ELBA ALONSO RANGEL JOVENS E ADULTOS TRABALHADORES POUCO ESCOLARIZADOS NO BRASIL: problema estrutural para o Desenvolvimento Nacional Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientadora: 1T (RM2-T) Leila Nivea Bruzzi Kling David. Rio de Janeiro 2011 C2011 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitida a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG. Elba Alonso Rangel _________________________________ Biblioteca General Cordeiro de Farias Rangel, Elba Alonso. Jovens e adultos trabalhadores pouco escolarizados no Brasil: problema estrutural para o desenvolvimento nacional / Técnica em Assuntos Culturais Elba Alonso Rangel. – Rio de Janeiro : ESG, 2011. 46 f.: il. Orientadora: 1T (RM2-T) Leila Nivea Bruzzi Kling David. Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011. 1. Educação do Brasil. 2. Educação de Jovens e Adultos. 3. Desafios. 4. Alternativas. 5. Legislação. I.Título. A meus pais, Helvia e Rubem, pela educação que me proporcionaram e pelo carinho e cuidado que sempre me dispensaram, minha eterna gratidão. AGRADECIMENTOS A Deus, pela minha vida, saúde e existência. À Angela Alonso Rangel, minha irmã e amiga, pelo incentivo e apoio para que eu fizesse o CAEPE, mas acima de tudo pelo seu exemplo pessoal de que a educação é nossa maior riqueza. Ao Vice-Almirante Luiz Fernando Palmer Fonseca, Diretor de Hidrografia e Navegação, e ao Capitão-de-Mar-e-Guerra João Dilermando Cordeiro Gonçalves Junior, Comandante da Base de Hidrografia da Marinha em Niterói, por terem me indicado para que eu concorresse ao CAEPE e por terem compreendido minha ausência da Base durante este ano de curso. A Primeiro-Tenente (RM2-T) Leila Nivea Bruzzi Kling David, minha orientadora, primeiramente por ter acreditado na minha capacidade e ter me oferecido condições para que eu concretizasse este Trabalho de Conclusão de Curso. Também agradeço pela orientação segura, objetiva e atenciosa durante todo o processo de construção deste projeto. Aos estagiários da Turma “Segurança e Desenvolvimento”, do CAEPE 2011, companheiros nesta trajetória acadêmica, pelos muitos momentos de agradável convívio e troca de conhecimentos. A todo o Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra, pelo apoio, organização das disciplinas e palestras ministradas, me proporcionando uma grande oportunidade de conhecer melhor o nosso País. Agradeço, em especial, a Advogada Maria Elisa, pelo carinho, atenção e disponibilidade, não só no nosso dia a dia do CAEPE como também na sua presença nas nossas visitas e viagens de estudo. À Bibliotecária Chefe Cleide Santos Souza, e demais bibliotecárias e auxiliares da Biblioteca General Cordeiro de Farias, também agradeço pela convivência atenciosa ao longo deste ano e pelo profissionalismo demonstrado. A todos os militares e civis desta Escola, principalmente aqueles que nos apoiaram diretamente, na condição de estagiários do CAEPE. “Mas como realizar esta educação? Como proporcionar ao homem meios de superar suas atitudes, mágicas ou ingênuas, diante de sua realidade? Como ajudá-lo a criar, se analfabeto, sua montagem de sinais gráficos? Como ajudá-lo a inserir-se?” Paulo Freire RESUMO Este trabalho aborda a Educação de Jovens e Adultos no Brasil, seus desafios, alternativas e a legislação atual em vigor. Seu objetivo principal é identificar como a Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem sido oferecida no País, desde que foi implantada, enfocando principalmente a EJA nas últimas décadas. De que maneira a pouca escolarização de jovens e adultos e os problemas estruturais identificados afetam o desenvolvimento do País. Para a consecução deste trabalho optou-se pela metodologia de caráter qualitativo, na qual foi utilizada a pesquisa bibliográfica a partir de literatura especializada e publicada nas últimas décadas. Neste estudo, após um breve histórico e balanço das políticas da EJA, procurou-se identificar quais são os desafios atuais e que alternativas são apresentadas pelos educadores pesquisados para esta educação, baseando-se na política educacional das últimas décadas e na legislação atual. Aborda os instrumentos legais da Educação como a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, o Plano Nacional de Educação, o Plano de Desenvolvimento da Educação e o Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos com o objetivo de analisar o que existe na legislação atual para a EJA. A conclusão aponta a necessidade de se investir mais em planos e programas de EJA, e rever alguns aspectos de programas já existentes, como o PROJOVEM, além de incentivar a produção de material didático para a EJA que leve em conta o universo local e as diferenças regionais. Palavras chave: Educação do Brasil. Educação de Jovens e Adultos. Desafios. Alternativas. Legislação. ABSTRACT This work aims at analyzing Education of Young People and Adults (EYPA) in Brazil, its challenges, alternatives and current legislation in force. Its main objective is to identify how EYPA has been provided in the country, since it was implemented, focusing mainly on adult education in recent decades. It also analyzes the impact on the development of the country of both young people and adults little schooling and the structural problems identified in EYPA. In order to develop this work, a qualitative methodology was chosen and specialized literature published in recent decades was employed. At the beginning, this study provides a brief history and the assessment of EYPA policies. Then, it aims at identifying the current challenges and the alternatives for this kind of education that are presented by the educators taken into consideration for this survey, according to the policy in the last decades and to current law. This work discusses the legal instruments of Education as the Federal Constitution, the Law of Directives and Bases of National Education, the National Education Plan, the Education Development Plan and the National Certification Examination Skills of Youth and Adults in order to analyze the aspects of the current legislation related to EYPA. Finally, we come to the conclusion that its necessary to invest more in plans and programs for EYPA as well as to review some aspects of the current programs, such as PROJOVEM. In addition, it’s also required to encourage the production of educational materials for EYPA that take into consideration the environment and the regional differences. Key Words: Education in Brazil. Education of Young People and Adults. Challenges. Alternatives. Legislation. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CEB Câmara de Educação Básica CEE Conselho Estadual de Educação CES Centro de Estudos Supletivos CONAE Conferência Nacional de Educação CNE Conselho Nacional de Educação CONFINTEA Conferência Internacional de Educação de Adultos CRUB Conselho de Universidades Brasileiras Educar Fundação Nacional para a Educação de Jovens e Adultos EJA Educação de Jovens e Adultos ENCCEJA Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos ENEJA Encontro Nacional de Educação de Jovens e Adultos ENEM Exame Nacional do Ensino Médio FNDE Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Fundeb Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação IDH Índice de Desenvolvimento Humano Incra Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Inep Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC Ministério da Educação e Cultura Mobral Movimento Brasileiro de Alfabetização MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ONU Organização das Nações Unidas PAS Programa de Alfabetização Solidária PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PDE Plano de Desenvolvimento da Educação PEA População Economicamente Ativa PIB Produto Interno Bruto Planfor Plano Nacional de Formação e Qualificação Profissional PNAC Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania PNE Plano Nacional de Educação PROEJA Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos PROJOVEM Programa Nacional de Inclusão de Jovens: Educação, Qualificação e Ação Comunitária Pronera Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária Recomeço Programa de Apoio a Estados e Municípios para a Educação Fundamental de Jovens e Adultos SECAD Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................... 10 2 BREVE HISTÓRICO ............................................................................ 12 3 3.1 3.2 BALANÇO E DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA) NO BRASIL .............................................................. UM BALANÇO DAS POLÍTICAS DE EJA ............................................. DESAFIOS QUE AINDA PRECISAM SER ENFRENTADOS................ 19 19 20 4 4.1 4.2 POLÍTICA EDUCACIONAL E LEGISLAÇÃO PARA A EJA ............... A POLÍTICA EDUCACIONAL DAS ÚLTIMAS DÉCADAS ..................... O QUE PREVÊ A LEGISLAÇÃO ATUAL .............................................. 24 24 29 5 ALTERNATIVAS APONTADAS PARA A EJA..................................... 35 6 CONCLUSÃO ...................................................................................... 40 REFERÊNCIAS .................................................................................... 43 10 1 INTRODUÇÃO A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é um tema que desperta a atenção de muitos estudiosos e educadores, pois trata-se de uma oportunidade de escolarização para a população específica que perdeu a chance de completar sua educação regular na época apropriada, seja por necessidades de ingressar no mercado de trabalho, seja por inadaptação. Voltar às salas de aula significa para esses sujeitos a possibilidade de resgatar um direito fundamental de todo cidadão: o direito pleno à educação. No Sistema Educacional brasileiro, a EJA passou por diversas fases e também vem enfrentando vários problemas, desde que foi implantada. Muitos políticos acreditavam que a eliminação do analfabetismo se limitava apenas em proporcionar uma educação de qualidade para as crianças, sem dar atenção ao adulto analfabeto, como se este não tivesse mais a chance de voltar às salas de aula e resgatar a educação que deixou para trás por alguns dos motivos expostos acima. A Lei nº 9.394 (de dezembro de 1996), que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional garante, além da educação regular (ensino fundamental e médio), a educação de jovens e adultos. Em seu capítulo II, artigo 37º, estabelece que “a educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria.” E no parágrafo 1º define que os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. Este estudo buscou identificar os problemas atuais para a EJA, os desafios, a política educacional existente e as alternativas apresentadas, levando-se em conta a diversidade desses jovens e adultos “provenientes da heterogeneidade social, da diversidade cultural e do pluralismo de valores” (RODRIGUES, 2010, p. 45). Para a consecução deste trabalho, de acordo com o tipo de estudo em questão e o objetivo desta análise, optou-se pela metodologia de caráter qualitativo, na qual foi utilizada a pesquisa bibliográfica a partir de literatura especializada e publicada nas últimas décadas. 