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Universidade Federal de Juiz de Fora
Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Mestrado em Comunicação
Roberta Oliveira
JORNALISMO ESPORTIVO/ ENTRETENIMENTO: A CONSTRUÇÃO
IDENTITÁRIA DAS EDIÇÕES CARIOCA E PAULISTA DO GLOBO
ESPORTE.
Juiz de Fora
2013
Roberta Oliveira
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Jornalismo Esportivo/ Entretenimento: a construção identitária das edições
carioca e paulista do Globo Esporte.
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação, área de
concentração: Comunicação e Identidade, da
Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre.
Orientador: Prof. Dr. Márcio de Oliveira Guerra
Juiz de Fora
2013
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Oliveira, Roberta.
Jornalismo Esportivo/Entretenimento: A Construção Identitária das
Edições Carioca e Paulista do Globo Esporte. / Roberta Oliveira. – 2013.
251 f. : il.
Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal de
Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2013.
1. Comunicação. 2. Identidade. 3. Jornalismo Esportivo. 4.
Telejornalismo. 5. Globo Esporte. I. Título
4
Roberta Oliveira
Jornalismo Esportivo/ Entretenimento: a construção identitária das edições
carioca e paulista do Globo Esporte.
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação, área de
concentração: Comunicação e Identidade, da
Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre.
Resultado
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________________
Prof. Dr. Márcio de Oliveira Guerra (Orientador)
Universidade Federal de Juiz de Fora
__________________________________________________
Profa. Dra. Iluska Maria da Silva Coutinho
Universidade Federal de Juiz de Fora
__________________________________________________
Prof. Dr. Ary Rocco Júnior
Universidade de São Paulo
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À minha #madrehooligan, Lourdes,
por sempre estar certa em tudo: desde a
Estrela Solitária que nos ilumina até por
saber antes de mim que o Jornalismo
era a minha vida.
6
AGRADECIMENTOS
A Deus, que continua com o senso de humor mais peculiar que eu conheço.
À família: Renata, Rogério, pai, Tia Clarice, Ciça e Ludmila; além da família que Deus
me deu: Jansem, Patrícia, Beta, Paula e Ana Maria, que sempre vibraram com todas as
minhas aventuras e desventuras rumo ao final feliz.
Ao professor Márcio Guerra, pela paciência de Jó com todas as minhas crises, dúvidas e
perguntas sem fim.
À professora Iluska Coutinho, pelo “por quê?” que levou a este caminho.
Aos pioneiros: Aline, Flavinho e Chico, que me incentivaram quando pensei em tomar
outro rumo.
À Ana, pela paciência com as minhas dúvidas, apoio nas emergências e em todos os
momentos. E a todos os companheiros de jornada, em especial, aos que estive mais
próxima: Luciano Teixeira, Ana Eliza, Emília, Raruza, Dora, Renata. Conseguimos!
Ao Felipe Menicucci pela dica e ao Lucas Peths pela paciência em me ajudar com o
“decifra-me ou devoro-te” da internet. E ao pessoal da TV Integração, que acompanhou
todos os capítulos desta novela.
Às Lulus – Michelle, Patrícia, Claudinha, Gesane e Renata; às blogueiras – às Lollies,
às Queridas, à turma da Panela, em especial, à Rosana Gutierrez por entender um
desenho tosco e torná-lo perfeito à Thais e à Adriana pelo socorro de última hora; à
Andrea, pelo apoio, torcida e confiança de que tudo daria certo. Aos professores Paulão
e Vera, que trouxeram muito mais que o conhecimento de Espanhol e Italiano à minha
vida.
E à menina que correu para o campinho com a bola debaixo do braço, à adolescente se
jogou na grade da quadra pra não deixar o ponto para o adversário e mesmo tantos anos
e com tantos “nãos” da vida, ainda não transformou o diploma em Tsuru por acreditar
na bandeira do Jornalismo Esportivo.
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“Àqueles que dizem que as pessoas não se
interessam, que são complacentes, indiferentes
e alienadas, eu apenas respondo que, na minha
opinião de repórter, há provas concretas de que
essa afirmação é incorreta. Mas, mesmo que
não o seja, o que eles têm a perder? Se
estiverem certos e o nosso vínculo só servir
para divertir e alienar, a televisão está em
perigo, e logo veremos que a luta foi em vão.
Esse instrumento pode ensinar. Pode
esclarecer e até inspirar. Mas só pode fazer
isso se as pessoas o usarem com esse objetivo.
Senão será apenas um monte de cabos e luzes
dentro de uma caixa. Boa noite e boa sorte.”
(fala do personagem Edward R. Murrow, no
filme Boa noite e boa sorte, de 2005)
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RESUMO
Atualmente, a editoria esportiva, sempre vista antes como algo mais “leve”, ganha
maior atenção pela proximidade da realização de grandes eventos no país. Portanto, com
foco nos esportes, as empresas de comunicação se desdobram em estratégias para se
aproximar do telespectador. Uma tendência que está se tornando marcante, de forma
ainda mais representativa que antes, é a opção pelo viés do entretenimento e do
espetáculo em detrimento da informação, que deveria ser a prioridade a partir da
identidade pressuposta do jornalismo. Portanto, em que medida esta reformulação
identitária pode comprometer a qualidade da informação divulgada? Encontrar possíveis
respostas para este questionamento é o propósito desta dissertação, cujo objeto de
estudo é o programa “Globo Esporte”, nas edições produzidas no Rio de Janeiro, com
apresentação de Alex Escobar e São Paulo, apresentado pelo jornalista Tiago Leifert,
ambas na Rede Globo. É o principal e único informativo exclusivo esportivo exibido
entre segunda e sábado, na emissora. Por meio das metodologias de análise de conteúdo
e grupo focal, encontramos elementos que apontam a necessidade de adequações para
atender ao público.
Palavras-chave: Comunicação, Identidade, Jornalismo Esportivo, Telejornalismo, Globo
Esporte.
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ABSTRACT
Currently seen as something “lighter”, the sports journalism gets more attention by the
proximity of major events in Brazil. Therefore, focusing on sports, media companies
unfold into strategies for approaching the viewer. A trend that is becoming remarkable,
even more representative than before, is the option from the perspective of
entertainment and spectacle at the expense of information, which should be the priority
from the journalism’s assumed identity. So, the extent to which this identity can recast
compromising the quality of information disclosed? Find possible answers to this
question is the purpose of this dissertation, whose study object is "Globo Esporte"
editions produced in Rio de Janeiro, presented by Alex Escobar and São Paulo,
presented by journalist Tiago Leifert, both for Rede Globo. It is the main and only
exclusive sports news, aired between Monday and Saturday in the aforementioned
Network. Through the methods of content analysis and focus groups, we find elements
that indicate the need for adjustments to suit the audience.
Keywords: Communication, Identity, Sports Journalism, TV Journalism, Globo Esporte.
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO
2 IDENTIDADE
2.1 IDENTIDADE: CONCEITO SEM RAÍZES E COM PONTOS A SEREM
PREENCHIDOS
2.2 CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE POR MEIO DO ESPORTE
3. TELEJORNALISMO E ESPORTE
3.1 AS BASES: IMPRESSO E RÁDIO
3.2 JORNALISMO ESPORTIVO NA TELEVISÃO.
4 GLOBO ESPORTE
4.1 HISTÓRICO DO GLOBO ESPORTE
4.2 GLOBO ESPORTE SÃO PAULO LANÇA TENDÊNCIA
4.3 GLOBO ESPORTE SÃO PAULO X GLOBO ESPORTE RIO DE JANEIRO
4.4 GLOBO ESPORTE NA VISÃO DO GRUPO FOCAL
5 CONCLUSÃO
6 REFERÊNCIAS
6.1 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
6.2 - REFERÊNCIAS AUDIOVISUAIS
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1. Introdução
O peso do entretenimento – espaço dado ao lazer, à diversão e a detalhes não tão
relevantes – na atual execução do jornalismo esportivo é uma preocupação corrente no
meio acadêmico e profissional. Esta opção editorial está sendo empregada sob a
justificativa de conseguir a adesão do telespectador, por meio de formatos e linguagens
que o tornem mais próximo do programa apresentado. A disputa por público e audiência
se revela também uma luta por mercado, onde a emissora se obriga a conquistar sempre
e a nunca perder.
No entanto, dentro do discurso identitário adotado pelos jornalistas ao longo da
formação e estabilização da profissão, não havia espaço para o que se compreende como
entretenimento. Não sem risco de comprometer a informação. Há quem defenda que a
coexistência é possível sem prejuízo de qualidade do noticiário. Recentemente, esta
estratégia ganhou destaque em programas da editoria esportiva, mesmo com as
características que diferenciam esta prática de jornalismo, como o aspecto “emoção”,
que é comum em suas narrativas e costuma ser afastado nas coberturas das demais
áreas, sob o risco de ser sensacionalista.
No entanto, houve a mudança na forma de se entender identidade, que deixou de
ser fixa e estabelecida. Agora é um conceito em constante modificação sujeita a
influências múltiplas e simultâneas. O jornalismo sempre se manifestou como a ponte
entre sociedade e aquilo que é relevante para ela, por meio da divulgação um
enquadramento da realidade de forma a permitir a seu telespectador a capacidade de
análise, conclusões e interações a partir dos dados que recebe.
Desta forma, podemos inferir que as expectativas em torno da atuação do
jornalismo esportivo foram alteradas. Também podemos especular que a narrativa do
“quem somos e o que pretendemos” do jornalismo esportivo a respeito de sua missão
também sofreu modificações, para se adaptar a esta demanda.
Criado em 1978, o Globo Esporte se configura no principal noticiário esportivo
diário na TV Globo. Exibido seis vezes por semana, é um espaço diário do
telejornalismo da editoria na principal emissora do país. Ao longo de quase três décadas
e meia de existência, passou por diversas formatações, mudanças editoriais e mesmo
modos de produção diferenciados – tendo exibido edições cuja elaboração estava
centralizada no Rio de Janeiro e, mais recentemente, descentralizado a produção em
12
diferentes praças. Desta forma, após uma linguagem única se revelar insatisfatória como
forma de estabelecer vínculos com o telespectador, a decisão foi dar voz aos sotaques
regionais, que teriam demandas e prioridades específicas e diferenciadas. Assim, o
público se sentiria representado e identificado com os materiais exibidos e compelido a
acompanhar o programa e considerá-lo referência informacional em suas vidas.
Começamos nosso estudo estabelecendo uma base teórica importante para as
etapas seguintes. O capítulo 2, Identidade, possui duas seções. Na primeira, recorremos
às análises da reconfiguração da identidade em um contexto descentralizado e
globalizado feitas pelos Estudos Culturais. Por meio dos estudos de Stuart Hall, Tomaz
Tadeu da Silva e Kathryn Woodward analisamos a chamada “crise da identidade”, quais
fatores a influenciaram e potencializaram e de que forma mesmo uma identidade
fragmentada e sem raízes pode configurar sistemas classificatórios que estabelecem
hierarquias de diferenciação e identificação em determinados contextos e grupos
sociais. Já na segunda parte, traçamos um paralelo da formação do que se conhece como
“identidade brasileira” e de que forma este discurso se apropriou, incluiu, utilizou o
gosto do brasileiro por futebol. Roberto DaMatta, Marcelo Fila Pecenin, Ronaldo Helal,
Marcos Guterman, Édison Gastaldo, Muniz Sodré são as referências neste momento,
que estabelece o vínculo da modalidade com o estabelecimento de uma visão possível
do “ser brasileiro” perante os nativos e os estrangeiros.
Já o Capítulo 3, Telejornalismo e Esporte, estabelece a trajetória da constituição
do noticiário televisivo esportivo no Brasil. Para isso, consideramos necessário entender
os fatos anteriores inclusive à implantação da televisão no país: portanto, recorremos a
Maurício Stycer e André Ribeiro que realizaram pesquisas sobre a veiculação de
notícias da editoria – desde o século XIX, quando a prática de atividades esportivas
estava restrita aos bem-nascidos filhos da elite, os mesmos que se articularam para dar
voz a este tipo de informação nas páginas dos jornais. Este repertório foi apropriado e
adaptado pelo rádio, que incluiu novas características, próprias do meio, nesta evolução
– e incluímos estudos de Márcio Guerra e Vera Regina Camargo. E um modo
operacional e de abordagem deste noticiário foi herdado pela televisão, que apreendeu
estes referenciais e os moldou conforme suas necessidades particulares, desde um
processo de compreensão do “fazer jornalismo televisivo” até o ambiente de
ultracompetição das emissoras pelos eventos que atraiam mais audiência. E
encontramos em Douglas Kellner ponderações sobre como uma cultura baseada na
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imagem está formando opiniões neste mundo globalizado e de disputa pelo poder de
gerar sentidos.
Em seguida, chegamos ao momento de detalhar a análise do objeto desta
dissertação, o Globo Esporte. Por isso, o capítulo 4 possui quatro divisões: na primeira,
traçamos o histórico do programa. Para nossa surpresa, não há um livro oficial da Rede
Globo sobre a trajetória do noticiário, como já foi lançado sobre novelas, produtos de
entretenimento e volumes diferentes sobre o Jornal Nacional. A fonte oficial é a página
Memória Globo na internet, cujas informações são coletâneas de relatos publicados na
imprensa sobre o tema. O site se tornou a principal referência para as informações sobre
a cronologia do programa, mudanças de estilos e propostas editoriais ao longo deste
tempo de exibição, ao lado de avaliações de Muniz Sodré, Paulo Vinícius Coelho e um
depoimento de Léo Batista, apresentador original e integrante da equipe do Globo
Esporte até hoje. Na segunda parte, detalhamos a análise sobre a linha editorial
implantada em 2008 pelo Globo Esporte São Paulo, cujos méritos e deméritos foram
personalizados na figura do apresentador Tiago Leifert. Ao investir em uma linguagem
mais despojada, em temas que não entravam na pauta do programa (como os vídeo
games) e, especialmente, em priorizar o entretenimento como forma de “tirar o gesso”
de um programa jornalístico, atraiu críticas tanto do meio acadêmico quanto de outros
profissionais sobre a desvalorização e banalização da informação em prol de melhorar
índices de audiência. O resultado apareceu, o Ibope subiu e o modelo foi expandido
dentro da rede jornalística da emissora.
Ainda no Capítulo 4, enfim, passamos a análise de 12 edições do Globo Esporte:
sendo seis do Rio de Janeiro e as outras seis, de São Paulo, exibidas na mesma semana.
Utilizando a metodologia da análise de conteúdo quali-quantitativa, estabelecemos
características particulares de cada praça a partir da mesma base – modelo descontraído
e informal para noticiar – e de critérios específicos a serem inferidos em cada edição.
Assim construir um quadro maior para, a seguir, confrontar os dois estilos, verificando
seus pontos coincidentes, dissonantes, positivos e negativos dentro de um contexto
esperado de um programa de telejornalismo esportivo. Tentamos ainda entrevistas com
as equipes das duas praças cujos programas foram analisados. Infelizmente, não
conseguimos a autorização da Divisão de Esportes a tempo de incluir na dissertação,
apesar do projeto ter sido aprovado no Globo Universidade. Desta forma, recorremos a
depoimentos indiretos (prestados para outras pesquisas) ou em palestras, como a
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realizada no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, em Fortaleza
para acrescentarmos o ponto de vista de quem pensa e produz o Globo Esporte. Para
encerrar esta parte, realizamos um Grupo Focal com integrantes de diferentes origens,
bases e relações cotidianas com o esporte. Eles assistiram a uma edição de cada praça
veiculadas na mesma data. Portanto, indicaria pontos de vista diferenciados dos que
motivaram esta dissertação e análises pontuais sobre o público apreende e avalia duas
práticas jornalísticas diferenciadas resultantes de mesma proposta.
O Capítulo 5 traz as conclusões a que chegamos depois de todo este processo.
Podemos antecipar que o Globo Esporte São Paulo superou rótulos pré-concebidos de
que seria totalmente dedicado ao entretenimento, sem informação; o que não impediu a
detecção de linhas editoriais conflitantes com o que se convencionou chamar de
jornalismo, a partir do investimento de tempo a conteúdos que não transmitem
informação esportiva ao seu telespectador. Da mesma forma, o Globo Esporte Rio de
Janeiro atendeu à expectativa de priorizar a informação, sem ser um jornal formal, duro
e preso em padrões que não estariam em conformidade com a demanda do público. No
entanto, o Grupo Focal trouxe uma importante contribuição: o quanto a característica
predominante de cada praça contribui para incluir ou excluir o telespectador
dependendo do grau de envolvimento dele com o noticiário esportivo.
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2. Identidade
Identidade é um dos conceitos mais discutidos atualmente em diferentes áreas.
Por meio dele, se intercruzam campos de significações e conceitos. No âmbito
comunicacional, interessa de que maneira ela é formada, influencia e é influenciada, e
também se modifica dentro de um determinado contexto. Este estudo utilizará o
conceito de identidade em constante modificação sujeita a influências múltiplas e
simultâneas, conforme análises dos Estudos Culturais.
O nosso olhar está voltado para o esporte. Mais especificamente, o futebol, que
chegou ao país no fim do século XIX, com o tempo, ganhou status de esporte que mais
desperta paixões e interesse, além do potencial de uso político e comercial. Assim,
acompanhou as mudanças do contexto que estava inserido, tornando-se, mais que um
jogo, uma forma de idealização do ser “brasileiro” (através da seleção) e “do torcedor”
(a partir da experiência compartilhada pelo grupo de admiradores de cada clube) e de
estabelecimento de identidades e alteridades diante dos adversários. Vários autores,
como Roberto DaMatta, Marcos Guterman, Ronaldo Helal avaliaram a ênfase no
impacto social e racial do futebol na sociedade brasileira.
Interessa-nos averiguar de que forma a modalidade acompanhou – e contribuiu –
para a construção e o estabelecimento daquilo que foi chamado de “identidade nacional”
e por quais razões se tornou um viés de manifestação do ser brasileiro. Para esta etapa,
nossas bases estão em pesquisa bibliográfica de livros, outros trabalhos acadêmicos e
artigos que também se dedicaram ao estudo do tema.
Na primeira parte deste capítulo, recorremos aos autores que avaliaram os rumos
do conceito de identidade, após a crise que tirou suas raízes e seu centro. Já na segunda
parte, traçaremos a evolução, paralela, do futebol e da formação de um conjunto de
argumentos sobre “ser brasileiro”. Criando e modificando conceitos, padrões e exibindo
as informações do repertório compartilhado pelos integrantes de uma sociedade.
Assim, estabeleceremos as bases para, em etapas posteriores, discutirmos como
a imprensa acompanha, se ajusta e reajusta para retratar este processo. O jornalismo é
um espaço de negociação de identidades. E em uma sociedade em transformação
constante, interessa saber como elas se constroem, desconstroem, afirmam e reafirmam
no contexto da comunicação brasileira, na disputa pela atenção do público.
2.1 – Identidade: conceito sem raízes e com pontos a serem preenchidos
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Quem é você? Uma pergunta que pode ser feita em circunstâncias diferenciadas:
ao tentar se definir perante outra pessoa ou em um contexto diferente do habitual. É a
base da definição de identidade: saber quem se é ou o que é. Antes, era fixo, definido e
determinado: “é assim e assim será”, sem questionar. Hall (2000, p.104) avalia que a
identidade é um desses conceitos que operam “sob rasura”: uma ideia que não pode ser
pensada da forma antiga, mas sem a qual certas questões não podem sequer ser
cogitadas. Segundo ele, na tentativa de reconceitualização do sujeito, de rearticular a
relação entre sujeitos e práticas discursivas que volta a aparecer a questão da identidade
e da identificação (caso se enfatize o processo de subjetivação, em vez das práticas
discursivas e a política de exclusão que essa subjetivação parece implicar).
No entanto, o debate sobre “o que é identidade” ganhou força a partir do
momento em que deixou de ser vista como uma estrutura rígida. Antes, havia um
“sentido de si” imutável em quaisquer condições, que supria com sólidas localizações e
informações sobre si mesmo e o mundo. No entanto, foi abalado com as transformações
das sociedades modernas. Hall (2006) acredita que o deslocamento ou descentralização
dos indivíduos de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos
desencadeou uma transformação. Surgiram variações de posicionamento à medida que
conceitos são questionados e novas oportunidades de reflexões são possíveis, com a
mudança do comportamento do ser humano diante das demandas que lhe são
apresentadas.
Woodward (1997) ressalta que as identidades adquirem sentido por meio da
linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas. Lembra que a
identidade é relacional, para existir, depende de algo de fora dela, que não é, mas que
fornece as condições para que exista. “A identidade é, assim, marcada pela diferença”
(WOODWARD, 1997, p. 9 – grifo da autora). E ainda destaca que parece que algumas
diferenças são vistas como mais importantes que outras, especialmente em lugares e em
momentos particulares. A definição das identidades nacionais é historicamente
específica e marcada por meio de símbolos. A autora concorda que a construção da
identidade é tanto simbólica quanto social. Ao afirmar a primazia de uma identidade é
necessário não apenas colocá-la em oposição a uma outra identidade que é
desvalorizada mas também reivindicar alguma identidade “verdadeira”, autêntica, que
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teria permanecido igual ao longo do tempo. Desta forma, a luta para reafirmar as
diferentes identidades tem causas e consequências materiais.
De acordo com Silva (2000), a primeira aproximação aponta identidade como
aquilo que se é, parecendo ser uma positividade, uma característica independente um
fato autônomo. Assim, é autorreferente, autocontida e autossuficiente. E a diferença é
concebida como uma entidade independente: em oposição à identidade, é aquilo que o
outro é, também autorreferenciada, remetendo a si própria, simplesmente existe. Desta
forma, ele destaca que identidade e diferença estão uma relação de estreita dependência.
A forma afirmativa como expressamos a identidade tende a esconder essa
relação. Quando digo “sou brasileiro” parece que estou fazendo referência a
uma identidade que se esgota em si mesma “Sou brasileiro” – ponto.
Entretanto, eu só preciso fazer essa afirmação porque existem outros seres
humanos que não são brasileiros. Em um mundo imaginário totalmente
homogêneo, no qual todas as pessoas partilhassem a mesma identidade, as
afirmações de identidade não teriam sentido. De certa forma, é isso que
acontece com a nossa identidade de “humanos”. É apenas em circunstâncias
muito raras e especiais que precisamos afirmar que “somos humanos”.
A afirmação “sou brasileiro”, na verdade, é a partir de uma extensa cadeia de
“negações”, de expressões negativas de identidade, de diferenças. Por trás da
afirmação “sou brasileiro” deve-se ler: “não sou argentino”, “não sou
chinês”, “não sou japonês” e assim por diante, numa cadeia, neste caso, quase
interminável. Admitamos: ficaria muito complicado pronunciar todas estas
frases negativas cada vez que eu quisesse fazer uma declaração sobre minha
identidade. A gramática nos permite a simplificação de simplesmente dizer
“sou brasileiro”. Como ocorre em outros casos, a gramática ajuda, mas
também esconde. (SILVA, 2000, p.75)
Hall (2006) distingue três concepções de identidade relacionadas: no sujeito do
Iluminismo, o centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. Era uma
concepção individualista do sujeito (usualmente descrito como masculino) e de sua
identidade. Já no sujeito sociológico, há um núcleo ou essência interior que é o “eu
real”, mas é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais
“exteriores” e as identidades que esses mundos oferecem. “A identidade, nessa
concepção sociológica, preenche o espaço entre o ‘inferior’ e o ‘exterior’ – entre o
mundo pessoal e o mundo público (...). A identidade, então, costura (ou, para usar uma
metáfora médica, sutura) o sujeito à estrutura”. (HALL, 2006, p.11-12).
Já no sujeito pós-moderno, a identidade torna-se uma “celebração móvel”,
definida histórica e não biologicamente, havendo a possibilidade do sujeito assumir
diferentes identidades em diferentes momentos, mesmo que seja algo temporário. Hall
(2006) acredita que identidade é um discurso construído e influenciado pelo contexto, o
que leva a um campo mais amplo do que a determinação de que “algo é isso”. Ela é
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formada e transformada continuamente conforme somos influenciados, interpelados e
afetados pelos processos desencadeados pelos sistemas cultuais – longe de ser una e
sacra.
Assim, a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de
processos inconscientes e não algo inato, existente na consciência no
momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado
sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em
processo”, sempre “sendo formada”. (...) Assim, em vez de falar da
identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação (sic),
e vê-la como um processo em andamento. (HALL, 2007, p. 38-39)
O indivíduo pode criar vínculos variados e diferentes, até antagônicos, livres
para ser temporários ou permanentes, sofrendo alterações com as novas situações
decorrentes do papel que desempenha na inserção no mundo social e cultural. O campo
de avaliação é rico e vasto, apesar do risco constante da simplificação fácil oferecida
pelos estereótipos, modelos já prontos que facilitam a visão de vida no mundo atual,
marcado pela aceleração e pelo excesso de informações.
Em âmbito maior, há a influência na formação das identidades nacionais, que se
transformam no interior da representação do indivíduo na sociedade. Para Hall (2007),
estas identidades não são genéticas, mas são tratadas como parte da natureza essencial
de cada indivíduo. É algo que produz sentido – um sistema de representação cultural.
“As pessoas não são apenas cidadãos/ãs legais de uma nação; elas participam da ideia
de nação tal como representada em sua cultura nacional” (HALL, 2007, p.49). Ele
recorre ao conceito de “comunidade imaginada” de Benedict Anderson: a nação é uma
entidade política e um sistema de representação cultural, que usa a narrativa para unir as
pessoas em torno da ideia de participação em uma comunidade simbólica,
compartilhando valores, representações e sentidos, organizando e influenciando as
ações dos integrantes. Uma idealização que nunca fecha a totalidade, formando
mecanismos que nos amarram uns aos outros.
As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas
também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso
(sic) – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto as
nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (...) As culturas
nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação”, sentidos com o quais
podemos nos identificar (sic), constroem identidades. Estes sentidos estão
contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que
conectam seu presente com seu passado e imagens que delas são construídas.
(HALL, 2007, p. 50-51)
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Hall (2007) lembra que a narrativa da cultura nacional é contada a partir da
narrativa da nação, da ênfase nas origens, na continuidade, na tradição e na
intemporalidade, na invenção da tradição, no mito fundacional e no folk puro, original.
Discurso de relações de poder, construídos de forma híbrida, dentro de um contexto
temporal-espacial e que podem ser alterados de acordo com as variáveis que se
apresentarem. As identidades são construídas de modo ambíguo, entre o passado e o
futuro, por onde transitam quando precisam se afirmar para si mesmo ou para os
“outros” ou mesmo se reinventar. O autor lembra que, ao invés de considerar uma
cultura nacional como a unificação de todos os indivíduos – por mais diferenças que
tenham entre eles – dentro da representação da “mesma e grande família nacional”
(Hall, 2007, pag. 59), deve-se compreendê-las como as construtoras de um dispositivo
discursivo (grifo do autor, 2007, p. 62) que representa a diferença como unidade ou
identidade.
No caso das identidades nacionais, diz Silva (2000), é comum o apelo a mitos
fundadores. À medida que não existe nenhuma “comunidade natural” em torno da qual
se reúnam quem constitui um determinado agrupamento nacional, precisa ser inventada,
imaginada. É necessário criar laços imaginários que permitam “ligar” pessoas que
estariam isoladas, sem nenhum “sentimento” de terem qualquer coisa em comum.
A língua tem sido um dos elementos centrais desse processo – a história da
imposição das nações modernas coincide, em grande parte, com a história da
imposição de uma língua nacional única e comum. Juntamente com a língua,
é central a construção dos símbolos nacionais: hinos, bandeiras, brasões.
Entre estes símbolos, destacam-se os chamados “mitos fundadores”.
Fundamentalmente um mito fundador remete a um momento crucial do
passado em que algum gesto, algum acontecimento, em geral, heroico, épico,
monumental, em geral iniciado ou executado por alguma figura
“providencial”, inaugurou as bases de uma suposta identidade nacional.
Pouco importa se os fatos narrados são “verdadeiros” ou não, o que importa é
que a narrativa fundadora funciona para dar à identidade nacional a liga
sentimental e afetiva que lhe garante uma certa estabilidade e fixação, sem as
quais ela não teria a mesma e necessária eficácia. (SILVA, 2000, p. 85)
Já Woodward destaca que é necessário levar em consideração as formas como a
identidade se insere no que ela chama de “circuito da cultura”, referindo-se ao esquema
elaborado por Paul Du Gay, Stuart Hall, Hugh Mackay e Keith Negus (1997). Eles
argumentam que, para se compreender um texto ou artefato cultural, é necessário
analisar os processos de representação, identidade, produção, consumo e regulação. E
afirmam que se pode começar de qualquer ponto. Não se trata de um processo linear e
sequencial. No esquema, cada momento do circuito está ligado aos outros, mas podem
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ser analisados de forma separada. Neste caso, um artefato cultural tem um efeito sobre a
regulação da vida social, por meio das formas pelas quais ele é representado, sobre as
identidades com ele associadas e sobre a articulação de sua produção e de seu consumo.
A partir disso, Woodward leva a análise para o momento em que o foco se desloca dos
sistemas de representação para as identidades produzidas por eles.
A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos
por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como
sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que
damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. Podemos inclusive
sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo no qual
podemos nos tornar. A representação, compreendida como um processo
cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas
simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões:
Quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? (WOODWARD,
1997, p.17)
Para a autora, os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a
partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e partir dos quais podem falar.
A mídia nos diz como devemos ocupar uma posição-de-sujeito particular – o
adolescente “esperto”, o trabalhador em ascensão ou a mãe sensível. Os
anúncios só serão “eficazes” no seu objetivo de vender coisas se tiverem
apelo para os consumidores e se fornecerem imagens com os quais eles
possam se identificar. É claro, pois, que a produção de significados e a
produção das identidades que são posicionadas nos (e pelos) sistemas de
representação estão estreitamente vinculadas. O deslocamento, aqui, para
uma ênfase na identidade é um deslocamento de ênfase – um deslocamento
que muda o foco: da representação para as identidades. (WOODWARD,
1997, p.18)
Neste contexto, conforme Silva (2000), a representação é concebida unicamente
na dimensão de significante, como um sistema de signos, como pura marca material,
sempre há uma marca ou traço visível, externo. E em segundo lugar, incorpora todas as
características de representação, ambiguidade e instabilidade atribuídas à linguagem.
Deixa de ser algo que aloja a presença do “real” ou do significado. Ela é uma forma de
atribuição de sentido. Como tal, a representação é um sistema linguístico e cultural:
arbitrário, indeterminado e estreitamente ligado a relações de poder.
É aqui que a representação se liga à identidade e à diferença. A identidade e a
diferença são estreitamente dependentes da representação. É por meio da
representação, assim compreendida, que a identidade e a diferença adquirem
sentido. É por meio da representação que, por assim dizer, a identidade e a
diferença passam a existir. Representar significa, neste caso, dizer “esta é a
identidade”, “a identidade é isso” (SILVA, 2000, p. 91).
21
Hall (2007) considera que os fluxos culturais entre as nações e o consumismo
global criam possibilidades de “identidades partilhadas” (no caso, entendidas como
consumidores para os mesmos bens, clientes para os mesmos serviços e públicos para as
mesmas mensagens e imagens) entre pessoas que estão distantes umas das outras no
espaço e no tempo. No entanto, quando o mercado global passa a mediar a vida social
em diferentes setores, com o suporte dos sistemas de comunicação, as identidades se
tornam deslocadas, desvinculadas, desalojadas de suas raízes específicas (temporais,
locais, históricas e tradicionais) e dão a impressão de flutuar livremente, sendo
confrontadas pela chance de optar por outra identidade, parte de uma gama de variadas
opções, ofertadas dentro de um “supermercado cultural”.
No interior do discurso de consumismo global, as diferenças e as distinções
culturais, que até então definiam a identidade, ficam reduzida a uma espécie
de língua franca internacional ou de moeda global, em termos das quais
todas as tradições específicas e todas as diferentes identidades podem ser
traduzidas. Este fenômeno é conhecido como “homogeneização cultural”
(HALL, 2007, p. 75-76, grifos do autor).
Desta forma, Hall (2007) conclui que estão em jogo duas formas de ver e de
pertencer ao mundo, representadas na tensão entre o “global” (ou uma forma
universalista) e o local (uma forma particularista). O autor acredita em uma nova
articulação entre os dois campos e que o global não vá destruir as identidades nacionais.
“É mais provável que ela vá produzir, simultaneamente, novas identificações ‘globais’ e
novas identificações ‘locais’” (2007, p.78). E, contra o argumento da homogeneização
cultural, considera que a tão falada globalização no fim seja apenas um fenômeno
ocidental:
Na última forma de globalização, são ainda as imagens, os artefatos, as
identidades da modernidade ocidental, produzidos pelas indústrias culturais
das sociedades “ocidentais” (incluindo o Japão) que dominam as redes
globais. A proliferação das escolhas de identidade é mais ampla no “centro”
do sistema global que nas suas periferias. Os padrões de troca cultural
desigual, familiar desde as primeiras fases da globalização, continuam a
existir na fase tardia. (HALL, 2007, p. 79)
Esta emergência de novas posições e identidades levou ao termo “crise de
identidade”, que sugere um problema, incerteza e instabilidade. Woodward (1997)
lembra que autores recentes argumentam que é uma característica da modernidade
tardia. A globalização envolve interação entre fatores econômicos e culturais, mudando
os padrões de produção e consumo e produzindo identidades novas e globalizadas,
22
formando um grupo de “consumidores globais” localizados em qualquer lugar do
mundo e que mal se distinguem entre si. O desenvolvimento global do capitalismo não é
obviamente, novo, mas o que caracteriza sua fase mais recente é a convergência de
culturas e estilos de vida nas sociedades que, ao redor do mundo, são expostas ao seu
impacto.
Woodward (1997) ressalta que a globalização produz diferentes resultados em
termos de identidade. Pode levar ao distanciamento da identidade relativa à comunidade
e à cultura local, assim como pode causar uma resistência que fortalece e reafirma
algumas identidades nacionais e locais ou levar ao surgimento de novas formas de
identidade. Ela também considera o peso das mudanças na economia global, que
produziram dispersão das demandas ao redor do mundo, em termos de bens e de
serviços e também de mercado de trabalho. A globalização está relacionada à aceleração
da migração, que afeta tanto o país de origem quanto o país de destino.
A migração produz identidades plurais, mas também identidades contestadas,
em um processo que é caracterizado por grandes desigualdades. A migração é
um processo característico da desigualdade em termos de desenvolvimento.
Nesse processo, o fator de “expulsão” dos países pobres é mais forte do que o
fator de “atração” das sociedades pós-industriais e tecnologicamente
avançadas. O movimento global do capital é geralmente muito mais livre que
a mobilidade do trabalho (WOODWARD, 1997, p.21).
Esta dispersão das pessoas ao redor do mundo, conforme Woodward (1997),
produz identidades que são moldadas e localizadas em diferentes lugares e lugares. As
novas identidades podem ser desestabilizadas e também desestabilizadoras. São
identidades sem pátria e que não podem ser simplesmente atribuídas a uma única fonte.
A política das identidades concentra-se em afirmar a identidade cultural das
pessoas que pertencem a um determinado grupo oprimido ou marginalizado. Torna-se
fator importante de mobilização política, envolvendo a celebração da singularidade
cultural de um determinado grupo, e a análise da opressão específica. Woodward (1997)
destaca que as identidades baseadas na “raça”, no gênero, na sexualidade e na
incapacidade física atravessam o pertencimento de classe, chamando a atenção para
outras divisões sociais, sugerindo que não é mais suficiente argumentar que as
identidades podem ser deduzidas da posição de classe (especialmente quando essa
própria posição está mudando) ou que as formas pelas quais elas são representadas a
definem pouco.
23
A política de identidade tem a ver com o recrutamento de sujeitos por meio
do processo de formação de identidades hegemônicas – o consumidor
soberano, o cidadão patriótico – quanto pela resistência dos “novos
movimentos sociais”, ao colocar em jogo identidades que não têm sido
reconhecidas, ou que têm sido mantidas “fora da história” (Rowbotham,
1973) ou que tem ocupado espaços às margens da sociedade (WOODWARD,
1997, p. 37)
Sobre o essencialismo identitário, Woodward (1997) diz que há duas versões:
uma que fundamenta a identidade na “verdade” da tradição e nas raízes da história,
apelando à “realidade” de um passado possivelmente reprimido e obscurecido, um
produto da história. Já a outra versão está relacionada à categoria “natural”, fixa, na qual
a “verdade” está enraizada na biologia. A autora considera que cada uma delas envolve
uma crença na existência e na busca de uma identidade verdadeira. O essencialismo
pode ser biológico e natural, histórico e cultural, em comum, uma concepção unificada
de identidade. A cultura nacional é estrutura do poder cultural, a diferença (nós não
somos “o outro”) é a linha que costura a ideia de unidade da identidade específica.
As identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Essa
marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de
representação quanto por meio de formas de exclusão social. (...) A
identidade depende da diferença. Nas relações sociais, essas formas de
diferença – a simbólica e a social – são estabelecidas, ao menos em parte, por
meio de sistemas classificatórios. Um sistema classificatório aplica um
princípio de diferença a uma população de uma forma que seja capaz de
dividi-la (e a todas as suas características) em ao menos dois grupos opostos:
nós/eles; eu/outro (WOODWARD, 1997, p.39-40 – grifo do autor).
Cada cultura tem suas próprias e distintivas formas de classificar o mundo.
Assim, a cultura nos propicia os meios para dar sentido ao mundo social e construir
significados. Woodward afirma que há, entre os membros de uma sociedade, um certo
grau de consenso sobre como classificar as coisas a fim de manter algumas ordem
social: na verdade, o que se entende por cultura. Como acontece com as identidades
nacionais, uma identidade sempre é produzida em relação a uma outra. Assim, a
compreensão dos conceitos depende da capacidade de vê-los como fazendo parte de
uma sequência. A aplicação destes conceitos à vida social prática ou organizar a vida
cotidiana de acordo com os princípios de classificação e de diferença, envolve um
comportamento social repetido ou ritualizado. Este conjunto de práticas simbólicas
partilhadas estabelece as fronteiras entre o que está incluído, definido, o que é aceito ou
não.
24
Para Hall (2007), as sociedades de periferia agora estão ainda mais abertas às
influências culturais ocidentais. “Entretanto, evidências sugerem que a globalização está
tendo efeitos em toda parte, incluindo o ocidente, e a ‘periferia’ também está vivendo
seu efeito pluralizador, embora num ritmo mais lindo mais ritmo e desigual” (HALL,
2007, p.80). A globalização alargou o campo das identidades e de novas posições-deidentidade, juntamente com aumento de polarização entre elas. Considera que são
consequências possíveis do processo: o fortalecimento de identidades locais (reação
defensiva de grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de
outra cultura) e a produção de novas identidades (a partir de um eixo comum de
equivalência, um significante passa a agrupar novas identidades, atingindo grupos que,
a priori, teriam apenas em comum o fato de serem tratadas como “a mesma coisa” – ou
seja, o “outro” – pela cultura dominante1). Além do caráter político, que é a forma como
está posicionada no tempo e no espaço e dentro de quais conjunturas, as novas
identidades articulam as diferenças de forma que os polos opostos não se anulem.
Hall (2007) estabelece os conceitos de Tradição e Tradução. Sobre a “Tradição”,
explica que, em toda parte, emergiram identidades culturais que estão suspensas, em
transição, entre diferentes posições; que retiram os recursos, ao mesmo tempo, de
diversas tradições culturais – produtos desses complicados cruzamentos e misturas
culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado. Já a “Tradução” é um
conceito que descreve as formações de identidade que atravessam e intersectam as
fronteiras naturais, compostas por pessoas saíram para sempre da terra natal. Apesar de
manterem, fortes vínculos com os lugares de origem e as suas tradições, não possuem a
ilusão de um retorno ao passado. São obrigadas a negociar com as culturas em que
vivem, sem serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas identidades. A
diferença é que são irrevogavelmente o produto de várias histórias e culturas
interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias casas.
As pessoas pertencentes a essas culturas híbridas têm sido obrigadas a
renunciar ao sonho ou à ambição de redescobrir qualquer tipo de pureza
cultural “perdida” ou de absolutismo étnico. Elas estão irrevogavelmente
traduzidas. A palavra “tradução”, observa Salman Rushdie, “vem,
etimologicamente, do latim, significando “transferir”; “transportar entre
fronteiras”. [...] As culturas híbridas constituem um dos diversos tipos de
identidade distintivamente novos produzidos na era da modernidade tardia.
(Hall, 2007, p.89, grifos do autor).
1
O autor cita o caso das identidades formadas na década de 70 a partir do significante black na Inglaterra, que atingiu
não só as comunidades afro-caribenhas mas também as asiáticas.
25
A contestação no presente se ampara no questionamento para a criação de novas
e futuras identidades nacionais, evocando origens, mitologias e fronteiras do passado.
Ainda de acordo com Woodward (1997), a estratégia de citar repetidamente um passado
supostamente comum – glorioso – contribui para autenticar e validar a identidade, que
passa a ser reivindicada, defendida e vivenciada pela pessoa. Para facilitar a
identificação, o sentimento de pertencer e de união com algum ideal. Ela ressalta que os
atuais conflitos estão concentrados nessas fronteiras, nas quais a identidade nacional é
questionada e contestada. Mesmo que se possa argumentar que não existe nenhuma
identidade fixa, as pessoas envolvidas no processo comportam-se como se ela existisse
e expressam um desejo pela restauração desta comunidade imaginada.
Uma vez que não seria possível reconhecer todas
partilham de nossa identidade nacional, devemos ter
sobre aquilo que a constitui. A diferença entre as
nacionais reside, portanto, nas diferenças pelas quais
(WOODWARD, 1997, p. 24)
aquelas pessoas que
uma ideia partilhada
diversas identidades
elas são imaginadas.
Já Silva (2000) reflete sobre o multiculturalismo, que se apoia em um vago e
benevolente apelo à tolerância e ao respeito com a diversidade e a diferença. O que
considera um problema, uma perspectiva de diversidade onde a diferença e a identidade
tendem a ser naturalizadas, cristalizadas, essencializadas. Ele questiona se a posição
liberal quanto ao respeito e tolerância para com a diversidade e diferença consegue
esgotar todas as questões e esta perspectiva é suficiente para servir de base para uma
pedagogia crítica. Para responder isso, se dedicou a estudar o tema de identidade e da
diferença.
Woodward (1997) concorda que, no mundo contemporâneo, essas comunidades
imaginárias estão sendo contestadas e reconstruídas. Ela cita o exemplo do crescimento
dos partidos de extrema direita como uma reação à suposta ameaça do “Outro”. E sobre
o que Edward Said, em 1978, definiu como “orientalismo”, a tendência da cultura
ocidental de produzir um conjunto de pressupostos e representações sobre o Oriente,
construído como uma fonte de fascinação e perigo, exótico e ameaçador. Estas
representações produzem um saber ocidental sobre o oriente, que diz mais sobre os
medos e as ansiedades ocidentais do que a vida de fato no local. As construções do
Oriente se concentram no fundamentalismo islâmico – que é “demonizado” como a
principal ameaça às tradições liberais. Devemos considerar que o texto de Woodward e
especificamente esta referência são anteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001
26
às Torres Gêmeas, em Nova York. Entendemos que o fato aumentou a visão de que o
Oriente queria a destruição do Ocidente, que agrava este quadro mencionado por
Woodward e por Said. Com consequências ainda se desenrolando pouco mais de uma
década depois. Assim, as mudanças e transformações globais nas estruturas políticas e
econômicas no mundo contemporâneo destacam as questões de identidade e as lutas
pela afirmação e a manutenção das identidades nacionais e étnicas.
As identidades em conflito estão localizadas no interior de mudanças sociais,
políticas e econômicas, mudanças para as quais elas contribuem. As
identidades que são construídas pela cultura são contestadas sob formas
particulares no mundo contemporâneo – num mundo que se pode chamar de
pós-colonial. Este é um período histórico caracterizado, entretanto, pelo
colapso das velhas certezas e pela produção de novas formas de
posicionamento. O que é importante para nossos propósitos aqui é reconhecer
que a luta e a contestação estão concentradas na construção cultural de
identidades, tratando-se de um fenômeno que está ocorrendo em uma
variedade de diferentes contextos. (WOODWARD, 1997, p. 25)
Os conflitos nacionais e étnicos parecem se caracterizar por tentativas de
recuperar e de reescrever a história. A afirmação política da identidade exige alguma
forma de autenticação que, com frequência, é feita por meio da reivindicação da história
do grupo cultural em questão. Woodward (1997) considera que a “indústria” da suposta
herança parece apresentar apenas uma e única versão. O que a leva a questionar: qual é
a história que pesa? A história de quem? Se existe diferentes versões do passado, como
elas negociam entre si? E diante desta pluralidade de posições, qual herança histórica
terá validade? Ou será melhor recorrer ao relativismo, onde todas as diferentes versões
teriam uma validade igual, mas separada?
Na perspectiva da teoria cultural contemporânea, para Silva (1997), o hibridismo
– a mistura, a conjunção, o intercurso entre diferentes nacionalidades, entre diferentes
etnias, entre diferentes raças – coloca em xeque aqueles processos que tendem a
conceber a identidade como fundamentalmente separadas, divididas, segregadas. O
processo confunde a suposta pureza, a insolubridade dos grupos que se reúnem sob as
diferentes identidades nacionais, raciais ou étnicas. A identidade que se forma por meio
do hibridismo não é mais integralmente nenhuma das identidades originais, embora
guarde traços delas. Além disso, ao confundir a estabilidade e a fixação da identidade, a
hibridização, de alguma forma, também afeta o poder. O hibridismo está ligado aos
movimentos demográficos que permitem o contato entre diferentes identidades: as
diásporas, os deslocamentos nômades, as viagens, os cruzamentos de fronteiras.
27
Hall (2000) lembra que a identificação é construída a partir do reconhecimento
de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros públicos
e pessoas ou a partir de um mesmo local. No entanto, outra abordagem ressalta que a
identificação é um processo nunca completado, algo sempre “em construção”. Não é
possível que seja completamente determinada – se pode ganhá-la ou perdê-la, sustentála ou abandoná-la. É condicional, alojada em contingência. “Uma vez assegurada, ela
não anulará a diferença. A fusão total entre o “mesmo” e o “outro” que ela sugere é, na
verdade, uma fantasia de incorporação” (2000, p.16). Para ele, o conceito de identidade
não é essencialista, mas estratégico e posicional. Uma concepção que aceita que as
identidades nunca vão ser unificadas, que são na modernidade tardia, cada vez mais
fragmentadas e fraturadas, que não são singulares, mas multiplamente construídas ao
longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos.
Elas [as identidades] surgem da narrativização do eu, mas a natureza
necessariamente ficcional desse processo não diminui, de forma alguma, sua
eficácia discursiva, material ou política, mesmo que a sensação de
pertencimento, ou seja, à “suturação à história” por meio da qual as
identidades surgem, esteja, em parte, no imaginário (assim como no
simbólico) e, portanto, sempre, em parte, construídas ou, ao menos, no
interior de um campo fantasmático. (Hall, 2000, p.109)
Por isso, seriam pontos de apego temporário às posições-de-sujeito, construídas
pelas práticas discursivas. É necessário que sejam compreendidas como produzidas em
locais históricos e institucionais, estratégias e iniciativas específicas. Também deve ser
considerado que emergem no interior de modalidades específicas do jogo de poder e são
mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma
identidade idêntica, naturalmente construída “de uma ‘identidade’ em seu significado
tradicional – isto é, uma mesmidade que tudo inclui, uma identidade sem costuras,
inteiriça, sem diferenciação interna” (Hall, 2000, p. 109).
Acima de tudo, e de forma diretamente contrária àquela pela qual elas são
constantemente invocadas, as identidades são construídas por meio da
diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente
perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, da relação
com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que
tem sido chamado de seu exterior constitutivo, que o significado “positivo”
de qualquer termo – assim, sua “identidade” – pode ser construído. (Derrida,
1981; Laclau, 1990; Butler, 1993). As identidades podem funcionar, ao longo
de toda a sua história, como pontos de identificação e apego apenas por
causa de sua capacidade para excluir, para deixar de fora, para transformar o
diferente em “exterior”, em abjeto. Toda identidade tem, à sua margem, um
excesso, um algo a mais. (Hall, 2000, p.110)
28
Silva (2000) ressalta que a produção da identidade oscila entre dois movimentos:
de um lado, os processos que tendem a fixar e a estabilizar a identidade; de outro, os
processos que tendem a submetê-la e a estabilizá-la. Entretanto, como acontece com a
linguagem, a identidade está sempre escapando. A fixação é uma tendência e, ao mesmo
tempo, uma impossibilidade.
Woodward (1997) diz que o sujeito fala, sempre, a partir de uma posição
histórica e cultural específica. E haveria duas formas diferentes de pensar a identidade
cultural. A primeira, por meio da recuperação da “verdade” sobre seu passado na
“unicidade” de uma história e de uma cultura partilhadas que poderiam ser
representadas em uma forma cultural para reforçar e reafirmar a identidade. Já a
segunda concepção é que a vê como uma questão tanto de “tornar-se” quanto de “ser”.
Isso não significa negar que a identidade tenha um passado, mas reconhecer
que, ao reivindicá-la, nós a reconstruímos e que, além disso, o passado sofre
uma constante transformação. Esse passado é parte de uma “comunidade
imaginada”, uma comunidade de sujeitos que se apresentam como sendo
“nós”. Hall argumenta em favor do reconhecimento da identidade, mas não
de uma identidade que esteja fixada na rigidez da oposição binária, tal como
as dicotomias “nós/eles” (WOODWARD, 1997, p.28).
Silva (2000) lembra que, para afirmar a diferença depende de uma cadeia, em
geral oculta, de declarações negativas sobre (outras) identidades. No entanto, ele
considera ainda que, em geral, a diferença é considerada derivada da identidade, que
seria a referência, o ponto original relativamente ao qual se define a oposição, uma
tendência a tomar aquilo que se é como a norma pela qual se deve descrever ou avaliar
aquilo que não se é. Em outra visão, mais radical, pode-se afirmar que a origem é a
diferença – compreendida como ato ou processo de diferenciação –, considerando que
ela não seria o resultado em um processo, mas o processo pelo qual tanto a identidade
quanto a diferença (compreendida aqui como resultado) são produzidos.
Para o autor, esta noção está no centro da conceituação linguística de diferença.
Porque identidade e diferença compartilham a característica de não serem elementos da
natureza, essência, coisas que estejam simplesmente aí, à espera de serem respeitadas,
descobertas ou toleradas. Ambas têm que ser ativamente produzidas. São criaturas – e
criações – do mundo cultural e social, fabricadas no meio de relações culturais e sociais.
E por serem atos de criação linguística, precisam ser nomeadas. Elas não podem ser
compreendidas fora dos sistemas de significação nos quais adquirem sentido, sendo
seres da cultura e dos sistemas simbólicos que a compõem. O autor ainda lembra que
29
são uma relação social, cuja definição – discursiva e linguística – está sujeita a vetores
de força, a relações de poder. Não são simplesmente definidas, são impostas, não
convivem harmoniosamente em um campo, sem hierarquias, elas são disputadas.
Não se trata, entretanto, apenas do fato de que a definição da identidade e da
diferença seja objeto de disputa entre grupos sociais assimetricamente
situados relativamente ao poder. Na disputa pela identidade está envolvida
uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da
sociedade. A afirmação da identidade e a enumeração da diferença traduzem
o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir
o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a diferença então, pois,
em estreita conexão com relações de poder. O poder de definir a identidade e
de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais amplas de
poder. A identidade e a diferença não são, nunca, inocentes. (SILVA, 2000,
P.81)
Para Silva (2000), onde existe a diferenciação está presente o poder. São outras
tantas marcas da presença do poder: incluir/excluir (definir quem pertence ou não),
demarcar fronteiras (“nós” e “eles”), classificar (“bons e maus”; “puros e impuros”;
“desenvolvidos e primitivos”; “racionais e irracionais”), normalizar (“nós somos
normais, eles são anormais”). A identidade e a diferença se traduzem em declarações
sobre quem pertence ou não, sobre quem está incluído e quem está excluído. Afirmar a
identidade significa demarcar fronteiras, fazer distinções, porque está sempre ligada a
uma forte separação entre “nós” e “eles” que supõe e, ao mesmo tempo, afirma e
reafirma relações de poder. “Nós” e “eles” não são, neste caso, simples distinções
gramaticais são evidentes indicadores de posições-de-sujeito fortemente marcadas por
relações de poder.
Ficar uma determinada identidade como norma é uma das formas
privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. A
normatização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta
no campo da identidade e da diferença. Normatizar significa eleger –
arbitrariamente – uma identidade específica como o parâmetro em relação ao
qual as outras identidades são classificadas e hierarquizadas. Normatizar
significa atribuir a essa identidade todas as características possíveis, em
relação as quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma
negativa. A identidade normal é “natural”, desejável, única. A força da
identidade natural é tanta que ela nem sequer é vista como uma identidade,
mas simplesmente como a identidade. (SILVA,2000, p.83)
Woodward (1997) complementa dizendo que esta ênfase na representação e o
papel-chave da cultura na produção dos significados que permeiam todas as relações
sociais levam a uma preocupação com a identificação. Ela define como processo pelo
qual ocorre a identificação como os outros, seja pela ausência de uma consciência da
30
diferença ou da separação, seja como resultado de supostas similaridades. O conceito
tem origem na psicanálise e depois foi retomado na teoria do cinema, nos Estudos
Culturais, para explicar a forte ativação de desejos inconscientes relativamente a
pessoas ou a imagens, fazendo com que seja possível se ver na imagem ou na
personagem apresentada na tela. “Diferentes significados são produzidos por diferentes
sistemas simbólicos, mas estes significados são contestados e cambiantes”
(WOODWARD, 1997, p.18).
Para a autora, a cultura molda a identidade ao dar sentido à experiência e ao
tornar possível optar, entre as várias identidades possíveis, por um modo específico de
subjetividade. Ela considera que as pessoas são constrangidas, não apenas pela gama de
possibilidades (variedade de representações simbólicas) que a cultura oferece, mas
também pelas relações sociais.
Os sistemas simbólicos fornecem novas formas de se dar sentido à
experiência das divisões e desigualdades sociais e aos meios pelos quais
alguns grupos são excluídos e estigmatizados. As identidades são
contestadas. (...) A discussão sobre identidades sugere a emergência de novas
posições e de novas identidades, produzidas, por exemplo, em circunstâncias
econômicas e sociais cambiantes (WOODWARD, 1997, p.19).
Woodward (1997) cita a fluidez da identidade. Ao vê-la como uma questão de
“tornar-se”, aqueles que reivindicam a identidade não se limitariam a ser posicionados
pela identidade: eles seriam capazes de posicionar a si próprios e de reconstruir e
transformar as identidades históricas herdadas de um suposto passado comum. Ela
destaca ainda que a formação da identidade ocorre também no nível local e pessoal,
relacionadas ao deslocamento. Não há mais centro fixo, mas uma pluralidade de
centros.
Os indivíduos vivem no interior de um grande número de diferentes
instituições, que constituem aquilo que Pierre Bourdieu chama de “campos
sociais”, tais como as famílias, os grupos de colegas, as instituições
educacionais, os grupos de trabalho, os partidos políticos. Nós participamos
destas instituições ou “campos sociais”, exercendo graus variados de escolha
e autonomia, mas cada um deles tem um contexto material e, na verdade, um
espaço e um lugar, bem como um conjunto de recursos simbólicos. Por
exemplo, a casa é o espaço no qual muitas pessoas vivem suas identidades
familiares. A casa é também um dos lugares nos quais somos espectadores
das representações pelas quais a mídia produz determinados tipos de
identidades – por exemplo, por meio da narrativa das telenovelas, dos
anúncios e das técnicas de venda (WOODWARD, 1997, p.30).
31
Silva (2000) lembra ainda que a identidade e a diferença estão estreitamente
ligadas a sistemas de significação cultural e socialmente atribuído. Para a teoria cultural
contemporânea, a identidade e a diferença estão estreitamente associadas a sistemas de
representação. Na filosofia ocidental, a ideia de representação está ligada à busca de
formas de apropriadas para tornar o “real” presente, de apreendê-lo o mais fielmente
possível por meio de sistemas de significação. Onde a representação se apresenta nas
duas dimensões – representação externa por meio de signos ou a própria linguagem e
representação interna ou mental: a representação do “real” na consciência. Esta
definição foi questionada pelo pós-estruturalismo, que ressalta que a linguagem é um
sistema instável e indeterminado, características
que seriam herdadas pela
representação. No entanto, os teóricos ligados aos Estudos Culturais recuperaram o
conceito de representação, desenvolvendo-o em conexão com uma teorização sobre
identidade e diferença.
Woodward (1997) pondera que existe uma diversidade de posições disponíveis,
que podem ser ocupadas ou não. Parece ser difícil separar algumas dessas identidades e
estabelecer fronteiras entre elas. E que, ainda, há identidades podem ter sofrido
mudanças ao longo do tempo, sendo que algumas sofreram – e ainda sofrem –
mudanças radicais recentemente. Assim, se a complexidade da vida moderna exige que
se assuma diferentes identidades, deve-se considerar que estas diferentes identidades
podem estar em conflito, causando tensões entre diversas posições, quando uma
interfere nas exigências de uma outra – ou mesmo há contradição entre elas.
Silva (2000) avalia ainda que, ao dizer algo sobre certas características
identitárias de algum grupo cultural, imagina-se que seja simplesmente descrevendo
uma situação existente, um “fato” do mundo social. No entanto, aquilo que é dito faz
parte de uma rede mais ampla de atos linguísticos que, em seu conjunto, contribui para
definir ou reforçar a identidade que supostamente apenas está sendo descrita.
Assim, por exemplo, quando utilizamos uma palavra racista como “negrão”
para nos referir a uma pessoa negra do sexo masculino, não estamos
simplesmente fazendo uma descrição sobre a cor de uma pessoa. Estamos, na
verdade, inserindo-nos em um sistema linguístico mais amplo que contribui
para reforçar a negatividade atribuída à identidade “negra” (SILVA, 2000, p.
93).
De acordo com o autor, a eficácia produtiva dos enunciados performativos
ligados à identidade depende da incessante repetição. Em termos de produção de
32
identidade, a ocorrência de uma única sentença deste tipo não teria nenhum efeito
importante. É de sua repetição e, sobretudo, da possibilidade da sua repetição, que vem
a força que um ato linguístico desse tipo tem no processo de produção da identidade.
Um signo deve ser capaz de gerar reconhecimento como se referindo, de forma
relativamente estável, à mesma coisa, apesar de variações acidentais. Se as palavras ou
os signos que são utilizados para referir às coisas ou aos conceitos concretos tivessem
que ser reinventados, a cada vez e por cada indivíduo – isto é, se não fossem repetíveis
– já não seriam signos tais como os concebemos. Conforme Silva, Derrida chama a
característica de repetibilidade da escrita e da linguagem, de “citacionalidade”: ela pode
ser sempre retirada de um determinado contexto e inserida em um contexto diferente.
É exatamente essa “citacionalidade” da linguagem que se combina com seu
caráter performativo para fazê-la trabalhar no processo de produção da
identidade. Quando utilizo a expressão “negrão” para me referir a um homem
negro, não estou simplesmente manifestando uma opinião que tem origem
plena e exclusiva em minha intenção, em minha consciência e em minha
mente. Ela não é simples expressão singular e única de minha soberana e
livre opinião. Em um certo sentido, estou efetuando uma operação de
“recorte e colagem”. Recorte: retiro a expressão do contexto social mais
amplo em que ela foi tantas vezes enunciada. Colagem: insiro-a no novo
contexto, no contexto em que ela reaparece sobre o disfarce de minha
exclusiva opinião, como o resultado de minha exclusiva operação mental. Na
verdade, estou apenas “citando”. (...) Minha frase é apenas mais uma
ocorrência de uma citação que tem sua origem em um sistema mais amplo de
operações de citação, de performatividade e, finalmente, de definição,
produção e reforço da identidade cultural. (SILVA, 2000, p. 95).
Woodward (1997) destaca que a diferença é marcada por representações
simbólicas que atribuem significado às relações sociais, mas a exploração da diferença
não diz por que as pessoas investem nem por que existe este investimento pessoal na
identidade. Ela avalia que os termos identidade e subjetividade são, às vezes, utilizados
de forma intercambiável e que existe uma considerável sobreposição entre os dois.
“Subjetividade” sugere a compreensão que temos sobre o nosso eu. O termo
envolve os pensamentos e as emoções conscientes e inconscientes que
constituem nossas concepções sobre “quem nós somos”. A subjetividade
envolve nossos sentimentos e pensamentos mais pessoais. Entretanto, nós
vivemos nossa subjetividade em um contexto social no qual a linguagem e a
cultura dão significado à experiência que temos de nós mesmos e no qual nós
adotamos uma identidade. Quaisquer que sejam os conjuntos de significados
construídos pelos discursos, eles só podem ser eficazes se ees nos recuram
como sujeitos. (WOODWARD, 1997, p.55)
O conceito de subjetividade permite uma exploração dos sentimentos que estão
envolvidos no processo de produção da identidade e do investimento pessoal que
33
fazemos em posições específicas de identidade, que permitem explicar as razões pelas
quais as pessoas se apegam a identidades particulares.
É também por meio da representação que a identidade e a diferença se ligam a
sistemas de poder. Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e determinar
a identidade. É por isso que a representação ocupa um lugar tão central na teorização
contemporânea sobre identidade e nos movimentos sociais ligados à identidade.
“Questionar a identidade e a diferença significa, nesse contexto, questionar os sistemas
de representação que lhe dão suporte e sustentação” (SILVA, 2000, p. 91).
E segundo Silva, esta relação de estreita dependência reforça que os padrões de
avaliação são produzidos no mundo social e cultural, fabricados no contexto linguístico,
devem ser nomeados e instituídos como tais. Para Roberto DaMatta, esta formação
passa pelas escolhas que cada sociedade faz sobre si mesma
A construção de uma identidade social, então, como a construção de uma
sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões.
Tome uma lista de tudo o que você considera importante e com ela você
poderia saber quem é quem. Descobrindo como as pessoas se posicionam e
atualizam as “coisas” desta lista, você fará um “inventário” de identidades
sociais e de sociedades. Isso lhe permitirá descobrir o estilo e o “jeito” de
cada sistema. Linguagem antropológica, a cultura ou ideologia de cada
sociedade. Porque, para mim, a palavra cultura exprime precisamente um
estilo, um modo e um jeito, repito, de fazer coisas. (DAMATTA, 1984, p.17)
Apesar deste maior poder de influência sobre todos os campos da vida social,
Felipe di Blasi ressalta que, apesar da abertura de fronteiras comerciais e informativas, o
local tende a preservar-se da descaracterização interna.
Apesar de a globalização interferir internamente nas nações, existem
mecanismos de preservação interna que são adotados, mantendo seu
sentimento e valores particulares. Só assim, garantidas internamente, as
nações podem lançar-se no mercado global, interagindo neste “mercado dos
Estados nacionais”, cada uma com sua moeda cultural específica, seja no
campo político, econômico ou esportivo. (BLASI, 2006, p.6)
A estrutura aberta permite haver história, dentro da possibilidade de novas
articulações, produção de novos sujeitos na busca por sua recomposição, uma fantasia a
ser perseguida, mas nunca alcançada. O indivíduo foi libertado de seus apoios estáveis
nas tradições e nas estruturas, o que leva a uma disputa de poder porque o “eu” é
apresentado em diferentes situações sociais, gerando conflitos entre os diferentes papéis
e a necessidade de negociá-los. Ainda considera que os sentimentos e pensamentos mais
íntimos junto à linguagem e à cultura dão significado à experiência pessoal e que leva a
34
adotar, se apegar e investir em posições específicas de uma identidade. A professora
Cicília Peruzzo considera que a cultura se torna um campo para expressão de
sentimentos, de posturas, de ideais, ora solitários, ora, de um grupo e até de uma
sociedade.
A cultura organiza a experiência, ordena e estrutura nosso presente, a partir
do lugar que ocupamos nas relações sociais. É também a fantasia e projeto
que superam a realidade. A cultura é escape, evasão e destruição – nos
permite abrir as comportas da utopia, permite pensar em outras formas de
organização, mesmo que, naquele momento, sejam irrealizáveis. (PERUZZO,
1998.)
Ver a identidade e a diferença como uma questão de produção social significa
tratar as relações entre as diferentes culturas não como uma questão de consenso, de
diálogo ou comunicação, mas como uma questão que envolve, fundamentalmente,
relações de poder. A identidade e a diferença não são entidades preexistentes, que estão
aí desde sempre ou que passaram a estar aí a partir de algum momento fundador, elas
não são elementos passivos da cultura, mas têm que ser constantemente criadas e
recriadas. A identidade e a diferença têm a ver com a atribuição de sentido ao mundo
social e com disputa e luta em torno dessa atribuição: “outro cultural é um problema
porque coloca em xeque a nossa própria identidade” (SILVA, 2000, p. 97).
Mesmo quando explicitamente ignorado e reprimido, a volta do outro, do
diferente, é inevitável, explodindo em conflitos, confrontos, hostilidade e até
mesmo violência. O reprimido tende a voltar – reforçado e multiplicado. E o
problema é que esse “outro”, numa sociedade em que a identidade torna-se,
cada vez mais, difusa e descentrada, expressa-se por meio de muitas
dimensões. O outro é o outro gênero, o outro é a cor diferente, o outro é a
outra sexualidade, o outro é a outra raça, o outro é a outra nacionalidade, o
outro é o corpo diferente (SILVA, 2000, p. 97).
Hall (2000) diz que as características assumidas pelas identidades são, na
verdade, uma forma construída de fechamento, porque ela continua tendo necessidade
daquilo que lhe “falta”, mesmo que seja um outro silenciado e inarticulado. Se as
identidades só podem não como aquilo que fixa o jogo da diferença em um ponto de
origem e estabilidade, mas como aquilo que é construído na différance ou por meio
dela, sendo constantemente desestabilizadas por aquilo que deixam de fora, como
compreender seu significado e teorizar sua emergência? O autor ressalta que usa o
termo identidade para significar o ponto de encontro e sutura, entre, por um lado, os
discursos e as práticas que tentam interpelar, falar ou convocar para assumir lugares
35
como sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, os processos que
produzem subjetividades, que constroem os sujeitos com os quais se pode “falar”.
2. 2 – Construção da Identidade por meio do Esporte
Após a discussão sobre a formação e questionamentos que cercam o conceito de
identidade em diferentes instâncias (seja global, local, grupal ou individual), passamos a
analisar a construção do discurso que permeia e é utilizado para unir as pessoas em um
país. E a reflexão sobre o caso brasileiro considera como o esporte faz parte desta
identidade divulgada como nacional, não importa em que contexto de tempo e espaço.
Historicamente, lembra Sodré (1977), o esporte como se conhece é filho
legítimo da Revolução Industrial. A lógica do esporte no Ocidente é a mesma que situa
em esferas diferentes as noções de corpo e espírito.
O esporte pressupõe não só esta filosofia do corpo, mas também a
mecanização dos meios de trabalho (aos quais surge como reação) e um certo
processo de produção que submete inapelavelmente o corpo do homem. Em
princípio, o esporte parece gerar uma reação ao controle do corpo pela
máquina, mas é logo envolvido pela trama de relações em que esta funciona.
Não demora a converter-se numa forma de organização técnica do corpo,
capaz de reproduzir as regras políticas dominantes, como qualquer outra
organização produtiva (SODRÉ, 1977, p.137-138).
DaMatta (2006) estudou o tema, em artigos, livros e ensaios, incluindo textos
para jornais. Ao contrário de outros analistas, que somente enxergam o esporte como
um coadjuvante de uma ideologia de dominação, ele diz que foi o vislumbre da
igualdade como valor e escolha um dos traços que contribuíram para a popularização,
tornando-o uma mania e um acontecimento festejado e amado pelo povo.
Essa relação entre povo e futebol tem sido tão profunda e produtiva, que
muitos brasileiros se esquecem de que ele foi inventado na Inglaterra e
pensam que ele é, como a mulata, o samba, a feijoada, o jogo do bicho, o
cafuné, a sacanagem e a saudade, um produto brasileiro. Tal ousadia em
mudar, canibalizando, uma história recente e bem documentada apenas indica
o quanto o “futebol” foi devidamente apropriado pelas massas que com ele
mantêm uma invejável intimidade. Intimidade que o torna nativo e o redefine
como uma instituição brasileira, contrariando as visões xenófobas cujo ponto
de partida é a idéia de que o Brasil é uma sociedade tão débil e pronta a ser
iludida que suas elites têm que protegê-la de tudo o que chega de fora
(DAMATTA, 2006, p.143).
DaMatta destaca que havia um engano em ler todos os problemas do país por um
ângulo exclusivamente político. E o futebol como espetáculo escapa a este
equacionamento, as pessoas ficam perdidas, o politizam mal e a energia positiva que ele
36
desperta e dissemina socialmente. Ele lembra que o universo do espore nasceu de um
conjunto de atividades festivas e antirrotineiras que contrastavam com as obrigações do
trabalho.
Se o trabalho obriga, a festa inventa a escolha. Se o trabalho tem como
objetivo a racionalidade que protege, garante e sustenta, o ritual exagera
(como as procissões) e subverte (como o carnaval).
Foi de dentro deste universo arbitrário e certamente auto-referido que nasceu
o esporte e a arte. Tais são atividades que, dizem os materialistas, o homem
não precisa e nelas se aliena. Mas o fato é que sem arte, vinho e música –
sem os esportes e os jogos – os homens não sobreviveriam. Pior que isso, não
seriam verdadeiramente humanos. Pois o que nos distingue dos brutos é
precisamente essa capacidade de poder praticar o que não é objetivo, nem
produtivo ou muito menos necessário, como o jogo e o ritual. (DAMATTA,
2006, p.60-61)
No ensaio O que faz o brasil, Brasil?, Roberto DaMatta (1984) considera que
tanto os homens quanto as sociedades se definem por estilos e modos de fazer as coisas.
É precisamente nessa espécie de zona indeterminada, mas necessária, que nascem as
diferenças e, nelas, os estilos, os modos de ser e estar, os “jeitos” de cada qual. Portanto,
diz ele, o Brasil pode ser encontrado em toda parte. Uma leitura do Brasil que deseja ser
maiúsculo por inteiro: o BRASIL do povo e das suas coisas.
Não queremos ver um Brasil pequeno e outro grande, já feito. Não! Queremos,
isto sim, descobrir como é que eles se ligam entre si; como é que cada um
depende do outro, e como os dois formam uma realidade única que existe
concretamente naquilo que chamamos “pátria”. “brasil” é dado nas
possibilidades humanas, mas que o segundo Brasil é feito de uma combinação
especial dessas possibilidades universais.” (DAMATTA, 1984, p.14)
Para DaMatta (1984), a sociedade brasileira não poderia ser entendida na base de
uma só causa ou de um só princípio social. Ele afirma que ela é regida por uma lógica
comum, relacional, que se manifesta em diferentes campos, criando personagens
intermediários, que conciliam tudo que a sociedade mantém dividido.
Minha resposta indica que o Brasil é uma sociedade interessante. Ela é
moderna e tradicional. Combinou, no seu curso histórico e social, o indivíduo
e a pessoa, a família e a classe social, a religião e as formas econômicas mais
modernas. Tudo isso faz surgir um sistema com espaços internos muito bem
divididos e que, por isso mesmo, não permitem qualquer código hegemônico
ou dominante. Assim, conforme tive que repetir inúmeras vezes, somos uma
pessoa em casa, outra na rua e ainda outra no outro mundo. Mudamos nesses
espaços de modo obrigatório porque em cada um deles somos submetidos a
valores e visões de mundo diferenciados que permitem uma leitura especial
do Brasil como um todo. [...] Entre essas três esferas, colocamos um mundo
de relações e situações formais. São as nossas festas e a nossa moralidade,
37
que, como disse, se fundam na verdadeira obsessão pela ligação.
(DAMATTA, 1984, p.120)
Conforme DaMatta (1984), é necessário descobrir como as identidades são
construídas. Ele diz que, no meio de uma multidão de experiências dadas a todos os
homens e sociedades, algumas necessárias à própria sobrevivência, outras acidentais ou
históricas, para ser mais preciso, cada sociedade (e cada ser humano) apenas se utiliza
de um número limitado de “coisas” (e de experiências) para construir-se como algo
único, maravilhoso, divino e “legal” (1984, p.16).
A construção de uma identidade social, então, como a construção de uma
sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões.
Tome uma lista de tudo o que você considera importante e com ela você
poderia saber quem é quem. Descobrindo como as pessoas se posicionam e
atualizam as “coisas” desta lista, você fará um “inventário” de identidades
sociais e de sociedades. Isso lhe permitirá descobrir o estilo e o “jeito” de
cada sistema. Linguagem antropológica, a cultura ou ideologia de cada
sociedade. Porque, para mim, a palavra cultura exprime precisamente um
estilo, um modo e um jeito, repito, de fazer coisas. (DAMATTA, 1984, p.17)
Marcos Guterman (2009) estudou o paralelo entre a história e consolidação do
futebol com o estabelecimento de uma identidade brasileira. Ele defende que a
modalidade é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e
também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos
brasileiros. Para o jornalista, o futebol é pura construção histórica, gerado como parte
indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil.
Helal e Gordon Jr. (2001, p. 69) destacam que as histórias oficiais sobre
formação de identidades nacionais seriam construções que, mesmo que incentivadas por
uma elite, só fazem sentido e se tornam oficiais, quando “colam” com os anseios da
população, isto é, quando são simultaneamente, mito e sonho. Seria o resultado de uma
tensão dialética entre elite (discurso erudito) e povo (discurso popular). Eles afirmam
que as essencializações, das quais a construção de uma identidade nacional faz parte,
são eficazes, possuem “materialidade”, mesmo sendo simbólicas; ou seja, produzem um
resultado prático no imaginário coletivo.
No entanto, percebe-se um determinado estilo, observado pelos agentes do
universo futebolístico, incluindo-se aí a imprensa nacional e internacional.
Esse estilo privilegiaria o drible, o toque de bola, o improviso e a criatividade
e ficou sendo denominado “futebol-arte” em contraste com um estilo que
privilegia a força física e a aplicação tática, o chamado “futebol-força”,
praticado, em sua maioria, pelos clubes europeus. Essa distinção é “real” no
imaginário coletivo do universo futebolístico. Não é à toa que a discussão
entre “arte” e “força” ganha uma dimensão maior aqui no Brasil. (HELAL,
GORDON JR, 2001, p.70)
38
DaMatta (2006) ressalta que o futebol chegou ao Brasil por meio de um bem
documentado processo de difusão cultural. E concorda que ajudou a consolidar e
popularizar a vida esportiva nacional, abrindo as portas da sociedade a uma série de
atividades autorreferidas, marcadas por disputas igualitárias e apaixonantes. Além de ser
o contraponto ao universo duro e penalizante do trabalho que, entre os brasileiros,
demarca a esfera da “obrigação”, do “castigo”, do “batente” e dos limites impostos pela
chamada “dura realidade da vida” (2006, p.136).
[...] o futebol foi introduzido no Brasil sob o signo iniludível do novo, pois,
muito mais do que um simples “jogo”, ele constava da lista das coisas
civilizadas e moderníssimas a serem adotados pela sociedade brasileira, uma
sociedade vista por suas elites como atrasada e, com a proclamação da
República, em alvoroço para recuperar o tempo perdido. (DAMATTA, 2006,
p.136)
Assim, o futebol chegou nas fábricas e clubes, onde ajudava a disciplinar os
corpos, esfriando as mentes e aplainando os corações, protegendo-os de ideologias
subversivas e fazendo-os obedientes às suas regras.
Pois diferentemente de outras instituições, o futebol tem a capacidade de unir
muitas dimensões simbólicas na sua invejável multivocalidade, sendo a um
só tempo, jogo e esporte, ritual e espetáculo, instrumento de disciplina de
massas e evento prazeroso. Algo que desperta arroubo, mas determina
treinamento; requer disciplina e, no entanto, pressiona para a vitória a
qualquer custo. Acima de tudo, porém, o futebol obriga respeito por suas
regras, essas normas simples não podem mudar durante a partida e devem
valer para todos, regras que institucionalizam, agenciam e legitimam o campo
do esporte como um domínio especial e autônomo da vida social
(DAMATTA, 2006, p.139)
Estas questões também perpassaram o esporte, em especial, nas origens do
futebol no país. Importada pelos filhos de famílias ricas, no fim do século XIX, a
modalidade começou disputada de forma amadora, em clubes da elite. E, de forma
paralela, a prática por operários e populares se difundia nos campos de várzea. Não
demorou a se tornar uma via de canalização da violência e de controle social, mantendo
a segregação racial. Conforme o autor, a primeira década do século XX terminou
dividida entre o amadorismo e o profissionalismo, entre o caráter elitista e popular do
futebol e entre a alvura dos jogadores e a introdução do elemento negro, que mudaria
drasticamente o cenário do esporte no Brasil.
39
DaMatta (1984) também analisou o que chama de “Racismo à brasileira”. Ele
explica que as sociedades igualitárias engendraram formas de preconceito muito claras,
porque sua ideologia negava o intermediário, a gradação e a relação entre grupos que
deveriam permanecer separados, embora pudessem ser considerados teoricamente
iguais. Já o Brasil é diferente porque, numa sociedade onde não há igualdade entre as
pessoas, o preconceito velado é forma muito mais eficiente de discriminar pessoas de
cor, desde que elas fiquem no seu lugar e “saibam” qual é ele. Assim, o “triângulo
racial” impede uma visão histórica e social da nossa formação como sociedade.
Ao acreditar que o Brasil foi feito de negros, brancos e índios, aceitamos sem
muita crítica a idéia de que esses contingentes humanos se encontraram de
modo espontâneo, numa espécie de carnaval social e biológico. Somos um
país feito por portugueses brancos e aristocráticos, uma sociedade
hierarquizada e que foi formada dentro de um quadro rígido de valores
discriminatórios. Eles já tinham uma legislação discriminatória contra judeus,
mouros e negros, muito antes de terem chegado ao Brasil; e aqui apenas
ampliaram essas formas de preconceito. A mistura de raças foi um modo de
esconder a profunda injustiça social contra negros, índios e mulatos, pois,
situando no biológico uma questão profundamente social, econômica e
política, deixava-se de lado a problemática mais básica da sociedade. De fato,
é mais fácil dizer que o Brasil foi formado por um triângulo de raças, o que
nos conduz ao mito da democracia racial, do que assumir que somos uma
sociedade hierarquizada, que opera por meio de gradações e que, por isso
mesmo, pode admitir, entre o branco superior e o negro pobre e inferior, uma
série de critérios de classificação. Assim, podemos situar as pessoas pela cor
da pele ou pelo dinheiro. Pelo poder que detêm ou pela feiúra de seus rostos.
Pelos seus pais e nome de família, ou por sua conta bancária. As
possibilidades são ilimitadas, e isso apenas nos diz de um sistema com
enorme e até agora inabalável confiança no credo segundo o qual, dentro
dele, “cada um sabe muito bem o seu lugar”. (DAMATTA, 1984, p.46-47)
Um dos pioneiros foi o time do Corinthians, fundado em 1910 por trabalhadores
do Bom Retiro, em São Paulo. Eles estavam dispostos a romper o padrão de que apenas
os ricos e bem nascidos jogavam o esporte. Nesta mesma década, surgiu o primeiro
ídolo do futebol brasileiro, Arthur Friedenreich, um dos dois mestiços a atuar pela
seleção marcou o gol que deu o primeiro título internacional à Seleção Brasileira - o
Campeonato Sul-Americano em 1919. Filho de pai alemão e mãe escrava, pode ser
encarado como exemplo dos conflitos e as singularidades que o país atravessava: uma
transição entre ser quem ainda não era – e talvez não pudesse ser – e ser algo ainda
indefinido.
Fried, como por encanto, deixou de ter raça. “Nem branco nem mulato, sem
cor, acima dessas coisas”, ironizou Mario Filho. Mesmo antes disso, Fried
procurava ele mesmo esconder como pode sua condição de mulato, alisando
vigorosamente o cabelo antes de entrarem campo (razão pela qual era sempre
40
o último a aparecer, o que acabava chamando ainda mais a atenção para ele).
Era, conforme Mario Filho, o “mulato que queria ser branco”.
(GUTERMAN, 2009, p.44)
Assim, Friedenreich “deixou de ser negro” por causa da ascendência europeia e
em virtude da transformação em herói nacional. Para explicar o processo, Guterman
(2009, p. 44) recorre Caio Prado Júnior, “uma gota de sangue branco faz do brasileiro
um branco”, reforçando que a classificação étnica do indivíduo se faz no Brasil pela
posição social: se o negro estivesse bem posicionado socialmente, deixaria de ser negro.
Outro clube importante foi o Vasco, fundado como um clube de remo em 1898.
Teve o primeiro presidente negro da história das agremiações cariocas. E venceu o
campeonato de 1923, com um time de negros e trabalhadores, mostrando que, bem
treinados e remunerados, podiam vencer os clubes de estudantes ricos do futebol
brasileiro.
Como disse Mario Filho: “Desaparecera a vantagem de ser de boa família, de
ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o estudante, o branco,
tinha de competir, em igualdade de condições, com o pé-rapado, quase
analfabeto, o mulato e o preto para ver quem jogava melhor. Era uma
verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro”. (GUTERMAN,
2009, p.55)
DaMatta (1984) considera que para o Brasil ter uma democracia racial é
necessário que ela assegure a todos os brasileiros o direito de ser igual perante a lei.
Enquanto isso não for descoberto, ficaremos sempre usando a nossa
mulataria e os nossos mestiços como modo de falar de um processo social
marcado pela desigualdade, como se tudo pudesse ser transcrito no plano do
biológico e do racial. Na nossa ideologia nacional, temos um mito de três
raças formadoras. Não se pode negar o mito. Mas o que se pode indicar é que
o mito é precisamente isso: uma forma sutil de esconder uma sociedade que
ainda não se sabe hierarquizada e dividida entre múltiplas possibilidades de
classificação. Assim, o “racismo à brasileira”, paradoxalmente, torna a
injustiça algo tolerável, e a diferença, uma questão de tempo e amor. Eis,
numa cápsula, o segredo da fábula das três raças... (DAMATTA, 1984, p.47)
DaMatta destaca que o brasileiro descobriu e aperfeiçoou um modo, um estilo de
navegação social que passa nas entrelinhas dos autoritários “não pode!”. Entre o “pode”
e o “não pode”, escolhe-se, de modo antilógico, mas singularmente brasileiro, a junção
do “pode” com o “não pode”. “Pois bem, é essa junção que produz todos os tipos de
‘jeitinhos’ e arranjos que fazem com que possamos operar um sistema legal que quase
sempre nada tem a ver com a realidade social” (DAMATTA, 1984, p. 99).
