IR SE FAZENDO PROFESSORA-REFLEXIVA... PERSPECTIVA DE UM CURRÍCULO ... LUZ, Aline Souza da – UFRGS [email protected] Área Temática: Educação: Currículo e Saberes Agência Financiadora: CNPq Resumo Ser, querer ser e falar sobre o professor reflexivo tornou-se algo recorrente nas faculdades de educação e eventos para se referirem às novas tendências da formação de professores. A sua popularidade é tão grande que se torna difícil encontrar referências escritas sobre propostas de formação de professores que, de algum modo, não incluam este conceito como elemento estruturador. Por isso nossa intenção em não insistir em reiterações desnecessárias neste artigo. Interessa-nos neste texto, sem a pretensão de esgotar o assunto, a análise críticoreflexiva e as construções teórico-práticas mobilizadas pelos estudos e aprofundamento das obras de autores que debruçam seus estudos sobre a temática em foco. A fim de explicitar como se deu a construção de nossa argumentação dentro da perspectiva do professor reflexivo, iniciamos, caracterizando a docência como profissão, a partir das perspectivas de autores como Lessard e Tardif. Em seguida, discutimos o currículo de formação inicial, sinalizando a formação de um professor reflexivo, levando em conta as teorizações de Alarcão, Contreras, Fazenda, Piconez e Roza. Nossa proposta é que ao pensarmos neste tipo de formação docente, estaremos propondo a formação de um profissional com capacidade e competências para analisar a sua prática, rever as teorias que a embasam, propor mudanças e produzir conhecimentos sobre o ensino. Para problematizar a noção de professor reflexivo e tentar contribuir com a superação das dificuldades apresentadas nos cursos de formação inicial de professores por Kincheloe e Krahe, buscamos ao longo do texto, constituir nossa argumentação de elementos que possam estar sinalizando ao centro da discussão aqui proposta: Mas, afinal, o que é um professor-reflexivo e como formá-lo ? Palavras- Chave: Currículo de Formação Docente; Formação de Professores; Políticas de Formação Docente. Reflexões iniciais Para tanto, iniciamos com alguns questionamentos sobre a nossa concepção de professor e sobre o processo que está nos constituindo enquanto docentes, delineando o tipo de professor que estamos sendo. Cabe perguntar: O que é ser professora? Como me torno uma professora? O que me faz ser professora? Quem define? Qual é o trabalho docente? 12146 Quais são as características da prática docente? Como se faz a docência? Quais são os saberes docentes? Qual é a professora para o mundo de hoje e o de amanhã? O que pretendo com o exercício da docência? Além dessas, outras muitas questões podem ser feitas, principalmente porque o caminho de ir se fazendo docente é constituído por muitas dúvidas e inquietações; ainda mais no contexto em que vivemos de mudança de paradigmas quanto à aprendizagem, o papel da escola e a função do professor. E, apesar das respostas não serem fechadas e finais, o contato com alguns autores1 - juntamente com a re-significação de suas idéias na nossa prática docente - está construindo o arcabouço de “crenças” sobre a ação educativa, que vêm influenciando as nossas percepções e comportamentos, norteando as experiências e sendo utilizados nas reflexões sobre as mesmas. Aprofundando a discussão Contudo, é fundamental que explicitemos um pouco mais sobre este fazer docente, somente reconhecido recentemente como trabalho. Para isso, citamos a análise que Maurice Tardif e Claude Lessard (2005) fazem ao considerar a docência como trabalho. Os autores discutem sobre a visão dos modelos clássicos de trabalho, segundo sociólogos e economistas: “[...] o ensino é visto como uma ocupação secundária ou periférica em relação ao trabalho material e produtivo” (TARDIF e LESSARD, 2005, p.17). Nesse contexto, os estudiosos sinalizam sobre considerar a docência como trabalho: “longe de ser uma ocupação secundária e periférica em relação à hegemonia do trabalho material, o trabalho docente constitui uma das chaves para a compreensão das transformações atuais das sociedades do trabalho” (idem). Essas idéias nos parecem importantes, pois são, a partir desta significação que a docência recebe o reconhecimento para, como qualquer outro objeto de pesquisa, ter a atenção de ser pesquisada e problematizada. Para assim, entre outros objetivos, possa-se discutir e subsidiar a construção de um novo currículo onde novas práticas pedagógicas, imersas no continuo processo de conhecer, questionar, planejar, fazer, avaliar, refletir, compartilhar, replanejar, refazer [...] se efetivem. Como vai nos dizer Freire (1996): 1 Destacamos alguns autores voltados às discussões : Paulo Freire, Maurice Tardif, Joe Kincheloe, Antonio Nóvoa, Donald Schön, Isabel Alarcão, Andy Hargreaves, Thomas S Popkewitz, entre outros. (Ver referências completas no final do texto). 