INFORME-SE
ÁREA DE ASSUNTOS FISCAIS E DE EMPREGO - AFE
nº 34 – dezembro 2001
GOVERNO ELETRÔNICO
COMPRAS ELETRÔNICAS (B2B e B2G/G2B):
alguns conceitos básicos e exemplos
O uso das novas tecnologias da informação e da comunicação tem possibilitado que várias tarefas sejam
realizadas, por empresas e governos, de modo mais ágil, transparente e eficiente. Uma das atividades onde
isto é mais visível é a aquisição de bens e serviços.
Os sistemas de e-procurement envolvendo relações entre firmas (B2B) passaram de sistemas eletrônicos
privados dedicados de troca de dados que ligavam, com altos custos, algumas firmas a alguns clientes e
fornecedores, para sistemas baseados no protocolo Internet, mais abertos e baratos. O estágio mais
avançado desse processo é a criação de bolsas eletrônicas, onde são realizados leilões reversos por meio da
Internet, para a aquisição dos mais variados tipos de bens e serviços.
Este é o primeiro de uma série de informes que trata de compras eletrônicas, com o objetivo de contribuir
para a discussão sobre o tema e a escolha das melhores estratégias para a introdução destes sistemas nas
compras realizadas pelo setor público. O informe discute alguns conceitos e modelos, além de mostrar como
as compras eletrônicas permitem redução de custos, ganhos de eficiência e maior transparência.
INTRODUÇÃO
As primeiras tentativas de analisar as grandes
transformações introduzidas pela Internet nas
relações de troca focalizavam, no mais das vezes,
as novas empresas que surgiram vendendo bens e
serviços para o público em geral, como provedores
de acesso e livrarias. Entretanto, começa-se a
observar que o maior impacto causado pelo
comércio eletrônico, na cadeia produtiva e na
economia em geral, deveria ser identificado,
sobretudo, do lado dos chamados B2B (“business
to business”) e G2B (“government to business”).
Em ambos os casos, a Internet permite a utilização
de um tipo de tecnologia relativamente acessível,
rápida e barata, quando comparada com os caros,
complexos e lentos sistemas fechados que
originalmente ligavam firmas com outras firmas.
Esta mudança de paradigma tem permitido que
um número crescente de empresas e, mais
recentemente, de governos reduzam custos e
melhorem a qualidade e a transparência das
compras
e
das
relações
com
parceiros,
fornecedores e investidores.
Alguns autores1 estimam que, em 2004, apenas
nos Estados Unidos, as transações o n-line entre
firmas (B2B) alcançarão US$ 1,5 trilhão, dos quais
US$ 600 bilhões referem-se às bolsas de compras
eletrônicas.
Comparativamente,
o
mercado
americano voltado para o comércio do tipo B2C
atingirá, segundo os autores, uma dimensão
correspondente à cerca de US$ 108 bilhões em
2003.
Outros, por sua vez, falam em estimativas para
2004 envolvendo a cifra de US$ 6,9 trilhões para o
comércio eletrônico no mundo, dos quais US$ 3,1
trilhões só nos Estados Unidos, sendo US$ 2,7
trilhõe s em B2B. 2
Scully e Woods (1999: 6).
Informe Setorial de Comércio e Serviços “E-business: o uso
corporativo da Internet” (2000).
1
2
Não reflete necessariamente as opiniões do BNDES. Informativo apenas para subsidiar análises da AFE, sob a
responsabilidade de José Roberto Afonso.
Elaborado por Andréa C. Gomes Fernandes.
Maiores
informações
e
esclarecimentos,
consultar
o
site
do
“Banco
Federativo”
na
Internet
(http://www.federativo.b ndes.gov.br); e-mail: [email protected] ; ou fax. 21.2533-1588.
COMPRAS ELETRÔNICAS
Estas estimativas têm variado muito segundo a
fonte, mas indicam de todo modo um crescimento
exponencial deste mercado. No Brasil, só os sites
de leilões eletrônicos movimentam atualmente US$
600 milhões, e a estimativa é que o mercado
cresça pelo menos dez vezes nos próximos 3
anos. 3
Todos os procedimentos que envolvem a compra
pela rede mundial são chamados de eprocurement.
Pode
ser,
por
exemplo,
homologação, cadastramento de fornecedores,
cotação de preços, seleção ou negociação. Estes
novos
procedimentos
eletrônicos
permitem
combinar compras descentralizadas com um
espaço centralizado de mercado, ao transformar
sites e portais de compras em market-places
virtuais.
