Artigo de Pesquisa
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Artículo de Investigación
Adaptando-se à gravidez e à sexualidade
ADAPTANDO-SE À NOVA REALIDADE: A MULHER GRÁVIDA E
O EXERCÍCIO DE SUA SEXUALIDADE
ADAPTING TO THE NEW REALITY: THE PREGNANT WOMAN AND THE EXERCISE
OF HER SEXUALITY
ADAPTÁNDOSE A LA NUEVA REALIDAD: LA MUJER EMBARAZADA Y EL
EJERCICIO DE SU SEXUALIDAD
Karla Gonçalves CamachoI
Octavio Muniz da Costa VargensII
Jane Márcia ProgiantiIII
RESUMO: Trata-se de estudo cujo objetivo foi descrever como a mulher exerce a sexualidade na gravidez. Consiste
em pesquisa qualitativa baseada nos pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Simbólico e Grounded
Theory. Coletaram-se dados em 2005, através de entrevistas semiestruturadas, com 12 gestantes, assistidas no prénatal de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Atendendo ao preconizado pelo método, a coleta e análise
de dados se deram simultaneamente de modo comparativo constante. Os resultados evidenciaram que, embora o
desejo sexual estivesse presente durante a gravidez, o exercício da sexualidade é influenciado pelo relacionamento
conjugal e depende do adaptar-se à nova realidade: estar grávida. Conclui-se que a gestante, ao experimentar
transformações físicas e emocionais, procura escolher melhores maneiras de vivenciar esse período, tendo como
fundamento a decisão e ação social de buscar caminhos para adaptar-se. Nessa busca pode influenciar o comportamento do parceiro de modo que a vida sexual seja mais prazerosa.
Palavras-Chave
Palavras-Chave: Gravidez; saúde da mulher; sexualidade; enfermagem obstétrica..
ABSTRACT
ABSTRACT:: This paper aims at describing the woman’s exercise of her sexuality during pregnancy. It is a qualitative
piece of research based on Symbolic Interactionism and Grounded Theory. Data were collected in 2005, through
semi-structured interviews with 12 pregnant women receiving prenatal assistance at a Municipal Health Center in Rio
de Janeiro, Brazil. According to methodological procedures, data collection and analysis were simultaneous, on a
comparative constant basis. Results evidenced that, although sexual desire was present during the pregnancy, the
exercise of sexuality is influenced by their marital relationship and it depends on adapting to the new reality: being
pregnant. Conclusions show that when experiencing the physical and emotional changes of pregnancy, pregnant
women look up better ways to go through that stage, making a point about social action to find ways to adapt. In that
search they can influence the partner’s behavior in such a way that sexual life becomes more pleasant.
Keywords
Keywords: Pregnancy; women’s health; sexuality; obstetrical nursing.
RESUMEN: El objetivo fué describir como la mujer ejerce la sexualidad durante el embarazo. Es una investigación
cualitativa basada en el Interaccionismo Simbólico y en la Grounded Theory. Los datos fueron colectados en 2005, a
través de entrevistas semiestructuradas, con 12 embarazadas, asistidas durante el prenatal en un Centro Municipal de
Salud de Río de Janeiro, Brasil. La colección y análisis de los datos fueran simultáneas y hechas de manera comparativa constante. Los resultados evidenciaron que, aunque el deseo sexual estuviera presente durante el embarazo, el
ejercicio de la sexualidad es influenciado por la relación matrimonial y depende de adaptarse a la nueva realidad:
estar embarazada. Se concluye que la mujer embarazada, al experimentar los cambios físicos y emocionales del
embarazo, busca mejores maneras de vivir ese período, teniendo como fundamentación la decisión y la acción social
de buscar maneras de adaptarse. En esa búsqueda ella puede influir en el comportamiento del compañero para que
la vida sexual se ponga más agradable.
Palabras Clave: Embarazo; salud de la mujer; sexualidad; enfermería obstétrica.
INTRODUÇÃO
Este artigo aborda o tema sexualidade na gestação. Quando se fala em sexualidade, enfatiza-se uma
abordagem sistêmica remetendo aspectos biológicos,
psicológicos, culturais, antropológicos, sociais e
comportamentais, entre tantos outros1,2.