11 Assim, a metodologia utilizada nesta pesquisa foi organizada observando-se os seguintes questionamentos: – Quais são os desafios da EJA? Como jovens e adultos podem dar continuidade aos seus estudos sem esquecer da experiência de vida que levam para as salas de aula? – Qual é a política educacional voltada para a EJA? O que os autores pesquisados apresentam como política educacional, baseada na legislação em vigor? – Que alternativas são apontadas para se levar adiante o projeto de educação dessa população adulta? Que iniciativas podem contribuir para a implantação de projetos que atendam tanto às demandas da sociedade quanto às necessidades da população jovem e adulta que procura resgatar seu direito à educação? Dessa forma, este estudo foi organizado em quatro capítulos principais, com exceção da introdução e da conclusão. No primeiro capítulo foi feito um breve histórico sobre a educação de jovens e adultos, desde o Período Colonial, destacando-se a primeira Campanha de Educação de Jovens e Adultos, em 1947, em seguida a educação de adultos no período pós-1964, passando pelo ensino supletivo até a EJA nos dias de hoje. No segundo capítulo foram apresentados os desafios e as perspectivas da EJA, dentre eles, vencer a marginalização econômica, que afeta as condições de trabalho escolar; superar a privação material, que diz respeito aos mecanismos institucionais que limitam a vida escolar desses jovens e adultos; investir na formação de professores, voltados especificamente para a EJA; e mudar o processo pedagógico da EJA, não apenas utilizando os moldes da educação regular. No terceiro capítulo foi feito um levantamento sobre a legislação atual para a EJA: a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Plano Nacional de Educação (PNE), o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e o Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), além da análise sobre o que os autores pesquisados apresentaram em relação à política educacional voltada para a educação de jovens e adultos. E no quarto e último capítulo foram apontadas alternativas, sob a ótica de autores e pesquisadores que publicaram suas reflexões e resultados de pesquisa realizados nos últimos anos. 12 2 BREVE HISTÓRICO A educação de jovens e adultos já existe há bastante tempo. Os motivos que levaram jovens que já estavam cursando o ensino regular deixarem as escolas antes do término do ensino fundamental ou médio, ou mesmo nunca terem frequentado uma escola, são diversos, destacando-se: reprovação continuada, dificuldade de aprendizado, necessidade de trabalhar para sustento próprio e da família, desinteresse, etc. A partir da década de 1940 começam a surgir políticas de educação de jovens e adultos analfabetos no Brasil, porém historicamente, as ações de educação de jovens e adultos sempre estiveram presentes no contexto brasileiro. No período Colonial até 1822, existia a educação jesuítica por meio da catequização, e o público alvo era constituído principalmente por indígenas e negros, cujo objetivo era difundir o catolicismo através do abrandamento das resistências aborígenes e do combate aos cultos africanos, convertendo-os em cristãos submissos e obedientes. No período Imperial, de 1822 a 1889, foram criados cursos noturnos para adultos analfabetos do sexo masculino, nas escolas públicas de educação elementar, no município da corte, por meio do Decreto nº 7.031 de 6 de setembro de 1878 (PAIVA, 2003, p. 70). Com a Revolução de 1930 surge o Ensino Técnico-Profissional, como meio de preparação de mão de obra qualificada para a indústria e o comércio. Em 1932 foi fundada a Cruzada Nacional de Educação para combater o analfabetismo e no ano seguinte foi levantada a Bandeira Paulista de Alfabetização. No início da década de 1940 o número de jovens e adultos analfabetos que tinham acesso à educação escolar supletiva ainda era pequeno. O Recenseamento Geral de 1940 apontara a gravidade da situação educacional, quando constatou-se que mais da metade da população de maiores de 15 anos era constituída por jovens e adultos analfabetos. Porém, a situação da educação popular caminhava para mudanças significativas. Em 1942, por meio do Decreto-Lei nº 4.958, de 14 de novembro, foram instituídos o Fundo Nacional do Ensino Primário e o Convênio Nacional do Ensino Primário para ampliação e melhoria do sistema escolar primário do País e, dois anos depois, em 1944, um outro decreto definiu a fonte dos recursos federais destinados à constituição do Fundo. Em 25 de agosto de 1945, o Decreto nº 19.513 que 13 regulamentou a concessão dos auxílios do Fundo Nacional do Ensino Primário às unidades federadas também estabeleceu que 25% de cada auxílio federal seria aplicado na educação de jovens e adultos analfabetos, por meio do ensino supletivo, já aprovado pelo Ministério da Educação e Saúde, criado no início do Governo Vargas, em 1930 (BEISIEGEL, 1997, p. 208). Em 1947, por meio da Portaria nº 57, de 30 de janeiro, o Ministério da Educação e Saúde autorizou a organização de um Serviço de Educação de Adultos no Departamento Nacional de Educação, o que possibilitou dar início à primeira Campanha Nacional de Educação de Adultos, que criou dez mil classes de ensino supletivo em todo o País. Essa campanha, que foi concebida por Lourenço Filho, surgiu devido à recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU), para que países que tinham alto índice de analfabetismo produzissem campanhas de massa para diminuir esses índices. O Brasil estava no caminho da redemocratização e tinha interesse político na erradicação ou pelo menos na diminuição do analfabetismo, tendo em vista “a ampliação do contingente de eleitores que se obteria com uma campanha de alfabetização, já que a lei em vigor excluía os analfabetos do processo eleitoral” (SOARES, 1996, p. 29). Junto com a campanha também foi preparado o I Congresso Nacional de Educação de Adultos, para que fossem discutidos os problemas apresentados pela realidade da educação de adultos e se ter uma ideia do que vinha sendo realizado no Brasil a esse respeito. A Campanha teve sucesso nos seus primeiros anos, porém começou a apresentar resultados insatisfatórios, dando origem, em 1958, ao II Congresso Nacional de Educação de Adultos. Para preparação do Congresso, foram feitos vários seminários preliminares nas diversas regiões do Brasil. Em Belo Horizonte, por exemplo, as críticas à campanha realizada em seu Estado foram as precárias condições de funcionamento, a baixa frequência e aproveitamento dos alunos, a má remuneração dos professores e consequente desqualificação, e a inadequação de programas e do material didático à sua população (SOARES, 1996, p. 31). Delegações de outros Estados também apontaram falhas, como a precariedade dos prédios escolares, a inadequação dos métodos de ensino e a falta de qualificação profissional específica do professor de adultos. A delegação de Pernambuco, da qual fazia parte o educador Paulo Freire, também ressaltou a necessidade de se adequar os conteúdos e métodos de ensino às características 14 socioculturais dos estudantes, além da necessidade de se ter uma maior comunicação entre professores e alunos. Assim, a campanha que fora criada em âmbito nacional, porém com uma estrutura mínima, pouco contribuiu para a efetiva valorização do magistério, tendo em vista que a qualificação do professor e sua remuneração permaneceram insatisfatórias. No início dos anos 60 houve uma intensa mobilização da sociedade civil em torno das reformas de base. Surgem movimentos populares como o Movimento de Cultura Popular, o Movimento de Educação de Base e a Campanha “De pé no chão também se aprende a ler”. O País estava passando por significativas transformações sociais, políticas e econômicas. Em 1963 encerra-se a Campanha Nacional de Educação de Adultos pelo Ministério da Educação e o educador Paulo Freire fica responsável por elaborar um Programa Nacional de Alfabetização, baseando-se na nova conscientização e valorização da pessoa humana a partir da realidade. Porém, em 1964 o Programa de Paulo Freire também é interrompido devido ao período do regime militar. Com o novo regime, muitos programas de alfabetização foram desaparecendo. Em 15 de dezembro de 1967, por meio da Lei nº 5.379, o governo militar cria, então, o Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – cujo método se diferenciava do utilizado por Paulo Freire. Seu propósito era a alfabetização funcional e a educação continuada de jovens e adultos, visando à "promoção da educação dos analfabetos de qualquer idade ou condição, alcançáveis pelos recursos audiovisuais, em programas que assegurem aferição válida dos resultados”. Seus objetivos, gerais e específicos, eram: Objetivos gerais: proporcionar alternativa educacional, através de atendimento numa linha de autoditaxia, às camadas menos favorecidas da população; e ampliar a atuação do Posto Cultural, imprimindo-lhe características de uma agência de educação permanente, com programas voltados para um aperfeiçoamento constante da população. Objetivos específicos: possibilitar a aquisição/ampliação de conhecimentos, tomando-se como base o Programa de Educação Integrada e o reingresso no sistema regular de ensino; e colocar ao alcance da clientela materiais que despertem e favoreçam o desenvolvimento de mecanismos necessários a uma educação permanente, proporcionando ao alfabetizador, já atuante, aprimoramento profissional (CORRÊA, 1979, p. 358). Em 1978 o Mobral contabilizava um atendimento de "quase 2 milhões de pessoas, atingindo um total de 2.251 municípios em todo o país" (CORRÊA, 1979, 15 p. 459). Ao final de quinze anos, havia reduzido em 7,8% o número de analfabetos no Brasil. Nesse meio tempo, em 1971, foi criada a Lei Complementar nº 5.692, promovendo a extensão da obrigatoriedade da escolarização de quatro para oito anos, criando então o ensino de 1º Grau. E nessa mesma lei, pela primeira vez na história das legislações educacionais, um capítulo era dedicado exclusivamente ao ensino supletivo, estabelecido em seu artigo 24: “suprir a escolarização regular para os adolescentes e adultos que não a tenham seguido ou concluído na idade própria.” Para regulamentar essa modalidade de ensino e estabelecer a doutrina do ensino supletivo, o então Conselheiro Federal de Educação, Valnir Chagas, elaborou o Parecer 699/72. Nesse Parecer Valnir recomendava, dentre outras coisas, que os exames de verificação de conhecimentos fossem gradativamente substituídos pelo atendimento através dos cursos, diferindo da LDB que previa que os cursos e os exames fossem semestralmente aplicados. Em 1974, com base nesse dispositivo legal, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) propôs a implantação dos Centros de Estudos Supletivos (CES), devido à grande demanda da educação de adultos, naquela época. Também tinham o firme propósito de empregar metodologias adequadas, mas também de serem de rápida instalação e de menor custo, com o aproveitamento de espaços ociosos. Como a estrutura metodológica dos centros baseava-se no atendimento individualizado, através da auto-instrução, vários outros problemas surgiram, como relata Soares (1996, p. 32), como a evasão escolar, falta de espaço socializador de vivência e tendência ao pragmatismo. O Mobral atuou até 1986, mas como seus custos financeiros eram muito altos, e com a recessão econômica que se instaurara a partir dos anos 80, ele foi incorporado pela Fundação Nacional para a Educação de Jovens e Adultos. Começava o período de redemocratização do País, com o governo do então Presidente José Sarney. Logo no início do governo Sarney, pelo Decreto 91.980 de 25 de novembro de 1985, o Mobral é extinto e passa à nova “Fundação Nacional para a Educação de Jovens e Adultos – Educar – a atribuição de fomentar programas destinados àqueles que não tiveram acesso à escola ou que dela foram excluídos” (BEISIEGEL, 1997, p. 235). Várias mudanças foram feitas, a partir de então, inclusive a vinculação da nova Fundação 16 ao Ministério da Educação, passando a atuar indiretamente mediante apoio técnico e financeiro a prefeituras municipais ou associações da sociedade civil. Como vimos no início deste histórico, a partir da década de 1940 iniciativas de educação das massas de jovens e adultos iletrados sempre foram uma constante neste País. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 208, também preconiza o ensino fundamental, obrigatório e gratuito aos jovens e adultos que não tiveram acesso ao ensino na idade própria. E ainda, conforme Beisiegel (1997, p. 238), o artigo 60 das disposições transitórias determinou que, pelo menos, cinquenta por cento dos recursos a que se refere o artigo 212 fossem aplicados na eliminação do analfabetismo e na universalização do ensino fundamental. Assim, a nossa Constituição, lei fundamental e suprema, também garantia a oferta de educação básica para todos. Porém, mesmo com todas as garantias preconizadas na Constituição Federal, no início do governo do Presidente Fernando Collor, foi editada a Medida Provisória nº 251, de março de 1990, que extinguiu a Fundação Educar, colocando inclusive em disponibilidade todos os seus funcionários. De acordo com Furlanetti (2001, p. 82), cabe ressaltar que durante o pouco tempo de existência – apenas quatro anos –, a Fundação Educar se diferenciou subsidiando experiências inovadoras de educação básica de jovens e adultos, conduzidas por prefeituras municipais e instituições de sociedade civil, cujos princípios filosóficos baseavam-se nos postulados freirianos, especialmente o de “estimular a inserção do adulto iletrado no seu contexto social e político, na sua realidade, promovendo o despertar para a cidadania plena e para a transformação social” (FREIRE, 1979, não paginado). O Ministério da Educação promoveu, então, um Programa Nacional de Educação, com o apoio de universidades, e lançou, em 1991, o Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania (PNAC), com o objetivo de fazer uma grande mobilização no País para reduzir em até 70% o número de analfabetos até 1995. Mas em 1992, com o impeachment do então Presidente Collor, e com a mudança do ministério, muda novamente a política educacional para jovens e adultos iletrados. Fazendo uma análise geral dessas ações e intervenções no final do século XX, convém salientar que uma conquista importante para a EJA em 1990 foi a Resolução do Conselho Estadual de Educação (CEE) nº 075/90, que garante aos alunos ingressarem no ensino fundamental, através dos exames de classificação, 17 eliminando a obrigatoriedade de apresentação de comprovante de escolaridade anterior para a matrícula na rede pública. O então Ministro da Educação, José Goldemberg, cujo ministério assumiu em agosto de 1991, era a favor de se alfabetizar a população jovem e não de se criarem programas para alfabetização de adultos. Na opinião dele, alfabetizando os jovens, em dez anos desapareceria o analfabetismo no Brasil. E essa também tinha sido a opinião de outros educadores, em épocas anteriores a dele, sob a alegação de que o País não tinha recursos para alfabetizar os adultos (BEISIEGEL, 1997, p. 240). Com o intuito de “enxugar” a máquina administrativa, a União foi se afastando das atividades da EJA e transferindo a responsabilidade para os Estados e Municípios. Em 1996, com a aprovação da LDB 9.394, tem-se a primeira referência sobre a EJA no título III, artigos 4º e 5º, que institucionaliza essa modalidade de ensino, trazendo um significativo ganho para a educação de adultos. O Conselho Nacional de Educação emite parecer reconhecendo a dívida social e a necessidade de investimento pedagógico nesta modalidade de ensino. É importante ressaltar que o governo brasileiro, sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995/1998 e 1999/2002), buscou adequar o sistema de ensino à reforma do Estado brasileiro, imposta pela conjuntura econômica internacional. Conforme Di Pierro (2003, não paginado), esse conjunto de medidas legislativas, normativas e de controle adotadas pelo governo Fernando Henrique caracterizaram-se como uma reforma educacional, devido à amplitude e impacto por elas alcançadas. A EJA continuou em segundo plano, tendo como característica principal o assistencialismo, pois nesse período a EJA saiu do Ministério da Educação e se transformou em ação social da então primeira dama Ruth Cardoso. No último governo, do Presidente Lula, em seus quatro primeiros anos, também houve redução de recursos para as políticas sociais impostas pelo modelo neoliberal. No que se refere especificamente à EJA, o governo Lula lançou em 2003 o Programa Brasil Alfabetizado, que priorizou financeiramente a ação desenvolvida por entidades “filantrópicas”. A partir do segundo ano, as secretarias estaduais e municipais passaram a receber um percentual maior de recursos, mas as iniciativas que obtiveram êxito foram poucas e isoladas, localizadas principalmente no eixo sul/sudeste (COSTA, 2011, não paginado). 18 A partir de 1999, o País passou a promover Encontros Nacionais de Educação de Jovens e Adultos (ENEJAs) cujo objetivo era aprofundar os cenários de mudanças, chamando a atenção para a educação de jovens e adultos como direito de todo cidadão. Esses encontros têm por objetivo trocar experiências, discutir políticas para EJA e contribuir com os municípios que ainda não têm organização própria. O I ENEJA ocorreu na cidade do Rio de Janeiro – RJ, de 08 a 10 de setembro de 1999, com a participação de 298 representantes dos diversos segmentos ligados diretamente a EJA, como sistemas estaduais e municipais de educação, trabalho e emprego, organizações empresariais, ONGs, organizações sindicais e movimentos sociais. Foram discutidas a ampliação e a melhoria da qualidade da educação de jovens e adultos por meio de políticas de cooperação entre as esferas de governo e o segmento governamental e o não governamental. Seu objetivo principal foi o de concitar o Ministério da Educação a assumir o seu papel, o de coordenar a formulação de uma política nacional de EJA juntamente com todos os órgãos interessados no tema, por meio de ampla discussão nacional, e também o de garantir os recursos orçamentários para assegurar o cumprimento do direito estabelecido na Constituição Federal, e reafirmado na LDB. O último encontro nacional ocorrido até o momento foi o XI ENEJA, em Belém – PA, de 17 a 20 de setembro de 2009, cujo tema foi “Identidades dos Fóruns de EJA: conquistas, desafios e estratégias de lutas”. As principais propostas apresentadas foram: proporcionar formação continuada para os educadores de EJA, de modo a aprofundarem seus estudos humanísticos na área de filosofia, ética, sociologia, antropologia e psicologia para melhor compreensão da especificidade e do sujeito de EJA; rediscutir os vários programas, dentre eles o Programa Nacional de Inclusão de Jovens: Educação, Qualificação e Ação Comunitária (PROJOVEM) e o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA), com o objetivo de criar uma política pública nacional para a EJA; rever o papel das Universidades no processo de formação inicial do educador; e garantir a inclusão e continuidade da EJA como disciplina obrigatória nos cursos de licenciatura das universidades. O XII ENEJA está previsto para 2011, mas ainda não ocorreu, e será sediado em Salvador – BA. 19 3 BALANÇO E DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA) NO BRASIL 3.1 UM BALANÇO DAS POLÍTICAS DE EJA Após o breve histórico apresentado no capítulo anterior, percebemos que ao mesmo tempo em que a legislação nacional garante o direito pleno à educação, incluindo o direito à educação de jovens e adultos, a agenda da reforma educacional vem deixando um pouco de lado esta modalidade de educação, em favor da contenção dos gastos públicos. Com a extinção da Fundação Educar, a partir de 1990, a União deixa de ser a principal responsável pela EJA, passando essa responsabilidade para estados e municípios. A matrícula pública, naquela época, estava em crescimento, mas os desafios de democratização com qualidade eram cada vez maiores, devido à restrição de fontes de financiamento destinadas ao ensino de crianças e adolescentes, promovida pela política de fundos adotada no governo de Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, as redes de ensino e as universidades não se prepararam para essa nova visão de valorização profissional e formação de educadores, utilizando para a EJA ainda o método de “reposição de estudos não realizados na infância e adolescência” (DI PIERRO, 2010, p. 27). Vários foram os processos de renovação do pensamento e das políticas de educação de jovens e adultos no Brasil, desde 1990 até hoje. Com o aumento dos cursos de Pós-Graduação valorizando as práticas de educação escolar e não formal de jovens e adultos, o interesse pelo estudo sobre essa forma de ensino foi crescendo na comunidade científica. Surgem, assim, os fóruns de EJA, em quase todos os Estados do Brasil, representando não só um espaço de interlocução e discussão entre os vários segmentos interessados na educação de jovens e adultos, que buscam propor ações que contribuam na construção de políticas públicas que efetivem o direito à educação, independentemente da idade, como também com capacidade de incidência nas políticas públicas de EJA (SOARES, 2003, apud DI PIERRO, 2010, p. 28). Os diversos movimentos juvenis por reconhecimento e justiça – de mulheres, homossexuais, afro-descendentes, indígenas e povos do campo – também contribuíram para a modificação do sujeito da aprendizagem, agora não mais somente na categoria aluno trabalhador, levando a políticas de igualdade que 20 considerassem a diversidade. Segundo Di Pierro (2010, p. 29), estes foram os processos que influenciaram na reorientação da política da União para a EJA, a partir de 2003, com o início do governo do então Presidente Lula. 3.2 DESAFIOS QUE AINDA PRECISAM SER ENFRENTADOS Para a identificação dos desafios da EJA, consideremos o Programa Brasil Alfabetizado, atualmente em vigor no País. De acordo com Di Pierro (2010, p. 32), este programa pretendia alcançar quase 20% dos 44 milhões de analfabetos absolutos e funcionais computados pelas últimas estatísticas de 2010, porém este resultado não foi alcançado, permanecendo o ritmo lento de diminuição do analfabetismo e o aumento da escolaridade de jovens e adultos. O pequeno progresso ocorrido, segundo os demógrafos, não se deu exatamente pelo desempenho das políticas e programas de alfabetização e escolarização, mas pela dinâmica populacional ao longo do tempo – ingresso de jovens no grupo dos escolarizados