NOA - Boletim Eletrônico da IX Jornada da EBP-SC I Colóquio do Observatório Lacaniano da EBP: Desafios Contemporâneos à Psicanálise 23 de agosto das 14:30 às 18:30h. psicanálise, crenças, leis Florianópolis, 22 e 23 de agosto de 2014 editorial Noa será nosso veículo até o início da IX Jornada da EBP-SC que acontecerá em agosto, nos dias 22 e 23, em Florianópolis. O tema de trabalho versa sobre três pontos: psicanálise, crenças, leis. Aqui veicularemos informações e textos sobre o tema da Jornada a fim de colocar esses três eixos em debate discutindo suas relações e atuações na contemporaneidade. Debate este que incide sobre a política e suas diversas formas de apresentação. Como conversam, em que pontos convergem, no que divergem psicanálise, crenças, leis? Além deste tema instigante, a IX Jornada abrigará, na tade de 23 de agosto, o I Colóquio do Observatório Lacaniano da EBP: Desafios Contemporâneos à Psicanálise, coordenado por Samyra Assad, na tarde do dia 23 de agosto. O Colóquio tratará das relações entre as leis, as crenças, o fundamentalismo religioso e, sobretudo, sobre a posição da psicanálise neste cenário contemporâneo tão diverso. Estarão debatendo estes temas: Romildo do Rêgo Barros, Marcelo Veras, Iordan Gurgel, Luiz Fernando Carrijo Cunha e Sérgio de Campos. Nesta Jornada, cinco eixos temáticos nos convidam à conversação para apresentação de trabalho: Verdades, mitos, tabus; Supereu em Freud, supereu em Lacan; Descrença no Outro; O real da ciência e o real da psicanálise; Lei, trauma, violência. Cada um desses eixos é acompanhado de um argumento produzido por membros da EBP-SC e será apresentado neste número. Além das mesas da Jornada e do Colóquio, teremos como convidado internacional o psicanalista Mario Goldenberg (AME da EOL e da AMP) que nos brindará com o Seminário A Crença e a Psicanálise. Eneida Medeiros Santos, diretora da IX Jornada, e Samyra Assad apresentam, respectivamente, a IX Jornada e o I Colóquio. Acesse www.psicanalisecrencasleis.wordpress.com para maiores informações. Convidamos todos para participar e debater conosco neste evento que promete! Flávia Cera e Louise Lhullier Comissão de Divulgação da IX Jornada da EBP apresentação da ix jornada da ebp-sc Psicanálise e crença, psicanálise e leis, dois binários que se formam cada qual, arriscaria dizer, como uma banda de Moebius. Um sujeito que busca uma análise o faz com suas crenças, a crença no sentido de seu sofrimento, a crença na verdade, no sintoma ou a crença psicótica, a da certeza delirante. Da mesma forma, a crença é “uma das primeiras condições de possibilidade da psicanálise” sob a forma da crença no Sujeito suposto Saber. Segundo Lacan, o amor que se dirige à quem se supõe o saber, está relacionado à pergunta que se coloca ao Outro sobre o que ele tem para nos dar e o que tem para nos responder e isso nos dá a pista para entender o motor da crença, qual seja, o de fazer existir Deus, o ser supremo da crença, pelo amor. Entretanto, coisa paradoxal, essa crença fundamental, a de um Outro que portaria a chave do saber do sujeito, é aquela da qual o analista se serve, como motor da experiência analítica, para fazer operar seu declínio e, mais radicalmente, sua destituição. Isso porque, para além do amor, o que está em jogo é o gozo e a pulsão, o que faz com que as coisas já não sejam mais tão tranquilas e amorosas. É isso o que dizemos quando falamos que a formação do analista se orienta pelo real do sintoma. Coisa semelhante se produz na relação da psicanálise com a lei. Há as leis sociais, as leis demonstradas pelo saber científico, as leis da natureza e, com Freud e Lacan aprendemos a reconhecer as leis do inconsciente e da linguagem, que se ordenam pela lei do Nome do Pai. Entretanto, parafraseando Miller, essas leis não permitem recuperar nenhuma ideia de harmonia pois, sempre se toca no real, por todos os lados, de maneira desordenada e ao acaso. “[...] Se há leis da linguagem, não há leis da dispersão e da diversidade das línguas. Cada língua é forjada pela contingência e pelo acaso” O real é sem lei, diz Lacan, ele não se suporta em enunciados universais. Isso quer dizer que há uma falta crucial para o sujeito, a da lei natural da relação sexual. Assim sendo, ao modo de uma fita moebiana, uma análise, ao mesmo tempo que não funciona sem a crença, porque não a desfaz por completo, conduzindo o sujeito a apostar na crença no inconsciente, também não se libera e não libera o sujeito da lei, no dizer de Lacan. Ao contrário, é por essas mesmas vias que ela leva o ser falante à outra face, a