista André Trigueiro, do Canal de Televisão Globo News (Canal 40, em Belo Horizonte) apontou para as novas mudanças que algumas cidades, pioneiras, vêm buscando, no sentido de garantir a locomoção e a acessibilidade dos portadores de necessidades especiais. A construção e/ou reforma de prédios inteligentes, garantindo o acesso de pessoas portadoras de alguma deficiência de modalidade reduzida. As calçadas e rampas mais adequadas para os cadeirantes. Telefones públicos e caixas eletrônicos, que permitam o reconhecimento em braile para os deficientes visuais. Sinais em braile espalhados pela cidade e, ainda, a construção de sinais sonoros para esses deficientes visuais. Segundo André Trigueiro, Belo Horizonte é uma cidade que vem se destacando como pioneira e está extremamente avançada nesse sentido, inclusive com 29% (vinte e nove por cento) da frota de ônibus da região metropolitana adaptada para cadeirantes. Trata-se de um EDUCAÇÃO EM FOCO projeto de inclusão e de redimensionamento dos espaços, tentando incluir o maior número de pessoas nesses espaços. Entretanto, ainda se tem muito por fazer, incluindo aqui a educação do povo. O entendimento do povo de que os portadores de necessidades especiais são cidadãos sim e devem, sim, ser e se sentirem como cidadãos de verdade. É nesse sentido que a educação tem um papel fundamental. Se a sociedade brasileira tomar como um projeto social, seguindo o modelo da inclusão dos portadores de necessidades especiais para a inclusão de outros excluídos, talvez, aí sim poderemos dizer que a sociedade é verdadeiramente democrática. A segunda metade da década de noventa e os anos iniciais do terceiro milênio e as novas discussões sobre a inclusão. A década de noventa e os sete anos iniciais do terceiro milênio trazem à tona novas discussões sobre a inclusão, não só na escola, como também na sociedade. Apesar de algumas lutas pela inclusão serem muito antigas, algumas delas só se rebelaram, só se mostraram, sobretudo no Brasil, a partir desta época. O conceito de inclusão foi ampliado. Ou melhor, inclusão e exclusão não são conceitos, são construídos socialmente, são o retrato de cada época, de cada momento histórico-político-econômico-social-cultural. Novas discussões sobre a inclusão-exclusão surgiram como agenda de debates tanto no campo político quanto no campo dos direitos civis, bem como no campo social, quanto no campo educacional. As discussões que começavam a apontar e que eclodiram nos anos iniciais dessa virada do novo milênio são referentes aos estudos sobre a inclusão/exclusão escolar em sentidos muito mais amplos. Entendendo que os objetivos dessas discussões e investigação em sentido mais restrito envolviam a relação da inclusão/exclusão escolar numa perspectiva crítica e multidisciplinar, tornando-se indispensáveis discussões acerca da natureza das desigualdades sociais, dos processos de discriminação e de exclusão e suas implicações para a educação. Grupos de estudos vêm contribuindo para análises críticas e alternativas para a superação das desigualdades, da exclusão, da miséria e EDUCAÇÃO EM FOCO 57 da pobreza, afetando diretamente o contexto e o cotidiano escolares, desafiando os atores sociais e as políticas públicas para ações educacionais afirmativas. As ações afirmativas são tentativas de inclusão dos excluídos. Dois movimentos de inclusão que chegam muito fortes, tanto no embate quanto nas lutas cotidianas e que adentram o 3º milênio são os movimentos dos alunos egressos das escolas públicas, garantindo um percentual de vagas (também chamadas de cotas ou quotas) em universidades públicas, por um caminho. Por outro, os movimentos de inclusão de etnias raciais negras, também para a entrada nas universidades por critérios de cotas, na mesma lógica pretendida pelos movimentos dos alunos egressos da escola pública. 58 Algumas universidades no Brasil foram pioneiras nessa nova lógica e modalidade de inclusão social. A Universidade de Brasília, segundo consta em relatos, criou o regime de cotas em resposta ao fato de um aluno, pertencente à etnia racial negra, ter sido o primeiro e único a ser reprovado no Doutorado da UNB, fato nunca antes assistido naquela instituição até então, ficando nítido o suposto “preconceito racial”, escancarando, assim, o falso mito da “democracia racial brasileira”. Esse tipo de ação afirmativa acabou gerando na sociedade um certo espanto. Outras instituições foram criando o regime de cotas para as etnias raciais negras. As Universidades Estaduais do Rio de janeiro e de Minas Gerais (UERJ e UEMG) seguiram o exemplo dessa lógica dos movimentos sociais. Entretanto, a sociedade civil, como um todo, não vê com bons olhos essas chamadas ações afirmativas. Kamel (2006) é uma resposta ao problema levantado: a transformação do Brasil numa nação bicolor. O livro “Não Somos Racistas” discute a questão da “gênese contemporânea da nação bicolor”, afirmando, posteriormente, que raças não existem. Aponta para um problema bastante sério no Brasil hoje, o grande excluído, inclusive das estatísticas, é o sujeito pardo, o pobre, o faminto, o miserável. O autor, após um breve histórico sobre as cotas pelo mundo, faz uma crítica severa à metodologia que vem sendo aplicada no Brasil. Assim Kamel conclui: EDUCAÇÃO EM FOCO “Há solução? Há caminho de volta? Eu não tenho dúvidas de que há. Este livro é fruto dessa certeza. Basta que, como eu, manifestem-se todos aqueles que ainda pensam que uma nação misturada, miscigenada, colorida, sem espaço para diferença de ‘raça’ é ainda muito superior a uma nação multiétnica, mas que vive de nariz tampado” (KAMEL, 2006, p. 146). A discussão em torno da educação da criança, do adolescente e do adulto negros constitui-se de fundamental importância para se pensar a realidade educacional no Brasil e para a democratização da educação na sociedade. Entretanto, não só os negros ficam relegados a planos inferiores, como também as pesquisas, investigações e projetos educacionais para essas chamadas “minorias excluídas”. Milhares de crianças e jovens negros que procuram as escolas exercendo, assim, o seu direito ao processo de escolarização, muitas vezes, ali não permanecem mais do que três anos, em média. A taxa de evasão de crianças brancas é significativamente inferior à taxa de evasão das crianças negras. Entre os negros encontra-se o maior índice de analfabetismo do país. A população negra está em sua maioria presente nas classes populares, em massa na base da pirâmide social. Poucos são os negros que chegam ao ensino superior. Do total de jovens que chegam à universidade, o percentual de negros é muito reduzido. Aos negros ficam relegados os trabalhos braçais, aos negros são destinados os mais baixos salários, o subemprego e o desemprego assolam essa população com muito mais facilidade. A escola não discute a cultura e a história da raça negra. Os meios de comunicação em quase nada contribuem para a alteração deste quadro. Quando lidam com o assunto, na maioria das vezes, é de maneira superficial, quando não preconceituosa. Aos negros são reservadas as páginas de noticiários de crimes, assaltos, seqüestros, tráfico de armas e drogas onde ele é quase sempre a personagem central. E, na escola, só se lembra do negro em 13 de maio (Dia da “Libertação”), quando muito, em novembro, em que se comemora o dia da “Consciência Negra”. Alguns outros movimentos sociais da sociedade civil e até de organizações não governamentais têm chamado atenção para as novas EDUCAÇÃO EM FOCO 59 discussões sobre a inclusão-exclusão na sociedade. Os movimentos multiculturalistas, vinculados à pedagogia do dissenso, conforme Mclaren (2000) em sua tentativa de desenvolver um discurso de pedagogia crítica e de formação crítica. O multiculturalismo revolucionário como intersecção com a pedagogia crítica e uma política libertadora. A pedagogia dos diferentes, “pedagogias dos corpos estranhos” e as “teorias dos diferentes”, as novas pedagogias das identidades e das diferenças e a “teoria queer” são exemplos que se delineiam nessa discussão. A pedagogia e a área da educação já não podem mais ficar alheias às novas discussões contemporâneas sobre as pedagogias críticas, sobre as pedagogias da inclusão-exclusão, sobre a pedagogia dos diferentes e da pedagogia multiculturalista. Quais são hoje, contemporaneamente, os sujeitos excluídos a serem incluídos? Quem são os novos estranhos da contemporaneidade? 60 Um fato é certo: enquanto ainda houver um só sujeito sem o verdadeiro sentimento de cidadão, verdadeiramente incluído na sociedade a que pertence, enquanto ainda houver um só excluído, não teremos uma verdadeira democracia. Entretanto, os movimentos sociais libertários podem modificar as estruturas vigentes. UM OLHAR SOBRE A INCLUSÃO/ EXCLUSÃO A PARTIR DA IDEOLOGIA E DA UTOPIA Uma obra clássica da sociologia do conhecimento que pode nos ajudar a compreender com mais clareza questões referentes à inclusãoexclusão na sociedade e na educação é o livro “Ideologia e Utopia” de Karl Mannheim (1982). Nesse livro, cuja primeira edição e publicação data de 1929, discute o conceito sociológico de pensamento, de conhecimento, de epistemologia e “episteme”, de inconsciente coletivo, de concepções particular e total de ideologia, de falsa consciência, de concepções valorativas e não-valorativas de ideologia, de grupos sociais que interpretam e reproduzem o mundo que lhes interessa – “A intelligentsia”. O autor busca delinear uma política científica numa relação entre as teorias sociais e as práticas políticas. Da mentalidade ideológica à mentalidade utópica. EDUCAÇÃO EM FOCO Segundo Mannheim, as origens da sociologia do conhecimento estão na própria história em si da sociologia, principalmente nas obras de Karl Marx, Georg Lukács, Max Weber, Max Scheler e Friedrich Nietzsche e nos princípios da cultura sociológica. Neste mesmo caminho trilhado por Mannheim, três outros estudiosos, mais atuais - Giroux, Saviani e Lowy - discutem, mesmo que indiretamente, as questões sobre pensamento e ação social e educacional, vinculados a diferentes visões de mundo sobre a inclusão/exclusão na sociedade e na escola. Giroux (1987) em seu livro “Escola Crítica e Política Cultural” aponta para um fato: uma maneira de repensar o trabalho docente é considerar o professor como um intelectual, como profissional ativo e reflexivo. Dentro dessa perspectiva a função social dos educadores como intelectuais são: ou transformadores, ou críticos, ou adaptados, ou hegemônicos. Nesse sentido o professor, dependendo da categoria a que pertence, fará um discurso pró ou contra a inclusão e a exclusão. Esses pressupostos já estavam relativamente delineados no livro “Pedagogia Radical” (Giroux 1983). Saviani (1984) vai discutir a sua tese sobre a educação e a política à luz das teorias da educação e sobre o problema da marginalidade e, grosso modo, da inclusão e exclusão na educação. Faz uma análise crítica das pedagogias tradicionais e das pedagogias novas, buscando métodos que ultrapassem as dimensões autoritárias e tradicionais na escola. Lowy (1989) em “Ideologia e Ciência Social”, após fazer um histórico bastante significativo dos termos “ideologia e utopia”, relaciona tanto ideologia quanto utopia como sendo visão social de mundo. As visões sociais de mundo podem ser utópicas como podem ser ideológicas. É também nesse quadro teórico que nós podemos discutir e resgatar as questões referentes à inclusão e exclusão na escola e na sociedade. Os discursos sobre inclusão-exclusão podem ter caráter e perspectivas ora utópicas ora ideológicas Há uma obra mais atual que discute a ótica da inclusão-exclusão nos espaços-tempos e as novas categorias da inclusão-exclusão. A leitura de “Uma história do espaço de Dante à Internet”, Wertheim (2001) EDUCAÇÃO EM FOCO 61 foi um achado primoroso. A autora, após analisar historicamente o (s) espaço (s): o espaço da alma, o espaço físico, o espaço celeste, o espaço relativístico, o hiperespaço, o ciberespaço, o ciberespaço da alma, aponta para a ciberutopia, para a idéia de que, mesmo no espaço supostamente inclusivo, libertário e includente que é o ciberespaço, mesmo nele há a exclusão. A promessa de uma comunidade utópica é o maior atrativo do ciberespaço, acena para todos nós a esperança de inclusão num todo social mais amplo, entretanto, nada ainda vem provar que o ciberespaço está disponível para todos e, mesmo online, mesmo na rede, mesmo na internet o sujeito pode ser excluído. (Werthein, 2001). UM OLHAR SOBRE A INCLUSÃO/EXCLUSÃO A PARTIR DO ENSINO E DAS ABORDAGENS DO PROCESSO. 62 Em cada momento histórico, tanto a sociedade quanto a educação e a pedagogia sempre fizeram o discurso da inclusão-exclusão. Na pedagogia tradicional, por exemplo, em que o aluno era visto como um recipiente que deveria armazenar os conhecimentos e cultura, selecionados pelo professor e pela escola, o aluno incluído seria o que absorvesse mais e melhor esse conhecimento tido como cultura; já o aluno excluído seria o que não o absorvesse a contento. Na pedagogia nova e nas pedagogias liberais o aluno é visto como ser único, onde o professor deveria guiá-lo em suas aprendizagens, conforme seus interesses pessoais, quando se valorizavam os aspectos afetivos mais que os cognitivos. Assim, incluído era o aluno afetivo, carinhoso, educado, que se relacionasse bem com os colegas e com o grupo. Já excluído seria o oposto: os alunos com dificuldades de socialização e dificuldades de convivência grupal. Na escola tecnicista em que o aluno é percebido como população-alvo para o qual se organiza um programa eficiente, sem erros no sistema, com todo um rigor de controle tanto de entrada quanto de saída (inputs, outputs e feed-backs) excluído seria o aluno incompetente. Nesse contexto o professor torna-se um técnico que aciona o processo e controla o produto. Incluído é o aluno eficiente, que elimina todos os erros do processo. EDUCAÇÃO EM FOCO Todas essas pedagogias têm um cunho conservador, todas estiveram e/ou estão a serviço do atual modelo de sociedade, têm no seu cerne características de autoritarismo, disciplinamento e classificação. Mizukami (1986) faz uma análise de diferentes abordagens do processo de ensino: tradicional, comportamentalista, humanista, cognitivista e sócio-cultural; levanta diferentes concepções de homem, de mundo, de sociedade e cultura, de conhecimento, de escola, de ensino e aprendizagem, de professor e aluno, de metodologia e de avaliação vinculadas às diferentes abordagens do processo. A autora aponta para a necessidade de os cursos formadores de educador possibilitarem o confronto entre as abordagens do processo de ensino e de aprendizagem. Na análise crítica das abordagens, entre os seus pressupostos e implicações, limites e pontos de contrastes, divergências e convergências, as abordagens podem ser dicotomizadas em ensino tradicional e ensino renovado. Excetuando as pedagogias socioculturais, fundamentadas nas primeiras obras de Paulo Freire, as demais estão impregnadas, em maior ou menor grau, de princípios que poderiam ser considerados decorrentes do escolanovismo e com a visão liberal da educação. A autora faz uma pergunta: o que fundamenta a ação docente? Ainda hoje, não sabemos o que fundamenta a ação docente, não temos respostas. Sabemos apenas que há vários fundamentos da ação docente e do fazer pedagógico. Dependendo da abordagem a que submetermos o nosso fazer pedagógico, dependendo do quadro teórico de referência, vamos tomar uma ou outra atitude em relação ao fazer pedagógico e, nesse fazer pedagógico, um olhar sobre a questão dos excluídos e dos incluídos . A ação pedagógica e os agentes da pedagogia são sínteses, são múltiplos do diverso, do consenso e do dissenso. A base para a formação do professor inclusivo perpassa por uma análise crítica de diferentes ações pedagógicas e dos diferentes agentes de pedagogia, bem como pela análise crítica da área da educação. Não pode ser tratada isoladamente. Nada pode ser tratado isoladamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Não foi, em momento algum deste breve ensaio, esgotar a discussão sobre a temática educação e formação do professor inclusivo e sobre EDUCAÇÃO EM FOCO 63 as pedagogias da inclusão-exclusão. Há muitos autores e pesquisadores na área que dão um suporte mais científico da questão. Uma coisa reafirmamos: quando mais se falou em democracia, menos se viu democracia. Usando essa mesma lógica para a inclusão-exclusão, quando mais se falou em inclusão, menos se viu a inclusão. Algumas tentativas vêm sendo feitas, mas ainda é muito pouco. Não se trata de um projeto político-social e educacional para a inclusão. Ainda carece de mais estímulo e mais convergência nas questões. Imaginar uma sociedade e uma escola totalmente abertas às diferenças individuais ainda, hoje, é uma utopia. Mas são as utopias que nos fazem viver. Tal como no pensamento de Hannah Arendt: viver uma “vita activa ou vita contemplativa” pode ser uma grande escolha pela utopia. Imaginar uma sociedade de iguais, resguardadas as diferenças, independentes de cor, raça, sexo, religião, gênero, “orientação sexual”, imaginar uma sociedade verdadeiramente múltipla e plural é ainda um sonho. Mas, quem disse que sonhos não podem tornar-se realidade, sobretudo quando não se sonha só? 64 Há uma gama de autores e pesquisadores que podem contribuir para uma leitura mais aprofundada do tema. O livro “Produção da Escola/ Produção da Sociedade” em que o autor, André Pepitat (1994), faz uma análise sócio-histórica da evolução escolar no ocidente, apesar de seguir um olhar, mais específico principalmente sobre a Europa, pode nos dar pistas bastante significativas sobre as relações da escola com a sociedade. O autor aponta para o fato de que a escola produz/ reproduz a sociedade, articulando e selecionando a cultura dos grupos sociais. Poderíamos apontar uma série de leituras obrigatórias, uma série de autores que, direta ou indiretamente, discutiram questões referentes à inclusão/exclusão na escola e na sociedade mas, como foi dito anteriormente, não foi intenção alguma esgotar o assunto, o que não nos retira, de forma alguma, o compromisso por estudá-los com mais afinco posteriormente. EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIA ARENDT, H. (1958). A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. BERGER, P.& LUCKMANN, T. (1966). A construção social da realidade. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1978. GIROUX, H. Pedagogia radical: subsídios. São Paulo: Cortez, 1983. _________. Escola crítica e política cultural. São Paulo: Cortez, 1987. GOHN, M.G.M. Movimentos sociais e educação. São Paulo: Cortez, 1992. KAMEL, A. Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. LOURO, G. L. (Org.) O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. LOURO, G. L. Um corpo estranho: Ensaios sobre a sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. LÖWY, M. (1985). Ideologias e Ciência Social: elementos para uma análise marxista. 16. ed. São Paulo: Cortez, 2003. MANNHEIM, K. (1929) Ideologia e utopia. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. MCLAREM, P. (1997). Multiculturalismo revolucionário: pedagogia do dissenso para o novo milênio. Porto Alegre: Artmed, 2000. MIZUKAMI, M.G.N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: E.P.U. 1986. SAVIANI, D. (1981). Escola e democracia. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1984. PEPITAT, A. (1982) Produção da escola, produção da sociedade: análise sócio-histórica de alguns momentos decisivos da evolução escolar no ocidente. Porto Alegre: Artmed, 1994. WERTHEIM, M. (1999). Uma história do espaço de Dante à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. Legislação Consultada BRASIL. Lei Diretrizes e Bases da Educação Nacional. (Lei nº 9394 de 20 de dezembro de 1996). Referência Eletrônica www. portal.mec.gov.br/seesp/arquivos (acessado em 06/04/07). EDUCAÇÃO EM FOCO 65 BURNOUT ENTRE DOCENTES DOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL Mauro Henrique Nogueira Guimarães de Abreu1 Adriana Watanabe* Ariela Márcia de Oliveira Silva* Carla Silva dos Anjos* Joana Augusta Drumond* Kênia Helena Frade* RESUMO 66 A s mudanças nos processos educativos formais levam, muitas vezes, ao desenvolvimento de stress prolongado e, como conseqüência, acarretam no aparecimento da síndrome do Burnout, entre docentes. O presente trabalho teve como objetivo verificar a existência dessa condição em docentes atuantes no ensino fundamental de Belo Horizonte e mensurar a associação entre variáveis sociodemográficas, profissionais e psicossociais nas dimensões do Burnout (Despersonalização, Exaustão Emocional e Realização Profissional). Após autorização da direção de escolas públicas municipais e estaduais de Belo Horizonte, um questionário que incluiu o Malash Inventory Burnout foi aplicado em 53 professoras. Foram realizados cálculos de proporção e medidas de tendência central e de variabilidade. Para se avaliar a associação entre as três dimensões de burnout e as variáveis independentes foram realizados testes não-paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal Wallis, considerando p<0,05. O estudo permitiu concluir que, apesar da ausência de informações na literatura sobre um ponto de corte numérico a partir do qual se definirá a síndrome de Burnout, os 1 Professor de Educação Superior do Departamento de Psicologia da Educação e Metodologia da Pesquisa da Faculdade de Educação, Campus Belo Horizonte, Universidade do Estado de Minas Gerais – FaE/Campus BH/UEMG * Pedagoga - FaE/Campus BH/UEMG EDUCAÇÃO EM FOCO altos valores de Despersonalização e Exaustão Emocional associados a baixos valores de Realização Profissional em alguns docentes sugerem a presença da síndrome. Variáveis profissionais e psicossociais parecem influenciar os níveis da síndrome de Burnout entre os docentes pesquisados. PALAVRAS-CHAVE: Burnout, docência, saúde INTRODUÇÃO Os professores, no exercício da atividade docente, vêm sofrendo com diversos agentes produtores de estresse. Os altos níveis de stress ocupacional, quando vivenciados por longos períodos, podem levar à condição denominada Burnout (JEPSON; FORREST, 2006). Burnout, cuja tradução para o português seria “combustão completa”, é considerada como uma doença que afeta principalmente pessoas envolvidas diretamente com outras pessoas, propensas assim ao esgotamento emocional (OGEDA et al., 2003). Burnout em professores afeta o ambiente educacional e interfere na obtenção dos objetivos pedagógicos, levando estes profissionais a um processo de alienação, desumanização e apatia, ocasionando, ainda, problemas de saúde, absenteísmo e intenção de abandonar a profissão (CARLOTTO, 2002). Essa condição tem sido relatada entre docentes de outros países (CHAN, 2003; JEPSON; FORREST, 2006). No Brasil, há alguns estudos que abordam o estresse ocupacional e poucos são os que abordam especificamente a síndrome de Burnout (VASQUES-MENEZES; CODO, 2002; BENEVIDES-PEREIRA, 2002; CARLOTTO; PALAZZO, 2006). Carlotto (2002) relata ainda que os estudos sobre Burnout tiveram início com os profissionais de serviços de saúde, mas a severidade dessa condição entre os profissionais da educação já é, atualmente, considerada superior, o que coloca o Magistério como uma das profissões de alto risco. Assim posto, este trabalho teve como objetivo verificar a existência da EDUCAÇÃO EM FOCO 67 síndrome de Burnout em docentes atuantes no ensino fundamental de Belo Horizonte e mensurar a associação entre variáveis sociodemográficas, profissionais e psicossociais nas dimensões do Burnout. REFERENCIAL TEÓRICO Uma breve revisão sobre algumas mudanças no contexto educacional Esteve (1999) afirma que as responsabilidades e exigências que se projetam sobre os educadores têm aumentado, coincidindo com um processo histórico de uma rápida transformação do contexto social, o qual tem sido traduzido em uma modificação do papel do professor. 68 Segundo Nóvoa (1995), nas últimas décadas, existe um mal-estar docente, gerado pelas transformações sociais, políticas e econômicas que ocorrem no mundo de forma acelerada, e essas mudanças atingiram o processo educativo. Por um lado, parece que a sociedade deixou de acreditar na educação como promessa de um futuro melhor; os professores enfrentam a sua profissão com uma atitude de desilusão e renúncia, o que degrada cada vez mais sua imagem social. Entretanto, o professor precisa compreender que ele não é o único responsável pelos problemas da educação, como se coloca pela sociedade, mas que estes são problemas sociais que requerem soluções por meio de políticas sociais que garantam a expansão do ensino das massas com qualidade. O professor, neste processo, depara-se com a necessidade de desempenhar vários papéis, muitas vezes contraditórios, que lhe exigem manter o equilíbrio em várias situações. Exige-se que ele seja companheiro e amigo do aluno, lhe proporcione apoio para o seu desenvolvimento pessoal mas, ao final do curso, adote um papel de julgamento, contrário ao anterior. Deve estimular a autonomia do aluno, mas ao mesmo tempo pede que se acomode às regras do grupo e da instituição. Algumas vezes propõe-se ao professor que atenda seus alunos individualmente e em outras ele tem que lidar com as políticas educacionais para as quais as necessidades sociais o direcionam, tornando professor e alunos submissos, a serviço das necessidades políticas e EDUCAÇÃO EM FOCO econômicas do momento (ESTEVE, 1999). Nóvoa (1995) complementa, afirmando que diante das mudanças ocorridas de forma acelerada, aumentaram-se as responsabilidades do professor. Agora ele, além de transmitir o conhecimento cognitivo, precisa atuar como facilitador da aprendizagem, organizador dos trabalhos em grupo, preocupar-se com a integração social e até com a educação sexual do aluno. Porém, é interessante observar que não houve mudanças significativas na formação desses professores. Dito de outra forma, o educador está utilizando os métodos que ele aprendeu há 20 anos, num contexto que exige uma visão ampla e atualizada em todos os sentidos, principalmente no campo da educação. Esteve (1999) adverte sobre as desastrosas tensões e desorientações provocadas nos indivíduos quando estes se vêem obrigados a uma mudança excessiva em um período de tempo demasiadamente curto. Para o autor, o professor está sendo tirado de um meio cultural conhecido, em que se desenvolveu até então sua existência, e está sendo colocado em um meio completamente distinto do seu, sem esperança de voltar à antiga paisagem social de que se lembra. Talvez a mais significativa modificação ocorrida no papel do professor esteja relacionada ao que Esteve (1999, p.36) denomina de “avanço contínuo do saber”. Não se trata somente da necessidade de atualização contínua, mas sim da renúncia a conteúdos e a um saber que vinha sendo de seu domínio durante anos. Os professores devem incorporar conteúdos que nem sequer eram mencionados quando começaram a exercer esta profissão. O professor que resiste a essas mudanças, que ainda pretende manter o papel de modelo social, o de transmissor exclusivo de conhecimento e o de hierarquia possuidora de poder, tem maiores possibilidades de ser questionado e de desenvolver sentimentos de mal-estar. Nóvoa (1995) coloca ainda que, para agravar mais a crise de identidade do educador, a sociedade e alguns governantes chegaram à conclusão simplista de que o professor é responsável direto pelas lacunas existentes no processo de ensino e, conseqüentemente, pelo fracasso escolar, sem levar em conta a falta de uma política educacional consistente que possa suprir as necessidades básicas do ensino, como a falta EDUCAÇÃO EM FOCO 69 de materiais didáticos, pedagógicos e o baixo salário dos professores. Diante desse contexto, pode-se considerar que fatores sócio-ambientais podem estar atuando sobre os docentes além da sua capacidade de lidar com eles. Essa condição de stress contínuo pode levar ao Burnout (JEPSON; FORREST, 2006). O QUE É BURNOUT? Burnout, em português, é algo como ‘perder o fogo’, ‘perder a energia’ ou ‘combustão completa’. Trata-se de um problema, uma síndrome que afeta principalmente os trabalhadores que lidam diretamente com seus usuários, estando mais suscetíveis os profissionais da educação e saúde (CODO, 2002). 70 É uma síndrome através da qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas já não o importam mais e qualquer esforço lhe parece ser inútil. Esta síndrome afeta, principalmente, profissionais da área de serviços quando em contato direto com seus usuários. Como clientela de risco, são apontados os profissionais de educação e saúde, policiais e agentes penitenciários, entre outros (CODO, 2002, p.238). O termo Burnout, no sentido em que será estudado, foi empregado na década de 70 pelo psicólogo clínico Freudenberger, mas há a hipótese de que ele tenha apenas nomeado um sentimento que já existia e já havia sido experimentado por outros indivíduos. Em 1969, Bradley já havia publicado um artigo em que se utilizava da expressão “staff burn-out” referindo-se ao desgaste de profissionais (BENEVIDES-PEREIRA, 2002). Freudenberger constatou em si mesmo que sua atividade profissional, que tanto lhe dera prazer no passado, só o deixava cansado e frustrado. Também notou em muitos de seus colegas, antes apaixonados por seu ofício, a estranha mutação que os transformava em cínicos depressivos, capazes de tratar os próprios pacientes com crescente insensibilidade e desinteresse (ABREU et al., 2002). EDUCAÇÃO EM FOCO Deve-se a Freudenberger e, posteriormente, a Maslach e Jackson a difusão e interesse que se seguiu a partir de seus estudos. Apesar de a primeira publicação datar da década de 60, consolidando-se na década seguinte, em nosso país, mesmo sendo prevista como doença de trabalho, ainda é desconhecida por boa parte de nossos profissionais (BENEVIDES-PEREIRA, 2002). No Brasil, a primeira publicação sobre a condição data de 1987. Na década de 1990, as primeiras teses e outras publicações começam a aparecer, alertando alguns profissionais sobre este tema. Em 06 de maio de 1996, a síndrome de Burnout é incluída no Anexo II da Regulamentação da Previdência Social, no que se refere aos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais. Mesmo assim, a síndrome de Burnout é desconhecida da maior parte dos profissionais. Seria bastante complexo conseguir que todos os trabalhadores no Brasil tomassem conhecimentos sobre o Burnout. A própria dificuldade de se conceituar o quadro e as várias expressões utilizadas, além do agravante da extensão territorial, dificulta demasiadamente esta tarefa (BENEVIDES-PEREIRA, 2002). Benevides-Pereira (2000) afirma que Burnout é um estado prolongado do estresse, e ocorre quando os métodos utilizados não foram suficientes para a superação ou falharam. O estresse pode apresentar aspectos positivos ou negativos, já Burnout sempre se apresenta de forma negativa; é o chamado Distresse. O estresse pode ocorrer com qualquer indivíduo, e quando o agente desencadeador refere-se à atividade desempenhada, denomina-se Estresse Ocupacional. O que vem a diferenciar o Estresse Ocupacional de Burnout é a perspectiva relacional presente no Burnout. Por exemplo, um engenheiro poderá sofrer de estresse devido à sua dedicação excessiva, porém dificilmente desenvolverá atitudes defensivas presentes na despersonalização (BENEVIDES-PEREIRA, 2000, p.46). A diferença entre Burnout e Depressão tem relação com os sentimentos. Chegou-se a cogitar uma sobreposição entre Burnout e depressão, no entanto, trata-se de conceitos distintos. O EDUCAÇÃO EM FOCO 71 que ambos têm em comum é a disforia, o desânimo. Todavia, avaliando-se as manifestações clínicas, encontramos nos depressivos uma maior submissão à letargia e a prevalência aos sentimentos de culpa e derrota, enquanto nas pessoas com Burnout os sentimentos são de desapontamento e tristeza (BENEVIDES-PEREIRA, 2002. p. 47). Para Vasques-Menezes; Codo (1999), Burnout consiste na ‘síndrome da desistência’, pois o indivíduo deixa de investir em seu trabalho e nas relações afetivas que dele decorrem e, aparentemente, torna-se incapaz de se envolver emocionalmente com o mesmo. No entanto, a definição mais aceita de Burnout, e que será utilizada neste trabalho, é a fundamentada na perspectiva social-psicológica de Maslach; Jackson (1981). Sua definição multidimensional inclui três dimensões, assim definidas: 72 Exaustão emocional - caracterizada por uma falta ou carência de energia, entusiasmo e um sentimento de esgotamento de recursos. O sujeito apresenta um sentimento muito forte de tensão emocional que produz uma sensação de esgotamento, de falta de energia e de recursos emocionais próprios para lidar com as rotinas da prática profissional e representa a dimensão individual da síndrome; Despersonalização – é resultado do desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas, por vezes indiferentes e cínicas em torno daquelas pessoas que entram em contato direto com o profissional, que são sua demanda e objeto de trabalho. Num primeiro momento, é um fator de proteção, mas pode representar um risco de desumanização, constituindo a dimensão interpessoal do Burnout. Essa dimensão caracteriza-se por tratar os clientes, colegas e a organização como objetos; Diminuição da realização pessoal no trabalho - há uma tendência do trabalhador em se auto-avaliar de forma negativa. As pessoas sentem-se infelizes consigo próprias e insatisfeitas com seu desenvolvimento profissional. É caracterizada como uma tendência que afeta as habilidades interpessoais relacionadas com a prática profissional, o que influi diretamente na forma de atendimento e contato com as pessoas usuárias do trabalho, bem como com a organização. EDUCAÇÃO EM FOCO Segundo Vasques-Menezes (2002), o Burnout é uma síndrome multideterminada, ou seja, uma combinação de fatores facilita o seu surgimento. Assim, ainda que as dificuldades com disciplina, desvalorização da atividade e exposição à violência despontem com seus principais causadores, não se pode desprezar outros motivadores das doenças psicossomáticas dos professores. O processo de Burnout é individual. Sua evolução pode levar anos e até mesmo décadas. Seu surgimento é paulatino, cumulativo, com incremento progressivo em severidade, não sendo percebido pelo indivíduo, que geralmente se recusa a acreditar estar acontecendo algo de errado com ele. PRINCIPAIS CAUSAS DO BURNOUT Buscando identificar as causas do Burnout, Faber2 (apud CARLOTTO, 2002) e Jepson; Forrest (2006) consideram que há uma combinação de fatores individuais, organizacionais e sociais, sendo que esta interação produziria uma percepção de baixa valorização profissional e stress prolongado, tendo como resultado o Burnout. A literatura considera professores idealistas e entusiasmados com sua profissão mais vulneráveis, pois esses sentem que têm alguma coisa a perder. Estes professores são comprometidos com o trabalho e envolvem-se intensamente com suas atividades, sentindo-se desapontados quando não recompensados por seus esforços. Idealizações em relação ao trabalho e à organização propiciam o surgimento do Burnout (CARLOTTO, 2002). Professores possuem expectativas de atingir metas um tanto quanto ousadas, até mesmo irrealistas, pois pretendem, algumas vezes, além de ensinar seus alunos, ajudá-los na resolução de problemas pessoais (CARLOTTO, 2002). A relação com o aluno tem sido apontada como umas das maiores causas do Burnout. O professor assume muitas funções, possui papéis muitas vezes contraditórios, isto é, a instrução acadêmica e a disci2 FARBER, B. A Crisis in education. Stress and burnout in the american teacher. São Francisco: Jossey-Bass Inc., 1991. EDUCAÇÃO EM FOCO 73 plina da classe. Também tem que lidar com aspectos sociais e emocionais dos alunos, e ainda conflitos ocasionados pelas expectativas dos pais, dos estudantes, dos administradores e da comunidade. A falta de autonomia e participação nas definições das políticas de ensino tem mostrado ser um significativo antecedente do Burnout (CARLOTTO, 2002). Outra questão relevante é o isolamento social e a falta de senso de comunidade que, geralmente, estão presentes no trabalho docente, tornando os professores mais vulneráveis ao Burnout. O ensino é uma profissão solitária, uma vez que há uma tendência do professor a vincular suas atividades de atendimento de alunos, ficando à parte de atividades de engajamento social (CARLOTTO, 2002). BURNOUT ENTRE PROFESSORES BRASILEIROS 74 Após extensiva busca da literatura sobre essa temática no Brasil, identificaram-se apenas dois estudos empíricos publicados em periódicos sobre a prevalência de Burnout entre professores. O primeiro estudo sobre Burnout em educadores da rede pública de ensino no Brasil foi publicado por Codo (2002). Seu estudo sobre a saúde mental dos professores de ensino fundamental e ensino médio em todo o país abrangeu 1.440 escolas e 30.000 professores, e revelou que 26% dos professores estudados apresentavam exaustão emocional. A desvalorização profissional, baixa auto-estima e ausência de resultados percebidos no trabalho desenvolvido foram fatores associados ao quadro encontrado. Outro estudo foi desenvolvido entre docentes de escolas particulares de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre. Variáveis sociodemográficas não estavam associadas com o Burnout. Das condições profissionais mensuradas, a carga horária e a quantidade de alunos atendidos estiveram associadas com a dimensão de exaustão emocional desses professores. Além disso, o mau comportamento dos discentes, expectativas familiares e pouca participação nas decisões institucionais estiveram associadas com as dimensões do Burnout (Carlotto; Palazzo, 2006). EDUCAÇÃO EM FOCO METODOLOGIA Participantes A pesquisa foi realizada com 53 professoras do ensino fundamental de 02 escolas públicas estaduais e 02 escolas públicas municipais de Belo Horizonte. A amostra, feita por conveniência, foi constituída por professoras que exercem atividade docente no ensino fundamental, sendo 25 da rede pública municipal e 28 da rede pública estadual de Belo Horizonte. A metodologia utilizada para o trabalho teve como referência primordial a pesquisa quantitativa. Instrumento O instrumento utilizado na coleta de dados foi o Maslach Burnout Inventory (MBI), elaborado por Maslach; Jackson (1981). Esse questionário é estruturado, projetado e utilizado exclusivamente para avaliar a Síndrome de Burnout em trabalhadores não levando em consideração os elementos antecedentes e as conseqüências do seu processo. O mesmo instrumento apresentou três versões, a primeira publicada em 1981 nos Estados Unidos, a segunda em 1986 e a terceira em 1996. Em cada versão as alterações são advindas de análises mais profundas e estudos posteriores das autoras citadas anteriormente (Codo, 1999). O questionário totaliza 22 itens para ser respondido através de uma escala do tipo Likert de 5 pontos, onde 01 é usado para nunca, 02 para algumas vezes ao ano, 03 para algumas vezes ao mês, 04 para algumas vezes na semana e 05 para diariamente. De seus 22 itens, 09 são relativos à dimensão de Exaustão Emocional (EE), 05 à Despersonalização (DE) e 08 à Realização Profissional (RE). Considera-se em Burnout uma pessoa que revele altas pontuações em EE e DE associadas a baixos valores em RP. No procedimento da escala de Likert, a maior pontuação possível será a multiplicação do maior número utilizado (por exemplo, 05) pelo número de assertivas favoráveis ao adoecimento, e a menor pontuação será a multiplicação do menor número (por exemplo, 01) pelo número de assertivas desfavoráveis ao adoecimento. EDUCAÇÃO EM FOCO 75 Ao instrumento citado acima foram acrescidos três blocos de questões, com as seguintes variáveis: • dados demográficos: sexo, faixa etária , estado civil, naturalidade; • dados profissionais: rede em que atua, formação, situação funcional, titulação, carga horária, tempo de experiência profissional, remuneração; • variáveis psicossociais: motivo da escolha da profissão, satisfação profissional, como melhorar a relação com a profissão, valorização perante a sociedade. Procedimento de coleta 76 Para a coleta de dados realizou-se, inicialmente, um contato com a direção das respectivas escolas, esclarecendo o objetivo do estudo a fim de obter-se a autorização para a aplicação do instrumento. Este foi entregue às professoras após o término do horário de trabalho, tendo sido a coleta realizada no dia posterior. As pessoas foram livres para participação do estudo e nenhum participante foi identificado durante qualquer etapa do trabalho. Análise estatística Os dados foram submetidos à análise estatística no programa SPSS versão 11.0. Foram realizados cálculos de proporção e medidas de tendência central e de variabilidade. Para se avaliar a associação entre as três dimensões de burnout (EE, DE e RE) e as variáveis independentes, foram realizados testes não-paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal Wallis, considerando p<0,05. RESULTADOS E DISCUSSÃO Análise descritiva dos dados da pesquisa A pesquisa identificou que 100% dos participantes eram do sexo feminino. A maioria (51,9%) estava na faixa de 41 a 50 anos; sendo que 25% apresentavam entre 31 a 40 anos; acima de 51 anos estavam 17,3%; e de 20 a 30 anos, 5,8%. Em relação à naturalidade, observou-se que EDUCAÇÃO EM FOCO 46% eram oriundas do interior de Minas Gerais, 40,4% eram naturais de Belo Horizonte, 11,5%, da grande BH e 1,9% de outro Estado. O estado civil mais relatado foi o de casado (46,1%), seguido de solteiro (34,6%) solteiro, viúvo (9,6%) e separado (7,7%). Quanto à maternidade, 69,2% têm filhos e 30,8% não têm filhos. Observou-se que 44,2% trabalham na rede pública estadual, 38,5% trabalhavam na rede pública municipal, 17,3% trabalhavam em ambas as redes. Em relação à situação funcional, verificou-se que a maioria (88,5%) era efetiva e 11,5% eram designadas. Quando se avaliou o item formação, constatou-se que 92,3% das professoras possuíam curso superior e 7,7%, o ensino médio. Em relação aos cursos de Pós-Graduação, 55,8% haviam concluído a especialização, 42,3% não apresentavam esse título e 1,9% não declararam. A maioria (57,7%) não exercia outra atividade além da docência, 36,5% exerciam outra atividade e 3,8% não declararam. A carga horária era diversificada, sendo que 57,7% trabalhavam de 4 a 8 horas diárias, 15,4% trabalhavam até 4 horas diárias e 3,8%, de 8 a 12 horas diárias. Quanto ao tempo de trabalho na docência, 42,3% atuavam na área de 21 a 30 anos, 40,4%, de 11 a 20 anos, 13,5%, por até 10 anos, 1,9% por mais de 30 anos 1,9% e, finalmente, 1,9% não declararam. No aspecto salarial, constatou-se que 40,4% recebiam de R$ 501,00 a R$ 1.000,00, 32,7%, de R$1.000,00 a R$1.500,00, 15,4%, acima de R$1500,00 e 11,5% recebiam até R$500,00. A maioria das entrevistadas (65,4%) considerou satisfeita com a profissão e 32,7% declararam não estar satisfeitas com a profissão, sendo que 1,9% não responderam. Em relação às percepções sobre o que poderia melhorar com profissão docente, 98,1% responderam ser a remuneração, enquanto 1,9% desconsideram tal possibilidade. A carga horária levaria a uma melhor relação com a profissão para 13,5% dos pesquisados. As condições físicas, materiais e didáticas da instituição foram apontadas por 73,1% como fatores de melhoria da profissão. A qualidade dos cursos de aperfeiçoamento é considerada por 73,1% como aspecto para melhoria da profissão. O campo de trabalho é considerado como fator de melhoria por 26,9% dos docentes. Uma proporção de 15,4% apontou outras EDUCAÇÃO EM FOCO 77 questões que poderiam melhorar sua relação com a profissão. Quanto à escolha da profissão, 80,8% não a relacionaram ao mercado de trabalho enquanto 19,2% escolheram a profissão por esse motivo; 5,8% procuraram a profissão como forma de prestígio social e remuneração, já 94,2% ignoraram esse motivo; 32,7% escolheram a profissão como forma de contribuir com a sociedade, já 67,3% não consideraram essa hipótese; 21,2% escolheram a docência por falta de opção; 11,5% escolheram a docência por vocação e, finalmente, 17,3% apontaram outros motivos para escolha da profissão. A maioria dos pesquisados acredita que a profissão docente é valorizada pela sociedade. 