e mortalidade de idosos não escolarizados. Esse programa demonstra que a maior parte dessas pessoas não adquiriu ou desenvolveu sequer as habilidades mínimas de leitura e escrita de um pequeno texto. O primeiro desafio a ser enfrentado é o da conscientização de que o processo de alfabetização ultrapassa a pura e simples decodificação do sistema alfabético e reconhecimento dos signos. É preciso mais do que isso. Para Di Pierro (2010, p. 33) “é preciso a imersão dos sujeitos na cultura escrita, mediante o efetivo exercício e a fruição de múltiplas práticas letradas.” Para tanto, é primordial a presença de educadores bem preparados para atender às especificidades da EJA, além de estimulados para essa função, pois trata-se de tarefa que precisa de tempo e consolidação. Ainda são poucos os investimentos destinados à formação de professores da rede pública que atuam na EJA. Conforme afirma Di Pierro (2010, p. 35), também deve-se considerar os fatores internos ao sistema educativo, como a acessibilidade, organização, qualidade e relevância da educação escolar oferecidas ao seu principal público, os jovens e adultos. Os que ainda se interessam em dar continuidade aos seus estudos não o fazem porque tendo que se dedicar ao trabalho para sua subsistência e de sua família muitas vezes, ao final do dia, não têm tempo nem disponibilidade física para estar em uma sala de aula, cumprindo quatro horas diárias de estudos. É difícil 21 encontrar uma escola que ofereça aulas durante o dia e com carga horária flexível; também o modo de vida desse público, por vezes precário e instável, que também trabalha durante o dia e cuida de sua família à noite, não corresponde à frequência contínua e metódica exigida pela escola. A organização rígida da educação escolar não é compatível com os modos de vida desses jovens e adultos que são provenientes das camadas mais populares da sociedade; e o conteúdo programático também em nada atrai esse público, uma vez que, mesmo iletrados, eles trazem uma experiência de vida que deve ser considerada no currículo da EJA. Assim, percebe-se que há uma grande distância entre as necessidades desse público, as condições que eles dispõem para se dedicar aos estudos e o tipo de ensino que é oferecido a eles. São problemas estruturais que dificultam a ampliação da EJA e não correspondem à política de desenvolvimento nacional. Para Di Pierro (2010, p. 36) se faz necessária a experimentação de formas mais flexíveis e de qualidade na organização da EJA, que rompendo com o modelo escolarizado do ensino supletivo, se tornem motivadoras e atraentes para esses jovens e adultos, dando sentido à aprendizagem nessa fase da vida. Rodrigues (2010, p. 53) também considera que a EJA deve priorizar propostas político-pedagógicas mais complexas e sofisticadas do que apenas gerenciar sistemas de ensino e de unidades escolares pobres de recursos. Outro fator importante na discussão desse tema diz respeito à idade mínima para conclusão dos ensinos fundamental e médio, pelos exames supletivos. A LDB 9.394/96 reduziu para 15 anos a idade mínima para conclusão do ensino fundamental e 18 anos para o ensino médio, mas não fixou idade mínima para o ingresso nos cursos destinados a jovens e adultos. Em contrapartida, o Parecer 11 de 2000, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CEB/CNE), “fixou em 14 e 17 anos, respectivamente, as idades mínimas para ingresso na modalidade nas etapas do ensino fundamental e médio” (DI PIERRO, p. 37). Esta iniciativa gerou polêmica entre os diversos setores. Uns são a favor da elevação da idade mínima de 18 anos para ingresso na EJA, pois defendem que a EJA não pode acolher aqueles que são excluídos da educação regular apenas por suas diversidades social e cultural, além da defasagem idade/série. Mas há os que defendem a norma atual, com o argumento de que se a idade mínima para ingresso na EJA for aumentada pode produzir ainda mais exclusão educacional, pois dessa forma não estariam induzindo as mudanças necessárias no sistema escolar seletivo 22 que os rejeitou, mas sim estaria impedindo os candidatos a estudantes de iniciar, ou mesmo seguir seus estudos. Devido à polêmica e por não haver chegado ao consenso, como afirma Di Pierro (2010, p. 38), “o tema está em compasso de espera, sem que os problemas que suscitaram a polêmica tenham sido superados.” Com relação às condições de trabalho escolar, segundo Rodrigues (2010, p. 54) ainda há muito improviso e abandono por parte das políticas públicas, uma vez que estão sempre buscando soluções tópicas para a EJA, tratando-a como um requisito formal da realidade educacional, e não como potencializadora das características social, formativa e política de seu público alvo. O referido autor também aponta a precariedade, a escassez e o abandono das escolas como causas das reduzidas possibilidades de se ter uma formação voltada para uma boa qualificação para o trabalho e para a vida, levando-se em conta os desafios profissionais e as questões sociais que esses jovens e adultos irão enfrentar no futuro (2010, p. 55). Devemos considerar, também, a complexidade do processo de profissionalização de educadores de jovens e adultos na história recente do país. A perspectiva assistencialista adotada em programas de EJA, como define Vóvio, (2010, p. 64) se caracterizou, ao longo dos anos, como uma ação de caráter voluntário e de iniciativa popular, que mesmo pautado na boa vontade, compromisso, espírito de solidariedade e seriedade, carece de formação adequada, especificidade e atualização. Conforme aponta Soares (1996, p. 34), projetos voluntários, conhecidos como “educacionais”, que não têm caráter profissional, desqualificam o educador de jovens e adultos, levando a EJA ao empobrecimento. Esses educadores, também conhecidos por monitores, instrutores, capacitadores ou agentes sociais, entre outros, além de educadores voluntários têm outras atribuições e funções próprias das suas profissões. São pessoas com diversas formações que se dedicam, além de sua ocupação principal, à educação. Não estamos nos referindo apenas aos seus ambientes de atuação, escolas ou locais de educação não formal, mas sim à formação específica para a docência, às condições de trabalho e ao estatuto profissional. Dessa forma, ressaltamos como um dos grandes desafios da EJA, a importância da formação adequada dos profissionais diretamente vinculados a ela. Os professores e gestores que hoje elaboram os currículos e materiais didáticos destinados aos jovens e adultos vêm das antigas escolas normais, ou ainda que 23 oriundos dos cursos de licenciaturas de nível superior, eles elaboram um material mais apropriado às características de crianças e jovens do ensino regular, e não às de jovens e adultos, que trazem diferentes experiências históricas, políticas, culturais e sociais. Assim, faz-se necessária a realização de programas de formação específica que permitam aos educadores analisar e compreender as características de seu público alvo, para que as novas práticas pedagógicas atendam esses jovens e adultos na sua formação básica. 24 4 POLÍTICA EDUCACIONAL E LEGISLAÇÃO PARA A EJA 4.1 A POLÍTICA EDUCACIONAL DAS ÚLTIMAS DÉCADAS Na década de 1990, as políticas públicas de educação no Brasil priorizaram a universalização do acesso e a educação de crianças e jovens no ensino regular. Porém, hoje, ainda é um desafio para o governo manter a educação de jovens e adultos com qualidade, mesmo ocupando um espaço cada vez maior na sociedade, e estando focada como estratégia e elemento de requalificação profissional, devido às novas relações no mundo do trabalho. Esse aumento na procura pela EJA nos últimos anos se deu pela quantidade de eventos nacionais e internacionais sobre o tema. Conforme aponta Soares (2010, p. 79), constam dessa agenda a realização da V Conferência Internacional de Educação de Adultos (CONFINTEA), realizada em 1997, na Alemanha, e da VI CONFINTEA, realizada no Brasil, em Belém do Pará, entre os dias 19 e 22 de maio de 2009. Este encontro é o evento mais importante do mundo na área, e ocorre apenas a cada 12 anos. Esta foi a primeira vez que ele se realizou na América Latina. Além desse evento internacional, também existem os Encontros Nacionais de Educação de Jovens e Adultos (ENEJA), que têm se realizado ininterruptamente no Rio de Janeiro, desde 1999. Com relação à EJA, destacam-se programas que foram as principais iniciativas do governo Fernando Henrique Cardoso na área de educação de jovens e adultos desde a realização da V CONFINTEA: o Plano Nacional de Formação e Qualificação Profissional (Planfor), do Ministério do Trabalho; o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), desenvolvido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra); o Programa de Alfabetização Solidária (PAS), do Conselho da Comunidade Solidária; e o Recomeço, Programa de Apoio a Estados e Municípios para a Educação Fundamental de Jovens e Adultos (DI PIERRO, 2003, p. 20). O Planfor foi desenvolvido por meio de parcerias entre organismos governamentais – secretarias da educação e do trabalho – e organizações da sociedade civil – instituições de ensino profissionalizantes, organizações não governamentais, sindicatos patronais e de trabalhadores, escolas de empresas e fundações, universidades e institutos de pesquisa. Sua meta era ampliar e diversificar a oferta de educação profissional, com o objetivo de qualificar e 25 requalificar anualmente 20% da população economicamente ativa (PEA), formada por aproximadamente 15 milhões de trabalhadores. Desde a sua criação, em 1995, até 2000, o Planfor havia atingido 85% dos municípios brasileiros, com a qualificação de 11,6 milhões de trabalhadores. Encerrou-se em abril de 2003, e em julho deste mesmo ano o Ministério do Trabalho e Emprego instituiu um novo Plano Nacional de Qualificação, que perdurou até 2007. O Pronera foi criado em 1998, fruto de uma articulação entre o Conselho de Universidades Brasileiras (CRUB) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com o objetivo de oferecer educação aos jovens e adultos assentados em comunidades rurais por processos de reforma agrária. Baseava-se em metodologias de ensino voltadas à realidade sociocultural do campo, à orientação pedagógica que atendesse às reivindicações dos movimentos sociais e estivessem de acordo com as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo instituídas em abril de 2002 pelo Conselho Nacional de Educação. Segundo Di Pierro (2003, p. 20), o Pronera teve, entre 2000 e 2002, uma previsão orçamentária de aproximadamente 63 milhões de reais, mas somente 48,8 milhões de reais foram utilizados, sendo o restante destinado a outras atividades. Os diversos atrasos e cortes de recursos para projetos conveniados repercutiram negativamente entre os parceiros do programa, não atingindo, assim, o cumprimento das metas, que ficou em 46% do inicialmente planejado. O Programa Alfabetização Solidária teve início em 1996, com o Conselho da Comunidade Solidária, órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República com a função de coordenar ações sociais emergenciais de combate à pobreza. Tratava-se apenas de campanha de alfabetização, desenvolvida com parcerias entre os poderes públicos federal e