12147 A prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético entre o fazer e o pensar sobre o fazer.[...] Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. (FREIRE, 1996, p. 43-44) Estaria sendo constituído um professor-reflexivo, esse que é apresentado por Isabel Alarcão (2002) como sendo o profissional: “É aquele que pensa no que faz, que é comprometido com a profissão e se sente autônomo, capaz de tomar decisões e ter opiniões”. Paralelamente, estaria sendo formado um novo aluno, ou seja, “[...] o aluno aprende a gerir o seu estudo. Dificilmente, ele será alguém que só decora, porque o mestre incute nele estratégias de interrogação e busca formá-lo como um indivíduo autônomo” (s.p). Segundo Contreras (2002), a autonomia do professor é um processo que busca uma ação consciente e transformadora, tanto no que diz respeito às condições de trabalho, quanto no que diz respeito à efetivação do processo de ensino e aprendizagem. Nesse movimento, o professor aprende sobre seu trabalho e suas possibilidades pedagógicas, passando por um processo de reconstrução da própria identidade profissional. Assim, o professor constrói sua autonomia a partir das dinâmicas presentes na ação educativa e, se pensada numa dimensão mais ampla, pode-se dizer que o professor constrói sua autonomia no pleno exercício profissional. Isso demonstra uma postura consciente e crítica frente ao próprio trabalho. Para tanto, há a necessidade de se repensar os currículos de formação inicial de professores, almejando, assim, subsidiar a construção de espaços de discussão e de reflexão que formem docentes nessa perspectiva e que os estimulem a exercerem continuamente essa atividade articulada e não-dissociada de ensino-pesquisa reflexivos. No entanto, esse caminhar não é fácil, sendo que algumas das pedras desse caminho apresentaremos a seguir. Conforme apresenta Joel Kincheloe (1997), o tipo de formação que os professores tem recebido está embasado numa visão tecnicista onde, as universidades trabalham para ensinar aos estudantes – futuros professores – o conhecimento que eles necessitam para executar sua tarefa. Nesse processo, implicado num currículo de culto da especialização (KINCHELOE, 1997, p.18), ou seja, um currículo prático, desvinculado de valores, pretensamente neutro e puramente científico, que trabalha com os conhecimentos verdadeiros e incontestáveis, de forma eficiente e produtiva. 12148 De maneira semelhante, Elizabeth Krahe (2000), em seu estudo comparativo sobre as licenciaturas de dois cursos de duas universidades, problematiza e reflete sobre o currículo desses cursos. Segundo a autora, de uma forma geral, a formação dos professores continua sendo desenvolvida de acordo com o modelo de racionalidade técnica e instrumental, entendido como superior e mais importante que a racionalidade prática, e nos explica: Na racionalidade técnica, a visão do mundo fundante é a do professor visto como um técnico, especialista que aplica rigorosamente, em sua prática diária regras advindas do conhecimento científico acrescidas daquelas do conhecimento pedagógico. Por sua vez, na racionalidade prática, pensa-se no professor como um profissional autonômo, reflexivo, que toma decisões e é criativo durante sua ação pedagógica. (KRAHE, 2000, p.77) Segundo Krahe (2000, p.76): “Esta é praticamente uma característica histórica”, a grade curricular das licenciaturas composta pela fórmula “3 + 1”, isto é, dos quatro anos do curso (tempo médio dos cursos) três seriam dedicados a disciplinas com conteúdos da especialidade da área, formando assim um técnico / especialista; enquanto, apenas um ano seria dedicado à formação educacional, por meio das disciplinas de natureza pedagógica. “A conseqüência natural é ser a formação da especialidade mais valorizada em comparação ao valor dado à formação pedagógica” (KRAHE, 2000, p. 8). Logo, o desafio proposto por Ivani C. A. Fazenda (1994) é o de formarmos e sermos profissionais que investiguem as questões específicas da nossa área do conhecimento e que têm a oportunidade de pesquisar-se, ou seja, de colocar-se no exercício de pensar, escrever e agir sobre as suas práticas educativas, a partir da observação, descrição e análise das mesmas. O que também nos faz pensar Jacira P. da Roza (2005, p. 75), quando afirma: Para que o professor se perceba