Dez Anos Triunfais circuito citadino mais exigente do mundo e o Campeonato Mundial de Carros de Turismo (WTCC) da FIA, reconhecido pelo seu carácter de entretenimento e ultrapassagens nas corridas, têm provado ser uma combinação vencedora na última década. A famosa Corrida da Guia para carros saloon foi organizado em 1972 pela primeira vez e incorporada no Campeonato Mundial de Carros de Turismo da FIA (WTCC-FIA) na edição inaugural da renovada série em 2005. Essa primeira corrida marcou o compasso do drama que estava para ser desvendado nas edições posteriores, algumas das quais de proporções épicas. Tal acção, inédita, tornar-se-ia quase banal nas provas do referido campeonato em Macau. Andy Priaulx, piloto da BMW, emergiu como o homem da frente nas primeiras competições. Vindo de Guernsey, nas Ilhas do Canal britânicas, Priaulx já tinha uma reputação formidável como piloto de carros de turismo depois de ganhar o Campeonato Europeu de Carros de Turismo (ETCC), prova precursora do WTCC da FIA. Priaulx enfrentou dois distintos adversários na luta pelo título em Macau, em 2005. O colega da BMW, Dirk Müller chegou ao território chinês a defender um ponto de vantagem na classificação por pilotos. Na disputa do título estava também Fabrizio Giovanardi, piloto da Alfa Romeo e várias vezes campeão do ETCC. Ao dar tudo na fase de qualificação para a pole position, Priaulx declarou a sua intenção de ficar à frente no formato obrigatório de corrida dupla. Um acidente na abertura da curva da Polícia acabou com as esperanças de Giovanardi. Cenas memoráveis ocorreram quando Giovanardi tentou regressar às boxes, alheado de que uma das rodas da frente tinha sido arrancada do seu carro. Uma característica dos primeiros anos do WTCC da FIA era a prática dos pilotos em vários carros, em equipas apoiadas pelos fabricantes e que, ocasionalmente, eram chamados para ajudar os companheiros na luta pelo título. Normalmente, estava limitada a uma mudança subreptícia na ordem aleatória dos pilotos. Mas, quando o eixo de transmissão de Dirk Müller partiu na primeira corrida, o companheiro da BMW, Antonio Garcia, foi mais além e empurrou o carro do alemão até à linha de chegada para conservar o décimo posto. Apesar dos esforços de Garcia, os problemas técnicos que afectavam Müller acabaram com as suas aspirações no campeonato. Em cima: Estreia do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo da FIA (WTCC), 2005 (Foto: Suttonimages.com) Da esquerda para a direita: Dirk Müller e Jörg Müller, 2005 (Foto: CGPM) Tricampeão Andy Priaulx, 2006 (Foto: LAT) Italiano Gabriele Tarquini conquista o título, 2009 (Foto: WTCC – FIA) Apesar da BMW ter levantado o troféu, o piloto da Alfa Romeo, Augusto Farfus, acabou com a marca deixada de cinco vitórias consecutivas da BMW no circuito de Macau vencendo a corrida de abertura. O resultado marcou a estreia do brasileiro no campeonato que ao ganhar ficou encantado por imitar o seu herói e compatriota, lenda da Fórmula 1, Ayrton Senna, provando o sabor do sucesso nas ruas de Macau. 61st Macau Grand Prix 47 Sublinhando a rivalidade vigorosa no campeonato, nada menos do que nove pilotos chegaram à prova na disputa da coroa em 2006. Priaulx defendeu o título que detinha, assegurando a glória por apenas um ponto. Mas, para cumprir esse objectivo foi forçado a transcender-se. “Acredito que participei numa das melhores corridas da minha carreira”, revelou. A infame curva do Lisboa foi o cenário para outros contratempos iniciais. O caos que se seguiu levou à convicção de que “a pole-position é o lugar mais seguro para ocupar em Macau”. Priaulx ganhou a primeira corrida beneficiando do “artilheiro” Duncan Huisman, especialista no circuito, que habilmente se desviou da estrela da SEAT, Yvan Muller. Mais tarde, o francês viria a provar as suas credenciais como o melhor piloto do WTCC da FIA, mas na altura corria em