CONTRIBUIÇÕES DA MODELAGEM MATEMÁTICA PARA O ENSINO MÉDIO: ÂNGULO DE VISÃO DAS CORES DO ARCO-ÍRIS Profª. Drª. Vanilde Bisognin UNIFRA [email protected] Prof. Rodrigo Fioravanti Pereira UNIFRA [email protected] Prof. Clandio Timm Marques UNIFRA [email protected] Prof. Claiton Timm Marques UNIFRA [email protected] Resumo Neste artigo objetiva-se descrever uma experiência de sala de aula, realizada na disciplina de Fundamentos de Cálculo do Curso de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática do Centro Universitário Franciscano – UNIFRA, utilizando-se a Modelagem Matemática como metodologia de ensino. O tema escolhido foi o ângulo de visão das cores do arco-íris. Com a utilização dos conceitos de geometria plana, da trigonometria e da física, para o ensino médio, e recursos computacionais foi possível estabelecer os ângulos de visão de todas as cores que compõem o arco-íris. A experiência realizada pode ser utilizada nas aulas de Matemática do Ensino Médio, como proposta didática. Com o resultado da experiência é possível inferir que a Modelagem Matemática, quando utilizada em sala de aula, pode contribuir para a melhoria do processo de ensino e aprendizagem da Matemática. Palavras chave: arco-íris, Modelagem Matemática, Ensino Médio. Introdução A Matemática é uma ciência que está presente no dia a dia de todos os cidadãos. Na natureza ela aparece sempre de uma forma interdisciplinar, principalmente, associada aos fenômenos físicos, químicos e outros. Por outro lado, na escola a Matemática é ensinada de forma desvinculada dos fenômenos que aparecem na natureza, como a questão do arco-íris. Propomos o presente trabalho no sentido de contribuir com a associação da Matemática à vida das pessoas em sala de aula. Nosso objetivo é descrever os resultados de uma experiência concreta realizada na disciplina de Fundamentos de Cálculo, utilizando-se a Modelagem Matemática como metodologia de ensino. O tema escolhido foi o fenômeno físico do arco-íris. A partir do tempo escolhido a pergunta proposta foi a seguinte: quais os ângulos de visão das cores que compõem o arcoíris? Com dados sobre a refração e reflexão da luz, nos meios de condução ar e água, foram obtidos os ângulos de visão de cada uma das suas cores. Modelagem Matemática A Modelagem Matemática é um método de investigação científica oriunda da matemática aplicada e, por isso mesmo, muito antiga. Ela envolve equipes de pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento, sendo que o objetivo maior é encontrar um modelo que descrevesse determinados fenômenos da natureza. A transposição didática desse método de investigação para a sala de aula é recente e tem sido realizada por diferentes pesquisadores preocupados com o processo de ensino e aprendizagem da matemática. Existem várias concepções sobre a modelagem, todas mantendo como base a relação realidade/modelo/realidade. Na expressão de D`Ambrósio (2002) “realidadereflexão sobre a realidade”, ou seja, a criação de um modelo que auxilie o indivíduo no entendimento, criação do modelo e ação sobre essa realidade. Desta maneira, o modelo deve permitir inferências capazes de transformar a realidade. O modelo pode ser encarado como unidade básica da Modelagem Matemática e se caracteriza por abordar um problema inicialmente não matemático, por meio de estruturas matemáticas, a fim de delimitar, entender, resolver e validar o modelo do problema inicial. As pesquisas em Educação Matemática definem Modelagem Matemática sob diferentes perspectivas, quando tratada como uma opção didática da sala de aula. Para Bassanezi (2004, p.16), Modelagem Matemática é “transformar problemas da realidade em problemas matemáticos e resolvê-los, interpretando suas soluções na linguagem do mundo real”. Para Burak (2004), Modelagem é uma metodologia de ensino e o autor descreve os passos que devem ser seguidos: Escolha do tema: em nosso caso o tema