Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Adaptando-se à gravidez e à sexualidade ADAPTANDO-SE À NOVA REALIDADE: A MULHER GRÁVIDA E O EXERCÍCIO DE SUA SEXUALIDADE ADAPTING TO THE NEW REALITY: THE PREGNANT WOMAN AND THE EXERCISE OF HER SEXUALITY ADAPTÁNDOSE A LA NUEVA REALIDAD: LA MUJER EMBARAZADA Y EL EJERCICIO DE SU SEXUALIDAD Karla Gonçalves CamachoI Octavio Muniz da Costa VargensII Jane Márcia ProgiantiIII RESUMO: Trata-se de estudo cujo objetivo foi descrever como a mulher exerce a sexualidade na gravidez. Consiste em pesquisa qualitativa baseada nos pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Simbólico e Grounded Theory. Coletaram-se dados em 2005, através de entrevistas semiestruturadas, com 12 gestantes, assistidas no prénatal de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Atendendo ao preconizado pelo método, a coleta e análise de dados se deram simultaneamente de modo comparativo constante. Os resultados evidenciaram que, embora o desejo sexual estivesse presente durante a gravidez, o exercício da sexualidade é influenciado pelo relacionamento conjugal e depende do adaptar-se à nova realidade: estar grávida. Conclui-se que a gestante, ao experimentar transformações físicas e emocionais, procura escolher melhores maneiras de vivenciar esse período, tendo como fundamento a decisão e ação social de buscar caminhos para adaptar-se. Nessa busca pode influenciar o comportamento do parceiro de modo que a vida sexual seja mais prazerosa. Palavras-Chave Palavras-Chave: Gravidez; saúde da mulher; sexualidade; enfermagem obstétrica.. ABSTRACT ABSTRACT:: This paper aims at describing the woman’s exercise of her sexuality during pregnancy. It is a qualitative piece of research based on Symbolic Interactionism and Grounded Theory. Data were collected in 2005, through semi-structured interviews with 12 pregnant women receiving prenatal assistance at a Municipal Health Center in Rio de Janeiro, Brazil. According to methodological procedures, data collection and analysis were simultaneous, on a comparative constant basis. Results evidenced that, although sexual desire was present during the pregnancy, the exercise of sexuality is influenced by their marital relationship and it depends on adapting to the new reality: being pregnant. Conclusions show that when experiencing the physical and emotional changes of pregnancy, pregnant women look up better ways to go through that stage, making a point about social action to find ways to adapt. In that search they can influence the partner’s behavior in such a way that sexual life becomes more pleasant. Keywords Keywords: Pregnancy; women’s health; sexuality; obstetrical nursing. RESUMEN: El objetivo fué describir como la mujer ejerce la sexualidad durante el embarazo. Es una investigación cualitativa basada en el Interaccionismo Simbólico y en la Grounded Theory. Los datos fueron colectados en 2005, a través de entrevistas semiestructuradas, con 12 embarazadas, asistidas durante el prenatal en un Centro Municipal de Salud de Río de Janeiro, Brasil. La colección y análisis de los datos fueran simultáneas y hechas de manera comparativa constante. Los resultados evidenciaron que, aunque el deseo sexual estuviera presente durante el embarazo, el ejercicio de la sexualidad es influenciado por la relación matrimonial y depende de adaptarse a la nueva realidad: estar embarazada. Se concluye que la mujer embarazada, al experimentar los cambios físicos y emocionales del embarazo, busca mejores maneras de vivir ese período, teniendo como fundamentación la decisión y la acción social de buscar maneras de adaptarse. En esa búsqueda ella puede influir en el comportamiento del compañero para que la vida sexual se ponga más agradable. Palabras Clave: Embarazo; salud de la mujer; sexualidad; enfermería obstétrica. INTRODUÇÃO Este artigo aborda o tema sexualidade na gestação. Quando se fala em sexualidade, enfatiza-se uma abordagem sistêmica remetendo aspectos biológicos, psicológicos, culturais, antropológicos, sociais e comportamentais, entre tantos outros1,2. No campo teórico, a sexualidade simboliza união I Enfermeira Obstetra e Neonatologista. Mestranda em Enfermagem pelo Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora de Pesquisa Clínica no Instituto Nacional de Câncer/RJ. Rio de Janeiro, Brasil. E-mails: [email protected] e [email protected]. II Enfermeiro Obstetra. Doutor em Enfermagem. Professor Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Líder do Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Poder e Violência em Saúde e Enfermagem. Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected]. III Enfermeira Obstetra. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora do Curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected]. p.32 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37. Recebido em: 03.02.2009 – Aprovado em: 30.07.2009 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM de valores e práticas corporais historicamente legitimadas3 e relaciona-se à dimensão íntima, constituinte da subjetividade das pessoas e relações corporais com seus pares e com o mundo2,4. Nesse sentido, sexualidade não é tratada apenas como relação sexual, e sim como um processo amplo que envolve relações afetivo-sexuais entre casais, ou seja, extrapola aspectos orgânicos e associam- se a estes fatores psicossociais5-7. No entanto, na vida cotidiana dos indivíduos, sexo e sexualidade inter-relacionam-se, sendo quase impossível diferenciar os conceitos, pois apresentamse conjugados e sobrepostos fortemente nos relacionamentos humanos. Por isso mesmo, trataremos sexualidade como fusão entre práticas sexuais/sexo e o constructo teórico sexualidade com ênfase nos aspectos relacionados às práticas sexuais. No ciclo gravídico-puerperal, a vivência da sexualidade é influenciada pelas modificações anatômicas, fisiológicas ou psicológicas. Há também a interferência de mitos, tabus, questões religiosas, socioculturais bem como o próprio desconhecimento do casal acerca do seu corpo.8,9 Esses fatos levaram durante muito tempo a não se aconselhar gestantes a terem relações sexuais nessa fase da vida10. No entanto, vivemos hoje um momento em que as informações sobre sexualidade estão cada vez mais presentes estimulando uma maior participação no prazer sexual. A vida sexual, presente durante a gravidez, vai muito além do genital. Traz comprometimento e aceitação do outro, com benefícios significativos para os dois. O sexo e a sexualidade podem e devem desenvolver o erotismo na mulher, mesmo grávida, fazendo com que ela possa continuar se sentindo sexualmente desejada, mesmo com as alterações de seu corpo, nesse processo que a tornará mãe9. Estudos desenvolvidos nas últimas décadas9,10 demonstram que é possível observar melhora do relacionamento conjugal, com sentimentos de feminilidade aguçada e com maior prazer sexual, quando há liberdade de expressão da sexualidade e de práticas sexuais durante a gestação. Em contrapartida, também é possível observar o abandono do parceiro, violência não física e diminuição da atividade sexual. Há uma miscelânea de sentimentos que repercutem na vivência da sexualidade. Percebe-se conflito interno entre estar gerando um filho e ao mesmo tempo sentindo vontades, desejos, que são sentimentos culturalmente não permitidos na gestação11. A libido muitas vezes não diminui nesta fase, porém pode ser inibida diante de tantas especulações que giram em torno do casal grávido9. Diante do exposto, este estudo tem por objetivo descrever como a mulher vivencia a sexualidade na gravidez. REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO Recebido em: 03.02.2009 – Aprovado em: 30.07.2009 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37. Trata-se de um estudo qualitativo descritivo desenvolvido com base nos pressupostos teóricometodológicos do Interacionismo Simbólico e da Grounded Theory. O Interacionismo Simbólico caracteriza-se por ressaltar o valor do sentido das coisas no comportamento humano. Este reflete o resultado das interações sociais de seus sujeitos, dos significados dos fatos, do compartilhamento do significado destes e o sentido das coisas de um certo ponto de vista, mas principalmente uma resposta às intenções dos outros e/ou com os outros, que por sua vez são transmitidas através de gestos que se mutam em símbolo que é a palavrachave do Interacionismo12,13. Com o Interacionismo Simbólico é possível obter um conhecimento amplo e significativo das relações sociais. Este pode ser considerado como uma forma de contextualização do problema ou