municipal, empresas, organizações da sociedade civil, fundações empresariais e instituições de ensino superior. Inicialmente foi criado para atender os jovens das regiões que apresentavam índices de analfabetismo acima da média nacional, como as Regiões Norte e Nordeste, mas com o seu crescimento, atendeu também municípios interioranos das zonas metropolitanas das Regiões Centro-Oeste e Sudeste. Os professores e estudantes universitários que trabalharam no projeto recebiam bolsas pagas pelo Programa. A despesa por aluno era dividida entre o Governo Federal e as empresas que selecionavam os municípios que seriam atendidos. O Ministério da Educação contribuía com 50% do custo por aluno, sendo responsável, também, não só pelo fornecimento do material 26 didático e de apoio para a formação de bibliotecas, mas pela bolsa de apoio ao trabalho desses professores e estudantes das instituições de ensino superior parceiras do projeto. Em municípios com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) inferior a 0,5, o governo assumia o custo integral do projeto. Foi um projeto de relativo sucesso, tendo em vista que ao final de dez anos, foi observado um recuo de 7 a 39 pontos nas taxas de analfabetismo nos municípios atendidos. Mesmo parte dessa evolução tendo sido em função da combinação entre dinâmica demográfica e políticas de educação de crianças e adolescentes, a diminuição do índice de analfabetismo foi superior à média estadual, mostrando que o programa valeu a pena. Com todo o sucesso obtido, entretanto, a meta não foi alcançada, que era a de atingir em dois anos os índices de analfabetismo dos municípios participantes a níveis próximos da média nacional. O Programa de Apoio a Estados e Municípios para a Educação Fundamental de Jovens e Adultos, conhecido como Recomeço, foi criado em 2001 para apoiar, com recursos financeiros, 14 Estados das Regiões Norte e Nordeste e 389 municípios de microrregiões com IDH inferior a 0,5. Financiado com recursos do Fundo de Amparo à Pobreza, previa a transferência de recursos financeiros para os participantes da ordem de 85 dólares por aluno ao ano, com o intuito de ampliar a oferta de vagas do ensino fundamental de jovens e adultos. Foi idealizado para atuar até 2003, quando então mudou a gestão do governo federal, porém o Programa não sofreu alteração quanto aos municípios atendidos ou no valor do repasse financeiro realizado pela União. No início do governo do Presidente Lula, o Ministério da Educação anunciou que a EJA seria uma prioridade do novo governo. Foi criado, então, o Programa Brasil Alfabetizado, em 2003, um dos maiores que o Brasil já fez para a erradicação do analfabetismo. O MEC contribuiu financeiramente com órgãos públicos estaduais e municipais, instituições de ensino superior e organizações sem fins lucrativos para desenvolverem ações de alfabetização. O Programa também compreende o incentivo à leitura e a difusão de livros para recém-alfabetizados. Para o governo, como relata Di Pierro (2003, p. 28), trata-se de uma campanha plural, pois tinha a intenção de acolher todas as outras iniciativas em andamento. Mesmo não tendo sido previstos recursos para esse Programa do governo no Orçamento da União de 2003, o FNDE conseguiu disponibilizar 271,5 milhões de reais para o estabelecimento de convênios. As responsabilidades foram divididas e as 27 organizações parceiras ficaram com a cessão das salas de aula, do material didático, com a formação dos educadores e com a alfabetização dos jovens e adultos cadastrados. Conforme descreve Di Pierro (2003, p. 20), a meta fixada no PNE era a de superar o analfabetismo até 2011. Sabemos que falta muito para alcançá-la. Mas também, devemos buscar alcançar o compromisso assumido em Dacar, no Senegal, de reduzir até 2015 o analfabetismo à metade daquele registrado em 2000. Para tanto, será necessário acelerar esse ritmo de alfabetização de jovens e adultos. Nota-se nesses alunos que as habilidades de leitura, escrita e cálculo estão abaixo dos mínimos aceitáveis para se dizer que essas pessoas estão verdadeiramente alfabetizadas. Para se ter uma visão do índice de analfabetismo na última década, foi feita uma análise dos dados dos dois últimos censos demográficos, de 2000 e 2010. Tabela 1: População residente a partir de 5 anos de idade, total e alfabetizada, segundo os grupos de idade no Brasil, de acordo com o censo demográfico da última década. POPULAÇÃO RESIDENTE DE 5 ANOS OU MAIS DE IDADE, TOTAL E ALFABETIZADA, SEGUNDO OS GRUPOS DE IDADE NO BRASIL, DE ACORDO COM OS CENSOS DEMOGRÁFICOS DE 2000 E 2010 2000 (A) 2010 (B) % 2000 (C) 2010 (D) % (C)/(A) (E) % 5a9 16.542.327 14.969.375 – 9,51 8.429.696 10.243.078 21,51 50,96 68,43 17,47 10 a 14 17.348.067 17.166.761 – 1,05 16.090.194 16.495.407 2,52 92,75 96,09 3,34 15 a 19 17.939.815 16.990.870 –5,29 17.043.398 16.616.829 – 2,50 95,00 97,80 2,8 20 a 29 29.991.180 34.349.603 14,53 27.794.848 33.189.779 19,41 92,68 96,62 3,94 30 a 39 25.290.473 29.633.093 17,17 22.705.827 27.686.157 21,93 89,78 93,43 3,65 40 a 49 19.268.235 24.842.718 28,93 16.590.309 22.391.006 34,96 86,10 90,13 4,03 50 a 59 12.507.316 18.416.621 47,25 9.681.824 15.869.709 63,91 77,41 86,17 8,76 60 ou mais 14.536.029 20.590.599 41,65 9.421.953 15.129.295 60,57 64,82 73,48 8,66 153.423.442 176.959.640 15,34 127.758.049 157.621.260 23,37 83,27 89,07 5,8 Grupos de idade (anos) Total: Total da população Total da população alfabetizada (D)/(B) (F) % (F)-(E) (G) % Fonte: IBGE. Censos demográficos 2000 e 2010. A coluna (E) corresponde ao percentual da população considerada alfabetizada em 2000; a (F) ao percentual da população considerada alfabetizada 28 em 2010; e a (G) a diferença percentual entre a população alfabetizada na última década. Segundo os dados dos dois últimos censos demográficos demonstrados na tabela percebe-se que houve um aumento da população nesta última década de 15,34%, e um aumento de pessoas alfabetizadas de 23,37%. De 2000 para 2010 a população de 5 a 19 anos diminuiu, porém aumentou gradativamente de 20 a 59 anos, voltando a diminuir a partir dos 60 anos em diante, o que significa um envelhecimento da população. Com relação ao número de pessoas alfabetizadas na última década, percebe-se que na faixa de 5 a 9 anos houve um aumento de 17,47%, porém esse índice decresce bruscamente para 3,34% na faixa de 10 a 14 anos e para 2,8% de 15 a 19 anos, caracterizando a evasão escolar. Dos 20 aos 29 anos o índice aumenta para 3,94%, e dos 30 aos 39 anos decresce novamente para 3,65%. Somente a partir dos 40 anos percebe-se o aumento do índice de alfabetização, chegando a 8,76% e se mantendo nesse patamar dos 8% na faixa dos 50 anos ou mais. Na faixa de 20 a 29 anos e a partir dos 40 anos o aumento do índice de alfabetização caracteriza a volta desses alunos à escola, mas agora com uma grande defasagem da idade para a série. Em resumo, pode-se visualizar, no gráfico 1, segundo a classificação percentual média por grupos de idade, que na última década o aumento do índice de alfabetização foi pequeno, principalmente dos 10 aos 49 anos de idade, que decresceu consideravelmente em relação ao grupo de 5 a 9 anos e acima dos 50 anos: 8% 50 anos ou mais 17,47% 2,80% 5 a 9 anos 15 a 19 anos 3,74% 10 a 14 e 20 a 49 anos Gráfico 1: Classificação percentual média por grupos de idade, na última década. Fonte: A autora, 2011. 29 4.2 O QUE PREVÊ A LEGISLAÇÃO ATUAL A legislação que se tem hoje para a EJA é a Constituição Federal de 1988, artigo 208, inciso I, que garante o acesso e a permanência ao ensino fundamental a todos, incluindo os jovens e adultos que não tiveram a oportunidade de estudar em idade própria; a Lei nº 9.394/96, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que também traz essa modalidade de ensino nos artigos 37 e 38, assegurando metodologias e currículos adequados às necessidades dos alunos, tanto em nível fundamental quanto em nível médio; a Lei nº 10.172, de 09 de janeiro de 2001, que aprova o Plano Nacional de Educação, onde estão previstos os Programas Brasil Alfabetizado e Brasil Escolarizado; e o Plano de Desenvolvimento da Educação, do MEC, cuja prioridade é a educação básica – do ensino infantil ao ensino médio – aprovado em 24 de abril de 2007 pelo então Presidente Lula e pelo Ministro da Educação Fernando Haddad, com o objetivo de melhorar a Educação no País, em todas as suas etapas, em um prazo de quinze anos. A Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases são documentos que já contemplam a educação de jovens e adultos. Porém, é no PNE que esses direitos podem e devem ser assegurados. Fruto de um dos eventos mais importantes para o futuro da educação brasileira, a Conferência Nacional de Educação (CONAE), o PNE é o documento que organiza prioridades e propõe metas a serem alcançadas nos dez anos seguintes. Um balanço das metas do PNE 2001-2010 no que diz respeito à EJA, nos mostra que para a meta: “Assegurar a EJA para 50% da população que não cursou o ensino regular”, entre 2001 e 2007, apenas 10,9 milhões de pessoas cursaram, conforme demonstra o gráfico 2, a seguir, o que representa um terço de mais de 29 milhões de pessoas que não chegaram à 4ª série e seriam o público-alvo dessa faixa de ensino. Para Moço (2010, não paginado) [...] a inclusão da EJA no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) representou uma fonte de recursos para ampliar a oferta, mas não atacou a evasão, hoje em alarmantes 43%. A evasão continua sendo um grande desafio não só para as escolas e para os pais que desejam ver seus filhos estudando, mas também para o sistema 30 educacional em geral, que mesmo com investimento, ainda que pouco, não consegue diminui-la. Gráfico 2: Oferta de EJA entre 2001 e 2007. Fonte: Censo Escolar/MEC/Inep apud. <http://revistaescola.abril.com.br> Com relação à meta que pretendia erradicar o analfabetismo até 2010, vimos que o programa Brasil Alfabetizado, do Governo Federal, atendeu quase 10 milhões de pessoas nesta década (segundo o PNE, o total deveria ter sido atingido em 2006). Mas, entre 2001 e 2008, a taxa de analfabetismo caiu apenas de 13% (16 milhões de pessoas) para 10% (14,5 milhões). Isso se explica, entre outros fatores, porque o programa atingiu mais analfabetos funcionais (com noções rudimentares de leitura e escrita) do que absolutos – que, de acordo com dados de 2005, representavam só 27% dos inscritos. A nova edição do PNE, que contempla os anos de 2011-2020, segundo Paganotti e Ratier (2010, não paginado), está centrada nas demandas do CONAE de 2010, e trata-se de um documento com metas que podem ser quantificadas por estatísticas. Para a EJA está prevista a oferta de 25% das matrículas, integradas à Educação profissional nas séries finais. As metas do PNE 2011-2020 para a EJA são: Meta 3: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa etária. Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de 18 a 24 anos de modo a alcançar mínimo de 12 anos de estudo para as populações do campo, da região de menor escolaridade no País e dos 25% mais pobres, bem como igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com vistas à redução da desigualdade educacional. 