78 Os valores médios (±desvio padrão) para as dimensões EE, DE e RP da síndrome de Burnout, considerando todas as professoras estudadas, foram iguais a 2,79 (±0,94), 1,58 (±0,73) e 3,76 (±0,98). Serão apresentados os quartis para cada uma das dimensões da síndrome de Burnout. Para a dimensão EE, observa-se que o valor mínimo encontrado foi 1,1. O primeiro quartil de EE vale 1,1 que é o valor que está a meio da primeira metade. O valor de EE igual a 2,7 é valor mediano, ou seja, aquele valor que coloca 50% dos valores pesquisados acima dele e 50%, abaixo. O valor 3,5, que é o terceiro quartil, é o valor que está a meio da segunda metade. O valor máximo de EE vale 5,0 (Tab. 1). Para a dimensão DE, observa-se que o valor mínimo encontrado foi 0,8. O primeiro quartil de DE vale 1,0 que é o valor que está a meio da primeira metade. O valor de DE igual a 1,3 é valor mediano, ou seja, aquele valor que coloca 50% dos valores pesquisados acima dele e 50%, abaixo. O valor 2,0, que é o terceiro quartil, é o valor que está a meio da segunda metade. O valor máximo de DE vale 3,8 (Tab. 1). Para a dimensão RP, observa-se que o valor mínimo encontrado foi 1,0. O primeiro quartil de DE vale 3,3 que é o valor que está a meio da primeira metade. O valor de RP igual a 3,9 é valor mediano, ou seja, aquele valor que coloca 50% dos valores pesquisados acima dele e 50%, abaixo. O valor 4,5, que é o terceiro quartil, é o valor que está a meio da segunda metade. O valor máximo de DE vale 5,0 (Tab. 1). EDUCAÇÃO EM FOCO Tabela 1 - Distribuição das medidas de tendência central e variabilidade das dimensões EE, DE e RP, professoras, Belo Horizonte, 2007 Quartis EE DE RP Valor mínimo 1,1 0,8 1,0 1º. Quartil 2,1 1,0 3,3 Mediana 2,7 1,3 3,9 3º. Quartil 3,5 2,0 4,5 Valor máximo 5,0 3,8 5,0 Média (±desvio padrão) 2,79 (±0,94) 1,58 (±0,73) 3,76 (±0,98) Associação entre dimensões de Burnout e as variáveis estudadas Os dados sociodemográficos, profissionais e psicossociais foram submetidos a uma análise estatística para avaliar possíveis associações entre as três dimensões de Burnout a dimensão Exaustão Emocional (EE), Despersonalização (DE), e Realização Profissional (RE). Considerando-se Burnout os grupos que revelaram altas pontuações em EE e DE associadas a baixos valores em RP como especificado na metodologia. Com base nos dados apresentados e nas informações acima citadas, observou-se que não houve associação entre as dimensões do Burnout (EE, RE e DE) e as variáveis sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, filhos e naturalidade), (p>0,05) (Tab. 2). Em relação a esse achado, Carlotto (2002) comenta que professores com menos de 40 anos apresentam maior risco de incidência de Burnout, provavelmente devido às expectativas irrealistas em relação à profissão. Jovens precisam aprender a lidar com as demandas do trabalho e, por esta razão, podem apresentar maiores níveis da síndrome. Professores com mais idade parecem já ter desenvolvido a decisão de permanecer na carreira, demonstrando menos preocupação com os estressores ou com os sintomas pessoais relacionados ao estresse. Entretanto, achados empíricos não identificaram associações entre as dimensões do Burnout e variáveis sociodemográficas (Carlotto; Palazzo, 2006). EDUCAÇÃO EM FOCO 79 Tabela 2 - Associação entre as dimensões RP, DE, EE e as variáveis demográficas dos professores pesquisados, Belo Horizonte, 2007. 80 Analisando os dados profissionais (rede em que atua, formação, situação funcional, especialização, carga horária, tempo de experiência profissional e remuneração), observou-se que no item carga horária há uma associação entre a carga horária menor e Burnout, ou seja, aquelas professoras pesquisadas que afirmaram trabalhar até 4 horas por dia apresentaram um índice maior em DE (p= 0,03) o que indica um maior nível Burnout, em comparação àquelas que trabalham mais de 4 horas por dia. Quanto a RP (p= 0,14) e EE (p= 0,97) não há relações estatísticas significativas. Sobre esse achado, Peiró3 (apud BENEVIDES-PEREIRA, 2002) comenta que: 3 PEIRÓ, J. M. Desencadeantes do estrés laboral. Madri: Pirámide, 1999. EDUCAÇÃO EM FOCO (…) poucas tarefas durante o dia (quantitativa) ou a atribuição de tarefas muito simples, rotineiras e aborrecidas em relação às habilidades e destrezas do trabalhador podem também ser causa de estresse laboral (PEIRÓ, 1999 apud BENEVIDES-PEREIRA, 2002, p.60). No entanto, Carlotto; Palazzo (2006) afirmam que para atender mais alunos e mais atividades, o professor seria impelido a aumentar sua carga horária laboral, o que pode resultar num aumento no sentimento de esgotamento deste sujeito, associado diretamente à EE. Tabela 3 - Associação entre as dimensões RP, DE, EE e as variáveis profissionais dos professores pesquisados, Belo Horizonte, 2007. 81 EDUCAÇÃO EM FOCO Quando se analisam os dados psicossociais (motivo da escolha da profissão, satisfação profissional, como melhorar a relação com a profissão, valorização perante a sociedade), observou-se associação entre EE, RP e DE e a variável satisfação profissional. Níveis mais altos em relação à DE (p=0,01) e mais baixos de RP (p=0,01) estavam presentes entre os professores que não estão satisfeitos. Não houve associação estatística entre EE e satisfação profissional (p= 0,055). Esse achado reforça as afirmações de que Não há concordância quanto à insatisfação no trabalho ser causa ou efeito do Burnout. O que com certeza pode ser afirmado é que existe uma correlação inversa entre Burnout e satisfação nas atividades ocupacionais desempenhadas (Carlotto4 apud BENEVIDES-PEREIRA, 2002, p. 63). 82 Quando se avaliou a relação entre o relato dos fatores que poderiam melhorar a profissão docente e as dimensões do Burnout não houve associação estatística (p>0,05), exceto pelo maior nível de DE entre os indivíduos que sugeriram outras formas de melhorar a relação com a profissão (p=0,003). Em relação à associação com os motivos da escolha profissional, apenas as professoras que escolheram a profissão pela influência do mercado de trabalho apresentaram um nível mais alto de DE (p=0,02), ou seja, há maior despersonalização entre as professoras que relataram esta escolha em comparação àquelas que não apresentaram esta influência. Não há qualquer associação significativa entre motivo de escolha e RE (p= 0,09) e EE (p= 0,52) (Tab.4) . 4 CARLOTTO, M. S. Síndrome de Burnout: um tipo de estresse ocupacional. Caderno universitário. ULBRA –RS, 2001. EDUCAÇÃO EM FOCO Tabela 4 - Associação entre as dimensões RP, DE, EE e as variáveis psicossociais dos professores pesquisados, Belo Horizonte, 2007. 83 EDUCAÇÃO EM FOCO 84 O presente estudo serviu-se de um instrumental metodológico válido. Esse cuidado metodológico garante validade interna para os resultados aqui apresentados. Entretanto, considerando que a seleção das escolas foi feita por conveniência, deve-se interpretar esses dados com cautela, uma vez que os mesmos não apresentam validade externa. Dito de outra forma, não é possível extrapolar os resultados válidos para a realidade dessas escolas para todas as escolas de Belo Horizonte ou de outras realidades. Assim, novos trabalhos devem ser estimulados para a verificação desse problema de saúde entre os trabalhadores da educação. EDUCAÇÃO EM FOCO Para o grupo estudado, verificou-se a necessidade de atuação da área de educação integrada a outras políticas públicas, visando garantir o cuidado à saúde dos professores. CONCLUSÕES Com base nos resultados apresentados, pode-se concluir que: Apesar da ausência de informações na literatura sobre um ponto de corte numérico a partir do qual se definirá a síndrome de Burnout, os altos valores de DE, EE e baixos valores de RP em alguns docentes sugerem a presença da síndrome. Variáveis profissionais e psicossociais parecem influenciar os níveis da síndrome de Burnout entre os docentes pesquisados. 85 EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIAS ABREU, K. L.; STOLL, I.; RAMOS, L. S.; BAUMGARDT, R. A.; KRISTENSEN, C. H. Estresse ocupacional e síndrome de Burnout no exercício profissional da Psicologia. Psicol. Cienc. Prof., v.22, n.2, p.22-29, Jun. 2002. BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. O estado da arte do Burnout no Brasil. In: Seminário Internacional sobre estresse e Burnout, 1, 2002. Curitiba. Anais... Curitiba: Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, 2002. BENEVIDES-PEREIRA, A. M. T. Burnout: quando o trabalho ameaça o bem estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. CARLOTTO, M. S. A síndrome de Burnout e o trabalho docente. Psicol. Estud., v. 7, n. 1, p.21-29, Jun. 2002. CARLOTTO, M. S.; PALAZZO, L. S. Síndrome de Burnout e fatores associados: um estudo epidemiológico com professores. 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Belo Horizonte: [s.n.], 2002. 87 EDUCAÇÃO EM FOCO FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA O USO PEDAGÓGICO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E DE COMUNICAÇÃO NA PRÁTICA DA EDUCAÇÃO BÁSICA Cynthia Rúbia Braga Gontijo1 RESUMO: O 88 artigo investiga a formação para o uso de tecnologias de informação e de comunicação-TICs- pelos professores da Educação Básica, analisando as condições e objetivos do uso dessas tecnologias e as possibilidades dessa formação em sua prática docente. Para tanto, trata da presença da temática na produção intelectual da área, a partir de análise de textos sobre a matéria. Ao lado disso, apresenta dados de um estudo empírico desenvolvido em uma escola da rede pública municipal de BH/MG, na qual se realizaram entrevistas com professores e coordenação do laboratório de informática. Por fim, destaca que a formação para o uso das TICs e o seu próprio uso pelos professores dependem de iniciativas particulares e ocorrem em condições bastante contraditórias, estando circunscrita à cultura que está sendo gestada no interior desse processo. PALAVRAS-CHAVE: tecnologia educacional; tecnologias de informação e de comunicação; formação de professores. 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS Do ponto de vista sociocultural e histórico, apresentam-se diferentes concepções teóricas e metodológicas sobre as tecnologias; frente à 1 Pedagoga pela Faculdade de Educação, campus de Belo Horizonte, da Universidade do Estado de Minas Gerais-FaE/CBH/UEMG; especialista em Gestão Social pela Fundação João Pinheiro e mestre em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais-CEFET-MG. Professora e Coordenadora de Curso na Faculdade de Políticas Públicas “Tancredo Neves” da Universidade do Estado de Minas Gerais-FaPP/CBH/UEMG. Endereço: Avenida Augusto de Lima, 233/1012 – Centro – BH/MG – CEP: 30190-001. E-mail: [email protected] / [email protected]. EDUCAÇÃO EM FOCO polissemia da nomenclatura, necessita-se esclarecer qual concepção é adotada. Sendo produtos culturais criados pelo homem, essas emergem em contextos históricos específicos, são produzidas e utilizadas por sujeitos concretos em sociedades historicamente situadas, com desenvolvimento intimamente relacionado ao modo em que esses vivem e se organizam em sociedade. As TICs não são apenas ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos no interior das bases materiais da economia, da sociedade e da cultura. Implicam processos e produtos, frutos da ciência aplicada, nas áreas da comunicação e informação. A intensificação da presença das TICs no contexto das sociedades modernas articula-se à produção e ao uso acelerado dessas tecnologias durante o século XX, intensificação essa condicionada por transformações sociopolíticas e geográficas ocorridas em escala planetária, mas, também, condicionante de mudanças sociais, econômicas, científicas, entre outras, no interior das economias capitalistas. Cysneiros (1996) esclarece que, nesse cenário, intensificaram-se discussões sobre a presença ou ausência das TICs na escola, as quais apontaram argumentos para justificar a incorporação dessas tecnologias ao trabalho escolar, entre eles: (i) desenvolver nos estudantes suas capacidades de raciocínio lógico e numérico, suas faculdades de pensamento autônomo e criativo; (ii) desenvolver nos estudantes condições efetivas para a compreensão dos processos científicos e tecnológicos; (iii) potencializar nos estudantes um aumento de sua auto-estima; (iv) propiciar aos estudantes e aos professores o acesso a uma fonte inesgotável de informações e banco de dados interativos; (v) tornar as escolas mais eficientes e eficazes, transformando os seus modos de gestão; (vi) potencializar as relações entre escolas e comunidades através das possibilidades comunicativas das TICs; (vii) diminuir as desigualdades tecnológicas existentes entre pessoas e nações. Neste estudo, parte-se do pressuposto que a escola é um espaço singular para a formação dos estudantes, especialmente os da classe trabalhadora, para o uso das TICs, e que os professores são sujeitos privilegiados para a constituição dessa formação. Ao lado disso, entende-se que: EDUCAÇÃO EM FOCO 89 se, por um lado, a presença das TIC na educação (TV, vídeo, computador, etc.) aponta para o não distanciamento em relação às demais práticas sociais de muitos sujeitos e a possibilidade de acesso de outros tantos (mais numerosos ainda nas escolas públicas), por outro, o conceito de apropriação implica a formulação de questões silenciadas quando se adere ao modismo e à perspectiva do consumo: TIC para quê? TIC para quem? TIC em que termos? (BARRETO, 2003, p. 274). Nesse sentido, entende-se que há que se problematizar as condições concretas para a efetividade do processo de formação para o uso das TICs pelos estudantes. Este estudo investiga particularmente a formação dos professores para o uso pedagógico das TICs na Educação Básica, a partir das seguintes questões: Em que condições ocorre/não ocorre o uso dessas tecnologias na escola? Quais os objetivos desse uso? Quais as possibilidades de formação de professores na área na prática da Educação Básica? Há formação de professores para o uso pedagógico das TICs na prática da Educação Básica? 90 2. CONSIDERAÇÕES SOBRE POLÍTICAS E PRÁTICAS NA ÁREA Em relação ao processo de incorporação das TICs na prática escolar, autores como Cuban (2001, citado por BRUNNER, 2004) e Brunner (2004), que pesquisam os usos das TICs, em geral, e as ações políticas de implementação da informática nas escolas, em específico, constatam que, na maioria dos países, as políticas e práticas estão circunscritas à formação instrumental dos usuários. Em pesquisa desenvolvida por Cuban (2001) sobre os usos praticados por alunos e professores de escolas altamente conectadas, localizadas em Silicon Valley, nos Estados Unidos da América-EUA, esse conclui que, apesar do enorme acesso as TICs naquelas escolas, os seus usos reproduzem o padrão nacional americano, ou seja, os docentes usam com pouca freqüência e diversidade essas tecnologias no seu trabalho pedagógico. O pesquisador observa que, entre os professores que utilizam os computadores na sala de aula, 10% são “usuários sérios”, ou seja, os EDUCAÇÃO EM FOCO utilizam ao menos uma vez por semana; entre 20 e 30% são “usuários ocasionais”, os utilizam uma vez por mês e, mais da metade são “nãousuários”. O pesquisar observa que menos de 5% dos professores conseguem integrar a tecnologia dentro das atividades curriculares. Os resultados de sua pesquisa demonstram que, mesmo em países desenvolvidos tecnologicamente, como os EUA, o que está ocorrendo é uma democratização do acesso as TICs e não da formação para o uso crítico dessas tecnologias. Em países da América Latina, Brunner (2004, p. 17-18) constata que nesses, “os governos medem seu grau de sintonia com a sociedade da informação baseando-se no número de escolas conectadas e na proporção de computadores por alunos2”, algo que se assemelha aos países desenvolvidos tecnologicamente. No Brasil, Kenski (2003) analisou os programas de preparação didática dos professores para o uso das TICs nas escolas e concluiu que a maioria desses é falho, pois concebem que preparar o professor para trabalhar pedagogicamente com as TICs é instruí-los sobre o uso das máquinas – o conhecimento superficial do hardware e dos softwares industrializados disponíveis – em cursos de curta duração. Segundo a autora, em geral, esses programas consideram que é suficiente o simples treinamento para a utilização de programas básicos, tais como o Word e o Excel – softwares de elaboração de textos e de planilhas eletrônicas, respectivamente. Além disso, para Moraes (2000), a maioria dos programas na área são falhos porque, em seu processo de implementação/implantação, desconsideram as condições concretas – infra-estrutura, tempos e espaços escolares, currículos, práticas avaliativas, necessidades e demandas formativas, entre outros aspectos – em que as TICs estariam sendo introduzidas na escola. Ao lado disso, nota-se uma ausência 2 No caso brasileiro, até mesmo esse ponto fica a desejar, pois nas suas escolas conectadas à Internet-NET, a relação é 1 computador para cada 146 alunos, em média. A média da América Latina é de 1 para cada:100, com exceção do Chile e da Costa Rica que possuem 1 computador conectado para cada grupo de 41 alunos. Em países desenvolvidos, há em média 1 computador para cada grupo de 5 a 15 estudantes. Brunner (2004, p. 60) adverte que “pouco se sabe, também, sobre a obsolescência dos equipamentos existentes nas escolas”. EDUCAÇÃO EM FOCO 91 de práticas de monitoramento e avaliação desses processos, por parte de seus gestores. Neste estudo, compreende-se que a avaliação da incorporação das TICs nas escolas envolve questões, tais como: (i) Com que finalidade está se buscando incorporar as TICs ao trabalho pedagógico na escola? (ii) Que alterações curriculares serão necessárias no contexto de incorporação das TICs ao trabalho pedagógico da escola? (iii) Que formação será necessária aos professores e a gestão das escolas em processo de incorporação das TICs em seu trabalho pedagógico? (iv) Quais indicadores definirão em que contexto pedagógico será necessária a utilização das TICs no processo ensino-aprendizagem? Em discussão sobre questões semelhantes, Kenski (2003) salienta que a resposta a essas questões, 92 [...] recai em uma série de outras decisões sobre o ‘modelo de educação tecnológica’ que a instituição de ensino vai oferecer a seus alunos. [...]