XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. MENSURAÇÃO DOS CUSTOS DA QUALIDADE RELACIONADOS ÀS NÃO CONFORMIDADES DE FORNECEDORES DE IMPORTADOS EM UMA MONTADORA DE AUTOMÓVEIS Tatiane Albuquerque Pires (UFG) [email protected] Andre Alves de Resende (UFG) [email protected] Silvia Parreira Tannus (UFG) [email protected] No presente cenário de competitividade em mercados nacionais e internacionais, a Qualidade, tem uma influência decisiva na venda de produtos, nos preços e nos prazos. Neste contexto, o Sistema de Gerenciamento da Qualidade é utilizado para garantir essa Qualidade, que por sua vez ocasiona custos, como qualquer outra atividade na empresa, ao mesmo tempo em que conduz à redução de custos devido a menor incidência de serviços fora dos padrões desejados (CALADO, 2008). Estes custos são denominados Custos da Qualidade e são classificados em quatro categorias principais: prevenção; avaliação; falhas internas e falhas externas. Tais custos podem ser causados pela própria empresa ou por seus fornecedores, na medida em que fornecem peças fora das especificações estabelecidas. Por isso, a indústria automobilística tem buscado o aprimoramento do relacionamento de parceria com seus fornecedores, mas mesmo com estes esforços estes custos ainda existem. Nesse sentido, este trabalho objetivou demonstrar os Custos da Qualidade causados pela má qualidade de fornecedores de peças importadas em uma montadora de automóveis. Para isso, foram realizadas pesquisas documentais nos dados da montadora em um primeiro momento, com intuito de classificar as categorias nas quais os custos dos processos de controle da qualidade de fornecedores poderiam ser caracterizados, e em seguida, foi mensurada a participação de cada um dentro do custo total da qualidade. Após as análises observou-se que apenas a atividade de descarte das peças não conformes representa cerca de 70% do custo total. Vale ressaltar que com o conhecimento destes gastos a montadora tem a oportunidade de apresenta-los a seus fornecedores e medir forças com os mesmos na tentativa de eliminar e/ou minimizar esses custos. Palavras-chave: Gestão da Qualidade, Fornecedores, Custos da Qualidade XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. 1. Introdução A busca pela melhoria da qualidade possui uma relação direta com a sobrevivência das organizações. Nesse sentido, a gestão da qualidade tem papel crucial ao estimular a redução de custos e aumento da produtividade. Segundo Campos (1992), os conceitos de qualidade, produtividade e competitividade estão associados às práticas das empresas em uma estreita relação de dependência, baseado em agregar o máximo de valor ao menor custo possível. Em outras palavras produzir cada vez mais com maior qualidade e menores custos. Neste processo de gestão da qualidade são encontrados os denominados Custos da Qualidade, introduzido por Juran em 1951, sobre a má qualidade dos produtos, e Feigenbaum em 1956. Os conceitos mais utilizados são os apresentados Feigenbaum, no qual os Custos da Qualidade são estruturados dentro do Controle da Qualidade Total. Cortês (2001) afirma que Feigenbaum relaciona os custos da qualidade a definição, criação e controle da qualidade, assim como a avaliação e retroalimentação da conformação da qualidade, garantia e requisitos de segurança, e aqueles custos associados com falhas nos requisitos de produção e depois que o produto já se encontra nas mãos do cliente. Os Custos da Qualidade podem ser ocasionados tanto pelos processos internos das organizações quanto pelos seus fornecedores. Assim, com intuito de assegurar a qualidade de seus fornecedores, a indústria automobilística japonesa, tem buscado a prática da produção enxuta com o foco no estreitamento das relações entre clientes e fornecedores (parcerias), que segundo Lamming (1993) ocasiona uma interdependência, estimula a confiança entre as partes e permite a construção conjunta da gestão de negócios, além de evitar desperdícios e agregar valor. Porém, mesmo com o estreito relacionamento entre as partes interessadas, estes Custos da Qualidade devido às falhas dos fornecedores estão presentes nos processos de controle de qualidade das organizações, por isso a mensuração destes custos faz se importante uma vez que permite o conhecimento de seus valores financeiros, contribuindo diretamente para que tomadas de decisões sejam desenvolvidas com intuito de minimizar e/ou eliminar estes custos. 