No campo teórico, a sexualidade simboliza união
I
Enfermeira Obstetra e Neonatologista. Mestranda em Enfermagem pelo Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro. Coordenadora de Pesquisa Clínica no Instituto Nacional de Câncer/RJ. Rio de Janeiro, Brasil. E-mails: [email protected] e
[email protected].
II
Enfermeiro Obstetra. Doutor em Enfermagem. Professor Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Faculdade de Enfermagem da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Líder do Núcleo de Pesquisa sobre Gênero, Poder e Violência em Saúde e Enfermagem. Rio de Janeiro, Brasil.
E-mail: [email protected].
III
Enfermeira Obstetra. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro. Coordenadora do Curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: [email protected].
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de valores e práticas corporais historicamente legitimadas3 e relaciona-se à dimensão íntima, constituinte da subjetividade das pessoas e relações corporais
com seus pares e com o mundo2,4. Nesse sentido, sexualidade não é tratada apenas como relação sexual,
e sim como um processo amplo que envolve relações
afetivo-sexuais entre casais, ou seja, extrapola aspectos orgânicos e associam- se a estes fatores
psicossociais5-7.
No entanto, na vida cotidiana dos indivíduos,
sexo e sexualidade inter-relacionam-se, sendo quase
impossível diferenciar os conceitos, pois apresentamse conjugados e sobrepostos fortemente nos relacionamentos humanos. Por isso mesmo, trataremos sexualidade como fusão entre práticas sexuais/sexo e o
constructo teórico sexualidade com ênfase nos aspectos relacionados às práticas sexuais.
No ciclo gravídico-puerperal, a vivência da sexualidade é influenciada pelas modificações
anatômicas, fisiológicas ou psicológicas. Há também
a interferência de mitos, tabus, questões religiosas,
socioculturais bem como o próprio desconhecimento do casal acerca do seu corpo.8,9 Esses fatos levaram
durante muito tempo a não se aconselhar gestantes a
terem relações sexuais nessa fase da vida10.
No entanto, vivemos hoje um momento em que
as informações sobre sexualidade estão cada vez mais
presentes estimulando uma maior participação no
prazer sexual. A vida sexual, presente durante a gravidez, vai muito além do genital. Traz comprometimento e aceitação do outro, com benefícios significativos para os dois. O sexo e a sexualidade podem e
devem desenvolver o erotismo na mulher, mesmo
grávida, fazendo com que ela possa continuar se sentindo sexualmente desejada, mesmo com as alterações de seu corpo, nesse processo que a tornará mãe9.
Estudos desenvolvidos nas últimas décadas9,10
demonstram que é possível observar melhora do relacionamento conjugal, com sentimentos de feminilidade aguçada e com maior prazer sexual, quando há
liberdade de expressão da sexualidade e de práticas sexuais durante a gestação. Em contrapartida, também é
possível observar o abandono do parceiro, violência
não física e diminuição da atividade sexual.
Há uma miscelânea de sentimentos que repercutem na vivência da sexualidade. Percebe-se conflito interno entre estar gerando um filho e ao mesmo
tempo sentindo vontades, desejos, que são sentimentos culturalmente não permitidos na gestação11. A
libido muitas vezes não diminui nesta fase, porém
pode ser inibida diante de tantas especulações que
giram em torno do casal grávido9.
Diante do exposto, este estudo tem por objetivo descrever como a mulher vivencia a sexualidade
na gravidez.
REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
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Trata-se de um estudo qualitativo descritivo desenvolvido com base nos pressupostos teóricometodológicos do Interacionismo Simbólico e da
Grounded Theory.
O Interacionismo Simbólico caracteriza-se por
ressaltar o valor do sentido das coisas no comportamento humano. Este reflete o resultado das interações
sociais de seus sujeitos, dos significados dos fatos, do
compartilhamento do significado destes e o sentido
das coisas de um certo ponto de vista, mas principalmente uma resposta às intenções dos outros e/ou com
os outros, que por sua vez são transmitidas através de
gestos que se mutam em símbolo que é a palavrachave do Interacionismo12,13.