. Questões que devem ser discutidas coletivamente [...] e encaminhadas como decisões que definem a linha filosófica e o projeto pedagógico da instituição de ensino (KENSKI, 2003, p. 72). Nesse sentido, Cysneiros (1996) e Kenski (2003), entre outros, atentam para a necessidade de reflexões críticas sobre essa incorporação; essa deve estar circunscrita à responsabilidade de se avaliar em quais condições e para quê essas tecnologias estão sendo incluídas ao trabalho escolar. Para os autores, não há sentido em colocar “tecnologia de ponta” – a tecnologia considerada socialmente como provida de determinadas sofisticações em sintonia com o desenvolvimento de pesquisas na área e com as últimas novidades no mercado de bens e serviços tecnológicos – na escola sem avaliar as condições em que essas serão incorporadas, pois sem essa avaliação corre-se o risco de que “as novas máquinas sejam absorvidas de modo inócuo, em um processo de modernização conservadora” (CYSNEIROS, 1996, p. 5), no qual o estudante ao fazer uso das TICs basicamente aperta teclas, sem sequer saber para que servem. Em pesquisas sobre a formação de professores para o uso pedagó- EDUCAÇÃO EM FOCO gico das TICs, Martinez (2004) demonstra que é difícil mudar a prática profissional docente e por isso a experiência em formação de professores para o uso das TICs na escola indica que um ou dois cursos não são suficientes. Os resultados das suas pesquisas sinalizam que é preciso cerca de três a quatro anos para os professores desenvolverem os conhecimentos necessários para integrar, de maneira proveitosa, as tecnologias as suas tarefas docentes, ou seja, é preciso uma política de formação contínua para os professores. Em sintonia com as pesquisas de Kenski (2003) e Martínez (2004), a pesquisa realizada pela National Information Infrastructure Advisory Council3 identificou que o processo de formação dos professores para o trabalho pedagógico com as TICs envolvem a construção de determinadas habilidades circunscritas a períodos contínuos de formação, conforme se apresenta no Quadro 1. Quadro 1 Habilidades docentes para o trabalho com as TICs/tempo mínimo para a sua formação (F) e em prática de uso pedagógico (E) Estágio Entrada Adoção Adaptação Tempo Descrição gasto O professor tenta dominar a tecnologia. Nenhum O professor domina o uso básico da tecnologia. 30 horas (F) O professor descobre uma variedade de aplicações para + 45 horas o uso da tecnologia, tem conhecimento operacional do (F); 3 meses hardware. (E) O professor domina a tecnologia e pode usá-la para + 60 horas Apropriação alcançar vários objetivos instrucionais ou para gerenciar (F); 2 anos (E) a sala de aula. Invenção + 80 horas O professor utiliza a tecnologia como uma ferramenta (F); 4-5 anos flexível. (E) Fonte: National Information Infrastructure Advisory Council, (2005)4. 3 Para detalhamentos acerca dessa pesquisa, consultar: http://www.benton.org/KickStart 4 Com adaptações da autora do presente artigo. EDUCAÇÃO EM FOCO 93 Para Martínez (2004), além de uma política de formação contínua, é preciso considerar as solicitações feitas pelos próprios docentes nesse campo, que são, entre outras: (i) flexibilidade nos horários de aula para possibilitar condições concretas para o desenvolvimento de projetos pedagógicos que envolvam o uso das TICs; (ii) tempo para o planejamento coletivo de projetos, nessa área, entre os pares; (iii) horários flexíveis de trabalho que favoreçam a sua participação em jornadas de atualização e desenvolvimento profissional; (iv) suporte técnico no uso dos equipamentos e (v) apoio pedagógico em relação aos usos possíveis das TICs em sala de aula. Importa registrar que a produção intelectual na área aponta que há uma tendência de democratização do acesso às TICs, sendo essa objeto de agendas governamentais em escala planetária, mas que não se identificam claramente na agenda política programas e projetos de formação de usuários críticos e, menos ainda, de qualificação de professores para a incorporação dessas tecnologias em suas atividades pedagógicas. 94 3. ASPECTOS METODOLÓGICOS DO ESTUDO EMPÍRICO Para a identificação do campo empírico deste estudo, realizou-se um mapeamento5 do número de escolas em Belo Horizonte-BH das duas redes públicas – Municipal e Estadual – que trabalham com a Educação Básica, que têm laboratório de informática-LI e desenvolvem projetos de formação para o uso das TICs. A partir das entrevistas realizadas junto aos setores de informatização das escolas estaduais em Minas Gerais e municipais em BH, decidiu-se desenvolver o estudo empírico na escola X6. Iniciou-se a coleta de dados nessa escola, a qual trabalha com turmas do 1° e 2° Ciclos do Ensino Fundamental-EF e do Ensino Médio, em três turnos de funcionamento. 5 Foram realizadas entrevistas junto aos responsáveis pela informatização de escolas nas Secretarias de Educação do Estado de Minas Gerais e do Município de Belo Horizonte. 6 Por motivos de preservação dos sujeitos escolares envolvidos no processo investigativo, optou-se por manter em anonimato o nome da escola. Quanto aos sujeitos, eles foram identificados por letras e números. EDUCAÇÃO EM FOCO Diante desse universo, selecionaram-se professores a serem entrevistados, buscando contemplar a representatividade dos três turnos, de todas as turmas, dos sexos masculino e feminino e a própria vontade do sujeito em ser entrevistado. Foram entrevistados seis professores-P e o Coordenador do laboratório de informática-CL da Escola, no período de novembro de 2006 a fevereiro de 2007. Cabe aqui registrar que a maioria – cinco – dos entrevistados nunca participou de cursos sobre TICs. Os dois professores que participaram de cursos nessa área os fizeram por intermédio da Secretária Municipal de Educação de BH-SME/BH. A seguir, registram-se aspectos da análise dos dados do presente estudo. 4. ANÁLISE INICIAL DOS DADOS 4.1. A implantação e implementação das TICs na Escola O LI7 da Escola foi implementado em 2001 no contexto do Programa Nacional de Informática na Educação-ProInfo, implementado em 1998 pela parceria entre o Ministério da Educação-MEC e as secretarias estaduais de educação e prefeituras municipais8, mas, desde 1998, há uma discussão na escola sobre a inclusão digital, impulsionada por um grupo de professores interessados na temática. Um desses professores assumiu a coordenação do laboratório. Segundo ele, o primeiro momento do trabalho com as TICs envolveu a busca pela participação do corpo docente no mesmo, algo que demandou um enorme esforço do grupo defensor da formação para o uso das tecnologias na Escola. As discussões se desenvolviam em encontros aos sábados, em seminários de formação organizados pelo CL, contavam com a presença de cerca de 10% dos docentes da Escola. O CL explica que: [...] tinha uns professores que tinham uma concepção, outros 7 O LI possui 14 computadores, operando com o Sistema Operacional de computadores Linux e ligados em rede. O desenho do LI segue o layout de células, modelo adotado pelo ProInfo. 8 Para conhecimento do Programa, consultar: http://www.proinfo..mec.gov.br. EDUCAÇÃO EM FOCO 95 professores outra; eram concepções diferentes. E a gente tinha que amarrar isto, tinha gente que entendia o computador como espaço pessoal para digitar as coisas e o limite era só este e tinham outros que, eu coloco no extremo do leque, pensavam na idéia de construção coletiva, que as soluções pedagógicas tinham que ser feitas dentro do laboratório. Foi esta segunda concepção que venceu (CL). O CL ressalta que naquele momento todos eram “analfabetos em informática” e havia muita resistência no Grupo, sendo essa considerada a principal dificuldade no processo. Nosso principal objetivo era que os professores se entusiasmem com a idéia e resolvessem perder o medo da máquina (CL). 96 Outras dificuldades apontadas pelo CL foram a burocracia para o acesso aos recursos físicos – equipamentos - e financeiros e a falta de apoio técnico por parte da SME/BH9. Estas foram sendo superadas, em parte, através da pressão política de um grupo de alunos e professores, junto à Secretaria, e da busca por parcerias com órgãos públicos e privados interessados em fomentar e/ou apoiar a “inclusão digital”. Com relação às orientações para a utilização do laboratório, o CL esclarece que não há uma proposta formativa precisa para o uso das TICs na Escola. Dentro disso, o Grupo optou pela autonomia na decisão pelo uso ou não das tecnologias no processo pedagógico, mas há um constante incentivo por parte do CL para que o corpo docente inclua as TICs em seu projeto ensino-aprendizagem. Os alunos são livres para utilizarem o laboratório, inclusive durante o horário das aulas10 e os professores para desenvolverem projetos. O CL, assim como os professores entrevistados que participam desse processo, acordam que vem ocorrendo um avanço qualitativo em termos de uso e de proposta de uso das TICs na Escola, desde a sua 9 De acordo com o CL, naquele momento havia cerca de 700 computadores nas escolas municipais de BH, hoje são cerca de 2000, mas, ainda, não há condições estruturais adequadas para o acompanhamento técnico desses equipamentos. 10 Há um enorme fluxo de alunos no laboratório, durante todo o horário escolar, havendo disputa pelo uso das máquinas. EDUCAÇÃO EM FOCO implementação em 2001. Durante as entrevistas realizadas, eles apresentaram, com orgulho, projetos desenvolvidos por professores das mais diversas disciplinas, demonstrando o intuito de demarcar um lugar: o lugar de um grupo que assumiu a responsabilidade por um determinado processo institucional. 4.2. USOS DE TICS PELOS PROFESSORES NA PRÁTICA ESCOLAR Em relação às condições de infra-estrutura – equipamentos e suporte técnico – para o desenvolvimento de trabalho com as TICs na Escola, os entrevistados são unânimes em afirmar que essas não são adequadas, pois não atendem as suas demandas na área. Segundo os entrevistados, não há equipamentos – televisão, vídeo, DVD, som e computadores – suficientes e disponíveis com freqüência para atender as demandas dos sujeitos escolares para os seus usos, conforme apresenta a Tabela 1. Tabela 1 - Condições de uso das TICs na prática escolar 97 Adequação Sim Não N 7 Total Motivos da adequação/inadequação Há equipamentos, mas em número insuficiente Há equipamentos, mas esses não estão em bom funcionamento N - Total 7 7 5 2 Fonte - Entrevistas realizadas com professores, 2007. Dois professores registram: Eu acho que, na verdade, a escola tem uma especificidade em relação à questão das TICs, mas não há equipamentos para atender a todos. Então, eu acho que falta, ainda, mais acesso a esses equipamentos, ou melhor, falta equipamentos para que haja de fato uma melhor socialização da importância das TICs no ensino (P3). Para outros dois professores, há equipamentos, mas geralmente esses EDUCAÇÃO EM FOCO não estão disponíveis para uso. De acordo com um desses professores: [...] o som nunca está disponível, eu precisava de um Datashow e, na última hora, disseram que não tinha disponível [...] Daí tive que arrumar por conta própria [...] (P5). Esse professor considera que esses equipamentos, geralmente, não estão disponíveis para o uso, porque, devido à inexistência de uma agenda coletiva para a utilização do LI e demais recursos tecnológicos, alguns professores utilizam-nos com freqüência e outros não têm a oportunidade de fazê-lo. Segundo ele, essa agenda, ainda, não foi elaborada devido à resistência de alguns professores em relação ao uso das TICs na prática escolar: 98 Pra sintetizar, existe muito preconceito por parte dos professores com relação ao projeto [de uso do LI]. Tudo poderia ter sido mais ágil, mas devido à resistência, a coisa caminhou devagar [...]. Ainda não conseguimos organizar nosso trabalho, fazer uma agenda [...] (P5). Segundo esse professor, a política de governo orienta a implementação do laboratório, em alguns casos oferece cursos para os professores utilizarem determinados softwares, mas não há uma proposta de formação e acompanhamento contínuo do trabalho com as TICs nas escolas, o que minimiza o interesse da maioria em participar, pois, além do “medo da máquina”, convivem com a insuficiência de formação para o seu uso, algo que não se resolve a curto prazo. Nós, educadores, também, temos muita dificuldade com o uso da tecnologia: você liga um computador e está tudo em inglês. Você tem que ficar fuçando para ver qual é a tecla que liga ou que aumenta o foco ou não [...] Eu, ainda, preciso avançar muito no uso da tecnologia, pois eu, ainda, tenho uma resistência muito grande (P5). Ainda sobre os motivos de inadequação das condições de uso das TICs na Escola, assinala-se que outros dois professores consideram que há EDUCAÇÃO EM FOCO equipamentos, mas a maioria deles está inadequado para o uso. Nas palavras de um deles: Primeiramente, eu posso dizer claro, a gente tem o básico e só. Por exemplo, eu precisei de uma televisão e a televisão não estava boa, o DVD está sempre com problemas, os computadores sempre apresentam algum defeito [...] (P6). Além da insuficiência de equipamentos, os professores sinalizam para a falta de condições técnicas para os seus usos, ou seja, segundo eles não há suporte técnico efetivo que garanta a operacionalidade permanente das máquinas e dos programas. Eu acho que os equipamentos são limitados e também tenho percebido talvez uma chamada capacitação pra que haja um melhor entendimento na utilização desses equipamentos, porque nem todos nós sabemos ao certo como resolver os problemas no momento que há a concretização do processo de ensino-aprendizagem [...]a partir do momento que cada vez mais as tecnologias elas estão em processo de avanço e os equipamentos também mudam, então o acompanhamento da evolução desses equipamentos torna-se um obstáculo pra que de fato a gente tenha a condição de manusear, de apertar o play, entre tantas outras coisas (P3). Identifica-se que há um grupo de professores na Escola pesquisada que não utilizam ou pouco utilizam as TICs em seus trabalhos com os alunos, mas reconhecem/demandam formação para o uso pedagógico dessas tecnologias. Durante as entrevistas realizadas com os professores, identificou-se que, apesar das condições que eles consideram “inadequadas” em termos de infra-estrutura e apoio técnico, há um grupo que elabora estratégias pedagógicas para o uso das TICs e, nesse contexto, utilizam-nas em suas aulas com bastante freqüência. Em vários momentos a gente utiliza estratégias, nós utilizamos, por exemplo, o datashow, que é um recurso fundamental no curso de Geografia, no nosso caso, grande parte dele foi com EDUCAÇÃO EM FOCO 99 o uso do datashow, foi muito utilizado no sentido de mapas, gráficos, e também usamos o vídeo; o vídeo também tem sido bastante utilizado. Eu particularmente trabalho muito com o apoio do vídeo, em vários momentos geralmente quando você vai introduzir uma disciplina, eu utilizo muito. Há também a questão do uso do próprio CPU [computador]. Eu, geralmente, levo os alunos pro laboratório de quinze em quinze dias; eles fazem pesquisas na Internet. Fazer com que os alunos tenham acesso ao CPU é muito importante: ao estar manuseando, buscando dados, permitimos eles estarem trabalhando e desenvolvendo habilidades (P2). Nesse contexto, identificam-se professores que não trabalham com as TICs em suas aulas, atribuindo à falta de equipamentos, suporte técnico adequado e interesse dos alunos o fato de não utilizarem essas tecnologias na prática escolar. Por outro lado, há um grupo de professores que, apesar de sinalizar que as condições de uso são “inadequadas”, elaboram estratégias para os seus usos. 100 Os professores entrevistados consideram a formação dos sujeitos para o uso das TICs de extrema importância no cenário contemporâneo, especialmente no contexto do mundo do trabalho e a escola como um lócus privilegiado para assumir a formação dos seus alunos para o uso dessas tecnologias. No entanto, os objetivos do uso das TICs na prática escolar se diferenciam entre os que as utilizam, conforme apresenta a Tabela 2. Tabela 2 - Objetivos do trabalho com as TICs na prática escolar Uso N Sim 5 Não 2 Objetivos Manifestações N Construir determinadas habilidades referentes ao uso das TICs demandadas pelo mercado de 12 5 trabalho Desenvolver capacidades cognitivas 2 1 Ilustrar/exemplificar conteúdos trabalhados em sala 5 3 de aula Propiciar condições de (re)afirmação da cidadania 7 4 Aumentar a auto-estima 1 1 Fonte - Entrevistas realizadas com professores, 2007. EDUCAÇÃO EM FOCO Quando solicitados a falarem sobre os objetivos que os levam a utilizarem as TICs na prática escolar, cinco dos professores entrevistados explicam que as usam com o objetivo de contribuir com a construção, por parte dos alunos, de determinadas habilidades tecnológicas demandadas pelo mercado de trabalho. Porque eles [os alunos] têm consciência do mercado, de tudo que está acontecendo por aí, sabe o que tá rolando, querem disputar a entrada para a faculdade. Cerca de 10% dos nossos alunos vão pra faculdade, tanto a pública quanto a privada. Cerca de 40% dos nossos alunos querem ir para uma faculdade e a gente os apóia e os incentiva, mas não praticamos ensino vestibulares. Buscamos desenvolver neles determinadas competências para que eles se tornem autônomos [...] Eu acho que é natural, é o mercado, a demanda que está aí fora, é querer melhorar de vida. Assim, eles querem falar melhor, nós discutimos isto com eles, melhorar o padrão de vida, vão sair do tráfico [...] Para mim, é importantíssimo que eles aprendam a usar as novas tecnologias nesse sentido (P5). Já um professor entre os sete entrevistados utiliza as TICs em suas aulas porque considera que esse uso contribui com o desenvolvimento de determinadas capacidades cognitivas dos alunos como, por exemplo, o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático e de leitura de textos em suportes diversificados. A grande contribuição dessas tecnologias é primeiro e principalmente no que diz respeito à questão imagem pelo fato de o computador trazer uma variedade muito grande de imagens. São muitas as possibilidades de aprendizado que os alunos têm ao acessar essa nova linguagem: imagens, escrita, som. A conjugação de linguagens é uma grande contribuição para a aprendizagem dos alunos. E segundo, no que diz respeito ao desenvolvimento do raciocínio lógico. Eu percebo que eles se desenvolvem bastante nesse sentido. Dessa forma, procuro trabalhar com eles as TICs para ajudar nesse aprendizado (P2). EDUCAÇÃO EM FOCO 101 Três professores esclarecem que usam as TICs em seus trabalhos escolares com os alunos com o objetivo de ilustrar/exemplificar conteúdos trabalhados em sala de aula. Um deles comenta em seu depoimento: 102 Quando a gente usa uma imagem no datashow ou mesmo no retroprojetor, o aluno fixa mais o conteúdo, pois as imagens ajudam nesse sentido. Muitas vezes, a utilização da computação é no sentido de se estar ampliando as possibilidades de leitura, de pesquisa, por exemplo, do aluno. Se você faz um trabalho sobre a ditadura, por exemplo, você tem ali uma fonte de pesquisa, de imagens, de música, infinito. É um campo de possibilidades infinito para você usar. Por exemplo, nós utilizamos o som, as músicas, para trabalhar alguns conteúdos e foi muito descontraído, foi muito legal. Eles puderam refletir sobre as músicas que denunciavam a ditadura militar na época. Eles puderam ver, no projetor, alguns slides retratando fotos da ditadura; no datashow isso fica muito mais legal que na mão. Quando eles viram as fotos, nossa, eu acredito que eles se sensibilizaram para a temática da ditadura, que nós iríamos trabalhar em seguida (P2). Quatro professores utilizam as TICs em suas aulas porque entendem que o aprendizado dessas tecnologias propicia a (re)afirmação de direitos dos sujeitos escolares, ou seja, para eles o uso da informática implica a experiência da cidadania. Um deles aponta: [...] a gente está vivendo hoje uma transformação radical no processo produtivo, e à medida que isso acontece, se instalando na sociedade do conhecimento, mais do que a questão da alfabetização da leitura e escrita, a alfabetização digital é fundamental para permitir às pessoas ampliar o conceito de cidadania. Então, não dá para desconsiderar em nosso trabalho a importância do uso da informática, para que o sujeito possa exercer sua cidadania (P3). Outro professor explica que utiliza as TICs em suas aulas com o objetivo de contribuir com o aumento da auto-estima dos alunos. Assim se expressa: EDUCAÇÃO EM FOCO A gente percebeu, no inicio, uma resistência muito grande [dos alunos] ao lidar com aquela tecnologia [os computadores do LI], mas depois que ele [o aluno] começou a dominar, se sentiu muito satisfeito de estar dominando. Eu acredito que eles deixaram de se sentir menos que os outros [aqueles que utilizam as TICs]. No momento que acessaram; aguçou a auto-estima deles. Eu sempre procuro levá-los para o laboratório para navegarem na Internet, pois acho que assim eles se sentem muito felizes (P4). Os dados do presente estudo evidenciam que os professores entrevistados consideram as TICs como uma inovação no contexto escolar, mas adotam posturas diferentes em relação a elas. Ao lado disso, identifica-se que a formação para o uso das TICs, em termos de condições de uso, na Escola pesquisada e o seu próprio uso, em termos de objetivos de uso, por parte dos sujeitos escolares implica propostas, traduzidas ou não em projetos, de iniciativa de professores, não estando inseridas em projetos de governo. Segundo os entrevistados, a política de governo orienta a implementação do laboratório, em alguns casos oferece cursos para os professores utilizarem determinados softwares, mas não há uma proposta de formação e acompanhamento contínuo do trabalho com as TICs nas escolas, o que minimiza o interesse da maioria em participar, pois, além do “medo da máquina”, convivem com a insuficiência de formação para o seu uso, algo que não se resolve a curto prazo. Nós mesmos, educadores, temos também muita dificuldade com a tecnologia; você liga um computador e está tudo em inglês, você tem que ficar fuçando pra ver qual é a tecla que liga ou que aumenta o foco ou não [...] Eu ainda preciso avançar muito no uso da tecnologia, pois eu ainda tenho uma resistência muito grande (P2). Constata-se em suas falas uma demanda por um suporte técnico conjugado a uma capacitação dos próprios professores para aprenderem a lidar tecnicamente com as TICs, no sentido de construírem condições concretas para a resolução de problemas imediatos em relação ao manuseio das máquinas e programas. EDUCAÇÃO EM FOCO 103 Diante dos medos e da insuficiência formativa dos professores, em geral, os docentes líderes nesse processo – aqueles que se envolvem efetivamente e assumem a responsabilidade por suas orientações – elaboram estratégias de convencimento dos seus pares. Assim, os “convencidos a participar” – aqueles que decidem se envolver efetivamente no processo - elaboram intuitivamente estratégias de ação, no sentido de incluir o uso das TICs em suas disciplinas. Eu não conheço projetos (de uso das TICs no processo ensinoaprendizagem) bem definidos na Escola; eu conheço experiências que de alguma forma tentam vincular ou tentam percorrer por temáticas que vinculem essas tecnologias ao processo (P6). 