31 Meta 9: Elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e erradicar, até 2020, o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional. Meta 10: Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de Educação de Jovens e Adultos na forma integrada à Educação profissional nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio (BRASIL, PNE, 2011, não paginado). Para a consecução dessas metas estão previstas diversas estratégias: uma delas diz respeito à institucionalização de um programa nacional de diversificação curricular do ensino médio, onde a teoria e a prática devem estar relacionadas, assim como devem ser separados por assuntos conteúdos obrigatórios e eletivos, como ciência, trabalho, tecnologia, cultura e esporte. Para isso, será necessária a aquisição de equipamentos e laboratórios, produção de material didático específico e formação continuada de professores, como foi abordado em capítulos anteriores deste trabalho; também será necessário integrar o ensino médio à educação profissional, respeitando-se as peculiaridades das populações do campo, dos povos indígenas e das comunidades quilombolas, e preservando suas diferenças e diversidades como um dos princípios da educação; deve-se, ainda, resgatar a população de 15 a 17 anos que se encontra fora da escola, seja na cidade ou no campo, e com defasagem idade-série, em parceria com as áreas da assistência social e da saúde; criar redes de proteção contra formas associadas de exclusão, seja por preconceito ou discriminação à orientação sexual ou à identidade de gênero; estimular a conclusão da educação básica, mantendo o programa nacional de educação de jovens e adultos voltado à conclusão do ensino fundamental e à formação profissional inicial; aumentar a oferta de matrículas para a EJA, integrando a formação inicial e continuada de trabalhadores com a educação profissional, a fim de elevar o nível de escolaridade do trabalhador; desenvolver material didático e currículos compatíveis com as especificidades da EJA, assim como formar docentes das redes públicas para atuarem na EJA, integrando-a à educação profissional; e desenvolver programas de incentivo ao estudante, como ações de assistência social, financeira e de apoio psico-pedagógico, para que os jovens e adultos estudantes tenham acesso à educação e se sintam motivados a permanecerem na escola, até a educação profissional (BRASIL, PNE, 2011, não paginado). Por fim, com relação ao Plano de Desenvolvimento da Educação, este prevê que a EJA seja integrada à educação profissional em dois Programas: O PROEJA assegura que tanto o sistema estadual quanto o federal devem proporcionar aos 32 jovens e adultos educação profissional integrada ao ensino médio, da mesma forma que o PROJOVEM com relação aos sistemas municipais, no que diz respeito às últimas séries do ensino fundamental. Com isso, tem-se a expectativa de que também a LDB incorpore o ensino profissionalizante à EJA, articulando-a à educação profissional. Conforme descrito no PDE (BRASIL, PDE, 2011, não paginado), “são passos de grande valor, mas ainda insuficientes.” O Ministério da Educação deve, nos próximos anos, integrar o Programa Brasil Alfabetizado com a EJA, das séries iniciais do ensino fundamental. Segundo o próprio PDE, muitos educadores têm uma visão pessimista com relação à EJA, baseados nos insucessos dos programas brasileiros de alfabetização sobre os quais discorremos no início deste trabalho: Mobral, Alfabetização Solidária e mesmo a primeira versão do atual programa do governo, o Brasil Alfabetizado. Porém, o PDE também aponta que segundo análise das taxas médias de analfabetismo por faixa de população, de 15 a 29 anos, e por regiões do País, observa-se que a região Nordeste tem a maior taxa de analfabetismo, cerca de 12,5%, contra 2,6% nas demais regiões, e a pior oferta de oportunidades educacionais do País. Tal fato se explica pela formação nacional da região nordeste, semi-árida, e por sua história de escravidão, patrimonialismo estatal e reacionarismo religioso, presente também em outras regiões mas em menores proporções. O Estado brasileiro deve estar atento a essas desigualdades e proporcionar a todos o direito à educação. Esta nova versão do PDE investe na visão sistêmica da educação, a de integrar a alfabetização à EJA em todos os municípios. Mas não basta que o governo crie leis e diretrizes para a EJA. É necessário também maior investimento nessa modalidade de educação. Um estudo do MEC de 2008 denominado “Documento base nacional preparatório à VI CONFINTEA” comprova que o número de matrículas em EJA cresceu em média 59% entre os anos de 1996 e 2006, não correspondendo na mesma proporção ao investimento. Segundo o MEC no Brasil não se tem um sistema adequado de acompanhamento dos gastos educacionais, o que impossibilita saber exatamente que gastos foram destinados à EJA. Entretanto o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) fez uma estimativa de gastos por alunos do ensino regular, que ele afirma ter um custo semelhante ao do ensino de jovens e adultos, e constatou que em 2000 o investimento correspondia a 0,51% do PIB, em 2003 chegou a 0,57%, caindo para 0,52% em 2004, concluindo que o investimento em EJA é quase nulo. 33 Também há poucas escolas públicas no Brasil que oferecem educação para jovens e adultos, que segundo o MEC chegam somente a 26%. Ressalta-se, ainda, que a legislação atual prevê a certificação de conhecimentos, por meio do exame público denominado Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA). Trata-se de [...] avaliação voluntária e gratuita ofertada às pessoas que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos em idade apropriada para aferir competências, habilidades e saberes adquiridos tanto no processo escolar quanto no extra-escolar (INEP, 2011, não paginado). Criado a partir de 2002, no final do governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, é de responsabilidade do INEP, com parcerias das secretarias de educação municipais e estaduais. Tem amparo legal, pois está na Constituição Federal e também na LDB, esta última definida no artigo 38, parágrafos 1º e 2º: Art. 38º. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. § 1º. Os exames a que se refere este artigo realizar-se-ão: I - no nível de conclusão do ensino fundamental, para os maiores de quinze anos; II - no nível de conclusão do ensino médio, para os maiores de dezoito anos. § 2º. Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames (BRASIL, LDB, não paginado). Outras formas de avaliação foram aplicadas, em épocas passadas, com diferentes denominações: o madureza, um exame final de aprovação do curso de mesmo nome que ministrava disciplinas dos antigos ginásio e colegial. E o supletivo, curso que possibilitava jovens e adultos fora da idade escolar a cursar os quatro anos em dois e meio, e ao final, prestar o exame. O pioneiro na criação do supletivo foi o professor Anízio Alves da Silva. Em 2009 tinha 4,6 milhões de alunos matriculados, segundo dados do último censo escolar. Ambos os cursos e exames foram criados a partir da LDB de 1961 (COSTA, 2011, não paginado). Hoje o ENCCEJA é uma grande oportunidade para jovens e adultos que não puderam concluir seus estudos na idade própria obterem o certificado da educação básica. Mesmo não tendo frequentado uma escola apropriada para a EJA, eles podem prestar o exame, utilizando o material de apoio disponível no portal do ENCCEJA, de acordo com as competências e habilidades de cada área do conhecimento: português, matemática, história, geografia, ciências, dentre outras. 34 A metodologia utilizada no ENCCEJA é similar à do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), conforme explica Di Pierro (2011, p. 38). O exame avalia as competências relativas a cada área de conhecimento, sendo necessário para tal o domínio da linguagem, a compreensão de fenômenos, a resolução de problemas e a capacidade de argumentação e elaboração de propostas. São questões objetivas, além de uma redação. Estará habilitado aquele que obtiver o mínimo de 100 pontos em cada uma das áreas de conhecimento do ENCCEJA. Alguns estudiosos são contra essa forma de avaliação por considerarem que a União tomou para si uma atribuição que era dos Estados, promovendo uma universalização curricular que anula as diferenças culturais e linguísticas do País. No entanto, muitos são a favor por entenderem que a centralização curricular criou um padrão de qualidade desejável para a EJA. Após a reforma educativa dos anos 90, que reduziu a idade mínima para conclusão dos ensinos fundamental e médio, de 15 e 18 anos, respectivamente, para 14 e 17 anos, os defensores do ENCCEJA afirmam que este novo exame “flexibilizou o sistema e melhorou o fluxo escolar” (DI PIERRO, 2011, p. 39), possibilitando um maior número de pessoas obterem seu certificado relativo à educação básica. Enfim, divergências a parte, o fato é que o ENCCEJA atende às especificidades de cada indivíduo que só tem essa opção para obter seu certificado de ensino básico, possibilitando-lhe escolher as áreas que deseja certificação, prestando cada prova a seu tempo, sem a necessidade de concluir todas as provas de uma só vez. 35 5 ALTERNATIVAS APONTADAS PARA A EJA Tendo em vista às especificidades da EJA, ainda existem muitas dificuldades para que os jovens e adultos iletrados tenham um ensino satisfatório e adequado. Vários autores apontam algumas alternativas para vencer os desafios da EJA. Uma delas é, levando-se em conta a experiência de vida e de trabalho desses jovens e adultos, criar práticas educativas diferenciadas das que são utilizadas no ensino regular. Conforme descreve Rodrigues (2010, p. 57) há a necessidade de se superar o processo pedagógico da EJA que apenas reproduza a lógica da transmissão do conhecimento egressa do ensino fundamental. Em que pese essa percepção, ainda é um desafio para os educadores estabelecer um processo pedagógico que se articule com as determinações estruturais e as experiências subjetivas e coletivas que envolvem a diversidade encontrada na educação de jovens e adultos. A participação do aluno é muito importante. Ele deve estar motivado para o aprendizado, e essa motivação pode estar no aproveitamento de seus conhecimentos prévios, de seus interesses, de suas experiências, para que transformados possam se tornar subsídios para as atividades nas salas de aula. A EJA deve focar um aprendizado que seja útil não só à vida, mas ao trabalho desses jovens e adultos, conforme preconizado nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), salientando que a informação, o conhecimento, as habilidades e os valores desenvolvidos sejam instrumentos reais de percepção, interpretação e desenvolvimento pessoal ou de aprendizado permanente. Para Vargas (2006, p. 186), é necessária a constituição de um corpo docente próprio para a EJA, com formação específica e apropriada à realidade diferenciada daqueles que foram excluídos do sistema escolar na infância, para que esses professores sejam efetivamente “mediadores entre os educandos e entre estes e os conhecimentos escolares, visando à melhoria do processo ensino-aprendizagem.” Ainda existem conflitos e dificuldades nas escolas para interagir com essa experiência trazida para a sala de aula por esses jovens e adultos, uma vez que a EJA ainda está pautada no ensino