Com o Interacionismo Simbólico é possível
obter um conhecimento amplo e significativo das
relações sociais. Este pode ser considerado como uma
forma de contextualização do problema ou do fato,
proporcionando um conhecimento mais estratégico
e situacional dos acontecimentos entre os indivíduos13,14. Tem seu conceito central focalizado no significado das ações individuais e coletivas, embasadas em
um conjunto de conceitos básicos como a natureza
humana, natureza das ações e identificação da atividade humana que envolve a interação entre seus sujeitos na vida social, ou seja, na relação do ser humano com o mundo14.
A Grounded Theory consiste em estratégia de
identificação dos processos sociais básicos no contexto em que estes ocorrem, focalizando não só os
fenômenos, mas também os significados destes para
os sujeitos da envolvidos. Visa gerar modelos teóricos ou teorias que expliquem o comportamento humano a partir da coleta e análise simultânea dos dados, sendo por isso considerado um método de análise comparativa constante15-17.
Os sujeitos integrantes dos grupos amostrais deste estudo foram 11 mulheres grávidas, inseridas no estudo à medida que o processo de análise comparativa
dos dados era desenvolvido, conforme preconizado
pela Grounded Theory16,17. O primeiro grupo amostral
constou de seis gestantes matriculadas no pré-natal,
de um Centro Municipal de Saúde do Rio de Janeiro,
que estavam no terceiro trimestre de gestação. A escolha por este grupo inicial deveu-se ao fato de ser um
período da gestação em que as modificações corporais
são mais evidentes e mais marcantes do ponto de vista
externo, o que requer adaptação das mulheres à nova
estática e dinâmica corporal.
A análise destas entrevistas, conforme preconizado pelo método do estudo, indicou a necessidade de
inclusão de gestantes que estivessem vivenciando períodos da gestação, em que as modificações, apesar de
evidentes, ainda não representassem tão forte impac-
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to na dinâmica corporal. Assim, o segundo grupo
amostral constou de cinco gestantes matriculadas no
mesmo serviço, com as mesmas características, porém
que estavam no segundo trimestre da gestação.
Para manter a confidencialidade das informações, atribuímos um nome fictício de identificação
das falas, com a junção da letra G de gestante, seguido
pela ordem numérica das entrevistas, ou seja, a primeira gestante recebeu o codinome de G1 e assim por
diante.
Foram excluídas somente as gestantes que, mesmo dentro dos critérios de inclusão, não quiseram
participar da pesquisa. O término da inclusão de sujeitos ocorreu quando houve saturação dos dados colhidos, isto é, não havia mais distinção entre os antigos e os novos registros16.
A técnica de coleta de dados foi uma entrevista,
semiestruturada, cuja frase indutora era: fale-me sobre
sua sexualidade durante o período gestacional. As entrevistas com duração de 20 a 40 minutos foram realizadas após a consulta de pré-natal, pela própria pesquisadora, em 2005.
A análise contemplou as seguintes etapas: transcrição das entrevistas, pela própria pesquisadora, mantendo-se na íntegra os depoimentos; a distribuição
vertical e sequencial do discurso18; a codificação substantiva ou codificação aberta; o agrupamento de códigos afins, que permitiu a construção de categorias provisórias; a categorização preliminar; a análise e consolidação das categorias construídas preliminarmente;
análise comparativa constante destas categorias; e, por
fim, a identificação da categoria central19 com a descrição do processo social básico. Por último elaborouse um diagrama representativo deste processo social16,18,19. Ver Figura 1, na seção Discussão.
O presente estudo foi submetido ao Comitê de
Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Pedro
Ernesto e aprovado (Protocolo no 1125-CEP/HUPE),
conforme Resolução no 196, de 10/10/1996, do Conselho Nacional de Saúde. Todos os sujeitos consentiram em sua participação assinando um Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS
O processo de exercício da sexualidade pelas gestantes se deu em duas esferas que permitiram constituir as categorias do estudo: a descoberta do desejo
sexual na gravidez, que traz consigo um mundo de
mitos, tabus e preconceitos associados e incorporados ao longo do processo de socialização da mulher, e
que inclui aqueles relacionados à sexualidade e às práticas sexuais; e a adaptação à nova realidade: a busca
de formas adaptativas de sentir prazer sexual durante
a gravidez.
