MATERIAL DIDÁTICO E O PROCESSO DE COMUNICAÇÃO NA EAD
Maria Lúcia C. Neder
Como vimos no módulo I, ao refletirmos a respeito da EAD, temos que,
primeiramente, focar a essência, aquilo que é substantivo, isto é, não são as
características, o adjetivo (ser a distância, presencial, semi-presencial, modular) que
deve ser o centro de nossa ação, mas sim a compreensão de que estamos fazendo
educação. É importante, antes de qualquer outra consideração, que tenhamos
consciência de que estamos construindo uma prática educativa. A EDUCAÇÃO é a
essência e deve ser compreendida como prática social que, em interface com outras
práticas, contribui para a construção de significados culturais, reforçando e/ou
conformando interesses sociais e políticos.
Silva (1996) afirma que a educação, o currículo, a pedagogia estão
envolvidos numa luta em torno de significados. Esses significados são construídos a
partir de relações estabelecidas entre os sujeitos da prática educativa, através da
organização e desenvolvimento do currículo.
A forma e o modo pelo qual o currículo é organizado merecem, também,
atenção especial. Tanto conteúdo como forma, afirma Apple (1989), são construções
ideológicas. A modalidade ou a forma de organização curricular não pode e não deve ser
pensada ou discutida isolada das discussões políticas, isto é, dos processos de
significação que se quer ou se deseja construir através da educação.
A Educação a Distância, como uma modalidade de organização e
desenvolvimento de currículo educacional, não deve ser reduzida apenas a
questões metodológicas ou a possibilidades de uso de novas tecnologias da
informação e da comunicação (TIC). Deve ser vista sempre como parte de um
projeto político que vincule a educação com a luta por uma vida pública na qual o
diálogo, a tolerância e o respeito à diferença estejam atentos aos direitos e
condições que organizam a vida pública como uma forma social justa e democrática.
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Você concorda com a nossa posição de que a essência é a
EDUCAÇÃO e não as características da modalidade A DISTÂNCIA?
Você já havia pensado sobre isso?
As instituições escolares têm necessidade, conforme Silva (2000), de se
apresentarem como um espaço de educação, ao invés de um “lócus” de distribuição
de saber-produto a clientes consumidores.
Um espaço de educação deve pressupor a construção de uma prática
que possibilite aos sujeitos da ação educativa compreender criticamente a realidade
social em que se inserem, com vistas a uma participação ativa nessa realidade.
É importante que comecemos a refletir, a partir de agora, sobre a
importância do material didático no desenvolvimento de projetos de
EAD.
Qual é, na sua opinião, o papel dos materiais didáticos em
projetos desenvolvidos na modalidade a distância?
Acompanhe nossa reflexão a respeito.
Para pensarmos sobre material didático faz-se necessário primeiro que
pensemos que estamos participando da construção de um projeto educativo. A
educação deve ser concebida como uma prática social, que acontece na e da
relação de sujeitos historicamente situados e que, a partir dessas relações, se
constroem sentidos que interferirão diretamente na vida das pessoas e na vida
social.
Isso pressupõe uma compreensão de educação como um sistema aberto,
não só voltado para a transmissão e transferência de conhecimentos, que implica
processos transformadores que decorrem da experiência de cada um dos sujeitos
da ação educativa.
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Essa compreensão implica também pensar no estudante não mais como
um ser passivo, receptor de mensagens enviadas pelo professor, seja através de
materiais didáticos, seja através de aulas expositivas presenciais.
Se entendermos a educação como uma prática social de construção de
sentidos pelos sujeitos que delam participam, a autonomia do estudante passa a ser
um dos ideais da ação educativa. Ele deve ser estimulado a ser ativo no processo
de construção do conhecimento, principalmente quando se tem presente que o
mundo contemporâneo, em que o conhecimento evolui de forma incontrolável, exige
uma educação voltada para a autonomia do aprendiz, o que implica uma
metodologia do aprender a aprender.
A EAD, por suas peculiaridades, sobretudo em relação a mediatização das
mensagens pedagógicas, coloca-se como uma modalidade em potencial para o
desenvolvimento dessa autonomia que se quer do aprendiz.
Mediatizar, na perspectiva do processo educacional, significa, segundo
Belloni (2001):
conceber metodologias de ensino e estratégias de utilização de
materiais de ensino/aprendizagem que potencializem ao máximo as
possibilidades de aprendizagem autônoma. Isso inclui desde a
seleção e elaboração de conteúdos, a criação de metodologias de
ensino e de estudo, centradas no aprendente, voltadas para a
formação da autonomia, a seleção dos meios mais adequados e a
produção de materiais, até a criação de estratégias de utilização de
materiais e de acompanhamento do estudante de modo a assegurar
a interação do estudante com o sistema de ensino (BELLONI, 2001.
p. 26).