41
O “jeito” é um modo e um estilo de realizar. Mas que modo é esse? É lógico
que ele indica algo importante. É, sobretudo, um modo simpático,
desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal; nos casos
— ou no caso — de permitir juntar um problema pessoal (atraso, falta de
dinheiro, ignorância das leis por falta de divulgação, confusão legal,
ambigüidade do texto da lei, má vontade do agente da norma ou do usuário,
injustiça da própria lei, feita para uma dada situação, mas aplicada
universalmente etc.) com um
problema impessoal. Em geral, o jeito é um modo pacífico e até mesmo
legítimo de resolver tais problemas, provocando essa junção inteiramente
casuística da lei com a pessoa que a está utilizando. (DAMATTA, 1984, p.
99).
Gastaldo (2001) considera que a apropriação social do futebol como fato cultural
é um importante aspecto constituinte da cultura brasileira contemporânea. E a ele são
atribuídos características do que seria a identidade brasileira, entre elas, o que ele chama
de modalidade de conduta conhecida como malandragem.
Neste sentido, Soares (1994:68) relaciona futebol e malandragem no Brasil,
considerando a malandragem um "mito constituidor da identidade brasileira",
definindo-a como uma "orientação de conduta" que, incorporada na atitude
dos jogadores brasileiros, acabaria configurando uma (p.124) maneira própria
dos brasileiros de praticarem este esporte, numa modalidade que ele chama
de "futebol-malandro". Embora a relação estabelecida por este autor entre as
categorias "futebol força" e "futebol-arte" com os pensamentos políticos de
tipo "totalitário" e "liberal" seja interessante, sua análise é muito centrada nos
aspectos pragmáticos do jogo, em entrevistas com jogadores de futebol
profissionais, evitando interpretações dos aspectos simbólicos presentes no
universo deste esporte. Soares nota com muita propriedade que os atributos
que, segundo seus entrevistados, caracterizam o "ser malandro" em um jogo
de futebol, como o equilíbrio psicológico, a inteligência e a experiência, são
valorizados em todas as atividades esportivas, não se constituindo, em si,
nenhum princípio diferenciador (portanto constituidor de identidade).
Entretanto, a constituição social de uma identidade passa justamente pela
reinterpretação destes atributos, que serão dotados de sentido a partir de uma
"lógica simbólica" (que o autor evita interpretar) do grupo, que deve ser
decodificada. (GASTALDO, 2001, p.124-125)
Fazendo o paralelo com a evolução do futebol no Brasil foi o The Bangu
Athletic Club, fundado em 1904 no subúrbio do Rio pelos trabalhadores da fábrica de
tecidos Companhia Progresso Industrial. Foi o primeiro a ter traços de profissionalismo
fora do universo da elite do futebol, representou mais um passo para a abertura
democrática do futebol para a massa, a meio caminho de transformar-se em ganha-pão
(GUTERMAN, 2009, p.52). No início da década de 1920, o cenário do futebol era o
embate entre a pressão pela profissionalização e a defesa do amadorismo (forma de
42
impedir que trabalhadores entrassem nos times que disputam campeonatos oficiais).
Assim, escancarou-se o chamado “falso amadorismo”: para resolver a obrigação de ter
atletas empregados, o clubes inventaram fictícios. Multiplicavam-se casos de
pagamento de prêmios (o hoje chamado “bicho”) por vitória. Conforme Guterman
(2009, p.54), a popularização da modalidade entre todas as classes sociais levou os
clubes a ignorar ou driblar as normas para montar os melhores e mais competitivos
times.
Seria um exemplo do que DaMatta (1984) considera que, quando o jeitinho não
resolve, usamos o argumento (ou contra-argumento) da autoridade contra o funcionário,
o “sabe com quem está falando?”. A hierarquização inapelável entre o usuário e o
atendente rebate o “não pode” do funcionário com um “não pode do não pode” feito
pela invocação do “sabe com quem está falando? Sou filho do Ministro!”.
“Jeitinho.” e “você sabe com quem está falando?” são, pois, os dois polos de
uma mesma situação. Um é um modo harmonioso de resolver a disputa; o
outro é um modo conflituoso e um tanto direto de realizar a mesma coisa. (...)
A malandragem, como outro nome para a forma de navegação social
nacional, faz precisamente o mesmo. O malandro, portanto, seria um
profissional do “jeitinho” e da arte de sobreviver nas situações mais difíceis
(DAMATTA, 1984, p.101-102).
No entanto, quando a vontade política entra em campo, nem as estratégias do
jeitinho para o amadorismo continuar estabelecendo limites entre ricos e pobres com
direito de jogar futebol conseguem sobreviver. Na década de 1930, começou a disputa
da Copa do Mundo, que daria impulso ao sentido de que a pátria vestia chuteiras e
entrava em campo. Diz Guterman (2009, p.64-65), “a seleção não podia prescindir dos
melhores jogadores em atividade no país, ainda que não fossem brancos ou ricos”.
Segundo Sodré (1977), o estudo do futebol se torna um terreno fértil para
qualquer pesquisador como encenação imaginária de contato e mediação do Brasil.
Segundo ele, parece traduzir investimentos ideológicos correspondentes não apenas a
posições de classe e raça, mas também á posição do país como um todo.
No início (nas três primeiras décadas deste século), o futebol funcionou
basicamente como um rito discriminatório de classes. Era um privilégio de
brancos ricos (possivelmente um comportamento de conciliação entre
comerciantes, latifundiários e elementos estrangeiros), que excluía os nativos
pobres, daí o problema racial historiado por Mário Filho em O Negro do
Futebol Brasileiro. Mas, a partir do final da década de 20, o mercado interno
emerge como principal centro dinâmico da economia brasileira, reavaliando
consequentemente os estratos médios da grande formação social urbana. O
futebol – por razões que pendem um estudo elucidativo - capitalizou aspectos
43
de uma ideologia populista difusa nos quais se misturavam anseios de
entretenimento com aspirações de ascensão social. Nesse quadro social, o
jogador de futebol profissionaliza-se e “escurece”, ou seja, assimila mulatos e
negros, grandes constituintes em classes pobres. Deste modo, produzia-se
através do jogo um mito (uma significação) de ajustamento e identidade ao
nível da nação, das classes e das raças (SODRÉ, 1997, p.148 – grifo do
autor).
O futebol espelhava a transformação na vida política nacional, onde acontecia
uma renegociação dos modelos de exploração, a partir da emergência da “burguesia
industrial” e de suas pretensões políticas e sociais. Uma amostra das possibilidades
abertas pela ascensão da classe média urbana e engrossada por operários que
perceberam a chance de mudança histórica que se oferecia (GUTERMAN, 2009, p.68).
Em 1930, a ascensão de Getúlio Vargas deu origem a um Estado altamente
centralizador, que priorizava o desenvolvimento industrial, com apoio do Exército e que
tratou de atrair os trabalhadores urbanos para forjar uma aliança cuja força se faria sentir
nos anos seguintes. Este governo trouxe o fascismo ao Brasil, ideologia que reconfigura
as relações entre o indivíduo e a coletividade, de modo que o indivíduo não tem direitos
fora do interesse da comunidade. E que se sustenta na união mística com o destino
histórico de seu povo. E para construir a intensa relação com os brasileiros e a
percepção dos desejos da massa trabalhadora, o futebol representaria papel significativo
para Getúlio.
Nos anos 1930, futebol e fascismo pareciam ter nascido um para o outro, e
essa impressão se consolidou em 1934, quando a Itália de Mussolini
realizaria sua Copa do Mundo. Ainda nos anos 1920, Mussolini centralizou a
institucionalização do futebol, mandou construir estádios em todo o país e
tentou usar o esporte como elo nacional, criando uma seleção que seria
imbatível nos anos 1930 – ganharia duas Copas do Mundo e uma Olimpíada.
A equipe italiana não era apenas um punhado de jogadores. Eram
“gladiadores”, de quem dependia a honra da Itália como nação. A
onispresença desse esporte era a chave fascista para criar a sensação de
unidade necessária para os projetos do regime e para a ideia da formação do
“novo homem”. (GUTERMAN, 2009, p.71)
O fenômeno abriu a era da política de massas, que desafiaria a democracia
liberal em todo o mundo – o Brasil não seria exceção. A Copa de 1934 seria a primeira
em que a Seleção Brasileira sofreria efetivamente a pressão do poder, ainda que em
escala menor que no caso italiano. O projeto getulista considerava o esporte central para
a transformação do brasileiro e também para a superação das diferenças políticas, duas
circunstâncias fundamentais para a consolidação do regime. A derrota e a eliminação na
primeira partida da Copa na Itália mataram o amadorismo (o verdadeiro e o falso) no
44
futebol do Brasil. Com Getúlio Vargas, a modalidade foi profissionalizada e tornou-se
um instrumento de poder, de veículo para a política do nacionalismo.
Getúlio, de fato, empreendeu esforços consideráveis para estatizar o controle
do futebol no Brasil, e isso acelerou o processo de sua profissionalização [...]
ampliar a base social do regime, isolando as oligarquias, e fazer crer que
havia uma espécie de “democracia racial” no Brasil. [...] O esporte era visto
como um veículo das aspirações nacionais e do perfil do brasileiro, razão
pela qual Getúlio tratou de controlá-lo. Inventa-se, a partir deste processo,
uma “raça brasileira”. As manifestações culturais populares são incorporadas
ao projeto, como sintoma de “brasilidade”. (GUTERMAN, 2009, p.72)
Conforme Guterman (2009), até o malandro, símbolo do individualismo estava
sendo domesticado dentro de uma estrutura de controle cultural de grande abrangência.
O autor destaca que a diferença entre o fascismo europeu e o “fascismo” varguista é que
o primeiro tinha como veículo o “partido”, e o segundo, o próprio Estado, naturalmente
capitaneado por uma vanguarda iluminada, protegida pelos líderes mundiais. Algo
evidente na legislação trabalhista criada por Getúlio: garantia direitos aos trabalhadores
e criava o salário mínimo, mas amarrou os sindicatos ao Estado e criminalizou as
greves.
Dentro da meta de controlar o povo, Getúlio Vargas escolheu o estádio de São
Januário como o palco de seus discursos a favor dos trabalhadores, entre 1939 e 1944.
“Estava claro que Getúlio entendeu o poder que aquele espaço, o estádio de futebol,
tinha sobre a massa. Sua esperteza foi ter unido as pontas” (GUTERMAN, 2009, p.80).
O autor (2009, p.84) afirma que 1938 é o marco histórico da descoberta do Brasil como
o “país do futebol”, unido de modo nacional à noção de brasilidade emanada da seleção
em campos estrangeiros, jogando com características próprias e que, com o tempo, se
tornariam indissociáveis da própria definição que o brasileiro faria de si mesmo.
O Brasil, assim, começava a se enxergar como singular a partir do futebol. A
intelectualidade da época não tardou a traduzir o fenômeno. O excelente
desempenho da seleção na Copa da França – terminaria em terceiro lugar –
levou o sociólogo Gilberto Freyre a considerar o futebol com a expressão das
vantagens da democracia racial. “Creio que uma das condições de vitória dos
brasileiros nos encontros europeus prende-se ao fato de termos tido a
coragem de mandar à Europa desta vez um team francamente afrobrasileiro”. (GUTERMAN, 2009, p.83)
Doze anos depois, o mundo tentava se recuperar dos traumas e da crise da
Segunda Guerra Mundial. Esta retomada ainda acontecia quando foi realizada a Copa de
1950, no Brasil. Era a chance de demonstrar a identidade moderna brasileira: era o país
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do futuro, com uma raça forte, o melhor no esporte e que possuía o maior estádio do
mundo, Maracanã. “A Copa de 1950 vinha assim num momento em que havia no Brasil
o desejo de mostrar orgulho por suas origens e desenvolvimento, uma forma de provar
que o país não era somente um lugar musical, luxuriante e improdutivo” (GUTERMAN,
2009, p.91). No entanto, a derrota na final para o Uruguai, no silêncio estarrecido do
Maracanazo, teve um impacto radical na História do Brasil:
Daquele momento em diante, a identidade brasileira, tão vivamente
construída durante as décadas de 1930 e 1940 a partir da noção de que nossa
singularidade residia na nossa diversidade racial, entrou em parafuso. (...) O
país, que começava a se orgulhar de seus feitos, e o Maracanã era um dos
mais vistosos deles naquela oportunidade, viu-se de repente como um
derrotado, no momento mesmo em que todas as circunstâncias lhe pareciam
favoráveis, como se o destino não quisesse que o Brasil fosse grande, afinal
(GUTERMAN, 2009, p.99).
“A seleção do Uruguai equivale ao nosso Waterloo na Copa do Mundo” 2. E
causou uma ferida que reavivou “um racismo ainda não de todo extinto.”
(GUTERMMAN, 2009, p.100). Afinal de contas, os bodes expiatórios pela derrota
foram dois jogadores negros: Bigode e Barbosa. O diferencial passou a ser um fardo. “A
derrota não era apenas da seleção, mas aparentemente de um projeto de país, de um
sentido de comunidade que se estava construindo, tendo o futebol como símbolo e a
multatice freyreana como representação” (GUTERMAN, 2009, p.100). E entrou em
parafuso a certeza de que o Brasil estava apto a pleitear um lugar entre as grandes
nações do mundo.
Nos anos seguintes, o futebol enfrentou um período de descrença, mesmo
vencendo a revanche contra os uruguaios no Pan-Americano de 1952, mas tendo
desempenho ruim nos Jogos de Helsinque. Ao mesmo tempo, o país se descobria
talentoso e competitivo em outros esportes: neste ano, Ademar Ferreira da Silva ganhou
a segunda medalha de ouro da história do Brasil. Dois anos depois, o inferno astral
futebolístico ganhou novo capítulo, na derrota e eliminação da Copa de 1954 contra a
Hungria de Puskas, que nem jogou. “O Brasil terminou num melancólico sexto lugar e
com sua reputação bastante questionada” (GUTERMAN, 2009, p.108). E na política, a
situação também estava turbulenta: as crises e pressões levaram o presidente Getulio
Vargas ao suicídio, causando um transe coletivo, evitando, por enquanto, um golpe de
estado por parte dos militares com apoio da UDN.
2
Frase que encerra o relato sobre o Maracanazo no jornal Folha Carioca. Citado em GUTERMAN, 2009, p.99.
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E antes de refletir sobre a mudança vinda com a equipe de 1958, é necessário
voltar o olhar para dois espaços sociais fundamentais da vida social brasileira: o mundo
da casa e o mundo da rua. Conforme DaMatta (1984), se trata da contraposição do
movimento e do lazer com a calma e a tranquilidade do lar e da morada.
Mas como é o espaço da rua? Bem, já sabemos que ela é local de
“movimento”. Como um rio, a rua se move sempre num fluxo de pessoas
indiferenciadas e desconhecidas que nós chamamos de “povo” e de “massa”.
As palavras são reveladoras. Em casa, temos as “pessoas”, e todos lá são
“gente”: “nossa gente”. Mas na rua temos apenas grupos desarticulados de
indivíduos — a “massa” humana que povoa as nossas cidades e que remete
sempre à exploração e a uma concepção de cidadania e de trabalho que é
nitidamente negativa. De fato, falamos da “rua” como um lugar de “luta”, de
“batalha” (DAMATTA, 1984, 29)
Tradições de família, tradição, vergonha, pessoa moral: a “casa” não é somente o
local onde se dorme, come ou usado para proteger do vento, do frio ou da chuva.
Não se trata de um lugar físico, mas de um lugar moral: esfera onde nos
realizamos basicamente como seres humanos que têm um corpo físico, e
também uma dimensão moral e social. Assim, na casa, somos únicos e
insubstituíveis. Temos um lugar singular numa teia de relações marcadas por
muitas dimensões sociais importantes, como a divisão de sexo e de idade. Em
casa, somos também determinados por tudo o que a “honra”, a “vergonha” e
o “respeito”, esses valores grupais, acabam determinando (DAMATTA,
1984, 25).
Diante das dimensões tanto da casa quanto da rua, casa e rua são modos de ler,
explicar e falar do mundo. “A rua compensa a casa e a casa equilibra a rua. No Brasil,
casa e rua são como os dois lados de uma mesma moeda. O que se perde de um lado,
ganha-se do outro. O que é negado em casa — como o sexo e o trabalho —, tem-se na
rua” (DAMATTA, 1984, 30). E sobre trabalho, o autor destaca que os brasileiros
acham que o trabalho é um horror e não glorifica o trabalhador.
O fato, porém, é que a concepção de trabalho fica confundida num sistema
onde as mediações entre casa e rua são tão complexas. E onde, como vimos,
casa e rua são mais que locais físicos. São também espaços de onde se pode
julgar, classificar, medir, avaliar e decidir sobre ações, pessoas, relações e
imoralidades. Compensando-se mutuamente e sendo ambas complementadas
pelo espaço do “outro mundo”, onde residem deuses e espíritos, casa e rua
formam os espaços básicos através dos quais circulamos na nossa
sociabilidade. Sobretudo porque o que falta na rua existe em abundância na
casa. E ainda porque eles não podem ser confundidos sob pena de grandes
confusões e desordens. (DAMATTA, 1984, p.33)
Algumas pistas da mistura entre casa e rua estão nas estratégias de uso político
do esporte, que começaram com Getúlio Vargas. Ele escolheu a própria filha, Alzira
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Vargas como “madrinha” da seleção em 1938, uma aproximação entre a rua e o
universo da casa, do acolhimento familiar ao trabalho. Por trás, a disposição de
financiar a seleção e de esperar dela uma resposta à altura das ambições do regime e da
formação desse “novo homem” brasileiro. Vinte anos depois, pela primeira vez, um
presidente brasileiro teve a chance de explorar o poder mobilizador e transformador
causado por uma conquista. Juscelino Kubistchek teve esta percepção, mesmo antes da
final, quando convidou o pai de Garrincha, Amaro, para ouvir o jogo Brasil x País de
Gales no Palácio do Catete. A experiência se repetiu na decisão, mas as convidadas
foram a mulher de Didi, Guiomar, e a noiva de Vavá, Miriam. Mais uma vez, uma união
entre casa e rua, em tese pelo bem do Brasil e, na prática, pelo bem da imagem do
governante. Com o Brasil já campeão do mundo, o presidente bebeu champanhe na taça
Jules Rimet – uma informalidade que não combina com o cargo que ele desempenha,
mas que pode ser aceita em um contexto de intimidade.
E foi misturando elementos de casa e de rua, que são encontradas as sementes do
futebol brasileiro que culminou na seleção de 1958: havia juventude – o talento de Pelé
deslumbrava–, havia mistura - os jogadores mestiços, como Garrincha (cuja genialidade
esteve sempre em não seguir o que era esperado, capaz de dribles que desconcertavam e
de agir de forma folclórica, além de não resistir ao charme das mulheres e à bebida,
elementos que o marcaram além da carreira, ao longo da vida, até a morte prematura) e
havia a desconfiança na capacidade dos jogadores negros, “herança maldita” da derrota
de 1950. Parecia que o Brasil estava fadado ao fracasso, porque a moda da época era o
futebol científico, disciplinado e eficiente como o das seleções do Leste Europeu. Em
resumo, o Brasil vivia o seu “complexo de vira-latas”, expressão cunhada por Nelson
Rodrigues em uma crônica na revista Manchete Esportiva, poucos dias antes da estreia
na Copa da Suécia, para definir o estado de espírito dos brasileiros sobre o futebol.
Por complexo de vira-latas, entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se
coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores
e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma
cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro
inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi
tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada
vergonha de 1950, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos
a vantagem do empate. Pois bem, e perdemos da maneira mais abjeta. Por
um único motivo muito simples: porque Obdulio nos tratou a pontapés, como
se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica,
nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O
brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e de que tem
futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso,
48
ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o
chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a
questão (GUTERMAN, 2009, P.120-121)
E a reticência a respeito do futuro e do desempenho do Brasil também era vista
no exterior. De acordo com a France Football, o time possuía grandes craques, mas
todos imaturos, emocionalmente vulneráveis, de difícil adaptação a ambientes de
competição, despreparados psicologicamente para disputas de tal porte.
No entanto, a organização permitiu que, pela primeira vez, o time chegasse à
Suécia sabendo onde se hospedaria e com cardápio definido com meses de
antecedência. A meta era permitir a preparação adequada para que o talento brasileiro
pudesse brilhar e sair vitorioso. E, pela primeira vez, a equipe passou por exames
médicos e odontológicos minuciosos: 118 dentes foram extraídos, uma média de 3,5 de
cada atleta, foram identificados casos de anemia e verminoses e até um jogador com
sífilis – retrato de um time cuja maioria dos atletas era de origem muito pobre. O mais
polêmico foi o teste psicológico aplicado por João Carvalhaes, psicólogo que se
especializou em seleção psicotécnica – fosse de jogadores de futebol, de árbitros ou de
motoristas de ônibus. Esse trabalho era considerado importante porque havia a
percepção – como mostrou a revista France Football – de que os jogadores brasileiros
não tinham preparo intelectual e psicológico para as grandes decisões. Em relatório, ele
indicou que Pelé, com 17 anos, era infantil, jovem demais para sentir às agressões e
reagir de forma adequada além de não ter senso de responsabilidade relativo ao trabalho
em equipe. Sobre Garrincha, o relatório indicava que ele tinha inteligência abaixo da
média e não tinha agressividade. Ambas as sugestões de não aproveitamento foram
ignoradas pela comissão técnica.
E a equipe tinha com outras duas coisas com que se preocupar: falta de dinheiro
e desconfiança sobre os jogadores negros. Para obter recursos, teve que fazer amistosos
caça-níqueis para conseguir recursos no Brasil e na Europa, porque a Fifa demorou a
pagar o que prometera às delegações que estavam na Suécia. No aperto, dirigentes como
Paulo Machado de Carvalho e João Havelange puseram dinheiro do próprio bolso.
Sobre a etnia dos jogadores, pode ter sido apenas coincidência, mas a seleção estrearia
na Copa da Suécia com apenas um negro, Didi, entre os titulares. Para ajudar, havia
ainda ruídos das teorias raciais segundo as quais o povo brasileiro não tinha fibra em
razão da mistura racial. A seleção precisava ser “embranquecida” (GUTERMAN, 2009,
p.125).
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O time caiu na chave mais difícil do torneio, mas venceu a Áustria na estreia,
empatou com a Inglaterra sem gols e decidiu o futuro contra a União Soviética. Este dia,
15 de junho de 1958, Guterman (2009, p.127) considera que é a “data da redenção do
futebol brasileiro – redenção da derrota de 1950, redenção das suas possibilidades
nacionais, redenção do negro espezinhado pela derrota, redenção da arte contra a
técnica”. O motivo: o técnico Feola escalou, pela primeira vez, Vavá, Garrincha e Pelé,
para surpreender e cansar os russos. O jogo terminou 2 x 0 para o Brasil, com a defesa
da URSS apavorada com Garrincha. Nas quartas-de-final, o gol de Pelé classificou o
time contra País de Gales. Na semifinal, os franceses, dono do melhor ataque do
torneio, ficaram pelo caminho por 5 x 2 em dia de atuações inspiradas de Vavá, Didi,
Pelé e Garrincha. Com a classificação à final, a primeira após o Maracanazo, a
comissão técnica escondeu os jogadores para evitar oba-oba antes da hora. Havia razões
para a tensão no time: “tudo era motivo: a primeira final desde o desastre do Maracanã;
jogar contra o time da casa; ter de trocar o uniforme amarelo pelo azul, já que os suecos
também jogavam de amarelo” (GUTERMAN, 2009, p.128-129). E veio uma goleada de
5 x 2, de virada, com gols de Vavá – após jogadas de Garrincha – e dois gols de Pelé.
“Nascia ali não somente o rei do futebol, mas a seleção que seria sinônimo de arte no
resto do mundo. E os negros, sobre cujos ombros, restou a enorme responsabilidade
pelo fracasso de 1950, estavam redimidos” (GUTERMAN, 2009, p.129-130).
Guterman (2009, p.131) explica que nenhum jogador daquela seleção ficou rico
depois de 1958. O sucesso do Brasil encheu o cofre dos principais clubes, que eram
contratados para excursionar pelo mundo em troca de cachês que não repassavam aos
atletas. O presidente da época, Juscelino Kubistchek, prometeu emprego público e
financiamento habitacional aos craques da seleção, mas não cumpriu. Pouco importou:
o fato é que o Brasil estava em transe. “Com brasileiro, não há quem possa”, dizia um
verso da marchinha composta para celebrar os feitos da seleção.
E a cena nacional estava às voltas com nova crise político-econômica. O
desenvolvimento prometido por JK trouxe, em contrapartida, endividamento público,
agravado pelas denúncias de corrupção. Em 1961, o povo acreditou que Jânio Quadros
varreria todo o mal do governo e colocaria o país nos trilhos. No entanto, sete meses
depois, ele renunciou, acreditando que seria reconduzido ao cargo “nos braços do povo”
e com plenos poderes. Não aconteceu e outra crise: o substituto seria o vice, João
Goulart, considerado uma ameaça pelos ministros militares. A solução foi a implantação
50
relâmpago do parlamentarismo – os poderes seriam do primeiro-ministro Tancredo
Neves. Em pouco tempo, havia a convicção de que somente um golpe militar poderia
impedir a revolução em andamento em outros países.
Apesar de toda a importância do momento, nada disso, no entanto, era capaz
de mobilizar a massa geral de brasileiros mais do que o futebol – menos por
culpa do futebol, e mais por causa da apatia de uma sociedade cujo controle
do seu destino estava crescentemente fora de suas mãos. Essa apatia terá seu
ápice no golpe de 1964, quando os militares e a “vanguarda” conservadora
tomaram o poder sem fazer força. A defesa dos ideais democráticos, como
possível elemento catalisador dos brasileiros, tinha no futebol um concorrente
praticamente imbatível, sobretudo numa época mágica desse esporte no
Brasil – fazia muito mais sentido sair às ruas para festejar uma vitória da
Seleção Brasileira do que para defender as liberdades (GUTERMAN, 2009,
p.136).
Além da seleção, na década de 1960, a equipe do Santos também levou a
bandeira do futebol-arte brasileiro pelo mundo. Foi bicampeão sul-americano e
mundial. “Ver o Santos em campo era como assistir a uma orquestra, razão pela qual se
tornou o segundo time dos torcedores de todo o Brasil” (GUTERMAN, 2009, p.136). E,
no meio deste fenômeno, estava Pelé, cuja presença atraía público, decidia as partidas e
causava a admiração até dos adversários. “Pelé era a inspiração nacionalista de um país
já envolvido na atmosfera do refrão ‘com brasileiro, não há quem possa’”
(GUTERMAN, 2009, p.137). E para reforçar a imagem, Pelé demonstrava o amor pelo
país: quis servir o Exército, tornou-se garoto-propaganda do Instituto Brasileiro do Café
no exterior. Ao contrário das copas anteriores, havia um clima de êxtase para a disputa
da Copa de 1962. No entanto, o imprevisto entrou em campo: no segundo jogo, contra a
Tchecoslováquia, Pelé se contundiu e ficou fora da competição. A partir daí, brilharam
as estrelas de Amarildo e de Garrincha, os nomes do Brasil no torneio. E justamente
Garrincha criou um problema da pátria ao ser expulso depois de revidar uma agressão
na semifinal contra o Chile. Disputar a final sem o principal jogador era algo
inimaginável.
Assim, a delegação brasileira movimentou-se intensamente para livrar
Garrincha de uma suspensão que poderia muito bem custar o bicampeonato
mundial. Houve até um apelo para que o primeiro-ministro Tancredo Neves
enviasse um telegrama à comissão disciplinar da Fifa que julgaria o jogador.
Talvez pela conveniência diplomática, o governo do Peru que o conterrâneo
Yamazaki retirasse a acusação contra Garrincha. (GUTERMAN, 2009, P.
142)
51
Se as regras eram contrárias, nada como um jeitinho à brasileira: desaparecer
com o bandeirinha Esteban Marinho, a principal testemunha contra Garrincha. Para
isso, o presidente da Federação Paulista de Futebol, João Mendonça Falcão ofereceu a
ele “uma passagem para o Uruguai com uma breve escala em Paris” (GUTERMAN,
2009, p.142). Assim, no julgamento, a agressão foi qualificada como “mero revide de
jogo sem maiores consequências” e Garrincha foi liberado para jogar. O Brasil venceu
por 3 x 1 e foi bicampeão mundial. Como todo o país, o presidente sem poderes João
Goulart comemorou o resultado como torcedor e como político.
Ao receber a seleção em 18 de junho de 1962, no Palácio da Alvorada, Jango
não era meramente um político que tentava capitalizar um momento glorioso
do futebol pátrio. Ele tinha bastante intimidade com o futebol. Havia sido
zagueiro do juvenil do Internacional de Porto Alegre, nos anos 1930, e só não
continuou no esporte por causa de uma contusão. Mas Jango caprichou na
exploração, pelas necessidades óbvias de sua sobrevivência política. (...)
Aquela onda de felicidade pátria no coração do poder podia lhe ser muito útil,
afinal.
O Correio Braziliense registrou o clima de euforia. “Vocês cumpriram a
promessa de trazer a Copa”, festejou Jango para Nilton Santos e Didi, que
responderam: “Fizemos pelo senhor”. E então o presidente ergueu a taça, ao
lado de Zagallo, como se fosse um integrante da seleção. Essa imagem,
somada àquela em que Jango bebe champanhe na Jules Rimet, segurando o
cobiçado troféu pelas asas, dá a dimensão do envolvimento do presidente
com os efeitos da conquista do Mundial e das expectativas que ele depositava
nisso. (GUTERMAN, 2009, p. 144-145)
Pouco depois, houve um golpe de estado (na época, chamado de “revolução”)
para salvar a democracia da ameaça do “perigo comunista”. Diz Guterman que a
ditadura no Brasil não era “clássica”, na qual o poder está concentrado em um homem.
Aqui, o regime acomodava forças de pelo menos duas escolas de pensamento dentro da
caserna: a linha dura, que queria se perpetuar no poder, e a “Sorbonne”, apelido irônico
que se referia aos formados na Escola Superior de Guerra. Aconteceram eleições,
vencidas pela Arena, partido criado para dar sustentação ao regime no Legislativo.
Opositores foram cassados e tiveram os direitos políticos suspensos. E a Constituição de
1967 consolidou a ordem nacional, determinando regras para conseguir a “segurança
nacional”.
A margem para o livre exercício da cidadania pelos canais tradicionais estava
se estreitando de modo acentuado. O projeto de transformar o Brasil numa
potência impermeável ao perigo comunista e forte o bastante para situar-se de
modo independente entre os blocos soviético e americano não poderia
prescindir do controle cada vez mais firme da sociedade. Mais que isso: em
“ordem unida”, era chegada a hora de transformar o país, explorando a
suposta força inerente à “brasilidade”, cuja certeza moral era reforçada por
52
conquistas como a do bicampeonato mundial de futebol. Àquela altura, havia
plena convicção de que o Brasil, esse gigante que agora estava em “boas
mãos”, podia ser conduzido ao Primeiro Mundo – já tinha o melhor futebol
do planeta, para começar. (GUTERMAN, 2009, p.152-153)
A visibilidade e a influência popular da seleção interessavam não apenas aos
militares, mas também aos dirigentes, como João Havelange. A meta do presidente da
Confederação Brasileira de Desportos era utilizar o tricampeonato em 1966 para se
eleger presidente da Fifa. O time não rendeu o esperado e foi eliminado na primeira
fase. De acordo com Guterman (2009), a interferência de forças externas ao vestiário e
ao campo de jogo foi desastrosa em 1966, mas era um caminho sem volta.
A seleção não era mais uma simples representação esportiva nacional; ela era
a essência brasileira, sua expressão de força, capaz de gerar orgulho
patriótico e nacionalista. No momento em que o Brasil mergulhava nas trevas
institucionais, e os militares viviam uma guerra intestina para saber que rumo
dar ao golpe que haviam perpetrado em 1964, o futebol consolidava-se como
instrumento dos interesses dentro da malha de poder (GUTERMAN, 2009,
p.156).
E na vida política, as poucas iniciativas de vida democrática foram tolhidas com
a promulgação do Ato Constitucional nº5, pelo presidente Costa e Silva, em 13 de
dezembro de 1968, que foi o golpe dentro do golpe, tornando “aquilo que era para ser
‘exceção’, como tortura e prisões arbitrárias, a norma do regime, criando um poder
paralelo muitas vezes longe do controle oficial, atuando de acordo com uma agenda de
radicalização” (GUTERMAN, 2009, p.158).
Na economia, em 1968, o país arrancou rumo ao milagre econômico, que criou a
sensação de que estava no caminho de desenvolvimento, fundamentado em um forte
nacionalismo e no pleno emprego. Neste contexto, assumiu o poder o general Emílio
Garrastazu Médici. Uma combinação de fatores que tornou o governo Médici aquele
que melhor soube aproveitar o momento para criar uma espécie de cumplicidade com a
maior parte da população em torno de seus projetos de grandeza. O general, que tinha
sido atacante do Grêmio de Bagé, realmente gostava de futebol e as fotos mais famosas
o mostram ouvindo o jogo no radinho de pilha, enrolado na bandeira nacional por
ocasião do tricampeonato e fazendo embaixadas. (GUTERMAN, 2009, p.162)
A soma das duas características - um governo no auge da repressão e um
presidente muito interessado no futebol e em seus efeitos populares – acabou
por transformar a Copa de 1970 na mais paradoxal da história brasileira.
Parte da intelectualidade brasileira, que estava na luta armada ou no exílio,
considerava que torcer pela seleção naquela oportunidade significava
53
compactuar com o regime. Por outro lado, 1970 marca o momento em que o
Brasil conseguiu formar aquela que é considerada até hoje como a melhor
seleção de todos os tempos – a revista inglesa World Soccer, que concorda
com essa avaliação, disse em 2007 que “a equipe brasileira que venceu a
Copa de 1970 com tanto estilo tornou-se um mito, uma equipe para ser vista
como a representante máxima do jogo bonito”. Como não torcer por ela?
(GUTERMAN, 2009, p.162)
Todavia, antes da Copa no México a seleção não era unanimidade. O fiasco de
1966 não poderia se repetir, porque não ajudaria nem ao governo nem aos projetos
pessoais de Havelange. No entanto, o presidente da CBD tomou uma decisão
surpreendente, em abril de 1969: entregou o comando do time a João Saldanha,
comentarista esportivo de grande prestígio, que não tinha receio de dizer, de agir e de
defender conforme seu ponto de vista. E o amor pelo futebol o fez deixar de lado a
militância comunista, ao qual era vinculado desde 1940, enquanto treinou a seleção. “O
escrete era uma bomba-relógio prestes a explodir qualquer que fosse o treinador”
(GUTERMAN, 2009, p.163).
A equipe apelidada de “Feras do Saldanha” terminou invicta as eliminatórias,
mas a imprensa enfatizava que o “clima emocional” do time estava indo de mal a pior.
Assim, surgiram rumores de que Saldanha seria demitido. Os relatos disponíveis
sugerem que, além de todas as inimizades colecionadas, a real motivação da queda do
treinador foi a decisão de barrar Pelé. Na época, aos 29 anos, o melhor do mundo estava
jogando mal havia algum tempo. Tinha sido até vaiado em alguns amistosos. A fala de
Saldanha de que Pelé seria míope, o que limitaria a capacidade dele de jogar, é
considerado o maior erro de avaliação do treinador sobre o qual responderia até quando
morreu. No Planalto, havia uma mobilização explícita das autoridades por causa da
crise na seleção, e isso não dizia respeito necessariamente à escalação de um ou outro
jogador, mas à imagem da equipe e ao efeito que ela traria para o ânimo dos brasileiros.
Saldanha acabou demitido por Havelange na noite de 17 de março de 1970.
No instante seguinte, foi para a rua, chamou os jornalistas de plantão e, para
explicar a sua queda, deu a célebre entrevista em que insinuou que Médici lhe
havia imposto a convocação do atacante Dario, então um dos cinco maiores
artilheiros do país. “O senhor escala seu ministério e eu escalo meu time”,
respondeu Saldanha neste diálogo imaginário, que até hoje é usado como
“prova” da disposição de Saldanha de não fazer o jogo da ditadura. Anos
mais tarde, em entrevista ao jornal cearense O Povo, o atacante Jairzinho, um
dos destaques da Copa de 1970 e amigo de Saldanha, afirmou que o técnico
caiu por pressão dos militares: “O que aconteceu foi que a retirada de
Saldanha foi uma decisão política. Nem política, porque era ditadura, e
política não existia. Foi uma imposição do presidente Médici. Foi um
54
procedimento protocolar da ditadura”3. Jairzinho, porém, admitiu nunca ter
ouvido da boca de Saldanha a acusação direta contra Médici (GUTERMAN,
2009, p.169).
Zagallo assumiu o time e não demorou para ser contestado pela imprensa, que
não concordava com algumas decisões – em especial com a não escalação de Rivelino e
de Tostão. Jogadores faziam críticas públicas. O fantasma dos fracassos de 1954 e de
1966 cercava o time, visto com ceticismo pelo país.
Com a responsabilidade de representar o Brasil no momento em que o regime
militar apostava no sucesso da seleção para afirmar seus projetos de
grandeza, a equipe, pressionava até o limite também por seus próprios
problemas internos quando começou a disputar a Copa em 3 de junho, em
Guadalajara, contra a Tchecoslováquia. (p.174) O resultado de 4 a 1 mudou
o humor da crônica esportiva brasileira, e logo apareceram comentários
segundo os quais a seleção estava confirmando o triunfo de um “estilo de
jogo” muito peculiar, o brasileiro, sobre os duros esquemas táticos europeus.
Era o resgate do “verdadeiro futebol brasileiro” (GUTERMAN, 2009, p.173174).
Os efeitos políticos também apareceram. Médici não hesitou em misturar casa,
rua, morada, trabalho, lazer à medida que a equipe prosseguia – e vencia – no torneio.
Após a vitória contra a Inglaterra por 1 x 0, ele mandou um telegrama à delegação
brasileira no qual enviava seu “comovido abraço de torcedor” e elogiava a
“demonstração de técnica, serenidade, amadurecimento, inteligência e bravura”
(GUTERMAN, 2009, p.175). Após vencer o Peru, nas quartas-de-final, “dessa vez,
Médici não mandou telegrama – preferiu telefonar pessoalmente à comissão técnica da
seleção e, conforme os registros da época, mandou cumprimentar os jogadores e lhes
dizer que confiava em ‘nossa vitória final’” (GUTERMAN, 200,9, p.176).
A semifinal foi contra o Uruguai, a primeira vez que as equipes se enfrentaram
em Copa do Mundo desde a derrota em 1950. O Brasil venceu, por 3 x 1, de virada.
(...) afastando o fantasma do Maracanazo, classificando o time
levando a torcida brasileira à loucura – relatos dão conta de
comemorações pelas avenidas de São Paulo, quem não
comemorando efusivamente era xingado de “uruguaio” e intimado
(GUTERMAN, 2009, p.177)
à final e
que, nas
estivesse
a festejar
E mais um exemplo do uso político da seleção aconteceu durante a negociação
com um grupo armado que sequestrou o embaixador alemão Ehenfried Anton Theodor
Ludwig Von Holleban. Atendeu à exigência de libertar 40 presos políticos, mas o
3
Entrevista disponível em O Povo, 21 de junho de 2005, disponível em
<http://www.noolhar.com/opovo/especiais/tricampeonato-485882>
55
Ministério do Exército divulgou uma nota mencionando que o sequestro havia
perturbado o ambiente da seleção às vésperas da decisão. “A idéia do regime era
mostrar que os terroristas eram os desagregadores do Brasil, no momento em que os
brasileiros se uniram em torno do ideal de fazer deste um grande país, com vitórias nas
áreas social, econômica e esportiva” (GUTERMAN, 2009, p.177).
O ufanismo era a tônica: quem seguia os preceitos do regime era do “Brasil
bom” que combatia os representantes do “Brasil ruim”, que queriam tumultuar o
ambiente de paz rumo ao progresso. Um período embalado pela marchinha que dizia
“Noventa milhões em ação/Pra frente Brasil/Salve a seleção/De repente é aquela
corrente pra frente/Parece que todo o Brasil deu as mãos/Todos ligados na mesma
emoção/Tudo é um só coração!/Todos juntos, vamos!/Pra frente Brasil, Brasil/ Salve a
seleção!”.
A música resumia tão bem o projeto do governo Médici que muitos ainda
pensam que o presidente foi o autor da marchinha. Na verdade, ele foi, no
máximo, um contribuinte involuntário: o autor da letra, Miguel Gustavo, na
época famoso compositor de jingles publicitários e sambas, usou uma frase
do presidente que teria sido dita nas tribunas do Maracanã durante um jogo
do Brasil. A música foi a vencedora de um concurso promovido pelos
patrocinadores da Copa. No entanto, a exemplo do slogan: “Brasil, ame-o ou
deixe-o”, o “Pra frente Brasil” é visto até hoje como um hino feito por
encomenda da ditadura, uma lenda que resiste ao tempo. Afinal, tudo que
interessava ao regime estava lá: a idéia de unidade nacional (“todos juntos,
vamos”), o fim das divergências com vista a um objetivo comum (“parece
que todo o Brasil deu a mão”), a paixão pelo país e pelo brasileiro que o
representava (“tudo é um só coração”) e a ordem de avançar, de um
movimento “pra frente”, numa só “corrente” (GUTERMAN, 2009, p.178).
Só a vitória era admitida pelo Palácio do Planalto, que já organizava a recepção
e as homenagem aos campeões na terça-feira. O Brasil venceu a Itália por 4 x 1, placar
que o presidente havia “palpitado” na véspera. E por ter sido o primeiro tricampeão, o
país ganhou a posse definitiva da Taça Jules Rimet.
O significado disso tudo transcendia, e muito, o campo esportivo. O futebol
abreviou dramaticamente as diferenças entre o público e o privado. Médici
fez essa leitura ao dar a cada jogador, por meio da Caixa Econômica Federal,
um cheque de 25 mil cruzeiros (o equivalente hoje a 20 mil reais), numa
atitude que não mereceu reparos à época, apesar da evidente irregularidade.
Por razões semelhantes, o então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, teve de
responder a processo – ele mandara dar, à custa dos cofres públicos, um
Fusca a cada jogador tricampeão, o que a imprensa da época qualificou
adequadamente de “demagogia” (GUTERMAN, 2009, p.179-180).
56
E os jogadores também se aproveitaram da situação. Pediram para o presidente
dar um “jeitinho” de poupá-los do pagamento de impostos sobre seus salários e
solucionasse problemas de alfândega. Diz Guterman (2009) que não há registros na
imprensa se os pedidos foram atendidos, mas são evidências de que futebol e poder
público começam a caminhar de mãos dadas de modo até então inédito no Brasil.
DaMatta (2006) considera que um dos aspectos mais interessantes da Copa é a
observação do modo pelo qual o futebol, um mesmo esporte-jogo, é praticado por países
diferentes: a mesma atividade atlética, sujeita a um mesmo conjunto de regras, objetos e
pessoas, é apropriada e digerida por sociedades, mentalidades e culturas diversas,
inclusive e principalmente pela cultura brasileira, no campo e fora dela. Recorda que as
análises de Gilberto Freyre, na década de 1930, classificavam o nosso estilo
futebolístico é dionisíaco (inspirado em Dionísio, o deus grego da alegria, do excesso e
do vinho), ao passo que o estilo europeu é apolíneo (o patrono é Apolo, deus grego do
equilíbrio e do comedimento). No entanto, Da Matta considera mais uma opção de
classificação.
Anos depois, tenho falado de um futebol brasileiro “carnavalesco”, em
contraste com futebóis muito mais atléticos, duros ou sérios. Não que o nosso
carnavalesco seja exclusivamente alegre. Não poderia ser sob pena de perder
as partidas, pois o jogo requer treino, concentração e muito esforço. Por
causa disso, o nosso carnavalesco tem um sentido mais profundo, indo além
das expectativas dos presunçosos. Quero me referir ao fato que o termo não
se refere somente ao time que joga no estilo Garrincha, driblando todo
mundo e fazendo a alegria do povo, mas do time que alterna seriedade com
prazer de jogar o jogo pelo jogo, com isso mostrando que o trabalho e a
obrigação podem ser tão gozosos quanto a festa. E mais: acenando com a
possibilidade que o jogo e a festa são instrumentos de mudança e de posição
social e de perspectiva. Neste sentido, o nosso futebol aciona uma visão de
mundo na qual o fraco vira forte, o oprimido torna-se expressamente
dominante e o socialmente inferior transforma-se em herói (DAMATTA,
2006, p.69)
Desta forma, para Da Matta, o futebol dionisíaco-carnavalesco permite a troca
de lugar e a inversão do mundo. “Inversão que, para nós, corresponde a acreditar, a
gostar e a confiar no Brasil mais do que nos chamados “países adiantados”, em Deus e
nos santos” (DAMATTA, 2006, p.69). Assim, com 1970, o Brasil reforçou a evidência
de que era o dono do melhor futebol do mundo, uma forma de poder simbólico que se
manifesta dentro e fora de campo e do ambiente esportivo. E serviria como consolo em
épocas mais estéreis e como obrigação em todos os torneios. “A camisa do Brasil
apavora os outros, mas, em compensação, pesa como chumbo nos ombros de quem a
57
veste. O Brasil tem que fazer e mostrar sempre mais, o que é a uma pressão tremenda
em cima da equipe” (DAMATTA, 2006, p.82)
A seleção de 1970 criou um dilema jamais resolvido na alma do pensamento
crítico nacional: a forma como o regime militar se apropriou do sucesso do time.
Um dos aspectos mais importantes do momento era a formalização da
integração nacional pela via do futebol. Construído desde a década de 1930
pelo regime varguista, este fenômeno já foi definitivamente sacramentado na
Copa de 1970. O governo militar não tardou a perceber o potencial disso: em
maio de 1969, a administração Costa e Silva criou a Loteria Esportiva,
incluindo nela jogos de todo o país, o que obrigava o apostador a se interessar
pelo que acontecia em outros estados. No mesmo ano, o governo pediu que a
CBD (Confederação Brasileira de Desporto) elaborasse um campeonato
realmente nacional, o que se confirmou em 1971, logo após a conquista do tri
(GUTERMAN, 2009, p.180).
O Campeonato Brasileiro surgiu em substituição ao Torneio Roberto Gomes
Pedrosa que, no máximo, conseguia incluir times do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas
Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Em 1968, o torneio passou a ter um clube da Bahia
e um de Pernambuco e a valer a Taça de Prata ao campeão. O campeonato ficou cada
vez mais condicionado aos projetos governistas, e o principal sintoma foi o inchaço
progressivo da disputa. Em 1971, 20 times; em 1972, 26; em 1973 e 1974, 40; em 1975,
42; em 1976, 54; em 1977, 62; em 1978, 74. “Em 1979, com a ditadura em crescente
desgaste, o Brasileirão somou 94 times: ‘onde a Arena vai mal, um time no Nacional’
(GUTERMAN, 2009, p.181). O Campeonato Brasileiro foi a consequência óbvia do
crescimento, mas também respeitou o discurso de integração nacional do regime.
DaMatta (1984) destaca que o homem é um animal que busca o sentido em tudo,
porque assegura a continuidade da vida coletiva, mesmo quando ameaçada pela
extinção, como é o caso dos rituais funerários. Desta forma, todas as sociedades
alternam as vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, corpo e alma, coisas dos homens
e assunto dos deuses, períodos ordinários - onde a vida transcorre sem problemas - e as
festas, os rituais, as comemorações, os milagres e as ocasiões extraordinárias, onde tudo
pode ser iluminado e visto por novo prisma, posição, perspectiva, ângulo.
Há, pois, um tempo lembrado, que vira memória e saudade; e um tempo
simplesmente vivido, que se vai e morre na distância do passado.
(...) Pois o homem é o único animal que se constrói pela lembrança, pela
recordação e pela “saudade”, e se “desconstrói” pelo esquecimento e pelo
modo ativo com que consegue deixar de lembrar.
(...) Para nós, brasileiros, a festa é sinônimo de alegria, o trabalho é
eufemismo de castigo, dureza, suor.
58
O trabalho sempre indica a ideia (ou ideal) da construção do homem pelo
homem. Um controle da vida e do mundo pela sociedade. Todas as rotinas
produtivas, sobretudo nas sociedades protestantes e plenamente
industrializadas, são marcadas pela previsão e pela racionalidade.
(...) Não deve haver surpresas, não deve haver acidentes, não deve haver
coisa alguma de extraordinário, exceto, obviamente, o aumento da produção
(DAMATTA, 1984, p.68-69).
O futebol se tornou a “cola” usada pela ditadura militar para “unir” o país: em
1969. Guterman (2009) destaca que o fato da Copa do Mundo de 1970 ter sido a
primeira transmitida ao vivo para o país pela televisão, consolidou-a como veículo de
informação e entretenimento, fez com que todos os brasileiros se sentissem no estádio.
Esse “sentido de proximidade” é próprio do futebol, como salientou o
pensador francês Alain Touraine, em artigo na Folha de São Paulo, por
ocasião da Copa de 1998. Touraine diz que “na sociedade capitalista
contemporânea, que acelera a produção de um sistema, gerando isolamento e
desenraizamento, o futebol produz relações de proximidade e identificação
entre pessoas que, em muitos casos, encontram-se espalhadas pelo mundo”.
Com a televisão, esse potencial é elevado praticamente ao infinito e, levandose em conta o fato de que a transmissão ao vivo era uma novidade
tecnológica excitante, é praticamente impossível dimensionar exatamente a
explosão de sentimentos que a Copa de 1970 proporcionou aos brasileiros.
(GUTERMAN, 2009, p.181)
A vitória em 1970 fez a imprensa conservadora dizer que a conquista no México
provava que, com disciplina, o talento brasileiro floresceria. E também considerar
fundamental para o título a disciplina de perfil militar, que foi exaltada como importante
para recolocar o país nos trilhos e transformar o país em uma potência internacional.
“Não haveria triunfo sem a dedicação harmoniosa e ordenada dos brasileiros – essa era
a mensagem que o governo militar tratara de melhorar” (GUTERMAN, 2009, p.183).
O tricampeonato foi capitalizado pelo governo militar nas eleições diretas de
1970 para o Congresso. De acordo com Guterman, para ter certeza de que não seria
surpreendido, o governo intimidou a oposição, perseguiu os críticos e mudou as regras
eleitorais. Apesar da larga vantagem da Arena sobre o MDB, houve muitos votos em
branco e abstenções, que podem ser vistos como “voto de protesto” contra a ditadura,
embora sem efeitos práticos. Médici pode deslanchar o projeto nacionaldesenvolvimentista, que fez a dívida externa crescer 90% entre 1971 e 1974. Além do
endividamento, outro aspecto perverso do crescimento brasileiro foi a alta concentração
de renda, criticada na ocasião pelo Banco Mundial. Médici se tornou o primeiro
presidente da ditadura a ter pleno controle da sucessão e ele escolheu o general Ernesto
59
Geisel. Ligado à linha moderada, tinha o propósito de fazer a transição para o regime
democrático de modo “lento, gradual e seguro”. No entanto, o governo dele teve que
lidar com as consequências da expansão econômica em meio à crise econômica mundial
(na época, a crise do Petróleo), a concentração de renda nas mãos de poucos, o desejo
da linha dura de impedir a transição e o fato de que o braço repressor do regime estar
fora de controle.
E o futebol? Na época, o Brasil se preparava para a Copa do Mundo de 1974, na
Alemanha, seguindo as regras da militarização. Zagallo recebeu carta branca para
montar o time como queria, conforme mandava a mais moderna tática, que era
defensiva. O time perdeu para a inovadora Holanda do “Carrossel” liderada por Cruyff.
E depois, foi novamente derrotada, desta vez na disputa do terceiro lugar para a Polônia.
A derrota revelou o que já se insinuava desde a vitória no México: a geração
mágica dos anos 1950 e 1960 não existia mais, e o futebol brasileiro dos anos
1970, a despeito de todo o ufanismo em torno dele, apontava uma entressafra
de craques fora de série que levaria anos para ser superada. Ou seja: havia um
abismo imenso entre o discurso do Brasil como potência e a prática de suas
limitadas capacidades, coincidentes com a acelerada depauperização do país.
(GUTERMAN, 2009, p.191-192)
O resultado nos gramados refletia a confusão interna no Brasil. O governo
militar recorreu ao AI-5 para fechar o Congresso e estabelecer diretrizes de controle que
restringiam a oposição. Foi criado o senador “biônico”, eleito de modo indireto, para
evitar que o MDB fizesse a maioria no Senado. Para aprovar emendas constitucionais,
foi instituída a maioria simples, o que ajudou a enfraquecida Arena. Alterou-se a
proporcionalidade de votos para favorecer o eleitor do Nordeste, menos permeável à
mensagem oposicionista. O mandato do presidente foi estendido para seis anos e todos
os governadores de estado foram escolhidos de forma indireta, em 1978. O governo
militar se dizia flexível e disposto à abertura democrática, mas não queria abrir mão do
controle de ter as rédeas do processo, incluindo a CBD. Em 1974, João Havelange se
elegeu presidente da Fifa. O substituto foi almirante Heleno Nunes, presidente da Arena
no Rio, que inchou o Campeonato Brasileiro, para tentar benefícios políticos. Diante
deste quadro, parte dos jornalistas esportivos da época já discutia o “fim do futebol
brasileiro”.
A expressão “fim do futebol brasileiro” significava muitas coisas, mas
sobretudo era uma referência à penúria dos clubes e à falta de jogadores
excepcionais – comparando-se com a modernidade dos times europeus, que
começavam a nadar em dinheiro e a atrair os melhores atletas do mundo, o
60
Brasil enfrentava novamente o complexo de vira-latas (GUTERMAN, 2009,
p.195).
Para a Copa de 1982, a esperança era o meia do Flamengo, Arthur Antunes
Coimbra, o Zico, que surgiu como um facho de luz ainda capaz de honrar as tradições
brasileiras no futebol. Franzino, foi transformado em atleta vigoroso em pouco tempo
graças às técnicas disponíveis de estimulação muscular, nutrição e tratamento hormonal.
Entre 1969 e 1974, cresceu 17 centímetros e engordou 13 quilos. Foi
chamado de “craque de laboratório”, apelido que mal ocultava a crítica aos
efeitos da tecnologia, tão admirada pela ditadura, sobre o espírito do futebol
brasileiro. Ao final, “biônicos” eram os jogadores europeus. (GUTERMAN,
2009, p.195)
O Brasil ainda apostava no toque de bola, mas não tinha atletas capazes de
romper os ferrolhos defensivos dos times europeus. Assim, aumentou a sensação de que
a Europa jogava um futebol mais eficiente, e vencer passou a ser obsessão, razão pela
qual Brandão foi substituído pelo “moderno” Cláudio Coutinho.
[...] Aos 38 anos, rebatia com vigor as acusações de que era muito novo para
comandar uma seleção tão problemática como a brasileira. [...] Assim,
introduziu no linguajar dos técnicos expressões como “overlapping” (jogada
de transição) e “ponto futuro” (para onde deveria ser lançada a bola em ação
coordenada com outro jogador, que se deslocaria para este ponto). O termo
que resume a visão de Coutinho possuía do futebol, e que de certa maneira
resiste até hoje, é a “polivalência”. Para atuar na seleção, um jogador teria de
ser bom o bastante para desempenhar mais de uma função, com acentuada
obediência tática (GUTERMAN, 2009, p.196)
Coutinho classificou o Brasil para a Copa de 1978, na Argentina. Dois anos
antes, os militares deram um golpe de estado e assumiram o poder na Argentina. O
general Jorge Videla assumiu o poder e iniciou um processo de repressão que levaria a
30 mil desaparecidos até o fim da ditadura. O país vivia bom momento econômico e os
militares sabiam que a conquista do Mundial de Futebol era importante para o projeto.
E definição dos finalistas no saldo de gols, na última rodada. Após a vitória de
Brasil 3 x 1 sobre a Polônia, restava à Argentina vencer o Peru por 4 gols de diferença.
Então aconteceu o “milagre de Rosário”, uma referência à cidade onde jogaram
Argentina e Peru. Os peruanos, que até então em toda a Copa, tinham sofrido seis gols,
sofreram mais seis em uma inacreditável goleada que levou os donos da casa à decisão
do Mundial. Várias histórias surgiram sobre como este resultado foi facilitado, no
entanto, nada jamais foi provado. A Argentina venceu a Holanda na decisão. O Brasil
61
enfrentou a Itália pela decisão do terceiro lugar e venceu por 2 a 1. Terminou a Copa
invicto, e o técnico Cláudio Coutinho considerou, pelas circunstâncias, que o Brasil
havia sido o “campeão moral” do torneio.
Guterman (2009) lembra que, após 1970, foram 24 anos de fracassos e crise na
identidade brasileira, nos campos, na política e na sociedade. Na turbulenta década de
1980, a recessão econômica, o desemprego e a inflação galopante. A Lei da Anistia,
aprovada em 1979, permitiu a volta dos exilados políticos, mas anistiou os torturadores.
Houve uma onda terrorista de extrema direita, porque a linha dura do Exército
considerava uma traição a abertura política. Neste cenário político, as eleições de 1982
surgiram como a primeira oportunidade real, em anos, de interferir nos rumos do país. O
futebol não fugiu deste contexto, não se eximiu da luta pelo fim da ditadura militar. O
time do Corinthians, liderado por Sócrates, Casagrande, Vladimir, transformou a
democracia em prática e em bandeira nos gramados.
A atmosfera brasileira estava mudando e o mundo do futebol como máxima
expressão dos desejos nacionais de afirmação parecia refletir isso. Quis o
destino que fosse o Corinthians, clube de massa por nascimento e excelência,
o microcosmo desse novo clima. (...)
Embalados pelo momento, alguns jogadores corinthianos, como Sócrates e
Vladimir, propuseram um novo tipo de administração. Nela, todos teriam
direito a voto – jogadores, comissão técnica e dirigentes – para tomar as
decisões relativas ao time, inclusive contratações. Os jogadores casados
foram liberados das concentrações na véspera dos jogos. (...)
O publicitário Washington Olivetto, então um dos diretores do clube, criou o
nome “Democracia Corinthiana”. O time entrava em campo com faixas
alusivas à democracia, e a camisa passou a ser usada como outdoor das
campanhas pela democracia política – às vésperas da eleição de novembro de
1982, os corinthianos exibiram a inscrição “No dia 15, vote”. Foi um marco,
seguido de outras ousadias, como “Eu quero votar para presidente” e “Diretas
já” (GUTERMAN, 2009, p.206).
O Corinthians foi um dos pioneiros no uso da camisa como forma de veicular
mensagens, inclusive publicitária. O assunto era tabu. Até 1982, havia a proibição pelo
Conselho Nacional de Desporto. E também a rejeição dos torcedores. No entanto, não
havia alternativa: a liberação era inevitável, por causa da crise financeira que atingia o
país e os clubes. Em 1981, o vôlei conseguiu a permissão. Em seguida, foi a vez do
atletismo. Quando houve a liberação para o futebol, o Bento Gonçalves já usava
publicidade na camisa. Em seguida, foi o Flamengo. O Corinthians usava o símbolo da
Bombril nas costas, mas a partir de 1983 abriu mão das mensagens pela democracia e
passou a fazer propaganda (no caso, da Cofap). Voltando à Democracia Corinthiana, o
time conseguia resultados em campo – bicampeonato paulista e bom desempenho no
62
Campeonato Brasileiro. O jogador símbolo do movimento era a antítese do atleta:
Sócrates não gostava de treinar quanto gostava de tocar viola, fumar e beber cerveja
com os amigos. Além de ter sido um dos maiores jogadores brasileiros de todos os
tempos, foi um dos pivôs populares da virada democrática em andamento no país.
Com a força dessa imagem, Sócrates e sua geração ajudaram a resgatar um
pouco da autoestima perdida em duas Copas medíocres depois do
tricampeonato, dando um sopro de esperança de que, afinal, o futebol
brasileiro poderia voltar a seus dias de encantamento, longe das fórmulas
matemáticas dos esquemas táticos e dos ferrolhos defensivos. Era uma
espécie de negação da doutrina militar que contaminaria a mentalidade dos
dirigentes da Seleção Brasileira desde 1970, assim como, de resto, era uma
negação da tecnocracia que levara o Brasil ao desastre da dívida externa
impagável e da perversa distribuição de renda. (GUTERMAN, 2009, p. 208209)
A Seleção Brasileira sofreria uma transformação histórica. A equipe acreditava
na capacidade dos brasileiros de fazer a diferença a partir da combinação de qualidades
individuais, sob o comando de Telê Santana. Resultado da transformação da CBD em
CBF (Confederação Brasileira de Futebol). O primeiro presidente da CBF foi o
empresário carioca Giulite Coutinho, que revolucionou a seleção e reduziu o
Campeonato Brasileiro de 94 times, em 1979, para 44 em 1980. “Ainda era um número
inacreditável, mas indicava o desejo político de devolver o futebol a seus próprios
defeitos, resgatando-o do mundo da pura manipulação política” (GUTERMAN, 2009,
p.209).
Para disputar a Copa de 1982, na Espanha, Telê montou um time excepcional. A
“corrente para a frente” da Copa de 1970 foi reeditada, tamanho o otimismo dos
brasileiros, que pintaram as ruas de verde-amarelo confiantes na recuperação o posto de
melhor do mundo. No entanto, o time imbatível parou contra a Itália, quando precisava
apenas de empate. O dia 5 de julho de 1982 se tornou uma lembrança de que o futebol é
marcado pelo imponderável.
No estádio Sarriá, em Barcelona, logo aos 5 minutos de jogo, o centroavante
Paolo Rossi, que até então não havia feito gols na Copa, abriu o placar. Rossi
era o símbolo da capacidade da “Azzurra” de renascer das cinzas: o jogador
que brilharia na fase decisiva na Copa de 1982 fora suspenso em 1980 por
três anos, por ter participado de um escândalo de manipulação de resultados
numa loteria esportiva clandestina italiana – ao todo, 36 jogadores e 4
presidentes de clubes foram presos, sacudindo a Itália às vésperas da Copa. A
pena de Rossi foi aliviada (terminou em abril de 1982) e ele pode entrar em
campo, mas é possível afirmar que o clima na seleção não fosse dos
melhores. O gol de Rossi deveria mostrar que a Itália, a despeito de seus
inúmeros problemas, ainda era a Itália – bicampeã do mundo e com
tradicional força no futebol (GUTERMAN, 2009, p.211-212).
63
Quando o placar estava 2 x 2, bastava o time segurar o jogo, retrancar-se e
aguentar a pressão italiana para ir à decisão da Copa: ou seja renunciar ao “futebolarte”. Paolo Rossi fez o terceiro gol italiano, em uma falha coletiva da defesa brasileira.
A equipe ficou conhecida pelo futebol de encher os olhos, mas derrotado. A Itália se
tornou também tricampeã, ganhando da Alemanha por 3 x 1. A perda da soberania no
futebol mundial não foi o único golpe no orgulho nacional.
O símbolo desta nova fase deprimente talvez tenha sido o roubo da Taça
Jules Rimet, em dezembro de 1983. O troféu, símbolo maior das conquistas
do Brasil no futebol, era guardado sem maiores cuidados na sede da CBF, no
Rio, e acabou levado por uma quadrilha liderada por um ex-assessor
administrativo da confederação. Derretida pelos ladrões, a taça virou alguns
milhões de cruzeiros em lingotes de ouro, embora seu valor sentimental fosse
inestimável. No mesmo ano, em janeiro, morria Garrincha, o “Anjo das
Pernas Tortas”, o homem que incorporou a “alegria do povo”. Uma crise
hepática o matou aos 49 anos.
A derrota na Espanha em 1982 pareceu acordar os brasileiros para a realidade
de um país em transição, em profunda crise, tanto econômica, quanto de
identidade. (GUTERMAN, 2009, p.213)
Com a crise econômica aumentando o número de desempregados e impedindo
governos estaduais – em especial os de oposição – de promover as mudanças
necessárias sem depender do governo federal, havia dúvida sobre se o país estava
pronto para completar sua transição rumo a democracia, ou se um regime autoritário
ainda era necessário para conduzir a economia e superar a turbulência. A crise de
identidade brasileira não era exclusividade do futebol. Neste cenário, surgiu o
movimento Diretas Já, que envolveu a sociedade civil e se tornaria o maior movimento
cívico da história republicana até então.
Havia forte identificação daquele movimento com o mundo do futebol,
esporte democrático de massa por definição. Um dos personagens mais
vinculados à campanha, como vimos, era Sócrates, o líder da Democracia
Corinthiana e um dos símbolos do “futebol-arte” do Brasil, contraponto
completo à tecnocracia e à politicagem de cartolas e parlamentares. E o
principal animador dos comícios era Osmar Santos, um dos maiores e mais
criativos locutores de futebol do país. Osmar perguntava à multidão: “Diretas
quando, gente?”, e vinha a resposta: “Já!” (GUTERMAN, 2009, p.216).
64
A emenda das Diretas Já não foi aprovada no Congresso. Precisava de 320
votos, conseguiu 298. Na sucessão de Figueiredo, Paulo Maluf se impôs como
candidato do PDS. Aureliano Chaves criou uma legenda para abrigar a dissidência do
PDS: a Frente Liberal se uniu ao PMDB para lançar a chapa Aliança Democrática, que
teria Tancredo Neves como candidato a presidente e José Sarney, como vice.
(...) a figura de Tancredo Neves surgia como aglutinadora de forças de ambos
os lados do espectro político. Tancredo construiu uma carreira parlamentar
notável por sua disposição de negociar, e mesmo estando na oposição era
visto como um moderado pelo regime. Logo após a derrota da emenda das
eleições diretas, governadores do PDS, em razão do temor de uma
desestabilização política, indicaram que Tancredo era o nome capaz de gerar
entendimento entre a oposição e setores do governo que àquela altura
enxergavam no continuísmo um risco imenso para a governabilidade
(GUTERMAN, 2009, P.217).
Tancredo acabou sendo o depositário de toda a esperança do eleitor brasileiro. E
o Colégio Eleitoral, mesmo sem ser, ganhou ares de “eleição direta” – havia um
candidato com forte apoio popular. E o presidente Figueiredo optou pela neutralidade, o
que se mostrou decisivo. Assim, em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral optou
pelo óbvio: Tancredo foi eleito com larga margem – 480 votos contra 180 para Maluf.
O regime militar morreu sem sinais de convulsão. Nascia a chamada “Nova
República”, sob enorme júbilo popular. Em Brasília, em meio à festa de
milhares de pessoas, e sob forte chuva, uma multidão desfraldou uma
bandeira brasileira de 250 metros e a usou como proteção. Nada mais
simbólico. Em várias outras capitais, houve celebração intensa, “como antes
só se vira em Copas do Mundo”, conforme relato de Clóvis Rossi na Folha
de São Paulo.
Em seu discurso após a vitória, Tancredo deu o tom: “Venho em nome da
conciliação”. Estava claro que não haveria ruptura, porque o momento exigia
união nacional para superar a crise econômica e pavimentar o caminho para a
completa democratização do país. Não haveria revanchismo, porque o Brasil
não podia, em suas palavras, “permanecer dividido dentro de suas fronteiras”.
(...) Ou seja: não bastava ter conseguido mudar o regime; era necessário
construir outro, que não fosse meramente uma “conciliação entre elites” para
a “manutenção dos privilégios” (GUTERMAN, 2009, p.218-219)
Tancredo estava doente e escondeu. No entanto, foi internado na véspera da
posse, prevista para 15 de março. Sarney foi empossado como presidente interino,
dando fim ao regime militar no Brasil. Mas a saúde de Tancredo mobilizou as emoções
brasileiras, que lidavam com a transformação do sonho da legitimidade política rumo à
democracia em um pesadelo do medo da instabilidade institucional. A morte de
Tancredo foi anunciada na noite de 21 de abril, dia de Tiradentes, mártir da
Independência. Foi o maior funeral da história brasileira, maior que o de Getúlio.
65
DaMatta lembra que nascimentos, batizados, crismas, comunhões, casamentos e
funerais - momentos que assinalam dramaticamente uma crise de vida e uma passagem
na escala da existência social - são marcados pela presença da religião, que legitima
com o aval divino ou sobrenatural uma passagem que se deseja necessária. O autor
destaca ainda que a religião é um modo de ordenar o mundo, facultando nossa
compreensão para coisas muito complexas. O homem é o único ser que tem consciência
de sua própria morte e, por isso mesmo, tem enorme e definitiva necessidade de
domesticar o tempo e de problematizar a eternidade.
Mas, apesar de todas essas diferenças, a variedade é limitada, porque essas
formas mais diversas coexistem tendo como ponto focal a ideia de relação e
a possibilidade de comunicação entre homens e deuses, homens e espíritos,
homens e ancestrais. Ou seja: em todas as formas de religiosidade brasileiras,
há uma enorme e densa ênfase na relação entre este mundo e o outro, de
modo que a domesticação da morte e do tempo é elemento fundamental em
todas essas variedades ou jeitos de se chegar a Deus. (DAMATTA, 1984,
p.114)
DaMatta afirma que as experiências religiosas são todas complementares entre
si, nunca mutuamente excludentes. O que uma fornece em excesso, a outra nega. E o
que uma permite, a outra pode proibir. O que uma intelectualiza, a outra traduz num
código de sensual devoção. “Aqui também nós, brasileiros, buscamos o ambíguo e a
relação entre esse mundo e o outro” (DAMATTA, 1984, p.115). Conforme o autor, a
linguagem religiosa do Brasil é uma linguagem da relação e da ligação. Um idioma que
busca o meio termo, o meio caminho, a possibilidade de salvar todo o mundo e de em
todos os locais encontrar alguma coisa boa e digna.
Uma linguagem, de fato, que permite a um povo destituído de tudo, que não
consegue comunicar-se com seus representantes legais, falar, ser ouvido e
receber os deuses em seu próprio corpo. Mas, por detrás de todas as
diferenças, sabemos que lá, nesse céu à brasileira, é possível uma relação
perfeita de todos os espaços (DAMATTA, 1984, p.117).
Sarney foi empossado como presidente no mesmo dia 21 de abril. A montanharussa política e institucional brasileira parecia ter acabado: depois da morte de
Tancredo, a sociedade brasileira aceitava a transição oferecida por forças não
inteiramente identificadas com a abertura democrática, desde que o sonho do
estabelecimento de liberdades civis fosse afinal materializado.
66
No mês seguinte, foram aprovadas eleições diretas para presidente, o direito
de voto dos analfabetos e a legalização dos partidos políticos clandestinos,
como o PCB e o PC do B – que haviam minguado em razão do
fortalecimento do PT, que se tornaria a grande força de oposição. A
Assembleia Nacional Constituinte fora convocada e seria formada por
parlamentares eleitos em novembro de 1986. Ou seja: a despeito da morte de
Tancredo – ou por causa dela -, foram mantidos o calendário e as aspirações
de mudanças prometidas quando o político mineiro fora eleito presidente
(GUTERMAN, 2009, p.220).
Assim como nos demais aspectos, também no futebol o país queria reencontrar o
encanto para a disputa da Copa de 1986, mas sabia que o contexto era diferente. Alguns
jogadores “selecionáveis” foram para o exterior, porque a penúria dos clubes brasileiros
era imensa. O próprio Telê Santana, que reassumiu o comando da Seleção, estava na
Arábia Saudita. “Ou seja: o futebol brasileiro poderia até reencontrar seu “verdadeiro”
perfil, mas teria de se submeter a vetores cujo controle era cada vez menos nacional”
(GUTERMAN, 2009, p.220).
A intenção era reviver a magia daquela Seleção, sabendo que o espetáculo não
era suficiente para ganhar a Copa. Telê quis aproveitar a base dos craques de 1982,
quatro anos mais velha, mesclando-a com algumas revelações. A decepção veio nas
quartas-de-final da Copa do México, empate em 1 x 1 no tempo regulamentar (o Brasil
ainda perdeu um pênalti, com a defesa de Bats em cobrança de Zico) e derrota nas
cobranças de pênalti. O Brasil invicto estava eliminado.
De fato, a sequência de derrotas daquela geração de brasileiros não era
pequena. Perdeu para a Itália na Copa de 1982; depois, perdeu a taça Jules
Rimet, derretida por ladrões; em seguida, perderia a emenda das Diretas Já e
o presidente Tancredo Neves; finalmente, perdeu para a França na Copa de
1986, encerrando um ciclo que misturava orgulho com decepção em doses
cavalares. Tudo isso somado à violenta crise econômica, deu a impressão da
impossibilidade de uma revolução, restando esperar que os donos do destino
tomassem suas decisões. Era um país à mercê de seus próprios fantasmas e
rendido às evidências de que talvez a democracia e a beleza do futebol
fossem concessões de sua própria imaginação (GUTERMAN, 2009, p.223).
Guterman considera que a sequência de derrotas em tantos níveis deixou o país
em uma crise de identidade, sem saber se o futuro seria melhor que o passado recente, à
mercê dos próprios fantasmas. O país vivia sob as rédeas de uma inflação que nenhuma
medida recessiva parecia conter. Os planos econômicos se sucediam, o problema não
era resolvido e as especulações e o ágio tentavam burlar o tabelamento dos preços. A
Constituição de 1988 foi promulgada, estabelecendo os direitos individuais, mas que
67
não conseguiu desmontar o monstro estatal e que deixou pendente algumas reformas
estruturais que deveriam ser feitas nos anos seguintes.
O mundo estava em ebulição. O Muro de Berlim caiu, terminando com a
polarização entre capitalismo x comunismo. O Brasil passaria por sua primeira eleição
direta após a ditadura. No total, 23 candidatos concorreram, em uma disputa que acabou
polarizada entre Lula, pelo Partido dos Trabalhadores e Fernando Collor. Collor era a
“modernidade”, cuja plataforma indicava a intenção de abrir o país ao capital externo;
indicava também a reforma administrativa, com o objetivo de enxugar a máquina do
Estado.
Era a chamada “cartilha neoliberal”, embora Collor fizesse questão de dizer
que sua candidatura não era de direita. Com esse verniz, a classe empresarial
e parte da imprensa, que antes mal conheciam Collor e, em muitos casos, o
desprezavam, embarcaram alegremente na sua candidatura, logo catapultada
à condição de favorita absoluta. (GUTERMAN, 2009, p.228)
Em uma campanha marcada pelo vale-tudo, seja dos articulistas de Collor (como
a decisão de exibir o depoimento de uma ex-namorada de Lula que disse que ele lhe
pedira para abortar a filha) e pelas “decisões editoriais” tomadas pela TV Globo ao
editar um resumo do debate dos candidatos para o Jornal Nacional, um episódio até hoje
também associado ao resultado da eleição. Collor foi eleito. No dia seguinte à posse,
bloqueou o dinheiro dos brasileiros em contas correntes e de poupança, o “confisco” e
congelou preços e salários. A inflação recuou de 80% para 5%. Collor achou que por ter
70% do apoio popular não precisaria fazer acordos políticos. Ele também anunciou a
intenção de privatizar 68 empresas estatais.
Com o controle rígido do mercado, a recessão acentuou-se. A economia
parou, e a classe média foi a principal afetada. A popularidade do governo se
escorava não mais nos feitos administrativos, que, de resto, ainda eram
confusos demais mesmo para os especialistas, mas sim em seu estilo pessoal
“arrojado”. Collor levou ao limite do paroxismo a ideia de que ele não era
uma pessoa, mas um modelo – apareceu lutando caratê, correndo, pilotando
um caça e prometendo “dar a vida” para vencer “as elites”. Era o “messias”
de sangue jovem, que tiraria o país do atraso, para que os carros vendidos no
Brasil deixassem de ser “carroças”, como Collor qualificou os automóveis
produzidos aqui (GUTERMAN, 2009, p.230).
Para o Ministério do Esporte, Collor escolheu Zico, que elaborou uma lei que
tinha como pontos principais: a extinção do “passe” (vínculo dos jogadores de futebol
aos clubes), permitir que os clubes se transformassem em empresas como uma forma de
68
“profissionalizar os cartolas”. Graças aos trabalhos de dirigentes, a lei foi desfigurada.
No início da década de 1990, os clubes brasileiros estavam falidos e se especializaram
em exportar atletas em larga escala. Os “milhões” passaram a fazer parte do jornalismo
esportivo. A partir da Copa da Espanha, consolidou-se o pensamento de que o futebol
não tinha mais fronteiras. Doze dos 22 brasileiros convocados para disputar a Copa da
Itália em 1990 atuavam no exterior; em 1986 foram apenas dois “estrangeiros”. Muitos
jogadores mundo afora passaram a sonhar com o futebol europeu. Isso impactou nas
seleções locais, porque os clubes deixaram de investir na base porque era mais seguro e
barato comprar jogadores do exterior. Tanto que, na Copa, o destaque foi a seleção de
Camarões, comandada por Roger Milla, de 38 anos, escolhido o craque da Copa. O time
foi eliminado nas quartas-de-final ao perder para a Inglaterra na prorrogação. A melhor
campanha de uma seleção africana no torneio até então.
Em 1989, o empresário Ricardo Teixeira foi eleito por aclamação como
presidente da CBF. Encontrou a entidade praticamente falida, com ameaça constante de
rebelião por parte dos clubes. No período, transformou as seleções brasileiras de todos
os níveis em máquinas de eficiência – foram 11 títulos mundiais entre 1989 e 2002 – e
consolidou a hegemonia do país no futebol.
Ao mesmo tempo, porém, sua gestão, a mais longa da história da
confederação, foi o período em que mais jogadores brasileiros foram
vendidos ao exterior e em que a maioria dos clubes desenvolveu dependência
praticamente absoluta dos desígnios da CBF e ao dinheiro pago pela TV.
Além disso, Teixeira envolveu-se em diversos escândalos administrativos,
sobretudo em relação a contratos de publicidade obscuros. A esse propósito,
formou no Congresso a chamada “Bancada da Bola”, integrada por
parlamentares que eram a “tropa de choque” dos interesses da CBF. Foi essa
bancada que esvaziou as tentativas de investigar as suspeitas sobre os
contratos (GUTERMAN, 2009, p.233).
Já a Seleção Brasileira também era influenciada pela “modernidade”: queria
ganhar jogos e torneios, e não dar espetáculo. Ou seja, adaptar o futebol brasileiro aos
novos tempos. O time venceu a Copa América e se classificou para o Mundial de 1990.
Na Copa da Itália, o futebol brasileiro – como o da maioria das seleções – primou pela
burocracia e pelo pragmatismo e tinha como símbolo o volante Dunga.
Nesse período, encarnou a “modernidade” do futebol: era um jogador com
senso tático, excelente passe e objetividade. Não brilhava, mas era eficiente.
Não é por outra razão que aquele período do futebol brasileiro – que, para
muitos, ainda não foi superado – ficou conhecido como “Era Dunga”
(GUTERMAN, 2009, p.234).
69
O Brasil, que abriu mão de jogar como “Brasil”, foi eliminado da Copa da Itália
pela Argentina e terminou o torneio em nono lugar. Não houve grande comoção, porque
aquela equipe nunca chegou a empolgar a torcida ou a assustar os adversários.
Enquanto isso, o governo Collor iniciava um período de instabilidade política,
social e econômica, aumento da dívida pública de US$ 30 bilhões para US$ 250
bilhões. A gota d’água foi uma denúncia feita pelo irmão, Pedro Collor de Mello, em
uma entrevista à revista Veja, na qual disse que PC Farias, tesoureiro da campanha nas
eleições, era um testa de ferro de Collor.
O Congresso instaurou uma CPI para apurar os escândalos, e teve de ouvir
PC Farias declarar: “Estamos todos sendo hipócritas aqui”. Ficava claro, a
cada dia, que o financiamento da vida privada de Collor, o que incluía
instalações principescas em sua residência, a “Casa da Dinda”, era feito com
o dinheiro da corrupção. A república brasileira, recém-saída de um período
de tutela arbitrária, experimentava um abalo de proporções inéditas em sua
história. A palavra “impeachment” apareceu no noticiário em junho, como
uma possibilidade real: o afastamento do presidente por “crime de
responsabilidade”, conforme a Constituição. O processo só não andou mais
rápido porque o vice de Collor era Itamar Franco, um inimigo das
privatizações que encontrava resistência no Parlamento e em parte da
imprensa (GUTERMAN, 2009, p.238).
Foram as denúncias de corrupção que levaram os “caras-pintadas” às ruas. Uma
demonstração do desejo de resgatar a esperança na democracia. A pressão popular não
deixou outra saída à classe política a não ser aderir. A Câmara aprovou a abertura do
processo de impeachment em 26 de setembro. Três dias depois, aprovou o afastamento
do presidente. Collor renunciou, para salvar os direitos políticos, mas terminou cassado
no dia 29 de dezembro, mesmo dia em que Itamar Franco assumiu a presidência.
Acabava assim de modo tumultuado e dramático, o primeiro governo do pósditadura. A despeito das aparências, o Brasil, afinal, atingira sua maturidade
política – derrubara seu presidente de modo pacífico, dentro das regras
constitucionais, sem violência e com a participação integral da sociedade e de
seus representantes (GUTERMAN, 2009, p.239-240).
Itamar Franco gerenciou a recuperação da economia, apesar da fama ter sido
atribuída ao Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Agindo como o
candidato a presidente que seria, implantou um plano econômico que culminaria em
uma moeda forte: o Plano Real. Em duas etapas, estabilizou os gastos do governo e, na
segunda, indexou os preços à Unidade Real de Valor – artifício atrelado ao dólar para
acabar com a cultura inflacionária antes da nova moeda entrar em vigor.
70
O sucesso do Real turbinou a candidatura de FHC. A campanha se centrou
em seu papel na estabilidade da economia, ao ponto de ter sua assinatura nas
notas de real, embora ele já não fosse mais ministro da Fazenda quando elas
entraram em circulação. Havia motivo para euforia. Com o plano Real, cerca
de oito milhões de famílias passaram a ter acesso ao mercado de consumo.