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Sentindo Desejo Sexual Durante a Gestação
O primeiro ponto de encontro para vivência da
sexualidade na gestação está em descobrir desejo sexual na gravidez. Este gera um novo conflito para a mulher que já está em um momento de transição e de
identificação próprio da gestação. Conceber que em
seu corpo gera-se um novo ser e este mesmo corpo
deseja manter relações sexuais gera uma ambivalência
de sentimentos em muitas mulheres que às vezes estão
vulneráveis às influências socioculturais.
E apesar disso grande parte das gestantes considera normal o sexo na gravidez, e mesmo sofrendo
influências populares, socioculturais e religiosas, permite-se vivenciar a sexualidade.
[...] Eu sempre fui muito gulosa por sexo [...], então
não mudou muito, sempre quero fazer (prática sexual)
[...] (G3)
Em nossa análise, detectamos gestantes que tiveram a libido mais acentuada, sentindo vontade de fazer
sexo com mais frequência do que antes da gravidez.
[...] Eu acho que eu ficava às vezes com até mais vontade de fazer (sexo) do que antes da gravidez [...] (G4)
Identificamos também que o fato de alguns companheiros serem mais afetuosos e carinhosos durante
o período gestacional permite a muitas mulheres terem sua sexualidade aflorada e com isso almejam que
seus companheiros continuem amorosos mesmo após
a gestação e que o sexo continue tão prazeroso quanto
nessa fase da vida conjugal.
[...] Ficou melhor. Sempre falo para ele ver se aprende
e conserva isso depois da gravidez. Ah! Eu adoraria que
ficasse assim, carinhoso, atencioso, gentil, preocupado
comigo [...] (G6)
Dessa forma, percebemos que o primeiro contato
das grávidas com o sentimento do desejo sexual, gera
uma emoção diferenciada que pode ser encarada como
algo positivo a partir do momento em que se consegue
compreendê-la de forma saudável. Assim, o exercício
da sexualidade torna-se mais prazeroso e intenso na
gestação do que no período não gestacional.
Não Conseguindo Relacionar-se Sexualmente Durante a Gestação
Entre as entrevistadas houve situações em que,
embora o desejo sexual estivesse presente ou mesmo
mais aguçado, não conseguiam manter atividade sexual. O principal fator relatado pelas gestantes que
não conseguiam relacionar-se sexualmente com o
parceiro foi a mudança física característica da gravidez, principalmente nos últimos meses de gestação.
Nesta situação não pesou muito a falta de interesse,
mas sim o desconforto que a gravidez traz:
[...] Eu continuo tendo desejo, mas não consigo ter
relação [...] (G2)
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Observamos também que em alguns casos a mulher passa a considerar desfavorável a relação sexual,
pelo fato de o companheiro não ter respeito ao seu corpo grávido e muito menos ao seu estado emocional.
nante, admitiram para si mesmas outras formas de
sentir prazer.
[...] Assim, às vezes eu até tenho vontade, mas quando
ele vem encostar, de qualquer jeito, grosseiro, bruto, daí
a vontade passa [...] (G1)
[...] Mas aí a gente fica namorando, acha outros jeitos
de fazer [...] e sinto prazer mesmo [...] (G5)
Identificamos também a questão da violência
física ou moral, em geral relacionadas como resposta
a uma gravidez não desejada ou não planejada. Esta
condição repercute na vivência da sexualidade do
casal, que em muitas vezes não é espontânea e
satisfatória para ambas as partes.
Essa decisão só foi possível porque a mulher tomou para si a iniciativa de determinar como seriam as
relações. O parceiro, habitualmente determinante do
como e do quando, passou a ter que aceitar uma maneira
diferente e determinada por ela de praticar sexo e a sexualidade conjugal. Isso certamente representou uma
capacidade de negociação com o parceiro.