2 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Nesse sentido, o presente trabalho tem o objetivo de apresentar os custos da qualidade inseridos na gestão do controle da qualidade de fornecedores de peças importadas em uma montadora de automóveis. Para contemplar o objetivo geral, os seguintes objetivos específicos são propostos: 1. Classificar a categoria dos Custos da Qualidade devido à má qualidade dos fornecedores, na montadora foco deste estudo; 2. Mensurar a participação de cada um dos custos classificados dentro do Custo total da Qualidade. O desenvolvimento deste trabalho se mostra relevante à medida que proporciona mensurar os Custos da Qualidade. Assim, as empresas buscam a melhoria da qualidade em meio à redução de custos, essa análise permitirá que montadora e fornecedores venham criar esforços para que estes custos sejam minimizados e direcionados para os principais responsáveis, neste caso, os próprios fornecedores de importados. 2. Gestão da qualidade 2.1. Qualidade e seus conceitos O termo qualidade, segundo Junior et al (2010), é um conceito espontâneo e intrínseco a qualquer situação de uso de algo tangível, a relacionamentos envolvidos na prestação de serviços ou a percepções associadas a produtos de natureza intelectual, artística, emocional e vivencial. A qualidade, de acordo com Corrêa (2005), é definida como características dos produtos que atendem às necessidades dos clientes e, portanto, promovem a satisfação com o produto, e a ausência de deficiências. Os autores Ritzman e Krajewski (2004) definem a qualidade como atender ou exceder as expectativas do cliente. Stevenson (2001) também afirma que a qualidade refere-se à capacidade que tem um produto ou serviço de atender, consistentemente, às expectativas do cliente, ou de superá-las. Para Slack et al (1997) a qualidade é a consistência da conformidade com as expectativas do consumidor, ou seja, mesma visão defendida pelos autores que defendem a qualidade como atender as expectativas dos clientes. Gaither e Frazier (1999) afirmam que qualidade não é definida ou determinada pelas empresas produtoras, mas é determinada pelos clientes. A 3 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. qualidade de um produto ou serviço é a percepção do cliente do grau que o produto ou serviço atendem a suas expectativas. Moreira (1998) defende duas definições, a qualidade de conformação que é a ausência de defeitos em relação ao padrão ou especificação, e a qualidade de projeto, relaciona-se às características particulares de projeto de um produto, serviço ou atividade. Garvin (1992) afirma que qualidade é garantir que os produtos ou serviços fabricados sejam adequados ao uso ao qual foram projetados. A qualidade é algo que o produto ou serviços têm ou não, não havendo meio termo. Barçante (2001) demonstra a qualidade sobre o ponto de vista de diversos estudiosos. Segundo ele, Juran defende a definição de adequação ao uso; para Feigenbaum é o modo de administrar a organização; para Crosby é a satisfação pela execução de um bom trabalho; Ishikawa é a padronização; já para Masaaki Imai é o aprimoramento e por fim George English é o custo do retrabalho. Percebe-se que tais estudiosos possuem diferentes definições, demonstrando que conceito da qualidade é bastante amplo e provavelmente este critério dependerá do contexto que estiver inserido. O pensamento de Juran (1991) diz que “conceituar a qualidade depende da adequação, pois a palavra tem duplo sentido, pois necessitam e incluem palavras-chaves que elas próprias têm definições”. Essas definições são caracterizadas pelo foco, seja produto, o cliente ou deficiências (derivada da insatisfação com o produto ou serviço por parte do cliente). Soares (2010) afirma que a partir destes conceitos observa-se que a qualidade possui diferentes enfoques, “atender as necessidades do consumidor”, denominado de enfoque oriental ou japonês, e “adaptação aos padrões especificados”, denominado de enfoque ocidental. Vale ressaltar, que a aplicação destes conceitos depende do meio em que está inserido o critério da qualidade. Desse modo, pode-se afirmar que o