escolhido é o fenômeno físico arcoíris. Essa é uma etapa que traz algumas tensões aos alunos/professores, pois, 316 muitas vezes, a tendência é escolher um tema de difícil modelação devido a sua amplitude ou complexidade. Pesquisa exploratória: nessa etapa buscam-se dados para compreender o tema proposto. Em nosso caso, buscaram-se dados e informações na área da física para compreender o fenômeno do arco íris. Levantamento dos problemas: os problemas surgem a partir dos dados e informações obtidos na pesquisa exploratória. Em nosso caso, buscou-se responder a questão: quais os ângulos da visão das cores do arco-íris? Resolução dos problemas e desenvolvimento da matemática necessária para a resolução do problema: ao colocar nessa fase o desenvolvimento da matemática necessária à compreensão do problema proposto, Burak (2004) deixa claro que o conteúdo matemático aparece como uma necessidade para a resolução do problema. Em nosso caso, os conteúdos necessários para a resolução do problema envolvem a geometria plana e a física em nível médio. Análise crítica das soluções propostas: todo modelo apresenta um objetivo fora da matemática pura a qual lhe serviu de ferramenta. Estas são as etapas propostas por Burak (2004) e foram usadas nesse trabalho. Essas etapas não são estanques, mas podem ser modificadas ou tomadas em diferentes ordens, de acordo com as necessidades da criação do modelo quando aplicado em outras perspectivas. Para Barbosa (1999), Modelagem Matemática é um ambiente de aprendizagem em que os alunos são convidados a investigar, por meio da matemática, situações da realidade. Essas diferentes concepções não são antagônicas, pois ao se trabalhar a Modelagem na sala de aula, como metodologia de ensino, pesquisas como encontradas nos trabalhos de Santos e Bisognin (2007) tem mostrado que cria-se um ambiente favorável à aprendizagem. Nesse trabalho seguimos as etapas da Modelagem Matemática conforme descrito por Burak (2004). Como professores da Educação Básica e Superior, concluímos que é importante que o professor experimente a metodologia antes de aplicá-la, para que possa conduzir com mais eficiência e segurança as atividades propostas, as quais serão realizadas 317 por seus alunos. Nesta pesquisa pretende-se contribuir sobre a utilização da Modelagem Matemática na sala de aula que pode ser usada por professores do ensino médio. A experiência em ação A experiência foi realizada na disciplina de Fundamentos de Cálculo do Curso de Mestrado Profissionalizante em Ensino de Física e de Matemática da UNIFRA, composta de seis alunos que são professores da Educação Básica e Superior. Os alunos foram divididos em dois grupos de três alunos. Descreve-se aqui o trabalho desenvolvido pelo grupo de alunos que escolheu o tema: arco-íris. Aspectos históricos O primeiro passo dado pelo grupo foi estudar os aspectos históricos da descoberta do arco-íris. A primeira explicação teórica precisa do arco-íris foi feita por Descartes em 1637. Sabendo que o tamanho das gotas de chuva não parecia afetar o arco-íris observado, ele fez uma experiência incidindo raios de luz através de uma grande esfera de vidro cheia d'água. Ao medir os ângulos que os raios emergiam, ele concluiu que o primeiro arco era causado por uma única reflexão interna dentro da gota de chuva e que o segundo arco (arco-íris secundário) podia ser causado por duas reflexões internas. Ele foi capaz de chegar aos seus resultados a partir da lei de refração e calculou corretamente os ângulos de ambos os arcos. Entretanto, ele não foi capaz de explicar as cores. Como se forma o arco-íris? Para o arco-íris ser visto, o sol deve estar brilhando numa parte do céu e as gotas de água existentes numa nuvem, ou caindo na forma de chuva, devem estar presentes na parte oposta do sol. Quando viramos de costa para o sol vemos o espectro das cores formando um arco. Todos os arco-íris seriam completamente redondos se o chão não estivesse no caminho. 