Na sua primeira seção, este informe discute
brevemente alguns conceitos e características dos
sistemas de compras eletrônicas. A segunda seção
descreve esquematicamente as principais formas
de transação realizadas nos sites de compras. Em
seguida, nas seções 3 e 4, discutem-se,
respectivamente, os modelos mais freqüentes de
propried ade e remuneração. Finalmente, na seção
5, comentam-se as principais vantagens destes
sistemas de compras.
1- COMPRAS ELETRÔNICAS: O QUE SÃO?
As firmas e governos passam usualmente por
estágios progressivos de incorporação da Internet
aos seus procedimentos de compra. Quando
empresas começam a integrar a Internet na sua
rotina, além da criação de home pages para o
público externo, as primeiras mudanças internas
surgem nas formas de comunicação entre
funcionários.
Em seguida, são alteradas as formas de
distribuição e venda dos produtos, bem como os
canais de comunicação com outras firmas. Na
etapa seguinte, a transformação atinge as relações
com os fornecedores, na aquisição dos diversos
insumos.
Numa etapa posterior, a Internet pode permitir a
participação em portais ou bolsas de compras, nas
quais os preços das matérias-primas e bens
intermediários são determinados de modo
bastante dinâmico.
Processo análogo tende a ocorrer com os
governos. Do ponto de vista interno (isto é, dentro
3 Ver
2
Gazeta Mercantil (9/8/2001).
da administração) e no que concerne à aquisição
de materiais e serviços4, a Internet começa sendo
usada principalmente como meio de comunicação,
interna e externa. Em seguida, os diversos órgãos
e
departamentos
vão
progressivamente
aumentando seu grau de interação, usando
estruturas
baseadas
na
rede
para
compartilhamento de banco de dados e realização
de tarefas comuns. Posteriormente, alteram -se as
relações com fornecedores5, sendo, por exemplo,
criados sites para a divulgação de licitações e
tomadas de preços. E, em um estágio mais
avançado, portais e bolsas de compras são
desenvolvidos.
Em ambos os casos, tecnologias baseadas na
Internet têm substituído a maior parte das
tecnologias
fechadas
que
eram
usadas
anteriormente para ligar as firmas (ou órgãos e
departamentos dos govern os entre si e com seus
fornecedores) por meio de conexões dedicadas,
conhecidas como de tipo EDI (electronic data
interchange), ou troca eletrônica de documentos. 6
Sistemas deste tipo já existem há mais de uma
década, mas dados os seus elevados custos se
restringiam às grandes corporações. Qualquer
empresa, organismo ou governo pode aderir aos
sistemas baseados na Internet, uma rede aberta. E
quanto mais rápida e ampla for a troca de
informações, maior o impacto sobre as diversas
cadeias produtivas.
A discussão sobre modelos e formas de operação
pode ajudar técnicos e autoridades públicas a
decidir sobre as melhores estratégias de seleção e
implantação destes sistemas.
4
Para uma visão geral da evolução dos estágios do governo
eletrônico e suas principais funções, bem como uma descrição
da experiência brasileira recente ver Informes- SF n.° 17 e n.°
20, bem como Fernandes e Afonso (2000).
5 Este Informe se concentra nas transformações provocadas
pela introdução das novas tecnologias da informação e
comunicação nas relações do governo com seus fornecedores,
mas evidentemente o impacto da Internet é provavelmente
ainda mais considerável nas formas de interação entre governo
e cidadãos. Para uma análise interessante sobre questões
suscitada pela e-democracia, ver Holmes (2001, cap. 12).
6
Apesar das vantagens que apresenta, a Internet não deverá
substituir totalmente as conexões dedicadas nas transações
entre empresas e/ou governos. Em alguns casos, por questões
econômicas, técnicas ou de segurança, pode ser
estrategicamente mais interessante continuar com padrões
baseados em EDI. A principal diferença é que no EDI não existe
browser para navegação, como é obrigatório na Internet, e a
aplicação comunica-se diretamente com a outra aplicação.
Sobre o assunto, ver “B2B- A Velha Economia Cai na Rede”,
caderno especial do Valor Econômico (30/11/2000).