104 Na minha formação, eu não tive a mínima possibilidade de ter acesso a essas tecnologias, mas eu tento trabalhar elas com os meus alunos. Trabalhamos num sistema de descobertas [...] (P7). 5. CONSIDERAÇÕES PROVISÓRIAS A compreensão crítica da tecnologia, da qual a educação de que precisamos deve estar infundida, é a que vê nela uma intervenção crescentemente sofisticada no mundo a ser necessariamente submetido a crivo político e ético. Quanto maior vem sendo a importância da tecnologia hoje tanto mais se afirma a necessidade de rigorosa vigilância ética sobre ela. De uma ética a serviço das gentes, de sua vocação ontológica, a do ser mais e não de uma ética estreita e malvada, como a do lucro, a do mercado (FREIRE, 2000, p. 101). Os resultados do estudo evidenciam que a formação para o uso das TICs e o próprio uso das tecnologias pelos professores dependem de iniciativas particulares e ocorrem em condições bastante contraditórias, ou seja, há um incentivo por parte da Secretaria para que as escolas utilizem as TICs, mas não há um apoio técnico-pedagógico efetivo para que essa utilização ocorra; também não há projetos de EDUCAÇÃO EM FOCO formação contínuos que visem a formação dos professores para o uso pedagógico dessas tecnologias; a formação depende de iniciativas particulares. No caso da Escola pesquisada, alguns sujeitos emergem como líderes conduzindo a um entusiasmo de alunos e professores sobre a matéria. Esse entusiasmo com as possibilidades de uso das TICs não se traduz, necessariamente, na efetividade da formação na área, mas configura-se como uma condição fundamental nesse processo. 105 EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO, Raquel Goulart. Tecnologias na formação de professores: o discurso do MEC. Educação e Pesquisa, v. 29, n. 2, dez. 2003, p. 271-286. BRUNNER, José Joaquín. Educação no encontro com as novas tecnologias. In: TEDESCO, Juan Carlos (org). Educação e novas tecnologias: esperança ou incerteza? São Paulo: Cortez, 2004. CYSNEIROS, Paulo Gileno. Um modelo para a assimilação da informática pela escola. In: III CONGRESSO IBEROAMERICANO DE INFORMÁTICA EDUCATIVA. Colômbia, 1996. 1 CD-ROM. FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000. KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e ensino presencial e a distância. São Paulo: Papirus, 2003. MARTÍNEZ, Jorge H. Gutiérrez. Novas tecnologias e o desafio da educação. In: TEDESCO, Juan Carlos (org). Educação e novas tecnologias: esperança ou incerteza? São Paulo: Cortez: 2004. 106 MORAES, Raquel de Almeida. A política de informática na educação brasileira: do nacionalismo ao neoliberalismo. (Educação) Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, Brasília, 2000. EDUCAÇÃO EM FOCO INTERFACE ENTRE EDUCAÇÃO E SAÚDE: DESCREVENDO UMA ESTRATÉGIA EDUCATIVA PROPÍCIA AO DIÁLOGO, REFLEXÃO E TROCA DE EXPERIÊNCIAS SOBRE SEXUALIDADE COM ADOLESCENTES.1 Maria José Nogueira2 Celina Maria Modena3 Virgínia Torres Schall4 RESUMO B uscando uma interface entre a educação e a promoção da saúde na atenção primária, foi elaborado um processo de intervenção com o objetivo de criar um espaço de reflexão e aprendizagem sobre questões relativas a sexo e sexualidade na adolescência. A pesquisa foi realizada na Vila Cafezal, que faz parte do aglomerado da Serra, localizado na região centro sul de Belo Horizonte. A abordagem qualitativa, na perspectiva da pesquisa participante, balizou 1 Projeto financiado pela FAPEMIG. Edital PPSUS –Processo 117/05 e CNPq: Edital Saúde da Mulher – Processo 551264/2007-1 2 Socióloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Doutora, pelo Instituto René Rachou/Fundação Oswaldo Cruz - Laboratório de Educação em Saúde* - [email protected] 3 Psicóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) - Doutora em Ciências pela Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ) - Pós Doutora em Saúde Coletiva - Pesquisadora visitante do Laboratório de Educação em Saúde – Instituto René Rachou*. [email protected] 4 Psicóloga pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - Mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais - Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - Pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz - Chefe do Laboratório de Educação em Saúde – Instituto René Rachou * [email protected] * Avenida Augusto de Lima, 1715 – Bairro Barro Preto CEP: 30.190 – 002 / Tel.: +55 0 XX 31 33497700 Ramal: 7741 EDUCAÇÃO EM FOCO 107 o estudo. Para construção da intervenção foi utilizado o referencial teórico metodológico dos grupos operativos (Pichon-Riviére, 2000) e das oficinas (Afonso, 2003). Os encontros foram analisados segundo os pressupostos da análise de conteúdo (Bardin,1977) e o processo grupal, com base nos sete vetores de avaliação propostos por PichonRivière. Observou-se que a categoria analítica gênero perpassou todo o processo, mostrando-se reveladora para o entendimento e reflexão das temáticas referentes ao sexo, à sexualidade e à adolescência. A análise do processo grupal demonstrou que a intervenção conjunta entre a educação e saúde pautada nos pressupostos do diálogo e da participação permite a criação de um espaço propicio à reflexão, ao diálogo e à troca de experiências nos vários campos do saber. PALAVRAS-CHAVE: Adolescência, Sexualidade, Grupo Operativo, Educação em Saúde INTRODUÇÃO 108 N o contexto do aparente, do revelado, do espetacular, que marca o cenário atual, a sexualidade é mostrada e vendida como mercadoria, compondo nossa cesta básica de ilusões. Segundo Caridade. “(...) o adolescente contemporâneo vive sua sexualidade em meio às referências que invadem seu imaginário. Ele é ator integrante do espetacular de nossa cultura. Como tal, é continuamente convocado a consumir imagens mais que a refletir, a elaborar, ou a pensar. Com isso é empurrado a permanecer na periferia de si mesmo, e nesse embotamento reflexivo, é difícil construir projetos pessoais, que lhe possibilitem reconhecer-se como alguém de valor” (Caridade, 2002, p. 08). Se no Brasil, 22% da população é de adolescentes (10 a 19 anos), pode-se inferir que um grande contingente populacional encontra-se exposto e susceptível a viver a sua sexualidade plasmada nesse cenário. Apesar do número elevado, muitos desses jovens ainda não têm acesso a informações e serviços adequados ao atendimento de suas necessidades em termos de saúde sexual e reprodutiva que os estimulem EDUCAÇÃO EM FOCO a tomar decisões de maneira livre e responsável (Claro et al.,2006 ; Suárez et al., 2002). No que se refere ao âmbito da educação, a Orientação Sexual na Escola é prática defendida e orientada pelo Ministério da Educação (MEC) nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), como eixo transversal ao currículo (Brasil,1998). Neste, a escola é considerada parceira da família e da sociedade na promoção da saúde das crianças e dos adolescentes, co-responsável pela orientação da criança do pré-escolar ao ensino fundamental. Assim,“(...) A orientação sexual na escola é um dos fatores que contribui para o conhecimento e valorização dos direitos sexuais e reprodutivos” (PCN, Brasil. 1998 p 293). Quando se considera as diretrizes do PCN no sentido de realizar estratégias e ações que transcendam o mero informar e sejam capazes de propiciar uma reflexão crítica de valores e atitudes, o cenário nas escolas é preocupante. Em alguns casos não se percebe a vinculação dos conteúdos ao contexto dos escolares. Embora o livro didático seja um dos materiais mais disponíveis e utilizados pelos professores em todo o território nacional, avaliações recentes de alguns tópicos dos livros de ciências, no que se refere à saúde, revelam incorreções e concepções incorretas (Mohr, 2000). No âmbito da saúde, verifica-se, na atenção primária, a baixa procura dos adolescentes aos centros de saúde e a baixa adesão dos mesmos aos programas e ações desenvolvidas nesses locais (Klein et al;1998). A maioria dos adolescentes procura os postos de saúde devido a quadros agudos ou acidentes (demanda curativa). Reconhece-se como um grande desafio a elaboração de programas que sejam capazes de atender as necessidades e especificidades deste público (Ayres, 2002; Horta, 2007). Em muitos casos, as ações e programas estão vinculados aos aspectos reprodutivistas, em um modelo tradicional de atenção à saúde da mulher, negligenciando um conceito mais amplo de sexualidade. Os programas em educação em saúde são em muitos casos pautados em um modelo tradicional de transmissão de conhecimento “dos que sabem” para os que “não sabem”, desconsiderando, assim, que os indivíduos podem e devem ser agentes ativos de seu conhecimento. EDUCAÇÃO EM FOCO 109 É necessário destacar que além de políticas públicas específicas para o adolescente no âmbito da sexualidade, por exemplo, faz-se necessária uma discussão mais ampla em outras esferas (família, escola, trabalho, educação etc.). Para temas como a sexualidade, que requerem não só domínio do conhecimento biológico, mas reflexão sobre a vida e o ambiente em que se vive, construir novos conhecimentos demanda processos singulares e criativos, pautados em premissas mais dialógicas, reflexivas e horizontais. Estes pressupostos remetem a teóricos como Paulo Freire e PichonRivière. O primeiro ressalta a necessidade de romper com a idéia clássica da prática educacional como um ato de transferência de conhecimento. Na obra de Pichon-Rivière (2000), a noção de aprendizagem está relacionada à apropriação instrumental da realidade, por meio dos conceitos teóricos, para apreendê-la e modificá-la, numa relação dialética mutuamente modificante e enriquecedora entre o sujeito e o mundo. 110 Os autores percebem os indivíduos como sujeitos possuidores de saberes valiosos e capazes de transmitir conhecimento. Como diria Freire (1974), compartilhar uma “leitura do mundo”, ou nas palavras de Pichon-Rivière (2000), realizar uma “leitura da realidade”. Em ambos o cotidiano adquire um lugar central em termos de objeto de conhecimento. Na tarefa de alfabetização de adultos, Freire (1976) ressalta a importância de buscar no cotidiano dos “alfabetizandos” as palavras geradoras, por meio das quais iniciarão o processo de alfabetização. Na obra de Pichon Rivière, o cotidiano é apresentado como um campo rico de conhecimento, que nada tem de óbvio, requerendo ser desvelado. O sujeito pichoniano é entendido imerso em suas relações cotidianas, estabelecendo com o mundo uma relação conflituosa e contraditória. A tarefa do pesquisador “(...) pode ser definida como a tentativa de descobrir, entre outras coisas, certo tipo de interações que entorpecem o pleno desenvolvimento da existência humana” (PichonRivière, 2000, p.119). O instrumento de trabalho seria o grupo operativo. Segundo Pichon-Rivière (2000, p.143), “(...) o grupo operativo é um grupo centrado na tarefa que tem por finalidade aprender a pensar em termos da resolução das EDUCAÇÃO EM FOCO dificuldades criadas e manifestadas no campo grupal, e não no campo de cada um de seus integrantes (...) Também não está centrado exclusivamente no grupo (...), mas sim em cada aqui-agora-comigo na tarefa que se opera em suas dimensões, constituindo, de certa forma, uma síntese de todas as correntes”. Segundo o autor, para ser “operativo”, o grupo precisa ser dinâmico e reflexivo. Deve haver equilíbrio entre os objetivos que o grupo se propôs a alcançar, ou seja, a “tarefa externa”, e sua dimensão mais subjetiva, a “tarefa interna”, permitindo o fluir da interação e da comunicação. Ressalta que a comunicação grupal é possível pela existência de um Esquema Conceitual, Referencial e Operativo (ECRO), que permite que o grupo explicite e compreenda suas crenças, valores, atitudes e práticas. O papel do coordenador é criar um vínculo entre o grupo e o campo de sua tarefa, construindo, com o mesmo, o ECRO. Esta noção de vínculo e comunicação permeia também toda a obra de Freire, aparecendo de maneira mais clara em “Por uma pedagogia da Pergunta” (Freire 1985), na qual o autor demonstra a importância de se trabalhar o vínculo no processo de aprendizagem, a importância do diálogo e do protagonismo dos sujeitos, na busca de uma educação libertadora, em contraponto à educação domesticadora. Partindo da premissa de que o comportamento preventivo, através da educação sexual, deva estar mais presente no início da vida sexual, e que a interface entre os campos da educação e da saúde é fundamental para estreitar os laços entre os adolescentes e o Centro de Saúde, desenvolveu-se uma estratégia de intervenção com o objetivo de criar um espaço para a construção do conhecimento acerca de sexo e sexualidade. REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO A abordagem qualitativa, que tem como um de seus principais aspectos a inserção do pesquisador no universo a ser estudado e a priorização da percepção do sujeito em detrimento do dado objetivado (Reyes, 1999), foi o pressuposto que orientou a pesquisa. Partindo do princípio EDUCAÇÃO EM FOCO 111 da relação dialógica implicada no ato de aprender (Freire, 1985), foi utilizada a metodologia participativa (Thiollent, 1987), por possibilitar a partir do conhecimento pré-existente construir novos conhecimentos. A pesquisa participante é um enfoque de investigação social por meio do qual se busca a participação da comunidade com o objetivo de promover a participação social para o benefício dos participantes da investigação ( Brandão, 1985). Realizaram-se grupos operativos (Pichon-Riviére, 2000), uma vez que tal estratégia permite a reflexão, o diálogo, a troca de experiências, da exposição de práticas, dinâmicas e vivências que possibilitam a construção coletiva do conhecimento. Utilizaram-se técnicas de oficinas na perspectiva de Afonso (2003) para dinamizar o processo grupal. ESPAÇO DE INVESTIGAÇÃO 112 A intervenção foi realizada na Vila Cafezal, que faz parte do Aglomerado da Serra, situado na região centro sul de Belo Horizonte. A região possui uma população de 10.481 habitantes constituída por um grande número de jovens (até 19 anos) sem 1° grau completo, sem plano de saúde e com renda familiar até três salários (IBGE, 2001). A região é classificada como de alto risco, segundo critérios estabelecidos pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte no Índice de Vulnerabilidade à Saúde (IVS). Do total de nascidos vivos 28,16% são filhos de mães adolescentes (SINASC, 2004). Quatro equipes de Saúde da Família (ESF), nomeadas com cores diferentes (roxa, laranja, azul e verde), estão designadas para o atendimento de 2.442 famílias. A opção pela escolha da ESF esteve pautada nos critérios propostos por Nogueira (2008). Deve ser ressaltado que foi considerado o caráter ideológico uma vez que a prática desses profissionais, além de técnico-científica é, necessariamente, uma prática social (Souza e Veras, 1982). SELEÇÃO DO GRUPO Considerando-se a interface entre educação e saúde, a equipe foi composta pelo coordenador, dois observadores da área da Educação em Saúde, uma médica ginecologista, uma enfermeira, um agente EDUCAÇÃO EM FOCO comunitário de saúde e os adolescentes. Para a seleção dos adolescentes, utilizou-se os seguintes critérios: (a) estar cadastrado no Programa de Saúde da Família da Equipe Roxa na Vila Cafezal; (b) não estar participando de outro projeto social; (c) não estudar na parte da tarde; (d) ter entre 10 e 14 anos. Dos 126 adolescentes cadastrados 35 atendiam a estes quesitos. Foram sorteados aleatoriamente, na presença dos agentes comunitários de Saúde e da médica do posto de saúde, 10 meninos e 10 meninas. Os agentes comunitários levaram os convites para os adolescentes. Os pais ou responsáveis assinaram o consentimento livre e esclarecido para que os adolescentes participassem. O projeto foi aprovado pelos comitês de ética do Instituto René Rachou/FIOCRUZ e da Prefeitura de Belo Horizonte. DESCRIÇÃO DAS OFICINAS Realizou-se um contato inicial com a gerência do Centro de Saúde da Vila Cafezal, no sentido de discutir a viabilidade da proposta e garantir que a mesma estivesse implicada e participasse do processo. Foram realizados encontros com os profissionais de saúde (Enfermeira, Médica Ginecologista e ACS), no sentido de discutir a proposta, realizar uma escuta acerca das experiências dos profissionais e levantar as primeiras impressões dos mesmos quanto à disponibilidade e interesse para a realização conjunta da proposta. Foram programados 12 encontros semanais com a duração de três horas. O primeiro encontro foi denominado “Eu, Você, Ele, Nós” e objetivou a criação de espaço para que os membros do grupo estabelecessem os contatos iniciais, com o objetivo de iniciar um processo de constituição de uma identificação e integração grupal. Nesse momento, estabelece-se o “contrato” entre os membros do grupo e a coordenação, por meio do acordo de regras fundamentais. O coordenador apresentou a oficina e discutiu algumas “regras básicas” do contrato do grupo. Com o objetivo de buscar as palavras geradoras, foi realizada uma técnica para levantamento dos temas de interesse. Os temas escolhidos foram confrontados com aqueles que a equipe já havia elaborado. Desse modo foram escolhidos alguns temas que contem- EDUCAÇÃO EM FOCO 113 plassem o desejo dos adolescentes, mas que, ao mesmo tempo, não distanciassem do objetivo da intervenção. No 2º encontro foi realizada a dinâmica “Papéis Sociais”, com alguns pontos para discussão: O que é ser homem? O que é ser mulher? Quais as diferenças entre ser homem e ser mulher? Quais diferenças existem entre um adolescente do sexo masculino e uma adolescente do sexo feminino? “Corpo humano: Prazer em me conhecer! Prazer em te conhecer” foi a temática do terceiro encontro, que teve como objetivo conhecer o corpo reprodutivo – feminino e masculino – de forma participativa e de modo a perceber que do corpo também fazem parte as características psicológicas, a história pessoal e as relações que se estabelecem com as pessoas, o meio social e a cultura. 