conceito da qualidade está diretamente relacionado à avaliação do retorno que os produtos ou serviços proporcionam as necessidades de seus clientes/consumidores, pois é fato de atender ou superar as expectativas que define se há qualidade. Independente do enfoque que é dado à qualidade ou do contexto no qual está inserida, para atender as expectativas dos consumidores e adaptar aos padrões especificados, é necessário ser direcionado conforme os desejos e anseios daqueles que desfrutam do benefício 4 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. de algum produto ou serviço. Pois, somente assim a satisfação dos clientes será proporcionada, e a qualidade garantida. 2.2. Evolução histórica da gestão da qualidade A gestão da qualidade ao longo do século XX passou por estágios importantes como, a inspeção do produto, o controle do processo, os sistemas de garantia da qualidade e a gestão da qualidade total. Segundo Stevenson (2001), antes da Revolução Industrial, todos os estágios da produção eram desenvolvidos por artesãos habilidosos. Com a Revolução Industrial a instituição da divisão do trabalho fez com que cada trabalhador passasse a ser responsável apenas por uma pequena parte de cada produto, e a partir deste momento a responsabilidade pelo controle da qualidade passou a ser dos supervisores. A inspeção, na maioria dos casos, era inexistente ou aleatória, embora pudessem existir circunstâncias especiais nas quais um nível de inspeção de 100% fosse utilizado (STEVENSON, 2001). Em seguida surgiu a figura do Inspetor da Qualidade ou dos Departamentos de Controle de Qualidade, atuando de forma corretiva, buscando contrabalançar a perda da qualidade resultante da ênfase dada à produtividade, em função da persuasão ou influência da Administração Científica de Taylor. Além disso, defendia que a responsabilidade pela qualidade era somente do Departamento de Controle da Qualidade (SOARES, 2010). A partir de 1920, devido ao grande questionamento quanto à qualidade e variabilidade encontrada na produção de bens e serviços, W A. Shewart desenvolveu um sistema de mensuração dessas variabilidades, conhecido como Controle Estatístico do Processo (CEP), a partir da utilização de gráficos, os quais serviram para monitorar a produção. Por volta de 1930, H. F. Dodge e H. G. Romig, também dos Bells Labs, introduziram tabelas para a aceitação por amostragem. Em 1945 foi fundada a ASQC (American Society for Quality Control), contribuindo para a especialização de profissionais na área da qualidade. Já na década de 50, devido ao grande volume e complexidade dos produtos, houve a necessidade de uma sofisticação no enfoque da qualidade. Na década de 1960, segundo Stevenson (2001), o conceito de “defeito zero” ganhou espaço. Representada pelo guru da qualidade Philip Crosby, essa abordagem está fomentada na motivação e na conscientização do funcionário, e fundamenta-se na expectativa 5 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. de que cada funcionário forneça um trabalho de perfeição. O conceito evoluiu a partir do êxito da Martin Company na produção de um míssil “perfeito” para o Exército americano. Na década de 1970, os métodos para assegurar a qualidade destacaram-se, principalmente no setor de serviços, áreas governamentais, e nas indústrias de atendimento à saúde, bancos e turismo. E no final da década de 1970, a evolução da qualidade foi alvo de uma mudança drástica, deixando o conceito de se assegurar a qualidade, passando para uma abordagem estratégica. A qualidade até então baseada na conformidade às especificações passa a ser visualizada de maneira mais ampla, abrangendo do projeto à utilização e envolvendo todos os departamentos da empresa, além disso, atuação corretiva começou a ser preventiva. Stevenson (2001) relata que nas décadas de 1970 e 1980, antes do aumento no grau da concorrência japonesa no mercado americano, os consumidores pagavam muito mais por algo que não recebiam nos produtos fabricados nos Estados Unidos; pois nas mentes das organizações empresariais americanas, a qualidade não constituía uma prioridade. As empresas preocupavam no custo e a produtividade (aumento do volume de produção com menor quantidade de recursos) do que a qualidade. Devido a essa maneira de pensar, as empresas