formal. Ainda segundo Vargas (2006, p. 188), a experiência de vida e de trabalho trazida por esses alunos também suscita a necessidade do diálogo entre o professor e o aluno, pois oriundos de camadas sociais diferentes, devem, antes de tudo, superar os preconceitos por não serem letrados nem conhecerem o mundo 36 tecnológico, e elevar as suas auto-estimas, para serem bem aceitos pelo grupo do qual fazem parte. Nesse sentido, é importante a troca de experiências entre essas pessoas de diferentes culturas, para que na construção coletiva do conhecimento e no fortalecimento de laços afetivos, eles estejam aptos à assimilação de conceitos racionais. Vargas (2006, p. 187) considera que na EJA, a construção do currículo deve ter por base o princípio dialogal, que possibilite cada vez mais a participação de coordenadores, professores, alunos, chefes de unidades operacionais e funcionários, todos sujeitos do processo ensino-aprendizagem, que pretenda atingir o ensino de qualidade na busca da formação consciente da cidadania. Outra alternativa apontada para a EJA trata-se da interdisciplinaridade. Segundo Pellegrini et. al. (s.d., não paginado), a escola, desde os seus primórdios, baseia-se em uma cultura separatista, onde as disciplinas são isoladas umas das outras, o ensino é ministrado por partes por cada professor, e o aluno recebe cada parte do “saber”, sem a visão do todo, devendo por meio de seus estudos individuais associá-los e relacioná-los entre si. Por isso jovens e adultos não conseguem assimilar facilmente esse processo de aprendizagem da escola, pois este se baseia em modelos preexistentes, ao passo que o conhecimento desse público alvo vem de habilidades oriundas de experiências. É o que Pellegrini et. al. (s.d., não paginado) denominam de professores “fabricantes” formando alunos “produtos”. Esta também é a opinião de Vargas (p. 189), que defende a abordagem interdisciplinar como complementação de pontos de vista que, ao requererem uma multiplicidade de outras abordagens, exigem o diálogo constante entre as diversas áreas do conhecimento. Vargas (2006, p. 189) conclui que na medida em que as fronteiras entre as ciências são sempre abertas e se deslocam (PIAGET:1970) e que um mesmo objeto pode pertencer a problemáticas diferentes (BACHELARD:1971), a interdisciplinaridade se coloca como uma importante ferramenta para a compreensão da complexidade que envolve os processos educativos dos grupos populares, pois a visão fragmentada das disciplinas impede a interação dos conhecimentos com outras áreas, visto que o professor precisa dominar os conteúdos da sua área para poder socializá-los com as outras disciplinas, de modo a obter diversos ângulos dos conhecimentos a serem construídos. A importância da interdisciplinaridade está não só na união das experiências escolares, mas também destas com a realidade social. O sentido interdisciplinar demonstra que o ensino não é apenas um problema pedagógico, mas também epistemológico. 37 Outro ponto importante a ser abordado diz respeito à responsabilidade da União com a EJA. É necessário que a EJA se constitua como uma proposta de Educação do Estado Brasileiro e não apenas uma proposta de Governo, assegurando o direito constitucional de educação para todos. O artigo 211 da Constituição Federal prevê que “a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino”, ou seja, é necessária a atuação solidária dos sistemas de ensino, não sendo relegada a segundo plano pelas autoridades educacionais. Para Beisiegel (1997, p. 234), cabe à União determinar as diretrizes da política de educação fundamental de crianças, jovens e adultos e “contribuir para a criação das condições necessárias a sua implementação, mesmo quando a responsabilidade final das ações seja atribuída diretamente aos Estados ou Municípios.” Nos dias de hoje, em que acontecem a cada dia mudanças econômicas, tecnológicas e socioculturais, não se pode mais pensar que a EJA seja uma mera reposição de escolaridade para aqueles que não se formaram na idade adequada. Se tivermos em mente que os jovens e os adultos sempre terão capacidade de aprendizado, ao longo de suas vidas, e que as solicitações de um mundo em constante evolução exigem que pessoas de todos os níveis, classes e idades tenham conhecimento, a EJA deve atender às necessidades formativas dos jovens e adultos no presente e no futuro, conforme afirma Di Pierro et. al. (2001, p. 70): “Sendo tais necessidades múltiplas, diversas e cambiantes, as políticas de formação de pessoas adultas deverão ser necessariamente abrangentes, diversificadas e altamente flexíveis.” Uma outra alternativa também apontada por Di Pierro et al. (2001, p. 71) é legitimar o conhecimento adquirido por meios extra-escolares, reconhecendo as empresas, os meios de comunicação e as organizações comunitárias, entre outros, como espaços sociais com potencial formativo, reformulando, assim, o referencial teórico, didático e metodológico para a EJA. Dessa forma, faz-se necessário rever currículos, meios e formas de atendimentos de maneira a torná-los menos rígidos, integrar a educação geral à profissional, validar processos de aprendizagem informais, incentivar meios de ensino não só presenciais, mas também à distância, de maneira que os jovens e adultos que procuram concluir suas formações possam aproveitar os diferentes meios e formas de aprendizagem para conseguir a 38 certificação oficial correspondente. Segundo Di Pierro et. al. (2001, p. 71) isso implica: – descentralizar o sistema de ensino e conceder autonomia aos centros educativos para que formulem projetos pedagógicos pertinentes às necessidades educativas das comunidades em que estão inseridos, convertendo-se estes no locus privilegiado de desenvolvimento curricular; – flexibilizar a organização curricular e assegurar certificação equivalente para percursos formativos diversos, facultando aos indivíduos que autodeterminem suas biografias educativas, optando pela trajetória mais adequada às suas necessidades e características; – prover múltiplas ofertas de meios de ensino-aprendizagem, presenciais ou à distância, escolares e extra-escolares, facultando a circulação e o aproveitamento de estudos nas diferentes modalidades e meios; e – aperfeiçoar os mecanismos de avaliação, facultar a creditação de aprendizagens adquiridas na experiência pessoal e/ou profissional ou por meio de ensinos não-formais, diversificando e flexibilizando os meios de acesso a níveis de escolaridade mais elevados. Ainda há que se considerar como alternativa para a EJA a possibilidade de se oferecer a formação geral junto com a profissional. Os jovens e adultos que ainda se interessam por iniciar ou continuar seus estudos estão visando à melhoria profissional e ocupacional. Hoje, com a dificuldade de se conseguir um emprego, seja ele qual for, e com a competição no mercado de trabalho, o profissional que não se qualificar e não se atualizar poderá estar fora dessa competição. Formar cidadãos para o mundo do trabalho tem enfoques diferentes quando trata-se de ensino regular e da EJA. No primeiro caso, crianças e adolescentes não estão inseridos no mercado de trabalho, mas estão sendo preparados para tal. Dessa forma é válida a valorização da base comum da educação geral e, no seu interior, a formação científica e tecnológica, para se chegar à qualificação profissional e à capacitação técnica para o posto de trabalho, com o ensino de nível superior. Já no segundo caso, o da EJA, jovens e adultos em geral já estão trabalhando. Então, dificilmente essa segmentação entre formação geral e capacitação profissional é atraente. Para Di Pierro et. al. (2001, p. 72) “a base geral comum da formação e dos saberes científico-tecnológicos é igualmente importante, pois caso contrário iria reproduzir-se o velho dualismo de sistemas formativos propedêuticos e profissionalizantes.” Mas na visão dos autores, não há razões objetivas para não se oferecer processos de formação geral e capacitação profissional juntos nos currículos de EJA. Considerando que os jovens e adultos trabalhadores, não escolarizados ou pouco escolarizados que procuram iniciar ou continuar sua formação educacional já possuem conhecimentos e experiências adquiridos ao longo da vida, uma outra 39 alternativa apontada por Pellegrini et. al. (s.d., não paginado) é a aplicação de projetos pedagógicos, desenvolvidos no próprio local de trabalho. Para as autoras, os jovens e adultos que procuram as escolas precisam de práticas educativas diferentes daquelas encontradas nas escolas regulares, das quais um dia esses jovens alunos foram excluídos ou nem chegaram a frequentar. Para utilizar este método de ensino, é necessária a valorização da experiência e do conhecimento que eles adquiriram nos meios informais, além da participação e motivação dos próprios alunos, para então transformá-los em conhecimentos escolares. Tudo isso faz parte dessa nova proposta de ensino. As referidas autoras também apontam a falta de sintonia entre as escolas e os alunos como responsáveis pela evasão e repetência nos programas de EJA. Segundo Haddad (2007), a evasão está ligada não só a fatores internos aos processos de ensino-aprendizagem, devido às dificuldades dessa modalidade de educação, mas também a fatores externos, que ele atribui às difíceis condições de vida dos alunos. Uma das soluções apontadas pelo autor para diminuir a evasão escolar seria buscar incentivos à permanência do aluno, tais como carteira do estudante, vale-transporte, vale-alimentação, bolsa de estudo, reserva de vagas e material didático gratuito. Por fim, vale ressaltar a importância da utilização do material didático criado especificamente para a EJA, elaborado pela Unitrabalho, rede universitária nacional, publicada pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECAD) Desenvolvimento da e pelo MEC Educação com recursos (FNDE). São do cinco Fundo Nacional cadernos de temáticos, denominados: “Trabalhando com a Educação de Jovens e Adultos”, que norteiam a prática de sala de aula dos educadores da EJA. Esse material descreve situações reais e concretas, que a partir da prática direcionam às questões teóricas. São divididos em cinco cadernos: alunas e alunos da EJA; a sala de aula como espaço de vivência e aprendizagem; observação e registro; avaliação e planejamento; e o processo de aprendizagem de alunos e professores. 