Esse cenário não se sustentaria – nos dez anos seguintes, a economia não
cresceria mais que 2,5% anuais em média, e a dívida interna explodiria –
mas, naquele momento, era o suficiente para fazer o brasileiro sentir, enfim, o
gosto de estar num país com a economia razoavelmente organizada
(GUTERMAN, 2009, p.241).
Guterman (2009) considera que o Real nasceu justamente em meio à expectativa
de que o Brasil pudesse se redimir do jejum de títulos que já durava quase um quarto de
século – uma eternidade para um país que julgava ter o melhor futebol do mundo. O
time começou a preparação com Falcão, que foi substituído por Carlos Alberto Parreira.
Preparador físico da seleção de 1970, campeão brasileiro com o Fluminense em 1984,
notabilizou-se pela serenidade e era um especialista em fazer os times vencerem,
mesmo que tivessem de recorrer a jogadores medíocres e esquemas táticos tão sólidos
quanto burocráticos. Em sua vitoriosa trajetória, Parreira era tudo menos surpreendente.
Já o técnico nunca fez questão de disfarçar seu estilo metódico, que inspirava
a seleção e que irritava a torcida. Tudo em sua vida transpirava planejamento.
Antes da Copa, acertou um contrato com o Valencia, da Espanha, para logo
depois do apito final. Durante a preparação para o Mundial, treinou
exaustivamente jogadas ensaiadas de bola parada, porque, dizia, 45% dos
gols feitos na Copa de 1990 haviam saído em lances assim. Uma seleção
como essa só podia ter como capitão o volante Dunga – ele mesmo, o
símbolo da burocracia do futebol brasileiro europeizado. Ao lado dele jogou
Mauro Silva, um autêntico tanque, cuja única função era proteger a defesa e
destruir as jogadas adversárias. Desse modo, as credenciais competitivas da
seleção passava pela formação de um ferrolho no meio campo. Não havia
nada de “brasileiro” nisso, mas preocupações com “brasilidade”, como se
sabe, já haviam se tornado coisa do passado – algo disso ainda respirava com
os brilhantes Romário e Bebeto no ataque, mas era só. Àquela altura, o
importante parecia ser somente ganhar o tetracampeonato. (GUTERMAN,
2009, p.243)
Roberto DaMatta (2006) estava nos Estados Unidos na época da competição e
destaca que a visão deles de esporte é diferente da que é associada aos brasileiros.
Nos Estados Unidos, é antes de tudo espetáculo. Modo de produção de massa
de onde pode sair eventual beleza e até mesmo algum entusiasmo, mas cujo
interesse central é a manufatura de muita grana. Isso não casa com a nossa
associação do “futibol” com pátria e nacionalidade, com “raça”, sacrifício,
sofrimento.
Desta abertura ficou em mim a imagem da modernidade e do individualismo
que de certo modo contrariam a natureza de um esporte como o “futebol
associação” que é, sem dúvida, mais do que um esporte coletivo. É um jogo
de relações, de tabelas, de passes, de intuições, no qual cada jogador se
71
suplementa e completa no outro de modo paralelo, revelador de uma
esquecida interdependência. (DAMATTA, 2006, p.33)
Da Matta (2006) ressalta ainda que as surpresas do futebol revelam o denso
espaço interno de uma atividade que dentre todos os esportes modernos tem sido a única
a conservar o sabor de “jogo”. Ele explica que de todas as atividades lúdicas que se
transformaram em esporte e ganharam uma moldura racional e de desencanto, integrada
ao universo do capitalismo e do espetáculo de massa, destinado a produzir dinheiro, o
futebol foi o que mais preservou a dimensão de uma certeza que irradia o drama e a
excitação que todos pagamos para ver. “Só o velho futebol-relação-associação – como
essa Copa demonstra cabalmente – preservou esses elementos de incerteza que
ressuscitam o apelo aos deuses, à reza e à magia” (DAMATTA, 2006, p.61).
O Brasil passou sem sustos e sem brilho pela primeira fase e pelas oitavas de
final sem atender ao que se esperava do padrão atribuído à equipe nacional. Em estudo
sobre qual foi o discurso da mídia (por meio de material publicado no jornal Folha de
São Paulo) no momento desta competição, Marcelo Pecenin (2007) destaca que havia
uma divisão entre o ideal e a realidade nos campos.
A partir deste momento, surgem os sintagmas “seleção de Parreira”, “time de
Parreira e Zagallo” e outras expressões de mesmo valor semântico. A
identidade até então homogênea da seleção passa a ser cindida em duas
equipes distintas: a seleção brasileira, cheia de craques e, por isso mesmo,
detentora das qualidades vitoriosas pelas quais é reconhecida – criatividade,
ginga, dribles, gols, alegria etc. –, e a equipe defensiva idealizada pela
comissão técnica, chefiada por Parreira e Zagallo, que, visando simplesmente
não perder a partida, sacrificam, em táticas e estratégias importadas da
Europa, o talento dos nossos jogadores, que não encontram seu lugar de
sujeito no time (PECENIN, 2007, p.87).
A Seleção seguiu até a decisão da Copa do Mundo, a primeira que foi nos
pênaltis. Coube ao goleiro Taffarel defender duas cobranças dos italianos e Roberto
Baggio, craque da Azzurra, isolar a bola na arquibancada.
Mesmo não tendo se dado do jeito como os torcedores e a crônica esportiva
gostariam – com dribles, criatividade, alegria e muitos gols –, o
tetracampeonato permitiu que Parreira e Zagallo, treinador e assistente
técnico da seleção, respectivamente, tivessem seus méritos reconhecidos por
algumas vozes instauradas no interior da crônica, mostrando que, no futebol,
a vitória é uma condição fundamental na produção de sentidos (PECENIN,
2007, p.89).
72
E o tetracampeonato fez os jogadores da Seleção concluírem que o estado de
graça que se instalou no país representaria carta branca para eles fazerem o que
quiserem, sem limites. O fato gerou uma crise entre as leis do Brasil e a equipe.
O júbilo com a conquista era tanto que foi entendido pelos integrantes da
seleção como uma espécie de salvo-conduto para o descumprimento de suas
obrigações como cidadãos comuns, mostrando que os tempos da confusão
entre o público e o privado no futebol estavam mais vivos do que nunca. Na
volta ao Brasil, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e seus comandados
tentaram impor-se sobre a lei. A delegação brasileira queria evitar a
fiscalização da Receita Federal sobre os diversos produtos que comprara nos
EUA – havia mais de uma tonelada de mercadorias sobre as quais os
jogadores não pretendiam pagar impostos. (...) No episódio, os jogadores
saíram como muambeiros – para70% dos brasileiros, segundo pesquisa, eles
tinham de pagar os impostos devidos – e o governo apareceu como fraco e
hesitante, uma marca da administração Itamar. (GUTERMAN, 2009, p.245246)
Além de mostrar que certas práticas condenáveis ainda existiam no
comportamento da seleção e do governo, o tetracampeonato mostrou que o Brasil
aprendeu a vencer sem espetáculo no ambiente da ultracompetição. A seleção foi
campeã em 1994 seguindo o molde praticado na Europa. Para Guterman (2009, p. 46), a
diferença foi Romário, “que ainda guardava alguma semelhança com os craques de
DNA brasileiro, pela possibilidade de inventar o jogo em um ínfimo espaço de campo”.
Desta vez, parecia que os fantasmas das crises em diferentes setores tinham sido
exorcizados. Conforme Pecenim, (2007), a vitória nos Estados Unidos serviu para
reforçar o clima de confiança no país, em todos os setores.
Além disso, uma identidade de campeão coadunava-se adequadamente à
efervescência política e econômica que o Brasil estava vivendo naquele
momento com o lançamento do Plano Real. Com um plano econômico que,
em tese, garantiria uma moeda estável e capaz de competir com o dólar, além
de aumentar o poder de compra dos brasileiros, havia a expectativa de que
nosso país definitivamente se lançasse para o fim da desigualdade social, o
desenvolvimento e para o seleto grupo de países que formam o Primeiro
Mundo. Nada melhor do que uma vitória no futebol para contemplar o sonho
de ser o melhor do mundo também no campo do desenvolvimento
econômico, político e social. (PECENIN, 2007, p.88-89)
Na política, embalado pela onda de otimismo e felicidade gerada pelo Real e
pelo tetracampeonato, Fernando Henrique Cardoso venceu a eleição presidencial no
primeiro turno. “Pela primeira vez desde 1961, um presidente brasileiro passaria a faixa
a um sucessor eleito pelo voto direto. E mais: a transição do poder se deu sem ruptura
institucional, sem os atropelos econômicos e sem ameaça de retrocesso” (GUTERMAN,
2009, p.248). Não garantiu sossego: greves, privatizações, ameaça de recessão e bancos
73
recebendo ajuda do governo para não quebrar. A crise internacional exigia medidas
enérgicas e antipáticas, mas, por ser ano eleitoral, o governo agiu depois da votação.
Em seguida, o futebol também foi afetado pela globalização. O Brasil na Copa
de 1998, na França, era um time “europeizado” – dos 11 titulares, o goleiro Taffarel
(Atlético Mineiro),o zagueiro Júnior Baiano (Flamengo) e o atacante Bebeto (Vasco)
não jogavam na Europa. “Mas os três já haviam tido larga experiência em times
europeus, como de resto a maioria absoluta dos 22 convocados. O mundo globalizado
havia definitivamente engolido os brasileiros naquilo que eles consideravam seu
patrimônio nacional” (GUTERMAN, 2009, p.247). E um brasileiro seria o exemplo
deste período.
Logo em 1996 ganharia o prêmio de melhor jogador “do mundo” dado pela
Fifa – que, para todos os efeitos, considera “mundo” tudo aquilo que está
dentro dos limites da Europa. Ronaldo não era “brasileiro”, não como pensou
Gilberto Freyre ao descrever a malícia do jogador brasileiro nos anos 1930.
Ronaldo era um produto da escola global do futebol, cuja sede era a Europa.
Lá, jogadores de centenas de países diferentes renderam-se e renderam-se ao
jogo sem fronteiras, descaracterizando o perfil nacional e criando um esporte
cuja marca é a indistinção, para ser transmitido pela TV ao mundo inteiro
(GUTERMAN, 2009, p.247).
No Mundial de 1998, apesar de chegar para defender o título, a seleção era
criticada pela teimosia do técnico em manter Bebeto, já veterano, no ataque. E por ter
cortado Romário, por contusão. Com duas vitórias e uma derrota, o time avançou para
as fases eliminatórias, onde venceu Chile, nas oitavas; Dinamarca, nas quartas e passou
pela Holanda em uma decisão nos pênaltis, com duas defesas do goleiro Taffarel.
E então, no dia da decisão contra a França, em 12 de julho, aconteceu um dos
episódios mais dramáticos e obscuros da história do futebol brasileiro.
Ronaldo foi acometido de uma crise nervosa de origem desconhecida,
assustando seus companheiros de time. Chegou a ser levado a um hospital de
Paris, mas foi liberado sem diagnóstico preciso. Questionado por Zagallo se
queria jogar, Ronaldo respondeu que sim, e foi a campo. Muito se especulou
sobre o que teria motivado o mal do craque: falou-se até em envenenamento
e em choque anafilático por causa de supostas injeções que Ronaldo teria
tomado no joelho para jogar (GUTERMAN, 2009, p.251).
Gastaldo (2001) comenta sobre o discurso construído sobre o “ser brasileiro”
pela publicidade na Copa de 1998. A partir deste torneio, houve mudança na definição
de realidade promovida pela imprensa esportiva a respeito da transferência de atributos
74
da Seleção para o povo brasileiro. Nem a derrota afetou a positividade do discurso
vigente.
A vitória na Copa de 1994, após um longo período de 24 anos sem um título
em Copas do Mundo, promoveu uma rearticulação de significados nesta
relação entre a avaliação da seleção brasileira e a avaliação do povo
brasileiro. A conquista do tetracampeonato mundial de futebol, isolando o
Brasil de seus concorrentes no número de títulos conquistados (Alemanha e
Itália têm três títulos cada), representou uma espécie de 'salvaguarda' contra a
derrota. Na Copa de 1998, mesmo a derrota para a França na decisão do
torneio não impediu a atribuição de significados positivos à seleção, como a
'melhor do século' ou 'campeã do século'. Um anúncio do canal de televisão a
cabo SPORTV, veiculado no Jornal da Tarde da segunda-feira após a derrota
traduz perfeitamente este argumento: "Tudo bem. Ninguém ainda é tetra."
Mesmo com a derrota por 3 x 0 (a maior goleada já sofrida pela seleção
brasileira em todas as Copas do Mundo, diga-se de passagem), ainda está
"tudo bem", o Brasil continua a ser o 'melhor do mundo'. (GASTALDO,
2001, p.127)
No entanto, alguém tinha que pagar o preço pela derrota. Até foi instaurada uma
CPI do Congresso, que em 2000 e 2001 investigou os contratos da CBF com a Nike.
Para alguns parlamentares, a empresa obrigou a escalação de Ronaldo na final contra a
França, mesmo sem ter condições. Em 2000, sobrou para o técnico Vanderlei
Luxemburgo, que assumiu em 1998, para repetir na seleção o perfil goleador dos times
em que trabalhou. Ele se envolveu em escândalos financeiros (sonegar impostos e de
receber comissão na negociação de jogadores). A gota d’água foi a derrota para
Camarões nas quartas de final da Olimpíada de Sydney, em setembro. “O time foi
desclassificado pelos africanos na prorrogação, quando Camarões estava com dois
jogadores a menos, expulsos no tempo normal. Um cataclismo que enfureceu Ricardo
Teixeira” (GUTERMAN, 2009, p.253). Luxemburgo foi demitido.
A desorganização da seleção não estava fora do contexto nacional. Em 1997, o
chefe da comissão de arbitragem Ivens Mendes foi flagrado pedindo dinheiro a cartolas
e sugerindo que conseguia arrumar resultados no Campeonato Brasileiro. O escândalo
foi usado para anular o rebaixamento de Bragantino e Fluminense. Não adiantou,
porque nas duas temporadas seguintes o time carioca foi rebaixado para a segunda e
para a terceira divisões. Comandado por Parreira, foi campeão da série C em 1999 e
subiu para a segunda divisão, que não precisou disputar. O motivo? Interesses
extracampo.
Entrementes, o Gama, um time de Brasília, não aceitara seu rebaixamento à
segunda divisão do Campeonato Brasileiro e recorreu à Justiça comum, com
apoio até mesmo do PFL. Diante do impasse jurídico, a CBF resolveu fazer
75
um Campeonato Brasileiro unificando as três principais divisões do futebol
brasileiro, batizando o torneio de “Copa João Havelange”. Inacreditáveis 116
clubes, um número inédito na trajetória do Campeonato Brasileiro, puderam
disputar a competição. A CBF tornou a explorar a brecha e promoveu da
série B os times do Fluminense, do Bahia, do Juventude e do América de
Minas Gerais. Era uma chance única para salvar o Fluminense, ainda que o
maior prejuízo fosse à credibilidade do futebol brasileiro. O Vasco acabou
sendo campeão do torneio inventado pela CBF, numa decisão com o São
Caetano – que vinha da terceira divisão (GUTERMAN, 2009, p. 254).
Quem assumiu a seleção foi o técnico gaúcho Luiz Felipe Scolari. Sob risco de
não se classificar para a Copa, recebeu carta branca para montar a estrutura que
desejava. Scolari manteve a linha de exaltar o grupo, não levou Romário, apostou em
Ronaldo, que ainda era uma incógnita após uma gravíssima contusão. O Brasil passou
pela primeira fase com três vitórias. Sofreu para vencer a Bélgica nas oitavas de final.
Ganhou de virada da Inglaterra, em dia de Ronaldinho Gaúcho herói (ao fazer um gol
surpreendente de falta) e vilão (ao cometer uma falta violenta e ser expulso). Na
semifinal, novo sofrimento contra um adversário – pelo menos, no nome – de menor
tradição, a Turquia, que terminaria em terceiro lugar vencendo a Coreia do Sul.
Em 30 de junho, a Seleção Brasileira foi a campo para sacramentar sua
hegemonia no esporte mais popular do planeta. E conseguiu, contra um
respeitável adversário, que buscava o tetracampeonato para se igualar ao
Brasil. mais uma vez, o atacante Ronaldo foi fator de desequilíbrio numa
partida em que a Alemanha mostrou por que é temida. Aos 22 minutos do
segundo tempo, Rivaldo chutou de fora da área e o goleiro Kahn – que viria a
ser considerado o melhor jogador do mundial – não conseguiu segurar; a bola
sobrou livre para Ronaldo, que, em disparada, tocou para as redes. O
significado desse gol, levando-se em conta toda a situação do país, todo o
sofrimento de Ronaldo e toda a expectativa nacional a respeito de suas
possibilidades.
(...) O Brasil sacramentaria a conquista com outro gol ainda, de novo de
Ronaldo, aos 34 minutos. O atacante encerraria o torneio como artilheiro do
Mundial, tornando-se um exemplo de superação e premiando a teimosia de
Scolari, o único que acreditou que Ronaldo pudesse ser decisivo depois das
contusões e da longa inatividade antes da Copa (GUTERMAN, 2009, p.258 e
260).
Na comemoração em Yokohama, ao erguer a taça de campeão do mundo, o
capitão Cafu prestou uma homenagem ao bairro paulistano onde ele nasceu, escrevendo
na camisa da Seleção Brasileira “100% Jardim Irene”.
Era a demonstração de que, mesmo com o sucesso e os milhões embolsados
por causa de contratos estelares, havia jogadores brasileiros que sabiam
muito bem o sacrifício que tinham feito para chegar até ali e manifestavam
orgulho de seu passado e de suas origens. Era também a lembrança da
dolorosa dívida social produzida por décadas de planos econômicos e de
desmandos administrativos que negligenciaram a enorme maioria dos
brasileiros. (GUTERMAN, 2006, p.260)
76
O Brasil também passava por uma mudança política, às vésperas da eleição, o
candidato favorito era, mais uma vez, Luís Inácio Lula da Silva. Para não repetir a
derrota de pleitos anteriores, adotou uma atitude mais conciliadora, aberta a alianças de
fora do espectro político original do PT. Guterman (2009) destaca que o petista, que
tinha uma irresistível identidade popular, por ter sido metalúrgico e por ter fundado um
partido com evidente ligação com o poder. A disputa presidencial de 2002 foi dominada
pelo discurso da crise e dos efeitos sobre os mais pobres, e Lula surgia como o elemento
capaz de superá-la ao estabelecer a pacificação social.
A trajetória de Lula confundia-se com a dos meninos miseráveis que
encontravam no futebol uma maneira de sair da pobreza. Ronaldo, o principal
deles, não terminou nem o ensino médio, enquanto Lula completou apenas o
fundamental. Lula tinha 7 anos quando deixou Pernambuco com a família
num pau de arara rumo a São Vicente (SP) e depois a São Paulo nos anos
1950. Cafu, o incansável capitão da seleção, fora criado na periferia
paulistana e teve amigos mortos pela violência. Rivaldo, o cérebro do time de
Scolari, havia sido vendedor de doces em Recife. Para sair da situação de
penúria, tiveram de contar basicamente com o talento pessoal e uma boa dose
de sorte. Exemplos e paralelos não faltam (GUTERMAN, 2009, p.255-256).
E, além da semelhança nas origens, Lula talvez tenha sido o primeiro líder
político que não soava falso quando falava de futebol. E o gosto pelo esporte mais
popular do país também se tornou estratégia na política.
Torcedor fanático do Corinthians, o candidato e futuro presidente
frequentemente usava metáforas do mundo da bola para se fazer entender
pela massa de eleitores. Algo que parte considerável da elite intelectual
brasileira, que sempre fez questão de se distanciar do futebol, tinha
dificuldade (ou má vontade) de aceitar, considerando – o grosseiro e
primário. Mas Lula parecia sempre indiferente às críticas, assim como o
torcedor-eleitor (GUTERMAN, 2009, p.256).
Muniz Sodré (1977) analisa que, no “teatro” do futebol, representa-se uma outra
História do Brasil, onde, nas formas de exercício da luta pelo poder, o povo tem um
lugar demarcado não pelas instituições efetivamente existentes, mas pelo Inconsciente
Histórico nacional, constituído de ideologias abolidas pela ordem simbólica dominante.
Se o futebol ainda se investe de uma força extraordinária de celebração
popular é porque continua perpassando pelas significações contraditórias de
77
uma cena política imaginária. Em seus dias de festa, o Maracanã é o grande
palco de um mito que busca, através do fato esportivo, uma resolução
imaginária para aspectos de choque entre a comunidade e a sociedade, entre a
nação e o Estado, entre o país e o mundo, entre o homem e uma certa idéia
cívica. Afirma Barthes que a eficácia do mito pode consistir na mais absoluta
clareza: se o fato político é geralmente obscuro, nada mais claro que o fato
esportivo, para a torcida. Se são complicadas para o homem comum as
engrenagens de um aparelho de Estado como o Poder Judiciário, por
exemplo, em campo se acha simplesmente visível, de apito na boca, a
entidade da Justiça – que, no entanto, em caso de erro, pode ser
contrajustiçada ali mesmo, ao vivo. É a possibilidade desse “no entanto” que
ainda faz do futebol uma grande festa, o grande jogo cênico popular da
formação urbana brasileira. Assim, se a ideologia técnica do futebol de agora
tenta impor jogadores assépticos, sem paixões, fotogênicos, oriundos da
classe média branca, a torcida não se mexe, não aplaude, não vibra – espera
por alguém como Geraldo (já falecido), sem discurso universitário, filho do
subúrbio. É este o teatro do futebol (SODRÉ, 1997, p.154-155).
DaMatta (2006) comenta que, numa competição como a Copa do Mundo, é
interessante observar o papel das torcidas. Se a torcida é um elemento típico do modo
mágico que continua associado ao futebol, por outro lado representa a sociedade do
time que a engloba e representa. Ele considera que tais imagens são profundas e
apresentam um conjunto de normas pelas quais se pode ser (ou não ser) brasileiro. Pelo
menos no que diz respeito aos modos de apreciar e viver o futebol.
Neste sentido, vale anotar as imagens de si mesmo que o Brasil projeta nos
meios de comunicação de massa, pois tais imagens são auto-representações
reveladoras de nossa identidade como povo, sociedade e nação. Vendo-as,
logo se atina com a recorrência de alguns temas.
O que se assiste, pois, é a um desfile de cenários que nos apresentam como
alegres, festivos, amantes da comida (feijoada), da bebida leve e
supostamente inteligente (cerveja), da boa vida como um povo
permanentemente cercado por uma paisagem belíssima. Nessas peças, somos
uma sociedade capaz de, como nenhuma outra, conjugar o lado cívico e
moderno do mundo (representado pela bandeira nacional) com a dimensão
cultural que nos revela como alegres e capazes de malandramente viver em
cima daquela linha tênue que separa o certo do errado (DAMATTA, 2006,
p.62).
As mudanças no Brasil permitiram que mulher fosse eleita presidenta – Dilma
Rousseff, ex-ministra na gestão Lula, escolhida por ele como sucessora. Na gestão dela,
o país se prepara para organizar os dois maiores eventos esportivos do mundo: as
Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016. No ano passado, o governo anunciou um
projeto para aumentar os investimentos no esporte olímpico e paralímpico, colocando o
Brasil entre os melhores no ranking de medalhas de ambos os eventos em casa.
- Como sede dos Jogos (Olimpíadas de 2016), é muito justo que as nossas
ambições sejam ainda maiores em termos de vitórias e de medalhas. Mas
querer, esperar e ambicionar, ainda que sejam sentimentos e posturas
78
absolutamente essenciais, não garantem por si só as conquistas. Nós temos
que acrescentar o verbo fazer. E para isso, é óbvio que o esforço individual, a
superação, a capacidade de vocês (atletas) tem que receber também o suporte
e o apoio do governo, do Estado e da sociedade brasileira - disse a presidente
Dilma em discurso dirigido aos mais de 50 atletas olímpicos e paralímpicos
presentes no Palácio do Planalto (MARQUES, 2012. Globoesporte.com)4
No entanto, antes em 2014, o país vai sediar a Copa do Mundo pela segunda vez.
E como em 1950, é atribuído ao evento o peso de afirmar a identidade nacional dentro e
fora dos campos. Gastaldo (2001) destaca o papel da imprensa neste contexto.
Esse interesse é catalisado numa dimensão 'nacional' quando está em campo a
'Seleção Brasileira'. Este time de futebol especial realiza uma espécie de
'unidade nacional', por meio da superação das diferenças clubísticas em prol
de um bem comum: o desempenho do 'Brasil' perante outros 'países'. Todos
estes termos estão empregados no sentido metonímico que cotidianamente
permeia a relação entre a 'Seleção nacional' e a 'nação' ou o 'país' (seja o
Brasil, seja seu adversário). Boa parte da legitimação desta apropriação
simbólica provém da imprensa esportiva, particularmente importante nos
períodos de Copa do Mundo. Assim, é frequente que no discurso da crônica
esportiva a 'seleção brasileira' venha a 'representar' (no sentido mais
metonímico do termo) o 'povo brasileiro'. (GASTALDO, 2001, p.126)
Gastaldo (2001) ainda acrescenta que os fatos do jogo criam uma hierarquia
entre as 'seleções nacionais', dividindo-as entre vencedoras e perdedoras. Uma espécie
de 'encarnação simbólica' de cada nação participante. “Assim, uma Copa do Mundo é
muito mais do que um mero torneio de futebol: ela é uma chance de se colocar a própria
nação em perspectiva comparada com o resto do mundo” e destaca que, quem vence a
Copa é, incontestavelmente, 'o melhor do mundo'. (cf GASTALDO, 2001, p.127).
DaMatta (2006) comenta que nos eventos esportivos, o Brasil joga contra os outros e
“contra nós mesmos”: contra as representações e as imagens que fazemos dos outros.
Assim, quando o nome de certos países é pronunciado, parece que soa o
terror. Ou melhor: a superioridade com que os classificamos surge como um
trovão impedindo que, no jogo contra eles, possamos ler a vitória. (...) Mas
noto que, deste ângulo, o time real que jogou nada tem a ver com a sua
imagem mágica que faz mais estragos na nossa cabeça do que os seus
jogadores em campo (DAMATTA, 2006, p.44).
Ainda conforme DaMatta (2006), a cidadania brasileira foi dada pelo futebol. De
acordo com ele, os motivos são a igualdade perante regras que não mudam e valem para
4
MARQUES, Fabrício. Com a presença de atletas, governo lança Plano Brasil Medalhas. Globoesporte.com,
13/09/2012. Disponível em < http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2012/09/com-presenca-de-atletasgoverno-federal-lanca-plano-brasil-medalhas.html >. Acesso em 27 de janeiro de 2013.
79
todos; por ser um modo de pertencer sem mediações eruditas e complicadas e por
oferecer a experiência com a vitória e com a excelência.
No futebol e pelo futebol, o povo aprendeu que pode vencer seus problemas
sem salvacionismos messiânicos ou ideológicos. Com ele, o Brasil teve uma
grata e apaziguante experiência com a vitória, com a excelência, com a
competência, com a paciência e com o amor, esses valores sistemática e
significativamente ausentes dos projetos políticos. Nesses papéis, ao
contrário do futebol, a sociedade brasileira surge como uma entidade vazia de
valores, destinadas a ser reeducada e transformada pelo Estado.
É, pois, o futebol que engendra essa cidadania positiva e prazeirosa,
profundamente sociocultural, que transforma o Brasil dos problemas, das
vergonhas, da competência e das vitórias. Uma coletividade que pode
finalmente contar com suas próprias forças e talento. Com o futebol, o Brasil
não nos enche de vergonha – como ocorre no discurso dos políticos – mas de
orgulho, carinho e amor (DAMATTA, 2006, p.124).
Neste mais de século de prática no Brasil, Pecenin (2006) diz que o vínculo do
brasileiro com o futebol chega ao ponto das expressões relacionadas ao jogo invadirem
o campo da linguagem cotidiana, ganhando novos sentidos, criando metáforas
caracterizadoras da nossa cultura “futebolinguística”. “É possível concluir que o futebol
é parte integrante da identidade nacional brasileira, de modo que qualquer coisa que se
enuncie sobre o nosso futebol já é uma forma de construir discursivamente a identidade
do Brasil”. (PECENIN, 2006, p.2). Assim, ele cita que o brasileiro “pisa na bola”
quando erra, dá “olé” nos problemas e até ”pendura as chuteiras”, seja homem ou
mulher. Conforme Sodré (1977), um exemplo da absorção do futebol pela cultura e da
cultura pelo futebol.
Quanto ao aspecto da identidade nacional, percebe-se que o nosso futebol
joga sempre com uma essência, uma idéia permanente do homem, que
poderia ser resumida no ditado: “brasileiro já nasce feito pra quebrar galho e
dar um jeito”. Lida-se aqui com o famoso mito da esperteza do elemento
nacional. Este mito faz crer que dificilmente se encontra alguém mais
malicioso, mais inventivo que o brasileiro, supostamente capaz de superar
qualquer situação difícil (SODRÉ, 1977, p.148-149)
DaMatta (1984) conclui que o Brasil precisa carnavalizar um pouco mais a
sociedade como um todo, introduzindo os valores dessa festa relacional em outras
esferas de vida social – que misture a casa e a rua. “Algo que permita ter aqui, neste
mundo, as esperanças que temos no outro. Algo que permita fazer do mundo diário,
com seu trabalho duro e sua falta de recursos, uma espécie de carnaval que inventa a
esperança de dias melhores” (DAMATTA, 1984, p.122).
80
No próximo capítulo, será analisada a jornada do telejornalismo esportivo e a
relação dela com a divulgação e manifestação desta identidade nacional pela ótica do
esporte. E especificamente no caso do Brasil, como isso passa pelo futebol.
81
3. Telejornalismo e Esporte
Para falarmos do telejornalismo esportivo brasileiro há necessidade de
estabelecer a trajetória do processo que permitiu a existência da editoria, as normas e
características que norteiam as coberturas. Maurício Stycer (2009) considera que a
configuração da imprensa brasileira, conforme a conhecemos atualmente, começa a se
esboçar no fim do século XIX, recebe impulso no Estado Novo (apesar da censura) e se
consolida no pós-guerra, com o fim da ditadura e a consolidação urbano-industrial do
país. O autor lembra que, nas primeiras décadas do século XX, é quando, no embalo da
disseminação e popularização do futebol, a imprensa esportiva dá os primeiros passos
no país.
Primeiro nas páginas dos jornais e depois nas ondas do rádio, divulgando a
modalidade e também o entorno: uma sociedade na transição da Monarquia para a
República. Tudo que influenciava o futebol e se tornava manchetes nos jornais: assim, a
inclusão das classes mais pobres, a mudança do amadorismo para o profissionalismo, o
uso político, as alegrias e decepções vividas nas partidas. E a mudança de formatos
experimentadas ao longo do tempo: seja mais informativa, ora mais interessada em
aspectos que humanizam os protagonistas das histórias e ora apelando para o
sensacionalismo, a imprensa esportiva brasileira construiu repertório, as estratégias de
aproximação com o público que são utilizadas ou não, de acordo com o contexto de
cada época.
Este capítulo estabelece a trajetória e a influência dos jornais impressos e das
rádios para a transmissão televisiva no Brasil. Serão levantadas características presentes
nestes veículos, respeitando as adaptações necessárias conforme as particularidades de
cada um e que, dentro do contexto de cada época, podem ser verificadas até hoje.
82
3.1 – As bases: Impresso e Rádio
O capítulo anterior trouxe a análise de como o futebol se tornou um meio de
expressão da identidade brasileira. Lembrando que André Ribeiro (2007) comenta que o
espaço nos jornais era voltado para o turfe, o remo e o ciclismo. De acordo com ele, o
marco inicial do jornalismo esportivo no país seria em 1856, com O Atleta. Em seguida
vieram, em 1885, O Sport e O Sportsman, em 1891, A Pátria Esportiva (que era um
suplemento de A Platea). Em 1898, também em São Paulo, surgiram a revista O Sport e
o jornal A Gazeta Sportiva, periódico de distribuição gratuita que circulava somente aos
domingos. Em pleno processo de urbanização e fortalecimento da economia, a imprensa
em São Paulo tinha vários temas a abordar e não considerava o futebol uma prioridade.
São Paulo queria ser cosmopolita, o centro irradiador de padrões para o resto
do país. Milhares de imigrantes, italianos, alemães e portugueses, eram
recrutados para o trabalho nas indústrias, ferrovias e construção civil. Com
tantos fatos importantes, sem contar a política local e nacional, o espaço para
a divulgação do futebol, jogado nas várzeas e campos de terra da cidade, era
praticamente zero, apesar de o esporte ser o lazer desta turma toda de
imigrantes.
Emplacar pautas relacionadas ao futebol naquele cenário de São Paulo era
muito difícil. Mas fechar os olhos para o crescimento do futebol nas várzeas
parecia um grave erro de avaliação dos responsáveis pelos principais jornais
da época. Porém, como a elite também imperava nas redações , a criação da
primeira Liga do Futebol Paulista, no final de 1901, com apenas cinco clubes
da elite, virou notícia. (RIBEIRO, 2007, p. 23)
No Rio de Janeiro, a situação era semelhante ao quadro em São Paulo. Até 1901,
existiam apenas dois times: Paysandu Cricket Club e o Rio Cricket and Athletic
Association, equipes que conseguiram romper, ainda que de forma pequena, a barreira
da falta de interesse da imprensa da cidade.
Claro que, também no Rio de Janeiro, capital da República, pouco
interessava aos principais jornais da época divulgar notícias sobre o futebol.
Para o primeiro jogo realizado entre as duas equipes há apenas o registro de
apenas uma pequena nota, publicada no dia 22 de setembro de 1901 em uma
coluna batizada de “Sport”, no recém-criado Correio da Manhã.
O mais curioso dessa partida não foi o fato de haver menos público do que
jogadores, mas a forma como o jornalista escalado para a cobertura tratou o
assunto. Apesar da manchete – “Pela primeira vez, no Rio de Janeiro, uma
partida de foot-ball” -, a pequena nota mostrava a decepção do repórter com o
resultado da partida, que terminou empatada em 1 a 1. Acostumados (p.23) à
cobertura de competições como remo e turfe, que sempre tinham um
vencedor, o jeito foi escrever que “o placar esteve indeciso” (RIBEIRO,
2007, p.23-24)
83
Contou a favor do futebol o fato de seus adeptos – os filhos da elite que se
encantaram com a modalidade – terem contato com jornalistas e conquistado a simpatia
deles para a promoção do esporte. Diz Ribeiro (2007) que essa aliança favoreceu a
realização da primeira partida entre equipes dos dois estados. Mário Cardim, jornalista
de O Estado de São Paulo, emplacou a pauta e ainda se comprometeu em enviar as
informações aos jornalistas do Rio de Janeiro, para que eles também pudessem divulgar.
Nas páginas de O Estado de S. Paulo, Cardim escreveu sobre os dois empates
ocorridos no campo do SPAC, na região central da cidade, time em que
Charles Miller jogava. Falou da presença de “distintas famílias” e enalteceu a
qualidade técnica dos jogadores cariocas, uma grata surpresa para os
paulistas, que se imaginavam superiores.
Cardim mostrou-se surpreso, também, ao constatar que a maioria dos
jogadores do Rio de Janeiro era formada por brasileiros e não por ingleses.
Tudo isso foi passado aos jornalistas amigos de Cardim, no Rio de Janeiro.
Em poucos dias, os maiores jornais da capital da República, como o Jornal
do Brasil e o Correio da Manhã noticiavam com orgulho a exibição de seus
craques em terras paulistanas. Era o que faltava para o futebol ganhar novo
impulso, também no Rio de Janeiro. (RIBEIRO, 2007, p.25)
André Ribeiro (2007) considera que a repercussão na imprensa dos dois estados
acelerou a criação da primeira Liga de Futebol de São Paulo. A partir de 1902, o futebol
virou notícia nas páginas dos principais jornais em São Paulo. Nesta etapa inicial, a
informação, repassada por dirigentes e sócios de clubes, deveria ser divulgada de forma
objetiva, “bastava dizer qual o jogo, local e resultado, até porque os jornais deste
período eram muito ‘pequenos’, com quatro ou cinco páginas, no máximo. O jogo em si
não era importante”. (RIBEIRO, 2007, p.25). Ele considera que as redações não
estavam preparadas para tratar o assunto. Por terem quadros enxutos, o profissional era
obrigado a assinar mais de uma matéria, o que fez com que repórteres, como José
Carvalho, especialista em turfe, cobrissem futebol contra a vontade.
“No prado do Velódromo competiram, ontem, dois puros-sangues: Paulistano
e Mackenzie. Ambos galoparam bem, demonstrando estar nas pontas dos
cascos. Chegaram juntos, porque cada um deles fez o focinho, a bola, entrar
uma vez ao disco com rede. Não foi fornecido o resultado do rateio.
Serviram-se, ao final, bebidas e salgadinhos...” (RIBEIRO, 2007, p. 26)
As matérias destacavam, mesmo em espaços restritos, a elegância das senhoras e
cavalheiros na arquibancada – indícios de que deveria ser assistido e praticado apenas
pela alta sociedade. Conforme Ribeiro (2007, p.27), “o tema futebol servia como
manobra para cronistas imporem sua visão ideal de sociedade e ‘expor o antagonismo
entre as equipes’, o pobre e o rico, o colonizador e o colonizado”.
84
Pelos primeiros artigos publicados sobre futebol nos jornais e revistas, ficava
clara a divisão do esporte em dois grupos. De um lado, os filhos de boa
família, e do outro, os varzeanos humildes. Os primeiros eram considerados
dignos representantes do foot-ball, importado da Europa, e os outros vistos
como “brutos, incapazes de seguir as regras de conduta, ridicularizados
muitas vezes pelos jornalistas como um bando de jogadores que davam
chutões para o alto”, sendo chamados de “canelas negras”. (RIBEIRO, 2007,
p. 27)
No entanto, os praticantes que não eram da elite começavam a ganhar espaço na
várzea e também na imprensa: o jornal A Fanfulla, voltado para imigrantes italianos
residentes em São Paulo, divulgava resultados e jogos de clubes varzeanos em suas
páginas. No Rio de Janeiro, a situação era parecida: o futebol se desenvolvia e as
redações recebiam mais informações, ofícios, releases e comunicados dos sócios e os
transformavam em pequenas notas publicados nos diários.
Assim como em São Paulo, jornalista esportivo não saía da redação, não ia
aos treinos, ninguém entrevistava ninguém. Os repórteres mais atrevidos e
que se sujeitavam a acompanhar os jogos de perto começavam também a dar
tom (p.29) crítico ao noticiário. Foi o caso do artigo publicado pelo jornalista
da Gazeta de Notícias que, em 1904, logo após a criação do Botafogo,
denunciou “as condições de campos inadequados para disputa dos matches”.
(RIBEIRO, 2007, p.30)
A distinção que o futebol fazia entre pessoas ricas e pobres ficava evidente nas
fotos da época: o público elegante ficava nas arquibancadas e os pobres se amontoavam
nos morros e telhados que cercavam o estádio do Fluminense. “Esse cenário
discriminador não era assunto importante para os diversos repórteres escalados para a
cobertura dos jogos, pois em seus artigos mostravam indiferença pelo tema, parecendo
concordar com a separação do público em ricos e pobres” (RIBEIRO, 2007, p. 32). Para
controlar e impedir o ampliação da modalidade no subúrbio carioca, a Liga
Metropolitana, composta pela elite do futebol, proibiu a inscrição de “pessoas de cor”
pelos clubes filiados. O sucesso da modalidade também levou à criação de jornais para
tratar do assunto5.
O foco da notícia também se ampliava. Com jornais específicos, começaram
a surgir notícias de bastidores, envolvendo as vidas dos protagonistas do
espetáculo. Jogadores tratados como ídolos de suas torcidas passaram a ter
suas vidas investigadas. No Rio de Janeiro, alguns jogadores que eram vistos
5
Surgiram no Rio de Janeiro o Brazil Sport e a Revista Sportiva, criados em 1907 e 1908, respectivamente. (cf.
RIBEIRO, 2007, p.35)
85
“paquerando” moças pelas esquinas viravam assunto nas páginas esportivas
no dia seguinte. (RIBEIRO, 2007, p. 35)
À medida que a imprensa esportiva se desenvolve e se estabelece como assunto
nos jornais, surge a rivalidade entre os cronistas de São Paulo e Rio de Janeiro, na
década de 1910. Além da disputa pela supremacia, a imprensa participou da briga
política nos bastidores pelo comando do futebol brasileiro: “Trocavam xingações e
desaforos, principalmente no período em que equipes paulistas e cariocas se
enfrentavam. Esses ‘colaboradores’ trabalhavam de graça e eram ‘escalados’ só para
elogiar a atuação dos seus clubes” (RIBEIRO, 2007, p.49). E se tornou necessária a
criação de uma linguagem nacional sobre o futebol, porque era comum o uso de
expressões em Inglês, a pátria-mãe da modalidade, nos textos dos jornais.
A Associação dos Cronistas Esportivos promoveu várias reuniões para tentar
unificar as expressões mais utilizadas nas coberturas esportivas e chegou até
a publicar um dicionário com os termos mais comuns. Não era regra, mas o
ideal é que se passasse a aportuguesar algumas expressões inglesas, como
corner, que virou escanteio; dribbling, que virou finta; foul, que virou falta;
back, que virou zagueiro; center-half que virou centro-médio. A lista era
enorme e a principal polêmica foi provocada pela definição da palavra-chave
do jogo: foot-ball. Pelas sugestões apresentadas, por pouco nosso futebol não
se transformou em “podosfera”, “balípodo” ou ainda “bolapé”. O futebol
venceu. As novas expressões foram adotadas apenas em São Paulo; a
imprensa carioca demorou vários anos para adotá-las (RIBEIRO, 2007, p.5354)
Desta forma, a iniciativa atingiu dois objetivos: a defesa da língua e conquistar
leitores entre a minoria de brasileiros alfabetizados. Anos depois, o rádio passou pelo
mesmo processo. Conta Guerra (2008, p.37) que a mudança permitiu que o torcedor de
classes sociais menos favorecidas entendesse o jogo e começasse a frequentar o campo,
mesmo ficando no alambrado, já que as arquibancadas eram reservadas à elite.
Para Stycer (2008), o desenvolvimento da imprensa esportiva acontece junto
com a popularização do futebol no Brasil. Era uma especialidade menos relevante,
subalterna em relação a outras editorias e que atraía profissionais com menos
habilidades e ambição, que eram desvalorizados.
A comprovar o que escreveu Ruy Castro sobre o trabalho dos repórteres
esportivos no Rio de Janeiro em 1927 (“Não fosse pelo lanche que os clubes
ofereciam nos dias de treino, alguns desses repórteres morreriam de fome”),
De Vaney se recorta que os jornalistas de esporte não recebiam salários
regulares, mas viviam à base de vales. “A maneira de pegá-los tinha um quê
86
de burlesco e muito de humilhação: o vale, esse vale que foi o vale de
lágrimas de duas gerações de jornalistas”. (STYCER, 2008, p.173)
Nesta época, a imprensa (inclusive a editoria esportiva) estava nas mãos de
grandes empresários, como Cásper Líbero e Assis Chateaubriand, em São Paulo e a
famílias Marinho (Roberto Marinho tinha recém-assumido o jornal criado pelo pai,
falecido precocemente) e Rodrigues (Mário Filho e Nelson fariam história no
jornalismo esportivo brasileiro).
Dois anos depois, em 1928, Mário Filho passou a comandar a seção de
esportes e promoveu mudanças que permaneceriam para sempre na imprensa
esportiva brasileira. Começou “sepultando todo e qualquer formalismo de
expressão”, especialmente nas entrevistas que apresentavam uma “linguagem
nova, simples e vibrante, lembrando a língua até então somente falada nas
ruas e nas arquibancadas dos estádios de futebol. A época dos acadêmicos
estava chegando ao fim”.
(...) As inovações de Mário Filho nas páginas esportivas não paravam, e a
partir daquele momento estavam aposentadas as tradicionais fotos de
jogadores perfilados e engravatados que ilustravam as matérias de futebol.
Em seu lugar, fotos de jogadores em ação. (RIBEIRO, 2007, p.68 e 69)
E a temática abordada nas matérias ganhou rumo da denúncia dos problemas.
Conforme relato de Floriano, jogador do Fluminense, disse à revista Rio Esportivo:
“Floriano ia mais longe ainda, afirmando que dentro dos próprios clubes existiam
intermediários que ficavam com 30% a 40% dos “vales” que jogadores amadores
faziam na tesouraria de suas agremiações” (RIBEIRO, 2007, p. 66). Outro tema que
recebeu destaque foi o “falso amadorismo”. Max Valentim assumiu a cobertura do
noticiário esportivo em O Imparcial, com liberdade para “agredir o amadorismo de
tapeação”.
A guerra estava declarada. Para um jornalismo esportivo que engatinhava,
Valentim surgiu como um inovador, pois, além de criticar duramente a
política esportiva vigente, tratou de criar uma linguagem nova para o
noticiário esportivo. O primeiro passo foi acabar com descrições minuciosas
e chatas dos lances de um jogo, partindo para a crítica da partida de maneira
objetiva, sem deixar de lado os erros e acertos dos jogadores dentro de
campo. Parece pouco, mas as edições de terça e domingo chegavam a ter oito
páginas, duas delas em cores, dedicadas inteiramente ao futebol. (RIBEIRO,
2007, p.66)
Em 1931, o jornalista Argemiro Bulcão criou o Jornal dos Sports, o primeiro
jornal diário de esportes do Brasil, que sobreviveria até 2007. As quatro páginas
exclusivas transformaram-se no maior acervo iconográfico esportivo do país, com quase
87
10 milhões de fotos e negativos. No início, Mário Filho fez parte da equipe do Jornal
dos Sport e se destacou ao ponto de merecer o convite para um alto cargo no O Globo.
A opção de Mário Filho por escrever de forma dramática situações que
poderiam parecer corriqueiras aproximou definitivamente o torcedor do
jogador e da vida do clube. A inteligência de seus textos brotava de duas
fontes bem distintas. Mário frequentava os estádios, sentia de perto as
emoções do espetáculo, e ao mesmo tempo aprimorava os conhecimentos na
roda de intelectuais que se encontravam assiduamente no Café Nice ou na
Livraria da Olympio, terceira maior editora da década de 1930. (...)
Em suas mãos, o jornalismo esportivo ganharia novas dimensões. Na forma,
quase tudo mudava: título, subtítulo, legendas. O conteúdo abria espaço para
a vida dos personagens que faziam o espetáculo. Jogadores passaram a ser
endeusados, especialmente os negros. Nos bastidores, Mário criava uma rede
de informações poderosa. O prestígio no cargo ocupado em O Globo permitia
contato direto com fontes preciosas, principalmente dos dirigentes esportivos.
(RIBEIRO, 2007, p. 74 e 75)
Stycer (2008) destaca que as mudanças implantadas por Mário Filho nas páginas
esportivas de O Globo precisaram de tempo. Diante do que o autor considera “hesitação
de Roberto Marinho” em assumir o jornal fundado pelo pai, houve duas páginas
esportivas: a 7, fechada pelo veterano Netto Machado e a 8, sob o comando de Mário
Filho. Menos de um ano depois de chegar, o estilo de Mário Filho venceu a batalha.
O jornalista abriu espaço para as opiniões, emoções e expectativas de atletas
e torcedores, os detalhes cômicos ou trágicos dos treinos e jogos, os
bastidores dos clubes e a vida privada dos atletas. O jornal enviava repórteres
aos vestiários, à casa dos jogadores, aos bares que eles frequentavam para
colher informações curiosas, diferentes. (...) Do ponto de vista de
apresentação, a mudança também foi notável. Os textos passaram a ser
veiculados de maneira autônoma, dentro da página, cada um com um título
próprio. O jornal publicava fotos, ilustrações, charges e caricaturas próprias,
realçando eventos e personagens. A linguagem, por fim, também mudou. O
texto tornou-se mais simples, coloquial, fazendo uso de diálogo e
depoimentos, formas narrativas não usadas pelo jornalismo esportivo até
então. (STYCER, 2008, p. 76-77)6
Ribeito (2007) também menciona esta abertura de espaço no jornais esportivos
para matérias “mexeriqueiras”, interessadas nos bastidores da vida de suas principais
estrelas. E a imprensa precisava acompanhar o profissionalismo da modalidade.
Antes de tudo, teria que acabar com a figura do repórter “amigo do clube e do
jogador”. Uma nova profissão estava nascendo, e o jornalista esportivo
passara a fazer parte do dia-a-dia das redações dos principais jornais do
Brasil. Sua presença era ainda mais fundamental no momento em que a
presença de jogadores famosos nas redações virava rotina. (RIBEIRO, 2007,
p.85)
6
Toda esta análise é baseada no trabalho de SILVA, Marcelino Rodrigues, p. 131, que estudou as mudanças
implantadas por Mário Filho em O Globo.
88
Stycer (2008) comenta, citando pesquisa sobre o tema 7, que o estilo implantado
por O Globo coloca em funcionamento um processo de retroalimentação “em que a
notícia criava interesse pelo jogo, que por sua vez atraía mais leitores para o jornal”
(2008, p.77) Citando Thomaz Mazzoni, que condenou o sensacionalismo em algumas
publicações e Adriano Neiva, que relatou as dificuldades da época, o autor traça quadro
de como seria trabalhar em jornalismo esportivo na década de 30.
Os textos de Adriano Neiva e Thomaz Mazzoni nos permitem visualizar o
jornalismo esportivo praticado nas décadas de 20 e 30 como uma tarefa de
profissionais despreparados, mal remunerados e alheios a alguns padrões
éticos que, então, já eram valorizados, em particular a verdade factual e a
sobriedade na forma de descrever os fatos. Não é possível, porém, esquecer o
ambiente geral no qual esse jornalismo esportivo está inserido. (...) os
periódicos da época faziam proselitismo político em troca de favores
variados. A dependência de verbas governamentais levava o noticiário
político a pender explicitamente para um lado em detrimento de outros, não
raro de forma exagerada e “sensacionalista”. Igualmente grave, a falta de
transparência quanto à propriedade dos meios de comunicação dificultava
compreender os reais interesses por trás da opinião dos jornais. (STYCER,
2008, p. 175)
No início da década de 1930, as rádios entram de vez no cenário esportivo
brasileiro. Veículo de comunicação nascido no século XX, chegou ao Brasil na década
de 1920. A primeira transmissão, conforme relatos oficiais, foi do discurso do
presidente Epitácio Pessoa, no dia 7 de setembro de 1922, centenário de Independência.
Mas, pelo que o próprio Roquette Pinto narrou em vários depoimentos sobre
a história do rádio, aquela transmissão feita em 1922 pouco interesse
despertou na população. Ele conta que o sistema de alto-falantes tinha um
som de péssima qualidade, distorcido. “Era uma curiosidade sem maiores
consequências”, afirmava Roquette Pinto, que acabou ganhando a
paternidade do rádio brasileiro porque, ao procurar a Academia de Ciências,
presidida por Henrique Morize, buscando não permitir que a interesse
morresse, surgiu a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, 20 de abril de 1973.
(GUERRA, 2000, p.15)
Conforme Ribeiro (2007, p.75), os donos das poucas emissoras existentes no
Brasil resolveram aumentar a divulgação, a partir de informações repassadas por
telefone pelos repórteres da emissora, em vez de apenas noticiarem os resultados das
partidas durante a programação. Em 19 de julho de 1931, foi realizada a primeira
transmissão radiofônica de uma partida: Nicolau Tuma e a equipe da Rádio Educadora
7
SILVA, Marcelino Rodrigues e FRANZINI, Fábio são os autores citados por Stycer.
89
foram para o estádio de Floresta, na região central de São Paulo para irradiar a partida
entre as seleções de São Paulo e Paraná, válida pelo Campeonato Brasileiro de 1931.
Para realizar a transmissão, difícil foi encontrar espaço entre os torcedores
que se espremiam nas arquibancadas. Faltando poucos minutos para o início
da partida, ansioso, o jovem locutor anunciava para os ouvintes: “Como
repórter, vou transmitir daqui tudo aquilo que for acontecendo no campo...
Como vocês sabem, o campo de futebol é um retângulo. Então vocês façam
um retângulo aí na sua frente, numa cartolina... Ou então, peguem uma caixa
de fósforos. A caixa de fósforos é um retangulozinho, não é? Agora, sim, a
caixa de fósforos é o campo. Do lado esquerdo vão jogar os paulistas, do lado
direito, os paranaenses. (RIBEIRO, 2007, p. 76)
Camisas não tinham números e Tuma memorizou detalhes de cada jogador como
forma de identificá-los em campo. E optou por não deixar silêncio na transmissão.
“Durante todo o jogo, a minha única preocupação era não parar de falar. Eu achava que
se o ouvinte ficasse um segundo sequer sem ouvir nada, mudaria de estação. Então, não
parava” (RIBEIRO, 2007, p.76). Foi apelidado como “speaker metralhadora”. E Guerra
cita um depoimento do narrador ao programa Globo Repórter8: “eu precisava dar a
impressão ao indivíduo que estivesse ouvindo com os dois fones do rádio galena que ele
estaria apreciando e vendo quase, e completando com a sua imaginação a minha
descrição” (GUERRA, 2000, p. 16). Outras emissoras passaram a cobrir e a
infraestrutura se mostrou insatisfatória. Em entrevista ao programa Sportv Repórter,
Léo Batista contou como era a experiência citando o período em que começou a
trabalhar em rádio, no final da década de 1940.
Eu tinha que pedir com um mês ou dois de antecedência pedir linha
telefônica. Pedir o par. Então eu pedia uma linha telefônica, às vezes, tinha
que fazer um depósito, de repente, às vezes pagava depois... depende da lua
do gerente da companhia telefônica dá época. E aí você ia transmit... chegava
lá no estádio, no local, tinha que procurar as pontas, o seu par, como a gente
dizia. “Cadê meu par, e tal?” E tinha lá o papelzinho “Radio Difusora de
Piracicaba”. Eu viajava sozinho, com uma maletinha que era um
amplificador. Eu tinha que chegar cedo, ir ao vestiário. Naquele tempo não
tinha número na camisa. Hoje o pessoal reclama para transmitir um jogo, os
colegas. Cara, cê tinha que ir no vestiário e decorar... aquele morenão lá é o
zagueiro, aquele branquelo ali é o ponta direita, aquele cara com a perna torta
é o meio de campo. Mas, durante muito tempo, eu fazia sozinho: era repórter,
narrador, comentarista, carregador de mala, era tudo (LEO BATISTA 80
anos. In SPORTV REPORTER, 10/11/12)9.
8
9
Depoimento de Nicolau Tuma ao Globo Repórter, TV Globo, 1981.
Depoimento dado pelo apresentador no Programa Sportv Repórter Léo Batista 80 anos, do Sportv, exibido no dia 10
de novembro de 2012, em comemoração à história e ao aniversário do jornalista, em junho de 2012. Disponível em
http://globotv.globo.com/sportv/sportv-reporter/v/sportv-reporter-leo-batista-80-anos-de-voz-marcante/2236489/.
Acesso em 15 de novembro de 2012.
90
Quando não conseguia linha telefônica emprestada com casas vizinhas, valia o
improviso: “Paulo Machado de Carvalho, outro grande nome do esporte e da
comunicação pôs, então, em ação o ‘jeitinho brasileiro’, e surgiram as ligações
clandestinas dos postes de energia. O que importava era não deixar de transmitir o jogo”
(GUERRA, 2000, p.19). E a emissora de Paulo Machado de Carvalho, a Rádio Record,
tinha um espaço fixo para o futebol nas tardes de domingo.
José Augusto Siqueira, comandante técnico das transmissões, recebia
telefonemas dos repórteres que acompanhavam os jogos nos estádios e os
colocava no ar: na emissora, “não era nada mais do que uma série de
telefones, daqueles de manivela em que se falava do campo”. De lá se dava
uma notícia. Siqueira pegava, escrevia num papel e o locutor dizia: “Agora
acabou-se de marcar um gol no Parque Antártica”. Pode parecer simples
hoje, mas na época o primeiro plantão esportivo do rádio brasileiro, batizado
de Esportes nas Antenas, foi uma revolução. Na Record, o futebol também
era notícia todas as tardes da semana, no programa Record nos Esportes, com
boletins produzidos em parceria com a equipe comandada por Thomaz
Mazzoni no jornal A Gazeta Esportiva. Um ano depois de sua criação, a
Record já era a maior rádio de São Paulo, considerada modelo pela qualidade
de sua programação moderna e popular. (RIBEIRO, 2007, p. 78)
A transmissão em rádio se organizou e se profissionalizou nos anos seguintes.
Houve investimento em jingles, em inserções de patrocinadores e em grandes nomes
para começar a transmitir partidas na íntegra, na disputa pela audiência e a preferência
do ouvinte. Para isso, valia até aperfeiçoar a infraestrutura de trabalho.
Tuma e Paulo Machado de Carvalho foram também pioneiros na forma de
valorizar ainda mais os locutores e anunciantes. Como não havia área
reservada para a imprensa nos estádios, Paulo Machado mandou fazer um
pequeno cercado de madeira, onde eram afixadas placas com a logomarca de
sua rádio e do patrocinador, além de uma lousa, que era utilizada para anotar
a contagem da partida. O círculo se fechava: nas ondas do rádio ou no
próprio local do jogo, patrocinadores teriam suas marcas vinculadas ao
espetáculo que atraía verdadeiras multidões. (RIBEIRO, 2007, p.80)
No rádio esportivo, surgiu o comentarista geralmente jornalistas da mídia
impressa. Dirigentes de clubes e federações, incomodados, decidiram, em 1934, proibir
a transmissão das partidas. Conforme Ribeiro (2007, p.85), alegavam que o rádio estava
“roubando” público dos estádios, mas queriam era uma maneira de também faturar.
Indignados com as restrições impostas pelos clubes, donos de rádios e
locutores decidiram peitar a decisão. Como não tinham autorização para
entrar nos estádios, alugavam casas próximas ao local do jogo ou se
91
empoleiravam em escadas enormes para visualizar o campo. Paulo Machado
de Carvalho foi mais longe ainda quando decidiu construir uma torre de
madeira, bem ao lado do estádio Parque Antártica, em São Paulo. A
deficiência de iluminação para que os locutores pudessem ler os anúncios
obrigatórios durante a transmissão nos jogos noturnos não era um problema
que uma boa lanterna não resolvesse. (RIBEIRO, 2007, p.86)
E o país vivia o crescimento das emissoras de rádio em quantidade e em
influência: era necessidade para quem queria se manter informado e a venda dos
aparelhos aumentou. “O rádio não fascinava apenas os profissionais que queriam
praticar a arte do jornalismo. Jogadores e dirigentes sabiam que o novo veículo de
comunicação seria um importante instrumento de divulgação de suas conquistas e
realizações” (RIBEIRO, 2007, p.90). O esporte seguia como instrumento da ascensão e
permitia o aparecimento da criatividade de seus grandes nomes. Um deles foi Ary
Barroso, mineiro de Ubá e conhecido como o “homem da gaitinha”, “pois em suas
transmissões trocava o grito de gol pelo sopro de uma gaita, igual às que dos
vendedores de sorvete usavam nas ruas para atrair a criançada” (RIBEIRO, 2007, p.91).
A estratégia era compreendida pelo ouvinte: “Ele não gritava gol, tocava repetidamente
sua gaitinha. Isso era sinal de gol para o torcedor, que também ouvia ao fundo a
vibração dos torcedores” (GUERRA, 2000, p.23). E o resultado o distinguia dos demais
narradores.
O efeito sonoro inovador, precursor das vinhetas e efeitos sonoros em futuras
transmissões, tinha uma razão de existir. Além do fato de ser obrigado a
narrar no meio dos torcedores, o que abafava a voz de qualquer locutor, o
som da gaitinha, que diferenciava suas transmissões, também ajudava na hora
de vender o anúncio. (RIBEIRO, 2007, p.91)
Destaca Guerra (2000, p. 22) que a gaitinha foi a origem das vinhetas que
acrescentaram à descrição e à narração das partidas. A forma apaixonada de narrar fazia
de Ary Barroso um espetáculo à parte, atraindo a audiência do torcedor. Essa paixão
extrema pelo futebol fez de Ary um caso à parte, o primeiro jornalista esportivo
polêmico: “Ele não dizia falta contra o Flamengo. Falava: falta contra nós”, relatou
Jorge Couri ao Globo Repórter sobre os 50 anos do rádio no Brasil (cf. GUERRA,
2000, p. 23).
92
Na Rádio Cruzeiro do Sul, do Rio de Janeiro, Ari Barroso (sic), da Tupi,
ganhava a concorrência séria de Érick Cerqueira, que tinha a fama de ter “o
demônio do futebol na garganta”. Quem quisesse faturar precisava ter as
estrelas ao seu lado. A competição era tão grande que Cerqueira decidiu
imitar Ari no momento da narração de um gol, sempre acompanhada de uma
língua de sogra. Ari provocava tanta polêmica com seu fanatismo pelo
Flamengo, que o Vasco, maior rival do rubro-negro, temendo que algo pior
pudesse acontecer ao famoso locutor, se viu na obrigação de construir
cabines de transmissão em seu estádio. O prestígio de Ari não era grande
apenas com os torcedores. O patrão, Assis Chateaubriand, não media
esforços para satisfazer o ego de sua principal estrela nas transmissões
esportivas. Em 1943, Ari envolveu-se na compra do jogador paraguaio
Modesto Bria, pelo Flamengo, e para trazê-lo até o Brasil conseguiu
emprestado o avião particular do chefe (RIBEIRO, 2007, p.110).
De acordo com Guerra (2008), no começo das transmissões esportivas pelo
rádio, tanto pela falta de hábito de ouvir a descrição de uma partida, quanto pelo fato de
não dominar completamente as regras do jogo e expressões, os jornais ajudaram na
compreensão da partida. Edileuza Soares (1994, p.39 apud Guerra, 2008, p. 29), explica
que os impressos publicavam um esquema de campo de futebol, cheio de quadros,
indicando a localização dos jogadores. Este recurso foi usado até o campo de jogo estar
memorizado pelas pessoas.
Já no impresso, Mário Filho conseguiu em 1936, apoio financeiro e político dos
presidentes do Fluminense, Arnaldo Guinle, e do cunhado e presidente do Flamengo,
Bastos Padilha, e comprou o Jornal dos Sports para criar uma referência nacional.
Em suas páginas, Mário fazia questão de ver artigos assinados por
intelectuais e homens consagrados da literatura brasileira. Além da excelente
apresentação gráfica, o experiente jornalista definia regras clássicas para seus
subordinados: proibia, por exemplo, títulos que desmoralizassem clubes
derrotados ou ainda a exploração jornalística de conflitos amorosos dos
jogadores.
Mesmo sabendo das dificuldades para manter vivo um jornal esportivo,
Mário Filho não fazia propaganda ou publicidade para governos e também
não aceitava ajuda oficial quando decidia promover eventos pelo jornal. As
regras editoriais e a estratégia de criar os próprios eventos tinham razão de
existir: “Papai [Mário Rodrigues] me dizia que o jornal não deve limitar-se a
dar a notícia. Deve também produzir a notícia, e, se preciso, ser a notícia.
Mas ele o fazia de forma ética: recusava explorar notícias de corrupção de
jogadores ou juízes; assim como casos privados, como a história de um
jogador que na véspera da decisão do campeonato do Rio teve que fugir da
concentração do clube e não jogar por estar ameaçado de morte pelo marido
de sua amante”. (RIBEIRO, 2007, p. 90)
E após o sucesso do Brasil na Copa da França, onde terminou um terceiro lugar,
ainda havia espaço para uma análise crítica do que poderia ser ainda melhorado. E quem
agiu como porta-voz desta necessidade de mudança foi o jornalista Thomaz Mazzoni.
93
Em 1939, publicou uma série de artigos no jornal A Gazeta, com o título
“Problemas e aspectos do nosso futebol”, em que falava do atraso da
imprensa esportiva, que não teria abandonado os vícios do extinto regime
amador. Para Mazzoni, as relações de favores entre setores da imprensa e
dirigentes impediram a consolidação e técnica de um futebol nacional.
Mazzoni criticava de tudo um pouco, desde a confecção de tabelas até rachas
de ligas e as paixões particulares. Mas o que mais incomodava era a postura
de seus companheiros de profissão: “A imprensa esportiva é quem faz o
choro, cria rivalidades e às vezes ódios, mesmo porque o choro não é mais do
que um desabafo da paixão bairrista, e quanto mais se alimenta, mais cega
fica” (RIBEIRO, 2007, p.103).
Para motivar pacificamente as torcidas, Thomaz Mazzoni, criou expressões para
identificar os clássicos do futebol paulista: “choque rei”, para Corinthians e São Paulo;
e “derbi” para Palmeiras e Corinthians. Também batizou Corinthians, Palmeiras e São
Paulo como “Trio de ferro” e inventou expressões e símbolos, como “mosqueteiro”
(Corinthians), “alviverde” (Palmeiras), “tricolor” (São Paulo), “moleque travesso”
(Juventus), “periquito” (Palmeiras) e “clube da fé” (São Paulo), este por causa da figura
do santo que representa o clube. (cf. RIBEIRO, 2007, p. 109). Diz Stycer que Mazzoni
entendia que a paixão, seja pelos clubes ou pela seleção, é um dos elementos
fundamentais do futebol. A partir da década de 20, a Gazeta Esportiva para facilitar a
identificação do jogador, usando os nomes, apelidos e diminutivos.
Já o título dado para um dos clássicos mais tradicionais do futebol paulista só
veio em 1944 e era uma solução encontrada por Adriano Neiva, conhecido por De
Vaney, para a necessidade de ter uma manchete para a matéria que seria publicada.
“Então, já atrasado pelo acúmulo de serviço, receoso de perder o ônibus a
gasogênio (estávamos em guerra), que partiria dali a dez minutos da Praça
Mauá, e eu estava na Senador Feijó, próximo à praça da República, pus-me a
pensar em um título, o mais breve possível.coloquei o papel na máquina e
enquanto girava o cilindro para ajeitá-lo, o título surgiu-me na ideia, e eu o
transportei, rápido, para as pontas do dedo. E eles bateram as teclas,
gravando: ‘SANSÃO!’. No dia seguinte, ocupando todo um terço da primeira
página, lá estava o grito ‘SANSÃO!’ E pegou.” (RIBEIRO, 2007, p.112)
O mercado demandava novos nomes. Na Rádio Panamericana, os narradores e
repórteres tinham de conhecer todos os esportes, além de suportar a precariedade dos
equipamentos existentes. Pela primeira vez na história do rádio esportivo brasileiro, foi
formada uma equipe responsável por segurar uma programação inteira, inclusive com
comentarista de arbitragem. Comandada por Pedro Luiz, implantou o formato aplicado
até hoje nas transmissões de rádio: um homem para abrir, outro para a narração, dois
repórteres de campo (também locutores, que tinham a função de irradiar o que acontecia
94
quando a bola saía do campo de jogo. Após o encerramento, informavam e
entrevistavam os personagens principais do espetáculo) e um plantão esportivo.
A programação da Rádio Panamericana serviu de modelo e inspiração para
muitos programas esportivos que surgiram anos mais tarde. Logo pela
manhã, os ouvintes ficavam informados sobre tudo do esporte ao sintonizar o
Alvorada Esportiva; no almoço, o irreverente Picando o Couro; baseado em
crônicas e críticas esportivas; às segundas-feiras, um programa de enorme
sucesso batizado de Ceia dos Maioriais, precursor das famosas mesasredondas, onde os principais cronistas esportivos da cidade e outros estados
se reuniam na sede do São Paulo Futebol Clube para debater futebol. As
convocações da seleção paulista eram analisadas pelos cronistas que
participaram do Tribunal Esportivo. Mas o mais divertido de todos os
programas idealizados pela equipe de Pedro Luiz na Panamericana era o
Guarda Noturna Esportiva, apresentado por Estevan Sangirardi e inspirado
em um “inspetor esportivo”, batizado de H-7, que percorria quarteirões da
“cidade dos esportes” atrás de informações.
Tinha muito mais e, com esse cardápio a Panamericana ganhava fama de
“emissora dos esportes”. Para atrair estrelas da concorrência, do rádio e
jornais, criou o programa Voz do Esporte, comandado por Hélio Ansaldo e
com participações especiais de Oduvaldo Cozzi, do historiador Leopoldo
Santana, do jornalista Thomaz Mazzoni e do capitão Sílvio de Magalhães
Padilha. Para atrair a audiência do povão, equipes da emissora se
posicionavam nos cinemas, restaurantes e bares movimentados da cidade
para ouvir o torcedor nas vésperas dos grandes clássicos. (RIBEIRO, 2007,
p.114-115)
No entanto, a criação da função do repórter de campo também é reclamada pelos
cariocas. Jorge de Souza lembra que no Rio de Janeiro essa função já era executada pelo
repórter Ailton Flores, apelidado de “Canarinho” por ser baixo, magro, loiro e de topete
idêntico ao do pássaro de mesmo nome (cf. RIBEIRO, 2007, p.115). A mudança atingiu
outros momentos da transmissão. O grito de gol curto, utilizado até meados da década
de 1940, cedeu lugar ao estilo longo, criado pelo narrador Rebello Júnior: “goooool!”.
Em 1946, o jornal Mundo Esportivo adotou a estratégia da polêmica criada por
cronistas para aumentar a paixão do torcedor: “era panfletário, fazia sensacionalismo e
tinha como público-alvo o povão das arquibancadas” (RIBEIRO, 2007, p.116).
No Rio de Janeiro, Mário Filho influenciava os bastidores da política esportiva,
especialmente sobre a Seleção. Às vésperas da Copa de 1950, os jornais assumiram uma
campanha nacionalista. “O que importava naquele momento era a união nacional. Mais
uma vez, o ufanismo tomou conta do noticiário nas rádios e jornais que realizavam a
cobertura” (RIBEIRO, 2007, p.129) Mário Filho passou a publicar diariamente na
primeira página do Jornal dos Sports o personagem “Moço do Samba”, do cartunista
Otelo, que retratava traços específicos do nosso futebol, como a alegria e a malícia.
95
Participar da cobertura da primeira Copa do Mundo de Futebol realizada no
Brasil significava garantir, no futuro, um lugar na história da imprensa
esportiva. Ganhando ou perdendo, todos os veículos de comunicação e
profissionais da imprensa saíram lucrando (RIBEIRO, 2007, p. 130)
E a imprensa desempenhou um papel fundamental na derrota do Brasil para o
Uruguai, na decisão da Copa de 1950. Ao conseguir a mudança da concentração de São
Conrado para São Januário, teve acesso mais fácil para visitas, entrevistas e para o uso
político de uma vitória que ainda não tinha acontecido e era tida como certa.
Concentrados em um hotel na região central do Rio de Janeiro, Obdúlio
Varela, capitão da seleção uruguaia, resolveu dar uma volta pelas ruas
próximas para “sentir o clima” da cidade. Parou em uma banca instalada nas
esquinas das ruas Barão do Flamengo e Paissandu e ficou furioso com a
previsão antecipada de vitória dos brasileiros. De todas as manchetes, a que
mais o incomodou foi a do diário O Mundo, que estampava uma foto enorme
com os jogadores brasileiros perfilados, e na legenda o título em oito colunas:
“Estes são os campeões do mundo!” (RIBEIRO, 2007, p.132)
Quase mil jornalistas presenciaram os 2 a 1 que calou 200 mil pessoas no
Maracanã. Segundo o narrador Luiz Mendes, “Foi a primeira vez que se pôde ouvir a
voz do silêncio” (cf. RIBEIRO, 2007, p. 133). Dois meses após a decepção, o torcedor
brasileiro teria razões para comemorar. Surgia um novo veículo de comunicação que
iria revolucionar o país e atrair os amantes de futebol: a televisão. (RIBEIRO, 2007,
p.135)
2.2 – Jornalismo Esportivo na Televisão.
Uma tecnologia cara e ainda pouco difundida em um país onde o rádio era o
meio de comunicação favorito da população. Para investir em implantar a televisão no
Brasil, o rico e maluco/visionário Assis Chateaubriand gastou cinco milhões de dólares
em 30 toneladas de equipamentos para serem utilizados na televisão. E ainda profetizou:
“Um dia a televisão pagará o rombo dos jornais e das rádios” (RIBEIRO, 2007, p.136).
No início, a qualidade da transmissão tinha chuviscos eletrônicos permanentes.
“O único jeito de melhorar o sinal era colocar chumaços de esponja de aço para limpeza
Bombril nas pontas da antena em formato de chifre colocada sobre o aparelho”
(RIBEIRO, 2007, p.135). O esporte faz parte da programação desde o início: Aurélio
Campos apresentou o Video Esportivo diante de uma miniatura de campo de futebol, ao
96
lado de Baltazar, ex-jogador do Corinthians. “O noticiário do dia-a-dia passou a ser
feito pelos jornalistas Jorge Kurkjian, Paulo Salomão e Afonso Zibas. As imagens
captadas pelos três eram exibidas dentro do programa Imagens do Dia” (RIBEIRO,
2007, p.135). E algumas ideias dos pioneiros não puderam ser colocadas em prática.
Walter Sampaio conta que foi em 1950 que o jornalismo esportivo teve a sua
primeira reportagem registrada na televisão. Era a cobertura feita pelos
cinegrafistas Jorge Kurkjan, Paulo Salomão e Alfonsas Zibas. Este último,
segundo Sampaio, provocou uma situação inusitada logo na estreia da
televisão com a cobertura esportiva. Zibas entrou em campo, com a bola
rolando, achando que assim poderia registrar as imagens mais de perto. Só
restou ao juiz expulsá-lo de campo. Na arquibancada, Kurkjan fimou também
esses momentos (GUERRA, 2012, p.97).
Estas imagens que Zibas pensou em registrar só se tornariam possíveis décadas
depois com o avanço da tecnologia, que permitiu a colocação de câmeras em diferentes
pontos do estádio, até em cabos suspensos. A primeira transmissão de um evento
esportivo no Brasil foi realizada em 15 de outubro de 1950, direto do Pacaembu.
Conforme Ribeiro, foram no máximo 200 telespectadores de Palmeiras x São Paulo
(2007, p.135). A década de 1950 evidenciou que “com o sucesso do rádio e da televisão,
jornais e revistas passaram a ser dominados por grandes corporações” (2007, p.154).
Ter prestígio na imprensa esportiva representava poder, especialmente nos bastidores
políticos do futebol (2007, p. 161).
Ribeiro (2007) destaca que, no desenvolvimento e estabelecimento no Brasil, a
televisão seduzia os profissionais da imprensa esportiva, embora rádio e jornal fossem
as portas de entrada na profissão. Quando um redator saía de um jornal para uma rádio,
levava o estilo do impresso. Aurélio Campos e Wilson Brasil foram os narradores
pioneiros da TV, que levaria tempo para se consolidar entre os torcedores. No início,
lembra Guerra (2012), a experiência do rádio foi importada para o novo veículo.
Programas, apresentadores, músicos, diretores, todos migram para o novo
veículo. Até por isso, o surgimento da televisão na vida do brasileiro passa a
impressão de um rádio com imagem. Claro, com o tempo, tal qual o rádio, a
linguagem televisiva foi encontrando também sua forma própria, embora
ainda hoje se veja muito de identificação da estrutura de alguns programas
com o da era de ouro da Rádio Nacional. (GUERRA, 2012, p.96)
E José Bonifácio Sobrinho, ex-diretor da TV Globo, contou sobre como as
experiências em outros meios de comunicação contribuíram para a formação dos
profissionais, citando como exemplo a carreira de Léo Batista.
97
O rádio, primeiro, ensinou o brasileiro a improvisar. Quem vem do rádio, tem
o que nos chamamos de jogo de cintura. O Léo tem um jogo de cintura
danado. Na televisão, nos jogamos nas costas do Léo, varias vezes, coisas
que ele não estava preparado para fazer, mas o jeito de fazer rádio, o habito
de improvisar, fazia com que ele fosse capaz de fazer essas coisas. Já
empurrei nele narrar jogo de basquete, é o negocio: vai lá e faz. E ele fazia
magnificamente bem. (LEO BATISTA 80 anos. In SPORTV REPORTER,
10/11/12).
A TV Tupi de São Paulo foi a primeira a fazer uma transmissão intermunicipal:
a partida de futebol entre Santos e Palmeiras, no dia 18 de dezembro de 1955, direto da
Vila Belmiro, no litoral paulista. E mesmo depois da televisão estabelecida no fim da
década de 1950, com 10 emissoras em funcionamento, a narração televisiva ainda
causava estranhamento no público, como aconteceu na transmissão de Brasil x
Inglaterra pela pré-estreia da TV Continental, do Rio de Janeiro.
No dia 13 de maio de 1959, jogo Brasil 2 x 0 Inglaterra, Waldir Amaral foi
convidado para fazer a narração. Durante o jogo, três das quatro câmeras que
estavam colocadas no Maracanã estragaram e durante 20 minutos a
transmissão foi feita só com uma câmera, o que prejudicou o trabalho, mas a
grande crítica foi em cima da narração. “Waldir Amaral, habituado ao rádio,
foi criticado por sua narração atrasada em relação aos lances”. Mesmo assim,
Waldir Amaral, por alguns anos, transmitiu o jogo pela tv e rádio ao mesmo
tempo. (GUERRA, 2012, p. 98)
Paulo Machado de Carvalho também investiu no novo veículo: a TV Record
entrou no ar em 7 de setembro de 1953, para competir com a TV Tupi. E como no rádio,
o empresário apostou na cobertura esportiva, especialmente do futebol. “Apresentado
por Raul Tabajara e Geraldo José de Almeida, o programa ‘Mesa Redonda’ fez escola
na televisão, com discussões acaloradas entre cartolas e crônica esportiva” (GUERRA,
2012, p.98). Por conta deste investimento, e da preferência do patrão, a emissora
contribuiu para o desenvolvimento da técnica de transmissão.
O repórter de campo não tinha retorno da base – só sabia a hora de entrar no
ar depois que o motorista do ônibus de externas de emissora, Geraldo
Campos, acenava com a mão para Sílvio Luiz10 iniciar as entrevistas. Durante
a partida, dois fotógrafos, cada um atrás de um gol, registravam os lances
mais polêmicos. No começo do intervalo corriam para revelar as fotos que
minutos depois eram exibidas na televisão. Era replay caseiro inventado
pelos diretores de TV, Tuta e Salvador Trendice, o Dodô (GUERRA, 2012,
p.99)
10
“Sílvio Luiz começou carregando um pesado equipamento, correndo de um lado a outro na beira do gramado atrás
de jogadores que entravam e saíam de campo. As quedas eram inevitáveis e, enquanto trabalhava, a torcida divertiase com seus tombos” (RIBEIRO, 2007, p.143).
98
Paulo Machado de Carvalho conseguiu autorização da CBD para colocar uma
câmera nos vestiários da Seleção Brasileira. E, com o apoio do filho, Tuta, ainda
encontrou uma solução simples e prática para um problema na época da TV preto e
branco – as cores fortes dos uniformes confundiam quem estava assistindo.
Quando dois times de camisas de cores fortes como Palmeiras (verde) e
Portuguesa (vermelha) se enfrentavam, a transmissão em preto e branco
tratava de tornar todos os uniformes absolutamente iguais. Na primeira
partida entre os dois times pelo Campeonato Paulista, a Record conseguiu a
mágica: a transmissão continuava em preto e branco, mas com um efeito, que
ninguém sabia qual, permitia a identificação perfeita das duas equipes.
Alguns técnicos da Tupi não aguentaram de curiosidade e ligaram para a
Record. Tyta dava sempre a mesma resposta: usamos um filtro importado dos
Estados Unidos, chamado “Triple Flex Clair”. O filtro, de nome pomposo,
não passava de uma invenção de Tuta. Jamais existiu. O que o técnico usava
poderia ser comprado em qualquer loja de fundo de quintal: um filtro laranja,
grudado na lente da câmera. (GUERRA, 2012, p. 99)
Assim como aconteceu com o rádio, na década de 60, os dirigentes também
acusaram a televisão de “roubar” público dos estádios e proibiram as transmissões. No
Rio de Janeiro, Tupi e TV Rio ganharam a briga contra presidentes de clubes, prefeito e
administrador do Maracanã, depois de dois meses de impasse. A TV estava em
expansão11 e não abriria mão de exibir o principal esporte do país.
O campeonato foi um estrondoso sucesso, o que representou retorno
financeiro para os cofres das duas emissoras. Quase 2,3 milhões de
torcedores lotaram o Maracanã durante o campeonato, que terminou somente
no início de 1959. Nesse mesmo ano, as previsões pessimistas dos dirigentes
de clubes tornaram-se realidade. Por causa do número excessivo dos jogos
transmitidos pela televisão, o público presente aos estádios no ano anterior
caiu pela metade (RIBEIRO, 2007, 170).
A conquista da Copa do Mundo de 1958 influiu na imprensa esportiva: no
mesmo ano, o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, realizou reforma editorial para dar
mais clareza e dinâmica na leitura. Os testes das mudanças foram aplicados no caderno
de Esportes e suprimiu “o que havia de mais sagrado no jornalismo impresso mundial
da época: os fios entre as colunas” (RIBEIRO, 2007, p. 169).
Na Copa de 1962, Paulo Machado de Carvalho viabilizou os direitos de
transmissão junto ao grupo Televisa e com a TV Tupi. De acordo com Ribeiro, os
recursos que bancaram o pool vieram de uma permuta política: a veiculação de vinhetas
de apoio à candidatura do político Adhemar de Barros ao governo de São Paulo.
11
De acordo com a Abinee, Associação Brasileira de Indústria Elétrica, antes da Copa de 1958 havia no Brasil, no
máximo, mil receptores de TV. Em 1960, o número chegava a 621.919 unidades. (RIBEIRO, 2007, p.170)
99
Os jogos do Mundial do Chile só eram exibidos na televisão com dois dias de
atraso. Pode parecer muito, mas pela primeira vez o torcedor brasileiro, que
antes só via os lances dos jogos nos cinejornais uma semana depois,
começava a ver a partida inteira, em videotape. As exibições inéditas eram
fruto de uma parceria entre as duas maiores emissoras do país: Record e
Tupi, com o apoio técnico da Televisa, do México, e o dinheiro de Adhemar
de Barros, então candidato a governador de São Paulo. A narração era feita
pelos locutores Raul Tabajara, pela Record, e Walter Abrahão, que fazia sua
estreia em Copas do Mundo, pela Tupi. Cada um narrava um tempo de jogo.