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
2- FORMAS DE TRANSAÇÃO NOS SITES DE
COMPRAS ELETRÔNICAS
Uma empresa ou grupo de empresas (ou,
analogamente, um governo ou vários deles
associados) pode desenvolver seu próprio site de
compras, ou pode utilizar um site ou portal
administrado por terceiros. Neste caso, participa
dos
chamados
mercados
virtuais,
onde
compradores e vendedores de diversas empresas
se encontram para negócios. 7
Existem cinco modelos básicos de sites de compras
eletrônicas, segundo a forma mais corrente de
transação correspondente:8
§
Agregadores;
§
Hubs ou centros de negócios;
§
Post and Browse ou negociação uma -auma;
§
Leilões;
§
Sistemas Eletrônicos Auto-executáveis.
Agregadores- Nos sites tipo agregadores, podem
ser encontrados os catálogos de inúmeros
fornecedores em um único lugar e com um
formato padrão. Ao invés de contactar, por fax,
telefone ou correio, uma multiplic idade de
fornecedores potenciais, os compradores podem
se dirigir a um só site para obter informações
sobre produtos e cotações de preços.
Este tipo de site funciona bem para produtos que
têm um preço relativamente reduzido e que são
comprados freqüentemente, mas em pequenas
quantidades. Neste caso, não vale a pena
renegociar preços a cada transação. Do ponto de
vista da formação de preços, sites deste tipo
tendem a ser relativamente estáticos. Contudo,
eles podem evoluir em direção a maior dinamismo
quando passam a oferecer serviços de pedidos de
cotação, ou ainda quando a firma solicita, através
do site, propostas a uma lista de fornecedores,
para produtos específicos, fora dos padrões ou
demandados em quantidades não usuais.
Os agregadores são, em geral, sites voltados para
um setor específico da cadeia produtiva, isto é, são
sites verticais. Além disso, as informações devem
ser padronizadas por técnicos especializados e por
pessoas que dominam a tecnologia.
Nos Estados Unidos, grandes portais como eChemicals
(http://www.e-chemicals.com/)
e
7
8
Ver Conjuntura Econômica (jan/2001: 34).
Scully e Woods (pp. 34 e 73- 91).
3
PlasticsNet (http://www.plasticsnet.com/) ligados à
indústria química, começaram como agregadores,
passando progressivamente a realizar maior
número de transações na modalidade leilão.
No Brasil, com uma economia que por longas
décadas teve de conviver com um ambiente
altamente inflacionário, os catálogos de vendas
nunca foram tão correntes quanto nos Estados
Unidos. Este aspecto da cultura de negócios do
país se reproduz no mundo virtual, onde não são
comuns
sites
que
sejam
exclusivamente
agregadores. As chamadas “fábricas de catálogos”
são ainda relativamente raras no país. 9
Hubs– os hubs são nós para onde convergem
uma vasta gama de ramificações de uma
comunidade de compradores e vendedores. São
centros de negócios que não apresentam apenas a
soma virtual de catálogos de vendas, mas
oferecem anúncios, informações, novidades sobre
produtos, discussões técnicas, etc.
Podem ser verticais (quando são especializados
num só setor produtivo), horizontais (quando
oferecem o mesmo tipo de serviço para vários
ramos industriais) ou diagonais (quando agregam
compradores e vendedores de vários setores
interessados em uma categoria de produto) .
Os hubs podem ter mecanismos de leilões para
itens demandados em larga escala mas não muito
freqüentes, ou, inversamente, leilões que agregam
lotes de compradores para produtos demandados
em pequena escala, mas com grande freqüência.
Neste caso, eles podem ter dispositivos chamados
de “agregadores de demanda”. Eles estocam
ordens de compras, para um mesmo item, de
diversos compradores, que participam juntos de
um único leilão.
Podem também oferecer outros tipos de serviços,
como bolsa de empregos especializados no setor,
seguro, financiamento, etc. A tendência usual é a
expansão dos hubs para grandes portais onde
ocorram outras formas de negociação, como o
leilão reverso.
No
Brasil,
o
site
JewelBrazil
(http://www.jewelbrazil.com.br/) é um exemplo de
hub vertical, que tem espaços de negociação do
tipo post and browse e leilão, mas que é antes de
tudo um centro de negócios para o setor de
pedras preciosas. Um grupo de 50 empresas de
capital nacional criou o portal que se assemelha a
outros já em operação no mundo como o
Thai.Gem ( http://www.thaigem.com/) e Jnet.com
9
Ver “Os Entraves ao crescimento dos negócios na web”
(Gazeta Mercantil, 27/9/2001).