Como uma modalidade de ensino e de aprendizagem mediatizada, a EAD
deve considerar os dois principais componentes, destacados por Belloni (2001), de
uma nova pedagogia: a utilização cada vez mais das tecnologias de produção,
estocagem e transmissão de informações, por um lado, e, por outro, o
redimensionamento do papel do professor. Este tende a ser amplamente
mediatizado: como produtor de mensagens inscritas em meios tecnológicos,
destinadas a estudantes a distância, e como usuário ativo e crítico e mediador entre
estes meios e os alunos.
A EAD, para Belloni (1999), usa a tecnologia como forma de mediatizar o
processo de ensino e de aprendizagem. Embora todo processo educativo seja
mediatizado, visto que há necessidade de se “traduzir” as mensagens pedagógicas,
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a autora argumenta que a EAD tem que potencializar as virtudes comunicacionais
do meio técnico a ser utilizado, no sentido de oportunizar ao estudante realizar sua
aprendizagem de modo autônomo e independente.
Deste modo, a EAD pode contribuir significativamente não só para a
transformação dos métodos de ensino e da organização do trabalho pedagógico,
mas também para a utilização adequada das tecnologias de mediatização da
educação, implicando, nesse caso, uma redefinição da comunicação nos processos
educacionais.
Que tecnologias da comunicação e informação você poderia
utilizar em sua instituição no desenvolvimento de um projeto
de Educação a Distância e qual a importância delas no
contexto do curso que você participa?
Com certeza você destacou a comunicação como um dos elementos
essenciais que podem ser garantidos pelas TIC, não é mesmo?.
A comunicação constitui-se um dos elementos centrais na EAD, tendo em
vista, sobretudo, a relação professor-aluno, que não se estabelece mais face-a-face,
mas sim pela mediação de textos, veiculados pelas tecnologias da informação e da
comunicação.
A educação a distância pode possibilitar, ainda, aquilo que Belloni (2001,
p. 12) denomina de “educação para as mídias”, cujos objetivos dizem respeito à
formação do usuário ativo, crítico e criativo de todas as tecnologias de informação e
comunicação.
Ela deve ser pensada, pois, como um modo privilegiado de “educar para a
comunicação”
Educar para a comunicação é, segundo Costa (1993), orientar para
realizar análises mais coerentes, complexas-completas e, ao mesmo tempo, ajudar
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a expressar relações mais ricas de sentido entre as pessoas. É uma educação que
gera novas relações simbólicas e novas expressões do ser social.
Um dos maiores desafios que o professor enfrenta hoje na construção de
sua prática pedagógica, conforme Silva (2000), é modificar a comunicação, no
sentido
da
participação-intervenção,
da
bidirecionalidade-hibridação
e
da
permutabilidade-potencialidade. O papel de transmissor de conhecimento deve ser
modificado para o de disponibilizador de domínios de conhecimento e de ambiência
de aprendizagem que garanta a liberdade, a pluralidade, a escolha, a intervenção.
Você saberia explicar o que seria essa bidirecionalidade-hibridação
proposta por pelo autor acima citado?
O conhecimento, nessa perspectiva deixa de ser “algo” a ser doado, para
ser compreendido como um processo de busca, de análise, de explicação de
fenômenos e situações da realidade, que se constrói na/da interação de sujeitos da
prática social.
No espaço educacional, o professor (interlocutor), um dos sujeitos
envolvidos na construção curricular, deve possibilitar, ao invés de uma prática
educativa unidirecional, uma prática alicerçada na bidirecionalidade, na participação
livre e plural das subjetividades.
De uma modalidade comunicacional unidirecional passa-se, portanto, a
uma modalidade interativa.
Você saberia identificar as características de uma modalidade
comunicacional unidirecional e de uma modalidade comunicacional
bidirecional? Qual a principal diferença entre elas? Veja se sua
resposta está adequada à definição proposta a seguir.
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A
modalidade
comunicacional
unidirecional
tem
como
principais
características, segundo Silva (2000, p. 73):
A mensagem se apresenta de modo fechado, imutável, linear e seqüencial;
O emissor busca atrair o receptor (geralmente por imposição) para seu
universo mental;
O receptor é compreendido como ser assimilador passivo;
A modalidade comunicacional interativa apresenta-se com as seguintes
características:
A mensagem é modificável, em mutação, na medida em que responde às
solicitações daquele que a manipula;
O emissor, “designer de software”, constrói uma rede ( não uma rota) e define
um conjunto de territórios a explorar; ele não oferece uma história a ouvir,
mas um conjunto intrincado (labirinto) de territórios abertos a navegações e
dispostos a interferências, a modificações;
O receptor manipula a mensagem como co-autor, co-criador, verdadeiro
conceptor.