114 “O que eu sei? O que eu não sei? O que eu quero saber?” foi a temática do quarto e do quinto encontros, com o objetivo de esclarecer dúvidas e estimular a reflexão de temas relacionadas a sexo e sexualidade, tais como: namoro, primeira relação sexual, métodos contraceptivos dentre outros. No sexto encontro, a médica discutiu com os adolescentes a temática dos métodos contraceptivos e no sétimo encontro, foi realizada uma roda de conversa sobre DST´s/AIDS, com a presença da médica. No oitavo encontro, o jogo Zig-Zaids (Schall et al., 1999) foi utilizado para criar um ambiente descontraído, de modo a discutir a temática DST´s/AIDS. No nono encontro foram realizadas três entrevistas com duas mães e um pai adolescentes, moradores da Vila Cafezal. A partir dos relatos, a temática da maternidade e paternidade na adolescência foi debatida com o grupo. Os dois últimos encontros tiveram como foco rever os objetivos iniciais e avaliar as expectativas dos adolescentes em relação à elaboração do jogo e dos vídeos de animação, atividades que seriam desenvolvidas posteriormente pelo grupo. Adotou-se a perspectiva de Afonso (2003), estabelecendo, em cada encontro, momentos específicos: aquecimento, reflexão do tema gerador, atividade lúdica, avaliação e planejamento. A descrição dos encontros, bem com as técnicas e recursos utilizados, estão descritos de forma detalhada em Nogueira (2008). EDUCAÇÃO EM FOCO ANÁLISE DOS DADOS Os dados foram analisados na perspectiva da análise de conteúdo (Bardin,1977). A análise do processo grupal foi feita à luz dos sete vetores de avaliação propostos por Pichon-Riviére (2000). RESULTADOS E DISCUSSÕES Uma categoria emergente da análise de conteúdo foi a categoria gênero, associada a sexo e sexualidade. Enquanto categoria analítica, a mesma ocupa lugar central para o entendimento das questões referentes à sexualidade e suas derivações em contextos micro e macro sociais. Se ao nascermos, somos “masculinos” e “femininos”, nos tornamos “homens” e “mulheres”, ou seja, do sexo biológico se descobrem, revelam-se e constroem-se culturalmente gêneros. Sexo, Sexualidade e gênero: a experiência adolescente. O conceito de gênero nasce da crítica à idéia de naturalidade do que é ser homem ou mulher, permitindo pensar que os gêneros são construídos socialmente. A construção da identidade de gênero enfatiza o caráter cultural e simbólico das idéias de feminino e masculino. Nos primeiros encontros ficou bastante demarcada a postura dicotômica em relação ao feminino e ao masculino, traduzida nos seguintes pares de opostos: “mulher/casa/reprodução” X “homem/rua/produção”. Foram aspectos demarcados nas primeiras discussões com o grupo: “Mulher gosta de arrumar a casa”; “ mulher gosta de cozinha, mulher tem muitos filhos”; “ mulher se preocupa mais com a vida dos filhos, quer sempre o bem deles, mulher é mãe”; “mulher não passa a mão nos meninos”. Dentre os atributos psicológicos femininos, os adolescentes destacaram: “mulher é romântica” “mulher é sonhadora”, “mulher é burra” “são trabalhadoras“ “são taradas”, “mulher gosta de rosa”, “tem umas mulheres que são bonitas e outras que são feias”. A vaidade foi outra característica muito ressaltada nas mulheres: “mulher gosta de usar batom”, “mulher raspa o cabelo do braço, o homem não raspa”; “mulher gosta de arrumar o cabelo”. Dentre as características masculinas foram destacadas: “o homem é inteligente, é forte e cafajeste”. EDUCAÇÃO EM FOCO 115 Emergiram também padrões de comportamentos associados ao masculino: “homem gosta de passar a mão na bunda, no peito e em outros lugares que não posso falar”; “o homem às vezes passa do limite”; “homem não gosta de arrumar casa”; “a mulher fica em casa trabalhando e o homem sai para beber”; “tem homem que só quer diversão, mas têm outros que se preocupam com seus filhos”. A distinção entre a sexualidade masculina e feminina na cultura ocidental está fortemente impregnada no nosso imaginário, traduzindo-se em preconceitos e discriminações nas relações sociais entre homens e mulheres. O estereótipo masculino, em nossa cultura, concebe os homens como ativos, agressivos e objetivos; as mulheres são tidas como passivas. Quando a temática uso de drogas emergiu no grupo, tal postura dicotômica ficou marcada pela polarização da participação e implicações de homens e mulheres neste cenário. O lugar do poder na percepção dos adolescentes e da postura ativa é ocupado pelos homens e a postura passiva é o lugar do feminino. “Homem traficante” X “Mulher usuária”. 116 Desse modo, embora distintos em cada cultura, o conjunto de normas que regulam a sexualidade “(...) tem em comum, o tratamento diferenciado que é dado à sexualidade, quer seja exercida por mulheres quer seja por homens” (Villela, 2003, p.311). Tal fato irá repercutir na valoração diferenciada dos gêneros, na construção da identidade individual e grupal e no desempenho de homens e mulheres (Suárez, 2002). As diferenças acentuadas de gênero, em nossa sociedade, as quais prescrevem direitos e deveres distintos para homens e mulheres, principalmente no âmbito da sexualidade, irá traduzir-se em diferenças de procura, acesso, decodificação e uso da informação sobre sexualidade e vida reprodutiva. Tal diferenciação pode ser notada nos discursos femininos e masculinos. Nos grupos operativos que tiveram como tema as DST´s e a AIDS, as meninas foram menos questionadoras. Em contrapartida, mobilizaram-se para perguntas sobre métodos contraceptivos, manifestando preocupações sobre o uso correto e a segurança dos mesmos: O diafragma é seguro? Como se usa a pílula? Pílula é um método seguro para adolescente? A tabelinha pode falhar? Os meninos concentra- EDUCAÇÃO EM FOCO ram-se em questões relacionadas às doenças e à masculinidade: “A mulher pode beber o esperma?”; “Sexo anal causa doença?”, “A masturbação é prejudicial, ‘dá’ espinha?”; “Existe uma doença chamada Síndrome do Sexo? As meninas manusearam com interesse e curiosidade os vários métodos contraceptivos e os modelos (pênis e pelve feminina), e experimentaram o uso do preservativo, tanto no modelo masculino quando no feminino. Os meninos, durante o manuseio do material, demonstram menos curiosidade e muitos recusaram-se a experimentar colocar os preservativos masculino e feminino nos modelos, mesmo quando orientados e incentivados. Resultados semelhantes foram descritos por Afonso (2001, p.215), ao destacar que: “(...) as mulheres mostram scores de informação mais altos do que os homens, talvez por que sejam em nossa cultura, consideradas responsáveis pela questão da concepção e da contracepção. Quando se desmembra a informação, pode-se ver que existe uma setorialização desta, na medida em que as mulheres respondem melhor às questões sobre contracepção e os homens a questões sobre doenças sexualmente transmissíveis”. Embora esta postura dicotômica marque a fala dos adolescentes, foram também recorrentes representações e identidades de gênero oscilantes entre o tradicional e o moderno, questionando a divisão de papéis, a dupla moral sexual e a hierarquia presentes na representação tradicional: “ os dois podem cuidar dos filhos né!’ tem mulher que trai e tem homem que trai... os dois traem” . “Quem toma a iniciativa de ter uma relação sexual? “Uai, quem tiver afim”. As dinâmicas grupais se mostraram um espaço continente da expressão de si e do conhecimento do outro, potencializando as ressignificações e a construção de conhecimento no âmbito da sexualidade. A participação concomitante de profissionais da saúde e da educação, assumindo uma postura democrática, reflexiva e dialógica, optando por uma ação transformadora, permitiu aos adolescentes se colocarem EDUCAÇÃO EM FOCO 117 enquanto sujeitos do conhecer, como expresso na seguinte fala de uma participante: “quando nós veio para cá, nós tinha vergonha de conversar, hoje eles conversam com nós e nós com eles” AVALIANDO O PROCESSO GRUPAL Segundo Pichon-Riviére (2000) uma das formas de se compreender ou analisar os processos grupais é através dos sete vetores de avaliação: - Afiliação - é grau de identificação dos integrantes entre si e com a tarefa (um primeiro nível de identificação); - Pertença - há um maior grau de identificação e integração com o grupo, permitindo a elaboração da tarefa; - Cooperação - pressupõe o desempenho de papéis diferenciados e complementares, de tal modo que cada um contribui com o que sabe e com o que pode; no movimento grupal se manifesta pela capacidade de se colocar no lugar do outro; 118 - Pertinência - é o centramento na tarefa, se ela está ou não sendo cumprida (as equipes podem oscilar de forma diferente na realização da tarefa explícita e implícita), é a realização da tarefa estratégica; - Comunicação - é o mais importante de todos os vetores, pressupõe um intercâmbio de significados, a mensagem vai circular por um canal que inclui ruídos e deverá ser decodificada pelo receptor, podendo ser verbal ou não verbal. Tal vetor é tomado por Pichon-Riviére como o lugar privilegiado pelo qual se expressam os transtornos e dificuldades do grupo para enfrentar a tarefa; - Aprendizagem - é um processo que envolve criação, adaptação ativa à realidade, as fragmentações e as integrações dos saltos de qualidade que incluem a tese-antítese-síntese; - Tele - é a disposição positiva ou negativa para trabalhar a tarefa grupal, é a aceitação ou a rejeição que os integrantes têm espontaneamente em relação aos demais e em relação à tarefa proposta. No grupo, a passagem da afiliação para a pertença foi facilitada pelo diálogo e criação de uma identificação de grupo a partir do uso de uma Camisa do Projeto. Entre os adolescentes e a equipe deveria ser cons- EDUCAÇÃO EM FOCO truída uma identidade. A equipe discutiu com eles qual seria a melhor alternativa para construir essa identificação. Algumas sugestões foram feitas: o uso de uma pasta, um crachá, uma camisa. Ficou estabelecida uma camisa com o nome e cores que identificariam os integrantes. Foi feita uma dinâmica para a escolha do nome e das cores da camisa. O nome escolhido foi “Projeto Amigos do Cafezal” com o slogan “Descobrindo o mundo” (Fig. 1). FIgura 1 - Camisa do Projeto Amigos do Cafezal A construção da identidade, aparecendo como manifestação ideológica, como um nome, e física, como a camisa, por si só não garantiria o sentimento de pertença e o estabelecimento de uma identidade de grupo. Ao longo do processo os adolescentes adotaram a camisa para uso em outros momentos na comunidade bem como em todos os encontros. O depoimento de um integrante da equipe serve para ilustrar o processo implicado na passagem da afiliação à pertença. “No começo eu não queria participar do projeto. Não tinha jeito com adolescente, nem me interessava pelos seus problemas e sempre dizia que eles eram muito chatos. Nos primeiros encontros eu só participava pra não deixar a Maria sozinha. Mas com o passar do tempo eu aprendi a gostar dos meninos e a participar com entusiasmo” (Agente Comunitário de Saúde). O sentimento de pertença também pode ser observado à medida que os adolescentes cobravam da equipe o cumprimento de atividades: “Uai, e o filme?”; “M. e as fotos? Você prometeu!”; “Que dia vamos nas EDUCAÇÃO EM FOCO 119 escolas?”; “E o moço do site? Ele sumiu? Que dia ele vem?”; “Semana que vem pode ser cachorro quente?”. Os integrantes do grupo percebiam que tinham direitos, que tinham espaço para a negociação, se apresentam não como meros espectadores passivos, mas assumiam uma postura de protagonistas. Nos encontros destinados a discutir os papéis sociais e o corpo feminino/ masculino, o vetor comunicação, entendido como o lugar privilegiado pelo qual se expressam os transtornos e dificuldades do grupo, manifestou-se de forma contundente, possibilitando a elaboração dos medos e anseios que permeiam a temática da sexualidade. Pichon-Riviére (2000) relata que “a aprendizagem se realiza através do confronto, manejo e solução integradora dos conflitos; enquanto cumpre-se esse itinerário, a rede de comunicação é constantemente ajustada e só assim é possível elaborar um pensamento capaz de um diálogo com o outro e enfrentar o medo”. 120 As dificuldades apareceram e os fantasmas que permeiam a temática sexualidade podem ser exemplificados nas seguintes frases dos adolescentes: “mulher é feia demais, tem peito caído”, “o mais difícil de desenhar é o que está entre as pernas dos meninos” O papel do coordenador foi fundamental para mediar e harmonizar os conflitos, facilitando a reflexão e ajudando o grupo a elaborar as dificuldades e estabelecer a aprendizagem operativa, através do reforço do ECRO e da cooperação. Os trabalhos em grupo menores, o exercício constante da escuta, os momentos de trabalhos só com os meninos ou só com as meninas, a oportunidade dada de exercer várias expressões (a fala, o desenho, a escrita, a dança) e a flexibilidade para a mudança de planos foram fundamentais para garantir um espaço mais democrático para que os adolescentes pudessem se colocar enquanto sujeitos do processo. O exercício da troca de informações e o contato afetivo tornaram possível um compromisso maior frente às tarefas propostas pela coordenação, bem como o sentimento de pertencerem e serem responsáveis pelo grupo. Muitas vezes os integrantes assumiam a função de agentes facilitadores do processo de aprendizagem, através de pontu- EDUCAÇÃO EM FOCO ações, e tentativas de barrar comportamentos considerados inadequados que comprometeriam a execução da tarefa: “Gente, a M. quer falar!”. “Não gosto da bagunça dos meninos”, “Não é justo os meninos ficarem atrapalhando”. A experiência possibilitou o entrecruzamento dos conceitos científicos e cotidianos, à medida que, no âmbito das interações, foram levadas em consideração as experiências imediatas e os conhecimentos espontâneos trazidos pelos integrantes do processo. As falas dos integrantes também foram analisadas no sentido de se avaliar a potencialidade das oficinas para criar um espaço de reflexão, bem como estabelecer uma aproximação entre os adolescentes e os profissionais de saúde. “Eu falo com a minha mãe, é legal. Minha mãe sabe de muitas doenças, mas ela não sabia de todas as doenças que tinha. As doenças da época dela é muito diferente das doenças de agora. Aí é estranho, minha mãe não conhecer as coisa e eu conhecer: Eu acho que uma das idéias do grupo era essa. Transformar a gente em informante pra outras pessoas mesmos. E é isso que tá acontecendo.” “O projeto foi e sempre será um meio de aprendizado para mim. Eu gostei do projeto porque as coisas que nesse momento não teria coragem de conversar com algum familiar eu converso no projeto e de um jeito legal e bem compreensível.” Alguns relatos apontam que durante as atividades, bem como após o término, os adolescentes estreitaram os vínculos com o Centro de Saúde. Tornaram-se mais presentes, procurando os profissionais para tarefas escolares e serviços de prevenção (Dengue, DST`s, etc). O depoimento do Agente Comunitário de Saúde é bem ilustrativo: “Hoje eu sou referência para os adolescentes e também para os pais que me procuram para discutir vários assuntos. E hoje eu amo de coração os meus meninos e também o projeto “Amigos do Cafezal”. Amo a minha camisa e todas as amizades que conquistei durante o projeto. E agora eu estou capacitada EDUCAÇÃO EM FOCO 121 para ajudar e entender os adolescentes”. A troca de experiências foi valorizada e incentivada no sentido de construir conhecimento e não apenas transmitir. Algumas falas apontam nessa direção: que me ajudaram (grifo nosso) bastante a aprender e ficar bem informada”. “Ah, eu comentei com umas colegas minha sobre as doenças, elas não sabiam e ficaram espantadas” “Eu acho que é interessante, porque além da gente aprender muita coisa, eles também aprenderam sobre a Serra, a gente apresentou o bairro todo, e a gente também aprendeu com eles”. 122 Tal fato nos remete à perspectiva de Freire, segundo o qual, a pessoa tende a captar uma realidade, transformando-a em objeto de seus conhecimentos. Segundo este autor, “Quando se compreende a realidade, pode-se desafiá-la e procurar possibilidades de soluções. O homem deve tentar transformar a realidade para ser mais” (Freire, 1974). Por esse motivo, a consciência reflexiva deve ser estimulada, sendo fundamental que o educando reflita sobre sua própria realidade. Segundo Pichon-Riviére (2000), não centrar-se na tarefa pode ser uma impertinência, quando ocorre a impostura (falar uma coisa e fazer outra) ou sabotamento (usar um subterfúgio para sair da tarefa). No processo do grupo houve sensibilização dos integrantes no sentido de realizar a tarefa. O clima que se desenvolveu no grupo foi positivo, havendo disposição para trabalhar a tarefa grupal. A aceitação ou rejeição que os integrantes têm espontaneamente em relação aos demais também é um indicador do vetor tele. Embora os adolescentes tenham sido bastante receptivos à proposta, o grupo vivenciou manifestações de conflitos no que se refere às relações estabelecidas entre os meninos e as meninas. Os integrantes agiam com desprezo em relação às falas, atitudes e opiniões dos participantes do sexo oposto. Muitas vezes os EDUCAÇÃO EM FOCO conflitos eram explicitados de forma verbal; “ô menina, cala a boca ai”. Investir na escuta dos adolescentes foi o recurso utilizado pela coordenação para compreender as causas e efeitos da relação conflituosa. Ao relatarem os acontecimentos, os adolescente colocavam-se frente ao grupo e à coordenação, o que facilitava a elaboração de ansiedades e resistências. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise das oficinas e de todo o processo grupal demonstrou que a intervenção conjunta entre a educação e saúde, pautada nos pressupostos do diálogo e da participação, permitiu a criação de um espaço propicio à reflexão, ao diálogo e à troca de experiências nos vários campos do saber. O processo demonstrado permite explorar um terreno que tem raros antecedentes no Brasil, pois a educação em saúde, relativa à sexualidade na adolescência, tanto na escola quanto nos ambientes da saúde, carece de investimento, seja na formação de professores e profissionais de saúde, quanto no desenvolvimento de estratégias que motivem o envolvimento dos jovens. A literatura aponta dificuldades diversas, próprias de um campo novo para a investigação pedagógica (Heilborn, 2006). Acreditamos que tão importante quanto a informação é o fortalecimento do vínculo, a fim de que os adolescentes possam encontrar na escola, na família e nos centros de saúde um espaço de acolhimento e diálogo para escolhas conscientes no que diz respeito ao início da vida sexual e reprodutiva. Desse modo, a metodologia utilizada poderá ser replicada em outras realidades, com o objetivo de estreitar os laços entre os profissionais de saúde e os adolescentes, para que os mesmos se apropriem, ou adotem o Centro de Saúde como um espaço também da prevenção e da promoção em saúde. Toda a estratégia desenvolvida vem orientando a implantação de programas de promoção à saúde dos adolescentes, sob a coordenação da Cruz Vermelha de Belo Horizonte em parceria com a gerência do Centro de Saúde local. Já existem quatro novos grupos implantados, com a participação dos profissionais de educação e saúde (Nogueira, 2008). EDUCAÇÃO EM FOCO 123 Tais desdobramentos podem subsidiar a concretização de políticas públicas de prevenção/promoção da saúde específicas para os adolescentes em ambientes de educação e da saúde. Fornece também evidências de um processo que permite sistematizar um modelo de intervenção pedagógica e psicossocial a ser difundido e incorporado às práticas de educação em saúde. O projeto também deu origem à elaboração de novos materiais didáticos que poderão servir de orientação a outros profissionais de saúde e professores interessados em incluir a sexualidade em suas agendas e ambientes de trabalho. A articulação da investigação aqui descrita com projetos de formação de profissionais de saúde e professores pode transformar os problemas identificados na realidade dos jovens em questões de pesquisa que poderão dar origem a práticas fundamentadas. Tal aspecto da experiência aqui relatada aponta para intervenções que tenham aplicabilidade nas escolas e centros de saúde, de modo a transcender o discurso e encaminhar ações preventivas e promotoras de saúde, alvo principal do processo educativo. 124 Agradecimentos: A todos os integrantes da Equipe de Saúde da Família, à Gerência do Centro de Saúde da Vila Cafezal, aos participantes do Laboratório de Educação e Saúde da FIOCRUZ, às agências financiadoras (FAPEMIG e CNPq) e, principalmente, aos adolescentes com quem e para quem se realizou este trabalho. EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIAS AYRES, J. Repensando conceitos e práticas em saúde pública. In PARKER R. & TERTO JÚNIOR V. (orgs.). Aprimorando o debate: respostas sociais frente à Aids. Rio de Janeiro: ABIA, p. 12-19, 2002. AFONSO, LM et al. Oficinas em dinâmica de grupo na área de saúde. Belo Horizonte: Edições do Campo Social, 2003. -------------- A polêmica sobre adolescência e sexualidade. 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Nesse contexto, esta pesquisa definiu como objetivos gerais: identificar representações das ex-alunas da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG e Universidade do Minho-UM e informar-se acerca da formação inicial recebida; associar as influências da formação inicial aos enfrentamentos do diaa-dia de um docente; conhecer a aplicabilidade das disciplinas ofertadas na formação inicial e a relação das mesmas na atuação profissional. A pesquisa adentrará na subjetividade da realidade do novo professor e conhecerá um pouco as dificuldades, os desafios, os ideais, as angústias, os medos, as vontades, os desejos, as inseguranças, os sucessos e até os insucessos das entrevistadas e como todo esse pout pourri de emoções influenciam na ação docente. PALAVRAS-CHAVE: Formação de professores, professor principiante, relação teoria/prática, inovação pedagógica. 1 Doutora em Educação pela Universidade do Minho- Portugal; Mestre em Engenharia de Produção ênfase em Mídia e Conhecimento pela UFSC- SC; Supervisora Pedagógica, Coordenadora da Pós-graduação em Psicopedagogia Institucional e Clínica e professora do Centro Universitário do Sul de Minas. Rua São Miguel, 57 – centro- Varginha MG, CEP 37006-060. Telefone (35) 3219 5267, 3219 5261 ou 3222 1892. [email protected] EDUCAÇÃO EM FOCO 127 INTRODUÇÃO O início da carreira docente é caracterizado por um período carregado de incertezas, ansiedade, medo e recuo, pois nem sempre o professor principiante tem acompanhamento, e a falta deste poderá comprometer a qualidade no ensino. O professor principiante tem receio de aventurar-se em idéias novas e ser punido ou excluído pelos próprios colegas. “Os novos professores, com sua combinação de idealismo, energia e receio, são também subutilizados, pois as tendências conservadoras cobram sua parte e já começam a moldar a carreira deles na direção dos limites mais inferiores do possível” (FULLAN & HARGREAVES, 2000, p.25). A pesquisa desvendará as atitudes do dia-a-dia das professoras principiantes, o que possibilitará uma visão nada míope da situação dessas em relação à formação inicial e à aplicabilidade das disciplinas ministradas. 