Considerações acerca da
prescrição de
exercícios pliométricos no
tênis de campo
Consultoria Esportiva Performance One
Pós-Graduado em Bases Fisiológicas e Metodológicas do Treinamento
Desportivo
Universidade Federal de São Paulo
Adriano Vretaros
[email protected]
(Brasil)
Resumo
O tênis de campo competitivo solicita da valência física força em suas diferentes manifestações. A pliometria é um método
de treinamento indicado para potencializar a força explosiva e a força rápida dos atletas. No tênis, constata-se a necessidade
da implementação de um programa de pliometria tanto para membros superiores quanto para membros inferiores. A vasta
literatura acerca do tema trata da pliometria de uma maneira generalista sem enfocar uma modalidade esportiva específica e
quando o fazem buscam respostas fisiológicas para alguma problemática e/ou variável. A correção destas limitações
metodológicas poderia propiciar uma especificidade da pliometria voltada para determinada modalidade. Portanto, este
estudo visa abordar o treino da pliometria direcionada para jogadores de tênis de campo competitivo.
Unitermos: Tênis. Pliometria. Ciclo alongamento-encurtamento. Força explosiva. Força rápida.
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 8 - N° 56 - Enero de 2003
1/1
Introdução
A literatura acerca de treinamento desportivo enfocando o método pliométrico é muito
vasta. Diversos autores que estudam os componentes da força no desporto tem
reportado sua bagagem de contribuição acerca dos benefícios que a pliometria
proporciona no rendimento dos atletas nas suas diferentes modalidades.
Analisando estas pesquisas, nota-se a falta de um direcionamento específico para
uma determinada modalidade em questão. Talvez, esse fato deva-se a uma visão
conservadora de alguns pesquisadores, como também, possam existir receios em
buscar novos espectros da pliometria em um único desporto. Inúmeras controvérsias
cerceiam a maioria dos estudos científicos referentes ao trabalho pliométrico.
Entre as exigências inerentes aos componentes da força no tênis de campo
competitivo encontramos a força explosiva e a força rápida. Torna-se evidente tais
solicitações da força nos membros superiores e nos membros inferiores dos tenistas.
Contudo, ao abordarmos as pesquisas cientificas, bem como algumas obras, notamos
a escassez de trabalhos envolvendo a pliometria no tênis de campo.
Levando em consideração as questões supra citadas, este estudo tem como objetivo
rever os conceitos da pliometria e propor aspectos metodológicos de implementação no
tênis de campo.
Pliometria
O termo pliometria é derivado do vocabulário grego pleytein cujo significado é
aumentar, ou plio e metric (maior e medida) (DINTMAN et alii, 1999).
Diferentes metodologias têm sido empregadas para denominar o método pliométrico,
entre muitas: treinamento de elasticidade, treinamento reativo, treinamento excêntrico,
treinamento de saltos e método de batida(WEINECK, 1991).
A força resultante do método pliométrico é regida pelo ciclo alongamentoencurtamento(KOMI, 1984). O ciclo alongamento-encurtamento baseia-se no acúmulo
de energia potencial elástica. Conforme KAMIL & KNUTZEN (1999) se o componente
elástico de um determinado grupo muscular for precedido por uma ação excêntrica(préalongamento) a ação concêntrica resultante geraria uma força maior.
Segundo UGRINOWITSH & BARBANTI (1998) para uma melhor compreensão da
pliometria deve-se buscar entender os três elementos básicos que compõe a estrutura
muscular: o elemento contrátil, os elementos elásticos em série e os elementos elásticos
em paralelo. O elemento contrátil é a fonte geradora de energia, pois, é constituído pelo
complexo actina-miosina. Os elementos elásticos em serie possuem a função de
acúmulo e liberação da energia potencial elástica. Por último, os elementos elásticos
em paralelo cuja constituição é derivada dos tecidos conectivos, respondem pela
resistência ao movimento quando da ocorrência de um alongamento muscular.
Efeitos do treino pliométrico
Algumas pesquisas realizadas em diferentes modalidades têm apresentado os
resultados de um trabalho pliométrico sobre outras variáveis que envolvam a força.
Existe uma carência de pesquisas cientificas envolvendo pliometria no tênis de campo.