estrangeiras, entre as quais muitas japonesas, obtiveram uma participação significativa no mercado americano. No setor automotivo, os fabricantes japoneses líderes, como Honda, Nissan e Toyota, passaram a ter papéis significativos no mercado de automóveis nos Estados Unidos. Tanto a Honda quanto a Toyota construíram uma excelente reputação em torno da qualidade e confiabilidade de seus carros. Assim, na década de 1990, os fabricantes americanos de automóveis começaram a mudar seus pensamentos, diminuindo a diferença que existia na área da qualidade (SOARES, 2010). Nesta perspectiva, segundo Sores (2010), a qualidade até então enfocada como conformidade às especificações passou a ser considerado um conceito mais amplo, abrangendo do projeto à utilização e envolvendo todos os departamentos da empresa, e atuação corretiva até então enfocada, passou a ser preventiva. Desse modo pode-se caracterizar o TQC (Total Quality Control) como planejamento, organização e implementação de um Sistema Integrado do Controle de Qualidade, que controla o produto desde o projeto, materiais, processos, produto final e fornece assistência técnica ao usuário. 2.3. Gestão da qualidade de fornecedores nas indústrias automobilísticas 6 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. As empresas do setor automobilístico brasileiro, desde o final da década de 1970, vêm sofrendo um processo de desintegração vertical, o qual está associado a um aumento na exigência de qualidade dos produtos e serviços que a empresa recebe de seus fornecedores. Essa desintegração aumenta a complexidade da gestão das relações com fornecedores e das atividades de suprimento das empresas (VANELLE; SALLES, 2011). A gestão da qualidade nas indústrias automobilística tem buscado novos meios de aprimorar seus processos e desempenho. O conceito de qualidade assegurada tem se destacado neste contexto, a garantia da qualidade, ou Qualidade Assegurada, é o conjunto de ações sistemáticas ou planejadas que visam conferir um nível de confiança adequado aos serviços e produtos para que os mesmos venham a atender as necessidades relativas à qualidade, fazendo com que os fornecedores se comprometam fielmente a empresa o qual presta seus serviços (SILVA, 2003). Este conceito é caracterizado pela responsabilidade do fornecedor em prestar serviços assegurados, ou seja, serviços totalmente livres de deficiências para que a empresa cliente não precise gastar tempo com inspeções e auditorias para verificar se os serviços estão dentro do padrão de qualidade especificado, na busca da eliminação e/ou minimização de possíveis custos resultantes da má qualidade de seus produtos. 2.4. Custos da qualidade De acordo com Juran (1991) custos da qualidade estão associados com as falhas na produção que levam a retrabalho, desperdício e perda de produtividade. Wernke (2000) afirma que “as definições de custos da qualidade variam de acordo com a definição de qualidade e as estratégias adotadas pela empresa, que induzem a diferentes aplicações e interpretações”. Segundo Crosby (1986), custo da qualidade está ligado com a conformação ou falta de conformação aos requisitos. Custo da qualidade é o indicador que direciona a equipe de melhoria da qualidade e o restante da gerência, a percepção do cenário existente. Carvalho (2005) define que os custos da qualidade são classificados de diversas formas por diferentes autores. Estes custos podem ser classificados sob o ponto de vista do processo, dividindo-os como custos de conformidade e não conformidade. Outra classificação, a mais adotada, os divide em prevenção, análise e falhas. De acordo com Feigenbaum (1994), como Carvalho, os custos da qualidade estão relacionados com prevenção, avaliação, falhas internas e falhas externas, os quais são 7 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. separados em atividades voltadas para prevenção das falhas internas e externas e as atividades realizadas que não adicionam valor aos produtos ou serviços. Os custos de prevenção estão relacionados com custos dispendidos no planejamento da qualidade do produto; planejamento do controle de processo; treinamento e desenvolvimento de pessoal; verificação de projeto; sistema de gestão da qualidade; certificação do fornecedor e nas alterações de projeto (JURAN e GRYNA, 