128 A docência tem sido apontada como característica-chave de uma profissão em mudança que teve que ser percebida dentro de um determinado contexto social, político, cultural e econômico (FLORES, 2003, p.128). Daí a necessidade de uma reestruturação no perfil do professor, pois vive-se uma era de incertezas, mudanças, fragilidade educacional e imprevisibilidade, e deve-se estar preparado para atuar nos diversos contextos onde irradia a educação formal, não formal e informal. METODOLOGIA A metodologia aplicada na pesquisa foi essencialmente qualitativa, com métodos mistos, que consistiu na entrevista não-diretiva, seguida pela entrevista semidiretiva, aplicação e tratamento dos dados das mesmas. Iniciou-se o trabalho realizando entrevistas não diretivas e em seguida entrevistas semidiretivas. A entrevista semidiretiva, segundo Ghiglione por vezes chamada de clínica ou estruturada, onde o entrevistador conhece os temas sobre os quais tem que obter reacções EDUCAÇÃO EM FOCO por parte do inquirido, mas a ordem e a forma como os irá introduzir são deixadas ao seu critério, sendo apenas fixada uma orientação para o início da entrevista (2001, p.64). Contribuíram ex-alunas dos cursos de Licenciatura em Ensino Básico 1º Ciclo do Instituto de Educação da Criança- IEC- da UM- Portugal e ex-alunos do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação - FAE da UFMG, atualmente docentes do 1º Ciclo e anos iniciais do Ensino Fundamental, com no máximo quatro anos de conclusão de Curso. Os critérios nas escolhas das inquiridas foram: professoras do 1º Ciclo, sendo uma Professora Contratada, outra do Quadro de Zona Pedagógica do distrito de Braga, outra de Escola Privada e a última do Quadro de Zona Pedagógica de Zona Rural. As ex-alunas da FAE, concluintes do Curso de Pedagogia, sendo uma efetiva e uma contratada pelo Estado; outra de Escola Privada e a última trabalhando em Escola de Zona Rural. Tomou-se o cuidado de não dirigir a atenção dos inquiridos para o centro de interesse particular, mas ver como é que, de modo espontâneo, estava sendo referida a formação inicial. Sendo assim, tentou-se na condução das entrevistas que os atores entrevistados exteriorizassem suas ações2. A análise de conteúdo3,4 dos dados das entrevistas foi realizado segundo 2 São vários os constrangimentos que se colocam ao investigador quando procura que os atores “verbalizam a ação” : o fato de não ser habitual, logo o que vem em primeiro lugar são os juízos, comentários, generalidades ou a descrição de circunstâncias; outro fator, tem a ver com o fato de a ação ser em parte, um conhecimento autônomo e que contém por construção uma parte inicial de “savoir-faire”, isto é não consciente” (P.VERMERSCH apud FERNANDES, 1999, p.163). 3 “[...]a técnica mais utilizada é a análise de conteúdo, podendo incidir sobre mensagens tão variadas como obras literárias, artigos de jornais, documentos oficiais, programas audiovisuais, declarações políticas, atas de reuniões ou relatórios de entrevistas pouco directivas” (QUIVY e CAMPENHOUDT apud PACHECO, 2006, p.14). 4 “Toda a análise de conteúdo decorre de uma pergunta ou perguntas que o investigador se coloca (caso contrário, seria um exercício sem sentido), bem como da natureza dos dados com que ele lida (invocados ou suscitados). [...] A objetividade e a sistematicidade de um trabalho de análise de conteúdo podem e devem EDUCAÇÃO EM FOCO 129 um procedimento aberto, ou seja, através da comparação dos textos (transcritos) exploratórios. Esta é uma técnica capaz de fazer inferências por identificação sistemática e objetiva das características de uma mensagem. Para Pacheco, “ao inferir-se a partir de uma mensagem, um discurso, uma situação utilizar-se-á, no plano dos procedimentos investigativos da análise de conteúdo, quer diversos campos de aplicação, quer uma metodologia específica” (2006, p.14). Ghiglione e Matalon acrescentam que há três objetivos possíveis na análise de conteúdo: “analisar as características do texto enquanto tal (“plano horizontal”), analisar as causas e antecedentes da mensagem (“plano vertical”) e analisar os efeitos da comunicação”(2001, p.183). Sendo assim, foi trabalhado de acordo com o plano vertical, identificando os textos transcritos das entrevistas5. É por meio dos procedimentos abertos, para Henry e Moscovivi (1968) reconhecidos como “procedimento exploratório”, que se construíram as categorias, através de uma metodologia de análise. 130 Alguns desafios no recorte dos temas foram enfrentados, por estarem contemplados em um parágrafo inteiro, ou num período, e ainda, em apenas parte do período. A fixação definitiva da categorização foi um processo lento. No decorrer do estudo, foram tratados os materiais codificados de modo independente, criando um único tema “Formação/ Preparo para o exercício profissional”, tanto para as ex-alunas da FAE como para as do IEC. Trabalhou-se com cautela para que a operação de codificação pudesse corresponder aos critérios de objetividade, assim como um plano ser testadas e, se necessário, melhoradas, desde logo por quem o fez” (ESTEVES, 2006, p.38). 5 “O sujeito pode falar do ponto de vista de um dos diferentes papéis que lhe compete desempenhar; a sua representação do entrevistador não está definida à partida, constrói-se no decurso do processo de interação. [...] Mais genericamente, mas mais vagamente também, esperamos colocar cada discurso sob forma que o torne mais “inteligível” com tudo o que este termo pode ter de subjetivo, de ambíguo, de impreciso. Queremos obter um resumo para, sob forma mais cômoda, poder comparar, por exemplo, várias entrevistas” (GHIGLIONE e MATALON, 2001, p.184-185). EDUCAÇÃO EM FOCO organizado e global. Desta forma, atribuiu-se para cada item inquirido um código que permitisse saber qual a relação deste com o quadro de docência. Assim, codificou-se em: CE- Professora contratada pela Escola Estadual. EE- Professora efetivada pelo Estado. EP- Professora contratada pela Escola Privada. EZR- Professora que ministra aulas em escola de Zona Rural. PC- Professora contratada. QZP- Professora que se encontra no Quadro de Zona Pedagógica no distrito de Braga. QZPZR- Professora que ministra aulas em zona rural e é pertencente ao Quadro de Zona Pedagógica. Sabe-se que a fidelidade à categorização é uma problemática que ronda a metodologia utilizada, em se tratando de procedimento aberto ou indutivo de criação de categorias, principalmente no que se refere ao material empírico com que se irá trabalhar, porém, dificilmente se está isento de cometer erros ou fazer interpretações subjetivas. Para que esses riscos fossem amenizados, foi solicitada ajuda ao Dr. José Augusto Pacheco6, o qual detém bastante conhecimento na área. Na aplicação da análise de conteúdo, sobretudo para a inclusão das Unidades de Registro nos indicadores das categorias, foi aplicado o índice de fidelidade (F), que para Esteves “é o valor que se obtém dividindo o total de casos de acordo (Ta) dos dois ou mais codificadores envolvidos, pelo somatório dos casos de acordo e de desacordo que se tenham verificado entre eles” (2006, p.58). O índice de fidelidade calculado corresponde à seguinte fórmula: assim, o índice de fidelidade encontrado é de 0,93, revelando que o nível de acordo entre os dois codificadores é de 93%, valor aceitável perante os 70% que é exigido. Pode-se ressaltar que diante dos dados mencionados anteriormente, o 6 Dr José Augusto Pacheco é professor da Universidade do Minho- UM- Portugal, com vários livros publicados e diretor da Revista de Estudos Curriculares. EDUCAÇÃO EM FOCO 131 trabalho foi realizado com fidelidade. RESULTADOS Criou-se o sistema de categorias para organizar as unidades de registro, que foram recortadas horizontalmente em todos os registros coletados através das entrevistas, e transcritas a seguir. Elas retrataram o que os inquiridos definiram, o que acreditavam e o que caracterizava a Formação/Preparo para o exercício profissional. Desta forma, criou-se as seguintes categorias: A. A formação recebida X enfrentamentos do dia-a-dia. B. A formação inicial e a aquisição de conhecimentos diversificados. C. A formação inicial e a aplicabilidade do conhecimento acadêmico. D. Uma profissão frente às questões burocráticas da escola. 132 Cada categoria incorpora um certo número de indicadores que completa um determinado sentido. A seguir, no quadro nº I, será apresentada a distribuição por categoria, o indicador das unidades de registro e as unidades de contexto em que ocorrem. Quadro nº I. Análise de conteúdo das respostas das ex-alunas do curso de Pedagogia da FAE- UFMG, atualmente professoras, sobre o tema “Formação/Preparo para o exercício profissional”. Categorias A. A formação recebida X enfrentamentos do dia-a-dia Indicadores A1 O curso ofereceu subsídios para os desafios da ação pedagógica Unidades de registro Ofereceu muito pouco, porque na formação a gente aprende muita coisa importante, mas quando chega na escola a realidade é outra [...]. EDUCAÇÃO EM FOCO Respondente (R) EZR8 Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) [...] são muitas teorias e você acaba criando uma outra para se trabalhar na escola, que é a teoria da sobrevivência. EZR7 Em certa medida, porque quando a gente estuda os conceitos teóricos acredita que dá para aplicá-los, mas quando chega na prática vê que não dá conta daquilo de forma completa [...]. EE6 Um pouco, pois o curso fica voltado para a conscientização a respeito do que seja ser professor. EP4 [...] o curso oferece um grande distanciamento da teoria com a prática, assim não dá para saber enfrentar uma sala de aula. EP2 [...] muitos professores focavam CE5 o ensino somente nos livros, sem conhecer a realidade para a qual eles estavam nos preparando, isto porque até eles desconhecem esta realidade [...]. A2 A formação dos professores face às dificuldades de aprendizagem dos alunos dos anos iniciais [...] o que ensinam é muito EZR8 superficial, não encontramos uma sala homogênea,[...] vamos aprendendo no dia-a-dia, com o passar dos anos e com a nossa própria experiência. EDUCAÇÃO EM FOCO 133 Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) O que aprendi não foi suficiente EE10 [...] cada turma que encontro, possui dificuldades diferentes, então eu acredito que por mais que a formação seja boa, ela nunca será suficiente para responder todos os problemas de aprendizagem dos alunos. Encontro muita dificuldade, tenho que pesquisar, estudar, procurar mais conhecimentos, pois tivemos essa defasagem no curso. 134 EP8 Acredito que saí preparada para CE6 ensinar crianças tidas como “normais” e não saí preparada para encontrar crianças com dificuldades de aprendizagem. A3 À formação dos professores acerca dos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos O curso não me proporcionou um maior conhecimento sobre o assunto. EZR9 O Curso na FAE tem uma formação teórica muito boa, mas deixa a desejar [...] ainda tem um distanciamento entre a teoria e a prática que acaba prejudicando nossa formação [...]. EE7 Não 100%, mas aprendi que cada aluno tem seu ritmo de aprendizagem. EP6 Isso é complicado, fiquei quase CE10 maluca quando fui ministrar aulas, tudo é muito diferente da teoria. EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Respondente Indicadores Unidades de registro A4 Os professores acerca do distanciamento - formação recebida e a realidade presenciada na escola O choque é que as teorias são muito bonitas, tudo é muito belo, mas quando chega na escola e depara com este tanto de problemas, a gente fica frustrada e chateada. EZR4 Pensava diariamente: tudo que estudei não está me servindo para nada [...]. EZR3 (R) Fiquei assustada e pensava que EE4 não ia dar conta [...] não foi tudo que aprendi na FAE que irei utilizar na escola e outras coisas de que estou precisando na escola eu não aprendi na FAE. Quando aluna, era tudo muito bonito. Mas agora vejo que o que aprendi nem sempre dá certo, a gente vai tentar e não funciona. EP5 O tempo faz a gente amadurecer e às vezes até reproduzir o que os outros estão fazendo, não ousar muito. EP4 135 [...] a Universidade nos prepara CE3 para um ensino muito sofisticado e não para a nossa realidade. [...] o curso que fiz na FAE está desestruturado ou a realidade escolar é que está, pois são distintos. EDUCAÇÃO EM FOCO CE2 Categorias Indicadores A5 Os professores como futuros professores cooperantes Unidades de registro Respondente (R) EZR5 A presença do estagiário me intimida [...] se eu tivesse um estagiário em minha sala de aula, iria medir muito as palavras, não sei se iriam concordar com minhas práticas [...] é a prática da sobrevivência e acho que funciona. Eu acho que assusta pois minha EE4 prática estará sendo questionada, mas vejo como positivo [...] pois poderá trazer resultados bons para minha própria prática. Recebi uma estagiária, me incomodou um pouco, porém o tempo de estágio é muito curto, não dá para perceber bem a prática do professor, fica muito pincelado. 136 EP6 Não gosto que me observem CE4 [...] não é nem a questão se estou sendo uma professora que sirva como modelo. A6 Os professores e o envolvimento familiar dos alunos Os pais dos alunos que têm dificuldades, não aparecem, só vão à escola os pais dos alunos que estão indo bem [...]. EZR3 A relação da família com a escola é muito distante, os pais só vão à escola quando têm algum problema para resolver [...]. EE7 Aprendi na FAE que é importante ter boa interação com a família [...] tenho feito isso e aproximado bastante os pais da escola [...]. EP9 EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) Os pais que são freqüentes na CE6 escola são sempre os dos alunos que estão indo bem , seja nas notas ou comportamento, os outros não passam nem na calçada da escola. B. A formação inicial e a aquisição de conhecimentos diversificados B1 Os professores acerca da abordagem dos conteúdos de forma integrada Conceito eu sei bastante, mas EZR10 na prática vem a dúvida, como trabalhar? Acho que deveria ter sido trabalhado de forma prática o Curso. No próprio Curso, muitas disci- EE10 plinas deveriam ter sido trabalhadas de forma interdisciplinar mas não foram, alguns professores até que tentaram. Não consigo trabalhar de forma interdisciplinar [...] também os próprios professores formadores têm dificuldades e não conseguem. EP10 A parte teórica, domino CE9 bastante [...] mas na realidade, os próprios professores formadores fragmentam todo o ensino, eles mesmos não sabem aplicar na prática. B2 A formação dos professores acerca dos conteúdos da Língua Portuguesa A disciplina Língua Portuguesa ainda é a pior, pois vem a questão das dificuldades ortográficas, leitura e escrita [...] eu encaro como desafio, mas preparada mesmo, acho que não saí. EDUCAÇÃO EM FOCO EZR5 137 Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) É nesta disciplina que sinto a maior EE4 defasagem do Curso [...] você aprende a teoria, sabe o que tem que ensinar, mas não sabe como, daí fica muito fraco. Os professores formadores EP5 não ensinaram como devo explicar os exercícios; tem muito conteúdo que já esqueci, eles esquecem que faz muito tempo que aprendemos às vezes aprendemos até de forma errada, só que agora, como vou ensinar? 138 B3 A formação dos professores acerca dos conteúdos da Matemática Saí apta para trabalhar com os alunos das séries finais, para trabalhar com a alfabetização, não. CE7 A Matemática que vimos no Curso, foi bem interessante, ligada à questão do lúdico, mas deu uma base de como trabalhar, mas depois na prática você depara com as dificuldades e tem que buscar recursos. EZR8 A disciplina Metodologia da Matemática me ajudou muito. EE6 Mais ou menos, os professores passam mais como o aluno raciocina e não o conteúdo como irei trabalhar, a metodologia mesmo fica a desejar. EP8 Sinto que ficou muito falho este CE4 ensino, pois aprendi muitos jogos, como trabalhar com eles, mas faltou a fundamentação [...]. EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro B4 A formação dos professores acerca do domínio do conteúdo de Ciências (Naturais e Sociais) Acho que não saí preparada [...] Ciências Naturais para ser ministrada por um pedagogo é um desafio, principalmente porque não temos recursos e temos que nos virar. Respondente (R) EZR8 A carga horária desta disciplina é EE9 pequena, há uma desvalorização da mesma, mas na escola também há, quase não dá para ver nada. Aprendi, porém é muito diferente EP6 o que aprendi e como estou ensinando, a escola não possui laboratórios, é complicado. C. A formação inicial e a aplicabilidade do conhecimento acadêmico C1 O professor diante da inovação pedagógica Há uma disparidade de carga horária dessa disciplina em relação às outras metodologias. Não teve um aprofundamento teórico, tudo muito superficial, apenas com oficinas, mas como deverei ensinar não aprendi. CE5 Não estou conseguindo mudar nenhuma realidade [...] na hora do intervalo quero esquecer de tudo, não quero nem falar mais de Educação com os colegas. EZR3 É uma questão muito séria, não é fácil chegar na escola cheia de experiências novas e tentar colocar na prática, sempre encontramos um grupo de professores que têm resistência a idéias novas [...]. EE5 EDUCAÇÃO EM FOCO 139 Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) Nem tudo que aprendi na Facul- EP6 dade posso aplicar, tenho que o tempo todo ver as possibilidades, selecionando o que devo aplicar e como aplicar. 140 C2 O professor acerca da influência pedagógica herdada e sua atuação profissional Não consigo inovar porque muitas vezes fico perdida na própria teoria. EP4 Cheguei na escola querendo aplicar tudo que aprendi, mas na primeira semana já compreendi que eu precisava estar adequando meus conhecimentos à realidade. CE4 Na escola onde trabalho, os professores têm bastante tempo de serviço e são concursados [...] não são adeptos a mudanças. CE3 Muitas vezes me encontro CE5 reproduzindo posturas de meus antigos professores [...] nem sempre são experiências positivas, mas recorro a elas pois marcaram minha vida escolar. [...] tive boa experiência com meus professores e acredito que eu tenha reproduzido isso aos meus alunos. EE8 Vejo-me muitas vezes reproduzindo práticas de professores enquanto era aluna de 1º a 4º série, nem sempre são ótimas práticas, mas parece que impregna a gente. EP6 EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro C3 O professor frente à inclusão escolar Respondente (R) A herança, a gente carrega mesmo, se espelha nos antigos professores e acaba pensando: gostaria de ser como aquele professor meu. EZR10 Quanto à teoria acho que estou bem. O que falta é a aplicabilidade da mesma. CE9 Acho que não estou preparada para atender esses alunos. EE5 Não estou preparada, não tive uma boa formação, ficávamos mais na discussão em sala de aula. EP6 [...] não estou preparada para EZR5 trabalhar com alunos portadores de necessidades educacionais especiais. D. Uma profissão frente às questões burocráticas da escola D1 O professor diante dos impressos, diários, fichas e outros [...] vejo que a cada dia vai redu- CE8 zindo o tempo de preparação das aulas em função dos serviços burocráticos. [...] a parte burocrática não EE5 auxilia a parte pedagógica, assim fica sem sentido [...] [...] perde muito tempo para preencher fichas para simplesmente ser arquivadas [...] EE6 Acho que perco tempo no preenchimento de tantos papéis, eu poderia aproveitá-lo para construir materiais pedagógicos. EP2 EDUCAÇÃO EM FOCO 141 Categorias Indicadores Unidades de registro O preenchimento da ficha individual dos alunos teria sentido se não ficassem anexadas somente aos diários; não são avaliadas, é somente uma questão burocrática. D2 O professor e sua participação na divisão de turmas 142 Respondente (R) EZR8 Não tenho participação, a CE6 supervisora separa os alunos na 1º série e depois ele vai acompanhando a turma. É uma polêmica [...] mas infelizmente por nível de aprendizagem. EE9 As turmas são separadas no 1º ano e pelo número de crianças em sala, ficando as turmas heterogêneas. EP4 Na zona rural não tem como fazer a enturmação por nível de aprendizagem, desta forma a turma fica heterogênea. EZR1 Quadro n° II. Análise de conteúdo das respostas das ex-alunas do curso de Licenciatura em Ensino Básico 1º Ciclo do IEC – UM, atualmente professoras, sobre o tema “Formação/Preparo para o exercício profissional”. Categorias A. A formação recebida X enfrentamentos do diaa-dia Indicadores A1 O curso ofereceu subsídios para os desafios da ação pedagógica. Unidades de registro É muita teoria no Programa e a prática é só quando vamos trabalhar. EDUCAÇÃO EM FOCO Respondente (R) PC1 Categorias Indicadores Unidades de registro Respondente (R) Algumas disciplinas ajudaram bastante [...] outras desnecessárias, e depois não ajudaram quando fui a campo. QZP2 No IEC, procuram formar o professor reflexivo [...] e tem áreas da didática que vão auxiliando, mas o que estudamos na teoria não tem aplicação direta na prática. EP5 Foi bom o alicerce que nos deram, mas são as experiências do terreno que nos fazem crescer e aprender. QZPZR2 A2 A formação dos Acho que foi superficial. professores face às dificuldades de aprendizagem dos alunos das séries iniciais. PC4 143 Tive que recorrer a colegas QZP4 mais experientes [...] acho que a formação não foi suficiente. Isso é a parte pior [...] a disciplina Didática das Dificuldades Especiais é no último ano do Curso, só que estamos a estagiar e acabamos por deixar a disciplina um bocadinho para trás, porque estamos centradas no estágio [...]