(RIBEIRO, 2007, p.187)
E o replay, outro recurso habitual nas transmissões atuais surgiu, ainda de forma
precária, nesta época. De acordo com Ribeiro (2007), o “pai da ideia” foi o narrador
Walter Abrahão, que inventou a premiação pós-jogo para os melhores de cada partida.
As inovações capitaneadas por Walter não paravam por aí: “Estava no
switcher [local onde se colocam os programas de televisão no ar]
acompanhando uma transmissão ao vivo quando surgiu um lance duvidoso.
Falei a um dos técnicos da emissora: ‘Que bom seria se pudéssemos ver
novamente o lance para tirar as dúvidas.’ Chamaram-me de louco na hora,
mas no dia seguinte Arnold Farias, técnico da Tupi, me chamou na sua sala
para me mostrar algo: ‘É isso que o senhor queria?’. Era e passei a chamar a
montagem de ‘bilance’. Mas a Tupi fazia esporte porque tinha que concorrer
com a Record e não exploraram a descoberta” (RIBEIRO, 2007, p. 189).
Em 1962, pela primeira vez, a televisão captou mais verbas publicitárias do que
o rádio e o jornal. Investir em novas ideias significava ampliar ainda mais o poderio da
TV diante do público consumidor do esporte, especialmente dos fanáticos torcedores de
futebol. Então, surgiu no final de 1963, um programa que reuniu uma verdadeira
seleção de craques da imprensa esportiva na mais famosa mesa-redonda da televisão
brasileira.
A Grande Resenha Facit, da TV Rio, foi criada por acaso, no dia em que
Luiz Mendes, que se tornou âncora do programa, entrou na sala de Walter
Clark, o todo-poderoso da TV Rio, no exato momento em que várias pessoas
assistiam a uma mesa-redonda com a participação de cronistas políticos,
como Oliveira Bastos, do Tribunal de Imprensa, Villas Boas Correa, do
Correio da Manhã, Carlos Castelo Branco (Castelinho), do Jornal do Brasil,
e Murilo Melo Filho, da revista Manchete. Todos, na sala, em silêncio,
acompanharam atentamente o embate. No intervalo, Luiz Mendes comentou
com Walter: “Esses caras só se reúnem de quatro em quatro anos, quando
tem eleição. Por que não fazemos um programa esportivo, uma mesa redonda
igual a essa, mas com figuras da crônica esportiva?” Walter Clark olhou para
Luiz Mendes e não disse nada. O debate político voltou, e no intervalo
seguinte o diretor da TV Rio disse: “Ô gaúcho [era assim que Clark o
chamava], você sabe que encontrou um veio de ouro?” (RIBEIRO, 2007, p.
191)
100
Anos depois, Luiz Mendes contou que a ideia surgiu em um momento onde ele
precisava ser notado pelos chefes: “Os clubes cariocas proibiram a presença da TV nos
estádios. Muita gente estava sem trabalho, inclusive eu. Foi o único momento de minha
longa carreira em que temi pelo futuro” (RIBEIRO, 2007, p.192). Junto com Walter
Clark, selecionou os integrantes:
O time estava montado, cada jornalista escolhido representava uma paixão do
torcedor carioca. Saldanha, o Botafogo; Nelson, o Fluminense; Scassa, o
Flamengo; como Armando Nogueira também tinha uma queda pelo
Botafogo, estava faltando um vascaíno para completar a equipe. Foi então
que surgiu a indicação de Vitorino Vieira, vascaíno e funcionário da Facit.
Com o tempo, novos feras foram incorporados ao time, como o produtor
Augusto Melo Pinto, Alain Fontan, francês que trabalhava na agência de
notícias France Press no Rio de Janeiro, Hans Henningsen, jornalista
espanhol radicado no Rio de Janeiro, que Nélson Rodrigues apelidou de “o
marinheiro sueco”, Mário Vianna, Abrahim Tebbet e o médico da seleção
brasileira, Hilton Gosling. (RIBEIRO, 2007, p. 191)
A mesa redonda transformou-se em programa obrigatório aos domingos para o
torcedor carioca e modelo para gerações futuras. Em 1966, mudou o nome para Grande
Revista Esportiva Facit e de emissora, indo para a TV Globo, apresentado por Luís
Alberto, porque Luiz Mendes ficou na TV Rio. Permaneceu no ar até 1969 e segundo
Nelson Rodrigues: “Se a Mesa Facit existisse no tempo de Euclides da Cunha, este a
teria preferido a Canudos – a nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os Sertões
no princípio do século” (RIBEIRO, 2007, p.191-192).
Em 1965, a TV Record foi proibida de transmitir qualquer jogo ao vivo. A bola
passou para o campo político. Os empresários de televisão fizeram um lobby forte no
Congresso, em Brasília, pela aprovação de uma lei que permitiria as transmissões ao
vivo com o pagamento de no máximo 50 salários mínimos aos clubes. Em São Paulo, os
empresários descobriram uma brecha em uma lei municipal que permitia as
transmissões em estádios municipais. O contra-ataque dos dirigentes foi colocar todos
os jogos somente no estádio do Morumbi, pertencente ao São Paulo Futebol Clube e
onde as televisões foram proibidas de entrar (RIBEIRO, 2007, p.195). A proibição
causou a falência da TV Paulista, que foi vendida para a TV Globo. Era o veículo que
faltava para o império de Roberto Marinho consolidar-se no mercado das
comunicações.
Outra consequência interferiu no comportamento cultural do país. De acordo
com a pesquisadora Vera Regina Camargo, a pesquisadora Fátima Aparecida Feliciano
101
encontrou uma matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, de 8 de maio de 1996
que relata a solução encontrada pela Record para ocupar o horário do futebol.
Encerrada as transmissões esportivas via televisão, a emissora teria que
solucionar este problema, encontrando um programa capaz de preencher esta
audiência, que era muito alta, até então ocupada pelo esporte. Então,
utilizaram a figura de um rapaz para comandar um programa para jovens,
falando, cantando e trazendo cantores convidados. Esta tentativa foi cercada
de muito sucesso e a Jovem Guarda (nome do programa comandado por
Roberto Carlos) foi um novo movimento cultural e musical que envolveu
todos os jovens brasileiros da década de sessenta, a partir da proibição dos
dirigentes esportivos. (CAMARGO, 1998, p.14)
Os avanços tecnológicos continuavam surgindo na transmissão televisiva. Um
deles, o videotape, rendeu um comentário de Nelson Rodrigues tão atual como a data
em que foi feito, 1966, na Copa da Inglaterra.
“Amigos, o pior cego é o míope. E pior do que o míope é o que enxerga bem
mas não entende o que enxerga. Não sei se falei claro. Mas há pessoas,
inclusive cronistas, ou sobretudo cronistas, que não têm o que eu chamaria de
inteligência visual [...] Por que é que os portadores de burrice visual não
ficam na rua, sentados no meio-fio ouvindo radinho de pilha e chupando
laranja? [...] Está criada a situação burlesca – o texto brigando com a
imagem, a ilusão embolando com a evidência, a fantasia com o fato”
Para Nelson Rodrigues, o “videoteipe era burro”, mas também servia para
comprovar a incompetência de nossos especialistas na análise de um jogo de
futebol. (RIBEIRO, 2007, p. 201-202).
A Resenha Facit ganhou um forte concorrente a partir de 1967: o programa Na
Boca do Tigre, criado na TV Record sob o comando de Silvio Luiz, que priorizava a
polêmica. O debate entre veteranos como Raul Tabajara, Orlando Duarte, Paulo Planet
Duarte e Flávio Iazetti, além do novato Vidal Bataglia, esquentava as noites de
segundas-feiras da emissora. E no rádio, continuavam surgindo inovações que, depois,
seriam levadas para os outros veículos. Por exemplo, na Jovem Pan, Cláudio Carsughi
implantou as estatísticas dos jogos, lances e jogadas.
A Copa do Mundo de 1970 foi a primeira transmitida ao vivo e ajudou a
materializar a tal “corrente pra frente”. Guterman cita um artigo de Fernando Pedreira
para O Estado de São Paulo: “Não deixa de ser significativo que o Brasil entre assim na
era da comunicação eletrônica pelo caminho do futebol. [...] Os fatos podem ser os
mesmos, mas a consciência que temos dele é outra e é outra a reação coletiva”
(GUTERMAN, 2009, p.181 – grifo do autor)
102
Embora já em dificuldades financeiras, a TV Tupi tinha dois programas
referências no jornalismo esportivo: o Redação Esportes, comandado por Walter
Abrãao, com participação de Sérgio Backlanos, Eli Coimbra, Gerdi Gomes e Geraldo
Bretas. Aos domingos, Ataque e Defesa, comandado por Rui Porto, dava uma espécie
de aula de tática aos telespectadores, com um quadro em que afixava botões imantados
simulando a disposição das equipes em campo. “Com a ampla exposição obtida no
rádio e na televisão, tornou-se comum ver faixas nos estádios do Rio de Janeiro
indicando Porto para o cargo de técnico da Seleção Brasileira” (RIBEIRO, 2007,
p.214).
Em São Paulo, na TV Gazeta, em 1972, surgiu o programa de debates de maior
longevidade da televisão brasileira (apesar das trocas de nome): Futebol é com 11. As
figuras polêmicas que participavam das transmissões e debates eram valorizadas pelo
torcedor brasileiro. Uma transmissão esportiva no rádio transformava-se em show. No
entanto, também houve espaço para um aspecto de cobrança.
O fato de a mídia esportiva começar a se posicionar politicamente sobre
questões importantes do futebol já era um avanço, pequeno mas nítido, pois
até então era comum a pressão dos cartolas sobre os donos de empresas de
comunicação. Se interessasse ao patrão atrair audiência, os programas ou
reportagens polêmicas eram bem-vindas (RIBEIRO, 2007, p.237).
Futebol televisionado voltou a ser polêmica em 1977. A CBD (Confederação
Brasileira de Desportos) e clubes passaram a negociar pontualmente a transmissão de
alguns jogos, desde que, a proposta financeira compensasse para todos os envolvidos.
Dirigentes de clubes começavam a enxergar um novo caminho para arrumar
dinheiro para suas agremiações, ou quem sabe para seus próprios bolsos. Era
o início das negociatas sobre os direitos de transmissão que, pela
sobrevivência, levariam os clubes a uma crônica dependência da televisão.
(RIBEIRO, 2007, p. 246)
Na TV Record, Sílvio Luiz e Flávio comandaram o Clube dos Esportistas, que
apresentava a notícia de uma forma descontraída.
A informalidade era o principal ingrediente da produção – a começar pelo
cenário, que reproduzia uma casa, com campainha, cozinha, empregada e até
mesmo um cachorro, que latia para anunciar de um convidado do programa.
Não havia roteiro predeterminado para nada, tudo tinha de funcionar na base
do improviso. Os entrevistados eram levados pelos jornalistas convidados do
programa, esportistas de várias modalidades podiam opinar sobre outros
temas (RIBEIRO, 2007, p. 255).
103
No fim da década de 70, o Show de Esporte comandado por Luciano do Vale,
aos domingos, incentivava modalidades como vôlei, basquete e atletismo. “Com essa
ampla cobertura, além do tradicional futebol, a TV Bandeirantes criou um novo slogan,
passando a ser tratada como o ‘Canal do Esporte’” (RIBEIRO, 2007, p.256). Em São
Paulo, na TV Gazeta, em 1985, Roberto Avalone comandava o Mesa-Redonda –
Futebol, Debate, sucessor do Futebol é com 11.
Avalone, que vinha do jornalismo impresso, assimilou rapidamente o novo
veículo de comunicação. Seu jeito diferente de impostar a voz quando falava,
especialmente de seu clube de coração, o Palmeiras, virou marca registrada.
Agitado, com o dedo indicador esticado para cima, incitava o torcedor:
“Avante, Palestra!!!”. Outra mania curiosa era a de “pontuar” o que dizia na
televisão, como se estivesse escrevendo: “Eu notava o seguinte. Na mídia
impressa eu escrevia e era perfeitamente entendido nas minhas vírgulas, nas
minhas ênfases. E na televisão, muitas vezes, queria fazer ironia e não
passava por ironia. Não adianta falar, tem que passar o que queremos dizer.
Então, para ‘acentuar’ o que queria dizer passei a reforçar a expressão
‘vírgula’; e quando era uma pergunta enfática, ‘interrogação’!!! (RIBEIRO,
2007, p. 261).
Paulo Vinícius Coelho (2003) destaca que Avalone escreveu reportagens para o
Caderno de Esportes do Jornal da Tarde, se destacando pela capacidade de apuração.
No início dos anos 80, descobriu que tentar a carreira televisiva seria mais
interessante do ponto de vista econômico. Virou apresentador da TV Gazeta e
continuou com a coluna Jogo Aberto, no Jornal da Tarde, até 1988.
“Investir em televisão é o melhor negócio. Paga muito melhor e dá ao
jornalista que trabalha com esporte uma visibilidade que os jornais não
oferecem mais”, diz.
(...) Pessoalmente, Avalone continua o mesmo daqueles anos 70 e 80. A
telinha passou a vender a imagem de alguém que passou a julgar-se mais
importante do que a notícia. Eis o grande risco do profissional que começa a
ser exposto diariamente na mídia. Jornalismo é notícia. Ela é a razão de ser
do jornalista. E do jornalismo. Construída com inteligência, com
conhecimento do assunto, com encadeamento de ideias, coisas que exigem
bons profissionais. (COELHO, 2003, p.47)
A importância da combinação esporte e meio de comunicação de massa na vida
do Brasil ficou explícita com a Diretas Já. Um dos nomes fortes da campanha pelo
direito de votar que não era relacionado à política fazia parte da rotina dos brasileiros
por narrar as emoções do esporte nos microfones da TV e do Rádio.
104
Com a saída de Luciano do Valle da TV Globo, Osmar Santos tornou-se o
homem forte dos microfones da rádio e da TV Globo, em São Paulo. Além de
narrar, participava de diversos programas jornalísticos da emissora com os
maiores índices da audiência da televisão brasileira. Prestígio e popularidade
foram ingredientes que não faltaram para que as principais lideranças
políticas brasileiras enxergassem em Osmar o homem certo para comandar,
nos palanques, os comícios do movimento pelas “Diretas Já”.
Curiosamente, o maior veículo de comunicação do país, que demorou a
engajar-se no movimento político, transformaria Osmar em fenômeno do
público e de consumo no rádio e na televisão. O famoso narrador que
estreava na televisão como apresentador do programa Guerra dos Sexos
também podia ser visto nos intervalos do Jornal Nacional, programa de
maior audiência da TV Globo, vendendo de tudo um pouco: “Fazia
concorrência comigo mesmo. No mesmo horário em que a tevê mostrava o
Guerra dos Sexos, eu estava transmitindo jogos pelo rádio”, afirma Osmar na
biografia escrita por Paulo Martins (RIBEIRO, 2007, p. 259)
Usar estrelas da imprensa esportiva para alavancar candidaturas não era
novidade para os poderosos da política nacional. Ribeiro (2007) destaca que, desde que
o futebol ganhou popularidade fora do comum entre o povo brasileiro, jogadores,
técnicos, dirigentes e profissionais da imprensa esportiva passaram a ser considerados
cabos eleitorais respeitadíssimos, bons de votos. Daí a importância de Osmar Santos e
de comportamentos públicos como a “Democracia Corinthiana”, já mencionada no
capítulo 1.
Ainda na década de 80, o relacionamento entre jogadores – em especial, os da
seleção brasileira – e a imprensa estava tenso e complicado. O fracasso na Copa de 1982
pesava sobre o grupo, que se preparava para o Mundial seguinte, no México. Houve até
uma “greve de silêncio” contra a imprensa, que acabou com a demissão do técnico
Evaristo de Macedo. Já no cenário nacional, um impasse que começou lá na era do rádio
e a televisão herdou, finalmente encontrou um consenso entre os envolvidos.
A velha briga entre empresários de televisão e dirigentes de clubes e
federações pelo direito de exibição de partidas ao vivo era outro fato
importante para agravar a crise que o futebol brasileiro vivia. Até 1986,
nenhuma emissora podia transmitir jogos ao vivo, porque para os dirigentes
esportivos a televisão continuava a ser a única culpada pelo esvaziamento dos
estádios brasileiros. Ruim com ela, pior sem ela. Dirigentes e empresários
chegaram a um acordo, e a partir de 1987, a televisão voltou a ter o direito de
televisionar jogos ao vivo. O novo Campeonato Brasileiro teve dezesseis
clubes, patrocinador forte, e na mídia, espaço suficiente para faturar e noticiar
(RIBEIRO, 2007, p. 266).
Ribeiro considera ainda que, entre 1986 e 1991, não havia o monopólio da TV
Globo, especialmente nas transmissões do Campeonato Brasileiro, porque a
Bandeirantes chegou a transmitir vários jogos exclusivos.
105
No início da década de 1990, foi criada a Globosat, e em 1991 surgiu o primeiro
canal de esporte por assinatura no Brasil: o Sportv, sob o comando de Armando
Nogueira. O jornalista acreano implantou o telejornalismo na TV Globo e comandou
durante 24 anos o Jornal Nacional12. No entanto, a paixão dele era o jornalismo
esportivo. Esteve na Resenha Facit e participou da cobertura das Copas do Mundo,
desde 1954.
Armando Nogueira decidira retornar ao jornalismo esportivo no exato
momento em que o futebol brasileiro vivia uma de suas piores crises de
identidade. Ninguém suportava mais abrir os jornais e ler notícias somente de
falcatruas e negociatas. A derrota vergonhosa na Copa da Itália, em 1990, só
agravara esse quadro. Editores dos principais jornais do país reduziam
drasticamente o espaço dedicado ao esporte. Não fosse o ressurgimento de
“poetas” como Armando Nogueira, a paixão popular não teria mais espaço
nos diários esportivos (RIBEIRO, 2007, p. 274)
Era acirrada a concorrência entre Globo e Bandeirantes, as emissoras detentoras
dos direitos de transmissão dos principais eventos esportivos. E a evolução tecnológica
era apresentada como diferencial na cobertura.
Paulo Machado não viveu para ver a Globo utilizar, dentro dos gols dos
estádios, microcâmeras, vistas somente nas transmissões do sofisticado
mundo da Fórmula 1; ou então as quatorze câmeras da Bandeirantes
instaladas no estádio para a transmissão das finais do Campeonato Paulista de
1993.
Os torcedores da poltrona acostumaram-se com objetos estranhos colocados
ao redor do gramado dos estádios. Trilhos nas laterais, gruas que subiam para
os clubes brasileiros. O surgimento de canais por assinatura no Brasil e a
disputa pelos direitos exclusivos de transmissão aumentavam ainda mais a
receita que dirigentes esportivos poderiam embolsar sem fazer nenhuma
força (RIBEIRO, 2007, p. 278).
Em 1993, a TVA Esportes, do Grupo Abril, se tornou a ESPN Brasil. O país
passou a ter dois canais específicos de esportes na TV a cabo, além das emissoras de
canal aberto. E o Brasil se tornou referência: em 1994, pela primeira vez um brasileiro,
Murilo Salles, foi convidado para ser o produtor do filme oficial da Copa do Mundo13.
Diz Gastaldo que a vitória em 1994 promoveu uma rearticulação de significados
na relação entre a Seleção e o povo brasileiro. Quatro anos depois, a derrota não afetou
como a equipe nacional recebia e assumia significados atribuídos ao país.
12
Armando Nogueira foi uma das pessoas envolvidas no episódio do resumo do debate entre Collor e Lula, exibido
no Jornal Nacional, às vésperas do segundo turno de 1989. A edição foi tendenciosa a favor do candidato Collor. No
ano seguinte, ele se desligaria da emissora e dedicaria o restante da vida ao jornalismo esportivo trabalhando no canal
por assinatura.
13
Todos os Corações do Mundo (Two Billion Hearts), lançado em 1995, é o 11º documentário oficial da FIFA sobre
as Copas do Mundo.
106
A conquista do tetracampeonato mundial de futebol, isolando o Brasil de seus
concorrentes no número de títulos conquistados (Alemanha e Itália têm três
títulos cada), representou uma espécie de 'salvaguarda' contra a derrota. Na
Copa de 1998, mesmo a derrota para a França na decisão do torneio não
impediu a atribuição de significados positivos à seleção, como a 'melhor do
século' ou 'campeã do século'. Um anúncio do canal de televisão a cabo
SPORTV, veiculado no Jornal da Tarde da segunda-feira após a derrota
traduz perfeitamente este argumento: "Tudo bem. Ninguém ainda é tetra."
Mesmo com a derrota por 3 x 0 (a maior goleada já sofrida pela seleção
brasileira em todas as Copas do Mundo, diga-se de passagem), ainda está
"tudo bem", o Brasil continua a ser o 'melhor do mundo'. (GASTALDO,
2001, p.127)
E houve revolução tecnológica nos bastidores. As máquinas de escrever, telex ou
fax foram aposentadas e substituídas por laptops ou notebooks e surgiram as fotos
digitais. E o Mundial de 1998, na França, marcou a estreia de uma nova mídia: a
internet.
A informação passava a ser praticamente instantânea. A velocidade com que
uma notícia podia chegar ao público acirrava a competição e obrigava
qualquer jornal ou revista a entrar no mundo da internet. Foi uma autêntica
febre. Grandes investidores passaram a viabilizar a estruturação da
informação via sites, tornando cada vez maiores os investimentos nesse
segmento da mídia, e cada vez mais atrativas as vagas nessas redações
(RIBEIRO, 2007, p. 295).
E justamente a internet foi a salvação de um dos jornais mais tradicionais do
Brasil. Em 19 de novembro de 2001, A Gazeta Esportiva deixou de ir para as bancas.
Ao completar 73 anos, o jornal, que teve tiragens recordes de mais de 500 mil
exemplares, vendia cerca de 14 mil. Em períodos mais críticos, chegou a vender 4 mil.
Pela impossibilidade de simplesmente desaparecer, pois da dona do jornal,
Fundação Casper Líbero, era obrigada a manter o título no mercado, decidiuse transferir tudo da marca para o portal Gazetaesportiva.net e para a agência
de notícias Gazeta Press, encarregada de explorar um dos maiores acervos de
fotos e notícias de esporte do Brasil. (RIBEIRO, 2007, p. 302)
A internet se transformou em veículo parceiro e, às vezes, tão forte quanto os
antecessores. A partir de meados da década de 1990, houve um boom de sites primeiro
nos Estados Unidos e Europa e depois no Brasil. Em 1998, o jornal Lance! surgiu já
com o Lancenet. Em 1999, foi criado o canal a cabo PSN, cujo portal captou jornalistas
em outras redações, pagando salários altíssimos. No entanto, de acordo com Paulo
Vinícius Coelho (2003), em 2001, a fuga de investimentos diminuiu os recursos
107
aplicados na internet e causaram o fechamento de alguns sites, não apenas no setor
esportivo.
A estabilidade chegou em 2002. Quem tinha que continuar investindo,
continua até hoje. Quem não tinha, deixou a área e já não causa grandes
rebuliços. Mas o estrago foi considerável. Bons profissionais deixaram o
mercado e têm dificuldade para retornar. Alguns desistiram. Quem continua
trabalhando produz notas diárias, com informações que causam no jornal do
dia seguinte o sabão de pão amanhecido. Claro, para quem tem o hábito de
acompanhar a todos os noticiários dos sites.
(...) A volúpia com que a internet passou pelo mercado editorial do Brasil
causou vários estragos para os jornalistas consagrados. Muitos perderam o
emprego, muitos ainda procuram meios de voltar para o mercado de trabalho,
tão combalido antes das demissões de 2000 e 2001 e mais baleado ainda
depois. Mas o maior dano pode ter sido gerado para os meninos que entraram
no mercado e que saíram da aventura com a sensação de que vale mais uma
notícia publicada rapidamente do que uma informação checada
criteriosamente antes de ser publicada. (COELHO, 2003, P.61-62)
Ao traçarmos esta trajetória, concordamos com Kellner (2001) que há uma
cultura veiculada pela mídia cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido
da vida cotidiana, dominando o tempo de lazer, modelando opiniões políticas e
comportamentos sociais e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua
identidade.
As narrativas e as imagens veiculadas pela mídia fornecem os símbolos, os
mitos e os recursos que ajudam a constituir uma cultura comum para a
maioria dos indivíduos em muitas regiões do mundo de hoje. A cultura
veiculada pela mídia fornece o material que cria as identidades pelas quais os
indivíduos se inserem nas sociedades tecnocapitalistas contemporâneas
produzindo uma nova forma de cultura global.
Os espetáculos da mídia demonstram quem tem poder e quem não tem, quem
pode exercer força e violência e quem não pode. Dramatizam e legitimam o
poder das forças vigentes e mostram aos não poderosos que, se não se
conformarem, estarão expostos ao risco de prisão ou morte. Para quem viveu
imerso, do nascimento à morte, numa sociedade de mídia e consumo é, pois,
importante aprender como entender, interpretar e criticar seus significados e
suas mensagens. Numa cultura contemporânea dominada pela mídia, os
meios de informação e entretenimento são uma fonte profunda e muitas vezes
não percebida de pedagogia cultural: contribuem para nos ensinar como nos
comportar e o que pensar e sentir, em que acreditar, o que temer e desejar - e
o que não. (...) Aprendendo como ler e criticar a mídia, resistindo à sua
manipulação, os indivíduos, os indivíduos poderão fortalecer-se em relação à
mídia e à cultura dominantes. Poderão aumentar sua autonomia diante da
cultura da mídia e adquirir mais poder sobre o meio cultural, bem como os
necessários conhecimentos para produzir novas formas de cultura
(KELLNER, 2001, p.9-10)
No entanto, ao invés de seguirmos a crença de que esta cultura veiculada pela
mídia se resume a ser a arma e o instrumento para propagar a ideologia dominante,
108
acreditamos que as manifestações devem ser interpretadas e contextualizadas dentro do
contexto temporal, social e de ambiente onde está inserido.
Com o advento da cultura da mídia14, os indivíduos são submetidos a um
fluxo sem precedentes de imagens e de sons dentro de sua própria casa, e um
novo mundo virtual de entretenimento, informação, sexo e política, está
reordenando percepções de espaço e tempo, anulando distinções entre
realidade e imagem, enquanto produz novos modos de experiência e
subjetividade. Estas mudanças políticas, sociais e culturais de longo alcance
foram acompanhadas por uma espetacular proliferação de novas teorias e
métodos que ajudam a entender a cultura e a sociedade contemporâneas
(KELLNER, 2001, p.27).
O autor considera que “toda cultura, para se tornar um produto social, serve de
mediadora da comunicação e é por esta medida, sendo comunicacional por natureza”. E
ainda que a "comunicação" é mediada pela cultura e se torna um modo de disseminá-la,
realizá-la e efetivá-la. Ele conclui que “não há comunicação sem cultura e não há
cultura sem comunicação”. (2001, p.53)
A expressão “cultura da mídia” também tem a vantagem de dizer que a nossa
é uma cultura da mídia, que a mídia colonizou a cultura, que ela constitui o
principal veículo de distribuição e disseminação da cultura, que os meios de
comunicação de massa suplantaram os modos anteriores de cultura como o
livro ou a palavra falada, que vivemos num mundo no qual a mídia domina o
lazer e a cultura. Ela é, portanto, a forma dominante e o lugar da cultura nas
sociedades contemporâneas. (KELLNER, 2001, p.54)
Ele lembra ainda que cultura da mídia é também o lugar onde se travam batalhas
pelo controle da sociedade. Todos os grupos com interesses em comum lutam pelo
poder cultural não só nos meios noticiosos e informativos, mas também no domínio do
entretenimento. A mídia “ajuda a conformar nossa visão de mundo, a opinião pública,
valores e comportamentos, sendo, portanto, um importante fórum de poder e de luta
social” (KELLNER, 2001, p.54).
Houve um tempo em que identidade era aquilo que se era, aquilo que se
fazia, o tipo de gente que se era: constituía-se de compromissos, escolhas
morais, políticas e existenciais. Hoje em dia, porém, ela é aquilo que se
aparenta, a imagem, o estilo e o jeito como a pessoa se apresenta. E é a
cultura da mídia que cada vez mais fornece material e recursos para a
constituição das identidades (KELLNER, 2001, p.333).
14
Conforme Kellner (2001, p. 52), "Cultura da mídia" é uma expressão que designa tanto a natureza quanto a forma
das produções da indústria cultural e seu modo de produção e distribuição. Chama a atenção para o circuito de
produção, distribuição e recepção por meio do qual a cultura de mídia é produzida, distribuída e consumida e para a
interconexão entre a cultura e meios de comunicações na constituição de cultura da mídia, desfazendo assim
distinções reificadas entre "cultura" e "comunicação".
109
Desta forma, concordamos com a análise de Kellner (2001) de que a cultura da
mídia fornece imagens, discursos, narrativas e espetáculos capazes de produzir prazer,
entidades e posições de sujeitos de que as pessoas se apropriam e usam para a formação
de identidades e apresenta novas formas de identidade nas quais a aparência, o jeito de
ser e a imagem substituem coisas como a ação e o compromisso na construção da
identidade, daquilo que alguém é.
Kovach e Rosenstiel (2003) defendem que o jornalismo exerce uma função na
vida das pessoas: “fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem
livres e se autogovernar” (2003, p.31) E, desta forma, construir a comunidade, a
cidadania, a democracia. Segundo os autores, atualmente, mudou a atuação do
profissional.
O novo jornalista não decide mais o que o público deve saber. Ele ajuda o
público a pôr ordem nas coisas. Isso não significa simplesmente acrescentar
interpretação ou análise a uma reportagem. A primeira tarefa dessa mistura
de jornalista e “explicador” é checar se a informação é confiável e de forma
que o leitor possa entendê-la (KOVACH, ROSENSTIEL, 2003, p.41)
Eles afirmam ainda que “cada geração cria seu próprio jornalismo. Mas a
finalidade, nós constatamos, é a mesma” (2003, p.33). Léo Batista avaliou as mudanças
que acompanhou em 65 anos de carreira em entrevista ao Sportv Repórter.
Sempre tem lugar para todo mundo. Ai vem a internet, enfim, essas coisas
modernas agora ai da eletrônica, da informática não sei o que não sei o que,
evidente que tem que transformar, serão outros caminhos para aqui modifica
ali cria ali inventa lá. Mas tem lugar para todo mundo, eu, por exemplo,
adoro o radio. Eu continuo... E digo mais acho que ouço mais radio do que
vejo televisão.
(...)
‘Cê me perguntou se eu tenho saudade. A gente sempre tem saudade de
alguma coisa. Não sei a que deve isso. ‘Cê tá me perguntando
especificamente da profissão da carreira e tal. Eu acho que eu tenho saudade
da simplicidade das coisas de antigamente. Evidente com a evolução com a
tecnologia a eletrônica a internet isso tudo ai ajudou e hoje as coisas parecem
um pouco mais fáceis e tal. Então Mas eu tenho saudade sim... As coisas
eram, embora mais lutadas, mais arrancadas e conseguidas ali com suor e
com sacrifício, eu tenho saudades. Era um tempo mais diria romântico um
tempo mais romântico. E a gente quando conseguia fazer inventar alguma
coisa se superar e superar os problemas era um triunfo, um prazer
extraordinário, né. Não que agora não tenha, não haja dificuldade, é evidente,
mas sinceramente a coisa é bem mais fácil. Então quando eu vejo um colega
reclamando de algumas coisas com dificuldade não vou contestar não, mas
até acho graça, realmente. Então tenho saudades dessas coisas de antigamente
que eram trabalhosas, mais simples e mais gostosas. (LEO BATISTA 80
anos. In SPORTV REPORTER, 10/11/12)
110
Pecenin destaca como o jornalismo esportivo depende do vínculo com o público
para criar uma fidelidade ao consumo da notícia veiculada pelo veículo/emissora.
É importante dizer que há o exercício de uma relação de poder entre a
imprensa e a torcida brasileira: para controlar a subjetividade dos torcedores,
transformando-os torcedores leitores/consumidores de informações e
comentários esportivos, e também para atender, assim, aos interesses
econômicos do jornal, a crônica futebolística manifesta, em seu discurso, um
saber que se identifica com o que os torcedores brasileiros querem ler, com o
que acreditam, com a imagem que fazem de sua seleção: que ela é a melhor
do mundo. E isso faz os torcedores sentirem-se ocupando o lugar de melhores
do mundo também. Esse saber manifestado pela crônica esportiva
corresponde a uma incessante nossa vontade de verdade que se alastra pelo
Brasil em épocas de Copa e constroem uma determinada subjetividade para
os brasileiros: como temos o melhor futebol do mundo, somos os melhores
do mundo. Segundo Foucault (1995), poder e saber são elementos que
transformam em sujeitos, os indivíduos. (PECENIN, 2007, p.86)
Estabelecida esta base, voltaremos agora o olhar para o objeto desta dissertação:
o programa Globo Esporte, o carro-chefe do jornalismo da TV Globo. Enfrentou crises
de audiência e mudanças de linhas editoriais. A fase mais recente chamou a atenção do
acadêmico, pelas mudanças implantadas, primeiro no programa de São Paulo e que,
depois, foram estendidas às demais praças – e não apenas na área de esporte, atingindo
também o jornalismo geral. Dedicaremos o próximo capítulo à análise desta trajetória.
111
4. Globo Esporte
Neste capítulo, vamos analisar o objeto desta dissertação: o programa Globo
Esporte, exibido seis vezes por semana pela TV Globo. Primeiro vamos estabelecer a
trajetória cronológica, desde quando surgiu até a fase atual, destacando as mudanças de
estilo das quais se utilizou, avanços tecnológicos que implantou, profissionais que
fizeram e fazem parte da história do programa.
Em seguida, vamos avaliar as mudanças implantadas pelo Globo Esporte São
Paulo, nesta fase sob o comando do apresentador e editor-chefe Tiago Leifert. O estilo
adotado, priorizando o entretenimento e a descontração em todo o processo, desde a
escolha da pauta até a forma como a notícia é veiculada, atraiu audiência e críticas, em
especial de outros profissionais de Jornalismo e estudiosos da área.
Na terceira parte, temos a análise de conteúdo de 12 programas Globo Esporte
exibidos no mesmo período, em 2012: seis feitos pela redação de São Paulo e outros
seis pela redação do Rio de Janeiro. Serão comparados temáticas, tempo dedicado aos
assuntos e, em especial, as abordagens – de que maneira a notícia foi transmitida e o
peso de estratégias como humor, entretenimento para o programa.
Por fim, teremos a análise do resultado de um grupo focal, realizado em janeiro
com sete participantes de diferentes faixas etárias, profissões e interesse por esporte.
Eles fizeram considerações e comentários após assistir a duas edições do GE, uma de
cada praça, exibidas originalmente na mesma data.
112
4.1. Histórico do Globo Esporte
O Globo Esporte (GE) é o espaço de telejornalismo esportivo diário na TV
Globo. Exibido desde 14 de agosto de 1978, no início da tarde (atualmente entra no ar
por volta de 12h5015). Não há livros exclusivos sobre a trajetória do programa. No
entanto, o site Memória Globo16 disponibiliza um histórico que relata que, no início, era
dedicado quase que exclusivamente à cobertura dos torneios estaduais e nacionais de
futebol. Apesar disso, no primeiro ano, abriu espaço para os esportes amadores e
modalidades que seriam de interesse do público brasileiro17.
Ao longo de sua trajetória, o Globo esporte (sic) pode ser definido como uma
mistura de informação e entretenimento. A pauta passou a abordar
reportagens curtas sobre times e atletas, os resultados, os melhores lances de
jogos e campeonatos; além de procurar o lado inusitado do fato esportivo
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
Um elo entre a origem e o presente ainda pode ser visto toda semana. Léo
Batista que apresentou o primeiro GE e é um dos principais nomes da história do
esporte da TV Globo, comanda o programa aos sábados, no Rio de Janeiro. Durante o
Sportv Repórter que homenageava os 80 anos do apresentador, Léo Batista contou
como o GE surgiu e por que recebeu este nome.
“Ah, a história é simples. Havia um torneio chamado Copa Brasil, não é a
Copa do Brasil, Copa Brasil, que a Globo cobria e tinha um programa aqui,
né, nesse mesmo horário e tal , pouco antes do almoço ou na hora do almoço,
enfim. Aí o Boni reunido, falou “Não, vamos fazer melhor”. O programa era
Copa Brasil, mas era só o futebol, era só a Copa. “Nós vamos fazer um
programa, um pouquinho maior cobrindo todos os esportes, mas basicamente
o futebol”. “Então, a partir de amanhã, já...” Então, falei “opa, todo mundo
empregado, vamos trabalhar”. E como é que vai ser o nome do programa e
tal? Tinha que ter o nome. Aí pensa daqui, pensa de lá, mil sugestões, tal,
nada emplacou. Aí o Boni falou “Bota aí Globo Esporte e depois a gente vê”
(LEO BATISTA 80 anos. In SPORTV REPORTER, 10/11/12).
15
De acordo com o editor-chefe do Globo Esporte Rio de Janeiro, Afonso Garschagen, o GE é exibido de segundafeira à sábado, de 12h50 às 13h20, com 23’09” de produção. Informações obtidas durante palestra dele e de Paulo
César Norões, editor de esportes da TV Verdes Mares, no dia 06 de setembro de 2012, no Teatro Celina Queiroz,
dentro da programação do XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação: UNIFOR, Fortaleza, 2012.
16
Memória Globo. Globo Esporte. Disponível em <http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN05273-238743,00.html>. Acesso em 21 de março de 2012.
17
Conforme o site Memória Globo, nas décadas de 1970 e início de 1980, a equipe do programa era formada por
jornalistas como Hedyl Valle Júnior, Luiz Nascimento, Michel Laurence e Armando Augusto Nogueira. Os principais
repórteres esportivos eram Juarez Soares, Luciano do Valle, José Regal, Raul Quadros, Oscar Eurico, José Hawilla e
Gil Rocha. Nessa época, a Divisão de Esportes estava sob o comando do jornalista Ciro José (acesso pela internet).
113
Em julho de 2012, a Rede Globo sediou o VI Seminário Temático Intercom,
com o tema “Esportes na Idade Mídia: Diversão, Educação e Informação”. Em palestra,
Luiz Fernando Lima, então diretor da Central Globo de Esportes (CGESP) falou sobre a
evolução do esporte na programação da emissora.
“O primeiro plano comercial de futebol surgiu em 1991, com 25 jogos. O
esporte só cresceu em relevância na medida em que a sociedade deu
importância a ele”, afirmou. De acordo com o diretor da Central Globo de
Esportes, os meios de comunicação contribuíram, ao longo dos anos, para
agregar valor ao esporte. “Hoje estamos em uma situação em que o esporte
está crescendo. Uma parte foi contribuição dos meios de comunicação e, a
outra, foi do próprio esporte, que sempre buscou a excelência. A excelência
torna o atleta uma pessoa única e a sociedade passou a valorizar isso”. Neste
sentido, para o diretor, a nova linguagem dos telejornais esportivos veio para
atender esta demanda, com o objetivo de fazer com que o telespectador se
sinta atendido. “A pessoa tem que ficar tão satisfeita que vai voltar e assistir
de novo”. Ele ressaltou, ainda, que as imagens também têm que estar em
evidência: “A transmissão esportiva não deve deixar dúvida, seja nas
imagens, no comentário ou na narração” (GLOBO UNIVERSIDADE, 2012,
acesso pela internet18).
No mesmo evento, o apresentador do Globo Esporte Rio de Janeiro (GE RJ)
Alex Escobar e o editor-chefe Afonso Garschagen destacaram como o GE mistura
jornalismo com entretenimento, sem perder as informações principais da notícia. “‘A
ideia é fazer entretenimento esportivo’, afirmou Afonso, que ressaltou, ainda, a
necessidade de ter no programa boas histórias para contar, buscando personagens com
os quais o público se identifique” (GLOBO UNIVERSIDADE, 2012, acesso pela
internet).
Dois meses depois, durante palestra no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação, Intercom em Fortaleza, 2012 Afonso Garschagen19, expôs mais
detalhes desta linha de ação. Lembrou que a Divisão de Esportes passou a ter uma
Central, que organiza a cobertura da editoria na emissora20. Ele reforçou que esporte é
negócio, entretenimento e jornalismo: é negócio quando envolve os direitos de
18
GLOBO UNIVERSIDADE. Esporte foi tema do VI Seminário Temático Intercom na Rede Globo. Publicado em 23 de julho de
2012. Disponível em <http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2012/07/esporte-foi-tema-do-viseminario-tematico-intercom-na-rede-globo.html> Acesso em 01 de janeiro de 2013.
1
19
Informações obtidas durante palestra do editor-chefe do Globo Esporte Rio de Janeiro, Afonso Garschagen, e Paulo
César Norões, editor de esportes da TV Verdes Mares, no dia 06 de setembro de 2012, no Teatro Celina Queiroz,
dentro da programação do XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação: UNIFOR, Fortaleza, 2012.
20
No evento do Intercom, o editor-chefe do Globo Esporte Rio de Janeiro explicou ainda que a Central Globo de
Esporte possui a seguinte programação: Globo Esporte (GE), Esporte Espetacular (EE), Corujão, a transmissão de
eventos, além das inserções nos programas do Jornalismo: Bom Dia Brasil (BDB), Jornal Hoje (JH), Jornal Nacional
(JN) e Jornal da Globo (JG).
114
transmissão. Segundo ele, para exibir alguns eventos, se paga caro, cada vez mais caro.
Quando mais popular, mais caro. Ainda destacou que é entretenimento porque é uma
forma de relaxar e de se divertir. E jornalismo porque pode ter histórias contadas de
forma jornalística.
Afonso Garschagen também falou, de forma breve, sobre a cronologia,
destacando que os blocos locais do GE surgiram nos anos 80. Em 1986, teve duração
ampliada para 30 minutos. No entanto, três anos depois perdeu 10 minutos de duração.
Em 2007, o editor-chefe disse que a emissora lançou o projeto GE nacional, realizado
pela equipe do Rio de Janeiro, com matérias vindas das afiliadas no país, que precisou
ser repensado. Em 2009, foi retomada a regionalização, com o novo Globo Esporte São
Paulo (GE SP), sob o comando de Tiago Leifert. Em 2010, a iniciativa chegou ao GE
RJ e em 2011, às outras edições do GEs, além da criação da Agência GE, responsável
pelo intercâmbio e a disponibilizar matérias que possam interessar às diferentes praças.
O primeiro grande evento esportivo acompanhado diariamente pelo GE foram os
Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980. De acordo com o site, as TVs Globo e Cultura
foram as únicas emissoras brasileiras que cobriram a competição. “As matérias do
Globo esporte destacaram o desempenho dos atletas brasileiros e momentos marcantes,
como a despedida do urso Misha no encerramento dos Jogos” (MEMÓRIA GLOBO,
acesso pela internet).
Ribeiro (2007) destaca que, no início da década de 1980, a TV Globo preparavase para assumir a hegemonia das transmissões esportivas. Diz o autor que o tamanho do
cofre foi fundamental para contratar os principais profissionais do mercado e conseguir
os direitos dos principais eventos.
A maior dificuldade em superar a Globo aparecia nas grandes coberturas,
como a de uma Copa do Mundo, por exemplo. E aí a questão era muito mais
financeira. No Mundial da Espanha, em 1982, a emissora carioca demonstrou
seu poderio ao comprar com exclusividade os direitos de transmissão para o
Brasil por 14 milhões de dólares. A estrutura montada era de primeiro
mundo: 150 profissionais, com estúdios próprios em Madri, além de
equipamentos modernos para suprir qualquer exigência das transmissões e
reportagens (RIBEIRO, 2007, p.254).
Já na cobertura da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, o GE foi substituído
por um bloco dedicado exclusivamente ao futebol, dentro do Jornal Hoje, com
reportagens diretamente da Espanha, pelos apresentadores Léo Batista e Fernando
115
Vannucci21. A determinação da emissora carioca em ser a principal, claro, interferiu na
concorrência. A tal ponto da Rádio Record, que contava com o narrador Sílvio Luiz, ter
feito campanha em outdoors e chamadas nos programas de televisão: “Veja a Copa na
TV, mas ouça com o coração... na Record”. Conforme Ribeiro, a audiência global
atingiu a marca de 92% do Ibope. No Rádio, Sílvio, da Record e Osmar Santos, pela
Rádio Globo, destronaram pela primeira vez a liderança da Bandeirantes no Ibope das
transmissões esportivas (RIBEIRO, 2007, p. 254).
Acreditamos que o aumento da importância dos megaeventos esportivos para as
emissoras brasileiras trouxe reflexos diretos na forma como a Rede Globo planejava a
cobertura no setor. O Memória Globo oferece indícios neste sentido ao afirmar que, na
década de 1980, a Divisão de Esporte passou por uma série de mudanças22.
As notícias esportivas ganharam espaço nos diferentes telejornais da
emissora, a área recebeu mais recursos e novos profissionais foram
contratados. Essas mudanças influenciaram diretamente o Globo esporte
(sic). As matérias se tornaram mais elaboradas, passaram a apresentar mais
entrevistas e buscavam explorar a trajetória pessoal dos atletas, mostrando
suas limitações, obstáculos e desafios.
(...)
Em meados da década de 1980, Leonardo Gryner assumiu a direção de
esporte da TV Globo. Ele promoveu uma série de mudanças, que também
influenciaram o programa. O Globo esporte ampliou sua cobertura, deixando
de tratar apenas de temas relacionados ao futebol, e começou a adotar uma
linha mais irreverente, possibilitando uma interação maior com a área de
criação. As reportagens passaram a utilizar recursos como animação,
grafismo e vinhetas especiais. Nesse período, um repórter que se destacou foi
Márcio Canuto. Ele começou no Globo esporte fazendo exatamente essas
matérias com um tom descontraído e de humor (MEMÓRIA GLOBO, acesso
pela internet).
Em 1983, além da ampliação da exibição para os sábados, o telejornal começou
a ter dois blocos exibidos em rede, com reportagens de interesse nacional e um bloco
com o noticiário local produzido pelas praças. Foram criados quadros novos23. Três anos
21
Conforme o Memória Globo, Fernando Vanucci e Léo Batista foram os primeiros apresentadores do programa..
Outra apresentadora marcante é Mylena Ciribelli, que começou na bancada, em 1991, revezando-se com Fernando
Vannucci, Léo Batista e a jornalista Isabela Scalabrini (que apresentava o GE, desde 1987, apenas aos sábados).
22
Na década de 1980, o jornalismo esportivo da TV Globo revelou nomes como Isabela Scalabrini, Luiz Fernando
Lima, Tino Marcos, Mauro Naves e Marcos Uchoa. Isabela Scalabrini foi para TV Globo Minas e Marcos Uchoa se
tornou correspondente internacional da emissora em Londres. Luiz Fernando Lima é diretor de Esporte da TV Globo
desde 1996. Já o repórter Tino Marcos, desde 1987, acompanha a Seleção Brasileira de futebol e cobriu todas as
Copas do Mundo pela TV Globo. Já Mauro Naves, em mais de 18 anos de cobertura esportiva, já fez matérias sobre
as mais variadas modalidades esportivas e participou de quase todas as decisões do Campeonato Brasileiro
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet)..
23
Exemplos de quadros criados nesta época: Gente e Agenda (informava sobre eventos e personalidades esportivas
nacionais e internacionais), premiações semanais sobre o Campeonato Brasileiro, Barbadas do dia (apresentado por
Ernani Pires Ferreira durante sete anos, de maneira informal e bem humorada, dava as notícias de turfe “(...) o
cometarista apareceu vestido das mais variadas maneiras, entre elas de Xuxa, de bailarina, do personagem infantil
116
depois, encontrou uma forma de incentivar a participação de quem costumava
acompanhar o programa, além de transformar a popularidade do rádio em um aliado.
Em 1986, o Globo esporte começou a explorar a interatividade com o
telespectador através do quadro Tele-resposta, em que as pessoas podiam dar
suas opiniões (escolhendo as opções sim ou não) pelo telefone. Nesse ano, o
radialista José Carlos Araújo passou a apresentar às terças, quartas e sextasfeiras um quadro onde dava seus palpites e dicas sobre o futebol carioca
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
Para as Olimpíadas de Seul, em 1988, o GE ganhou cenários especiais e, por
entrar no ar no encerramento do dia olímpico, apresentava o principal noticiário sobre
os jogos e teve o tempo ampliado para 45 minutos.
E o vôlei, esporte que se destacou em Olimpíadas, passou a fazer parte da rotina
do brasileiro. Com a geração de prata, em 1984, o jornalismo esportivo voltou os olhos
para a equipe de Renan, Montanaro, Bernard, William e Bernardinho e contribuiu para
o crescimento da modalidade no país, que acompanhava o desempenho das seleções
masculina e feminina. E comprovando a capacidade de “cobaia” do jornalismo, um
exemplo de pioneirismo foi registrado pelo esporte, desta vez, da emissora carioca.
Em abril de 1984, a TV Globo transmitiu com exclusividade, diretamente de
Havana, uma partida entre as seleções masculinas do Brasil e de Cuba. A
partida é considerada um marco, porque foi a primeira transmissão da
televisão brasileira ao vivo de Cuba para o Brasil. O repórter Luiz Fernando
Lima acompanhou a sequência de jogos, que foram disputados em diversas
cidades da ilha (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
O interesse pelo vôlei se consolidou em 1992, com a medalha de ouro
conquistada nos Jogos de Barcelona, pelo time de Maurício, Tande, Giovane, Carlão,
Paulão e Marcelo Negrão, sob o comando de José Roberto Guimarães. No entanto, o
site do Memória Globo não destaca este título, mas o seguinte: a conquista do primeiro
título da Liga Mundial, em julho de 1993, no Ibirapuera, em São Paulo. Conforme o
site, as reportagens destacavam a atuação da equipe brasileira, que passou pela Itália nas
semifinais e bateu a Rússia na decisão: “o repórter Mauro Naves mostrou a vibração dos
torcedores com os saques, as cortadas e os bloqueios da seleção de ouro dos Jogos
Olímpicos de Barcelona” (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
A Fórmula 124 também era tema constante no GE, que registrou os momentos
mais marcantes dos pilotos brasileiros nas décadas de 1980, 1990 e nos anos 2000,
He-man, de caipira e até mesmo de diabo. E chegou até mesmo a escalar de mentira o Corcovado para anunciar as
barbadas do dia” (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
117
noticiando os títulos mundiais de Piquet e Senna, que esteve presente no programa em
todos os momentos da trajetória profissional.
O início da carreira de Ayrton Senna e vontade do piloto brasileiro
de competir na Fórmula 1 foram apresentados pelo repórter Ricardo Pereira
em 1983. Outras imagens históricas do mundial de pilotos foram
apresentadas no programa, como a da comemoração de Senna junto com a
torcida, no Grande Prêmio do Brasil de 1993, e a do acidente que provocou a
morte do piloto, no circuito de Ímola, na Itália.
O repórter Mauro Naves e o cinegrafista Wanderley Serbonchini fizeram uma
matéria para o Globo esporte (sic), mostrando a última entrevista de Ayrton
Senna no Brasil. Na reportagem, o piloto dirigiu um carro particular no
autódromo de Interlagos para registrar os motivos pelos quais ele havia
abandonado o Grande Prêmio do Brasil na temporada de 1994.
A notícia da morte de Ayrton Senna, no dia 1º de maio de 1994, teve
destaque em todos os telejornais da TV Globo. Foi o repórter Roberto
Cabrini que anunciou a morte do piloto. Às 13h40 de domingo (horário de
Brasília), Cabrini informou: “Morre Ayrton Senna da Silva, uma notícia que
a gente jamais gostaria de dar.” O Globo esporte (sic) acompanhou as
investigações sobre as causas do acidente e a repercussão da morte do piloto.
A emissora cobriu ao vivo o velório, o cortejo fúnebre rumo ao cemitério e o
enterro de Ayrton Senna, no dia 5 de maio (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela
internet).
Para a Copa do Mundo em 1994, mais novidades tecnológicas. A TV Globo
colocou quatro câmeras exclusivas, a utilização do super slow motion e até recursos de
touch screen, que permitia aos comentaristas ao analisar jogadas a partir de desenhos
feito sobre uma imagem congelada (RIBEIRO, 2007, p. 279).
O texto do Memória Globo destaca a cobertura do GE da vitória na Copa do
Mundo dos Estados Unidos, em 17 de julho de 1994. “O programa apresentou uma
edição especial destacando a comemoração da torcida no Brasil e entrevistas com o
técnico Parreira, o auxiliar técnico Zagallo e os jogadores Bebeto, Jorginho e Taffarel”
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet). Além disso, destaca que a intenção de falar
de diferentes modalidades é reforçada ao contar a cobertura sobre o sucesso do tenista
Gustavo Kuerten.
Em 1997, nas quadras de tênis de Rolland Garros, um dos torneios mais
famosos do mundo, um brasileiro derrotou os favoritos da competição.
Gustavo Kuerten encantou a platéia com as jogadas precisas contra os
adversários, mas sua simpatia e irreverência também ajudaram a chamar a
atenção do público e da imprensa estrangeira. O repórter Marcos Uchôa, que
se encontrava na Europa, acompanhou o bom desempenho de Guga no
torneio e foi para Paris fazer a cobertura das vitórias do tenista brasileiro. A
partir de então, o Globo esporte (sic) pôs no ar diariamente a competição.
Com a vitória de Gustavo Kuerten em Roland Garros e suas outras conquistas
24
Reginaldo Leme e Galvão Bueno acompanharam de perto todas essas conquistas. A cobertura das corridas no
exterior também foi realizada por repórteres como Pedro Bial, Valéria Sfeir, Marcos Uchoa, Silio Boccanera, Roberto
Cabrini, João Pedro Paes Leme, Pedro Bassan, Tadeu Schmidt, Carlos Gil, entre outros (MEMÓRIA GLOBO, acesso
pela internet).
118
em torneios mundiais, o tênis conquistou espaço nos programas esportivos da
emissora. Em junho de 2000, Guga venceu mais uma vez em Roland Garros
e se tornou o tenista número um do mundo na corrida dos campeões. A
matéria do repórter João Pedro Paes Leme mostrou a comemoração do tenista
em Paris e a festa pela conquista do bicampeonato no torneio. Guga voltaria a
ganhar novamente em Roland Garros, em 2001 (MEMÓRIA GLOBO, acesso
pela internet).
Em 1999, a TV Globo Internacional passou exibir o GE nos Estados Unidos, no
Japão, no Chile, na Colômbia e na Argentina. E foi um dos programas enviados para os
militares brasileiros da forças de paz da ONU em Timor Leste, em 1999. “Os soldados
recebiam fitas VHS enviadas regularmente pelo Exército com o Globo Esporte e outros
programas produzidos pela TV Globo, como Esporte Espetacular, Globo Repórter,
Fantástico e o humorístico Casseta e Planeta” (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela
internet).
Sobre o aniversário de 50 anos do Maracanã, em 2000, o GE apresentou
reportagens especiais sobre a história do estádio. O repórter Renato Ribeiro fechou uma
matéria sobre a rotina noturna do local. No dia 16 de junho, o programa foi apresentado
por Mylena Ciribelli de dentro de um helicóptero que sobrevoava o Maracanã, e por
Maurício Torres25, que estava no gramado do estádio. E, no final de 2001, Clayton
Conservani acompanhou a escalada dos alpinistas brasileiros Vitor Negretti e Rodrigo
Raineri pela face sul do Aconcágua. Para esta cobertura, usaram algumas novidades
tecnológicas.
Para as matérias exibidas no Globo Esporte foram feitas transmissões com
um equipamento desenvolvido especialmente pela TV Globo, que permitia a
geração de imagem e som de qualquer parte do planeta – o kitcorrespondente. O repórter esteve presente no primeiro dia da empreitada dos
alpinistas e chegou a subir com eles os primeiros metros da face sul. Depois
disso, enquanto os dois atletas realizavam um feito inédito para os brasileiros
– alcançar o topo do Aconcágua pela face mais difícil da montanha –,
Clayton Conservani escalou a face norte do monte. A aventura do repórter
também foi exibida em janeiro de 2002 no programa Esporte Espetacular
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
O jornalista Sidney Garambone assumiu o cargo de editor-chefe em 2001 e
promoveu mudanças para adaptar a estética do programa ao que a tecnologia permitia.
O cenário do Globo esporte foi modificado para atualizar a linguagem visual
e ganhar mais agilidade. Quarenta quadros eletrônicos, criados pela Editoria
25
“Em dezembro de 1999, Fernando Vannucci foi afastado da apresentação do Globo esporte (sic). Em seu lugar
entrou Maurício Torres, que já apresentava as notícias esportivas no telejornal Bom dia Brasil, e passou a se revezar
no comando do Globo esporte com Mylena Ciribelli” (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
119
de Arte da Central Globo de Jornalismo, passaram a ser utilizados de acordo
com o assunto abordado pelo apresentador. O estúdio ganhou também painéis
e iluminação especial. Outra novidade foi a movimentação da logomarca do
Globo esporte, que deixou de ter um lugar fixo na tela, passando a aparecer
em diferentes posições. À frente dessas mudanças estava Delfim Fujiwara,
diretor de arte do programa. O figurino dos apresentadores também passou
por reformulações, sob o comando da consultora de moda Regina Martelli
(MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
Em 2001, com a Internet já consolidada no país, o GE lançou a página própria,
permitindo às pessoas o acesso às matérias, responder enquetes, dar sugestões e ainda
participar de conversas com jornalistas. E para reforçar a presença nesta mídia, lançou o
quadro “O Gol do Internauta”, que permitia aos usuários escolher o gol mais bonito da
rodada a partir de uma seleção feita pela equipe do programa.
Para a cobertura da Copa do Mundo de 2002, o GE criou quadros, como
“Análise Popular”, com opiniões dos torcedores; “Galeria Globo Esporte”, mostrava os
gols e lances mais marcantes do mundial e “Copa cor de Rosa”, “que trazia o universo
feminino para o mundo do futebol, elegendo os jogadores mais bonitos” (MEMÓRIA
GLOBO, acesso pela internet). Mas o maior sucesso foi o “Gato Mestre”.
Exibido pela primeira vez no dia 21 de maio, o quadro trazia o mascote do
Globo esporte que discordava da maioria das opiniões sobre o esquema tático
da seleção brasileira e dava palpites muito doidos sobre futebol. A animação
funcionava como uma sátira aos colunistas que diziam entender tudo sobre
esporte. A chamada do personagem fez tanto sucesso que o público a
reproduzia nas ruas: "Falaaa, Gato mestre!". As irreverências do Gato mestre
agradaram tanto aos telespectadores que o quadro permaneceu no programa
mesmo após o final do mundial na Coréia e no Japão e acabou retornando na
cobertura da Copa do Mundo da Alemanha, em 2006 (MEMÓRIA GLOBO,
acesso pela internet).
Dentro da proposta de unir informação ao entretenimento surgiram novos
quadros e mascotes. Em junho de 2002, estreou a Galeria do Globo Esporte: a equipe do
programa transformava uma cena real numa obra de arte de um artista conhecido. Ainda
em 2002, surgiu o João Paulada, um alterego dos torcedores, criado pela equipe de São
Paulo para comentar cada rodada do Brasileiro. E em 2003, surgiu o personagem Pitaco,
um bonequinho que aparecia no canto do vídeo, erguendo placas onde se lia: “mentira”,
“ninguém merece”. No mesmo ano, usaram várias vezes a mascote Raposinha, do
bordão: “ninguém me pega”, por causa da liderança do Cruzeiro no Campeonato
Brasileiro. E o programa recebeu uma série de homenagens.
No mês em que o Globo Esporte fez 25 anos, o programa apresentou uma
série de reportagens especiais mostrando os fatos esportivos mais marcantes
120
da sua história. Foram criados diversos quadros como: Rali do GE,
mostrando gente de todo o Brasil assistindo ao programa na hora do almoço;
Eu fiz, eu faço, eu farei, contando a história dos profissionais que fizeram
parte do programa; e O baú do GE, apresentando uma retrospectiva especial
dos eventos esportivos mais marcantes nos 25 anos do programa. Para
comemorar a data, chegou a ser exibido no placar eletrônico do estádio do
Beira Rio, em Porto Alegre, e no estádio do Serra Dourada, em Goiânia, uma
mensagem de parabéns pelo aniversário do Globo Esporte (MEMÓRIA
GLOBO, acesso pela internet).
O Memória Globo lista algumas matérias marcantes exibidas pelo programa
neste período. Em 24 de setembro de 2003, Fator Goiás, do repórter Régis Rösing,
mostrava a recuperação do time que passou 15 rodadas do Brasileiro na última
colocação e chegou ao final da competição entre os oito primeiros. No aniversário de
450 anos da cidade de São Paulo, em 2004, o bloco local apresentou a série “São Paulo
por esporte”. As 12 matérias contavam histórias dos principais clubes paulistas, das
comunidades e dos imigrantes da capital e algumas até foram exibidas em rede, para
todo o país.
A exibição de séries26 se tornou comum nos anos 2000. Em 2005, foram
exibidas: Robinho, o encantado; Tévez, o Carlitos e A Copa é das crianças (mostrou os
países participantes do mundial através da vida de 32 crianças nativas) e Na Terra do
fussball, apresentada pelo repórter Renato Ribeiro, falava sobre a Alemanha, país que
sediaria a Copa do Mundo de 2006.
Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, o GE foi apresentado de três cenários
diferentes: no estúdio em Atenas, com Maurício Torres; nas ruas da capital grega com
Glenda Koslowski e no estúdio do Rio, com Mylena Ciribelli. E exibiu os quadros:
Pitaco Grego, com um personagem animado que fazia comentários sobre os jogos, e
Tragédias Gregas, com os momentos mais engraçados ocorridos em outras Olimpíadas.
Já nos Jogos Pan-Americanos do Rio, a TV Globo mobilizou 700 profissionais.
A apresentadora Glenda Kozlowski comandou o programa direto da vila pan-americana,
e Mylena Ciribelli dos estúdios da emissora, no cenário especialmente para o torneio.
Durante a cobertura dos Jogos, o GE mostrou: as apresentações dos
ginastas brasileiros, o ouro de Diego Hipólito e a revelação Jade Barbosa; o
ouro das seleções masculina e feminina de handebol; a conquista inédita das
meninas do futebol, no Maracanã na final contra a equipe dos Estados
Unidos; entre vários outros momentos marcantes das competições no Rio.
26
O Memória Globo cita como integrantes da equipe de reportagem desta época: Abel Neto, Carlos Gil, Clayton
Conservani, Eric Faria, Delisée Teixeira, Fernando Saraiva, José Ilan, Mariana Becker, Mauro Naves, Régis Rosing,
Renato Ribeiro, Tino Marcos, entre outros (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
121
Mylena Ciribelli, ao lado dos comentaristas da Globo, entrevistou os atletas
Diogo Silva do Taekwondo, a jogadora de basquete Janeth, que se despedia
das quadras, e o medalhista Thiago Pereira da natação.
- No final da competição, o programa apresentou uma crônica de Renato
Ribeiro sobre os Jogos no Rio. No texto, o repórter ressaltava que “o mais
importante é que depois de 17 dias esse é o Pan das modalidades. De repente,
a pátria de chuteiras ganhou companhia, somos agora a pátria de biquínis, de
tênis, de raquete, de raquete um pouco menor, de óculos e toca, de sapatilha,
de quimono, de pedal, de patins. Descobrimos o nosso melhor esporte,
torcer” (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
Ao comemorar 30 anos, o GE estreou nova fase em 03 de abril de 2008: cenário
com cores fortes que simbolizam as diversas modalidades esportivas. Pela primeira vez,
é apresentado por uma dupla, Tino Marcos e Glenda Kozlowski. Ganhou uma série de
recursos, criados pelo departamento de arte da Central Globo de Jornalismo e os
apresentadores podem se movimentar e mostrar gráficos e tabelas na parede virtual.
Globo esporte (sic) mantém a sua proposta de acompanhar o cotidiano e o
trabalho de atletas, destacar exemplos de atletas e treinadores que superam as
dificuldades do dia-a-dia, mostrar projetos que utilizam o esporte como
ferramenta de inclusão social e trazer para perto do telespectador o
espetáculo e a emoção do esporte. Dentre as diversas matérias do Globo
esporte, destacam-se as que mostraram os saltos de ginastas brasileiros como
Diego Hipólito, Daiane dos Santos e Jade Barbosa; a vitória dos pilotos
brasileiros na Fórmula 1; os títulos das seleções de vôlei; ou os gols e a festa
das torcidas nos campeonatos brasileiros e estaduais de futebol (MEMÓRIA
GLOBO, acesso pela internet).
Ainda analisando este período dos anos 2000, o jornalista Paulo Vinícius Coelho
destaca a diferença de tratamento que a Rede Globo utiliza em dois veículos de
comunicação: o rádio e a TV e como isso pode influir na divulgação e recepção da
notícia.
No caso carioca, a situação é ainda mais grave: todo o foco da atenção está
voltado para a Rádio Globo, do locutor José Carlos Araújo. A emissora vem
pondo em prática uma política de nacionalização que tende a unificar os
noticiários do Rio, São Paulo e Belo Horizonte e criar uma única e grande
cadeia nacional.
É política diametralmente oposta à da TV Globo, que conta cada vez mais
com afiliadas pelo país afora e difunde programação nacional, mas com
características regionais marcantes de cada estado alcançado por seu radio de
transmissão. As peculiaridades são premiadas até mesmo dentro do mesmo
estado. O Globo Esporte de Campinas não é igual ao de Santos, cada um tem
seus repórteres e apresentadores com sotaque próprio e espaço delimitado
122
para permitir que os clubes de cada cidade sejam contemplados sem interferir
no noticiário nacional (COELHO, 2009, p.30-31).
Atualmente, o GE tem 11 edições: uma nacional gerada pela redação do Rio de
Janeiro para o país, que reserva o primeiro dos dois ou três blocos para as notícias
locais. Os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul,
Pernambuco, Bahia, Paraná, Ceará, Santa Catarina e Distrito Federal possuem edições
próprias, que compartilham material produzido pela Agência GE. Fica a cargo de cada
editor decidir se utiliza ou não e de que forma o material enviado pela rede27.
Muniz Sodré (1977) considera que a televisão implica no domínio exacerbado da
visão sobre a prática social efetiva. Ao contrário do teatro, o que se passa em campo não
tem enredo. A história se teatraliza inconscientemente a partir da ação, que transcorre
em campo e também dentro do que ele considera circunstâncias do futebol.
O grande show, entretanto, é criado pelo que se pode chamar de
circunstâncias do futebol. Esta expressão abrange os jogadores, os juízes, os
comentaristas e, principalmente, o próprio público. No espetáculo
futebolístico, o torcedor é expectador e ator ao mesmo tempo. Ator porque a
“torcida” (a discussão acalorada, o arrebatamento, enfim a maneira como o
espectador desempenha o seu papel) faz parte necessária do show (SODRÉ,
1977, p.140-141).
Paulo Vinícius Coelho (2009) ainda faz uma análise detalhada sobre como a
prioridade ao espetáculo, ao entretenimento pode não ser uma restrição ao exercício do
jornalismo. De que forma a TV Globo funciona como parâmetro para as demais e ainda
ressalta que, o jornalismo esportivo da emissora conseguiu conciliar entretenimento e
informação na programação há alguns anos.
E televisão, leia-se Globo. A emissora transmite os jogos como show. Quase
nada anda errado. Quase não se nota que o estádio, cenário do evento, anda
às moscas. Não se trata do gramado, do nível técnico, de nada. Tudo é
absolutamente lindo. Muitas vezes se dá o oposto nas emissoras concorrentes.
Tudo é péssimo, o que também não é verdade. Parte do show está lá. O brilho
individual dos jogadores, as disputas táticas entre os técnicos, os gritos da
torcida – quando ela existe. Tudo isso está lá. Assim como estão o mau
estado do gramado, o erro do árbitro, a atuação bizarra de um jogador. Todos
os elementos para construir uma boa história jornalística estão ali, à
disposição das câmeras, dos locutores, dos comentaristas e repórteres. É só
usar o microfone e salientar o que há de bom, mostrar o que há de ruim.
Nenhuma matéria está assim tão escancarada diante do jornalista quanto o
evento esportivo. E, no entanto, é a matéria jornalística o que menos aparece
27
Informações obtidas durante palestra do editor-chefe do Globo Esporte Rio de Janeiro, Afonso Garschagen, e Paulo
César Norões, editor de esportes da TV Verdes Mares, no dia 06 de setembro de 2012, no Teatro Celina Queiroz,
dentro da programação do XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação: UNIFOR, Fortaleza, 2012.
123
em transmissão. Tudo o que importa, afinal, é o show de locutores e
repórteres.
O show dura uma hora e meia. Hoje duas vezes por semana. Já foi diferente.
No final dos anos 80, quando a Globo não julgava indispensável transmitir
futebol, as TVs Record e Bandeirantes brigavam pela liderança de audiência
no esporte. A Bandeirantes até se intitulou o canal do esporte e transmitiu
jogos com exclusividade em Campeonatos Brasileiros de 1993 e 1993. Não
todos, mas vários jogos – e alguns torneios – nem tiveram acompanhamento
da TV Globo. Mesmo assim, no dia seguinte, o Globo Esporte apresentava os
melhores momentos, os lances geniais o que havia de bom ou ruim. Em
suma, fazia jornalismo (COELHO, 2009, p. 64)
Uma curiosidade sobre a informação oficial divulgada pela TV Globo no site
Memória Globo: em um texto que ocupa oito páginas de um arquivo de Word com
formatação normal, em 71 parágrafos, 4.558 palavras em 388 linhas, a palavra
entretenimento aparece cinco vezes, sempre associada a uma guinada de estilo no
programa. A primeira é logo no terceiro parágrafo: “Ao longo de sua trajetória, o Globo
esporte (sic) pode ser definido como uma mistura de informação e entretenimento”
(grifo de trecho já mencionado nesta dissertação). Em seguida, no subtítulo relativo ao
histórico do programa no final da década de 1990: “Esporte como entretenimento e
interatividade” e três linhas abaixo, novamente “O programa tinha o objetivo de
transformar o fato esportivo em entretenimento, sem esquecer o compromisso com a
informação” e antes de encerrar o parágrafo, mais uma vez: “A preocupação era fazer
um telejornal com entretenimento na hora do almoço, ouvindo a opinião do povo na rua
sobre os mais variados temas esportivos”. A palavra só ressurge no trecho sobre as
mudanças implantadas no início dos anos 2000: “A partir de 2001, novos quadros e
séries de reportagens foram criadas, seguindo a proposta de unir informação ao
entretenimento”. Desta forma, é reforçada uma linha editorial que se desenvolveu ao
longo da trajetória do programa.
Essa tendência é resultado de um trabalho de anos, que foi sendo
aperfeiçoado por editores como Hedyl Valle Júnior, Luiz Nascimento,
Ricardo Porto, José Antonio Geheim, João Ramalho, Décio Lopes, Marcos
Malafaia e Sidney Garambone. A preocupação era fazer um telejornal com
entretenimento na hora do almoço, ouvindo a opinião do povo na rua sobre os
mais variados temas esportivos. Segundo o diretor de Esporte da TV Globo,
Luiz Fernando Lima, o objetivo do Globo esporte é permanentemente levar
informação e encantamento, exibir o espetáculo do esporte para quem assiste
a TV (MEMÓRIA GLOBO, acesso pela internet).
124
Discorrendo sobre a transformação da identidade na sociedade pós-moderna,
Kellner (2001) faz uma análise que podemos aplicar ao jornalismo – especificamente no
caso desta dissertação, o esportivo.
A vantagem disso tudo é que as identidades pós-modernas indicam que é
possível mudar, que podemos nos reconstruir, nos libertar dos laços e das
restrições atrás dos quais nos escondíamos. A desvantagem é que a
identidade se torna rasteira e é trivializada em termos de estilo, aparência e
consumo, e o indivíduo se define pela imagem, pelas posses e pelo estilo de
vida. A identidade individual é construída, constituída por materiais da
situação de vida de cada um, e cada um pode mudar e transformar sua vida
segundo seus projetos, conforme nos lembram Sartre, Foucault e outros. Mas
construir uma identidade substancial é trabalho que exige vontade, ação,
compromisso, inteligência e criatividade e, muitas das identidades pósmodernas construídas com material fornecido pela mídia e pela cultura
consumista carecem dessas características, sendo pouco mais do que um
jogo, uma pose, um estilo e uma aparência que amanhã mesmo podemos
trocar: identidades descartáveis e facilmente substituíveis no carnaval pósmoderno (KELLNER, 2001, p.333- 334)
O último parágrafo do texto do Memória Globo é dedicada à São Paulo. Destaca
que, em 2009, o GE voltou a contar com a participação do noticiário esportivo da
capital paulista e das emissoras retransmissoras do interior do estado. No primeiro
bloco, são apresentadas as notícias regionais e, nos outros, as matérias e informações
para toda a rede. O novo apresentador, em São Paulo, é Tiago Leifert, até então
repórter do SporTV. No Memória Globo, não há detalhamento sobre esta etapa do
programa, que se tornou referência para as demais praças. E é o tema da próxima parte
deste capítulo.
4.2 – Globo Esporte São Paulo lança tendência
Em artigo sobre o Futebol e a Identidade Nacional do Brasil, Luiz Carlos
Ribeiro ressalta que esporte é visto como uma forma de transmissão de valores, por
ditarem para os seus praticantes uma forma de comportamento e influenciarem no modo
de agir, nas prioridades e assuntos discutidos por quem apenas o segue e mesmo aqueles
que os ignoram. Conforme Bianca Alvin (2009), o discurso que circula pela mídia é,
cada vez mais, uma fonte fundamental para os processos de reconhecimento, adesão e
projeção identitária dos sujeitos. E conclui que é urgente a importância de se ter
efetivamente um jornalismo esportivo sério e de qualidade. Dessa forma, o público
125
poderá, em tese, a partir do conhecimento de informações sobre o futebol, ter uma
consciência maior sobre a formação da sua identidade.
Kellner (2001) destaca a importância dos meios de comunicação para a
formação da identidade, que resulta de uma luta, no qual os indivíduos escolhem seus
próprios significados culturais e seu próprio estilo, num sistema diferencial que sempre
implica a afirmação de alguns emblemas identitários e a rejeição de outros.
Numa cultura da imagem dos meios de comunicação de massa, são as
representações que ajudam a construir a visão de mundo do indivíduo, o
senso de identidade e sexo, consumando estilos e modos de vida, bem como
pensamentos e ações sociopolíticos. A ideologia é tanto um processo de
representação, figuração, imagem e retórica quanto um processo de discursos
e idéias. É por meio do estabelecimento de um conjunto de representações
que se fixa numa ideologia política hegemônica. (KELLNER, 2001, p.82)
Analisando o Jornalismo Esportivo, Pecenin (2007) argumenta que a seção
esportiva, os jornais e programas especializados são encarados como espaço do saber,
para enunciar e interpretar os fatos esportivos: “constrói discursivamente subjetividades
ou identidades para os atores do mundo da bola, pois o saber, conforme Foucault
(1995), é um dos elementos que, pelo discurso, transforma indivíduos em sujeitos”
(2007, p.3). Os meios de comunicação de massa consolidam-se como vitrines de
composição identitária. Conforme Kellner (2001), cada vez mais, a cultura da mídia
fornece recursos apropriados à produção de significados pelo público, à criação de
identidades.
O processo de identificação, portanto, é mediado por imagens produzidas
para a massa na sociedade contemporânea em que predomina a mídia,
enquanto a imagem e o estilo cultural são cada vez mais fundamentais para a
construção de identidades (...). A cultura da mídia constitui vigorosa fonte de
novas identidades, substituindo nessa função nacionalismos, religiões, família
e educação. Como disse Benedict Anderson (1983), o nacionalismo
constituía um poderoso instrumento de comunhão imaginária e identificação,
e as diversas formas da cultura da mídia oferecem hoje sucedâneos para
indivíduos e grupos que sejam capazes de participar de comunidades
imaginárias, por meio de estilos culturais e de consumo, e de produzir
identidades individuais e grupais apropriando-se de imagens dessa cultura.
(KELLNER, 2001, p.212)
Kellner (2001) considera que, nas sociedades de consumo e de predomínio da
mídia, surgidas após a Segunda Guerra Mundial, a identidade tem sido cada vez mais
vinculada ao modo de ser, à produção de uma imagem, à aparência pessoal.
126
Portanto, contrariando a noção pós-moderna de desintegração da cultura na
imagem pura sem referentes, conteúdos ou efeitos – ruído puro, em última
análise -, argumentaremos que a televisão e outras formas de cultura de mídia
desempenham papel fundamental na reestruturação da identidade
contemporânea e na conformação de pensamentos e comportamentos. Em
outro local, afirmamos que a televisão hoje em dia assume algumas das
funções tradicionalmente atribuídas ao mito e ao ritual (integrar os indivíduos
numa ordem social, celebrando valores dominantes, oferecendo modelos de
pensamento, comportamento e sexo para imitação). Também argumentamos
que o mito televisivo resolve contradições sociais da mesma maneira como
Levi-Strauss descreveu a função do mito tradicional, e que ele fornece
mitologias do tipo descrito por Barthes, mitologias que idealizam os valores e
as instituições contemporâneas, exaltando o valor de vida vigente (cf.
Kellner, 1982 apud KELLNER, 2001, p.304)
DaMatta (2006, p.118) lembra que passamos pela vida social tendo nosso olhar
guiado por uma moldura. “O ‘real’ é uma moldura; a ‘ficção’, outra. O sonho, a
fantasia, o delírio, a loucura, a paixão, a fraternidade são outros tantos enquadramentos
pelos quais discernimos e ordenamos o que ocorre em nossa volta que pode ou não ser
‘real’”. Excetuando a guerra e certos rituais (como o carnaval), nada é mais claramente
construído por oposição às normas e valores que governam o cotidiano do que o esporte
– uma válvula de escape da moldura da “realidade” que guia o olhar para outros
campos.
Partido por uma sociedade que tinha no trabalho sua razão de ser, o esporte
situa-se na área reservada ao lazer, ao festejo, à celebração, ao descanso.
Lugar social no qual as pessoas escolhem e podem dispor do seu tempo e de
suas habilidades em função de si próprias para que pudessem – claro está! –
voltar mais bem dispostas ao trabalho no dia seguinte. Não há, na sociedade
moderna, lazer ou feriado sem a noção de escolha individual e de ausência de
obrigatoriedade. Daí a diferença entre o campo do esporte e o das
festividades religiosas ou cívicas, cujo caráter é obrigatório. (DAMATTA,
2006, p.119)
A matéria-prima do jornalismo é a notícia. Para Correia (2011), o termo é, no
sentido lato, aplicável às comunicações apresentadas periodicamente sobre algo que
possa ser novo, atual e interessante para a comunidade humana. No estrito sentido,
constitui um gênero específico dentre o conjunto dos vários gêneros jornalísticos.
Fazendo um breve levantamento do conceito de notícia, dá-se conta que o
que prevalece na disciplina de Teoria da Notícia é a sua definição em sentido
amplo. Dovifat (1954, p. 51) define notícia (1954: 51) como “uma
comunicação sobre factos novos que ocorrem na luta do homem e da
sociedade pela existência”. Martínez de Sousa (1992, p. 325) refere-se a
127
notícia como “publicação e divulgação de um facto”. José Ortega e Costales
(1996, p. 48) considera que notícia “é todo o acontecimento actual,
interessante e comunicável”.
Jorge Pedro de Sousa (2000) afirma que uma notícia é um artefacto
linguístico que representa determinados aspectos da realidade, resulta de um
processo de construção onde interagem factores de natureza pessoal, social,
ideológica, histórica e do meio físico e tecnológico, é difundida por meios
jornalísticos e comporta informação com sentido compreensível num
determinado momento histórico e num determinado meio sócio-cultural,
embora a atribuição última de sentido dependa do consumidor da notícia.
Martinez Albertos (1978) define notícia como “um facto, verdadeiro, inédito
ou actual de interesse geral que se comunica a um público que se pode
considerar massivo, uma vez que foi recolhido, avaliado e interpretado pelos
sujeitos promotores que controlam um meio utilizado para a sua definição”
(CORREIA, 2011, p.29)
Conforme Alsina (2009), é necessária diferenciação entre acontecimento e o que
é notícia. Ele ressalta que o acontecimento sempre está relacionado com um sistema de
comunicação social, sendo possível constatar as interelações com o sistema que lhe
confere o sentido. E a notícia seria um fenômeno de geração do sistema, uma produção
de discurso: “a notícia é uma representação social da realidade quotidiana, gerada
institucionalmente e que se manifesta na construção de um mundo possível” (2009,
p.14). Podemos caracterizar o processo de comunicação como sendo uma atividade
socialmente legitimada para gerar construções da realidade publicamente relevantes.
Da minha parte, relacionei o acontecimento-notícia com a realidade social a
partir da noção da construção da realidade, como produção de sentido através
da prática produtiva e das rotinas da organização da profissão jornalística.
Portanto, a concepção dessa construção da realidade vai variar segundo o
caráter que lhe for dado à própria realidade social. (ALSINA, 2009, P. 45)
Para o autor, a notícia é produto da indústria de informação, que formam uma
realidade complexa, poliédrica, da qual só são percebidos alguns dos seus lados. Os
acontecimentos chegam até nós através da mídia e são construídos através da sua
realidade discursiva. Portanto, o processo de construção da realidade social depende
completamente da prática produtiva do jornalismo (ALSINA, 2009, p.46).
Portanto, a relação entre o jornalista e seus destinatários estabelece-se por um
contato pragmático fiduciário social e historicamente definido. Os jornalistas
têm a incumbência de recopilar os acontecimentos e os temas importantes e
dar-lhes sentido. Esse contrato baseia-se em consensos, que foram se
compondo através da implantação do uso social da mídia como transmissores
da realidade social de importância pública. A própria mídia é a primeira que
128
realiza uma prática contínua de autolegitimação para reforçar este papel
social (ALSINA, 2009, p.47).