1991; FEIGENBAUM e CROSBY, 1994). Enquanto, que os custos de avaliação são decorrentes das principais atividades de controle da qualidade, bem como, inspeção e teste de materiais comprados; inspeção e teste durante o processo; inspeções e testes finais; controle de qualidade pelo trabalhador; auditoria da qualidade; manutenção e calibração dos equipamentos de medição e certificações externas (CORTÊS, 2001). Os custos das falhas internas, segundo Cortês (2001), são apresentados antes que os produtos sejam encaminhados para os consumidores, às falhas são identificadas na própria empresa, sendo que a apuração dos custos pode ser feita através das despesas necessárias para retirada de sucata ou refugo da empresa, podendo estes ser devido à própria empresa ou fornecedores; custos com retrabalhos ou reparo para correção de defeitos, podendo ser devido à própria empresa ou fornecedores; e os custos obtidos na análise das falhas. Outra categoria são os custos de recepção de materiais defeituosos, oriundos de falhas de materiais, peças ou componentes recebidos dos fornecedores fora das especificações de qualidade estabelecidas. São os custos associados ao trabalho do pessoal responsável em resolver problemas de materiais não conformes, custos relacionados ao tempo dedicado a negociação com fornecedores sobre rejeitos, inspeção 100% para classificação; reinspeção e reteste (custos da inspeção do produto retrabalhado); e desvalorização do produto (CORTÊS, 2001). Já os custos externos são realizados após o envio dos produtos aos consumidores, relacionados às reclamações em garantia; reclamações do cliente fora da garantia. E por fim os custos de material devolvido, representado pelo Recall de produtos (CORTÊS, 2001). Tabela 1 – Classificação dos Custos da Qualidade Classificação Custos da Qualidade Custos de prevenção Relacionados às melhorias e atividades de prevenção aos problemas de qualidade 8 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Custos de avaliação Relacionados ao controle de qualidade Custos de falhas Internas Relacionados aos erros e falhas detectados nas dependências da empresa Custos de recepção de materiais Relacionados às quebras de qualidade dos fornecedores defeituosos Custos externos Relacionados às falhas detectadas após a venda do produto Autor 3. Metodologia A estratégia de pesquisa adotada neste trabalho foi o estudo de caso, de acordo com Conti (2001), o estudo de caso é um método utilizado para examinar detalhadamente um pequeno numero de casos, podendo ser uma seção ou departamento da organização, ou mesmo redes inter-organizacionais. Para a realização do estudo proposto neste trabalho realizou-se pesquisas exploratórias, que de acordo com Gil (1991) permite maior familiaridade com o problema, estimulando a compreensão a partir de uma nova visão. Dessa forma, o ciclo da pesquisa iniciou-se com a revisão bibliográfica sobre as abordagens da gestão da qualidade e custo da qualidade. Além disso, realizou-se a análise documental, segundo Yin (2001), é uma fonte rica e estável de dados e permite ampla cobertura através de longo espaço de tempo, vários eventos e ambientes distintos. A pesquisa documental foi feita nos registros da montadora foco deste estudo, com objetivo de buscar informações dos custos da qualidade provenientes da má qualidade de seus fornecedores importados. Essas informações são registradas em relatórios desenvolvidos pela própria montadora, as principais informações são inseridas em tabelas, controladas pelo software excel. Assim, a atual pesquisa, caracterizada como estudo de caso, utiliza-se de um estudo exploratório em dados históricos da montadora, sendo essas informações relacionadas aos custos de qualidade devido a não conformidades das peças de seus fornecedores importados. A coleta dos dados foi baseada em dados primários e secundários de natureza quantitativa e qualitativa. Os dados primários foram obtidos através da pesquisa documental, sendo que primeiramente, foram coletados informações dos custos da qualidade identificadas nos processos de gestão da qualidade da montadora. Nesse caso, os dados secundários foram 9 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. obtidos por meio das manipulações dos dados primários, essa manipulação foi realizada por meio de um software excel, com intuito de estabelecer a análise descritiva por meio de gráficos. 