do fato, proporcionando um conhecimento mais estratégico e situacional dos acontecimentos entre os indivíduos13,14. Tem seu conceito central focalizado no significado das ações individuais e coletivas, embasadas em um conjunto de conceitos básicos como a natureza humana, natureza das ações e identificação da atividade humana que envolve a interação entre seus sujeitos na vida social, ou seja, na relação do ser humano com o mundo14. A Grounded Theory consiste em estratégia de identificação dos processos sociais básicos no contexto em que estes ocorrem, focalizando não só os fenômenos, mas também os significados destes para os sujeitos da envolvidos. Visa gerar modelos teóricos ou teorias que expliquem o comportamento humano a partir da coleta e análise simultânea dos dados, sendo por isso considerado um método de análise comparativa constante15-17. Os sujeitos integrantes dos grupos amostrais deste estudo foram 11 mulheres grávidas, inseridas no estudo à medida que o processo de análise comparativa dos dados era desenvolvido, conforme preconizado pela Grounded Theory16,17. O primeiro grupo amostral constou de seis gestantes matriculadas no pré-natal, de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, que estavam no terceiro trimestre de gestação. A escolha por este grupo inicial deveu-se ao fato de ser um período da gestação em que as modificações corporais são mais evidentes e mais marcantes do ponto de vista externo, o que requer adaptação das mulheres à nova estática e dinâmica corporal. A análise destas entrevistas, conforme preconizado pelo método do estudo, indicou a necessidade de inclusão de gestantes que estivessem vivenciando períodos da gestação, em que as modificações, apesar de evidentes, ainda não representassem tão forte impac- • p.33 Adaptando-se à gravidez e à sexualidade to na dinâmica corporal. Assim, o segundo grupo amostral constou de cinco gestantes matriculadas no mesmo serviço, com as mesmas características, porém que estavam no segundo trimestre da gestação. Para manter a confidencialidade das informações, atribuímos um nome fictício de identificação das falas, com a junção da letra G de gestante, seguido pela ordem numérica das entrevistas, ou seja, a primeira gestante recebeu o codinome de G1 e assim por diante. Foram excluídas somente as gestantes que, mesmo dentro dos critérios de inclusão, não quiseram participar da pesquisa. O término da inclusão de sujeitos ocorreu quando houve saturação dos dados colhidos, isto é, não havia mais distinção entre os antigos e os novos registros16. A técnica de coleta de dados foi uma entrevista, semiestruturada, cuja frase indutora era: fale-me sobre sua sexualidade durante o período gestacional. As entrevistas com duração de 20 a 40 minutos foram realizadas após a consulta de pré-natal, pela própria pesquisadora, em 2005. A análise contemplou as seguintes etapas: transcrição das entrevistas, pela própria pesquisadora, mantendo-se na íntegra os depoimentos; a distribuição vertical e sequencial do discurso18; a codificação substantiva ou codificação aberta; o agrupamento de códigos afins, que permitiu a construção de categorias provisórias; a categorização preliminar; a análise e consolidação das categorias construídas preliminarmente; análise comparativa constante destas categorias; e, por fim, a identificação da categoria central19 com a descrição do processo social básico. Por último elaborouse um diagrama representativo deste processo social16,18,19. Ver Figura 1, na seção Discussão. O presente estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Pedro Ernesto e aprovado (Protocolo no 1125-CEP/HUPE), conforme Resolução no 196, de 10/10/1996, do Conselho Nacional de Saúde. Todos os sujeitos consentiram em sua participação assinando um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. RESULTADOS O processo de exercício da sexualidade pelas gestantes se deu em duas esferas que permitiram constituir as categorias do estudo: a descoberta do desejo sexual na gravidez, que traz consigo um mundo de mitos, tabus e preconceitos associados e incorporados ao longo do processo de socialização da mulher, e que inclui aqueles relacionados à sexualidade e às práticas sexuais; e a adaptação à nova realidade: a busca de formas adaptativas de sentir prazer sexual durante a gravidez. p.34 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37. Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Sentindo Desejo Sexual Durante a Gestação O primeiro ponto de encontro para vivência da sexualidade na gestação está em descobrir desejo sexual na gravidez. Este gera um novo conflito para a mulher que já está em um momento de transição e de identificação próprio da gestação. Conceber que em seu corpo gera-se um novo ser e este mesmo corpo deseja manter relações sexuais gera uma ambivalência de sentimentos em muitas mulheres que às vezes estão vulneráveis às influências socioculturais. E apesar disso grande parte das gestantes considera normal o sexo na gravidez, e mesmo sofrendo influências populares, socioculturais e religiosas, permite-se vivenciar a sexualidade. [...] Eu sempre fui muito gulosa por sexo [...], então não mudou muito, sempre quero fazer (prática sexual) [...] (G3) Em nossa análise, detectamos gestantes que tiveram a libido mais acentuada, sentindo vontade de fazer sexo com mais frequência do que antes da gravidez. [...] Eu acho que eu ficava às vezes com até mais vontade de fazer (sexo) do que antes da gravidez [...] (G4) Identificamos também que o fato de alguns companheiros serem mais afetuosos e carinhosos durante o período gestacional permite a muitas mulheres terem sua sexualidade aflorada e com isso almejam que seus companheiros continuem amorosos mesmo após a gestação e que o sexo continue tão prazeroso quanto nessa fase da vida conjugal. [...] Ficou melhor. Sempre falo para ele ver se aprende e conserva isso depois da gravidez. Ah! Eu adoraria que ficasse assim, carinhoso, atencioso, gentil, preocupado comigo [...] (G6) Dessa forma, percebemos que o primeiro contato das grávidas com o sentimento do desejo sexual, gera uma emoção diferenciada que pode ser encarada como algo positivo a partir do momento em que se consegue compreendê-la de forma saudável. Assim, o exercício da sexualidade torna-se mais prazeroso e intenso na gestação do que no período não gestacional. Não Conseguindo Relacionar-se Sexualmente Durante a Gestação Entre as entrevistadas houve situações em que, embora o desejo sexual estivesse presente ou mesmo mais aguçado, não conseguiam manter atividade sexual. O principal fator relatado pelas gestantes que não conseguiam relacionar-se sexualmente com o parceiro foi a mudança física característica da gravidez, principalmente nos últimos meses de gestação. Nesta situação não pesou muito a falta de interesse, mas sim o desconforto que a gravidez traz: [...] Eu continuo tendo desejo, mas não consigo ter relação [...] (G2) Recebido em: 03.02.2009 – Aprovado em: 30.07.2009 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM Observamos também que em alguns casos a mulher passa a considerar desfavorável a relação sexual, pelo fato de o companheiro não ter respeito ao seu corpo grávido e muito menos ao seu estado emocional. nante, admitiram para si mesmas outras formas de sentir prazer. [...] Assim, às vezes eu até tenho vontade, mas quando ele vem encostar, de qualquer jeito, grosseiro, bruto, daí a vontade passa [...] (G1) [...] Mas aí a gente fica namorando, acha outros jeitos de fazer [...] e sinto prazer mesmo [...] (G5) Identificamos também a questão da violência física ou moral, em geral relacionadas como resposta a uma gravidez não desejada ou não planejada. Esta condição repercute na vivência da sexualidade do casal, que em muitas vezes não é espontânea e satisfatória para ambas as partes. Essa decisão só foi possível porque a mulher tomou para si a iniciativa de determinar como seriam as relações. O parceiro, habitualmente determinante do como e do quando, passou a ter que aceitar uma maneira diferente e determinada por ela de praticar sexo e a sexualidade conjugal. Isso certamente representou uma capacidade de negociação com o parceiro. [...] A gente brigava direto, ele me batia, falava mal, ficou estranho de uns tempos para cá, não botava mais comida em casa [...] (G9) [...] Sempre falo para ele ver se aprende e conserva isso depois da gravidez, eu adoraria que ficasse assim. [...] Ele aceita o que eu peço [...] (G7) Assim evidencia-se que fatores externos e principalmente internos inerentes ao casal podem dificultar o exercício da sexualidade na