A batalha de Torreón foi uma das mais difíceis e duras das tantas vencidas pela Divisão do Norte. Depois
de a cidade ter sido tomada, o general Francisco Villa
decidiu levantar acampamento numa planície próxima,
bem no meio de um maciço de salgueiros cujas sombras resguardavam os guerrilheiros do sol inclemente.
Chegava a esse lugar diariamente um sem-número de
comerciantes que iam oferecer seus produtos aos revolucionários. Pululavam os vendedores por entre a tropa,
e aquilo, mais que uma guarnição militar, parecia uma
feira de domingo.
O general, como era seu costume, resolvia seus assuntos longe do rebuliço, acompanhado unicamente
de seus homens de maior confiança, e protegido pelos mais temíveis membros de sua escolta militar. Villa
despachava algumas questões com o coronel Santiago
Rojas quando chegou o sargento Teodomiro Ortiz dizendo-lhe que o procurava um comerciante, um tipo
muito bem vestido que insistia em vê-lo. O general já
estava farto de tratar com vendedores; somente nessa
manhã havia tido que lidar com três: um que lhe queria vender bicicletas e afirmava que era mais eficiente um ataque ciclista do que da cavalaria; o segundo
lhe ofereceu armaduras espanholas e o terceiro vendia
chapéus charros com rebites em fio de ouro e prata.
Aborrecido, Villa os havia afastado do lugar, não sem
antes adverti-los de que lhes encheria a barriga de
chumbo se caso não fossem embora de imediato. Villa
olhou para Ortiz:
– Diga que não estou para ninguém – disse-lhe.
– Já falei cem vezes, meu general, mas insiste em
vê-lo. Disse que traz algo muito importante para mostrar-lhe e que o senhor vai se interessar.
O general Villa ficou pensativo uns instantes e com
os olhos ordenou que Ortiz trouxesse o comerciante.
O sargento foi buscá-lo e regressou em poucos minutos. Vinha com um homem rechonchudo, calvo, bem
vestido e muito perfumado. Apropriadamente saudou:
– Boa tarde, general Villa. Boa tarde, coronel Rojas.
Sou Feliciano Velasco y Borbolla de la Fuente, formado
em Direito, às suas ordens – e estendeu sua mão para
Villa, mas este só o olhou. O homenzinho não soube o
que fazer. Retirou lentamente sua mão, limpou o suor da
testa com a manga do paletó, engoliu saliva e sorriu.
– General Villa – disse parcimonioso –, vim ao senhor para mostrar um invento formidável que será de
grande proveito para a Revolução. Com este invento,
senhor general, tenha a certeza de que criará terror entre as tropas inimigas. Qualquer um que se atreva a enfrentar a Divisão do Norte pensará duas vezes.
– Já pensam duas vezes – interferiu enérgico o sargento Ortiz.
O advogado ficou calado, limitando-se a sorrir estupidamente. Respirou e continuou com sua ladainha:
– O senhor tem toda razão, mas este invento serve
como ajuda para exterminar os prisioneiros sem neces
sidade de andar gastando munição, que, como os senhores sabem, está muito escassa e não vale a pena desperdiçá-la em outros ofícios que não sejam os da própria
guerra... Com este aparelho que trago já não é preciso
fuzilar o inimigo...
– Por isso mesmo os enforcamos... – interrompeu de
novo o sargento Ortiz.
– Sim, eu sei – disse o rechonchudo –, mas o que
fazem quando não encontram um poste alto?
– Pois os queimamos vivos ou lhes damos marretadas... Isso é o de menos – respondeu-lhe o coronel
Rojas.
– Mas, veja, meu coronel – continuou Velasco –,
com este invento que venho lhes mostrar, os prisioneiros são executados sem a menor preocupação. Por que
não vêm vê-lo e se quiserem o testamos?
Aquele homem os levou até uma carroça onde o
esperavam seus ajudantes: um alto e sem graça, de
nariz grande e olhos sumidos, mas vivazes, e o outro
um moçoilo de estatura regular, bochechas avultadas e cabeça grande. Velasco solicitou a seus convidados que aguardassem uns minutos e deu uma
ordem sonora:
– Montem-na!
Os assistentes, apressados, se puseram a montar o
aparelho. Tiraram vigas, cordas, polias, pregos, martelo, soleiras. Com rapidez montaram uma estrutura em
cuja parte superior se encontrava colocada uma lâmina
de ferro.