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
(http://www.jnet.com/). Existem muitos outros em
diversos setores. 10 Outro exemplo de hub vertical é
o portal (http://www.totalchem.com.br/), voltado para
a indústria química.
Um exemplo de hub horizontal brasileiro é o
Mercado
Eletrônico
(http://www.mercadoeletronico.com.br/), que também
oferece mecanismos de transação mais complexos,
mas que funciona basicamente como centro de
negócios, trazendo, de modo padronizado,
catálogos, cotações de preços, tomadas de preços,
ratings de firmas, serviços de logística, de
auditoria, de compras conjuntas, notícias,
anúncios, etc, para vários setores diferentes da
economia.
Post and Browse ou negociação uma-a-umaEstes sites são basicamente uma sala de encontro
para compradores e vendedores pré-qualificados
que iniciam as negociações anonimamente, mas
concluem o contrato através de comunicação
direta.
Nesta modalidade, compradores e vendedores
enviam para o site mensagens expressando o
interesse em comprar ou vender uma determinada
categoria de produto. Depois do encontro através
do site, as partes continuam a negociação entre si.
Apenas membros previamente autorizados podem
participar do sistema.
Nos grandes portais deste tipo, a Internet
possibilita que compradores e vendedores de todo
o mundo participem o n-line. Este é o mecanismo
indicado para mercados muito fragmentados, com
produtos que não podem ser padronizados e que
envolvem contratos de compra e venda muito
específicos. Muitas vezes, a própria Internet acaba
contribuindo para a organização destes mercados,
que vão progressivamente se movendo para
contratos mais padronizados que possam ser
tratados de modo mais automatizado.
Este modelo tem funcionado bem, por exemplo, no
setor de resseguros, onde cada contrato envolve
riscos muito específicos. Nestes casos é muito
difícil preparar contratos padronizados que possam
ser negociados automaticamente, mas é possível
expressar, numa fase inicial, anonimamente,
intenções de compra ou venda de seguro de uma
determinada categoria. Bons exemplos deste tipo
de mecanismo de post and browse são os portais
americanos
Catex
(http://www.catex.com/)
e
CreditTrade (http://www.creditrade.com/ ) O primeiro
especializado em seguros, e o segundo, em
derivativos.
10 Ver
4
Gazeta Mercantil, 13/9/2001.
Como nos outros casos, em torno do mecanismo
principal
de
negociação,
vão
sendo
progressivamente agregados outros tipos de
serviço, como informação sobre os produtos,
suporte jurídico, serviços de certificação e
auditagem, entre outros.
Leilões- Talvez uma das grandes inovações
introduzidas pela Internet nas transações das mais
variadas
cadeias
de
suprimento
seja
a
possibilidade de realizar leilões virtuais, nas quais
não se exige a presença física de compradores e
vendedores, com relativa facilidade operacional,
em pouco tempo e com custos bastante reduzidos.
Podem-se dividir os leilões em dois grandes
grupos: os leilões de compradores e os leilões de
vendedores. 11
No primeiro grupo, os vendedores anunciam, na
Internet, a lista de itens que estão à venda, e os
compradores competem entre si para apresentar a
maior proposta de preço. A vantagem da Internet,
nesse caso, é que ela permite atingir um número
muito maior de potenciais compradores. Pequenos
e médios empresário s, por exemplo, que teriam
dificuldade para estar presentes fisicamente em
leilões em outra região, podem participar deste
modo.
O sistema funciona muito bem para produtos
únicos e diferenciados, mas que ao mesmo tempo
possam ser facilmente identificados. Ele tem sido
muito usado para liquidar excesso de estoque e
também para vender sucata.
Um exemplo deste tipo de leilão no Brasil é o
Supermaterial,
( http://www.supermaterial.com.br/)
voltado para o setor de materiais e equipamentos
pesados. Com este tipo de leilão on-line, uma
alternativa se abre para os chamados materiais
inservíveis- como sucatas de cobre e zinco e
máquinas
paradas- das
muitas
empresas
espalhadas pelo país. A Internet pode permitir, por
exemplo, que empresários da região norte, por
questões logísticas, acabem se interessando por
lotes específicos, participando de leilões, que antes
se concentravam na região sudeste, porque
exigiam a participação física dos interessados. 12
O segundo tipo de leilão é o chamado leilão
reverso. Neste caso, o preço tende a cair ao longo
do tempo, na medida em que se aproxima o final
do leilão. Este tipo de leilão favorece claramente
os compradores. Estes declaram, no site, o que
11
Para uma classificação mais extensa dos diversos tipos de
leilão e exemplos deles nos Estados Unidos, ver The Auction
Model (Wyld: 2000).