gestação. Mais uma vez, é importante ressaltar que o comportamento sexual do parceiro durante a gravidez parece ser o comportamento desejado pelas mulheres. Por isso mesmo seu empenho em convencer seus parceiros a manterem esse comportamento depois da vivência da gestação. Adaptando-se à Nova Realidade O fato de descobrirem a si mesmas sentindo desejo sexual e ao mesmo tempo estarem enfrentando dificuldades para o relacionamento sexual na gravidez levou estas mulheres a um movimento em direção à busca do prazer e da satisfação sexual, apesar dos fatores negativos até então experimentados por elas. Um dos elementos mais marcantes dessa busca foi o fato de que, entendendo que o prazer não necessariamente estaria relacionado apenas com a relação sexual em que o intercurso vaginal é o ponto culmi- Recebido em: 03.02.2009 – Aprovado em: 30.07.2009 [...] A gente fica só nas carícias, que para mim sempre foi o melhor... Ficamos só nas preliminares[...] (G8) DISCUSSÃO Os dados foram analisados na perspectiva interacionista, a partir do modelo teórico explicativo da ação humana19. Assim entendemos a relação existente entre as categorias encontradas neste estudo e que está representada na Figura 1. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37. • p.35 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Adaptando-se à gravidez e à sexualidade A descoberta da gravidez revela o primeiro contato com o universo do gerar um novo ser. A confirmação da gestação pode fazer aflorar na mulher sentimentos propriamente maternos, permitindo-lhe experimentar transformações físicas e emocionais inerentes ao processo de gestar. Nesta fase a mulher define metas e considera o futuro14,19. Porém, mais do que se descobrir grávida, o descobrir a si mesma sentindo desejo sexual durante a gravidez, independente da idade gestacional, gera dúvidas e angústias relacionadas a fatores culturais fortemente influenciadores que impregnam o emocional das gestantes, principalmente se houver falta de conhecimentos científicos por parte delas20. Além disso, ainda identificamos reflexo remoto da influência das três instituições dominantes: o estado, a igreja e a medicina que ainda têm poder sobre o corpo feminino21. Nesse âmbito, os mitos estão relacionados com a concepção de impureza e fragilidade do corpo feminino, visto como fonte de poluição6, e quando atrelados à gestação, deixam a gestante insegura em exercer sua sexualidade na gravidez. Por outro lado, há mulheres que sentem prazer durante a gravidez e não se deixam influenciar por fatores externos impostos pela sociedade sobre sexualidade e a exercem sem nenhum problema22. Para essas mulheres a consciência desses mitos movimentou-as em busca de recursos que lhes permitissem vivenciar esta nova realidade em suas vidas: estou grávida e ao mesmo tempo sentindo desejo sexual. É a partir disto que esta mulher poderá entrar direta e/ou indiretamente em contato com todo seu referencial interno, com suas experiências prévias ou com o que pode ser representado16,19. Observa-se constantemente na grávida uma ambivalência dos sentimentos de querer e não querer – é a vivência básica da gravidez3. A gestação afeta a intimidade do casal9,10 principalmente devido ao abdômen grávido que pode ser um empecilho para as práticas sexuais. Dessa maneira, estratégias alternativas de práticas sexuais são elaboradas na tentativa de melhor adaptar-se e sentir prazer. No entanto é importante salientar que o modo como a gestante se percebe nesse momento da vida repercute em seu relacionamento conjugal. Neste estudo evidenciamos que há gestantes que não conseguem relacionar-se sexualmente, apesar de sentir desejo, pois o universo em que estão inseridas não é favorável. Ainda há relações conjugais em que prevalece o caráter de dominação masculina, destinando à mulher o papel de submissa e obediente23. Os achados também demonstram que muitas mulheres são vitimas, dentro do casamento, de diferentes formas de violência, como desrespeito, agressão verbal e física24. E o mais interessante é que a gestante p.36 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2010 jan/mar; 18(1):32-37. permanece sentindo desejo sexual não pelo parceiro, mas um desejo sexual interno, que independe do outro. Algo que surge de sua própria sexualidade feminina