Velasco caminhava de um lado para o outro, nervoso, esfregando continuamente as mãos. Uma vez que
tudo estava pronto, deteve-se em frente ao general e
seus acompanhantes e começou a falar.
– Isto, senhores, se chama... guilhotina. É um instrumento extraordinário, capaz de ceifar a vida em um
instante.
O homenzinho olhou sorridente para Villa e caminhou em direção ao aparato. Tomou em suas mãos uma
corda que arrematava numa polia e puxou. De cima se
desprendeu a enorme lâmina metálica produzindo em
sua queda um golpe seco e forte. O general e seus companheiros ficaram assombrados. O comerciante levantou os braços como se tivesse terminado um ato de magia. Fez com que um de seus ajudantes voltasse a subir
a lâmina, pegou um tronco grosso e pesado, colocou-o
na base do aparelho e soltou de novo a corda. O tronco
saiu partido em dois com tal facilidade que parecia que
o que tinha sido cortado fora um mero galho.
– Para que serve isso? – perguntou-lhe pasmo o coronel Rojas, sem entender de todo em que podia utilizar-se o famoso aparelho.
– Ahhh – exclamou o homenzinho –, isso eu gostaria de demontrar-lhes, claro, sempre e quando nos permita meu general Villa. Isso é possível?
Villa assentiu.
– Mas para isso preciso de alguns prisioneiros em
que o senhor esteja disposto a fazer cumprir a pena de
morte. Preciso de uns tantos... Poderíamos trazer alguns, meu general?
Villa, com um sinal de sua mão, mandou Ortiz buscá-los.
– Este invento – continuou o comerciante – serviu muito na Revolução Francesa, a qual se realizou faz
quase dois séculos, e por isso pensei que poderia ser de
grande utilidade nesta Revolução que é a nossa – disse
enfatizando a palavra “nossa”.
O general Villa olhou com suspeita o emperiquitado;
não lhe inspirava muita confiança, mas ficou calado.
O sargento Ortiz chegou com os presos. Trazia-os
de todo tipo: gordos, magros, altos, baixinhos. Pôs-se
diante de Villa.
– Ordem cumprida, meu general.
Os prisioneiros, ignorantes do que lhes ia acontecer, mas com a certeza de que logo chegaria sua hora final, se amontoavam entre si como se amontoam as reses
nos matadouros. O general examinava detidamente os
cativos, um por um, de cima a baixo. Pregou seus olhos
num alto e magro.
– Esse – disse apontando-o com a cabeça.
– Muito bem – disse o homenzinho e ordenou que
seus ajudantes fossem buscá-lo. O homem alto e magro
não soube o que fazer e se deixou levar mansamente até
a guilhotina. Os assistentes o obrigaram a ajoelhar-se e
colocaram sua cabeça em uma cavidade redonda que se
encontrava na base do aparelho. As pessoas, que começavam a notar que algo estranho acontecia, rodearam
o lugar, silenciosas. Villa, impaciente, esperava com os
braços cruzados.
Terminados os preparativos, Velasco disse ao general
para soltar a corda. Villa caminhou com lentidão e pegou
a corda que lhe ofereciam ansiosas as mãos do advogado.
– Agora puxe, general.
Villa acionou o mecanismo e a lâmina caiu instantaneamente sobre o pescoço do condenado, cortando-lhe a cabeça de uma vez. Uma mulher no meio do
público gritou com horror e desmaiou. O homenzinho
sorriu feliz com a demonstração da suma eficácia de seu
aparelho. Villa, por seu lado, contemplava absorto os
últimos estertores do corpo decapitado.
Os demais prisioneiros, tomados de terror, olhavam
paralisados o macabro espetáculo do qual teriam de participar. Com os olhos desorbitados e o rosto desfigurado
imploravam ao céu para não serem os próximos.
Villa, todo salpicado de sangue, parecia não acreditar no que via. No entanto, o olhar refletia o brilho
peculiar que suas pupilas adquiriam quando algo lhe
agradava de verdade. O advogado Velasco, seguro de
seu êxito, se pôs em frente ao general e começou a falar
como mercador ambulante:
– Como os senhooooores terãããããão notaaaaado, a
guilhoooootiiinaa teerminou raaapidaaamente coomm aa
existêêêênciiaa destee indivíduooo... – apontou o corpo
descabeçado da vítima que tremia ligeiramente e continuou –, oo feez de taal maaneeira que cauusa eentree oos
demaaais uum sentiimeento de meedoo e respeeitoo...