4. Resultados 4.1. Descrição da empresa A montadora, foco deste estudo, procura operar dentro de padrões de qualidade e produtividade, para obter competitividade e meios de melhoria contínua do sistema de gestão da qualidade, segurança e meio ambiente da organização, visando o atendimento aos requisitos legais aplicáveis e a preservação ambiental. Para tal, possui um quadro de profissionais especializados e focados nos objetivos da empresa, que tenham o intuito de alinhar a vida profissional com o crescimento da empresa. O relacionamento de parceria com seus fornecedores permite desenvolver uma busca da melhoria contínua de seus processos utiliza-se do conceito de qualidade assegurada que atua na redução de custos e delegação de responsabilidade aos fornecedores na gestão da qualidade de seus produtos. A empresa tem aprimorado seus processos em todas as partes objetivando a redução dos desperdícios e os gastos desnecessários. 4.1.1. Descrição do processo de gestão da qualidade de fornecedores importados O processo realizado pela gestão da qualidade dos fornecedores importados, na montadora foco deste estudo, é embasado em atividades de inspeções e retrabalhos, controle dos itens não conformes recebidos, elaboração de relatórios de quebra de qualidade para envio aos fornecedores e controle das necessidades de reposições e descarte. 4.1.2 Classificação das categorias dos custos da qualidade A classificação dos custos da qualidade a uma categoria ou outra é relativamente arbitrária. Ao se definirem os custos da qualidade para determinada companhia, deve-se ter em mente as categorias que mais convenientemente se aplicam à organização (WERNKE, 2000). Na montadora, o processo produtivo é o cliente interno do departamento de suprimentos, ou seja, é de responsabilidade do mesmo fornecer produtos conforme os padrões estabelecidos. Desse modo, ao identificar peças importadas não conformes, são realizadas contenções para que as peças comprometidas pela má qualidade não sejam enviados para a produção, a fim de assegurar a qualidade de seu produto final. Para tal objetivo são realizadas inspeções 100%, 10 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. retrabalhos de peças não conformes, descarte das peças não conformes, importação de peças conformes para repor as peças não conformes. Dessa forma, considerando as categorias de custos da qualidade, apresentados anteriormente, as atividades como inspeções 100% são classificadas como custos de recepção de materiais defeituosos; enquanto que os custos com retrabalhos e descarte de peças não conforme são denominados custos de falhas internas. Os custos de importação também podem ser classificados como custos de falhas internas, uma vez que está diretamente relacionado com o descarte de peças não conformes. Vale ressaltar, que os custos de inspeções 100%, neste caso, não podem ser classificados como custos de avaliação, pois a montadora desenvolve o conceito de qualidade assegurada, assim, não há sistemática de inspeções por amostragem no ato do recebimento das peças, essa atividade é realizada apenas para classificação das peças após a identificação de uma não conformidade. 4.2. Análise e discussão dos resultados Os custos da qualidade foram coletados no ano de 2014 no período de janeiro a novembro. Os custos de recepção de materiais defeituosos e falhas internas representados pelas inspeções 100% e retrabalhos objetivam garantir com que as não conformidades dos fornecedores não sejam encaminhadas para os clientes internos, neste caso a própria produção, na busca da garantia da qualidade do produto final e na prevenção a custos mais elevados. Na figura 1, no período analisado, os custos de recepções de materiais defeituosos e falhas internas, inspeções 100% e retrabalhos, foram responsáveis por aproximadamente 12,4% dos custos totais. É importante ressaltar que a montadora com intuito de minimizar estes custos, contrata uma empresa terceira para realizar essas atividades, pois os valores dos serviços prestados são mais em conta e essas atividades não estão relacionadas com as atividades principais agregação que agregam valor ao produto final, mas estão relacionadas com desperdícios