Alsina (2009) reforça ainda que não devemos cair na falácia de considerar a
mídia como construtores da realidade sem levar em conta a interação da audiência. Ele
reforça que a construção da realidade por parte da mídia é um processo de produção,
circulação
e
reconhecimento:
uma
manifestação
socialmente
reconhecida
e
compartilhada. Para que esse contrato pragmático seja aceito, o discurso informativo
está construído de tal maneira que aparece como um discurso verídico. A estratégia
consiste em construir um discurso no qual se possa acreditar. Por esta razão, o jornalista
faz com que apareçam no discurso informativo as fontes da informação consultadas,
lança mão das aspas para citar depoimentos tácitos, também facilita muitos dados sobre
qualquer acontecimento para que não haja dúvidas sobre ele, etc. No entanto, o autor
cita um paradoxo: os leitores estão sempre dispostos a acreditarem no que se escreve
nos jornais, mas com frequência acham que os jornalistas são uns mentirosos.
Qual seria então a primeira função da informação da mídia? Poderíamos
dizer que o é o “fazer saber”. Mas esse fazer saber precisa, como condição
necessária, que acreditemos que a informação da mídia é real – porque senão
não poderá “nos fazer saber”. Se essa condição não se dá, nos encontraríamos
diante de um “falso saber”. Desta feita, a mídia nos propõe um contrato
pragmático fiduciário que tema intenção de que acreditemos que, o que eles
dizem é verdade, ao mesmo tempo em que nos pedem que confiemos no seu
discurso informativo. Se eu não acredito nas notícias, então elas não servem
para nada; para que serve, a princípio, a informação jornalística, se não para
informar? O que acontece se o destinatário não acredita em determinada
informação? Estaríamos diante de um saber questionado, isto é, a informação
não transmitiria o saber. Portanto, para que um discurso seja efetivamente
informativo, devemos acreditar que isso que se diz é verdade, e que
aconteceu de fato assim mesmo. Se um jornal não tem credibilidade, suas
informações perdem o sentido virtual e não servem para informação
(ALSINA, 2009, 48).
Também sabemos que o discurso da mídia não é somente informativo, não
pretende apenas transmitir o saber, mas também pretende fazer sentir. Os jornais
sensacionalistas estão mais alicerçados nas emoções do que na transmissão desse saber
aos seus leitores, propondo uma espécie de contrato pragmático lúdico (ALSINA, 2009,
p.48). O autor também destaca que, ao tomar a notícia como realidade social já
construída, ela é apenas mais uma das realidades que nós, indivíduos, construímos todos
os dias.
Pecenin (2007) ressalta que a crônica esportiva está legitimada como um espaço
de saber, que enuncia e interpreta a história do esporte, dá destaques positivos e
129
negativos a equipes, jogadores, treinadores e árbitros, construindo discursivamente
identidades para os atores do mundo da bola. Influencia a forma como este ou aquele
assunto será olhado, discutido, criando antipatias, simpatias ou mesmo indiferenças. A
legitimação de determinada identidade pode acontecer através da referência a um
suposto e autêntico passado – possivelmente um passado glorioso, mas, de qualquer
forma, que parece “real” – que poderia validar a identidade reivindicada. E Abrahão, Di
Blasi e Salvador (2007) lembram que as narrativas produzidas pelo jornalismo esportivo
são fonte seminal de criação de mitos ou história de identidade no futebol.
Matérias são veiculadas para tornar os leitores íntimos das diversas tradições
que são construídas sobre o futebol. Fatos significativos do passado são
rememorados para atender às demandas do presente. Como uma das
estratégias, as narrativas jornalísticas são emitidas para a afirmação das
identidades coletivas. Neste sentido o jornalismo esportivo se configura como
um dos veículos mais importantes na construção e manutenção da memória.
Seu acesso fácil e sua leitura acessível proporcionam um intercâmbio de
informações entre os diferentes setores sociais. Mitos, histórias de redenção,
superação e tradições são construídos ao sabor das demandas sociais do
presente. (ABRAHÃO, 2007 p.2)
Messa (2005) considera que a maior parte dos 80% de cobertura jornalística do
futebol, só há notícia-entretenimento para torcedores e aficionados, no que se refere a
uma infinidade de matérias de jogos, agendas das etapas de campeonatos, copas, apenas
registrando dados corriqueiros (factuais), ou então mitificando personagens técnicos,
jogadores, árbitros, atletas etc. Conforme o autor, a impressão é de que há um
cumprimento mecânico de pautas, sem qualquer diferencial criativo, com pouca
profundidade especulativa e, muito menos, científica.
O leitor/espectador não quer entender o esporte, não quer aprofundar os
saberes sobre os esportes. Ele quer apenas uma divulgação de factóides
acerca dos jogadores, equipes, técnicos, dirigentes, autoridades,
campeonatos, olimpíadas, copas etc. Só se quer ficar a par dos escores dos
jogos e também (pra não dizer principalmente) ler “notícia” de esporte como
quem lê matérias de fofocas de revistas da tevê, sobre a vida de seus ídolos,
para, quem sabe, poder acompanhar as coberturas que priorizem picuinhas,
conflitos na vida privada, escândalos... O que se tem construído, na verdade,
é uma cadeia de mitificações cíclicas, viciadas, que todos nós, jornalistas e
leitores, acatamos e achamos que esse é o jornalismo esportivo. Mas o
jornalismo esportivo pode não ser só isso... (MESSA, 2005, p.2-3)
Ainda sob o viés de uma análise rigorosa, Messa (2005) acredita que é possível
investir em divulgação científica sobre o esporte. Segundo ele, falta qualidade nas
produções atuais porque se restringe a priorizar o que não é necessário para o público.
130
Não existe, no jornalismo factual, informação sobre os esportes, existe
propaganda sobre o esporte, publicidade de marcas e logos, propaganda
ideológica sobre os suas relações de poder. Sensacionalismo e
merchandising.
As pautas das editorias de esportes tentam se constituir a partir de uma
“busca” de informação, dentro de um contexto monótono dos jogos e treinos.
A informação buscada restringe-se à identificação de um furo jornalístico,
geralmente para escandalizar, produzir material efêmero e dispensável. É só
construção de imagens. Imagem dos atletas, das grifes e patrocínios, imagens
da torcida. (MESSA, 2005, p.3-4)
Neste contexto, Alsina (2009) lembra que a lógica da cultura de massa é
produzir bens padronizados para satisfazer demandas.
O mercado do entretenimento estabelece um limitado número de produtos,
embora sejam muitos. Apesar dessa multiplicidade de mensagens, temos uma
uniformidade nos seus conteúdos, que vemos numa série de retornos cíclicos
do mesmo produto e também na imitação dos diversos produtos. Além disso,
o público está condicionado nos seus gostos pelo imperativo da indústria, que
vão lançando modas de consumo, cada vez mais aceleradamente, já que o
infinito consumo é justamente o motor do sistema. Em resumo, o que
caracteriza a cultura de massas é a padronização e a repetição (ALSINA,
2009, p.198).
Sobre a relação entre jornalismo e entretenimento, Carolina Reis e Anderson
Gurgel (2011) recorrem ao conceito de Leandro Marshall, que diz que o jornalismo no
século XXI tem como característica a mercadoria proposta em uma nova estética; antes
preocupada com a informação noticiosa, agora pela universalização de uma massa em
busca de variedades, ou entretenimento. Com esse cenário, a função do jornalismo de
levar ao público informação modifica-se, tendo como principal propulsor vender a
informação para ser consumida. E para tanto, usa de elementos impostos pela Indústria
Cultural para seduzir leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.
No âmago deste processo de industrialização da cultura, do esvaziamento da
realidade e da verdade, da denúncia da inconsciência, do êxtase dos signos e
dos sentidos, da geopolítica dos objetos, o jornalismo pós-moderno vira pó na
iconosfera da publicidade e torna-se um mero instrumento da iconocracia
cultural. A mais-valia da publicidade ajuda a operar a espoliação industrial
das sensibilidades e das consciências, e a usurpar a racionalidade e o ideal de
emancipação do homem presente na modernidade. (MARSHALL, apud
REIS, GURGEL, 2011, p.3)
Dejavite (2007) destaca que a mídia posiciona-se em lugar estratégico na
ocupação do tempo livre e do lazer das pessoas. E o papel de entreter, ainda hoje, não é
aceito como uma função legítima tanto por profissionais quanto da academia.
131
No jornalismo, em especial, a função de entreter tem sido preterida. O
entretenimento oferecido no conteúdo editorial é julgado como um
subproduto ou um desvio da atenção do receptor de assuntos tidos de maior
importância. Outras vezes, os receptores que solicitam este tipo de conteúdo
são considerados alienados do mundo onde vivem. Assim, as matérias de
entretenimento no espaço editorial seria a informação para aquele que não
procura informação (DEJAVITE, 2007, p.1)
Citando outras pesquisas, a autora afirma que, cada vez mais os jornais estão
priorizando a exterioridade da notícia que a apuração, pratica o “jornalismo de
INFOtenimento”: “refere-se àquele jornalismo que ao mesmo tempo traz uma prestação
de serviço e propicia informação e entretenimento ao leitor” (DEJAVITE, 2007, p.2). E
avalia que os estudos sobre entretenimento dividem-se nas perspectivas otimista e
pessimista.
A primeira concebe-o como uma possibilidade de contribuição para o
crescimento do indivíduo, propiciando alívio das tensões do cotidiano e
equilíbrio de sua personalidade, sendo, portanto, algo necessário e útil. A
segunda corrente o tem como um instrumento de alienação, em prol de
determinadas ideologias, servindo para manipular as pessoas em busca de
objetivos políticos e econômicos.
Nesse sentido, o entretenimento apresenta-se atualmente como um fator diferenciado de pauta jornalística, especialmente para o jornal diário impresso, na
medida em que esse meio busca interagir e satisfazer as necessidades e
interesses do receptor contemporâneo (DEJAVITE, 2008, p.42).
Dejavite (2008) considera que, para o público, o entretenimento é simplesmente
algo que o informa e diverte ao mesmo tempo.
Esse tipo de conteúdo tem sido denominado notícia light. Se as informações
jornalísticas não tiverem essas características, não vão chamar a atenção da
audiência. Essa, por sua vez, é de fácil entendimento, efêmera, de circulação
intensa e busca divertir. Ao que parece, nada mais é do que a solicitação feita
pelo receptor da sociedade da informação na espera de encontrar uma matéria
que, ao mesmo tempo, satisfaça suas necessidades e seus interesses de
formar, informar e distrair, permitindo-lhe vivenciar o fato, já que o consumo
da informação é feito naquele tempo destinado ao lazer, à diversão
(DEJAVITE, 2008, p.42).
Dejavite (2007) detalha que o neologismo INFOtenimento surgiu na década de
1980, mas só ganhou força entre profissionais e acadêmicos da área comunicacional no
final dos anos de 1990 para definir o conteúdo de entretenimento no jornalismo. É a
tradução da expressão em Inglês infotainment (formada pelas palavras information e
entertainment)..
132
O jornalismo de INFOtenimento é o espaço destinado às matérias que visam
informar e entreter, como, por exemplo, os assuntos sobre estilo de vida, as
fofocas e as notícias de interesse humano – os quais atraem, sim, o público.
Esse termo sintetiza, de maneira clara e objetiva, a intenção editorial do papel
de entreter no jornalismo, pois segue seus princípios básicos que atende às
necessidades de informação do receptor de hoje. Enfim, manifesta aquele
conteúdo que informa com diversão.
A fronteira entre jornalismo e entretenimento nunca foi nítida e a
sobreposição é quase inevitável nos dias atuais. Nessa área, delimitar e
distinguir o que significa entreter e informar não é tarefa fácil (se é que isso
seja algo possível) (DEJAVITE, 2007,p.2).
Ela ainda comenta que esse conteúdo editorial não é necessariamente uma
tendência, mas ratifica um exercício corrente na atualidade da práxis jornalística.
No jornalismo de INFOtenimento uma mesma matéria pode muito bem
informar, entretendo ou, então, entreter por meio da informação. Nele, o
limite ético (debatido até agora) que separa jornalismo e entretenimento não
existe. Desse modo, tem-se, como exemplo, as revistas eletrônicas ou mesmo
as especializadas em celebridades. Nunca, como agora, houve tanto show da
vida como o que o programa Fantástico, da Rede Globo, anuncia desde 1973.
As matérias tidas classificadas como jornalismo de INFOtenimento
satisfazem nossas curiosidades, estimulam nossas aspirações, possibilitam
extravasar nossas frustrações e nutrem nossa imaginação. Os mais velhos
(aqueles com mais de 30 anos, como a autora deste artigo) devem se lembrar
da Zebrinha que anunciava os resultados dos jogos da Loteria Esportiva. Ao
mesmo tempo em que eram divulgados os resultados da rodada futebolística
no país, o público era brindado pelo bom humor do animalzinho (que ria
quando um time tradicional perdia para um de menor destaque). (DEJAVITE,
2008, p.43-44)
A autora recorda que sempre coube ao jornalismo o papel de informar e formar a
opinião pública sobre o que acontece no mundo real, com base na verdade, nas coisas
que acontecem no mundo externo, no campo social. Já o entretenimento explorou a
ficção, chamar a atenção e divertir as pessoas. Contudo, ela considera que, por meio do
jornalismo de INFOtenimento, a ideologia dominante – de separação de campos
definidos de atuação - terá de ser mudada. “Nessa especialidade uma mesma matéria
pode muito bem informar, entretendo ou, então, entreter por meio da informação. Nela,
o limite ético que separa jornalismo e entretenimento não existe” (DEJAVITE, 2007,
p.3). Esse tipo de conteúdo satisfaz curiosidades, estimula aspirações, possibilita
extravasar frustrações e nutre a imaginação. Assim, o caráter híbrido do jornalismo de
INFOtenimento (informação e entretenimento e narração e formato) leva à
contraposição das definições e diferenças de conteúdo dentro do jornalismo.
O conteúdo sério seria aquela matéria que aprofunda, investiga, critica e
transmite informações novas, tendo por finalidade o ponto de reflexão. O
segundo (o não sério) seria aquele que somente diverte, tem humor, atrai o
133
receptor por trazer assuntos mais amenos, light, o que, para muitos, não traz
nada de novo, apenas algo velho, com outra roupagem, que ajuda promover
ideologias, como a do consumo e a do mercado (DEJAVITE, 2007, p.3).
Conforme a autora, as informações que podem ser consideradas jornalismo de
INFOtenimento são definidas de acordo com a narrativa da matéria (quando essa lança
mão de recursos como a personalização, a dramatização, o segredo, o contar em
capítulos) e também de acordo com os conteúdos (assuntos).
(...) é a especialidade voltada à informação e ao entretenimento, tais como:
comportamento, hobbies, esportes, moda, celebridades, gastronomia
(bebidas, culinária etc), casa e decoração, datas comemorativas, automóvel e
acessórios, comportamento (por exemplo, dia-a-dia, opinião pública), vendas
e marketing, propaganda, cinema, televisão, vídeo, internet, rádio, música,
teatro, dança, espetáculos, eventos, indústria editorial, beleza e estética (ex.:
maquiagem, cabelo, dietas, corpo, pele); “faça você mesmo” (ex.:
jardinagem, pintura, consertos em geral, bijuterias, artesanato), turismo e
lazer (viagem, passeios, bares e restaurantes, festas, aviação civil), consumo,
artes plásticas, design, arquitetura e urbanismo, fotografia, cultura
(patrimônio, memória, histórico, folclore, museus) jogos e diversões, fofocas,
coluna social, ilustração, infográficos, curiosidades, chisties, charges,
previsão do tempo, investimentos pessoais, crendices (religiões, ritos,
esoterismo, futurologia, fé), formação pessoal (seminários, cursos, palestras,
congressos) e empreendedorismo (DEJAVITE, 2008, p.44)
Entretanto, devido ao seu caráter híbrido (informação e entretenimento; narração
e formato), muitos dos conteúdos acima esbarram em conceitos pré-estabelecidos tanto
no âmbito profissional quanto no acadêmico, pois está na contraposição daquilo que se
convencionou como conteúdo sério ou não dentro do jornalismo. Conforme
contextualização feita por Dejavite (2007), até os anos de 1960, informar significava
fornecer a descrição precisa e comprovada de um fato jornalístico e também explicar os
contextos que permitiam ao receptor compreender sua significação mais profunda. Na
atualidade, diz a autora, há um novo tipo de seleção, hierarquização e aparência.
134
O público (com os seus novos princípios de receber a informação) exige que
a notícia – independente do meio em que estiver inserida – informe, distraia e
também lhe traga uma formação sobre o assunto publicado. Se as
informações jornalísticas não tiverem essas características, não vão chamar a
atenção da audiência. Agora, a notícia tem que ser light.
A audiência está acostumada, principalmente depois do sucesso da televisão
e agora com a internet, a aceitar a notícia de melhor montagem cênica. Isso
tem provocado muitas transformações, em especial, no que se refere a
apresentação dos fatos nos meios impressos. Muitos jornais diminuíram seu
tamanho para um formato menor, com o objetivo de facilitar a leitura e ser
mais prático. A primeira página ganhou o tratamento de uma embalagem,
geralmente, com redatores e editores específicos (DEJAVITE, 2007, p.4-5).
Assim, na sociedade da informação, a notícia deve aparentar as mesmas
características da cultura light: ser efêmera, circular rapidamente, fornecer dados novos
e, ao mesmo tempo, divertir as pessoas. Para a autora, o segredo está na sua narrativa
simples, “no modo fácil de ser entendida e comentada, no estímulo do imaginário social
e na ocupação do tempo livre dos indivíduos” (DEJAVITE, 2007, p.6). Ela considera
que a cobertura da morte da princesa Diana, em um acidente em Paris, enquanto era
perseguida por paparazzi, foi o primeiro grande fato a exteriorizar essa nova forma da
notícia, que busca a interação máxima entre a informação e o público.
Ainda hoje, dez anos depois da morte de Diana, as notícias sobre a princesa
aparecem, muitas vezes, na forma de boatos, circulando desde um site
sensacionalista na internet, uma revista de fofoca e até mesmo em veículos de
prestígio.
Esse mega fato jornalístico deixa evidente as três principais características da
notícia light. De acordo com Tarruella e Gil, são as seguintes:
1) Capacidade de distração – ocupa o tempo livre, para não aborrecer;
2) Espetacularização – estimula e satisfaz aspirações, curiosidades, ajuste de
contas, possibilidades de extravasar as frustrações, nutre a imaginação;
3) Alimentação das conversas – facilita as relações sociais, oferecendo temas
de conversação do dia-a-dia, como boatos e notícias sobre celebridades
(DEJAVITE, 2007, p.6).
A autora destaca o temor de que a notícia light se sobreponha ao conteúdo mais
sério (como o de política e o de economia, que contextualiza e questiona a realidade
social) e mude o que conhecemos por notícia. Essa tem sido uma das discussões mais
acaloradas dentro da área jornalística e acadêmica atualmente – e um dos fios
condutores da nossa análise do atual jornalismo esportivo. A junção entre
entretenimento e informação faz com que o jornalismo de INFOtenimento encontre, por
isso, preconceito quanto à sua autenticidade. Dejavite lembra que o filósofo Jürgen
Habermas argumentava que os limites entre as notícias e os conteúdos de
entretenimento estavam borrados, porque as pessoas preferiam as informações que
135
entretinham e suas imediatas recompensas, em decorrência da atração dos meios
audiovisuais: a televisão e o rádio.
Para Habermas, esse borrar de limites desenhava, claramente, uma ligação de
diferentes níveis de realidade, cuja base do denominador comum, do assim
chamado human interest, surge do mixtum compositum, ou seja, de um
entretenimento ao mesmo tempo agradável e facilmente digerível que tende a
substituir a captação do real por aquilo que está pronto para o consumo,
desviando o receptor a estímulos somente destinados à distração em
detrimento do uso da razão (DEJAVITE, 2007, p.7).
Dejavite (2007) conclui que o receio – ou preconceito – ancora-se naquilo que se
define como poder e prestígio em relação à responsabilidade social do jornalismo. A
informação cria conhecimento, forma o intelecto. E também no equívoco de encarar o
universo do entretenimento e do lazer como coisas menores.
O professor e pesquisador Leo Braudy argumenta que essa é uma maneira
também simplista de tratar a separação entre informação e o entretenimento.
Ele assegura que, hoje, tudo é entretenimento. “Tudo o que nós vemos como
interessante para atrair uma audiência traz implícito em si um tipo de
entretenimento. É entretenimento para o cérebro, digamos, talvez seja
somente entretenimento para as emoções, mas é entretenimento”, enfatiza.
No entanto, o público tem outra visão sobre o tema. Ao consumir um ou
outro tipo de conteúdo, as pessoas buscam sempre se distrair (afinal, o
consumo da mídia é feito no tempo livre). Assim, para o receptor, o
entretenimento é simplesmente aquilo que entretém, vale dizer, a ausência de
tédio. A separação de informação e entretenimento não tem nenhum sentido
para o receptor, pois o oposto da mensagem de entretenimento veiculada pela
mídia não é o conhecimento informativo, mas o conteúdo que não lhes
agrada, as matérias enfadonhas, que não atraem a atenção (DEJAVITE, 2007,
p.7-8).
E a mesma autora aponta ainda como agravante a confusão existente entre o que
é superficial ou light (aquilo que pode ser considerado realmente um conteúdo
jornalístico de entretenimento) e o que é ficção (mentira, manipulação e invenção).
Nesse sentido, definir a importância do conteúdo do jornalismo de
INFOtenimento não é tarefa fácil. Seu conceito está diretamente relacionado
com todos os aspectos positivos e negativos identificados em relação ao
entretenimento, e, claro, com as suas próprias características e limitações.
Mesmo assim, não há como negar sua relevância que cresce a cada dia. Se o
jornalismo negar para o público esse conteúdo estará também negando a sua
missão principal: a de servir a sociedade. (DEJAVITE, 2007, p.12 e 13)
Desta forma, ela pondera que, em pleno século XXI, o conteúdo editorial
jornalístico não pode hierarquizar e reduzir determinados assuntos como entretenimento
e desvanecer suas possibilidades críticas, ao enquadrá-los como não importantes. A
consequência, para ela, é minimizar os aspectos políticos, os sociais, os culturais e os
136
psicológicos do divertimento. Para Dejavite (2008), o que realmente diferencia o sério
do não-sério é a forma de veicular a informação.
Na prática, muitos conteúdos considerados como sérios também podem ser
considerados não-sérios. Por exemplo, quando uma charge de jornal satiriza
um assunto que está na manchete da primeira página, dando-lhe uma nova
exterioridade por meio de dados acrescidos pelo ponto de vista do chargista
ou, então, por um ângulo não explorado. Aparentemente, nesse caso, aquilo
que se denominou de conteúdo sério (a política) apresenta-se como uma
roupagem não séria (DEJAVITE, 2008, p.45)
A conclusão de Dejavite (2008, p.45) é que o jornalismo de infotenimento integra-se aos padrões jornalísticos, cuja articulação e propagação associam-se às muitas
responsabilidades sociais e culturais. O conteúdo editorial dele alia-se à seriedade, à
leveza, à precisão e à ética, para informações nacionais, internacionais, locais e
regionais em todos os gêneros jornalísticos, enquanto informa e distrai o receptor.
Apesar de o entretenimento ser um dos valores principais das sociedades
ocidentais e um dos mais importantes conteúdos da mídia, ainda não se
constituiu em foco de pesquisa dentro das Ciências da Comunicação – principalmente quando ele está associado aos trabalhos no campo jornalístico. No
entanto, a função de entreter no jornalismo interage perfeitamente com
aquela tradicionalmente reconhecida como de vigilância da sociedade. Isso
porque a boa informação jornalística não é algo necessariamente sem humor,
pesada e séria. Desse modo, o aparecimento desse tipo de conteúdo nas
páginas do jornal diário impresso apresenta-se como uma resposta positiva às
mudanças dos processos cognitivos da nova geração de receptores,
cidadãos/leitores/consumidores da sociedade da informação (DEJAVITE,
2008, p.48)
Para Kellner (2001), os indivíduos pós-modernos terão de aprender a conviver
com uma imensa fragmentação e proliferação de imagens, informações e tecnologias
novas, que precisarão processar.
(...) as situações locais, nacionais e globais dos nossos dias são articuladas
entre si por meio dos textos da mídia; esta, em si mesma, é uma arena de
lutas que os grupos sociais rivais tentam usar com o fim de promover seus
próprios programas e ideologias, e ela mesma reproduz discursos políticos
conflitantes, muitas vezes de maneira contraditória. O entretenimento e a
ficção articulam conflitos, temores, esperanças e sonhos de indivíduos e
grupos que enfrentam um mundo turbulento e incerto. As lutas concretas de
cada sociedade são postas em cena nos textos da mídia, especialmente na
mídia comercial da indústria cultural cujos textos devem repercutir as
preocupações do povo, se quiserem ser populares e lucrativos (KELLNER,
2001, p.32),
E voltarmos o olhar para o esporte, recorremos à DaMatta (2006) que lembra
que o esporte é uma atividade paradoxal porque não é produtiva no sentido de
137
transformar a natureza e produzir “riqueza”, estando balizada pela mudança de foco e
pelo relaxamento - por tudo que chamamos de “lazer”.
Como atividades voltadas para si mesmas, esporte e arte configuram esferas
de vida que negam o utilitarismo dominante e promovem um efeito de pausa.
De feriado, desligamento ou descontinuidade com a sofreguidão exigida pela
lógica do lucro, do consumo. Se o objetivo do trabalho é enriquecer a
sociedade, transformando-a em corpo poderoso, o alvo do esporte é muito
mais difícil de estabelecer. Tudo indica que o esporte tem um lado
instrumental ou prático que permite “fazer” coisas e promover riqueza; mas
ele tem também também um enorme eixo expressivo e/ou simbólico que fala
mais do modo como nos vemos e queremos ser vistos do que sobre o que
estamos fazendo. (DAMATTA, 2006, p.149-150)
DaMatta (2006) considera ainda que o esporte não está divorciado da sociedade
que o engendrou. Sua função no mundo moderno tem uma ligação íntima com
aspectos fundamentais da vida burguesa.
Não foi, então, por mero acaso que o esporte como um domínio social (e
como uma “indústria cultural”) tenha surgido com o advento da sociedade
industrial de mídia e de massa. Este sistema hoje tem a hegemonia planetária
operando – sabemos bem – através do mercado, do dinheiro, da possibilidade
de compra e venda do trabalho e de uma massa urbana socializada
universalisticamente, sendo capaz de acatar as leis que – repito – valem,
como assevera o credo burguês (e o esporte), para todos. Tudo se passa como
se esse credo tivesse um duplo movimento. Se, de um lado, ele
aparentemente ficava mais simples, reduzindo todas as suas dimensões
sociais à lógica unidimensional e plana do mercado, como denuncia Polanyi;
de outro, esse mesmo mercado, sendo também socialmente instituído,
engendra campos densamente insuspeitos – como o do esporte – que trazem à
tona dimensões esquecidas, ligadas a uma sociabilidade afim de magia, da
angústia povoada pela competição, pelo confronto agonístico e pela relação
entre técnica, talento e acaso. (DAMATTA, 2006, p.151)
DaMatta (2006, p.152-153) destaca que Thomas Hobbes jamais poderia
imaginar que a sua abominável “luta de todos contra todos” seria usada como mina de
ouro e como um chamariz para fazer com que milhões de pessoas não só concebessem o
confronto como parte intrínseca da vida social e da natureza humana, mas com ele se
divertissem, situando-o na sua esfera de consumo e lazer. Uma zona intermediária entre
a festa popular tradicional e o espetáculo erudito.
Com o advento do esporte, as multidões urbanas podem deleitar-se
apreciando não apenas algo exclusivo e unidimensional, centrado num só
138
evento ou pessoa, mas um espetáculo aberto com múltiplas características, no
qual os elementos que eventualmente articulam as identidades sociais são
constitutivamente duplos, pois no espetáculo esportivo há sempre e
inevitavelmente a dualidade no esporte, entre nós e eles, entre os nossos e os
deles. De fato, esta dualidade competitiva imediata é fundacional do esporte.
É justamente esta teia de elos que nos unem ao nosso time e nos colocam
contra os dos outros que transfiguram o moderno fã (palavra que vem do
inglês fanatic, ou seja, o aficionado ardente que perde a cabeça e se confunde
com o seu clube, celebridade ou time) em “torcedor”. Aquele ou aquela que
torce, contorce e retorce o seu corpo para que o seu time seja vencedor. Pois
o “torcedor” é quem chora, ri e urra dentro do estádio. [...] E diríamos nós,
provocando, desafiando, desconstruindo e incentivando o seu time
(DAMATTA, 2006, p.160).
Estas características fazem parte do atual perfil do Jornalismo Esportivo da TV
Globo. O “marco” inicial desta fase é 2009, quando o jornalista Tiago Leifert assumiu o
comando do Globo Esporte São Paulo (GE SP). A causa da mudança era recuperar a
audiência, porque o programa chegou a ser derrotado no Ibope, perdendo até para
desenhos animados exibidos pela concorrência. A página da Direção Geral de
Comercialização da Rede Globo na internet cita os seguintes dados do Ibope Telereport
de abril de 2007 (ou seja, antes do formato proposto por Leifert entrar no ar).
O Globo Esporte mantém médias nacionais de 17 pontos de audiência e 42%
de participação, o que representa quase 11 milhões de telespectadores a cada
edição. 82% deste total são telespectadores com 18 anos ou mais e 74%
pertencem às classes AB e C. Em São Paulo, 82% dos telespectadores do
programa são das classes AB e C e 70% têm 25 anos ou mais (Globo Esporte,
Audiência e Perfil, acesso pela internet28).
E outro link da página leva para a comparação com a concorrência: no resultado
Nacional, o programa tem 17 pontos de audiência e 40% de participação (que significa
o percentual de televisores ligados – e acompanhados pelo instituto – que estão
sintonizados na emissora); em São Paulo eram 13 pontos e 36% de participação
(resultados três vezes maior que o segundo lugar) e no Rio de Janeiro, 18 pontos e 45%
de participação (audiência seis vezes maior e participação cinco vezes maior que o
segundo lugar). O terceiro link da página leva às informações sobre o horário do
programa e como adquirir uma cota de patrocínio – a orientação é consultar o
atendimento comercial.
A professora e pesquisadora Patrícia Rangel (2009) foi uma das primeiras a
estudar o perfil atual do GE SP. Ela entrevistou Renata Cuppen, editora de texto do
28
Ver as tabelas detalhadas em <http://comercial.redeglobo.com.br/programacao_esporte/glesp2_pa.php>,
<http://comercial.redeglobo.com.br/programacao_esporte/glesp2_alcance.php> e
<http://comercial.redeglobo.com.br/programacao_esporte/glesp2_esquema.php>. Acesso em 01 de janeiro de 2013.
139
jornal e também o editor-chefe e apresentador Tiago Leifert, algo difícil atualmente, se
não pelo excesso de atividades dele (que se envolveu em outros programas esportivos
ou não29), também por todas as exigências feitas pelo Globo Universidade, área da
emissora para reforçar os vínculos com o setor acadêmico e receber e filtrar os pedidos
de entrevista e cessão de material para pesquisa de Graduação, Mestrado e Doutorado30.
Com o material, Rangel escreveu um artigo crítico ao modelo que ele implantou no GE,
apresentado no Intercom em 2009, referência obrigatória para quem desenvolve
pesquisa na área e para o qual traçou o seguinte perfil do editor-apresentador.
Filho de um executivo do departamento comercial da TV Globo, Thiago
Leifert iniciou a carreira na televisão aos 16 anos como repórter do “Desafio
ao Galo”, programa de futebol de várzea. O programa terminou por falta de
patrocínio e ele foi cursar jornalismo na Puc de São Paulo. Cursou os dois
primeiros anos, não gostou e foi embora morar nos Estados Unidos onde se
formou em jornalismo, com especialização em telejornalismo pela
Universidade de Miami. De volta ao Brasil em outubro de 2003, foi trabalhar
na TV Vanguarda, de São José dos Campos, afiliada da Globo. Como tinha a
experiência de vídeo repórter pelo canal televisivo NBC de Miami, foi dirigir
e apresentar um programa de entretenimento chamado Mix, que fez muito
sucesso na região. No começo de 2005, resolveu sair da TV Vanguarda
porque achava que seu salário era baixo demais. Nesta mesma época, enviou
um DVD com reportagens e apresentações para Emanoel Castro, diretor do
Canal SporTV e em janeiro de 2006 foi contratado. (RANGEL, 2009, p.6)
Rangel (2009) explica que a baixa audiência do GE SP foi causada pelo formato
“engessado” da atração e a nacionalização da notícia esportiva. Até o final de 2007, o
GE era transmitido do Rio de Janeiro por Milena Ceribelli e Léo Batista em rede
nacional, exceto para São Paulo e Belo Horizonte. Para todo o estado de São Paulo, a
apresentação era feita por Glenda Kozlowski. “E segundo Renata Cuppen, editora de
texto do Globo Esporte, a linguagem era ainda muito dura, apenas uma troca de câmera
o que deixava o apresentador muito estático com o chroma key no fundo servindo de
cenário” (2009, p.4).
Para tentar reverter a queda na audiência em São Paulo, a TV Globo adotou uma
política da “nacionalização”, a partir de 2008. O programa era gerado no Rio de Janeiro
para todo o Brasil, apresentado por Tino Marcos e Glenda Kozlowski, segundo Renata
29
Ele comandou o Central da Copa, exibido durante a Copa da África, em 2010 e a Copa América, em 2011 e,
ocasionalmente, em amistosos da Seleção Brasileira ou eventos relacionados à realização da Copa do Mundo no
Brasil em 2014. Além disso, em 2012, foi escolhido como o apresentador do reality show musical The Voice Brasil,
no ar entre setembro e dezembro, período em que esteve afastado do vídeo no GE SP, embora continuasse atuando
nos bastidores.
30
Para este trabalho, enviamos a documentação e informações solicitadas pelo Globo Universidade, no entanto, o
pedido de entrevista com as equipes envolvidas na produção do programa não obteve a aprovação do diretor Central
Globo de Esportes. Coincidiu com período de férias e substituição no cargo: saiu Luiz Fernando Lima e entrou
Renato Ribeiro.
140
Cuppen, para dar um caráter de Jornal Nacional para o assunto esporte (cf. RANGEL,
2009, p.4). O GE ganhou um cenário novo, com espaço para os apresentadores
andarem, com TV de plasma, telão, chroma key, e outras variações estéticas. O formato
durou um ano e não agradou, e registrou os piores índices de audiência da história do
telejornal na Grande São Paulo31.
A editora Renata Cuppen entende que é muito difícil satisfazer o público
esportivo e ao tentar nacionalizar a notícia, não conseguiu agradar um
público muito específico, o torcedor: “os que torcem pelo Corinthians
querem saber do Corinthians e desejam saber o que o São Paulo está
fazendo porque é seu maior adversário. O interesse pelo outro clube é
sempre quando o nosso vai enfrentá-lo. Por isso é muito difícil agradar um
público se a gente não puder falar para este público. Para um programa curto
e rápido como é o Globo Esporte, apenas 23 minutos de produção e tendo
que falar em rede, para um público abrangente e sobre vários times
considerados importantes, as matérias tinham que ser sempre muito
pequenas, algumas mais trabalhadas como as de jogo, tinham em média
1’10” ou 1’30” no máximo. (RANGEL, 2009, p.5 – grifo do autor)
Tiago Leifert disse que enviava e-mails com sugestões aos chefes e
coordenadores diretos, e não era ouvido. “Vocês precisam colocar videogame no GE,
precisam mudar a linguagem, vocês estão com um problema de linguagem grave,
precisa usar a linguagem do torcedor, está tudo muito chato e quadrado.” (cf. RANGEL,
2009, p.6). Em outubro de 2008 foi chamado pela direção para gravar um piloto. O
novo Globo Esporte estreou no dia 12 de janeiro de 2009. Rangel (2009, p.6-7) relata
que as primeiras edições foram marcadas por problemas técnicos, falhas de áudio nas
reportagens e um apresentador que saía destas complicações com declarações ao vivo
nunca vistas em telejornais da emissora: “A bruxa está solta no ‘Globo Esporte’ de
hoje!”. Rangel destacou que as matérias do GE SP passaram a ser comportamentais,
dentro do perfil voltado para o entretenimento, linha condutora das decisões editoriais
envolvendo o telejornal, conforme os relatos de quem o elabora diariamente.
A respeito deste formato mais entretenimento menos jornalístico, o editor
chefe do programa Globo Esporte afirma que o entretenimento é sua bandeira
principal, a informação vem junto, mas afirma que para o esporte o rótulo de
jornalismo não combina. A editora de texto Renata Cuppen também
compartilha da mesma opinião:
O programa hoje tem jornalismo, mas a gente está tentando que ele seja um
programa de televisão em primeiro lugar. A gente não quer que ele seja um
programa só de jornalismo, a informação tem que estar lá, mas ela pode
chegar ao telespectador de uma forma legal, não precisa ter aquela cara de
31
Segundo dados do Ibope, a TV Globo ficou por diversas vezes em segundo lugar, com oito pontos, e exibia no
horário o telejornal Globo Esporte. A TV Record transmitia o programa “Hoje em Dia" e “Balanço Geral e marcou
sete pontos. Já a Rede Bandeirantes ficou em quarto lugar, com três pontos, exibindo "São Paulo Acontece" e "Jogo
Aberto". O programa "Chaves", exibido pelo SBT de 12h45 a 13h14, conseguiu uma média de nove pontos de
audiência (RANGEL, 2009, p.5).
141
jornalismo formal em que o apresentador não expressa opinião. Ele pode ser
divertido, pode ser um programa de televisão, de entretenimento, por que
não?”
Tiago Leifert considera que hoje o Globo Esporte não é um programa de
jornalismo esportivo.
“Jornalismo esportivo é uma coisa sem vida, sem emoção, sem paixão, isto
está na matéria do exame de doping, em uma briga de torcida. Mas o esporte
é legal porque ele diverte, ninguém assiste ao jogo do Corinthians para se
informar, assiste para se divertir, para torcer, xingar o juiz. O jornalismo no
Globo Esporte estava muito pesado, eu brinco que a gente estava numa rave
usando smoking. Hoje eu acho que é muito mais entretenimento do que
informação, ele tem um peso maior no programa” (cf. RANGEL, 2009, p.89).
Quanto ao cenário, não há mais bancada, sobra espaço para o apresentador andar
ao chamar as matérias e vivos. Rangel (2009, p.7) destaca a avaliação da editora de
texto Renata Cuppen sobre esta chance de mobilidade: “acho que a bancada sempre
afasta o apresentador do telespectador é como se tivesse um balcão de farmácia ali
separando, não há o contato mais direto”. No entanto, a mudança mais destacada foi a
linguagem, o jeito de conduzir e incluir o telespectador no tema apresentado.
O editor Tiago Leifert aboliu o telepronter no estúdio o que tornou o Globo
Esporte mais dinâmico e improvisado passando ao público um ar mais de
conversa do que de apresentação de telejornal. “Antes parecia que era tudo
muito ensaiadinho, combinado e acertado, e agora a gente tenta de tudo
para que seja espontâneo, porque todos os repórteres sabem do que estão
falando, não precisa ser ensaiado”, declara Tiago Leifert. Segundo a editora
de textos do programa, a narrativa também foi focada e pensada numa forma
de textos mais leves e divertidos trazendo muito mais humor às matérias.
“Quando falamos de esporte no nosso dia a dia, geralmente no final de
semana ou no dia do happy hour com os amigos a gente quer se divertir e a
gente tenta colocar isto nos textos do programa. Por exemplo, temos tirado
muito sarro do Boca Juniors, falando assim, quem tem medo do Boca
Juniors, fazemos aquela piada, é tudo mais ou menos nesta linha”, revela
Renata Cuppen. (RANGEL, 2009, p.7 – grifo do autor)
Outro ponto analisado por Rangel (2009) é a duração das matérias. Em
comparação com o GE nacional, estão mais trabalhadas e longas, há mais espaço para
os principais clubes de São Paulo. Na entrevista, Tiago Leifert explicou que ainda era
uma forma inicial de mudar a linguagem em busca de um formato diferente do padrão.
Para o jornalista Tiago Leifert, as matérias devem ter um plano sequência,
uma conversa, o repórter levando o público para a cena do fato, o repórter
passeando na notícia como se fosse o próprio telespectador, mas afirma que a
TV Globo ainda não sabe fazer este formato e que o Globo Esporte ainda está
longe, mas acredita que irá conseguir. “Nós da Globo inventamos este
negócio de off, passagem, tudo ensaiadinho, quadradinho, e eu acho que isso
não funciona mais com a força que funcionava antigamente. Então o Globo
Esporte é a primeira tentativa da Globo aqui em São Paulo de mudar isso,
142
de tentar fazer com que as pessoas conversem mais, mas estamos longe
ainda de conseguir”. (RANGEL, 2009, p.7-8 – grifo do autor)
Uma das mudanças mais percebidas foi a inserção do vídeo game na pauta do
telejornal. Inclusive, jogadores disputaram partidas no videogame com o apresentador,
além de divulgar informações de campeonatos nacionais e internacionais.
Segundo Leifert e Cuppen o vídeo game veio porque faz parte do universo do
público do Globo Esporte, na concentração os jogadores também jogam para
se distrair e quase todos que estão envolvidos com a produção do programa
também, inclusive eles próprios. “O vídeo game é um esporte, tem até
Campeonato Mundial da Fifa Virtual, então a gente precisava trazer isto
para o esporte, é uma competição, mesmo que a gente em casa faça isto de
forma amadora, tem gente que é profissional no assunto”, revela Renata
Cuppen. (RANGEL, 2009, p.8 – grifo do autor)
Leifert observou que outros meios de comunicação e entretenimento estavam
conquistando os telespectadores. Por isso, se utilizou da Internet e das redes sociais,
principalmente o microblog Twitter em uma aproximação dos ídolos (jogadores) com os
fãs (a torcida), além da utilização de vídeos populares do site Youtube sobre fatos
divertidos e incomuns que acontecerem no mundo esportivo. “Com essas mudanças e
um formato que privilegia os clubes do Estado, o GE São Paulo marcou nas primeiras
semanas, de janeiro de 2011, 14 pontos no Ibope” (REIS, GURGEL, 2001, p.5).
A concorrência entre a Internet e a televisão observada por Tiago Leifert já é
possível de ser medida em números. De acordo com a pesquisa Media
Democracy, feita pela Deloitte no Brasil, a quantidade de vídeos assistidos
online é quase a mesma daqueles que são vistos pela televisão. São 54% de
pessoas que assistem vídeos na Internet enquanto na televisão são 56%; o
número de pessoas que preferem a Internet apenas não supera o da televisão
pois o sistema de banda larga no país ainda sofre deficiências.
Mesmo com as conexões ainda restritas e lentas, o programa de banda larga
móvel – a tecnologia 3G – foi uma das saídas para que a Internet se
espalhasse pelo Brasil. Isso, aliada com as facilidades de planos de aparelhos
celulares com cobertura online, tornou a Internet o meio de entretenimento e
informação favoritos dos brasileiros. O mesmo estudo da Deloitte aponta que
enquanto a televisão é assistida no país durante 17 horas, a Internet é
acessada por seus usuários por 30 horas. Durante o período de 2000 a 2009, a
média de televisores ligados entre 18 horas e meia-noite caiu de 66% para
59%. (REIS, GURGEL, 2001, p.6)
Patrícia Rangel (2009) considera o programa como um exemplo do declínio da
notícia como expressão do jornalismo. A informação passa a ser um produto híbrido
que atende à publicidade, ao entretenimento ou ao consumo e se esquece de informar.
A linguagem empobrecida dos programas de debates, bem como a
exploração das emoções nas transmissões, da futilidade das informações, o
143
aumento do entretenimento diante da informação, são características do
grande espetáculo que se tornou o esporte na televisão. Chama a atenção, o
fato de que o jornalismo está em mutação e no segmento esportivo, encontrase em estágio avançado de mercantilização das atividades jornalísticas.
Aparentemente matéria alguma escapa ao tratamento leve, divertido,
espetacular ou até sensacionalista. (...) Já no Globo Esporte, um telejornal
esportivo causa maior estranheza matérias muito comportamentais e de
entretenimento. É evidente que toda a mudança é uma tentativa da TV Globo
recuperar a audiência e em criar uma maior empatia com os paulistas perdida
quando o programa foi levado durante um ano em rede nacional. Nota-se que
a nacionalização da notícia esportiva dificilmente funciona, principalmente
quando o assunto é o futebol. (...) Observa-se que o entretenimento é uma
tendência da sociedade capitalista contemporânea e consequentemente do
fazer jornalismo esportivo eletrônico. (RANGEL, 2009, p.9-10)
Mariana Oselame também concorda com a afirmação de que o modelo ideal para
a prática de um jornalismo esportivo sério, ético e comprometido com a apuração,
checagem e divulgação dos fatos relevantes para o interesse público está em crise. “Por
envolver aspectos que não estão privilegiados em outros setores do jornalismo – sendo o
mais relevante deles a emoção – o jornalismo esportivo muitas vezes perde o foco do
que é – ou deveria ser – a sua função social” (OSELAME, 2010, p.63).
Em parte pela matriz cultural brasileira – que vê no esporte uma expressão de
lazer, saúde, diversão e, no máximo, entretenimento –, em parte pelo descaso
dos profissionais de comunicação que trabalham na área, cobrir esportes se
transformou em sinônimo de distrair o público. Na lógica da produção, o
compromisso com a informação é deixado de lado e a função de entreter,
distrair e divertir ganha mais e mais força. Especialmente na televisão
aberta2, o esporte, e de forma muito particular, o futebol se torna o mais
importante entre as coisas menos importantes.
Na tela que ocupa um espaço privilegiado na vida de todo o brasileiro, país
em que a televisão ainda é o principal meio de comunicação da maioria, o
esporte deixa a esfera da informação e passa a ter como objetivo,
simplesmente, entreter. Na definição das funções da televisão estabelecida
pela Unesco e citada por Blázquez (1999), por exemplo, a cobertura esportiva
se distancia da função informativa – se é que algum dia ela de fato a cumpriu
–, passa longe da função educativa e fixa lugar na função de entretenimento.
E quando a lógica da produção é o entretenimento, o compromisso com os
princípios e técnicas básicas do jornalismo – apuração, checagem dos fatos,
relacionamento com as fontes, busca pela verdade e preocupação com a ética
e o interesse público – tende, aos poucos, a desaparecer (OSELAME, 2010,
p.63-64)
Oselame (2010) considera que no início, em 1978, o Globo Esporte comandado
por Léo Batista era mais um “telejornal de esportes” do que um programa de
entretenimento. Era apresentado da tradicional bancada, com textos lidos no
teleprompter. Trinta e quatro anos depois, a autora considera que a versão apresentada
em São Paulo, por Tiago Leifert, o Globo Esporte é, antes de tudo, um programa de
televisão. “A bancada deu lugar à mobilidade do apresentador e a linguagem engessada
144
pelo teleprompter foi substituída pelo improviso e o (suposto) bom humor, sem roteiro”
(2010, p.64).
De fato, a atração ficou mais leve, com menos aparência de telejornal e mais
proximidade com uma conversa informal, um bate-papo. O curioso e o
inusitado foram privilegiados em detrimento do que antes era tido como
informação importante. (...)
O agravante, neste caso, é que o próprio jornalismo esportivo durante muito
tempo lutou para livrar-se do preconceito e da visão de que era uma área
secundária. E justamente no contexto em que mais se faz necessário um
jornalismo sério que trate de esportes, ele se afunda em uma crise sem
precedentes, muito em razão das características do que pode ser chamado
Padrão Globo de Jornalismo Esportivo. (OSELAME, 2010, p.64-65)
Provocada pela queda nos índices de audiência, a reformulação da linguagem do
Globo Esporte foi idealizada pelo jornalista Tiago Leifert. Conforme Oselame (2010),
seis características presentes no Globo Esporte desde 2008 – e foram implantadas em
outros programas de esportes da Rede Globo – são: banalização da notícia, descaso
com a técnica jornalística, exacerbação do humor, reinterpretação do conceito de
criatividade, empobrecimento do texto e (a que ela considera mais grave) forte
tendência a transformar o jornalista na própria notícia.
Conforme Oselame (2010), a banalização da notícia aparece quando o que
passa a interessar não é mais a competição em si, mas o que ela pode trazer de curioso,
inusitado e engraçado. O esporte deixa de ser tratado como esporte para que possa
atingir uma parcela maior de telespectadores32. “É preciso que não apenas o tradicional
consumidor de esporte fique em frente à televisão; a ideia é que mulheres, donas de casa
e até crianças se sintam atraídas pela programação esportiva, especialmente pelos
telejornais diários” (2010, p.65). Outro ponto que evidencia este aspecto é a forma
como a mulher é tratada e retratada pelo jornal, reforçando o estereótipo de que a mulher foi
feita para ser contemplada, admirada e desejada.
A banalização da notícia – e do jornalismo esportivo, por consequência –
chegou a tal ponto que potencializou ao máximo um estereótipo que parecia
ter sido superado há muito tempo: o da função social da mulher. A maioria
das jornalistas que atua na cobertura esportiva, inclusive, reforça a ideia de
que mulher foi feita para ser contemplada e admirada, sendo desprovida das
capacidades intelectuais do homem. Cabe a ela, portanto, um lugar de
destaque neste novo modelo que privilegia o entretenimento em detrimento
da informação, que transforma a editoria de esportes quase em uma extensão
do setor de variedades. Ferrés (1998) diz que a televisão, por excelência,
“destaca ou reforça atitudes machistas quando coloca em seus shows (...)
32
Nesta parte da análise, Oselame cita Alcoba: “se buscan noticias donde no las hay, y para mantener la atención del
público se inventan polémicas inexistentes aprovechando cualquier declaración fuera de tono o por medio de
encuestas sin ningún tipo de fiabilidad” (Alcoba, 1999, p. 47 apud Oselame, 2010, p.65).
145
garotas que desempenham apenas uma função decorativa” (Ferrés, 1998, p.
147) (OSELAME, 2010, P.65)
No entanto, Oselame (2010, p.66) considera que o problema do “novo Padrão
Globo de Jornalismo Esportivo” (como ela chama a atual fase) é levar essas orientações
ao extremo, exagerando na dosagem. Desta forma, há o risco de se cruzar a tênue linha
que separa o que é informação jornalística e o que é “perfumaria” – uma fronteira que o
jornalismo esportivo parece já ter atravessado.
A respeito do descaso com a técnica jornalística, Oselame (2010) destaca que,
ao se cruzar a linha que separa informação e entretenimento, perde-se o compromisso
com a apuração e checagem dos fatos, das fontes e das versões.
Como a ideia é entreter e divertir, a notícia não recebe o devido tratamento.
Muitas vezes, em vez de chegar apurada e confirmada até o público, ela o
atinge de uma maneira muito pior em relação à que o jornalista a recebeu –
em alguns casos, devido à incapacidade de o profissional lidar com um
elemento inerente ao jornalismo esportivo e que o diferencia das demais
editorias: a emoção. (...) A presença descontrolada da emoção, longe de
auxiliar no trabalho jornalístico, rouba a credibilidade, ignora as técnicas e
atrapalha a informação. (OSELAME, 2010, p.66)
Ela considera que a lógica comercial também influencia estas decisões, porque a
opção por entreter em vez de informar, é consequência da busca por maiores índices de
audiência. Desta forma, o que se comercializa não é o produto audiovisual em si, mas o
espaço de contato entre anunciante e espectador.
Retomando a linha do excesso, Oselame (2010, p.67) analisou a utilização do
humor no GE SP. “Novamente, em princípio não há nada de errado nesta tentativa,
muito antes pelo contrário: o humor é uma ferramenta legítima para criticar e até
informar. Ele dá leveza ao que antes era “pesado”, na visão de Leifert”. No entanto, a
busca pelo engraçado compromete a credibilidade das matérias.
Levado às últimas consequências, o humor está na edição das imagens, nos
textos, na trilha que ilustra as narrações de gols ou matérias. Tudo vira piada,
tudo é motivo de riso. Até mesmo a entonação dos repórteres parece ter sido
alvo de orientações no sentido de que, em qualquer circunstância, eles devem
parecer alegres em frente ao vídeo – especialmente as mulheres. Admite-se e
até aconselha-se, no modelo criado pelo Padrão Globo de Jornalismo
Esportivo, a infantilização do profissional e do material que ele produz para
os programas (OSELAME, 2010, p.67).
146
Oselame (2010) considera que “quando tudo vira piada, já não há mais espaço
para a informação. Nesta lógica, matérias consistentes e ‘sérias’ ficam de fora do
programa que vai ao ar” (2010, p.67). Ela afirma que, o telespectador ao perceber que
está sendo subestimado, reage renegando este novo padrão33.
Sobre a reinterpretação do conceito de criatividade, Oselame (2010) lembra
que criatividade, neste modelo, significa aderir a este padrão estabelecido. O que
determina se uma matéria é boa ou ruim não é o conteúdo; mas a forma, para atingir o
maior número de pessoas: “Não importa mais o que está sendo dito, mas sim como está
sendo dito. (...) E simplificar a linguagem nada mais é do que banalizar a notícia,
privilegiar a especulação (ela é mais atraente que a informação) e exacerbar o humor”
(2010, p.68). Para a autora, há as informações relevantes que poderiam ser divulgadas
pelo jornalismo esportivo, em especial, o praticado pela TV Globo, que não despertam
interesse por não serem o tipo de notícia que trai a audiência.
A quinta característica do que Oselane (2010) chama “Padrão Globo de
Jornalismo Esportivo” é a linguagem. Ela ressalta que simplificar a linguagem do
esporte para torná-la mais universal não significa a obrigação de empobrecê-la. É
possível agregar informações a um texto leve e dinâmico sem prejudicar o conteúdo
jornalístico.
33
Conforme nota veiculada na coluna Zapping, da Folha de São Paulo, o GE SP fechou o ano de 2012 com a pior
média de audiência desde 2000: 10 pontos. O melhor ibope do programa esportivo, no período, foi justamente em
2000, quando alcançou a marca de 16,9 pontos. Desde então, o "Globo Esporte" só viu a sua audiência diminuir.
Leifert assumiu a atração em 2009 e foi responsável por algumas mudanças em seu formato. Disponível em
<http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/zapping/1208154-globo-esporte-registra-menor-audiencia-desde-2000.shtml>.
Acesso em 01 de janeiro de 2013. Dados sobre a queda da audiência já tinham sido divulgados em sites concorrentes,
como o Portal R7, da Record – notícia publicada no dia 14 de fevereiro, dizia que nem a ideia de apresentar o
programa de um estúdio montado em um ônibus aumentou a média de 10,5 pontos no Ibope (e ainda explicava que
cada ponto corresponde a 58 mil domicílios na Grande São Paulo). Ver em <http://entretenimento.r7.com/famosos-etv/noticias/novo-globo-esporte-perde-audiencia-e-vira-dor-de-cabeca-na-emissora-20120214.html?question=0>,
acesso em 01 de janeiro de 2013.
No entanto, não podemos afirmar com plena certeza de que o desempenho trata-se apenas da rejeição ao modelo no
ar. Neste ano, os dados do mês de maio apontavam crescimento nos números, atingindo a maior média mensal do
ano, 10,8 pontos com 34% de participação, um crescimento de 9% em relação a maio, conforme dados divulgados na
coluna Flávio Ricco, no site UOL em 16 de julho – ver <http://televisao.uol.com.br/colunas/flavioricco/2012/07/16/vento-bate-a-favor-na-audiencia-do-jornalismo-e-esporte-da-globo.htm>. Além disso, todo o
noticiário esportivo da Globo, principalmente o programa, por ser diário, foi prejudicado pelo fato da TV Globo não
ter os direitos de exibição dos Jogos Olímpicos de Londres – que pertenciam à concorrente TV Record. A falta da
principal fonte de notícias esportivas teve impacto, conforme nota do JB, a atração marcava 10 pontos. Resultado pior
que os 11 pontos registrados em 2011. Ver <http://www.jb.com.br/heloisa-tolipan/noticias/2012/08/09/semolimpiadas-globo-esporte-registra-pior-audiencia-de-sua-historia>. Acesso em 01 de janeiro de 2013.
Contudo, alguns dias depois, em 6 de janeiro de 2013, uma notícia publicada na coluna do Flávio Ricco apontava que
de 308 edições no ano passado, o GE SP perdeu apenas uma – final do futebol nas Olimpíadas – e empatou outra –
quando a Record explorou um suposto caso de estupro na edição 2012 do Big Brother Brasil. Venceu em todas as
demais, apesar de ter registrado queda na média de audiência, assim como todas as emissoras. Disponível em <
http://televisao.uol.com.br/colunas/flavio-ricco/2013/01/06/globo-esporte-nadou-de-bracada-na-temporada2012.htm>. Acesso em 10 de janeiro de 2013.
147
Em vez de textos mais criativos, ágeis e com alguma dose de humor
inteligente, o que se vê são matérias recheadas de chavões, frases feitas e
fórmulas prontas. (...)
Enquanto a informalidade do texto vai ganhando terreno, a crise fica mais
profunda. O jornalismo esportivo se torna cada vez menos “pensante” para
virar, unicamente, um repetidor de velhas fórmulas, seguindo a consagrada
máxima de Chacrinha de que na televisão nada se cria, tudo se copia. Se esse
foi o modelo encontrado para que os índices de audiência subissem, então é
porque ele é bom: é esse o pensamento de quem definiu o Padrão Globo:
(OSELAME, 2010, P.68)
E a última característica deste modelo é a tendência ao estrelismo. Para Oselame
(2010, p. 69), o profissional da informação se torna estrelas sem informação. Ela os
classifica como marionetes do modelo estabelecido de converter a informação em mero
espetáculo e de fomentar o culto à personalidade do jornalista, do entrevistador e dos
apresentadores dos programas.
Diante de tudo que foi analisado nestes textos, recorremos a Bourdieu, autor
citado por Oselame (2010), para chegarmos à conclusão de que o resultado do modelo
implantado do Globo Esporte desde 2008 não é algo positivo:
Uma parte da ação simbólica da televisão, no plano das informações, por
exemplo, consiste em atrair a atenção para fatos de natureza a interessar todo
mundo, dos quais se pode dizer que são omnibus – isto é, para todo mundo.
Os fatos-ônibus são fatos que, como se diz, não devem chocar ninguém, que
não envolvem disputa, que não dividem, que formam consenso, que
interessam a todo mundo, mas de um modo tal que não tocam em nada de
importante. As notícias de variedades consistem nessa espécie elementar,
rudimentar, de informação que é muito importante porque interessa a todo
mundo sem ter consequências e porque ocupa tempo, tempo que poderia ser
empregado para dizer outra coisa. Ora, o tempo é algo extremamente raro na
televisão. E se minutos tão preciosos são empregados para dizer coisas tão
fúteis, é que estas coisas tão fúteis são de fato muito importantes na medida
em que ocultam coisas preciosas. Se insisto nesse ponto, é que se sabe, por
outro lado, que há uma proporção muito importante de pessoas que não leem
nenhum jornal; que estão devotadas de corpo e alma à televisão como fonte
única de informações. A televisão tem uma espécie de monopólio de fato
sobre a formação das cabeças de uma parcela muito importante da população.
Ora, ao insistir nas variedades, preenchendo esse tempo raro com o vazio,
com nada ou quase nada, afastam-se as informações pertinentes que deveria
possuir o cidadão para exercer os seus direitos domésticos (BOURDIEU,
1997, p. 23-24).
Para Carolina Reis e Anderson Gurgel (2011), esta estratégia é o caminho que se
julgou mais conveniente para o jornalismo esportivo dentro deste perfil de sociedade e,
portanto, de público consumidor para as notícias que a emissora divulga nos seus
programas esportivos.
148
Assim, o espetáculo midiatizado é potencializado, uma vez que as imagens
por si só já são espetaculares. Desta forma, o espetáculo e o entretenimento
são as grandes apostas da televisão para se sustentar diante do atual modelo
de sociedade, da informação. Ela, segundo Bourdieu, tem efeito de real, já
que se faz ver e crer através das imagens transmitidas aos telespectadores8.
Tem, ainda, a possibilidade de diminuir (REIS, GURGEL, 2001, p.2)
Como já mencionado antes, neste capítulo, o GE SP encerrou o ano com a pior
média de audiência desde 2000. No texto “Globo Esporte de Tiago Leifert mudou,
agradou... e vai precisar mudar de novo” publicado no site Esporte Interativo (ligado ao
canal de mesmo nome exibido em TVs por assinatura ou mesmo por parabólica, em
algumas regiões do Brasil), o colunista Rogério Jovaneli avalia o momento e identifica,
na opinião dele, as causas deste desempenho34: “O problema pode estar no conteúdo do
programa, que passou a priorizar o entretenimento, tentando atrair também os
telespectadores que são fanáticos por esporte. Ao que tudo indica, isso afastou quem
busca só conteúdo de esporte” (JOVANELI, 2013, acesso pela internet). Ao não
encontrar isso no GE SP, o público está buscando em outros meios e fontes.
O Globo Esporte não está perdendo telespectadores só para a TV fechada.
Perde os telespectadores muito bem informados, aqueles que "consomem" o
rico conteúdo em esporte que vem sendo produzido em sites e blogs,
espalhado pelas redes sociais. É provável que muitos até vejam Globo
Esporte, mas só em vídeo pela internet, pulando tudo o que não interessa.
Agora, quando busca informação e principalmente análise qualificada sobre o
seu clube, esse pessoal louco por futebol opta por lugares onde a prioridade é
o jornalismo esportivo mais sério e não o entretenimento, ou o que costumo
chamar de "entretenimento esportivo".
(...) Esse novo telespectador, mais bem informado, já sabe há horas que o seu
time ganhou, perdeu ou empatou o jogo. Ele deseja, mesmo, é entender o que
levou ao resultado da partida, o porquê do time ter ganhado ou não. Ou você
atende a esse público mais exigente ou o perde. O que não dá é para virar as
costas para ele. Alternativas não faltam na TV e em outras mídias. Ficou
mais competitiva a vida para quem se propõe a falar de esporte na TV
(JOVANELI, 2013, acesso pela internet).
A partir da avaliação de DaMatta (2006) sobre a incapacidade de restringirmos o
futebol – apenas para citarmos a modalidade que mais identifica o Brasil no exterior – a
apenas um aspecto, podemos prever o tamanho do desafio do jornalista para condensar
este universo rico e diverso em notícias para seu público-alvo.
Talvez o futebol seja capaz de tudo isso porque é uma atividade dotada de
uma notável multidimensionalidade: uma densidade semântica complexa que
permite entendê-lo e vivê-lo simultaneamente por meio de muitos planos,
realidades e pontos de vista. Embora seja uma atividade moderna, um
espetáculo pago, produzido e realizado por profissionais da indústria cultural,
34
Íntegra do texto disponível em <http://br.esporteinterativo.yahoo.com/blogs/tv-esporte/globo-esporte-tiago-leifertmudou-agradou-e-vai-133505524.html>, acesso em 01 de janeiro de 2013.
149
dentro dos mais extremados parâmetros capitalistas ou burgueses, ele, não
obstante, também orquestra componentes cívicos básicos, identidades sociais
importantes, valores culturais profundos e gostos individuais singulares. A
começar pela possibilidade de projetar, no campo e na partida que produz,
emoções, mitos e fantasias individuais e coletivas, tirando do espetáculo –
como Nelson Rodrigues percebeu melhor que ninguém – qualquer
possibilidade “objetiva” ou unidimensional, isto é, qualquer possibilidade de
uma redução do “jogo de futebol” a algo sem espessura ou densidade [...]. No
fundo, o futebol demonstra, contrariando os xenófobos e outros teóricos da
redução e da unidimensionalidade, que se pode acasalar – e acasalar muito
bem – valores culturais locais, nascidos de uma visão de mundo tradicional,
hierárquica e particularista, com uma lógica moderna, individualista e
universalista (DAMATTA, 2006, p.145-146)
Para Barbeiro e Rangel (2006, p. 13), “jornalismo é jornalismo: seja ele
esportivo, político, econômico, social (...). A essência não muda porque sua natureza é
única e está intimamente ligada às regras da ética e do interesse público”. Conforme
Reis e Gurgel (2011) e também Rangel (2009), a abordagem do esporte amparada por
Leifert pelo entretenimento apropriando-se do espetáculo demonstra de que o
jornalismo está em mutação e encontra-se em estágio avançado de mercantilização das
atividades. “No entanto, a informação não deixou de estar presente e por isso mesmo, a
responsabilidade pelo cuidado da mesma não pode ser esquecida” (REIS, GURGEL,
2011, p.13). Concordamos com os autores que a informação com ou sem elementos de
entretenimento não deve desconsiderar os impactos que podem causar aos receptores.
Por isso, a experimentação de novos formatos e linguagens é saudável para a
mídia, uma vez que possibilita a criação de produtos cada vez mais
especializados, profissionais e atrativos ao público movimentando o cenário e
aumentando as probabilidades de se fazer comunicação. Contudo e
principalmente por se tratar de algo recente, deve-se tomar cuidados com os
impactos que esse jornalismo leve trará ao receptor e à sociedade.
No Brasil, o esporte, principalmente o futebol, tem grande importância na
cultura, já que é algo praticamente intrínseco do brasileiro, na sociedade que
se movimenta e sonha em buscar a superação do atleta, e na economia, a qual
cada vez mais se move pelos altos valores que giram em torno da indústria do
esporte. O impacto que a comunidade esportiva provoca na sociedade deve
ser levado em conta e, por isso, o jornalismo deve ser exercido com ética em
favor, sempre, do receptor e não em busca de privilégios e reconhecimentos
sejam de que parte for. (REIS, GURGEL, 2001, p.14)
Ainda na palestra feita no Intercom 2012, o editor-chefe do Globo Esporte Rio
de Janeiro, Afonso Garschagen, disse que foi necessária uma mudança na linguagem.
Segundo ele, quem gosta de esporte, quer emoção e, por isso, o texto não pode ser
básico, tem que buscar o novo e olhar o diferente. É o fim do “piloto-automático” para
escrever, o repórter e a equipe (esta linha de raciocínio permeia todas as etapas do
trabalho) precisam pensar, ir além do óbvio, do que todo mundo diz. Ele explicou que,
150
geralmente, o repórter chega da rua e escreve, mas o texto final nunca será esse
primeiro. Passará por várias revisões, mexidas e modificações atrás de uma forma
considerada nova e interessante de contar a história. Sobre a apresentação do GE RJ,
Afonso Garschagen contou que Alex Escobar não é jornalista de formação – fez Letras
– mas é “o comunicador certo para o jornal que a gente faz”35.
O editor-chefe do GE RJ explicou ainda que, no telejornal local, o povo quer se
ver, por isso, a prioridade tem que ser a cobertura regional. Ele sugere que quadros
(como exemplo, o GE realiza o “Cafezinho com Escobar”, quando o apresentador vai
para um local público com uma mesinha e cadeiras de bar, garrafa de café e copos e
debate a situação dos times cariocas e do futebol com quem passar ali) e apostar em
personagens locais ajudam a aproximar do público-alvo. Ele ainda destacou que a
equipe tem que saber vender o programa na abertura e nas passagens de bloco,
utilizando todos os espaços de forma criativa e informativa. Lembrou que cada GE tem
seu sotaque e, dentro de suas características, deve buscar histórias que interessam e
procurar algo além do óbvio.
Tanto o Globo Esporte quanto os programas derivados, como o Central da Copa,
possuem como característica marcante o favorecimento do entretenimento durante uma
cobertura esportiva em detrimento do jornalismo. Para Oselame (2010, p.69), a busca
por audiência levou a uma ruptura radical com o jornalismo tradicional, ancorado nos
velhos princípios aplicados à editoria de esportes. No entanto, o principal prejuízo não
está no formato dos programas, que ficou mais dinâmico, com cenários interativos, sem
a bancada e o teleprompter, e a presença de convidados. O que pode comprometer este
modelo é o enfoque de conteúdo e a perda do espaço de informação.
Em contrapartida, Dejavite (2008) considera que inovar e experimentar novas
formas de fazer a audiência assimilar o jornalismo, não significa descaracterizá-lo, mas
elevá-lo à sintonia com o leitor, que é, de fato, a missão principal de quem exerce a
função. Em artigo sobre o infotimento em jornais impressos, ela concluiu que o
reposicionamento do conteúdo editorial é uma forma dos veículos para atender a
demanda de informações dos novos leitores sem, contudo, deixar de oferecer os
assuntos antigos.
35
Informações obtidas durante palestra do editor-chefe do Globo Esporte Rio de Janeiro, Afonso Garschagen, e
Paulo César Norões, editor de esportes da TV Verdes Mares, no dia 06 de setembro de 2012, no Teatro Celina
Queiroz, dentro da programação do XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação: UNIFOR, Fortaleza,
2012.
151
O aparecimento desses conteúdos deve-se, ainda, à necessidade de interagir
com as camadas de leitores a serem melhores atingidas – mulheres e jovens –
e também com aqueles potenciais que não têm o hábito de ler um veículo
impresso.
Também revela a preocupação por parte das empresas jornalísticas de
estarem em sintonia com esse novo receptor. Essas transformações editoriais
e gráficas apresentam-se como uma opção editorial inovadora, sendo um
exercício autêntico do jornalismo de qualidade. Coloca-se, ainda, como uma
das muitas possibilidades para a elaboração de uma linha editorial também
inovadora e contemporânea (DEJAVITE, 2008, p.48)
Reis e Gurgel (2001, p.1) destacam e também comprovamos - como será
exposto a seguir – que a informação não deixou de estar presente no discurso do
apresentador e repórteres do GE SP, o que levanta outras discussões, como o critério de
escolha e a responsabilidade ao veicular desta maneira algo que poderia ter outro
enfoque.
4.3 – Globo Esporte São Paulo x Globo Esporte Rio de Janeiro
Para compor o objeto de análise desta dissertação, foram analisados 12
programas Globo Esporte, seis produzidos pela praça São Paulo e outros seis
produzidos pelo Rio de Janeiro (edição estadual, não a edição para a rede). Todos
exibidos na semana entre os dias 20 e 25 de agosto. Foram os primeiros dias após os
Jogos Olímpicos de Londres, que não tiveram ampla cobertura da emissora, porque a
TV Globo não possuía os direitos de transmissão e trabalhou dentro das restrições
impostas aos meios de comunicação nesta situação. Desta forma, optamos pelo período
imediato de normalização do trabalho de jornalismo esportivo nos GEs. A escolha da
data também atendia à possibilidade de envolver programas sobre fatos da memória
recente. No entanto, esbarramos em uma dificuldade que não tinha sido prevista: neste
período, começou a ser veiculada a propaganda eleitoral gratuita para as eleições
municipais de outubro de 2012. Desta maneira, tanto a duração quanto a exibição do
programa sofreram alterações: entrava no ar mais cedo, por volta de 12h35, mas a
duração dependia da necessidade do telejornal local (praça 1 – SP TV e RJ TV).
A princípio, a forma de coleta do material seria a gravação durante a exibição, o
que se tornou inviável por não estarmos nos respectivos estados e também pela
dificuldade da exibição simultânea. Outra perspectiva era gravar a reprise no canal por
assinatura Sportv 2. No entanto, esta reexibição só acontece quando não há a
transmissão de algum evento e nem sempre em horário fixo (geralmente no início da
152
noite). Assim, haveria o risco de perder alguma edição. Portanto, a terceira alternativa
viabilizou esta parte do estudo: assinar o provedor Globo.com e assistir à integra dos
programas disponibilizados na internet. Consideramos a opção interessante e que
atendia às expectativas deste estudo visto que a própria emissora prega a convergência e
a sinergia entre suas diferentes plataformas, se utiliza do site para ampliar as discussões
do programa e até mesmo como uma forma de arquivo e preservação da memória,
permitindo ao usuário comum da internet e, em pontos mais restritos, apenas ao
assinante, o acesso ao vídeo das edições antigas, sem intervalos comerciais36.
Portanto, os 12 programas foram assistidos, catalogados, descritos e analisados.
Para compreender a mensagem veiculada em suas diferentes características, optamos
por empregar à técnica da análise de conteúdo quali-quantitativa.
De acordo com Wilson Correa da Fonseca Júnior (2005), a análise de conteúdo
(AC) é herdeira do Positivismo - corrente de pensamento desenvolvida por Augusto
Comte, que valoriza as ciências exatas como paradigma de cientificidade. Até mesmo as
teorias sobre a vida social “deveriam ser formuladas de forma rígida, linear e metódica,
sobre uma base de dados verificáveis” (JOHNSON, 1997, p.179 apud FONSECA
JÚNIOR, 2005, p.282). A AC tem demonstrado capacidade de adaptação aos desafios
emergentes da comunicação e de outros campos do conhecimento. Sofreu processo de
desqualificação entre os acadêmicos na década de 1970. No entanto, com o advento do
computador, despertou uma retomada de interesse na década de 1990.
Utilizada desde o século XVII, teve o auge na época da Segunda Guerra
Mundial. Em especial nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, a AC foi
vista como uma “reação contra a antiga análise de texto, excessivamente subjetiva, e de
uma necessidade de sistematização imposta pelo prodigioso desenvolvimento de
comunicação de massa” (KIENTZ, 1973, p.10 apud FONSECA JÚNIOR, 2005, p.282).
A análise de conteúdo é sistemática porque se baseia num conjunto de
procedimentos que se aplicam da mesma forma a todo o conjunto analisável.
É também confiável – ou objetiva – porque permite que diferentes pessoas,
aplicando em separado as mesmas categorias à mesma amostra de
mensagens, possam chegar às mesmas conclusões. (FONSECA JÚNIOR,
2005, p.286)
Francesco Casetti e Federico di Chio (1999) a definem como um conjunto de
técnicas de investigação empírica, destinado a estudar os conteúdos recorrentes de uma
36
O mesmo sistema foi aplicado ao programa Leo Batista 80 anos, exibido pelo canal por assinatura Sportv e
mencionado em alguns momentos deste trabalho.
153
determinada amostra de texto (considerado não apenas como um objeto em si mesmo,
mas como um instrumento para refletir sobre o contexto social de produção e recepção).
Textos televisivos se pueden abordar desde diferentes puntos de vista y
estudiar mediante diferentes instrumentos. (...) Los diferentes enfoques
producen diferentes imágenes del objeto que se está estudiando. (...) De
hecho, el texto se considera esencialmente como un contenedor de datos; un
suporte donde se insertan una serie de elementos (precisamente las unidades
de contenidos) a las que la investigación reconoce un significado y un valor
autónomos. (CASETTI, DI CHIO, 1999, p.235)
De acordo com Maria Laura Puglisi Barbosa Franco (2005), o ponto de partida
da AC é a mensagem, seja verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa, figurativa,
documental ou diretamente provocada e que expressa um significado e um sentido (que
não pode ser considerado um ato isolado). Destaca que o significado de um objeto pode
ser absorvido, compreendido e generalizado a partir de características definidoras e pelo
corpus de significação. Já o sentido implica a atribuição de um significado pessoal e
objetivado, que se concretiza na prática social e que se manifesta a partir das
Representações Sociais, cognitivas, valorativas e emocionais, necessariamente
contextualizadas.
Ainda conforme Franco (2005), as descobertas em uma AC devem ter relevância
teórica: um dado sobre o conteúdo de uma mensagem deve, necessariamente, estar
relacionado, no mínimo, a outro dado, sendo representado por alguma forma de teoria.
Assim, implica comparações contextuais: a inferência de conhecimentos relativos às
condições de produção e de recepção das mensagens, inferência esta que recorre a
indicadores (quantitativos ou não). Já Fonseca Júnior (2005) recorre à Bardin e
acrescenta que a AC é uma operação lógica destinada a extrair conhecimentos sobre os
aspectos latentes da mensagem analisada.
Assim como o arqueólogo ou o detetive trabalham com vestígios, o analista
trabalha com índices cuidadosamente postos em evidência, tirando partido
das mensagens que manipula, para inferir (deduzir de maneira lógica)
conhecimentos sobre o emissor ou sobre o destinatário da comunicação
(BARDIN, 1988, p.39-40, apud FONSECA JÚNIOR, 2005, p. 284).
Atualmente, a tendência é utilizar a “análise do conteúdo como investigação”.
De acordo com Casetti e Di Chio (1999, p.246-247), oferece mais espaço ao momento
interpretativo, maior flexibilidade e vocação mais qualitativa: “El número no tiene
154
ningún valor por si mismo, sino que adquiere significado a partir de los modelos que
sugiere, a los que, contemporáneamente, contribuye a valorarlo”.
Franco considera que a vida cotidiana é fruto de um longo, conflitivo e
complexo processo histórico e social. Portanto, a AC está apta a compreender as
situações que ocorrem cotidianamente, ao considerar que elas acontecem em
determinados ambientes (espaços temporais específicos) e no bojo de certos campos de
interação pessoal e institucional que, por sua vez, são mediados por modalidades
técnicas de construção e transmissão de mensagens, cada vez mais complexas nos dias
atuais.
Para apreender a realidade e transformá-la na matéria-prima da profissão,
também recorremos ao critério dos valores-notícia já consagrados. Em Traquina (2005),
encontramos a categorização nos subcritérios: de seleção, subdividido em substantivos,
relacionados à maneira de ver do jornalista, ao “faro” para notícias; e contextuais,
atrelados ao contexto produtivo; e de construção, partindo do princípio que, depois de
recolhidas as informações, deve-se “empacotá-las” em linguagem jornalística.
O primeiro grupo de subcritérios, os substantivos, indica as qualidades que o
fato deve ter para se tornar jornalístico, tais como: a notoriedade, proximidade,
relevância, novidade, temporalidade, notabilidade, o inesperado, conflito, a infração e o
escândalo. Em relação ao segundo grupo, os contextuais, Traquina (2005) evoca como
condicionantes à publicação do fato: a disponibilidade, o equilíbrio, a visualidade,
concorrência e o dia noticioso. Sobre os valores notícia de construção, o autor diz
serem representantes: a simplificação, amplificação, relevância, personalização,
dramatização e a consonância. Ele ainda atenta ao papel de destaque que tem a política
editorial da empresa na seleção dos fatos que entrarão ou não na ordem do dia. Assim
como interferem no trabalho dos profissionais as rotinas jornalísticas (relação fontejornalista), a produtividade das rotinas e a direção da organização jornalística.
Avaliando a noticiabilidade no jornalismo esportivo, Li-Chang Shuen Cristina
Silva Souza (2005, p.5) lembra que as escolhas nem sempre representam aquilo que o
público verdadeiramente quer saber, e sim o que os produtores das notícias acreditam
que a audiência queira saber: o que atinge o maior número de pessoas, o conflito e a
rivalidade (entre times, atletas, torcedores, países), o resultado (principalmente quando
o improvável acontece), histórias de personagens relacionados ao evento (superação,
155
modelo exemplar, emotividade, humanização do esporte e da disputa), algo inesperado
ou incomum envolvendo um personagem no torneio.
Diante das leituras já realizadas e também com fundamentação nas definições de
valores-notícias detalhadas por Traquina (2005), as características já levantadas no
formato praticado atualmente pelo Jornalismo Esportivo da TV Globo e a partir dos
depoimentos dos responsáveis pelos GEs em entrevistas já publicadas em revistas e
artigos, é possível estabelecer os critérios de aproximação e apreensão do programa.
Detalharemos as seguintes características: tempo de duração e divisão em quantos
blocos; quantas matérias exibidas; quais as temáticas tratadas e de que forma foram
apresentadas.
A princípio, foram estabelecidas as seguintes inferências para a análise das
edições do Globo Esporte para esta dissertação de Mestrado.
a) Informativo – algum dado ou fato relevante, abordagem sobre temas que
acrescentem algum conteúdo ao telespectador;
b) Informalidade – qual foi a linguagem que foi utilizada, se foi coloquial, se
foi mais séria.
c) Banalização – tratamento prioritário ao curioso e inusitado, enfraquecendo o
aspecto informativo para chamar a atenção do telespectador.
d) Humor – será avaliado se foi utilizado para criticar, informar ou
potencializado como uma válvula para entreter.
Sabemos que estas inferências nem sempre aparecem 100% puras. Costumam
estar misturadas no produto oferecido ao telespectador, mas ainda assim são
identificáveis dentro do cada contexto de cada programa. Lembrando ainda que estes
critérios não englobam toda a análise possível sobre o objeto, mas destacam as
características mais relevantes para este estudo.
Começando pelo Globo Esporte São Paulo, a edição de segunda-feira, 20 de
agosto foi apresentada por Ivan Moré e a que teve o maior tempo entre todos os
programas analisados: 24’08” (perto da média de tempo original do programa: 23’09”),
divididos em três blocos com as seguintes durações: 10’27”, 7’21”, 6’18”. Foram cinco
VTs (matérias/reportagens): sobre o clássico Santos 3 x 2 Corinthians (6’49”, exibido
logo no início do jornal), sobre Atlético Goianiense 2 x 1 Palmeiras (3’09”, exibido no
início do 2º. bloco), sobre São Paulo 3 x 0 Ponte Preta (2’54”, também exibido no 2º.
bloco), uma copilação de alguns gols e imagens inusitadas da rodada (1’10”, na abertura
156
do 3º. bloco) e “Irritabilidade Tite” (3’37”, no 3º. bloco). Além disso, foram três
participações do comentarista Caio Ribeiro no estúdio: 2’32” para a análise detalhada de
lances e daspolêmicas em Santos x Corinthians no 1º. bloco, e comentários mais rápidos
0’28” sobre o Palmeiras (no 2º. bloco) e outros 0’36” sobre o comportamento do técnico
Tite, do Corinthians, no 3º. bloco (ele disse que houve exageros no jogo e discordou das
críticas do Tite a Neymar, lembrando que o atacante corinthiano Jorge Henrique já fez e
faz exatamente a mesma coisa contra os adversários). Além disso, no 1º.bloco, foi
exibida uma sonora de 0’18” extraída da entrevista coletiva do técnico corinthiano. E
ainda, as duas passagens de bloco continham informações sobre o que ainda seria
exibido no programa: do 1º. para o 2º. bloco, imagens do Tite durante o jogo e a legenda
“Irritabilidade” (uma referência aos neologismos criados pelo treinador) e do 2º. para o
3º bloco, a legenda era “Nervoso”, com o uso do momento da coletiva onde o técnico
desabafou aos gritos contra os erros de arbitragem do jogo.
Passando para a análise do conteúdo do programa e a aplicação das inferências,
o técnico do Corinthians, Tite, foi o grande personagem da edição, com os trechos da
coletiva usados na matéria, mas de forma independente (na sonora exibida no 1º. bloco,
ele criticava o comportamento de Neymar, do Santos: “simular situação, levar
vantagem, isso não é do jogo. Isso é mas exemplo para o garoto, para quem tá
crescendo, pra meu filho, pra quem vai olhar e dizer levar vantagem nas coisas... Cara,
tem que dar um chega, chega, chega”), que funcionou como uma prévia da matéria que
seria exibida no terceiro bloco sobre a raiva do treinador com o jogo. Além disso, ele foi
o tema das duas passagens de bloco, na primeira, Ivan Moré anunciou “o professor Tite
tá bravo, bravo, bravo” e imagens do treinador gesticulando durante a partida.