Um verdadeiro tumulto tinha se formado ao redor
do palco. A maioria olhava consternada. Villa, com evidente interesse, perguntou.
– E por quanto tempo dura o fio da lâmina?
– Milhares de execuções, meu general – respondeu
o rechonchudo. Este produto é absolutamente garantido. Se quiser, o testamos de novo.
Villa assentiu.
Os presos, que tinham escutado a conversa, se
amontoaram para não se fazerem notar, tentando se esconder uns atrás dos outros. As pessoas, na expectativa,
aguardavam a designação do condenado seguinte. Foi a
vez de um prisioneiro moreno com cabelo crespo.
Os assistentes foram até ele, mas o moreno resistiu,
pedindo aos gritos por clemência:
– Melhor fuzilar-me, matem-me a tiros, mas assim
não – gemeu desesperado.
Foram necessários vários soldados para levá-lo ao cadafalso. No entanto, o preso se levantava com força e tirava sua cabeça da cavidade cada vez que ali a colocavam.
A luta desigual parecia não ter fim até que o sargento Ortiz teve a idéia de dar a volta e puxá-lo pelos cabelos encrespados. Por fim, conseguiu imobilizar o sentenciado.
O comerciante puxou a corda e a lâmina homicida
cumpriu de novo seu papel. A cabeça do moreno ficou
solta entre as mãos de Ortiz, que a levantou vitorioso.
Villa, visivelmente emocionado, fez com que o procedimento fosse levado a cabo várias vezes. Em todas, a
guilhotina fez rodar as cabeças entre a poeira. Um a um
os prisioneiros foram executados e houve necessidade
de que se trouxesse mais para que o general ficasse realmente convencido.
Depois de quatro horas de sangrentas demonstrações, o lugar ficou coberto por uma massa disforme de
corpos decapitados. Os curiosos, satisfeitos seus mórbidos interesses (incluída, é claro, a mulher que tinha
desmaiado no princípio) regressaram a suas atividades
cotidianas, conversando animadamente sobre o ocorrido. Ficaram a sós o general Villa, o sargento Ortiz, o
coronel Rojas e o comerciante. Este último, ainda que
feliz, se aproximou de Villa com timidez.
– Já viu, meu general, como meu invento serve às
mil maravilhas? Eu não havia dito ao senhor?
– Sim – disse Villa. – É muito bom.
– Deixe-me dizer-lhe que, além disso, a guilhotina
pode ser montada e desmontada num instante. Isso faz
com que seja fácil de transportar e de utilizar.
– Muito bem.
O advogado Velasco, com um definitivo ar de triunfo, sorria alegre. Os demais, Villa entre eles, também
sorriam. Logo, o comerciante ficou sério e começou a
falar com cara de “vou fazer negócio”.
– Bom, meu general... Se não for muito incômodo...
Gostaria, claro, se isso fosse possível e se o meu produto
interessar ao senhor... Que falássemos sobre o preço...
– O preço? – perguntou Villa com estranheza.
– Sim, meu general, é que construir uma guilhotina
é uma empreitada muito cara e como a fabricamos com
componentes importados...
– Quanto quer? – interrompeu o coronel Rojas.
– Só a ninharia de trinta pesos – respondeu Velasco.
– Não é muito? – encrespou o coronel.
– Insisto para que entenda que foi construída com
os melhores materiais: madeira de nogueria, ferro forjado, polias holandesas, cordas de tílias...
Villa interveio:
– Senhor advogado – disse –, tenho algo melhor
com que lhe pagar.
O homenzinho voltou seu olhar para ele. Villa lhe
dirigiu um sorriso complacente.
– Vou lhe pagar com algo que vale muito mais que
cinqüenta mil pesos.
O vendedor enrubesceu, envergonhado e contente
ao mesmo tempo.
– Vou lhe agradecer infinitamente, meu general.
Villa se voltou ao sargento Ortiz.
– Sargento...
– Sim, meu general.
– Faça-me o favor de incluir na Divisão do Norte
como primeiro-capitão Feliciano Velasco y Borbolla de
não sei o quê e integrá-lo de imediato à brigada Guadalupe Victoria.
A expressão prazerosa que tinha se formado no rosto do comerciante começou a se desfazer.
– Não entendo, general – disse.
– Como que não entende, amiguinho? Acabo de
dar-lhe a honra de uma patente militar no exército da
Revolução.
– Agradeço do fundo da alma, meu general, mas a
verdade é que prefiro que me pague, mesmo que só uns
vinte pesos... É que, entenda, meu general... Eu para a
guerra sou um idiota...