[...] A gente brigava direto, ele me batia, falava mal,
ficou estranho de uns tempos para cá, não botava mais
comida em casa [...] (G9)
[...] Sempre falo para ele ver se aprende e conserva isso
depois da gravidez, eu adoraria que ficasse assim. [...]
Ele aceita o que eu peço [...] (G7)
Assim evidencia-se que fatores externos e principalmente internos inerentes ao casal podem dificultar o exercício da sexualidade na gestação.
Mais uma vez, é importante ressaltar que o comportamento sexual do parceiro durante a gravidez
parece ser o comportamento desejado pelas mulheres. Por isso mesmo seu empenho em convencer seus
parceiros a manterem esse comportamento depois da
vivência da gestação.
Adaptando-se à Nova Realidade
O fato de descobrirem a si mesmas sentindo
desejo sexual e ao mesmo tempo estarem enfrentando dificuldades para o relacionamento sexual na gravidez levou estas mulheres a um movimento em direção à busca do prazer e da satisfação sexual, apesar
dos fatores negativos até então experimentados por
elas. Um dos elementos mais marcantes dessa busca
foi o fato de que, entendendo que o prazer não necessariamente estaria relacionado apenas com a relação
sexual em que o intercurso vaginal é o ponto culmi-
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[...] A gente fica só nas carícias, que para mim sempre
foi o melhor... Ficamos só nas preliminares[...] (G8)
DISCUSSÃO
Os dados foram analisados
na perspectiva
interacionista, a partir do modelo teórico explicativo
da ação humana19. Assim entendemos a relação existente entre as categorias encontradas neste estudo e
que está representada na Figura 1.
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Adaptando-se à gravidez e à sexualidade
A descoberta da gravidez revela o primeiro contato com o universo do gerar um novo ser. A confirmação da gestação pode fazer aflorar na mulher sentimentos propriamente maternos, permitindo-lhe
experimentar transformações físicas e emocionais
inerentes ao processo de gestar. Nesta fase a mulher
define metas e considera o futuro14,19.
Porém, mais do que se descobrir grávida, o descobrir a si mesma sentindo desejo sexual durante a
gravidez, independente da idade gestacional, gera
dúvidas e angústias relacionadas a fatores culturais
fortemente influenciadores que impregnam o emocional das gestantes, principalmente se houver falta
de conhecimentos científicos por parte delas20. Além
disso, ainda identificamos reflexo remoto da influência das três instituições dominantes: o estado, a
igreja e a medicina que ainda têm poder sobre o corpo
feminino21. Nesse âmbito, os mitos estão relacionados com a concepção de impureza e fragilidade do
corpo feminino, visto como fonte de poluição6, e quando atrelados à gestação, deixam a gestante insegura
em exercer sua sexualidade na gravidez.
Por outro lado, há mulheres que sentem prazer
durante a gravidez e não se deixam influenciar por
fatores externos impostos pela sociedade sobre sexualidade e a exercem sem nenhum problema22. Para
essas mulheres a consciência desses mitos movimentou-as em busca de recursos que lhes permitissem
vivenciar esta nova realidade em suas vidas: estou
grávida e ao mesmo tempo sentindo desejo sexual.
É a partir disto que esta mulher poderá entrar
direta e/ou indiretamente em contato com todo seu
referencial interno, com suas experiências prévias ou
com o que pode ser representado16,19. Observa-se constantemente na grávida uma ambivalência dos sentimentos de querer e não querer – é a vivência básica
da gravidez3.
A gestação afeta a intimidade do casal9,10 principalmente devido ao abdômen grávido que pode ser
um empecilho para as práticas sexuais. Dessa maneira, estratégias alternativas de práticas sexuais são elaboradas na tentativa de melhor adaptar-se e sentir
prazer. No entanto é importante salientar que o modo
como a gestante se percebe nesse momento da vida
repercute em seu relacionamento conjugal.