Já a que foi exibida do 2o. para o 3º. bloco foi anunciada da seguinte maneira
pelo apresentador: “e vocês vão perceber que o Tite saiu de campo cuspindo fogo” e
entrou parte da coletiva, que já havia sido exibida na matéria, onde o técnico gritou:
“Todo sentimento que ele tem, eu tenho também! O sentimento que ele tem, eu tenho
também!”. E no terceiro bloco, o prometido VT “Irritabilidade Tite”: um resumo de
trechos da coletiva pós-jogo do técnico, onde ele reclama da qualidade da arbitragem,
do comportamento de Neymar. Não há narração de repórter, pontuado por trilha sonora,
imagens do jogo, caras e bocas, respirações profundas entre as respostas. Algumas
partes das sonoras de Tite foram cobertas por imagens referentes à reclamação ou ao
lance que mencionava. Logo após a exibição na matéria do 3o. bloco, o comentário do
157
apresentador foi “Aí, Caio, nunca vi o professor tão bravo assim, não. Justifica tanta
braveza?”. Podemos enquadrar essa cobertura nas inferências informativa (cada um
dos três momentos: tanto a sonora quanto as matérias sobre o clássico e sobre a raiva do
treinador), informalidade (a forma como foram apresentadas, em especial a sonora
solta e a utilizada na passagem de bloco e depois da matéria “Irritabilidade Tite”, se
aproxima do universo utilizado pelos torcedores para comentar o comportamento) e
banalização (o excesso de momentos de raiva do técnico corintiano – com menções em
todos os blocos do programa – diminui o impacto da fala dele).
Desta forma, o clássico esteve presente ao longo desta edição – ganhando
destaque nos extremos, tendo todo o primeiro bloco dedicado aos materiais produzidos
e à análise do jogo e voltando à pauta no encerramento com a matéria sobre a raiva do
técnico corintiano. A matéria de Renato Cury exibida na abertura teve todo o tratamento
de textos, imagens e trilha sonora caprichadas, destacando a polêmica, as confusões, a
rivalidade, os detalhes dos lances. As polêmicas foram destacadas: o erro de arbitragem
– o bandeirinha Emerson Augusto de Carvalho validou o gol do Santos, mas no lance
houve triplo impedimento. Os corintianos também reclamaram de uma falta não
marcada de Ganso em Douglas no meio de campo que quase resultou em outro gol do
Santos. No fim da partida, Neymar reclamou do comportamento de Guilherme, um
jovem jogador rival, que numa dividida o empurrou contra a parede de vidro que cerca a
Vila Belmiro:
OFF RENATO CURY: Depois do apito final, ele foi tirar satisfação. (sobe
som da narração Cléber Machado: “O Neymar ficou bravo mesmo com o
Guilherme”).
OFF RENATO CURY: Pela leitura labial, deu pra ver que ele mandou um
‘Tu é moleque!’
NEYMAR (ainda no campo, após o jogo): “Não precisa me empurrar, acaba
arrumando confusão. Isso aí, nada a ver. É um jogo de futebol, agora se ele
quiser brigar, não é aqui o ramo dele”.
OFF RENATO CURY: A verdade é que os moleques da Vila estavam felizes
da vida com a vitória no clássico contra o rival.
NEYMAR (ainda no campo, após o jogo): “é um momento em que a gente tá
subindo. É a segunda que a gente ganha seguida, é um momento importante,
tem que vibrar, tem que estar feliz sim. E a partir de amanhã... quarta-feira
tem mais”.
(voltam imagens dos jogadores do Santos dançando na comemoração do 1º.
gol) e o SOBE SOM: “Agora fiquei doce, igual caramelo. Tô tirando onda de
Camaro Amarelo.” (Globo Esporte, 20/08/12, acesso pela internet37).
37
Os links de todos os programas Globo Esporte acessados e estudados para esta dissertação estão discriminados nas
Referências Bibliográficas.
158
Neste VT, temos características informativas (quem vê consegue entender o que
aconteceu na partida – desde os lances de jogo, até a rivalidade e as confusões), de
informalidade (todo o tratamento de texto e escolha de imagens e trilha sonora
pretende prender a atenção do telespectador) e banalização (a escolha de sucessos
musicais do “momento” para pontuar o time do Santos é algo que estará presente ao
longo da semana. Mais à frente voltaremos a este tema).
A mesma atenção com detalhes da edição é vista na matéria fechada de redação
com imagens da transmissão do jogo e a narração de Ivan Moré sobre a derrota do
Palmeiras para o Atlético Goianiense por 2 a 1, como se estivesse contando o jogo para
um amigo, atendendo às inferências informativa e de informalidade. No entanto, a
trilha sonora e os efeitos sonoros chamam a atenção: música instrumental em ritmo mais
acelerado, até falar que o Palmeiras já estava perdendo o jogo: nas partes de vantagens
do Atlético Goianiense a música era uma moda de viola. Em um momento, ao se referir
na defesa, houve sobe som de zurros (uma crítica aos erros que causaram a derrota).
Quando o Palmeiras melhora e faz gol, a trilha sonora muda para uma música de
sertanejo universitário. Ainda volta ao ritmo acelerado, até que, para anunciar a derrota
do Palmeiras, retorna à moda de viola. Vale também o detalhe na edição de imagem, no
segundo gol, usando de efeitos para destacar que o jogador que marcou estava sem
nenhum acompanhamento da defesa alviverde. A reta final da matéria é o off do
repórter: “foi a décima derrota do Palmeiras no campeonato e uma constatação: a coisa
tá feia”, a frase do Felipão, então treinador do time paulista: “O que o treinador pode
passar a vocês é que nós não temos tido a qualidade superior aos adversários e por isso
não vencemos”, o sobe som do narrador “É do Atléticooooo” e sobe som de toque de
berrante. Aqui temos características de banalização, porque a trilha sonora chama
muito a atenção, reforça a informação de “burrice” e “estupidez” da defesa do time
paulista, além de todos os estereótipos relacionados ao time goiano e ao confronto time
da cidade x time do interior, onde o “pequeno” vence o “grande” e comemora tocando
berrante. Também temos características de humor, em especial, para os nãopalmeirenses, que se divertiram com o deboche da desgraça alheia.
Houve ainda tempo para comentários sobre “o cabelo bem cortado” de Caio
Ribeiro “ao contrário do meu”, como pontuou Ivan Moré logo na abertura, que se
encaixam em informalidade, conversa do dia-a-dia, mas que também pode ser
banalização, por não acrescentar jornalisticamente nada ao telespectador. Em
159
contrapartida, a matéria sobre outras partidas da rodada do Campeonato Brasileiro,
fechada na redação com narração do repórter-apresentador Ivan Moré, soube ser
informativa, informal e ainda ter humor usado para a crítica.
IVAN MORÉ (estúdio): No Globo Esporte a gente mostrou hoje o grande
erro da arbitragem no jogo entre Santos e Corinthians. Vamos mostrar agora
que teve também um monte de erro nos jogos da rodada de ontem. Confere
aí.
OFF IVAN MORÉ: O Coritiba meteu uma penca no Cruzeiro: 4 a 0. E aí o
jogo perdeu o interesse pra esse trio aí, ó, a caxeta passou a dar mais emoção.
(imagens dos torcedores jogando baralho na arquibancada do Estádio Couto
Pereira).
Aliás, lá no Engenhão, o Léo Moura poderia (sobe som do áudio do narrador)
ter ficado na arquibancada. Porque perder um gol desses aí, meu filho, não
dá, vai. Inacreditável futebol clube para você. Vai jogar caxeta, vai, Léo!
(outro sobe som do narrador: “Incrível a chance que Léo Moura desperdiça
aqui no Engenhão”).
Outro que não merecia ficar em campo era o Adryan. Entrada criminosa no
Auremir. Acho que nem no MMA este tipo de golpe é permitido. E o
Marcelo de Lima Henrique só deu amarelo pro cara. Errou.
Mais um erro no jogo entre Flamengo e Vasco. O González levou amarelo
sem merecer, porque repare que quem fez a falta no Éder Luiz foi o Cáceres.
Outro vacilo do juizão. Aqui o Éder Luiz quis meter uma malandragem
descarada (entra BG da música: “malandro é malandro, Mané é Mané”, de
Diogo Nogueira). Em câmera lenta, a gente viu que ele não foi derrubado e
sim chutou o chão. Migué total e ainda ficou reclamando. No fim das contas,
quem saiu no lucro foi o Flamengo. O Vagner Love aproveitou o rebote do
chute de Ramon e o time dos dois saiu com os três pontos do clássico (Globo
Esporte, 20/08/12, acesso pela internet)
A matéria sobre São Paulo x Ponte Preta destacou o retorno do atacante Lucas à
equipe do Morumbi, após 45 dias cedido à Seleção Brasileira para a disputa das
Olimpíadas. Os dois times precisavam da vitória, após resultados ruins. A matéria, feita
por Mauro Naves, é informativa, porque a linha mais tradicional, com texto, sonoras e
trilhas contando a história do jogo sem excessos ou enfeites.
Já edição da terça-feira, dia 21 de agosto, teve o retorno do apresentador titular,
Tiago Leifert. Durou 18’14”, em três blocos de 4’20”, 4’26” e 9’26”. No primeiro
bloco, um link ao vivo de 3’08”, direto de Salvador para falar sobre o começo das
inscrições para ser voluntário na Copa do Mundo. Além disso, foram exibidos quatro
VTs: jogo São Paulo x Bahia pela Copa Sul-Americana com 1’45”; outro sobre a
viagem do Santos para jogar contra a Universidad do Chile pela Recopa, com 1’18” e
um sobre a premiação “Empresário Amigo do Esporte” com 0’39”, todos exibidos no
segundo bloco. E encerrando, o VT com a entrevista com o piloto Felipe Massa, que
durou 8’52”.
160
Analisando o conteúdo, esta edição começou com uma explicação do motivo da
exibição ter começado 12h35, 15 minutos mais cedo que o habitual: “Sei que o almoço
não está nem na mesa ainda, mas já estamos aqui. Pelos próximos meses, até o fim da
eleição, meio dia e meia, meio dia e trinta e cinco Globo Esporte na área” (conseguindo
ser informal e ainda informativo com objetividade). Em seguida, fez um link com um
assunto factual também tratado no SP TV, o telejornal local (fato destacado por Tiago
Leifert): o evento que lançou e explicou o sistema de inscrição para ser voluntário na
Copa das Confederações, em 2013 e Copa do Mundo, em 2014. Por isso, ele chamou a
participação do repórter Sérgio Pinheiro. Deu tempo para o seguinte diálogo:
TIAGO LEIFERT (estúdio): eu tô de polo, tô até mal vestido perto de você,
meu amigo Sérgio Pinheiro, bom dia
SÉRGIO PINHEIRO (vivo, Salvador): Olá, Tiago, boa tarde. Gostou do
visual?.
TIAGO LEIFERT (estúdio): Tá demais! Tá demais!
SÉRGIO PINHEIRO (vivo, Salvador): Ocasião importante aqui, né?
(Globo Esporte, 21/08/12, acesso pela internet)
Após este momento de informalidade, que podemos atribuir características de
banalidade (um “nariz de cera” para recorrer a um termo do jornalismo impresso sobre
a demora em introduzir o assunto), só então começa a parte informativa: o repórter
Sérgio Pinheiro passa a explicar como se inscrever e conversa com o tetracampeão
Bebeto, que é baiano e um dos “embaixadores” da Copa no país, sobre a importância
das pessoas se cadastrarem como voluntários. Ao devolver para o estúdio, Tiago Leifert
reforça ainda o aspecto informativo de uma maneira informal, para facilitar a
compreensão: diz que o voluntário é a cara do evento e do país, por ser o contato com os
turistas em vários momentos do torneio. O apresentador repete os critérios e que a
pessoa não ganha nada, exceto alimentação e transporte. Ele pede que recoloquem a arte
da FIFA no ar para mostrar aos interessados como fazer - mais uma aplicação da
inferência informativa. Então chama a passagem de bloco, destacando que terão
informações sobre os jogos do São Paulo e do Santos pela Recopa. Já o encerramento é
com imagens da entrevista de Ivan Moré com Felipe Massa, destacando o desespero do
piloto da Fórmula 1 com o jeito do jornalista dirigir (um chamariz que podemos
considerar informal e banal para a matéria).
No segundo bloco, Tiago Leifert chama o primeiro VT do programa, “São Paulo
joga hoje contra o Bahêa”, imitando o jeito dos baianos se referirem à equipe, um
aspecto de descontração e informalidade. A matéria de Mauro Naves já começa no
161
telão do estúdio até que a imagem abre para tela cheia. O tema: a importância da
competição para o time paulista. Como na matéria exibida na segunda-feira, o repórter
optou pelo aspecto informativo, primando pela objetividade: pontuou que o treino nada
revelou sobre a escalação para o jogo daquela noite, pela Sul-Americana.
Em seguida, Tiago Leifert diz que o Santos viajou para enfrentar a Universidad,
na primeira partida da Recopa – outra inferência informativa. No entanto, o material
fechado com imagens do embarque no Brasil e desembarque no Chile, prioriza a
repercussão das críticas do técnico corintiano Tite, ao comportamento do atacante
Neymar.
OFF RENATO CURY: Você acha que o Tite exagerou ao dizer que você não
é um bom exemplo para a nova geração, diante de tudo que você faz no
futebol?
NEYMAR (no aeroporto, apressado): (uma risadinha) É com a consciência
dele. A minha tá tranquila.
OFF RENATO CURY: Você achou que foi um pouco exagerado, injusto
talvez?
NEYMAR: Depois a gente conversa sobre isso aí. Essa semana eu dou
coletiva... A gente lá conversa bastante. Deixa eu ir embora agora.
OFF RENATO CURY: O companheiro de time e amigo de Neymar, Paulo
Henrique Ganso, também falou sobre a declaração do treinador do
Corinthians.
GANSO: Uma coisa que a gente também não espera. Até porque o Tite é um
excelente treinador e o Neymar é um craque do futebol brasileiro e do futebol
mundial. Então tenho certeza de que ele vai dar exemplos bons e sempre
podendo ajudar ao filho dele e às muitas crianças que sempre querem ser
como ele.
OFF RENATO CURY: Depois de pouco mais de três horas de viagem, a
chegada a Santiago. Confusão e empurra-empurra na tentativa de falar com o
atacante. (Sobe som da confusão). Para os jornalistas chilenos, tentativa em
vão. Amanhã contra o Universidad do Chile, o Neymar vai tentar ajudar o
Santos a dar um passo importante na busca pelo segundo título do Santos na
temporada (Globo Esporte, 21/08/12, acesso pela internet).
A matéria possui características informativas ao ser uma sequência do assunto
abordado amplamente no dia anterior. Para não ficar só nos “protagonistas da
polêmica”, a reportagem usou a resposta diplomática de Paulo Henrique Ganso sobre o
caso.
Em seguida, entrou um VT sobre a entrega do prêmio “Empresário amigo do
Esporte” feito pelo repórter Ivan Andrade. É informativa, ao explicar que o Ministério
do Esporte fez um evento para agradecer e reconhecer o apoio das empresas privadas e
de quem investe no esporte brasileiro. A informalidade é retomada na passagem de
bloco, com Tiago Leifert destacando que “o coitado do Felipe Massa foi obrigado a
pegar carona com o Ivan Moré dirigindo um carro de corrida. E foi obrigado a dar
162
entrevista. Coitado do Massa. Nós voltamos já”, enquanto passavam imagens da
entrevista nos boxes de Interlagos e do repórter e do piloto no carro.
O terceiro bloco foi dedicado à exibição da entrevista, que tinha sido anunciada
no fim do programa de segunda-feira e ao longo da edição da terça-feira. Tiago Leifert
explicou que o Felipe Massa estava no Brasil por causa das “férias de verão”38 da
Fórmula 1 e chama o VT do Ivan Moré.
O bate-papo entre repórter e piloto foi gravado no autódromo de Interlagos,
sobre a rotina dele de viagens, as férias e se visitou a família no interior. Então, começa
o desafio da direção pelo circuito em um carro Fiat (empresa que faz parte do grupo
Ferrari, escuderia onde o brasileiro trabalha): primeiro com Felipe Massa dirigindo e
Ivan Moré de carona (e avaliando a volta) e depois com a troca de funções (e a
inabilidade do repórter ao volante é reforçada pelos vários momentos do piloto dando
ordens: “freia, freia, acelera, acelera”). Depois, ainda de macacão, conversam sobre a
carreira, se Massa está atravessando o pior momento, se está confiante em permanecer
na F1.
A entrevista foi gravada em plano-sequência, com câmera on board no carro
para acompanhar as reações dos dois e com três momentos distintos – uma forma de
sustentar o interesse e a atenção de quem está assistindo em uma reportagem que dura
8’52”. Também há interferências na edição: quando Felipe falou de Botucatu, terra dos
pais dele, entraram imagens da tranquilidade de cidades do interior, criança andando
sozinha, com sobe som de canto de pássaros; já os momentos antes de Ivan Moré dirigir
o carro são pontuados com cenas do Tonho da Lua (personagem da novela “Mulheres
de Areia”). Em outros momentos, para provocar o repórter, que foi de óculos escuros
com armações vermelhas (chamadas de rosa por Felipe Massa) e passou muito tempo
arrumando o cabelo (algo que também atraiu a implicância do piloto) tocou a frase
“Deus me livre e guarde de você”, da música “Reza”, de Rita Lee (tema do personagem
Cadinho, do ator Alexandre Borges, em “Avenida Brasil”). Depois da exibição, Tiago
Leifert completou: “Foi depois dessa reportagem que Ivan Moré foi ao veterinário e
cortou o cabelo como vocês viram ontem e sábado. Está terminando o Globo Esporte,
agora mais cedo por causa do horário eleitoral, meio dia e meia. Beijo, fui, tchau!”.
Entra clipe das imagens do Felipe Massa dando ordens ao Ivan Moré até o selo do
jornal.
38
Pausa de três semanas nas atividades da modalidade, no mês de agosto, para que os trabalhadores das equipes e das
montadoras possam ter férias no verão europeu.
163
A matéria reúne as quatro inferências utilizadas no estudo: é informativa, por
conter detalhes da carreira do piloto e a opinião dele sobre o mau momento na
temporada; usa a informalidade entre entrevistador e entrevistado para sair do clima
“oficial” relacionado à categoria – abordando aspectos da vida familiar, algo que o
tornaria tão “gente como a gente” quanto o telespectador; aproveita o humor da
situação: jornalista dirigindo com piloto de carona (e como já foi antecipado ao longo
do programa, o desespero de Felipe Massa, tolhido do controle do volante, reforça a
imagem de motorista ruim de Ivan Moré) e tem momentos de banalização, em
pontuações escolhidas na edição, em especial, as que tornam o repórter a estrela da
matéria, inclusive com a ajuda do entrevistado, tirando o foco do que seria o objetivo
esperado: falar sobre o presente e o futuro do piloto na categoria do automobilismo que
é transmitida exclusivamente pela emissora. E a banalização acaba se tornando a última
palavra, porque é o aspecto utilizado como gancho para o comentário “repórter foi ao
veterinário e cortou o cabelo” feito pelo apresentador. No fim, o reforço da informação
do novo horário do programa.
A edição de quarta-feira, dia 22 de agosto teve 14’30, distribuídos em três blocos
de 4’18”, 7’30”, 2’40”. Foram exibidas quatro matérias: sobre o Palmeiras, com 2’44” e
sobre o Santos com 1’49”, além de uma matéria sobre o UFC, com 2’22”, todas no
segundo bloco. O VT sobre o Corinthians, com 1’39” passou no terceiro bloco. E ainda
houve uma entrada ao vivo de 3’44”, no primeiro bloco, com Alexandre (apresentado
como “Alê”) Lozetti, do Globoesporte.com, dois loc off: um de 0’32” sobre o atacante
Zé Love tendo a chance de treinar no Milan, exibido no segundo bloco e outro de 0’25”,
no terceiro bloco, com fotos da festa de aniversário do atacante Lucas na madrugada do
dia, após a partida pela Sul-Americana, além de 0’37” no encerramento.
O programa começou com uma notícia factual: São Paulo fez uma proposta ao
Santos para comprar Paulo Henrique Ganso. Para repercutir e passar as informações,
Tiago fez um link ao vivo direto da redação do Globoesporte.com, para conversar com
o repórter Alê Lozetti. Antes, apresentou um gráfico no telão para explicar a divisão dos
direitos relativos ao jogador: 55% DIS (grupo de empresários) e 45% Santos. Ao longo
da conversa, este e outros gráficos para ilustrar o que estava sendo dito surgiam em uma
segunda tela abaixo da janela onde estava o Ale Lozetti ao vivo, ganhava tela cheia para
o telespectador entender e retornava à tela menor.
164
Fig. 1 – vivo explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
ALÊ LOZETTI: Boa tarde, Tiago, tudo bem? Pois é, o São Paulo oficializou
essa proposta, que diz ser a maior proposta do futebol brasileiro. Acho que a
grande sacada dessa proposta é justamente o fato de ela envolver três partes,
envolver o São Paulo, envolver o DIS – que tem 55%, a maioria do Ganso – e
envolver o Santos. O São Paulo diz agora que está numa cadeira cativa. Tá
esperando o jogador, DIS e Santos entrarem num acordo, vê se o Santos topa
liberar. O Santos já recusou a primeira, achou a proposta baixa, enfim, acha
que os valores não são aquilo que eles estavam esperando. Mas o São Paulo
pretende aumentar, pode fazer uma nova proposta.
TIAGO LEIFERT: Vamos dar uma olhada na proposta do São Paulo, aqui ó.
(entra arte da proposta, conforme esquema explicado antes). 45%. O São
Paulo, segundo o Alê apurou, ofereceu 10.7, né, 10 milhões de reais. O
Santos quer 23 milhões. Então a proposta 13 milhões mais baixa do que o
Santos esperaria. Agora a proposta do São Paulo pra outra parte, 55%, você
conseguiu apurar, Alê? Até ontem a gente ainda não tinha essa informação,
vai até aparecer uma interrogação na tela para você aqui. Mas você já
conseguiu apurar, não?
Fig. 2 – arte explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
ALÊ LOZETTI: Pois é, o São Paulo ofereceu pro DIS 12.3 milhões de reais.
12.3 mais os 10.7 dá 23 milhões. O São Paulo alega o seguinte: o Santos, lá
atrás, vendeu 55% do Ganso, a maior parte do jogador, agora não pode querer
165
receber um valor pelos 100%. Então é aquela coisa... Nem um apartamento,
Tiago, você chuta um pouco mais baixo, sabe que o Santos vai pedir mais e
eles vão tentando chegar num valor comum, se conseguir chegar neste valor
próximo, pode dar negócio. Agora, a parte do DIS é um pouco maior e entre
São Paulo e DIS há um acordo, porque o DIS também é empresário do
Ganso, eles são representantes do Ganso. Mesmo que eles vendam a parte
deles, eles vão continuar trabalhando com o jogador e o DIS quer ver o
Ganso no São Paulo. DIS e Santos não se dão muito bem, relacionamento
não é tão legal. Então o DIS quer ver o Ganso no São Paulo para ver se ele
recupera. São Paulo e empresários estão alinhavados. Falta o Santos entrar
neste acordo.
Fig. 3 – vivo explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
Fig. 4 – vivo explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
TIAGO LEIFERT: Então a gente tem essa situação. Então, pro São Paulo,
que é a próxima tela (entra tela Quanto Vale Ganso?), o Ganso vale 22, 23
milhões de reais. Pro Santos e pra a DIS, 53 milhões. É uma diferença
grande. São Paulo está disposto a negociar até onde, Alê? Quanto mais o São
Paulo pode aumentar isso aí, você acha?
166
Fig. 5 – arte explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
Fig. 6 – vivo explica “Caso Ganso”, GE SP 22/08/12
ALÊ LOZETTI: O que vai aumentar aí, se aumentar, é a parte do Santos
mesmo. Como a gente falou, São Paulo e empresários, o grupo de
investidores, já tão encaminhados ali no mesmo sentido. Mas não esperem
que vai aumentar 5 milhões, 6 milhões. É aquela coisa. Não ofereceu 10 pra
subir pra 20, de jeito nenhum. O São Paulo aceita subir essa proposta 2
milhões, 2 milhões e meio. Enfim, de repente, o Santos pode até pedir um
jogador, não parece ser o caso e o São Paulo não tá interessado em colocar
jogadores na história. Pode aumentar ali 2 a 3 milhões, não mais do que isso.
O São Paulo acha que o Ganso querendo jogar no São Paulo e os investidores
estando do lado, isso vai ser um trunfo na negociação com o Santos. De
repente o jogador falar “olha, eu quero ir”, o Santos pode ficar menos
exigente e a proposta subir e agradar. Esse (sic) é a expectativa dos dirigentes
do São Paulo (Globo Esporte, 22/08/2012, acesso pela internet).
O apresentador agradeceu a participação e avisou aos telespectadores que Alê
Lozetti voltaria sempre que houvesse novidade/furo no caso, além de informar que
quem quisesse saber mais deveria visitar o Globoesporte.com. A negociação só se
concretizou quase um mês depois, após várias reviravoltas, uma “novela do futebol”39.
39
Informações sobre a conclusão da transferência de Paulo Henrique Ganso do Santos para São Paulo no site
Globoesporte.com, do dia 21/09/12, disponível em < http://globoesporte.globo.com/futebol/times/sao-
167
Foi um exemplo de como o GE SP usou o tempo de forma informativa e
informal, explicando os detalhes, entraves e possíveis desdobramentos da negociação.
E para facilitar a compreensão de tanta burocracia e jogo de estratégia, o entrevistado
foi outro repórter de um veículo da empresa (facilitando a sinergia e a parceria entre as
diferentes mídias da Rede Globo), que estava acompanhando o caso, com ajuda dos
gráficos e das intervenções de Tiago Leifert. O assunto não foi apresentado de forma
corrida e objetiva – ao todo foram gastos 3’44” (todo o primeiro bloco do jornal) para
pontuar os aspectos que poderiam ser considerados para o desfecho do caso. E por se
tratar de um assunto “sério”, não houve características nem de banalidade e de humor,
que não cabiam nesta cobertura e poderiam causar ambiguidade em relação ao tema e ao
próprio trabalho desenvolvido pela equipe.
Encerrado o assunto, Tiago Leifert chama a passagem de bloco, destacando os
seguintes temas: jogo da véspera São Paulo x Bahia, jogo do dia Palmeiras x Botafogo.
E no fechamento, o destaque é o UFC: “os caras foram posar para fotos e morreram de
vergonha”. A primeira parte termina com um clipe com imagens dos lutadores posando
para as fotos promocionais do evento e a legenda: “Modeletes”. Podemos aplicar as
inferências informativa (o próximo evento da modalidade será no Brasil), humor (o
inusitado: lutadores agindo como modelos) e até de banalização (a legenda
“Modeletes” soa como deboche da situação).
O segundo bloco começou com um loc off sobre o período de testes40 do exatacante do Santos e atual do Genoa, Zé Love, no Milan, que teria opção de compra. É
informativo e informal, atualizando os telespectadores sobre o destino do jogador, que
atuou no estado. Em seguida, a dobradinha informação e informalidade aparece na
chamada da reportagem a respeito do jogo Botafogo x Palmeiras, pela Sul-Americana.
“Botafogo que virou ‘meio’ freguês do Palmeiras nos últimos tempos aí. É hoje, ao
vivo, depois de Avenida Brasil”. O VT de Mauro Naves tem trilha sonora diferenciada,
em relação aos outros feitos por ele e exibidos anteriormente na semana (embora não
seja dominante), imagens do treino da véspera e arte para explicar a quantidade de
desfalques do time (conforme a figura 7) e a dificuldade do técnico Felipão em definir
titulares e reservas para a partida.
paulo/noticia/2012/09/ganso-assina-contrato-de-cinco-anos-e-enfim-e-jogador-do-sao-paulo.html>. Acesso em 12 de
janeiro de 2013.
40
No
entanto,
a
transferência
não
foi
concretizada.
Ver
em
<
http://esportes.terra.com.br/futebol/internacional/italia/campeonato-italiano/falta-de-acordo-com-genoa-faz-milandesistir-de-ze-eduardo,77b858554bb9a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html> Acesso em 12 de janeiro de 2013.
168
MAURO NAVES OFF: E o pior é que nem todos os disponíveis podem ser
usados. Como, por exemplo, Correia, que está cheio de vontade, mas não está
inscrito na Copa Sul-Americana. Então basta fazer uma continha rápida para
ver o tamanho do problema: dos 25 jogadores inscritos, oito estão no
departamento médico e três são goleiros. Tirando um deles já que o normal é
utilizar apenas dois, sobraram 16 atletas. Ou seja, 11 para começar a partida e
apenas cinco – e não sete – para o banco de reservas (Globo Esporte,
22/08/2012, acesso pela internet).
Figura 7 – arte VT Palmeiras GE SP 22/08/12
Mauro Naves destacou que o time viajou confiante, pela vantagem de 2 x 0 no
jogo de ida e pela fase do atacante Barcos, que “já demonstrou que gosta de fazer gols
contra o Botafogo”: no início do mês, dois jogos – pelo Brasileiro e pela Sul-Americana
– em uma semana, o Palmeiras venceu ambas por 2 x 0 e 2 x 1 e todos os quatro gols
foram marcados pelo argentino, que não fala na matéria. A entrevista exibida foi do
goleiro Bruno, que participou da coletiva do dia. Mauro Naves entregou um resumo
informativo e objetivo, sem ser chato, da situação do Palmeiras, de um jeito
considerado informal, reforçado pela arte utilizada para explicar os desfalques da
equipe.
De volta ao estúdio, Tiago Leifert lembra que o Santos estava no Chile para a
primeira partida da Recopa, entre os campeões da Libertadores e da Sul-Americana,
contra a Universidad do Chile e chama a matéria no telão. O VT de Renato Cury
começa com imagens de Neymar chegando para o treino de reconhecimento do estádio
Nacional, onde seria o jogo da quarta-feira à noite, ao som de hip-hop e música
dançante e imagens do time brincando em campo. A música foi retirada na passagem do
repórter e nas sonoras e retornou quando foi mencionada a possível dupla de ataque
titular – André e Neymar e também no off que chamou a fala do atacante Miralles (neste
169
caso, uma música em Espanhol). Teve sonoras do meio campo Arouca sobre o jogo e
sobre o fato de Neymar ainda não ter marcado gols no exterior com a camisa do Santos.
E uma fala de Miralles, dublada por Tiago Leifert, o único atleta que conhecia o local:
“É a torcida de La U. não gosta de mim porque fiz muito gols neles com o Colo Colo”.
Tem as características informativas, situando os telespectadores sobre os desafios e
dificuldades esperadas para o confronto e elementos de banalização (através da escolha
musical utilizadas durante os offs do repórter).
Tiago Leifert chama o VT do UFC Rio, dizendo que os lutadores posaram para
as fotos promocionais do evento. A matéria é do repórter Edson Vianna, da equipe do
Rio de Janeiro, acompanhando o “dia de modelo” dos lutadores, o receio do fotógrafo
em pedir para repetir, as dificuldades dos atletas em posar – exceto Glover Teixeira, que
adora tirar fotos e diz que os outros reclamam porque “são feios demais, né cara?”.
Destaque também para Rampage Jackson, que faria contra Glover a luta de despedida
do UFC. O norte-americano disse que não gostava de fotografar, mas cumpria a
obrigação e que fazer cinema era mais divertido (entraram imagens do lutador como
ator, no filme “Esquadrão Classe A”). A matéria consegue ser informativa e informal,
aproveitando de um fato incomum na rotina dos lutadores, sempre associados à força e a
violência dos combates, enfrentando dificuldade com algo diferente do que estão
habituados. Há elementos de humor, diante do medo do fotógrafo e as provocações
entre os próprios lutadores-modelos. E apesar de uma promessa de banalização –
através do “Modeletes” usado como chamada na passagem de bloco – a matéria não
segue neste sentido.
Em seguida, o apresentador chamou a passagem de bloco, mesclando inferências
informativas e informais: “Ontem Lucas comemorou o aniversário atrasado e ele fez o
esquenta no Morumbi. Daqui a pouquinho, tem São Paulo e Bahia” com imagens do
Lucas no jogo da véspera e passagem de bloco com a legenda “Esquenta”.
O terceiro bloco começou com uma matéria sobre o Corinthians, que se
preparava para o clássico contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, mas ainda
discutia a derrota contra o Santos. O VT de Abel Neto destaca que o zagueiro Paulo
André concordou com as críticas do técnico Tite à Neymar:
PAULO ANDRÉ: Eu acho realmente que ele simula bastante durante o jogo.
Ponto. Então que os árbitros vejam, estudem, que todos têm acesso aos jogos
e quando isso acontecer, que seja punido. Só isso.
170
REPÓRTER (não identificado): Existe algum jogador aqui no Corinthians
que também simula bastante, Paulo?
PAULO ANDRÉ: Existe em todos os times, que todos sejam punidos.
Porque isso é o antijogo, tentar ludibriar, enganar. (Globo Esporte,
22/08/2012, acesso pela internet).
Apesar de insistir no assunto da polêmica, o mérito é apresentar o
questionamento informativo (que tinha sido feito na segunda-feira pelo comentarista
Caio Ribeiro no estúdio): o Corinthians, que reclamava por ter sido vítima das
simulações de Neymar, tem atletas que usam deste expediente para levar vantagem
contra os adversários. E ao citar na matéria, acrescenta algo importante para o
telespectador tirar suas próprias conclusões sobre assunto, considerando os aspectos que
os corintianos omitiram do debate por não atenderem aos interesses deles.
Então, Tiago Leifert mostra no telão fotos da festa de “aniversário atrasado” do
Lucas, do São Paulo. Os registros destacavam as celebridades como uma Panicat e
várias ex-BBBs e uma fila de mulheres, que levou o apresentador a dizer “olha o
periguetômetro explodindo na festa do Lucas, ontem de madrugada”.
Não existe menção ao resultado de São Paulo x Bahia, chamado na passagem do
segundo para o terceiro bloco. Acreditamos que era mais relevante do que falar sobre a
celebração do aniversário do atacante. No entanto, não podemos desconsiderar a
possibilidade de que a versão disponibilizada na internet seja uma reedição do material
exibido originalmente – há avisos sobre isso em outros jornais no site, embora na
semana de análise não tenhamos encontrado nenhum aviso nos programas seja em São
Paulo ou no Rio de Janeiro. Portanto, mesmo com a divulgação do resultado do jogo,
ainda soa como investimento de tempo em algo menos importante para o torcedor: saber
como e com quem o jogador festejou, de forma atrasada, o aniversário. No entanto, se
não houve uma matéria sobre a partida, avaliamos que houve falta de informação,
descumprimento de algo prometido no programa e o privilégio a um aspecto irrelevante.
E, em ambos os cenários, consideramos o loc off do apresentador mostrando e
comentando as fotos como uma inclusão de um assunto informal, mas também uma
banalização do tema, por focar em aspectos como figurino do aniversariante e a
companhia na festa, além de reforçar uma imagem pejorativa da mulher envolvida no
esporte: a maria-chuteira, (“olha o periguetômetro explodindo”), que se aproxima e
apoia em figuras famosas para ter visibilidade na mídia. Dentre as convidadas
destacadas por Tiago Leifert, não havia nenhuma reconhecida pela prática de alguma
modalidade esportiva.
171
Na reta final do programa, ainda houve tempo de uma informação que
interessava à emissora: chamar a transmissão à noite de Palmeiras e Botafogo e
convidar para ver no jornal de quinta-feira as informações desta partida e do jogo do
Santos na Recopa. No entanto, a última palavra cabe à informalidade/banalidade do
aniversário: Tiago Leifert ainda diz, enquanto as luzes apagam e deixa o cenário:
“Valeu Luquinhas, hein, muito bem”. O programa encerrou com clipe com música
dançante das imagens das convidadas da festa e depois do atacante no jogo contra o
Bahia e volta a mostrar as mulheres em fila para entrar na boate.
Já a edição de 23 de agosto, quinta-feira, teve o menor tempo da semana:
09’38”, em três blocos de 2’15”, 5’53”, 1’28”. Contou com duas matérias: sobre o
lançamento do filme “Soberano 2”, do São Paulo, com 3’05” e sobre o Corinthians, com
1’46”. Ainda teve a exibição de dois vídeos (um de 0’23” e outro de 0’42”) do
telespectador, Togo de Mossoró, e três participações do comentarista Caio Ribeiro, duas
de 0’24” e de 0’58” sobre o jogo Botafogo x Palmeiras no primeiro bloco e a terceira de
0’25”, no terceiro bloco, sobre a “novela Ganso”. E também um loc off de 0’37” no
encerramento do segundo bloco sobre uma cobrança errada de pênalti feita pelo
Neymar.
Na versão disponível na internet, o programa começa de uma forma abrupta. Até
consideramos a possibilidade de ter havido uma edição, mas não há avisos neste
sentido. Não há boa tarde, o espectador entra direto na conversa de Tiago Leifert e Caio
Ribeiro sobre o “Amigo Internauta” Togo de Mossoró, que enviou um vídeo com
pergunta para o comentarista Júnior durante a transmissão de Botafogo x Palmeiras.
Porém, assim que o vídeo foi exibido, o time carioca levou o gol que determinou a
desclassificação, apesar da vitória por 3 x 1, e durante o jogo a pergunta ficou sem
resposta41. Tiago pede para que reprisem o vídeo de Togo, na íntegra, para Caio Ribeiro
responder.
No vídeo, o internauta, vestido com a camisa alvinegra, ao lado de uma toalha
com o escudo do time presa na parede, perguntou ao Júnior se o Botafogo tinha elenco
suficiente para disputar duas competições simultâneas e ainda tocou e cantou ao violão
41
O fato repercutiu nas redes sociais e foi abordado em três matérias do Globoesporte.com.: a primeira entrou no ar
no dia 23 de agosto, às 14h21, disponível em < http://globoesporte.globo.com/rn/noticia/2012/08/internauta-caladopor-patrik-e-fa-de-mick-jagger-passou-azar-para-mim.html>; a segunda no mesmo dia, mas postada às 20h07,
disponível em
http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-sul-americana/noticia/2012/08/amigo-internauta-einterrompido-por-gol-do-verdao-e-bomba-na-internet.html#jogo-botafogo-3-x-1-palmeiras---22/08/2012-22%3A00.
Já terceira, em 29 de agosto postada às 17h33, repercutia participação dele no GE SP do dia, contando sobre como
ficou a vida após aparecer no video, disponível em <http://globoesporte.globo.com/rn/noticia/2012/08/amigointernauta-de-mossoro-e-destaque-no-globo-esporte-sp.html>. Acesso no dia 12 de janeiro de 2013.
172
uma das músicas da torcida – “Ninguém cala esse nosso amor” – encerrando com “A
torcida do Botafogo se liga no futebol da Globo”. Tiago lembra que após o jogo, com o
time carioca eliminado, era fácil responder à pergunta. Caio afirma que, antes da
pergunta ser exibida durante a transmissão, ele tinha dito que o Botafogo errou na
composição do elenco ao não ter um centroavante, após a saída dos Herrera e de Loco
Abreu. Temos os elementos da informalidade, em usar como ponto de partida o vídeo
enviado pelo telespectador (reforçando assim os laços de pertencimento do público com
o jornal: o que foi esquecido na transmissão foi lembrado pelo GE SP), a informação,
analisando o contexto sobre o time carioca e até um aspecto de humor, pelo inusitado
de quando a pergunta foi veiculada o time do internauta levou o gol.
Então, Tiago pede uma análise sobre o Palmeiras: “Que sufoco, hein!”. Caio diz
que o time está extenuado e que algo precisa ser revisto no planejamento e que os
jogadores foram heróis. Tiago Leifert ainda disse que “mais uma vez o bandeirinha deu
um gol de presente ao adversário”, apesar do lance não ter sido mostrado na edição
disponível na internet. Aqui também temos a informalidade e a informação juntas para
o benefício do público: de uma forma clara, o telespectador entende o quanto custou a
classificação e como poderia impactar no desempenho do time no restante da
temporada.
Na passagem de bloco, apareceram no telão imagens dos jogadores do Coritiba
cercando e reclamando de um árbitro auxiliar: “E se a vida do Palmeiras está
complicada, imagina a desse senhor, que foi o mesmo cara de Santos x Corinthians e
ontem se envolveu em polêmica de novo. Nós voltamos já com essa história.”. O bloco
encerra com imagens da confusão e a legenda “Que fase!”.
O segundo bloco começou com Tiago Leifert, sozinho no estúdio dizendo
“Coitado deste cidadão”, ainda se referindo ao bandeirinha Emerson Augusto de
Carvalho, mas não fica claro se mostraram novamente antes as imagens da confusão ou
se houve corte. Desta forma, não podemos estabelecer uma inferência correta sobre o
comentário que parece solto e deslocado na versão exibida na internet.
O próximo assunto é o clássico São Paulo x Corinthians. Primeiro, o
apresentador conta que aconteceu pré-estreia do filme “Soberano 2”, sobre a conquista
do tricampeonato mundial contra o Liverpool em 2005. No telão, imagens de um
palitinho de comida japonesa (referência ao local onde a partida foi disputada)
173
colocando a terceira estrela em cima do escudo do São Paulo, que é uma forma de
oferecer uma informação ao telespectador sobre a reportagem que será exibida.
A matéria de André Hernan mostrou imagens do filme e também do arquivo da
transmissão feita pela Globo. Torcedores falam a escalação. Diz o repórter que a préestreia foi para convidados especiais: as pessoas que deram depoimento, contando
histórias sobre onde estavam e como viram a final contra o Liverpool.
TORCEDOR: Eu estava no Presídio Militar Romão Gomes, estava com a
liberdade momentaneamente cerceada.
ANDRÉ HERNAN: É o popular “tava preso”, né?
TORCEDOR: É... não é... É no popular? Então, pode falar no popular?
ANDRÉ HERNAN: No popular.
TORCEDOR: Tava preso.
(Globo Esporte, 23/08/2012, acesso pela internet).
A passagem do André Hernan mostra o tumulto criado com a chegada de
Rogério Ceni à pré-estreia, já que ele foi o melhor jogador da partida e “o mocinho do
filme”, pela defesa que fez no chute de Gerrard – “que valeu um gol” – e o
endeusamento do goleiro pela torcida (“todas as câmeras buscavam o mito sãopaulino”). A matéria é informativa, ao recordar a partida e falar do evento; a
informalidade, usando torcedores como “narradores do fato inesquecível” e
personalizando a conquista na figura de Rogério Ceni. O humor também apareceu, no
relato do torcedor que estava preso e foi corrigido ao tentar dizer isso de forma
politicamente correta.
E voltando ao programa, Tiago Leifert usa o gancho “de goleiro para goleiro”
para dizer que Cássio deu entrevista no Corinthians. O VT Abel Neto informa que
Emerson deveria voltar ao time titular e que será o primeiro São Paulo x Corinthians de
Cássio, que elogiou o atacante Luis Fabiano e manifestou respeito e preocupação com
Rogério Ceni, que seria uma ameaça caso houvesse falta perto da área. O texto traz o
desempenho do goleiro – 15 gols sofridos em 24 jogos - e destaca que “um dos heróis
do inédito título da Libertadores tem agora novos objetivos”: quer ser um dos melhores
do Brasileiro e chegar à seleção. O VT é essencialmente informativo, esclarecendo os
preparativos para o clássico e trazendo dados sobre a ambição do jogador entrevistado.
De volta ao estúdio, Tiago Leifert diz que gostaria de fazer uma
contextualização e explica, enquanto aparecem imagens no telão (e depois, em tela
cheia), um lance da semifinal da Libertadores de 2011, quando Santiago Silva, do Vélez
Sarsifield escorregou ao bater um pênalti contra o Peñarol. O apresentador lembrou que,
174
por causa do erro, o Vélez não se classificou para a final. O Santos venceu o torneio e,
por isso, jogou na véspera a primeira partida da Recopa contra a Universidad do Chile.
Tiago Leifert conta que, houve um pênalti, o Neymar foi bater e “ele entrou para o
seleto grupo que contém Santiago Silva. Nós voltamos já com o lance”. A passagem de
bloco mostra as imagens do erro do brasileiro enquanto toca o funk: “escorrega no
quiabo, escorrega, escorrega no quiabo” e a legenda “Ops...”. Este trecho se encaixa nas
inferências informativas (a contextualização serviu para mostrar que todos erram,
inclusive o jogador santista), informalidade (para explicar o que aconteceu, não usa um
estilo complicado), humor (a música escolhida para pontuar a cena é um deboche
crítico da situação).
No terceiro bloco, Caio Ribeiro está de volta, ao lado de Tiago Leifert e perto do
telão para falar sobre a “novela Ganso”:
TIAGO LEIFERT: Caio Ribeiro, se você fosse o Ganso, você iria para o São
Paulo?
CAIO RIBEIRO: Iria.
TIAGO LEIFERT: Por quê?
CAIO RIBEIRO: Pelo desgaste que existe, é visível, das duas partes, tanto da
diretoria como do jogador em relação ao Santos. E por que é um dos
melhores meias, um dos melhores meias-armadores que a gente tem no
futebol. Uma mudança, nesse momento, pode fazer muito bem ao Ganso.
TIAGO LEIFERT: Ainda tá em negociação. O Santos não gostou muito da
proposta. O São Paulo tá tentando conversar. E, por enquanto, tá no mesmo
pé que tava ontem. (Globo Esporte, 23/08/2012, acesso pela internet).
Outro momento informativo que retoma uma pauta levantada pelo telejornal na
véspera, onde não havia novidade, executado informalmente, com a opinião do
comentarista Caio Ribeiro. E lembrar que continuariam acompanhando o assunto.
Tiago Leifert anuncia que o GE SP está terminando com o Amigo Internauta
mostrado na abertura da edição. Eles descobriram um vídeo dele enviado para uma
promoção do Fantástico que selecionaria fãs para conhecer Paul McCartney, durante
uma turnê no Brasil. “Então, a gente termina ao som de Togo de Mossoró cantando
‘Yesterday’. E a gente volta tomorrow, amanhã, um beijo a todos”, Tiago Leifert e Caio
Ribeiro deixam o cenário e as luzes se apagam. Os créditos sobem durante a exibição do
vídeo do internauta. Apesar da curiosidade e do inusitado fornecerem um indicativo
desta decisão editorial que mescla humor e informalidade, podemos questionar a
ausência de um conteúdo informativo, o fato do internauta torcedor do Botafogo ter
repertório variado não acrescenta nada quando analisamos que a prioridade do GE SP
seria jornalismo esportivo (apesar de atender ao viés de entretenimento mencionado na
175
missão do programa disponível no site) e promove uma banalização do tempo: 42
segundos são suficientes para a divulgação de informação, seja em nota, loc off, sonora,
comentário sobre algum assunto esportivo da pauta do dia que foi excluído da grade
diante da prioridade dada ao segundo vídeo do internauta.
Na edição disponível na internet, não há informação nem matéria sobre o
resultado de Botafogo x Palmeiras, Tiago Leifert e Caio Ribeiro apenas disseram –
aproveitando o gancho do vídeo de Togo do Mossoró – que o Botafogo foi eliminado e
o Palmeiras segue no torneio. Também não falaram sobre o resultado de Santos x
Universidad do Chile, pela Recopa, apenas a menção de que Neymar perdeu o pênalti
no loc off no final do segundo bloco, assunto que não foi retomado no último terço do
programa. Aparentemente, não foi mencionada a tal polêmica envolvendo o árbitro
auxiliar Emerson Augusto de Carvalho, que teve uma marcação questionada no jogo do
Coritiba (aliás, nem o jogo e a competição foram citados).
A quinta edição analisada foi ao ar no dia 24 de agosto, sexta-feira. Teve 18’10”,
distribuídos em três blocos de 10’13”, 4’23”, 3’22”. Foram quatro VTs: repercutindo a
convocação de Paulinho e Cássio do Corinthians para a seleção, com 2’59”; outro de
2’01” sobre o retorno de Adriano ao Flamengo, um VT de 0’50” sobre o resultado do
primeiro Barcelona x Real Madrid da temporada europeia 2012/2013 e um VT de
1’36” sobre adolescentes que disputavam a prova da Mega Rampa. Ainda usaram cinco
sonoras de 0’30”, 0’24”, 0’58”, 0’25” e 0’48” da coletiva do técnico Mano Menezes,
uma sonora de 0’35” de Félix, goleiro da seleção na Copa de 1970, morto neste dia e
um loc off de 0’45” sobre Lance Armstrong. Houve dois “vivos”: uma entrevista direto
do CT do São Paulo com o técnico Ney Franco de 3’03” e um bate-papo com três das
candidatas de clubes paulistas no troféu Musa do Brasileirão, que durou 0’56”.
O programa começou citando que a rodada do fim de semana do Campeonato
Brasileiro teria clássicos. Tiago Leifert avisou que falaria sobre Santos x Palmeiras no
sábado, porque os times estavam de folga. Por isso, o GE SP destacaria os outros dois
times grandes, começando pelo São Paulo. No telão, aparecem imagens do repórter
Marco Aurélio Souza, no CT do tricolor paulista, com o técnico Ney Franco. Ao vivo, o
repórter conta que o treino foi fechado, mas a escalação foi revelada em coletiva. Ney
Franco falou que queria privacidade para treinar algumas jogadas ofensivas e de
posicionamento da equipe. Além de repetir os titulares ao vivo, explicou os motivos das
substituições. Marco Aurélio chamou Tiago Leifert, que quis saber se a timidez de
176
Jadson o estaria atrapalhando. O técnico respondeu que Jadson é um jogador experiente,
já foi campeão brasileiro pelo Atlético Paranaense e que, apesar do desempenho um
pouco abaixo no último jogo, poderia desequilibrar a favor do time do Morumbi no
clássico contra o Corinthians. Marco Aurélio Souza se despediu questionando Tiago
Leifert sobre a modalidade “fecha o treino, mas dá a escalação” e o apresentador
agradeceu ao técnico por ter divulgado antes para dar tempo da imprensa fazer “uma
artezinha com os nomes” para o jogo. Verificamos aspectos informativos: o principal
deles, para o torcedor, a revelação da equipe titular e tirou dúvidas sobre o desempenho
de um atleta. A conversa foi descontraída e informal, o que não diminui a seriedade do
tema tratado e ainda teve o humor, no inesperado comportamento do técnico de fazer
um treino secreto, mas não fazer segredo (o que leva ao agradecimento do editor-chefe e
apresentador, pela chance de deixar pronta com antecedência a arte da escalação).
Após a entrevista, Tiago Leifert avisa que, ainda na edição, terá matéria sobre o
Corinthians. Ainda relacionado ao time do Parque São Jorge, o apresentador lembra que
saiu a lista de convocados da Seleção Brasileira para amistosos contra África do Sul e
China, no início de setembro, e o goleiro Cássio foi convocado por Mano Menezes.
Tiago chama sonora do técnico explicando as razões da escolha (Mano disse que
trabalharam juntos no Grêmio e estava entre os nomes que gostaria de avaliar na
seleção). Em seguida, foi destacada uma resposta ríspida do técnico.
TIAGO LEIFERT: Já chamou 12 goleiros o Mano. Seleção Brasileira ainda
busca um goleiro. Aí falaram “mas por que você não chamou o Rafael, ele
tava na Olímpiada, acabou se machucando, foi cortado. Por que o Rafael não
foi convocado?”. O Mano não quis responder, olha só.
MANO MENEZES: Eu não me lembro de você ter me feito alguma pergunta
sobre a ausência de Rafael em outras convocações. Então você não deve
pensar que ele é titular absoluto em todas as convocações. Então se não foi
convocado em outras e você não me perguntou não me sinto obrigado a dar
explicações de por que ele não está nessa. (Globo Esporte, 24/08/12, acesso
pela internet).
O apresentador chama arte com os nomes dos convocados. Outra novidade foi a
presença de Arouca, do Santos: Mano Menezes disse que gosta de volantes com
características ofensivas e defensivas, utilizando-as de acordo com o que o jogo
apresenta. Questionado sobre a ausência de Paulo Henrique Ganso, o técnico disse que
falou a ele sobre a necessidade resolver as indefinições da carreira. Ao ser perguntado
sobre Lucas, do São Paulo, a resposta foi que ele teria uma sequência para mostrar do
que é capaz. Ao longo das exibições das sonoras do técnico, todas da entrevista coletiva
177
na convocação, foram mostradas imagens dos jogadores mencionados, seja em clubes
ou com a camisa da Seleção. O momento mesclou informalidade (na forma como o
apresentou introduziu cada um dos cinco temas que tiveram trechos selecionados da fala
do treinador) com a informação de pontos da coletiva de interesse do torcedor das três
equipes paulistas – São Paulo, Corinthians e Santos – que tiveram jogadores chamados.
Em seguida, entrou um loc off sobre a “notícia bombástica” envolvendo o
ciclista Lance Armstrong42. Enquanto apareciam imagens do ciclista ora no telão, ora
em tela cheia, em competições ou sendo premiado, o apresentador explicou:
TIAGO LEIFERT: Vocês devem conhecer o Lance Armstrong. É esse
ciclista aqui. O ciclista mais famoso do mundo. O mais dominante do mundo.
Venceu sete Voltas da França, teve medalha em Olimpíada. Ele era o cara do
ciclismo. Começou a ser investigado pela Agência Americana Antidoping,
tavam suspeitando que ele tivesse feito algumas coisas irregulares. E ele
desistiu de se defender no processo. Ele disse que pulou fora. Soltou uma
nota dizendo que não vai se defender. Com isso, ele perde tudo. Ele perde
todos os títulos dele. Os sete títulos da Volta da França vão ser cassados e
serão dados ao segundo colocados. Então, a carreira do Lance Armstrong,
hoje de manhã quando ele saiu deste processo, praticamente acabou (Globo
Esporte, 24/08/12, acesso pela internet)
Desta forma, também mesclando informação e informalidade, o apresentador
soube situar o telespectador a respeito do então recente desdobramento da polêmica
envolvendo o ciclista norte-americano e como afetaria o futuro dele.
Em seguida, com imagens já estão no telão, Tiago Leifert chama VT sobre o
primeiro Barcelona x Real Madrid da temporada europeia. “É a Recopa deles, o
campeão da Copa da Espanha contra o campeão Espanhol. Vamos ver como foi,
Barcelona e Real Madrid, aqui ó”. A comparação foi uma informação com falhas,
porque, na verdade, foi o jogo de ida Supercopa, entre os campeões da Liga (Real
Madrid) e Copa do Rei (Barcelona). A Liga é o Campeonato Nacional, mas não existe
uma competição chamada “Copa da Espanha”, como há na Inglaterra, na Itália e no
Brasil. O VT foi narrado por Luis Ernesto Lacombe, com imagens do jogo com o selo
do canal Esporte Interativo. O Barcelona venceu por 3 x 2, de virada, mas o lance do
jogo foi o erro do goleiro Valdés em uma saída de bola, que permitiu a Di Maria,
42
No entanto, em janeiro de 2013, o GE SP exibiu a repercussão da confissão de Lance Armstrong para a
apresentadora Oprah Winfrey sobre o doping. Em seguida, Tiago Leifert disse: “Agora vamos falar de esporte de
verdade”. O comentário foi mal recebido por praticantes do ciclsmo e rendeu outra polêmica envolvendo o
apresentador. Disponível em http://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2013/01/24/comentario-de-tiago-leifertirrita-ciclistas-e-astro-da-bmx-rebate-no-youtube/. Uma semana depois, a Federação Brasileira de Ciclismo se
manifestou
em
nota
oficial
contra
o
apresentador.
Disponível
em
http://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2013/01/25/federacao-de-ciclismo-divulga-nota-de-repudio-a-tiagoleifert-mas-apresentador-diz-ser-aliado/. Acesso em 25 de janeiro de 2013.
178
marcar o segundo gol do Real Madrid. Temos a informalidade da narração, que conta
os gols como se fosse uma conversa entre amigos, e a informação sobre o andamento e
o resultado da partida.
Tiago Leifert anuncia para o bloco seguinte: notícias do Corinthians e uma
comparação das apresentações de Adriano no Corinthians e no Flamengo. “Você vai ver
que é muito parecido o discurso. Voltamos já”. Imagens do Adriano nas respectivas
coletivas, com a música “Óia eu aqui de novo” de Gilberto Gil e a legenda “Igual”.
Temos uma informação já neste momento sobre algo que será detalhado a seguir, o que
ajuda a esperar para ter certeza e os exemplos do fato dito pelo apresentador. A escolha
musical reflete como o peso da crítica disfarçada de humor sobre “mais do mesmo” em
se tratando do atacante problemático.
Na abertura do segundo bloco, Tiago Leifert está acompanhado das garotas que
vão representar São Paulo, Portuguesa e Corinthians no troféu Musa do Brasileirão
(uma competição realizada em uma parceria do site GloboEsporte.com e do programa
Caldeirão do Huck). Ele conversa com as musas sobre os respectivos times e a
expectativa de São Paulo e Corinthians para o clássico de domingo. É um momento de
informação, mostrando aos torcedores quem os representarão no concurso; de
informalidade, a conversa é descontraída, apontando situações envolvendo cada uma
(o sucesso da Musa do São Paulo que teve uma participação “lendária” antes no
programa; o esclarecimento de uma polêmica por causa de uma declaração da Musa da
Portuguesa e a felicidade da Miss Corinthians pela temporada bem sucedida da equipe);
de humor (a Musa da Portuguesa manda beijos para acalmar a torcida e a Musa do São
Paulo feliz com a fama por causa de uma participação anterior e as Musas do São Paulo
e Corinthians trocam provocações saudáveis acerca do clássico do fim de semana) e
também de banalização, ao relacionar a Musa do São Paulo com a personagem da atriz
Isis Valverde na novela Avenida Brasil – e é a própria garota quem diz ter se tornado “a
Suellen do São Paulo”, entre gargalhadas, mas sem mais esclarecimentos das razões
pelas quais ela foi rotulada como a periguete da novela das 21h, que enlouqueucia os
homens no fictício Divino e teve casos com jogadores de futebol da equipe do bairro,
que disputava o Campeonato Carioca da Segunda Divisão. Consideramos que, por mais
popular que tenha sido a personagem, que caiu no gosto do público da novela, apenas
reforça o estereótipo de que o papel da mulher quando relacionada ao futebol é o de
179
utilizar os atributos sexuais para atrair e manter algum relacionamento com os atletas e,
talvez, se tornar famosa por isso. Convenhamos que isso não é um algo positivo.
Em seguida, o apresentador chama as notícias do Corinthians na tela. O material,
fechado pelo repórter Marco Aurélio Souza, repercute a convocação de Cássio e
Paulinho para a Seleção Brasileira, com sonora do goleiro, confirma o retorno do
atacante Emerson e lembra que a prioridade imediata é o São Paulo, e mais à frente o
Mundial de Clubes. O outro entrevistado foi o meio-campo Danilo, escalado para a
coletiva do dia, sobre a volta do atacante e também por ter defendido o São Paulo, disse
que vai ver Soberano 2 (ele estava na partida mostrada no filme) e que gostaria de fazer
parte de um filme parecido sobre o Corinthians. Também temos informação, sobre a
situação do clube no Brasileiro e as ambições para o fim do ano e informalidade, em
uma narração conversada, que torna fácil para quem está vendo entender o que está
sendo dito.
Tiago Leifert chama VT comparativo sobre discurso de Adriano nas coletivas
quando chegou ao Corinthians, em 2011 e ao Flamengo, há poucos dias. “Vocês vão ver
que o discurso... não houve uma evolução, é quase a mesma coisa”. O VT não tem
repórter, nem narração. É uma copilação de sonoras do Adriano nas respectivas
apresentações nas equipes carioca e paulista, onde se destacam os seguintes trechos.
ADRIANO (FLAMENGO): Eu tenho que falar é dentro de campo.
ADRIANO (CORINTHIANS): Dentro de campo, eu consigo fazer tudo.
ADRIANO (FLAMENGO): Cabeça no lugar, e saber que eu não posso errar
de novo. Tá sendo... E vai ser a minha última chance, né?
ADRIANO (CORINTHIANS): Agora só depende de mim fora de campo
para que eu possa estabilizar a minha vida.
ADRIANO (FLAMENGO): Fazer meu trabalho direitinho, hoje eu tenho
responsabilidade, hoje eu posso ser cobrado pelo clube.
ADRIANO (CORINTHIANS): Eu vim aqui pro Corinthians pra vencer, e pra
chegar ao objetivo que é a Seleção Brasileira.
ADRIANO (FLAMENGO): Óbvio que eu ainda sonho em chegar à seleção.
ADRIANO (CORINTHIANS): É só voltar ao meu ritmo aí normal...
ADRIANO (FLAMENGO): Esse período eu vou ficar me recuperando até
entrar... até a estreia.
ADRIANO (CORINTHIANS): Tenho uma força de vontade muito grande
por dentro de mim.
ADRIANO (FLAMENGO): Só depende de mim, não depende de mais
ninguém.
ADRIANO (CORINTHIANS): Sobre isso eu tô muito tranquilo, sempre
gostei de trabalhar...
ADRIANO (FLAMENGO): E eu acho agora que, trabalhar, não falar muito,
trabalhar, entendeu? E jogar.
REPÓRTER: Adriano...?
ADRIANO (FLAMENGO): Opa, não acabou, não? (Globo Esporte,
24/08/12, acesso pela internet)
180
Esta foi a segunda vez que a estratégia de fechar um material sem interferência
de repórter foi usada no programa. E atingiu o objetivo editorial: através das escolhas de
sonoras, conforme foi anunciado, fica evidente que ele não mudou o discurso. Quem
ouvisse a fala dele, sem ver as imagens, imaginaria que não se tratava de dois momentos
completamente diferentes no tempo (cerca de 1 ano de diferença) e no espaço (dois
clubes em estados diferentes). Podemos verificar as inferências informativas,
informalidade e de humor, usado para a crítica da situação.
Tiago Leifert chama passagem de bloco, que destaca os jovens competidores da
Mega Rampa no fim de semana. Surgem imagens dos jovens skatistas com a legenda
“Megarrampinha”.
No terceiro bloco, Tiago Leifert mostra a nova camisa do Palmeiras, que foi
mostrada em close (inclusive na parte onde aparece o patrocinador da equipe: a
montadora Kia) e emendou que aquela já tinha dono. Em seguida, para chamar o VT da
Mega Rampa, disse que “eu queria ter 1/3 da coragem desses molequinhos, olha só”
(mais um momento informal e informativo do programa).
O VT “Megarrampinha” de Carol Barcellos mostrou três pré-adolescentes norteamericanos (dois de 11 anos e um de 15 anos) que são os mais novos competidores da
Mega Rampa. Ela faz comparações do tipo “a Mega Rampa é 18 vezes maior que o
Troy, de 11 anos, que tem 1,50m”. Além de ouvir os meninos, também falou com a mãe
do Troy que disse “que libera porque confia muito nele”. Destaca que todos usam os
equipamentos protetores e de segurança e que eles “sabem que a Mega Rampa não é um
brinquedo qualquer”. A matéria é informal, estabelecendo comparações que ajudem a
visualizar o que representa ter coragem para descer a Mega Rampa e tem informação,
sobre os riscos que envolvem competir nesta categoria e trazendo o diferencial de que
os jovens competidores participam e com o apoio dos pais.
Volta para Tiago Leifert que passa a falar sobre a morte do goleiro Felix, aos 74
anos, por complicações respiratórias, enquanto uma foto dele aparece no telão. Tiago
chama uma sonora feita antes da Copa de 2010, sobre qual foi a maior defesa que fez.
Enquanto Félix conta que foi numa cabeçada de Lee, no Mundial de 1970, contra a
Inglaterra, há sobe som mostrando o lance mencionado. Ele ainda destacou que ao cair
para abafar a bola, foi atingido no rosto por um chute do inglês e ficou desacordado.
Também mesclando informação e informalidade, os telespectadores ficam cientes –
em especial os que não sabem de quem se trata – sobre a importância de Félix para a
181
história do futebol brasileiro. Como seria de esperar, não há elementos de humor nem
de banalização neste trecho, porque ambos poderiam soar como falta de respeito. Eles
optaram pela homenagem, porque Tiago Leifert diz que o programa foi dedicado à
memória do Félix, envia condolências à família e “beijo e fiquem com o horário
político”. Entrou um clipe de imagens do programa enquanto sobem créditos. O jornal
termina quando é reexibido o primeiro gol do Real Madrid contra o Barcelona.
A última edição analisada foi ao ar no sábado, dia 25 de agosto, com 18’13”, em
três blocos de 4’51”, 9’36”, 3’32”. Exibiu cinco VTs: sobre o Palmeiras, com 2’21”; e
sobre o Santos com 1’45”; um VT conjunto sobre os treinos de São Paulo e Corinthians,
com 4’03”; sobre a prova da Stock Car, com 1’34” e sobre uma pilota que participa do
Rally dos Sertões, com 1’50”. Foram utilizadas uma sonora de 0’24”, da coletiva do
técnico Mano Menezes; um loc off de 0’45” sobre os treinos da manhã na Mega Rampa;
uma entrada ao vivo com um repórter sobre o Corinthians, com 1’18” e bate-papo no
estúdio de 0’43” com outras três candidatas de clubes paulistas à Musa do Brasileirão.
Tiago Leifert começa o programa reforçando a rodada de clássicos do fim de
semana: Palmeiras x Santos e São Paulo x Corinthians. Ele chama VT sobre o
Palmeiras, destacando que o atacante Barcos foi convocado para a seleção da Argentina.
Provavelmente, muitos telespectadores não perceberam, mas algumas das escolhas
musicais para pontuar a matéria passam uma mensagem não explícita. Fizemos a
transcrição do texto, conforme a compreensão possível a partir do vídeo disponibilizado
na internet, do VT ter BGs diferenciados (um dos entrevistados, o atacante Barcos,
mistura Português e Castelhano ao falar. Além disso, uma das sonoras dele é dublada).
182
ANDRE HERNAN OFF: Fim de treino no Palmeiras, mas o trabalho ainda
não tinha acabado. Os jogadores foram para a urna ajudar a escolher o nome
da bola da Copa de 2014: Brazuca, Bossa Nova ou Carnavalesca. (imagens
do atacante argentino Barcos votando)
BARCOS: Bossa Nova. Más me gustó.
ANDRE HERNAN: Sabe o que é, né? Um gênero musical brasileiro.
BARCOS: Ah, no, no sabía.
ANDRE HERNAN: Só gostou do nome.
BARCOS: Só gusté nome (não é possível entender o que ele diz em
seguida).
(BG: O Barquinho, Nara Leão).
ANDRE HERNAN OFF: Música popular brasileira já deu para perceber que
não é o forte do Pirata (BG; Avohai, Zé Ramalho). Mas quando o assunto é
gol, aí sim o Barcos é especialista. (BG: parece música sertaneja, mas não
conseguimos reconhecer a letra) Os 21 que ele marcou com a camisa do
Palmeiras este ano renderam uma vaga na seleção argentina. Barcos foi
convocado pela primeira vez e poderá ter o privilégio de jogar com Lionel
Messi.
PASSAGEM – ANDRÉ HERNAN: Barcos usou o compatriota argentino
para dar uma cutucada no Santos. Segundo o palmeirense, Messi é muito
melhor, mas muito melhor do que o Neymar.
BARCOS: Messi. De longe.
ANDRE HERNAN: Longe?
BARCOS: Longe. Eu acho que si. Neymar é um jogador diferente, mas
eu acho que tem que demonstrar também um pouco más en Europa.
ANDRE HERNAN OFF: Se o Santos tem Neymar, o Palmeiras vai ter
Valdivia. Dois jogadores que tem algo em comum: de tanto serem caçados
pelo adversário, muitas vezes são chamados de “cai-cai”.
CORRÊA (volante Palmeiras): São jogadores de muita técnica, então, às
vezes, é inevitável a falta, né? Ás vezes, esse jogador, o Valdivia, o próprio
Neymar, você acha que vai chegar, ele sempre consegue dar um toquinho a
mais e há o contato. É inegável. Mas o juiz tá ali, o arbitro está ali para
julgar. Nos jogadores temos que estar focados no jogo.
(Troca o BG por uma música agitada)
ANDRE HERNAN OFF: Para encerrar, mais uma vez o artilheiro argentino.
(BG do narrador do jogo cujas imagens são utilizadas: “Vai comemorando o
Pirata”, enquanto ele é abraçado pelo Marcos Assunção) E esse gringo sabe
muito bem como puxar uma brasa pro seu próprio lado.
ANDRE HERNAN: Valdívia ou Neymar?
BARCOS: São dois jogadores diferentes. Os dois são muito importantes.
Neymar é mais rápido, mas o Valdívia em campo tem a inteligência de
poucos. (sonora dublada por Tiago Leifert) (BG instrumental – som de
violinos) (Globo Esporte, 25/08/12, acesso pela internet)
Volta Tiago Leifert: “você vê que a minha tradução segue a animação do
entrevistado, né? Barcos estava muito feliz de dar entrevista”.
Precisamos aqui para destacar que Barcos passou por um episódio público com a
equipe do GE SP que justificaria o fato de ele não ser um entrevistado feliz. Em uma
coletiva, em 16 de fevereiro de 2012, o repórter Léo Bianchi levou fotos do cantor Zé
Ramalho e questionou sobre a semelhança entre eles. No entanto, Barcos deu uma
resposta ríspida ao jornalista, na frente de todo mundo, sem medir as palavras. A
183
matéria do Lancepress!43 destaca que Barcos estava incomodado com os apelidos
recebidos dos colegas e o episódio na coletiva foi a gota d’água.
- É brincadeira dos companheiros. Falei com eles já sobre isso, mas chega um
momento que isso incomoda - afirmou.
Um repórter não se deu por satisfeito e insistiu no tema. Mas foi além. Mais
do que citar as brincadeiras, ele sacou fotos do cantor Zé Ramalho e
perguntou se o camisa 29 se achava parecido com o artista.
- Filho da p... Não estou aqui
para brincadeira. Essas
coisas que não vêm ao caso reclamou, bravo, mas ainda assim permaneceu sentado na cadeira.
O jornalista se defendeu e declarou que o atacante Maikon Leite tinha sido o
responsável pela ideia de mostrar as fotos de Zé Ramalho.
- E você é um "boludo" (xingamento usado comumente pelos argentinos que
não tem tradução literal em português) de me entregar. Não me parece sério
da sua parte - declarou, quando o repórter se aproximou com as imagens
(Barcos xinga repórter após novo apelido no Verdão. Lancepress! , 16/02/12,
acesso pela internet,)
Outros textos, como o da ESPN44 e do Portal Terra45, também seguem esta
versão. A matéria do UOL Esportes46 seguiu esta linha, mas foi a única – entre as que
examinamos – que ouviu o jornalista Léo Bianchi. Entre as demais, nem todas disseram
o nome do repórter e ainda citaram informação atribuída à assessoria do Palmeiras, de
que jogador e repórter teriam conversado após a coletiva e se entendido.
Após a confusão, Léo Bianchi disse ao jogador que se tratava apenas de uma
brincadeira. “Ele está no direito dele. Ele só ficou meio cabreiro, porque acha
que estamos zoando com a cara dele. Mas já conversamos e está tudo bem”,
disse o repórter, lembrando que o medo do argentino é que um dos apelidos
pegue. “Ele só deixou claro que quer ser chamado de Hernan Barcos”
(PAJARO, UOL Esporte, 16/02/12. Acesso pela internet).
43
Barcos xinga repórter após novo apelido no Verdão. Lancepress!, 16/02/12. Disponível em
http://www.lancenet.com.br/palmeiras/Barcos-xinga-reporter-apelido-FIlho_0_647335437.html. Acesso em 12 de
janeiro de 2013.
44
ÁUDIO: Barcos se irrita ao ser comparado com Zé Ramalho por repórter durante entrevista. Espn.com.br,
16/02/12. Disponível em
http://espn.estadao.com.br/noticia/241218_COMPARADO%20AO%20CANTOR%20ZE%20RAMALHO
%20BARCOS%20SE%20IRRITA%20E%20XINGA%20REPORTER>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
45
Cansado de apelidos, Barcos xinga repórter: "filho da p...". Portal Terra, 16/02/12. Disponível em
http://esportes.terra.com.br/palmeiras/cansado-de-apelidos-barcos-xinga-reporter-quotfilho-dapquot,c4d8646c14ada310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
46
PAJARO, Victor. Barcos se irrita com apelidos e chama repórter da Globo de babaca. UOL, São Paulo, 16/02/12.
Disponível em <http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/paulista/ultimas-noticias/2012/02/16/barcos-se-irritacom-apelidos-e-chama-reporter-da-globo-babaca.htm>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
184
Houve quem criticasse a polêmica Barcos x Bianchi/GE SP tentando
contemporizar, como o comentarista Renato Maurício Prado, no programa Redação
Sportv. A repercussão foi publicada em uma matéria do site UOL Esporte47.
“Talvez ele tenha se equivocado de fazer isso na coletiva. A ideia de
perguntar isso poderia ter sido conversada antes para ver se o Barcos
aceitava. Da maneira que foi colocada, o Barcos acabou exposto diante de
toda a imprensa. Nós não temos o direito de expor as pessoas a brincadeiras
que elas não gostam”, opinou Renato.
(...)
Ao analisar o caso, Renato Maurício Prado também criticou a reação de
Barcos, mesmo defendendo seu direito de não gostar da brincadeira. “Não
aconteceu nenhuma tragédia. Ninguém ofendeu a honra de ninguém. A
reação dele é grosseira, mas é compreensível já que ele se sentiu gozado, sem
querer. Não tem nada demais nessa história”.
O apresentador André Rizek destacou que a intenção de Léo Bianchi era
brincar com o palmeirense e também achou a reação do atacante exagerada.
“Pelo vídeo, fica claro que o Léo [Bianchi] quis fazer uma brincadeira e o
Barcos não gostou. Ele tem todo o direito de não gostar”.
(Comentarista do Sportv desaprova brincadeira com Barcos em coletiva.
UOL Esporte, 16/02/12. Acesso pela internet.)
O texto do Portal R748, ligado à Rede Record, omitiu a contextualização,
destacando apenas que o jogador xingou o repórter da concorrente. Já Cosme Rímoli,
colunista do mesmo portal, também usou o fato como exemplo em uma crítica ao estilo
praticado no Globo Esporte São Paulo49. Segundo ele, o episódio foi mais uma tentativa
de recuperar a audiência do programa, só que encontrou um jogador que não estava
disposto a entrar na brincadeira e reagiu de forma agressiva.
47
Comentarista do Sportv desaprova brincadeira com Barcos em coletiva. UOL Esporte, 16/02/12. Disponível em
<http://uolesportevetv.blogosfera.uol.com.br/2012/02/17/comentarista-do-sportv-desaprova-brincadeira-com-barcosem-coletiva/>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
48
Atacante do Palmeiras xinga repórter da Globo de babaca. R7, 16/02/12. Disponível em
<http://esportes.r7.com/futebol/noticias/atacante-do-palmeiras-xinga-reporter-da-globo-de-babaca-20120216.html?
question=0>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
49
RIMOLI, Cosme. Tiago Leifert… O homem que revolucionou o jornalismo esportivo na televisão brasileira? Ou o
menino mimado, filho de um diretor da Globo? E que não pode ser contrariado?. Portal R7, 20/02/12. Disponível em
< http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/tiago-leifert-o-homem-que-revolucionou-o-jornalismo-esportivo-natelevisao-brasileira-ou-o-menino-mimado-filho-de-um-diretor-da-globo-e-que-nao-pode-ser-contrariado-20022012/ >
Acesso em 14 de dezembro de 2012.
185
Tudo estava bem até começar 2012.
As risadas acabaram nas reuniões de pautas do progama.
Em comparação a janeiro de 2011, a audiência caiu 20%.
A média de 13,2% caiu para 10,5%.
Mesmo o ônibus itinerante não deu resultado.
Leifert deixava de ser novidade.
A saída foi continuar forçando brincadeiras além da conta.
Foi quando o repórter Léo Bianchi encontrou pela frente Barcos do
Palmeiras.
Ele sabia que o jogador não tolerava os apelidos que os companheiros de
time tentavam colocar nele.
Léo levou fotos de Zé Ramalho e tentou constranger o atacante perguntando
várias vezes se eles se pareciam.
Ouviu o que não esperava.
"Filho da puta, boludo (babaca em espanhol)".
E ouviu a frase que resume a situação.
"Não me parece sério de sua parte."
Sim, de sério, o repórter não queria nada, só humilhá-lo.
O argentino não se dobrou à TV Globo. (RIMOLI, Portal R7, 16/02/12,
acesso pela internet)
O texto de Cosme Rímoli cita em outro trecho que o editor-chefe GE SP teria
discutido com pessoas no Twitter e se recusado a atender outros veículos que criticaram
a postura da emissora. Em coluna no portal UOL50, Maurício Stycer analisou como foi o
primeiro GE SP após a discussão na coletiva.
Editor-chefe e apresentador do “Globo Esporte”, Tiago Leifert resumiu assim
o episódio no programa desta sexta-feira: “Lição aprendida: o Barcos não
gosta de apelidos. Não chame o Barcos de Zé Ramalho no trânsito que vai
dar problema sério”.
Um pouco mais cedo, durante o “SPTV”, ele disse: “Foi um grande auê, mas
não aconteceu absolutamente nada”. E, na véspera, no Twitter, escreveu: “Eu
não levo nem nunca vou levar esporte a sério. Quem leva (tipo alguns
babacas na minha TL) não entende o que é esporte.”
As três observações são chocantes. Não creio que Leifert realmente pense
assim. Significaria dizer que ele não entendeu nada – nem a lição, nem o que
ocorreu e, muito menos, o que significa o esporte hoje.
Barcos é um jogador de futebol profissional, cujos direitos econômicos (70%
deles) foram adquiridos pelo Palmeiras por cerca de R$ 7 milhões. Dar
entrevista depois de treino ou jogo faz parte do trabalho dele.
Sua reação a uma situação de constrangimento público merece elogios, na
minha opinião. Como se fosse um pai tentando educar o filho, Barcos
procurou dizer que nem tudo é motivo para brincadeira, que certas coisas não
são ditas em público, que não se deve brincar com quem não se conhece etc.
Leifert tem todo o direito de transformar o programa jornalístico que
apresenta num show de humor e diversão, mas não fica bem tentar convencer
todo mundo de que esta é a única forma de enxergar o esporte e o jornalismo.
Esporte é sinônimo de paixão, mas também de negócio bilionário. Nem todo
jogador acha legal comemorar gol imitando João Sorrisão. Nem todo
torcedor é bobo. E isso não tem nada a ver com bom ou mau humor, com
gostar ou não de piadas. (STYCER, 17/02/12, acesso pela internet).
50
Stycer, Maurício. Tiago Leifert não entendeu a lição de Barcos. UOL, 17/02/12. Disponível em
<http://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2012/02/17/tiago-leifert-nao-entendeu-a-licao-de-barcos/>. Acesso em
12 de janeiro de 2013.
186
Não foi possível conferirmos as informações contidas na crítica de Stycer a
respeito dos comentários feitos pelo editor-chefe e apresentador durante o programa
seguinte à polêmica. O link da íntegra do Globo Esporte São Paulo do dia 17 de
fevereiro de 201251 não funciona. Para o internauta, o seguinte recado: “Conteúdo não
disponível. Infelizmente este vídeo não está mais disponível. Desculpe-nos pelo
inconveniente”.
Embora o fato tenha tido repercussão, seria inocência acreditar que todos os
telespectadores soubessem ou se lembrassem dele. Na matéria exibida no sábado, o
texto se refere ao jogador pelo único apelido que ele autorizou: Pirata (por causa da
forma como comemora os gols), justamente no momento em que usa uma música do Zé
Ramalho. A inclusão não é meramente ilustrativa, faz uma associação que o jogador
rechaçou, uma informação que pode ter sentidos diferentes dependendo do grau de
conhecimento da desavença por parte do telespectador. É uma tentativa de humor:
“Música popular brasileira já deu para perceber que não é o forte do Pirata (BG:
Avohai, Zé Ramalho)”, que podemos analisar como um deboche e desafio à resistência
do jogador. Apesar da narração informal, fica a mensagem de banalização, com o
privilégio de uma informação que não é relevante para o telespectador, em especial, o
palmeirense. Acreditamos que os atletas do Palmeiras votaram no nome da bola da
Copa de 2014 porque a Adidas, responsável pela fabricação da bola oficial, é a
fornecedora de materiais esportivos ao clube paulista. Nada melhor para o marketing
que unir dois produtos da empresa em um momento de visibilidade, estratégia que
agrega valor a ambos e que o GE SP poderia ter explorado com mais jogadores votando,
não apenas Barcos.
Retomando a análise do programa, Tiago Leifert chamou o VT do Santos, de
Renato Cury, destacava a felicidade do volante Arouca, ao ser convocado pela primeira
vez para a Seleção Brasileira. A música “Glad you came”, do The Wanted (uma boy
band com público entre adolescentes, que está nas paradas) aparece nos primeiros 26
segundos da matéria, foi suspensa durante parte da sonora de Arouca, a passagem do
repórter e a sonora do técnico Muricy Ramalho, em coletiva. No off seguinte, voltou por
mais 26 segundos até outra sonora de Arouca e terminar o VT.
Como foi o último na semana sobre o Santos, vamos retomar aqui a análise
sobre a banalização no uso da música em relação ao alvinegro praiano. Excetuando a
51
O link é < http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-esporte-sp/v/globo-esporte-sp-integra-do-dia17212/1817547/>. Acesso em 12 de janeiro de 2013.