Um conceito muito difundido erroneamente é a idéia de que a pliometria tem como
objetivo somente a melhoria da impulsão vertical. Tal observação foi amplamente
divulgada, pois, modalidades como o atletismo (saltos), basquete e voleibol foram os
pioneiros no emprego de tais métodos. Portanto, neste estudo a pliometria deve ser
considerada como uma estratégia de treinamento que visa melhorar e aperfeiçoar a
eficiência da qualidade física potência. Do ponto de vista matemático, potência é igual
ao produto da força versus a velocidade(potência=força x velocidade). Na concepção
de BOMPA (2001) potência representa a capacidade de execução da força máxima no
tempo mais curto.
No basquetebol juvenil de Portugal, SANTO et alii (1997) buscaram identificar os
efeitos da pliometria sobre o destreinamento e variáveis específicas da força explosiva:
a velocidade de 20 metros, agilidade, saltoS (estático e com contra-movimento) e
potência mecânica dos membros inferires. O delineamento experimental envolvia três
programas de pliometria distintos: saltos no lugar e saltos com deslocamentos (TS),
saltos em profundidade (SP) e saltos com cargas adicionais (SCA) com duração de oito
semanas. Concluíram que o treino pliométrico proposto garantia a manutenção dos
ganhos da força explosiva e permitiam melhorias expressivas nos indicadores de força
explosiva testados.
Na equipe de basquetebol júnior da Suécia, MATAVULJ et alii (2001) empregaram
três diferentes regimes de pliometria nos atletas. O programa consistia em um grupo
realizando saltos de 50cm (EG-50), o segundo grupo com 100cm (EG-100) e um grupo
controle. O experimento foi conduzido por um período de seis semanas. Encontraram
acréscimos nos valores de impulsão vertical e força dos músculos extensores.
No futebol, DIALLO et alii (2001) averiguaram os efeitos da pliometria durante dez
semanas seguidas por um período de oito semanas de redução dos treinos sobre a
performance de jogadores pré-adolescentes. Foram empregados vários tipos de
exercícios pliométricos. Constataram nos testes envolvidos (impulsão vertical com
contra-movimento, saltos por 15 segundos, velocidade de 20, 30, e 40 metros) que um
programa de pliometria improvisa a performance, como também se consegue obter um
efeito de manutenção durante a fase de redução do treinamento.
Em jogadores russos de voleibol, MASALGIN et alii (1990) estudaram a influencia do
método de choque na força explosiva. O procedimento experimental consistia de dois
grupos. O grupo submetido ao método de choque treinou durante quatro semanas
consecutivas. Em contraste, o grupo controle foi submetido a um programa convencional
de pliometria durante doze semanas. Os resultados demonstraram que o método de
choque influencia efetivamente para o desenvolvimento da força explosiva propiciando
uma rápida mobilização e recrutamento das unidades motoras envolvidas no
movimento.
As diferentes metodologias utilizadas nos estudos, assim como, variações de faixa
etária, testes empregados, acabam gerando algumas interpretações controversas.
Independente desses fatores, parece evidente supor que um programa de pliometria
bem conduzido é o meio mais eficaz para potencializar as valências físicas força
explosiva e força rápida.
Metodologia do treino pliométrico
Torna-se cada vez mais freqüente por parte dos treinadores levantar dúvidas a
respeito de como edificar a estruturação dos processos e das cargas de treino da força
explosiva. A elaboração e subseqüente confecção da planificação de um programa de
treinamento físico que respeite a individualidade biológica e modalidade ao qual se
insere o atleta é uma tarefa extremamente complexa.
Neste aspecto, HARRE & LOTZ (1989) ao pesquisarem sobre o treinamento da força
rápida, especulam que uma base sólida de força máxima seria a primeira etapa para
formação da capacidade física força explosiva. Um nível apropriado de força máxima
permite atingir elevadas prestações da força rápida.
Na visão de POLIQUIN (1991), a preparação a longo prazo da força requer uma
progressão e variação dos métodos empregados. Para tanto, apresenta uma
progressividade de tarefas composta de quatro etapas. Na primeira etapa, dá-se ênfase
ao desenvolvimento geral incluindo o treino da força máxima, força veloz e resistência
de força. Na segunda fase, potencializa-se o desenvolvimento da força máxima dos
grupos musculares específicos. A terceira etapa orienta-se para a especificidade dos
movimentos envolvidos na respectiva modalidade. Por fim, na quarta fase, o treinamento
pliométrico surge como atividade complementar e mantêm-se durante o período de
competição.
Analisando essas evidências, podemos sugerir que os programas de pliometria não
devam se aplicados no início da preparação dos atletas. Somando-se a isto, devem
existir adequações racionais durante a aplicabilidade da modulação nas dinâmicas das
cargas, diferenciando os atletas iniciantes dos avançados.