318 Por que e como isso pode ser explicado? Inicialmente, é preciso notar que o arco-íris é produzido por gotas de chuva que desviam parte da luz solar em direção aos nossos olhos. Podemos simplificar a análise nos restringindo ao estudo do desvio (ou espalhamento, falando em linguagem técnica) da luz em uma única gota d'água, que produz ela sozinha um pequeno arco-íris. Decomposição da luz solar que atravessa um prisma, realizada por Newton O experimento da decomposição da luz solar, realizada por Newton, é extraordinariamente simples. Um prisma de vidro é suficiente. Ao passar por um prisma, a luz solar, que é branca, decompõe nas cores do arcoíris. No caso do arco-íris, são as gotículas de água que fazem o papel do prisma. Newton demonstrou que, combinando adequadamente dois ou mais prismas, é possível decompor e recompor a luz branca. A separação é possível porque cada cor tem um índice de refração diferente, isto é, apresenta um desvio diferente quando passa de um meio para outro. Podemos calcular a abertura angular dos raios do arco-íris mediante as leis da reflexão e da refração. A figura 1 mostra um raio de luz incidente numa gota de água esférica (A). O ângulo de refração que forma com a normal θ2 está relacionado ao ângulo de incidência θ1 pela lei de Snell: n ar . sen θ1 = n água . sen θ 2 319 Normal θ1 Raio de luz incidente A θ2 Refrata θ2 O Reflete Refrata θ2 β Bβ P φd C FIGURA 1 - Descrição da incidência e refração de um raio solar em uma gota esférica. O raio refratado atinge a parte posterior da gota em B. No ponto B, o ângulo com a reta radial OB é θ2 e o raio é refletido sob esse mesmo ângulo. O raio é refratado uma outra vez no ponto C, onde emerge da gota. O ponto P é a intersecção da trajetória inicial do raio incidente com a reta suporte do raio emergente. O ângulo φd é o ângulo de desvio do raio. Este ângulo está relacionado com o ângulo β . φd + 2β = , sendo que 2β é a abertura angular do arco-íris. Queremos relacionar o ângulo de desvio φd ao ângulo de incidência θ1. Pelo ∆ AOB, que é isósceles, temos: 2θ2 + = , logo: = - 2θ2 (1) Pelo ∆ AOP, temos: θ1 + +β= (2) Substituindo (1) em (2) temos: θ1 + - 2θ2 + β = , ficando com: β = 2θ2 - θ1 Levando a expressão acima, na equação φd + 2β = temos: 320 φd = - 2β = - 2(2θ2 - θ1) = - 4θ2 + 2θ1 Para eliminar o θ2 e se ter o ângulo de desvio φd, em termos do ângulo de incidência θ1 temos que relacionar com lei de Snell: nar.sen θ1 = nágua.sen θ2 sen θ 2 = n ar .sen θ1 n água θ 2 = arc sen n ar .sen θ1 n água Na equação acima combinada com a lei de Snell, podemos eliminar o θ2 e ficar com o ângulo de desvio φd em termos do ângulo de incidência θ1, como mostra a equação abaixo: ϕ d = π - 4arc sen nar . sen θ1 + 2θ1 n água Assim, temos a equação que relaciona os raios que entram na gota sob um ângulo θ1 e emergem da gota sob um ângulo φd. Ressaltamos que não são todos os raios que emergem da gota que formam o arco-íris, mas somente aqueles que entram sob um ângulo de desvio φd mínimo. Vamos encontrar este desvio mínimo: O gráfico mostra θ1 x φd, em radianos, com nar = 1,004 e nágua = 1,3300: FIGURA 2 - Gráfico de θ1 x φd para a luz branca, com o cálculo do valor mínimo obtidos pelo software Winplot. 321 φd mínimo = 2,38586 rd, atingido em θ1 = 1,04534 rad, em graus temos φd mínimo = o 136,7 , atingido em θ1 = 59,89o . Com esses valores, determinamos a abertura angular: 2β = - φd mínimo logo 2β = 180º - 136,7º = 42,3º . Assim, o observador deve estar a um ângulo de mais ou menos 42º em relação aos raios incidentes do sol, sob as gotículas de água, para poder enxergar o arco-íris. Mas e as cores? As concentrações de raios próximas ao ângulo mínimo provocam o fenômeno da dispersão da luz, tal como Newton o descreveu, e é somente em torno do ângulo mínimo que a gotícula de água funciona como o prisma de Newton. A separação das cores é