12 Ver Gazeta Mercantil (9/8/2001).
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
querem adquirir, e os vendedore s competem entre
si para proporem o menor preço.
Normalmente, os itens a serem leiloados são
divididos em lotes, e o número suficiente de
fornecedores é admitido para que haja de fato
algum grau de competição. Quase sempre, há um
algum mecanismo de pré-seleção dos fornecedores
realizado pelo site ou portal, para dar alguma
garantia de que poderão efetivamente honrar os
lances
dados.
Freqüentemente,
instituições
financeiras também participam das operações,
fazendo seguros e dando garantias.
Estes sites são apropriados para commodities, que
podem ser perfeitamente especificados e para os
quais existe um grande número de potenciais
fornecedores.
Como nos outros modelos, estes sites também
costumam oferecer uma vasta gama de serviços
complementares, para um setor específico (tipo
vertical), ou para setores diferentes da economia
(tipo horizontal).
Nos Estados Unidos, um grande portal do primeiro
tipo é o e-steel voltado para o setor metalúrgico, e
do
segundo,
é
o
FreeeMarkets
(http://www.freemarkets.com/) onde são negociados
quase 200 tipos de bens e serviços. Outro exemplo
de
peso
é
o
VerticalNet
(http://www.verticalnet.com/), que tem mais de 60
tipos de marketplaces em setores que vão desde a
indústria aeroespacial ao setor de tratamento de
resíduos sólidos.
Sistemas Eletrônicos Auto-executáveis- Este
modelo
se
caracteriza
por
combinar
automaticamente, em base contínua, as intenções
de compra e venda. Nestes sistemas acontecem o
tempo todo leilões bi-direcionais, com um grande
número de compradores e vendedores, gerando
um processo de formação de preços totalmente
dinâmico.
As propostas de ofertas e as demandas de cotação
podem ter um preço limite fixo ou serem
determinados totalmente pelo mercado.
O sistema verifica que ordens foram recebidas e
verifica se é possível encontrar imediatamente
contra-ordens correspondentes. Caso contrário, ele
estoca
as
ordens,
até
que
surja
uma
contraproposta equivalente. Em geral, este tipo de
sistema dá prioridade ao melhor preço, e , no caso
de preços iguais, o que vale é a ordem de chegada
das propostas.
Este tipo de sistema é apropriado para apólices,
letras de câmbio, certificados de depósitos,
5
debêntures e outros títulos negociáveis, bem como
para qualquer outro tipo de papel ou mesmo bem
ou serviço que seja totalmente padronizado e que
tenha alta liquidez. 13
Uma grande vantagem da Internet para este tipo
de transação é que para estes sistemas é
relativamente fácil manter a anonimidade dos
usuários. Em mercados muito líquidos e voláteis,
esta é uma característica importante, pois
conhecer a identidade de quem está comprando
ou vendendo pode afetar significativamente os
preços.
No Brasil, uma tentativa importante de trazer para
os meios ele trônicos as operações de balcão é o
Sisbex- Sistema de Negociação de Títulos Públicos
e Outros Ativos da Bolsa de Valores do Rio de
Janeiro (http://www.bvrj.com.br/). Desde agosto o
Sisbex foi ampliado para permitir também
negociações eletrônicas de câmbio e registra
atualmente um giro diário de 25% do volume
total.
Existem ainda dois outros importantes sistemas em
operação no país: o mercado de derivativos da
BM&F (http://www.bmf.com.br/) e o Megabolsa da
Bovespa
( http://www.bovespa.com.br/).
Vale
ressaltar que no caso da BM&F. o sistema GTS (de
Global Trading System) é uma plataforma
eletrônica por meio da qual os associados da Bolsa
podem operar eletronicamente todos os mercados
por ela oferecidos à negociação, além de oferecer
interligação com outras bolsas para negociação de
produtos disponíveis na rede
internacional
formada por diversas bolsas e chamada de Aliança
Globex. São ela s: Chicago Mercantile Exchage,
Paris Bourse, Montreal Exchange, Singapore
Exchange-Derivatives Trading e MEFF (espanhola).
Recentemente, foi criada a Bolsa Transcontinental
de
CommoditiesTransmerx
(http://www.transmerx.com.br/). As transações desta
bolsa de mercadorias são totalmente via Internet.