– Dá para notar na hora, advogado. Dá para notar, mas
não se preocupe que com o tempo deixará de ser idiota.
– Não é isso, general. É que na verdade acredito
que é melhor que me dê os vinte pesos e...
– O senhor quer dizer que despreza a nomeação que
lhe acabo de dar? – rugiu Villa.
Velasco se deu conta de que acabava de provocar a
legendária fúria de Villa.
– Não, meu general. Não me entenda mal, é que...
Villa lhe cravou seu olhar de fogo.
– É que o quê? – perguntou, acentuando sua indignação no último “quê”. O homenzinho engoliu saliva:
sabia que não tinha escapatória alguma.
– É que o quê? – repetiu Villa, colérico.
Como pôde, Velasco começou a articular frases
com a esperança de suavizar a irritação do chefe revolucionário.
– É que, veja o senhor, na verdade me envergonha
que, sem méritos em campo de batalha, o senhor me dê,
assim de repente, uma patente tão alta, e eu, de verdade, para isto de guerra sou...
Velasco ficou calado quando sentiu que os olhos de
fera de Villa o percorriam de cima a baixo e de baixo
a cima. Pressentia que com certeza uma tormenta de
injúrias desataria sobre si e que sua sentença de morte
se ditaria de um segundo a outro, fazendo com que sua
cabeça fosse rodar entre as dos demais. Mas não, o general sorriu, deu-lhe uma palmada nas costas que quase
o derruba e lhe disse com voz pausada.
– Você tem razão, amiguinho. Se o torno capitão
assim desta maneira, falariam mal de mim e eu não gostaria nada disso, não é? Melhor dar-lhe a patente de
sargento e se você se portar bem na hora dos enfrentamentos, volto atrás e o faço capitão. Agora, por favor,
acompanhe o sargento Ortiz, que vai-lhe dar o uniforme
e o que mais seja necessário, e vai comunicar o fato ao
coronel González, que é o chefe de sua brigada. E você,
Ortiz, cuide bem de nosso novo companheiro.
– Sim, meu general.
Os dois ajudantes de Feliciano Velasco y Borbolla
de la Fuente também foram incorporados à Divisão do
Norte. Enfim acabaram sendo o cabo Juan Álvarez, o
gordinho de olhar vivaz, e o soldado raso Júlio Belmonte, o moçoilo bochechudo, que sob as ordens diretas do
sargento Feliciano Velasco integraram o Esquadrão Guilhotina de Torreón, nomeado assim em honra da cidade
recém-tomada e cujos únicos membros eram somente
eles três.
O sargento Ortiz os proveu de uniformes e demais
objetos militares, como botas, munição, cantis (objeto
que se outorgava unicamente aos oficiais de nível mais
alto, mas que, dada a importância que a guilhotina tinha dentro dos planos futuros da Revolução, era entregue com honras ao advogado Velasco e seus assistentes),
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faca, pistolas (a do sargento Velasco era uma Smith and
Wesson com chapas nacaradas, uma honra reservada aos
oficiais etc.), rifles de repetição Winchester, bem como
suas respectivas insígnias.
Os uniformes, que eram de tamanho único e pareciam ser confeccionados para homens da estatura de
Villa, caíram maravilhosamente no cabo Álvarez e no
soldado Belmonte, que, de uma forma ou de outra, arregaçando aqui, recortando ali, tinham conseguido que
lhes coubessem. Não foi assim com o sargento Velasco, para quem a camisa ficava como casaco e as calças
como as de um palhaço. Houve a necessidade de confeccionar-lhe um uniforme especial.
O sargento Ortiz os apresentou ao coronel González, chefe da brigada Guadalupe Victoria, que os
recebeu com sumo agrado. O coronel ordenou que se
enfileirassem, e diante da brigada formada ressaltou a
coragem, a força e a fé revolucionária dos novos companheiros de armas (e isso porque não tinham nem cinco
minutos de conhecidos). Um abraço forte e prolongado
do coronel González no sargento Velasco e um cumprimento de mãos afetuoso e cordial com o cabo Álvarez
e o soldado Belmonte selaram o ingresso dos três novos
membros da brigada Guadalupe Victoria. Terminado o
ato e depois de disparar salvas em sua honra, foi destinada uma barraca de campanha para os três com seus
respectivos catres (uma honra reservada aos oficiais de
patente mais alta etc.).
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A batalha de Torreón foi uma das mais difíceis e du- ras das