De uma teoria de comunicação em que a mensagem é um conteúdo
informacional fechado, o aluno/leitor é considerado um ser passivo, sem liberdade
de modificar ou interferir na mensagem e o emissor é autoritário, deve-se avançar
para uma teoria da comunicação que tenha como princípios de sustentação a
interatividade e a interação.
Na comunicação interativa compreende-se o caráter ativo e participativo
do sujeito (receptor) na ação comunicativa, o que modifica sensivelmente o papel e
função do sujeito (emissor). Além disso, a mensagem (texto) passa a ser também
compreendida como uma unidade de significação que só se instaura quando da
interação entre autor (emissor) e leitor (receptor).
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Interação
e
interatividade
são
dois
conceitos
fundamentais
quando se discute processos de comunicação. Qual é a sua
compreensão a respeito desses termos. Tente conceituá-los em
seu caderno de anotações, antes de ver a opinião de alguns
autores sobre isso. Após, leia o texto nº1 do SABER MAIS.
Possari (2002) compreende por interação o processo pelo qual
interlocutores “inter-agem” e decorrem daí os efeitos de sentido. Interlocutores são
entendidos como os dois pólos de qualquer situação de comunicação (verbal, nãoverbal,
mediada
por
tecnologias).
Os
interlocutores
constroem
sentidos
conjuntamente.
A interatividade, por seu lado, seria o processo que permite a co-autoria
entre emissor e receptor, oportunizando a este último transformar-se, a partir de
suas ações, em co-produtor de sentidos. Equivale dizer que o leitor pode e deve
interferir no texto do produtor.
Silva (2000), referindo-se à interatividade destaca dois componentes
lexemáticos: um deles significaria “entre” e, o outro, significaria relação recíproca. Na
interatividade está prevista a possibilidade de interferência, de modificação, de
escolha de caminhos nos processos de significação.
A modalidade interativa, como destaca Possari (2002), pressupõe: um
emissor que constrói uma rede, um conjunto de possibilidades a explorar, oferece
um conjunto intrincado de lugares dispostos à interferência e às modificações; uma
mensagem (texto) modificável; um receptor, ativo, que se coloca como co-autor no
processo da interlocução.
Orlandi (1993), trabalhando a questão da autoria no processo de
produção de textos, argumenta que a escola deve propiciar a passagem do
enunciador/autor (perspectivas que o eu constrói no discurso), de tal forma que o
aprendiz possa experimentar práticas que façam com que ele tenha controle dos
mecanismos com os quais está lidando quando escreve.
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Possari e Neder (2001), concebem texto como:
Texto é qualquer unidade de sentido. São todas as formas (unidades de
significação) que são utilizadas para interação entre sujeitos: a pintura, a
música, a charge, o gibi, o texto escrito poético, a dissertação, a música,
a fotografia, o vídeo, o cinema, a escultura, etc).
Textos são construções simbólicas que podem materializar-se em
qualquer suporte: a televisão, os CD-ROM, o rádio, a Internet (APARICI, 2000).
Pensando-se na prática da leitura, enquanto processo que permite a
interlocução entre autor/leitor, Orlandi (1993) assim se posiciona:
Se se deseja falar em processo de interação da leitura, eis aí um
primeiro fundamento para o jogo interacional: a relação básica que
instaura o processo de leitura é o do jogo existente entre um leitor
virtual e o leitor real. É uma relação de confronto. O que, já em si, é
uma crítica aos que falam em interação do leitor com o texto. O leitor
não interage com o texto (relação sujeito/objeto), mas com outro(s)
sujeito(s) (leitor virtual, autor, etc). A relação, como diria Schaff (em
sua crítica ao fetichismo sígnico, 1966), sempre se dá entre homens,
são relações sociais; eu acrescentaria, históricas, ainda que (ou
porque) mediadas por objetos (como o texto). Ficar na “objetalidade”
do texto, no entanto, é fixar-se na mediação, absolutizando-a,
perdendo a historicidade dele, logo, sua significância (ORLANDI,
1993. p. 9)
Acedo (2000), trabalhando o conceito de interatividade em texto
multimídia, chama de comunicação bancária aquela em que se utiliza os meios de
comunicação para se transmitir ao usuário uma série de conteúdos conceituais, com
um esquema de comunicação unidirecional.
Nesse modelo comunicativo, existe um emissor, um receptor e uma
mensagem, que é a informação que se transmite. O receptor tem que traduzir a
mensagem.