Programa pliométrico no tenis de campo (PPTC)
Levando em consideração algumas pesquisa desenvolvidas sobre treinamento de
força e pliometria consideradas relevantes (ALBERT, 2002; CHU, 1999; HEWETT et alii,
1999; MIL-HOMENS & SARDINHA, 1990; SANTO et alii, 1997; VERKHOSHANSKY,
1999; WILSON et alii, 1993), confeccionamos nosso programa direcionado para
jogadores de tênis de campo.
A proposta de programa pliométrico no tênis de campo (PPTC) envolve exercícios
para os membros superiores e inferiores dos jogadores de tênis. O programa é dividido
em três fases distintas, porém, inter-relacionadas. A fase 01 denominada adaptação
pliométrica no tênis (APT) visa adequar o aparelho locomotor passivo do atleta para os
programas pliométricos de maior intensidade. Na fase 02 (fundamentos pliométricos no
tênis - FPT) são aproveitados alguns exercícios propostos na fase inicial, com uma
solicitação maior em termos neuromusculares e também objetivando aprimorar a
técnica dos saltos. Na última fase, com o aparato neuromuscular adequado com as
atividades das fases anteriores, exigi-se níveis elevados de força explosiva(pliometria
avançada no tênis - PAT.
A aplicação seriada das fases enumeradas segue de maneira gradual, levando-se
em conta a estruturação proposta na planificação.
Quadro 01. Ordenação do Programa Pliométrico no Tênis de Campo
* altura barreiras: 50cm, *altura caixa saltos: 60-90cm
Fase 01. Adaptação pliométrica no tenis (APT)
Membros inferiores (MMII)
1.
2.
3.
4.
5.
6.
Saltos verticais no local;
Saltos verticais com deslocamento;
Saltos horizontais no local;
Saltos horizontais em deslocamento;
Saltos com uma perna no local;
Saltos com uma perna em deslocamento;
7. Saltos com giro de 180 graus.
Membros superiores (MMSS)
1. Flexão de braços no local;
2. Deslocamento "carrinho de mão";
3. Deslocamento "carrinho de mão" com flexão de braços.
Fase 02. Fundamentos pliométricos no tenis (FPT)
Membros inferiores (MMII)
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
Skeeping alternados com saltos verticais;
Skeepings alternados com saltos horizontais;
Skeepings alternados com saltos com uma perna;
Skeepings alternados com saltos giro de 180 graus;
Skeepings alternados com saltos de giro 360 graus;
Saltos sobre barreiras;
Skeepings alternados com saltos sobre barreiras.
Membros superiores (MMSS)
1. Flexão de braços com "batida de palma";
2. Deslocamento "carrinho de mão" com flexão de braços;
3. Flexão de braços com um braço.
Fase 03. Pliometria avançada no tenis (PAT)
Membros inferiores (MMII)
1.
2.
3.
4.
5.
Saltos com uma perna na areia em deslocamento;
Saltos sêxtuplos na areia;
Saltos em profundidade;
Saltos sobre barreiras com uma perna;
Saltos em profundidade com queda em uma perna.
Membros superiores (MMSS)
1. Flexão de braços em profundidade;
2. Flexão de braços em profundidade com batidas de palma;
3. Flexão de braços em profundidade com queda em um só braço.
O tempo de duração de cada fase proposta no PPTC segue uma dinâmica
pedagógica individual. Isso significa que conforme as variáveis de tempo de prática na
modalidade, idade biológica, nível de treinamento, objetivos, tempo disponível, entre
outros fatores, poder-se-ia realizar adequações necessárias orientadas a
individualidade do jogador de tênis.
Cabe ressaltar que nos programas de treinamento pliométrico individualizado poderá
ocorrer interferências fisiológicas de múltiplas causas. Portanto, cabe ao treinador o
monitoramento do controle das cargas quantitativas e qualitativas no treino da força para
uma eficaz evolução do atleta frente às exigências propostas.
Conclusão
No decorrer do desenvolvimento do programa de força em jogadores de tênis a
pliometria torna-se a metodologia mais apropriada para potencializar a força rápida e
explosiva.
O PPTC é uma proposta pedagógica de implantação gradual da pliometria para
tenistas.
Os treinadores de tênis podem empregar o PPTC durante a temporada ou em
períodos específicos. Cabe aos mesmos avaliar individualmente as cargas de treino dos
atletas, buscando com isso, a melhor forma de utilização.
Contudo, estudos adicionais são necessários para verificar o grau de transferência
mecânica para ação motora específica da modalidade.
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