como docente-pesquisador, faz-se necessário a concepção de pesquisa aliadas ao ensino como pressuposto indispensável à formação de futuros professores-pesquisadores. Acreditamos que se esta reflexão e entendimento fizerem-se presentes em sua atitude cotidiana no espaço acadêmico, promover-se-á profissionais autônomos e reflexivos de suas práticas. Percebe-se que nos cursos de licenciatura a relação entre teoria e prática, geralmente, não se realiza de forma tão harmônica, levando-nos a pensar como esse processo está sendo 12149 desenvolvido durante toda a faculdade e, conseqüentemente, sendo apreendida pelos professores em formação. Conforme apresenta Piconez (1994, p.20-21): Tenho constatado que as disciplinas que fundamentam a formação do professor pouca contribuição têm fornecido, em virtude de sua pouca articulação com o contexto da prática pedagógica desenvolvida na escola. [...] A defasagem existente entre conhecimentos teóricos e trabalho prático é uma constatação teórica e empírica. [....] Os alunos-estagiários [...] estiveram nas salas de aula, mas sem condições de dar explicações teóricas sobre o vivido Consideramos ser, essa desarticulação no currículo de formação inicial de professores, um entrave na abertura de novas perspectivas de futuro pautadas em uma postura crítica e ampliada do profissional sobre o seu próprio conhecimento. Acreditamos ser somente por meio de um currículo onde contemple a pesquisa e a reflexão, bem como o exercício contínuo da “[...] prática da reflexão sobre a prática vivida e concebida teoricamente” (PICONEZ, 1994, p.27) que os licenciandos terão a possibilidade de refletir de forma madura sobre a profissão que irão assumir. Corroborando para que os professores compreendam e enfrentem o mundo do trabalho, desenvolvendo uma consciência política e social da importância do seu papel de educador (PICONEZ, 1994; KULCSAR, 1994). Como então, ser um professor-reflexivo na prática cotidiana? Conforme apresenta Donald Schön (2000), há necessidade de que seja apoiado e garantido o exercício de uma prática profissional cotidiana no ambiente escolar pautada nesses ideais. Considerações: Há, portanto, e isso é indiscutível, a necessidade de mudanças nas formas de pensaragir, enquanto integradas, que vão constituindo o ser e o fazer docente. Mas, afinal, por onde começar? Quem são os responsáveis pela formação de professores-reflexivos: a formação inicial por meio dos cursos de licenciatura, a formação continuada por meio da prática cotidiana que envolve o multifacetado trabalho docente, as escolas, os sujeitos que querem ser ou são professores...? Todos e de forma articulada? Encontramos em Tardif (2002) e Antonio Nóvoa (1995) algumas pistas: 12150 A prática pode ser vista como um processo de aprendizagem através do qual os professores retraduzem sua formação e a adaptam à profissão, eliminando o que parece inútil ou sem relação com a realidade vivida e conservando o que lhe parece importante (TARDIF, 2002, p.53). A formação de professores deve ser concebida como uma das componentes da mudança em conexão estreita com outros setores e áreas de intervenção, e não como uma espécie de condição prévia da mudança. A formação não se faz antes da mudança, faz-se durante, produz-se nesse esforço de inovação e de procura dos melhores percursos para a transformação da escola. É esta perspectiva [...] de mudança interativa dos profissionais e dos contextos que dá um novo sentido às práticas de formação de professores centradas nas escolas (NÓVOA, 1995, p.28). Ao pensarmos neste tipo de formação docente reflexiva , estaremos propondo um currículo que contemple a formação de um profissional com capacidade e competência para analisar a sua prática, rever as teorias que a embasam, propor mudanças e produzir conhecimentos sobre o ensino. O que vale é não ignorarmos que a prática docente desenvolvida é resultado não só dos conhecimentos adquiridos através do ingresso na licenciatura, mas também da trajetória de vida e saber advindo da experiência É essencial uma concepção de formação que tanto vincule teoria e prática como incorpore o princípio da pesquisa. REFERÊNCIAS ALARCÃO, Isabel. Refletir na prática. Revista Nova Escola on-line. Ed. n. 154, Ago. 2002. Disponível em:<http://novaescola.abril.com.br/index.htm?ed/154_ago02/html/fala_mestre>. Acessado em 06 novembro 2007. CONTRERAS, J. A autonomia dos professores. São Paulo: Cortez, 2002. FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. O papel do estágio nos cursos de formação de professores. 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