que pode ser vista como uma energia vital, criadora e criativa que surge do ser humano21. A sexualidade não se concentra somente no ato sexual propriamente. Há outras manifestações de amor e carinho que a representam. Nesse contexto, o ato sexual torna-se um momento de expressão de carinho, onde a relação sexual não é vista com mera consumação do desejo carnal, mas de entrega e respeito. Quando um casal é flexível e paciente geralmente encontra posições confortáveis para ambos7. A vivência da sexualidade na gestação pode ser prazerosa com a libido exacerbada, podendo haver criação de formas sexuais adaptativas para melhor sentir prazer na gestação12. Sentir prazer e desejo sexual na gestação é algo que depende da interação do casal e pode repercutir sob diversos aspectos no desenvolvimento psíquico da gestante e de seu companheiro, permitindo-lhes criar maneiras sexuais adaptativas9,10. Cada situação de interação acontece no âmbito de um contexto que certamente influencia os agentes/ objetos sociais presentes, na definição da situação e na determinação da linha de ação19. Neste estudo o contexto pode ser representado pelo fato de a mulher estar sofrendo influências socioculturais, religiosas e crenças impostas pela sociedade em que está inserida. A partir da integração das categorias foi possível identificar que a vivência da sexualidade depende de como a gestante se vê como mulher e mãe, e também da interação com seu parceiro e com seu meio. Sob o ponto de vista feminino, das gestantes entrevistadas, as modificações gestacionais que mais influenciam na sexualidade e no relacionamento conjugal originam-se das mudanças corporais, principalmente do impacto gerado pelo crescimento do ventre materno e da atuação do parceiro no dia a dia gestacional10. Assim, exercitar a sexualidade na gestação faz parte do processo de adaptação da mulher ao universo gestacional e envolve fatores no âmbito do imaginário e de vida pública5,8. É possível manter a sexualidade com a mesma intensidade, interesse e vivência que do período pré-concepcional22. Há diferentes maneiras de a grávida vivenciar sua sexualidade durante a gestação, entre elas incluise o sentir ou não desejos sexuais, o que a leva à decisão de criar formas adaptativas para exercer positivamente a sexualidade durante a gestação. CONCLUSÕES A sexualidade na gestação é um dos aspectos que valoriza o processo de gestar, porém, isto dependerá de como a mulher se percebe nessa etapa da vida. Recebido em: 03.02.2009 – Aprovado em: 30.07.2009 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Para tal, é importante a mulher sentir-se amada e atraente, ter sua autoestima desenvolvida, e independente de qualquer fator, adaptar-se à nova realidade, e isso a permitirá exercer sua sexualidade. O profissional de saúde, em especial o enfermeiro, ao considerar a sexualidade imersa na gestação, compreenderá melhor o que se passa na gestação sob o ponto de vista da gestante e com isso terá a oportunidade de melhor articular com o casal grávido sobre o contexto amplo da gestação e suas implicações. Isso irá proporcionar ao casal assistido pelo profissional e também a todos que estão envolvidos com essa fase maravilhosa da vida captar mais claramente o que for transmitido. É nesse contexto que se insere o profissional, enfermeiro, promotor da saúde e do bem-estar da gestante, participando juntamente à mulher dessas transformações e adaptações que estão acontecendo, podendo orientá-la da melhor forma, quebrando regras e eliminando tabus, para que ela possa usufruir todos os tipos de prazeres e sensações nesse momento da sua vida. Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM 1.Lupton D. Corpos, prazeres e a prática do eu. Revista Educação & Realidade. 2000; 25(2):15-46. 2.Souza LB, Fernandes JFP, Barroso MGT. Sexualidade na adolescência: análise da influência de fatores culturais presentes no contexto familiar. Acta Paul Enferm. 2006; 19(4):408-13. 3.Scott J. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. Revista Educação & Realidade. 1995; 20(2):71-99. 4Maturana HC, Progianti JM. A ordem social inscrita nos corpos: gravidez na adolescência na ótica do cuidar de enfermagem. Rev enferm UERJ. 2007; 15:205-9. 5.Ressel LB, Gualda DMR. 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