Trata-se da primeira bolsa digital de commodities
no mundo, e as empresas participantes poderão, a
partir de fevereiro de 2002, comercializar desde
sementes até ações de seqüestro de carbono para
empresas poluidoras. 14
13
Figueiredo e Fachada (2001) lembram que nos Estados
Unidos as transações eletrônicas de câmbio, já representavam,
em junho de 2001, cerca de 87% do volume transacionado, ao
mesmo tempo em os sistemas totalmente eletrônicos
represen tam uma fatia crescente de transações, especialmente
no mercado de derivativos, onde correspondem a 25% dos
negócios, e no mercado de ações, particularmente para os
papéis listados na Nasdaq.
14
A bolsa está no momento em fase de implantação e venda de
títu los patrimoniais. A operação da Transmerx só é feita através
de seus sócios membros autorizados (sócios patrimoniais).
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
O portal Transmerx oferta, negocia, vende,
registra, transfere e liquida contratos mercantis e
suas frações, certificados, títulos, obrigações, etc.
Além das garantias das firmas vendedoras e
compradoras operando na bolsa, também
participarão nas garantias do sistema Transmerx
seguradoras
e
resseguradoras,
sociedades
corretoras e outras instituições financeiras
garantidoras. O sistema de garantias cobrirá
operações de curto, médio e longo prazos nos
negócios do mercado interno e nas exportações.
O desenvolvimento de sistemas eletrônicos de
negociação tem conseqüências importantes,
especialmente para o setor financeiro. Diversos
estudos de bancos centrais e órgãos supervisores
apontam como sendo as principais:15
§
geram menores custos de transação que
aqueles
referentes
aos
sistemas
tradicionais;
§
são mais eficientes comparados os
percentuais de ordens executadas e o
tempo médio de execução;
§
facilitam a supervisão por bancos centrais
e órgãos de controle;
§
reduzem o risco da contraparte central, ou
seja, as liquidações são protegidas por
câmaras, praticamente eliminando o risco
de crédito e alavancando os volumes de
negócios.
Sobre este ponto, vale lembrar que a introdução
do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), em
abril de 2002, deve ampliar os volumes
transacionados por favorecer as transações
eletrônicas no país, pois o sistema passará a ser
protegido por câmaras de ativos, mitigando o risco
de crédito. 16
3- MODELOS DE PROPRIEDADE 17
Quanto a quem é o proprietário do portal ou das
bolsas de compra e quem pode negociar nelas,
podem-se distinguir quatro modelos básicos de
propriedade:
15
16
§
de um só grupo de usuários, com número
de sócios limitados;
§
de múltiplos grupos de usuários e com
subscrições abertas;
Ver Figueiredo e Fachada (2001).
Para
maiores
informações
sobre
o
SPB,
§
de um ou mais investidores, com adesão
aberta;
§
do governo.
Em geral, todos os portais ou bolsas de compra
têm alguma forma de pré-seleção ou préqualificação dos participantes. Os critérios podem
ser, por exemplo: estar em dia com o fisco, a
previdência, a legislação trabalhista; ter um
determinado
montante
de
capital;
ter
determinados
certificados,
etc.
Esta
préqualificação vai depender basicamente do tipo de
modelo de propriedade e acesso.
No primeiro caso, portais ou bolsas de compras
pertencentes a um grupo de usuários com acesso
restrito, novos membros geralmente têm de
comprar uma participação no negócio, como um
“assento” ou título de clube. Também é comum,
algumas firmas de um determinado setor se
juntarem para realizar conjuntamente suas
compras, constituindo para isso um portal
unificado. Em ambos os casos, o acesso é restrito
aos proprietários-usuários.
Um outro tipo de portal é aquele em que o acesso
é aberto, ainda que apenas alguns usuários sejam
proprietários. Isto significa que aqueles que usam
o portal ou bolsa de compras não são
necessariamente sócios do negócio, embora quase
sempre tenham de ter uma licença para negociar
no portal e usar os seus serviços.
No terceiro tipo, propriedade de um ou mais
investidores com acesso aberto, a participação nas
negociações também não tem nada a ver com a
propriedade do portal. As duas atividades são
completamente independentes, ainda que muitos
destes negócios tenham se formado a partir da
expertise de alguns consultores especializados em
um determinado setor.