40 6 CONCLUSÃO Este trabalho monográfico foi pautado na pesquisa bibliográfica em literatura especializada, publicada nas últimas décadas, cujo principal objetivo foi identificar o que tem sido oferecido em matéria de educação para os jovens e adultos que não concluíram o ensino básico na idade própria, além de analisar a legislação hoje em vigor para esse ramo do ensino. Após um breve histórico sobre a EJA, de 1822 aos dias de hoje, foi feita uma pesquisa para se identificar quais são os desafios da EJA, o que a legislação atual prevê para essa modalidade de educação e que alternativas são apontadas pelos autores pesquisados para atender esse público tão carente de educação que procura os bancos escolares após um longo tempo de afastamento. A partir dessa pesquisa foram identificados primeiramente problemas estruturais na oferta desse segmento de ensino que afetam o desenvolvimento do País: a qualidade do ensino, a falta de formação específica para esses educadores e a escassa oferta de escolas públicas especializadas em EJA. Destacamos, também, que várias campanhas foram realizadas ao longo dos anos, nos diversos governos, sempre com o objetivo de oferecer educação a esses jovens e adultos fora da idade escolar, porém sem muito sucesso. Por tudo isso, sabemos que são muitos os desafios a serem enfrentados. Dentre eles ressaltamos a necessidade de se conscientizar que alfabetizar é mais do que ensinar a ler e a escrever. É preciso despertar a capacidade de interpretar, compreender, criticar e produzir conhecimento. Também é um desafio a qualidade e a relevância dessa educação. A experiência de vida que cada um desses jovens e adultos traz consigo deve ser levada em conta, pois o adulto que procura a EJA tem uma bagagem cultural diversa, habilidades e conhecimentos acumulados pela sua própria vivência. A precariedade, a escassez e o abandono das escolas são importantes desafios que devem ser vencidos para se oferecer uma formação que qualifique o indivíduo para o trabalho e para a vida. E ainda, a formação específica de professores de EJA, que se diferencie dos moldes de uma educação regular. Sobre o que a legislação atual prevê para a educação de jovens e adultos, destaca-se o empenho do Governo em erradicar o analfabetismo, que por meio dos PNE vem criando metas para a EJA, como no PNE de 2001-2010 e agora no de 2011-2020. Para este último, as metas estão centradas nas demandas do CONAE 41 de 2010, e pretendem universalizar até 2016 o atendimento escolar para a população de 15 a 17 anos, além de elevar a taxa líquida de matrículas no ensino médio dessa mesma faixa etária para 85% (meta 3); e oferecer, no mínimo, 25% de matrículas de EJA integrada à educação profissional nos últimos anos de cada uma das etapas educacionais (fundamental e médio) (meta 10). E por fim, são apontadas muitas alternativas para a EJA. Uma delas é a de se criar práticas educativas diferenciadas das que são utilizadas no ensino regular. Muitos desses jovens e adultos que procuram a EJA foram excluídos dos bancos escolares por razões diversas: por não terem se adaptado às normas da escola, por reprovações sucessivas ou pela necessidade de ir em busca de seu autossustento e de sua família. Se ao retomarem os estudos encontram a mesma escola que os excluiu há anos e com as mesmas propostas pedagógicas de antes tornam-se alunos desmotivados e sem interesse para continuar os estudos, um dos motivos apontados pelos autores para a evasão da EJA na atualidade. Para motivar esses jovens e adultos é fundamental o aproveitamento de seus conhecimentos prévios, de seus interesses e experiências, para que transformados possam se tornar conhecimentos escolares nas salas de aula. É o aprendizado focado não só para a formação e a educação para a vida, mas também para o trabalho, conforme preconizado nos PCN, que salientam que a informação, o conhecimento, as habilidades e os valores desenvolvidos sejam instrumentos reais de percepção, interpretação e desenvolvimento pessoal ou de aprendizado permanente. E seguindo esse mesmo objetivo, ressalta-se a necessidade da formação específica dos professores de EJA que seja adequada à realidade diferenciada desses alunos que trazem para a sala de aula suas experiências de vida, uma vez que a EJA ainda está pautada no ensino formal. Outra alternativa importante a ser destacada diz respeito à responsabilidade da União com a EJA. Para os autores consultados, a EJA deve ser uma proposta de Estado e não apenas de Governo, de forma a assegurar a todos o direito constitucional da educação. Mesmo quando a responsabilidade final das ações seja atribuída diretamente aos Estados ou Municípios, cabe à União determinar as diretrizes da política educacional e criar condições para sua implementação. As estratégias a serem adotadas na EJA já estão em curso, entretanto, cabe à União intensificar os investimentos na formação dos programas de EJA, rever alguns aspectos do PROJOVEM, tendo em vista que uma das críticas a esse 42 programa diz respeito à possível aceleração dos conteúdos, resumindo quatro anos em um, e instar secretarias estaduais e municipais a produzirem material didático para a EJA que leve em conta cada universo local e suas diferenças regionais. Diante de tantos desafios e problemas estruturais que afetam o desenvolvimento nacional, e mesmo com tantas dificuldades a serem sanadas, a EJA ainda é a esperança para muitos jovens e adultos que realmente anseiam começar ou continuar seus estudos de atingirem uma melhor condição social, menos excludente e mais digna. 43 REFERÊNCIAS BEISIEGEL, Celso de Rui. A política de Educação de jovens e adultos analfabetos no Brasil. In: OLIVEIRA, Dalila Andrade (org.). Gestão Democrática da Educação: desafios contemporâneos. Petrópolis : Vozes, 1997, p. 207 - 245. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Portal do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/>. Acesso em: 07 ago. 2011. ______. Lei nº 5.379, de 15 de dezembro de 1967. Provê sobre a alfabetização funcional e a educação continuada a adolescentes e adultos. Portal do Senado Federal. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=117865>. Acesso em: 25 jun. 2011. ______. Lei nº 5692, de 11 de agosto de 1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras providências. Portal da Presidência da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5692.htm>. Acesso em: 25 jun. 2011. ______. Ministério da Educação. Documento base nacional preparatório à VI CONFINTEA. Portal fóruns eja Brasil. Disponível em: < http://forumeja.org.br/files/docdiag.pdf>. Acesso em: 03 set. 2011. ______. ______. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Portal do Ministério da Educação. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12907:legi slacoes&catid=70&Itemid=265:legislacoes>. Acesso em: 21 abr. 2011. ______. ______. O Plano de Desenvolvimento da Educação: razões, princípios e programas. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/livro/index.htm>. Acesso em: 07 ago. 2011. ______. Ministério da Educação e do Desporto. Plano Nacional de Educação. Brasília : Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, 1998. 129p. 44 BRASIL. Plano Nacional de Educação. 2011-2020. Portal Todos pela Educação. Disponível em: <http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12514/mecdivulga-plano-nacional-de-educacao-2011-2020>. Acesso em: 07 ago. 2011. CORRÊA, Arlindo Lopes (Ed.). Educação de massa e ação comunitária. Rio de Janeiro: AGGS/MOBRAL. 1979. 472 p. COSTA, Antonio. O homem que inventou o curso supletivo. Portal Gazeta do Povo. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=1098627 &tit=O-homem-que-inventou-o-curso-supletivo>. Acesso em: 03 set. 2011. COSTA, Antônio Cláudio Moreira. Educação de jovens e adultos no Brasil: novos programas, velhos problemas. Cadernos de Pesquisa: Pensamento Educacional, Universidade Tuiuti do Paraná, 2009. Disponível em: <http://www.utp.br/Cadernos_de_Pesquisa/pdfs/cad_pesq8/4_educacao_jovens_cp8 .pdf>. Acesso em: 19 jul. 2011. ISSN 2175-2613. DI PIERRO, Maria Clara. Balanço e desafios das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil. In: Encontro nacional de didática e prática de ensino. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, 15., 2010, Belo Horizonte : Autêntica, 2010. 771p. ______. (coord.) Seis anos de educação de jovens e adultos no Brasil: os compromissos e a realidade. São Paulo: Ação Educativa, 2003. 32p. Disponível em: <http://www.biblioteca-acaoeducativa.org.br/dspace/handle/123456789/2347>. Acesso em: 22 jul. 2011. DI PIERRO, Maria Clara; GRACIANO, M. A educação de jovens e adultos no Brasil. São Paulo : Ação Educativa, 2003. Disponível em: <http://www.acao educativa.org.br>. Acesso em: 19 jul. 2011. DI PIERRO, Maria Clara; JOIA, Orlando; RIBEIRO, Vera Masagão. Visões da educação de jovens e adultos no Brasil. Cadernos Cedes, Campinas, ano XXI, n. 55, nov. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v21n55/5541.pdf>. Acesso em: 21 jul. 2011. FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. 17. ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1979. 45 FURLANETTI, M. P. F. R. Formação de professores alfabetizadores e jovens adultos: o educador popular. Tese (Doutorado) – Universidade educação de jovens e adultos, Presidente Prudente, 2001. 266p. HADDAD, Sérgio. A ação de governos locais na educação de jovens e adultos. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 12, n. 35, ag. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141324782007000200002& lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 22 jul. 2011. INEP. Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos. Portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/encceja/encceja> Acesso em: 03 set. 2011. MOÇO, Anderson. Balanço do Plano Nacional de Educação (PNE) 2001-2010. Portal Nova Escola. mar. 2010. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/legislacao/pne-plano-nacional-deeducacao-537431.shtml> Acesso em: 22 jul. 2011. PAGANOTTI, Ivan. RATIER, Rodrigo. PNE 2011-2020: uma nova chance para velhas necessidades. Portal Nova Escola. ed. 240, mar. 2011. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/planejamento-efinanciamento/pne-2011-2020-nova-chance-velhas-necessidades-621968.shtml>. Acesso em: 22 jul. 2011. PAIVA, V. P. História da Educação Popular no Brasil. Educação popular e educação de adultos. 6. ed. São Paulo : Edições Loyola, 2003. 529p. PELLEGRINI, Ieda; ESPÍNDOLA, Karen; CORREIA, Mariana. Alternativas didáticas atuais na EJA/EAD. Consciência com o mundo. Rio Grande do Sul. (s.d.). Artigo. Portal Senac. Disponível em: <http://www.senacead.com.br/anais/encontro08/leda_1220979360.pdf>. Acesso em: 21 jul. 2011. PELUSO, Antonio Cezar (org.) As Constituições do Brasil. Colaborador José Roberto Neves Amorim. Barueri, SP : Manole, 2011. 46 RODRIGUES, Rubens Luiz. Estado e políticas para a educação de jovens e adultos: desafios e perspectivas para um projeto de formação humana. In: Encontro nacional de didática e prática de ensino. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, 15., 2010, Belo Horizonte : Autêntica, 2010. 771p. SOARES, Leôncio José Gomes. A Educação de Jovens e Adultos. Momentos históricos e desafios atuais. Presença Pedagógica. v. 2, n.11, p. 27 a 35, set./out. 1996. ______. Formação de educadores: a habilitação em EJA nos cursos de Pedagogia. In: Encontro nacional de didática e prática de ensino. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, 15., 2010, Belo Horizonte : Autêntica, 2010. 771p. VARGAS, Sonia de. Educação de jovens e adultos: discutindo princípios pedagógicos. In: MOREIRA, Antonio F. B., ALVES, Maria Palmira C. A., GARCIA, Regina L. (orgs.). In: Currículo, cotidiano e tecnologias. Araraquara, SP : Junqueira& Marin, 2006. 216p. VÓVIO, Claudia Lemos. Formação de educadores de jovens e adultos: a apropriação de saberes e práticas conectadas à docência. In: Encontro nacional de didática e prática de ensino. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente: políticas e práticas educacionais, 15., 2010, Belo Horizonte : Autêntica, 2010. 771p.