. EP6 O Curso realmente dá uma abordagem muito teórica e não focaliza nenhum problema específico. [...] dá uma abordagem de vários problemas com os quais podemos deparar [...] mas não nos dá um conhecimento de como aplicá-los de forma prática e real. QZPZR3 EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores A3 A formação dos professores acerca dos diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos. Unidades de registro Respondente (R) Aprendemos muitas teorias, PC4 métodos que são muito bonitos, mas na prática temos que recorrer a colegas mais velhos. Na disciplina Necessidades QZP3 Educativas Especiais, aprendi a ver os diferentes ritmos de aprendizagem que os alunos apresentam [...] e me ajudou a conhecer um pouco mais das crianças do meio rural e urbano. 144 A4 Os professores acerca do distanciamento –formação recebida e a realidade presenciada na escola das séries iniciais. Outro problema na formação inicial, pois nós estagiamos em grupos, com três alunos [...] e quando chegamos à sala de aula estamos sozinhos, com vinte e cinco alunos, e ser capaz de fazer as intervenções pedagógicas não é impossível, mas quase. EP10 Não, porque a experiência prática é muito pouca. Os estágios que temos nas escolas são poucos [...] e em grupos, cria um cenário fictício e nós acabamos por não experimentar as situações. QZPZR8 Os miúdos não reagem da maneira como os professores formadores falam, não é possível fazermos o que dizem; não se pode trabalhar com as dificuldades como nos ensinam na Universidade, nem há tempo para isto. PC1 Foi um impacto muito grande, aqueles miúdos olhavam para mim com aquele olhar...quem é essa professora? QZP3 EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro A5 Os professores como futuros professores cooperantes. Respondente (R) Vem o choque da realidade e a realidade chocante, é complicado gerir essas duas, ou seja, a teoria e a prática. QZP5 As diferenças são muito grandes; na formação nos é passada uma realidade que não existe; teorias que não correspondem à realidade [...]. EP5 [...] quando comecei a trabalhar tive que simplesmente excluir muito do que aprendi pois via que não funcionava. QZPZR8 Sempre os estagiários vêm em PC4 grupos de três ou mais alunos e com isto vejo que poderão me auxiliar, pois sozinha não consigo fazer muitas coisas, levo o triplo do tempo e ainda não consigo. Acho que ficarei um pouco intimidada com estagiário em minha sala, pois é alguém que vai tentar tirar algum modelo para levar em sua vida profissional futura. QZP4 Fui professora cooperante e foi ótimo! EP5 Os estagiários não me incomodaram, gostei, pois me ajudaram. É pena este ano não vou ter, pois estou em uma escola muito longe. Acho que não iria ficar intimidada com os estagiários, se tivesse esta proposta aceitaria de bom grado. QZPZR2 EDUCAÇÃO EM FOCO 145 Categorias B. 146 A formação inicial e a aquisição de conhecimentos diversificados. Respondente (R) Indicadores Unidades de registro A6 Os professores e o envolvimento familiar dos alunos. Tenho pais que não querem nem saber, procuram a escola só para assinar as fichas, porque tem que ser. PC3 Tem pais que sei que nunca vou vê-los naquele ano lectivo, depositam lá os miúdos e não querem nem saber, nem vão assinar as avaliações [...]. QZP4 Na escola privada os pais são atuantes, vão à escola e colaboram [...]. EP2 Os pais dos alunos no contexto rural valorizam o trabalho do professor e da escola [...]. QZPZ3 Nossos professores ministravam as aulas sem ligação de uma disciplina às outras [...]. PC3 Tenho trabalhado de forma interdisciplinar [...] só com as orientações que alguns professores deram em minha formação. QZP4 B1 Os professores acerca da abordagem dos conteúdos de forma integrada. Nós somos preparados para EP6 isso, só que na prática a realidade é outra [...] pois temos que abdicar dos manuais, dos materiais que temos na escola [...] não consigo trabalhar com um projeto curricular integrado. EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro B2 A formação dos professores acerca dos conteúdos da Língua Portuguesa B3 A formação dos professores acerca dos conteúdos da Matemática. Respondente (R) Sinto que há uma incoerência nisto tudo, pois os professores dizem sempre em interdisciplinaridade, numa articulação de saberes, mas eles não o fazem na nossa formação. QZPZR3 Tenho procurado as outras colegas, pesquisado [...] tenho que tentar resolver o problema da má formação no dia-a-dia. PC6 Tive dificuldades, pois no primeiro ano de docência fui ensinar os miúdos a ler e escrever. Foi o meu pior ano de atuação. QZP4 É que na formação inicial as didáticas não se relacionam muito bem com a prática pedagógica, eram duas realidades educativas diferentes. EP5 A formação foi muito fraca, é uma área que tenho aprendido em contacto com a experiência de outras professoras e colegas [...] no Curso, nesta disciplina fui mal preparada. QZPZR8 [...] foi muito superficial, muito incompleto. PC8 Tive que procurar fora, pois minha formação não me ajudou muito. QZP7 147 [...] aprendi ao longo do curso EP5 várias teorias, mas na prática o que aprendemos acaba por ficar insignificativo. EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro Acho que é a segunda área mais complicada [...] é ridículo pensar que é uma disciplina básica para ensinar os miúdos e minha formação foi limitada. B4 A formação dos professores acerca do domínio do conteúdo de Ciências (Naturais e Sociais) Respondente (R) QZPZR12 Não aprendemos nada de como PC6 fazer, temos que realmente tirar de nossas cabeças, como um chapéu mágico [...] temos o conhecimento, mas não como vamos trabalhar com ele. Esta disciplina foi muito importante, obtive bastante informação [...] a disciplina me ajudou muito. QZP10 Temos aqui no IEC um EP15 professor que escreveu um livro para o 1º Ciclo, com muitas experiências práticas e todas aplicáveis [...] o que nos facilitou muito. 148 C. A formação inicial e a aplicabilidade do conhecimento acadêmico C1 O professor diante da inovação pedagógica. A formação que tivemos foi em nível de conhecimentos [...] e não como trabalhar com os miúdos. QZPZR6 Tenho colegas que têm muitas experiências, minha experiência isolada não tem valor, tento trabalhar em equipe. PC5 A gente sai com idéias novas QZP3 e quer aplicá-las, só que os professores com mais tempo de serviço ficam olhando e falam: o que esta novinha quer fazer? EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro C2 O professor acerca da influência pedagógica herdada, refletindo em sua atuação profissional Respondente (R) Essa questão não é fácil [...] cheguei à escola muito ingênua e insegura. EP6 Tenho tido a oportunidade de fazer intercâmbio de conhecimentos, mas não me limito a reproduzir nem a observar meus colegas [...]. QZPZR9 Em minha primária não tive boa PC5 experiência, estive a estudar em uma escola por onde passavam vários professores no decorrer de um ano. Tive uma professora muito meiguinha, explicava muito bem, dava atenção para os alunos, tento reproduzi-la, mas com alguns professores as experiências foram negativas, daí tento evitá-las. QZP2 Quando nós não conseguimos implementar uma inovação, vamos a ter aos modelos de nossos professores, mesmo aqui no IEC. EP7 Temos a capacidade de fazer diferente do que aprendemos, principalmente quando vemos que o método utilizado não está por resultar, mas é difícil abandonar tudo aquilo que aprendemos enquanto alunos, é muito complicado. EP3 EDUCAÇÃO EM FOCO 149 Categorias Indicadores C3 O professor frente à inclusão social 150 Unidades de registro Respondente (R) Eu não sinto que esteja reproduzindo algo de meus professores, pois não acredito que tenha ficado algumas marcas, mas [...] nós passamos uns para os outros quase que involuntariamente. QZPZR9 É muito complicado [...] não sei lidar com esses alunos [...]. PC2 Acho que a formação e os professores que tive me ajudaram bastante; sinto-me preparada. QZP8 A formação foi no último ano, mas não chega [...] tenho que estudar e procurar conhecer mais. EP10 As aulas que tivemos são poucas QZPZR3 para aprendermos em termos práticos o que fazer e como agir. D.Uma profissão frente às questões burocráticas da escola D1 O professor diante dos impressos, diários, fichas e outros. Tenho mapas para preencher: das presenças, do leite e planos de recuperação. Mas sei que os coordenadores têm muito trabalho com a parte burocrática [...] mas nem vimos isto na formação. PC4 A parte mais chata é a da avaliação e tem outras também. Tenho que ir mais cedo para a escola, mesmo assim, rouba um bocado do tempo do ensino. QZP6 EDUCAÇÃO EM FOCO Categorias Indicadores Unidades de registro Tem muita coisa que percebo que não tem utilidade e que nos roubam tempo, o tempo que poderia ser dedicado para preparar materiais para meus alunos. Os alunos ficam prejudicados com minha falta de tempo, pois é humanamente impossível dedicarmos a tudo isso. Respondente (R) EP9 O sistema em si está totalmente QZPZR6 burocratizado, nós professores enfrentamos problemas que não fazem parte de nossa profissão, pois não está ligada à parte pedagógica. D2 O professor e sua participação na divisão de turmas É complicado para o professor novinho, ele acaba por ficar com a pior turma. PC6 Quem tem mais tempo de serviço escolhe as melhores turmas, é claro! Quando chega a minha vez, como sou a última não tenho como escolher. QZP7 Acho que a escola mais ou menos seleciona os alunos para determinadas turmas e para determinados professores. EP9 151 O Sistema está todo errado, é QZPZR9 feita uma contagem Matemática, o Ministério da Educação disponibiliza as professoras, fazem a divisão dos alunos pela possibilidade do que cada turma pode ter. 1.3. Descritos os dados , a sua interpretação permite-nos esclarecer as seguintes questões, referentes: EDUCAÇÃO EM FOCO a) Curso de Pedagogia da FAE- Universidade Federal de Minas Gerais. Diante da Categoria “A formação recebida X enfrentamentos do diaa-dia”, percebeu-se pelas entrevistas emitidas e tratadas que: 1º - O Curso oferece uma grande bagagem de informações para os alunos, focadas na conscientização do que seja um educador, mas numa visão que não condiz com a realidade brasileira. 2º – No que diz respeito à formação dos professores em relação aos diferentes ritmos e dificuldades de aprendizagem dos alunos, ela foi insuficiente para a maioria dos inquiridos. Evidencia-se assim, que os futuros professores saem do Curso para trabalhar com a “ensinagem”, ou seja, com crianças tidas “normais”, mas não com os alunos “diferentes”, os portadores de necessidades educacionais especiais. 152 3º –Deparou-se com alguns depoimentos “fortes”, como o do choque da professora ao assumir a profissão. Acredita-se que um dos motivos deste choque seja a não preparação do futuro docente e/ou o distanciamento entre teoria e prática. 4º – Todas as inquiridas alegaram que ficariam intimidadas ao receber estagiários. Seria por falta de segurança? Estariam trabalhando no senso comum, com intuição ou reproduzindo modelos pedagógicos ultrapassados? Qual seria o motivo real de tal declaração? 5º – Notou-se que ainda há uma dificuldade no envolvimento dos pais dos alunos com a escola. Na Categoria “A formação proporcionou a aquisição de conhecimentos diversificados”, constatou-se que: 1º – No Curso existe a dificuldade de se trabalhar de forma integrada. As abordagens dos conteúdos trabalhados por muitos professores formadores ainda tem sido de forma fragmentada, isolada e desconectada com as demais disciplinas. 2º – As professoras, ex-alunas da FAE, manifestaram “medo” de alfabetizarem, dada sua formação insuficiente. 3º – Quanto à disciplina Matemática, 50% das inquiridas alegaram EDUCAÇÃO EM FOCO que as informações recebidas no Curso foram suficientes para prepará-las enquanto docentes, outras afirmaram que faltou fundamentação teórica. 4º – Quanto à disciplina Ciências (Naturais e Sociais), é uma disciplina que na estrutura curricular do Ensino Fundamental (anos iniciais) tem carga horária bem menor que Matemática e Língua Portuguesa, o que a desvaloriza no Sistema Educacional. Este é um dos motivos pelos quais não investem em materiais para laboratórios nem pesquisas. Analisou-se a Categoria “A formação inicial e a aplicabilidade do conhecimento acadêmico”, através das ex-alunas da FAE. 1º – São muitas as dificuldades encontradas pelas professoras recémformadas, no que se refere à inovação pedagógica, pois quando chegam nas escolas encontram resistência de vários docentes que estão há mais tempo trabalhando. 2º – Diante do indicador ‘o professor acerca da influência pedagógica herdada, refletindo em sua atuação profissional’, 100% das inquiridas alegaram que é muito forte esta influência, que às vezes a reprodução é quase que inconsciente. Diante da Categoria “Uma profissão frente às questões burocráticas da escola”, vimos pelas entrevistas que: 1º – A questão burocrática da escola não tem auxiliado a questão pedagógica, ao contrário, tem atrapalhado, pois em função deste serviço, o tempo de preparo das aulas pelo professor fica comprometido. E qual a funcionalidade dessas questões se as mesmas ficam engavetadas? 2º – Quanto à participação do docente na divisão de turmas, foi observado que em cada escola e sistema, acontecem enturmações diferentes, sem um padrão definido. b) Curso Licenciatura em Ensino Básico 1º Ciclo do IEC- Universidade do Minho. Quanto à Categoria “A formação recebida X enfrentamentos do diaa-dia”, verificou-se através das entrevistas emitidas e tratadas que: EDUCAÇÃO EM FOCO 153 1º – Há evidência, através da análise das entrevistas, de que no Curso Ensino Básico 1º Ciclo, a teoria sobrepôs a prática. 2º – Quanto à questão de aprender a trabalhar as dificuldades de aprendizagem dos alunos e os diferentes ritmos dos mesmos, foi percebido que a formação inicial não foi suficiente, e algumas professoras recorrem hoje aos colegas com mais experiência; alegaram também, que os estágios realizados em grupos interferiram negativamente neste quesito. 3º – Muitas foram as declarações das inquiridas sobre o distanciamento da formação recebida e a realidade presenciada. Porém, o que mais nos chamou a atenção foi o fato de uma das entrevistadas ter sentido o impacto de maneira tão forte que a fez recusar a própria profissão. Plagiando uma delas, “vem o choque da realidade e/ou a realidade chocante”. 154 4º – As inquiridas não vêem nenhum problema em ser professoras cooperantes, algumas ficariam intimidadas, porém, reconhecem a importância dos estagiários na colaboração pedagógica. 5º – Nas escolas privadas e de zona rural foi notado que a maioria dos pais são presentes na vida escolar de seus filhos, e valorizam os professores, o que não ocorre nas escolas públicas. Na Categoria “A formação proporcionou a aquisição de conhecimentos diversificados”, concluiu-se: 1º – A formação inicial das inquiridas foi de forma compartimentada, alguns professores não articulavam as disciplinas ministradas com as demais. Desta forma, a maioria das ex-alunas não conseguiram também realizar a articulação das mesmas. 2º – Foram unânimes ao alegarem que a disciplina Língua Portuguesa não lhes ofereceu formação suficiente para atuarem enquanto docentes. 3º – Quanto à disciplina Matemática, algumas ex-alunas alegaram que ela é ministrada no 3º ano, e que só vão aplicar o conhecimento adquirido no 4º ano ao estagiar, porém já a esqueceram. Portanto, essas professoras não assimilaram e acomodaram este conheci- EDUCAÇÃO EM FOCO mento, pois se assim fosse, não o esqueceriam. Outro fator que nos remete a esse ensino, é que, 100% das inquiridas alegaram que o ensino desta disciplina foi insuficiente. 4º – Quanto ao conteúdo de Ciências (Naturais e Sociais), os professores obtiveram aprofundamento de conhecimentos, mas não aplicabilidade. A aplicabilidade do conteúdo em sala de aula foi possível somente quando recorreram ao livro escrito pelo professor formador. Analisou-se a Categoria “A formação inicial e a aplicabilidade do conhecimento acadêmico”, frente às opiniões das ex-alunas do IEC. 1º – São muitos os fatores que interferem na questão da inovação pedagógica: a falta de experiência, o não desejo da indisposição com os colegas, o desejo de pertencer ao grupo e outros. 2º – Algumas inquiridas alegaram que não recorrem aos modelos de professores anteriores; outros, acreditam que há uma interferência muito forte desses modelos, principalmente quando não conseguem implementar uma inovação. Diante da Categoria “Uma profissão frente às questões burocráticas da escola”, compreendeu-se através das entrevistas que: 1º – As questões burocráticas são muitas e algumas desnecessárias, do ponto de vista pedagógico, além é claro de interferir no tempo do docente. 2º – Houve crítica ao Ministério da Educação, assim como à forma injusta (do ponto de vista dessas professoras), de como a escola realiza a divisão de turmas. CONCLUSÃO Conclui-se que há um distanciamento do conhecimento da realidade (Ensino Fundamental e 1º Ciclo), sendo necessário um conhecimento mais próximo dos professores formadores e a realidade vivenciada nas escolas. O acúmulo de conhecimento teórico não garante a transposição desse para o real, assim como a aproximação da relação da prática da experiência docente e o conhecimento teórico do mesmo, EDUCAÇÃO EM FOCO 155 provavelmente evitará o distanciamento entre a formação e a realidade da escola de Ensino Fundamental e 1º Ciclo. Não se afirma que para ser um bom professor formador necessita-se ter experiência no Ensino Fundamental e 1º Ciclo, mas sim que o mesmo contribua para tornar os educadores agentes da práxis educacional. Pode-se imaginar que todo professor formador que passe pela docência das etapas mencionadas anteriormente irá fazer a transposição dessa experiência para a disciplina que ministra. Sabe-se que são muitos os fatores que influenciam a prática pedagógica do docente e nem sempre sua experiência no ensino dos anos iniciais e/ou 1º Ciclo irá coroá-lo como um bom professor formador. Vale lembrar que a prática não deve existir sem subsídios teóricos, e que a aproximação do conteúdo trabalhado com a realidade que será vivenciada pelos futuros professores trata aos mesmos uma profunda consciência da realidade e uma sólida fundamentação teórica que lhes permitam interpretar, direcionar e atuar nesta realidade. 156 Constata que, pela visão dos alunos, há uma desconexão entre a formação recebida nas instituições UFMG e UM em relação à vivência das ex-alunas, pois através do desabafo dessas, foram grandes as dificuldades no início da carreira. O discurso dos professores formadores em sala de aula nem sempre é o que acontece fora dela. O idealismo de alunos sobre a escola e Educação, mencionado no estudo por alguns docentes formadores, não é a realidade presenciada por elas na escola e na sala de aula. Não que deva preparar o aluno para uma Educação pessimista, mas mostrar o ideal estudado e o real presenciado, fazendo ponte dessas realidades, uma vez que se encontram a longa distância. É necessário formar o professor com competências para atuar, dentro de uma formação concisa, num projeto pedagógico coerente, transcedendo o estágio e promovendo a articulação das diferentes práticas, sem fragmentação, visando a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade entre as disciplinas. Enfim, deve formar o professor para que se perceba capacitado a atuar de maneira que flexibilize sua ação, tenha plasticidade mental, capacidade de enfrentar os desafios da profissão sendo resiliente, evoluindo, EDUCAÇÃO EM FOCO inovando, cooperando, mudando e construindo uma nova Educação para as crianças. Enfrenta-se uma situação complexa, é bem provável que a formação inicial e os professores terão que adaptar-se para responder as necessidades desse mundo contemporâneo e a tanto desencanto na área educacional. 157 EDUCAÇÃO EM FOCO REFERÊNCIA ALMEIDA, Leandro S.; FREIRE, Teresa. Metodologia da Investigação em Psicologia e Educação. 3 ed. Braga: Psiquilibrios, 2003. ESTEVES, Maria Manuela. Formação de Professores: das concepções às realidades. In: Lima, Licínio C.; Pacheco, José Augusto et al. A Educação em Portugal (1986-2006) Alguns contributos de investigação. Braga: Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, 2006. FERNANDES, José Carlos Gomes. O Associativismo de Pais: No Limiar da Virtualidade? Uma abordagem Sociológico-Organizacional de uma Associação de Pais. Braga: Universidade do Minho, 1999. FLORES, Maria Assunção. Dilemas e desafios na formação de professores. In: MORAES, Maria Célia; PACHECO, José Augusto; EVANGELISTA, Maria Olinda (orgs.). 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