No quarto tipo, a propriedade e, freqüentemente,
a administração são do governo. Neste grupo
podem estar desde os pequenos sites ou portais
de vendas por catálogos que alguns governos
administram para fomentar micro e pequenas
empresas, até as bolsas de valores autoexecutáveis que são propriedades do Estado. No
entanto, os exemplos mais bem sucedidos são as
bolsas de compra governamentais usadas para
aquisições de bens e serviços para os diversos
órgãos e departamentos do governo.
ver
(http://www.bancocentral.gov.br/).
17 Ver Scully e Woods (cap. 5).
6
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
4- MODELOS DE REMUNERAÇÃO18
Os serviços prestados pelas bolsas eletrônicas de
compras
podem
ter
diversos
tipos
de
remuneração. Uma das formas mais comum é a
cobrança de um percentual sobre o valor das
transações realizadas através dos portais.
Em geral, é estabelecida uma taxa mínima, bem
como um teto máximo para o caso de grandes
transações. O problema é que em estágios iniciais
a cobrança de taxas sobre o valor de transações
tende a desencorajar novas adesões aos portais.
Estas taxas também tendem a ser ineficazes no
caso de portais onde prevalecem as negociações
do tipo uma-a-uma (post and browse ). Elas podem
acabar incentivando a prática de usar o portal
apenas para estabelecer contacto, mas contorná-lo
na hora de fechar o contrato. Para evitar este tipo
de dificuldade, muitas bolsas de compra usam o
dispositivo de só revelar a identidade das partes
após elas terem concluído o acordo e comunicado
seus termos de fechamento à bolsa.
Algumas bolsas cobram uma taxa não sobre o
valor transacionado, mas sobre os custos
economizados com o uso do sistema eletrônico.
Este tipo de taxa, contudo, só pode ser calculado
sobre períodos relativamente longos e tende a
diminuir com o passar do tempo.
Outro tipo de remuneração é a taxa de adesão ou
cadastramento e a taxa de manutenção anual ou
taxa de renovação de cadastro. As bolsas podem
ainda ceder espaços publicitários, ou ainda permitir
a difusão de mensagens publicitárias para seus
usuários, quando estes concordam explicitamente
que suas referências sejam cedidas a terceiros.
Também são cobrados os serviços como
hospedagem e difusão de catálogos; taxa para
recebimento de informações, boletins periódicos e
outros serviços afins; bem como serviços de
consultoria e análise de mercado, a partir dos
dados gerados pelo funcionamento das próprias
bolsas.
Finalmente, algumas bolsas são mantidas com
renda gerada pela venda a outras empresas do
software desenvolvido para sua instalação.
Plataformas bem sucedidas podem ser replicadas
em outros mercados, setores ou países, gerando
renda com licenças pelo uso do software .
18
5- AS VANTAGENS DOS
COMPRAS ELETRÔNICAS
SISTEMAS
DE
Hoje em dia, outros meios de comunicação
dificilmente podem competir com a Internet em
termos de tempo e baixo custo na transmissão de
informações. Associado à relativa facilidade de
compartilhá-las através de redes, isto tem gerado
uma redução considerável nos custos operacionais
da aquisição de insumos, que tende a se espalhar
por toda a cadeia produtiva.
O outro grande benefício dos sistemas eletrônicos
de compras baseados na Internet é a possibilidade
de ter associados, ao mesmo tempo, um elevado
grau de descentralização nas decisões de compra e
um espaço único de negociação.
Mercados virtuais não necessitam de instalações
físicas, como o prédio do pregão de uma bolsa de
mercadorias ou de valores, nem da presença física
de compradores e vendedores, para criar um
espaço centralizado de negociações. Por isso,
tendem a ser muito mais competitivos. Permitem
um número maior de participantes, especialmente
de pequenas e médias empresas, que por razões
de custo talvez não tivessem acesso às
negociações.
Ampliam
também
os
limites
geográficos das transações, que muitas vezes
passam a ser mundiais.
Tais mercados geram transparência das transações
e processos de formação de preço mais dinâmicos.
O fato das negociações serem automatizadas e
anônimas faz com que se reduzam as ineficiências
desses mercados. Além disso, os volumes
negociados aumentam expressivamente, e surgem
novos mecanismos de fixação de preços, como os
leilões bi-direcionais auto-executáveis.
Estes sistemas têm também várias vantagens do
ponto de vista da gestão das compras. Eles
facilitam a constituição de históricos de formação
de preços para cada produto e possibilitam uma
gama de informações gerenciais pós-negociação
extremamente út eis em termos de logística. Eles
também
facilitam
a
pré-qualificação
dos
fornecedores e aumentam a neutralidade dos
processos de compras.