do encontro do gozo pulsional que ex-siste a todo discurso, tanto aquele da crença e religião, quanto aquele da lei, que para Freud, comporta uma relação estrutural com a pulsão de morte. Nesse sentido, a psicanálise também se revela como semblante mas não ignora que em todo saber há um furo, um furo real. Com essas reflexões, convidamos todos aqueles que queiram, a vir participar de nossa IX Jornada, “batizada” por nós de “Psicanálise, crencas, leis”, que neste ano conta com a participação inédita do Observatório Lacaniano da EBP, que fará seu primeiro Colóquio, intitulado “Desafios Contemporâneos à Psicanálise”. Esperamos que desses encontros, com o Observatório e com os que gentilmente nos enviarão trabalhos ou participarão dos debates, possamos recolher bons frutos de discussão e de aprendizado. Eneida Medeiros Santos (Diretora Geral da IX Jornada da EBP-SC) #01 Boletim Eletrônico da IX Jornada da EBP-SC ********************************************** Psicanálise, crenças, leis argumento Psicanálise, crença, leis O titulo nos sugere uma articulação possível entre psicanálise, crença e leis. Articulação que se situa nos primórdios da psicanálise. Em 1905, no texto “Tratamento Psíquico”, Freud destaca o poder mágico das palavras no tratamento dos fenômenos patológicos da vida anímica. Todavia, em forma resumida, dirá que a cura só depende da crença na palavra do Outro, haja vista os sucessos dos curandeiros, mestres nessa arte. Na fé religiosa, Freud articula crença e milagre com o desejo de ser escolhido pela graça divina que se sabe não é para muitos. Porém é com relação à problemática do pai que Freud preanuncia a Lacan dando valor simbólico a função paterna do complexo de Édipo. Dizer que o laço materno é baseado na presença e na percepção, enquanto o pai introduz a dimensão do que não se vê da ausência, não significa acreditar na palavra, não significa se haver com a lei paterna? Vemos assim como Freud, a partir da crença religiosa, consegue deslocar a pergunta “o que é a cura?” para perguntar pelo mecanismo, a construção, em que se apoia o “milagre da cura”. O fenômeno do milagre inserido nessa ordem diz da dificuldade do sujeito em renunciar a seus desejos impossíveis. Pensar o “complexo” significa abordar a transferência, a crença na psicose, a crença e a lei, a crença e o amor, a crença no inconsciente, etc. Ainda temos muito a dizer desde o impulso que nos legou Freud. O século XXI nos encontra como testemunhos de uma pratica clínica que nos provoca, mãos a obra! Silvia Emilia Espósito Diretora Geral EBP-SC eixos temáticos Verdades, mitos, tabus, por Luis Francisco E. Camargo (EBP/AMP) Freud formulou uma teoria geral sobre a origem das neuroses baseada na história das religiões, em estudos antropológicos e na teoria do evolucionismo, a ciência do seu tempo. A verdade sobre as origens só pôde ser abordada através da estrutura de uma ficção. Desenvolveu sua mais famosa fantasia e controversa teoria ao aplicar um princípio biológico ao complexo de Édipo: a ontogenia recapitula a filogenia. A agressividade contra o pai seria um esquema mental filogeneticamente herdado e os tabus sobre mortos, espíritos e demônios nada mais do que projeções dos afetos do sujeito, resultado da ambivalência de sentimentos em relação ao pai; o assassinato de Moisés e de Cristo, recapitulações do assassinato de um pai de uma horda primitiva. Palhaçada darwiniana! Um sonho de Freud, afirma Lacan. A ideia de um pai todo-amor designava a primeira forma de identificação. Apesar de acreditar que isso iria se evaporar na religião, estranhamento foi o que Freud conservou na psicanálise com os seus mitos compostos pelo pai. Seria a crença na verdade sobre as origens o elemento pertencente a estes três campos heterogêneos: psicanálise, ciência e religião? Um dos esforços de Lacan foi reduzir os mitos freudianos a sua estrutura, através da aplicação de operadores da lógica matemática, transformando-os no que denominamos hoje de fórmulas da sexuação. Supereu em Freud, supereu em Lacan, por Oscar Reymundo (EBP/AMP) O mal-estar na civilização foi abordado por Freud a partir da espreita de um supereu que exigia cada vez mais renúncias pulsionais, acima de tudo àquele que com seu proceder pretendia atingir o virtuosismo. Com Lacan aprendemos a reformular o mal-estar a partir de sua elaboração do gozo e a elucidar que o supereu freudiano mantém com a lei uma relação tão estreita quanto paradoxal. De um lado, a lei do supereu, enquanto articulação simbólica, regula o gozo pulsional e, de outro, esta lei tem um