Macau pela primeira vez em 15 anos. Priaulx completou uma improvável série de três títulos no ano posterior, mas a era da BMW estava a chegar ao fim. Um novo concorrente chegara na forma devastadora e rápida de um SEAT Leon a diesel. A corrida de abertura originou choques em série. Yvan Muller tinha o campeonato nas suas mãos quando, para desgosto do gaulês, bateu na Curva do Melco a apenas uma volta e meia da chegada. Falha na bomba de combustível e Muller estava fora. Farfus, agora a correr pela BMW, foi promovido a segundo, mas acabou conduzido para fora da estrada na última volta pelo companheiro de equipa de Muller, o italiano veterano da Fórmula 1, Gabriele Tarquini. Huisman, mais uma vez diligentemente, assistiu Priaulx, permitindo-lhe passar a ocupar o oitavo posto na reversão da grelha. O piloto de Guernsey não desperdiçou a oportunidade e venceu a segunda corrida, mais calma. Se houve algum dia para Priaulx tentar a sua sorte nos casinos, este foi o dia. A justiça chegou para Yvan Muller doze meses mais tarde, quando se livrou do desafio do companheiro da SEAT León TDI, Tarquini, agarrando o primeiro dos seus quatro títulos mundiais. Os dois estavam em disputa no clímax da campanha do ano seguinte, mas acabaram por sofrer um começo pouco auspicioso dos seus fins-de-semana marcando encontro no hospital. Muller tinha despistado o seu carro e as suas manobras deixaram a pista envolta numa nuvem de pó. Tarquini chegou ao local em grande velocidade e enfaixouse no companheiro de equipa. “Quando vi o carro, pensei imediatamente que o campeonato tinha acabado”, disse Tarquini. “Mas quando saí do hospital disseram-me: ‘Não te preocupes, vamos reconstruir o carro como novo’”. Nenhum dano sério se verificou. A equipa da SEAT foi fiel à sua palavra e Tarquini compensou o trabalho assegurando o título do WTCC.. 48 61st Macau Grand Prix Não houve efectivamente nenhum confronto no campeonato em 2010. Yvan Muller foi acicatado pela ambiciosa equipa da RML Chevrolet e só tinha de chegar para conquistar o seu segundo campeonato. A Chevrolet já tinha provado o seu valor em Macau. O craque suíço, Alain Menu, venceu corridas em 2007 e 2008, a bordo do modelo Lacetti e, antes, o britânico Rob Huff também conquistou vitórias consecutivas a bordo do substituto Cruze. Após a retirada da BMW e os esforços da fábrica da SEAT, a Chevrolet foi deixada como o fabricante no poder do campeonato. Ainda assim, Muller não tinha tudo a seu favor. Uma crescente rivalidade dentro da própria equipa foi protagonizada por Huff e Menu. Talvez o mais acalorado episódio desta pareceria aconteceu na ronda final de 2012. Chegando a Macau como tetra-campeão, Huff parecia ter o título de bandeja à sua espera. Mas na quarta volta, quando liderava a corrida, o Chevrolet azul de Huff embateu contra uma implacável parede de cimento na zona da colina. “Nunca tinha estado na liderança de uma corrida e deitá-la ao lixo”, lamentou Huff. “E que erro!”. A absolvição surgiu para o britânico na corrida com a grelha invertida. Huff sofreu vários momentos de tensão, incluindo aquele em que se esquivou dos destroços do Chevy conduzido por Alex MacDowall e que foi aproveitado por Muller num acidente na curva do Mandarim a 233 km/h. No entanto, apesar de ter batido, o segundo Cruze sobreviveu para terminar na vice-liderança atrás de Menu e conquistar o título. O ano passado testemunhou o regresso dos bloqueios e bandeiras vermelhas, mas os incidentes não beliscaram a qualidade da condução e das corridas. O WTCC da FIA introduziu os carros ‘TC1’, mais rápidos, antes das bodas de prata do “casamento” entre o campeonato e a Corrida da Guia. Os TC1 têm uma pesada herança atrás de si, mas a acção em Macau é garantida. Em cima, da esquerda para a direita: Yvan Muller, 2010 (Foto: CGPM) O Chevrolet reparado de Huff cumpriu, 2012 (Foto: CGPM) Huff conquista o título, 2012 (Foto: CGPM)