187
matéria exibida na terça-feira (a tentativa de repercutir com Neymar as críticas de Tite),
todas as outras tiveram sucessos do momento, seja nacionais ou estrangeiros, como
trilha ou pontuação. Este aspecto atraiu a nossa atenção, por remeter à associação da
principal estrela santista, Neymar, a cantores de sucesso: como o pagodeiro Thiaguinho
(de quem adotou o tema “Ousadia e Alegria”, como gosta de resumir seu estilo de
futebol) e duplas de sertanejo universitário (o nome do atacante é citado em “Eu quero
tchu, eu quero tcha”, de João Lucas e Marcelo, que se popularizou a partir do momento
que ele comemorou um gol dançando a coreografia. E inclusive participou do
videoclipe oficial, gravado na Vila Belmiro52): o que justifica a escolha de “Camaro
Amarelo” para a matéria sobre a vitória contra o Corinthians (já que ele dançou a
coreografia da música). Desta forma, é passada a informação (para muitos que não
percebem, de forma implícita) de que o Santos é jovem, alegre, feliz e uma festa sem
fim, independente do adversário. Não condiz com a realidade em campo, porque o time
foi eliminado na semifinal da Libertadores pelo Corinthians e não estava entre os
primeiros no Brasileiro. Portanto, uma banalização da técnica jornalística em prol de
um sentido que não se justifica.
No fim do primeiro bloco, a passagem destaca o outro clássico paulista do fim
de semana: entram imagens de São Paulo e Corinthians com a legenda “Clássico”.
O segundo bloco começa com Tiago Leifert se desculpando com o telespectador
porque “a gente errou um negócio aqui ontem e errou feio”. Ele lembra que foram
exibidos trechos da coletiva do Mano Menezes. E a sonora que o GE SP atribuiu à
ausência do jogador Rafael não era sobre o goleiro do Santos, mas sobre o homônimo
lateral do Manchester United. Por isso, Tiago Leifert consertou a deixa: “Mano foi
perguntado por que o lateral Rafael não foi convocado. Ele não quis responder”. E a
resposta do técnico foi reexibida com a mesma duração, seguida de um comentário do
apresentador.
52
Vídeo oficial disponível no link <http://www.youtube.com/watch?v=IOKCxyI2WAE>. Acesso em 17 de janeiro
de 2013. A gravação foi tema de uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo. Disponível no link <
http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/v/neymar-grava-clipe-de-eu-quero-tchu-eu-quero-tcha/1954035/>.
Acesso em 17 de janeiro de 2013.
188
MANO MENEZES: Eu não me lembro de você ter me feito alguma pergunta
sobre a ausência de Rafael em outras convocações. Então você não deve
pensar que ele é titular absoluto em todas as convocações. Então se não foi
convocado em outras e você não me perguntou não me sinto obrigado a dar
explicações de por que ele não está nessa.
TIAGO LEIFERT (estúdio): A resposta atravessada foi porque o Rafael errou
na Olimpíada, na final, a bola errada gerou o gol do México logo no
comecinho do jogo. Está corrigido, portanto. (Globo Esporte, 25/08/12,
acesso pela internet)
Para falar sobre o clássico Corinthians x São Paulo, que será transmitido pela
TV no domingo, Tiago Leifert chama VT de Marco Aurélio Souza. A matéria começa
com “Qual a diferença entre o charme e o funk?” como trilha, para discutir a diferença
entre privacidade e segredo: São Paulo treinou de manhã, fechou as atividades para a
entrada da imprensa, mas revelou o time titular. Sobre o retorno do atacante Luis
Fabiano, entrou a música “I feel good” (na versão do grupo Sambô) e narrações de gols
dele. No Corinthians, treino à tarde, imagens liberadas para a imprensa, mas nada de
escalação: nove certezas e duas dúvidas no ataque. Sonoras da coletiva do técnico Tite,
falando que não tem dúvidas, mas não contou o time (BG: música não identificada
estilo sertanejo universitário). Novo contraponto: se o Corinthians estava em uma
temporada melhor, o São Paulo levava vantagens no Brasileiro. Ney Franco destaca que
o jogo deve ser equilibrado, entre equipes com potencial de crescer no torneio. Já Tite
cita os clássicos anteriores para dizer que os adversários do estado são campeonatos à
parte.
Até este ponto, mais da metade da matéria tinha sido exibida e podemos fazer
uma análise sobre as características informativas (pontuando as diferenças entre os dois
times), informalidade (narração descontraída e conversada), humor (o uso do funk
reforça que os adversários possuem estilos bem diferentes e da versão do grupo Sambô
serve como um indicativo do humor do atacante tricolor que voltava a jogar). Até aqui,
as três características trabalham de forma positiva pela produção de significados
pretendida pelo material exibido. No entanto, a partir deste ponto, cerca de 2’50”, a
matéria sofre uma guinada de assunto e ganha um novo personagem importante: o
chinês Zizao, que integrava a equipe do Corinthians, mas ainda não havia jogado
oficialmente.
189
MARCO AURÉLIO SOUZA (2ª. passagem): E no final da nossa reportagem,
que acompanhou o dia inteiro de trabalho no São Paulo e no Corinthians,
uma denúncia (BG de sirene – imagens do treino). A câmera do Globo
Esporte ficou apontada para o chinês Zizao durante o rachão, aquele
momento recreativo dos jogadores. Perceba a felicidade do chinês. (volta a
imagem do repórter) Ele corre, se movimenta... mas ninguém passa a bola
para ele.
TITE: Não, não.
MARCO AURELIO SOUZA OFF: (entra BG, música “Lig-lig-lig-lé”,
cantada por Ney Matogrosso, tema de abertura da novela Negócio da China)
Sim, sim. Ele foi até driblado pelo Romarinho (imagens em slow motion),
que era seu companheiro de time, mas não se abalou. Sua paciência é...
chinesa. Depois da antecipação, ele tocou na bola e gostou da coisa. Deu até
uma de calcanhar (tem replay do lance). Depois tudo voltou ao normal, mais
uma sequencia de invisibilidade. Zizao não deve ser escalado para o clássico,
mas deve receber um reforço importante na sua solitária busca pela bola.
REPÓRTER (não identificado na coletiva): Mas eles podem passar um pouco
mais a bola para ele, né?
TITE: Vou ficar cuidando da próxima vez.
MARCO AURELIO SOUZA OFF: Então, nasce aqui a campanha Toca a
bola pro chinês! (Globo Esporte, 25/08/12, acesso pela internet)
Atualizar os torcedores sobre o desenvolvimento de Zizao para estrear era um
tema de interesse, porque se trata de um investimento do Corinthians, mas será que um
lance de treino mereceria tanto destaque? Se considerarmos que estatísticas pós-jogo
mostram que há atletas que tocam pouco na bola em uma partida que dura 90 minutos, o
fato de Zizao não receber passe durante um treinamento seria realmente alarmante? Será
que neste mesmo exercício, ele foi o único dos 22 jogadores em campo a não receber a
bola? Há humor na abordagem, com sirene de polícia como BG para reforçar a
“denúncia” e a música-tema de uma novela associada ao país de origem do atleta,
narração descontraída e informal; no entanto, consideramos um exemplo de
banalização por dedicar mais de um minuto da matéria a um jogador que não entraria
em campo no clássico, portanto, não seria relevante para a disputa em questão.
De volta ao estúdio, Tiago Leifert reforça o “Toca pro Zizao” 53, citando o
zagueiro Paulo André que disse que o chinês joga bola. Ainda sobre o Corinthians, ele
emenda: “O Tite falou que tinha uma dúvida no ataque e a dúvida do Tite é a dúvida do
torcedor!” (a parte final é dita aos gritos, na mesma entonação da sonora do técnico após
o jogo contra o Santos no domingo). Então, se referindo ao “Tite nervoso”, ele chama o
repórter Henrique Guidi, ao vivo, direto do CT do Corinthians. Ele explica que
Guerrero não joga os próximos dois jogos e que Emerson Sheik retorna depois de seis
partidas. Como ele não deve ter condições de jogar 90 minutos, os reservas Martinez e
53
Em outubro, o GE SP fez uma campanha #jogaZizao, cobrando do time a estreia do jogador. Disponível em <
http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-esporte-sp/v/campanha-jogazizao-comove-o-mundo-mas-tite-ainda-fazmisterio/2193907/>. Acesso em 17 de janeiro de 2013.
190
Adilson devem jogar. O Tite não permitiu imagens do treino e o jornalista passa a
escalação do Corinthians. Atende aos critérios informativo e de informalidade,
embora o humor possa afetar a compreensão de quem não viu a atitude do Tite dias
antes.
Mudando de assunto, Tiago Leifert destaca dois eventos do dia seguinte. O
primeiro é o GP de Salvador da Stock Car e chama VT sobre os pilotos sem sorte na
temporada que recorreram à fé para mudar este quadro. O repórter Mauro Júnior e os
pilotos Tuca Rocha, Popó Bueno e Duda Pamplona visitaram a Igreja de Nosso Senhor
do Bonfim, para se recuperarem da má fase e melhorarem no campeonato. Foram
abençoados pelo Padre Lafayette, pegaram fitinhas (Tuca Rocha amarrou no capacete
novo), fizeram pedidos. “Todo mundo abençoado. Agora galera, vamos acelerar estes
carros aí, porque, sozinho, este santo não faz milagre, não”. A matéria fala de um
“produto” transmitido pela emissora, destacando pilotos que não estão sob os holofotes
e os tirando do cenário óbvio e levando para um local importante da cidade-sede da
prova – exemplo de informação e de informalidade, além de uma dose de humor no
encerramento: por mais fé que eles tenham, sem trabalho, não vencem.
Em seguida, o assunto passa a ser a Mega Rampa, outro evento do domingo
transmitido pela Rede Globo. Entram imagens do treino da manhã de sábado, narradas
por Tiago Leifert. Novamente temos exemplo de um conteúdo que mescla informação
e informalidade, apontando as curiosidades e riscos da disputa e ainda promovendo a
transmissão da emissora no dia seguinte.
Eles estão treinando lá no Rio de Janeiro ainda. Essa é uma imagem
recuperada. Cara, é muito perigoso! Tá lá no Sambódromo, olha o que
aconteceu. Olha que pancada que ele deu. E aí fica todo mundo falando “Meu
Deus, ele morreu”. Não, ele tava bem, ele levantou, não machucou nada, tá
ótimo. Como é que é, voz na consciência? Todos eles caem, né? Muito. Esse
é o Mitch Brusco, ele acertou a volta dele, né? Mas ele foi supercauteloso, ele
pegou pouca velocidade ali para passar no corrimão. Esse paredão é um
perigo, porque se bate um vento, você descola, você cai chapado no chão
aqui. Cai zerado. Deu certinho. Conseguiu numa boa. Mas ele foi pouco
ousado. Amanhã eles vão ser muito ousados, muito. É um dos eventos mais
legais do ano. Você assiste ao vivo dentro do Esporte Espetacular. (Globo
Esporte, 25/08/12, acesso pela internet)
Em seguida, Tiago Leifert avisa “no próximo bloco, uma história edificante,
uma história inspiradora. Um grande exemplo de vida”, mas dá uma risada que
desmente tudo que disse. Entram imagens de uma mulher de biquíni andando na praia,
com a legenda “Exemplo de vida”, indícios de mais um exemplo de banalização.
191
O terceiro bloco repete algo feito na véspera: a apresentação das candidatas ao
troféu Musa do Brasileirão, desta vez, com as musas de Musas do Palmeiras, Santos e
Ponte Preta. Tiago Leifert pede para que elas se apresentem e chama a votação no site
especial do concurso dentro do portal Globoesporte.com. Informação e informalidade,
mais uma vez associados em prol de um produto da emissora.
Ainda com a companhia das candidatas à Musa, o apresentador emenda “A
gente continua com muita beleza neste programa. Um grande exemplo de vida. Uma
pilota do Rally dos Sertões, três filhos, espeta..., exemplo para todas vocês. Dá só uma
olhada”. Então começa o VT de Léo Bianchi sobre a personagem brevemente mostrada
na passagem de bloco e que atende à descrição feita por Tiago Leifert.
(BG – Still loving you – Scorpions)
LEO BIANCHI OFF: um fenômeno no volante. Você vai gostar e se
surpreender como os atributos do dois-quatro-meia (imagem em slow motion
do carro passando, durante a prova). Essa reportagem não é só mais uma
sobre o Rally dos Sertões.
(BF – How deep is your love? – Bee Gees)
LEO BIANCHI (passagem): Pra você entender do que a gente tá falando, às
vezes é bom não falar nada. A Helena Soares é considerada a Musa do Rally
dos Sertões há dois anos porque... bom, veja você mesmo. (aproxima a
imagem de Helena, de biquíni, na praia, ao fundo).
Clipe de close de detalhes do corpo de Helena, ainda de biquíni, na praia.
LEO BIANCHI OFF: Aaaah, Helena... Antes da largada em São Luiz,
desfilou na praia. Trinta e um anos, mãe de três filhos, malha duas horas todo
dia, para manter este corpo... que é fundamental para o Rally.
HELENA (com camisa): Eu tinha muitas dores, eu tinha alguns... passava
mal. Então, eu passei a me alimentar melhor, ter um treinamento específico.
Tenho meu treinador também que me ajuda.
BG – “De land rover é fácil, é mole, é lindo, quero ver jogar a gata no fundo
da Fiorino” de Gabriel Gava
LEO BIANCHI OFF: Ela estreou no volante no Rally dos Sertões 2011.
Chamou tanto a atenção, que foi convidada para desfilar no carnaval paulista,
pela X9, cujo enredo era o Rally.
HELENA (fantasiada, na época do carnaval): eu não sabia sambar, foi um
desafio, é totalmente diferente de tudo que eu faço.
LEO BIANCHI OFF: E ela é uma mulher multitarefas.
HELENA: Lavo, passo, cozinho e piloto.
REPÓRTER - E ainda dá manutenção no carro se precisar?
HELENA: Se precisar, a gente dá manutenção no carro sim, com certeza.
BG – Sai a música Fiorino e volta How deep is you love?
LEO BIANCHI OFF: Mas colocou o capacete, ah... Helena...
HELENA: Quando eu entro em competição, eu esqueço totalmente tudo. Eu
esqueço até que sou mulher. Então, eu não tenho vaidade, eu não tenho
cuidados. Eu procuro ser muito profissional.
LEO BIANCHI OFF: É, pra dominar essa máquina, tem que ser mesmo.
(Globo Esporte, 25/08/12, acesso pela internet)
Volta para Tiago Leifert: “É dura a vida de Leo Bianchi no Rally dos Sertões.
Mas que grande exemplo de vida. o Globo Esporte sempre traz pra você essas histórias
192
de superação, essas histórias bacanas, né?”. Em seguida, ele lembra a programação dos
clássicos, qual será transmitido pela TV e se despede. O programa termina com um
clipe das imagens exibidas na edição, os créditos subiram com imagens da Mega Rampa
e encerrou com as imagens da pilota Helena Soares na praia.
Esta matéria encerrou o período de análise dos seis programas do GE SP e pelas
características descritas somos obrigados a retomar a avaliação feita por Oselame do
tratamento dado às figuras femininas no jornal, o que ela classifica como banalização,
que serviu como referencial para o estabelecimento da inferência para este estudo.
Como já mostramos, para ela, os exemplos exibidos no GE SP reforçam a ideia de que a
mulher é objeto de desejo e não é mostrada de forma esportivamente capaz. Ao longo
da semana, a exceção a este quadro foi a mãe de um dos adolescentes da Mega Rampa,
que afirmava confiar na habilidade do filho diante de um desafio difícil até para adultos.
No mais, dentro deste aspecto, houve o “periguetômetro explodindo” na festa do Lucas,
a Musa associada à “Maria-chuteira-periguete da novela” e uma personagem rica para
matéria televisiva: mãe, mulher, pilota, resumida ao padrão sexual “gostosa de biquíni
na praia”, “gata que serve para ser jogada no fundo da Fiorino” e que faz os marmanjos
babarem, inclusive o repórter, em uma matéria cheia de suspiros e “Ah...!”. Reforçado
pelo tom de deboche do apresentador ao chamar e comentar a exibição do VT.
Passando a analisar agora o GE RJ, a edição de segunda-feira, 20 de agosto foi
apresentada por Alex Escobar e teve 17’43” divididos em três blocos de 11’16”, 01’38”
e 04’48”. Foram 7 VTs (matérias/reportagens): Atlético 3 x 2 Botafogo (4’06”, abertura
do programa), Santos 3 x 2 Corinthians (2’30”), Fluminense 1 x 0 Sport (1’56”) e sobre
a Meia Maratona (0’41”), todos exibidos no primeiro bloco. Na segunda parte, passou
VT Rally dos Sertões (0’46”) e na terceira, o Flamengo 1 x 0 Vasco (3’35”). Foram
exibidos dois locs offs (imagens no ar e narrador falando direto do estúdio) sobre os gols
da rodada, um com 1’09” no primeiro bloco e o complemento com 0’53” na abertura do
segundo bloco. Também houve um stand up do repórter André Gallindo sobre o retorno
de Adriano ao Flamengo com 0’34” e duas passagens de bloco com 0’15” e a segunda,
um corte seco ao fim do VT, além de encerramento com 0’18”. Na versão
disponibilizada no site, não há vinheta de abertura e, como dissemos acima, nem a de
encerramento do segundo bloco.
O programa começa com Alex Escobar prometendo boas imagens, novidades
sobre Adriano no Flamengo e o fim de semana do futebol. E já temos inferências
193
informativas e informais: mostra no telão arte com a tabela do Brasileiro, as posições
das equipes cariocas e chama o primeiro VT, sobre o “Botafogo, que jogou muito bem
ontem contra o Atlético Mineiro, mas perdeu”.
O VT sobre o jogo Atlético Mineiro x Botafogo foi fechado sem uso da presença
de repórter de campo. Mesclando imagens e sobe som de momentos da partida, trilha
sonora para acompanhar sem se sobrepor (músicas instrumentais, alternando entre rock
e uma música que parece irlandesa, estilo “Riverdance”) e sonoras dos jogadores e
técnicos e a narração de Alex Escobar, destaca aspectos curiosos e passa os detalhes do
jogo, se enquadrando nas inferências informal e informativa, utilizadas nesse estudo.
194
(BG música instrumental, violinos, parece algo irlandês)
ALEX ESCOBAR OFF: Um abraço sob o céu de Belo Horizonte. Hoje
adversários relembraram os tempos de Milan nesse gesto. Depois voltariam
seus abraços pros companheiros. (BG guitarras, rock pesado) Foi uma partida
intensa, como aquele abraço. (imagens do abraço de Ronaldinho Gaúcho e
Seedorf, de ambos abraçando os companheiros, da torcida, do mascote do
Atlético e dos times vibrando).
CUCA (técnico Atlético Mineiro): Eu acho que foi um grande jogo.
OSWALDO DE OLIVEIRA (técnico Botafogo): Um jogo de grandes
alternativas.
ALEX ESCOBAR OFF: O Botafogo não temeu o líder do campeonato,
empurrado por sua torcida
SOBE SOM LUIZ ROBERTO (narrador do jogo): Cruzamento, Lodeeeiro...
ALEX ESCOBAR OFF: O Galo mostrou a velocidade assustadora aos
adversários que ousam atacá-lo no Independência. Mas o Alvinegro, de
branco, insistia na ousadia.
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: Andrezinho ganhou, o Elkeson passou,
rrrolou para o Elkeson, Jadson foi pelo meio, Elkeson, cruzamento para o
Jadson, voltou para o Andrezinho... Goooooooooooooooooooooool.
OSWALDO DE OLIVEIRA (técnico Botafogo): Nós conseguimos nos
igualar ao líder do Campeonato e muitas vezes superá-lo.
ALEX ESCOBAR OFF: Superar o Atlético não seria tão simples assim. O
time que tinha o número da sorte: 42. Quarenta e dois minutos do primeiro
tempo: 1 x 1.
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: Tudo igual no Independência, Escudero.
ALEX ESCOBAR OFF: O repertório de dribles do Ronaldinho Gaúcho era
uma das armas para a virada do Galo. Jogada linda que o Amaral não deixou
passar.
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: Ronaldinho fez o levantamento... Jôôô!
ALEX ESCOBAR OFF: Depois o chapéu no Jadson e o passe de canela. Só
quem é craque sabe usar a canela deste jeito. A solução começou lá na zaga.
Lançamento maravilhoso do Leonardo Silva pro R49
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: Olha a bola passando, sobrando com o
Ronaldinho. A chance, pro Jô. Goooooool, do Galo!
ALEX ESCOBAR OFF: Olha o analisador tático, ó: lançamento de 58
metros do Leonardo Silva pro Ronaldinho Gaúcho. Que bola! (muda BG)
Dribles, abraços, sorrisos, será que só o Ronaldinho Gaúcho seria feliz nessa
história? Seedorf já havia reclamado de pênalti no pisão do Serginho.
SONORA SEEDORF: Só mostrar a chuteira. Não preciso falar nada.
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: E aí é contigo, Renato Marsiglia.
SOBE SOM RENATO MARSIGLIA (comentarista de arbitragem): Nada
não. Não caracteriza uma penalidade máxima. Não foi isso que derrubou o
Seedorf. Ele caiu porque quis.
OFF ALEX ESCOBAR: O maestro do Botafogo não teria direito a um
momento de felicidade? Não daria um toque de categoria pra fazer a
diferença. Responde aí, Seedorf!
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: ...pro Rafael Marques, foi pro chão. E o juiz
marcou pênalti!
SOBE SOM JUNIOR (comentarista): O detalhe da jogada foi o passe do
Seedorf, né? Uma bola atravessada que ele conseguiu achar o Rafael numa
ótima posição, depois ele sofreu o pênalti.
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: partiu... Andrezinho. Goooool!
OFF ALEX ESCOBAR: Atlético 2 Botafogo 2. Seedorf tava lá, no abraço
coletivo no Andrezinho, que parecia ser o herói do Botafogo, com dois gols.
(muda BG) Mas o treinador Cuca ainda tinha dois trunfos pra colocar em
campo.
SONORA CUCA (técnico Atlético Mineiro): Às vezes se usa o banco pra
fazer a diferença.
OFF ALEX ESCOBAR: Carlos César e Neto Berola entraram e mudaram o
jogo. No minuto 42. Quarenta e dois, número da sorte do Galo ontem.
195
SOBE SOM LUIZ ROBERTO: Neto Berola, Carlos César, calcanhar pro
Berolaaaa... Gooool... Por cobertura, de forma sensacional, Neto Berola faz o
terceiro.
SONORA NETO BEROLA: Acho que eu voltei bem, também, né?
OFF ALEX ESCOBAR: Que retorno, Neto Berola! Tava machucado ficou
fora do time três meses e meio. Entrou, fez o gol no minuto 42 e ajudou o
Galo a chegar aos 42 pontos. 3 a 2 no Botafogo. Um jogo a menos e a uma
rodada do fim, o Atlético Mineiro já se garantiu como o melhor time do
primeiro turno. Os braços de Ronaldinho se voltariam novamente para
Seedorf e terminaram soltos no ar. Uma reverência mútua entre R49 e a
torcida do Galo. (Globo Esporte RJ, 20/08/12, acesso pela internet).
No estúdio, Alex Escobar diz que depois fala sobre Flamengo x Vasco. E chama
VT sobre Santos x Corinthians mescla fatores informativo (não saia daí, teremos o
clássico da rodada) e informal (“Jogo quente”). Também usa imagens do jogo, com
narração feminina não creditada (suspeitamos que seja a Carol Barcellos).
196
OFF: Neymar... herói ou vilão? Vítimas das botinadas ou jogador que simula
faltas? (com BG)
TITE: Simular situação, levar vantagem, pode ser momento de jogo. Isso é
mau exemplo pro garoto, pra quem tá crescendo, pro meu filho, pro garoto,
pra quem vai olhar e dizer olha, levar vantagem nas coisas.
OFF: Neymar, ídolo das crianças, foi bastante criticado pelo técnico do
Corinthians, o Tite. Ele acha que o craque tá sendo um mau exemplo. Santos
e Corinthians, definitivamente, não foi um jogo qualquer. Romarinho
começou assustando. E não demorou pro Corinthians marcar. Douglas
cobrou a falta e Danilo desviou de cabeça, de costas para o gol.
SOBE SOM CLÉBER MACHADO: Daaaaaanilo, do Corinthians.
OFF: Mas o Santos tem Ganso, Neymar e André. Ganso passou pro Neymar
que arrancou do meio de campo e rolou pro camisa 9 santista empatar. André
tava na reserva do Atlético Mineiro e marcou o primeiro gol dele depois de
voltar ao Santos. As dancinhas também voltaram. No segundo tempo, o lance
da discórdia: três impedimentos não marcados no mesmo lance.
MURICY RAMALHO: Então, a gente tem que saber que eles erram que nem
a gente.
TITE: O quinteto de arbitragem, eu lastimo. Lastimo. Eles vão pra casa e vão
ficar chateado pra caramba com o trabalho que eles fizeram.
OFF: Léo mandou pra área, Bruno Rodrigo passou de cabeça, Durval voou
na bola e André completou. O árbitro validou o gol.
SOBE SOM LEONARDO GACIBA: Exatamente, tá impedido. Tá na frente
do penúltimo defensor.
SOBE SOM CLÉBER MACHADO: Aí, não?
SOBE SOM LEONARDO GACIBA: Aí também.
SOBE SOM CLÉBER MACHADO: Também impedido.
SOBE SOM LEONARDO GACIBA: Parece que ele está com o peito a
frente. Seria o segundo impedimento. E, aí, posteriormente, a gente vai ver
que é o terceiro impedimento.
OFF: O Corinthians reagiu. O argentino Martínez driblou Bruno Rodrigo e
chutou cruzado. Era o empate. Neymar cobrou escanteio e o zagueiro Bruno
Rodrigo cabeceou firme. No finzinho do jogo, mais polêmica. No primeiro
tempo, o Neymar fez essa falta no Guilherme Andrade. O jogador do
Corinthians resolveu descontar e empurrou Neymar contra a proteção da
arquibancada. Neymar tirou satisfação. Santos 3 Corinthians 2.
TITE – É da vida ganhar ou perder. Eu só sinto quando a lei do jogo não é
igual para os dois (Globo Esporte RJ, 20/08/12, acesso pela internet).
Sobre o assunto, Alex Escobar no estúdio lembra que “O Tite podia lembrar que
o Jorge Henrique também se joga à beça, como o Neymar”. O curioso é o GE RJ fazer
VT sobre o clássico paulista sem utilizar o material do GE SP. Embora com o mesmo
ponto de partida, reparamos que cada qual estabeleceu suas prioridades, desde escolhas
musicais até as formas distintas para mostrar a raiva e a frustração de Tite. O GE RJ não
usou a sonora dele gritando na coletiva, que foi repetida três vezes no GE SP. O
material do GE RJ é informativo e informal, conforme as inferências deste estudo.
Em seguida, Alex Escobar chamou a primeira parte do VT dos outros jogos da
rodada. Na goleada do Coritiba de 4 x 0 sobre o Cruzeiro, o goleiro Fábio, do Cruzeiro
quase “que dá beijo” na microcâmera na rede ao tentar uma defesa. E ainda “foi tão
fácil que o pessoal, a torcida do Coritiba ali, resolveu até jogar um carteado. O jogo
197
estava rolando nessa hora aí.” Já na partida entre Portuguesa e Internacional, lembrou
que os gols do 1 x 1 foram marcados por Juan, ex-Flamengo e Marcelo Cordeiro, exBotafogo. Podemos aplicar as inferências informativas, informal e também de humor,
usado de forma positiva a partir das imagens captadas no jogo.
Dentro do critério de informação, o apresentador usa o telão com a classificação
do Brasileiro para falar do Fluminense, que venceu o Sport no sábado com gol no
finalzinho. É a terceira matéria exibida neste dia fechada com imagens e sobe-som de
áudio do jogo, desta vez, com a narração de Alex Escobar. Destaca Samuel, o autor do
gol, jogador reserva, porque o Fluminense tinha com oito desfalques, sendo seis
titulares. “Tem força esse elenco tricolor, hein!”. Temos critérios informativo e
informalidade.
Depois da vinheta Globo Esporte, começa VT informativo de Mauro Júnior
sobre a Meia Maratona do Rio de Janeiro. Em seguida, Escobar anuncia passagem de
bloco: “Já já Flamengo x Vasco, o primeiro de Ramon contra o ex-clube”. Sonora de
Ramon, sem camisa, pós-jogo: “Eles só vaiam de quem sentem falta, mas eu não tô nem
um pouco preocupado e nem escuto, também. O meu futebol, eu só quero mostrar pro
lado de lá”. De forma informal, já trazem informação que será detalhada a seguir.
O segundo bloco é curto. Começa com a segunda parte dos gols da rodada, com
narração de Alex Escobar. Em Grêmio 4 x 0 Figueirense, o atacante Marcelo Moreno
participou de “de tudo quanto é gol” (definição do apresentador) e a derrota do
Palmeiras para o Atlético Goianiense por 2 a 1. Atende aos critérios informativo e
informal.
Em seguida, vinheta Globo Esporte sobre o Rally dos Sertões. Narração
feminina não creditada (suspeitamos que seja a Carol Barcellos) sobre o relato
informativo da etapa mais recente, inclusive o incêndio de um dos veículos
participantes.
Na abertura do terceiro bloco, Alex Escobar utiliza classificação do Brasileiro
para chamar VT do Flamengo x Vasco: outro momento informativo.
198
(BG – rock)
CARLOS GIL OFF: Um clássico se faz de marcação, rivalidade, ídolos e
números. Vamos então aos números de Flamengo e Vasco. Em Campeonatos
Brasileiros, são quatro empates nos últimos quatro jogos. No Engenhão,
quatro empates e duas vitórias para cada lado. Na artilharia do campeonato,
mais equilíbrio: oito gols de Vágner Love, oito de Alecsandro.
ALECSANDRO: Clássico a gente sabe é um jogo diferente. A gente fica
muito feliz de tá participando de mais um clássico.
CARLOS GIL OFF: A felicidade do Alecsandro se tornou agonia neste
lance: cruzamento do Juninho, cabeçada do Nilton, defesa do Felipe,
cabeçada do Douglas, defesa do Felipe. Sufoco e confusão até o Cáceres
botar pra fora. A reação do Juninho no mesmo lance, já diz tudo.
SOBE SOM NARRADOR: Escapa o Flamengo agora numa grande defesa do
Felipe mostrando reflexo.
EDER LUIZ: Difícil, né, quando não é pra entrar, é assim mesmo.
CARLOS GIL OFF: Éder Luiz, o torcedor do Vasco chegou a achar que a
vitória do Vasco sairia dali. Lado direito do Vasco, lado esquerdo do
Flamengo. Um drible no Ramon, com direito a simulação de pênalti. Mas sair
de vilão contra o ex-time era tudo que o Ramon não queria.
RAMON: Eles só vaiam de quem sentem falta, mas eu não tô nem um pouco
preocupado e nem escuto, também. O meu futebol, eu só quero mostrar pro
lado de lá.
CARLOS GIL OFF: E para o “lado de lá”, Ramon saiu como herói. Foi dele
a jogada, o chute que Fernando Prass não segurou. E Vágner Love cutucou
para a rede. O nono gol do artilheiro do amor, artilheiro do Brasileirão, ao
lado do Fred.
VAGNER LOVE: Que bom, fico feliz. Mas o jogo não acabou ainda.
CARLOS GIL (passagem): Flamengo 1 Vasco 0, gol do Vágner Love e tem
uma estatística nesse ano que diz que... Deixa isso pra lá. O Love vai achar
que é uma secada daquelas. Depois a gente conta essa história.
CARLOS GIL OFF: Antes era preciso que o Felipe mostrasse mais serviço.
Espalmou um chute do Carlos Alberto. Outro chute do Carlos Alberto. Que a
agonia pelo gol que não saiu também fosse sentida pelos rubro-negros. Nesse
lance em que Leonardo Moura poderia ter sacramentado a vitória.
SOBE SOM NARRADOR: Ele se atrapalha e perde o gol. Incrível a chance
que Leo Moura desperdiça aqui no Engenhão.
LÉO MOURA: Na hora que eu me preparei para chapar, ela quicou e bateu,
bateu na sola.
OFF CARLOS GIL: O suspense durou até o último contra-ataque, que o
Flamengo desperdiçou.
PASSAGEM CARLOS GIL: Pronto, agora acabou o jogo. Lembra aquela
história que eu disse que o Vágner Love não gostaria? Agora já dá para
contar...
OFF CARLOS GIL: É que este ano o camisa 99 já tinha aberto o placar em
dois clássicos. Flamengo 1 Vasco 0, gol do Love. E nas duas semifinais Taça
Guanabara e Taça Rio, o Vasco virou e venceu.
SONORA VAGNER LOVE: Não, não, não passou pela minha cabeça de
forma alguma. Eu queria tentar fazer mais.
SONORA DORIVAL JÚNIOR: O Vágner disposto, afim, interessado e
concentrado, é natural que ele faça a diferença.
OFF CARLOS GIL: Ele fez, no clássico do equilíbrio, foi o artilheiro que
desequilibrou.
SONORA VAGNER LOVE: Fazer gol e ganhar é sempre bom (Globo
Esporte RJ, 20/08/12, acesso pela internet).
Foi a única matéria exibida no dia onde o repórter (Carlos Gil) esteve no jogo e
gravou passagem. De um jeito informativo e informal, conta o que aconteceu, destaca
199
que os dois lados tiveram chance de vencer e ainda traz um aspecto de superstição e
quebra de tabu, com a história de que Love marcava, mas não vencia. Acreditamos que
era uma informação prévia, vinda do levantamento de dados da produção, que permitiu
ao repórter planejar duas passagens na estrutura narrativa do VT.
E o Flamengo continua na pauta do programa. Alex Escobar fala sobre o retorno
do atacante Adriano, diz que ele vai conversar com a diretoria para assinar o contrato
“entre hoje e amanhã” e treinar. Para mais detalhes, chama o André Gallindo (outro
exemplo de usar a intervenção do apresentador para passar uma informação).
Então entra um stand up do repórter Andre Gallindo gravado na garagem de um
prédio, mostrando a saída de Adriano do local, onde funciona o consultório do médico
do Flamengo. Tudo coberto com imagens e uma sonora do jogador se dizendo feliz pelo
retorno. Podemos aplicar a inferência informativa, esta é a prioridade do material. O
encerramento opta pela informalidade e a informação da promessa de que no dia
seguinte haveria mais detalhes sobre o retorno de Adriano.
A edição de terça-feira, dia 21 de agosto, teve 17’36” distribuídos em três blocos
de 06’29”, 06’21” e 04’46”. Usou sete matérias/reportagens: Botafogo joga pela SulAmericana (1’41”), entrega de camisa do Inacreditável Futebol Clube (2’05”), o ranking
dos 10 momentos da rodada – GE 10, dividido em duas partes (1’09” no primeiro bloco
e 1’24” no segundo bloco), VT Rally dos Sertões (0’59”), VT Natação (0’46”) e a
matéria “Adriano vale a pena?”, com 3’29”, que encerra o jornal. Além disso, teve duas
entradas ao vivo no segundo bloco: a primeira com Sérgio Pinheiro, direto de Salvador,
com 1’23” e a segunda com André Gallindo, com 1’46”, direto do Ninho do Urubu e as
passagens de bloco com 0’21” e 0’20”.
A abertura é uma nota coberta informativa e em linguagem informal, a voz de
Alex Escobar: “O Imperador voltou?”, coberta por imagens do jogador e por sonoras de
torcedores, do comentarista Júnior e do próprio Adriano. Em seguida, aparece o
apresentador no estúdio explicando que o programa começa mais cedo por causa do
horário eleitoral gratuito e prometendo para a edição uma matéria sobre o assunto. Para
começar, chama VT sobre o Botafogo, que precisa vencer por três gols para avançar na
Sul-Americana e “pra passar, tem que afundar Barcos”. Temos dois exemplos do
critério Informativo (novo horário e a missão do Botafogo) e a reta final da fala dele
mescla informalidade e humor, que dita o ritmo e o rumo da matéria de Carlos Gil.
CARLOS GIL OFF: Amanhã o Botafogo dá um tempo no Brasileirão para
jogar num torneio em que mal disse “oi” e já pode dar “adeus”.
200
PASSAGEM Carlos Gil: A situação já é difícil. Se o Botafogo levar um gol,
então, aí complica de vez. E o pior é que, do outro lado, tem um cara que,
ultimamente, se especializou em marcar contra o Alvinegro.
ANTÔNIO CARLOS: É um cara que merece uma atenção especial porque
ele não é aquele cara que se movimenta muito, mas tá sempre no lugar certo.
CARLOS GIL OFF: Esse cara é Barcos, atacante do Palmeiras.
JEFFERSON: Atacante nato. Atacante frio dentro da área. Eu
particularmente vi poucos atacantes assim.
CARLOS GIL OFF: São elogios, mas, ao mesmo tempo, lamentos. Porque
em dois confrontos, foram duas derrotas e quatro gols sofridos. Gols de
habilidade, de domínio de bola, chute colocado de perna direita e de perna
esquerda, que garantiram os 2 a 0 no jogo de ida da Sul-Americana. Barcos
também foi carrasco no Brasileiro. Gol de frieza dentro da área. E gol de
oportunismo e 2 a 1 no Engenhão. As duas partidas aconteceram neste mês
de agosto. Estão bem vivas na memória.
JEFFERSON: Espero que a gente já tenha aprendido com os nossos erros
neste últimos dois jogos que a gente jogou contra eles.
CARLOS GIL OFF: É olho no Barcos e partir para cima para tentar os três
gols de diferença que garantiria a vaga.
(BG Tango – “Por una cabeza” – Carlos Gardel)
ANTÔNIO CARLOS: A gente tá remando no mesmo barco.
CARLOS GIL OFF: Mesmo barco? Barco? Barco, não, Antônio Carlos.
Barco, não (Globo Esporte RJ, 21/08/12, acesso pela internet).
As inferências informativa, informalidade e humor destacam as dificuldades
do Botafogo na partida do dia seguinte, lembra que o atacante adversário era um
problema e se utiliza de boas sonoras, em especial a última do zagueiro Antônio Carlos.
A trilha sonora pontua e ressalta a ascendência do “carrasco” para dar um toque de
humor, sem que caia em algo banal ou perda de tempo.
O apresentador chama uma matéria sobre o Inacreditável Futebol Clube (IFC).
Com narração de Alex Escobar, revela “um homem especial, um homem que recebeu
um chamado” para a Galeria do IFC. Entra a vinheta com o BG em ritmo de funk, gritos
e a voz de Léo Batista dizendo “Inacreditável Futebol Clube”. Myller, 19 anos, atacante
do Rio Branco, perdeu uma chance com gol vazio na Copa Espírito Santo. Ele vestiu a
camisa, lembrando que, quem aceita o presente, volta a marcar. E o final mostrou a
pesquisa para o quadro e a brincadeira com o atacante, que tem nome de craque da
seleção.
OFF ALEX ESCOBAR: O Globo Esporte admite: não encontrou adjetivos
suficientes para descrever este lance. Por isso, apelou pruma dupla de
craques: Pelé e Galvão Bueno. (Imagens dos dois trabalhando na transmissão
das Copas de 94 e de 98) Só eles poderiam explicar, com destreza, um chute
tão bisonho.
SOBE SOM GALVÃO BUENO: ... Que vamos Müller, agooora!
SOBE SOM PELÉ: Era uma bola pra ele parar, para decidir com calma.
SOBE SOM GALVÃO BUENO: Pode dominar, ajeitar. Isso é
incompetência. (Globo Esporte RJ, 21/08/12, acesso pela internet)
201
O jogador explicou que recebeu o nome por causa do atacante Müller, apesar de
não ter a grafia original. A narração do Galvão Bueno ainda é usada na imagem final do
VT: ”Aí minha gente...” “Isso é incompetência”. A matéria teve a colaboração da TV
Gazeta, que fez as imagens e as sonoras, apesar da narração ser do Alex Escobar. O IFC
é um quadro do GE que já recebeu críticas, porque nem todo jogador aceita a
brincadeira: Loco Abreu, ex-Botafogo, classificou o quadro como “uma bobagem para
sacanear os jogadores de futebol”54. Otacílio Neto, do Noroeste: “Existe o clube? (...)
Então manda me contratar”, disse em VT exibido em 2011 pelo GE SP55. E Anselmo
Ramon, do Cruzeiro, também não quis o “manto sagrado” do IFC56. O que poderia ser
banalização se torna um VT curioso, graças à aceitação do jogador. Aplicamos as
inferências informativa (porque o atacante merecia a camisa), a informalidade da
narração e o humor (tanto do atleta em aceitar a brincadeira quanto no uso do arquivo
da emissora).
Seguindo na linha da informação com informalidade e humor, Alex Escobar
chama a primeira parte do GE 10, imagens de destaque na última rodada do Brasileiro.
Neste bloco, estão o carteado dos torcedores do Coritiba, triplo impedimento no gol do
Santos contra o Corinthians, “passe de canela” do R49, gol do Neto Berola contra o
Botafogo e as três defesas seguidas do Felipe do Flamengo no clássico contra o Vasco.
Em seguida, a passagem de bloco também é informal: anuncia a segunda parte
do GE 10 (em qual posição ficará o gol do atacante Osvaldo do São Paulo?) e a matéria
sobre a volta de Adriano ao Flamengo, com sonora do atacante: “Minha vontade é fazer
gol, né, de novo. Vamos torcer pra que possa jogar de novo. Estou muito feliz”. Entra
arte com a logo do GE e o e-mail de contato [email protected].
O segundo bloco começa com a vinheta sobre Automobilismo GE, com matéria
sobre a etapa de Lençois do Maranhão no Rally dos Sertões. Narrado por Carol
Barcellos destaca as paisagens maravilhosas e a perseguição frenética entre dois
competidores. Também houve solidariedade: após um acidente, outro piloto parou o
54
Loco rebate: Esse Inacreditável futebol clube é uma bobagem. Publicado em 25 de setembro de 2011. Disponível
em <http://globoesporte.globo.com/futebol/times/botafogo/noticia/2011/09/loco-rebate-esse-inacreditavel-futebolclube-e-uma-bobagem.html>. Acesso em 19 de janeiro de 2013.
55
Vídeo da matéria disponível em < http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=f1giy1vNM34> .
Acesso em 19 de janeiro de 2013.
56
Anselmo Ramon escapa de camisa do Inacreditável Futebol Clube. Publicado em 07 de junho de 2011. Disponível
em <http://globoesporte.globo.com/futebol/times/cruzeiro/noticia/2011/06/anselmo-ramon-escapa-de-camisa-doinacreditavel-futebol-clube.html>. Acesso em 19 de janeiro de 2013.
202
carro e ajudou a socorrer o colega. Podemos identificar as inferências informativa e
informal.
Na volta para o estúdio, mais um momento informativo: Alex Escobar chama o
repórter Sérgio Pinheiro, ao vivo, para falar sobre as inscrições para serem voluntários
nos eventos da Fifa no Brasil, as Copas das Confederações e do Mundo.
Sérgio Pinheiro explica que o evento terminou pouco antes, em Salvador e que
as inscrições estão abertas no site da FIFA. Entrevista Ronaldo Fenômeno, que ressalta
que o voluntário é a “cara do nosso povo” para os visitantes e Bebeto, que convoca
(termo usado por ele) todos a serem voluntários. Sérgio agradece e devolve para o
estúdio. A entrevista é objetiva, informativa e informal. Temos informalidade e
humor, no comentário de Alex Escobar “super bem acompanhado o Sérgio Pinheiro,
rapaz!”
O apresentador chama a segunda parte do GE 10, com os cinco lances mais
incríveis da rodada, informativo e informal. Também com a narração de Escobar, traz
o gol perdido por Léo Moura, a cobrança de falta estilo “Folha Seca” na goleada do
Coritiba sobre o Cruzeiro, golaço de falta na vitória do Náutico, golaço do Osvaldo na
vitória do São Paulo e as duas grandes defesas de Dida, da Portuguesa. Na definição de
Escobar, “mais marcantes que os golaços. (...) Prestes a completar 38 anos, o goleirão
Dida mostrou que tem futebol para estar no topo”.
E Alex Escobar emenda, informal: “E será que o Adriano também tem futebol
para estar no topo? André Gallindo, a nação rubro-negra quer saber: o Adriano já
assinou com o Flamengo? O homem vai treinar: Você está aí no Ninho do Urubu?”.
Outra entrada ao vivo, desta vez com André Gallindo atualiza as informações:
mostram imagens de diretores do Flamengo e o empresário do Adriano chegando para o
encontro que ainda não tinha acabado. O apresentador informa os telespectadores sobre
o delay, o atraso que acontece nas transmissões ao vivo e pergunta se os outros
jogadores falaram sobre o assunto. André Gallindo confirma que há uma expectativa de
alguns atletas e chama trecho da coletiva de Léo Moura. Alex Escobar fala que o
Adriano foi muito querido na última passagem no clube e chama o repórter que lembra
que o jogador foi artilheiro do Brasileiro e campeão em 2009. O repórter explica que os
detalhes do contrato só depois da reunião e treinamento só depois de assinar o contrato.
O diálogo é informativo e informal, para que todos compreendam os detalhes sobre o
assunto.
203
Alex Escobar agradece e anuncia os destaques da última parte deste GE RJ: “no
próximo bloco, o GE mete a mão nesta cumbuca será que é uma boa pro Flamengo?
Será que ele volta a ser o imperador que todos conhecem?” Sonoras de torcedores e
especialistas e o comercial. Outro momento que podemos classificar como informal.
O terceiro bloco começa com a vinheta GE Natação: “Eita soninho, mas não
dorme, não, rapaz, porque a prova é bem rápida”. Narrada por Carol Barcellos, mostra a
vitória de César Cielo nas eliminatórias dos 50 m livre e no revezamento 4 x 50 m pelo
Flamengo no troféu José Finkel. Encontramos as inferências informativa e informal.
A informação e a informalidade continuam em seguida, quando Alex Escobar
usa o telão para mostrar que o Jean Chera, jogador do juvenil do Flamengo, colocou
uma foto na rede social com itens para Adriano treinar no Ninho do Urubu. Escobar
chama o VT: “o GE quer saber e pediu um debate: vale a pena o retorno de Adriano ao
Flamengo?”. A matéria de André Gallindo tem a seguinte abertura:
ANDRÉ GALLINDO OFF: Não preste atenção ao repórter, mas ao número
que está por trás do repórter. (imagens do STUP de Gallindo exibido pelo GE
RJ na véspera. Setas apontam para o nº 10, pintado em branco em um fundo
vermelho, da placa na parede). Coincidência? (vários pontos de interrogação,
placa iluminada). O número da vaga que Adriano ocupou no estacionamento
é a camisa vaga no Flamengo (Globo Esporte RJ, 21/08/12, acesso pela
internet).
Em seguida, a matéria faz um resumo do ano de Adriano, rompimento com o
Corinthians, duas operações no tendão de Aquiles e período de recuperação marcado
por polêmicas. Exibe sonoras de torcedores pessimistas, céticos e otimistas. Recupera
imagens do título Brasileiro de 2009. Além disso, há falas dos comentaristas da
emissora, os ex-jogadores Júnior e Caio. O repórter resume a promessa de uma nova
era: “Na rápida entrevista depois que recebeu a boa notícia do médico, o jogador repetiu
uma palavra-chave: compromisso”. E o GE RJ encerra com ele dizendo: “Estou muito
feliz de poder voltar à minha casa que é o Flamengo”. Neste dia, não exibiram os
créditos, apenas o selo do jornal. A matéria era informativa, ao combinar as
preocupações que rondavam a mente dos torcedores rubro-negros e avaliar se o custobenefício de Adriano valeria a pena, com uma roupagem informal que não excluiria
ninguém do debate.
O programa de quarta-feira, dia 22 de agosto, teve 15’22”, em três blocos com as
durações de 06’08”, 04’28” e 04’46’. Exibiram cinco matérias/reportagens: Andrezinho,
artilheiro do Botafogo (1’29”), Léo Moura para o Inacreditável Futebol Clube (0’42”),
204
Natação (0’49”), dia de modelo dos lutadores do UFC (1’41”) e um bate-papo com o
goleiro Felipe, do Flamengo (3’22”). Ainda mostraram um stand up sobre o Fluminense
(0’34”), uma sonora do atacante Alecsandro, do Vasco (0’29”), uma nota coberta da
Stock Car (0’44”) e duas entradas ao vivo do repórter Mauro Júnior, direto do Ninho do
Urubu (uma com 0’24”, na abertura do programa e outra com 2’02” no segundo bloco).
Também teve duas passagens de bloco com 0’30” e 0’26”, além do encerramento com
0’15” de despedida, seguido por um clipe de imagens do programa com 0’24”.
Pelo segundo dia seguido, a abertura foi fora do estúdio (conforme fig. 8). Foi a
participação, após instantes de silêncio causados pelo delay, ao vivo, do repórter Mauro
Júnior, direto do Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo para anunciar
“uma manhã especial para muitos flamenguistas: o Adriano voltou, pessoal! Já vestiu a
camisa, já treinou e já deu a primeira entrevista coletiva como jogador do Flamengo
depois de dois anos”. Mauro Júnior promete mais detalhes naquela edição e chama Alex
Escobar (conforme fig.9). A abertura é informativa, direto da “notícia do dia” (e dos
dias anteriores também) e informal, pela maneira como o repórter explicou o tema.
Figura 8 – vivo que abriu GE RJ 22/08/12
205
Figura 9 – Mauro Júnior chama Alex Escobar GE RJ 22/08/12
Alex Escobar, no estúdio, reforça que será exibida a matéria sobre mais um
retorno de Adriano. Então, ele chama o primeiro VT do jogo que seria transmitido à
noite pela Rede Globo: Botafogo x Palmeiras pela Copa Sul-Americana. O Botafogo
precisa fazer gols e o destaque é Andrezinho, o artilheiro do time. Mantendo o perfil do
programa de somar uma informação à apresentação do tema.
A matéria de Carlos Gil fala sobre a recuperação da confiança de Andrezinho:
melhorou condicionamento, superou três contusões e um breve histórico dele no time. O
repórter afirma que é a melhor média do jogador em um clube brasileiro, que também
briga pela artilharia do time. Mesclando características informativas e informais, a
matéria não tem sonora de Andrezinho, mas tem a avaliação do desempenho dele feita
pelo técnico Oswaldo de Oliveira
Lembrando que o Fluminense só volta a campo no fim de semana, no clássico
contra o Vasco, Alex Escobar chama Kenzo Machida para saber como foi a manhã no
Fluminense (podemos averiguar mais inferências informativa e informalidade). Entra
um stand up, com partes cobertas por imagens do treino, onde Kenzo Machida comenta
que os desfalques do time estão diminuindo. Fred e Edinho voltam de suspensão e Nem
e Bruno se recuperaram de contusão. Já Deco e Anderson ainda estavam no
departamento médico. Novamente aferimos as inferências de informação e
informalidade.
Em seguida, Alex Escobar destaca que o Vasco vai ter o segundo clássico
seguido, depois do Flamengo, vem o Fluminense e chama uma sonora informativa e
206
informal do Alecsandro, extraída da coletiva do jogador, avaliando os resultados
recentes.
ALECSANDRO: Nada anormal você empatar com o Inter. Você empatar
com o Corinthians, atual campeão da Libertadores, dentro da sua casa não é
nada de anormal. Não é nada anormal você ir lá e perder de 1 a 0 pro Atlético
Mineiro. O jogo atípico foi esse jogo do Flamengo que, nos últimos anos que
eu to aqui, não é normal a gente perder pro Flamengo. Esse sim é um jogo
anormal. Mas tirando esse jogo do Flamengo, acho que foram todos
resultados normais (Globo Esporte RJ, 22/08/12, acesso pela internet).
O apresentador dá razão ao jogador, lembrando que o Vasco não tinha perdido
os últimos jogos para o Flamengo. O comentário é incluído na inferência informativa.
Em seguida, com imagem do escudo do Inacreditável Futebol Clube (IFC) no telão,
anuncia que o mais novo convocado para esta equipe fictícia é um craque do Flamengo.
Entra a vinheta e o BG do quadro IFC: repetem o gol perdido por Leo Moura no
clássico três dias antes, com o áudio da transmissão. Em seguida, trecho da entrevista do
jogador, na coletiva de terça-feira, analisando o que aconteceu. Com dois offs curtos
narrados por Alex Escobar, pergunta se o lateral aceita a convocação e ele diz que aceita
a camisa, porque perdeu um gol imperdível. Temos as inferências informativa,
informal e de humor. E no estúdio, Alex Escobar disse que, já que Leo Moura aceitou
a brincadeira, a equipe do GE vai levar a camisa do IFC para ele vestir.
Após a vinheta GE Natação, entra VT narrado pela Carol Barcellos sobre as
provas do Troféu José Finkel. Seguindo a tendência dos dias anteriores, traz a
informação dos resultados e entrevistas com Thiago Pereira e César Cielo.
A passagem de bloco anunciou outras noticias ao vivo do Ninho do Urubu sobre
a volta do Adriano. E também reportagem sobre o dia de modelos dos lutadores do UFC
com a sonora do lutador brasileiro Glover Teixeira “a gente vai baixar o facho aí e acho
que ele vai querer voltar fazer cinema de novo”. Em seguida, entra arte com a logo do
GE e o e-mail [email protected]. Momentos informativo e informal.
O segundo bloco abre com o logo do UFC Combate no telão e Alex Escobar
lembrando: “Vai rolar no Rio de Janeiro em outubro o UFC, hein, UFC 3 aqui no Rio e
os caras, os lutadores tiveram que se superar num dos cartões postais aqui do Rio de
Janeiro” – conteúdo transmitido de forma informativa e informal.
A matéria do Édson Vianna é uma versão reduzida (é 41 segundos menor) do
material exibido no mesmo dia pelo GE SP. Sem as imagens de lutas, começa na
descontração e das dificuldades dos lutadores em dia obrigatório de modelo nos Arcos
207
da Lapa, no Rio de Janeiro. O medo do fotógrafo em pedir para eles sorrirem. Também
destacaram o fato de Rampage Jackson ter trabalhado no cinema e usam a sonora dele
dizendo que se divertiu mais no cinema que tirando fotos. A matéria atende três
inferências: informativa, informal e de humor, em especial com as falas do brasileiro
Glover Teixeira chamando os outros lutadores de feios e prometendo “baixar o facho”
do norte-americano mal humorado.
Alex Escobar chama de novo Mauro Júnior, já no telão, direto do Ninho do
Urubu para falar sobre o retorno de Adriano ao Flamengo.
Mauro Júnior explica que muitos jornalistas acompanharam a reapresentação do
jogador, que não treinou com bola, foi para a academia. Destacou que o contrato
assinado foi por produtividade, vai ganhar por partida e chamou um trecho da entrevista
coletiva de Adriano, sobre este tema. Em seguida, volta para Mauro Júnior que fala
sobre o histórico do atacante em 2009, enquanto são exibidas imagens do período.
Então, o repórter chamou outra sonora do Adriano, que disse que quer dar a volta por
cima para ajudar ao Flamengo. Mauro Júnior comenta que o jogador disse que gosta de
estar no Rio de Janeiro por causa da proximidade da família e que ainda tem desejo de
voltar à Seleção. Então o repórter devolve para Alex Escobar dizendo “E a gente tá
vendo mais um camisa 10, né, Escobar, voltando para o nosso futebol. Agora os quatro
grandes do Rio têm camisa 10.”. Direto do estúdio, o apresentador responde: “A gente
chegou a fazer uma reportagem que não tinha mais camisa 10 aqui nos quatro grandes
clubes do Rio. Agora tá todo mundo com o número 10 e isso é muito legal”.
Encontramos as inferências informativa e informal no material, que explicou as
pretensões de Adriano e os cuidados do Flamengo, além da expectativa de todos para
que se repetissem apenas os melhores momentos da carreira do atacante57.
Em seguida, Escobar chama o próximo bloco, cujo destaque é um bate-papo
com Felipe, goleiro do Flamengo e os boatos sobre ele. Além das imagens, há sonora do
jogador citando as notícias de que ele era brigado com todo mundo. “O repórter
perguntou: ‘Havia isso?’”. Antes do Felipe responder, volta para o Escobar avisando
que a resposta está no próximo bloco. Inferência informativa, usada para prender a
atenção do telespectador para a parte seguinte. Entra arte com a logo do GE e o e-mail
[email protected], até o bloco terminar.
57
No entanto, pouco mais de dois meses depois, o clube anunciou o rompimento do contrato, porque Adriano não
cumpriu a parte dele. Informação no jornal SportvNews, do dia 07 de novembro de 2011. Disponível em <
http://globotv.globo.com/sportv/sportvnews/v/zinho-informa-que-adriano-nao-e-mais-jogador-doflamengo/2228850/>. Acesso em 19 de janeiro de 2013.
208
Volta o bloco direto em uma nota coberta com narração de Luis Ernesto
Lacombe. É uma chamada para a próxima corrida da Stock Car, após umas "férias de
meio de ano", em Salvador, na Bahia apresenta os principais pilotos. A prova será no
domingo, com transmissão ao vivo da Rede Globo, dentro do Esporte Espetacular.
Momento informativo, em prol de um produto da casa.
Então, Alex Escobar chama o VT do bate-papo do repórter André Gallindo com
Felipe, goleiro do Flamengo, destacando que muitas coisas mudaram no clube com a
chegada do técnico Dorival Júnior, Felipe voltou a ser titular. A conversa foi gravada na
casa do goleiro, ao lado do filho, exibindo imagens do atleta em campo, treinando e
jogando.
209
André Gallindo Off: De viva voz.
(close do protetor bucal preto e vermelho com o nome do goleiro)
FELIPE (após um jogo): É complicado. Vida de goleiro é essa.
ANDRÉ GALLINDO OFF: Os últimos meses da vida de Felipe são o retrato
exato da tal...
FELIPE (reprise): ... vida de goleiro é essa.
ANDRÉ GALLINDO OFF: A proteção para os dentes....
FELIPE (após um jogo): Ah, o sorriso! Gostou do sorriso? (ele mostra o
protetor bucal).
ANDRÉ GALLINDO OFF: ... Ele queria que fosse uma proteção para as
críticas. Quantas vezes esse carioca criado na Bahia abriu o jornal e leu o que
não queria.
FELIPE (em casa): Que eu tinha briga no elenco. Que eu não me relacionava
bem. Que eu era brigado com o treinador, que era brigado com o porteiro,
que era brigado com o cozinheiro.
ANDRÉ GALLINDO OFF: O goleiro nega, por exemplo, uma divisão do
elenco tempos atrás. Tinha o grupo do Felipe contra o grupo do Ronaldinho
Gaúcho.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Havia isso?
FELIPE (em casa): Não, nunca houve. Nunca tive problema nenhum com
nenhum atleta na minha carreira.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Tinha com o Ronaldinho?
FELIPE (em casa): Não, nunca tive. Ronaldinho é um craque. Foi um sonho
para qualquer atleta poder atuar... Tive o prazer de ele ter na festa do meu
filho. A festa do aniversário do Yago foi um dos poucos atletas do Flamengo
que foi e então fiquei muito feliz com isso.
ANDRÉ GALLINDO OFF: O que ele não nega é o mal estar com Joel
Santana.
FELIPE (em casa): E eu fiquei chateado da forma como tudo aconteceu. Eu
acabei saindo por doença e, como falei, não tive nenhum contato, comentário.
Nada. Falei ele me tirou.
ANDRÉ GALLINDO OFF: Felipe teve dengue, foi pra reserva. Perdeu a
vaga para Paulo Vítor, de quem, assume, não é assim tão amigo.
FELIPE (em casa): É uma relação tranquila, extremamente profissional.
ANDRÉ GALLINDO OFF: Felipe ficou três meses fora do time. Três meses
calado.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Por que num momento
teoricamente ruim, você preferiu o silêncio?
FELIPE (em casa): Eu não queria aproveitar de uma derrota da equipe para
dar uma entrevista para parecer que eu estava forçando alguma coisa.
ANDRÉ GALLINDO OFF: O goleiro ficou sentadinho no banco até Joel cair
e o novo chefe chegar.
FELIPE (em casa): Depois da chegada do Dorival, os ânimos voltaram, a
confiança também e principalmente os resultados, né?
ANDRÉ GALLINDO OFF: Quatro jogos, de doze pontos, o time conquistou
nove. Três vitorias sem tomar gols. Incluindo a atuação de destaque no
clássico.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Quantas defesas contra o Vasco?
FELIPE (em casa): Cinco.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Primeira?
FELIPE (em casa): Numa cabeçada, foram três lances ali, rápido.
(sobe som do lance do jogo, com a narração original)
FELIPE (em casa): Você faz a defesa, e nem deu tempo... Você faz uma
grande defesa e em questão de dez segundos você poderia ter feito um gol
contra, né? Hoje eu fiz uma grande atuação. Ai domingo você já não joga
bem, você já não presta.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Talvez por isso...
Passagem André Gallindo: ... Na casa do baiano carioca, apesar da camisa
não se pensa em ser goleiro. Os dois filhos do Felipe querem ser o que,
210
Felipe? (imagem de um dos meninos, não identificado, correndo e pulsando
no colo para os braços do pai).
FELIPE (em casa): Atacante.
ANDRÉ GALLINDO (na casa do Felipe): Para fazer coraçãozinho, que nem
goleador e pra fugir das críticas que, volta e meia, perseguem o homem das
luvas. Que em dez anos de carreira já aprendeu. Com essa posição, com essa
camisa...
FELIPE (reprise): É complicado. Vida de goleiro é essa. (Globo Esporte RJ,
22/08/12, acesso pela internet).
A matéria explora o lado emotivo, família, “fora do campo”, uma espécie de
redenção do herói abandonado. Tem uma condução informal, um bate-papo no sofá da
casa, enquanto uma criança, filho do entrevistado, brinca por perto. E é informativa por
permitir que, após meses de silêncio, o homem que garantiu a vitória ao Flamengo no
domingo se expressasse sobre alguns temas complicados e espinhosos. Questionamos se
era necessária, porque como o próprio Felipe ressaltou, era apenas um momento, e a
maré poderia virar na próxima rodada e ele deixar de ser herói e voltar a ser vilão.
Encerramento do programa, Alex Escobar faz o convite para a transmissão do
jogo da noite entre Botafogo x Palmeiras, pela sul-Americana, depois de Avenida Brasil
e se despede: “Vamos parar o Barcos hoje, Botafogo!”. Mais uma vez, informação e
informalidade juntas. Então começa um clipe de imagens variadas, que foram exibidas
no programa: Stock Car, filho do Felipe fazendo coração, imagem do Felipe jogando,
encerra com gols do Andrezinho, do São Paulo e com o Léo Moura perdendo gol feito,
selo aparece na imagem dos atletas do UFC.
A quinta-feira, 23 de agosto, teve o menor programa da semana analisada, com
9’22”, em três blocos de 5’42”, 2’06” e 1’34”. E não foi o único diferencial: neste dia, a
edição foi praticamente temática, a respeito do centenário de nascimento de Nelson
Rodrigues. Foram quatro VTs especiais de crônicas sobre cada um dos quatro grandes
times do Rio: Fluminense (1’52”) e Vasco (1’10”) no primeiro bloco; Botafogo (1’25”)
no segundo e Flamengo (1’26”) encerrando o programa. Além disso, outro VT sobre
Adriano no Flamengo (1’59”) e um sobre a Natação (0’41”). Ainda foi exibido o quadro
“Chico, o torcedor” (0’42”).
Alex Escobar inicia o programa lembrando a comemoração do centenário do
escritor, dramaturgo e cronista esportivo Nelson Rodrigues. Por isso, ao longo do
programa seriam exibidas crônicas para cada um dos quatro grandes do Rio, lidas pelo
ator José Wilker e com a ajuda do personagem do texto. A primeira será sobre o
Fluminense, time pelo qual o cronista torcia, falando sobre a estreia de Rivelino em
211
1975. Podemos aplicar a inferência informativa, a respeito da relevância do tema para
o telespectador.
E a crônica do Fluminense começa após uma vinheta especial “Nelson
Rodrigues 100 anos”, enquanto são exibidas imagens do homenageado e do jogo ao
qual ele se refere. As frases da crônica passam na parte baixa da tela, José Wilker e
Rivelino se alternam na leitura e o ex-jogador é quem “assina”: “Nelson Rodrigues”.
Em seguida, mais um VT sobre o assunto da semana: a volta de Adriano. Diz o
apresentador: “No Flamengo, Adriano está à vontade e cheio de responsabilidade”. A
informação dá a tônica da reportagem de Mauro Júnior, que começa em seguida.
ADRIANO (sobe som): Boa sorte, Zinho. (BG música de batida eletrônica)
MAURO JÚNIOR OFF: Adriano, felizão, voltando para casa e brincando
com Zinho.
ZINHO (diretor de futebol do Flamengo): O Flamengo precisa de grandes
ídolos, o Flamengo sempre teve no seu elenco grandes ídolos. (BG funk)
MAURO JÚNIOR OFF: E esse ídolo é Flamengo de alma e coração.
ADRIANO: Aqui é minha casa. Aqui me sinto bem. São pessoas que quer o
meu bem. (BG hip hop)
MAURO JÚNIOR OFF: Foi bem concorrida essa entrevista coletiva com o
novo camisa 10. A forma, nitidamente, ainda não é a ideal. Adriano tá sem
jogar desde março e acima do peso. Mas o trabalho físico já começou e ele
pretende reestrear em, no máximo, um mês.
ADRIANO: Só depende de mim, não depende de mais ninguém. O Flamengo
abriu as portas para mim, pra que eu pudesse dar a volta por cima mais uma
vez, em 2009 foi assim, né?
LUIZ ROBERTO (sobe som): O Flamengo é campeão brasileiro de futebol!
ADRIANO: Espero que eu possa voltar o mais rápido possível a jogar, a
fazer gols, né, que eu to com uma vontade imensa de comemorar com a
torcida.
(BG com uma música remixada: sobe som de Luiz Roberto narrando gols de
Adriano).
MAURO JÚNIOR OFF: Em 30 minutos de entrevista, 26 perguntas e a cada
duas respostas, lá estava a resposta que Adriano repetiu incansavelmente:
responsabilidade (com efeito reverbe nessa palavra).
ADRIANO (alternando as imagens dos momentos em que ele falou na
coletiva): “A responsabilidade é minha”, “hoje eu tenho responsabilidade”,
“a responsabilidade é toda minha”, “essa responsabilidade que eu tenho
muito com os torcedores”, “tenho que me responsabilizar por meus atos”, “ a
responsabilidade não é do Flamengo”, “se eu não tiver uma responsabilidade
comigo mesmo acho que depois prefiro me afastar”, “a minha
responsabilidade hoje eu tenho”, “essa sim é a minha responsabilidade”, “eu
vou dizer isso aí, hoje agora a responsabilidade é minha”, “eu tenho que ter
uma responsabilidade sim como jogador de futebol” “hoje eu tenho uma
responsabilidade a mais, se eu não cumprir, como eu falei, a responsabilidade
é minha”.
MAURO JÚNIOR OFF: Responsabilidade 13 vezes. É para não se esquecer
mesmo. Afinal, o próprio Adriano admite:
ADRIANO: Hoje eu posso dizer que é minha última chance (Globo Esporte
RJ, 23/08/12, acesso pela internet).
212
A reportagem é crítica diante de mais promessas de um atacante que se
notabilizou por não conseguir cumprir o que é esperado de um atleta profissional. A
forma como é narrada aproxima-se da linguagem do cotidiano, daí a informalidade e
transmite a informação de que o Adriano voltou disposto a ser responsável.
Entra a vinheta do quadro “Chico, o torcedor”, personagem usado para comentar
algum fato relativo aos times cariocas. Apresenta a versão dele de como teria sido a
negociação para a volta de Adriano. Alegando que Flamengo precisava apresentar uma
contratação importante (porque os adversários tinham se reforçado com grandes nomes:
Juninho no Vasco e Seedorf no Botafogo), por isso, os cartolas rubro-negros estariam
disposto a permitir e perdoar as “escorregadas” do atacante. As três inferências que
observamos aqui foram a informação, a informalidade e o humor, usado de forma
crítica e se apoiando nas outras duas características.
Em seguida, Alex Escobar chama a segunda crônica de Nelson Rodrigues. O
tema era o retorno do atacante Roberto Dinamite ao Vasco em 1980. Segue o padrão:
imagens do dramaturgo, do jogo ao qual ele se refere e José Wilker e Roberto Dinamite
se alternando na leitura, com o ex-jogador e atual dirigente agradecendo ao escritor.
Mais uma vez, aplicamos a inferência informativa.
Alex Escobar chama o intervalo mostrando trechos da crônica do Nelson
Rodrigues sobre Garrincha com a participação da Elza Soares e a do Flamengo sobre
Nunes. Aplicação da inferência informativa, antecipando detalhes sobre os clubes que
ainda não tiveram a crônica exibida.
O segundo bloco começa com a vinheta GE Natação: VT narrado por Alex
Escobar atualizando os resultados do troféu José Finkel. Thiago Pereira conquistou o
recorde Sul-Americano. Em outra modalidade, Felipe França, que venceu Felipe Lima
por oito centésimos. Houve sonora de Thiago Pereira e sobe som do narrador e da
comentarista da transmissão. Temos aqui exemplo de informação e informalidade.
Em seguida, Alex Escobar chama a crônica de Nelson Rodrigues sobre o
Botafogo. O personagem é Garrincha e quem participa da leitura é a ex-mulher dele,
Elza Soares. Mantém o padrão e é ela quem assina o nome do autor. Outra vez, temos a
inferência informativa. Ao fim do VT, o segundo bloco termina com um corte seco.
Na abertura do terceiro bloco, o apresentador chama a última crônica de Nelson
Rodrigues, sobre o primeiro título Brasileiro do Flamengo, em 1980. O personagem é
Nunes, autor do gol na decisão contra o Atlético Mineiro. Ele se alterna na narração
213
com José Wilker e é quem agradece ao escritor. Novamente, a inferência informativa.
Alex Escobar se despede “não há tempo de falar muita coisa, não. As letrinhas já vão
subir. Muito boa tarde pra você e a gente se vê amanhã no Globo Esporte.”
Este programa destoou do exibido ao longo da semana. Como destacamos, pelo
tempo reduzido: 9’22” (o GE SP neste dia teve 9’38”). E pela opção editorial em fazer
homenagear Nelson Rodrigues, justificado pela importância dele para a crônica
esportiva carioca. Houve planejamento e pesquisa que resultou nas seleção das crônicas
e dos personagens, além de José Wilker, que foi o narrador na série “A vida como ela é”
exibida pelo Fantástico58. E na finalização, de edição, trilhas e artes, para deixar clara a
diferença do material exibido cotidianamente no programa.
O que causa estranhamento é a ausência de informações sobre o resultado de
Botafogo x Palmeiras, pela Copa Sul-Americana. O GE RJ teve matérias nos dias que
antecederam e o apresentador encerrou o jornal da véspera dizendo “Vamos parar o
Barcos hoje, Botafogo!”. O jornal disponível na internet não menciona, sendo que a
partida foi no Rio de Janeiro e transmitida pela TV, portanto, houve cobertura. Embora
não haja indicativo expresso, nossa suspeita é de que o programa foi reeditado para ser
colocado no site. A eliminação deste assunto factual da pauta causaria quebra de
confiança entre o GE RJ e todos os telespectadores interessados no que aconteceu no
jogo59. Notamos que, tanto no GE SP quanto no GE RJ, todas as matérias que faltam são
relativas a Sul-Americana. E na abertura da edição, Alex Escobar anuncia a exibição
das crônicas do Nelson Rodrigues, entre os telões com o escudo do Botafogo e com foto
de Adriano.
58
Os 40 episódios da série foram exibidos em 1996 e já foi reapresentada três vezes ao longo da programação da
Rede Globo. A ultima reexibição foi a partir do dia 26 de agosto de 2013, como uma homenagem ao centenário do
dramaturgo. Disponível em < http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/v/fantastico-vai-reprisar-episodios-de-avida-como-ela-e-a-partir-do-proximo-domingo-26/2097471/>. Acesso em 19 de janeiro de 2013. Apenas o primeiro
episódio foi narrado por Hugo Carvana. Os demais foram narrados por José Wilker. Informação disponível em <
http://www.teledramaturgia.com.br/tele/vidacomob.asp>. Acesso em 19 de janeiro de 2013.
59
Em contraposição à nossa suspeita, há um “na íntegra” no link deste programa, disponível em
http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-esporte-rj/v/globo-esporte-rj-programa-de-quinta-feira-23082012-naintegra/2103646/ (grifo nosso). Acesso em 15 de novembro de 2013.
214
Figura 10 – abertura GE RJ 23/08/12
O programa de sexta-feira, 24 de agosto de 2012, teve 15’09” divididos em três
blocos de 7’04”, 3’24” e 4’39”. Foram exibidos sete VTs: Vasco (2’25”),
Megarrampinha (1’38”), no primeiro bloco; Botafogo (1’10”), Flamengo (1’49”),
chamada do programa Corujão do Esporte (0’19”) no segundo bloco e no terceiro, VT
sobre as dores de Fred (2’18”). Há ainda um stand up de 0’54” sobre a Taça das
Favelas; uma arte com os convocados para a seleção (0’32”), uma nota coberta de 0’30”
sobre a Natação; duas notas secas, uma sobre a morte do ex-goleiro Félix (0’06”) e
outra anunciando a matéria sobre a frustração do Fred (0’06”). Duas passagens de
bloco, ambas usando sonoras de matérias que seriam exibidas: a primeira com 0’38” e a
segunda com 0’11”. Além de um clipe de 0’13” com imagens da edição no
encerramento.
O início é com Alex Escobar lembrando que a última rodada do primeiro turno
será repleta de clássicos. Para chamar a primeira matéria sobre o Vasco (que enfrenta o
Fluminense), ele lembra que a dúvida é qual atleta vai vestir a camisa referente ao
aniversário de 114 anos. Mais uma aplicação de inferência informativa.
O VT foi feito por Kenzo Machida, destacando que o time estava sem vencer a
três rodadas e que, por isso, o aniversário no dia 21 de agosto não teve a comemoração
que merecia. Há alguns anos o site oficial faz uma votação para escolher o jogador que
vai vestir a camisa com a idade do clube. No primeiro ano, Carlos Alberto usou a 111
anos na goleada de 4 x 0 sobre o Ipatinga, na série B. Nos últimos dois anos, Fernando
Prass usou a 112 e Dedé vestiu a 113. Nas duas vezes, o Vasco empatou com o
215
Fluminense. Em 2012, mais uma vez, contra o Fluminense, o torcedor poderia escolher
entre Juninho, Felipe, Fernando Prass, Dedé ou Alecsandro para ser o número 114.
Encontramos a inferência informativa e informal na forma como a matéria foi fechada.
Após a matéria, é exibida uma nota seca sobre a morte do ex-goleiro Félix,
titular da seleção brasileira de 1970. A imagem dele está no telão. É um momento curto:
dura seis segundos. Há um corte muito abrupto, precisamos ver várias vezes para
perceber. A informação mais importante – a morte de Félix – foi passada, mas deixou a
sensação de que houve algo a mais que não foi disponibilizado na versão da internet.
Em seguida, Alex Escobar aparece em frente ao telão menor com a foto do
atacante Fred, anunciando a matéria sobre o desabafo dele de não ter sido convocado
pelo técnico Mano Menezes. Temos mais uma inferência informativa. No entanto, aqui
a edição fica ainda mais evidente, porque Escobar começa a dizer: “Dá...” e há outro
corte seco e o apresentador aparece, em outro posicionamento, enquadrado entre os
telões menor e maior, onde aparece a logomarca do Esporte Espetacular, cuja chamada
destaca a volta de Adriano ao Flamengo. “será que ele pode voltar a jogar em alto
nível”. Outro exemplo informativo no programa.
No retorno ao estúdio, Alex Escobar interage com o Globolinha que está na
versão skatista e vai descer a “Mega Rampa” colocada no estúdio. Uso da computação
gráfica, porque tanto a rampa quanto o mascote foram inseridos virtualmente no espaço
real de apresentação do programa. Globolinha cai ao descer da Mega Rampa e Escobar
usa o fato para destacar que é a modalidade para profissional e chama o VT sobre os
jovens competidores da modalidade. A interação é informal, traz a informação e o
humor, porque o mascote pode cair à vontade porque não machuca.
O VT feito pela Carol Barcellos mostra os adolescentes norte-americanos de 11,
11 e 15 anos que são os mais jovens competidores da Mega Rampa, sonoras com eles,
como se protegem e também com a mãe de um deles, dizendo que tem medo, que até os
atletas mais experientes se machucam, mas que confia no filho. Também falou um
psiquiatra sobre o que representa este tipo de prática para atletas tão jovens. E lembra
que o evento será na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, no fim de semana. Temos
as inferências informativa e de informalidade.
Entra a vinheta GE Natação: uma nota coberta sobre os resultados do Troféu
José Finkel atualizando o desempenho de Thiago Pereira, depois de ganhar duas
216
medalhas ouros e uma de prata em três provas disputadas em poucas horas. Narração
que busca a informalidade para passar a informação.
Hora de chamar a passagem de bloco. Alex Escobar destaca que o Fred está
frustrado por não ter sido convocado por Mano Menezes; Brinner, zagueiro do
Botafogo, diz que o time está focado no clássico e mais um dia do acompanhamento da
volta de Adriano no Flamengo. Em seguida entra a arte com a logo do GE e o e-mail
[email protected]. Novamente, temos a informalidade e a informação.
O segundo bloco abre com uma matéria sobre o Botafogo, cujo clássico contra o
Flamengo seria transmitido no domingo à tarde. Alex Escobar disse que o Botafogo tem
motivos para estar animado. A vitória contra o Palmeiras, apesar da desclassificação,
serviu para fazer o time ficar forte para o fim da temporada. E o número dos desfalques
subiu de três para cinco. VT informativo, com sonoras do zagueiro Brinner e do goleiro
Jefferson (e foi mencionado que ele tinha sido convocado mais uma vez para a Seleção)
e um BG instrumental que lembra os utilizados em alguns VTs do GE SP e de condução
informal pelo repórter.
Então, temos Alex Escobar: “É semana de clássico sim, mas no Flamengo só se
falou em Adriano na semana inteira”. Kiko Menezes faz um resumo de tudo que foi dito
nos últimos dias sobre o retorno do atacante. Recupera o arquivo do próprio GE RJ que
divulgou o caso todos os dias, além de mostrar o jornal O Globo e páginas do site
Globoesporte.com. Também usa sonoras dos jogadores Felipe e Cáceres, sobre a
mudança de rotina. O VT tem a informação e a informalidade a seu favor: deixando
claro que a onipresença de Adriano no noticiário não distraiu o time dos objetivos
imediatos.
KIKO MENEZES OFF: Poderia ser a semana da vitória sobre o Vasco ou a
que antecede o clássico contra o Botafogo. Mas foi a semana em que só se
falou de Adriano.
ADRIANO (da entrevista coletiva): A responsabilidade é toda minha.
KIKO MENEZES OFF: E os outros jogadores, rola um ciúme daquela
câmera que busca os movimentos do atacante, por mais simplórios e
irrelevantes que sejam? Parece não.
FELIPE: Às vezes demora para entender que estou do lado do cara.
CÁCERES (legendada): Até agora, só cumprimentei. Não tenho intimidade
com ele.
KIKO MENEZES OFF: Nem em véspera de partida importante...
FELIPE: Tira um pouco até o foco do jogo. Deixa o time mais, não relaxado,
mas menos pressionado, mas que a gente tá treinando forte para domingo.
KIKO MENEZES OFF: O time treinou com a mesma formação do Adriano
(muda BG). E Adriano... chegou 35 minutos antes do horário marcado, fez
academia e foi embora. Simplório, irrelevante. Mas, nesta semana, em se
tratando de Adriano, imperdível.
217
(Globo Esporte RJ, 24/08/12, acesso pela internet).
Depois entrou a vinheta do programa Corujão do Esporte e a chamada feita pelo
apresentador, o ex-judoca Flávio Canto para a edição da próxima madrugada. Em
seguida, Alex Escobar chama a passagem de bloco destacando os convocados para a
seleção e a reclamação do preterido Fred: “nem penso em seleção enquanto o Mano
estiver lá”. Entra arte com a logo do GE e o e-mail [email protected].
O terceiro bloco começa com “Alô comunidades do nosso Rio de Janeiro, vem
aí a segunda Taça das Favelas”, inclusive com logomarca no telão maior. Alex Escobar
explica que o torneio terá cobertura do GE RJ. Ele explica que a Central Única das
Favelas, CUFA, assinou um convênio com equipes profissionais que vão mandar
olheiros e oferecer chances aos atletas que se destacarem. “Na edição passada, 70
jovens fizeram testes ou foram aproveitados por clubes aqui do Brasil e também do
exterior”. Temos informação e informalidade, e aproximação com a comunidade que
assiste ao jornal.
Entra stand up feito por Mariana Gross, da TV Globo Rio, não do GE RJ. Ela
explicou que, em 2011, 24 mil jovens participaram do torneio, que é uma parceria da
Globo Rio com a CUFA. O presidente da CUFA, Celso Athaíde, explicou que durante a
competição, olheiros dos quatro grandes estarão observando os melhores atletas, que
podem ir para um deles ou para o Madureira, que servirá como clube-gestacional de
talentos. Destacou que os presidentes dos quatro clubes assinaram o acordo e reforça
que é mais que futebol, é a integração entre favela, CUFA e os clubes cariocas.
Esta matéria traz a ligação com a cidade onde está inserida, recupera a
importância social do futebol, além das quatro linhas e do viés econômico. É uma
chance para integrar os jovens das comunidades, fazer com que vençam na vida por
meios legítimos e, neste caso, oferece à emissora a chance de fazer um trabalho social.
O stand up é essencialmente informativo. Um detalhe que chamou nossa atenção:
embora tenha sido dito que os presidentes dos quatro grandes clubes cariocas
participaram do evento foram mostrados apenas Patrícia Amorim, do Flamengo e
Roberto Dinamite, do Vasco.
Em seguida, Alex Escobar chama no telão uma arte que apresenta os convocados
para amistoso da seleção brasileira contra África do Sul e China, nos dias 7 e 10 de
setembro no Brasil. Outro momento informativo que serve como gancho para outra
informação do apresentador: “Fred não tá nessa e, segundo ele mesmo, não vai tá”.
218
Entra matéria da Luciana Ávila acompanhando treinamento do Fluminense no
bairro da Urca, no Rio. Mais que as dores físicas, o atacante estava chateado de ter sido
ignorado mais uma vez na convocação e desabafou. O VT é repleto destas pausas, caras
e bocas do atacante afirmando que era injustiçado e pelo desempenho que apresentava
no Campeonato Brasileiro merecia uma chance.
LUCIANA ÁVILA OFF: A dor da desilusão. Quando ouviu a frase
“convocação da seleção brasileira” (sobe som do repórter dizendo que a lista
tinha saído e a cara feia, e o “não” feito com a cabeça pelo atacante). Fred fez
sinal negativo, engoliu a seco, segurou como pode as palavras, mas soltou...