Neste estudo evidenciamos que há gestantes que
não conseguem relacionar-se sexualmente, apesar de
sentir desejo, pois o universo em que estão inseridas
não é favorável. Ainda há relações conjugais em que
prevalece o caráter de dominação masculina, destinando à mulher o papel de submissa e obediente23.
Os achados também demonstram que muitas
mulheres são vitimas, dentro do casamento, de diferentes formas de violência, como desrespeito, agressão
verbal e física24. E o mais interessante é que a gestante
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permanece sentindo desejo sexual não pelo parceiro,
mas um desejo sexual interno, que independe do outro. Algo que surge de sua própria sexualidade feminina que pode ser vista como uma energia vital, criadora
e criativa que surge do ser humano21.
A sexualidade não se concentra somente no ato
sexual propriamente. Há outras manifestações de amor
e carinho que a representam. Nesse contexto, o ato
sexual torna-se um momento de expressão de carinho, onde a relação sexual não é vista com mera consumação do desejo carnal, mas de entrega e respeito.
Quando um casal é flexível e paciente geralmente encontra posições confortáveis para ambos7. A vivência
da sexualidade na gestação pode ser prazerosa com a
libido exacerbada, podendo haver criação de formas
sexuais adaptativas para melhor sentir prazer na gestação12. Sentir prazer e desejo sexual na gestação é algo
que depende da interação do casal e pode repercutir
sob diversos aspectos no desenvolvimento psíquico
da gestante e de seu companheiro, permitindo-lhes
criar maneiras sexuais adaptativas9,10.
Cada situação de interação acontece no âmbito
de um contexto que certamente influencia os agentes/
objetos sociais presentes, na definição da situação e na
determinação da linha de ação19. Neste estudo o contexto pode ser representado pelo fato de a mulher estar
sofrendo influências socioculturais, religiosas e crenças impostas pela sociedade em que está inserida.
A partir da integração das categorias foi possível
identificar que a vivência da sexualidade depende de
como a gestante se vê como mulher e mãe, e também
da interação com seu parceiro e com seu meio.
Sob o ponto de vista feminino, das gestantes
entrevistadas, as modificações gestacionais que mais
influenciam na sexualidade e no relacionamento conjugal originam-se das mudanças corporais, principalmente do impacto gerado pelo crescimento do ventre materno e da atuação do parceiro no dia a dia
gestacional10. Assim, exercitar a sexualidade na gestação faz parte do processo de adaptação da mulher
ao universo gestacional e envolve fatores no âmbito
do imaginário e de vida pública5,8. É possível manter
a sexualidade com a mesma intensidade, interesse e
vivência que do período pré-concepcional22.
Há diferentes maneiras de a grávida vivenciar
sua sexualidade durante a gestação, entre elas incluise o sentir ou não desejos sexuais, o que a leva à decisão de criar formas adaptativas para exercer positivamente a sexualidade durante a gestação.
CONCLUSÕES
A sexualidade na gestação é um dos aspectos
que valoriza o processo de gestar, porém, isto dependerá de como a mulher se percebe nessa etapa da vida.
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Para tal, é importante a mulher sentir-se amada e
atraente, ter sua autoestima desenvolvida, e independente de qualquer fator, adaptar-se à nova realidade, e isso a permitirá exercer sua sexualidade.
O profissional de saúde, em especial o enfermeiro, ao considerar a sexualidade imersa na gestação, compreenderá melhor o que se passa na gestação
sob o ponto de vista da gestante e com isso terá a
oportunidade de melhor articular com o casal grávido
sobre o contexto amplo da gestação e suas implicações. Isso irá proporcionar ao casal assistido pelo profissional e também a todos que estão envolvidos com
essa fase maravilhosa da vida captar mais claramente
o que for transmitido.
É nesse contexto que se insere o profissional,
enfermeiro, promotor da saúde e do bem-estar da gestante, participando juntamente à mulher dessas transformações e adaptações que estão acontecendo, podendo orientá-la da melhor forma, quebrando regras
e eliminando tabus, para que ela possa usufruir todos
os tipos de prazeres e sensações nesse momento da
sua vida.
Camacho KG, Vargens OMC, Progianti JM
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REFERÊNCIAS
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