Nesse caso, Acedo argumenta que não existe a verdadeira comunicação
já que o receptor não participa ativamente. Alguém transmite conteúdos. A
informação se dá de um lado só. É o modelo de comunicação unidirecional.
Na Comunicação, com uso de meios técnicos (TV, computador, etc.),
Acedo afirma que se está falando em comunicação mediada, que deve ser:
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- intencional: terá que estar presente tanto no emissor
como no receptor, de tal forma que os produtores e
usuários se convertam em emissores e receptores ao
mesmo tempo;
- multisensorial; onde não haverá emissor e receptor,
mas sim produtores e usuários, situando-se ambos no
início do esquema, pois os dois são responsáveis por
originar mensagens.
Nesse modelo de comunicação multidirecional, deve-se conceber,
portanto,
os
sujeitos
da
ação
comunicativa
como
interlocutores,
com
responsabilidade de produzirem significados.
O interlocutor (receptor) é concebido como protagonista da construção
dos
processos
de
significados,
portanto
autônomo
e
ativo
na
relação
comunicacional.
Pensar o processo de comunicação, na perspectiva da relação
comunicacional,
portanto
de
comunicação
interativa
ou
multidirecional,
é
imprescindível para qualquer modalidade educativa, sobretudo quando essa
modalidade é a EAD.
Conceber a comunicação, a partir desses pressupostos, é pensá-la de
forma redimensionada, dinâmica, em processo.
O professor, numa modalidade comunicacional redimensionada, tem que
considerar a participação (a co-autoria) nos processos de significação que são
instaurados no espaço escolar. Ele deixa de ser simplesmente um transmissor de
conhecimento para ser um organizador de situações de aprendizagem, alguém que
busca disponibilizar múltiplas situações que permitam a intervenção do interlocutor.
Como um dos interlocutores privilegiados no processo da construção cabe ao
professor possibilitar ao aluno (receptor) constituir-se também autor (emissor), crítico
e criativo, de novos textos, ao mesmo tempo em que se constitui, ele próprio,
também em um aprendiz. É um processo de troca, de diálogo.
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Qual é a importância de mudança de paradigma na compreensão do
processo de comunicação, quando tem-se em vista a educação a
distância?
Uma
das
características
fundamentais
da
EAD,
como
vimos
anteriormente, é ser um processo de ensino e de aprendizagem mediatizado,
sobretudo pelo uso de tecnologias da informação e da comunicação.
Paradoxalmente, a educação a distância só pode se desenvolver se não
houver “distância” entre os sujeitos da prática educativa. Essa “não-distância” diz
respeito ao processo de interlocução, diálogo permanente, que deve ocorrer entre os
envolvidos na prática educativa, mesmo que não ocupem o mesmo espaço físico em um
tempo real.
Na tentativa de recuperação de algumas reflexões sobre a temática
tempo/espaço, invocamos Santos (1997), que afirma que o tempo só existe em relação
a uma subjetividade concreta e, por isso, é o tempo da vida de cada um e da vida de
todos e o espaço é aquilo que reúne a todos, em suas múltiplas possibilidades.:
diferentes de uso de espaço (território) relacionado com possibilidade de uso de tempo.
É o viver comum, segundo Santos, que se realiza no espaço. Esse espaço seria, então,
o “locus” onde são construídos os significados sociais, culturais, a partir dos processos
de interlocução, de compartilhamento, de diálogo, de troca entre sujeitos relacionais,
situados historicamente.
Toda forma de interação, segundo Possari (2001), se dá por um processo
de mediação simbólica. O signo/símbolo poderá ser verbal: oral ou escrito; não
verbal: sonoro/musical; visual: estático, dinâmico etc.
Nos processos de interlocução a distância, os efeitos de sentido,
significação, que são atribuídos aos textos (verbais ou não-verbais), devem ser
preocupação fundamental. É o leitor/aluno que, com sua história de vida e de leituras,
atribuirá sentidos aos textos selecionados e/ou produzidos pelo professor.
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Como para a EAD os processos de significação são materializados em textos
de diferentes natureza e propósitos, a seleção ou produção de textos para o processo
educativo requerem uma compreensão no âmbito de suas dimensões sóciocomunicativa e semântico-conceitual, conforme VAL (1993).
Além disso, na escolha de um determinado tipo de texto, estar-se-ão
escolhendo também os meios de veiculação desses textos, o que implica um pouco de
conhecimento sobre essa questão.
A
comunicação
é
um
dos
elementos
fundamentais
no
desenvolvimento da EAD, como você viu na discussão feita até
aqui. Por isso, gostaríamos que você refletisse um pouco mais
sobre esse assunto, produzindo um texto, conforme a solicitação
proposta na seção atividade. Não se esqueça que o FÓRUM é o
espaço para nossas reflexões
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