caráter cego, tirânico e insensato. Assim, o supereu é ao mesmo tempo a lei e sua destruição. Com Lacan temos, então, que o supereu é um imperativo, o categórico kantiano que, na sua especificidade, é a expressão de uma vontade de gozo que impõe uma moral destrutiva e puramente opressiva que se expressa no mandato: “Goza!” Descrença no Outro, por Liège Goulart (EBP/AMP) A questão da crença e da descrença no Outro, nas leis e nos universais, é objeto de interesse, ainda que por vias distintas, da ciência e das religiões, mas também da psicanálise, na medida em que seus efeitos sobre o sujeito se fazem sentir na vida e na clínica. A psicanálise não se propõe a ser uma prótese à falta de leis, ordens e crenças que regulem as vidas e os modos de gozar mas, antes, parte justamente daí: de que não há um saber que garanta sobre a falha estrutural do ser falante, ou seja, o grande Outro não existe. Esse saber que não há éo próprio motor da vida de cada um que aceitou entrar no laço social e que, consentindo com o Outro da linguagem e da lei, pagou assim o preço de uma existência cuja referência falha em dizer sobre o ser. Crer ou não crer no Outro – mesmo que esse Outro seja barrado, que não exista como consistência – tem o estatuto de uma decisão, ainda que insondável, do ser, no momento preciso em que, cravado o significante no corpo, inaugura-se uma história subjetiva, cujas coordenadas claudicam na questão da verdade. A crença e a descrença no Outro, o saber e o não saber, são capítulos inerentes dessa história. Se, por um lado, a descrença no Outro pode se manifestar como um modo cínico de gozo, como uma autorização ou como um empuxo a gozar, por outro lado, uma análise – que não prescinde da dimensão da crença, da crença no Sujeito suposto Saber, via amor de transferência – pode levar um sujeito para além, ou aquém, da questão da verdade ou da mentira, tocando a inconsistência do Outro até o ponto da responsabilidade do sujeito pela sua verdade de gozo, singular, não-toda, excluindo portanto a ascensão a um saber último sobre A verdade, característica da paranoia, e que as crenças religiosas, normalizadoras e regulamentadoras, científicas ou não, pretendem alcançar. Essa mesa de debate, Descrença no Outro, convida a pensarmos as diferenças implicadas quando se trata do Outro que não existe, a partir de uma dimensão de gozo, de uma dimensão de causa de desejo e a partir da posição do sujeito no discurso. Boletim Eletrônico da IX Jornada da EBP-SC ********************************************** Psicanálise, crenças, leis O real da ciência e o real da psicanálise, por Silvia Emilia Espósito (EBP/AMP) Lacan no texto “Ciência e Verdade” retoma as quatro causas de Aristóteles no rastro da afirmação: “O sujeito com o qual a psicanálise opera é o sujeito da ciência” (1966). Nesse texto, Lacan fixa em função da verdade como causa: causa eficiente para a magia, causa final para a religião, causa formal para a ciência e causa material para a psicanálise. A causa como elo comum faz a costura dos fenômenos ainda que heterogêneos, ao modo do sujeito fundado pelo Descartes. Desse modo, Lacan, e de acordo com o uso singular que faz da palavra real, subscreve, inicialmente a psicanálise ao pensamento causalista com uma ressalva: não se trata do mundo natural e a observação da filosofia moderna, mas da ética, quando destaca que significa, pensar a causa material como significante ou posteriormente o objeto a como causa de desejo. Causa singular do sujeito que não é senhor em sua casa. Mas se de um lado a magia cutuca a natureza, faz falar a natureza pela boca do encantador, a ciência a faz calar na passagem do mundo finito, da religião ao infinito, de um real que possa ser desvendado sem ajuda de Deus sem, no entanto, abrir mão da ideia de um real sem acaso. A afirmação “há saber no real” do primeiro ensino de Lacan que se sustenta na crença no Sujeito Suposto Saber e na função da causa como verdade, se transforma, segundo Miller, de forma estrondosa em “não há saber no real”, perda de qualquer garantia, perda das chamadas leis da natureza. Será um sintoma de Lacan, como ele se perguntou? Lei, trauma, violência, por Teresa Wendhausen (EBP/AMP) Da conjunção do discurso da ciência com o capitalismo Lacan nos aponta o declínio do pai, do Nome-do-Pai como Outro da lei, a queda dos ideais, que tem como decorrência a subida do objeto a ao zênite social. Miller dando consequência a isto vai qualificar os tempos em que vivemos como tempos do “Outro que não existe” e relacioná-lo à democracia contemporânea, diferenciando-a