e perda de tempo. Figura 1 – Percentual dos custos de inspeção e retrabalhos no ano de 2014 11 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Autor Os custos de descarte de peças não conformes são necessários, pois as atividades de devoluções são inviabilizadas pela localização dos fornecedores de importados. Como são localizados em outros continentes, as devoluções poderiam ser realizadas por meio de processos de exportações, porém a alta burocracia neste processo e a elevada quantidades de peças não conformes, resultariam em grande dispêndio de tempo e mão-de- obra, o que torna este processo inviável. No processo de descarte de peças não conformes estão envolvidos dois gastos, o custo médio da peça e os impostos envolvidos na sua importação, como PIS, COFINS, ICMS e IPI. Isto devido ao fato da peça importada não ter sido utilizada na produção do produto final, esses impostos são calculados em cima do custo médio da peça. Os custos com descarte, apresentado na figura 2 no período analisado, representam cerca de 70% do custo total da qualidade. Observa-se que estes custos são responsáveis por uma significativa participação nos custos totais da qualidade do que os custos dispendidos nas atividades de inspeções 100% e retrabalhos. Por isso, a montadora juntamente com seu fornecedor opta por recuperar as peças não conformes sempre que possível. Figura 2 – Percentual dos custos de descarte no ano de 2014 12 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Autor Para que o descarte seja realizado, é necessário que a montadora receba por parte do fornecedor reposições para as peças não conformes. A importação das reposições é representada por todos os gastos envolvidos no transporte de peça do porto e/ou aeroporto para as dependências da montadora, bem como despesas com fretes, armazenagem entre outros. Figura 3 – Percentual dos custos de importação de reposições no ano de 2014 Fonte: Autor As reposições não possuem valor comercial, ou seja, o valor da peça não é pago pela montadora, entretanto os custos de importação são custeados. Na figura 3, observa-se que 17,2% dos custos totais foram destinados a importação das reposições, como este custo está diretamente ligado ao descarte, quando o retrabalho é possível, os custos de importação são eliminados. 13 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Os resultados discutidos acima demonstrou a participação das principais atividades dentro do custo total da qualidade, conforme apresentado na tabela 2. Tabela 2 – Custos da Qualidade Custo total da qualidade 100% Descarte de peças não conformes 70,4% Importação de reposições a peças não conformes 17,2% Inspeções 100% e retrabalhos 12,4% Fonte: Autor A partir da mensuração destes custos, a montadora e seus fornecedores tem a capacidade de buscar novas tomadas de decisões dentro da Gestão da Qualidade com o intuito de minimizar e/ou eliminar esses custos da qualidade. 5. Conclusão Assegurar e avaliar a qualidade dos fornecimentos nas indústrias automobilísticas é essencial ao enfoque estratégico da qualidade, no qual o cliente é quem direciona o que é necessário para a satisfação das suas necessidades. A partir do momento que a montadora recebe os suprimentos de seus fornecedores o controle de qualidade é de responsabilidade da mesma e os departamentos de produção tornam-se clientes internos. Neste contexto, é de extrema importância que a montadora tenha o conhecimento comportamento dos custos da não qualidade de seus fornecedores em seus negócios, visto que essa atividade de controle que não agrega valor ao produto final, mas resultam em desperdícios de tempo e recursos financeiros. REFERÊNCIAS BARÇANTE, Luiz Cesar. Qualidade Total: uma visão do impacto estratégico na Universidade e na Empresa. São Gonçalo: Campus, 2001. CALADO, Maria de Lara M. Diagnóstico de custo da Qualidade: uma metodologia para investigar o nível de maturidade e eficácia do sistema de qualidade. Rio de Janeiro, 2008. 14 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. CAMPOS, Vicente Falconi. TQC: Controle da Qualidade Total: no estilo japonês. Belo Horizonte: Editora: Desenvolvimento Gerencial, 1999. CAMPOS, Vicente Falconi. TQC –Controle Qualidade Total ( no estilo japonês ). 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