FRED: Seleção, Seleção, tem nem... eu nem... nem penso em seleção
enquanto o Mano estiver lá, cara. (Globo Esporte RJ, 24/08/12, acesso pela
internet).
A matéria faz o contraponto da possível razão pela qual o técnico não chamaria
o atacante. A origem da “birra” seria a ausência em uma convocação anterior.
OFF LUCIANA ÁVILA: Em fevereiro desse ano, o pai do atacante disse que
Fred tinha simulado uma lesão pra não jogar um amistoso contra a Argentina.
Fred e o Fluminense negaram. O clube, inclusive, divulgou uma nota oficial
atestando que o atacante sentia dores musculares.
FRED: Sou atacante, vivo de gols, to fazendo gols. Eu não sei mais o que ele
quer mais. Mas eu respeito. É o que eu falei, enquanto o Mano tiver no
comando da Seleção, eu não crio expectativa nenhuma de ir para a Seleção.
(Globo Esporte RJ, 24/08/12, acesso pela internet).
A matéria tem BG instrumental trocado de acordo com o tom da fala: mais
contundente diante da reclamação, mais suave nos offs da repórter. Ele também disse
que esperava “eu não, né, mas todo mundo aqui” a convocação do goleiro Diego
Cavalieri, titular da defesa menos vazada do Brasileiro. A matéria ainda mostrou que o
Fred saiu discretamente do treino para que fosse aplicado gelo no joelho direito.
Termina afirmando que ele vai jogar contra o Vasco e com a dor de Fred sobre a
seleção: “Dói, mas passa”. O VT é informativo e informal, sem errar o tom que
poderia banalizar o assunto e sem transformar o atacante em vítima, já que o histórico
dele não ajudava.
Na volta ao estúdio, Alex Escobar comenta o VT: “O Fred tem direito de se
manifestar e o Mano Menezes de chamar quem quiser também, não é verdade” e
encerra o programa com mais um momento informativo, lembrando que, “amanhã,
tapete vermelho para Léo Batista. A gente se vê na segunda-feira”. Os créditos sobem
enquanto aparece um clipe das imagens da edição.
219
A última edição analisada foi a de sábado, 25 de agosto de 2012. O GE RJ teve
18’09”, divididos em 06’08”, 6’34” e 5’27”. Foram oito VTs: Vasco (1’44”),
Fluminense (1’30”), Stock Car (1’28”) no primeiro bloco. No segundo bloco, os
estrangeiros do Flamengo e do Botafogo (2’05”), apresentação de Thiago Silva no Paris
Saint-Germain (PSG) (1’25”), medo da Mega Rampa (1’34”). O último bloco teve VT
do GE MG sobre o clássico mineiro à gaúcha (1’44”) e outra do quadro Achei!, sobre
Renato Sá, com 2’57”. Teve duas notas cobertas, uma sobre Adriano 0’25” e outra
sobre a Natação, 0’26” e as passagens de bloco, a primeira com sonora e 0’47” e a
segunda, com 0’23”.
O diferencial desta edição é a apresentação de Léo Batista, associado ao GE
desde a criação. Com as várias mudanças de formato na emissora, ele é o responsável
pela edição de sábado, além de participar em outros momentos, como a narração dos
gols do intervalo. Quem acompanha GE há mais tempo já conhece o estilo do
apresentador, sem comentários engraçadinhos, a prioridade é informação.
A primeira matéria que ele chama é sobre o clássico entre Vasco e Fluminense,
que seria na noite de sábado, um dos vários da última rodada do primeiro turno e a
informação é “o time de São Januário deve inovar no ataque”,
A matéria de Edson Viana comenta sobre o Vasco ter “travado” no Campeonato
Brasileiro. Temos a informação e a informalidade no jeito de encadear os fatos.
EDSON VIANA OFF: Prepara... vai! (imagens do treino físico dos atletas)
Mas frearam muito cedo... Tipo o Vasco, que vinha na cola do Atlético
Mineiro, mas, nos últimos seis jogos, só venceu o Sport.
CRISTÓVÃO BORGES (técnico): A gente precisa da participação de todos.
A gente não tá conseguindo fazer isso. E isso atrapalha um pouco.
EDSON VIANA (passagem): E na hora que o Vasco precisa acelerar de
novo, não vai poder contar com a velocidade do Éder Luiz. Aí, o Cristóvão
pode transformar dois jogadores que, teoricamente, são concorrentes em
companheiros.
EDSON VIANA OFF: Alecsandro e Tenório. Homens de área. O Cristóvão
testou uma formação com os dois, mas ainda não decidiu se vai usar hoje.
Tenório pode ser titular pela primeira vez desde que voltou da lesão do
tendão de Aquiles do pé direito.
CRISTÓVÃO BORGES: Já jogaram juntos em alguns momentos. Ele entrou
no jogo contra o Atlético Mineiro, que a equipe melhorou ofensivamente. Já
deu pra ver que a possibilidade de jogar junto é viável.
EDSON VIANA OFF: Difícil é segurar o cara, que voltou cheio de vontade
depois de cinco meses parado.
(Sobe som de um gol do Tenório)
CRISTÓVÃO BORGES: É um jogador que se entrega muito, um jogador de
força. A volta dele tem que ser muito bem trabalhada. Deu pra ver que ele
voltou num jogo, no outro jogo já sentiu um incômodo muscular e isso é
natural que aconteça.
220
EDSON VIANA OFF: Tenório nunca enfrentou o Fluminense, mas já
comemorou uma vitória sobre o tricolor: a da LDU na final da Libertadores
de 2008. Ele foi revelado lá e é torcedor do time equatoriano. Tenório, o
demolidor simpático... para os vascaínos. Os tricolores que não esperem essa
gentileza toda.
SOBE SOM NARRADOR: Tenório!!!
(Globo Esporte RJ, 25/08/12, acesso pela internet).
Logo após o VT, vinheta GE e começou o VT sobre o Fluminense, destacando o
volante Jean, que vinha recebendo elogios por causa das últimas atuações. A matéria foi
fechada pela Luciana Ávila, usou a sonora de coletivas, tanto do jogador quanto do
técnico. Acrescentou que não foi revelada a escalação para o jogo, que também teria o
confronto Dedé x Fred. Temos as inferências de informação e de informalidade.
De volta ao estúdio, Léo Batista chama matéria sobre a faixa amarela pintada no
asfalto em Salvador. Inferência informativa: a norma que será exigida na corrida da
Stock Car, um dos destaques do Esporte Espetacular do dia seguinte.
Mauro Júnior lembra que a faixa amarela faz diferença porque a corrida será
numa pista de rua. O piloto que está defendendo uma posição deve escolher um lado e
não pode cruzá-la. A meta é incentivar mais luta por posições e ultrapassagens. Os
pilotos contam as estratégias e a expectativa para a prova. Encontramos as inferências
informativa e informal, para que as pessoas entendam aspectos relevantes da corrida.
Em seguida, passagem de bloco: Léo Batista diz que testaram o português do
paraguaio Cáceres, do Flamengo e do holandês Seedorf, do Botafogo – com sonora do
Seedorf. Além disso, informações sobre a apresentação de Thiago Silva ao PSG (com
imagens dele chegando ao hotel) e o desafio do skate na Mega Rampa: até campeão de
MMA tem medo – sonora do Minotauro. Mais uma vez, entra arte com a logo do GE o
e-mail [email protected], até o bloco terminar. Inferências informativas,
informalidade e humor presentes neste momento do programa.
Volta o programa e Léo Batista lembra que a última rodada do primeiro turno é
reservada para os clássicos regionais. E Botafogo x Flamengo teriam “gringos” em
campo no Engenhão. Os créditos informam: “Campeonato Brasileiro, Botafogo x
Flamengo, amanhã, 16h”. Temos exemplo de inferência informativa com a
informalidade, em chamar os atletas estrangeiros de “gringos”.
A matéria feita por Carlos Gil resume o acompanhamento dos dois times e traz
sonoras com os estrangeiros Cáceres, do Flamengo e Seedorf e Lodeiro, do Botafogo.
Além de avaliar a capacidade de se expressar em Português, destaca a importância de
cada um para o sistema tático da equipe e de que forma podem ajudar no clássico.
221
222
CARLOS GIL OFF: Quando esses muchachos... (imagens do time do
Flamengo no túnel de acesso ao campo e o crédito: muchachos = rapazes)...
entram na cancha... (imagens do time do Flamengo entrando em campo e o
crédito: cancha = campo) ... tratam bem a pelota... (imagens de jogo e o
crédito: pelota = bola) e agradam à hinchada. (imagens da torcida e o crédito:
hinchada = torcida)
CARLOS GIL OFF: Falando assim, fica mais fácil a adaptação.
CÁCERES (legendada): O grupo me ajudou muito e isso me facilitou para
poder jogar e adaptar-me muito rápido ao futebol brasileiro.
CARLOS GIL (passagem): E já que agora a moda no Flamengo é falar
Espanhol, a palavra pode ser paredón.
CARLOS GIL OFF: Paredón. Paredão. Nenhum gol sofrido nas três partidas
em que escalou o paraguaio Cáceres.
DORIVAL JÚNIOR: São jogadores que, realmente apresentam essa
disciplina, até como um sentido de vida. Eu acho que isso é fundamental. Nós
brasileiros perdemos muito dessa... dessa... Aliás, essa palavra não faz mais
parte do nosso dicionário em todas as esferas.
CARLOS GIL OFF: Os elogios são extensivos ao zagueiro chileno Marcos
González. O problema é que os dois vêm sendo convocados para as seleções
de Paraguai e Chile e vão desfalcar o time em algumas rodadas do Brasileiro.
Algo com que Dorival júnior terá que se preocupar no futuro. Mas não
amanhã. (muda BG) Amanhã a dor de cabeça tem sotaque holandês.
SEEDORF (legendada): Pra mim, são três pontos. Eu não estou vendo o
Flamengo.
CARLOS GIL OFF: Além de Seedorf, o meio campo alvinegro tem outro
estrangeiro, o uruguaio Lodeiro, revelação do futebol celeste. Outro sulamericano atraído pelo poder de investimento do futebol brasileiro. Para se
dar bem por aqui os gringos não veem mistério.
SEEDORF (legendada): A gente está fazendo um trabalho dia-a-dia que eu
acho importante. Eu estou vendo muito compr... Como se fala isso?
Comprometimento, obrigado. (risos)
CARLOS GIL OFF: Comprometimento e disciplina, nota 10, Língua
Portuguesa, nota 8. Tá bom pra eles, né. (Globo Esporte RJ, 25/08/12, acesso
pela internet).
Além da informação e da informalidade, temos o humor usado de forma
construtiva pelo repórter, apontando as diferenças e as dificuldades superadas com
elegância e sorrisos pelos jogadores que não são brasileiros.
Em seguida, um loc off com Léo Batista sobre a rotina de Adriano. “E o
Adriano, hein, treinou hoje de manhã na Gávea”. Então, imagens do treino enquanto o
apresentador fala o restante das informações ao vivo. Atende a inferência informativa.
De volta ao estúdio, Léo Batista chama matéria de Marcos Uchôa sobre a
apresentação de Thiago Silva no PSG. O capitão da Seleção Brasileira (revelado pelo
Fluminense) teve recepção à altura dos R$110 milhões que custou: inferência
informativa. O texto destaca que o fato do time ter sido comprado por um sheik do
Qatar fortaleceu o futebol francês e o interesse de colocar Paris no mapa do futebol.
“Thiago Silva teve direito a uma chegada de estrela. Com torcedores-adoradores”. Além
do dono do time, que descreveu Thiago Silva como o “melhor zagueiro do mundo”,
também estava presente o diretor de futebol, o ex-jogador Leonardo. No encerramento,
223
Marcos Uchôa reforçou que o time quer vitórias. “o luxo da apresentação é proporcional
ao tamanho da pressão por títulos”. Mais uma vez, encontramos informação e
informalidade.
Ainda no segundo bloco, Leo Batista chama matéria sobre o medo da Mega
Rampa, destacando que a competição será uma das atrações do Esporte Espetacular do
dia seguinte: inferência informativa.
MINOTAURO (áudio captado por microcâmera, por isso está legendada): O
vento batendo e eu tô ficando apavorado.
CAROL BARCELLOS OFF: Dicas para os adversários: leve o Minotauro
para uma rampinha de 27 metros de altura.
MINOTAURO: É, pavor, pavor, pavor...
CAROL BARCELLOS (passagem): O medo é aquele aviso de que estamos
numa situação de risco. É o que nos protege. É o que eu sinto quando chego
aqui, ó. Na verdade, eu e qualquer ser humano.
CAROL BARCELLOS OFF: Até os mais corajosos.
BOB BURNQUIST: Só coragem, você se machuca. O lance é que toda vez
que eu desço daqui de cima, eu tenho medo.
CAROL BARCELLOS OFF: Bob Burnquist é tricampeão da Mega Rampa.
É aqui os caras são os magrinhos. Treinados, acostumados, mas sempre há
um risco.
JOSÉ LUIZ FREITAS (psicanalista): Há conflitos, inconscientes, que tão
influenciando ali. Então, eles sabem bem o que fazer. Quando chega na hora,
estes conflitos gritam.
CAROL BARCELLOS OFF: Aconteceu com Marcelo Cozac, na estreia da
Mega Rampa no Brasil em 2008. Skatista experiente e tal. Mas na hora...
(imagens do skatista desistindo de descer). Um dia antes, o criador da Mega
Rampa, o americano Danny Way, tinha quebrado duas vértebras durante o
treinamento. A Mega Rampa é o limite do skate. É assustadora.
CAROL BARCELLOS:Dá para fazer cara de mau aqui em cima?
MINOTAURO: Não, não. Aqui eu tenho cara de bonzinho. Cara de bonzinho
e cara de medo. (Globo Esporte RJ, 25/08/12, acesso pela internet).
O VT junta dois “produtos da casa”: Mega Rampa e UFC (eventos transmitidos
pela Rede Globo) e recebe tratamento diferenciado, com uso de áudio e imagens feitas
por microcâmera, trilhas instrumentais remetendo ao rock adequadas ao que é mostrado.
No texto, a repórter usa o lutador de UFC como o personagem de algo próximo a muitas
pessoas: o medo de altura. Consegue ser informativa, informal e ainda ter humor, sem
parecer estar debochando de quem não tem coragem para fazer o que os skatistas fazem.
Depois, entra a vinheta GE Natação e nota coberta sobre resultados do troféu o
José Finkel, duas medalhas de ouro de Cesar Cielo e se classificou para a final dos 50 m
borboleta. “Cansou, Cesão?” pergunta que encerra o texto de Leo Batista. Passou a
informação de maneira informal, respeitando as características do apresentador do dia.
O destaque da passagem de bloco é a história do jogador que acabou com as
duas maiores invencibilidades do futebol brasileiro. “Sabe onde nós o achamos? Em
224
uma boate.”, imagens do jogador dançando. Em seguida, o encerramento padrão: arte
com a logo do GE e o e-mail [email protected], até o bloco terminar.
O terceiro bloco começa com Leo Batista relembrando que a rodada terá sete
clássicos regionais (os confrontos aparecem no telão). Entre eles, um Cruzeiro e
Atlético com jeito de Gre-nal: mais uma inferência informativa.
Entra a matéria do Elton Moraes, do GE MG, fala da grande rivalidade entre os
times, campeonato à parte dentro do Brasileiro. A passagem do repórter entrega o
gancho do VT: “Atlético e Cruzeiro, o maior clássico da terra do “uai”, no gauchês seria
tratado mais ou menos assim: ‘Bah, no domingo teremos uma baita peleja, tchê’.
Realmente um grande confronto. Seja aqui, ou nos pampas gaúchos”. Para esclarecer a
influência gaúcha, apresenta os jogadores com passagens pelo Grêmio e Internacional
que reforçam os rivais de Minas. E nem os técnicos Cuca (jogou e dirigiu o Grêmio) e
Celso Roth (dirigiu os dois times gaúchos) escaparam. É informativa, informal e tem
humor ao relacionar os sotaques diferentes. E por que exibir uma matéria sobre o
clássico mineiro? Saber informações sobre o Atlético era importante para os torcedores
dos times cariocas, especialmente Fluminense e Vasco, em melhor posição na tabela.
E volta Leo Batista para chamar um VT para o quadro ACHEI! (a logomarca
está no telão) feito por Edson Viana. O apresentador diz que, às vésperas do clássico, o
GE encontrou um atleta que marcou contra Botafogo e Flamengo.
O repórter localizou em Florianópolis o jogador que acabou com as duas
maiores sequencias invictas do futebol brasileiro: em 1978, Renato Sá jogava pelo
Grêmio e foi enfrentar o Botafogo, então, com uma invencibilidade de 52 jogos. O
Grêmio venceu com gol dele. Em 1979, Renato Sá se transferiu para o Botafogo e
enfrentou o Flamengo, que estava há 52 jogos invictos e ele novamente marcou na
vitória alvinegra. A curiosidade é que ele gosta tanto de balada que tem uma boate em
casa – investimento feito com a herança que recebeu do pai. E está “curtindo a
aposentadoria, viajando bastante, dançando bastante”. O VT tem arte diferenciada, que
acompanha a logo do quadro. A matéria faz uma recuperação da memória, apresentando
um personagem desconhecido de uma geração de torcedores, sendo informativa, tem a
informalidade do bate-papo e humor. O encerramento do programa é feito com o “Boa
Tarde!” em tarja e o clipe de imagens do Renato Sá se divertindo na boate, coberto pelo
selo do GE RJ.
225
A análise de dados quantitativos revela aspectos interessantes. Na semana entre
20 e 25 de agosto, o telespectador do GE SP teve no total: 1h42min53seg de noticiário,
divididos em 18 blocos. Foram 56 cabeças (introduções dos assuntos feitas pelo
apresentador), 23 matérias/reportagens/VTs, considerando que as matérias que tratavam
de dois times foram contabilizadas apenas uma vez (como foram exibidas), embora no
detalhamento de temática, entrem duas vezes.
Detalhando as matérias/reportagens/VTs: sete foram sobre o Corinthians,
somando 23’54” (lembrando que houve uma matéria sobre o clássico com o Santos e
outra dividida com o São Paulo, sobre os preparativos para o jogo do dia 26 de agosto),
quatro sobre o São Paulo, somando 11’47” e outras quatro sobre o Santos, com 11’41”.
O Palmeiras teve três matérias em 8’14”. Também foram mencionados Atlético
Goianiense, em 3’09”sobre a vitória em cima do Palmeiras e a Ponte Preta em 2’54” na
derrota para o São Paulo. Um VT resumo dos gols e lances inusitados da rodada, com
1’10” e o VT de 0’50” feito com imagens do primeiro Barcelona x Real Madrid da
temporada 2012/2013 (o futebol internacional teve 1’15” – incluindo aqui o loc off
sobre Zé Love).
Fora do futebol, houve as matérias sobre a premiação “Empresário Amigo do
Esporte” com 0’39”, sobre o UFC com 2’22” e uma matéria e um loc off promovendo a
Mega Rampa: 2’15”. O automobilismo teve três menções (que somaram 12’16”): 1’34”
promovendo a Stock Car, bate-papo com o piloto Felipe Massa que durou 8’52” e o VT
que encerrou a semana, sobre a pilota que participa do Rally dos Sertões, com 1’50”.
Alem disso, em dois dias (edições de segunda e quinta-feiras) Caio Ribeiro
participou do programa. Foram seis entradas, total de 5’23”. Já nas edições de sexta e
sábado, foram apresentadas as Musas Brasileirão em 1’39” em um bate-papo no
estúdio. Ao longo da semana 4’22” foram em oito sonoras de quatro assuntos
diferentes: o trecho da entrevista do Tite na segunda-feira, cinco trechos da coletiva do
técnico da seleção brasileira Mano Menezes e uma entrevista com o goleiro Félix, na
sexta-feira e a errata sobre uma das sonoras de Mano Menezes (somada ao que foi
exibido na véspera, 3’29” sobre Seleção), no sábado. Foram quatro entradas ao vivo,
11’13”: direto de Salvador sobre voluntariado para a Copa das Confederações e do
Mundo, vivo com Alexandre Lozetti, sobre a novela Ganso, entrevista ao vivo com o
técnico Ney Franco direto do CT do São Paulo e vivo no CT do Corinthians, sem
entrevistado. Quatro loc offs somaram 3’04”: Zé Love treinando no Milan; a festa de
226
aniversário do Lucas, do São Paulo; Neymar perdendo pênalti contra o Universidad do
Chile, sobre o escândalo envolvendo Lance Armstrong e sobre os treinos da Mega
Rampa. E ainda 1’05” para a exibição de dois vídeos do “Amigo Internauta”, Togo de
Mossoró. Aliás, o Botafogo conseguiu ser o outro time carioca (além do Flamengo, no
VT sobre Adriano) citado na edição paulista: 0’47”, com a pergunta do internauta e a
resposta do Caio Ribeiro.
Já o GE RJ, na semana entre 20 e 25 de agosto, teve 1h33min21seg distribuídos
em 18 blocos. Foram 45 cabeças, 33 matérias/reportagens/VTs, considerando que, da
mesma forma que no GE SP, as matérias que tratavam de dois times foram
contabilizadas apenas uma vez, embora no detalhamento de temática, entrem duas
vezes.
Detalhando as matérias/reportagens/VTs: oito foram sobre o Flamengo,
somando 17’27” (houve uma matéria sobre o clássico com o Vasco e sobre os “gringos”
dividida com o Botafogo, sobre os preparativos para o jogo do dia 26 de agosto), sete
foram sobre o Botafogo, com 14’54” (uma foi compartilhada com o Flamengo), quatro
sobre o Vasco, somando 08’54” e outras quatro sobre o Fluminense, somando 7’36”.
Também citaram Atlético Mineiro, em dois VTs exibidos na segunda e no
sábado, somando 5’50”; o Cruzeiro, com 1’44” (VT compartilhado com o Atlético no
sábado), clássico Santos e Corinthians, 2’30”, Sport, 1’56”. A editoria futebol
internacional teve a apresentação de Thiago Silva no PSG, com 1’25”. E o Inacreditável
Futebol Clube apareceu duas vezes: uma entrega de camisa e a convocação de Léo
Moura, do Flamengo, somando 2’47”.
Ainda foram mostrados dois loc off que tiveram 2’02” sobre os gols da rodada
na segunda-feira e ainda os melhores momentos da rodada – GE 10 – com 2’33”, na
terça-feira. Além de uma arte no telão do estúdio com os convocados para a Seleção, de
0’32”. Em entradas ao vivo foram dispendidos 5’35”, na terça e na quarta-feira, sendo
que os temas foram o voluntariado para a Copa e o retorno de Adriano ao Flamengo.
Três stand ups, sobre a Taça das Favelas, Adriano e Fluminense: 2’02”. Duas notas
secas, resultados de cortes abruptos para a edição disponível na internet, somando 0’12”
Sobre temas além do futebol, a Natação foi a campeã de citações: 3’12” em
cinco vezes, entre terça e sábado. E 3’12” também foi o tempo dedicado à Mega Rampa,
que apareceu no GE RJ na sexta e no sábado. Uma delas, compartilhada com o UFC,
também citado duas vezes, quarta e sábado, somando 3’15”. A Stock Car entrou em
227
uma chamada e um VT, com 2’12”. Já o Rally dos Sertões teve 1’45” na segunda e na
terça. E houve também VT sobre a Meia Maratona do Rio de Janeiro com 0’41”.
Nos dois jornais, ao longo da semana, os times de maior torcida em ambos os
Estados foram os que tiveram mais tempo: o GE SP dedicou 26’55” em 12 menções ao
Corinthians, incluindo VTs, uma entrada ao vivo, sonora do técnico da Seleção sobre
jogadores convocados e a participação da Musa do Clube. Na segunda-feira, foram
cinco menções, por causa do resultado do clássico. Apenas na terça-feira, o time não foi
citado no jornal. Na quarta e na quinta, foram uma menção cada, três na sexta e duas no
sábado. Já no GE RJ, o Flamengo dominou o noticiário no período analisado: 24’20”
em 14 menções entre matérias, vivos, stand up, nota cobertura e o quadro “Chico, o
torcedor”. Mais da metade deste tempo – 13’40” – foi dedicado a Adriano, o
personagem da “novela” da semana, em um stand up, três vivos, dois VTs, o quadro
“Chico, o torcedor” e uma nota coberta. Nas edições de segunda, terça e sábado, foram
duas entradas. Já na sexta, apenas uma. Três na quinta-feira e o auge: quatro na quartafeira.
No GE SP, o Santos também teve menções diárias no programa: 21’58”, em
quatro VTs, três comentários de Caio Ribeiro, um loc off, um vivo (caso Ganso) e a
participação da Musa do time. Em 11 menções – quatro VTs, dois estúdios, dois
comentários do Caio Ribeiro, dois loc offs, entrevista ao vivo distribuídos ao longo dos
seis programas analisados – o São Paulo somou 20’24”. E o Palmeiras ficou com cerca
da metade dos adversários – 10’52” somando os três VTs, os dois comentários do Caio
Ribeiro e a entrevista que contou com a Musa do time. No entanto, o clube só entrou na
pauta do programa na segunda, na quarta, na quinta (mesmo sem constar na versão
disponibilizada na internet a exibição de VT sobre o jogo contra o Botafogo, pela Copa
Sul-Americana) e no sábado.
No GE RJ, além do rubro-negro, o outro clube mencionado todos os dias de
análise foi o Botafogo, com sete matérias (no sábado, foram duas), totalizando 13’40”.
Somando o tempo dos VTS e da sonora exibida na quarta-feira, no total, o Vasco teve
9’23”. O Fluminense encerrou a semana com 8’10”, incluindo o stand up exibido na
quarta-feira. Na terça-feira, não houve menção nem ao Vasco nem ao Fluminense.
Os dois jornais ofereceram informações além de seus times de referência: em
comum, tiveram o Rally dos Sertões (que foi tema de dois VTs sobre etapas no GE RJ
que somaram 1’45” e do VT de 1’50” sobre a pilota no GE SP), a Stock Car (no GE SP,
228
1’34” e no GE RJ, 2’12”), o UFC (um deles, compartilhado, mas nem assim igual: a
versão exibida pelo GE SP tinha 2’22” e a do GE RJ 1’41”. O assunto ainda voltou no
GE RJ em um VT sobre o medo da Mega Rampa, exibido no sábado – desta forma:
3’15”), a Mega Rampa (novamente VT compartilhado entre as duas praças:
Megarrampinha, com diferenças mínimas, 1’36” no GE SP e 1’38” GE RJ, que também
exibiu o VT do medo da Mega Rampa, dedicando, portanto 3’12” ao tema). Lembramos
que UFC, Stock Car e Mega Rampa são eventos com transmissão exclusiva da Rede
Globo, os dois últimos estavam na programação do Esporte Espetacular do domingo,
dia 26.
O GE RJ trouxe informações da Meia Maratona do Rio de Janeiro, no dia 19 e
acompanhou as provas do troféu José Finkel, de Natação, realizado na piscina do Sesi,
em São Paulo, e tinha a equipe do Flamengo, capitaneada por César Cielo entre as
favoritas. Mas o fator local não fez diferença, porque a competição não foi mencionada
no GE SP da semana analisada. No entanto, o GE SP deu mais espaço à convocação da
Seleção, por meio das falas do então técnico Mano Menezes – 3’29 que o GE RJ, que
optou por exibir a lista dos atletas chamados em um arte no telão, que durou 0’32” e a
frustração do atacante Fred, com 2’18”. E GE SP também dedicou mais tempo à
informação da morte do goleiro Félix, com Tiago Leifert explicando quem era, a
importância do atleta e exibindo uma sonora gravada em 2010 (0’35”, só a sonora –
0’48” no total) contra uma informação de 0’06” dita por Alex Escobar, em um momento
“mutilado” na edição de sexta-feira, do GE RJ. O escândalo envolvendo Lance
Armstrong foi mencionado no GE SP, mas não no GE RJ. Assim como a premiação
Empresário Amigo do Esporte. E houve tempo para citar o futebol internacional: GE
SP atualizou sobre a carreira do Zé Love e o resultado do primeiro Barcelona x Real
Madrid e o GE RJ trouxe detalhes da apresentação de Thiago Silva ao PSG.
Foram analisadas inclusive as falas dos apresentadores e do comentarista, além
das convidadas para o estúdio e também que a mesma notícia – independente da forma
como foi veiculada – pode conter uma ou todas as quatro inferências estabelecidas para
este trabalho. Desta forma, no GE SP, levantamos 58 inferências informativas, 50 de
informalidade, 21 de humor e 17 de banalização. Já no GE RJ levantamos 92
inferências informativas, 62 de informalidade, 16 de humor e nenhuma de
banalização, em todos os programas. Em todos os dias – conforme as versões
disponibilizadas na internet, o GE SP teve mais tempo total de produção que o GE RJ: a
229
diferença é de 9’50” (tempo superior a ambas as edições apresentadas na quinta-feira,
dia 23 de agosto: GE SP teve 9’38” e GE RJ 9’22”). A edição paulista quebrou o préjulgamento de que seria voltada apenas para o entretenimento, apresentando uma
relevante quantidade de informação, conforme inferências aplicadas neste estudo.
Destacamos a matéria com as sonoras das coletivas de Adriano, que passa mensagem
crítica contrapondo as palavras do personagem. E não apenas em reportagens, a
explicação sobre os detalhes envolvendo o caso Ganso tinha informações que ajudariam
o telespectador a formar opinião. Além disso, a edição de sexta-feira, dia 24 de agosto,
foi a que, em nossa opinião, se aproximou mais da meta de unir informação com
entretenimento, foi o jornal mais informativo, para isso, se utilizando de entrevista ao
vivo, sonoras soltas sobre a convocação da Seleção, loc off sobre o escândalo
envolvendo Lance Armstrong, o resultado de Barcelona x Real Madrid, encerrando com
nota seca e sonora sobre a morte do goleiro Félix e com um Tiago Leifert
homenageando o goleiro. E o entretenimento apareceu na conversa com as candidatas a
Musa. Ou seja, tudo dosado, funciona bem: conselho que foi abandonado no
fechamento da edição de sábado, com as matérias sobre Barcos e sobre a Pilota do Rally
dos Sertões. Podemos ressaltar aqui a diferença nas reportagens feitas por repórteres
veteranos (Mauro Naves, Abel Neto) e por repórteres mais novos (como o Ivan Moré e
o Léo Bianchi). Podemos atribuir à experiência adquirida pelos veteranos, que estão
neste trabalho há pelo menos duas décadas, e ao fato dos mais novos estarem adequados
às exigências de formatação atuais do GE SP.
Em contrapartida, a edição carioca conseguiu ser mais informativa, a partir das
inferências utilizadas nas análises, investindo dados e comentários que acrescentavam
algo a quem estivesse assistindo. Percebemos que o jornal teve uma coerência editorial
– o telespectador percebe o estilo independente do repórter que feche a matéria,
priorizando o acompanhamento da rotina dos clubes cariocas – e a edição que se
diferenciou das demais foi a de quinta-feira, por ser homenagem ao centenário de
Nelson Rodrigues. Além disso, recebeu materiais não apenas da Agência GE – inclusive
VT do correspondente Marcos Uchoa sobre Thiago Silva no PSG, mas também de
outras praças, como a contribuição da TV Gazeta/ES (na entrega de camisa do
Inacreditável Futebol Clube) e da equipe do GE MG (com o VT do clássico mineiro à
moda Gre-nal). E ainda divulgou os “produtos da casa”: Stock Car, UFC e Mega
Rampa, inclusive unindo os dois últimos em um VT que causa identificação (ao levar o
230
telespectador a pensar se teria coragem de subir e, depois, de descer em um skate). Sem
contar o uso dos quadros Inacreditável Futebol Clube; Chico, o Torcedor e Achei!, os
dois últimos relativos a temas factuais: a volta de Adriano e um jogador que participou
da quebra de invencibilidade de Botafogo e Flamengo, que fariam o clássico no
domingo, dia 26 de agosto.
Também destacamos o não compartilhamento de matérias ou reportagens sobre
temas específicos: por exemplo, na segunda-feira, o GE SP mencionou o clássico
carioca no giro de gols da rodada e fechou um VT próprio sobre o retorno de Adriano
ao Flamengo. Já o GE RJ não usou o VT de São Paulo sobre o clássico Santos x
Corinthians e fechou uma versão própria narrada pela Carol Barcellos (e, como
mencionamos, fazendo escolhas diferenciadas: a sonora mais exibida pelo GE SP “Tite
nervoso” não foi utilizada no GE RJ). Ainda na segunda-feira, ao invés de utilizar o
material feito por GE MG sobre o confronto Atlético x Botafogo, também fez uma
matéria própria narrada por Alex Escobar. Como não constam nas edições analisadas do
GE SP e do GE RJ, não pudemos verificar a abordagem ao jogo Botafogo x Palmeiras
pela Sul-Americana, que poderia permitir o contraponto dos dois estilos aplicados ao
mesmo objeto.
E nos dois aspectos onde o GE SP fez sua fama: informalidade na apresentação e
humor, o GE RJ também conseguiu se destacar na semana analisada. Para citar apenas
um dos exemplos identificados durante o levantamento, a narração do VT sobre Atlético
x Botafogo trouxe logo nas primeiras frases elementos do ambiente para contar a
história do jogo: “Um abraço sob o céu de Belo Horizonte. Hoje adversários
relembraram os tempos de Milan nesse gesto. Depois voltariam seus abraços pros
companheiros. Foi uma partida intensa, como aquele abraço”. Sem deixar de informar
que havia uma história pregressa – Ronaldinho Gaúcho e Seedorf jogaram juntos –
avisa que a partida foi competitiva e disputada. O GE SP investiu na resposta ao
internauta na quinta-feira, algo que passou batido na transmissão da véspera, na
recuperação da falha do pênalti por Santiago Silva para situar o erro recente de Neymar,
no agradecimento ao técnico Ney Franco por antecipar a escalação. E na formatação dos
textos de matérias, tentando ampliar o entendimento da informação e usando termos
como “o cara do ciclismo”, a comparação da compra de Ganso com a negociação de um
apartamento.
231
Outro aspecto onde os jornais possuem visão distinta foi no uso do humor como
elemento informativo. O GE SP teve bons (o giro dos gols da rodada, o personagem
com “liberdade momentaneamente cerceada” na matéria sobre o filme do São Paulo, o
funk em dois momentos: sobre o tombo de Neymar na hora de bater o pênalti e para
contrapor estilos de São Paulo e Corinthians) e maus exemplos (várias brincadeiras
durante a entrevista com Felipe Massa, os comentários sobre o loc off do aniversário de
Lucas, as trilhas escolhidas para as matérias sobre o Palmeiras sobre a derrota para o
Atlético Goianiense e sobre os preparativos para enfrentar o Santos). E no GE RJ, os
momentos de humor não tiveram aspecto de perda de tempo e sim de crítica e inclusão
do público no que estava sendo mostrado: Minotauro com medo na Mega Rampa; a
sonora do Antônio Carlos dizendo que, no Botafogo, “todos estavam no mesmo barco”
e o repórter usando o gancho com o principal atacante do Palmeiras e carrasco
alvinegro: “Barcos? Barcos, não, Antônio Carlos. Barcos, não.” na terça-feira, o texto
do loc off dos gols da rodada na segunda-feira, no VT de terça-feira; o uso de uma
narração antiga de Galvão Bueno e comentário do Pelé para tentar explicar o erro do
atacante Myller na terça-feira, o quadro Chico, o Torcedor, debochando e criticando
aspectos da recontratação de Adriano pelo Flamengo na quinta-feira; a interação com o
mascote virtual Globolinha na sexta-feira e o VT que brincou com os gringos de
Botafogo e Flamengo, sem desrespeitá-los. Além de provar que aprendeu a fórmula
deste modelo atual implantado por São Paulo, conseguiu somar mais inferências de
informalidade na forma de apresentar a notícia, com menos tempo de produção.
No entanto, a mais gritante diferença entre GE SP e GE RJ está na inferência
banalização: utilizando um termo esportivo, uma goleada paulista – 17 x 0. No entanto,
neste caso, venceu quem viu o programa “derrotado” no marcador. Porque quem viu o
GE SP teve acesso a comentários (interessa saber que o Ivan Moré cortou o cabelo? Ou
que foi ao “veterinário” para isso? Ou que os óculos dele eram fashion? Ou que ele tem
mania de passar o cabelo? Ou que o Tiago Leifert está mal vestido perto do repórter que
estava em uma coletiva da Fifa? Ou chamar os lutadores do UFC de “modeletes” na
passagem de bloco por cumprirem a obrigação das fotos promocionais?) e a temas
(como à festa do aniversário do Lucas, o vídeo de Togo de Mossoró cantando
“Yesterday”, dos Beatles e a denúncia de que ninguém passava a bola para Zizao, no
treino do Corinthians) que nada acrescentavam esportivamente ao telespectador. Alem
das trilhas escolhidas para as matérias que distraíam (relembramos o “espírito jovem
232
festeiro de ousadia e alegria” presente nas músicas escolhidas para três dos quatro VTs
sobre o Santos) ou reforçavam um estereótipo (a música de Zé Ramalho para Barcos, do
Palmeiras; o contraponto capital x interior, no VT Atlético Goianiense x Palmeiras; à
vontade de jogar a “pilota-gostosa” no fundo da Fiorino). Falando em estereótipo, o GE
SP, que se diz tão novo e moderno, na semana analisada, nada fez a não ser reforçar o
velho rótulo de que a mulher no mundo esportivo só se destaca como musa, pela beleza
(como as torcedoras escolhidas para defender o clube na promoção realizada pelo site e
por um programa de entretenimento da emissora), ou como “objeto” pela
disponibilidade e interesse em estar ao lado do homem atleta, este sim, digno de brilhar
sobre os holofotes (de novo, precisamos lembrar a cobertura da festa de aniversário do
Lucas e o destaque que as convidadas receberam). As duas exceções estão na matéria da
Megarrampinha, na sexta-feira. A primeira é que foi o único material em toda a semana
fechado por uma repórter, Carol Barcellos, da equipe do Rio de Janeiro. A segunda é
que tem a entrevista com a mãe de um dos jovens skatistas, que apoia o filho, mesmo
com todos os riscos, porque confia no talento e treinamento dele. Podemos considerar
uma terceira exceção a participação indireta da “Voz na Consciência” durante o loc off
sobre o treino da Mega Rampa, no sábado, onde a “Voz” (que é a editora Renata
Cuppen) emite a opinião sobre o fato de que os pilotos caem muito na competição que
era arriscada. A quarta exceção são as torcedoras presentes à pré-estreia do filme
Soberano 2, do São Paulo. No entanto, como já mencionado, estes foram os pontos fora
da curva na semana. Diante das “periguetômetro explodindo” no aniversário do Lucas,
da Musa que se identificou com a periguete-xodó da novela de sucesso e da pilota-gatagostosa-na-praia do sábado, nos questionamos se após tirar o smoking para se juntar à
rave (citando a metáfora dita pelo apresentador), quando a cinta-liga será substituída
pelo uniforme com o qual as mulheres batalham por títulos e medalhas. Afinal de
contas, não bastou à Helena Soares ser mãe e pilota que compete no maior rally do país.
Para ser digna de ser tema de matéria, teve que se despir do macacão e passar a maior
parte do tempo de biquíni, porque quando estava vestida, a imagem não a mostrava de
corpo inteiro e destacava mais o rosto.
Ainda sobre este tema, contabilizamos as participações/citações femininas nos
dois grupos de seis edições analisadas do GE SP e do GE RJ. Embora os números sejam
iguais – 11 participações em cada um dos dois estados – a situação muda quando
somamos o tempo total e o objetivo destas participações. As 11 identificadas no GE SP
233
contabilizaram 8’16” em menções na quarta, na quinta, na sexta e no sábado: 1’02” no
loc off e nas imagens da festa do atacante Lucas usadas no encerramento na quarta-feira;
0’23” de imagens de torcedoras (incluindo uma que subiu nos ombros de um homem
para ver Rogério Ceni) do VT sobre o filme Soberano 2, exibido na quinta-feira; 1’36”
da matéria da Carol Barcellos sobre a Megarrampinha (onde está a sonora da mãe do
skatista) e 0’56 de entrevista com três das candidatas a Musa do Brasileirão e o sábado
que teve 0’42” de outra entrevista com mais três candidatas a Musa e todas as
referências ao VT da Pilota do Rally, que teve ‘150”: mencionado na passagem de bloco
0’13” (“no próximo bloco, uma história edificante, uma história inspiradora. Um grande
exemplo de vida”, a risada do apresentador e imagens de uma mulher de biquíni
andando na praia, com a legenda “Exemplo de vida”.), os 0’11” falados por Tiago
Leifert para chamar a matéria ( “A gente continua com muita beleza neste programa.
Um grande exemplo de vida. Uma pilota do Rally dos Sertões, três filhos, espeta...,
exemplo para todas vocês. Dá só uma olhada”.), os 0’22” de comentário após o VT (“É
dura a vida de Leo Bianchi no Rally dos Sertões. Mas que grande exemplo de vida. o
Globo Esporte sempre traz pra você essas histórias de superação, essas histórias
bacanas, né?”) e 0’10” das imagens da pilota Helena Soares na praia enquanto subiam
os créditos – foi a última imagem do jornal.
Em contrapartida, o GE RJ teve presença feminina em todos os dias: foram 11
momentos que somaram 16’10”, quase o dobro, uma diferença de 7’54”. E é oposta a
escolha de conteúdo para preencher o tempo: Carol Barcellos narrou o VT fechado pelo
GE RJ sobre Santos x Corinthians (2’30”) e as matérias sobre Rally dos Sertões (0’46”)
na segunda e na terça (0’59”), além de narrar o VT sobre a natação na terça (0’47”) e na
quarta (0’49”). Na quinta, contabilizamos o 1’25” do VT sobre a crônica de Nélson
Rodrigues sobre o Garrincha, com a participação da ex-mulher do jogador, a cantora
Elza Soares. A edição de sexta contou com três participações femininas, todas com
passagens (ou seja, a repórter aparece na tela): Carol Barcellos, com o VT
Megarrampinha (1’38”), Mariana Gross, cedida pela redação da Globo RJ, em um stand
up sobre a Taça das Favelas (0’54”) e a Luciana Ávila fechou VT de 2’18” sobre a
decepção de Fred fora da seleção. No sábado, Carol Barcellos falou sobre o medo da
Mega Rampa (1’34”) e Luciana Ávila mostrou o treino do Fluminense para enfrentar o
Vasco (1‘30”). No GE RJ, as mulheres foram mostradas como parte da história (sem
entrar no mérito do relacionamento entre Elza Soares e Garrincha, mas ela foi escolhida
234
por ser uma “voz autorizada” enquanto ex-mulher a falar sobre o personagem da crônica
de Nelson Rodrigues) e como integrantes da equipe, produzindo materiais sem distinção
de modalidade – futebol, natação, skate, automobolismo – e função social – a Taça das
Favelas atende ao esporte usado em prol da comunidade e também como marketing
social da empresa.
Por fim, vamos avaliar os apresentadores. Ao longo da semana, foram dois
diferentes por jornal: o GE SP teve o Ivan Moré na segunda-feira e Tiago Leifert no
restante do período analisado. Já o GE RJ esteve sob o comando de Alex Escobar de
segunda a sexta e foi apresentado por Leo Batista no sábado. Desta forma em uma
semana, temos o contraponto de estilos, desde o mais “antigo/tradicional” até o
“novo/moderno”.
O GE SP se apoia no estilo do apresentador Tiago Leifert, que conduz o
programa no ar e fora dele, enquanto editor-chefe. E ficou tão personalizado que é até
difícil distinguir em alguns textos acadêmicos, jornalísticos ou mesmo postagens de
blogueiros que acompanham TV sobre o GE SP (e o filhote dele, Central da Copa) o
que é crítica sobre o estilo do programa do que são críticas ao Tiago Leifert. Ao se
tornar a cara do que se chamou “novo estilo de jornalismo esportivo”, também se tornou
o alvo preferencial das “pedradas”, merecidas ou não. Ao longo da semana analisada,
contabilizamos 22’35” de participações de Leifert (terça, 3’06”; quarta, 6’; quinta:
3’28”, sexta 5’43” e sábado, 4’15”), ao chamar matérias, ler os loc offs, conversar com
o comentarista Caio Ribeiro ou com as convidadas no estúdio e interagir com os
repórteres ao vivo. A forma como introduz os assuntos antecipa a visão do que será
exibido: basta verificar os tons utilizados na entrada ao vivo sobre as inscrições para o
voluntariado da Copa das Confederações ou nas sonoras da coletiva de Mano Menezes e
comparar com o tom e a risada sobre o VT da Pilota do Rally dos Sertões. Em um,
concentrado, responsável e crítico; em outro, debochado. E este estilo é mantido até
quando ele não está no comando: Ivan Moré, que apresentou a edição de segunda-feira
– somando 6’53” de intervenções, seguiu o mesmo script, com a narração informal,
descontraída (o melhor exemplo estava no VT sobre os gols da rodada, que conseguiu
ter humor e ser crítico com o comportamento dos jogadores no clássico carioca) e os
comentários “engraçadinhos”, que não acrescentam informação ao telespectador.
Da mesma forma como Tiago Leifert é “a cara” do GE SP, Alex Escobar, que
não é jornalista de formação, se tornou “a cara” do GE RJ. Na semana avaliada, ele teve
235
22’53” em participações. Apenas na segunda-feira foram 9’25” (porque também narrou
o VT sobre Atlético Mineiro x Botafogo). Para tal tempo, teríamos que somar dois dias
de Tiago Leifert (a terça e quarta dariam 9’06” ou quarta e quinta, 9’28”) e depois teve a
participação reduzida para 4’34” na terça; 3’15” na quarta; 2’ na quinta e 3’39” na
sexta-feira. Este tempo foi distribuído em narrar matérias, chamar VTs, entrevistas ao
vivo ou as passagens de bloco, fazer comentários sobre matérias exibidas (na segundafeira, após o VT do jogo Santos x Corinthians, na terça-feira, comentando a ilustre
companhia Bebeto e Ronaldo, que estavam com o repórter Sérgio Pinheiro e na sextafeira, comentando o desabafo/reclamação do atacante Fred, por não ser convocado para
a Seleção). Embora informal e descontraído (como no encerramento de quinta-feira
“não há tempo de falar muita coisa, não. As letrinhas já vão subir. Muito boa tarde pra
você e a gente se vê amanhã no Globo Esporte” e de sexta-feira: “amanhã, tapete
vermelho para Léo Batista. A gente se vê na segunda-feira”), Alex Escobar não faz
comentários brincalhões o tempo todo (as exceções foram o comentário após a
entrevista ao vivo sobre o voluntariado para as Copas da Confederações e do Mundo e
também o “Vamos parar o Barcos hoje, Botafogo!”, no final da edição de quarta-feira).
Encerramos a nossa análise dos programas e passaremos para a última etapa do
estudo de nossos objetos – GE SP e GE RJ: o grupo focal. Verificar o quanto do que
levantamos e apreendemos nas etapas anteriores se encontra corroborado pelo público
convidado para esta análise. E não excluímos que novos pontos de vista sejam
identificados a partir de novos pontos de vista de pessoas distintas.
4.4 – Globo Esporte na visão do Grupo Focal
Foi realizado um Grupo Focal para acrescentar mais dados e visões à temática
estudada. A metodologia permite a coleta de informações e opiniões de como a
audiência compreende e analisa os programas. Gatti (2005) comenta que é empregado
há quase 100 anos: no início, mencionado como técnica de pesquisa em marketing nos
anos 1920 e usado nos anos 1950 para estudar as reações das pessoas à propaganda de
guerra. Costa detalha que a origem é atribuída às Ciências Sociais, em 1941, por meio
de Paul Lazarsfeld e Robert Merton, considerado o “pai do Grupo Focal” ao publicar o
primeiro trabalho utilizando a técnica. Gatti considera que é um bom instrumento de
236
levantamento de dados para investigações em ciências sociais e humanas, mas a escolha
de seu uso tem de que ser criteriosa e coerente com os propósitos da pesquisa.
Há interesse não somente no que as pessoas pensam e expressam, mas
também em como elas pensam e porque pensam o que pensam.
Segundo Morgan e Krueger (1993), a pesquisa com grupos focais tem por
objetivo captar, a partir de trocas realizadas no grupo, conceitos, sentimentos,
atitudes, crenças, experiências e reações, de um modo que não seria possível
com outros métodos, como, por exemplo, a observação, entrevista ou
questionários. O grupo focal permite fazer emergir uma multiplicidade de
pontos de vista e processos emocionais, pelo próprio contexto de interação
criado, permitindo a captação de significados que, com outros meios,
poderiam ser difíceis de se manifestar (GATTI, 2005, p.9).
Costa reforça que a maior busca no Grupo Focal é por compreender, não em
inferir nem generalizar. Considera que tem potencial para complementar pesquisas
quantitativas e pode ser usado antes ou depois delas. Lista como vantagens o fato de o
grupo convidado gerar uma sinergia que reforça a interação e enriquece as respostas,
que é recomendável quando se quer ouvir as pessoas, explorar temas de interesse em
que a troca de impressões enriquece o produto esperado, quando se quer aprofundar o
conhecimento de um tema. Conforme Gatti (2005), a metodologia
(...) pode ser usada para a busca de aperfeiçoamento e de aprofundamento da
compreensão, a partir de dados provenientes de outras técnicas, ou para
orientar posteriormente o planejamento de um estudo em larga escala com
outros instrumentos. É uma técnica de levantamento de dados muito rica para
capturar formas de linguagem, expressões e tipos de comentários de
determinado segmento, o que pode ser fundamental para a realização de
estudos posteriores mais amplos, com o emprego de entrevistas e
questionamentos. (GATTI, 2005, p.12)
A autora destaca que a técnica é útil quando se quer entender as diferenças
existentes
em
perspectivas,
ideias,
sentimentos,
representações,
valores
e
comportamento de grupos diferenciados de pessoas. E compreender os fatores que
influenciam, as motivações que subsidiam as opções ou porquês de determinados
posicionamentos. Ainda para Gatti (2005), o grupo deve ter composição que se baseie
em algumas características homogêneas (que interessem ao estudo) dos participantes,
mas com variação para surgirem opiniões diferentes ou divergentes. E é essa diferença
que enriquece o processo de análise, ao trazer elementos que provoquem novas
reflexões sobre o problema. Desta forma, ela orienta que a seleção dos participantes
depende de critérios conforme o problema em estudo. Em geral, eles devem ter alguma
237
vivência com o tema a ser discutido, para que sua participação possa trazer elementos
ancorados em experiências cotidianas.
O trabalho com grupos focais permite compreender processos de construção
da realidade por determinados grupos sociais, compreender práticas
cotidianas, ações e reações a fatos e eventos, comportamentos e atitudes,
constituindo-se uma técnica importante para o conhecimento das
representações, percepções, crenças, hábitos, valores, restrições,
preconceitos, linguagens e simbologias prevalentes no trato de uma dada
questão por pessoas que partilham alguns traços em comum, relevantes para
o estudo do problema visado ( GATTI, 2005, p.11).
No entanto, a autora pondera que é preciso lembrar que os participantes de um
grupo focal estão se expressando em um contexto específico, em local neutro, em
interações que não são próprias daquele conjunto e, por isso, os pontos de vista não
podem ser tomados como posições definitivas. Gatti (2005) recomenda cautela na
consideração de um grupo focal como representativo de um certo universo de pessoas.
Costa (2008) destaca que é necessário elaborar um roteiro que atenda à agenda
da pesquisa, incentive as discussões sem fugir do objetivo necessário. Deve funcionar
como um guia, dos pontos mais relevantes a serem abordados, mas sem impor
limitações à conversa. Assim, deve ser algo flexível ao movimento do grupo para que
seja possível aproveitar a liberdade que é oferecida por esta forma de coleta de dados.
De acordo com Puchta (2004), os Grupos Focais representam um oásis de
liberdade no grande deserto determinista dos questionários. Por outro lado, há
necessidade de saber administrar essa liberdade. Liberdade na condução para
que as respostas sejam as mais espontâneas possível, liberdade na análise,
permitindo identificar pistas, conexões e permitindo documentar uma
variedade de pontos de vista e percepções sobre o tema em tela. (COSTA,
2008, 191-192)
Gatti (2005) pondera que, por meio dos grupos focais, é possível entender
melhor as diferenças ou as proximidades existentes entre o que as pessoas dizem e o que
elas fazem de fato, o que permite articulações entre os múltiplos entendimentos e
significados revelados pelos participantes. Considera que o controle menor que o
pesquisador tem sobre os dados que podem surgir durante o encontro é uma qualidade,
porque podem emergir situações e discussões que ampliam o cabedal explicativo diante
do problema em pauta.
A dinâmica da realização do Grupo Focal orienta que o convite seja feito de
forma atrativa, mas sem dar detalhes sobre o objeto de estudos, para que os convidados
não tenham curiosidade em obter informações que possam alterar a opinião deles antes
238
da realização do encontro. Na sala, o moderador conduz a conversa, sem demonstrações
de parcialidade que também possam causar alguma interferência. O ideal é que a
reunião seja gravada em áudio ou vídeo. E que sejam feitas anotações escritas, que
contribuem ao sinalizar aspectos ou momentos importantes, “falas significativas
detectadas no instante mesmo, na vivência do momento, para registrar trocas e
monólogos, dispersões, distrações, cochichos, alianças, oposições, etc., ou seja, pontos
cuja importância pode passar despercebida no registro geral” (GATTI, 2005, p.27).
Também é reforçada a confidencialidade das informações, que todos serão identificados
por números ou alguma característica relevante para o estudo. Após o encerramento, o
material deve ser organizado: transcrever as gravações, reunir com as anotações feitas
durante o processo e, a partir disso, catalogar e classificar as respostas conforme o
estudo em andamento.
Para o grupo focal sobre o GE, primeiro devíamos estabelecer quais programas
seriam exibidos, dentre os escolhidos para a análise desta dissertação. O primeiro
critério foi: exibição original na mesma data. O segundo: ambos deveriam ter os
apresentadores titulares Tiago Leifert e Alex Escobar. Aqui, foram excluídas as edições
de segunda-feira (Ivan Moré apresentou GE SP) e sábado (Léo Batista comandou o GE
RJ). O terceiro critério: por ter um tempo que destoava dos demais, além de ter sido
temático no Rio de Janeiro, excluímos os jornais de quinta-feira.
Portanto, estavam passíveis de análise as edições de terça, quinta e sexta-feira.
Após análise das temáticas debatidas nestes dias, consideramos que a edição de quartafeira foi a mais equilibrada entre as duas praças: o GE SP de terça-feira teve uma
matéria de quase 9’, algo incomum até mesmo para eles e na edição de sexta-feira, o GE
SP não mencionou todos os grandes times do estado. Estabelecemos a seguinte ordem:
seriam exibidos os programas do dia 22 de agosto. Caso acontecesse algum problema
técnico com um deles, utilizaríamos a edição de sexta-feira, dia 24 de agosto.
Persistindo alguma dificuldade, então, recorreríamos ao programa de terça-feira, dia 21.
A ordem foi definida apenas para casos extraordinários ou emergenciais, porque todos
foram testados e checados para não haver imprevistos na hora da exibição, que
comprometessem a análise dos participantes do Grupo Focal.
No entanto, houve uma situação que escapou ao controle. O equipamento
utilizado para o registro da reunião – uma câmera de TV pertencente à Faculdade de
Comunicação da UFJF – apenas gravou a imagem, não conseguindo captar o áudio. O
239
fato se revelou uma surpresa para todos, visto que funcionou corretamente até a véspera.
Mais tarde, foi descoberto que uma peça do cabo de áudio utilizado anteriormente à
nossa gravação se partiu e ficou dentro do equipamento, impedindo assim qualquer
registro posterior. No entanto, a análise dos resultados foi possível a partir das
anotações feitas pelo orientador prof. Doutor Márcio Guerra e por nós durante o
encontro. A falha nos impede de ter a transcrição literal de todos os trechos, mas temos
os principais pontos abordados pelos participantes.
Em seguida, concluímos que um encontro poderia contribuir para o estudo e
optamos por convidar dez participantes, de origens e faixas etárias variadas, mesclando
especialistas e público geral. No dia agendado, 18 de janeiro, além da nossa presença e
do orientador, prof. Doutor Márcio Guerra, sete pessoas compareceram e ficamos com a
seguinte composição para o grupo, realizado na sala da Diagramação, na Faculdade de
Comunicação da UFJF:
Participante 1 – A., estudante, adolescente do sexo feminino.
Participante 2 – E., metalúrgica, casada, mãe.
Participante 3 – G., estudante, adolescente do sexo masculino.
Participante 4 – M., assessora de comunicação, casada.
Participante 5 – A., funcionário público, casado.
Participante 6 – M., professor de escola estadual, casado, pai.
Participante 7 – I., editor de um site de esportes, casado.
Conforme o diagrama abaixo (fig. 11), o orientador ficou à esquerda do telão e
ficamos perto da câmera. Os participantes 1, 2, 3, 4 e 5 sentaram na mesma fileira, a
segunda, da esquerda para a direita, na sala da diagramação. Já os participantes 6 e 7
sentaram-se na terceira fileira, atrás dos participantes 1 e 2. Ninguém escolheu se sentar
na primeira fileira.
240
Figura 11 – Diagrama disposição Grupo Focal
Durante a exibição, todos prestaram atenção. Em vários momentos, a
participante 4 fez anotações a mão em um envelope – muitas durante a matéria sobre o
Corinthians. A participante 2 riu do fotógrafo que estava com medo dos atletas do
UFC. O participante 7 fez anotações em um tablet. Os participantes 4 e 5 se
entreolharam durante o loc off do aniversário do Lucas.
O começo silencioso do GE RJ atraiu a atenção (por causa do delay da entrada ao vivo,
direto do Ninho do Urubu), deixou todos intrigados com o suspense do que seria falado.
Os participantes 4 e 7 fizeram anotações durante a matéria do Botafogo. O
participante 6 sorriu ao ouvir a informação de que Adriano só receberia por
produtividade, na volta ao Flamengo.
Ao final da exibição, o grupo foi perguntado sobre o que achou dos programas e
se houve algum de que gostou mais. Destacando a primeira resposta de cada um,
verificamos que a argumentação de Tiago Leifert – de que a mudança de linguagem e
visual no GE SP atrairia mais público – tem fundamento. Dos sete participantes, as três
representantes do sexo feminino e o estudante adolescente preferiram a edição paulista.
Para a participante 2, foi uma experiência interessante porque nunca assiste aos
dois programas e não havia pensado em compará-los. Ela considera o GE SP mais
envolvente porque não trata só de esporte. A participante 4 acha o GE SP mais fácil de
ser assistido, mas fácil de ser consumido por assuntos que não são exclusivamente
esportivos. No caso dela, que não gosta tanto de esporte, seria mais fácil de entender. O
participante 3 disse que o GE SP é completamente diferente do GE RJ e que ambos
são diferentes do GE MG, que é o que ele assiste. Para ele, o GE SP é melhor porque
tem mais humor, como o Tadeu Schmidt faz no Fantástico. A participante 1 destacou,
241
na única intervenção durante a conversa, que também preferiu GE SP porque tem muito
humor, é mais explicado e as mulheres que não seguem esporte se sentem incluídas.
Os outros dois integrantes do sexo masculino, não especialistas, tiveram visão
diferente: o participante 6 disse que o final do GE SP ficou parecendo coluna social. E
notou ainda que o GE RJ teve, ao contrário do GE SP, três temas fora do futebol:
natação, Stock Car e UFC. Para o participante 5, o GE RJ é mais clássico. Já o
participante 7 avaliou que, pra quem gosta e acompanha, o GE RJ é melhor. E
comentou que este programa do GE SP foi incompatível com a fama dele, porque teve
informação. O participante 7 considerou que a forma como as pessoas entendem o
programa depende do grau de envolvimento delas com esporte. Ele abomina UFC, nem
considera esporte, mas desde que a Globo comprou os direitos, entrou na pauta da
emissora. E disse que a matéria exibida nos dois programas foi “digerível”. A
participante 4 concordou que o GE RJ é para quem acompanha e que o GE SP, quem
não acompanha, consegue entender. O participante 3 avaliou que o GE SP abrange
mais pessoas, inclui aquelas que não seguem o programa, mas estão ali sentadas
assistindo à TV e que o RJ é mais específico. E lembrou que o GE MG consegue ser
mais leve, seguindo a linha do SP. O participante 6 lembrou que achou curioso que a
única matéria que passou em ambos foi sobre o UFC. E para ele, o GE SP atende as
pessoas que querem algo além de esporte, como saber da vida pessoal do jogador. Neste
momento, parece mais um TV Fama.
Já sobre o GE RJ dois participantes falaram algo que pode ser visto como elogio,
mas que, para eles, representou uma barreira. O participante 3 disse que o GE RJ é o
programa feito como sempre e exige que a pessoa acompanhe esporte para entender. A
participante 4 concordou com um comentário feito pouco antes pelo participante 5 de
que o GE RJ é o “clássico” programa jornalístico esportivo: não é tão fácil de ser
assistido, a menos que você tenha alguma informação prévia.
Estas opiniões refletem a maior preocupação de um programa – em especial, o
jornalístico: ser compreendido pelo público. Devemos considerar que os participantes
do Grupo Focal viram duas edições isoladas no tempo e espaço, portanto, sem
referenciais e informações anteriores que poderiam ajudá-los a ter uma compreensão
plena. E o fato de tornar a mensagem mais simples, não significa torná-la banal ou
simplória. No entanto, estes comentários revelam que ainda há ajustes necessários para
que algumas barreiras sejam derrubadas. Desta forma, o GE RJ se torna difícil de
242
entender porque é essencialmente esportivo e o GE SP é inclusivo porque deixou de sêlo.
O meio termo é o desafio para ambos. E fica evidente quando listamos falas,
registradas em momentos variados, do grupo de participantes sobre temas exibidos nos
dois programas, mas que eles não compreenderam totalmente. O participante 6 disse
que, apesar do tempo investido no caso Ganso, ele não entendeu de forma clara qual é o
verdadeiro valor do jogador. Já a participante 2 destacou que a entrevista com o
goleiro do Flamengo a deixou em dúvida sobre a personalidade do atleta. Disse que não
viu histórico (das brigas e do campeonato), e que ficou com vontade de procurar em
outros lugares mais informações. “Pintaram um cara pra mim, já pensou se, amanhã, ele
for para o Botafogo?” (palavras dela), destacando que a matéria a deixou sem um fecho,
uma conclusão. E sobre a Stock Car, a participante 2 comentou que foi “só um grupo
de imagens” que não disse nada para ela. Neste momento, o participante 5 interveio e
lembrou que a Stock Car parecia mais propaganda (o que era, de fato: chamada para a
transmissão da prova em Salvador, no domingo, dentro do Esporte Espetacular).
Uma dificuldade apontada para a compreensão foi o ritmo das notícias. O
participante 3 disse que os programas diários são diferentes dos programas do fim de
semana, que tem mais tempo. Ele diz que consegue ter entretenimento com SP e ser
informativo com o RJ. O participante 5 disse que sabe que os jornais tem um tempo
definido, mas que há notícias passadas muito rápido, então quem está vendo não
consegue entender. O participante 3 disse que sentiu falta de comentários. Segundo
ele, o programa “passou, letrinha subiu, tchau!”, um monte de “matéria, matéria, tchau”.
Ele considera fundamental o comentário para entender melhor o que foi falado. O
participante 7 considerou que o GE RJ teve momentos muito rápidos, que não
entendeu nada da matéria sobre a Natação e “olha que eu estava prestando atenção” e
que a matéria sobre o goleiro Felipe “se torcer, torcer, torcer, não sai nada” e a coletiva
do Adriano só demonstrou o sucesso que viria a ser depois (irônico). Em contrapartida,
sobre o GE SP, o participante 7 comentou que o primeiro bloco, dedicado ao caso
Ganso, foi quase uma “TV Senado” de tão burocrático, mesmo sabendo que um cara
vindo de impresso não tem tanto traquejo para televisão (referindo-se ao Ale Lozetti, do
Globoesporte.com, que explicou a negociação), poderiam ter colocado imagens do
jogador, de “um gol do Ganso” para ilustrar. Sobre a cobertura da Natação, o
243
participante 6 disse que entendeu que era o Troféu José Finkel, mas que não saberia
dizer o grau de importância da competição e nem quanto tempo durava.
A escolha das matérias exibidas foi observada pelo participante 6, que disse
que o GE RJ foi dedicado ao Flamengo, com a volta do Adriano e a entrevista com o
goleiro Felipe. Ainda ponderou que não sabe se isso era uma tentativa de usar o clube
com mais torcida para ter mais audiência. O participante 5 concordou com esta análise
e ainda destacou que era dia de jogo de Botafogo, o que poderia ter diminuído a escolha
de notícias sobre o Flamengo. Em nossa etapa anterior, comprovamos que, tanto no GE
SP quanto no GE RJ os times com maior torcida – Corinthians e Flamengo – tiveram
mais tempo ao longo da semana, quando comparados com os rivais e demais assuntos.
No entanto, alguns assuntos abordados despertaram a curiosidade. A
participante 2 achou curiosa a comparação dos números – envolvendo o caso Ganso –
porque ficou pensando de onde “esses caras tiram esse dinheiro” (palavras dela). O
participante 6 disse que gostou de saber que o Adriano receberia por produtividade, foi
a informação mais importante da coletiva. Dois pontos que envolvia algo próximo do
cotidiano, gastos e relação custo-benefício, quanto pode valer um jogador de futebol.
Sem nenhuma pergunta, a participante 4 comentou que achou os dois
programas machistas, porque sentiu falta da mulher atleta. E quando a mulher apareceu,
foi de forma pejorativa, principalmente no GE SP. Isso a incomodou. O participante 3
disse que o GE MG tem uma apresentadora, que ele não lembrava o nome 60. E que o
Tiago Leifert foi machista nos comentários sobre as mulheres no encerramento do
programa. Já o Alex Escobar “está fazendo o trabalho dele”. O participante 6 lembrou
que o programa insere a mulher como apresentadora e repórter. Ele lembrou que o
Esporte Espetacular tem apresentadoras (sem citar nomes) e há a Renata Fan, na
Bandeirantes e a Mylena na Record. O participante 6 não sabe se fazem isso para atrair
o público tanto o feminino quanto o masculino e segundo ele, parece que só no fim de
semana, porque no dia-a-dia ainda está menor. Ele disse que nenhum dos dois jornais
teve uma matéria feita por uma repórter. A participante 4 concordou e lembrou que na
Fórmula 1 a repórter Mariana (Becker) dá um show. Os participantes comprovaram a
análise que fizemos sobre a banalização da imagem feminina no GE SP. E evidencia
que a participação feminina não foi notada no GE RJ porque a Carol Barcellos apenas
60
Durante um período, a apresentadora foi Letícia Renna, demitida em 2011. Fonte: <
http://ismaelcarvalho.com/2011/08/28/rede-globo-minas-demite-leticia-renna/>. Acesso em 26 de janeiro de 2013.
Atualmente, o programa tem como apresentadores Marcos Leandro, Bob Faria e Maíra Lemos. Fonte:
<http://ismaelcarvalho.com/2011/05/01/maira-lemos-troca-record-por-globo-minas/>. Acesso em 26 de janeiro de
2013.
244
narrou o VT sobre Natação, sem aparecer na tela. E que persiste o pensamento de que a
mulher funciona como fator de atração (para os homens) e identificação (para as demais
mulheres) para assistirem ao programa. Todavia, há o reconhecimento do talento e
mérito de outras profissionais de destaque, não apenas na Rede Globo.
Em seguida, o grupo foi perguntado se há a diferença entre os apresentadores.
Para a participante 4, há e é grande. O participante 5 diz que o Alex Escobar tem um
jeito mais sério que ajuda na condução do programa. Já a participante 2 comentou que
chamou a atenção o começo do segundo bloco, quando Alex Escobar apareceu sentado.
Ela disse que, por não ter comercial, achou a mudança brusca, porque ele terminou o
primeiro bloco em pé. E foi muito rápido e ele estava sentado. O participante 7 disse
que havia lido na época que Tiago Leifert começou a fazer sucesso que o apresentador
atende a quem não gosta do esporte, porque o GE SP estava perdendo no IBOPE para a
MTV (palavras dele) e precisava reverter. Ele ainda lembrou que a Rede Globo apostou
em alguém que não parecia da área, considerando que “parece um nerd”. E que o GE SP
reflete o estilo dele, um estilo que o participante 7 disse claramente que não gosta. Para
o participante 5, Tiago Leifert parece mais apresentador de programa de auditório,
incluindo assuntos que fogem do tema. Para o participante 7, o Tiago Leifert está
quebrando o padrão da Globo ao mandar abraços e desejar “Feliz Aniversário” para
jogadores em pleno programa, que ele nunca viu antes em jornal nenhum. E ainda
pondera que é difícil conseguir o tom certo para chamar a atenção e prender o
telespectador sem ser burocrático, bobo, arrogante e pretensioso. E considera que Tiago
Leifert e Alex Escobar são demonstrações diferentes desta busca da emissora para evitar
que o telespectador use o controle remoto, “porque a gente fica ali, com ele na mão,
pronto pra olhar em outro canal se a gente não gostar da matéria que apareceu ou o
assunto não interessar”.
Também houve a fala de que a grande discussão no jornalismo esportivo
atualmente é se é entretenimento ou é jornalismo. Então, o grupo foi questionado sobre
como avaliam os programas apresentados. A participante 4 foi a primeira a responder e
direto ao ponto: GE SP é mais entretenimento e GE RJ mais informativo. Ao serem
perguntados se todos concordavam, todos assentiram, balançando a cabeça. O
participante 7 lembrou que depende da informação apresentada. A participante 4
disse que a forma de apresentar do Alex Escobar torna o GE RJ mais informativo,
sabendo que ele não vai brincar com o assunto. Já o GE SP é entretenimento porque tem
245
o jeito descontraído do Tiago Leifert. A participante 2 comentou que não tem o
costume de assistir e enfrenta uma “briga” com o filho que assiste o GE MG. Para ela, o
programa não pode ser “rápido e enfiar uma informação por enfiar”. Ela diz que o
programa tem que deixar uma coisa para não se esquecer dele e querer voltar no dia
seguinte. Para a participante 2, o GE tem que deixar de ser algo entre dois programas.
Nem sempre está com disposição de ver, troca o canal e só volta quando o Jornal Hoje
(JH) começa. Se fosse diferente, ficaria lá vendo o GE e não apenas esperando o JH.
O participante 7 disse que, quem acompanha esporte, sabe que o dia-a-dia é
“bem insosso”. Contou uma história de um jornalista, que não era específico da área e
foi escalado para cobrir um treino do Tupi e fez o relatório: “O treino teve 18 jogadores
que foram divididos em três grupos de seis atletas e fizeram os exercícios que o
treinador mandou” (neste momento, todos os participantes riram). O participante 7
conclui que, para atrair a atenção, o jornalista tem que prestar atenção em outros
detalhes e contar histórias a partir disso. Cada jornal buscou uma forma de escapar do
cotidiano insosso. A participante 2 reforçou que não quer ficar com dúvida ao ver o
jornal se eles estão apenas preenchendo o tempo deles ou se estão preenchendo o tempo
dela. Se é algo que importa ou apenas põe ali para dar o tempo.
Este pensamento que encerrou a reunião do Grupo Focal também resume muito
da relação do jornalismo: um “contrato não assinado” entre quem produz e quem
recebe. Mais que ocupar o tempo, o telespectador quer qualidade e quer informação, que
ele compreenda e possa repercutir em seu dia-a-dia. A realização do Grupo Focal
funcionou como uma ampliação do olhar deste trabalho, visto que nossa visão estava
condicionada por toda uma experiência anterior assistindo, estudando e mesmo
trabalhando no meio. Aspectos tomados como normais e benéficos, não se revelaram
desta maneira na prática, influenciado por variáveis como a exibição única de um
programa televisivo para convidados sem ou com poucas informações prévias. Estes
pontos foram considerados para a elaboração da próxima etapa, a conclusão de toda esta
jornada de busca por conhecimento e pesquisa em jornalismo esportivo.
246
5. Conclusão
O esporte faz parte da vida do ser humano. E evoluiu junto com ele. Deixou de
ser uma atividade meramente lúdica e ganhou matizes sociais, políticas e financeiras.
Tornou-se espaço de afirmação de existência: de um discurso identitário (dos pobres,
dos operários, de um clube, de um país, de um estilo de vida) perante o “outro”.
Algumas modalidades se destacaram mais que outras – o que também depende das
características do país, de investimentos ou do surgimento de um ídolo.
Em se tratando de Brasil, pautamos a vida pelo futebol – mesmo quando não
professamos amor por um clube ou pela Seleção em grandes eventos, nem
compreendemos o esporte em suas regras repletas de interpretação, usamos expressões
vindas do campo no nosso dia-a-dia – mas já abrimos o coração e choramos pelas
alegrias (e tristezas) vindas pelas curvas da Fórmula 1, nas quadras de vôlei e de
basquete, no quique da bolinha de tênis. Nas superações e decepções e nas derrotas em
Olimpíadas que valem mais do que a vitória (a atleta que cruza a linha quase sem
forças, o nadador que estava longe do nível dos demais e mesmo assim pulou nas águas
reforçando o lema de que mais importante que vencer, é estar lá para competir).
E o jornalismo esteve lá, acompanhando, estabelecendo a ponte entre a
comunidade e estas estórias repletas do melhor e do pior que podem acontecer durante o
período de existência de uma geração, perpetuando-as ou relegando-as ao esquecimento.
Passou pela fase de ambiente e distinção pela origem e poder social e econômico,
relatou as agruras da profissionalização, o uso do esporte – no caso, o futebol – como
forma de autoafirmação perante si mesmo como povo e perante o restante do mundo
como país.
Ao ponto de se tornar a identidade que assumimos, brigamos e até
renegamos – não era politizado gostar de esportes – ainda mais se fosse o futebol – na
época da ditadura. Era sinônimo de ter cedido ao canto da alienação do “ópio do povo”.
O Globo Esporte nasceu em 1978 como proposta da Rede Globo em atender a
uma demanda: ter um programa específico sobre um assunto que interessava ao público.
Apesar das variações de duração e de linguagens, está no ar desde então. O “estilo
Tiago Leifert” foi uma reação a uma estratégia de nacionalização que não atendeu à
expectativa, pela dificuldade de identificação e pela perda do poder de produção
jornalística de São Paulo para outra praça, o que trouxe prejuízos à audiência no
principal mercado publicitário do país. Para reverter a situação, ancorou-se em técnicas
e táticas empregadas em outras épocas pelo jornalismo esportivo tanto no impresso
247
quanto no rádio: linguagem mais simples, com emprego de expressões do cotidiano do
público-alvo, destaque a fatos curiosos e inusitados, além de investir no noticiário de
“atleta celebridade” divulgando detalhes da vida pessoal, escândalos particulares e
miudezas que nem sempre importam dentro do âmbito esportivo. Para aproximar o
público mais jovem, deu espaço ao vídeo game (temática que não apareceu na semana
analisada), às redes sociais e em tornar o GE SP adequado ao que a equipe liderada por
Tiago Leifert entende como noticiário esportivo, que não é jornalismo, algo quadrado e
sério que perde para as reprises do Chaves, mas sim, uma rave onde não se vai de
smoking. No entanto, após a análise que resulta nesta dissertação, podemos considerar
que o estilo personalizado na figura do apresentador tornou-se uma restrição: ao se
posicionar e atuar como a bandeira da quebra do paradigma, gerou o estereótipo de um
programa televisivo diário que é repleto de gracinhas e brincadeiras, mas não de
informação. E uma contradição a respeito disso foi verificada neste estudo, o GE SP
tem informação, como identificado na análise dos programas, mais até do que
esperávamos diante de pesquisas e conceitos formados previamente. Temos como maior
exemplo o GE SP exibido no dia 24 de agosto, extremamente informativo, utilizando-se
de várias formatações de jornalismo televisivo para tratar as temáticas.
Todavia, a mesma equipe que o realizou, tomou decisões editoriais como as
trilhas sonoras da parada de sucesso em quase todos os VTs do Santos exibidos na
semana, os comentários a respeito da postura e comportamento do repórter Ivan Moré
na entrevista com o piloto Felipe Massa (edição de terça-feira), o loc off sobre as
“periguetes” na festa de aniversário do atacante Lucas do São Paulo (edição de quartafeira), o vídeo do Amigo Internauta Togo de Mossoró cantando Yesterday, dos Beatles
(edição de quinta-feira) e a implicância com o atacante Barcos e a matéria sobre a pilota
Helena Soares (na edição do sábado). Nestes exemplos, tivemos tempo que poderia ser
informativo e jornalístico – mesmo dentro dos preceitos empregados no GE SP –
trazendo informações que não eram tão relevantes ou que receberam tratamento que
poderiam comprometer o sentido gerado por elas (citando os casos de sábado: Barcos
não queria ser associado ao Zé Ramalho e a matéria com a pilota reuniu todas as
características de banalização e de reforço do rótulo de “mulher-objeto” associado à
presença feminina nos esportes).
Contudo, o grupo focal serviu para apontar méritos neste estilo: as ressalvas
feitas por acadêmicos, estudiosos e outros jornalistas são pertinentes, mas encontramos
248
fundamento na argumentação utilizada pelo editor-chefe e apresentador Tiago Leifert de
que o programa atrai quem não acompanha este noticiário. A primeira fala de uma
participante no Grupo Focal qualificou o GE SP como “envolvente” e a segunda,
também de uma participante, o definiu como “mais fácil de ser assistido, mais fácil de
ser consumido”. O terceiro disse que o preferia por ter mais humor e a quarta
participante disse que o programa incluía quem não entende de esporte. E a meta de
qualquer empresa jornalística desde sempre, não apenas das emissoras de televisão, é
manter o público e cativar novos telespectadores, leitores e tornar o programa/produto
referência na vida deles, um hábito de sempre vê-lo e escolhê-lo em detrimento das
demais opções encontradas na concorrência, seja qual for (rádio, jornal, TV, internet,
redes sociais). Este aspecto é apenas o indicativo de que o público sofreu mudanças,
tantas quais o jornalismo em geral. Não era o objetivo deste trabalho detalhar
especialmente o comportamento do público, desta forma, fica a indicação para
pesquisas futuras em estudos acadêmicos ou mesmo realizadas pelas emissoras.
No entanto, esta estratégia não pode descuidar da principal matéria-prima de um
programa que se apresenta como jornalístico: a informação. Sem isso, não temos a razão
de existir de um produto que se apresente como tal. E esta associação é vigente ainda na
mente de todos: quem estuda, quem realiza e quem assiste. É o que dá sentido ao
adjetivo “clássico” associado ao GE RJ: o telejornal esportivo que faz o que é dele
esperado, alimentando e reforçando a credibilidade perante o telespectador. Todavia, a
predominância da característica informativa revelou-se uma barreira para as pessoas
desacostumadas a acompanhá-lo. Assim como a forma como foram exibidas – a
velocidade foi outra das dificuldades citadas: integrantes do grupo focal consideraram
trechos do programa rápidos demais e não conseguiram entender o que estava sendo
dito (como no caso da Natação e da Stock Car). No entanto, agrada a quem busca este
tipo de conteúdo, tanto que este público se sente apto a questionar por que houve a
prioridade a um clube em detrimento dos outros, apesar de reconhecer a variedade de
temas. E de nossa pesquisa apontar que o GE RJ abriu espaço para matérias de outras
praças e, mesmo quando brinca (na semana, os exemplos foram os quadros
Inacreditável Futebol Clube e a interação com o Globolinha), não perde o foco do
objetivo. O nosso estudo apontou que o GE RJ não investe tempo em informação que
não seja esportiva: seja promovendo as transmissões de modalidades pela emissora, seja
249
acompanhando a rotina dos clubes, seja lembrando que o futebol tem um aspecto lúdico
onde o erro pode se tornar notícia da mesma forma que o anúncio de uma contratação.
Portanto, sobre se é possível fazer jornalismo esportivo com entretenimento sem
prejuízo à informação podemos responder que, conforme o discurso oficial, era um
objetivo perseguido ao longo da trajetória do GE, antes mesmo do início do debate mais
recente sobre o tema. Para que fosse estabelecido se a meta foi alcançada, seria
necessário outro tipo de estudo, com comparações entre edições ao longo do tempo, o
que não é o objetivo desta dissertação. Neste estudo mostramos que o modelo
“entretenimento esportivo diário” lançado por uma praça do GE que conseguiu
resultado imediato na medição de audiência foi expandido aos demais programas
regionais, que o interpretaram conforme suas próprias características. O GE RJ optou
por trazer mais informalidade à apresentação, mas sem abrir mão da informação.
Não estamos defendendo jornalismo esportivo sério e engessado. Acreditamos
que precisa se tratar com respeito uma editoria que sempre foi maltratada pela categoria,
como algo de menor importância, por ser rotulada como “mais leve”. Estamos em
período de preparativos para a realização de grandes eventos internacionais – e a
cobertura deles deverá mostrar mais que a festa e a alegria. Para isso, é necessário saber
falar do útil, do básico, do necessário e até mesmo do que não é tão relevante.
Precisaremos ser jornalistas, naquela acepção da profissão de buscar diferentes aspectos
da realidade e contextualizá-lo para que as pessoas tenham informação, além do
entretenimento inerente a Copa e às Olimpíadas, a qualquer torneio de qualquer
modalidade. Sabemos que o jornalismo se adapta às características de cada época – e
não podemos permitir que seja absorvido pelas maravilhas trazidas pela tecnologia e se
esqueça de que o conteúdo é a prioridade. Afinal de contas, muitas características
mudaram, mas isso ainda faz parte do que podemos considerar como identidade
jornalística. A diversão pode fazer parte como uma parte de uma estratégia editorial,
mas temos a obrigação de informar. Sem isso, sem jornalismo. Assim, faremos com que
o telespectador – seja quem for, independente de prática ou conhecimento esportivo –
preste atenção e repercuta o programa, ao invés de considerá-lo um tempo morto entre
os noticiários local e nacional. É a missão para quem usa a mistura: saber dosar a
balança para que a diversão não anule ou comprometa a informação e o programa
comemore novos telespectadores, mas perca aqueles que exigem mais do que está sendo
oferecido.
250
6. Referências
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OLIVEIRA, Roberta. Jornalismo esportivo/entretenimento