da democracia moderna. Ele parte para tanto da construção que Lacan faz no Seminário 20, das fórmulas quânticas da sexuação. Do lado masculino, temos que a exceção paterna funda a regra do para todos, um universal. A função do pai está ligada a esta estrutura e é a partir dela que podemos pensar a democracia moderna. Do lado dito feminino, encontramos os sujeitos que estão inscritos nãotodo na função fálica. Aqui não há um universal que faz conjunto. É no regime do nãotodo que Miller situa a democracia contemporânea, nos esclarecendo que ele comporta precisamente que não exista mais nada que faça barreira, que esteja na posição de interdito. A consequência disto é que assistimos na contemporaneidade à irrupção de um gozo feminino que, com o declínio do pai, acarreta um gozar sem limites. A foraclusão do Nome-do-Pai, se estende à ordem social. Trata-se de uma ordem de ferro, insensata, atrelada a um supereu feroz, o supereu materno. Podemos considerar a violência, no modo com ela se apresenta hoje, como uma das formas de manifestação desta ordem de ferro? Em caso positivo, como abordá-la a partir da psicanálise? E também como diferenciar esta abordagem de outras que se apresentam? Em que a noção de trauma como um encontro contingente com o real, na medida em que aponta para a singularidade, para o fator subjetivo sempre em jogo, pode nos auxiliar neste sentido? Estas são algumas questões, dentre tantas que certamente surgirão no decorrer da preparação desta Jornada, que convidamos todos a se unirem a nós, e se debruçarem sobre elas. normas para envio de trabalhos O envio de trabalhos deve-se destinar a um dos eixos temáticos relacionados acima e devem conter no máximo 7.000 caracteres com espaço (sem contar a bibliografia). A fonte é Times New Roman, tamanho 12. O prazo de envio é 27/07/2014 e deve ser encaminhado por email para o endereço: [email protected] I colóquio do observatório lacaniano da ebp: desafios contemporâneos à psicanálise Uma nova série de Colóquios na EBP se relança aqui, com a honra de sermos acolhidos pela EBP-SC. O tema endereça o resultado do que se incumbiu o Observatório Lacaniano da EBP, constituído no ano de 20121 , a partir da tarefa de observar e tratar as questões relativas à quantificação de analistas na era do Mestre Contemporâneo. Este trabalho foi realizado junto à Diretoria e Conselho da EBP. Instalada como uma preocupação da Escola junto a outras instituições psicanalíticas desde o ano de 2000 – quando foi criada a Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras –, essas questões se ligam à preservação da psicanálise no Brasil fora de um domínio político-religiosos que visa, vez por outra, uma regulamentação da psicanálise. Nesta, os candidatos seriam formados em série (dois mil por biênio), se tivessem carga horária cumprida para análise, supervisão e estudos teóricos, além de essa prática dever estar inscrita no Conselho Federal de Medicina. Diante desse quadro preocupante, a função do Observatório foi participar dos temas de cada evento da EBP, colocando à prova aquilo que toca, especialmente, à advertência de Lacan quanto ao triunfo da religião. Logo, interrogamos as conseqüências produto da proliferação da apropriação de conceitos psicanalíticos por parte de alguns grupos de religiosos, assim como por que a psicanálise é visada em projetos de lei elaborados por deputados evangélicos. Enfim, que tipo de cenário se apresenta entre a religião, a política brasileira e a psicanálise, com suas respectivas cortinas e expectadores? Em que consistiria o dever ético de se sustentar a voz no tom singular de um laço libidinal inerente à escolha de cada um pela psicanálise, nessa tendência contemporânea ao anonimato pelas cifras? Inegavelmente, isso nos conduz a um desafio, para que ousemos barrar essa insistente modalidade da tentativa de assassinato da psicanálise por uma crença, por um sentido, por um mercado, por um domínio, por uma lei insensata, pelos psicanalistas de papel. Essa aposta será lançada no campo de uma diversidade. Samyra Assad (Coordenadora do I Colóquio do Observatório Lacaniano da EBP) inscrições As inscrições para a IX Jornada da EBP-SC e o I Colóquio do Observatório Lacaniano da EBP podem ser feitas no site: www.ebpsc.com.br. Maiores informações por email: [email protected] ou pelo telefone (48) 3222-2962. Valores: Profissionais: até 30/06 R$ 180,00 | a partir de 01/07 R$ 200,00 Estudantes* : até 30/06 R$ 90,00 | a partir de 01/07 R$ 100,00 *graduação, pós-graduação e Curso de Psicanálise da EBP-SC com comprovação