A utilização da Internet nas compras tem ainda um
considerável impacto no que tange à organização
interna das empresas, principalmente quanto:
§
integração dos sistemas internos de
transporte, armazenagem e estoque; e
§
difusão de instrumentos de trabalho e
administração.
Ver Scully e Woods (cap. 8).
7
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
COMPRAS ELETRÔNICAS
Com relação a este último ponto, pode-se dizer
que os ganhos de eficiência adicionais são obtidos
com a padronização de contratos, documentos e
produtos como:
Na medida em que o grosso das relações inter e
intra-setoriais passarem a acontecer através destes
portais, daqui para frente qualquer questão
relativa à política industrial e fiscal terá de levá-los
em consideração.
§
tabelas de preços;
§
manuais de procedimentos;
§
cadastro de clientes;
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
§
análise de desempenho de empresas e
suas filiais;
BNDES/SF (2000). “E-Governo: o que ensina
experiência internacional”. Informe -SF, n.17.
§
sistemas de ensino à distância; etc.
BNDES/GESET/SP2
(2000).
E-Business:
corporativo da internet. mimeo.
Para resumir, pode-se dizer que resultado final da
introdução e desenvolvimento de sistemas
eletrônicos de compras em um determinado setor
tem sido menores custos; lucros potenciais
maiores; maior alcance e liquidez do mercado;
menores
requisitos
nos
inventários;
maior
transparência e maior organização do mercado;
eliminação das barreiras geográficas; e remoção
de bloqueios e canais de distribuição.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As compras eletrônicas realizadas por meio de
portais baseados na Internet vêm movimentando
valores expressivos. Elas tendem a se expandir
ainda mais tanto no setor privado quanto no setor
público. Elas afetarão profundamente todos os
setores produtivos da economia, pois a redução
dos custos de aquisição de insumos e de
administração de estoques terá certamente grande
impacto sobre a prod utividade das firmas na
medida em que forem mais e mais integrando os
sistemas de compras eletrônicos.
Estes terão também certamente impacto não
menos expressivo no setor financeiro, não apenas
porque instituições financeiras são chamadas a dar
garantias, assegurar, securitizar e certificar estas
transações, além de prover gateways de
pagamentos eletrônicos, como também, como
também porque, como salientou recentemente um
diretor do Banco Central do Brasil, as evidências
mostram que as formas eletrônicas de negociação
de títulos e ações tornam os mercados mais
transparentes, melhoram a disseminação das
informações e facilitam a supervisão.19
o
a
uso
Conjuntura Econômica (jan/2001). “Comércio EletrônicoVendas pela Internet devem chegar a US$ 76 bilhões em
2004”.
Fernandes, A. e Afonso, J. (2001). “e -Governo no Brasil:
Experiências e Perspectivas”. Revista do BNDES, v.8,
n.15, pp.21-64.
Figueiredo, L.F. e Fachada, P. (2001). “Sistemas
Eletrônicos de Negociação”. Estado de São Paulo,
29/10/2001.
Gazeta Mercantil (13/9/2001). “Cresce o comércio de
pedras preciosas via web”.
Gazeta Mercantil (9/8/2001). “Primeiro Leilão de Sucata
pela Web”.
Gazeta Mercantil da América Latina
“Compra Virtual reduz fraude no México”.
(30/7/2001).
General Service Administration-USA (2001). The Federal
Technology Service Guide to Best Practices for
Conducting Reverse Auctions.
Holmes, D. (2001). e-Gov: e-Business Strategies for
Government. Londres: Nicholas Brealey Publishing.
Scully, A. e Woods, W. (1999). B2B Exchanges. ISI
Publications.
Valor Econômico (30/11/2000). “B2B - A Velha Economia
cai na Rede”. Caderno Especial.
Wyld, D. (2000). The Auction Model: How the public
sector can levarage the power of e-commerce through
dinamic pricing. The PricewaterhouseCoopers.
Prevê que após um período de intensa competição
entre um grande número de start-ups,
a
tendência é que cada setor (inclusive a nível
mundial) acabe concentrando um reduzido número
de portais especializados.
19 Figueiredo
8
e Fachada (2001).
INFORME-SE, nº 34, dezembro 2001
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Governo Eletrônico - Compras Eletrônicas (B2B e B2G