conseqüência do índice de refração da água ser ligeiramente dependente do comprimento de onda da luz, assim, nos arredores do ângulo mínimo, os diferentes comprimentos de onda das cores, possuem índices de refração na água diferentes da luz branca. Desta forma é possível calcular a angulação de cada cor conhecidos os respectivos índices de refração na água, como mostra a figura 4. FIGURA 3 – Índices de refração de cada uma das cores entre os meios ar/água. Fonte: www.philiplaven.com/p20.html em 07/08/2008. Embora o índice de refração da luz seja sempre igual para os diversos meios, as cores que compõem a luz branca têm índices levemente variados quando incidente sobre o extremo da gota, o que justifica a dispersão da luz branca nas diversas cores do arco-íris. 322 Da tabela acima, temos: nvermelho = 1,33141 nlaranja = 1,33322 namarelo = 1,33472 nverde = 1,33659 nazul = 1,34055 nindigo = 1,34235 nvioleta = 1,34451 De forma análoga ao que foi feito para a luz branca, a luz vermelha, nos trás os seguintes dados: φd = 2,38676 rad = 136,75º 2β = 43,24º ângulo de visualização da luz vermelha Procedendo da mesma maneira para as demais cores, obtemos os seguintes resultados: COR φd 2β = 180o - φd Vermelho 136,75º 43,25º Laranja 137,01º 42,98º Amarelo 137,24º 42,76º Verde 137,5º 42,49º Azul 138.08º 41,92º Índigo 138,34º 41,65º Violeta 138,65º 41,34º TABELA 1 - Ângulo de visualização (2β) de cada uma das cores a partir de φd. O presente trabalho trouxe uma possibilidade de tratamento computacional das funções da necessidade de se calcular o seu valor mínimo. O computador, nesse caso, possibilita o trabalho, no Ensino Médio, de um conteúdo comumente tratado no Ensino Superior, que são os máximos e mínimos de função não quadrática. Pensando no Ensino Superior, será feito o cálculo do valor mínimo usando as ferramentas da derivada. Seja a função, 323 φd = - 4 arc sen n ar . sen θ1 + 2θ1 n água Para achar o desvio mínimo basta encontrar a d(φd)/d(θ1) = 0 e usar os métodos de análise de pontos de máximo e mínimos de funções.Assim , derivando encontramos que cos θ = 0,509175 o que significa que,aproximadamente, o valor de θ = 59 0 . Considerações Finais O trabalho envolveu todos os participantes do grupo que são professores da Educação Básica e Superior. Como professores, acreditamos que é possível trabalhar esta proposta metodológica na sala de aula, pois conseguimos vivenciar, em atividades desse tipo, mudança dos alunos de uma atitude passiva para ativa e comprometidos com todo o trabalho que foi realizado. Houve, de fato, um trabalho colaborativo. Acreditamos que o uso da Modelagem Matemática não é a única solução para as mudanças necessárias no ensino de Matemática, mas é uma estratégia que pode e deve ser utilizada, em alguns momentos na sala de aula e em diferentes níveis de ensino. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, J. C. O que pensam os professores sobre a Modelagem Matemática? Zetetiké, Campinas, v.7, n.11, p.67-85, 1999. BASSANEZI, Rodney Carlos. ensino-aprendizagem com Modelagem Matemática São Paulo: Contexto, 2004. ______, Ensino-aprendizagem com Modelagem Matemática: Uma nova estratégia. São Paulo: Contexto, 2002. BISOGNIN, V. Modelagem Matemática na Sala de Aula: Experiências na Educação Básica e Superior, 2007. (Apresentação de Trabalho/Conferência ou palestra). BURAK, Dionísio. Modelagem matemática e a sala de aula. In: Encontro Paranaense de Modelagem em Educação Matemática, 1., Londrina. Anais. Londrina: UEL, 2004. D´AMBROSIO, U. . Etnomatematica. 1. ed. Bologna: Pitagoras Editrice, 2002. v. 1. 198 p. 324 SANTOS, L. M. M.; BISOGNIN, V. Experiências de ensino por meio da Modelagem Matemática na Educação Fundamental. In: BARBOSA, J. C.; CALDEIRA, A. D.; ARAÚJO, J. de L. (orgs). In: BARBOSA, J. C. et al. (Org). Modelagem na Educação Matemática Brasileira: pesquisas e práticas educacionais. Recife: SBEM, 2007, pp. 115-132. 325